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Geni Maria Lopes

2 A Sombra na Maternidade
Agradecimentos

Agradeço a todas as mulheres que passaram e ainda passam pela minha vida

contando suas histórias, contribuindo para a construção do ser que eu sou como

mulher, me descobrindo dia após dia e observando a importância de olhar

para dentro e não temer a sombra. Agradeço também a todos os homens que

despertaram em mim essa busca pelo desafio, força e coragem em me embrenhar

nesse empreendimento não por um espaço, mas na compreensão de que todos

temos esse potencial dentro de nós, quer sejamos homens ou mulheres, essas

partes refletidas no outro é que possibilita quando olhamos para nós perceber que

também esta em nós, graças ao desafio da busca é que possibilita essa reflexão

e compreensão de que o outro não e esta ali para nos completar e sim despertar

em nós que a completude esta em dentro de nós .Em especial, agradeço a minha

mãe Geni e meu pai Norival, não somente por terem me gerado, mas também por

terem criado todas as condições favoráveis para que eu também contasse a minha

história.

Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é
quando os homens têm medo da luz”.
Platão

A Sombra na Maternidade 3
SUMÁRIO­­­

1.INTRODUÇÃO.............................................................................................................................6
1.1 OBJETIVO.....................................................................................................................................10

2. MATERNIDADE: IMPORTANTES REFLEXÕES............................................................................11


2.1 Como a sombra interfere na maternidade?..........................................................................................11
2.2 Aspectos subjetivos da sombra na maternidade...................................................................................14

3. DESENVOLVIMENTO................................................................................................................17
3.1 O mito do amor materno...................................................................................................................17
3.1a Caso Caroline Leavitt.....................................................................................................................19
3.2 A sombra refletida na criança............................................................................................................20
3.2a Caso Constanza.............................................................................................................................20
3.2b Caso Pablo....................................................................................................................................21
3.2c A função do pai e o apoio emocional................................................................................................22
3.3 – A sexualidade após a maternidade..................................................................................................24
3.4 – A sexualidade e a inveja do poder...................................................................................................27
3.5 – A linguagem e a escuta psicanalítica..............................................................................................28
3.5a Caso Rafael...................................................................................................................................30
3.6- A maternidade inserida no simbólico................................................................................................32
3.7 – A adoção e as sombras refletidas na criança....................................................................................34
3.7a – Diálogo entre Nazir Hamad e Françoise Dolto...............................................................................36
3.8 – Quando o corpo não corresponde ao – desejo “da maternidade”........................................................39
3.9- A Maternidade e as questões sociais.................................................................................................44
3.10 - O controle da sexualidade feminina...............................................................................................46
3.11-O autoconhecimento e a conscientização da sombra..........................................................................47
3.12 O instinto materno verdades e mitos................................................................................................49

4- CONSIDERAÇÕES FINAIS.........................................................................................................50

5- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................................................................51

4 A Sombra na Maternidade
1.INTRODUÇÃO

“Desde os primeiros estágios de nosso crescimento, somos dependentes dos cuidados


maternos e é muito importante que as mães demonstrem amor a seus filhos.
Dalai-Lama

O presente trabalho tem como objetivo compreender a estrutura da relação mãe e


filho e seus aspectos subjetivos inconscientes nesta relação.
Acredito ser importante submeter às luzes da psicanálise este tema considerando-se
a necessidade de uma abordagem atual sobre o assunto, a sombra na maternidade,
que eu acredito, após alguns estudos relacionados ao tema, ser a origem de nossos
conflitos.

A escolha deste tema despertou em mim uma série de questionamentos; como


a mulher elabora seus conflitos internos em relação à maternidade, se ela tem
compreensão da ambivalência de seus sentimentos, e, mais importante se ela
consegue identificar de quem é o desejo de engravidar.

Diante de todos estes questionamentos deve se perguntar; qual seria a idade ideal
para se ter um bebê? Se pensarmos apenas na cronologia talvez não cheguemos
a uma conclusão porque nem sempre a maturidade emocional se equipara com a
idade cronológica.

Gianlupi, (2003) em sua tese de doutorado faz uma referência a Winnicott, (1967)
na qual ele desenvolve um conceito sobre a preocupação materna primária que a
propicia a disponibilizar-se despojando de suas necessidades pessoais para atender
às necessidades do bebê. Ressalta ainda Winnicott que essa disponibilidade
materna faculta ao bebê, ao ser atendido, vir a ter um desenvolvimento sadio e
adequado do bebê, pois ele se relacionaria com a mãe suficientemente boa, ou
seja, uma mãe que se identifica e sente o bebê para atender suas reais necessidades.
Gianlupi, (2003) aborda também em sua tese a relação de dependência do bebê
com a mãe e faz uma citação de Lacan (1987), onde ele expõe:

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[...] apenas a imago que imprime no mais profundo do psiquismo o desmame congênito do
homem pode explicar a potência, a riqueza e a duração do sentimento materno. À realização

dessa imago na consciência assegura à mulher uma satisfação psíquica privilegiada, ao passo

que seus efeitos na conduta da mãe preservam a criança do abandono que seria fatal para essa

(LACAN, apud GIANLUPI, 2003, p.28).

Muito importante e significativa essa citação, principalmente nos dias atuais, nos
quais a violência e as perversões estão presentes. Nesse sentido, o apoio constante
e o acolhimento materno se fazem necessários para que as mudanças aconteçam.

Para Del Nero, (2005) embora o meio exerça influência substancial, deve-se levar
em conta que as interações do bebê com o ambiente também sofrem influências
devido aos seus próprios fatores internos, ou seja, sua capacidade em se adaptar
ao meio, assim como suas faculdades para encontrar formas para manter sua
estabilidade psíquica.

Conceber a maternidade do ponto de vista simbólico, fato cultural inscrito num sistema

significante, obriga a questionar os fantasmas relativos à nossa própria origem, a ilusão de

ter recebido a vida como dom da natureza corporificada da mãe. Esta crença sustenta-se na

rejeição da função simbólica que nos gera como seres humanos. Se a vida é um dom da natureza,

é desnecessário o reconhecimento de outra origem, de outra dívida; é inútil desconhecer que

também somos gerados pelas palavras, os mitos, as leis, os discursos. Tal reconhecimento

atenta contra nosso narcisismo à medida que nos obriga a renunciar à crença na necessidade

da nossa forma de existência para aceitar sua contingência, aquilo que contem a dúvida, a

suspeita, o questionamento. (TUBERT, 1996 p. 75).

Como podemos observar a nossa história ou nossa origem começa muito antes
de nossa concepção, e é povoada por histórias, mitos familiares que atravessam
gerações e se inserem de determinada maneira em cada indivíduo contribuindo
para a formação de sua personalidade.

6 A Sombra na Maternidade
Saber em que contexto ocorre a gravidez é muito importante porque a história dos
pais dessa relação irá influenciar no resultado da gestação e nos cuidados com a
criança.

Além da importância da relação do casal deve-se levar em conta também a


influência da família na gestação na qual cada membro passará a assumir uma
nova função: a mãe será a avó, a irmã passa a ser tia, o pai avô, etc. E dependendo
da relação do casal com os membros da família e as formas como esses membros
encaram a criação de crianças e as expectativas em torno do novo membro da
família poderão influenciar na gestação provocando ansiedade na gestante.

Laura Gutman parte do princípio em que a mãe e o bebê estão fundidos


emocionalmente e os reflexos desta fusão se manifestam tanto no corpo da mãe
quanto no corpo do bebê fazendo com que o bebê sinta como seu tudo o que sua
mãe sente, e até mesmo o que ela não consegue reconhecer, ou seja, aquilo que
sua consciência rejeitou, relegando à sombra.

A tendência de todos nós costuma ser rejeitar as partes de sombra que escoam pelos desvãos

da alma. Por algum motivo se chama “sombra”.

Não é fácil reconhecê-la, tampouco aceitá-la, a menos que insista em refletir nos espelhos

cristalinos e puros que são os corpos dos filhos pequenos. (GUTMAN, 2010 p. 18).

Conceber a maternidade sob ponto de vista da plenitude na qual a mulher é vista


sob um aspecto magnânimo, traz para ela uma responsabilidade, ocultando a
complexidade emocional contida na gravidez. Ainda que o homem tenha sua
importância nesta concepção, a mulher além de gestar tem a função de nutrir esse
bebê em seu ventre.

Partindo do princípio que sua saúde física, sua alimentação sob o ponto de vista
clínico, deva ser adequada para poder gerar esse bebê, esse mesmo cuidado
talvez não seja submetido à sua saúde mental, a não ser que os sintomas ou os
efeitos de seu desequilíbrio apareçam com muita nitidez. Como esta mulher está

A Sombra na Maternidade 7
mergulhada nessa energia sublime da maternidade, ficam meio a deriva os seus
conflitos internos, talvez por acreditar serem menos importantes, ou ainda, não
ter o apoio emocional da família. Nesse sentido, não ter alguém experiente com
quem compartilhar suas angústias, e nem sempre poder ter uma comunicação com
sua mãe e até mesmo nessa reminiscência que traz a gravidez, esse é justamente
o problema de seu maior conflito, em especial, a ausência do rêverie materno, ou
seja, faltou o acolhimento dessa mãe.

A responsabilidade que essa mulher tem por acreditar que cabe a ela favorecer a
esse bebê todas as condições para que nasça perfeito, afinal é em seu ventre que se
nutre, condiciona essa mulher a pensar exclusivamente nesse bebê, deixando de
lado suas questões internas, porque o que importa é o bebê e o que se espera dela
é que seja capaz de levar a contento essa gravidez até o final.

Acredito ainda, que essa visão de plenitude, traga outros aspectos, sob o ponto de
vista da escolha da mulher, em ser ou não ser mãe como se fosse a única forma
de se ter a completude ou a realização pessoal. A questão na decisão de ser mãe
ou não nem sempre é colocada numa ótica de sua própria escolha porque muitas
vezes essa mulher, por ter um companheiro ou dar importância às exigências
da família ou da sociedade, passa a não pensar na sua opção de ter esse bebê,
fazendo muitas vezes com que bloqueie essa gravidez, ou seja, conscientemente
quer, porém, seu inconsciente não. Quando isso surge, a primeira preocupação é
orgânica que evidentemente deve ser levada em consideração, mas será que na
questão emocional essa mulher encontra espaço para trazer à tona o seu medo de
gerar esse bebê? E diante do fato de ser um problema orgânico, como fica diante
do fracasso, da sombra da culpa por não realizar o sonho, por acreditar que para
se ter completude é necessário engravidar.

Diante de toda complexidade que é gerar um bebê essa mulher deveria ser assistida
sob todos esses aspectos, ou seja, não só físico, mas principalmente o emocional
para que possa trazer à tona seus anseios e poder dar vazão à sombra que quando
rejeitada pode atuar de diferentes formas, refletindo não só durante a gestação,

8 A Sombra na Maternidade
mas também na relação com o bebê após o nascimento. Agora diante do bebê
real é ela que vai ter que conviver na prática com esse bebê e não há receitas
para se relacionar, é no dia a dia, na convivência e na interação que vai aprender
a observar, entender as expressões, a linguagem do choro, enfim aquilo que o
bebê expressa para assim fazer uma real leitura de suas expressões, aprendendo
com cada gesto do bebê e dar o que ele necessita, levando em conta também as
faculdades adaptativas do bebê. Assim se essa mulher tiver apoio, tanto da família
como uma boa assistência médica, sendo observada em todos os aspectos, terá
mais condições de elaborar seus conflitos emocionais.

