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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Criminosos viajantes, vigilantes modernos.

Circulações policiais entre Rio de Janeiro e

Buenos Aires, 1890-1930.

Diego A. Galeano

2012
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
Programa de Pós-Graduação em História Social

Criminosos viajantes, vigilantes modernos.


Circulações policiais entre Rio de Janeiro e
Buenos Aires, 1890-1930.

Diego A. Galeano

Tese de Doutorado apresentada ao


Programa de Pós-graduação em História
Social, Instituto de Filosofia e Ciências
Sociais, da Universidade Federal do Rio
de Janeiro, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do título de Doutor
em História Social.

Orientador: Prof. Dr. Marcos Luiz Bretas


da Fonseca

Rio de Janeiro
Julho de 2012
Criminosos viajantes, vigilantes modernos. Circulações policiais entre
Rio de Janeiro e Buenos Aires, 1890-1930.

Diego A. Galeano

Orientador: Prof. Dr. Marcos Luiz Bretas da Fonseca

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em História


Social, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor
em História Social.

Aprovada por:

_______________________________

Presidente, Prof.

_______________________________

Prof.

_______________________________

Prof.

_______________________________

Prof.

_______________________________

Prof.

Rio de Janeiro
Julho de 2012
GALEANO, Diego A.
Criminosos viajantes, vigilantes modernos. Circulações policiais entre Rio de Janeiro e Buenos
Aires, 1890-1930/ Diego Antonio Galeano - Rio de Janeiro: UFRJ/ IFCS, 2012.
x, 384 f.: Il.; 31 cm.
Orientador: Marcos Luiz Bretas da Fonseca
Tese (doutorado) – UFRJ/ Instituto de Filosofia e Ciências Sociais/ Programa de Pós-
Graduação em História Social, 2012.
Referências Bibliográficas: f. 346-384.
1. História da polícia. 2. História social do crime. 3. História transnacional. 4. Cooperação
policial sul-americana.
I. Fonseca, Marcos Luiz Bretas da. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais, Programa de Pós-Graduação em História Social. III. Criminosos
viajantes, vigilantes modernos. Circulações policiais entre Rio de Janeiro e Buenos Aires,
1890-1930.
RESUMO

Criminosos viajantes, vigilantes modernos. Circulações policiais entre Rio de Janeiro


e Buenos Aires, 1890-1930

Diego A. Galeano

Orientador: Prof. Dr. Marcos Luiz Bretas da Fonseca

Resumo da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em


História Social, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do
Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de
Doutor em História Social.

A tese analisa as trocas formais e informais entre as polícias metropolitanas do


Rio de Janeiro e Buenos Aires, consolidadas durante as primeiras duas décadas do
século XX. A rede de cooperação surgiu em um momento em que estas polícias
estavam atravessando profundos processos de reforma institucional. Estas reformas
buscavam soluções para problemas comuns em ambas as cidades, desafios
provenientes dos intensos processos de urbanização pelo fluxo maciço de imigrantes
europeus. Estas cidades portuárias foram se tornando conglomerados metropolitanos
onde as pessoas mal se conheciam umas a outras e os Estados tiveram que
desenvolver novas tecnologias para governar as sociedades: um dos principais
desafios foi controlar uma população em constante movimento, bem como com
novos fenômenos de criminalidade que adquiriram um caráter transnacional. Para
enfrentar estas questões, foram feitas propostas para coordenar as forças policiais,
iniciando um período de reuniões, viagens, intercâmbios de informação e tecnologias.
O ponto culminante deste processo foi a organização de duas conferências policiais
sul-americanas, reunidas em Buenos Aires em 1905 e 1920, encontros onde a
categoria de "criminoso viajante" ocupou um lugar central.

Palavras-chave: História da polícia; História social do crime; História transnacional;


Cooperação policial sul-americana.

Rio de Janeiro
Julho de 2012
ABSTRACT

Traveling Criminals, Modern Cops. Police circulations between Rio de Janeiro and
Buenos Aires, 1890-1930

Diego A. Galeano

Orientador: Prof. Dr. Marcos Luiz Bretas da Fonseca

Abstract da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em


História Social, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do
Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de
Doutor em História Social.

The thesis looks into formal and informal exchanges between the urban police
forces of Rio de Janeiro and Buenos Aires, which were consolidated over the first
two decades of 20th century. This network developed over a period during which
policing institutions had undertaken considerable internal reforms, which shared
common problems in the kinds of urban development experienced by port cities with
an influx of European immigrants. These cities were becoming conglomerates where
people hardly knew each other and the State had to develop new technologies to
manage urban society: one of the main challenges was to control a population in
constant movement, as well as with new crime phenomena that acquired a
transnational status. In order to deal with this problem, proposals were made to
coordinate urban police forces, starting a period of meetings, trips, information and
technological exchange. The culmination of this process was the organization of two
Police Conferences in Buenos Aires in 1905 and 1920, meetings in which the
category of "traveling criminal" occupied a more central place.

Key-words: History of Police; Social History of Crime; Transnational History; South


American Police Cooperation.

Rio de Janeiro
Julho de 2012
A Giuseppe Galeano, inmigrante italiano
que, procedente del puerto de Génova,
desembarcó en Buenos Aires el primero de
mayo de 1909. Día turbulento, célebre por los
disparos policiales contra la multitud
anarquista.

A Bartolo Galeano, el hijo que Giuseppe


gestó en Argentina aunque nació en Italia por
un cisma sentimental. Luego de viajes y
guerras, embarcó hacia Buenos Aires en
diciembre de 1949, para reencontrarse con su
hermosa enamorada, Carmela Ruggieri.

A Antonio Faustino Galeano, hijo de


Bartolo y Carmela, mi padre, mi más fiel
lector.

vi
Agradecimentos

Em 1956, cheio de saudades de sua família na Argentina, o escritor Manuel


Puig escreveu-lhes uma carta do porto de Santos. O texto terminava assim: “en los
momentos que extraño mucho, me pongo enseguida a hablar con alguien o a hacer
algo, sino es cuestión de tirarse al agua y volver a nado”. Não foram poucas as
vezes que, por saudades, e até pela sensação de que a tese era uma coisa pesada
demais, senti vontade de entrar na água e fugir nadando. Mas, como Puig, optei por
ficar no porto e continuar a viagem. Assim como os ladrões desta tese, a pesquisa se
passou numa viagem constante entre Buenos Aires e Rio de Janeiro. Muitos são os
que ainda não acreditam que a viagem possa ser um modo de vida e alguns
desconfiam até hoje dessa conversa do doutorado no Brasil. Outros, com o tempo,
aprenderam a me entender. A todos esses quero dedicar esta tese, porque souberam
estar ao meu lado quando necessitava de distração e me entenderam quando
precisava submergir na escrita.

Ao bando de gatunos transnacionais que me acompanharam estes anos no Rio


de Janeiro, em especial: à Juliana Barbassa, oriunda de Minas Gerais, mas quem sabe
melhor do que eu o que é se mudar para viver em outro lado; a Daniel Silva, o
primeiro a me ensinar, por suas pesquisas e pela vida, tudo o que devia desconfiar na
violência de certas palavras; à Ruth Goldstein, por muitas noites cariocas, por me
abrir as portas de sua casa nos Estados Unidos e por facilitar meu acesso à biblioteca
da Universidade de Berkeley, onde por casualidade terminei algum capítulo da tese;
à Ana María Pérez, seleta colega em conversações de café (provedora, ainda, de
seletos cafés colombianos); à Rachel Cardoso, historiadora da Fiocruz, a quem
conheci em uma tarde no Itamaraty, por sua enorme generosidade nestes últimos
meses e pela noite de tangos com Kelin no portenhíssimo “bar de Roberto”. À Belén

vii
Hirose, Flora Charner, Yon Asdks, Tuomas Saikkonen e aos Fernandos, Borbolleto
Iaderosa e Sathler Breder, que também foram grandes companheiros de banquetes,
dias de praia e carnavais.

À minha família e amigos paulistas, aos que devo muito do que aprendi do
Brasil. Bernadete Fadel, Luciana Fadel, Tibor Hary e Gustavo Fadel Hary que se
converteram em uma parte fundamental da minha vida nesses últimos cinco anos. A
chácara de Itanhaém foi, sem dúvidas, o melhor lugar para escrever. Em cada um dos
dias que passei no litoral de São Paulo, conheci pessoas maravilhosas que hoje são
grandes amigos: quero agradecer particularmente a companhia e amizade de Viviane
e Monique. E no interior de São Paulo, em Santa Rita do Passa Quatro, muitas foram
as pessoas que rapidamente me trataram como parte da família: Erika, Paulinho,
Victor, os tios Nim, Vera, Paulo, Neuza, Nenê, Carmen e Alba Puig. Obrigado a
todos. A Vinícius Fadel, meu companheiro, por suportar todas as loucuras que
rodeiam meu trabalho de historiador e, em particular, a escrita de uma tese. Foi meu
grande suporte nestes anos em que transitei pelo doutorado com constantes mudanças
de ânimo, e também algumas perdas de seres queridos. Sua perseverança e
estabilidade se converteram em colunas fundamentais.

Ao meu círculo íntimo de La Plata, que segue sendo, mesmo à distância, outro
grande suporte. A meus pais, Antonio Galeano e Alejandra Graiver, e à minha irmã
Victoria Galeano, nunca deixarei de os agradecer pela absoluta incondicionalidade.
À Lucía, Vicky, Ana, Caro, Toto, Ramiro, Martín e Juan, amigos de tantos anos, que
souberam – mesmo com algumas inevitáveis reclamações – transmitir a certeza de
que ali estão, apesar das distâncias que o doutorado e a vida em outro país impôs. À
minha tia Andrea, Nito e María Elina, meus tios Susana e Nenel, quem têm sido,
cada um a sua maneira, absolutamente vitais. À minha avó Carmela, que desde
criança me contava histórias sobre o navio que a trouxe da Itália, e nessas histórias
leio muito das minhas fascinações atuais com as viagens e os viajantes. A ela dedico
especialmente esta tese, agora que perdeu sua filha, a querida tia Chicha, cuja morte
foi um golpe muito duro para mim nos trechos finais da tese.

Aos colegas e amigos da Universidade Nacional de La Plata: Tomás Bover,


Agustina Ugolini, Osvaldo Barreneche, Antonio Camou, María Eugenia Rausky,

viii
Mariana Di Bello, Luis Santarsiero e, em especial, à minha pequena debilidade,
Sabrina Calandrón. Também à própria universidade onde me formei em sociologia e
onde fui docente pela primeira vez, além de dar meus primeiros passos como
pesquisador: a ela, a seus espaços, à sua biblioteca, às livrarias que a rodeiam, aos
livreiros que as habitam, a meus bares favoritos, devo muito do que hoje sou.

Às instituições que financiaram distintos aspectos do trabalho de pesquisa. À


Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), do
governo brasileiro, que me concedeu uma bolsa de doutorado através do Programa de
Estudante-Convenio de Pós-graduação (PEC-PG). Ao programa CIRSAP
(Circulation et construction des savoirs policiers européens, 1650-1850), patrocinado
pela Agence Nationale de la Recherche, que custeou minha viagem para participar
nas Jornadas de Estudo “Polices et savoirs policiers: Europe méridionale, espaces
coloniaux, Amérique du Sud”, realizadas em junho de 2008 na Maison
Méditerranéenne des Sciences de L’homme de Aix-en-Provence, França. Também à
Fundação SEPHIS (South-South Exhange Programme for Research on the History of
Development), dos Países Baixos, que financiou minha participação no XIII Annual
Cultural Studies Workshop “Urban Cultures”, organizado pelo Centre for Studies in
Social Sciences, Calcutta, India, em fevereiro de 2009. E finalmente, à Latin
American Studies Association (LASA), por me outorgar uma bolsa de viagem para
participar de um simpósio no marco do XXIX Congress of the Latin American
Studies Association, celebrado em Toronto, Canadá, em outubro de 2010.

Aos bibliotecários e arquivistas das distintas instituições a que esta tese foi me
levando. Estou agradecido pelo tempo dedicado por muitos funcionários dos
arquivos nacionais da Argentina e Brasil, do Arquivo Histórico do Itamaraty e de
diversas seções da Biblioteca Nacional Argentina. Seria difícil mencionar a todos,
mas sem eles, nunca é demais dizer, este trabalho teria sido impossível.

Aos meus amigos da Universidade de San Andrés e da “policiologia”


argentina: Eduardo Zimmermann, Ana Cecchi, Fernando Casullo, Melisa Fernández
Marrón, Cecilia Allemandi, Mercedes García Ferrari, Mariana Nazar, e a todos os
demais integrantes do grupo, com quem organizamos em 2008 as primeiras jornadas
sobre a polícia em perspectiva histórica. Todos eles conformam um espaço que não

ix
para de crescer e acolher novos colegas. Dentro deste grupo, uma menção particular
merece minha mestra, conselheira e camarada de infinitas aventuras policiais: Lila
Caimari, a quem devo grande parte da minha formação como historiador e, por que
não, como pessoa.

A meu amigo Cristian Alarcón e às suas águilas humanas, porque


compartilhamos, ele como cronista, eu como historiador, uma mesma paixão pela
literatura e pela imprensa policial. Aos diversos colegas que leram, comentaram e
criticaram avanços deste trabalho: além das pessoas já mencionadas, José Murilo de
Carvalho, Felipe Magalhães, Leonardo Pereira, Piroska Csuri, Sandra Gayol, Ricardo
Salvatore, Diego Armus, Mariano Plotkin, Anirban Das, Ryan Centner, Brigitte
Marin, Catherine Denys, Dominique Kalifa, Vincent Denis, Pierre Piazza e, claro, a
meu orientador, Marcos Bretas, que sem tal generosidade para receber-me em sua
casa, emprestar-me livros, me escutar e incentivar a escrever, esta tese não teria
chegado nunca ao seu fim. Entre todos estes leitores, a colaboração de Cristiana
Schettini, e sua capacidade aguda de ler e realizar comentários precisos, além de seu
carinho permanente comigo, são das melhores recordações que tenho desta tese.

Impossível fechar este agradecimento sem mencionar uma pessoa. O


reconhecimento do lugar que teve neste processo é também impossível, porque
necessitaria redigir outra tese para explicar tudo o que fez por mim. Cobriu todos os
problemas que a distância com Buenos Aires podia suscitar, leu e releu cada coisa
que escrevi, discutiu comigo cada ideia com entusiasmo que às vezes disputava meu
próprio encantamento com a tese. Esteve, ainda, ao meu lado quando a odiei, nos
inevitáveis momentos de fúria. Fez isso e muito mais. É para mim um amigo, um
irmão, um companheiro de galáxia. Essa pessoa se chama Juan Pablo Canala.

x
Sumário

Abreviaturas ....................................................................................................... 4

Lista de ilustrações ............................................................................................. 5

Nota sobre as traduções ..................................................................................... 9

INTRODUÇÃO .................................................................................................. 10

Um objeto (cada vez menos) opaco ...................................................................... 14

Arquivos e bibliotecas nacionais ......................................................................... 20

Histórias transnacionais ...................................................................................... 29

PARTE I. CARTOGRAFIAS DO CRIME SUL AMERICANO ................... 35

CAPÍTULO 1. Rotas indesejáveis ..................................................................... 36

1.1. O espaço atlântico sul americano .................................................................. 42


1.2. A circulação de modelos policiais ................................................................. 50
1.3. Reincidentes, incorrigíveis e ladrões profissionais ........................................ 58
CAPÍTULO 2. Capitais em movimento ........................................................... 71

2.1. Cidades e cobiças .......................................................................................... 79


2.2. Uma Belle Époque delitiva ............................................................................ 88

PARTE II. TECNOLOGIAS E CIRCULAÇÕES ........................................... 99

CAPÍTULO 3. As polícias estrangeiras ............................................................ 100

3.1. As visitas de estudo ....................................................................................... 111


3.2. Modelos para armar: fascinação e desencanto ............................................... 126

CAPÍTULO 4. O bureau e o laboratório .......................................................... 138

4.1. Simulações e identidades ............................................................................... 144


4.2. Os gabinetes antropométricos ........................................................................ 154
4.3. A linguagem universal ................................................................................... 170

CAPÍTULO 5. Encontros de policiais ............................................................... 181

5.1. Congressos, Convênios, Conferências ........................................................... 192


5.2. Expulsões, telegramas e receios ..................................................................... 208

PARTE III. LA CHASSE À L’HOMME ........................................................... 226

Interlúdio: bandidos e detetives ........................................................................ 227


CAPÍTULO 6. A sociedade dos malfeitores ..................................................... 241

6.1. A Maffia Criolla e os gatunos internacionais ................................................ 247


6.2. Histórias de punguistas viajantes ................................................................... 260
6.3. O calão dos delinquentes ............................................................................... 275

CAPÍTULO 7. A aristocracia do roubo ........................................................... 285

7.1. Cenas do rato de hotel ................................................................................... 293


7.2. A performance dos trapaceiros ...................................................................... 307

EPÍLOGO ........................................................................................................... 329

“Aquellos solitarios lunfardos internacionales...” ............................................... 329


Considerações finais ............................................................................................. 338

FONTES E BIBLIOGRAFIA ............................................................................ 346


Abreviaturas

AGN. Archivo General de la Nación, Buenos Aires, Argentina.

AHC. Archivo Histórico de la Cancillería, Buenos Aires, Argentina.

AHI. Arquivo Histórico do Itamaraty, Rio de Janeiro, Brasil.

AN. Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, Brasil.

BNA. Biblioteca Nacional Argentina, Buenos Aires, Argentina.

BNB. Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro, Brasil.

CEHP. Centro de Estudios Histórico-Policiales “Francisco Romay”, Policía


Federal Argentina, Buenos Aires, Argentina.
Lista de ilustrações

1. “Fotografia ao interior de um dos quartos”. Fonte: AN, Fundo IJJ7, Caixa 133,
Processo de Expulsão de Francisco Barbieri, 1928 [pag. 40].

2. Mapa do espaço atlântico sul-americano. Fonte: “South America”, Americanized


Encyclopedia Britanica, Vol. 1, Chicago, 1892 [pag. 44].

3. Caricatura de Deodoro da Fonseca. Fonte: BNA, Don Quijote, Buenos Aires, 15 fev.
1891 [pag. 81].

4. “Avenida Central” (Rio de Janeiro, 1906) Fotografia de Augusto Malta. Fonte:


Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro [pag. 91].

5. “Buenos Aires. Os Palácios da Avenida de Mayo”. Fonte: Arthur Dias, Do Rio a


Buenos Aires, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1901, p. 90 [pag. 91].

6. “El Canfinflero”. Fonte: BNA, Sherlock Holmes, Año II, n. 58, Buenos Aires 6 ago.
1912, p. 29 [pag. 96].

7. Viagem a Paris de Manuel Mujica Farías. Fonte: Revista de Policía, Año IV, n. 80,
Buenos Aires, 16 set. 1900, p. 117 [pag. 129].

8. “Modelo de cartão antropométrico”. Fonte: João Brasil Silvado, O serviço policial


em Paris e Londres, 1895, p. 95 [pag. 136].

9. “Tomada do assignalamento anthropométrico”. Fonte: João Brasil Silvado, O


serviço policial em Paris e Londres, 1895, p.113 [pag. 149].

10. Fotografia Judiciária da Polícia da Capital Federal (1896). Fonte: AN, Fundo GIFI,
6C8 [pag. 152].

11. Manuel Rossi, retratado em agosto de 1889. Fonte: BNA, Galería de Ladrones,
1888-1891. Buenos Aires, 1892, ficha 34 [pag. 152].
12. Ficha antropométrica de Justino Carlo, vulgo Carletto (frente). Fonte: BNB,
Hermeto Lima, A identidade do homem pela impressão digital, 1908, p. 16 [pag.
163].

13. Juan Vucetich. “Ficha de canje universal”. Fonte: IV Congreso Científico


Latinoamericano (1º Panamericano), Santiago de Chile, 1908 [pag. 174].

14. Luciano Ludueña, retratado em julho de 1889. Fonte: CEHP, Galería de Ladrones
de la Capital, 1881-1891. Buenos Aires, 1887, ficha 40 [pag. 188].

15. Alberto Gomensoro, retratado em junho de 1889. Fonte: CEHP, Galería de


Ladrones de la Capital, 1881-1891. Buenos Aires, 1887, ficha 84 [pag. 188].

16. “El Doctor Beazley, por Mayor”. Fonte: BNA, Caras y Caretas, n. 22, Buenos
Aires, 4 mar. 1899 [pag. 189].

17. “La Policía de Río de Janeiro. El viaje del Doctor Beazley”. Fonte:BNA, Revista de
Policía, n. 55, Buenos Aires, 1 sep. 1899 [pag. 191].

18. “Despedida del Presidente Campos Sales – Grupo de Comisarios”. Fonte: BNA,
Revista de Policía, n. 84, Buenos Aires, 16 nov. 1900, p. 81 [pag. 192].

19. “Os Srs. Vucetich e Felix Pacheco trabalhando no Gabinete de Identificação do Rio
de Janeiro”. Fonte: Renascença. Revista mensal de letras, sciencias e artes, n. 49,
Rio de Janeiro, 1908, p. 89 [pag. 201].

20. “Dr. Félix Pacheco”. Fonte: BNA, Boletín de Policía, Año I, n.10, Buenos Aires, 15
sep. 1905, p. 1 [pag. 202].

21. “Congreso Internacional Dactiloscópico – La primera sesión”. Fonte: BNA, Boletín


de Policía, Año I, n. 12, Buenos Aires, 15 oct. 1905, p. 8 [pag. 204].

22. “Conferencia internacional entre as polícias”. Fonte: Renascença. Revista mensal de


letras, sciencias e artes, n. 49, Rio de Janeiro, 1908, p. 88 [pag. 204].

23. Ficha individual dactiloscópica. Frente e verso. Fonte: AN, IJJ7 179, 1927 [pag.
211].

24. Prontuário de Cayetano Amadeo Piaggio. Fonte: AN, GIFI 6C 454, 1913 [pag. 218].

6
25. Conferencia Sudamericana de Policía (1920). Fonte: AGN, sección de fotografías,
Inv. 189.824 [pag. 221].

26. “Discurso del delegado paraguayo” (1920). Fonte: AGN, sección de fotografías, Inv.
92.640 [pag. 223].

27. “Fotografia da Wild Bunch”. Fonte: Forth Woth Five, fotografia de John Schwartz,
Texas, 1900 [pag. 229].

28. Cartaz com pedido de captura da Wild Bunch. Fonte: BNA, Boletín de Policía, jan.
1906, s/n. [pag. 234].

29. Manuel Aróztegui, “El apache argentino” (circa 1913). Fonte: BNA, Coleção de
Partituras, Inv. 179639 [pag. 246].

30. “La Mafia Criolla”. Fonte: BNA, Sherlock Holmes, año III, n. 80, 9 ene. 1923, p. 32
[pag. 250].

31. Feliciano Mauriño, retratado em junho de 1889. Fonte: CEHP, Galería de Ladrones
Conocidos, Buenos Aires, 1904, ficha 202 [pag. 252].

32. Retrato do “Rusito de Palermo”. Fonte: BNA, Magazine Policial, Año II, n. 9,
Buenos Aires, abr. 1923, p. 24 [pag. 253].

33. “Ladrões batedores de carteiras”. Fonte: BNB, Revista Criminal, ano II, n. 18, Rio
de Janeiro, jul. 1928, p. 73 [pag. 259].

34. Retrato fotográfico de Almada ou Melgarejo ou Mujica. Fonte: BNA, Magazine


Policial, Año IV, n. 45, Buenos Aires, jun. 1926, p. 10 [pag. 262].

35. Retrato fotográfico de Almada ou Melgarejo ou Mujica. Fonte: BNB, Revista


Policial, ano I, n. 1, Rio de Janeiro, 15 out. 1919, p. 11 [pag. 262].

36. Ficha de identificação de Angelo Funes. Fonte: AN, Fundo IJJ7 139, 1922 [pag.
267].

37. Retrato de Arthur Narbona. Fonte: AN, Fundo IJJ7 142 (1927) [pag. 269].

38. Retrato de Arthur Narbona. Fonte: BNB, Revista Criminal, Ano I, n. 8, Rio de
Janeiro nov. 1927, p. 33 [pag. 271].

7
39. Retrato de Alfredo Sinquetti. Fonte: AN, Fundo IJJ7 126 (1927) [pag. 274].

40. Sir John Bulner. Fonte: BNA, Boletín de Policía, Ano I, n. 11, Buenos Aires, 30 sep.
1905, p. 22 [pag. 289].

41. “Juan Smith”. Fonte: BNA, Boletín de Policía, año I, n. 9, Buenos Aires, 30 ago.
1905, p. 19 [pag. 298].

42. “Dr. Antônio”. Fonte: Memórias de um rato de hotel (seg. ed.), p. 293 [pag. 298].

43. Ángel Artire (a) Minga-Minga. Fonte: CEHP, Galería de Ladrones de la Capital,
1881-1891. Buenos Aires, 1881, ficha 1 [pag. 310].

44. Ángel Artire (a) Minga-Minga, retratado em abril de 1889. Fonte: CEHP, Galería de
Ladrones Conocidos, Buenos Aires, 1904, ficha 171 [pag. 310].

45. Retrato de Minga-Minga. Fonte: Vicente Reis, Os ladrões no Rio (1903), p. 140
[pag. 313].

46. Emilio Salvanasqui (a) Narigueta. Fonte: CEHP, Galería de Ladrones de la Capital,
1881-1891. Buenos Aires, 1881, ficha 100 [pag. 314].

47. Retrato de Narigueta. Fonte: Vicente Reis, Os ladrões no Rio (1903), p. 141 [pag.
314].

48. Nota falsa de duzentos mil réis. Fonte: Elysio de Carvalho, A falsificação dos nossos
valores circulantes, 1912 [pag. 317].

49. “Trun- trun. Álbum da Seção de Fraudes y Estelionatos da Polícia da Capital. Fonte:
BNA, Colección Fotografías, c. 1912 [pag. 324].

8
Nota sobre as traduções

O texto da presente Tese de Doutorado foi escrito originalmente em espanhol e


traduzido ao português. Durante o processo de tradução, o autor optou por preservar
as citações de fontes brasileiras em seu idioma original, atualizando-as, em alguns
casos, no uso corrente do português do Brasil. Aquelas que se encontravam em
outros idiomas, foram todas traduzidas pelo autor. No que se refere aos textos em
espanhol, o critério empregado foi traduzi-los a fim de não dificultar a leitura.
Apenas se preservaram algumas palavras ou expressões castelhanas naqueles casos
cuja tradução faria confusa a exposição de ideias.
Introdução

Há alguns anos, quando Buenos Aires começava a sair da última crise


argentina, recebi uma notícia: a Divisão de Museus e Pesquisas Históricas da Polícia
Federal autorizou-me a consultar seus arquivos. Era a porta de entrada para um
pequeno território que, embora com o tempo tenha revelado suas lacunas e misérias,
pareceu-me absolutamente fascinante ao primeiro dia. Esse arquivo policial sofreu
uma série de dispersões e perdas, aparentemente irreparáveis. O acervo de
documentação produzida pela antiga Polícia de Buenos Aires, desde sua criação na
década de 1820 até que se transformou em polícia metropolitana em 1880, foi
transferido ao Archivo General de la Nación. As centenas de documentos e caixas
com papéis foram guardados sob um critério quase indecifrável, mas ao menos
ficaram a salvo da trama desidiosa que ditou a evaporação do resto da documentação.

O Arquivo da Polícia da Capital (1880-1943), no entanto, seguiu um caminho


confuso. Pouco depois da celebração do primeiro Centenário da República
Argentina, o delegado Leopoldo López publicou a obra que inaugurou uma linhagem
de historiografia endógena, institucional e panegírica, que em nossos dias ainda tem
seus herdeiros.1 Em 1962, seus defensores conseguiram uma significativa conquista
quando a chefatura fundou o “Centro de Estudos Históricos Policiais” e o deixou em
mãos do principal historiador da polícia argentina, Francisco Romay, que pouco

1
LÓPEZ, Leopoldo. Reseña Histórica de la Policía de la Capital. Buenos Aires: Imprenta y
Encuadernación de la Policía, 1911. Estudei a tradição dos historiadores da policía argentina em:
GALEANO, Diego. “El ojo y la pluma. La cultura narrativa de la policía en la ciudad de Buenos
Aires”. In: SOZZO, Máximo (coord.). Historias de la cuestión criminal en la Argentina. Buenos
Aires: Ediciones del Puerto, 2009, p. 214-220.
depois doou à polícia sua biblioteca pessoal.2 O manuseio da documentação do
arquivo ficou reservado ao círculo de policiais escritores nucleados em torno da
figura do Romay. Depois de sua morte, o Centro de Estudos – que agora leva seu
nome – passou a depender da Divisão de Museus e Pesquisas Históricas.

Alguns anos antes de ser iniciada essa pesquisa, ao menos dois historiadores
tiveram acesso ao arquivo policial, localizado num edifício à Rua Chacabuco, em
Buenos Aires.3 Lá estavam os livros de registros de ocorrências e a documentação
das seções de Investigação, Ordem Pública e Ordem Social da Polícia da Capital. No
entanto, quando pedi para ter acesso ao acervo, me explicaram que o material se
havia perdido numa inundação. O que estava ao meu alcance era a biblioteca de
Romay, engrossada por doações posteriores, diminuída também por algumas
“perdas” e guardada nos altos de uma delegacia do bairro Once. Além dos policiais
aposentados que a cada tanto visitavam o lugar, a biblioteca é atendida por agentes
em atividade que sofreram algum tipo de incidente, histórias cujas filigranas tive que
escutar, contra minha vontade, durante os meses em que a frequentei.

Pela repentina desaparição das fontes manuscritas, a tese de mestrado que


então eu começava teve que se concentrar no período compreendido pela
documentação do Arquivo Nacional.4 No entanto, o acervo da biblioteca seguia
sendo útil para reunir fontes impressas, fundamentalmente as revistas policiais e os
relatórios anuais do Departamento de Polícia. A coleção de livros e folhetos foi, com
o tempo, mostrando também alguns de seus tesouros. Se nas primeiras visitas eu
devia pedir aos empregados o material, sem possibilidade de me aproximar das
prateleiras, em algum momento – não sei se por ganhar confiança ou simplesmente
por cansá-los – pude começar a revisar as estantes.

2
Ver a disposição circulada pela ordem do dia 3 de outubro de 1962 em: ROMAY, Francisco L.
Historia de la Policía Federal Argentina. Orígenes y evolución, Tomo 1, 1580-1820. Buenos Aires:
Biblioteca Policial, 1963, p. 7-8.
3
Refiro-me aos trabalhos de GAYOL, Sandra. Sociabilidad en Buenos Aires. Hombres, Honor y
Cafés (1862-1910). Buenos Aires: Ediciones del Signo, 2007; e MOYA, José. Cousins and strangers.
Spanish immigrants in Buenos Aires, 1850-1930. Berkeley: University of California Press, 1998.
4
GALEANO, Diego. La policía en la ciudad de Buenos Aires, 1867-1880. Buenos Aires, Tesis de
Maestría en Investigación Histórica, Universidad de San Andrés, 2010.

11
Certo dia, encontrei uma fileira de livros que me chamou especialmente a
atenção. A biblioteca tem duas salas conectadas, sendo uma ocupada por leitores e
outra reservada aos empregados. Na parede do fundo dessa segunda sala havia várias
estantes com tratados e manuais de criminalística escritos em diversos idiomas. Mais
abaixo, empilhavam-se obras vinculadas à Interpol, delitos complexos e
criminalidade transnacional. No extremo dessa fila, havia uns vinte livros sobre as
polícias sul-americanas, em particular do Brasil e do Uruguai. Vários textos escritos
por funcionários da polícia carioca (Vicente Reis, Félix Pacheco, Aurelino Leal)
conseguiram nesse dia desviar minha atenção do objeto de tese. Nesse momento,
porém, nada me inquietou mais que as atas de duas conferências sul-americanas de
polícia celebradas em Buenos Aires em 1905 e 1920.5 Saí da biblioteca com cópias
dessas atas em minha máquina fotográfica e com a intenção de produzir um trabalho
sobre as conexões entre os vigilantes do sul. Não imaginava, então, que era o
primeiro passo para minha pesquisa de doutorado e, muito menos, que por isso
terminaria vivendo no Brasil.

Essa ideia apareceu um pouco mais tarde quando, por recomendação de Lila
Caimari, minha orientadora no mestrado, consultei uma obra chamada Galería de
Ladrones de la Capital. Era uma coleção de duzentos retratos de indivíduos
fotografados e detidos em diversas ocasiões pela polícia. O compilador era o
Comissário de Pesquisas José S. Álvarez, que pouco depois, sob o pseudônimo de
“Fray Mocho”, ficaria conhecido no ambiente das letras como escritor e diretor da
famosa revista ilustrada Caras y Caretas. Cada um desses retratos estava
acompanhado por uma descrição dos antecedentes e da carreira delitiva. O semblante
do primeiro surpreendeu-me muitíssimo. Esperava encontrar ladrões de aspecto
lastimoso, os gatunos que muita bibliografia apresenta como clientes fixos dos
xadrezes policiais. Mas Ángel Artire (vulgo, Minga-Minga), o retrato número um,

5
CONFERENCIA INTERNACIONAL DE POLICÍA. Convenio celebrado entre las policías de La
Plata y Buenos Aires (Argentina), de Río de Janeiro (Brasil), de Santiago de Chile y de Montevideo
(R. O. del Uruguay). Buenos Aires: Imprenta y Encuadernación de la Policía de la Capital Federal,
1905.CONFERENCIA INTERNACIONAL SUDAMERICANA DE POLICÍA. Argentina, Bolivia,
Brasil, Chile, Paraguay, Perú, Uruguay: Convenios y Actas. Buenos Aires: Imprenta J. Tragant,
1920.

12
ostenta um elegante penteado, bigodes prolixamente cortados e um olhar sedutor que
bem poderia ser o de um retrato artístico.6

Segundo as folhas de antecedentes, Minga-Minga havia nascido na Itália, tinha


28 anos e, havia quinze, vivia em Buenos Aires. Tinha a pele branca, os olhos azuis,
a barba e os bigodes loiros. Entre 1875 e 1886, acumulava trinta e nove entradas na
polícia – muitas das quais, por roubo, haviam terminado com alguns meses de
reclusão na Penitenciária Nacional. Ao final da lista de detenções, o Comissário de
Investigações ensaiava uma breve descrição do retratado:

É um hábil punguista, quer dizer, um indivíduo apto para


inspecionar bolsos alheios sem ser notado. Nunca se arrisca em
empresas grandes e perigosas. Viajou pelo Brasil e pelo Uruguai
durante alguns anos e é de maneiras um tanto cultas. Agora
costuma trabalhar também como vigarista, pois o fato de ser
demasiado conhecido da polícia o impede circular pelas ruas.7

Um ladrão hábil, culto e viajante, colocava novamente o foco da minha atenção


sobre esses países sul-americanos. Poucas páginas adiante, o retrato número quinze
pertencia a outro italiano, Ángelo Locio (Socio ou Giambedi), quem viajava pelo
Brasil aplicando os “contos do vigário” que lhe haviam deixado “uma herança para
repartir entre os pobres”.8 Então voltei às atas das conferências policiais. Detive-me
nas palavras de um delegado chileno que, na reunião de 1905, advertia seus colegas
sobre a presença de “criminosos viajantes”, que aproveitando os “fáceis meios de
transporte”, circulavam entre o Rio de Janeiro, Buenos Aires, Montevidéu e Santiago
do Chile.9

A maior surpresa, no entanto, apareceu ao se revisar outro dos livros que


estavam naquela estante da biblioteca policial: Os ladrões no Rio (1903), do

6
REPÚBLICA ARGENTINA. Galería de Ladrones de la Capital, 1880 a 1887, Tomo 1. Buenos
Aires: Imprenta del Departamento de Policía, 1887, p. 6.
7
Idem, p. 8.
8
Idem, p. 40.
9
CONFERENCIA INTERNACIONAL DE POLICÍA. Convenio celebrado entre las policías de La
Plata y Buenos Aires (Argentina), de Río de Janeiro (Brasil), de Santiago de Chile y de Montevideo
(R. O. del Uruguay). Op. Cit., p. 20.

13
delegado carioca Vicente Reis. Não apenas topei com relatos sobre criminosos
viajantes num tom muito similar aos anteriores, como no caso de Adolpho Silva,
“filho de uma grande família de artistas do conto do vigário”, vinculado a outros
célebres “gatunos” que chegaram na década de 1880 “pelo Rio da Prata”.10 Além
disso, numa seção dedicada a enumerar os vigaristas que atuavam no Rio de Janeiro,
aparecia Minga-Minga, o mesmo ladrão e estelionatário que dava início à galeria de
ladrões portenhos. Quem era este protagonista dos relatos de policiais argentinos e
brasileiros? Uma extravagância da memória policial pinçada da categórica maioria
de ladrões comuns? Ou acreditamos na hipótese do delegado chileno sobre a
presença de uma verdadeira casta de criminosos viajantes? O que buscavam os
policiais com estas conferências sul-americanas? E teve o convênio que firmaram
algum efeito sobre o trabalho cotidiano de vigilância?

Mesmo tomando com extremo cuidado as acusações que estes textos faziam
sobre sujeitos como Minga-Minga, essa primeira coincidência – ver seu rosto
estampado em livros daqui e de lá – era um forte indício da efetiva mobilidade
territorial de certas práticas delitivas na América do Sul. A figura do criminoso
viajante se insinuava além das acusações e fantasias policiais. Assim que fiquei
sabendo que a documentação manuscrita da polícia carioca durante a Primeira
República, diferentemente da situação que havia encontrado em Buenos Aires, era
conservada no Arquivo Nacional, foi apenas questão de cruzar a fronteira. Era
possível se aventurar numa história social dessas práticas.

Um objeto (cada vez menos) opaco

Policiais cruzando fronteiras nacionais para enfrentar um conjunto de práticas


criminais territorialmente elusivas: eis aqui o objeto da tese. A formação de uma rede
de cooperações entre as forças policiais da América do Sul envolveu diferentes

10
REIS, Vicente. Os ladrões no Rio, 1898-1903. Rio de Janeiro: Laemmert, 1903, p. 150-155.

14
países, mas a intensidade dos intercâmbios concretos variava muito de acordo com as
contingências dos laços bilaterais. Desde finais do século XIX, o vínculo entre as
polícias das capitais da Argentina e Brasil foi um dos mais fortes da região. De fato,
a conferência sul-americana de 1905 foi decidida no Rio de Janeiro, durante o
Congresso Científico Latino-americano, por representantes de ambos os países.

A abolição da escravatura e a proclamação da República mudaram a visão que


uma fração das elites brasileiras tinha sobre a Argentina. O fim da escravidão foi
celebrado com manifestações populares nas ruas de Buenos Aires. Em resposta, a
imprensa carioca falou, como nunca antes, da “irmandade” entre Brasil e Argentina.
Assim se iniciou um processo de aproximação que teve como ponto mais alto a
majestosa visita do presidente Roca à capital brasileira, em 1899, e a viagem de
Campos Sales a Buenos Aires no ano seguinte, retribuindo as gentilezas. Embora as
relações diplomáticas entre os dois países tivessem seus altos e baixos naqueles anos,
essas aproximações mobilizaram uma circulação maior de informações e contatos em
diferentes registros institucionais.11

Quando descemos às catacumbas da burocracia – neste caso, aos intercâmbios


efetivos entre funcionários policiais – notamos que, mesmo os processos mais
cordiais, e inclusive declaradamente amistosos desde a retórica consular, estão
abarrotados de desconfiança, manigâncias, tensões mais ou menos silenciosas. Por
isso o escrutínio das cartas, telegramas e ofícios, junto a uma infinidade de
observações anotadas pelos funcionários policiais são um contrapeso iniludível dos
discursos solenes em visitas protocolares, congressos e conferências; embora estes
últimos, lidos e relidos criticamente, possam também manifestar – segundo uma
expressão de Carlo Ginzburg – “elementos não controlados”, alheios às intenções do
produtor de um relato.12

A decisão de escolher a rota entre Buenos Aires e Rio de Janeiro dentro do


amplo mapa da cooperação policial sul-americana se justifica por vários motivos. A

11
Esta aproximação foi trabalhada recentemente por PREUSS, Ori. Bridging the Island. Brazilian´s
Views of Spanish America and Themselves, 1865-1912. Frankfurt/ Madri: Iberoamericana-Vervuert,
2011, p. 47-115.
12
GINZBURG, Carlo. El hilo y las huellas. Lo verdadero, lo falso, lo ficticio. Buenos Aires: Fondo
de Cultura Económica, 2010, p. 15.

