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Aula 3 - Equações Diferenciais de

1ª Ordem – Técnicas de Resolução


(Parte 1)

Objetivos

Nesta terceira aula, deveremos:

–– Conhecer o que são equações diferenciais ordinárias de primeira


ordem separáveis;
–– Determinar os meios para reduzir algumas equações diferenciais
ordinárias de primeira ordem a separáveis;
–– Definir equações diferenciais exatas;
–– Reconhecer de imediato algumas equações diferenciais exatas.
–– Estudar os fatores integrantes com o intuito de poder reduzir al-
gumas EDOs a exatas.

Assuntos
–– Equações diferenciais de 1ª ordem separáveis
–– Equações diferenciais de 1ª ordem reduzíveis a separáveis
–– Equações diferenciais exatas
–– Reconhecimento de equações diferenciais exatas
–– Equações redutíveis a exatas
–– Fatores integrantes comuns
–– Determinação de fatores integrantes

Introdução
Há, realmente, inúmeros tipos de equações diferenciais de primeira ordem,
e, dentre elas, é possível obter a solução de algumas específicas. A partir
desta aula, e ainda continuando na próxima, estudaremos alguns desses
tipos de equações, cujas soluções podem ser obtidas através de técnicas
específicas: as equações diferenciais de 1ª ordem separáveis, as exatas, as
homogêneas e as lineares.

Equações Diferenciais e Ordinárias 57 UAB


Nesta aula, veremos os dois primeiros tipos, ou seja, as separáveis e as exa-
tas. Desenvolveremos técnicas que nos levem a obter uma equação separá-
vel a partir de uma que inicialmente não o seja. Chamamos a isso de reduzir
uma equação diferencial a uma separável. Apresentaremos, também, algu-
mas equações exatas que costumam ser reconhecidas de imediato, bastando
para isso uma ligeira inspeção.

Já falamos que são inúmeras as formas de equações diferenciais existentes


(aula 2). Porém, também vimos que as soluções das mesmas podem ser bas-
tante difíceis de ser obtidas, havendo apenas alguns métodos que tornem
mais fácil sua determinação. Em função disso, introduziremos o conceito
de fator integrante. Conheceremos, ainda, alguns fatores integrantes mais
comuns e como fazer uso deles, e, finalmente, aprenderemos como deter-
minar certos fatores integrantes que possam vir a ser úteis na resolução das
equações diferenciais ordinárias.

Equações separáveis
Até aqui, todos os exemplos dados, bem como os exercícios propostos, tra-
tam de equações diferenciais, sejam de primeira ou de segunda ordem (nes-
te caso, por uma questão didática apenas), cujas variáveis são separáveis.

Muitas equações diferenciais de primeira ordem são separáveis, e, quando


não o são, às vezes, é possível reduzi-las a equações separáveis. Veremos isso
mais adiante.

As equações de primeira ordem separáveis costumam tomar a forma geral:

Eq. 20

Dessa maneira, facilmente se observa que um rearranjo permite separar as


variáveis, de modo que a variável dependente (e sua derivada) fique em um
membro da equação e a variável independente (e sua derivada) fique no
outro:

UAB 58 Equações Diferenciais e Ordinárias


Eq. 21

Isso nos permite integrar, geralmente, sem maiores dificuldades:

Eq. 22

• Exemplo 15:

Resolva a equação diferencial ordinária y’-2x = 0.

Solução:

Essa é uma equação separável. Vamos, primeiramente, colocá-la na notação


de Leibniz:

Agora, vamos “separá-la” para poder resolvê-la. Por “separar”, entendemos


que seja colocar os termos de y e suas diferenciais em um membro da equa-
ção e os termos de x e suas diferenciais no outro membro. Assim:

A equação agora está com as variáveis e suas diferenciais “separadas”. Res-


ta-nos resolvê-la. Para isso, vamos integrar ambos os membros:

Observe que ambos os lados da equação gerariam constantes de integração,


mas, uma vez que são constantes, e a soma de duas constantes, como já
comentado anteriormente, é igual a uma constante, representamos tal cons-

Equações Diferenciais e Ordinárias 59 UAB


tante apenas no 2º membro. A solução encontrada é uma solução geral, ou
ainda, uma família de soluções de 1 parâmetro (por possuir uma constante
apenas).