A minha proposta na discussão deste tema é, por acreditar que a psicanálise pode
trazer uma luz, para que tenhamos uma visão mais ampliada de como a falta de
maturidade emocional pode gerar conflitos, não apenas durante a gestação, como
também no relacionamento desta mãe com seu bebê.

Desta forma apresento este trabalho, a sombra na maternidade, e trago para


apreciação alguns assuntos, que acredito serem importantes para uma reflexão
sobre o desenvolvimento, não somente no que se refere à gestação, como também
a relevância sobre os conteúdos psíquicos dessa mulher, discutindo neste estudo
as crenças e mitos que envolvem a gestação e coloco como principal questão:
Como a sombra interfere na maternidade?

1.1 OBJETIVO

Investigar os efeitos da sombra na maternidade e na relação mãe-bebê.

“Eu tecerei uns sonhos irreais... como essa mãe que viu o filho partir, como esse filho que não

voltou mais”

Florbela Espanca

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2. MATERNIDADE: IMPORTANTES REFLEXÕES

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”.

Simone de Beauvoir.

2.1 Como a sombra interfere na maternidade?

Sombra: A parte inferior da personalidade. Soma de todos os elementos psíquicos pessoais e

coletivos que, incompatíveis com a forma de vida conscientemente escolhida, não foram vividos

e se unem ao inconsciente, formando uma personalidade parcial, relativamente autônoma, com

tendências opostas às do consciente. (JUNG, 1961/62/63, p. 377)

Alguns aspectos subjetivos podem ser avaliados na gestação e na complexidade


desta ambivalência de sentimentos que nem sempre essa mulher tem consciência
ou encontra espaço para colocar seus conteúdos internos e nem se acha em
condições e no direito de explorar suas emoções rejeitando a sua sombra.

Algumas questões internas afloram e essa mulher apesar de ser vista como passível
de ter problemas emocionais, afinal ela se torna mais sensível, nem sempre aceita
esta ambivalência de sentimentos devido ao mito do amor materno colocado de
uma forma sublime, no qual ela deveria ter uma sensação de completude e nem
sempre é assim que acontece.

Em alguns estudos, pude observar que esta mulher muitas vezes trata a gravidez
sob o ponto de vista físico, ou seja, preocupa-se com a saúde do seu corpo e do
feto, é como se fosse a única forma de poder dar vazão aos seus conflitos, fosse
projetando seu medo em seu corpo e no corpo do bebê.

Em se tratando da forma como faz suas projeções nesta gravidez há algumas


questões para serem observadas; ela não tem consciência que os desejos são seus

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e a criança em questão nem sempre irá corresponder a esse desejo. Além do mais,
em se tratando de desejo, há o que se questionar, esse desejo é seu, da família, da
sociedade ou do próprio mito de que a mulher é plena somente quando é mãe?

Acredito que a sombra se manifesta de diferentes maneiras: no desejo de


engravidar para que o seu relacionamento mude para melhor; há as que buscam
uma valorização externa; quando sentem o vazio, algo tem que ser preenchido;
outras planejam a gravidez pensando primeiro em suas carreiras, e sua angústia
começa em como lidar com a culpa de ter que deixar essa criança em casa, num
berçário, delegando a outra pessoa o que seria a sua função. Há também a mulher
que manifesta a sua sombra quando busca a gravidez para atender as suas questões
internas, ou seja, age em busca do atendimento de suas vontades e de seus desejos
e não propriamente das necessidades decorrentes do estado gestacional.

Há também, o medo do desconhecido, por mais que durante a gestação projete


seus desejos no bebê; é com o bebê imaginário que ela vem interagindo e por
mais que projete seus anseios, quando o bebê real nasce, surgem juntamente seus
conflitos porque não tem certeza se conseguirá ser uma boa mãe ou se esse bebê
real corresponderá a todas as expectativas projetadas no bebê imaginário.

Quando surge o bebê real, há uma sensação de vazio afinal, enquanto o bebê estava
em seu ventre às atenções eram para ela e agora que o bebê nasceu a atenção é
toda para ele, passando assim por um período delicado e suas emoções ficam à
flor da pele. Chora quando o bebê chora por não saber o motivo do choro do bebê,
tem medo de qualquer manifestação de desconforto do bebê por não entender sua
linguagem.

As mães sentem o peso da responsabilidade, temem a própria morte ou preocupam-


se com a saúde não tanto pelo seu bem-estar, mas o medo de que se ficar doente
não terá quem cuide de seu filho.
Em suas pesquisas sobre a qualidade na relação entre mãe e filho Elisabeth Badinter,
1985 pode observar que a falta de interesse ou a frieza pelo bebê trouxeram alguns
aspectos significativos que, segundo a autora, por acreditarem que a criança não

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sobreviva devido a sua vulnerabilidade passam a não estabelecer qualquer vínculo
afetivo para se protegerem inconscientemente de sofrer com a perda. E segundo
Elisabeth, (1985, p. 57), “essa atitude teria sido a expressão perfeitamente normal
de instinto de vida dos pais”.

Durante o período de fusão emocional com o bebê que dura até os dois anos de
idade da criança, por não elaborarem suas questões internas, sem que percebam,
refletem suas angústias no corpo do seu filho como experiências relatadas em
casos clínicos estudados e comprovados por Françoise Dolto, Myrian Szejer, Laura
Gutman, dentre outros autores por mim pesquisados para o presente trabalho.

Começamos a vida com uma perda. Somos lançados para fora do útero sem apartamento, cartão de

crédito, um emprego ou um carro. Somos bebês que mamam, choram, se agarram indefesos. Nossa mãe

se interpõe entre nós e o mundo protegendo-nos contra a ansiedade arrasadora. Não teremos nenhuma

necessidade maior do que a dos cuidados de nossa mãe. (VIORST, l988, p. 19).

Segundo Viorst, (1988) aos seis meses de vida a criança já estaria apta a formar
a imagem mental da mãe ausente, sendo assim ela é capaz de lembrar-se da mãe
desejando-a e a sua ausência traz para a criança um sofrimento. Ainda segundo a
autora (1988) nessa relação simbiótica, por sentir que somente a mãe pode satisfazê-
la em suas necessidades, a criança pode vir a se sentir rejeitada quando não é
atendida. “E embora os cuidados de um substituto conhecido a ajudem a tolerar as
separações diárias, só aos três anos, gradualmente, começa a compreender que a
mãe ausente está viva e intacta em outro lugar qualquer e que vai voltar para ela”.
(VIORST, 1988, p.23)
Para Viorst, (1988) separações graves logo no começo da vida provocam “cicatrizes
emocionais no cérebro” e afetam uma importante ligação humana que é o elo entre
mãe e filho e segundo a autora a mãe é quem nos ensina a amar. Continua a autora
que é muito difícil nos tornarmos seres humanos completos se não tivermos uma
sustentação nesta primeira ligação.

Segundo Viorst, (1988) quando a separação põe em risco essa ligação primária
a criança torna-se insegura e traz consigo uma necessidade de encontrar ou se

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relacionar em sua trajetória com pessoas que satisfaçam essas necessidades ou
preencham esse vazio.

2.2 Aspectos subjetivos da sombra na maternidade

 - Em valores trazidos por uma cultura que idealiza o mito materno, porém não
dá espaço a essa mulher para que dê vazão aos seus conflitos internos;
 - Na tolerância da mulher que se vê na obrigação de ter que levantar várias vezes
à noite para cuidar do bebê por acreditar ser somente sua responsabilidade;
 - No sentimento de culpa por ter que deixar seu filho em casa, em um berçário
ou escola para trabalhar delegando a outro o que acredita ser a sua função;
 - No acúmulo de trabalho por acreditar que além da sua carreira tem a obrigação
de cuidar da casa e educar o filho, não dividindo as tarefas com seu marido;
 - Nas projeções que faz com o filho colocando-o em várias atividades
extracurriculares quando não percebem que estão projetando suas frustrações,
seus desejos que não foram realizados;
 - Naquela que se vangloria por não satisfazer ou correr atrás de seus objetivos
porque apenas se importa com a realização dos desejos da sua família e
tornam-se amargas por não atender aos seus anseios;
 - No constrangimento que provoca no filho quando quer atenção ou que
satisfaça as suas vontades dizendo a ele tudo o que não pode realizar por sua
causa;
 - No seu constrangimento quando desafiadas por seu filho na frente de estranhos
por não terem dado limites;
 - Na comparação que faz com seu corpo antes e depois da gestação e o medo
de não ser mais desejável;
 - Na super valorização da imagem da mãe em detrimento da mulher, sua
sexualidade, sua carreira, seus desejos;
 - Nas que ficam em casa, no abandono com a aparência por não encontrarem

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tempo para cuidarem de si próprias;
 - Nos segredos não revelados de seus sentimentos em relação aos desafios que
enfrenta na relação com seu filho, na raiva contida;
 - Na culpa pela sensação de fracasso por não poderem dar ao filho tudo o que
acredita que necessitam ou não poder atender seus pedidos;
 - No excesso de mimo e falta de limites como compensação pela falta de
tempo para estar com o filho;
 - Na culpa quando percebe que perdeu o controle descontando a raiva do ou
no filho;
 - Na sensação de fracasso quando não são correspondidas as suas expectativas
na relação com o filho;
 - Na relação de dependência quando não se sentem amadas pelo companheiro
fazendo com que o filho seja o elo do casamento;
- No objeto de poder quando manipulam a criança quando se separam;

 - Na comparação que faz com sua própria mãe, sensação de impotência por
acreditar que não é capaz de superá-la ou medo de não ser uma boa mãe.
- Na sensação de perda de identidade;

Outros aspectos podem ser discutidos, como a sensação do ninho vazio quando
deixa o filho pela primeira vez na escola, a sensação de perda ou ninho vazio
quando o filho casa ou vai morar sozinho.

Como podemos observar a sombra atua na maternidade nas diversas fases da vida
na interação da mãe com o filho, com o marido e com o meio sem que a mulher
tenha consciência.

Estudos psicanalíticos trazem relatos da extensão da complexidade da maternidade


e faz referência ao desejo inconsciente da mulher que quando engravida está em
busca da grande valorização do falo.

É também um período no qual a mulher entra em um processo onde revive sua


própria constituição subjetiva nessa relação com o bebê. Assim as vivências
narcísicas e edípicas são reativadas para que possa ocorrer uma mudança subjetiva

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passando de filha para mãe, podendo assim ativar o processo para se tornar mãe.

Segundo Gutman, (2010) há uma tendência cultural em apresentar a grávida


envolta em uma fantasia, com seu ventre exposto, infantilizadas e não se dão
conta que diferentemente da brincadeira com a boneca vão estar ao término da
gestação diante do bebê real. Com esta tendência de ficarem mergulhadas na
fantasia, não se preparam para enfrentar a própria sombra que invariavelmente
romperá juntamente com o parto se manifestando na fusão emocional da mãe com
o bebê e como já citado, quando a mulher não elabora seus conflitos internos eles
irão refletir no corpo do bebê.

Os longos nove meses permitem que nos preparemos para a ruptura do corpo físico e a quebra

da alma. Essa crise será aproveitada na medida em que estejamos dispostas a olhar as partes

escuras ou temidas de nosso eu sou. E essa tarefa pertence à mulher-adulta, à mulher terra, à

mulher sangue, à mulher pássaro. Não consegue realizá-la a menina que vive em nós, temerosa

de conhecer o mundo interno, desamparada e sozinha. ( GUTMAN, 2010, p. 89).

Um aspecto importante a ser observado no comportamento emocional da mulher


após o parto é compreender e dar apoio para que ela possa passar por esse
momento delicado com toda a assistência necessária principalmente em relação
ao seu estado emocional.