15
intensificação dos vínculos entre ambos os países é, sem dúvida, um dado decisivo.
Também foi determinante a disponibilidade de um arquivo no Brasil com fontes
manuscritas da Polícia da Capital Federal. No entanto, o Arquivo Nacional do
Uruguai também conserva a documentação de sua polícia metropolitana. Nesse
sentido, um estudo sobre os intercâmbios entre Montevidéu e Rio de Janeiro teria a
vantagem relativa de contar com as vozes de ambos os lados. Mas na posição na qual
me encontrava, uma pesquisa assim apresentava outros contratempos. Seria
necessário assimilar a história de dois países (e a organização de dois arquivos
nacionais) que, em comparação com a Argentina, eu conhecia bem pouco. Além
disso, teria que lidar com uma desproporção enorme entre os estudos históricos sobre
as polícias no Brasil e no Uruguai.13

Há muito tempo, historiadores, sociólogos e antropólogos que tomaram a


polícia como objeto de seus estudos iniciaram suas publicações com
questionamentos sobre a relutância da pesquisa universitária com esta instituição
incômoda, esquiva e opaca, ainda que essencial para compreender o Estado moderno
como uma máquina viva.14 Este juízo está baseado ao menos em duas constatações: a
resistência dos policiais a serem estudados por pessoas alheias ao “mundo policial”, e
a própria apatia do mainstream universitário em relação a esta força estatal,
imaginada como uma mera instância de execução mecânica de ordens procedentes
das altas esferas do governo. Evidentemente, muitos policiais seguem resistindo às
etnografias intrusas em seus espaços profissionais. Muitos arquivos ainda são
inacessíveis, mas hoje seria exagerado generalizar o argumento da opacidade da
polícia a todos os lugares e áreas do conhecimento.

A história das polícias do Brasil e da Argentina é um campo de estudos cada


vez mais frutífero. Uma primeira série de trabalhos se iniciou na década de 1980,
num clima intelectual atravessado pelo final das ditaduras militares. O foco de

13
Até onde chega nosso conhecimento, apenas uma obra, escrita em três volumes por um delegado,
oferece um panorama da história da polícia no Uruguai: RODRÍGUEZ, José A. Evolución histórica
de la policía uruguaya. Montevideo: Byblos, 2005.
14
Ver, por exemplo: BAYLEY, David H. Patterns of Policing: A Comparative International Analysis.
New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 1985. REINER, Robert. The Politics of the Police.
Londres: Wheatsheaf, 1992. MONJARDET, Dominique. Ce que fait la police. Sociologie de la force
publique. Paris: La Découverte, 1996.

16
análise centrava-se então em perguntas sobre a organização dos aparelhos
repressivos no processo de construção dos Estados nacionais e o papel da polícia nos
projetos de disciplinamento das classes populares concebidos pelas elites urbanas.15
Mais tarde, num diálogo crítico com esses trabalhos, outros autores acharam
necessário apresentar os policiais como sujeitos capazes de atuar, reconhecendo
interesses próprios e uma visão do mundo particular. Os conflitos entre distintos
corpos policiais, enfrentamentos nas ruas de vigilantes com militares e tensões com o
campo judiciário numa luta pelo monopólio da força pública foram questões que
adquiriram maior visibilidade.16

Outras linhas historiográficas prestaram atenção à polícia como um ator social


e politicamente relevante. É o caso da história dos trabalhadores, os sindicatos e o
movimento operário. Uma boa parte das pesquisas se concentrou nos períodos de
greves, estados de sítio e sanção de leis que em ambos os países foram lidas como
reações repressivas ante o avanço da organização política do proletariado.17 Porém o
escasso contato que muitas destas pesquisas tiveram com as fontes policiais,
concentrando-se quase exclusivamente na análise da imprensa operária, produziu
uma chave de leitura bastante instrumentalizada e maniqueísta das práticas policiais.
Sem voz própria nem maior entidade que a de ser o “polo oposto” da classe

15
Para o Brasil: NEDER, Gizlene (et. al.). A Polícia na Corte e no Distrito Federal, 1831-1930. Rio
de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 1981. CRUZ, Heloisa. “Mercado e
Polícia: São Paulo, 1890-1915”, Revista Brasileira de História, Vol. 7, n. 14, São Paulo, 1987, p. 115-
130. HOLLOWAY, Thomas. Polícia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do
século XIX. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1997. No caso argentino: KIRK
BLACKWELDER, Julia. “Urbanization, Crime, and Policing. Buenos Aires, 1880-1914”. In:
JOHNSON, Lyman (ed.). The Problem of Order in Changing Societies: Essay on Crime and Policing
in Argentina and Uruguay. Albuquerque: University of New Mexico Press, 1990, p. 65-87. RUIBAL,
Beatriz. Ideología del control social: Buenos Aires, 1880-1920. Buenos Aires: Centro Editor de
América Latina, 1992.
16
GAYOL, Sandra. “Entre lo deseable y lo posible. Perfil de la Policía de Buenos Aires en la segunda
mitad del siglo XIX”, Estudios Sociales, año VI, n. 10, Santa Fe, 1996, p. 123-138. BRETAS, Marcos
Luiz. A guerra das ruas. Povo e polícia na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo
Nacional, 1997.
17
MARAM, Sheldon Leslie. Anarquistas, imigrantes e o movimento operário, 1890-1920. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1979. SURIANO, Juan. Trabajadores, anarquismo y Estado represor: de la Ley
de Residencia a la Ley de Defensa Social (1902-1910). Buenos Aires: Centro Editor de América
Latina, 1988.

17
trabalhadora, o mecanismo da polícia é assumido como natural: uma ferramenta das
classes dominantes voltada à vigilância dos subalternos.18

Uma visão mais matizada da relação entre as autoridades policiais e os setores


populares surge dos trabalhos que utilizaram os arquivos judiciais e, em particular, os
processos criminais, como fontes para a história social.19 Esse caminho ampliou o
olhar para a experiência dos trabalhadores situados fora do espaço do movimento
operário politicamente articulado. Além disso, permitiu incorporar novas perguntas
sobre os modos de ação da autoridade pública nas ruas e as negociações cotidianas
nas fronteiras da legalidade. Estudos sobre a defesa da honra, as modulações do
masculino, a prostituição e o jogo clandestino, enriqueceram muito nossa
compreensão do território onde se desenvolve a atividade policial.20

Nos últimos anos, a produção historiográfica sobre as instituições policiais da


Argentina e do Brasil cresceu em outras duas direções. Por um lado, se os primeiros
trabalhos estavam centrados nas polícias das capitais, cada vez mais historiadores se
voltavam aos Estados provinciais.21 Nos países com territórios destas dimensões,

18
Uso a expressão “polo oposto” de MATTOS, Marcelo Badaró. “Greves e repressão policial aos
sindicatos no processo de formação da classe trabalhadora carioca (1850-1910)”. In: MATTOS,
Marcelo Badaró (coord.). Trabalhadores em greve, polícia em guarda. Rio de Janeiro: Bom
Texto/Faperj, 2004, p. 52.
19
CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da
belle époque: Campinas: Editora da Unicamp, 2001. SALVATORE, Ricardo. “Violencia sociopolítica
y procesamiento judicial en la Argentina (1890-1920)”. In: SOZZO, Máximo (coord.). Historias de la
cuestión criminal en Argentina. Buenos Aires: Ediciones del Puerto, 2009, p. 293-311.
20
ESTEVES, Martha de Abreu. Meninas perdidas: os populares e o cotidiano do amor no Rio de
Janeiro da Belle Époque. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. MENEZES, Lená Medeiros de. Os
estrangeiros e o comércio do prazer nas ruas do Rio (1890-1930). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional,
1992. CAULFIELD, Susan. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro
(1918-1949). Campinas: Editora da Unicamp, 2000. SCHETTINI, Cristiana. Que tenhas teu corpo:
uma historia social da prostituição no Rio de Janeiro das primeiras décadas republicanas. Rio de
Janeiro: Arquivo Nacional, 2006. GAYOL, Sandra. Honor y duelo en la Argentina moderna. Buenos
Aires: Siglo XXI, 2008. CHAZKEL, Amy. Laws of Chance. Brasil´s Clandestine Lottery and the
Making of Urban Public Life. Durham: Duke University Press, 2011. MAGALHÃES, Felipe.
Ganhou, Leva! O jogo do bicho no Rio de Janeiro (1890-1960). Rio de Janeiro: Editora da Fundação
Getulio Vargas, 2011.
21
Para o caso brasileiro, ver: NETO, Francisco Linhares F. Vigilância, impunidade e transgressão.
Faces da atividade policial na capital cearense (1916-1930). Dissertação de Mestrado em História
Social, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2005. SOUZA, Luís Antônio Francisco de. Lei,
cotidiano e cidade: Polícia Civil e práticas policiais na São Paulo republicana (1889-1930). São
Paulo: IBCCRIM, 2009. ROSEMBERG, André. De Chumbo e Festim. Uma história da polícia
paulista no final do Império. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2010. MAUCH, Cláudia. Dizendo-se
autoridade: polícia e policiais em Porto Alegre, 1896-1929. Tese de Doutorado em História,

18
nenhuma uniformidade pode ser aceita sem cautela. Essa ampliação do espaço
abrangido permite desencadear novas perguntas sobre as formas de articulação entre
as polícias das províncias ou estados e, dentro desse mapa, o rol desempenhado pelos
corpos de segurança das capitais, antes da formalização das polícias federais a
década de 1940.

Por outro lado, vários estudos se focaram nos processos de especialização e


profissionalização do ofício policial, materializados nas seções de Investigações,
Ordem Política e Ordem Social, incluindo a aparição de arquivos com prontuários
pessoais e laboratórios de polícia científica.22 Embora ainda reste muito a se
investigar nesse terreno, o olhar sobre as seções especiais é vital para se entenderem
as formas de organização, as fraturas e as tensões internas que atravessaram as
polícias no século XX. Igualmente, ainda é preciso traçar pontes entre esta
bibliografia e a renovação dos estudos de “história recente” depois da abertura dos
chamados “arquivos da repressão”, correspondentes à polícia política das ditaduras.

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011. Na Argentina: RAFART, Gabriel.
Tiempo de violencia en la Patagonia. Bandidos, policías y jueces, 1890-1940. Buenos Aires:
Prometeo, 2008. BOHOSLAVSKY, Ernesto. “El brazo armado de la improvisación. Aportes para una
historia social de los policías patagónicos”. In: BOHOSLAVSKY, Ernesto; SOPRANO, Germán. Un
Estado con rostro humano. Funcionarios e instituciones estatales en Argentina (desde 1880 a la
actualidad). Buenos Aires: Prometeo, 2010, p. 215-242. FERNÁNDEZ MARRÓN, Melisa. “Éramos
Robinsones que, en lugar de quedar atrapados en una isla, estábamos aislados en nuestro propio
territorio: la institución policial pampeana en los inicios del siglo XX”. In: DI LISCIA, María Silvia;
LASALLE, Ana María; LLUCH, Andrea (eds.). Al oeste del paraíso. La transformación del espacio
natural, económico y social en la Pampa Central (siglos XIX y XX). Santa Rosa: Universidad
Nacional de La Pampa/Miño y Dávila, 2007, p. 155-178. BARRENECHE, Osvaldo. “Construyendo la
Casa de Piedra. La Policía de la Provincia de Buenos Aires durante la primera mitad del siglo XX”.
In: GALEANO, Diego; KAMINSKY, Gregorio (Coord.). Mirada (de) uniforme. Historia y crítica de
la razón policial. Buenos Aires: Teseo, 2011, p. 153-184.
22
KALMANOWIECKI, Laura. “Origins and Applications of Political Policing in Argentina”, Latin
American Perspectives, Vol. 27, n. 2, Mar. 2000, p. 36-56. CUNHA, Olívia M. Gomes da. Intenção e
Gesto: pessoa, cor e a produção cotidiana da (in)diferença no Rio de Janeiro, 1927-1942. Rio de
Janeiro: Arquivo Nacional, 2002. RODRIGUEZ, Julia. “South Atlantic Crossings: Fingerprints,
Science, and the State in Turn-of-the-Century Argentina”, The American Historical Review, Vol. 109,
n. 2, 2004, p. 387-416. FERREIRA, Letícia Carvalho de Mesquita. Dos Autos da Cova Rasa. A
identificação de corpos não-identificados no Instituto Médico-Legal do Rio de Janeiro, 1942-1960.
Rio de Janeiro: UFRJ/Museu Nacional/PPGAS, 2007. SAMET, Henrique. Construção de um Padrão
de Controle e Repressão na Polícia Civil do Distrito Federal por meio do Corpo de Investigações e
Segurança Pública (1907-1920). Rio de Janeiro: Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em
História Social, UFRJ, 2008. GARCÍA FERRARI, Mercedes. Ladrones conocidos / sospechosos
reservados. Identificación policial en Buenos Aires, 1880-1905. Buenos Aires: Prometeo, 2010.
GALEANO, Diego; GARCÍA FERRARI, Mercedes. “Cartographie du bertillonnage. Le système
anthropométrique en Amérique latine: circuits de diffusion, usages et résistances”. In: PIAZZA, Pierre
(dir.). Aux origines de la police scientifique. Alphonse Bertillon, précurseur de la science du crime.
Paris: Karthala, 2011, p. 308-331.

19
Os acervos das Delegacias de Ordem Política e Social (DOPS), recolhidos em
diferentes arquivos estaduais e bibliotecas públicas do Brasil, mobilizaram uma
importante quantidade de trabalhos sobre a polícia no período de Vargas, a República
Nova e os posteriores governos militares.23 Mais recentemente, na Argentina, foi
aberto o arquivo da División de Inteligencia de la Policía de la Provincia de Buenos
Aires (DIPBA) e algumas pesquisas baseadas em sua documentação foram
difundidas.24 Embora a conquista de novos arquivos, postos ao alcance das mãos
acadêmicas, seja por vezes acompanhada de retóricas iluministas, cobertas de
esperanças sobre a possibilidade de revelar verdades ocultas pelas trevas ditatoriais, é
muito importante não perder de vista um princípio: a melhor forma de inquirir nas
impressões que os arquivos policiais nos deixaram é compreender cabalmente a
instituição produtora desses papeis.

Arquivos e bibliotecas nacionais

“O arquivo supõe o arquivista: uma mão que coleciona e classifica”, observava


Arlette Farge, num arrazoado que mesmo sendo circular continua indicando a
presença de um problema complexo.25 As selvas de papeis que se nos apresentam
como arquivos policiais devem ser interpeladas em sua estrita materialidade. No
Brasil e na Argentina, estes arquivos nasceram no espaço da burocracia estatal, junto
com a própria figura do arquivista. A Polícia de Buenos Aires regulamentou em

23
Alguns exemplos, sem considerar a profusa bibliografia sobre a ditadura militar: CARNEIRO,
Maria Luiza Tucci. Livros proibidos, idéias malditas: o DEOPS e as minorias silenciadas. São Paulo:
Ateliê, 2002. ANDREUCCI, Álvaro Gonçalves Antunes. O risco das idéias: intelectuais e a polícia
política (1930-1945). São Paulo: Humanitas/Fapesp, 2006; MAGALHÃES, Fernanda Torres. O
suspeito através das lentes: o DEOPS e a imagem da subversão (1930-1945). São Paulo:
Humanitas/Imprensa oficial/Fapesp, 2006.
24
FUNES, Patricia. “Los libros y la noche. Censura, cultura y represión en la Argentina a través de los
servicios de inteligencia del Estado”, Dimensões, n. 19, Vitória, 2007, p. 133-155. KAHAN,
Emmanuel. Unos pocos peligros sensatos. La Dirección de Inteligencia de la Provincia de Buenos
Aires ante las Instituciones Judías de la Ciudad de La Plata. La Plata: Edulp, 2009.
25
FARGE, Arlette. O sabor do arquivo. São Paulo: Edusp, 2009, p. 11.

20
1868, pela primeira vez, as funções do “encarregado do arquivo” e os procedimentos
rotineiros para ordenar documentos, expedientes, ofícios e livros com índices para
facilitar a busca nas estantes.26

Em compensação, o primeiro regulamento do serviço policial do Rio de


Janeiro, após a proclamação da República, nada dizia sobre o arquivista.27 Logo
depois da reforma policial de 1900, o novo decreto mencionava, sem dar muitos
detalhes, a necessidade de se organizar o arquivo como parte das tarefas dos
escreventes.28 Porém, Cardoso de Castro, quando assumiu como chefe de polícia em
1902, descrevia a paisagem desoladora que encontrou ao entrar nas salas do arquivo:

Visitei o Arquivo logo aos primeiros dias da minha administração e


causou-me péssima impressão o abandono a que ele se achava
reduzido. Instalado em duas salas, aliás amplas, mas acusando em
cada canto um desasseio e uma incúria completos, não poderia ser
aquela a repartição de consulta e guarda de papeis por mim
desejada para a Repartição Central de Polícia. Os documentos, uns
nas prateleiras, amarrados com cordéis e epigrafados com um
quadrado de cartão e um número, outros distribuídos a granel por
sobre o chão e as mesas desconjuntadas que constituíam o escasso
mobiliário dessa dependência, pareciam pedir mão misericordiosa
que os cuidasse e arrumasse metódica e convenientemente. O
soalho, velho e podre, oscilava quando se dava um passo numa das
salas, ameaçando desabar na ocasião menos esperada.29

Não se lê nessas palavras nenhuma inquietude pelo valor histórico da


documentação, embora a questão não fosse alheia às preocupações das elites
republicanas, que já estavam organizando o Arquivo Público Nacional e produzindo,
em diálogo com outros intelectuais sul-americanos, relatos sobre as origens da

26
GALEANO, Diego. Escritores, detectives y archivistas. La cultura policial en Buenos Aires, 1821-
1910. Buenos Aires: Biblioteca Nacional/Teseo, 2009, p. 58-59.
27
Decreto n. 1.034A – de 1 de setembro de 1892, en: Diário Oficial dos Estados Unidos do Brasil,
Ano XXI, n. 250, 14 set. 1892.
28
Regulamento para o serviço de Polícia do Distrito Federal. Decreto n. 3.640 – de 14 de abril de
1900, Diário Official dos Estados Unidos do Brasil, ano XXIX, n. 107, 21 abr. 1900, art. 40.
29
Relatório apresentado ao Exmo. Snr. Dr. J. J. Seabra, Ministro da Justiça e Negócios Interiores, pelo
Chefe de Polícia do Distrito Federal A. A, Cardoso de Castro, Anexos ao Relatório apresentado ao
Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil pelo Dr. J. J. Seabra, Ministro da Justiça e
Negócios Interiores, em março de 1904. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1904, p. 137.

21
nação.30 Ao contrário, Cardoso de Castro explicava como havia melhorado a situação
desde a incorporação de um arquivista, com quem o próprio chefe acertou os “meios
de aliviar o arquivo da pletora de papéis ali amontoados, eliminando-se para isso os
lá guardados sem utilidade alguma”; isto é, uma parte dos documentos da época do
Império, desde 1842 até 1889, “verdadeiras carradas de papéis inúteis” que foram
descartados por falta de espaço.31 Também se excluiu uma série de objetos
acumulados nas salas do arquivo, outrora utilizadas como depósito de “máquinas de
jogo, camisas de força, padiolas, estandartes carnavalescos, carabinas imprestáveis,
pandeiros, cornetas, alfarrábios sem préstimo”.32

O que preocupava o chefe eram a desordem e a entropia de um arquivo


concebido com fins administrativos bastante precisos. Durante o século XIX, os
arquivos públicos foram incorporando ferramentas bibliográficas (repertórios,
índices, catálogos) que buscavam ajustar um critério de ordenamento espacial para o
acesso à documentação. Deste modo, outros dispositivos – como os ficheiros, as
caixas e as estantes – apontavam para a colossal tarefa de estabelecer um sistema de
registros que permitisse, de uma vez, o movimento e a localização dos documentos.
O arquivista deveria conseguir a quimera de converter um aparelho em constante
transformação e incorporação de novos papéis em um espaço fixo, previsível, onde
cada coisa estivesse e pudesse ser encontrada.33

É importante levar em conta essa dimensão cinética do mundo dos arquivos


policiais. Nos projetos de códigos para a polícia portenha de 1894 e 1911, o arquivo
aparecia como o núcleo de um vasto sistema de circulações. Em primeiro lugar, se
ocupava da conservação e classificação de todos os ofícios que o Departamento
Central recebia das delegacias seccionais. O mesmo valia para os expedientes, notas
e informações enviadas pelas demais repartições públicas, incluindo a Justiça.

30
DEVOTO, Fernando. “La construcción del relato de los orígenes en Argentina, Brasil y Uruguay:
las historias nacionales de Varnhagen, Mitre y Bauzá”. In: ALTAMIRANO, Carlos (dir.); MYERS,
Jorge (ed. vol. 1). Historia de los intelectuales en América Latina: 1. La ciudad letrada, de la
conquista al modernismo. Buenos Aires: Katz, 2008, p. 269-289.
31
Relatório apresentado ao Exmo. Snr. Dr. J. J. Seabra, Op. Cit., p. 137-138.
32
Idem, p. 137.
33
PODGORNY, Irina. “Fronteras de papel: archivos, colecciones y la cuestión de límites en las
naciones americanas”, Historia Crítica, n. 44, Bogotá, may.-ago. 2011, p. 56-79.

22
Acumulava também as filiações dos criminosos, fichas de identificação, fotografias e
prontuários pessoais, e coordenava a “troca de retratos, coleções ou reproduções de
objetos com as demais polícias nacionais e estrangeiras”.34

Esta tese tratará de analisar toda uma série de objetos localizados nos arquivos
que podem ser interpretados como vestígios materiais da circulação internacional de
saberes policiais. Não se trata unicamente de testemunhos que falam de outras coisas:
eles mesmos são elementos cujo processo de produção merece ser explicado.
Telegramas, retratos e álbuns fotográficos, fichas antropométricas e datiloscópicas,
instrumentos para medições corporais, manuais de criminalística: estamos diante de
“artefatos portáteis”, concebidos para se inserir numa densa rede de intercâmbios.
Igualmente às bibliotecas públicas e às coleções dos museus de história natural, os
cartões com fichas individuais e os sistemas de classificação materializados em
ficheiros, como veremos a propósito dos gabinetes de identificação policial, surgem
como artefatos ligados a certas práticas de tráfico de objetos e informações.35

As técnicas da polícia científica que desembarcaram em Buenos Aires e no Rio


de Janeiro no final do século XIX acarretaram, além disso, um fetichismo em torno
dos objetos do mundo delitivo. Se, na cena do crime, todo rastro – por mais trivial
que pareça – pode nos conduzir à reconstrução dos fatos, nenhum objeto devia ser
descartado a priori.36 Em estreita conexão com as práticas criminológicas da Escola

34
Artigo 365 do Proyecto de Código de Policía para la Capital de La Nación. Buenos Aires:
Imprenta y Encuadernación de la Policía de la Capital, 1894, p. 97. Artigos 1038 e 1043 do Proyecto
de Código de Policía para la Capital de la Nación. Buenos Aires: Establecimiento Gráfico Colón,
1911, p. 278-279.
35
Um estado da bibliografia sobre a noção de “artefato” sob o ponto de vista da arqueologia e da
história cultural pode ser encontrado em HENARE, Amira; HOLBRAAD, Martin; WASTELL, Sari.
Thinking through things: theorising artefacts ethnographically. Londres: Routledge, 2007. Sobre a
ideia da portabilidade dos objetos arquivísticos e museológicos: PODGORNY, Irina. “Antigüedades
portátiles: transportes, ruinas y comunicaciones en la arqueología del siglo XIX”, História, Ciências,
Saúde - Manguinhos, vol. 15, n. 3, Rio de Janeiro, jul-set 2008, p. 577-595. Sobre as fichas de
identificação policial como artefatos: CUNHA, Olívia M. Gomes da. “La existencia relativa de las
cosas (que reposan en los archivos): prácticas y materiales en relación”: In: SIRIMARCO, Mariana
(comp.). Estudiar la policía. La mirada de las ciencias sociales sobre la institución policial. Buenos
Aires: Teseo, 2010, p. 97-138.
36
Este “paradigma indiciário” baseado numa hermenêutica dos sinais, tal como explicaram Foucault e
Ginzburg, era um fenômeno que excedia amplamente o campo policial: FOUCAULT, Michel.
“Nietzsche, Freud, Marx”. In: Dits et Écrits, 1954-1988, Vol. 1. Paris: Gallimard, 1994, p. 592-607.
GINZBURG, Carlo. “Indicios. Raíces de un paradigma de inferencias indiciales”. In: Mitos,
emblemas, indicios: morfología e historia. Barcelona: Gedisa, 1989, p. 138-175.

23
Italiana e com os avanços da criminalística europeia, apareceram os primeiros
“museus policiais” em Buenos Aires (1899) e no Rio de Janeiro (1912).37 Em ambos
os casos, as coleções se aparelharam com objetos sequestrados pela polícia – armas
brancas, chaves, armas de fogo, máquinas para falsificar dinheiro, maletas com fundo
falso, bigodes postiços etc. – e não eram pensadas como exposições para o público
curioso, mas como instrumentos didáticos para os alunos das novas escolas de
polícia.38 Muitas desses itens também aparecem nos arquivos (entre as caixas de
documentação policial do Arquivo Nacional, encontrei bilhetes e cheques falsos,
fotos pornográficas e até um pequeno pacote com cocaína apreendido no início do
século XX), mas sobretudo se fazem presentes através de reproduções fotográficas
que se anexavam aos processos. Esses objetos podem ser lidos em sua dupla
historicidade: são ao mesmo tempo impressões das práticas criminais e das formas de
ação policial.

Da mesma maneira, os materiais manuscritos e impressos manifestam outro


lado da mobilidade espacial das fontes que manipulamos. Não obstante a maior parte
de os arquivos e bibliotecas aqui consultados terem um critério “nacional” de
organização de seus fundos, ao menos três tipos de documentação puderam ser
reconhecidos como testemunhos da circulação internacional entre as polícias da
América do Sul. Em primeiro lugar, documentos diretamente concebidos para cruzar
fronteiras: pedidos de extradição, missivas diplomáticas, mensagens telegráficas,
livros e folhetos traduzidos para idiomas estrangeiros para a difusão em outros
países. Em segundo lugar, outro conjunto de escritos brotados da importante
quantidade de visitas institucionais, viagens de estudo, conferências policiais e
congressos científicos, celebrados nas capitais sul-americanas desde finais do século
XIX. Por último, múltiplos indícios dos intercâmbios entre as polícias de Argentina e
Brasil que foram aparecendo no interior de publicações institucionais

37
Sobre a aparição dos primeiros museus do crime na Europa ver: REGENER, Susanne.
“Criminological Museums and the Visualization of Evil”, Crime, Histoires & Sociétés/ Crime, History
& Society, vol. 7, n. 1, 2003, p. 43-56.
38
Sobre o museu da polícia portenha: RODRIGUEZ, Adolfo E. Historia de la Policía Federal
Argentina. Tomo IV, 1880-1916. Buenos Aires: Editorial Policial, 1975, p. 214-215. MUSEO
POLICIAL. Museo Policía Federal: 75 aniversario. Buenos Aires: Policía Federal Argentina, 1974. E
sobre a experiência carioca: CARVALHO, Elysio. A polícia carioca. A criminalidade contemporânea.
Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1910, p. 133. LOCARD, Edmond. A Escola de Polícia do Rio de
Janeiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1913.

24
(fundamentalmente memórias e revistas policiais) e na abundante produção
bibliográfica dos policiais escritores.

Esses três tipos de fontes foram produzidas tanto por policiais brasileiros como
argentinos, mas o acesso à documentação foi diferente no Rio de Janeiro e em
Buenos Aires. Para o período que abrange esta tese, como expliquei anteriormente, o
arquivo policial portenho está perdido. A ausência do arquivo é um grave obstáculo
para qualquer pesquisa sobre o cotidiano do trabalho policial em Buenos Aires, mas
isso não significa que não existam fontes. O principal acervo que ainda pode ser
consultado é a documentação institucional impressa, fundamentalmente a Revista de
Policía, que – diferente das revistas produzidas pela polícia carioca – teve uma
notável continuidade desde a década de 1890 até os anos 1930. Outra fonte impressa
utilizada foi a série de relatórios anuais do Departamento de Polícia, publicados
descontinuamente nas três últimas décadas do século XIX. Esses relatórios, e as
diferentes publicações oficiais da polícia portenha (desde galerias fotográficas de
criminosos até livros de instruções para policiais), foram consultados no acervo da
Biblioteca Nacional e no Centro de Estudios Históricos Policiales “Francisco
Romay”.

Mesmo assim, a ausência de documentação manuscrita em Buenos Aires


coloca os arquivos brasileiros num lugar de grande importância para a reconstrução
das redes de cooperação policial. Uns dos acervos consultados foi o Fundo
GIFI/Polícia (documentação do Ministério da Justiça e dos Negócios Interiores,
1895-1924), na sede Rio de Janeiro do Arquivo Nacional. A partir de uma revisão
geral do conteúdo das caixas fiz uma seleção de aproximadamente quarenta pacotes
que continham documentação do Corpo de Investigação e Segurança Pública, do
Gabinete de Identificação e Estatística, da Inspetoria de Polícia Marítima e da própria
chefia. Intercâmbios formais entre as polícias sul-americanas, com intervenção de
autoridades consulares, trocas informais por via telegráfica, circulação de
informações sobre “indesejáveis” expulsos e “criminosos viajantes” para impedir o
desembarque nos portos, permutas de fichas de identificação sobre “ladrões
conhecidos” e suspeitos vários: são os documentos do Arquivo Nacional que
utilizaremos ao longo da tese.

25
Uma explicação à parte merece a documentação sobre a expulsão de
estrangeiros. Consultei, no Fundo IJJ7 (Seção de Documentos do Executivo e do
Legislativo), uma série de cinquenta e três pacotes com os processos de expulsão de
estrangeiros e, muitas vezes, os pedidos de habeas corpus escritos por advogados.
Para aprofundar o estudo das práticas de cooperação policial entre Buenos Aires e
Rio de Janeiro, resolvi analisar uma figura específica no universo dos chamados
“gatunos internacionais”, segundo o jargão dos policiais cariocas. Primeiramente
excluí os processos de expulsão por lenocínio, que foram já estudados por alguns
pesquisadores.39 Também decidi deixar de lado as expulsões de vadios e batedores de
carteiras, para me concentrar numa figura que circulava com frequência no espaço
das cidades atlânticas sul-americanas: os vigaristas ou passadores do “conto do
vigário” (cuento del tío, no espanhol do Rio da Prata). Realizei uma seleção de vinte
expulsões de vigaristas, vários deles argentinos e uruguaios, embora as
nacionalidades dos acusados sejam, às vezes, difíceis de determinar.

Para complementar a informação sobre a cooperação policial no contexto dos


processos de expulsão de estrangeiros na Argentina e no Brasil, consultei também o
Arquivo Histórico do Itamaraty, onde estão as listas de expulsos, que oferecem um
panorama quantitativo mais completo. Finalmente – embora na Argentina não
fossem recolhidos nos arquivos públicos os processos de expulsão de estrangeiros no
início do século XX – achei, no Arquivo Nacional, um relatório escrito na década de
1950 em resposta a um juiz que pedia a revisão de vários processos de expulsão das
primeiras décadas do século XX.40 Este relatório permite, ao menos, reconstruir os
mecanismos das expulsões na Argentina, e estabelecer uma comparação com a
documentação brasileira.

Os primeiros estudos históricos sobre as leis de expulsão de estrangeiros


sancionadas na Argentina e Brasil no início do século XX concentraram sua atenção
no espaço que estas medidas ocupavam como parte de uma escalada repressiva

39
Por exemplo: SCHETTINI, Cristiana. Que tenhas teu corpo. Op. Cit. MENEZES, Lená Medeiros
de. Os estrangeiros e o comércio do prazer nas ruas do Rio. Op. Cit.. MENEZES, Lená Medeiros de.
Os indesejáveis: desclassificados da modernidade. Protesto, crime e expulsão na Capital Federal
(1890-1930). Rio de Janeiro: Eduerj, 1996.
40
AGN, Archivo Intermedio, Fondo Ministerio del Interior/Secretos, Confidenciales y Reservados,
Caja n. 14.

26
contra a militância operária comunista e anarquista.41 O acervo de processos de
expulsão do Arquivo Nacional e outras fontes mostram, no entanto, que as leis foram
aplicadas (com muitas arbitrariedades) contra uma multiplicidade de práticas sociais
que a polícia buscava controlar. Até o final da tese, tratarei de reconstruir diferentes
histórias de “criminosos viajantes” como Minga-Minga, que caíram nas malhas
policiais. Alguns dos quais, inclusive, foram expulsos de Buenos Aires, do Rio de
Janeiro e outros portos brasileiros.

Os processos de expulsão incluíam relatórios incriminatórios, declarações de


falsas testemunhas (quase sempre policiais, apresentados como “funcionários
públicos”), folhas de antecedentes e, às vezes, retratos fotográficos dos acusados. Ao
ver cada um desses rostos retratados de frente e perfil pela câmera policial, muitas
vezes me perguntei sobre implicações éticas deste trabalho. Se por acaso esses
sujeitos não prefeririam ser esquecidos, a reaparecerem resgatados por um
historiador, a partir das palavras acusadoras dos vigilantes e daquelas duvidosas
testemunhas. Não era a veracidade do relato o que me preocupava, porque as
autobiografias de criminosos ou as narrativas da imprensa operária não resultam,
nesse sentido, menos problemáticas. Era essa aparição (tão poderosa) do olhar de
uma pessoa estampada num retrato fotográfico, recordando-me que esses fragmentos
do arquivo policial não eram nada mais que “vestígios brutos de vidas que não
pediam absolutamente para ser contadas dessa maneira”.42

Como escrever então a história desses criminosos viajantes sem ouvir suas
próprias vozes? Como contá-las sem cair no que Gilles Deleuze chamou de
“indignidade de falar pelos outros”?43 O que me autoriza a reconstruir o que resta de
uma biografia quase perdida, a não ser pelos registros policiais e judiciários? Estas
perguntas se fizeram presentes cada vez que tive que decidir entre incluir um nome,

41
MARAM, Sheldon Leslie. Anarquistas, imigrantes e o movimento operário, 1890-1920. Op. Cit.
SURIANO, Juan. Trabajadores, anarquismo y Estado represor. Op. Cit. ZIMMERMANN, Eduardo.
Los liberales reformistas. La cuestión social en la Argentina. Buenos Aires: Sudamericana, 1995.
VILLAVICENCIO, Susana (ed.). Los contornos de la ciudadanía. Nacionales y extranjeros en la
Argentina del Centenario. Buenos Aires: EUDEBA, 2003.
42
FARGE, Arlette. O sabor do arquivo. Op. Cit., p. 13.
43
Ver ARTIÈRES, Philippe. “La sombra de los prisioneros sobre el tejado: las herencias del GIP”. In:
ERIBON, Didier (ed.). El infrecuentable Michel Foucault: renovación del pensamiento crítico.
Buenos Aires: Letra Viva, 2004, p. 148.

27
reproduzir um retrato fotográfico ou citar as palavras de uma autoridade estatal.44
Uma opção sempre à mão para moderar essas inquietudes era a possibilidade de
mudar os nomes, empregar somente as iniciais, talvez os pseudônimos, ou
diretamente inventar nomes fictícios para personagens do arquivo. No entanto, ao
transtorno que eu poderia provocar a qualquer historiador que quisesse revisar o
mesmo processo (afinal, é para isso que devemos citar a fonte), somava-se a
incerteza sobre a veracidade dos nomes.

Não existiam, naquela época, registros civis que pudessem garantir, com um
mínimo de certeza, se Minga-Minga havia sido registrado ao nascer como Ángel
Artire, ou se este era um dos tantos nomes que podia ter inventado, ao longo de sua
vida, para escapar das perseguições policiais. Raramente algum dos expulsos
aparecia registrado com menos de três nomes diferentes; em alguns casos, nem
sequer se sabia exatamente onde haviam nascido, e as informações vacilavam
também sobre a idade ou o estado civil. Alfred Matfeld, José Ritter, Fritz Steinhoff,
Alberto Routho e Alberto Landi eram, para a polícia carioca, a mesma pessoa. Mas
em nenhum momento se esclarecia, e nem podia se esclarecer, qual era o “nome
verdadeiro”. Ora registrado como holandês, ora como argentino; ora viúvo, ora
solteiro: o fato é que nenhuma dessas incertezas impediu que ele fosse expulso em
1907, embarcado para Buenos Aires no porto de Santos.45 Inventar um nome a mais
para Alfred, José, Fritz ou Alberto seria da minha parte quase um ato de arrogância.
Simplesmente tratarei de narrar – com a maior honestidade possível – as deliciosas
espertezas desse punhado de ladrões viajantes.

44
Uma profunda reflexão sobre a escrita da história de um indivíduo desconhecido, que não deixou
registros em arquivos policiais e judiciais, pode ser encontrada em: CORBIN, Alain. Le monde
retrouvé de Louis-François Pinagot: sur lês traces d’un inconuu (1798-1876). Paris: Flammarion,
1998.
45
Ver AN, IJJ7 130; AN, GIFI 6C 222 (1907); e AHI, Ofícios de Polícia, 300-3-6 (1907).

28
Histórias transnacionais

Arquivos e bibliotecas nacionais forneceram então as fontes necessárias para


narrar uma história transnacional. De fato, a periodização delimitada entre as décadas
de 1890 e 1930 não corresponde a cortes da história política dos dois países,
tampouco está atada estritamente ao arco diacrônico das fontes consultadas. A tese
inicia-se com uma série de viagens de policiais sul-americanos à Europa e uma
intensificação do tráfico mundial de saberes policiais, onde as tecnologias para a
identificação de pessoas tiveram grande destaque. A essa via de intercâmbios
transatlânticos estão dedicados os capítulos que compõem a primeira parte do
trabalho.

Embora o vínculo com as polícias europeias nunca tenha cessado, as três


primeiras décadas do século XX foram marcadas pela auge da cooperação entre as
polícias da América do Sul, consagrada nas conferências de Buenos Aires de 1905 e
1920. Numa época de conflitos bélicos agudos no mundo ocidental, não foram
poucos os especialistas europeus que consideraram o espaço atlântico sul-americano
um terreno propício para o crescimento da polícia internacional. O ponto de vista dos
“criminalistas” Edmond Locard e Rudolph Archibald Reiss, como estudaremos na
segunda parte da tese, expressaria esse novo olhar sobre os países sul-americanos.46

Por último, tratarei de mostrar, utilizando os processos de expulsão e outras


documentações do arquivo policial, que a aproximação entre os policiais da
Argentina e do Brasil não ficou limitada à celebração de reuniões e à retórica dos
discursos solenes. Intercâmbios concretos de informação, circulação de telegramas,
controles nos portos e também receios, mais ou menos dissimulados, entre as polícias
de ambos os países serão objeto dos capítulos da terceira parte, que termina com uma
análise sobre o controle da mobilidade territorial dos “criminosos viajantes”.

46
Usarei a noção de “criminalista” no sentido que esta expressão adquiriu na primeira metade do
século XX, é dizer, para falar destes especialistas nos estudos de “polícia científica”, e distingui-los
dos “criminologistas” da escola positiva de “antropologia criminal” do último quarto do século XIX.

29
O tema da tese, as circulações policiais entre Rio de Janeiro e Buenos Aires,
está enfocado aqui sob um ponto de vista da história transnacional. No entanto, tal
perspectiva de análise dista de ser inequívoca e pressupõe a construção de um
problema que, por atravessar as fronteiras de um Estado nacional, envolve ao menos
dois países, mas não deve ser confundida com os métodos da “história comparada”.
Ao comparar, assumimos que as unidades de estudo confrontadas, submetidas a um
jogo de operações analógicas, à busca de contrastes, isomorfismos e correlações, são
na verdade unidades perfeitamente distinguíveis. Nesse sentido, a história comparada
tende a ser internacional, assim como a história diplomática e a militar: se às vezes
reconhece a existência de contatos e interfaces entre as unidades, a perspectiva
comparada as interpela como formas de vínculo entre os Estados. A história
transnacional, no entanto, trabalha com unidades que são, ao mesmo tempo, mais
amplas e mais estreitas.47

Embora nenhuma dessas operações comparativas seja necessariamente


infrutífera, e nem serão descartadas como ferramentas de análise neste trabalho, a
história transnacional tenta principalmente mostrar as fissuras que se abrem nas
fronteiras dos países. Aqui, essas fronteiras não são entendidas como um marco
estável a partir do qual se delimita o objeto de estudo: elas mesmas são uma questão
problemática a ser estudada. Não pensamos o objeto desta tese como um modo de
analisar as relações internacionais entre a polícia brasileira e a argentina,
simplesmente porque não existia, em nenhum dos dois países, um sistema nacional
de polícia ao qual poderíamos atribuir capacidade de ação.