• Exemplo 16:

Resolva a equação diferencial ordinária .

Solução:

Vamos separar os termos da equação:

Uma vez separados os termos, integremos:

Ainda podemos aplicar o exponencial e obter:

em que .

Esta é a solução geral, na forma de uma família de soluções de 1 parâmetro.

Exercícios proposto
Resolva as seguintes equações diferenciais ordinárias separáveis:

UAB 60 Equações Diferenciais e Ordinárias


Equações redutíveis a separáveis
Mas, como dizíamos, há equações que não podem ser separadas de forma
direta, sendo, entretanto, possível, por vezes, a separação das variáveis (e
de suas derivadas) em membros distintos da equação, fazendo-se uso de
uma simples mudança de variáveis. Isso vale somente para equações que
possuem a forma:

Eq. 23

Para poder resolver equações diferenciais deste tipo, a forma apresentada na


eq. 23 nos leva a fazer uma substituição do tipo:

Eq. 24

Essa substituição se apresenta com a derivada:

Eq. 25

Substituindo a eq. 25 na 23, teremos:

Eq. 26

Dessa forma, poderemos separar as variáveis, o que nos permite integrar am-
bos os lados da equação para obter a solução geral da equação diferencial.

Equações Diferenciais e Ordinárias 61 UAB


Eq. 27

A prática, entretanto, nos permite perceber que é possível outras substi-


tuições simples, a fim de se obter uma solução geral ou particular de uma
equação diferencial.

• Exemplo 17:

Resolva a equação diferencial (x²-2y²) y’+2xy = 0.

Solução:

Não é possível separar as variáveis desta equação. Assim, façamos a substi-


tuição sugerida pela eq. 24, mas primeiro rearranjemos a equação, multipli-
cando-a por dx:

Agora, dividamos a equação por x²:

UAB 62 Equações Diferenciais e Ordinárias


Então, façamos a substituição:

Equações Diferenciais e Ordinárias 63 UAB


Retornando à substituição:
Lembrete

com
Esta é a solução geral: y(3x²-2y²) = C, para e .

• Exemplo 18:

Resolva a equação diferencial .

Solução:

Temos, inicialmente, um produto notável no segundo membro e podemos


deixá-lo assim:

Agora, façamos a substituição:

UAB 64 Equações Diferenciais e Ordinárias


Integremos ambos os lados:

Retornando à substituição:

Glossário

Alexis Claude de Clairaut


Esta pode ser considerada a solução geral: , para , (1713-1765) e Karl Hermann
Amandus Schwarz (1843-
1921) foram matemáticos,
condição do logaritmo que aparece no desenvolvimento. não contemporâneos já
mencionados na Aula 1, que
receberam a homenagem no
Teorema que leva o nome
deles.
Exercícios propostos O Teorema de Clairaut-
Use as substituições propostas ao lado de cada exercício para obter a solução Schwarz diz que, se F é
uma função escalar, de duas
geral das equações diferenciais a que se referem: variáveis por exemplo, x e y,
que possua derivadas parciais
de segunda ordem contínuas,

então .

Equações Diferenciais e Ordinárias 65 UAB


Equações diferenciais exatas
O conceito de equações diferenciais exatas foi abordado nas equações 7 a
12. O que trataremos aqui é da forma para obter a solução geral desse tipo
de equações diferenciais de primeira ordem.

Se compararmos a eq. 8 com a 9, teremos que:

du = 0
Eq. 28

Se integrarmos em ambos os lados, obteremos a solução geral da eq. 28:

u (x ,y) = C
Eq. 29

Já vimos que, comparando a eq. 7 com a 8, teremos que:

Eq. 10

Supondo que M e N sejam definidas com derivadas parciais de primeira or-


dem contínuas em uma dada região R² sem pontos duplos, poderemos dizer
que:

Eq. 11

Como, pelo Teorema de Clairaut-Schwarz, as derivadas parciais de segun-


da ordem nos segundos membros da eq. 11 são equivalentes, então:

Eq. 30

Esta é a condição necessária para que a eq. 7 seja uma diferencial total, e,
dessa forma, poderemos obter uma solução para a mesma da seguinte for-
ma (ver eq. 10):

Eq. 31

UAB 66 Equações Diferenciais e Ordinárias


em que f (y) é uma constante de integração que não depende de x.