Segundo Laura Gutman, há um mal-entendido entre depressão pós-parto e encontro


com a própria sombra. O que deve ser levado em consideração é que quando a
mulher engravida as atenções são todas para ela, salvo algumas exceções, ela se
encontra não somente preenchida pelo bebê como se sente observada e quando
o bebê nasce às atenções são para ele, fica a sensação de vazio, solidão e por
não compreenderem esta ambivalência de sentimentos dão vazão à sombra na
angústia, tristeza, medo, enfim trazem à tona toda a sua insegurança diante da
realidade que é agora estar diante do bebê real.

A Sombra na Maternidade 15
Ressalta Gutman, (2010) que a depressão pós-parto ocorre quando a mulher
já apresenta um desequilíbrio emocional ou psíquico significativo antes do
parto, que pode ocorrer por um trabalho de parto complicado, ou por não terem
assistência adequada, desamparo nas suas relações afetivas, enfim um histórico
de desequilíbrio e falta de assistência necessária para que possa elaborar seus
conflitos. Mas nas duas situações se tiverem apoio emocional poderão passar por
esse período delicado e superar suas dificuldades.

3. DESENVOLVIMENTO
“O amor é o milagre da civilização”

Stendhal

3.1 O mito do amor materno

Segundo Maushart, (2006) há uma conspiração silenciosa entre as mulheres que


as impede de falar sobre o aspecto sombrio vivenciado durante a gravidez, e
também não admitem para si próprias as angústias e temores que vivenciam o que
nos remete à culpa afinal sob o mito do amor materno, acaba ficando difícil para
essa mulher admitir a ambivalência de sentimentos e também pelo fato de não
compartilharem com ninguém.

Em seus estudos como cientista social e em sua experiência como mãe Maushart,
(2006, p. 23) conclui: “que as mulheres sem filhos parecem inquietamente
despreparadas para os desafios da maternidade; e que as mulheres com filhos
parecem inquietamente despreparadas para discutir tais desafios”, portanto,
acredita que as duas estão intimamente relacionadas.

Segundo Badinter, (1985) o que ainda continua dificultando questionar o amor


materno é porque a imagem da mãe estaria ainda em nosso inconsciente coletivo
identificada pela imagem de Maria, símbolo do amor oblativo.

“Há mais de trinta anos uma filósofa, Simone de Beavoir, questionou o instinto

16 A Sombra na Maternidade
materno. Psicólogos e sociólogos fizeram o mesmo.” (BADINTER, 1985, p. 13).
Mas segundo Elisabeth, em se tratando da opinião de mulheres feministas, não
houve na sociedade uma abertura para uma discussão a respeito por acreditarem
que se tratava de ideias políticas associadas ao feminismo e não deram a devida
importância, por não acreditarem que se baseava em um estudo científico, a mesma
autora destaca ainda que essas mulheres foram vítimas de críticas irônicas entre as
quais se questionou a esterilidade voluntária de uma delas e a postura agressiva e
a virilidade de outra.

Que os biólogos me perdoem a audácia, mas sou dos que pensam que o inconsciente coletivo

da mulher predomina amplamente sobre os processos hormonais. Aliás, sabemos que a

amamentação no seio e os gritos do recém-nascido estão longe de provocar em todas as mães

as mesmas atitudes (BADINTER, 1985, p.10).

Concordo plenamente com a citação acima de Badinter, pois depende muito do


momento em que essa pessoa está vivendo e, como aceita o seu filho.

Rousseau é o mais conhecido dos teóricos do amor maternal e aquele que teve maior influência.

Propôs uma primeira imagem da mãe ideal na sua obra A nova Heloisa (1761), cuja heroína é

uma mulher fiel, serena, aprazível, de bom juízo e dócil, totalmente isenta das paixões juvenis.

(TUBERT, 1996, p. 112)

O que se supõe deste pensamento filosófico de Rousseau é que a paixão amorosa


não coaduna com o que se denomina amor maternal ou se supõe que não possa
coexistir com esse amor. Nesse contexto ele valoriza o laço afetivo entre mãe e
filho nessa simbiose corporal, vínculo esse que ilumina e transparece não só na
relação familiar como também para a sociedade.

“A sobrevivência da espécie exige sem dúvida que façamos filhos, mas quem nos
poderá obrigar a obedecer à santa natureza? A fêmea, não tem escolha... Hoje, já
não podemos admitir como inevitável que a mulher tenha filhos. Nem que os ame,

A Sombra na Maternidade 17
quando os teve”. (BADINTER, 1985, p.10)

Segundo Badinter (1985, p. 10), a analogia ou a comparação que se faz entre a


natureza e o corpo da mulher é que a natureza é vista aos olhos da sociedade como
boa ou perfeita. “Ideia que nos remete a uma filosofia finalista, que encontra sua
realização numa teodicéia, mesmo que não confesse. Pois não é fácil sustentar que
a natureza faz bem as coisas”. É evidente que a natureza também não está livre de
defeitos, e o que tenta se impor sob essa ideia é que vivemos num mundo perfeito
o que não condiz com a verdade.

“É em virtude dessa “natureza boa” que se formula o seguinte silogismo: dado


que a espécie sobrevive e que o amor materno é necessário a essa sobrevivência,
o amor materno existe necessariamente”. (BADINTER, 1985, p. 10/11).

Segundo Badinter, (1985) o amor materno existe desde a origem dos tempos,
porém, ela acredita que nem todas as mulheres despertem para esse sentimento
e também não acredita que seja sine qua non que a espécie humana somente
sobreviva se houver o amor materno, pois segundo a autora qualquer pessoa
poderá substituir o papel da mãe e “maternar” essa criança.

Segundo Badinter (1985), não é somente o amor que induz a mulher a cumprir
com seu papel de mãe, pois segundo a autora, a moral, os valores religiosos, os
preceitos sociais também contribuem para que se estimule esse desejo.

3.1a Caso Caroline Leavitt

“O amor é a poesia dos sentidos. Ou é sublime, ou não existe.

Quando existe, existe para sempre e vai crescendo dia a dia”.

Honoré de Balzac

O grande mito é que o “amor materno” acontece de maneira instantânea, tão natural quanto

respirar. Oh, talvez isso valha para as mães sortudas. Tudo o que sei é que, como diz a

expressão, “Nós fomos roubados” Max e eu. Eu perdi muita coisa nos primeiros meses, os

18 A Sombra na Maternidade
planos que fizera para ler para ele, conversar com ele, o tempo que reservara para ser apenas

dele e de mais ninguém. E ele também perdeu muita coisa. Tinha adoração pelo seu pai e seus

avós, e tinha uma babá dedicada. Mas não tinha a mim. E, quando passamos a ter um ao outro

encontramos um estranho entre nós. Nós dois tivemos de nos defrontar com uma pessoa que

você aprende a conhecer e começa a amar. Então você percebe que não mais pode prescindir

dela, tanto quanto o oxigênio que você respira. (BORCHARD, 2009, p. 37).

O caso citado é o relato de uma mãe que durante os seis primeiros meses não
pode se dedicar ao filho devido a um problema de saúde o que provocou um
distanciamento entre os dois tendo que construir uma relação de afeto, após
se restabelecer de sua enfermidade através da perseverança não só em relação
aos seus sentimentos como também do bebê, afinal os dois eram praticamente
estranhos um ao outro devido ao afastamento logo nos primeiros seis meses de
seu bebê. Podemos observar nesse caso o reconhecimento da ambivalência de
sentimentos e essa mulher, apesar de ter que enfrentar a rejeição de seu filho,
foi apoiada pela família o que lhe possibilitou elaborar seus sentimentos e ter a
paciência necessária para construir uma relação de amor com seu filho.

3.2 A sombra refletida na criança

Apresento agora dois casos onde se verifica a fusão emocional e os reflexos


refletidos na criança, trazendo aqui para uma reflexão que a relação simbiótica
não é apenas privilégio feminino, o pai também pode transferir seus conflitos
inconscientes para os filhos.

3.2a Caso Constanza

Constanza teve seu primeiro bebê. Ele chora muitíssimo, embora a mãe seja dedicada,

amamenta-o corretamente e tenha uma relação amorosa com o marido. As necessidades

A Sombra na Maternidade 19
básicas do bebê estão satisfeitas. É um bebê que recebe muito apoio, cuidados e alimentação

permanente. Como o bebê não para de chorar, eu lhe proponho mergulhar em sua biografia.

Constanza foi criada por uma mãe infantil, divorciada desde que ela era bebê. Esta mãe lhe

destinava muito poucos cuidados: nunca cozinhou para ela, que só consumia comida caseira na

casa dos avós maternos. Constanza cresceu filha única de uma mãe que só conseguia satisfazer

as próprias necessidades, e desde pequena aprendeu a cuidar da mãe. Nas suas recordações,

aparecem inúmeros momentos de solidão e desamparo. Também vale esclarecer que Constanza

era testemunha da promiscuidade da mãe. (GUTMAN, 2010, p.122)

Segundo a psicoterapeuta Laura Gutman a criança converte-se em espelho da


mãe chorando, trazendo nessa linguagem do choro, as dores antigas de sua mãe
revelando assim que não importa o tempo em que essa sombra esteja reprimida,
como ela não tinha elaborado seus traumas da infância sua sombra foi refletida na
criança que sente as angústias da mãe e chora as suas dores da infância.

Com a psicoterapia essa mãe pode trabalhar seus conflitos internos e liberar a
criança que a partir do momento em que sente que a mãe consegue trabalhar esses
conflitos, deixa de refletir as suas sombras.

3.2b Caso Pablo

Pablo é um pai que frequentava as reuniões da Crianza destinadas aos homens. Muito

comprometido com o funcionamento familiar, um dia revelou sua preocupação com Francisco,

seu filho menor, de 4 anos.

Francisco se acidentava com frequência e sempre machucava a boca, partindo os lábios. Como

eu conhecia Pablo há vários anos, animei-me a perguntar se havia algo que ele não estava

podendo contar, algo oculto, secreto ou doloroso, pois Francisco parecia tentar se machucar

a ponto de não poder falar. Pablo ficou comovido e contou ao grupo de pais que sua irmã

falecera há poucos meses, em consequência da AIDS. Pablo era o único membro da família que

sabia que ela fora vitima da terrível enfermidade. Foi o depositário do segredo, dos pedidos

20 A Sombra na Maternidade
explícitos de sua irmã para que não revelasse que ela sofria dessa doença e o responsável

pelas decisões futuras sobre um sobrinho que ficara órfão. Ele havia atravessado a agonia e o

falecimento de sua irmã guardando segredo a respeito da enfermidade inominável.

Relacionamos logo esse relato com a insistência de Francisco em “se calar”, machucando,

volta e meia, a boca. Sugeri então que conversasse com Francisco e que se permitisse lhe dar

outras explicações, alem daquelas que circulavam sobre o desaparecimento da tia. Que falasse

explicitamente sobre a AIDS, sobre como é transmitida, sobre o que acontecera especificamente

com sua irmã, sobre como a amava. Que lhe contasse sua dor, sua angústia e até chorasse

diante de Francisco. Isso iria permitir que Francisco se liberasse da própria sombra, de seus

dragões ocultos. Permitindo-se viver em paz, deixaria seu filho em paz. Para o espanto de

Pablo, depois de algumas conversas interessantíssimas com seu filho, Francisco parou de se

machucar. (GUTMAM, 2010, p. 140).

Segundo Gutman, (2010) o ser humano tem a mesma capacidade de compreensão


desde o dia que nasce até o dia da sua morte. Assim a importância de falar com a
criança sobre seus conflitos internos possibilita a essa criança a se distanciar da
angústia da mãe ou nesse caso citado acima, se libertou da angústia do pai.