Se alguma vez empregamos expressões como “policiais brasileiros” ou


“vigilantes argentinos”, é porque esse rótulo nacional estava presente como categoria
identitária. Mas quando dizemos que o olhar está depositado sobre um espaço de
interações entre Rio de Janeiro e Buenos Aires, esse recorte deve ser tomado ao pé
da letra. A rota entre essas capitais formava parte de um território que optei por
chamar “espaço atlântico sul-americano”, conceito que discuto no primeiro capítulo,
dedicado integralmente a reconstruir o marco geográfico e histórico que será o

47
SIEGEL, Micol. “Beyond Compare: Comparative Method after the Transnational Turn”, Radical
History Review, n. 91, Winter 2005, p. 62-90.

30
cenário da tese. Esse território estava habitado por uma multiplicidade de sujeitos
cujos laços sociais, trajetórias de vida e construção de identidades coletivas tomam
como ponto de referência aquilo que autores vinculados aos estudos migratórios
denominam “espaço social transnacional”.48

A partir desta perspectiva partilho com vertentes da literatura sociológica sobre


a mundialização um olhar crítico para as limitações do “nacionalismo
metodológico”.49 Porém, isso não implica liquidar a dimensão nacional até fazê-la
desaparecer na linguagem abstrata da fenomenologia global. Estudar relações sociais
que atravessam fronteiras, redes de vínculos de longa distância e de cabotagem, fluxo
de pessoas, objetos e informação através dos mares, diversos processos nos quais o
local e o mundial se articulam de forma complexa: nada disso implica, como
corolário forçado, uma afirmação do caráter obsoleto dos Estados e das nações. De
fato, veremos que as fronteiras nacionais e as autoridades que as custodiam podem
constituir também sérios obstáculos para a mobilidade territorial de certos sujeitos.
As expulsões de estrangeiros no Brasil e na Argentina, no início do século XX,
mostram que as nações e os nacionalismos, ainda que invenções frágeis e
“comunidades imaginadas”, podiam ser traduzidas em mecanismos coercitivos
concretos para a regulação das relações sociais.

No campo da história da ciência, dos intelectuais e das elites técnicas, os


estudos transnacionais têm apontado algumas discussões também relevantes para
desta tese. Interessam-me especialmente as críticas ao “modelo difusionista”, isto é, a
chave de leitura que interpreta o movimento mundial de ideias como um processo de
transmissão do centro à periferia. Esta matriz de pensamento gira em torno da noção
de “influência”: as ideias viajam de um lugar a outro, mas se trata de uma viagem de
mão única partindo de um centro produtor de conhecimentos até uma periferia

48
FAIST, Thomas. The volume and dynamics of international migration and transnational social
spaces. Oxford: Claredon/ Oxford University Press, 2000. PRIES, Ludger. “The disruption of social
and geographic space: US-Mexican migration and the emergence of transnational social spaces”,
International Sociology, vol. 16, n. 1, 2001, p. 55-74.
49
BECK, Urich. “La sociedad civil trasnacional: cómo se forma una visión cosmopolita”. In: ¿Qué es
la globalización? Barcelona: Paidós, 1998, p. 99-126. WIMMER, Andreas, GLICK SCHILLER,
Nina. “Methodological nationalism and beyond: nation-state building, migration and the social
sciences”, Global Networks, vol. 2, n. 4, 2002, p. 301-304.

31
receptora.50 Estudos sobre a organização de conferências internacionais, missões
científicas, viagens e migrações de intelectuais em diversos espaços do saber,
mostraram a emergência de redes transnacionais, tráficos de ideias com múltiplos
destinos e processos de hibridação de conhecimentos.51 A dimensão transnacional
das reformas institucionais e o deslocamento de técnicos especialistas entre os países
foram objeto de várias investigações sobre planificação urbana, políticas sociais,
econômicas e sanitárias.52

A circulação de ideias criminológicas, projetos de reforma penal, policial e


penitenciária recebeu também uma maior atenção dos historiadores nos últimos anos.
Os congressos internacionais penitenciários e de antropologia criminal, celebrados
desde o último quarto do século XIX, criaram um marco inédito de intercâmbios
entre especialistas em escala mundial.53 Essa época foi marcada por uma crescente

50
Uma crítica pioneira a esse modelo da difusão foi feita pelo sociólogo norte-americano Edward
Shils num trabalho publicado em 1961, onde argumenta que a mundialização do campo intelectual
não deve ser pensada como a conformação de uma “comunidade intelectual transnacional”. Essa
comunidade tem múltiplos centros de atração (Shils os denomina “metrópoles”), ao redor dos quais
giram diferentes círculos de “provincialismo intelectual”. SHILS, Edward. “La metrópoli y la
provincia en la comunidad intelectual”. In: Los intelectuales en los países en desarrollo. Buenos
Aires: Ediciones Tres Tiempos, 1981, p. 42-63. Na América Latina, os críticos literários e
historiadores da cultura discutiram esta questão na segunda metade do século XX, por exemplo:
RAMA, Ángel. Transculturación narrativa en América Latina. Cidade do México: Siglo XXI, 1982.
RAMOS, Julio. Desencuentros de la modernidad en América Latina. Cidade do México: Fondo de
Cultura Económica, 1989.
51
CHARLE, Christophe; SCHRIEWER, Jürgen; WAGNER, Peter (eds.). Transnational Intellectual
Networks. Forms of Academic Knowledge and the Search of Cultural Identities. Frankfurt/ Nova
Iorque: Campus Verlag, 2004. ZIMMERMANN, Eduardo. “Global Intellectual Elites”. In: IRIYE,
Akira; SAUNIER, Pierre-Ives (eds.). The Palgrave Dictionary of Transnational History. Londres:
Palgrave/ Macmillan, 2009, p. 547-551.
52
RODGERS, Daniel T. Atlantic Crossings. Social Politics in a Progressive Age. Cambridge: Harvard
University Press, 1998. DEZALAY, Yves; GARTH, Bryan G. The Internationalization of Palace
War. Lawyers, Economists, and the Contest to Transform Latin American States. Chicago: The
University of Chicago Press, 2002. Veja também os trabalhos incluídos no dossiê “Transmissão e
herança científica: Europa y América Latina”, na revista História, Ciências, Saúde - Manguinhos, vol.
15, n. 2, Rio de Janeiro, abr.-jun. 2008, p. 433-557. Também é importante a discussão sobre os casos
de reformas urbanas de “inspiração haussmaniana”, ver: NEEDELL, Jeffrey. “Rio de Janeiro and
Buenos Aires: Public Space and Public Consciousness in Fin-de-Siècle Latin America”, Comparative
Studies in Society and History, vol. 37, n. 3, 1995, p. 519-540. GORELIK, Adrián. La grilla y el
parque: espacio público y cultura urbana en Buenos Aires, 1887-1936. Bernal: Universidad Nacional
de Quilmes, 1998, p. 115-124.
53
KALUSZYNSKI, Martine. “The International Congresses of Criminal Anthropology. Shaping the
French and International Criminological Movement, 1886-1914”. In: BECKER, Peter; WETZELL,
Richard F. (eds.). Criminals and their Scientist. The History of Criminology in International
Perspective. Nova Iorque: Cambridge University Press, 2004, p. 301-316. Diversos trabalhos deram
conta do impacto desses congressos na América Latina, em especial: OLMO, Rosa del. América

32
inquietação com a existência de novas formas de criminalidade internacional,
vinculadas ao que Peter Hungill denominou “época neotécnica”, em referência a
proliferação das tecnologias de transporte e comunicação baseadas na eletricidade.54
Nas polícias da Europa e das Américas se propagou um discurso sobre a suposta cara
sinistra da modernização técnica, refletida nos múltiplos usos “criminais” das
inovações tecnológicas, desde o mercado de tráfico de mulheres até os atentados
anarquistas e os bandos de ladrões viajantes.55

Essa preocupação encontra-se nos fundamentos das primeiras iniciativas de


cooperação policial transnacional. Desde a Conferência Internacional para a “defesa
social” contra o anarquismo (Roma, 1898) até a consolidação definitiva da
Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) ao se finalizar a Segunda
Guerra Mundial, estende-se um complexo processo de aproximação entre as polícias
do mundo, sobre o qual ainda sabemos bem pouco.56 Algumas investigações
dedicaram-se ao lugar ocupado pelo movimento internacional de ideias, técnicas e
especialistas para a modernização das polícias sul-americanas no século XX, dando
ênfase à transmissão de saberes e treinamento para a repressão política.57 No entanto,

Latina y su criminología. México: Siglo XXI, 1999. Trabalhos mais recentes têm criticado a visão de
Rosa del Olmo e de outros criminologistas críticos latino-americanos que leram a relação com a
Europa sob a chave da teoria da dependência cultural, ver por exemplo: SOZZO, Máximo.
“Traduttore Traditore. Importación cultural, traducción e historia del presente de la criminología en
América Latina”. In: SOZZO, Máximo (ed.). Reconstruyendo las Criminologías Críticas. Buenos
Aires: Ad-Hoc, 2001, p. 353-431. Ver também: MELOSSI, Dario; SOZZO, Máximo; SPARK,
Richard. Travels of the Criminal Question. Cultural Embeddedness and Diffusion. Oxford/Portland
Oregon: Hart Publishing, 2011.
54
HUGILL, Peter. Global communications since 1844: geopolitics and technology. Baltimore: John
Hopkins University Press, 1991.
55
DEFLEM, Mathieu. “Technology and the internationalization of policing: a comparative- historical
perspective”, Justice Quarterly, vol. 19, n. 3, sept. 2002, p.453-475. KNEPPER, Paul. The Invention
of International Crime. A Global Issue in the Making, 1881-1914. Basingstoke: Palgrave/Macmillan,
2009.
56
Os estudos, além do mais, têm sido muito descontinuados no tempo, ver: BACH JENSEN, Richard.
The International Anti-Anarchist Conference of 1898 and the Origins of Interpol, Journal of
Contemporary History, vol. 16, n. 2, apr. 1981, p. 323-347. NADELMANN, Ethan. Cops Across
Borders. The Internationalization of US Criminal Law Enforcement. University Park, PA:
Pennsylvania State University Press, 1993. DEFLEM, Mathieu. Policing World Society: Historical
Foundations of International Police Cooperation. Nova Iorque: Oxford University Press, 2004.
57
Ver CANCELLI, Elizabeth. De uma sociedade policiada a um Estado policial: o circuito de
informações das polícias nos anos 30, Revista Brasileira de Política Internacional, vol. 36, n. 1, 1993,
p. 67-86. HUGGINS, Martha. Polícia e política. Relações Estados Unidos/América Latina. São Paulo:
Cortez, 1998. MARTINS, Marcelo T. Quintanilha. “Policiais habilitados não se improvisam: a

33
falta examinar outras direções desse mesmo processo, começando por revisar o
próprio peso da América do Sul na rede mundial da cooperação policial. Pensar as
polícias do Rio de Janeiro e Buenos Aires como simples receptoras periféricas de
ideias produzidas nas regiões centrais (seja nos países da Europa ocidental até
meados do século XIX, ou nos Estados Unidos na segunda metade do século XX)
impede análise do nascimento de um espaço transnacional irredutível a olhares de
mão única.

Depois de uma série de encontros entre policiais sul-americanos na primeira


década de 1900, o jurista argentino Luis Reyna Almandos, discípulo devoto de Juan
Vucetich, apresentava no Congresso Científico Americano de Buenos Aires um
projeto curioso. Convocava os distintos países a formarem uma polícia mundial
mediante a firmação de um tratado de defesa social, inspirado no funcionamento da
União Postal Universal. O núcleo da proposta era formar uma rede de trocas
internacionais de antecedentes, baseando-se nas informações das novas fichas
datiloscópicas. Para Reyna Almandos, a origem dessa ideia era latino-americana,
embora aceitasse que outros lhe reclamassem uma paternidade europeia. Ao fim e ao
cabo – dizia – não importava tanto “a procedência das ideias quando as consideramos
úteis”.58 Nesse tom vacilante, entre a piscadela fraternal da colaboração e a querela
vaidosa do protagonismo mundial, vão se acomodando os discursos da cooperação
policial sul-americana.

modernização da polícia paulista na Primeira República (1889-1930)”, Revista de História, São Paulo,
n. 164, jan.-jun. 2011, p. 243-269.
58
REYNA ALMANDOS, Luis. Unión Policial Universal. Sus bases. La Plata: Talleres Gráficos
Christmann & Crespo, 1910, p. 6.

34
PARTE I
CARTOGRAFIAS DO CRIME SUL
AMERICANO
Rotas indesejáveis

Nós os americanos, se desejarmos cumprir a


missão histórica que temos reservada,
precisamos fechar as portas aos malfeitores
proscritos em outras regiões. (...) Todo
trabalho feito no sentido de libertar à jovem
América do flagelo do crime, constitui uma
obra meritória.
Rosendo Fraga, chefe da Polícia de Buenos
Aires (1905).1

Na primavera de 1894, Buenos Aires permaneceu agitada algumas semanas por


um crime misterioso. A polícia havia encontrado um cadáver esquartejado, ninguém
sabia quem era o morto e, claro, menos ainda quem era o assassino. A descoberta
macabra ocorreu em diferentes dias, à medida que as partes do corpo iam aparecendo
espalhadas pela cidade. Em um primeiro momento foi a vez do tronco desprovido de
membros e de cabeça. O médico da polícia, Agustín Drago, analisou o fragmento,
observando que o assassino havia cuidadosamente colocado sal grosso e serragem
nas articulações para estancar o sangramento. Pela ausência de marcas no corpo,
sugeriu a hipótese de estrangulamento, mas pouco poderia ter certeza sem o resto da
vítima. Apesar dos avanços no campo da medicina legal e dos primeiros passos da
polícia científica, que Drago rapidamente percebeu quando criou o Gabinete de
Identificação Antropométrica, somente um torso, nesse momento, era uma
pista muito fraca. Por isso, as especulações se focaram, como de costume, nos
preconceitos policiais contra o lugar da descoberta, as tavernas e bordéis da área, os
suspeitos de costume.

1
“Después de la conferencia interpolicial”, Revista de Policía, Año IX, n. 204, Buenos Aires, 16 nov.
1905, p. 95.
No dia seguinte à descoberta do tronco, apareceu um pacote com os braços e as
pernas enrolados em papel de jornal; enquanto a cabeça foi encontrada algumas
semanas depois por duas crianças que brincavam perto do Rio da Prata. O enigma
correu pela imprensa de imediato, não faltaram comparações com Jack, the ripper, e,
a cada dia que passava, aumentava a pressão sobre as autoridades para revelar o
mistério. A polícia aproveitou o clamor popular e organizou uma exposição pública
no Departamento Central: durante vários dias, os portenhos puderam desfilar diante
de fotografias da cabeça, um retrato a óleo em que se reconstruía o rosto da vítima,
um busto de gesso esculpido por um escultor famoso e vários objetos encontrados
junto aos pacotes que continham as partes do cadáver.

Foi assim que se começou a descobrir o crime. Um grupo de franceses


assegurou que se tratava de François Farbos, um carteiro recém-chegado de Burdéus.
Em pouco tempo, o grupo desvendou a identidade do assassino, outro francês
chamado Raoul Tremblié. Não eram exatamente imigrantes que vinham para
ingressar no mercado de trabalho e “fazer a América”. Farbos e Tremblié se
conheceram ainda na França, cruzavam com frequência o atlântico e costumavam
alugar quartos para passar dias em Buenos Aires usando nomes falsos. Eram sócios
em um negócio bastante rentável: se dedicavam ao contrabando de moedas de cobre.
Essa era uma das tantas artimanhas nascidas da desvalorização do papel moeda na
Argentina, logo após a crise financeira de 1890, que havia provocado um incessante
aumento na cotação do ouro.

Segundo explicava um policial em um livro que dedicou ao caso, um dos


franceses enviava ao outro dinheiro que permitia-lhe adquirir certa quantidade de
moedas argentinas de um e dois centavos. O carregamento de moedas viajava por
mar até a França dentro de baús construídos com fundo e paredes falsas, para burlar
os controles aduaneiros. Na Europa, as moedas podiam ser vendidas fundidas como
cobre, e se obtinha por ele um capital consideravelmente maior ao gasto na
Argentina, contemplando, ademais, os custos da viagem de navio.2

2
UN ANTIGUO COMISARIO DE POLICÍA. El descuartizador. Historia íntima de un asesino.
Buenos Aires: s/m, 1894, p. 78-79.

37
Aparentemente, uma briga entre Farbos e Tremblié, talvez a ambição do
segundo para ficar com todo o ganho ou evitar pagar uma dívida a seu companheiro,
terminou nesse esquartejamento. A polícia recolheu provas bastante contundentes
contra Tremblié e soube que ele havia embarcado com destino a Dunkerque pouco
depois do crime. Embora as viagens em navios a vapor houvessem diminuído
consideravelmente o tempo da travessia transatlântica, outro avanço tecnológico do
oitocentos foi fatal para o destino de Tremblié. Um telegrama para a polícia francesa
foi o suficiente para que o esperassem no porto de Dunkerque, o detivessem e
confiscassem seus baús, nos quais encontraram a carga de moedas argentinas. O
governo francês recusou um pedido de extradição da justiça argentina e submeteu o
assassino a julgamento em sua terra natal. Condenado à morte, sua sentença terminou
sendo comutada e passou o resto de seus dias na prisão de Saint-Omer.3

Três décadas mais tarde, a polícia da capital brasileira solicitava a seu governo
a expulsão dos italianos Francisco Barbieri e Vicente Perniconi, acusados de integrar
um grupo dedicado a diversos tipos de roubos. No começo do século XX, tanto
Brasil como Argentina sancionaram uma série de leis de expulsão de estrangeiros
que previram procedimentos sumários, sem intervenção do Poder Judiciário (salvo
em casos de pedido de habeas corpus), fundamentados em frágeis depoimentos,
poucas testemunhas e alguma informação elaborada pela polícia. No caso de Barbieri
e Perniconi, esta informação era – em relação à média – bastante abundante. A folha
de antecedentes, várias fichas datiloscópicas e retratos fotográficos produzidos pelo
Gabinete de Identificação, estavam acompanhados por um anexo da Seção de
Investigações. Nele se explicava como havia sido detido no Rio de Janeiro, dentro de
uma casa, um arsenal de utensílios para a arte de roubar:

Uma pistola Colt calibre 38, número 50.585; uma pistola Colt
calibre 45, número 149.037; uma pistola Parabellum calibre 45,
número 5.649, modelo de 1916, sendo de cano longo; cinco pentes
pertencentes à mesma arma; sete pentes da pistola Colt calibre 38;
uma máquina portátil própria para furar ferro; um arco de pua de
carpinteiro, para furar madeira; uma chave inglesa; uma grifa de
ferro para segurar encanamento; (...) um alicate; um lima murça;

3
Sobre o affaire Tremblié, ver: GALEANO, Diego. Escritores, detectives y archivistas. La cultura
policial en Buenos Aires, 1821-1910. Buenos Aires: Biblioteca Nacional/Teseo, 2009, p. 129-142.

38
14 brocas de diversas dimensões para furar ferro; um parafuso de
ferro e para torno; oito parafusos de ferro; uma chapa de ferro para
experiência; dois pares de luvas; uma lata pequena contendo ela:
duas blusas zuarte, uma gorra de casimira, um mapa das cidades de
Rio e Niterói, um mapa da Viação Férrea de Brasil; um mapa de
Brasil, da República Oriental de Uruguai, de Paraguai.4

Por que junto a todos estes objetos, além dos mapas do Rio de Janeiro e
arredores, guardavam um da rede ferroviária brasileira e outros de países sul-
americanos? Os testemunhos recolhidos nos expedientes nos dão alguns indícios para
responder a esta pergunta. Quando os detiveram, Francisco tinha 33 anos, havia
nascido em Catanzaro, estava casado e declarava ser sapateiro. Vicente era dois anos
mais novo, solteiro, nascido em Regalbuto e dizia ser pedreiro. Ambos sabiam ler e
escrever. Quando perguntaram a eles quando e como chegaram ao Brasil,
coincidiram na data (havia uns três meses que estavam no país), mas divergiam no
meio de transporte: segundo Vicente, chegaram por via marítima, em um navio
procedente de Buenos Aires; enquanto que para Francisco tinham ingressado por
trem, também desde a Argentina, atravessando a fronteira na altura do Rio Grande do
Sul.5

A pista que seguiam os investigadores da polícia carioca era que Vicente e


Francisco formavam, junto a um argentino chamado Emilio Uriondo, uma quadrilha
de “gatunos internacionais” que roubava em vários países. Esses gatunos eram –
iguais a muitos dos anarquistas expulsos por essas mesmas leis – sujeitos nômades,
que circulavam com frequência tanto entre Europa e o continente americano como
entre os próprios países sul-americanos. Mas, diferentemente de seus colegas
libertários, não os interessava lutar contra o status quo, mas aproveitar as múltiplas
rotas criminais que esse status quo tornava possível.

A polícia os prendeu, os retratou e tirou suas impressões digitais, práticas que


os vigilantes repetiam com o resto dos ladrões e trapaceiros. No entanto, não era
possível amalgamar tão facilmente Francisco e Vicente com todos os personagens do

4
AN, IJJ7 133. Expulsão de Francisco Barbieri (1928). Cópia do Auto de apresentação e apreensão.
5
AN, IJJ7 133. Expulsão de Francisco Barbieri (1928). Auto de Qualificação. AN, IJJ7 142. Expulsão
de Vicente Perniconi (1928). Auto de Qualificação.

39
mundo do delito urbano. O estereótipo de ladrão pobre, analfabeto e desordeiro, cuja
existência nos confirma grande parte da historiografia do crime na América Latina,
pouco nos serve para pensar quem eram estes dois italianos, a quem vemos nos
retratos de frente e perfil arrumadamente penteados, ambos vestidos com terno, um
com gravata, o outro com laço.

Dificilmente um gatuno do submundo sul-americano usaria estas vestimentas,


teria a barba e a costeleta rigorosamente aparadas, e acumularia tantas milhas de
viagem marítima como Francisco e Vicente. E menos ainda viajaria com o arsenal
que a polícia encontrou na casa que ocupavam no Rio de Janeiro, enumerado no
inventário e registrado pela fotografia, incluída nos expedientes.

“Fotografia ao interior de um dos quartos”


Fonte: AN, Fundo IJJ7, Caixa 133, Processo de Expulsão de Francisco Barbieri (1928).

Na imagem, podem ser vistos outros instrumentos não inclusos no inventário,


como um par de bigodes falsos, usados para mudar o aspecto físico nos roubos ou
nas viagens. Em outra fotografia anexada, podem ser vistas duas camas do quarto

40
que dividiam, cada uma com uma maleta de viagem ao lado. Como os baús de
Tremblié, equipados com fundo falso, as malas de Francisco e Vicente eram uma
ferramenta a mais em seu instrumental de ladrões profissionais. Dessa vez, tiveram
que usá-las para abandonar o Brasil forçados pela polícia. Segundo o procedimento
de expulsões, o Ministro de Justiça os declarou “elementos nocivos à sociedade e
prejudiciais para os interesses da República” e decretou que abandonassem o
território nacional. Em 8 de janeiro de 1929, Francisco foi embarcado rumo a
Gênova no vapor Conte Verde e, separadamente, Vicente regressou a Itália no vapor
Arlanza.

Embora separados entre si por muitos anos, os casos de Tremblié e dos


italianos expulsos sugerem secretas ligações. Uma densa rede de circulações
transatlânticas e regionais, alimentadas por um contexto geral de migrações maciças
que sacudiam cidades e sociedades. Tecnologias que mudavam a duração das
viagens e os tempos da comunicação. Sujeitos que transformavam essas tecnologias
em novos modos de roubar onde a mobilidade territorial passava a ser fundamental.

Pedidos de extradição, pedidos de expulsão: múltiplas respostas,


frequentemente insuficientes, para conter essas práticas delitivas que inquietavam
cada vez mais aos leitores de jornais. Estes leitores consumiam uma renovada
imprensa policial que usava o telégrafo para difundir crimes de outros países, em
uma circulação que se movia não somente desde o Norte ao Sul (sem ir tão longe, o
affaire Tremblié foi seguido pela imprensa parisiense e Albert Bataille o incluiu na
sua prestigiosa recopilação de Causes Criminelles et Mondaines). Por último, a
incipiente polícia científica, desde as técnicas mais artesanais empregadas para saber
quem era Farbos até as fichas datiloscópicas estandardizadas que se usavam nas
expulsões, foi o resultado de uma densa trama de intercâmbios internacionais. Desde
Paris até Buenos Aires e do Rio da Prata até os principais portos brasileiros,
escutava-se o mesmo clamor: aí onde havia ladrões viajantes, as polícias
necessitavam vigilantes cada vez mais modernos.

41
O espaço atlântico sul-americano

Os criminosos e os policiais que, com especial atenção, este trabalho seguirá


circulavam em um espaço transnacional: a rota ultramarina que unia aos dois grandes
portos do Rio da Prata (Buenos Aires e Montevidéu) com as cidades portuárias
brasileiras e, atravessando o oceano atlântico, com Lisboa, Porto, Vigo, Barcelona,
Génova, Nápoles e outros destinos europeus. Durante o século XIX, o Brasil imperial
e as “Repúblicas do Prata” estreitaram vínculos, firmaram tratados de paz, comércio
e navegação, intensificando, dessa forma, a circulação de pessoas e mercadorias. O
grande fluxo de migrantes europeus e a modernização dos transportes incentivaram o
crescimento dessas rotas.

As distâncias são algo mais que uma realidade física, segundo insistiu Braudel,
o grande historiador do Mediterrâneo: têm uma dimensão temporal que depende
diretamente da capacidade tecnológica para viajar no espaço.6 Na historiografia
extensa sobre as migrações internacionais muito se discutiu sobre os fatores que
impulsionaram o deslocamento de europeus e asiáticos para a América. Embora haja
divergências sobre o peso concreto das inovações no transporte marítimo na decisão
de emigrar, ninguém duvida das transformações que o navio a vapor provocou nas
viagens.

Os avanços na indústria naval levaram a uma substituição paulatina dos


veleiros pelos vapores que, somado ao melhoramento dos motores, reduziram muito
o tempo da travessia. Nas décadas de 1850 e 1860, ao embarcar em um veleiro, o
emigrante da Península Ibérica encarava uma viagem de aproximadamente cinquenta
dias; duração sujeita às inclemências do tempo e da sorte das correntes marítimas.
No entanto, desde inícios dos anos 1870, um vapor que partia de Lisboa com destino
ao Rio de Janeiro, sem escalas, demorava quinze dias e desde o noroeste espanhol até
o Rio da Prata, uns vinte dias. Estas cifras se reduziram um pouco nas primeiras

6
BRAUDEL, Fernand. La méditerranée et le monde méditerranéen a l’époque de Philippe II. Paris:
Librairie Armand Colin, 1979, p. 10-15.

42
décadas do século XX, mas ainda estavam longe do grande salto que provocou a
introdução do navio a vapor.7

A incorporação de novos materiais na construção dos cascos aumentou a


capacidade de carga e também os preços da passagem, embora os historiadores
tenham mostrado a existência de flutuações nas tarifas e tenderam a enfatizar mais –
como variável explicativa para a decisão de migrar – o peso da diminuição dos
custos da viagem pela redução dos dias de trabalho perdidos a bordo. A isso se
somava a crescente comodidade que os navios ofereciam aos viajantes. Não apenas
pela previsibilidade na duração do trajeto, mas pelo conforto a bordo, que até para os
passageiros de terceira classe chegava a ser consideravelmente melhor que nos
veleiros.

As bases materiais do transporte ultramarino, o comércio e os circuitos de


emigração delineavam, assim, este espaço atlântico sul-americano, que deve ser
entendido como uma região historicamente constituída e não como um território
dado pelas características naturais, as divisões políticas ou administrativas dos
estados. Constitui uma “região” no sentido que este termo adquire para a
historiografia regional, embora frequentemente seus estudos tendam a se identificar
com a história agrária e incluam poucas análises transnacionais.8

Aqui se trata de capitais, grandes cidades e portos, em um fragmento da rota


marítima que se estende desde Buenos Aires até o Rio de Janeiro. Espaço
dinamizado por práticas sociais, agitado por um intenso movimento de homens e
mulheres que convertiam as cidades em territórios de interação entre anônimos.
Tanto no Brasil como na Argentina, os policiais advertiam sobre novas experiências
delitivas que muito tinham a ver com estas vicissitudes.

7
COSTA LEITE, Joaquin da. “O transporte de emigrantes: da vela ao vapor na rota do Brasil, 1851-
1914”, Análise Social, Lisboa, v. XXVI, n. 112-113, 1991, p. 741-752.
MOYA, José C. Cousins and Strangers. Spanish Immigrants in Buenos Aires, 1850-1930. Berkeley:
University of California Press, 1998, p. 35-43.
8
Ver LINHARES, Maria Y.; TEIXEIRA DA SILVA, Francisco C. “Região e História Agrária”,
Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 8, n. 15, p. 17-26. BLACHA, Noemí M Girbal de. “La historia
regional hoy: balances y perspectivas con enfoque agrario”. In: GELMAN, Jorge (Coord.). La historia
económica argentina en la encrucijada. Buenos Aires: Prometeo, 2006, p. 411-423.

43
Mapa do espaço atlântico sul-americano
Fonte: “South America”, Americanized Encyclopedia Britanica, Vol. 1, Chicago, 1892.

O recorte geográfico reforça, então, a hipótese de uma rota de circulações


delitivas e policiais, construída a partir das fontes documentais. Indagar os vínculos
entre Buenos Aires e Rio de Janeiro implica, ao menos, três coisas. Em primeiro
lugar, a delimitação de um espaço que constitui, ao mesmo tempo, algo mais e algo
menos que um território cercado por fronteiras nacionais: algo mais, porque
ultrapassa as linhas jurídicas que separam os países; algo menos, porque deixa de
fora grande parte do imenso território da Argentina e do Brasil (neste caso, não

44
apenas no interior como também os importantes portos de Salvador e Recife).9 Em
segundo lugar, entre Buenos Aires e Rio de Janeiro alude a um ponto de vista:
analisaremos os fluxos da rota traçada desde estas capitais sul-americanas, através
dos escritos de seus políticos, jornalistas, literatos, mas também dos policiais e das
vozes de diversos sujeitos que ficaram registrados na documentação policial. Por
último, apesar destes recortes, abundam no relato as menções a outras cidades
abrangidas nessa rota: Montevidéu, Porto Alegre, São Paulo e seu porto de Santos
serão frequentes coprotagonistas, devido à espessa trama de relações que unia estas
cidades com Buenos Aires e o Rio de Janeiro.

Se delimitar o espaço implica uma operação de recorte, inevitavelmente surge


uma série de exclusões geográficas nada irrelevantes. Recordemos que os ladrões
italianos expulsos em 1929 guardavam em um quarto mapas da rede ferroviária
brasileira, do Paraguai e do Uruguai. Este simples dado é um indício, entre tantos
outros, da existência de outras duas rotas frequentadas por criminosos viajantes,
trajetos que ainda constituíam um desafio para os mecanismos de vigilância policial.
A primeira dessas rotas está desenhada pelo que alguns autores chamam de “espaço
fluvial platino”: os dois grandes rios que formam a Bacia do Prata, o Paraná e o
Uruguai confluem no grande estuário chamado Rio da Prata, por cujas águas esses
rios têm saída para o Atlântico. Navegável em quase todo seu trajeto e ramificações,
suas águas conectam cidades portuárias do litoral argentino (Rosário, Paraná. Goya,
entre outras) e uruguaio (Salto), com os estados brasileiros do Rio Grande do Sul
(Itaquí e São Borja) e Mato Grosso (Corumbá), e com cidades da Bolívia e Paraguai,
começando pela capital do país, Assunção.10

9
A tese de Cleide de Lima Chaves, ainda que centrada nas relações comerciais e no controle de
epidemias de doenças infectocontagiosas, em um período anterior, oferece um panorama sobre o
espaço atlântico sul-americano através de uma rota mais ampla, que se estende desde o Rio da Prata
até a Bahia. CHAVES, Cleide de Lima. De um porto a outro: a Bahia e o Prata (1850-1889).
Dissertação de Mestrado em História, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2001.
10
MEDRANO, Lilia Inés Zanotti de. “Un ciclo comercial en la Cuenca del Plata (1850-1920)”,
Revista Complutense de Historia de América, Madrid, n. 18, 1992, p. 219-239. Ver também o trabalho
de Keila Grinberg sobre as fugas e a passagem de escravos as áreas de fronteira entre o Brasil e o
Uruguai no século XIX: GRINBERG, Keila. “Escravidão e liberdade na fronteira entre o Império do
Brasil e a República do Uruguai: notas de pesquisa”, Cadernos do CHDD, vol. 5, número especial,
Brasília, 2007, p. 89-112.

45
Durante a segunda metade do século XIX, este espaço de intensa
movimentação cresceu como articulador da economia regional devido à exportação
de produtos primários para a Europa e também pelas próprias relações comerciais
entre os países da região. Junto com o comércio legal, contrabandistas, ladrões de
gado e bandidos escolheram essas cidades de fronteiras elásticas para desenvolverem
suas atividades, muitas vezes protegidos por fazendeiros e coronéis. Os ladrões
viajantes utilizavam estas rotas fluviais para escapar da perseguição policial e
também para buscar novos rumos em cidades onde o dinheiro circulava com força.11

Tanto o “espaço fluvial platino” como o “espaço atlântico sul-americano”


constituem regiões históricas delineadas pelo comércio, pela circulação de pessoas e
por uma infinidade de práticas que levavam os sujeitos a atravessarem as fronteiras.
Evitaremos o recurso a outros conceitos mais utilizados entre os historiadores das
relações internacionais, em particular a noção de “Cone Sul”. Esta enteléquia
geopolítica tem fronteiras muito confusas, que incluem os territórios da Argentina,
do Chile e do Uruguai, embora alguns autores adicionem Bolívia e Paraguai, e às
vezes também o sul do Brasil. A debilidade do conceito de Cone Sul para a história
transnacional não se limita à indefinição de seus limites, mas é aprofundada pelo
caráter a-histórico deste espaço marcado por profundas assimetrias e durante muito
tempo atravessado por territórios fracamente conectados entre si.12

A isso se soma o problema das categorias identitárias, já que até o segundo


pós-guerra não existia a ideia do Cone Sul. Em troca, a expressão “sul-americano”
havia adquirido uma força especial nos países meridionais, em oposição ao
“panamericanismo” promovido pela política exterior dos Estados Unidos com a
intenção de tirar a Grã Bretanha de sua posição privilegiada no continente. Quando
policiais de países, como Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai, Peru e Bolívia

11
A centralidade econômica do “espaço fluvial platino” foi analisada por duas teses de doutorado
focalizadas em problemas e períodos diferentes: MEDRANO, Lilia Inés Zanotti de. A livre navegação
dos rios Paraná e Uruguai. Uma análise do comércio entre o Império Brasileiro e a Argentina (1852-
1889). Tese de Doutorado em História, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1989. E por:
OLIVEIRA, Vitor Wagner Neto de. Nas águas do Prata: os trabalhadores da rota fluvial entre Buenos
Aires e Corumbá (1910-1930). Campinas: Editora da Unicamp, 2009.
12
Um bom panorama da historiografia do Cone Sul pode ser consultado nos diversos trabalhos que
integram o volume coletivo: RAPAPORT, Mario; CERVO, Amadeo Luiz (Comps.). El Cono Sur.
Una historia común. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2002.

46
se reuniram em 1920 para discutir um convênio para o intercâmbio de informações,
chamaram a reunião “Conferência Sul-Americana de Polícia”. Esta iniciativa de
aproximação entre as polícias foi concebida nos Congressos Científicos Latino-
Americanos, realizados em Montevidéu (1901) e Rio de Janeiro (1905). Neste
último, o argentino Juan Vucetich havia proposto criar uma “polícia internacional
sul-americana”, baseada em um convênio entre as dez repúblicas existentes, não
obstante Equador, Colômbia e Venezuela nunca participaram nas conferências.13

Nesse mesmo ano, foi publicado um livro inovador intitulado La Policía en


Sudamérica. O autor era Alberto Cortina, embora fosse patrocinado pela chefia da
Polícia da Província de Buenos Aires e pelo próprio Vucetich, que então dirigia o
Gabinete de Identificação Dactiloscópica, na cidade de La Plata, capital daquela
província. Além de incluir uma explícita diatribe contra a Doutrina Monroe e os
interesses norte-americanos sobre a América Latina, Cortina expunha os motivos do
caráter “sul-americano” destas reuniões:

Cada instituição policial sul-americana tem que ser como uma


porção de uma corrente de segurança pública, de alguma forma
encadeada às demais; a corrente poderá ter anéis bem diferentes,
segundo a organização e os meios, mas o fato de que se consiga
encurralar com ela a delinquência sul-americana, será um sucesso
honroso e útil para todos.14

Polícia sul-americana, criminalidade sul-americana. Apesar da aparente


abstração, essas categorias giram, ao longo do livro, em torno da existência de um
problema concreto: “hoje os maiores criminosos cuja vida é impossível em um país,
mudam com surpreendente facilidade graças aos cada vez mais fáceis e rápidos
meios de transporte” – escreve Cortina.15 Esta hipótese sociológica anunciava a
presença dos ladrões viajantes que, a par dos anarquistas transumantes, tinham um

13
VUCETICH, Juan. “Congreso Policial Sudamericano. Su necesidad y manera de promoverlo”. In:
AAVV. Terceiro Congresso Científico Latino-Americano: a polícia argentina e a polícia brasileira.
Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1905, p. 53-79.
14
CORTINA, Alberto. La Policía en Sudamérica. La Plata: Talleres Gráficos La Popular, 1905. p. 21.
15
Idem, p. 21.

47
alto grau de mobilidade entre os países sul-americanos aos que o livro prestava maior
atenção (Argentina, Uruguai, Brasil e Chile).