Para encontrar o valor de f (y), basta derivar parcialmente a eq. 31 obtida em


relação a y e comparar com N.

O procedimento contrário também é possível, ou seja:

Eq. 32

em que g(x) é uma constante de integração que não depende de y.


Para encontrar o valor de g (x), basta derivar parcialmente a eq. 32 obtida em
relação a x e comparar com M.

Exercícios propostos
Determine se as equações diferenciais a seguir são exatas, e, sendo, resolva-
as:

Reconhecimento de equações diferen-


ciais exatas
Algumas vezes, é possível se reconhecer uma equação diferencial exata. Tra-
ta-se de uma questão de hábito no uso das mesmas. Apresentamos, a seguir,
algumas tabelas que pode ser úteis no reconhecimento destas equações.

Por vezes, apenas por inspeção das equações de tabelas desse tipo, é possí-
vel determinar a solução de algum outro tipo de equação diferencial exata.

Tabela 1. Soluções de equações diferenciais exatas envol-


vendo produtos

EQUAÇÃO DIFERENCIAL EXATA SOLUÇÃO

ydx + xdy = 0 xy = C Eq. 33


2xy²dx + 2x²ydy = 0 x²y² = C Eq. 34
3x²y³dx + 3x³y²dy = 0 x³y³ = C Eq. 35

Equações Diferenciais e Ordinárias 67 UAB


2ydx + x²dy = 0 x²y = C Eq. 36
y²dx + 2xydy = 0 xy² = C Eq. 37
3x²ydx + x³dy = 0 x³y = C Eq. 38

y³dx + 3xy²dy = 0 xy³ = C Eq. 39

Tabela 2. Soluções de equações diferenciais exatas envol-


vendo quocientes

EQUAÇÃO DIFERENCIAL EXATA SOLUÇÃO

Eq. 40

Eq. 41

Eq. 42

Eq. 43

Eq. 44

Eq. 45

Eq. 46

Eq. 47

Eq. 48

Eq. 49

Eq. 50

Eq. 51

Eq. 52

Eq. 53

UAB 68 Equações Diferenciais e Ordinárias


Tabela 3. Soluções de equações diferenciais exatas envol-
vendo funções trigonométricas e exponenciais

EQUAÇÃO DIFERENCIAL EXATA SOLUÇÃO

y cos xdx + sen xdy = 0 y sen x = C Eq. 54


sen ydx + x cos ydy = 0 x sen y = C Eq. 55
- y sen xdx + cos xdy = 0 y cos x = C Eq. 56
- cos ydx + x sen ydy = 0 x sen y = C Eq. 57
Eq. 58

Eq. 59

• Exemplo 19:

Resolva a equação diferencial xyy’ + x² = 0.

Solução:

Vamos, inicialmente, representar a equação na notação de Leibniz:

Por enquanto, a equação não parece exata. Para tomar a forma necessária a
uma avaliação que permita identificá-la como exata ou não, através da eq.
30, podemos rearranjá-la, multiplicando-a por dx:

xydy + x²dx = 0

Fazendo um novo rearranjo, ou seja, dividindo-a por x:

ydy + xdx = 0

Agora, fazendo uma comparação com a eq. 7:

M (x,y) dx + N (x,y) dy = 0
Eq. 7

teremos que:

M=xeN=y

Equações Diferenciais e Ordinárias 69 UAB


Lembrando que o uso da eq. 30 nos aponta quando ela é exata:

Eq. 30

Calculando:

Como a identidade se verifica, então, ela é exata, pelo que teremos, atra-
vés da eq. 33 da tabela 1, a sua solução:

xy = C

• Exemplo 20:

Resolva a equação diferencial xy’ tg y = 1.