Essa capacidade da voz, na medida em que é escutada e entendida pela criança desde seus

primeiros instantes, vincula-a desde então e para o resto da vida a duas ordens que se conjugam:

seu corpo e a história que ele veicula – é o “momento” umbilical e a humanidade, o conjunto

daqueles que falam, a sociedade – é a nomeação. (SZEJER, 1999, p. 44).

3.2c A função do pai e o apoio emocional

Durante o período da gestação e após o nascimento do bebê, o apoio do homem


é fundamental para que a mulher sinta-se segura e possa entrar em fusão com o
bebê.

A Sombra na Maternidade 21
Segundo a psicanálise durante a gestação, a mulher entra em um processo no
qual reedita a sua própria constituição narcísea do período infantil revivendo sua
história e vivencia a forma em que foi criada o que permitira que entre em fusão
com o bebê e se projete nele possibilitando assim a construção da imagem da mãe.

Sobre este ideal agora recai o amor de si mesmo desfrutado na infância pelo eu real. O

narcisismo aparece deslocado a este novo ideal que, como o infantil, encontra-se em posse

de todas as perfeições valiosas (...), procura recobrá-la na nova forma do ideal do eu. O que

projeta frente a si como seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância, na qual

ele foi seu próprio ideal. (FREUD, 1914a/1990, p. 91).

Além da proteção, assumindo as responsabilidades nas questões materiais, o


apoio emocional fará com que a mulher se sinta segura e possa entrar em fusão
com o bebê e também permitirá que essa mulher entre em introspecção e explore
seus sentimentos permitindo assim as transformações necessárias para que possa
atravessar esse período e deixe aflorar a mãe.

Outra função importante do homem, segundo a psicanálise é fazer a separação da


criança, após os 2 anos de idade, dessa fusão com a mãe para que não somente
a mulher possa romper esse laço com o filho, como também, a criança possa
se desenvolver e até mesmo relacionar-se com as outras pessoas e assim vai
construindo seu ego na interação com o meio se tornando mais independente.

A importância desse rompimento proporcionará não só à criança como também a


mãe a atravessar as separações ao longo do desenvolvimento do filho.

A sensação do ninho vazio já começa logo na primeira infância e quando não


só a mãe, como também o filho não estão preparados para essa separação fica
mais difícil para que a criança possa se sentir segura longe da mãe e dificulte sua
relação fora do ambiente da família prejudicando sua independência emocional
na relação com o meio.

22 A Sombra na Maternidade
Os pais geralmente não conseguem ver os filhos como pessoas independentes, que aos poucos

se afastam psicologicamente deles. Conheço a história de uma mãe que, certo dia, quando

levava a filha para a escola, começou a conversar com outra mãe; “Estamos indo para a

escola, nós adoramos a escola e nos divertimos muito, e temos uma ótima professora”, até ser

interrompida pela filha que disse, zangada; “Não, mamãe, nós não estamos indo para a escola

- eu estou indo”. (VIORST, 1988 , p. 215).

Segundo Tubert (1996), com a valorização da maternidade no século XIX a


mulher passa a assumir a responsabilidade pela educação moral e intelectual do
filho e entra em conflito, pois a sua forma persuasiva e terna entra em contradição
com a educação paterna, instintivamente autoritária e com o afastamento cada
vez maior do seu parceiro cabe a ela assumir cada vez mais a educação do filho
estabelecendo-se nesta relação um vínculo entre mãe e filho que passa a ser difícil
para ambos a quebra ou o afastamento. Com a chegada da hora do filho sair do lar
a mãe tem dificuldades de enfrentar este momento acreditando que ele não irá se
adaptar fora de casa sem a sua proteção, esse é um período delicado e difícil para
ambos. Nesse sentido, se por um lado a mãe sente-se vazia, do outro muitas vezes,
a criança, o adolescente e até mesmo o adulto pode sentir essa insegurança.

A literatura traz vários relatos sobre a influência materna quando não ocorre
pela mãe a elaboração dos seus conflitos inconscientes, podendo ocasionar
consequências e sofrimentos à vida do seu filho, muitas vezes consequências graves
ao seu desenvolvimento emocional devido ao não rompimento desse vínculo e
também pela incapacidade de elaborar esses aspectos sombrios introjetados em
sua personalidade, corroborando assim, para que esse seu desequilíbrio seja
projetado nas suas relações interpessoais.

3.3 – A sexualidade após a maternidade

Estudos comprovam não somente alterações hormonais como emocionais durante


a gestação, essa fase é um período delicado não só para a gestante como também

A Sombra na Maternidade 23
para seu companheiro. A mulher está muito mais sensível emocionalmente porque
ela passa por mudanças biológicas e psicológicas que irão influenciar na sua
sexualidade.
Em trabalhos de pesquisa realizados pela psicóloga clínica Patrícia Pascoal
juntamente com Helena Carmo, do Centro de Saúde de Alvaiade, Lisboa, observou
que algumas mulheres e seus companheiros, relataram que “a existência do feto
é perturbadora quer pelo receio de magoá-lo com práticas coitais, quer pela
sensação que o bebê esta a ver”, além disso, também acreditam que o sexo pode
antecipar o parto. Mas nessa pesquisa realizada puderam também comprovar que
a maioria dos casais mantinha uma vida sexual satisfatória na gravidez nos relatos
apresentados por eles.

Alguns estudos observam que alguns mitos como, por exemplo, a ideia de que a
relação pode causar o aborto nos primeiros três meses ou de que as mulheres não
sentem prazer durante a gestação, ou que a penetração pode machucar o bebê,
atravessam gerações e se encontram no inconsciente de alguns casais até os dias
de hoje apesar de todo o avanço da medicina.

Há estudos que relatam a dificuldade que a mulher encontra em relação não somente
às mudanças físicas como também a libídica falta de interesse sexual após a
gestação e quando não encontram espaço, não se sentem seguras ou não entendem
o que está acontecendo, deixam de falar sobre o assunto com seu companheiro
sobre o que lhe incomoda e usa inconscientemente a fusão emocional que a liga
ao bebê para que ele a chame através do choro, abortando assim a possibilidade
de aproximação sexual, e por sua vez os homens, por não compreenderem o que
está acontecendo com a mulher devido a falta de diálogo, se sentem muitas vezes
excluídos da relação.

Os Cowan descobriram que tanto os maridos como as mulheres falaram de uma mudança

claramente negativa em suas relações sexuais depois do nascimento do primeiro filho. “A

frequência do ato sexual declina para quase todos os casais nos primeiros meses da vida

24 A Sombra na Maternidade
da criança, depois de ter caído mais ou menos pela metade durante os últimos estágios da

gravidez”, comentam eles. (MAUSHART, 2006, p. 280).

Segundo Gutman, (2010) as mulheres não têm uma informação adequada sobre
as mudanças no comportamento sexual logo após o parto o que as deixa inseguras
por não compreenderem o que foi que aconteceu com seu desejo sexual depois do
parto e por não terem uma orientação nesse sentido ficam confusas acreditando
que estão menos desejáveis devido às mudanças em seu corpo.

Há algumas perdas consideráveis além do dispêndio de energia que é destinada


aos cuidados com o bebê; há perda de sua identidade, algumas vezes seu trabalho,
as horas de lazer, a liberdade pessoal, enfim há uma série de motivos para que se
sinta esgotada emocionalmente e por não compartilhar seus sentimentos descobre
que o bebê além de sugar o leite suga juntamente a sua energia.

Para Maushart, (2006) a causa mais provável da redução da libido deve-se ao


cansaço. Noites mal dormidas comprometem o equilíbrio emocional dessa mulher
deixando-a esgotada e por não ter sido orientada não percebe que esse cansaço
compromete sua sexualidade e a sua relação conjugal.

Nesse ponto, a mulher puérpera se vê diante de uma sensação de grande desamparo afetivo.

Sabe que é amada, mas experimenta um vazio indescritível que a impede de se sustentar.

Percebe-se imensamente só; seu estado de espírito é frágil, embora aparentemente reine a

felicidade na família. (GUTMAN, 2010, p. 151).

Outra questão que me ocorre além da fadiga da mulher é a transformação de seu


corpo na maternidade e como esse homem ao se deparar com essas mudanças não
somente em ter que dividir a atenção com o filho e a perda momentânea da relação
sexual enxerga essa nova mulher; será que ele continua a ter o mesmo desejo, ou
essa a mudança dessa mulher em mãe faz com que ele a compare com a sua mãe,
despertando nele a fase edipiana na qual o desejo pela mãe teve que ser reprimido?

A Sombra na Maternidade 25
Acredito que a dificuldade que o casal enfrenta com as transformações que traz a
maternidade e a paternidade e a dificuldade ou o despreparo emocional por falta
de orientação psicológica pode ser um fator importante na relação e no declínio
da frequência sexual.

3.4 – A sexualidade e a inveja do poder

“A sensualidade ultrapassa muitas vezes o crescimento do amor de forma que a raiz

permanece fraca e arranca-se facilmente”.

Friedrich Nietzsche

Segundo a psicanálise, a inveja do pênis, órgão sexual masculino que simboliza


poder faz com que a mulher busque a valorização do falo quando engravida. A
falta do pênis pode metaforicamente significar fracasso, inferioridade.

Algumas tribos primitivas permitem que os homens expressem sua inveja do útero por meio

da couvade – costume de o marido ficar na cama, como se fosse ter um filho, por ocasião do

trabalho de parto da mulher. E alguns rituais da puberdade, segundo a hipótese do analista

Bruno Bettelheim, podem ter como objetivo ajudar meninos e meninas a enfrentar a inveja

pelas potencialidades do sexo oposto. (VIORST, 1988, p.126.)

Para alguns psicanalistas a renúncia à mãe como objeto de desejo sensual para a
menina pode significar uma perda muito dolorosa e, portanto a inveja do pênis seria
a representação da fantasia de que se tivesse um pênis não teria que renunciar ao
primeiro amor de sua vida. Já para o menino, quando cresce e percebe a diferença
entre os sexos sai em busca do seio que alimenta e do útero que possui a capacidade
de gerar uma criança. Segundo alguns psicanalistas a inveja em possuir partes do
que teoricamente não temos são vistas como uma perda, trazendo uma sensação
de diminuição, de inferioridade.

26 A Sombra na Maternidade
Acredito também que essa sensação de perda, de inferioridade, faz com que
busquemos o outro na relação por acreditarmos que o outro pode nos completar,
preencher o vazio, afinal quando nos dirigimos às relações afetivas, falamos em
cara-metade como se a função do outro fosse nos dar a sensação de completude.
Creio que essa luta interna se deve a partes inconscientes que não foram elaboradas
no decorrer de nossa trajetória.

A imigração feminina transformava frequentemente a camponesa em empregada


doméstica, o que lhe reservava quase sempre o destino de mãe solteira. À
semelhança das operárias, devia ceder aos ataques dos patrões para não perder o
emprego. (TUBERT, 1996, p 119)

Segundo Tubert (1996), nesta relação patrão/empregada, nem todas essas


mulheres podiam assumir a maternidade, não só na cidade como também no
campo e sendo a causa de muitos abortos e infanticídios provocados por essas
empregadas domésticas que foram seduzidas e expurgadas de seus trabalhos,
sendo abandonadas à própria sorte.

Talvez ainda nesta relação de subjugação ou desvalia feminina encontremos muitas


mulheres submetidas neste contexto nos dias atuais, afinal ainda nos encontramos
em um sistema patriarcal.

Tal hipocrisia, assinala Knibiehler, (apud Tubert, 1996, p. 119)” era necessária para
dar continuidade à humilhação das subordinadas. Por outro lado, esses infanticídios
não tinham influência no discurso sobre a maternidade; eles não impediam que
se continuasse a afirmar que o instinto maternal faz parte da natureza feminina.”