A presença do Chile indicava que a inquietação policial não se esgotava no


espaço atlântico. De fato, outra das rotas sugeridas pelos mapas que tinham guardado
os ladrões italianos era a rede ferroviária. O trem conectava os grandes portos
ultramarinos com cidades do interior, mas também com cidades de países vizinhos,
como Santiago do Chile, em especial depois da inauguração do Ferrocarril
Transandino, em 1910. Essa via de transporte, por exemplo, foi usada por uma
mulher chilena que a Polícia de São Paulo acusou em 1930 de “gatuna internacional”
para iniciar o processo de expulsão. Adquiriu esse qualificativo não apenas por ser
estrangeira no Brasil, mas pelas informações que a polícia paulista recolheu através
da permuta de fichas de identificação com seus pares de Buenos Aires e Santiago do
Chile. Se confiarmos no pressuposto que guiava esta rede de inteligência policial
(quer dizer, que se tratava em cada caso da mesma pessoa), ela havia nascido em
Valparaíso, esteve detida quatro vezes em Santiago, acusada de diversos roubos, e
ainda havia passeado com sua profissão por Buenos Aires, Rio de Janeiro e São
Paulo. Tinha então 27 anos e nos arquivos policiais estava anotada com cinco nomes
diferentes.16

A questão é que os criminosos viajantes se moviam por navios e trens, com


frequência combinavam diversos meios de transporte. A rede ferroviária unia os
grandes portos a cidades do interior, que como sugerem as crônicas da época serviam
muitas vezes de refúgio para ladrões perseguidos pela polícia. Há que se ter em conta
a dimensão quantitativa da extensão desta rede. Se na década de 1850 o Brasil tinha
cerca de 16 quilômetros de vias férreas, nos primeiros anos da república, essa cifra
aumentara a 10.000 quilômetros e, até a década de 1930, superaria os 30.000. A
malha ferroviária argentina era ainda mais significativa. Enquanto em 1870,
começava a se estender ao Sul e ao Oeste de Buenos Aires com mais de 700
quilômetros de vias, até o final do século, incentivada pelos investimentos britânicos,

16
AN, IJJ7 131. Expulsão de Aminta Victoria Palma (1930).

48
estava em torno dos 17.000 e, no início da década de 1930, chegava a quase 40.000
quilômetros.17

Considerando que o território do Brasil é o triplo da República Argentina,


podemos dimensionar melhor os alcances da densa rede ferroviária que tinha Buenos
Aires como eixo e que a meados do século XX era uma das mais importantes do
mundo. Na Divisão de Investigações da Polícia da Capital, existia uma “Seção de
Embarcadouro” ocupada da vigilância dos portos e estações de trens. Um informe de
1914 brinda uma radiografia do uso destes meios de transporte ao longo de um ano.
Nesse período, haviam ingressado ao porto 1.510 vapores de ultramar que
transportaram 503.062 passageiros (somando entradas e saídas) e 4.565 navios
procedentes do sistema fluvial em que viajaram 406.028 pessoas. Entretanto, o
Ferrocarril del Sud – somente – somava 10 milhões de passageiros que entravam e
outros 10 milhões que saíam da capital por ano. Pelo Ferrocarril del Pacífico haviam
entrado 2 milhões de passageiros e um milhão havia saído. No total, somando
também o movimento do Ferrocarril del Oeste, Central Argentino, o Central
Córdoba e outras linhas menores, o volume global de viagens em trem era de
aproximadamente 45 milhões anuais.18

Transatlânticos, navios fluviais, trens: entre finais do século XIX e começos do


XX, o espaço atlântico sul-americano aparece como um território assinalado pela
mobilidade. Muitos eram os que percorriam grandes distâncias, viajavam, buscavam
novos rumos, instalavam-se em outro lugar. Embora os luxuosos vapores que
chegavam aos portos e a extensão da rede ferroviária fossem percebidos como
indiscutíveis sinais de progresso, os policiais levantavam a voz para advertir sobre os
efeitos não desejados da modernização que se manifestavam no mundo criminal. Em
1895, o futuro chefe da polícia carioca, João Brasil Silvado, narrava esta
preocupação de uma forma certamente elegante. Assegurava que na Europa havia
visto como os criminosos aproveitavam as “vantagens dos trens de ferro, da
abundância e velocidade destes”, conectando facilmente vários países, neste

17
CARDOSO, Ciro F. S.; BRIGNOLI, Héctor Pérez. Historia económica de América Latina. Vol. 2:
Economías de exportación y economía capitalista. Barcelona: Crítica, 1999, p. 69-75.
18
POLICÍA DE LA CAPITAL FEDERAL. La Policía de Investigaciones: su misión, organización y
funcionamiento. Buenos Aires: Imprenta y Encuadernación de la Policía, 1914, p. 34-36.

49
continente onde “a locomoção é coisa facílima” e um passageiro podia “tomar um
café em Berlim, almoçar em Liège e jantar em París, tudo no mesmo dia”.19

Essa modernidade cinética foi chegando à América do Sul, desafiando,


inclusive, suas colossais distâncias. E com ela foram aparecendo diversas práticas
delitivas que incorporavam os transportes ao modus operandi dos criminosos. Mais à
frente, veremos que a cooperação internacional e a adoção de novas tecnologias,
como o telégrafo, foram vistas pelos policiais como respostas necessárias ante o
avanço técnico da “criminalidade profissional”. Mas parte da sensação de
descontrole das forças policiais emanava das próprias dificuldades para vigiar
cidades que atravessavam transformações demográficas profundas, nas quais a cada
dia se viam circular rostos novos por suas ruas.

A circulação de modelos policiais

O momento da história europeia conhecido após a Primeira Guerra Mundial


como Belle Époque esteve marcado por um profundo “mal estar da segurança
pública”.20 Não era a primeira vez que as ansiedades sociais e políticas se
expressavam pela via do medo do crime, mas dessa vez o fenômeno adquiriu uma
dimensão mundial. O advento da imprensa popular, o uso do telégrafo como
ferramenta para noticiar delitos provenientes de remotas latitudes e a consolidação da
figura do repórter detetive internacionalizaram a circulação de novidades sobre o
mundo criminal. Sherlock Holmes, Monsieur Lecoq e Auguste Dupin passeavam
pelos jornais de distintos países, atravessavam continentes e inspiravam ficções
detetivescas locais. As novidades sobre Jack, the ripper e os últimos atentados
anarquistas na Europa chegavam aos jornais sul-americanos anunciados com os

19
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres: relatório apresentado ao Ministro da
Justiça e Negócios Interiores, sendo ministro o ilustrado cidadão Dr. Gonçalves Ferreira. Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, 1895, p. 112.
20
KALIFA, Dominique. L’encre et le sang. Récits et société à la Belle Époque. Paris: Fayard, 1995,
p. 235.

50
cabos telegráficos de reluzente instantaneidade. Nessas fronteiras elásticas entre a
ficção e a realidade, o temor (e a fascinação) frente ao delito instalou-se como um
dado recorrente nas conversações cotidianas.21

A polícia não ficou imune a essa época de mal estar. Ao contrário, a imprensa
se converteu também num espaço de críticas ao desempenho policial e reclamações
por reformas urgentes, bem como num produtor e canal de denúncias. “O clamor
contra a polícia é quase universal”, escrevia Elysio de Carvalho, personagem singular
do mundo literário carioca, quando ainda era diretor do Gabinete de Identificação e
Estatística: “aqui, como em Londres, em Paris, como em Berlim, em Buenos Aires,
como em Roma, por toda parte, surge uma como espécie de revolta contra a
malsinada instituição”.22 Os nomes destas cidades não estavam escolhidos por acaso.
Carvalho, como muitos policiais brasileiros e argentinos, defendiam a instituição das
diatribes que evocavam distintos exemplos europeus (e no caso do Brasil
republicano, também a polícia de Buenos Aires) para questionar a organização local.

O commissaire de police e o sergent de ville franceses, o policeman de


Scotland Yard, o guardia civil espanhol e os carabinieri italianos, apareciam
frequentemente na imprensa sul-americana despojados de qualquer defeito. Num
gesto admonitório contra os vigilantes concretos do Rio de Janeiro e Buenos Aires, o
jornalista moderno extraía observações de suas viagens a Europa para construir estes
relatos de oposição. Do outro lado do oceano, todo policial era mais esbelto,
elegante, educado no trato ao cidadão e preparado para descobrir o autor de qualquer
crime. Provavelmente, muitos sabiam que os jornais europeus não eram tão
benevolentes com suas próprias polícias. Mas isso não tirava força desse objeto
cultural tão efetivo que era o agente policial de ultramar.

21
Sobre a centralidade do crime na história da cultura popular na Argentina e no Brasil, ver:
PECHMAN, Robert Moses. Cidades estreitamente: o detetive e o urbanista. Rio de Janeiro: Casa da
Palavra, 2002, p. 303-382. PORTO, Ana Gomes. Novelas sangrentas: literatura de crime no Brasil,
(1870-1920). Tese de Doutorado em História, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2009.
OTTONI, Ana Vasconcelos. O paraíso dos ladrões: crime e criminosos nas reportagens policiais da
imprensa. Tese de Doutorado em História Social, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2012.
CAIMARI, Lila. La ciudad y el crimen. Delito y vida cotidiana en Buenos Aires, 1880-1940. Buenos
Aires: Sudamericana, 2009.
22
CARVALHO, Elysio de. “Repressão e criminalidade nos Estados Unidos”, Boletim Policial, Ano
V, n. 16/17, Rio de Janeiro, jul.-set. 1911, p. 476. Sobre a figura de Elysio de Carvalho, ver:
SANT´ANA, Moacir Medeiros de. Elysio de Carvalho, um militante do anarquismo. Maceió:
Arquivo Público de Alagoas, 1982.

51
Para os escritores mais afeitos à literatura especializada, o mito do policial
profissional se organizava em torno de dois grandes modelos. O primeiro procede de
uma tradição anglo-saxônica difundida na Inglaterra vitoriana: a “New Police” de
Robert Peel, o criador da Polícia Metropolitana de Londres (1829). A
excepcionalidade do modelo britânico se reunia na figura do Bobby. Este agente
policial condensava o imaginário de uma força eminente civil, livre de determinações
políticas, respeitosa dos direitos e liberdades dos cidadãos. Era sem dúvida um
estereótipo que, aliás, funcionava em conjunto com outro: o do modelo francês (às
vezes chamado “continental”), ao qual os mesmos ingleses atribuíam um caráter
totalitário e verticalista, próprio de um poder exercido de cima para baixo e
controlado por uma autoridade central, parisiense, herança do Lieutenance Générale
de Police (1667).23

Se a polícia francesa tinha má fama por aquilo que um historiador chamou de


“síndrome Fouché” – em alusão à imagem do vigilante como um espião ou agente
secreto ao serviço dos mais obscuros fins estatais – também era portadora de outra
qualidade que a colocava no centro da discussão: a “síndrome Vidocq”, que
distinguia os policiais parisienses como mestres na arte de encontrar os autores de
um crime, embora tivessem que empregar recursos de legalidade duvidosa.24 Na
América do Sul, a imprensa periódica ecoava esses modelos e estereótipos, mas os
usava um tanto do seu jeito.

De fato, não importava muito se os policiais franceses e ingleses representavam


tradições antitéticas. Quando queriam questionar o escasso profissionalismo dos
vigilantes vernáculos, denunciar abusos de autoridade e recrutamentos motivados por
interesses políticos, lá estava o imaculado policeman, sempre disponível para a
comparação, como se fosse um irmão mais velho a quem tudo tivesse saído bem na

23
Historiadores das polícias inglesas e francesas questionaram este mito dos modelos.Ver, por
exemplo: EMSLEY, Clive. The English Police: A Political and Social History. London/New York:
Longman, 1996. LAWRENCE, Paul. “They have an admirable police at Paris, but they pay for it
dear enough: attitudes towards continental policing in nineteenth-century England”. In: Construction
et circulation des savoirs policiers en Europe centrale et septentrionale, XVIIIe-XIXe siècles, IV
Journées CIRSAP, Lille, 4-6 dez. 2008. DELUERMOZ, Quentin. “Circulations et élaborations d'un
mode d'action policier: la police en tenue à Paris, d'une police londonienne au modèle parisien (1850-
1914)”, Revue d'Histoire des Sciences Humaines, n. 19, 2008/2, p. 70-90.
24
A ideia das síndromes Fouché e Vidoqc é de BERLIÈRE, Jean-Marc. Le Préfet Lépine: vers la
naissance de la police moderne. Paris: Denoel, 1993, p. 118.

52
vida. De outro modo, quando se tratava de lamentar um novo crime não resolvido, a
inoperância das investigações policiais e a forma desonrosa com que eram burlados
por astutos criminosos, aí estava o argumento afrancesado, à mão, para mostrar quão
longe estava Paris.

Os apologistas da polícia não paravam de se queixar dessas imposturas.


“Creiam-me que Paris está passando por uma má época na sua criminalidade”,
escrevia em 1905 um hierarca da polícia portenha. Não lhe chamava a atenção a
situação que observava na França, enquanto viajava por razões de saúde. Oyuela já
conhecia as deficiências da polícia parisiense e dizia que cada vez que escutava as
“acusações contra nossa instituição, opondo aquela outra como modelo”, mastigava
com bronca o sabor da injustiça.25 Algo parecido afirmava na mesma revista policial
outro argentino em viagem, desta vez a Londres. “Pelo que tenho visto, os londrinos
se rendem a um verdadeiro culto aos seus bobbies”, e sobre isso refletia:

Creio que a nós, o público, tão somente nos faltaria um pouco de


boa vontade, disposição e simpatias com os bobbies argentinos (...)
para conseguir esse mesmo juízo dos estrangeiros que diariamente
nos visitam, porque para dizer a verdade, em todo o resto,
relacionado com a organização e desenvolvimento funcional, em
nada temos que imitar as repartições similares do continente
europeu.26

Os modelos de polícia formavam parte de um espaço de lutas simbólicas. Eram


uma potente ficção que apagava a diversidade de instituições policiais, muitas das
quais, de fato, coexistiam no interior da França e Grã-Bretanha. A historiografia mais
recente sobre as polícias europeias tem mostrado que nem sequer nesses países é
possível distinguir claramente algo parecido com um modelo nacional. Clive Emsley
descreve três tipos de organizações policiais que se repetem em vários Estados
europeus. Em primeiro lugar, as polícias metropolitanas, como as de Londres e Paris,
localizadas nas capitais e dirigidas por autoridades designadas diretamente pelo

25
“Sueltos. Policía de París. Impresiones de un profesional”, Revista de Policía, Año IX, n. 204,
Buenos Aires, 16 nov. 1905, p. 100.
26
“La policía de Londres”, Revista de Policía, Año XVI, n. 374, Buenos Aires, 16 dic. 1912, p. 123-
124.

53
poder central: embora seu território de ação seja sobretudo uma cidade, estão
separadas das instâncias locais do governo e constituem uma força civil a serviço da
nação. Em segundo lugar, aparecem as polícias locais que, em cada país, dependem
da esfera municipal ou provincial e são financiadas com recursos desses distritos.
Finalmente, essas duas forças convivem com diferentes corpos de caráter militar
destinados à segurança interior, entre os quais se destaca a Gendarmerie francesa,
um estilo de policiamento armado estendido no século XIX à Bélgica, Itália, Espanha
e outros países da Europa.27

Na América Latina, os regimes coloniais e republicanos combinaram também


distintas modalidades de organização de suas polícias. Até o início do século XIX, as
autoridades policiais tinham um caráter eminentemente local, eram eleitas pelos
vizinhos e exercidas em forma honorífica. Tal era o caso dos alcaldes de barrio, um
dispositivo madrileno de controle territorial espalhado por diferentes países hispano-
americanos à época das reformas bourbônicas.28 As primeiras polícias metropolitanas
apareceram com as Repúblicas independentes: o Departamento Central de Polícia de
Buenos Aires (1822), ou o Cuerpo de Celadores Públicos (1826) da cidade de
México são exemplos disso.29 No Brasil, a Intendência Geral de Polícia (1808)
remonta à chegada da família real ao Rio de Janeiro, seguindo – assim como na
América hispânica – o modelo parisiense do Lieutenance Générale que se havia
imposto na Península Ibérica em finais do século XVIII.30 Estas experiências tinham
algo em comum: as novas instituições eram forças de polícia estatais, sob certo
controle do governo central, mas também encarregadas da vigilância dos três
distritos mais populosos do México, Argentina e Brasil.

27
EMSLEY, Clive. “A typology of nineteenth-century Police”, Crime, Histoires & Sociétés/ Crime,
History & Society, vol. 3, n. 1, 1999, p. 29-44.
28
MARIN, Brigitte. “L’alcalde de barrio à Madrid. De la création de la charge à l’amorce d’une
professionnalisation (1768-1801)”. In: AAVV. Métiers de police: être policier en Europe, XVIIIe-XXe
siècles, Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 2008, p. 165-174.
29
MINA, Jorge Nacif. “Policía y seguridad pública en la ciudad de México, 1770-1848”. In:
FRANYUTI, Regina Hernández (comp.). La ciudad de México en la primera mitad del siglo XIX.
Tomo II, México: Instituto de Investigaciones Mora, 1994, p. 9-50. GALEANO, Diego. La policía en
la ciudad de Buenos Aires, 1867-1880. Buenos Aires, Tesis de Maestría en Investigación Histórica,
Universidad de San Andrés, 2010, p. 30-36.
30
BRETAS, Marcos Luiz. “A Polícia carioca no império”, Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 12,
n. 22, 1998, p. 222-226.

54
“Alta” e “baixa” polícia articulavam-se com dificuldades e tensões. A
jurisdição da polícia portenha, por exemplo, foi motivo de debates que seguiram o
percurso das lutas entre Buenos Aires e as províncias. Desde a união definitiva dos
Estados numa confederação que incluía Buenos Aires, no início da década de 1860,
essa polícia aglutinou um triplo estatuto de força de segurança municipal, provincial
e, até certo ponto, nacional. Isso mudou com a federalização da cidade de Buenos
Aires em 1880, quando o velho Departamento Central foi dividido em dois: a Polícia
da Capital Federal, subordinada ao poder executivo nacional por intermédio do
Ministério do Interior, e a Polícia da Província de Buenos Aires. Até a criação da
Gendarmeria Nacional (1938) e, depois, da Polícia Federal Argentina (1944) essa
força de segurança com sede na cidade de Buenos Aires foi a única que respondia às
ordens do governo central. Todas as demais polícias eram provinciais.31

A vigilância das ruas da capital, proteção da segurança das autoridades


nacionais, polícia política, investigação de delitos complexos ao longo do território
do país e relações com as polícias estrangeiras: tudo isso concentrava a Polícia da
Capital da República Argentina. Em outras capitais sul-americanas, como a brasileira
e a uruguaia, a jurisdição da polícia também coincidia com os distritos federais, mas
não havia uma centralização tão grande de funções sob um comando único. Como na
França e na Itália, no Rio de Janeiro se instituiu um esquema de gestão que separava,
de um lado, uma Brigada Policial – herdeira da Guarda Real de Polícia, estruturada
sob critérios militares e encarregada do patrulhamento ostensivo da cidade – e de
outro lado, uma Polícia Civil que reunia as funções de investigação criminal e
auxiliar de justiça.32

31
Há que destacar, no entanto, a especificidade dos “territórios nacionais” no extremo noroeste e sul
do país (Chaco, Formosa, Misiones, La Pampa e toda a região da Patagônia), cujos governadores eram
designados diretamente pelo Poder Executivo Nacional, embora as polícias – criadas nos finais do
século XIX – tivessem na prática uma ampla margem de autonomia. Ver: RAFART, Gabriel. Tiempo
de violencia en la Patagonia. Bandidos, policías y jueces, 1890-1940. Buenos Aires: Prometeo, 2008,
p. 155-167. BOHOSLAVSKY, Ernesto. “El brazo armado de la improvisación. Aportes para una
historia social de los policías patagónicos”. In: BOHOSLAVSKY, Ernesto; SOPRANO, Germán. Un
Estado con rostro humano. Funcionarios e instituciones estatales en Argentina (desde 1880 a la
actualidad). Buenos Aires: Prometeo, 2010, p. 218-228.
32
Tanto o chefe da Polícia Civil quanto o comandante da Brigada Policial eram nomeados pelo
Presidente da República sob indicação do Ministro da Justiça. BRETAS, Marcos Luiz. A guerra das
ruas. Povo e polícia na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997, p. 38-51.

55
Em contraste, a polícia portenha, mesmo havendo perdido recentemente seu
poder sobre a Província de Buenos Aires, continuava sendo um monstro
administrativo. Além de reunir todas as tarefas que no Rio de Janeiro se dividiam
entre a polícia civil e a militar, ainda absorvia outras áreas – por exemplo, o Corpo
de Bombeiros, que na capital brasileira dependia da esfera municipal. Essas
diferenças resultam significativas para explicar a região do trabalho policial que será
objeto desta tese. Não se trata de um estudo sobre o serviço de segurança, a
vigilância preventiva nas ruas, nem sobre o cotidiano das delegacias. O interesse está
depositado sobre a arquitetura das modernas seções de investigação reformadas,
entre finais do século XIX e começos do XX, pelo advento de uma gama eclética de
técnicas que começará a receber o nome de “polícia científica”.33 Nesse espaço –
como veremos – se desencadeou um processo inédito de aproximação e cooperação
entre as polícias sul-americanas.

Em Buenos Aires a Polícia de Investigação foi criada em 1897, acumulando


atividades que até então eram dispersas. Abrangia treze seções: a primeira, “Ordem
Pública”, exercia o papel de polícia política e à custódia do Presidente da Nação; a
segunda, “Ordem Social”, apontava para a vigilância do movimento operário, em
especial da militância anarquista e comunista; a terceira, “Segurança Pessoal”,
buscava evitar os “atentados contra a vida e a moral”, mas seus recursos estavam
voltados quase exclusivamente ao combate da prostituição e ao tráfico de mulheres; a
quarta e a quinta, “Roubos e Furtos” e “Fraudes e Estelionatos”, destinavam-se aos
delitos contra a propriedade; a sexta, “Leis Especiais”, lidava com a falsificação de
moeda e o jogo clandestino; as três seguintes, “Informações”, “Identificações” e
“Fotografia Judicial”, expediam documentos de identidade individual e auxiliavam a
Justiça na tarefa de determinar os antecedentes criminais dos detidos; a décima,
“Índice Geral e Livros”, administrava o arquivo policial; a décima primeira,
“Embarcadouros”, tinha a cargo o controle da circulação no porto e nas estações de
trem; a penúltima, “Bancos e Teatros”, embora conservasse essa denominação, na
realidade vigiava todos os estabelecimentos públicos em que havia certa

33
Ver QUINCHE, Nicolas. Sur les traces du crime. De la naissance du regard indicial à
l’institutionnalisation de la police scientifique et technique en Suisse et en France. Genebra: Slatkine,
2011. E também os trabalhos compilados em PIAZZA, Pierre (dir.). Aux origines de la police
scientifique. Alphonse Bertillon, précurseur de la science du crime. Paris: Karthala, 2011.

56
aglomeração de pessoas; e, finalmente, “Vigilância Geral” era um serviço
complementário encaminhado a seguir de perto, inclusive além dos limites da cidade,
certos sujeitos suspeitos de tramar ações delitivas.34

Nas primeiras décadas do século XX, a Divisão de Investigações converteu-se


numa verdadeira polícia dentro da polícia. “Sem limitações jurisdicionais, sua função
tutelar se inicia e perdura com as atividades externas suspeitas e prejudiciais do
componente malsão da população, para proteger a vida e a propriedade do conjunto”,
explicava um de seus chefes, Francisco Laguarda.35 Essa definição redundava no
palavrório abstrato da defesa do interesse comum. No entanto, um detalhe não deve
passar despercebido: “sem limitações jurisdicionais” era uma sentença que continha
o núcleo de sentido da Polícia de Investigações. Não respondia, como o sistema de
delegacias, a uma lógica territorial. Paradoxalmente, seu campo de ação era decidido
pela trama das práticas criminais, e se essa trama burlava as fronteiras nacionais,
segundo os investigadores policiais era preciso evitar qualquer trâmite diplomático
lento e pesado. Era necessário atuar em sigilo e jogar com as mesmas cartas dos
criminosos.

Na Polícia Civil da capital brasileira também se instituiu uma seção similar


que, após passar por diversas reformas e denominações, adotou o nome de “Corpo de
Investigação e Segurança Pública” (1907-1920), passando depois para “Inspetoria de
Investigação e Segurança Pública” (1920-1923) e, finalmente, para “Quarta
Delegacia Auxiliar” até que, em 1933, seus serviços fossem divididos entre a
“Delegacia de Ordem Política e Social” (DEOPS) e o “Departamento Geral de
Investigações” (DGI). A genealogia dessa seção está intimamente ligada à Argentina.
Depois de uma importante reforma na polícia carioca, em 1907, um de seus
inspetores viajou a Buenos Aires para estudar a organização da Polícia de
Investigações e propôs dividir o Corpo em seções análogas às portenhas, algumas das

34
POLICÍA DE LA CAPITAL FEDERAL. La Policía de Investigaciones. Su misión, organización y
funcionamiento. Op. Cit., p. 17-39.
35
LAGUARDA, Francisco. “La Policía de Investigaciones: sus principios”, Revista de Policía, Año
XXI, n. 469, Buenos Aires, 1 ene. 1918, p. 5.

57
quais (Ordem Social, Leis Especiais) foram efetivamente colocadas em prática.36 No
entanto, em alguns aspectos, a polícia da capital brasileira manteve um maior grau de
descentralização comparativamente à argentina. Outras agências fundamentais, como
a Polícia Marítima e o Gabinete de Identificação e Estatística, continuaram
subordinadas diretamente à chefatura policial, mantendo certa autonomia em relação
ao Corpo de Investigação e à Segurança Pública.

Essa aproximação entre Rio de Janeiro e Buenos Aires não foi a primeira nem
seria a última. Formava parte de uma incipiente rede de contatos que envolvia os
policiais mais ilustres do Brasil e da Argentina. Essa inteligência policial se aferraria
a duas lutas paralelas e complementares. A primeira transitava num velho espaço de
atritos com a engrenagem judiciária, na disputa por maior autonomia para as tarefas
de investigação criminal, perseguição e captura de criminosos. No interior desse
espaço, a consolidação de uma “polícia científica” fornecia um argumento
excepcional para se discutir com os especialistas do mundo jurídico. A segunda luta
apontava para ganhar capacidade de deslocação territorial, apagar obstáculos
jurisdicionais, prerrogativas diplomáticas e óbices consulares, buscando abrir
múltiplas possibilidades de cruzar fronteiras. Os contatos internacionais entre as
polícias miravam diretamente esse alvo.

Reincidentes, incorrigíveis e ladrões profissionais

A imprensa carioca e portenha criticava frequentemente o péssimo treinamento


dos vigilantes sul-americanos, que eram comparados com os afáveis bobbies
londrinos, os educados sergent de ville e até com os rudes, porém inquebrantáveis,
carabinieri. Esta também era uma ideia dos policiais, quando em suas próprias
revistas reivindicavam uma melhora dos recursos tecnológicos da instituição. O

36
SAMET, Henrique. Construção de um Padrão de Controle e Repressão na Polícia Civil do Distrito
Federal por meio do Corpo de Investigações e Segurança Pública (1907-1920). Rio de Janeiro: Tese
de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em História Social, UFRJ, 2008, p. 179-180.

58
raciocínio era simples e talvez servisse, em mais de uma oportunidade, como
escaramuça para reclamações orçamentárias. Para estes policiais escritores, os
criminosos utilizavam agora todos os inventos da modernidade: viajavam em trens e
transatlânticos, faziam uso do telégrafo para se comunicar entre eles, alguns
falsificadores incorporavam os avanços da química, e outros gatunos, mais temíveis,
renovavam armas com uma frequência desconhecida para o campo policial.

De que delinquentes estavam falando? Não eram, certamente, aqueles


assassinos monstruosos que os criminologistas do século XIX consagraram como
estereótipos de criminoso nato. Ainda que alguns se aventurassem a buscar
anomalias, a indagar sobre eventuais estigmas degenerativos, a leitura mais aceitada
foi a que os interpretava como profissionais do delito. Era um fenômeno que os
policiais consideravam endêmico às grandes cidades, berço desses sujeitos que
faziam do roubo, da fraude e da extorsão um modus vivendi. Em geral, pouco tinham
a ver com os fatos de sangue e sua existência, tampouco explicava as oscilações dos
pequenos furtos que, segundo mostravam algumas estatísticas, aumentavam em
períodos de escassez de oferta de trabalho. Por isso, esses “profissionais” não eram
os únicos que cometiam crimes na cidade, embora, como dizia o Comissário de
Investigações da polícia portenha, eram cada vez mais, ao ponto de constituir uma
“numerosa colônia lunfarda que mina nos submundos da população”.37

José G. Rossi escrevia isso na revista de criminologia mais importante da


América do Sul, publicação que era, então, dirigida por José Ingenieros. O tom do
artigo não era nada alarmista: a evolução da criminalidade em Buenos Aires parecia
de acordo com o próprio crescimento da cidade e suas tendências estavam em
sintonia com as principais capitais do mundo. A gatunagem era pensada aqui como
um fenômeno estacional, próprio da “fome e da escassez do inverno”, enquanto que
os ladrões profissionais trabalhavam todo o ano e inclusive aproveitavam
especialmente “os períodos de relativa abundância, quando sorri o bem-estar dos
bolsos”. E quantos eram estes ladrões?

37
ROSSI, José G. “La criminalidad profesional en Buenos Aires”, Archivos de Psiquiatría y
Criminología, Buenos Aires, Año II, n. 1, 1902, p. 169.

59
A Polícia de Buenos Aires conhece mais de dez mil lunfardos
profissionais, aos que devem agregar os residentes desconhecidos e
as colônias viajantes, hábil e magistralmente organizadas, que
caem como enxames de gafanhotos, dão seus golpes e desaparecem
da cidade. Somando os conhecidos e os desconhecidos, pode-se
assegurar que a cifra de nossa população criminal oscila entre
quinze e vinte mil ladrões profissionais.38

O cálculo era bastante curioso: subtraindo da cidade a população de mulheres,


crianças, idosos e deficientes, sobravam uns duzentos mil homens economicamente
ativos; então, Rossi concluía que em Buenos Aires havia um ladrão profissional para
cada 15 trabalhadores. Embora seja difícil avaliar essas estatísticas, a própria
inclusão do artigo nos Archivos de Ingenieros era um sinal da presença de um
verdadeiro tema de época que inquietava por igual a criminologistas e policiais.
Desde a criação do Compte Général de la Justice da França, em 1825, o registro de
delitos em série de estatísticas criminais foi uma prática estreitamente atada à
preocupação sobre a reincidência.39 Velho dilema jurídico, examinado pelos
codificadores sul-americanos, como se notava, por exemplo, no Código Penal do
Império (1830), em que uma das circunstâncias agravantes era “ter reincidido em
delito da mesma natureza”.40 Também o autor do primeiro Projeto de Código Penal
da República Argentina incorporou esta questão em sua argumentação sobre as
penas. Para Carlos Tejedor, o reincidente era alguém que depois de ter sofrido uma
condenação por um determinado delito, em um período menor a dez anos repetia
voluntariamente “um crime da mesma espécie”, e por isso deveria ser castigado com
uma pena maior do que a que foi recebida antes. Esta concepção punitiva da
reincidência, tomada de fontes diversas e em particular do Código de Baviera, estava
atada à ideia de consuetudo delinquendi. Segundo Tejedor, o agravamento do castigo

38
Idem, p. 172. Nesta época, a noção de lunfardo era usada, em Buenos Aires, como sinônimo de
gatuno (esse era o significado que lhe dava aqui Rossi), mas também designava a gíria desses ladrões
profissionais.
39
ALLINNE, Jean-Pierre. Gouverner le crime. Les politiques criminelles françaises de La Révolution
au XXIe siècle. Paris: Harmattan, 2004, p. 192-195.
40
Art. 16. Código Criminal do Império do Brasil: anotado com as leis, avisos e portarias publicados
desde a sua data até o presente. Recife: Typographia Universal, 1858, p. 17.

60
por presunção de “hábito criminal” tinha uma longa linhagem no direito romano, que
remetia pelo menos ao Código de Justiniano.41

Durante duas décadas, o Projeto de Tejedor apenas conseguiu ser sancionado


em algumas províncias argentinas e, logo depois dos conflitos armados que
derivaram na federalização da cidade de Buenos Aires, foi aprovado como Código
Penal, entrou em vigência em 1887 e se manteve com algumas reformas até 1921.
Impôs-se, assim, um agravamento da pena por reincidências, cingido – como no
Brasil – a crimes do mesmo tipo, restrição à que se somava o período de dez anos
após o qual não se computavam condenações anteriores. No entanto, ao final do
século XIX, já se escutavam questionamentos a este critério restritivo. Os próprios
difusores da Escola Positiva tomavam a doutrina da defesa social para sustentar a
necessidade de uma profilaxia mais estrita apontada contra os reincidentes,
considerados, em grande medida, como sujeitos incorrigíveis.

A classificação proposta por Enrico Ferri, em sua Sociologia criminale (1884),


foi uma das mais aceitas pelos criminologistas sul-americanos: nela, as figuras do
delinquente nato e o louco criminal se distinguiam dos delinquentes passionais,
ocasionais e habituais.42 Sem aparentes estigmas hereditários, os criminosos
habituais eram, na classificação do brasileiro Cândido Motta, indivíduos que se
inclinavam aos delitos contra a propriedade, movidos mais por debilidade moral que
por tendências inatas ao crime.43 Muitas vezes essa situação de anomia os colocavam
no centro de uma trajetória iniciada com um delito de ocasião, que com o tempo se
tornava hábito e, ao longo de alguns anos, na formação do que Rossi chamava um
“lunfardo profissional”.

O argentino Francisco de Veyga dedicou grande parte de seus escritos a este


tema e o fez, ainda, desde uma visão particularmente próxima ao olhar policial. Em
1899, a polícia havia criado no Depósito de Contraventores um observatório

41
TEJEDOR, Carlos. Proyecto de Código Penal para la República Argentina. Parte primera. Buenos
Aires: Imprenta del Comercio del Plata, 1866, p. 193-197.
42
FERRI, Enrico. Sociologia criminale. Torino: Fratelli Bocca Editori, 1900, p. 194-218.
43
MOTTA, Cândido. Classificação dos criminosos. Dissertação para o concurso à vaga de lente
substituto de Direito Criminal na Faculdade de Direito de S. Paulo. São Paulo: Carlos Gerke & Cia.,
1997, p. 72-77.

61
criminológico. Esse espaço funcionou como um laboratório anexo à cátedra de
Medicina Legal, onde o professor Veyga e seus alunos estudavam os detidos.44
Frente ao escrutínio dos estudantes, desfilavam sujeitos que a Polícia da Capital
prendia por contravenções como embriaguez, desordem e uso de armas, mas segundo
criminologistas esta era uma porta de acesso privilegiada ao “mundo dos
delinquentes profissionais”.45 Em uma conferência intitulada “Los lunfardos”, Veyga
ensaiava uma radiografia deste tipo de criminalidade, que, segundo ele, tinha como
contrafigura os fatos de sangue. Enquanto no crime passional “tudo é dramático e
sempre original”, o delito habitual era visto como “um ato mecânico, de simples
execução e sempre motivados por uma mesma tendência”.46 Por isso, pensava-se que
a criminologia devia intervir por meio de uma dupla tarefa de observação do modo
de vida dos gatunos, e diagnóstico para a determinação de medidas de defesa social.

Todos esses criminologistas coincidiam em um ponto: a ineficácia do direito


penal frente ao delito profissional. A reclusão em prisões não era apenas insuficiente,
mas ainda havia se convertido em uma espécie de rito de passagem entre o criminoso
ocasional e o habitual. No lugar de regenerar o ladrão, a prisão o recebia ainda
imaturo, oferecia treinamento criminal com “lições dos mais execráveis bandidos” e
o devolvia à rua convertido em um verdadeiro incorrigível.47 A trilhada queixa sobre
os efeitos perniciosos das prisões, sua condição de escola informal para as carreiras
criminais, se aplicava, sobretudo, aos ladrões profissionais. “O novato ingressa na
cadeia com a mais grosseira ignorância sobre estes tópicos”, explicava um policial
argentino, “mas em breve um caridoso companheiro de desgraças, antigo hóspede do
estabelecimento, lhe ensina estas noções; um par de entradas mais e nosso sujeito se
torna criminoso e criminalista”.48

44
DEL OLMO, Rosa. Criminología argentina. Apuntes para su reconstrucción histórica. Buenos
Aires: Depalma, 1992, p. 14. CREAZZO, Giuditta. El positivismo criminológico italiano en la
Argentina. Buenos Aires: Ediar, 2007, p. 169-172.
45
BARBIERI, Pedro. “La clínica criminológica del Depósito 24 de Noviembre”, Archivos de
Psiquiatría y Criminología, Buenos Aires, Año V, n. 4, 1906, p. 297.
46
VEYGA, Francisco de. Los lunfardos. Psicología de los delincuentes profesionales. Buenos Aires:
Talleres Gráficos de la Penitenciaría Nacional, 1910, p. 8.
47
MOTTA, Cândido. Classificação dos criminosos. Op. Cit., p. 72.
48
“Necesidad de una ley de reincidencias”, Boletín de Policía, Buenos Aires, Año I, n. 4, 15 jun.
1905, p. 7-8.

62
No último quarto do século XIX, esta preocupação pela reincidência era
compartilhada por vários países e havia ocupado um lugar central nos debates da
União Internacional de Direito Penal, cujos integrantes propunham incorporar a
noção de “estado perigoso” como fundamento do castigo. De acordo com os
seguidores de Prins, Van Hamel e Von Liszt, a única forma de combater a essa
“criminalidade ambiente”, de caráter endêmico, era deixar de sancionar o sujeito pelo
que fazia e começar a castigá-lo pelo que essencialmente era.49 E se ele fosse
incorrigível? Uma medida que começou a tomar força em diferentes países da
América Latina foi o confinamento de reincidentes em ilhas e colônias
penitenciárias. Esta prática não era uma novidade e havia sido empregada por
diferentes impérios desde o século XVI: a Grã-Bretanha deportava criminosos para
as suas colônias, especialmente para a Austrália; Portugal enviava prisioneiros ao
Brasil e, durante o Segundo Império, a França impôs penas de trabalho forçado para
povoar a Guiana e o arquipélago de Nova Caledônia.50 Também os países sul-
americanos empregaram na etapa independente a pena de desterro, seja para
reafirmar soberania nos confins de seus vastos territórios (o fizeram Chile e
Argentina com a região do Estreito de Magalhães e as Ilhas Austrais), ou deportar os
condenados por certos crimes – estupro, falsificação de moeda, ou inclusive
contravenções – às colônias penitenciárias, como sucedeu no Brasil com Fernando de
Noronha e Ilha Grande.51

Porém, a novidade finissecular foi a legislação sobre o desterro de reincidentes,


tendência iniciada em 1885 pelos republicanos franceses com uma lei que

49
ANCHORENA, José M. Paz. “La noción de estado peligroso del delincuente”, Revista de
Criminología, Psiquiatría y Medicina Legal, año V, 1918, p. 129-157. Sobre os usos da noção de
periculosidade na justiça argentina, ver: SALVATORE, Ricardo. “Sobre el surgimiento del estado
médico legal en la Argentina (1890-1940)”, Estudios sociales, Buenos Aires, n. 20, 1er. semestre de
2001, p. 81-114.
50
EMSLEY, Clive. Crime, Police, & Penal Policy. European Experiences, 1750-1940. Oxford:
Oxford University Press, 2007, p. 37. Ver também os trabalhos coletados em: GUESLIN, André;
KALIFA, Dominique. Les exclus en Europe, 1830-1930. Paris: Les Éditions de l’Atelier, 1999. E
também em: GODFREY, Barry; DUNSTALL, Graeme (Eds.). Crime and Empire, 1840-1940:
Criminal Justice in Local and Global Context. Cullompton: Willan Publishing, 2005.
51
Sobre as deportações às Ilhas de Fernando de Noronha e Ilha Grande ver: COSTA, Marcos Paulo
Pedrosa. “O Presídio de Fernando de Noronha no século XIX”, In: MAIA, Clarissa Nunes; BRETAS,
Marcos L. (et. al.). História das prisões no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. V. 1, p. 138-178.
SANTOS, Myriam Sepúlveda dos. Os porões da república: a barbárie nas prisões da Ilha Grande,
1894-1945. Rio de Janeiro: Garamond, 2009, p. 109-118.

63
determinava a relegação dos malfeiteurs d’habitude a destinos coloniais.52 Aqui não
se tratava tanto da questão jurídica do agravamento da pena por reincidência
(récidive), mas da afirmação do reincidente (récidiviste) como categoria autônoma
no campo das políticas criminais. O ladrão habitual e profissional se tornou a pedra
de toque dentro desse universo, o eixo das mais candentes reivindicações para
endurecer as penas. Se até então o vadio era um sujeito incorrigível por antonomásia,
o clima punitivo finissecular consagrou o reincidente como principal candidato a ser
embarcado pela força e desterrado para sempre.53

Esses ventos de mudança sopraram rapidamente na América do Sul,


especialmente nos países receptores de grandes ondas imigratórias. Acontecia que
uma das características distintivas atribuídas ao ladrão profissional era a capacidade
para escapar da justiça, uma habilidade que incluía, frequentemente, viajar até outro
lugar quando a polícia já conhecia seu rosto. Os reincidentes modernos eram temidos
pelo seu alto grau de mobilidade territorial, por suas astúcias para se disfarçarem,
alterar a fisionomia e ocultar a identidade. Para Elysio de Carvalho, esses sujeitos
constituíam um tipo de imigração paralela, um “êxodo sinistro” que apontava às
capitais sul-americanas como destinos privilegiados, por causa da liberalidade de
suas leis. O Rio de Janeiro havia se transformado em um “refúgio dos indivíduos
desclassificados”, em uma válvula de escape para os “incorrigíveis e inadaptáveis de
toda espécie, reincidentes, perseguidos da polícia estrangeira”.54

Durante a primeira metade do século XX, os debates sobre a legislação penal


envolveram frequentes reclamações para endurecer os castigos por reincidências,
uma batalha que os defensores da doutrina do estado perigoso travaram contra as leis
existentes. O Código Penal de 1890, sancionado no Brasil pouco depois da
proclamação da República, manteve a limitação de agravar apenas as recaídas em
delitos da mesma natureza, entendendo por isso as violações a um artigo idêntico do

52
KALUSZYNSKI, Martine “Le criminel à la fin du XIXe siècle: un paradoxe républicain”, In:
GUESLIN; KALIFA, op. cit., p. 253-266.
53
SOULA, Mathieu. “Récidive et récidivistes depuis deux siècles”, In: ALLINE, Jean-Pierre;
SOULA, Mathieu (Dir.). Les récidivistes. Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 2011, p. 11-19.
54
CARVALHO, Elysio de. “A delinquência dos estrangeiros”, Boletim Policial, Rio de Janeiro, Ano
VII, n. 6, jun. 1913, p. 218.