Solução:

Mais uma vez, vamos, inicialmente, representar esta equação na notação de


Leibniz:

Em seguida, vamos juntar todas as variáveis no primeiro membro da equa-


ção, seguindo-se à substituição da função trigonométrica tg por sua defini-
ção:

Multipliquemos a equação por dx:

Multipliquemos a equação por cos y:

x sen ydy - cos ydx = 0

UAB 70 Equações Diferenciais e Ordinárias


Isso nos leva eq. 57 da tabela 3, cuja solução é:

x sen y = C

• Exemplo 21:

Diga se a equação diferencial seguinte é exata, e, em seguida, resolva-a:


3x² ydx + (y + x³)dy = 0

Solução:

Fazendo uma comparação com a eq. 7:

M (x,y) dx + N (x,y) dx = 0
Eq. 7

teremos que:

M = 3x²y e N = y + x³

Lembrando que o uso da eq. 30 nos aponta quando ela é exata:

Eq. 30

Calculando:

Como a identidade se verifica, então, a equação é exata.

Mas, se observarmos melhor, poderemos rearranjar a equação da seguinte


forma:

O termo entre parênteses refere-se à eq. 38 da tabela 1, correspondendo a


d(x³y), de maneira que a equação fica assim:

Equações Diferenciais e Ordinárias 71 UAB


Lembrete Com isso, podemos integrar todos os termos: o primeiro, cuja integral dá ele
mesmo, e o segundo, de fácil integração:

A integral de uma diferencial


é o próprio argumento da
diferencial, ou seja,

. Nesse exemplo, vimos como podemos usar aquelas tabelas de equações di-
ferenciais exatas que possuam alguma parte cuja solução já esteja prevista.

Exercícios propostos
Confirme se as equações diferenciais a seguir são exatas, e, não sendo, tente
reduzi-las a exatas, tais como as apresentadas nas tabelas de 1 a 3, ou ainda,
de forma a apresentar algum termo diferencial constante nas mesmas.

Equações redutíveis a exatas - fatores


integrantes
Glossário Da mesma forma que aprendemos, na aula 3, a reduzir equações diferen-
ciais que não são separáveis a equações separáveis, determinadas equações
diferenciais que não são exatas também podem ser reduzidas a exatas. Esse
Fatores integrantes também
são chamados de fatores de procedimento é realizado através do uso do que chamamos de fatores in-
integração. tegrantes.

Nos exemplos 19 e 21, da aula 3, usamos de um artifício para fazer com que
equações, que antes não eram consideradas exatas, fossem transformadas
em exatas. Este artifício envolvia, normalmente, a multiplicação da referida
equação por um determinado fator, quando não havia necessidade de um
rearranjo.

Há equações diferenciais do tipo visto na eq. 7 que não são exatas, mas que
podem se tornar exatas através da multiplicação das mesmas pelo que cha-
mamos de fatores integrantes. Os fatores integrantes tornam as equações
exatas, quando não o são originalmente, embora se assemelhem à eq. 7.

UAB 72 Equações Diferenciais e Ordinárias


M (x,y)dx + N (x,y)dy = 0
Eq. 7

A condição necessária para que exista um ou mais fatores integrantes para


uma dada equação diferencial é que, se a eq. 7 não é exata, deve possuir
uma solução geral do tipo da eq. 29:

u (x,y) = C
Eq. 29

Uma demonstração simples disso é feita ao se obter a derivada total da


função u (x,y) = C:

Eq. 9

Comparando a eq. 9 com a 7, e, se existe mesmo um fator integrante F,


então:

Eq. 60

de maneira que a eq. 9 fica assim:

Eq. 61

confirmando a existência de um fator integrante F.

Em outras palavras, se existe um fator integrante F, então,

Eq. 62

é exata.

Observe ainda que, ao multiplicarmos ambos os membros da eq. 62 por


qualquer função g (u), obteremos um novo fator integrante g (u) F. Dessa
forma, poderemos dizer que há um número infinito de fatores integrantes
para equações do tipo da eq.7, que possuam solução geral do tipo u (x,y)=C.

Equações Diferenciais e Ordinárias 73 UAB


Para determinarmos alguns fatores integrantes, consideremos que, pela eq.
30 combinada com a eq. 62, teremos:

Eq. 63

Fatores integrantes comuns


É possível usar alguns fatores integrantes mais comuns, que transformem
parte da equação diferencial em uma diferencial exata (como no exemplo
21, da aula passada).