3.5 – A linguagem e a escuta psicanalítica

Em minhas pesquisas para a construção deste trabalho, pude observar em vários


casos retratados por psicanalistas, a importância da escuta psicanalista no trabalho

A Sombra na Maternidade 27
junto à criança e seus pais. Fica explícito que a importância da linguagem é
fundamental no qual a criança deve ser tratada como um indivíduo que compreende
aquilo que se comunica a ele apesar dos pais não acreditarem. Aliás, a isso quem
dá subsídios é a psicanálise onde pude observar em vários casos estudados, a
possibilidade de tratar crianças e pais já na maternidade como, por exemplo, os
casos relatados pela psicanalista Szejer.

Acredito que se os pais pudessem ser preparados para a maternidade com essas
orientações, ou seja, serem induzidos a falar com o bebê sobre os seus conflitos, essa
criança não refletiria suas angústias, afinal nós seres humanos nos expressamos não
somente através da linguagem como também possuímos a sensibilidade através
do olhar, do toque, expressão do rosto, enfim, a linguagem na comunicação com
o outro não é apenas verbal, mas também sensorial. Assim quando o adulto na
relação percebe que o seu companheiro esta com um problema e não fala o que
esta lhe afligindo dá margem para que o outro por não saber o que se passa faça
várias interpretações do que está percebendo com o outro, inclusive acredite que
ele é a causa do problema. A criança também sente a angústia da mãe e por não
saber do que se trata reflete no seu corpo ou expressa em sua linguagem como, por
exemplo, seu choro a angústia da mãe.

Segundo Szejer, (1999) a possibilidade de poder fazer um trabalho psicanalítico


com um bebê começa em se colocar em cena primeiramente como observador,
e permitir que as vozes, os olhares, os gestos se exprimam, ou seja, a sua voz,
a voz da mãe, o olhar do bebê para a mãe assim como o olhar do bebê para o
psicanalista, tudo deve ser observado e principalmente nessa questão da inclusão
do bebê trazendo-o não como vítima, mas como um indivíduo participativo
possibilitando assim, não somente que se exprima, mas também sinta no olhar do
outro que é percebido, é cuidado.

Para Szejer, a voz é a forma como o bebê pode ser representado simbolicamente
no outro, ou seja, pela voz do outro o bebê deixa de ser somente um corpo e passa
a ser inserido no simbólico.

28 A Sombra na Maternidade
Segundo Piontelli,(1995) em decorrência de todos nós termos um dia sido bebês, é
o que nos auxilia a entender o impacto emocional que os bebês em observação ou os
aspectos infantis que nossos pacientes despertam em nós, e que a prática cotidiana
em observar bebês é o que possibilita trabalhar nossa intuição confirmando ou
corrigindo aspectos observados no bebê.

Mas assim como a psicanálise sem observação pode levar a uma especulação estéril, a observação

sem as ferramentas fundamentais que a análise introspectiva oferece, pode facilmente levar

a falsas crenças e teorias superficiais. Embora os bebês tenham estado acessíveis à nossa

observação, desde as origens da humanidade, foi sobretudo com o advento da psicanálise que

começamos a olhar a primeira infância com uma ótica diferente, e só recentemente na história

da humanidade foi outorgado aos bebês a dignidade de seres humanos, dotados de complexa

gama de sentimentos e emoções. (PIONTELLI, 1995, p.20).

3.5a Caso Rafael

Rafael, com apenas três dias de vida, sofre de diarréias dolorosas. Trata-se de algo frequente

entre os lactantes, cujo sistema digestivo ainda não está maduro nos primeiros tempos da vida.

Mas essa diarréia resiste aos tratamentos. Ela o deixa num estado de dor, de choros e de gritos

insuportáveis até mesmo para os funcionários do hospital, que já viram outras, e sua curva de

peso desce perigosamente.

‘Não tenho nada a dizer, tudo está bem com exceção dessa diarréia’, comenta a mãe, que, no

entanto, pediu para me ver. Por um certo tempo ela tivera episódios anoréxicos, e a gravidez

provocara nela algum desespero. Regimes draconianos, náuseas, fantasias de provocar aborto,

qualquer coisa servia para manter aos seus próprios olhos um certo ideal de ventre achatado.

Chegou a maldizer em certos momentos essa criança que a deixava “enorme”, apesar do

desejo e do desvelo que tinha por esse futuro bebê. Minha discussão com ela trouxe à tona

A Sombra na Maternidade 29
seus próprios problemas de identificação como mulher e possível mãe, mas o que importava

sobretudo era fazer da criança testemunha.

Basicamente, eu disse a Rafael que, embora sua mãe tivesse pensado de alguma maneira em

evacuá-lo, ela tinha renunciado a esse desejo; que ela inclusive parecia particularmente feliz

de ter podido superá-lo para acolhê-lo. E que, portanto, para ser plenamente aceito por ela,

ele, Rafael, não precisava corresponder a esse desejo “evacuando-se” a si mesmo por seus

próprios meios, como se apenas fosse um desejo da mãe e não um bebê. Essa mensagem não

basta por si só para explicar o fato de que seu sintoma tivesse desaparecido naquele mesmo

dia, pois a entrevista trouxe outros elementos. Mas ela foi o contato que permitiu ir mais longe;

sem esse reconhecimento prévio do sentido que ele dava à sua presença e à sua existência

precária, o diálogo talvez não tivesse se estabelecido. (SZEJER, 1999, p. 55).

Segundo Myriam Szejer, o bebê tenta expressar e dar sentido ao que vivencia
independente das condições de seu nascimento ainda que tudo lhe pareça novo
e é nessa observação que o analista pode trabalhar, ou seja, compreender essa
linguagem do bebê com o meio. Sua manifestação expressa não somente no corpo
como também, em seu comportamento, quando sua angústia é expressa no choro
constante apesar dos cuidados básicos que lhe são oferecidos.

Em um trabalho psicanalítico sabemos que tudo é relevante, não somente aquilo


que se diz, mas também as expressões corporais, e no caso do bebê a sua forma
de expressar, ou seja, a sua linguagem expressa por meio do choro, do olhar. Há
nessa visão “holística” do paciente, fatos relevantes que podem ser interpretados
ou não, assim como podem surgir transferências e contratransferências. Ainda
assim a postura do analista deve se manter como cita Bion: “sem memória, sem
desejo e sem ânsia de compreensão”, de forma a ficarmos em suspensão deixando
a intuição fluir, sem criar expectativa para compreensão do quadro observado
porque quando criamos esta expectativa estamos expondo a nossa insegurança
diante daquilo que não sabemos.

Um psicanalista não propõe absolutamente nada. Ele está presente. Diz à criança, qualquer

30 A Sombra na Maternidade
que seja a idade: “Seus pais dizem tal coisa, como se eles pensassem que você sofresse. Eu sou

psicanalista. Isso quer dizer que cuido, com uma pessoa que vem me ver, do que ela gostaria

de dizer para sofrer menos. Se você tem alguma coisa a me dizer, estou aqui, à sua disposição,

para ouvir você”. (DOLTO, 2006, p. 36).

3.6- A maternidade inserida no simbólico

Segundo Tubert, (1996) a concepção de uma criança não depende somente da


atividade sexual entre o homem e a mulher e que há vários fatores inseridos nesse
contexto que vêm a ser tanto para a mulher como para o homem a configuração
nessa concepção de toda a sua genealogia, ou seja, esse casal está submerso na
história dos seus antepassados trazendo nessa concepção suas crenças e mitos.
Portanto, aquilo em que se está inserido é projetado inconscientemente na relação
com o filho ainda que os pais tragam em seu discurso que não vão repetir com o filho
o mesmo erro que seus pais cometeram com eles, o que não compreendem é que
diferente do discurso, a não repetição ou a não identificação com o modelo passa
pela elaboração do conflito e a negação apenas desloca as partes inconscientes que
renegam e projetam no filho.

Ao discutirmos o mito da maternidade enfatiza Tubert, (1996) que há de se


levar em consideração não somente à capacidade reprodutiva da mulher, mas
também, apesar das mudanças significativas socioculturais nas diferentes épocas,
não somente os interesses econômicos, demográficos ou políticos, ainda que
as mudanças ocorram numa sociedade patriarcal, a mulher é inserida na ordem
simbólica somente sendo mãe.

Em Atenas estimulavam-se os segundos matrimônios (frequentes nos séculos V e IV a.C.,

sobretudo nas classes altas) para uma mulher produzir herdeiros para mais de uma família. A

forma mais simples de controlar o crescimento populacional consistia em aumentar ou diminuir

o número de mulheres produtoras de cidadãos, modificando as leis de cidadania. (TUBERT,

A Sombra na Maternidade 31
1996, p. 105).

Observamos aqui, o controle político na maternidade, no qual fica explícito a


manipulação através de leis que estimulam ou coíbem a concepção muitas
vezes de uma forma velada, e segundo Silvia Tubert, quando queriam aumentar
a população, relaxavam as leis de cidadania permitindo com que as mulheres
pudessem casar com estrangeiros para aumentar a população e quando queriam
diminuir, aplicavam a lei com rigor ou favoreciam o infanticídio das fêmeas. Aliás,
em se tratando de infanticídios de fêmeas, a história traz relatos de vários povos
que faziam o mesmo para que nascessem mais homens que mulheres, que eram
julgadas como criaturas frágeis e dependentes e embora que os tempos sejam
outros, ainda vemos essa subjugação da mulher em várias sociedades onde não
encontra espaço para falar e expressar o que pensa e o que sente, sendo impedidas
de fazer suas próprias escolhas.

Em Roma, em fins da República e inícios do Império, considerava-se que o único objetivo da

relação sexual era gerar filhos e que a esterilidade, uma causa de divórcio, devia-se à mulher.

A legislação de Augusto estimulou viúvas e divorciadas a buscar um segundo matrimônio; as

mulheres deviam ter tantos filhos quanto fosse possível. Tal interesse, aparentemente, entrava

em contradição com o elogio feito às mulheres que morreram só tendo conhecido um marido

(matrimônio eterno). Cabe levar em consideração, por exemplo, que a tradicional idealização

romana da mulher, a exemplo de Cornélia, fiel ao falecido marido e negando-se a casar

novamente, adquire outro sentido ao sabermos que a fama de Cornélia devia-se ao fato de ter

tido doze filhos. (TUBERT, 1996, p. 105).

Ao nos reportarmos à maternidade e as influências socioeconômicas paternalista


e assistencialista aqui no Brasil e observarmos como ela se desenvolve num meio
no qual o controle de natalidade é zero, ou seja, essas mulheres engravidam sem
a menor condição financeira e emocional movidas pelo assistencialismo, sem
consciência da escolha que estão fazendo não somente em relação a sua saúde

32 A Sombra na Maternidade
física e emocional como também no comprometimento emocional e educacional
dessa criança que muitas vezes são abandonadas à própria sorte. Acredito que
se houvessem políticas públicas engajadas em desenvolver um trabalho com
profissionais preparados para orientação em postos de saúde muito provavelmente
essas mulheres pensariam antes de vir a engravidar ou refletiriam sobre os reais
motivos inseridos nesse desejo.

“É certo que a antiga divisão sexual do trabalho pesou muito na atribuição das
funções da “maternagem” à mulher, e que, até ontem, esta se afigurava o mais
puro produto da natureza” (BADINTER, 1985, p.11). A autora também questiona
sob quais leis naturais estaria sujeito o direito à vida das crianças do sexo feminino
quando lhe ceifavam o direito de sobreviver.