64
código.55 Na Argentina, esse mesmo critério restritivo plasmado no Código de 1886
foi objeto de dois questionamentos diferentes.56 Em primeiro lugar, os partidários da
doutrina da periculosidade argumentavam que os ladrões raramente se dedicavam a
uma especialidade apenas, entre as muitas que tinham à mão no mundo do roubo.
Deste modo, circunscrever o castigo a delitos da mesma natureza ou espécie era, para
eles, uma medida insuficiente.57 Em segundo lugar, aparecia uma crítica à decisão de
limitar o agravamento da pena aos delitos com condenação firme. Alguns críticos
usavam os prontuários policiais para explicar que 90% dos delitos cometidos por
ladrões habituais passavam pela justiça sem ser condenados e por isso pediam a
sanção de uma lei que, baseada no conceito de estado perigoso, permitiria “afastá-los
indeterminadamente do meio social”.58

De fato, apesar das resistências para reformar o Código Penal, o parlamento


argentino aprovou, em 1895, uma lei que habilitava a pena de deportação frente à
segunda reincidência em delitos contra a propriedade, inspirada na legislação
francesa de 1885. O lugar do exílio era a Ilha de Tierra del Fuego, um destino tão
distante de Buenos Aires que muitos dos prisioneiros terminavam cumprindo sua
pena somente com a duração da viagem de navio até o porto de Ushuaia.59 O
aguerrido jurista Enrique Zinny, partidário da pena de morte como medida de defesa
para os incorrigíveis, lamentava que para os criminosos profissionais esta forma de
deportação terminava sendo algo percebido como “um breve passeio pelas ilhas do
sul” antes de regressarem a Buenos Aires, verdadeiro “teatro de suas proezas”. Este

55
Código Penal dos Estados Unidos do Brasil: promulgado pelo decreto n. 847 de 11 de outubro de
1890. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1891, art. 40.
56
Este ponto foi criticado por Piñero, Rivarola e Matienzo, os juristas argentinos que em 1891
revisaram o código vigente e fizeram uma proposta de reforma, embora ela não fosse aprovada e,
como no Brasil, continuou em vigência o critério restritivo. Ver: CREAZZO, op. cit., p. 77-82.
57
Ver: ZINNY, Enrique N. La delincuencia en la ciudad de Buenos Aires. Sus factores principales.
Tesis presentada para optar por el Grado de Doctor en Jurisprudencia, Universidad de Buenos Aires,
Facultad de Derecho y Ciencias Sociales. Buenos Aires: Ed. Adolfo Grau, 1903.
58
Ver: “Reincidencia”, Revista de Policía, Buenos Aires, Año XXIV, n. 561, 1 nov. 1921, p. 505-506.
ANCHORENA, op. cit., p. 138. Também: “La criminalidad en el reincidente”, Revista de Policía,
Buenos Aires, Año VI, n. 131, 1 nov. 1921, p. 165-166. DÍAZ, Emilio, “La reincidencia y el moderno
concepto de la represión”, Revista de Policía, Buenos Aires, Año XXI, n. 483, 1 ago. 1918, p. 317-
318.
59
CAIMARI, Lila. Apenas un delincuente. Crimen, castigo y cultura en la Argentina, 1880-1955.
Buenos Aires, Siglo XXI, 2004. p. 69.

65
passeio, que também chamava “descanso obrigatório” (em forma maliciosamente
irônica, já que os presos viajavam entre dois e três meses no armazém do navio com
os pés acorrentados), devia, para este autor, ser substituído por uma deportação
indeterminada às colônias rurais, única maneira de “aliviar a capital” dessa “praga de
delinquentes de oficio”.60

Aos constantes pedidos de leis mais duras contra a reincidência, somaram-se,


na Argentina, reclamações para unificar os arquivos sobre antecedentes penais. O
jurista Ernesto Quesada apresentou um projeto para a criação de um Arquivo de
Reincidentes, dentro do Ministério da Justiça. Além das discussões sobre a definição
jurídica da reincidência, Quesada insistia sobre o problema da construção de uma
base de dados que os juízes pudessem usar para agravar as penas. Fazia tempo que
em Buenos Aires era difícil saber quem era quem e, apesar de alguns policiais ainda
se gabarem por reconhecer a maior parte de todos os criminosos habituais, a tática da
memória visual estava totalmente ultrapassada pela realidade demográfica. “Quanto
menos numerosa é a população de um lugar”, explicava Quesada, “mais viável é
aquele sistema paternal de reconhecimento, porque nos vilarejos se conhecem todos,
e a polícia, de olhos fechados, sabe qual é a vida e os milagres de cada um dos
habitantes”.61

Esse sistema de vigilância era usado informalmente desde o início da polícia


portenha. Os policiais depositavam certa confiança na capacidade institucional para
observar in extenso o mundo da “gente do mal-viver”, conhecer quem eram os
sujeitos que faziam do roubo sua forma de vida, registrar suas biografias em papéis e
reunir esses registros em arquivos. Sem dúvida, essa confiança se viu renovada nas
últimas décadas do século XIX pelas possibilidades que oferecia a fotografia. Os
livros usuais de detenções e as filiações de criminosos (em que se anotavam nomes,
pseudônimos, nacionalidades, idades, ocupações e descrições físicas) começaram a

60
ZINNY, Enrique N. La delincuencia en la ciudad de Buenos Aires. Op. Cit., p. 36-37.
61
QUESADA, Ernesto. Comprobación de la reincidencia. Proyecto de ley presentado al señor
Ministro de Justicia e Instrucción Pública, Doctor D. Osvaldo Magnasco. Buenos Aires: Imprenta y
Casa Editora de Coni Hermanos, 1901, p. 57.

66
se nutrir de retratos fotográficos.62 Esta técnica foi utilizada para formar o que na
Argentina chamaram de “galerias de ladrões conhecidos”, coleções de retratos
acompanhados de uma breve resenha da biografia delitiva, que inclusive chegaram a
ser objetos de troca com outras polícias.

A categoria de “ladrão conhecido” teve um rol importante nas rotinas policiais


desde a incorporação da fotografia, mas sua presença na Ibero América era de
longuíssima data. Inclusive aparecia nas Siete Partidas do Rei Alfonso X, em que se
impunha pena de morte ao “ladrão conhecido” que havia cometido vários roubos.63
Esta expressão nunca adquiriu um estatuto jurídico no período independente, nem
formou parte de nenhum Código Penal, mas a polícia portenha a incorporou em suas
regulamentações internas. Em 1880, por exemplo, um decreto da chefia observava
que, para “efeitos policiais”, se considerariam ladrões conhecidos àqueles sujeitos
sentenciados por dois ou mais delitos contra a propriedade. Esse rótulo outorgava aos
policiais o poder de submeter estes sujeitos a uma “vigilância estrita e severa”,
fotografá-los, distribuir seus retratos nas delegacias e pendura-los nas paredes das
repartições.64 Na década seguinte, essas prerrogativas foram ampliadas, permitindo
que guardassem nos arquivos da Alcaldía de Policía (a cadeia da polícia)
informações sobre sujeitos que tiveram “o hábito de se juntarem com indivíduos
retratados na galeria pública”. Além disso, cada vez que prendiam um ladrão
conhecido (“L.C.”, segundo a sigla que começou a se popularizar para nomeá-los), a
polícia devia os expor ao escrutínio de seus vigilantes, em uma ronda de
reconhecimentos visuais para memorizar os rostos.65

62
No final do século XIX apareceram os primeiros álbuns fotográficos de criminosos no Brasil e
Argentina. Ver, para o caso argentino: FERRARI, Mercedes García. Ladrones conocidos/sospechosos
reservados. Identificación policial en Buenos Aires, 1880-1905. Buenos Aires: Prometeo, 2010. p. 55-
111. E para o Brasil: KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. Negros no estúdio do fotógrafo. Brasil,
segunda metade do século XIX. Campinas: Unicamp, 2010, p. 205-259. E também: PESAVENTO,
Sandra J. Visões do Cárcere. Porto Alegre: Zouk, 2009.
63
Las Siete Partidas del Sabio Rey D. Alfonso el X. Tomo IV. Barcelona: Imprenta de Antonio
Bergnes, 1844, p. 252.
64
FARÍAS, Manuel Mujica. Repertorio de policía. Compilación de las disposiciones vigentes
comunicadas por la “orden del día” de la Policía de la Capital, 1880-1899. Buenos Aires: Imprenta y
Encuadernación de la Policía de la Capital, 1899, p. 303.
65
Idem, p. 304. RODRÍGUEZ, Adolfo E. Historia de La Policía Federal Argentina, Tomo VI, 1880-
1916. Buenos Aires: Editorial Policial, 1975, p. 177. Os policiais brasileiros também usavam as

67
O projeto de Quesada apontava diretamente contra as limitações destes
registros de informação, aos quais via demasiado emaranhados com a mecânica tão
pouco legalista das suspeitas policiais. Além disso, existia um problema de alcance
territorial dos arquivos. Por um lado, no caso dos imigrantes, era impossível agravar
a pena, computando condenações recebidas em seus países de origem, porque não
havia um mecanismo confiável e simples para conseguir essa informação. E ainda a
própria Alcaldía de Policía apenas registrava os fatos delitivos da capital e isso
significava que nem sequer os crimes sancionados em outras províncias contavam na
hora de ponderar a reincidência de um acusado.66 O problema é que esta proposta
significava a construção de um arquivo que diminuía os privilégios da polícia e,
como tal, foi uma das tantas disputas que a instituição manteve com o poder
judiciário. Esta batalha se prolongaria, ao menos, até a década de 1930, quando se
conseguiu criar o Registro Nacional de Reincidência graças ao sucesso da
datiloscopia.67

O novo projeto obrigava aos juízes remeter uma cópia de suas sentenças ao
Ministério da Justiça, nesta nova repartição que ainda teria a seu cargo a elaboração
de estatísticas criminais e carcerárias. Fora do alcance da polícia, o Registro
guardaria esta informação com caráter estritamente “reservada” e apenas poderia ser
usada para responder pedidos formais da justiça. Embora os vigilantes não pareciam
ter posto muita resistência, pediram através de suas revistas que o chefe de polícia
fosse designado como diretor “natural” da repartição, considerando que o arquivo
policial reunia, nesse momento, mais de um milhão de prontuários com informações
sobre reincidentes e profissionais do delito, “minuciosas biografias com infinidade de
pormenores, utilíssimos, das atuações desses sujeitos”.68 Mas ao mesmo tempo o
escritor deslizava um argumento adicional que respondia diretamente ao problema do
alcance territorial desses arquivos. Os prontuários e as fichas datiloscópicas que a

expressões ladrão conhecido e gatuno conhecido, ver: BRETAS, Marcos Luiz. A guerra das ruas.
Povo e polícia na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997, p. 105.
66
QUESADA, Ernesto. Comprobación de la reincidencia. Op. Cit., p. 55-57.
67
“Proyecto de Ley. Registro Nacional de Reincidencia”. In: Memoria presentada al Honorable
Congreso de la Nación por el Ministro de Justicia e Instrucción Pública, Dr. José S. Salinas, año
1920, tomo I. Buenos Aires: Rosso y Cia., 1921, p. 11.
68
“El registro nacional de reincidencia y su instalación”, Revista de Policía, Buenos Aires, Año XXI,
n. 481, 1 jun. 1918, p. 271-271.

68
polícia acumulava em seus armários não se limitavam, como se afirmava, a
indivíduos domiciliados na cidade de Buenos Aires. Ainda que essa fosse a
jurisdição que a correspondia, a Polícia da Capital trocava periodicamente
informações com outras províncias e inclusive, “à maneira de gabinete central”,
coordenava as permutas com países europeus e sul americanos.69

Assim chegamos a um ponto crucial para este trabalho. Muitos desses ladrões
profissionais formavam parte dessas “colônias viajantes” as quais Rossi se referia,
uma forma de migração derivada da lógica que governava suas práticas delitivas.
Dedicados quase exclusivamente aos atentados contra a propriedade, estavam longe
daquilo que os criminologistas definiam como “delinquentes ocasionais”. Ao
contrário, os roubos eram para eles uma forma de vida, um ofício que se ensinava e
se aprendia. Mover-se de um país a outro podia ser nesse contexto uma estratégia
para buscar melhores oportunidades, escapar da perseguição judicial ou, ainda, ser
parte do próprio modus operandi da especialidade, tal como sucedia com o tráfico de
mulheres e com certas formas de estelionato.

As redes internacionais tecidas pela polícia constituíam um tipo de


modernização paralela, informal na maior parte dos casos, quase sempre às costas da
justiça e dos consulados. Sem dúvidas, a circulação transnacional de certos delitos
foi o argumento privilegiado para justificar o avanço da cooperação entre policiais da
América do Sul. Quando em 1899 o presidente Roca empreendeu uma pomposa
visita ao Brasil, Francisco Beazley, chefe da Polícia da Capital, formou parte da
comitiva que o acompanhou ao Rio de Janeiro. A chefia aproveitou esta festiva
ocasião para aproximar posições com a polícia carioca, um diálogo que pretendia
ampliar por fora da via diplomática. Frente à imprensa local, Beazley explicava uma
tese de vital importância para a racionalidade que governaria os intercâmbios
policiais. As capitais do Brasil e da Argentina eram para ele “os dois grandes centros
de ação de delinquência sul-americana” e quando em um país os vigiavam com rigor,
“os amigos do alheio” decidiam migrar para refugiar-se em outro.70

69
Idem, p. 272. Ver também: “Registro nacional de reincidencia”, Revista de Policía, Buenos Aires,
Año XXI, n. 487, 1 oct. 1918 p. 420-421.
70
Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 10 ago. 1899.

69
Esta tese de soma zero explicava a intensa circulação de criminosos no espaço
atlântico sul-americano, algo que o chefe de polícia e outros vigilantes portenhos
diziam ter confirmado com seus próprios olhos no Rio de Janeiro, quando da visita à
Casa de Detenção da capital brasileira, encontraram vários ladrões bem conhecidos
em Buenos Aires.71 Esses eram os reincidentes, incorrigíveis e delinquentes
profissionais que os policiais do Brasil e da Argentina começaram a perseguir com
estratégias de colaboração internacional, envolvendo ainda outros países sul-
americanos. As leis de expulsão de estrangeiros, sancionadas no começo do século
XX, se converteriam em uma ferramenta de incomparável arbitrariedade, porque
tornaria possível o velho sonho de se desfazer literalmente de uma parte dos viajantes
indesejáveis. A mecânica concreta dessas expulsões abriu uma época de cooperação
sem precedentes, coroada por aquelas duas conferências sul-americanas que tiveram
lugar em Buenos Aires, em 1905 e 1920. A cooperação policial sul-americana era um
fato inédito, não apenas na região, mas no mundo todo.

71
Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 13 ago. 1899.

70
Capitais em movimento

O conto do vigário no comercio é o bluff; na


indústria o sucedâneo; na literatura o
folhetim; na pintura o cubismo; no meio da
rua o conto do vigário; na música a opereta;
na guerra a vitória; na estratégia a
camouflage; na política a democracia; na
metafísica o além; na poesia o penumbrismo;
no positivismo o Borges de Medeiros; na
imprensa, a imprensa; no jogo a loteria
nacional; na candidatura presidencial a
plataforma
Mendes Fradique, Contos do vigário (1922).1

Nos primeiros anos do século XX, os leitores de folhetins e romances


policiais sabiam das aventuras dos criminosos viajantes. Talvez nunca houvessem
visto um, mas conheciam as preocupações de Sherlock Holmes e os roubos de
Arsène Lupin, o famoso cambrioleur gentleman criado pelo escritor francês Maurice
Leblanc. Fora do mundo das ficções, embora totalmente articulada com ele, a
imprensa sul-americana oferecia notícias sobre estes ladrões cosmopolitas que
percorriam o mundo.2 Os delitos contra a propriedade, segundo diziam os
especialistas, haviam se convertido também em uma profissão internacional.

A criminalidade viajante nascia da revolução nos transportes, do incremento


da mobilidade territorial e do desenvolvimento das cidades. As capitais situadas
sobre a rota atlântica sul-americana eram nesta época espaços habitados por

1
MENDES FRADIQUE. Contos do vigário. Rio de Janeiro: Soria & Boffoni Ed., 1922, p. 18-19.
“Mendes Fradique” era o pseudônimo usado pelo caricaturista José Madeira de Freitas, ver: MENDES
FRADIQUE. História do Brasil pelo método confuso. Organização de Isabel Lustosa. São Paulo:
Companhia das Letras, 2004, p. 9-26.
2
CARVALHO, Elysio de. “Arsène Lupin, cambrioleur gentleman”. In: Sherlock Holmes no Brasil.
Rio de Janeiro: Casa A. Moura, 1921, p. 139-142.
imigrantes de distintos países, desembarcados há anos, meses ou dias, mas sempre
acostumados ao anonimato como um dado da vida cotidiana. A figura do “recém-
chegado” era central para a experiência urbana do Rio de Janeiro e Buenos Aires
durante a Belle Époque, como era também fundamental a preocupação sobre a
suposta cara perversa das imigrações massivas: o sujeito se infiltrava nas multidões
migrantes para ganhar muito dinheiro com pouco trabalho.

“Somos hospitaleiros até a imprudência, e por isto mesmo, e porque a vida é


fácil, a vigilância pequena e a tolerância excessiva, o Rio vai se tornando um refúgio
de criminosos escorraçados de todas as partes do mundo”, escrevia o literato
brasileiro Elysio de Carvalho, sendo diretor do Gabinete de Identificação e
Estatística da polícia carioca.3 Esta “invasão sinistra” – acrescentava – “exige que a
nossa hospitalidade seja mais circunspecta e que os nossos portos não se abram
facilmente a estes imigrantes heterogêneos que, longe de representarem a elite dos
países donde procedem, são o rebotalho, a ralé, o excremento das populações
estrangeiras”.4

Os temores sobre os criminosos viajantes se alimentavam em um discurso


mais amplo sobre os efeitos nocivos da imigração descontrolada, uma preocupação
fin-de-siècle, que raramente apareceu nos intelectuais liberais que projetaram as
políticas populacionais para as novas repúblicas sul-americanas, em particular os
argentinos, que tinham sido especialmente otimistas com a chegada dos imigrantes
europeus.5 As estratégias restritivas e seletivas do início do século XX apontavam
precisamente a mudar as regras do jogo de um processo que já levava várias décadas.
Ao longo do século XIX, a migração transoceânica adquiriu dimensões até então
inéditas. Em particular, o fluxo de migrantes da Europa às América manteve cifras
bem altas até a Primeira Guerra Mundial, e um pouco mais baixas na década de 1920
até a sua eventual paralisação, logo depois da crise internacional de 1929. Apesar das
diferenças entre as estatísticas dos países de emigração e os receptores, desde 1815

3
CARVALHO, Elysio de. “A delinqüência dos estrangeiros”, Boletim Policial, Ano VII, n. 6, Rio de
Janeiro, jun. 1913, p. 222-223.
4
Idem, p. 223.
5
HALPERIN DONGHI, Tulio. “¿Para qué la inmigración? Ideología y política inmigratoria la
Argentina (1810-1914)”. In: El espejo de la historia. Buenos Aires: Sudamericana, 1998, p. 191-238.

72
até 1930, mais de cinquenta milhões de pessoas deixaram a Europa rumo ao
continente americano. Os Estados Unidos foi o país que registrou mais imigrantes
nesse período (32,6 milhões), seguido por Canadá (7,2), Argentina (6,4) e Brasil
(4,3).6

A presença da América Meridional como horizonte para este movimento


migratório foi ainda mais significativa a partir do último quarto do século XIX.
Durante a etapa que ganhou o epíteto de “migrações maciças”, os portos do atlântico
sul-americano se posicionaram como destinos bem atrativos. Embora os Estados
Unidos mantivesse seu claro predomínio sobre os mais de 30 milhões de migrantes
que chegaram às Américas entre 1881 e 1915 (recebeu cerca de 70%), a Argentina
passou a ocupar o segundo lugar acumulando quase 14% da imigração europeia, e o
Brasil ocupou o terceiro com 9%, pouco acima do Canadá. No entanto, se
excetuarmos os países da América do Norte, Argentina e Brasil receberam neste
período quase a totalidade dos europeus que elegeram migrar para a América Latina.7

A maior parte desses imigrantes não eram os camponeses das Ilhas Britânicas e
da Europa setentrional que se orientaram em primeiro lugar aos Estados Unidos, mas
tampouco os alemães e italianos do Norte que povoaram as colônias agrícolas de São
Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul antes de 1880. Nessa nova etapa,
predominaram os imigrantes do Sul e Leste da Europa, a maior parte deles homens
jovens, pouco qualificados, que buscavam mercados com maior demanda de mão de
obra e eventualmente melhores salários. “Fazer a América” era o lema que abreviava
a expectativa de acumular economias para regressar com dinheiro a seus países de
origem. Em muitos casos, esse retorno foi uma realidade: mais da metade dos
italianos e algo menos da metade dos espanhóis que ingressaram na Argentina entre
1861 e 1920 voltaram a Europa; e no Brasil, tomando um período mais curto (1899-
1912), retornaram 65% dos imigrantes desembarcados.8

6
BAINES, Dudley. Emigration from Europe, 1815-1930. Cambridge: Cambridge University Press,
1995, p. 1-2.
7
KLEIN, Herbert S. “Migração Internacional na História das Américas”. In: FAUSTO, Boris (Org.).
Fazer a América. A imigração em massa para a América Latina. São Paulo: Edusp, 2000, p. 13-31.
8
DEVOTO, Fernando. Historia de la inmigración en la Argentina. Buenos Aires: Sudamericana,
2009, p. 73.

73
Este ciclo esteve marcado por outros contrastes significativos comparando os
casos de Argentina e Brasil. Em primeiro lugar, as imagens que circulavam na
Europa sobre as condições de vida em ambos os países eram bem diferentes. À
volumosa informação sobre maiores oportunidades de trabalho e melhores salários
no litoral argentino, se somavam a ciência de achar em Buenos Aires um clima mais
parecido com o europeu, o temor às doenças contagiosas no Brasil e o comentário
espalhado sobre o trato quase escravista que denunciavam os trabalhadores das
fazendas de café. Esses fatores motivaram uma forte política de propaganda e
subsídios à imigração organizados pelo estado de São Paulo, enquanto na Argentina
a política de passagens subsidiadas esteve limitada a um breve período na década de
1880.9

Por outra parte, a imigração europeia impactou de forma desigual nas


mudanças demográficas. Entre os censos de 1890 e 1940, o Brasil passou de 14,3 a
41,2 milhões de habitantes, pode-se dizer que o país quase triplicou sua população;
enquanto a Argentina passou de 3,9 milhões, em 1895, a 14,1 milhões, em 1940. Isso
significava um aumento maior, mas a distância parecia mais ampla considerando a
participação dos imigrantes no crescimento vegetativo, que entre 1840 e 1940 foi de
58% na Argentina e 15% no Brasil. Isso fica claro na disparidade entre as taxas de
imigrantes sobre o total de habitantes segundo os censos nacionais: se, em 1914,
representavam 30% da população argentina e 50% dos habitantes da cidade de
Buenos Aires, em 1920, apenas superavam 5% da população do Brasil, alcançavam
15% dos habitantes da capital, Rio de Janeiro, e 35% da cidade de São Paulo (cujo
estado concentrava mais da metade dos imigrantes do país).10

Nas últimas décadas do século XX, foi tomando força um discurso que
associava o aumento da população estrangeira com a presença de uma criminalidade
nova e a cada dia mais robusta. Esta ideia circulou – com diferentes nuances – desde
Buenos Aires até o Rio de Janeiro, abrangendo, obviamente, São Paulo. No Brasil,
desde os primeiros anos republicanos já se ouviam vozes de advertência sobre os

9
BERNASCONI, Alicia; TRUZZI, Osvaldo. “Las ciudades y los inmigrantes: Buenos Aires y São
Paulo (1880-1930)”. In: FUNCEB/FUNAG. Brasil-Argentina: a visão do outro. Brasília:
FUNCEB/FUNAG, 2000, p. 205-242.
10
FAUSTO, Boris; DEVOTO, Fernando. Brasil e Argentina: um ensaio de história comparada (1850-
2002). São Paulo: Editora 34, 2005, p. 174-178.

74
efeitos da imigração europeia no crime urbano. A construção de estatísticas criminais
que desagregavam as taxas por nacionalidade era um sintoma desta preocupação. De
fato, dois dos difusores da criminologia no Brasil, José Viveiros de Castro e Cândido
Mota, publicaram estudos que leriam nessas estatísticas claras tendência nas taxas
delitivas do Rio de Janeiro e de São Paulo: os espanhóis e os italianos se destacavam
entre as ofensas físicas e os crimes contra as pessoas; os russos, os alemães e os
polacos dominavam o lenocínio, os portugueses costumavam ser golpistas hábeis e a
população negra se impunha no mundo da gatunagem.11

Na cidade de São Paulo, a primeira década republicana sofreu um visível temor


devido ao aumento dos delitos. Nas estatísticas publicadas pela Secretaria de Justiça
entre 1894 e 1916, os números de aprisionamentos coincidiam com a proporção de
estrangeiros e nativos que mostravam os censos. Mas a imprensa insistia no perigo
dos “alienígenas” e das “etnias indesejáveis”, especialmente os italianos do Sul e os
judeus russos, que os jornais imaginavam infiltrando entre os trabalhadores honestos
que entravam em massa pelo porto de Santos.12 A produção de veracidade por meio
de números estava presente também nos relatos do Boletim Policial, publicado no
Rio de Janeiro pelo Gabinete de Identificação e Estatística. No primeiro número,
depois de analisar a informação recolhida, o chefe da polícia concluía: “A nossa
estatística criminal é tristemente desfavorável aos estrangeiros”.13

Em Buenos Aires, essa sentença era muito mais enfática e sua pregnância se
notava na imprensa, na literatura e nos círculos científicos. Desde a década de 1870,
a polícia difundia, em seus relatórios anuais, estatísticas criminais separadas por
nacionalidade e até finais do século manteve um discurso institucional que
frequentemente acusava os imigrantes pelo aumento dos delitos urbanos.14 Tema

11
CASTRO, José Viveiros de. Ensaio sobre a estatística criminal da República. Rio de Janeiro:
Tipografia Leuzinger, 1894. MOTA, Cândido N. Nogueira da. A justiça criminal na capital do Estado
de São Paulo. São Paulo: Espíndola, Siqueira & Cia., 1895.
12
FAUSTO, Boris. Crime a cotidiano. A criminalidade em São Paulo (1880-1924). São Paulo: Edusp,
2001, p. 71-81.
13
Boletim Policial, Ano I, n. 1, Rio de Janeiro, mai. 1907, p. 4. Ver também: BRETAS, Marcos.
Ordem na cidade: o exercício cotidiano da autoridade policial no Rio de Janeiro, 1907-1930. Rio de
Janeiro: Editora Rocco, 1997, p. 87.
14
Alguns historiadores mostraram que o nexo entre crime e imigração não se sustentava nem sequer
nos próprios dados difundidos nas publicações da polícia, em que os argentinos estavam

75
privilegiado também pelos textos criminológicos, entre eles um livro de Moyano
Gacitúa, que Lombroso qualificou – depois de sua publicação em 1905 – como “o
trabalho mais importante de sociologia e antropologia criminal surgido nestes dois
últimos anos e em ambos os mundos”.15 Tratava-se, ao menos, de um minucioso
estudo das estatísticas que girava em torno ao espinhoso problema do vínculo entre
crime, raça e imigração. O corolário do livro dirigia um questionamento à política
imigratória projetada pelos intelectuais liberais, founding fathers da nação argentina,
em particular a Juan Bautista Alberdi. Para Moyano Gacitúa, pouca atenção havia se
prestado à necessidade de selecionar os estrangeiros que chegavam ao país, levando
em conta que a raça latina (italianos, espanhóis, portugueses) era mais propensa a
cometer delitos. Embora o diagnóstico indicasse que a sociedade argentina ainda não
apresentava realidades criminais “aberrantes e irreversíveis”, era preciso ficar alerta
porque “tudo que se conhece hoje como provocação atrativa do delito está aqui
latente ou militante em palpitação”.16

A tese da periculosidade da raça latina tinha sido difundida, paradoxalmente,


por criminologistas italianos cujos textos, em especial os de Enrico Ferri, foram lidos
na Argentina com muito entusiasmo. As teorias da degeneração e o atavismo
criminal inclusive tiveram ressonâncias na imprensa, nos folhetins e nos romances
populares. ¿Inocentes o culpables? (1884) de Antonio Argerich e En la sangre
(1887) de Eugenio Cambaceres narravam histórias de italianos que se infiltravam na
sociedade portenha, ascendiam socialmente à base de enganações e simulações,

sobrerrepresentados em relação às estatísticas populacionais. Ver: GARCÍA FERRARI, Mercedes.


Ladrones conocidos/sospechosos reservados. Identificación policial en Buenos Aires, 1880-1905.
Buenos Aires: Prometeo, 2010, p. 73-75. BLACKWELDER, Julia Kirk. “Urbanization, Crime and
Policing. Buenos Aires, 1880-1914”. In: JOHNSON, Lyman (Ed.). The Problem of Order in
Changing Societies: Essays on Crime and Policing in Argentina and Uruguay. Albuquerque:
University of New Mexico Press, 1990, p. 65-87. Uma das análises estatísticas mais minuciosas entre
as publicadas pela polícia na década de 1880 foi: CASARIEGO, Alberto Méndez. La criminalidad en
la ciudad de Buenos Aires en 1887. Informe oficial. Buenos Aires: Imprenta del Departamento de
Policía de la Capital, 1888.
15
GACITÚA, Cornelio Moyano. La delincuencia argentina ante algunas cifras y teorías. Córdoba:
Casa Editora F. Domenici, 1905, p. VI.
16
Idem p. 23. Elysio de Carvalho defendia a mesma ideia que Moyano Macitúa: “são estas nações
precisamente”, escrevia apontando Portugal, Espanha e Itália, “as que ocupam os três primeiros
lugares na estatística de homicídios na Europa”. CARVALHO, Elysio de. “A delinquência dos
estrangeiros”, Op. Cit., p. 218. A mesma hipótese era fortemente defendida pela tese doutoral:
CORDERO, Clodomiro. La delincuencia en la ciudad de Buenos Aires en la última década, 1904-
1913. Tesis presentada a la Facultad de Derecho y Ciencias Sociales para optar por el grado de Doctor
en Jurisprudencia, Universidad Nacional de Buenos Aires, Buenos Aires, 1915.

76
casavam-se com argentinas e passavam a seus filhos as características mais brutais
de sua raça.17 No entanto, além destas ficções condenatórias e das frequentes
paródias da imprensa satírica, houve vozes que se levantaram contra essas leituras,
desde romances que narravam histórias de pacíficos e laboriosos imigrantes, até
visões dissonantes de criminologistas que refutavam as estatísticas desfavoráveis aos
italianos e espanhóis.18

Ainda assim, a massa de discursos técnicos e populares que apontavam a


imigração europeia como a responsável por uma eventual escalada do crime, serviu
de base para a discussão das políticas de atração e recepção de migrantes. Em
particular, será aberta uma lacuna entre a noção de “imigrante” (apontada na
República Argentina pela Lei de Imigração e Colonização de 1876) e de
“estrangeiro”, termo com conotações cada vez mais pejorativas que será protagonista
das leis de expulsão sancionadas no início do século XX.

O imigrante era visto como uma pessoa nascida em outro país, mas
transplantada para essas terras sul-americanas que devia laboriosamente cultivar,
incorporando-se ao mercado de trabalho. Em troca, o estrangeiro era representado
como um sujeito errante, sem pátria, domicílio fixo, nem intenção de se fixar. Por
isso, os esforços se concentraram em separar com clareza estes dois universos (os
imigrantes dos estrangeiros, os desejáveis dos indesejáveis), embora ambos
viajassem nos mesmos navios e chegassem pelos mesmos portos.

Na Argentina, a ideia do “aluvião” foi uma metáfora potente para dar conta da
massa humana que ingressava nos países do atlântico sul-americano. Metáfora
carregada de simbologias marítimas, aludia a esse fluir de corpos cujo principal
defeito não era que fossem muitos, mas fundamentalmente que eram anônimos,
desconhecidos, estranhos. Nos fluxos aluviais, cada sujeito perdia singularidade,
tornava-se parte de uma multidão na qual, segundo opinião dos policiais, era muito

17
Ver: ONEGA, Gladys. La inmigración en la literatura argentina (1880-1910). Buenos Aires:
Centro Editor de América Latina, 1982, p. 58-90. LAERA, Alejandra. “Representaciones obliteradas:
inmigrantes y extranjeros en la romance popular argentina del siglo XIX”. In: BRAVO, A. Fernández;
GARRAMUÑO, F.; SOSNOWSKI, S. (Eds.). Sujetos en tránsito: (in)migración, exilio y diáspora en
la cultura latinoamericana. Buenos Aires: Alianza, 2003, p. 231-253.
18
SCARZANELLA, Eugenia. Ni gringos, ni indios. Inmigración, criminalidad y racismo en la
Argentina, 1890-1940. Bernal: Universidad Nacional de Quilmes, 2003, p. 36-37.

77
difícil distinguir os trabalhadores dos perigosos. A amalgamação era um desses
símbolos que acompanhava a imagem do aluvião.

Outra ideia era a da ressaca que deixa a maré. Os indesejáveis eram como as
impurezas abandonadas pela água quando se retira. A imigração “como a ressaca que
as ondas lançam às praias do mar, com espólios bons e ruins, também traz de tudo,
bons e maus elementos”.19 Assim, pensava também o policial carioca Vicente Reis
sobre os crimes cometidos por “mão de estrangeiros, na maior parte evadidos das
prisões” e “impelidos pela enxurrada imigratória”.20 Reis, igual a Moyano Gacitúa,
entendia que os indesejáveis ainda não constituíam um mal irreversível. Mas, como
em qualquer aluvião, o perigo latente era que se instalassem na terra como uma
inundação perene. Esse “transbordamento caudaloso”, escrevia o jurista argentino,
essa “invasão dominadora do crime”, podia se derramar furiosamente pelo solo dos
países sul-americanos.21

Este era um dos discursos sobre os efeitos não desejados das imigrações
maciças. Mas não era o único. Junto à ideia da penetração de sujeitos perigosos
arrastados pelo mesmo aluvião que trazia os trabalhadores honestos, a partir da crise
financeira de 1890, irrompeu uma visão mais abrangente, que arremetia contra o
mesmíssimo conceito de “fazer a América”. Não apenas o delito, mas o culto
desmedido ao dinheiro, a motivação do lucro e da cobiça apareciam como
consequências de uma sociedade cosmopolita desprovida de valores nacionais. O
burguês especulador, o advogado inescrupuloso, o jogador compulsivo e o agiota
judeu estariam agora sentados no banco dos acusados.

19
Boletim Policial, Rio de Janeiro, Ano IV, n. 1, jun. 1910, p. 8.
20
REIS, Vicente. Os ladrões no Rio, 1898-1903. Rio de Janeiro: Laemmert, 1903, p. 2.
21
GACITÚA, Cornelio Moyano. La delincuencia argentina. Op. Cit., p. VII.

78
Cidades e cobiças

“Quando a parteira atira neste vale de lágrimas um homo sapiens, não vem ele
munido de carteira ou livro de cheques”, ironizava um escritor e caricaturista
brasileiro com pseudônimo de Mendes Fradique. “Traz para a função de apropriação
apenas dois elementos: miolo e gadanho, que, segundo o grau de perfeição a que
atinjam, podem dar um pick-pocket, um banqueiro ou um cavalheiro da indústria”.22
A massa encefálica, em alusão à astúcia, e as garras das aves de rapina, cuja própria
existência depende da destruição dos outros, eram duas potentes figuras entre os
textos que condenavam a libertinagem da vida metropolitana. No início do século
XX, a denúncia sobre os efeitos devastadores do dinheiro tinha essa tônica
niveladora que podia igualar um ladrão com um homem das finanças: a avareza – se
dizia – pouco distingue entre ricos e pobres, nacionais e estrangeiros, homens e
mulheres. Tudo se misturava ao ritmo da circulação do dinheiro, “igual às vitrines
desrespeitosas dos cambalaches”, segundo protestava o tango de Santos Discépolo,
em 1934, comparando o século XX com as lojas nas quais se trocavam bugigangas.

Muitos eram os elementos que nutriam essa sensação de decadência. Mas


nenhuma genealogia local deste fenômeno pôde evitar o impacto da crise financeira
de 1890. As economias do Brasil e da Argentina cresceram à mão de exportações de
produtos primários, fornecidos pelos setores mais dinâmicos, como o café, no caso
do Brasil, e a produção pecuária no litoral ribeiro da Argentina. O período de apogeu
do modelo agroexportador teve sua base expressa no lema “ordem e progresso”
proclamado por republicanos e liberais. No entanto, existiram também vozes críticas
que apontavam seus dardos contra a “dominação estrangeira” e a cultura materialista
de elites mesquinhas, representadas especialmente pelos fazendeiros do Vale do
Paraíba e a “burguesia da lã” argentina.23

22
MENDES FRADIQUE. Contos do vigário. Op. Cit., p. 96.
23
Esta visão tomou força depois da crise de 1890 e se materializou em uma infinidade de intervenções
escritas de um incipiente nacionalismo de direita. Sobre o tema, ver: DEUTSCH, Sandra McGee. Las
derechas. La extrema derecha en la Argentina, el Brasil y Chile, 1890-1939. Bernal: Universidad
Nacional de Quilmes, 2005, p. 49-85.

79
Essas ideias encontraram no crack de 1890 uma conjuntura ideal para serem
escutadas. A crise financeira se desencadeou em Buenos Aires e teve como efeito
mais visível a quebra da companhia bancária Baring Brothers, provocada por seus
investimentos no Rio da Prata e pela suspensão de pagamentos do estado argentino.
Embora a companhia tenha sido resgatada pelo Banco da Inglaterra, evitando que a
crise se expandisse, teve um forte impacto na economia argentina, com a depreciação
da moeda e revogação dos créditos.24 O impacto chegou ao Brasil no final desse ano,
derrubando os preços das ações e agravando uma instabilidade financeira que se
arrastava desde 1886. Rui Barbosa, primeiro Ministro da Fazenda da República,
continuou a política de créditos outorgando a diversos bancos o poder de emitir
papel-moeda, o que provocou uma febre especulativa similar a de Buenos Aires. Este
processo foi conhecido no Brasil como “encilhamento”, uma analogia com a
preparação que se dá aos cavalos antes das corridas.25

Alguns monarquistas denunciavam a especulação financeira como um sintoma


da degradação moral do novo regime, apesar de a crise ter tido suas raízes nos
últimos anos do Império e a “febre do ouro” fosse bem conhecida já na década
anterior. De fato, em uma reunião da Associação de Homens de Letras, o argentino
Ernesto Quesada havia pronunciado – ante a presença de Don Pedro II – um discurso
enfurecido contra essa “sede absorvente do ouro”, que tornava os homens
“insaciáveis e insensíveis a todos os demais” e os levava ao extremo de “embotar os
sentidos, sem nunca conseguir satisfazer a seus fanáticos adoradores”.26 O destino
comum de Argentina e Brasil, ligados fatalmente às incertezas dos mercados
internacionais, era material cotidiano nas paródias da imprensa satírica, com suas
ilustrações em que apareciam caricaturas de ingleses que, luzindo suas costeletas
inconfundivelmente britânicas, sorviam o ouro argentino. Em um número da revista

24
ROCCHI, Fernando. “El péndulo de la riqueza: la economía argentina en el período 1880-1916”. In:
LOBATO, Mirta (Comp.). El progreso, la modernización y sus límites. Nueva Historia Argentina,
vol. 5. Buenos Aires: Sudamericana, 2000, p. 37-40.
25
Sobre o “encilhamento”, ver: SCHULZ, John. A crise financeira da abolição, 1875-1901. São
Paulo: Edusp, 1996, p. 75-100.
26
QUESADA, Ernesto. “Discurso pronunciado por el doctor Ernesto Quesada, con motivo de
fundarse la Asociación de los Hombres de letras del Brasil”. Nueva Revista de Buenos Aires, año III,
tomo 8, Buenos Aires, Imprenta y Librería de Mayo, 1883, p. 477. Sobre as consequências da crise de
1890 e a “especulação desenfreada”, ver do mesmo autor: QUESADA, Ernesto. Dos novelas
sociológicas. Buenos Aires: Jacobo Peuser, 1892. p. 7-8.