Embora os fatores integrantes sejam o resultado de uma equação diferencial


parcial, cuja solução é bem mais difícil de ser obtida, normalmente, seu uso
se aplica por conveniência. Assim, cabe ao calculista cuidadoso observar a
forma como se apresenta uma dada equação diferencial e discernir quanto
ao uso de algum fator integrante predeterminado.

Na tabela 4, apresentamos os fatores integrantes mais comumente usados,


em função do termo que venha a aparecer na equação diferencial. Esses
fatores lembram, por vezes, as soluções da tabela 2. Observe que, para um
mesmo termo na equação diferencial, poderemos ter mais de um fator in-
tegrante.

A escolha do fator integrante a ser usado, portanto, dependerá de uma


avaliação do calculista quanto à serventia de seu uso, de maneira tal que o
restante da equação diferencial não se torne mais complexa. Seu uso deve-
rá, então, gerar uma equação diferencial que seja separável, permitindo a
obtenção de uma solução por mera inspeção.

UAB 74 Equações Diferenciais e Ordinárias


Tabela 4. Fatores integrantes relacionados com determi-
nados termos em equações diferenciais

TERMO FATOR EQUAÇÃO DIFERENCIAL EXATA RESULTANTE SOLUÇÃO


NA INTE-
EQUAÇÃO GRANTE
DIFEREN-
CIAL
Eq. 40

Eq. 42

Eq. 43

Eq. 46

Eq. 41

Eq. 64

Eq. 65

Eq. 66

Eq. 67
(com a e b
constantes)

Em outras palavras, uma vez que podemos ter vários fatores integrantes para
um mesmo tipo de termo que apareça em uma equação diferencial (observe
a primeira coluna da tabela 4), a escolha do fator a ser usado dependerá dos
demais termos da referida equação.

Assim, deveremos analisar se o fator integrante transformará em funções


integráveis, diretamente, os demais termos que apareçam na equação, para
que toda a equação possa ser possa ser solucionada como uma equação
diferenciável separável.

Equações Diferenciais e Ordinárias 75 UAB


• Exemplo 22:

Diga se a equação diferencial seguinte é exata, e, em seguida, resolva-a:


(y² - y)dx + xdy = 0

Solução:

Fazendo uma comparação com a eq. 7:

M (x,y)dx + N (x,y) dy= 0


Eq. 7

teremos que:

M = y²-y e N = x

Lembrando que o uso da eq. 30 nos aponta quando ela é exata:

Eq. 30

Calculando:

Como a identidade não se verifica, então, ela não é exata. De qualquer for-
ma, podemos rearranjar a equação:

Observe que o termo entre parênteses admite ao menos quatro fatores in-
tegrantes, como os apresentados na tabela 4. Devemos usar um fator que,
ao multiplicar toda a equação, torne o outro termo fácil de ser solucionado
por integração direta.

Assim, adotando o fator de integração , ao multiplicar a equação, tere-

mos, usando a eq. 43:

UAB 76 Equações Diferenciais e Ordinárias


Agora, poderemos integrar e obter a solução:

• Exemplo 23:

Diga se a equação diferencial seguinte é exata, e, em seguida, resolva-a: y -


xy² + ( x + x² + y² ) y’ = 0

Solução:

Primeiramente, escrevamos a equação na notação de Leibniz, e separemos


as diferenciais, multiplicando-a por dx:

Fazendo uma comparação com a eq. 7:

M (x,y)dx + N(x,y)dy = 0 Atenção


Eq. 7

Observe que M = M (x,y) e


teremos que: N = N (x,y), ou seja, as funções
M e N dependem das variáveis
x e y. Por isso é que suas
M = y - xy² e N = x + x²y² derivadas

e são parciais.
Lembrando que o uso da eq. 30 nos aponta quando ela é exata:
Como F = F (x), ou seja, o fator
integrante só depende da
variável x, então sua derivada

Eq. 30 não é parcial.