3.7 – A adoção e as sombras refletidas na criança

Acredito ser essencial abordar nesse assunto não somente a sombra projetada
pela mãe da criança que vivenciou com ela durante a gestação, os motivos que
a levaram a abandonar esse filho seja por questões financeiras ou emocionais
que a levaram a rejeitar essa criança, mas também é importante observarmos
as projeções da mãe que adota essa criança, seus desejos inconscientes e sua
expectativa em relação a essa criança. Será que esse desejo em ser mãe ao ir
de encontro a essa criança não é movido para preencher o vazio ou a sensação
de fracasso, impotência por sentir- se incompleta? Afinal como já foi citado a
mulher quando busca a gravidez, segundo estudos da psicanálise, está em busca
da valorização do falo. Ao adotar uma criança será que sente esta valorização
ou continua imersa vinculada, ainda, à sensação de castração trazidas desde a
infância? A questão que me ocorre é se quando uma mulher parte para a adoção

A Sombra na Maternidade 33
ela procura antes uma orientação psicológica para compreender suas angústias e
anseios para entender o desejo que a leva a buscar a maternidade ou simplesmente
define isso como meta de felicidade ou sentimento de completude? Acredito ser
importante no caso da adoção essa mulher e seu companheiro terem um apoio
psicoterapêutico para tentar descobrir as verdadeiras causas que os levaram a
adotar uma criança. Nessa preparação terapêutica é imprescindível compreender
que essa criança necessita não só de acolhimento, mas a necessidade de o casal
elaborar seus conflitos internos, para se prepararem emocionalmente, para criar
e educar esta criança e, acima de tudo com tranquilidade abordarem a questão da
adoção, sobre o seu o abandono pela mãe biológica. Com certeza estarão mais
seguros e fortalecidos na relação vincular e poderão proporcionar a esse filho o
direito de saber da sua verdadeira história e até mesmo perceberem problemas
emocionais e buscarem apoio terapêutico para tentar detectar os traumas dessa
criança sentidos durante a gestação.

Se a mãe não pode assumir o filho e consente a adoção, seria necessário permitir um encontro

entre a mãe e um casal que procura adotar uma criança, ao cabo do qual esta seria registrada

em nome dos novos pais. Isso teria como resultado uma mãe tranquilizada pela adoção de seu

bebê a um casal feliz e uma criança saudável.

Todas as adoções deveriam se dar assim: a criança doada pela mãe, com o tempo e a

possibilidade de conversar com ela e lhe dizer: “Eu te confio a este senhor e a esta senhora,

que serão teu pai e tua mãe.”

Este ato é simbolicamente justo e verdadeiro, pois a criança entende que sua mãe a confia a

seus pais e que ela é imediatamente registrada no nome deles. Deixa de ser, então, um segredo

para a criança e passa a ser um segredo compartilhado com os pais, pois a mãe a pôs a par

desde o inicio. É assim que as crianças deveriam ser adotadas. (DOLTO, 1998/2006, p. 84/85).

Certos pais adotivos optam por manterem segredo sobre a adoção para a criança,
porém, segundo o psicanalista Nazir Hamad, essas crianças quando submetidas a

34 A Sombra na Maternidade
uma terapia trazem de forma consciente ou inconsciente o saber de sua história, o
não dito ou o segredo não revelado poderá trazer sérias consequências traumáticas
e podem ser à base de neuroses e até psicoses dessas crianças.

3.7a – Diálogo entre Nazir Hamad e Françoise Dolto

Aqui apresento algumas considerações significativas abordadas entre Nazir


Hamad e Françoise Dolto em que o “não dito” trouxe consequências para a
paciente analisada pela Drª. Dolto.

F.D.: Eu fiz a psicanálise de uma jovem mulher que veio me ver porque fazia abortos espontâneos

e seu ginecologista lhe dissera que era psicológico. No decorrer de sua análise fiquei sabendo

que sua mãe adotiva fizera abortos espontâneos consecutivos. Como a filha não se sabia

adotada, ela havia registrado que as mulheres abortam várias vezes antes de ter um filho. Só

bem mais tarde ficou sabendo que era adotada. Um rapaz que ela amava e que viera pedir sua

mão aos futuros sogros ficou sabendo disso por eles, enquanto ela própria o ignorava. Sob

pressão dos pais, o noivo foi obrigado a abandonar esse projeto que eles tinham assumido

antes de saber que a moça era adotada. Ele não voltou a vê-la, porque a família mandou-o

fazer o serviço militar o mais longe possível, proibindo-lhe que se casasse com ela. Intrigada

com a partida inexplicável do noivo, a moça enfim conseguiu arrancar da mãe a confissão e

saber o motivo pelo qual o rapaz mudara de opinião. Seis meses depois, a mãe descobriu que

estava com câncer, de que viria morrer dois anos mais tarde. Ora, durante toda a juventude

da filha, a mãe lhe dissera: “Sabe, fiz sete abortos espontâneos. Felizmente você chegou em

oitavo lugar.”

A moça começou a fazer psicanálise aos vinte e cinco anos. Estava casada com um médico.

Depois de três abortos espontâneos, os ginecologistas consultados declararam que estes

abortos só podiam ter uma explicação psicológica. Durante a análise, ela teve a coragem de

falar de sua adoção com o pai, agora viúvo, coisa que nunca havia feito antes, salvo no dia em

que sua mãe contou tudo, após o rompimento do noivado. Ela não ousava perguntar, era um

A Sombra na Maternidade 35
verdadeiro mistério. E o mais terrível é que um dia falou disso com sua melhor colega, que lhe

respondeu: “Como, você não sabia”? Mas toda a escola sabia! Sua mãe disse quando você foi

matriculada. Tinham nos pedido para não falar disso com você por delicadeza.

Nesse diálogo acima a frase dita pela mãe: “Sabe, fiz sete abortos espontâneos.
Felizmente você chegou em oitavo lugar”. Parece-me que a filha introjetou essa
mensagem assumindo a responsabilidade de ocupar o lugar da mãe, passando
assim a se identificar com ela.

N.H.: A senhora acha que ela não sabia mesmo?

F.D.: Devo dizer que, em seus sonhos de infância reencontrados em análise, via-se que havia

outra pessoa que não sua mãe, mas ela nunca refletira a respeito. Voltarei mais tarde a isso. Ela

tentou em vão, descobrir seu lugar de nascimento. Mas o que nos interessa aqui é o problema

dos abortos. Ela havia, pois registrado o fato de que sua mãe adotiva fizera sete abortos.

Ela mesma sofrera abortos espontâneos. Como ela, seu marido desejava ter filhos, mas ele a

incentivava a tomar medidas anticoncepcionais, com medo de vê-la se destruir. Ao cabo de

alguns meses de psicanálise, não tomaram mais precauções e ela engravidou. Agora ela tem

vários filhos maravilhosos. Antes disso, ela perdia sempre o feto aos três meses. Em seguida,

no decorrer de sua análise, ficou sabendo por seu pai que tinha sido adotada aos três meses.

Sempre de acordo com o relato deste, era filha de uma mulher que tivera três filhos antes dela

e cujo marido era oficial, prisioneiro na Alemanha durante a guerra. Um amigo dele, que

conseguira fugir, viera lhe trazer uma carta de sua parte. História clássica: eles se reviram,

falara do prisioneiro, amigo de um, marido da outra, e este homem, ele próprio casado, acabou

indo para a cama com ela. Foi assim que a filha nasceu. Aquela mulher amava o marido,

com quem tinha três filhos. Ela deu à luz clandestinamente em casa de uma parteira, a quem

pediu que procurasse um casal adotivo. Recusou dois casais e, depois de encontrar o terceiro,

declarou à parteira: “Estes têm toda a minha confiança.”. Ela chorou contando sua história

aos novos pais e, por fim, dirigiu-se ao bebê, dizendo-lhe: “É a maior prova de amor que eu

te dou. Vou te confiar a este senhor e a esta senhora que vão te criar, porque se eu mesma te

criasse, teria de te esconder e te faria infeliz. Não tenho o direito de te dar o nome do meu

36 A Sombra na Maternidade
marido, mas eu te tive num ato de amor.” Ela beijou aquele homem e aquela mulher ao lhes

confiar a criança e disse apenas: “Não tentem saber meu nome.” Ela não queria que, mais

tarde, seu marido pudesse ficar sabendo.

O questionamento realizado pelo psicanalista Nazir Hamad acredito ser de extrema


importância porque em seus estudos e colocações enfatiza que apesar dos pais
adotivos acharem que as crianças não sabem a sua história por não contarem a
verdade, seja por medo de perder o amor do filho ou ainda por não terem coragem
em abordar o assunto, essas crianças se por algum motivo forem levadas a um
setting analítico e forem submetidas a uma terapia irão trazer à tona de forma
consciente ou inconsciente a sua real história. E, segundo Nazir, o não dito poderá
ser responsável por muitos traumas no decorrer da sua trajetória, nesse sentido é
como se ela não pudesse ser autorizada a assumir a sua real história.

Quando o pai adotivo contou esta história a sua filha, acabou acrescentando: “Sabe, você

se parece muito com sua mãe. Era uma mulher bonita. Pode se orgulhar dela, porque ela

amou você e teve coragem.” A partir de então, a jovem mulher quis ter um filho. Mas o que é

estranho é que, durante o trajeto que ela fazia para vir às sessões, tentou reproduzir a história.

No trem, ela procurava qualquer homem. Essa maquinação durou meses; era compulsiva, não

premeditada. Ela procurava qualquer homem, mas este não devia se parecer nem com seu

marido, nem com seu pai. Seu marido? Ela tinha se casado depressa demais após o choque

do abandono pelo noivo. Sua mãe, que ficara doente depois desse drama familiar, queria vê-la

casada. Ela não pode recusar.

N.H.: Na verdade, o que ela procurava era se identificar com sua mãe de nascimento, imitá-la.

F.D.: Foi o que analisamos. Mas com a diferença de que sua mãe se deitara com um amigo da

família, ao passo que ela procurava qualquer um, um parceiro para fazer uma passagem ao

ato, como se ela imputasse ao marido ter sido um cúmplice dos abortos. Foi isso que finalmente

podemos analisar: era como se ela fizesse do marido o cúmplice da neurose que a tinha levado

a se identificar, falsamente com a mãe adotiva. Mas quando analisamos o tipo de homem por

quem ela se interessava no trem, ele sempre se parecia com o pai adotivo, com uma nuança

A Sombra na Maternidade 37
restritiva: “Quando era moço.” (DOLTO E HAMAD, 1998/2006, p.88 - 91)

3.8 – Quando o corpo não corresponde ao “desejo” da maternidade.

“O amor é a força mais sutil do mundo”

Mahatma Gandhi

Quando as mulheres se deparam com os obstáculos em seu próprio corpo não


conseguindo engravidar por vias naturais e transferem essa demanda ao corpo
médico buscando assim uma solução para a sua impotência, acredito que aqui a
sensação de castração seja muito mais dolorosa porque passam por uma série de
experiências muitas vezes traumáticas em seu próprio corpo, sem contar a ansiedade
na espera que o método utilizado seja bem sucedido, ainda tem que lidar com o
fato de que quando o óvulo é seu e o esperma vem de um pai desconhecido fica a
dúvida das características genéticas e quais os comprometimentos na relação do
casal. Acredito que nessa demanda do desejo haja um deslocamento na sensação
da dor do fracasso para se colocar na posição super mãe, ou seja, aquela que busca
a realização do desejo narcíseo ainda que o preço para isso seja se submeter à
experiência em seu próprio corpo.

Segundo Helene Deusch, somente é possível abster-se ao desejo de ter um filho


quando não se trata de um anseio de completude narcisista.