80
portenha Don Quijote, o presidente brasileiro Deodoro da Fonseca aparecia gordo e
inflado pela emissão monetária, enquanto um burro argentino gargalhava gritando
“como a mí te pondrá el oro”.

Caricatura de Deodoro da Fonseca


Fonte: Don Quijote, Buenos Aires, 15 de Fevereiro de 1891.

Nos anos imediatamente posteriores à crise, produziram-se relatos ainda mais


suculentos sobre a voracidade da cobiça nas grandes cidades. Rio de Janeiro e
Buenos Aires não apenas haviam se convertido em capitais republicanas e
cosmopolitas, mas também no epicentro das especulações bursáteis. Não é casual que
a Bolsa de Comércio fosse o lugar referido como metonímia de todos os males e o
cenário de narração de romances que ofereciam uma espécie de assimilação literária
da crise. Em primeiro lugar, La Bolsa, um folhetim que apareceu no jornal La Nación
entre agosto e outubro de 1891, escrito por um autor até então desconhecido, José
María Miró, com o pseudônimo de Julián Martel.27 Este romance se destacou entre
uma produção narrativa vertiginosa que a crítica literária argentina chamou

27
MARTEL, Julián. La Bolsa. Estudio social. Buenos Aires: Imprenta Artística Buenos Aires, 1898,
p. 173.

81
precisamente “ciclo da bolsa” e que compreende outras obras como Quilito de Carlos
María Ocantos e Horas de fiebre de Segundo Villafañe, todas publicadas em 1891,
que tiveram sempre o motor da trama na ânsia de obter dinheiro.28

Nesse mesmo ano, apareceu L´Argent, romance inspirado na quebra do banco


francês Union Général, em que Émile Zola dramatizava os efeitos devastadores da
especulação e reconstruía o ambiente das altas finanças em Paris. Sem atribuir a este
romance uma influência modeladora sobre aqueles que abordaram a mesma
problemática em outros países, alguns estudos preferiram ver aí a emergência de um
corpus de “ficções financeiras” que apareceram simultaneamente com a obra de
Zola: os romances argentinos do “ciclo da bolsa”, Abismos (1890) do escritor
uruguaio Manuel Bahamonde, ou alguns anos depois O Encilhamento (1893) do
brasileiro Alfredo de Taunay, Contra la marea (1894) do chileno Alberto del Solar,
Humo (1900) do guatemalteco Enrique Martínez Sobral e The Pit (1903) do norte-
americano Frank Norris.29

Esses romances se disseminaram mundialmente para dar conta, cada um deles,


de um fenômeno global por antonomásia. Não no sentido universalista de algo que se
repete em cada parte da terra, mas de uma geografia constituída por espaços que,
ainda sendo muito distantes entre si, experimentam processos simultâneos,
instantaneidade possibilitada pelos novos meios de transporte e comunicação.30
Submersos na febre da bolsa, vários dos personagens desses romances liam nos
jornais notícias telegráficas sobre os movimentos financeiros em cidades remotas,
conscientes da nova mecânica bursátil na qual um sacolejo em qualquer bolsa do

28
Sobre esses romances, ver: LAERA, Alejandra. “Danza de millones: inflexiones literarias de la
crisis de 1890 en Argentina”, Entrepasados, Buenos Aires, n. 24-25, p. 135-147, 2003. BIBBÓ,
Federico. “Dinero, especulación y pobreza: las novelas de la crisis en los límites de la
modernización”. In: LAERA, Alejandra (Dir.). El brote de los géneros. Historia crítica de la literatura
argentina. Buenos Aires: Emecé, 2010. V. III, p. 535-553.
29
WASSERMAN, Renata Mautner. “Financial Fictions: Émile Zola´s L´Argent, Frank Norris´ The
Pit, and Alfredo de Taunay´s O Encilhamento”, Comparative Literature Studies, Penn State
University Press v. 38, n. 3, p. 193-214, 2001.
30
Esta ideia da emergência de uma “sociedade mundial” foi desenvolvida pelas teorias sistemáticas da
globalização, ancoradas na noção de interdependência das nações. Veja um panorama dessa
perspectiva em: IANNI, Octavio. Teorías de la globalización. México: Siglo XXI, 2006. p. 44-58.

82
planeta podia repercutir imediatamente em outra.31 Essa circulação mundial do
dinheiro terá seu episódio mais dramático no crack de 1929, contudo seus contornos
estavam claramente delineados nesses romances financeiros do oitocentos tardio.

A “febre do ouro” provocava uma forma particular de delírio afundando os


personagens dessas ficções em uma busca desenfreada por dinheiro que sempre
terminava na ruína, econômica e somática (enlouqueciam, se enfermavam ou se
suicidavam). Por isso, esses romances continham uma forte crítica à cidade moderna
ou, melhor dito, à “vida espiritual” das metrópoles, usando uma expressão de Georg
Simmel. No mesmo momento em que se publicavam romances bursáteis, Simmel
colocou em prova a hipótese da “intensificação da estimulação nervosa” para
explicar a conexão entre o estilo de vida citadino e as interações monetárias. A
cidade, sede indiscutida das finanças, incrementava os processos mentais do cálculo
abstrato, incitava consumo e excitava o sistema nervoso.32 A essa dimensão
neurológica da modernidade aludia Taunay em seu relato sobre a Bolsa de Comércio
do Rio de Janeiro: “a questão principal para os augures lá dentro dos bastidores era
agitarem freneticamente os papeis e ações, excitarem a vertigem dos ânimos e
provocarem no encilhamento nevrótico paroxismo”.33

A aceleração do ritmo da vida era também central no relato de Julián Martel


sobre a crise argentina. No romance, um advogado de origem inglesa se entrega aos
negócios especulativos da bolsa, enriquecendo-se de maneira superlativa. Conseguiu
comprar uma mansão na glamorosa Avenida Alvear e se relacionava com toda a alta
sociedade portenha. Associado a uns estelionatários obscuros, criam algo que
denominam “Sociedade Enganadora”, para lucrar com ações da venda de terras,
difundir rumores falsos na bolsa, aumentar seu valor e logo vendê-las por um preço

31
Taunay, por exemplo, inclui no relato o texto de um telegrama publicado na imprensa carioca,
anunciando uma nova companhia de pesca nos Mares do Sul. “estourou o telegrama como uma bomba
na bolsa do Rio de Janeiro e as ações da companhia tão favorecida pularam logo a $60”. TAUNAY,
Visconde de. O Encilhamento: cenas contemporâneas da Bolsa do Rio de Janeiro em 1890, 1891 e
1892. São Paulo: Melhoramentos, 1923. p. 258.
32
SIMMEL, Georg. “Las grandes urbes y la vida del espíritu”. In: El individuo y la libertad. Ensayos
de crítica de la cultura. Barcelona: Península, 1986, p. 247-261.
33
TAUNAY, Visconde de. O Encilhamento. Op. Cit., p. 223-224. A ideia de “modernidade
neurológica” foi tratada por: SINGER, Ben. “Modernity, Hyperstimulus, and the Rise of Popular
Sensationalism”. In: CHARNEY, Leo; SCHWARTZ, Vanessa (Eds.). Cinema and the Invention of
Modern Life. Berkeley: University of California Press, 1995. p. 72-99.

83
inflado. Mas o crack de 1890 prejudicou o advogado até colocá-lo perto da ruína e
seus espúrios sócios desapareceram deixando numerosas dívidas. Para pagar os
credores e salvar sua honra, termina apostando o pouco que lhe resta em uma corrida
de cavalos, supostamente combinada, em que, no entanto, perde todo o seu dinheiro.

O panorama que Martel descrevia na Buenos Aires do final do século XIX bem
poderia sintetizar-se com uma frase que José Murilo de Carvalho usou para o Rio de
Janeiro desses mesmos anos: “os heróis do dia eram os grandes especuladores da
bolsa”.34 Nos romances de Martel e Taunay, a Bolsa de Comércio era uma metáfora
do colapso geral das cidades e também de sua essência trapaceira. As capitais
pareciam como grandes montagens cenográficas nas quais o dinheiro transmutava
todo o tempo (de papel e moeda a títulos e ações), exibindo seu caráter artificioso:

Tudo burlado, iludido, ilaqueado, postergado, mistificado,


falsificado: o número e o nome dos subscritores; o capital integral
tomado; a autenticidade das assinaturas; a prestação de contas das
diretorias; [...] as atas de instalação e das assembleias gerais
ordinárias e extraordinárias; o quorum dos acionistas; as
transferências de títulos; [...] os balanços e inventários; as vendas e
compras das próprias ações; o seu valor negociável; os fundos
disponíveis; tudo, tudo serviu de base às mais grosseiras
embaçadelas e patranheiras espertezas.35

Menezes, o protagonista de O Encilhamento, também investia dinheiro em


ações da bolsa impulsionado por conselho de más companhias. É que já não podia se
confiar em ninguém. Aqui apareciam exageradas muitas das denúncias que Taunay
havia antecipado em outro romance (Ouro sobre Azul, 1875), em que o ambiente
urbano da capital do Império estava marcado pela presença de medíocres burgueses
obcecados por escalar socialmente a qualquer preço, incorrendo em traições e
casamentos por mero interesse.36 O problema era que a avareza destruidora excedia

34
CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi. São
Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 27.
35
TAUNAY, Visconde de. O Encilhamento, Op. Cit., p. 224-225.
36
CÂNDIDO, Antonio. “Visconde de Taunay e os fios da memória”. In: Formação da Literatura
Brasileira. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 2000. p. 275-282. Sobre Taunay e o encilhamento ver

84
agora o universo dos arrivistas rastaquoères. A febre bursátil era um
“indecorosíssimo e frenético jogo que, debaixo das mais variadas formas,
ultimamente se implantou no Rio de Janeiro e em muitos pontos do país, penetrando
no seio das melhores famílias”.37

Os adventícios cariocas e portenhos apareciam nestes romances representados


por uma burguesia desprezível, vulgar, maniacamente voltada à busca de dinheiro e
ao cultivo das aparências. Taunay zombava das formas ridiculamente estúpidas e
fúteis de imitar os costumes da aristocracia europeia. Burgueses insaciáveis,
buscadores de enriquecimento fácil e rápido, que o Visconde vinculava ao furor
republicano por transformar de súbito as velhas estruturas imperiais: tudo se
submetia à lógica imediatista do “agora e agora!”.38 Estes protagonistas do
“arrivismo usurpador”, como chamava Martel, perambulavam também pelas ruas de
Buenos Aires. Frequentavam uma cadeia de epicentros cinzentos da economia
monetária e da febre dos negócios: escritórios de leilões, agências de credores,
escritórios de advogados que se dedicavam a proteger aos especuladores, abdicando
de qualquer filosofia da justiça aprendida na universidade.39

Igualmente à Bolsa de Comércio, quase todos esses tugúrios estavam situados


na city, aquela selva de tijolos e de estridente agitação no horário comercial, onde ao
anoitecer se acendiam as luzes dos bordéis. Na topografia urbana da cidade da
cobiça, tudo girava em torno ao parasitário centro financeiro. Era o cenário inicial
dos romances sul-americanos. Esses “parasitas da riqueza” que segundo o escritor
portenho trazia a imigração “desde as regiões mais remotas” (“turcos sujos”,
“charlatões ambulantes”, “falsos mendigos”), constituíam um cenário da avareza que
40
se concentrava ao redor da bolsa. Imã da perdição dos cariocas e fluminenses,

também: SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão. Tensões sociais e criação cultural na
Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1995.
37
TAUNAY, Visconde de. O Encilhamento. Op. Cit., p. 301.
38
Idem, p. 20. Existem estudos sobre esses conflitos entre aristocratas e adventícios para as capitais de
Argentina e Brasil na Belle Époque: NEEDELL, Jeffrey D. A Tropical Belle Époque: Elite, Culture
and Society in Turn-of-the Century Rio de Janeiro. Princeton: Princeton University Press, 1987. p. 82-
115. LOSADA, Leandro. La alta sociedad en la Buenos Aires de la Belle Époque. Buenos Aires:
Siglo XXI, 2008. p. 319-340.
39
MARTEL, Julián. La Bolsa. Op. Cit., p. 173.
40
Idem, p. 7.

85
vistos por Taunay como “enorme massa passiva e hipnotizada nas mãos de quatro ou
cinco dezenas de ávidos bolsistas”, todos caiam sucumbidos por investir em ações de
novas e duvidosas empresas que “surgiam como irisados e radiantes cogumelos após
chuvas”.41

A multidão congregada no centro bursátil representava o mesmíssimo


emaranhado da cidade fenícia, “mar revolto em que se misturam e confundem todas
as classes”, opinava Martel, “desde a mais alta até a mais abjeta”.42 O faustuoso
banqueiro e o proprietário rico caminhavam junto ao humilde intermediário, o
aventureiro descarado e o agiota insaciável. “Todas as classes da sociedade
misturadas”, assinalava Taunay, “senadores, deputados, médicos de nota ou sem
clínica, advogados bem reputados ou desprestigiosos, magistrados de fama, militares,
um mundo de desconhecidos, outros infelizmente demasiado conhecidos”.43 Nesse
universo confuso, o prestígio que outorgava o dinheiro se impunha ante qualquer
linhagem e misturavam-se todos os idiomas, entrelaçados pelo vocabulário comum e
internacionalista do argot da bolsa.

Esses romances protestavam contra os novos costumes e, por sua vez,


revelavam que as fraudes e a simulação não eram vícios exclusivos dos ladrões
propriamente ditos. Os falsários, os vigaristas e os impudicos “traficantes de carne
humana” eram comparados aqui com as imoralidades dos novos ricos, os trabalhos
sujos elaborados nas elegantes corridas do hipódromo, os sportmen que traíam uns
aos outros, as vivezas dos corredores da bolsa. Denunciavam, em suma, a atitude
acolhedora com que a alta sociedade financeira recebia estes adventícios
inescrupulosos, a esta “multidão de especuladores, celebridades de um dia, formadas
do nada graças as colossais e fáceis operações bursáteis”.44

Os escritos dos policiais davam conta de um análogo temor ante a proliferação


de figuras quase-criminosas, nascidas deste mesmo apetite pelo lucro. O delegado
Vicente Reis, por exemplo, advertia sobre a necessidade de punir aos “compradores

41
TAUNAY, Visconde de. O Encilhamento. Op. Cit., p. 20; 235.
42
MARTEL, Julián. La Bolsa. Op. Cit., p. 11.
43
TAUNAY, Visconde de. O Encilhamento. Op. Cit., p. 16.
44
MARTEL, Julián. La Bolsa. Op. Cit., p. 152.

86
de roubos e furtos, para os quais as leis em vigor são de uma brandura irrisória”. A
esses personagens dava o nome de receptadores, uma “corja daninha que estende seu
manto protetor sobre a gatunagem”.45 Junto aos compradores de coisas roubadas,
apareciam outras figuras que os policiais desvendavam, como o advogado de gatunos
e, em especial, o agiota:

Como abutres famintos, estes usurários ao 100/100, chegam em


bandos ao Departamento Central nos dias de pagamento de
salários. Para estes lobos insaciáveis, devem fechar as portas da
Casa Grande, se não deseja ver os empregados e agentes
capturados nas redes sinistras desses eternos abusados, que ainda
estando à margem da lei, desenvolvem tranquilos suas nefastas
atividades.46

Esta nota da revista portenha Magazine Policial advertia aos próprios


vigilantes de rua que evitassem ser seduzidos pelos agiotas, “praga mais perniciosa
que as dos cafetões, búzios, curandeiros, ladrões, jogadores”, e que apareciam às
dezenas, impunemente, anunciando-se nas listas telefônicas.47 Em um tom
paternalista, os policiais escritores chamavam frequentemente a atenção sobre um
fenômeno que no início do século XX imaginavam incontrolável. Do mesmo modo
que as especulações bursáteis, a usura era “explorada infamemente por elementos
importados ou pelos seus próprios filhos corrompidos em um ambiente de tramoias”,
e até as pessoas “de tradição e ancestralidade, nascidas de famílias ilustres”,
sucumbiam à tentação de emprestar dinheiro com más intenções.48 O sórdido agiota,
especialmente o credor judeu,49 acabava junto ao jogador desenfreado, o advogado

45
REIS, Vicente. Os ladrões no Rio. Op. Cit., p. 7-10.
46
“Los usureros”, Magazine Policial, Buenos Aires, Año 2, n. 9, abr. 1923, p. 41.
47
“La usura en Buenos Aires. Crecimiento prodigioso de los Bancos de Préstamo”, Sherlock Holmes,
Buenos Aires, Año III, n. 88, 4 mar. 1913, p. 23.
48
“La usura en Buenos Aires”, Sherlock Holmes, Buenos Aires, Año III, n. 100, 27 may. 1913, p. 8-
12. A condenação moral dos usurários, pela revista, chegou até o ponto de justificar a ação de uma
mulher que assassinou um agiota. Ver: “Bajo las garras del águila negra. Las víctimas de la usura”,
Sherlock Holmes, Buenos Aires, Año III, n. 104, 24 jun. 1913, p. 12-16.
49
Nestas notícias sobre a usura se criticava o credor judeu, mencionado também nos romances de
Martel e Taunay. Ver: BAGÚ, Sergio. “Julián Martel y el realismo argentino”, Comentario, Buenos
Aires, oct. 1956, p. 9-15. Um antissemitismo ainda mais violento aparece em um livro dedicado

87
inescrupuloso e o financista corrupto, engrossando as fileiras da aristocracia criminal
nestas cidades da cobiça.

Uma Belle Époque delitiva

Os romances bursáteis realizavam uma crítica que não se centrava nos vícios
da plebe nem das chamadas “classes perigosas”. Embora o cenário narrativo fosse
totalmente metropolitano, os cortiços, prostíbulos e tugúrios do submundo brilhavam
por sua ausência. Seu lugar era ocupado por entidades bancárias, salões de baile,
clubes e hipódromos, portadores de uma forma diferente de imoralidade. Nesse
território, a Bolsa de Comércio era o eixo nevrálgico de todos os males ou, em
palavras de Taunay, o “centro miasmático” do qual emanavam todas as pestilências
da febre do ouro.50 A literatura modernista do século XIX soube elaborar um relato
crítico do culto ao dinheiro e o consumo desenfreado, instalando uma suspeita sobre
o próprio caráter civilizatório das grandes cidades.51

As metrópoles sucumbiam à “febre imoderada dos desejos” e suas estruturas


rachavam ante uma cobiça que, segundo o criminologista Miguel Lancelotti, estava a
beira das práticas criminosas. “As quebras fraudulentas, as falsidades de toda
espécie” não tinham para ele outra explicação que “essa forma especial da vaidade
humana que se traduz no amor ao luxo, ao toilette, às exibições aparatosas e
deslumbrantes”.52 Por isso advertia que a civilização moderna havia acarretado um
tipo peculiar de miséria que não se esgotava nos infortúnios da pobreza. Esta

integralmente à usura, escrito por um oficial da polícia portenha: BARRÉS, Manuel. Males sociales.
Buenos Aires: Imprenta López, 1939.
50
TAUNAY, Visconde de. O Encilhamento. Op. Cit., p. 301.
51
SCHORSKE, Carl E. “The Idea of the City in European Thought: Voltaire to Spengler”. In:
HANDLIN, Oscar; BURCHARD, John (Eds.). The Historian and the City. Cambridge: The MIT
Press, 1966, p. 103-104. Ver também: SCHORSKE, Carl E. La Viena de fin de siglo: política y
cultura. Buenos Aires: Siglo XXI, 2011.
52
LANCELOTTI, Miguel A. “El factor económico en la producción del delito”, Criminalogia
Moderna, Buenos Aires, Año III, n. 16, feb. 1900, p. 496.

88
“miséria dourada” alcançava a todos os estratos da alta sociedade, disposta a
“recorrer a artifícios ilícitos e ilegais” para satisfazer seus inescrupulosos luxos.

Durante a Belle Époque, os cronistas da imprensa portenha e carioca


ofereceram imagens de cidades certamente preocupadas com a ostentação. Se Paris
era o modelo a seguir, a modernização chegou muito mais cedo a Buenos Aires, em
meados da década de 1880, quando o prefeito Torcuato de Alvear iniciou uma série
de inovações cirúrgicas que lhe valeu o nome de “Haussmann argentino”.53 A
abertura da Avenida de Mayo, grande bulevar de inspiração parisiense, com suas
largas calçadas e seus cafés afrancesados, avançou graças à demolição de uma parte
do centro colonial.54 Logo da inauguração, em 1890, foram sendo construídos, ao seu
redor, hotéis luxuosos desenhados por arquitetos europeus e, com o tempo, a avenida
se converteu em um verdadeiro postal da modernidade portenha.

Também se destacava Florida, a rua das lojas mais sofisticadas, que em 1900
recebeu o presidente Campos Sales com uma deslumbrante instalação de iluminação
elétrica. Se prestarmos a atenção aos relatos de brasileiros que viajaram a Buenos
Aires nas três primeiras décadas do século XX, além de reafirmar a fama de cidade
europeia, sobressai admiração que provocava sua fachada mais aristocrata. “A capital
platina caracteriza a sua equiparação aos grandes centros cosmopolitas do globo:
seus hotéis são monumentos” escrevia Arthur Dias, jornalista integrante da comitiva
que acompanhou a Campos Sales em sua visita.55 Inclusive Mario Cattaruzza, em um
livro que construía uma visão muito mais crítica de sua estadia na Argentina, opinava
que ao lado da Avenida de Mayo, “os grandes boulevards de Paris não têm nada de
superior”.56 A mesma impressão teve outro jornalista em 1916, quando viajou junto

53
Embora o mito da cidade europeia estivesse fortemente ligado às reformas de Alvear, a inspiração
francesa na trama urbana de Buenos Aires existia desde muito antes. Uma genealogia desse mito pode
se encontrar em: GORELIK, Adrián. “¿Buenos Aires europea? Mutaciones en una identificación
controvertida”. In: Miradas sobre Buenos Aires: historia cultural y crítica urbana. Buenos Aires: Siglo
XXI, 2004, p. 71-94.
54
BRAUN, Carla; CACCIATONE, Julio. “El imaginario interior: el intendente Alvear y sus
herederos. Metamorfosis y modernidad urbana”. In: VÁZQUEZ-RIAL, Horacio (Dir.). Buenos Aires,
1880-1930. La capital de un imperio imaginario. Madrid: Alianza, 1996, p. 32-71.
55
DIAS, Arthur. Do Rio a Buenos Aires. Episódios e impressões d´uma viagem. Rio de Janeiro:
Imprensa Nacional, 1901, p. 90.
56
CATTARUZZA, Mario. Buenos Aires: aspectos da cidade, o Congresso Pan-Americano. Rio de
Janeiro: s/n, 1906, p. 24.

89
com uma delegação diplomática encabeçada por Rui Barbosa para assistir os festejos
pelo centenário da Independência. “Há certamente em Buenos Aires um pouco de
ostentação de riqueza”, concluía após um passeio pela Avenida Alvear, Palermo e
seu Hipódromo, cujos passeantes lhe outorgavam “um aspecto tão distinto como as
dos prados de Paris e Londres”.57 Por último, Luiz Amaral revelava em 1927 a
persistência deste olhar:

Luxa-se muito em Buenos Aires. Os homens apuram os trajes,


exigindo grandes esforços dos alfaiates. As senhoras ostentam-se
engalanadas com os melhores tecidos e demonstram gosto apurado.
É muito importante a indumentária na capital portenha. A falta de
elegância deixa qualquer pessoa em situação de desprezível
inferioridade. À primeira vista, tem-se a impressão de que em
Buenos Aires só vivem milionários.58

Mas ao contrário do que sugeria o relato de Arthur Dias, neste momento o Rio
de Janeiro não parecia estar tão atrasado em suas pretensões de metrópole moderna.
Igual a Buenos Aires, havia passado comodamente a faixa de um milhão de
habitantes e podia se orgulhar de ter seu próprio Haussmann: sob a mesma
racionalidade política que orientou as reformas urbanas de Paris e Buenos Aires
(edificar uma cidade moderna a partir dos seus escombros), o prefeito Francisco
Pereira Passos iniciou uma série de demolições no velho centro, prolongando ruas e
abrindo amplos bulevares.59 A glamorosa Avenida Central inaugurada em 1905 nada
tinha que invejar sua antecessora portenha com seus edifícios de estilo eclético que
se construíram ao longo de seu trajeto.

57
BRANT, Mario. Viagem a Buenos Aires. Rio de Janeiro: Tip. Martins de Araujo & Cia., 1917, p.
70.
58
AMARAL, Luiz. A mais linda viagem. Um “raid” de vinte mil kilómetros pelo interior brasileiro.
São Paulo: Melhoramentos, 1927, p. 51.
59
BENCHIMOL, Jaime. Pereira Passos, um Haussmann Tropical. Rio de Janeiro: Biblioteca
Carioca, 1992.

90
“Avenida Central” (Rio de Janeiro, 1906) Fotografia de Augusto Malta
Fonte: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

“Buenos Aires. Os Palácios da Avenida de Mayo”


Fonte: Arthur Dias, Do Rio a Buenos Aires, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1901, p. 90.

91
Era precisamente o aspecto ostentoso que envolvia estas artérias e seus
aristocratas caminhantes o que incomodava a alguns escritores, fundamentalmente
aos críticos das políticas urbanas que modernizavam expulsando as classes populares
do centro. Era o caso de Lima Barreto: em 1915, condenava essas “elegâncias
idiotamente binoculares” que se multiplicavam junto com os bulevares. Para este
flâneur dos subúrbios cariocas, o Rio de Janeiro corria atrás da ilusão de parecer a
Paris ou, o que era ainda pior, a versão sul-americana de Paris. “A obsessão de
Buenos Aires sempre nos perturbou o julgamento das coisas”, insistia enfurecido
ante as fantasias de imitar a essa cidade de longas ruas retas, realidade que julgava
impossível para a geografia local interrompida por gigantescos morros.60 Por isso
ironizava sobre os discursos que enalteciam a “rainha do Prata”, essa “verdadeira
capital europeia”, essa cidade tão “limpa, bonita, elegante”, frente a qual o Rio de
Janeiro ficava reduzido a uma mísera “estação de carvão”.61 Edificar uma cidade
europeia as custas da destruição e negação de outra cidade que agora sobrevivia nos
subúrbios da capital: essa era a denúncia dirigida por Lima Barreto contra o culto às
aparências.

Mas Buenos Aires também teve seus cronistas maldizentes da Belle Époque.
Inclusive no momento de maior otimismo, em plenos festejos pelo primeiro
Centenário da Revolução de Maio, enquanto ilustres visitantes franceses, como
Georges Clemenceau ou Jules Huret, estavam cheio de elogios em relação à
Argentina, o jornalista espanhol Miguel Toledano (com pseudônimo de Miguel Gil
de Oto) chamava o país de “nação da quimera e da mentira”.62 Para Toledano,
Buenos Aires vivia um “delírio de grandeza”, imensa mise-en-scène pronta para
desmoronar-se em pedaços a qualquer momento. O suporte era, por enquanto, essa

60
BARRETO, Lima. “A Volta”, In: Toda crônica. Vol. 1 (1890-1919). Rio de Janeiro: Agir, 2004, p.
166.
61
BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Brasiliense, 1956, p. 136.
62
GIL DE OTO, Manuel. La Argentina que yo he visto. Buenos Aires: Biblioteca Nacional, 2010, p.
151. Sobre Buenos Aires e os festejos do Centenário, ver: SALAS, Horacio. “Buenos Aires 1910:
capital de la euforia”. In: GUTMAN, Margarita; REESE, Thomas (Eds.). Buenos Aires 1910: el
imaginario para una gran capital. Buenos Aires: Eudeba, 1999, p. 41-54.

92
grande montagem construída sobre o luxo fictício, por uma aristocracia rural que da
crise de 1890 não havia podido extrair nenhuma lição.

Argentina é um país onde a confiança e o crédito são a base e


essência da prosperidade e da vida. O governo, os bancos, os
comerciantes atacadistas, os bolicheros, os grandes fazendeiros, os
pequenos capitalistas, os empregados, o operário, em uma palavra,
todos, necessitam inspirar confiança e conseguir empréstimos.
Nada mais lógico, portanto, que o governo, o comércio, as
indústrias, os que têm algo e os que carecem de tudo, necessitam
fingir um bem-estar que não gozam, para conseguir grana em
relação com sua aparente solvência. O dinheiro, como a mulher,
não se entrega aos ousados e os astutos.63

Algo não se pode negar: desde Julián Martel até Alfredo de Taunay, desde
Lima Barreto até Gil de Oto, a inquietação pelos modos de circulação do dinheiro
nas cidades estava vinculada à questão da “simulação”. Na Argentina, converteu-se
em um verdadeiro tema de época, tratado com igual fervor em textos científicos de
criminologia e ensaios de interpretação nacional. A onda imigratória havia
convertido Buenos Aires em um cenário de interações entre desconhecidos, uma
massa confusa em que se misturavam todos os tipos de sujeitos. Assim imaginava
José María Ramos Mejía, em Las multitudes argentinas, quando descrevia esta
tipologia de arrivistas na qual despontavam duas variedades dos chamados
guarangos: o canalha (“que ascendeu pela escada do bom vestir ou do dinheiro”) e o
burguês (“milionário improvisado nascido do sortilégio da loteria”).64 Mais
preocupado ainda se mostrava Manuel Gálvez sobre a simulação: o argentino era
“superficial e exibicionista, tem a arrogância do ignorante metido e pratica um
arrivismo desenfreado, ostentando seus desejos de rastaquouère e sua forçada
teatralidade”.65

Os “vícios da cosmopolita Buenos Aires” faziam da cidade um teatro de


simulações em que se usavam “todos os meios fraudulentos possíveis”: para Gálvez,

63
GIL DE OTO, Manuel. La Argentina que yo he visto. Op. Cit., p. 44-45.
64
RAMOS MEJÍAS, José M. Las multitudes argentinas. Buenos Aires: Félix Lajouane, 1899, p. 320.
65
GÁLVEZ, Manuel. El diario de Gabriel Quiroga. Opiniones sobre la vida argentina. (1910).
Buenos Aires: Taurus, 2001, p. 122.

93
simulavam-se o talento, a honestidade, os vínculos sociais e políticos, a riqueza, o
estudo, a fortuna com as mulheres, a fama literária ou científica.66 A sombra do
adventício atravessava todas as conversações do patriciado portenho, se infiltrava em
bailes e revelava que seus espaços de sociabilidade eram mais permeáveis do que a
elite desejava. De fato, apesar de um dos seus filhos prediletos, Miguel Cané, sugerir
maliciosamente que reconhecia os adventícios nos salões porque entravam
“tropeçando com os móveis”, os contornos da alta sociedade eram certamente mais
borrados.67

Assim entendeu um espanhol que chegou a Buenos Aires em 1912, disposto a


desfrutar de sua afamada vida noturna. O “Conde Terol de Palma” havia tomado no
porto de Vigo o vapor Cap, ocupando um luxuoso apartamento de primeira classe
junto a duas mulheres, aparentemente sua esposa e sua sobrinha. O cronista da
revista Sherlock Holmes conta que, desde a viagem, já começou a fazer bons contatos
com cavalheiros portenhos, ante os quais demonstrou “atitudes de causeur e
esportista insuperável”. Chegado a Buenos Aires, instalou-se em um dos melhores
hotéis da Avenida de Mayo e, pouco depois, embarcou as mulheres que o
acompanhava com destino ao Peru, onde dizia ter ações em minas de metais
preciosos. Nesse momento, iniciou uma conquista da noite portenha que, graças à sua
vestimenta e a certo ar de nobreza europeia, abriu-lhe as portas dos grandes salões.
Aí se mostrou pouco preocupado com o que gastava, comprou custosos presentes a
cantoras de cabaré e perdeu fortunas nas mesas de jogos dos clubes.68

Talvez esse caso nunca tivesse repercutido se um empregado do hotel não o


descobrisse uma noite, depois das três da madrugada, tentando roubar o quarto de
outro hóspede. Na realidade, o suposto Conde era o que os franceses chamavam de
“rat d’hôtel”, ladrão especializado em desfalcar habitações do próprio lugar em que
se hospeda. O criminalista Edmond Locard o definia como um delinquente com

66
Idem, p. 122-123. Esta visão ampla da simulação também aparece em INGENIEROS, José. La
simulación en la lucha por la vida. Buenos Aires: Spinelli, 1903.
67
CANÉ, Miguel. “De cepa criolla” (1884). In: Prosa ligera. Buenos Aires: La cultura argentina,
1919, p. 124.
68
“Los bribones aristocráticos”, Sherlock Holmes, Buenos Aires, Año II, n. 68, 15 oct. 1912, p. 22-25.
Outro exemplo, neste caso chego da Alemanha, em: “Notas del extranjero. Aristócrata ladrón”,
Sherlock Holmes, Buenos Aires, Año II, n. 75, 3 dic. 1912, p. 59.

94
aparências de verdadeiro “homme du monde”, habituado a chegar a destinos com
malas cobertas dessas etiquetas de cores que indicavam a frequentação dos hotéis
mais luxuosos da Europa.69 A imprensa fez eco deste curioso ladrão aristocrata, uma
“encarnação do banditismo cavalheiresco” que o cronista imediatamente associava a
essa “malandragem de alto tom que desfilava ante os olhos atônitos dos espectadores
de cinematógrafos”.70 Na realidade, os delinquentes gentleman alcançariam uma
fama especial na indústria do cinema, em que se trasladou a devoção da literatura do
novecentos pelos assassinos seriais, estelionatários e ladrões viajantes que faziam uso
dos mais modernos transatlânticos, telégrafos e, a partir do século XX, também de
telefones, automóveis e aeronaves.

Fantômas foi, sem dúvidas, a série mais famosa e – como mostrou Dominique
Kalifa – em seu êxito estava cifrada uma mutação na topografia dos imaginários
criminais. Paris estava perdendo sua condição de capital mundial da ladroagem, não
apenas pela emergência dos Estados Unidos e seus gangsters, mas também pela
aparição de inumeráveis histórias que falavam de um universo mais policêntrico, um
espaço mundializado com gatunos que passeavam suas ações por vários
continentes.71 No entanto, apesar da complexidade da relação entre as representações
do crime e o seu devir concreto como prática social, abundam os indícios sobre a
existência destas novas formas delitivas, além de suas manifestações literárias e
cinematográficas. Embora frequentemente incorram em excessos e dramatizações
monumentais, jornalistas e literatos davam conta de algumas mutações efetivas nas
trajetórias criminais.

O rato de hotel era uma das figuras estereotípicas do ladrão viajante, junto ao
punguista internacional, o falsificador e alguns vigaristas. Além de certo nível de
mobilidade territorial, era identificado por duas qualidades, que, ao mesmo tempo, o
separava do universo dos pequenos punguistas urbanos. Em primeiro lugar, o aspecto
físico, em particular a vestimenta: “o ladrão dos nossos dias é um tipo como qualquer
um de nós”, opinava o escritor brasileiro Elysio de Carvalho, já que “vestindo-se

69
LOCARD, Edmond. Le Crime et les Criminels. Paris: La Renaissance du Livre, 1925, p. 100-104.
70
“Los bribones aristocráticos”, Op. Cit., p. 22.
71
KALIFA, Dominique. “La fin des classes dangereuses? Ouvriers et délinquants dans la série Des
Fantômas (1911-1913)”. In: Crime et culture au XIXe siècle. Paris: Perrin, 2005, p. 116-129.

95
com apurada elegância” conseguia “todas as aparências de um verdadeiro
gentleman”.72 Similar impressão causava ao delegado Alberto Dellepiane o
canfinflero, palavra da gíria portenha que aludia aos exploradores de mulheres. O
policial arremetia contra este personagem, cuja elegância não negava, dirigindo
igualmente seu discurso a uma cidade que apenas exigia construir um semblante
atraente, apresentar ante o olhar dos demais como “elementos triunfadores” e, no
possível, “sem ostentar o menor sinal de pobreza, único e exclusivo sinal que a
sociedade rejeita”.73

“El Canfinflero”
Fonte: Sherlock Holmes, Año II, n. 58, Buenos Aires, 6 ago. 1912, p. 29.

72
CARVALHO, Elysio de. “História natural dos malfeitores. Apontamentos”, Boletim Policial, Ano
VII, n. 6, Rio de Janeiro, jun. 1913, p. 143.
73
DELLEPIANE, Alberto. “El canfinflero”, Sherlock Holmes, Buenos Aires, Año II, n. 58, 6 ago.
1912, p. 29. Ver também: MARIUS, Hugo, “Plagas sociales. El canfinflero”, Revista de Policía,
Buenos Aires, Año XV, n. 357, 1 abr. 1912, p. 186.

96
A segunda qualidade distintiva dos criminosos viajantes era dada pelos seus
modos. Certo physique du rôle delicado era necessário para ingressar em hotéis sem
inspirar desconfiança, estabelecer conversações na primeira classe dos transatlânticos
ou se aproximar de um cavalheiro para propor algum negócio. No Brasil, inclusive,
vários deles ostentavam o título de “doutor” como forma de iniciar alguns dos
múltiplos pseudônimos que acompanhavam uma carreira delitiva. “Dr. Antônio” era
o nome mais conhecido de Arthur Antunes, um rato de hotel que passou à fama
porque publicaram suas memórias.74 Dr. Anísio e Dr. Cornélio eram outros dos
ladrões a quem Carvalho chamava de “moços bonitos” quando em 1913 anunciava –
com certo ar de paródia – que haviam acabado os tempos dos “ladrões de galinhas,
sujos e repelentes”.75 Ainda na década de 1930 se viam os retratos de José Augusto
Braga (Dr. Braguinha) e Paulo Alves Ferreira (Dr. Junqueira) vestidos com elegantes
trajes em uma galeria fotográfica de ladrões cariocas.76

O Dr. Antônio e o falso Conde Terol de Palma, do mesmo modo que o


esquartejador Raoul Tremblié, a quadrilha de ladrões viajantes italianos e outros
tantos personagens cujas histórias iremos reconstruindo neste trabalho não
integravam as fileiras dos desclassificados da modernidade, essas “classes perigosas”
que, junto aos anarquistas e comunistas, pareciam monopolizar a atenção das polícias
latino-americanas. Se seu status social era difícil de definir, não se pode duvidar da
atitude blasé frente às lutas políticas. De todos eles, pode-se repetir o que se disse da
camorra, Al Capone e os pistoleiros de Chicago: “em geral, para eles eram
indiferentes os movimentos revolucionários”.77 Ao contrário, sem ser burgueses nem
proletários, dedicavam-se a aproveitar das estupendas oportunidades delitivas que o
estilo de vida capitalista e urbano faziam possíveis, condição que provavelmente os
relegou a uma categoria residual para a sociologia e a história.

74
DR. ANTÔNIO. Memórias de um rato de hotel. A vida do “Dr. Antônio” narrada por ele mesmo.
Rio de Janeiro: s/d, 1912.
75
CARVALHO, Elysio de. “História natural dos malfeitores. Notas e crônicas”, Boletim Policial, Rio
de Janeiro, Ano VII, n. 4, abr. 1913, p. 58-65.
76
Ver os retratos, sem numeração de páginas, ao final do livro: PEDREIRA, Rolando. Lições de
Polícia Prática (seguida de uma galeria dos principais habitués das prisões do Distrito Federal). Rio
de Janeiro: Ed. da Gazeta Policial, 1935.
77
ENZENSBERGER, Hans M. “La balada de Chicago: modelo de una sociedad terrorista”. In:
Política y delito. Barcelona: Seix Barral, 1968, p. 105.

97
De qualquer maneira, devemos ser cautelosos em um ponto: que se haja
prestado escassíssima atenção a esta sorte de Belle Époque do crime, não implica que
os contemporâneos tivessem poucas notícias sobre o fenômeno. Junto aos poeirentos
papéis dos arquivos policiais, muitos são os documentos impressos que testemunham
a existência desta aristocracia do roubo tão frutífera no início do século XX e, além
disso, as vozes não são desconhecidas. Cronistas prestigiosos na imprensa carioca,
como Elysio de Carvalho e João do Rio, narraram tantas histórias de ladrões
viajantes, como os argentinos Eduardo Gutiérrez, Fray Mocho ou Roberto Arlt, e
nenhum deles o fez com uma frase tão requintada como a que o poeta Olavo Bilac
escreveu para a Gazeta de Notícias de 10 de novembro de 1907:

Nesta época de hiper-civilização, em que os gatunos e os meliantes


de toda espécie deixam de ser maltrapilhos e pés-no-chão, e
apresentam-se como cavalheiros de mais fina sociedade, seria
injusto que não lhes déssemos uma polícia digna deles, uma polícia
tão... (como é que se diz agora?)... tão smart, tão dernier bateau,
tão up-to-date como eles.78

78
BILAC, Olavo. “Crônica. 10 nov. 1907”, In: DIMAS, Antonio (Ed.). Bilac, o Jornalista. Crônicas.
Vol. 1. São Paulo: Edusp/Unicamp, 2006, p. 850.