Equações Diferenciais e Ordinárias 77 UAB


Calculando:

Como a identidade não se verifica, então, ela não é exata. Rearranjando a


equação:

Observe que o termo entre parênteses consta da tabela 4. Usando o fator


Atenção integrante da eq. 64, com n = 2, ou seja :

A omissão da constante de
integração, no desenvolvimento
da eq. 70, se deve a o fator
de integração que será usado
para multiplicar uma equação
inteira (a equação que não é
exata ainda). Dessa forma, as
Agora, podemos integrar os termos diretamente e obter a solução:
constantes de integração se
somariam e resultariam em uma
só, que somada à constante
de integração advinda
da resolução da equação
diferencial que se tornou exata,
pelo emprego do fator de
integração, também resultaria
em apenas uma constante de
integração final.

Exercícios propostos
Confirme se as equações diferenciais a seguir são exatas, e, não sendo, tente
reduzir, ao menos, parte delas a exatas, tais como as apresentadas na tabela
4, indicando qual fator de integração foi utilizado. Em seguida, resolva-as,
apresentado a equação primitiva.

UAB 78 Equações Diferenciais e Ordinárias


Determinação de fatores integrantes
Podemos avaliar alguns tipos de fatores integrantes através de algumas si-
tuações comuns:

• 1º caso: F = F (x)

Ou seja, se o fator integrante for uma função que somente dependa de x, ao


desenvolvermos a eq. 63, teremos:

Assim: Atenção

Mais, uma vez, como F = F (y),


ou seja, o fator integrante só
depende da variável y, então
Eq. 68 sua derivada não é parcial.
Uma vez que a identidade da eq. 68 se verifica, vale dizer que, se só de-

pende de x, então o termo que multiplica o diferencial dx também só depen-


de da variável x. Logo o chamaremos de :

Eq. 69

Combinando a eq. 68 com a 69, teremos:

Eq. 70

O fator integrante poderá ser determinado por integração da eq. 70:

de maneira que:

Eq. 71

Equações Diferenciais e Ordinárias 79 UAB


Na prática, fazemos assim:

1) Determinamos o quociente . Se ele der uma função que só

depende de x, então:

2) Calculamos o fator integrante:

Eq. 72

3) Aplicamos o fator integrante F, encontrado através da eq. 72, e chegamos


à eq. 62:

FM (x,y) dx + FN (x,y) dy = 0
Eq. 62

que será exata.

4) Por fim, fazemos o procedimento para determinação de uma solução de


uma equação diferencial exata.

• 2º caso: F = F (y)

Ou seja, se o fator integrante for uma função que somente dependa de y, ao


desenvolvermos a eq. 63, teremos:

Assim:

Eq. 73

Uma vez que a identidade da eq. 73 se verifica, vale dizer que, se só

depende de y, então, o termo que multiplica o diferencial dy também só


depende da variável y. Logo o chamaremos de :

UAB 80 Equações Diferenciais e Ordinárias


Eq. 74

Combinando a eq. 73 com a 74, teremos:

Eq. 75

O fator integrante poderá ser determinado por integração da eq. 75:

de maneira que:

Eq. 76

Na prática, fazemos assim:

1) Determinamos o quociente . Se ele der uma função que só

depende de y, então:

2) Calculamos o fator integrante:

Eq. 77

3) Aplicamos o fator integrante F, encontrado através da eq. 77, e chegamos


à eq. 62:

Eq. 62

que será exata.

4) Por fim, fazemos o procedimento para determinação de uma solução de


uma equação diferencial exata.

Equações Diferenciais e Ordinárias 81 UAB


• 3º caso: , em que ,

Ou seja, se o fator integrante for uma função que dependa do produto de x


por y, ao desenvolvermos a eq. 63, teremos:

Observe que, como , sua derivada será a derivada de multipli-


cada pela derivada do argumento interno, . Como sua derivada não deve
ser considerada parcial, então . Logo:

Assim:

Eq. 78

Uma vez que a identidade da eq. 73 se verifica, vale dizer que, se depen-

de de , então, o termo que multiplica o diferencial du, também de-


pende do produto . Assim o chamaremos de :

Eq. 79

Combinando a eq. 78 com a eq. 79, teremos:

Eq. 80

UAB 82 Equações Diferenciais e Ordinárias


O fator integrante poderá ser determinado por integração da eq. 80:

de maneira que:

Eq. 81

Na prática, fazemos assim:

1) Determinamos o quociente . Se ele der uma função que

depende do produto , então:

2) Calculamos o fator integrante:

Eq. 82

3) Aplicamos o fator integrante F, encontrado através da eq. 82 e chegamos


à eq. 62:

Eq. 62

que será exata.