Adotar uma criança requer ter reconhecido a castração; a função metaforizante faz possíveis

as substituições e os deslocamentos; o desejo pode reformular-se em seu encontro com novas

representações. A criança adotada confronta os pais com sua alteridade, com uma separação

que fere o narcisismo. Mas essa alteridade terá de ser reconhecida igualmente pelos pais

que geram seu próprio filho; do contrário, o destino psíquico da criança seria gravemente

ameaçado. (TUBERT, 1996, p. 219)

38 A Sombra na Maternidade
Segundo estudiosos da pré-história, apesar de não ser aceito a existência de um
sistema originário matriarcal, há inúmeros documentos que comprovam o caráter
feminino das deidades primitivas. Há estudos que comprovam a importância da
agricultura como meio de sobrevivência assim como a fecundidade das mulheres
como fonte principal para o desenvolvimento do grupo social.

Segundo a mitologia no antigo Oriente na região (Mesopotâmia, Anatólia e Síria)


o surgimento do feminino como marco inicial da humanidade é representado
pela Grande Deusa-Mãe dos deuses, que tem a função de provocar o processo
procriador humano. Assim a Deusa-Mãe, Magna Mater, outorga a fecundidade
não só a terra como também aos animais e também ao casal humano fazendo assim
segundo a mitologia uma analogia ao ciclo da fertilidade das estações. Na cultura
da Mesopotâmia a mulher é cultuada e seus órgãos reprodutivos são relacionados
à natureza, a fertilidade e a sexualidade.

Ainda segundo a mitologia são oferecidas as deusas femininas o sacrifício para que
a terra e o ventre feminino frutifiquem. E segundo a mitologia são as sacerdotisas
as responsáveis pelo culto à Deusa.
Quando se estabelece o sistema patriarcal os deuses vêem a ocupar o lugar das
deusas e nesse processo de transição legitima-se aos deuses a posse de seus
herdeiros.

Assim após o surgimento do patriarcado em quase todos os povos a paternidade


pode ser definida como direito social político e não uma relação biológica. Segundo
Tubert, nesta transição se estabelece que o matrimônio para ser legitimado, a
mulher deverá conceber uma criança e quando isso não ocorre dá ao homem o
direito a anular o casamento devolvendo essa mulher.

Algumas questões me ocorrem para refletir sobre o desejo de engravidar:

a) Busca pelo culto à sua mãe, se oferecem em sacrifício não por amor à mãe,
mas à culpa pelo desejo narcíseo;

A Sombra na Maternidade 39
b) O interdito se daria por não desejarem engravidar trazido pelo inconsciente
nesta percepção;

c) O interdito também se manifesta por se sentirem impotentes na comparação


com a sua mãe (a Grande Deusa);

d) Medo de serem rejeitadas pelo marido ou pela sociedade;

e) Percepção da manipulação do sistema patriarcal faz com que bloqueiem a


gestação por acreditarem inconscientemente que esse desejo não lhes devolve
o poder, portanto, não lhes completa e ainda lhe faz perder esse filho ao pai ou
à sociedade, portanto, o falo nunca será seu.

Os antropólogos proporcionaram uma enorme quantidade de informações reveladoras da

universalidade deste horror: a mulher estéril é considerada, na maioria dos povos, uma ofensa

para os seus e ela mesma, percebe-se como maldita. (TUBERT, 1996, p. 128)

Talvez possamos encontrar algumas respostas para o interdito da gestação de


forma inconsciente quando essa mulher traz em seu íntimo questões que não
foram elaboradas, mas que provocam em seu corpo rupturas que a impedem de
engravidar sejam estas questões observadas anteriormente nos itens citados neste
estudo ou ainda o fato de sentirem em seu cerne que esse desejo não é seu.

Penso que qualquer que seja a situação em que essa mulher se encontre, seria
relevante que ela procurasse uma assistência psicoterapêutica para poder tratar e
elaborar suas questões internas de quando não consegue engravidar ou, quando
optam por uma adoção. Nesse sentido poderão encontrar as reais causas quer
sejam fisiológicas ou de interdito. Não importa o motivo ocorrido faz-se necessário
entrar em contato com essa sombra para poder viver com mais saúde emocional
encarando não como um fracasso da sua natureza feminina, mas como condição

40 A Sombra na Maternidade
de seu corpo ou um desejo de que esse processo criativo possa ser desenvolvido
de outra forma, em seu trabalho, na arte, na construção de uma obra seja um livro
ou ainda, na formação de crianças como educadora.

Penso ainda que essa mulher pode elaborar essa sombra e vir a criar e se sentir
plena, por meio do autoconhecimento e deixar fluir de suas entranhas todo o seu
poder de criação, sensibilidade e intuição que ela traz com tanta força em seu
âmago.

Desde a perspectiva psicanalítica, o mal-estar na cultura, a violência e a opressão articulam-se

com a natureza problemática da própria sexualidade, que sempre inclui a dimensão da pulsão

de morte. Se devemos reconhecer as formas históricas a partir das quais a violência tem-se

dirigido reiteradamente às mulheres, a mesma não se pode localizar unicamente no espaço

político, no exterior, no real. A violência deve articular-se com a nossa própria estrutura como

sujeitos do inconsciente, divididos entre o reconhecimento e o desconhecimento de nós como

sujeitos sexuados. (TURBERT, 1996, p 15).

Em seus estudos Tubert, (1996) nos impele a realizarmos uma reflexão sobre os
motivos que poderiam estar inseridos no desejo de não engravidar ou poderiam
estar representando uma rebeldia ou a não aceitação de curvar-se ou subjugar-
se ao outro: o marido, o grupo familiar, a sociedade, enfim representantes que
estariam lhe impondo a maternidade como reflexo de feminilidade ou sinônimo
de completude.

Algumas mulheres também optam em não engravidar por estarem preocupadas com
sua forma física ou perda da feminilidade trazendo neste contexto a representação
do ideal narcíseo, ou seja, a gravidez representaria uma deformidade do que
julga ser o seu ideal de beleza, com um corpo perfeito cuja maternidade estaria
representando a perda de sua natureza narcísea. Nesse sentido, uma ruptura em
uma imagem não somente idealizada como também introjetada em suas entranhas
refletidas em seu corpo sentido como perfeito e esse filho seria a representação

A Sombra na Maternidade 41
não só da perda de sua identidade narcísea como também alguém que teria que
dividir a atenção que seria somente sua na relação com o outro.

A rejeição à maternidade, o pular sobre sua sombra, como se trata de pular sobre seu destino,

é o correlato, por outro lado, de sua posição narcisista que entranha o anseio de manter seu

corpo intacto, com a ilusória crença de que a “eterna delgadez” lhe permitira se esquivar do

passar do tempo e seus efeitos sobre o corpo, negando a morte. (TUBERT, 1996, p. 173).

Segundo Silvia Tubert, outra questão a ser analisada sobre a não concepção ou o
interdito no corpo seria o medo de dar a luz a uma criança imperfeita transferindo
assim para o médico ou à ciência a responsabilidade que seria do casal, sendo
também outorgado nesta transferência a responsabilidade pela concepção.

O fantasma do filho maravilhoso e do filho monstruoso, que se pode apreciar nas mulheres

inférteis, articula-se com um acervo muito rico de mitos. É interessante observar que tanto o

nascimento dos heróis como dos monstros está associado na mitologia à esterilidade. Assim, o

herói nasce quase sempre depois de uma etapa estéril da mãe, que costuma ser uma virgem que

assim permanece mesmo após o nascimento de seu filho. Os filhos anormais ou deformados,

por sua vez, são uma manifestação da impossibilidade de ter descendência. (TUBERT, 1996,

p.158).

Nesta citação Tubert, (1996) nos leva a uma reflexão sobre a negação, não somente
da sombra, isto é, tudo o que o indivíduo não reconhece em si mesmo, mas também
sobre a representação da nossa completude ou o que Jung, (1961, p.373) definiu
como individuação “um processo pelo qual um ser torna-se um ‘individuum’
psicológico, isto é, uma unidade autônoma e indivisível, uma totalidade”. Todas
as duas partes citadas são renegadas ou rejeitadas por falta de autoconhecimento.

42 A Sombra na Maternidade
3.9- A Maternidade e as questões sociais.

Algumas questões foram abordadas neste presente trabalho dentre elas o vínculo
mãe/filho ou a simbiose que há nesta relação que permite que a mulher durante a
gestação faça a sua reminiscência na qual ela revive a sua própria história. Nesse
sentido essa fase lhe permite não somente tornar-se mãe como também essa fusão
entre mãe e filho irá lhe possibilitar compreender a linguagem de seu bebê. Uma
reflexão se faz presente aqui é sobre as mulheres que ainda nos dias atuais não
têm condições financeiras e emocionais para passarem por esse período delicado
fusional.
Podemos observar e avaliar sobre esse assunto nas classes sociais em que as
mulheres contam com apoio e assistência para que as mesmas possam elaborar
seus conflitos emocionais. Porém, não podemos esquecer que ainda nos dias
atuais muitas mulheres continuam subjugadas ou sem assistência adequada para
compreenderem esse período delicado que é a gestação e a relação pós parto com
toda responsabilidade para criar e educar, muitas vezes sem apoio até mesmo
dos familiares. Podemos enquadrar aqui um número considerável de adolescentes
grávidas, que inconscientemente repetem muitas vezes, o mesmo histórico de suas
mães, ora abandonando a criança por não encontrarem condições financeiras para
criar seus filhos, ora por não se sentirem acolhidas. Uma questão de sobrevivência.

O costume de entregar as crianças às amas-de-leite, praticado no século XIX, colocava a mulher

camponesa no lugar de um animal doméstico, separando-a dos próprios filhos em proveito das

crianças das classes dominantes. Esse costume, praticado inicialmente pela aristocracia, foi

condenado pela sensibilidade republicana. A lactância artificial acabou com uma indústria

que, durante séculos, tinha especializado as camponesas na criação dos bebes e supunha o

exercício de uma maternidade compartilhada entre as duas mulheres. (TUBERT, 1996, p 119).

Ainda em seus estudos Tubert (1996), traz referências do século XIX na qual

A Sombra na Maternidade 43
a mulher é vista como instrumento de reprodução passível de ser coagida. E
somente a paternidade é vista como social. A maternidade aparece como um fato
meramente biológico onde as mães são cuidadas apenas por uma necessidade
de reprodução populacional, ou figuras representativas apenas para obtenção de
algum benefício para moralização da família, porém, não por elas mesmas, ou
seja, a figura da Mãe-mater-magna estaria configurada e representada na família,
sem ela a mulher não tem valor.

Sabemos que nos dias atuais as mulheres ainda podem trazer em seu ser cicatrizes
profundas que as fazem buscar na gravidez a força para mostrar o seu potencial
criativo, seja como mãe realizando-se no seu trabalho sem se sentirem castradas
ou até mesmo dominadas por uma cultura apoiada em valores superficiais, onde
as palavras ou os costumes da sociedade determinam o direito da escolha; daí a
pergunta de quem é esse desejo e qual é o papel que essa mulher representa.

O canto da fecundidade transforma-se em sanção, insulto para aquela que não


pode ou não quer normalizar seu desejo de acordo com o ideal cultural. Se a
maternidade identifica-se com a normalidade, a infertilidade espelha-se na
transgressão. (TUBERT, 1996, p 137)

Segundo Tubert, (1996) com a impossibilidade da maternidade a mulher pode ir


de encontro a um vazio absoluto, sentindo-se incapaz de dar outro sentido à sua
vida podendo vir a sentir a perda da identidade e também a se identificar com
a imagem masculina, já que a diferença simbólica estaria apenas representada
em duas possibilidades: ser homem ou ser mãe. Nessa referência a mulher se
identificaria mais com a energia masculina deixando transparecer em sua
personalidade uma força de atuação mais ativa do que passiva. Para exemplificar,
seria aquela mulher que se projeta em seu trabalho e introjeta uma personalidade
austera não se permitindo ser vulnerável ou permeável às emoções assumindo
uma postura fechada sem perceber se identifica e assume o lugar do homem na
família ou no trabalho.