98
PARTE II
TECNOLOGIAS E CIRCULAÇÕES
As polícias estrangeiras

Às nações poderosas, enquanto não haja um


congresso supremo do mundo, está
encomendada a polícia da terra.

Domingo F. Sarmiento, Viajes (1846).1

Em 1902, a editora “Sáenz de Jubera Hermanos” lançou no mercado espanhol


um novo livro de Marie-Françoise Goron: Las policías extranjeras.2 Goron era um
famoso chefe da Brigada de Segurança francesa, mais conhecida como Sûreté, que
depois de seu afastamento da polícia virou um prolífico escritor, celebrizado em
diferentes países por suas memórias policiais, das quais a editora espanhola traduziu
e publicou vários volumes.3 Impresso em Madri, o exemplar que consultamos
sobrevive na Biblioteca da Polícia Federal Argentina e era um dos tantos livros que
circulavam na América Latina desde o século XIX, divulgando formas de
organização das burocracias policiais europeias. De fato, a biblioteca policial
portenha teve seus inícios em 1875 com uma pequena coleção de obras francesas,
espanholas e italianas, que despertou o interesse dos agentes mais eruditos. Aos
textos europeus em suas versões originais e às edições espanholas, somaram-se
algumas traduções feitas de forma artesanal por policiais argentinos. Um catálogo

1
SARMIENTO, Domingo F. Viajes por Europa, África i América, 1845-1847. Madrid: Edición
Crítica ALLCA XX, 1996, p. 35.
2
GORON, Mr. Las policías extranjeras. Madrid: Sáenz de Jubera Hermanos, 1902.
3
Sobre as memórias policiais como prática de escrita, ver: KALIFA, Dominique. “Les mémoires de
policiers: l’émergence d’un genre?”. In: Crime et culture au XIXe siècle. Paris: Perrin, 2005, p. 66-
103; e os trabalhos reunidos em: MILLIOT, Vincent (dir.). Les mémoires policiers, 1750-1850.
Écritures et pratiques policières du Siècle des Lumières au Second Empire. Rennes: Presses
Universitaires de Rennes, 2006.
publicado em 1929 já indicava a existência de um rico acervo com milhares de
livros, folhetos e revistas especializadas.4

Ainda que por intuição se associe a polícia com o uso da força, como uma
atividade eminentemente muscular, o certo é que ela constitui, antes que nada, um
saber: conhecimento sobre o território, seus habitantes e seus costumes. A “cultura
policial” foi assinalada por sociólogos e historiadores como um dos nós centrais para
entender esta instituição, muito mais que sua organização formal e seus fundamentos
jurídicos.5 Essa cultura tem, ao menos, duas dimensões entrelaçadas. Em primeiro
lugar, ela existe cristalizada em aquilo que os policiais exibem orgulhosamente como
a “experiência”, um savoir-faire informal, aprendido nos anos de carreira e nas suas
escolas prediletas (a delegacia e a rua). Em segundo lugar, existe também refletida
em um saber técnico, frequentemente chamado “científico”, de corte erudito,
transmitido através de livros, manuais, revistas e, a partir do século XX, ensinado por
professores nas academias de polícia.6

Tanto na Argentina como no Brasil esta segunda forma cultural teve seguidores
e diferentes vias de difusão. A Polícia de Buenos Aires foi pioneira neste sentido,
visto que desde a década de 1870 se nota a reprodução de uma verdadeira linhagem
de policiais escritores que lançaram os primeiros periódicos policiais da região. La
Revista de Policía e sua continuação Anales de Policía (1871-1872) iniciaram uma
série que – com algumas breves interrupções – se estendeu até a primeira metade do
século XX. O maior de todos estes empreendimentos, Revista de Policía (1897-
1939), foi publicada quinzenalmente durante mais de quarenta anos e se consolidou

4
POLICIA DE LA CAPITAL. Oficina General de Estadística y Biblioteca: Catálogo General de la
Biblioteca. Buenos Aires: Talleres Gráficos de la Policía, 1929.
5
Ver REINER, Robert. The Politics of the Police. London: Wheatsheaf, 1992, p. 107-137.
MONJARDET, Dominique. Ce que fait la police: sociologie de la force publique. Paris: Éditions La
Découverte, 1996, p. 155-165.
6
Estas duas dimensões refletem os significados da noção de cultura aos que se referem Pierre
Bourdieu e Roger Chartier: a cultura em sentido amplo, “sem qualidades”, ou seja, o conjunto de
práticas que dão conta do modo em que um grupo representa o espaço social e seu próprio papel
dentro dele, e a cultura “distinguida” como aquela à qual atribuímos um sentido refinado, não apto
para profanos, cuja compreensão profunda está reservada aos especialistas. Ver CHARTIER, Roger;
BOURDIEU, Pierre. “A leitura: uma prática cultural”. In: CHARTIER, Roger (org.). Práticas da
leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 1996, p. 231-253. Também: CHARTIER, Roger. El orden de
los libros. Lectores, autores, bibliotecas en Europa entre los siglos XIV y XVII. Barcelona: Gedisa,
2005, p. 19-22.

101
como a tribuna de opiniões iniludíveis para qualquer debate policial. Nesta
publicação, se difundiam os textos dos principais escritores da polícia portenha
(autores como Antonio Ballvé, Leopoldo López, Manuel Mujica Farías, Luis Albert
o Ernesto de Mendizábal), que ainda se preocuparam por sistematizar esses
conhecimentos em manuais de estudo e livros de instrução para os vigilantes.7

No Rio de Janeiro, existiram algumas publicações análogas, embora tenham


aparecido mais tardiamente e publicadas por períodos mais breves.8 A primeira delas,
a Revista Policial (1903-1904), foi lançada por um pequeno grupo de policiais
militares, integrantes da então denominada Brigada Policial. A revista tinha algumas
semelhanças com a portenha, principalmente o fato de estar orientada à leitura dos
agentes subalternos. Uma boa parte dos artigos visava melhorar a educação dos
soldados, insistindo sobre os hábitos de higiene, o correto uso do uniforme, os bons
modos no trato com o público e o respeito às hierarquias internas da instituição.9 Não
eram poucas as críticas que a imprensa jornalística dirigia contra os vigilantes de rua
por sua falta de cortesia, suas indisciplinas e tendências ao jogo e ao álcool. Em
suma, por diferenciar-se muito pouco dos costumes daqueles setores populares que
supostamente deviam controlar.

Era difícil para a Brigada Policial lutar contra essas inclinações, porque os
soldados – como escrevia um redator da revista – provinham “dessa própria camada
social, densa e inculta, que constitui o proletariado da nossa terra”.10 Esse problema

7
Por exemplo: MENDIZÁBAL, Ernesto de. Memento policial: o Breve manual del empleado de la
policía. Buenos Aires: J. Peuser, 1897. BALLVÉ, Antonio. Manual de instrucción policial para
sargentos, cabos y vigilantes. Buenos Aires: Imprenta y Encuadernación de la Policía de la Capital,
1898. BALLVÉ, Antonio. Texto de Instrucción Policial (primera edición). Buenos Aires: La Revista
de Policía, 1899. LÓPEZ, Leopoldo. Texto de Instrucción Policial. Buenos Aires, 1910. Sobre os
policiais escritores de Buenos Aires ver: GALEANO, Diego. Escritores, detectives y archivistas. La
cultura policial en Buenos Aires, 1821-1910. Buenos Aires: Biblioteca Nacional/Teseo, 2009.
8
México teve revistas policiais anteriores às de Brasil, mas também foram publicadas por breves
períodos. Ver: SPECKMAN GUERRA, Elisa. Crimen y castigo. Legislación penal, interpretaciones
de la criminalidad y administración de justicia (Ciudad de México, 1872-1910). México: El Colegio
de México/UNAM, 2002, p. 115-136.
9
Ver sobre esta revista: BRETAS, Marcos L. “Revista Policial: formas de divulgação das polícias no
Rio de Janeiro de 1903”, História Social, n. 16, Unicamp, primeiro semestre de 2009, p. 87-104.
10
C.A.C. “O soldado de polícia”, Revista Policial, Ano I, n. 3, Rio de Janeiro, 25 out. 1903, p. 21. O
principal redator da revista, Cruz Sobrinho, havia publicado alguns anos antes um guia de
procedimentos voltada aos agentes da Brigada: CRUZ SOBRINHO. Guia processual para a Brigada
Policial. Rio de Janeiro: Pap. L. Macedo, 1896.

102
da base social dos vigilantes de rua esteve também presente na Polícia de Buenos
Aires, durante toda a segunda metade do século XIX.11 No entanto, no início de
novecentos, o panorama começava a mudar. Aparecia as primeiras escolas de
formação de agentes e a Revista de Policía se posicionava como um aliado vital na
tarefa de educação dos vigilantes, que podiam conseguir uma assinatura especial por
trinta centavos mensais.

A existência de academias policiais em Buenos Aires era elogiada pelos


policiais civis brasileiros. Como exemplo disto, temos o fato de que uma das revistas
de maior duração, o Boletim Policial (1907-1918), anunciava, em um de seus artigos,
que os argentinos haviam criado uma escola de agentes de investigações. Nesta
instituição se ensinavam noções básicas de datiloscopia e policia científica, coisa que
o redator desta nota considerava “um certo luxo de administração e organização do
serviço policial”.12 Boletim Policial era o órgão de difusão do Gabinete de
Identificação e Estatística da Polícia do Distrito Federal, uma repartição por onde
passaram os nomes mais seletos da intelectualidade policial brasileira.

O jornalista e poeta Félix Pacheco a dirigiu desde sua criação em 1903, e logo
ocuparam a chefia o advogado Edgard Costa, autor de várias obras sobre
jurisprudência criminal, e o polifacético escritor Elysio de Carvalho.13 Este último
marcou o ritmo da revista, estabelecendo um diálogo estreito com as discussões
internacionais sobre as técnicas de identificação e polícia científica, mas
simultaneamente dando certo espaço a um saber policial mais profano e até a um
certo relato literário sobre a criminalidade, desde uma perspectiva que denominou
“história natural dos malfeitores”.14 Ao mesmo tempo, Carvalho dirigiu a “Biblioteca

11
Ver GAYOL, Sandra. “Entre lo deseable y lo posible: perfil de la policía de Buenos Aires en la
segunda mitad del siglo XIX”, Estudios Sociales, Año VI, n. 10, 1996, p. 123-138. GALEANO,
Diego. La policía en la ciudad de Buenos Aires, 1867-1880, Tesis de Maestría en Investigación
Histórica, Universidad de San Andrés, Buenos Aires, 2009, p. 156-198.
12
“Escolas de Agentes”, Boletim Policial, Ano I, n. 3, Rio de Janeiro, jul. 1907, p. 17-18.
13
Sobre a ligação entre a elite intelectual e a polícia carioca, ver: BRETAS, Marcos L. Ordem na
cidade: o exercício cotidiano da autoridade policial no Rio de Janeiro: 1907-1930. Rio de Janeiro:
Rocco, 1997, p. 67-68.
14
CARVALHO, Elysio de. “História natural dos malfeitores. Notas e crônicas”, Boletim Policial, Ano
VII, n. 4, Rio de Janeiro, abr. 1913 p. 58-65. CARVALHO, Elysio de. “História natural dos
malfeitores. Apontamentos”, Boletim Policial, Ano VII, n. 6, Rio de Janeiro, jun. 1913, p. 143-155.

103
do Boletim Policial”, uma coleção de mais de trinta folhetos com textos de policiais
brasileiros e traduções de criminalistas estrangeiros.

Pouco depois do desaparecimento do Boletim, os policiais lançaram um outro


periódico, a Revista Policial (1919-1920), que abordou temas mais amplos e teve
também um arco mais extenso de colaboradores locais. Encabeçava a lista de
redatores o advogado Aurelino Leal, que como chefe de polícia havia organizado,
nas instalações da Biblioteca Nacional, uma Conferencia Jurídico-Policial (1917) na
que dissertaram os mais seletos emissários do endurecimento punitivo e das
prerrogativas policiais.15 Muitos dos nomes que apareciam como conferencistas
completavam o elenco de redatores da revista: eram mais de vinte policiais, seis
deles delegados, a maioria ostentando o título de Doutor devido à formação
universitária em Direito − requisito obrigatório para as hierarquias policiais na
capital brasileira.

As revistas foram para estas elites um espaço de reafirmação do caráter


profissional e do saber específico que envolvia a polícia como métier. Entre suas
páginas, difundiam imagens que tentavam compensar o panorama de descontrole
criminal retratado pelos cronistas policiais da imprensa.Como parte de seu conteúdo,
encontramos: prontuários com delinquentes que pareciam estar submetidos desde
muito tempo a uma estreitíssima vigilância, alguns quadros com retratos de “ladrões
conhecidos” e “exploradores do lenocínio”. Havia também várias fotografias das
seções mais modernas da Policia Civil: desde o laboratório químico até a sala de
autopsias, desde a biblioteca até o museu criminal, desde a seção de identificações
até o arquivo de informações judiciais. Tudo resplandecia entre móveis elegantes e
artefatos tecnológicos de recente aquisição; sinais do ingresso da ciência na
instituição.

Estas revistas sul-americanas transitaram em um percurso similar ao fenômeno


das memórias policiais na indústria cultural francesa e inglesa. Ambas cresceram
junto ao boom do delito na imprensa sensacionalista e à popularização das ficções
detetivescas, intentando por sua vez diferenciar-se delas. Os policiais escritores

15
Annaes da Conferencia Judiciaria-Policial, convocada por Aurelino de Araujo Leal, 2 vols. Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, 1918.

104
tentavam oferecer ao grande público sua “verdade” sobre o crime e também sobre o
próprio mundo daqueles que perseguiam criminais. Até fins do século XIX
começaram a revelar que tal perseguição se regia por técnicas cada vez mais
rigorosas, cientificamente validadas e praticadas por agentes policiais
profissionalizados. A investigação criminal, ou seja, os saberes orientados a desvelar
a trama de um delito, estavam se convertendo em um objeto de fascinação para os
leitores das novelas de enigma, e as memórias policiais conseguiram oferecer um
relato que as editoras souberam igualmente capitalizar. No período de maior
popularidade, quando Goron publicou suas memórias, algumas saíram em três ou
quatros edições, várias foram traduzidas a distintos idiomas e outras apareceram
como folhetins em jornais de tiragem massiva.16

Estas memórias europeias eram lidas na Argentina e no Brasil, como podemos


notar no catálogo da biblioteca policial portenha: vários títulos de Goron apareciam
em suas traduções espanholas, também um livro de Gustave Macé (Le service de la
Sûreté, 1884), junto a numerosíssimas obras francesas sobre crime, polícia e
justiça.17 Graças a estes tipos de catálogos, à bibliografia citada nos textos de autores
vernáculos, e inclusive aos títulos que ainda se conseguem em algumas livrarias de
antiquários, não é difícil traçar um mapa de leituras dos policiais sul-americanos. Os
volumes de “causas célebres” em francês e espanhol, por exemplo, eram um material
de consulta bastante difundido, do mesmo modo que os tratados e manuais de
polícia. Os criminologistas italianos (Lombroso, Garofalo, Ferri, Niceforo, Sighele) e
franceses (Lacassagne, Tarde) foram tão lidos nas últimas décadas do século XIX
como na primeira metade do XX os pioneiros da polícia científica, especialmente
Alphonse Bertillon, Edmond Locard e Archibald R. Reiss.

Além disso, na medida em que os policiais argentinos e brasileiros começaram


a se aproximar, primeiro nos Congressos Científicos Latino-americanos e em seguida
nas conferências policiais de 1905 e 1920, intensificaram-se os intercâmbios

16
LAWRENCE, Paul. “Scoundrels and scallywags, and some honest men… Memoirs and the self-
image of French and English policemen, c. 1870-1939”. In: EMSLEY, Clive; GODFREY, Barry;
DUNSTALL, Graeme (eds.). Comparative Histories of Crime. London: Willan Publishing, 2003, p.
128.
17
POLICÍA DE LA CAPITAL. Oficina General de Estadística y Biblioteca: Catálogo General de la
Biblioteca. Op. Cit., p. 11-26.

105
regionais de materiais impressos. No catálogo argentino figuravam várias obras de
Elysio de Carvalho, outras de Eurico Cruz e Aurelino Leal, assim como também
compêndios de estatísticas criminais e alguns números do Boletim Policial.18 Por sua
vez, no relatório que o chefe da polícia carioca apresentou ao Ministro de Justiça a
começos do século, se incluíram alguns informes sobre a secção de “Arquivo” e
“Biblioteca” que permitem reconstruir a circulação de obras estrangeiras. Quando
assumiu a chefia de polícia, como mencionamos na introdução, Cardoso de Castro
tentou melhorar essa seção incorporando a figura do arquivista, do tradutor e do
intérprete, a quem encarregou a tarefa de estabelecer um serviço regular de permuta
bibliográfica com outras polícias. A ideia era pedir “qualquer publicação impressa
sobre o serviço policial”, enviando correspondência ao exterior e aos demais estados
brasileiros, para formar a “primeira Biblioteca Policial do Brasil”.19

De fato, essa biblioteca já recebia algumas séries de publicações periódicas,


entre as quais havia compêndios anuais de causas célebres: o Journal des
Commissaires de Police; os também franceses Archives de l’Anthropologie
Criminelle; a Rivista di Diritto Pena e Sociologia Criminale , da Itália; e os Archivos
de Psiquiatría y Criminología, da Argentina. Segundo o chefe, as revistas
“começavam a ser consultadas pelos funcionários da polícia com grande beneficio
para sua preparação profissional” e essa aprendizagem por meio da leitura lhe
parecia indispensável, mais ainda em um país como Brasil, onde o ensino técnico não
existia para os policiais e era “de certo modo suprida pelas revistas
completíssimas”.20

18
Consultei a maior parte destes livros em Buenos Aires, em duas bibliotecas pertencentes à Polícia
Federal Argentina (o Centro de Estudios Históricos Policiales “Comisario Inspector Francisco L.
Romay” e a Biblioteca del Instituto Universitario de la Policía Federal Argentina). Nestas
instituições localizei vários dos exemplares mencionados no catálogo de 1929, geralmente com
dedicatórias manuscritas de seus autores brasileiros, por exemplo: CARVALHO, Elysio de. A polícia
carioca. A criminalidade contemporânea. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1910. LEAL, Aurelino.
Polícia e poder de polícia. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1918. CRUZ, Eurico. Relatórios
policiais e sentenças criminais. Rio de Janeiro: Typographia dos Annaes, 1914.
19
“Relatório apresentado ao Exmo. Snr. Dr. J. J. Seabra, Ministro da Justiça e Negócios Interiores,
pelo Chefe de Polícia do Distrito Federal A. A, Cardoso de Castro”. In: Anexos ao Relatório
apresentado ao Presidente da República dos Estados Unidos do Brazil pelo Dr. J. J. Seabra, Ministro
da Justiça e Negócios Interiores, em março de 1904. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1904, p. 137-
140.
20
Idem, p. 138-139. No relatório do ano seguinte já apareciam os primeiros livros recebidos de
diferentes países europeus (Francia, Inglaterra, Itália, Espanha, Bélgica, Alemanha, Holanda, Suécia e

106
Provavelmente estas palavras de Cardoso de Castro foram otimistas em
demasia, se ponderarmos o alto nível de analfabetismo dos agentes policiais
brasileiros − problema de longa data que se arrastava desde os tempos do Império.21
No entanto, a aposta às revistas policiais ia muito além dessa esperança de convertê-
las em um instrumento de instrução para o pessoal subalterno. Uma análise
diacrônica do corpus total, desde as publicações argentinas da década de 1870 em
diante, revela uma tendência a diversificar seus conteúdos, incorporando ficções
detetivescas escritas por policiais e um grande caudal de artigos dedicados ao
entretenimento que, embora nunca chegaram a substituir completamente às notas de
análise técnica, mudaram totalmente o foco e a relação com uma comunidade ampla
de leitores que transcendia a esfera policial. As revistas dos anos 1920 (como
Magazine Policial e Gaceta Policial em Buenos Aires, ou Vida Policial no Rio de
Janeiro) já incluíam poesias, histórias em quadrinhos e uma forte aposta à
iconografia, começando pelas capas ilustradas em cores. Estes magazines circulavam
no mercado geral de publicações periódicas da época, se comercializavam por
assinatura e por venda livre nas ruas, e eram lidas com igual paixão tanto pelos
vigilantes como pelos amadores devotos da literatura policial.22

Alguns dos policiais locais, inclusive, se aventuraram a escrever suas


memórias. Entre os argentinos, o delegado Laurentino Mejías foi um precursor,
porque além de colaborar com a Revista de Polícia e com Magazine Policial, se
lançou, após sua jubilação, a publicar uma série de livros que ele mesmo reconhecia
como uma escrita amarrada à tradição dos memorialistas europeus.23 De qualquer

Noruega) como resposta ao pedido da polícia brasileira: “Anexo G. Relatório apresentado ao Exmo.
Snr. Dr. J. J. Seabra, Ministro da Justiça e Negócios Interiores, pelo Dr. A. A, Cardoso de Castro,
Chefe de Polícia do Distrito Federal”. In: Relatório apresentado ao Presidente da República dos
Estados Unidos do Brazil pelo Dr. J. J. Seabra, Ministro da Justiça e Negócios Interiores, em março
de 1905. Vol. I. Diretoria da Justiça. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1905, p. 101-104.
21
BRETAS, Marcos L. “A Polícia carioca no Império”, Revista Estudos Históricos, vol. 12, n. 22, Rio
de Janeiro, 1998, p. 219-234. ROSEMBERG, André. De Chumbo e Festim: uma história da polícia
paulista no final do Império. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2010, p. 130.
22
Sobre Magazine Policial e Gaceta Policial ver o capítulo 4 de CAIMARI, Lila. Mientras la ciudad
duerme. Pistoleros, policías y periodistas en Buenos Aires, 1920-1945. Buenos Aires: Siglo XXI,
2012; e sobre Vida Policial: CUNHA, Olívia Maria Gomes da. Intenção e Gesto: pessoa, cor e a
produção cotidiana da (in)diferença no Rio de Janeiro, 1927-1942. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional,
2002, p. 197-208.
23
GALEANO, Diego. “El decano de la policía. Laurentino Mejías y la autoridad del comisario en la
ciudad de Buenos Aires, 1870-1930”, Signos, segunda época, vol. 5, Buenos Aires, 2011, p. 137-161.

107
forma, os primeiros volumes das memórias, tituladas La policía por dentro, apenas
encontraram uma saída ao público por uma editora espanhola, e somente em 1927,
data próxima de sua morte, conseguiu que uma companhia argentina de livros
populares imprimisse seus novos textos. Até meados do século XX não existiu uma
indústria de livros que, como na Inglaterra, França ou Espanha, cobiçara a estes
policiais escritores, pela própria fraqueza do mercado editorial em geral.24 Por isso,
da mesma forma que os literatos, os policiais utilizaram a imprensa jornalística como
via de difusão de seus escritos. As revistas policiais constituíram, sem dúvida, a
principal saída para a narrativa local.

Ao longo de todo este período, os vigilantes tentaram mostrar ao público a


existência de um saber policial cada vez mais sofisticado. O enigma de um crime,
todo esse universo de sinais a interpretar edificado pela literatura detetivesca do
século XIX, foi o espaço que tentaram conquistar para reafirmar a legitimidade do
oficio policial. Nesse sentido, a relação com as novelas de detetives teve algo de
ambivalência. Às vezes, os policiais recomendavam sua leitura, inclusive como
material didático para seus colegas: por exemplo, em 1908, o Boletim Policial
começou a publicar fragmentos de “Aventuras de Sherlock Holmes”, sugerindo que
devia ser leitura obrigatória para os agentes de investigações.25 Outros, sem negar
talento a Conan Doyle, pretendiam corrigir suas imprecisões, baseados na
experiência outorgada pelo contato direto com o crime assim como se apresentava na
esfera do real. Um delegado da polícia portenha, Alberto Dellepiane, publicou em
1912 uma série de relatos de crimes misteriosos, supostamente baseados em fatos
verídicos, onde negava a eficácia que os romancistas davam aos raciocínios
dedutivos de uma mente brilhante. Os delitos na vida real, segundo contava o
delegado, comumente se resolviam pelos erros de seus autores e pelo avanço do
conhecimento cientifico aplicado às pesquisas. A série de Sherlock Holmes era

24
A fragilidade do mercado editorial na capital brasileira foi analisada por: SEVCENKO, Nicolau.
Literatura como Missão. Tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo:
Brasiliense, 1995, p. 101-102. Na Argentina, esse mercado começou a decolar a começos do século
XX: ROMERO, Luis Alberto. “Una empresa cultural: los libros baratos”. In: GUTIÉRREZ; Leandro;
ROMERO, Luis Alberto. Sectores populares, cultura y política. Buenos Aires: Sudamericana, 1995,
p. 47-71. Ver também: DE DIEGO, José Luis (ed.). Editores y políticas editoriales en Argentina,
1800-2000. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2006.
25
“A obra de Conan Doyle”, Boletim Policial, Ano II, n. 4, Rio de Janeiro, jun. 1908, p. 174.

108
engenhosa, sem dúvida, mas se sustentava em uma “falsa arquitetura”, em uma “base
inverossímil”, convertendo seus episódios em uma “peripécia que tem muito mais de
fantástico que de real”.26

A singularidade deste livro era que, após formular todos estes questionamentos
na introdução dirigida aos leitores, logo, no interior de cada um dos relatos,
Dellepiane utilizava vários recursos narrativos da novela de enigmas, até o ponto de
escolher como personagem principal um detetive de nome anglo-saxão – chamado de
William Kurts – e reservar sempre a resolução do crime para o final de cada história.
Esse jogo vacilante de reverência da novela policial, mas ao mesmo tempo um
protesto para que sejam reconhecidos os verdadeiros especialistas da investigação
criminal, estava presente em uma compilação de textos de Elysio de Carvalho,
originalmente publicados na imprensa e editados em volume único com o título
Sherlock Holmes no Brasil. Para o escritor brasileiro, a obra de Conan Doyle não era
produto da pura imaginação, mas uma “pálida cópia da realidade palpitante”.

O tipo de “detetive” criado pela imaginação de Conan Doyle não é


uma ficção. (...) Na realidade, na prática policial, não faltam
criminalistas práticos, peritos, investigadores que excedam em
saber, em inteligência e em argúcia, a Sherlock Holmes. Haja vista
Reiss, Bertillon, Minovici, Locard, Ottolenghi, Stockis, Balthazard
e outros muitos técnicos policiais e médicos-legistas, que,
recorrendo a noções científicas e métodos positivos, fizeram da
investigação criminal uma ciência experimental, fecunda e ativa.27

A aposta era bastante clara: o público leitor, tão afeito às ficções policiais,
devia reconhecer o trabalho dos policiais reais, e estes últimos deviam se preocupar
por estudar os notáveis avanços destes criminalistas dos laboratórios franceses,
belgas, suíços, italianos e romanos. Não é casual que a biblioteca do Boletim
Policial, impulsionada por Carvalho, tenha traduzido em 1914 um ensaio de Alfredo
Niceforo sobre a novela policial e a investigação judicial; e que o livro de Edmond
Locard, Policiers de roman et policiers de laboratoire, fosse o primeiro título

26
DELLEPIANE, Alberto. Memorias de un Detective. Buenos Aires: Imprenta Roma, 1912, p. 5-6.
27
CARVALHO, Elysio de. “Sherlock Homes não é uma ficção”. In: Sherlock Holmes no Brasil. Rio
de Janeiro: Casa A. Moura, 1921, p. 37.

109
publicado pela Biblioteca Policial portenha (uma editora da própria polícia, fundada
na década de 1930 e que existe ainda hoje).28 Estes livros não desconheciam o mérito
e o encanto de Dupin, Lecoq, Sherlock Holmes, nem nenhum outro detetive de papel.
Mas, segundo escrevia Locard, “à sombra do policial de romance que inquietava
todos os cérebros”, o criminalista, na obscura sala do laboratório, “realizava as
fantasias dos escritores”.29 A premissa sobre a que se sustentava toda a arquitetura da
polícia cientifica rezava que nenhum delinquente, por mais esperto que fosse,
cometia um crime sem deixar algum vestígio. A tarefa do investigador não apenas
consistia em fabricar raciocínios dedutivos, mas em observar uma infinidade de
indícios e interpretá-los empregando certas técnicas.

O gesto de cobrir o trabalho policial com as roupagens de um métier


cientificamente validado converteu-se em uma estratégia vital para apaziguar as
inquietudes da imprensa, discutir as prerrogativas dos juízes e até dar certa
popularidade às pesquisas. E nada melhor que trazer esses saberes do outro lado do
atlântico, em uma época em que as elites sul-americanas miravam com especial
admiração às capitais europeias e bem particularmente a Paris.

Se na segunda metade do século XIX se importavam livros, se mais tarde as


revistas policiais começaram a resenhá-los e traduzi-los, se as chefias enviavam
cartas à Europa pedindo detalhes sobre a organização de suas instituições, agora, nas
vésperas do século XX, os intercâmbios faziam-se mais sistemáticos, até o ponto de
mandar emissários em viagens de estudo e receber as visitas de ilustres criminalistas
na América do Sul. Estas questões serão objeto de atenção das páginas seguintes.

28
LOCARD, Edmond. Policías de novela y policías de laboratorio. Buenos Aires: Biblioteca Policial,
1935. NICEFORO, Alfredo. O romance policial e a investigação judiciária científica. Rio de Janeiro:
Imprensa Nacional, 1914.
29
LOCARD, Edmond. Policías de novela y policías de laboratorio. Op. Cit., p. 11.

110
As visitas de estudo

As revistas dedicaram uma grande quantidade de artigos a relatos sobre as


polícias estrangeiras. A maioria falava de Paris e de Londres, cujas forças
metropolitanas eram consideradas “modelos” nos países sul-americanos.30 A
imprensa argentina e brasileira arremetia muitas vezes contra suas polícias com um
olho na Europa. Em fevereiro de 1875, um jornal criticava o vigilante portenho por
seu comportamento militar, seus “hábitos violentos de soldado” que o levaram a
perder “a cortesia, a urbanidade, a paciência, a doçura, enfim, as altas qualidades que
fazem do guarda civil espanhol um herói e do policeman inglês um modelo”.31 No
mesmo mês daquele ano, um cronista carioca, sob o pseudônimo Argos, se queixava
da polícia organizada pelo Império no Brasil, “onde não há instituição perniciosa
europeia que não lhe seja imposta sem inquirirem do seu clima e das suas
circunstâncias, no entanto bem iria se sobre a polícia sorvesse a longos tragos os
princípios da Inglaterra: é ela o governo, o Estado, a lei!”.32

Outro jornal de Buenos Aires contava que no início da década de 1870, o


governo nacional “tinha resolvido enviar à Europa um delegado especial encarregado
de estudar a instituição nos seus mais acabados modelos da França e da Inglaterra.”
Mas duvidava muito do costume de copiar as polícias estrangeiras e, em geral, da
“mania de imitar a tudo”: “o que faríamos com modelos importados da Europa?”,

30
O mesmo acontecía nos Estados Unidos e em outros países europeus. Ver: MONKKONEN, Eric H.
Police in Urban America, 1860-1920. Cambridge: Cambridge University Press, 2004, p. 41-49. Nas
IV Jornadas de Estudo da rede CIRSAP (Circulation et construction des savoirs policiers européens,
1650-1850), realizadas na Université de Lille 3 entre os dias 4 e 6 de dezembro de 2008, se
apresentaram alguns trabalhos que demonstram a amplitude da circulação internacional ds “modelos
policiais”b, por ejemplo: DENYS, Catherine. “Paris ne jouit peut-être pas à cet égard d’une police ni
plus méditée ni mieux combine: la police parisienne vue de Bruxelles au XVIIIe siècle”. JOHANSEN,
Anja. “Lost in Translation: the English Bobby seen through a German monocle”. (Disponíveis em
linha: irhis.recherche.univ-lille3.fr/ANR-CIRSAP). Ver também: LEVY, Noémi. “Modalités et enjeux
de la circulation des savoirs policiers : un modèle français pour la police ottomane?”, Revue d'Histoire
des Sciences Humaines, Paris, n. 19, 2008/2, p. 11-27. LUCREZIO MONTICELLI, Chiara. “La
policía moderna en Roma: entre la matriz francesa y el modelo eclesiástico”. In: GALEANO, Diego;
KAMINSKY, Gregorio (coord.). Mirada (de) uniforme: Historia y crítica de la razón policial. Buenos
Aires: Teseo, 2011, p. 69-85.
31
“Noticias Policiales”, La Prensa, Buenos Aires, 4 feb. 1875, p. 1.
32
“A nossa polícia”, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 24 fev. 1875, p. 2.

111
perguntava o redator. “Temos os elementos morais e materiais para lhes imitar?
Nossas práticas administrativas não fariam de todo ponto impossível sua
execução?”.33

Estas perguntas estavam instaladas na tribuna política e policial desde meados


do século XIX. Os modelos de polícia constituíam, antes que nada, uma polêmica. O
fundador da primeira revista policial portenha tomava posição com veemência na
discussão. Atacava os intelectuais que viajavam pela Europa e Estados Unidos, para
depois regressar explicando o que era uma “boa polícia”. Expunham as bondades do
policeman e do sergent de ville, descreviam seus detalhes, se tinham “tantos pés de
altura e tantos de circunferência”, se usavam “paus, cassetetes ou pistolas”: tudo isso
lhe parecia uma impostura e um total afastamento do “terreno da prática”, o único em
que podiam dirimir-se as reformas policiais destas latitudes.34

Três décadas mais tarde, o Major João Bernardino da Cruz Sobrinho, redator
chefe da primeira revista policial carioca, mostrava a vigência no tempo deste debate,
manifestando algumas dúvidas sobre as comparações que se faziam com Paris.35
Outro redator admitia que o soldado da Brigada Policial não era “o ideal dos policiais
e nem sabemos de outro que tal possa considerar-se, a não ser o policeman londrino,
aliás, subordinado a uma organização muito diferente da que aqui temos”; mas sentia
na obrigação de recordar que no Rio de Janeiro, ao contrário de Londres, os agentes
eram recrutados nos setores mais baixos da sociedade.36 Apesar destas cautelas, em
seus dois anos de existência a revista publicou numerosos artigos sobre a polícia
metropolitana de Londres, a Gendarmerie francesa, a Guardia Civil de Madri, a
polícia de San Petersburgo e até a do longínquo Japão, que “embora afastado, como
se acha, do convívio social, mantém uma polícia moralizadora, como não tem, por
certo, nenhum país de Europa”.37

33
“La Policía de Buenos Aires”, La Prensa, Buenos Aires, 26 jul. 1874, p. 2.
34
FLORES BELFORT, Daniel. “Organización de la policía”, Anales de Policía, Buenos Aires,
entrega II, 15 set. 1872, p. 37.
35
CRUZ SOBRINHO. “A Polícia de Paris e a nossa”, Revista Policial, Ano I, n. 2, Rio de Janeiro, 25
set. 1903, p. 11.
36
C.A.C. “O soldado de polícia”, Op. Cit., p. 20-21.
37
CRUZ SOBRINHO. “No Japão”, Revista Policial, Ano II, n. 9, Rio de Janeiro, 25 abr. 1904, p. 71-
72. Véase también del mismo autor: Polícia de Espanha, Revista Policial, Ano I, n. 5, Rio de Janeiro,

112
Como chegavam aos redatores destas revistas as notícias sobre as polícias
estrangeiras? Os canais de comunicação eram múltiplos: traduções de textos
publicados na imprensa europeia e de memórias de policiais escritores, muitas vezes
divulgadas nos folhetins; informações intercambiadas via postal entre as autoridades
policiais e que chegavam às mãos dos editores das revistas; tecnologias, artefatos e
invenções da modernidade policial que contavam com um mercado de difusão a
nível internacional; viagens transatlânticas de intelectuais e funcionários públicos,
visitas de estudo e treinamento de policiais que viajavam a outros países como
comissionados oficiais. Vejamos alguns exemplos.

Em 1888 aparecia na revista portenha a primeira entrega de uma série sobre a


polícia parisiense. No começo, se anunciava a procedência do texto: a tradução de
uma obra escrita por um redator do jornal Temps, “com um espírito de crítica
imparcial que nos faz notar os grandes defeitos que tem a atual organização da
polícia de Paris”.38 Como se percebe aqui, as instituições conhecidas no mundo como
“modelos de polícia”, em especial a francesa, eram difundidas mais pela força
inercial de sua fama que por ser universalmente inquestionáveis. O lugar ocupado
pelos commissaires de police, a relação da chefatura com os demais serviços, as
atividades da Sûreté e a polícia política, na França, eram submetidos a uma bateria de
críticas que apareciam refletidas na informação que circulava na América do Sul.39

As trocas diretas entre as polícias eram também moeda corrente. Nos arquivos
da Préfecture de Police de Paris, existe uma série de correspondências enviadas pelas
autoridades da Argentina, Brasil e Uruguai, solicitando informação sobre a

25 dez. 1903, p. 36-38. “A Guarda Civil de Madrid”, Revista Policial, Ano II, n. 6, Rio de Janeiro, 25
jan. 1904, p. 43-46. “A Gendarmerie”, Revista Policial, Ano 2, n. 14, Rio de Janeiro, 25 ago. 1904, p.
133-135.
38
“La Policía de París. Su organización, su funcionamiento”, Revista de la Policía de la Capital, Año
I, n.7, Buenos Aires, 1 set. 1888, p. 83. Desde o número 7 até o número 30, foi publicada a obra, cujo
original – segundo a aclaração dos editores – constava de 191 páginas. Outra tradução, desta vez sobre
Scotland Yard, mas redigida por um colaborador da Revue belge de la police administrative et
judiciaire, apareceu em: “La policía inglesa”, Revista de Policía, Año V, n. 106, Buenos Aires, 16 oct.
1901, p. 153-155; e “La policía inglesa (conclusión)”, Revista de Policía, Año V, n. 107, Buenos
Aires, 1 nov. 1901, p. 170-172.
39
Sobre as críticas à polícia francesa na segunda metade do século XIX, ver: DELUERMOZ, Quentin.
“Images de policières en tenue, images de gendarmes. Vers un modèle commun de représentants de
l’ordre dans la France de la seconde moitié du XIXe siècle”, Sociétés & Représentations, n. 16,
2003/2, p. 197-211.

113
organização burocrática e o funcionamento da polícia francesa.40 Mas não era o
único destino que interessava. Em 1887, o chefe da polícia da capital argentina,
Aureliano Cuenca, escreveu uma carta ao médico e escritor Eduardo Wilde, então
Ministro de Relações Exteriores. Pedia que enviasse uma circular aos cônsules em
diferentes capitais europeias para coletar informações sobre as organizações policiais
dos países em que eles residiam. O Ministro recebeu um extenso relatório do
embaixador em Londres, que em 1901 a Revista de Policía reproduziu integralmente
em diferentes números.41 Outro chefe de polícia, Francisco Beazley, solicitou em
1900 informações à chefia de Hamburgo e recebeu como resposta um pacote com
regulamentos, decretos, estatísticas, retratos de delinquentes, fichas antropométricas
e detalhes sobre o Museu Criminal dessa cidade. Em troca, os alemães pediram que
lhes enviassem fotografias dos uniformes policiais usados em Buenos Aires.42

A questão dos uniformes era um tópico constante nos debates sobre os modelos
policiais. Neste tema jogava-se boa parte da definição do caráter das forças que
patrulhavam as cidades. De forma geral, o divisor de águas está entre os partidários
de uma polícia “cidadã” (opção que tinha a figura do Bobby inglês como paradigma
indiscutível) e os defensores da “militarização”, que elegiam o gendarme francês
como exemplo dos valores, práticas e esprit-de-corps necessários para garantir a
segurança nestas repúblicas jovens onde – se dizia – havia pouco apego às leis.

Para estes últimos, o uniforme era um símbolo de distinção do vigilante na via


pública, um modo de hierarquizá-lo para induzir o respeito à autoridade. Um policial
argentino comentava a impressão que lhe provocava ver uma galeria de uniformes
policiais franceses, frente aos que “abriam-se os olhos da pura inveja”. Opinava que
essas roupas eram simples e elegantes, obtendo o efeito de impor respeito e simpatia.