4) Por fim, Fazemos o procedimento para determinação da solução de uma


equação diferencial exata.

Esse 3º caso admite uma solução mais simples, quando ocorrer de


, em que u = xy. Nesse caso, o fator integrante
é simplesmente:

Eq. 83

• 4º caso: , em que , com e

Equações Diferenciais e Ordinárias 83 UAB


Ou seja, se o fator integrante for uma função que dependa do quociente de
x por y, ao desenvolvermos a eq. 63, teremos:

Assim, com e com :

Eq. 84

Uma vez que a identidade da eq. 84 se verifica, vale dizer que, se depen-

de de , então, o termo que multiplica o diferencial du, também depende

do quociente . Logo o chamaremos de :

Eq. 85

Combinando a eq. 84 com a 85, teremos:

Eq. 80

O fator integrante poderá ser determinado por integração da eq. 80:

de maneira que:

UAB 84 Equações Diferenciais e Ordinárias


Eq. 81

Na prática, fazemos assim:

1) Determinamos o quociente . Se ele der uma função que

depende do produto , então:

2) Calculamos o fator integrante:

Eq. 86

3) Aplicamos o fator integrante F, encontrado através da eq. 86 e chegamos


à eq. 62:

Eq. 62

que será exata.

4) Por fim, fazemos o procedimento para determinação da solução de uma


equação diferencial exata.

• 5º caso: , em que , com e

Ou seja, se o fator integrante for uma função que dependa do quociente de


y por x, ao desenvolvermos a eq. 63, teremos:

Assim, com e com :

Eq. 87

Equações Diferenciais e Ordinárias 85 UAB


Uma vez que a identidade da Eq. 87 se verifica, vale dizer que, se depen-

de de , então o termo que multiplica o diferencial , também depen-

de do quociente . Chamemo-lo de :

Eq. 88

Combinando a Eq. 87 com a 88, teremos:

Eq. 80

O fator integrante poderá ser determinado por integração da Eq. 80:

de maneira que:

Eq. 81

Na prática, fazemos assim:

1) Determinamos o quociente . Se ele der uma função que

depende do produto , então:

2) Calculamos o fator integrante:

Eq. 89

UAB 86 Equações Diferenciais e Ordinárias


3) Aplicamos o fator integrante F, encontrado através da Eq. 89 e chegamos
à Eq. 62:

FM (x, y) dx + FN (x, y) dy = 0
Eq. 62

que será exata.

4) Por fim, fazemos o procedimento para determinação de uma solução de


uma equação diferencial exata.

• 6º caso:

Seja a diferencial não exata:

Eq. 90

sendo A, B, C e D, bem como a, b, c e d, constantes, desde que AD BC.


Podemos determinar um fator integrante da forma , sendo p e q
constantes de fácil obtenção algébrica.

• Exemplo 24:

Diga se a equação diferencial seguinte é exata, e, em seguida, resolva-a:


.

Solução:

Sejam

Já que , então, a equação não é exata. Entretanto, podemos

perceber que, com um arranjo do tipo:

Equações Diferenciais e Ordinárias 87 UAB


a equação se torna parecida com a eq. 90. Dessa forma, podemos multipli-
cá-la pelo fator integrante :

Isso dará:

que deverá ser exata. Considerando isso e lembrando que, numa equação

diferencial exata :

Fazendo então:

de onde tiramos o sistema:

cuja solução é: p = 0 e q = -3. Dessa forma, nosso fator integrante será:

Aplicando o fator integrante, teremos a equação diferencial exata:

UAB 88 Equações Diferenciais e Ordinárias


Resolvendo por , da eq. 31, em que, nesse caso
:

derivando-a em relação a y:

Como (eq. 10), então:

do que se tira que . Logo, , por integração.

Finalmente, aplicando este valor em u:

Rearranjando:

, onde

Esta é a equação primitiva ou solução da equação diferencial apresentada.