Para Tubert, (1996) nesta analogia que faz referência ao corpo da mulher com as

44 A Sombra na Maternidade
forças criativas da natureza, ela se identifica e incorpora essa força criativa e seu
corpo passa a ter como função natural a procriação. Já para a mulher estéril, como
ela encontra em seu corpo o interdito, não se autoriza a se identificar com essa
força criativa da natureza, passa a transferir para o corpo a sensação de fracasso
por creditar que o corpo a delimita a trazer à tona seu potencial criativo, por não
reconhecer que essa analogia é de ordem simbólica.

3.10 - O controle da sexualidade feminina

“A maternidade é coisa estranha, podemos ser o próprio cavalo de Tróia”.

Rebeca West

Segundo Tubert, (1996) o fato de a mulher ser responsável por gerar uma vida faz
com que ela ocupe no imaginário humano alguns mitos.

E, segundo a autora, como a vida e a morte fazem parte de um mistério que


simbolicamente denominamos ou relacionamos como algo divino, podemos
vincular a imagem feminina a este mistério, e, por ser capaz de dar à luz a uma
vida estaria a sua sexualidade representando uma força devoradora, insaciável,
mortal, ou seja, dominadora.

A vida e a morte como estão cercadas de mistério dentro deste imaginário o mesmo
poder de dar a vida possibilitaria a retirada da mesma. Nesta representação segundo
a autora, o poder feminino de gerar uma vida faz com que haja uma disparidade
entre os sexos e alude a uma superioridade em relação ao sexo masculino devido
a sua potencialidade “divina” e, portanto, dentro de um sistema patriarcal isso
representaria uma ameaça, assim por esse motivo a mulher dentro deste sistema
é representada sempre no papel de mãe onde a sua feminilidade se situa no lugar
de maternidade.

“A imagem da maternidade permite relegar a questão da sexualidade das mulheres.

A Sombra na Maternidade 45
Eva dilui-se por trás de Maria. A mulher-mãe possibilita evitar tanto o perigo
da confusão dos sexos quanto a angustia perante uma diferença irredutível”.
(TUBERT, 1996, p.261).

3.11-O autoconhecimento e a conscientização da sombra

“ O conhecimento torna a alma jovem e diminui a amargura da velhice. Colhe, pois a

sabedoria. Armazena suavidade para amanhã.”

Leonardo da Vinci

Ao longo deste estudo psicanalítico pude observar que o autoconhecimento é a base


para que o indivíduo possa compreender os caminhos inconscientes que a sombra
dá vazão, ou se projeta na relação com o outro ou com o meio e estas questões
quando ignoradas são determinantes para que desencadeiem alguns problemas
psíquicos ou ainda, paralisem essa força criativa latente em cada indivíduo, assim
o fato de não conhecer a si mesmo faz com que construa a sua história baseado
nos costumes, sejam da sociedade, da família, enfim, repete sem ter consciência se
é a sua verdade que esta sendo construída ou a fantasia vivida através da persona
que cria para interagir com o outro ou com a sociedade.

Persona: é o sistema de adaptação ou a maneira por que se dá a comunicação com o mundo.

Cada estado ou cada profissão, por exemplo, possui sua persona característica... O perigo

está, no entanto, na identificação com a persona; o professor com seu manual, o tenor com sua

voz... Pode-se dizer, sem exagero, que a persona é aquilo que não é verdadeiramente, mas o que

nós mesmos e os outros pensam que somos. (JUNG, 1961/62/63 p. 375)

É facultativo que tomemos consciência da nossa sombra para que possamos


elaborar, compreender e integrar o lado obscuro e oculto de nossa psique e assim
passarmos a ter uma vida mais equilibrada e harmoniosa.

46 A Sombra na Maternidade
Muitos abandonaram a própria individualidade para se tornarem um número dentro de uma

grande massa e, aflitos para serem alguém nessa multidão de anônimos, distanciaram-se de

seu mundo interno, rico em originalidade, força, energia e criatividade, para buscar uma

fachada de aparência massificada para mostrar que ainda existem e estão vivos nesse mundo

de ninguém. (DEL NERO, 2003, p. 42)

Esse contato interno ou o denominado “conhece-te a ti mesmo” que tem como


preceito o processo evolutivo é que nos possibilita mudarmos conceitos, mitos e
crenças que foram introjetadas ao longo da história.
Um dos meios para essa “desconstrução” é através da psicanálise que propõe ao
indivíduo trazer à tona suas questões inconscientes. E, a minha proposta neste
estudo que tem o tema, a sombra na maternidade, é por acreditar que é nesta fase
que se desencadeiam alguns problemas emocionais muitas vezes, por não terem
a consciência de seus próprios conflitos bem como a dualidade de sentimentos,
acaba gerando ou projetando no filho e no meio em que habita às suas questões
inconscientes e, assim por identificação, essa criança poderá também repetir
em sua vida a mesma história até que o ciclo seja interrompido. Segundo Jung,
1961/62/63, p. 371

Nossa consciência não se cria a si mesma, mas emana de profundezas desconhecidas. Na

infância, desperta gradualmente e, ao longo da vida, desperta cada manhã, saindo das

profundezas do sono, de um estado de inconsciência. É como uma criança nascendo diariamente

do seio materno.

Nessa busca de encontrar a nossa felicidade ou completude e irmos de encontro


ao outro para somar e termos uma vida harmoniosa faz-se imprescindível tomar
ciência da nossa responsabilidade para que a nossa sombra não permaneça à
margem aparecendo em situações inesperadas sem que tenhamos consciência da
nossa responsabilidade, ou negamos a imagem refletida projetando no outro o que

A Sombra na Maternidade 47
desconhecemos em nós.

3.12 O instinto materno verdades e mitos

“Todos nós nascemos originais e morremos cópias”


Carl Jung

Segundo Badinter (1985), ao pesquisar a história e as atitudes da mulher em relação


à maternidade, chegou à conclusão de que o instinto materno é um mito e a autora
constata que para chegar a esta conclusão, que há uma série de questões inseridas
nesse contexto como, por exemplo, a cultura à que pertence, sua relação social,
suas ambições e frustrações imbuídas nesse contexto. A autora ressalta ainda que:
“Esse sentimento pode existir ou não existir, ser e desaparecer. Mostrar-se forte ou
frágil. Preferir um filho ou entregar a todos. Tudo depende da mãe, de sua história
e da História”. (BADINTER, 1985, p. 266).

A explosão do culto da maternidade no século XIX é um fato ambíguo e complexo, podendo

ser entendido de diversas formas. Os historiadores da literatura destacam a emergência da

sensibilidade, própria do romantismo e da valorização de todas as formas de sentimento. O

feminismo considera tratar-se do fenômeno da compreensão: a veneração oficial das mães

articula-se com a restrição legal de sua participação na esfera publica. (SILVIA TUBERT,

1996, p. 116).

Segundo Masushart, (2006) as mulheres continuam a colocar a imagem de “boa


mãe” em público e isso a leva ao sofrimento, ao sentimento de culpa, estresse,
entre outros problemas físicos e mentais. “Ao mesmo tempo, nossa dificuldade
em dar nome e falar audaciosamente de nossa experiência completa de mães nos

48 A Sombra na Maternidade
diminui enquanto pessoas.” (MAUSHART, 2006, p. 11).
A questão que me ocorre é porque nos dias atuais esse assunto é tão pouco discutido,
quais seriam ainda as razões que levariam essa mulher continuar condicionada
a acreditar nesse instinto, talvez alguns acreditem que estariam submetidas ao
inconsciente coletivo, eu, porém, após as pesquisas relacionadas ao tema do mito
materno, acredito que o que falta a essa mulher é ir de encontro à sua sombra,
resgatar a sua verdadeira essência e assumir o seu poder de escolha na sua relação
com a vida e com o meio em que vive.

Reconhecer a própria agressividade não é um argumento a favor da brutalidade ou, que Deus

nos livre, a favor de deixar tudo sem definição. Também não desafia o conceito de que, apesar da

nossa ambivalência, os sentimentos de amor sempre prevalecem. A questão é que simplesmente

podemos também odiar nosso companheiro amado, nosso filho, nossos pais, nosso querido

amigo. (VIORST, 1988, p. 74)

Talvez o motivo que leva a mulher a não discutir seus conflitos seria o medo de ser
rejeitada pelo companheiro, pela família ou sociedade e até mesmo por si própria,
por acreditar que não está nos parâmetros estabelecidos da imagem incutida ou
apreendida durante a sua trajetória do que seria ser uma “boa mãe”.

Enfim, somos gerados não somente através de um ato sexual, mas também através
de mitos e crenças que passam de geração em geração e sem nos darmos conta
disso continuamos a criar nossos filhos dentro deste ciclo sem que tenhamos
consciência de qual é a nossa verdade diante do que chamamos desejo em ser mãe.

4- CONSIDERAÇÕES FINAIS

As considerações apresentadas neste estudo psicanalítico sobre a Sombra na


Maternidade trouxeram uma reflexão sobre a importância do autoconhecimento e a
relevância dos caminhos inconscientes da mente humana e as projeções subjetivas
que ela apresenta na relação com o outro. Assim acredito que ao tomar ciência

A Sombra na Maternidade 49
desses fatos dentro desse estudo psicanalítico, poderemos contribuir para que essa
relação humana possa se desenvolver de uma forma muito mais prazerosa no
âmbito familiar em que se desencadeia.

Além da questão da interrelação ter conhecimento dos fatores externos (família,


sociedade, religião) e as influências não somente na relação, mas principalmente
no nosso inconsciente, por meio de mitos e crenças que atravessam gerações e
gerações espero que este trabalho aqui descrito possa ajudar e proporcionar ao ser
humano (mãe-mulher, pai-homem, filho-fruto) uma maior compreensão das suas
necessidades internas para poderem redirecionar sua atenção indo de encontro à
sua completude.

Uma recomendação importante para que houvesse mudanças de padrões maternos


atuais, em especial às mães adolescentes, que se montassem estudos grupais,
ou programas terapêuticos que contribuíssem para crescimento próprio dessas
gestantes e, em especial o bem estar dos futuros bebês.

5- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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DEL NERO, SONIA. Psicanálise das Relações Familiares. São Paulo: Vetor, 2005

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50 A Sombra na Maternidade
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Doutor em Psicologia sob orientação do Prof. Dr. César Augusto Piccinini e da Profª. Drª. Rita

Sobreira Lopes. Curso Pós Graduação em Psicologia do Desenvolvimento – Universidade

Federal do Rio Grande do Sul: 2003. Acesso em 20/07/2012 - 22:21.

GUTMAN, LAURA. A Maternidade e o encontro com a própria sombra. Rio de Janeiro:

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52 A Sombra na Maternidade
GENI MARIA LOPES

PSICANALISTA, PSICOTERAPEUTA E TERAPEUTA HOLÍSTICA

Formada de Ciências Biológicas pela ( FIIB - 1988), Psicanálise pela (AEPSP - 2010),
tendo como formação
complementar em Terapias Holísticas (Aromaterapia, Mestra de Reiki, Xamanismo e
outros sistemas energéticos).
Autora do Livro A Sombra na Maternidade. Estudando a mente e a alma há mais de 20
anos para uma melhor compreensão do ser como um todo.

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