Segue-se a tabela 5, em que apresentamos um resumo para o reconhe-


cimento de equações diferenciais, cujos fatores de integração podem ser
calculados;

Equações Diferenciais e Ordinárias 89 UAB


Tabela 5. Equações diferenciais não exatas e fatores de
integração

EQUAÇÃO DIFERENCIAL FATOR INTEGRANTE


M (x,y) dx + N (x,y) dy = 0

Eq. 72

Eq. 77

Eq.82

Eq. 83

Eq. 86

Eq. 89

Eq. 90
(nesste último caso, ver procedimento, através do exemplo 24)

• Exemplo 25:

Avalie se a equação diferencial a seguir é exata; não sendo, encontre um


fator integrante e resolva-a:

(y + 3) dx - 2xdy = 0

Solução:

UAB 90 Equações Diferenciais e Ordinárias


Como , a equação diferencial não é exata.

Pela tabela 5, vemos que , Logo, pela

eq. 72, o fator integrante é:

Usando este fator integrante na equação dada:

veremos que a mesma se tornou exata.

Resolvendo por , da eq.32, em que, neste caso :

derivando-a em relação a x:

Como (eq. 10), então:

do que se tira que . Logo, , por integra-


ção.

Finalmente, aplicando este valor em u:

Rearranjando, multiplicando tudo por – 2x1/2:

Esta é a equação primitiva ou solução da equação diferencial apresentada.

Equações Diferenciais e Ordinárias 91 UAB


• Exemplo 26:

Avalie se a equação diferencial a seguir é exata; não sendo, encontre um


fator integrante e resolva-a:

Solução:

Escrevamos a equação na notação de Leibniz e multipliquemos a equação


por dx:

Vejamos se a equação é exata:

-1

Como , não é exata.

Observemos, entretanto que a equação pode ser reescrita como:

em que podemos dizer que

M = y (xy - 1) e N = x (-1)

Pela tabela 5, usando a eq. 83, teremos:

Usando este fator integrante na equação dada:

UAB 92 Equações Diferenciais e Ordinárias


Como, agora,

ou seja, , veremos que a equação se tornou exata.

Resolvendo por , da eq.32, em que, neste caso :

Derivando-a em relação a x:

Como (eq. 10), então:

donde se tira que . Logo, , por integração.

Finalmente, aplicando este valor em u:

Rearranjando, isolando y:

Equações Diferenciais e Ordinárias 93 UAB


Essa é a equação primitiva ou solução da equação diferencial apresentada.

Exercícios propostos
Encontre as soluções gerais das seguintes equações diferenciais (procure
arrumá-las inicialmente, a fim de obter equações diferenciais lineares de pri-
meira ordem, homogêneas ou não homogêneas).

Resumo
Nesta aula, avançamos sob diversos aspectos, aprendendo, inicialmente, al-
guns conceitos e procedimentos:

1. Equações diferenciais ordinárias separáveis;

2. Métodos e técnicas necessárias à obtenção das equações primitivas;

Também aprendemos:

3. Mecanismos que possibilitam a redução de equações diferenciais não se-


paráveis em separáveis;

4. O conceito de equações diferenciais exatas;

5. Como obter soluções para as equações diferenciais exatas, estudando


alguns mecanismos, bem como fazendo uso de tabelas apropriadas para
facilitar algumas dessas soluções.

UAB 94 Equações Diferenciais e Ordinárias


Respostas dos exercícios propostos

Equações Diferenciais e Ordinárias 95 UAB


Referências
AYRES Jr., F. Coleção Schaum: equações diferenciais. Rio de Janeiro: AO Livro Técnico
S.A., 1966.
BRONSON, Richard. Coleção Schaum: moderna introdução às equações diferenciais.
São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1977.
KORN, G.A.; KORN, T.M. Mathematical handbook for scientists and engineers:
definitions, theorems, and formulas for reference and review. (Originally published: 2nd,
enl. and rev. ed. New York: McGraw-Hill, 1968). New York: Dover edition, 2000.
KREYSZIG, E. Matemática superior, Vol. 1: equações diferenciais ordinárias. 2. ed. Rio
de Janeiro: LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 1983.
TENEMBAUM, M.; POLLARD, H. Ordinary differential equations: an elementary
textbook for students of mathematics, engineering, and the sciences. (Dover edition
reprint, 1985). New York: of Harper & Row, New York, 1963.

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