40
ROSEMBERG, André. De chumbo e festim. Op. Cit., p. 43.
41
DOMÍNGUEZ, Luis L. “La policía de Londres. Un informe interesante”, Revista de Policía, Año
V, n. 99, Buenos Aires, 1 jul.1901, p. 38-39; DOMÍNGUEZ, Luis L. “La policía de Londres. Un
informe interesante (continuación)”, Revista de Policía, Año V, n. 100, Buenos Aires, 16 jul. 1901, p.
59-61. DOMÍNGUEZ, Luis L. “La policía de Londres. Un informe interesante (continuación)”,
Revista de Policía, Año V, n. 101, Buenos Aires, 1 ago. 1901, p. 73-75.
42
“Sueltos. La policía de Hamburgo”, Revista de Policía, Año IV, n 84, Buenos Aires, 16 nov. 1900,
p. 205. “Carta de Alemania. La policía de Hamburgo. El Doctor Roscher. El museo criminal”, Revista
de Policía, Año IV, n. 90, Buenos Aires, 16 feb. 1901, p. 277-278. “Sueltos. Policía de Hamburgo”,
Revista de Policía, Año V, n. 104, Buenos Aires, 16 set. 1901, p. 123-124.

114
No entanto, o delegado Laurentino Mejías desconfiava da paixão pelas vestimentas
copiadas da esfera castrense no início do século XX:

Começou a latir em cérebros dirigentes a ideia da militarização,


que não implicava outra coisa que principiar pelo uniforme; devido
ao passeio pela Europa de um funcionário superior que regressa
encantado da postura do policial monárquico belga, e no próprio
Departamento Central, exibiu fotografias espécimen do uniforme.
Nós, que havíamos usados vários uniformes em distintas épocas e
hierarquias, nos permitimos repugnar esta recidiva, o que nos valeu
que nos apontassem um raio, ocasionando-nos cair na graça de
Deus. 43

Esse “passeio pela Europa” a que ironicamente Mejías se refere, havia se


convertido, ao final do século XIX, em uma atividade frequente para as elites das
polícias sul-americanas. Em rigor, há que reconhecer que não era um costume
exclusivamente policial. Os setores da alta sociedade portenha e carioca, tanto os
membros das famílias tradicionais como os que eles denunciavam como adventícios,
usavam a viagem europeia para se colocar a tom com as modas e adquirir todo tipo
de artigos de consumo que ajudavam a preservar certo status social.44 Por outra parte,
escritores, cientistas, artistas e funcionários em comissão, empreendiam longas
viagens para instruir-se, atualizar-se nas últimas tendências e observar de perto os
modelos institucionais, ou para entrar em contato com a rede de intelectuais que
haviam elegido a Europa como lugar de residência. Igual aos jornalistas que nesta
mesma época começavam a trabalhar como correspondentes, para estes viajantes, o
deslocamento territorial estava intimamente ligado às práticas de escrita.45

O mesmo sucedia com os funcionários que realizavam visitas de estudo às


polícias europeias, comissionados pelos governos ou enviados diretamente pelas
chefaturas. O destino privilegiado era Paris, mas as viagens raramente eram a um

43
MEJÍAS, Laurentino. Policíacas: mis cuentos. Buenos Aires: Tor, 1927, p. 9-10.
44
NEEDELL, Jeffrey D. A Tropical Belle Époque: Elite, Culture and Society in Turn-of-the Century
Rio de Janeiro. Princeton: Princeton University Press, 1987. p. 125-126. LOSADA, Leandro. La alta
sociedad en la Buenos Aires de la Belle Époque. Buenos Aires: Siglo XXI, 2008, p. 149-166.
45
Ver COLOMBI, Beatriz. Viaje intelectual. Migraciones y desplazamiento en América Latina (1880-
1915). Rosario: Beatriz Viterbo, 2004. FOMBONA, Jacinto. La Europa necesaria: textos de viaje de
la época modernista. Rosario: Beatriz Viterbo, 2005.

115
único lugar e, além disso, nem sempre tinham um caráter oficial. Em 1900, por
exemplo, outro alto funcionário da polícia portenha estava na Europa por motivos de
saúde, quando enviou uma carta à Revista de Policía com observações feitas “por
vício”.46 Também havia escritores que, enquanto trabalhavam para a polícia,
incursionavam no gênero de livros de viagem, mas sem centrar o relato em temas
afins ao métier. Era o caso de Evaristo da Veiga: em 1903, sendo chefe do Gabinete
Antropométrico da polícia paulista, publicou o livro Notas de viagem, recompilando
uma série de cartas enviadas ao Correio Paulistano desde diferentes cidades da
América do Norte e Europa, entre março e outubro desse mesmo ano.47 Pouco tempo
antes, esse jornal divulgou outra correspondência que Evaristo mandou desde Paris.
O estilo era completamente diferente ao do livro, não narrava as impressões gerais de
um “gentleman viajante”, mas uma visita ao serviço de identificação da polícia
parisiense.48

Caso parecido foi o do policial portenho Miguel Denovi, outro dos tantos
escritores dessa instituição.49 Em 1925, as páginas de Magazine Policial começaram
a publicar umas “crônicas de viagem”, enviadas por Denovi da Europa e
acompanhadas por reproduções de cartões postais que anexava a suas cartas. Embora
fossem textos literários sob a forma de relato de viagem, igual a seu antecessor,
tampouco conseguia evitar o “vício” de comparar sua experiência como policial
portenho com as observações dos vigilantes europeus. Assim, detinha-se nos mais
ínfimos detalhes dos uniformes policiais de distintas cidades. Na Itália, apesar da má
fama do povo napolitano, conhecido pelos mitos da máfia e da camorra, se
assombrava com a tranquilidade pública obtida pelos rigorosos Carabinieri. Em

46
“Sueltos. Policía de Paris. Impresiones de un profesional”, Revista de Policía, Año IX, n. 204,
Buenos Aires, 16 nov. 1905, p. 100.
47
VEIGA, Evaristo da. Notas de viagem. São Paulo: Duprat & Comp., 1903.
48
VEIGA, Evaristo da. “Identificação Anthropométrica”, Correio Paulistano, São Paulo, 5 jan.1903.
A ideia de “gentleman viajante” foi desenvolvida pelo crítico literário argentino: VIÑAS, David. “La
mirada a Europa: del viaje colonial al viaje estético” (1964). In: Literatura argentina y política: I. De
los jacobinos porteños a la bohemia anarquista. Buenos Aires: Santiago Arcos, 2005, p. 43-67.
49
Nesse lapso, Denovi assumiu duas vezes a chefia em forma provisória, pela crise desatada à raiz dos
enfrentamentos com o movimento operário. Denovi havia estudado no prestigioso Colégio Nacional e
entrou na polícia com 18 anos como “oficial escrevente”, enquanto estudava Ciências Jurídicas na
Universidade Católica. Ver: SILVA, Hernán (recopilación y prólogo). La obra institucional y literaria
del Comisario de Órdenes Dr. Miguel Luis Denovi. Buenos Aires: Maucci Hermanos e Hijos, 1920, p.
5-13.

116
contraste, não ocultava o desgosto que lhe provocou contemplar, no bairro parisiense
de Montmartre, o espetáculo que rodeava o Moulin Rouge, onde ao compasso do
“tango argentino” e do “maxixe brasileiro” a mulher branca se mercantilizava em
braços de homens negros. E finalmente, na Espanha, se maravilhava com um passeio
pelo Departamento de Polícia de Madri, que lhe causou uma excelente impressão. 50

As “visitas de estudo” stricto sensu tinham um formato totalmente diferente.


Em princípio, não se originavam em viagens recreativas, por motivos de saúde ou
reencontros com familiares. Eram financiadas com fundos públicos e recebiam
instruções, mais ou menos precisas, sobre os lugares que deviam percorrer, as
entrevistas com funcionários policiais e os assuntos a serem tratados.51 Neste caso, as
práticas de escrita relacionadas à viagem eram um produto obrigatório, condição
implícita no “contrato” com o organismo do governo que autorizava a missão e
custeava os gastos. Os quatro casos que narrarei a seguir deixaram como resultado
relatórios, assim como também numerosos estilhaços em publicações da época, que
permitem reconstruir o olhar dos policiais brasileiros e argentinos sobre as
instituições europeias.

Os dois primeiros pertencem a juristas brasileiros, ambos formados na


Faculdade de Direito de São Paulo, que ocuparam a chefatura da Polícia da Capital
Federal durante a primeira década republicana: João Brasil Silvado viajou em 1893
para América do Norte e Europa, enviado pelo Ministério de Justiça e Negócios
Interiores; e João Batista de Sampaio Ferraz, aproveitou uma longa estadia na
Inglaterra para estudar, por encargo do governo do Estado de São Paulo, os serviços

50
Estas cartas foram publicadas em Magazine Policial entre 1925 e 1926. O diretor da revista, Ramón
Cortés Conde, as compilou mais tarde em um livro: DENOVI, Miguel L. Impresiones de viaje: Italia,
Francia y España. Buenos Aires: Editorial Verbum, 1929.
51
No Arquivo Nacional, por exemplo, encontra-se a documentação manuscrita sobre um encargo que
em1891 o governo federal fez ao professor da Faculdade de Direito de Recife, Joaquim de
Albuquerque Barros Guimarães para estudar o sistema antropométrico de identificação de criminosos
da polícia parisiense. A documentação oferece detalhes sobre o financiamento da viagem, cujo
orçamento Barros Guimarães achava insuficiente. AN, GIFI, Gabinete do Ministro, 8N-80, Despacho
do Sr. Ministro da Justiça, 5 de fevereiro de 1892. Houve outras viagens de sul-americanos ao serviço
antropométrico de Paris: o médico de polícia argentino Agustín Drago (1887), o médico carioca
Henrique Monat (1889), o criminologista brasileiro José A. de Souza Gomes (1900), o próprio
Evaristo da Veiga (1903) e o chefe da Seção de Estatística do Gabinete de Identificação do Rio de
Janeiro, Hermeto Lima (1910). Estas viagens serão analisadas no próximo capítulo, quando trataremos
o nascimento dos primeiros serviços de identificação de criminosos na Argentina e no Brasil.

117
de Scotland Yard, apresentando seu relatório em 1898.52 Os outros dois casos
correspondem a viagens das primeiras décadas do século XX, realizadas por
argentinos que trabalhavam nas altas esferas policiais de Buenos Aires, uma espécie
de legião erudita que trabalhava no Departamento Central: o advogado (e Secretário
Geral de Polícia) Manuel Mujica Farías visitou as polícias de Paris e Bruxelas em
1900,53 e o Delegado Inspetor José Vieyra percorreu instituições policiais italianas e
belgas em 1912.

A primeira viagem, a de Brasil Silvado, resultou na publicação do livro O


serviço policial em Paris e Londres (1895), originalmente apresentado como
relatório ao Ministro de Justiça.54 O encargo inicial havia sido muito mais amplo:
estudar nos Estados Unidos e na Europa os sistemas de ensino público e a
organização das polícias.55 No entanto, para este último objetivo decidiu restringir a
exposição a Londres e Paris, porque entendia que eram os “modelos mais completos
no assunto” e que, de certa forma, todas as outras polícias eram simples variações
das arquiteturas institucionais destas duas grandes capitais. O estudo de Brasil
Silvado, cada uma de suas descrições e as propostas de reformas, se sustentava sobre
um princípio anunciado no início, na carta ao Ministro que acompanhava o relatório:

52
João Batista de Sampaio Ferraz foi o primeiro chefe de polícia da capital republicana (1889-1890)
restituído por Campos Sales em 1898 e permaneceu até 1899, sendo substituído precisamente por João
Brasil Silvado, chefe até princípios de 1900. Ver: BRETAS, Marcos L. A guerra das ruas. Povo e
polícia na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997. p. 40.
53
Mujica Farías embarcou para Europa em 15 de fevereiro de 1900 e regressou desde o porto de
Barcelona em 16 de julho do mesmo ano, como noticiava a revista policial portenha, da qual era
assíduo colaborador: “En viaje de estudio”, Revista de Policía, Año III, n. 65, Buenos Aires, 1 feb.
1900, p. 289; e “El Doctor Mujica Farías”, Revista de Policía, Año IV, n. 77, Buenos Aires, 1 ago.
1900, p. 76.
54
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres: relatório apresentado ao Ministro da
Justiça e Negócios Interiores, sendo ministro o ilustrado cidadão Dr. Gonçalves Ferreira. Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, 1895.
55
No momento de começar a missão, Brasil Silvado trabalhava para a Prefeitura Municipal do Rio de
Janeiro, como inspetor do terceiro distrito escolar. O prefeito, Cândido Barata Ribeiro, autorizou um
pedido de um ano de licença para cumprir com a viagem encomendada pelo governo federal, mas
pediu que entregasse também ao Conselho Municipal os informes sobre os sistemas de ensino
público: INTENDENCIA MUNICIPAL. Secretaria da Prefeitura do Distrito Federal. Secreto n. 36 –
de 1 de maio de 1893, Diário Oficial dos Estados Unidos do Brasil, n. 119, Rio de Janeiro, 2 mai.
1893.

118
“nem tudo o que se vê no estrangeiro é adaptável ao nosso meio, às nossas
circunstâncias ou aos nossos costumes”.56

O livro oferecia descrições gerais das polícias de Paris e Londres. Não prestava
atenção apenas aos aspectos que, segundo sua opinião, deviam ser reproduzidos na
capital brasileira, senão também sobre questões que podiam merecer uma reflexão
crítica. Os modelos de polícia da França e Inglaterra não eram tratados no relatório
como alternativas antitéticas. Pelo contrário, o plano de reformas esboçado nas
conclusões combinava, com certa dose de heterodoxia, algumas virtudes da polícia
parisiense com outras vantagens de Scotland Yard.

A proposta de Brasil Silvado se concentrava em três aspectos diferentes. O


primeiro apontava diretamente a necessidade de mudanças legislativas. Neste
terreno, o autor entendia que o Brasil deveria seguir o exemplo francês da lei de
relegação de reincidentes de 1885, enquanto que os princípios britânicos podiam
orientar uma imprescindível reforma do sistema penitenciário, incorporando
inovações como a liberdade condicional e as escolas correcionais “à inglesa”. O
segundo núcleo de reformas se focalizava na esfera regulamentária. A “polícia
sanitária” e a “polícia de costumes” – especialmente os dispositivos de controle
territorial da prostituição – eram instituições francesas que o Rio de Janeiro deveria
adotar urgentemente. Em troca, outras questões de ordem urbana, como o controle do
trânsito de veículos ou a repressão da vadiagem, podiam se ajustar misturando ideias
de Paris e Londres.57

O terceiro aspecto era o que ocupava mais espaço no livro: as reformas na


estrutura administrativa da polícia. Brasil Silvado sugeria a adoção de um sistema
centralizado de inspeção dos diferentes serviços policiais, ao modo do Contrôleur
Géneral parisiense, mas ao mesmo tempo pedia um maior nível de descentralização
(área em que a França não tinha absolutamente nada a ensinar). Era necessário
combinar certa delegação de mando nas autoridades policiais de cada distrito, para
descongestionar a atrofia na chefatura, mas manter um olho vigilante e fiscalizador
sobre suas atividades. Isto ia de encontro com uma reclamação de ampliar as

56
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Op. Cit., p. IV.
57
Idem, p. 237-249.

119
exigências na hora de engajar pessoas para o cargo de delegado, já que até esse
momento, no Rio de Janeiro, “o bacharel em direito, o médico, o negociante ou o
funcionário público, são por igual julgados aptos para exercer as melindrosas funções
policiais”.58

Em relação ao serviço de rua, também era imperioso ajustar os critérios de


admissão dos agentes, pedindo a comprovação efetiva de um prontuário sem
manchas. A profissionalização marcava uma distância enorme entre estes dois países
europeus e o Brasil, cujo corpo de agentes era um “refugium peccatorum” onde iam
parar “todos os desocupados protegidos pelas influências de ocasião”.59
Profissionalizar não significava unicamente aumentar os requisitos para o ingresso,
mas também melhorar a instrução, implementar incentivos salariais e aposentadorias,
como existia na França e na Inglaterra, porque a vida do vigilante estava sempre
exposta a “mil perigos” e sua honestidade provocada por “mil tentações”.

Este tipo de comparação entre a qualidade técnica dos vigilantes europeus e


brasileiros provocava certa desconfiança em alguns policiais cariocas. Desde as
páginas da revista da Brigada Policial, Cruz Sobrinho dedicava uma nota crítica ao
livro de Brasil Silvado, que recordava que o Rio de Janeiro, diferentemente de Paris,
contavam com poucos agentes para cobrir um território extenso. Mas, além disso,
parecia-lhe difícil manter uma tropa estável e capacitada em um corpo que devia
expulsar constantemente a seus soldados por indisciplinas reiteradas.60 Brasil Silvado
não desconhecia estes problemas, mas era mais otimista: “essas medidas e reformas
serão de fácil adaptação ao nosso meio social?”, se preguntava. “Umas dependem de
simples regulamentos e de mão hábil e forte que os faça executar; outras dependem
de algum tempo de propaganda e estudo: quase nenhuma, porém, é impossível de ser
posta em prática entre nós”.61

58
Idem, p. 235.
59
Idem, p. 233.
60
CRUZ SOBRINHO. “A Polícia de Paris e a nossa”, Op. Cit., p. 11.
61
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Op. Cit., p. 248-249.

120
Em seu relatório de viagem, João Batista de Sampaio Ferraz tratava de
responder este mesmo interrogante, quando estudava o funcionamento de Scotland
Yard:

Nem tudo pode ser transportado de uma sociedade para outra e


funcionar igualmente, tanto à beira do Tamisa como nas regiões
tropicais. Entretanto, com conhecimento de causas, saberemos tudo
examinar, promovendo “quantum satis” as providências de
adaptação.62

Adaptação era a palavra que sempre moderava até as mais ambiciosas


esperanças modernizadoras baseadas em exemplos europeus. Logo após encabeçar
uma estrondosa campanha contra os Capoeiras, sendo o primeiro chefe de polícia do
período republicano, Sampaio Ferraz pensava que grande parte do êxito de qualquer
reforma policial dependia da dissolução de práticas incrustradas nas altas esferas
políticas e judiciais.63 A predileção pelo paradigma inglês se entendia no marco de
uma disputa contra intelectuais, jornalistas e funcionários que pretendiam limitar as
prerrogativas arbitrárias da polícia. Em 1898, pouco depois de apresentar o relatório
e tomar posse no segundo mandato à frente da Polícia da Capital Federal, Sampaio
Ferraz enfrentou fortemente a juristas que – como Rui Barbosa – defendiam o
recurso do habeas corpus: “instituição sábia que já sagrou os foros de liberdade e
tolerância de um grande país que o instituiu como suprema garantia do direito
individual ofendido, não poderá ser almejado pelos delinquentes como uma bandeira
de misericórdia”.64

62
SAMPAIO FERRAZ, João Batista de. “Do delito, Código Penal e Organização Policial na
Inglaterra: Intróito do Relatório apresentado ao Governo do Estado de São Paulo”, Separata da Revista
do Arquivo Municipal, n. CXXVI, São Paulo, 1949, p. 51. Esta é a única fonte encontrada sobre o
Relatório de Sampaio Ferraz, apresentado em 1898, cuja versão completa não pude localizar no
próprio Arquivo Municipal, nem no Arquivo do Estado de São Paulo.
63
Sobre Sampaio Ferraz e a campanha contra os capoeiristas em 1890 ver: BRETAS, Marcos. “A
queda do império da navalha e da rasteira (a República e os capoeiras), Estudos Afro-Asiáticos, n. 20,
jun. 1991, p. 239-256. DIAS, Luiz Sérgio. Da “Turma da Lira” ao Cafajeste. A sobrevivência da
capoeira no Rio de Janeiro na Primeira República. Tese de Doutorado em História, Universidade
Federal do Rio de Janeiro, 2000.
64
Citado em BRETAS, Marcos L. A guerra das ruas. Op. Cit., p. 65.

121
Esse “grande país” era Inglaterra, cuja realidade mostrava, segundo Sampaio
Ferraz, que o cuidado dos direitos do cidadão não era incompatível com medidas
rígidas contra o crime, sempre que estivessem guiadas por um espírito pragmático. O
equilíbrio estaria dado pela balança da experimentação cotidiana: “em outros países
os problemas da criminalidade estão a agitar os filósofos e os pensadores, enquanto
na Inglaterra o principal objetivo é bater o crime com medidas práticas”.65 A polícia
apenas podia trabalhar sobre o terreno barroso das “eventualidades da vida”, usando
como ferramenta um cardápio flexível de medidas repressivas, aplicadas quando
fosse necessário, e pouco contestadas por outras autoridades. Nisso os britânicos
tinham muito a ensinar aos juristas brasileiros, a quem Sampaio recomendava uma
saudável “viagem de observação e estudos nesse país”.66

O argentino Manuel Mujica Farías compartilhava esta visão sobre a utilidade


das visitas de estudo à Europa, mas era cauteloso na discussão sobre a possibilidade
de exportar modelos policiais a um contexto diferente:

Eu sempre acolhi a convicção de que os estudos desta classe


devem ter um fim essencialmente prático, e que as reformas em
qualquer instituição dever ser paulatinas, sem jamais perder de
vista as condições do meio em que se atua. Se se buscasse como
modelo uma organização completamente diversa, o fim ao que fiz
referência ficaria frustrado. 67

Esta era a forma em que justificava o recorte de seu estudo. Em 1900, Mujica
Farías possuía um alto cargo na polícia portenha, quando o chefe Francisco Beazley
autorizou uma missão de estudo sobre as polícias das principais capitais europeias.68

65
SAMPAIO FERRAZ, João Batista de. “Do delito, Código Penal e Organização Policial na
Inglaterra”. Op. Cit.,. p. 40.
66
Idem, p. 50.
67
MUJICA FARÍAS, Manuel. La Policía de París. Buenos Aires: Arnold Möen, 1901, p. 10.
68
O cargo de Secretário Geral de Polícia havia sido criado em 1880 e ocupado por diferentes juristas e
homens de letras de Buenos Aires. De tal modo, Mujica Farías não era um policial “de carreira”, mas
um advogado que foi convocado para desempenhar esse posto, em que permaneceu desde 1898 até
1902. Ver: CORTÉS CONDE, Ramón. Historia de la Policía de la Ciudad de Buenos Aires. Su
desenvolvimiento, organización actual y distribución de sus servicios. Buenos Aires: Imprenta López,
1937, p. XVI. O Secretário Geral era o sucessor imediato do chefe, de fato, Mujica Farías substituiu a
Francisco Beazley quando este acompanhou o presidente Roca em sua visita ao Rio de Janeiro.

122
Segundo a Revista de Policía, o plano original de viagem incluía visitas a Paris,
Londres, Roma, Viena, Nápoles, Bruxelas, Madri e Frankfurt.69 Contudo, depois da
viagem, Mujica Farías decidiu concentrar o relatório apenas nas polícias de Paris e
Bruxelas, porque entendia que tanto as instituições como as sociedades dessas duas
capitais europeias tinham maiores “pontos de semelhança” com Buenos Aires.
Considerava que buscar exemplos em outras latitudes, como os países saxões,
implicaria mergulhar em realidades por demais alheias para encontrar algum
aproveitamento possível. Para Mujica Farías, esse erro de cálculo estava na base do
fracasso de muitas “reformas absurdas”.70

A polícia londrina, em particular, havia lhe parecido uma força de segurança


municipal com atribuições muito estreitas, voltadas a casos de delitos in fraganti.
Este “sistema limitativo” podia se ajustar bem à idiossincrasia, caráter e costumes do
povo inglês, mas era obsoleto para as turbulentas e babélicas capitais sul-americanas.
A conclusão do arrazoado apontava à polícia de Paris: “a que melhor presta para
servir de modelo à nossa, não apenas pelos méritos de seu aperfeiçoamento”, mas
também porque o sistema político, igual ao de Buenos Aires, atribuía a esta
instituição metropolitana “um vasto raio de múltipla ação, com variadas funções de
polícia municipal e judiciária, preventiva e repressiva”.71

Deste ponto de vista, Mujica Farías elaborou um plano de obra dividido em três
partes. A primeira, La Policía de París, foi apresentada em dezembro de 1900 ao
Ministro do Interior como relatório e publicada no ano seguinte como livro.72 A

RODRÍGUEZ, Adolfo E. Historia de La Policía Federal Argentina, Tomo VI, 1880-1916. Buenos
Aires: Editorial Policial, 1975, p. 224.
69
“Al partir”, Revista de Policía, Año III, n. 66, Buenos Aires, 16 feb. 1900, p. 295. Efectivamente
visitó alguna de estas policías, como las de Roma, Londres y Madrid, según noticiaba la revista en:
“El Dr. Mujica Farías”, Revista de Policía, Año III, n. 69, Buenos Aires, 1 abr. 1900, p. 353; y “El
doctor Mujica Farías”, Revista de Policía, Año IV, n. 76, Buenos Aires, 16 jul. 1900, p. 61.
70
MUJICA FARÍAS, Manuel. La Policía de París. Op. Cit., p. 11.
71
“Regreso del Dr. Mujica Farías. Sus impresiones de viaje”, Revista de Policía, Año IV, n. 78,
Buenos Aires, 16 ago. 1900, p. 84. A exclusão das polícias espanholas e italianas como material de
estudo se justificava diretamente em que eram vistas como organizações ao nível da polícia portenha,
e inclusive inferiores, como parecia se deslizar em uma reportagem que fez o jornal El Español,
reproduzido em: “Un reportaje interesante. El doctor Mujica Farías en Madrid”, Revista de Policía,
Año IV, n. 79, Buenos Aires, 1 set. 1900, p. 102-104.
72
Antes da aparição do livro, a revista policial publicou avanços, e depois reproduziu comentários
elogiosos: MUJICA FARÍAS, Manuel. “Dirección General de Investigaciones. Fragmento del

123
seguinte estaria dedicada à polícia de Bruxelas e a última a uma comparação entre
ambas e Buenos Aires, mas aparentemente estes outros dois estudos não se
concretizaram. Por sua parte, a estrutura de análise da polícia parisiense adotada por
Mujica Farías no “livro-relatório” (como o chamava a revista policial) dedicava-se
mais às leituras que às observações in situ. Obras do prefeito Louis Lépine, Maxime
de Camp, Gustave Macé e Marie-Françoise Goron apareciam como referências
bibliográficas obrigatórias tanto no estudo de Mujica Farías como no de Brasil
Silvado, cujo livro, além disso, o argentino conhecia.73

Finalmente, a última das quatro viagens apresenta algumas características


distintas das anteriores. José Vieyra era Comissário Inspetor da polícia portenha,
quando em 1912 realizou uma série de visitas à Espanha e Bélgica. 74 Mas sua missão
tinha como objetivo principal uma inspeção dos policiais que estavam no velho
continente em “comissões especiais”.75 O que estavam fazendo esses agentes na
Europa? Após a precipitada sanção da lei de Defesa Social (1910), para a expulsão
de estrangeiros, a chefatura da polícia resolveu instalar uma série de delegacias nos
principais portos europeus onde embarcavam os imigrantes: Marselha, Génova,
Barcelona, Vigo, Trieste, Southampton, Hamburgo e Bremen. Os empregados dessas
repartições estavam encarregados de controlar, com o maior sigilo possível, a
circulação de pessoas para detectar “indesejáveis” nos contingentes dos barcos. Além
disso, tinham a cargo uma aproximação com as polícias dessas cidades, a fim de
estabelecer acordos informais e confidenciais para a troca de antecedentes,

Capítulo XIII del libro en prensa La Policía de París”, Revista de Policía, Año IV, n. 87, Buenos
Aires, 1 ene. 1901, p. 230-232. “La policía de París por el Dr. Manuel Mujica Farías”, Revista de
Policía, Año IV, n. 88, Buenos Aires, 16 ene. 1901, p. 242-244. “Bibliografía policial. La policía de
Paris y Falsificación de moneda. Juicios honrosos”, Revista de Policía, Año V, n. 99, Buenos Aires, 1
jul. 1901, p. 39-42.
73
“La policía de París por el Dr. Manuel Mujica Farías”, Revista de Policía, Año IV, n. 88, Buenos
Aires, 16 ene. 1901, p. 243.
74
Os comissários inspetores eram os funcionários encarregados de fiscalizar o trabalho das delegacias
de distrito, mantendo informado o chefe de polícia através de uma rede telegráfica que tinha como
centro o Departamento Geral. Ver “Orden del día 31 de agosto de 1899”. In: MUJICA FARÍAS,
Manuel (dir.). Repertorio de Policía, 1880-1898. Buenos Aires: Imprenta y Encuadernación de la
Policía, 1899, p. 575.
75
VIEYRA, José. “La policía italiana”, Revista de Policía, Año XVI, n. 379, Buenos Aires, 1 mar.
1913, p. 178.

124
fotografias e fichas datiloscópicas de diversos “sujeitos perigosos para a ordem
social”. 76

Ao regressar da Europa, Vieyra elaborou um relatório, difundido pela Revista


de Policía em quarenta partes consecutivas, desde março de 1913 até outubro de
1914, onde os vinte primeiros artigos estavam dedicados à polícia italiana e os outros
à polícia belga. Neste caso, a opção por instituições policiais “similares a nossa”, não
reconhecidas como modelos internacionais, sugere a presença de outra relação com
as visitas de estudo. A vontade de conhecer a organização das polícias europeias e,
como veremos mais à frente, também as sul-americanas, respondia esta vez à
estratégia de extensão de uma rede de cooperações. Não era em vão que a chefia
portenha elogiava os primeiros resultados das repartições instaladas nos portos da
Europa, porque haviam conseguido mostrar nesses países “o grau de perfeccionismo
que havia chegado a polícia metropolitana argentina”. 77

Depois de uma série de reformas inspiradas, em muitos aspectos, nos exemplos


estrangeiros trazidos por estes ilustres viajantes, a polícia de Buenos Aires se via
como uma instituição consolidada. Fama reforçada, ainda mais, por seus países
vizinhos: no início do século XX, as polícias do Rio de Janeiro, Montevideo e
Santiago do Chile – como veremos – enviaram emissários à capital argentina para
estudar seus serviços policiais, em particular as áreas de investigações e identificação
de criminosos. Esta mudança não marcaria o fim das visitas de estudo a Europa,
como testemunharia alguns relatórios posteriores.78 Mas a relação com as polícias
europeias, especialmente com aquelas consideradas “modelos” desde o século XIX,
havia mudado.

76
REPÚBLICA ARGENTINA. Memoria de la Policía de la Capital, 1911-1912. Jefatura del General
Ingeniero Luis J. Dellepiane. Buenos Aires: Imprenta y Encuadernación de la Policía, 1912, p. 10-11.
77
Idem, p. 10. Ver também: “Las policías extranjeras”, Revista de Policía, Año XVII, n. 399, Buenos
Aires, 1 ene. 1914, p. 166.
78
Ver: SALCEDO, Eugenio H. Las policías de Londres, París y Roma. Informe presentado a la
Jefatura de Policía con motivo de una comisión oficial para estudiar la organización de las mismas.
Buenos Aires: Biblioteca Policial, 1936. SECRETARIA DA SEGURANÇA PÚBLICA DO ESTADO
DE SÃO PAULO. A Polícia Metropolitana de Londres e a Polícia Italiana. Conferências realizadas
pelos integrantes da Delegação Paulista enviada à Europa. São Paulo: Serviço Gráfico da Secretaria de
Segurança Pública, 1958.

125
O subdelegado Eugenio Salcedo, enviado em 1934 para visitar as polícias do
velho mundo, regressava satisfeito de haver conhecido pessoalmente a “famosa
Scotland Yard”, mas um deleite maior lhe provocava constatar o que já parecia um
axioma: “no momento atual nossa polícia se encontra em um nível de organização e
domínio de elementos de luta contra a criminalidade, que a coloca em situação
destacada em relação a qualquer das instituições visitadas”.79 A nova Guerra
Mundial ajudaria a reforçar esta suspeita. A essa altura das circunstâncias, não havia
muito que invejar da Europa.

Modelos para armar: fascinação e desencanto

Os escritos que deixaram estes policiais viajantes permitem responder algumas


perguntas sobre a dinâmica das visitas de estudo. Como eram estes passeios pela
Europa? Quem os recebiam? A que tipo de informação os hóspedes tinham acesso?
Brasil Silvado, Sampaio Ferraz, Mujica Farías, Vieyra e outros comissionados sul-
americanos percorreram trajetórias similares, entrevistaram os mesmos personagens
e leram um corpus parecido de obras. Isto não era produto de meras coincidências.
As polícias europeias, em especial as de Paris e Londres, estavam acostumadas a
receber visitantes estrangeiros e já tinham preparado um tipo de tour pelos labirintos
de suas respectivas burocracias. Durante sua visita à Prefeitura da Polícia de Paris,
Brasil Silvado comentava que ali se recebiam “comissões de todos os países”
atraídas pela “intensidade da admiração” ao modelo francês.80

Em geral, as chefaturas de polícia ativavam contatos usando os embaixadores


do governo nos países de destino. A revista portenha contava que Mujica Farías, no
momento de embarcar, levava com ele documentações para comprovar a “missão
oficial” e Brasil Silvado agradecia a colaboração das delegações brasileiras na França

79
SALCEDO, Eugenio H. Las policías de Londres, París y Roma. Op. Cit., p. 10.
80
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Op. Cit., p. 3.

126
e Inglaterra.81 Em Paris, ambos se encontraram com Louis Lépine, o prefeito que
durante duas décadas (quase sem interrupções desde 1893 até 1913), ganhou a fama
de grande modernizador da polícia francesa.82 Lépine se encontrou pessoalmente
com Brasil Silvado e Mujica Farías, mas, além disso, deixou os visitantes sul-
americanos em mãos de “guias” para o passeio institucional. O comissionado
argentino telegrafou à revista policial, pouco depois da primeira reunião com o
prefeito, contando que Monsieur Lépine havia designado “a um dos empregados
superiores da prefeitura para que o acompanhasse em suas visitas a todas as vastas
dependências da administração”.83 Brasil Silvado justificava a necessidade imperiosa
de contar com um guia na Prefeitura da Polícia:

É difícil de tornar-se conhecida do estrangeiro que quiser estudá-la.


“Ella é um verdadeiro labirinto, enquanto não se alcança o fio
condutor, diz Strauss, e o público se perde neste Dédalo de
serviços esparsos, terrivelmente embaraçados uns com os outros.”
Sem conversar previamente com alguma pessoa competente que
nos dê indispensáveis explicações, é quase impossível pôr-se em
condições de bem compreender. Inútil, para tal efeito, a leitura dos
livros, por melhores que sejam, tão diferente e o organismo em
ação do organismo apenas descrito!84

O brasileiro agregava o nome do guia que Lépine o concedeu. Tratava-se de


“Monsieur Le Roux”, subchefe do serviço de identificação dirigido pelo pai da
antropometria judiciária, Alphonse Bertillon.85 Por sua parte, Mujica Farías se
limitava a reconhecer, ao começo do livro, a cooperação dos diplomatas argentinos,
de Lépine e do chefe da polícia de Bruxelas, François Bourgeois.86 Mas as crônicas

81
“Al partir”, Revista de Policía, Año III, n. 66, Buenos Aires, 16 feb. 1900, p. 295. SILVADO, João
Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Op. Cit., p. IV.
82
BERLIÈRE, Jean-Marc. Le Préfet Lépine: vers la naissance de la police moderne. Paris: Denoel,
1993.
83
“El Dr. Mujica Farías en París”, Revista de Policía, Año III, n.71, Buenos Aires, 1 may. 1900, p.
387.
84
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Op. Cit., p. 5.
85
Idem, p. 5-7. Analisarei o serviço de identificação antropométrica de Bertillon e suas relações com
as polícias sul-americanas no próximo capítulo.
86
MUJICA FARÍAS, Manuel. La Policía de París. Op. Cit., p. 9.

127
da Revista de Policía ofereciam maiores detalhes. Lépine e Mujica Farías foram
apresentados pelo embaixador argentino em Paris. “M. de Chabrol, chefe do gabinete
da prefeitura, foi designado como guia em sua longa visita” e outro funcionário
superior acompanhou-lhe na excursão pelas delegacias da banlieue, hospitais e
diferentes prisões.87 Somente essa visita parisiense consumiu dois meses da viagem,
em que – segundo a revista – Mujica Farías usou todos os dias para percorrer
repartições e acompanhar procedimentos nas ruas.

Em todas as partes, nosso Secretário Geral foi considerado como


um funcionário da própria polícia francesa: em sua presença se
realizaram os atos mais reservados do serviço policial, instruções
para investigações, leitura e classificação de anônimos, recepção de
denúncias. Assistiu também aos serviços externos, presenciando
uma batida de ladrões e vagabundos, e visitando depois os bass-
fonds, os antros do Paris criminal, e todos aqueles lugares em que a
ação da polícia se faz sentir com maior eficácia.88

No final da visita, Lépine despediu o argentino com um grande banquete no


Palácio da Prefeitura. Estavam presentes todos os hierarcas da polícia parisiense,
entre eles o diretor geral de investigações, o chefe da Sûreté e o mesmíssimo
Bertillon. Ante a este público seleto, Mujica Farías ditou uma conferência na que
comparou os sistemas policiais de França e Argentina. Para o assombro dos
comensais, o visitante teve a ousadia de alternar elogios à polícia de Paris com
alguns questionamentos. Expôs argumentos críticos, aprofundados depois no livro,
sobre os dispositivos que lhe pareciam mais eficazes na polícia portenha (em
particular, o esquema descentralizado de delegacias seccionais) e outras inovações
argentinas que faltavam na capital francesa, como o uso do apito no serviço de rua.
Apesar das calorosas discussões desencadeadas pelo discurso, tudo terminou em um
cordial aplauso francês, enquanto o secretário geral, Monsier Laurent, lhe entregava

87
“El Dr. Mujica Farías en Europa. Honrosas demostraciones”, Revista de Policía, Año IV, n.73,
Buenos Aires, 1 jun. 1900, p. 4-5.
88
Idem, p. 5.

128
uma medalha de prata, reproduzida pela revista portenha como homenagem aos
anfitriões de Mujica Farías.89

Viagem a Paris de Manuel Mujica Farías


Fonte: Revista de Policía, Año IV, n. 80, Buenos Aires, 16 set. 1900, p. 117.

O modelo francês provocava fascinação, mas também alguns desencantos entre


estes visitantes. Brasil Silvado e Mujica Farías coincidiam em um ponto que lhes
parecia especialmente frágil: a centralização do mando na figura do prefeito. Ao

89
Idem, p. 5-6. A medalha foi reproduzida em “Nuestro grabado”, Revista de Policía, Año IV, n. 80,
Buenos Aires, 16 set. 1900, p. 117-118, onde ainda se pediam desculpas pela ausência de um retrato
do prefeito Lépine, que os editores da revista nesse momento não tinham.

129
contrário dos comisarios portenhos e dos delegados cariocas, o commisaire
parisiense era um personagem cinzento, sem agentes subordinados para atuar em sua
jurisdição, quase sem interação com a Sûreté e a Polícia Municipal.90 Para pior dos
males, os delegados deviam se afastar de seus postos e comparecer periodicamente
na prefeitura para receber ordens diretas de Lépine. Em seu livro, Mujica Farías
questionava este mecanismo de forma muito enfática:

O cidadão de Buenos Aires não pode menos que olhar com


estranheza, a situação equívoca, equilibrista, em que se encontram
os funcionários correlativos da Polícia de Paris. Em nossa
linguagem, a palavra comisario desperta a ideia do empregado
superior da instituição policial, que tem em suas mãos a direção
imediata da força pública, que está encarregado de prevenir os
delitos, de apreender os criminosos quando a prevenção fosse
impossível, de comprovar as contravenções, em uma palavra,
exercer o imperium na via pública, de acordo com as leis e ordens
da chefatura. Não sucede o mesmo na capital da França. Lá, o
delegado de polícia não manda em nenhum agente; é um
magistrado, um “homem de pena”, como o chama Puyberaud, e
não um homem de ação.91

Os delegados portenhos também eram subordinados do chefe de polícia, mas


tinham uma margem de autonomia muito maior e contavam, ainda, cada um com
uma tropa de vigilantes a suas ordens para percorrer a “seção”. Nesse território, eram
a autoridade policial soberana, enquanto que em Paris, segundo Mujica Farías, a
capacidade do delegado para atuar ficava atrofiada por causa de uma centralização
mal entendida.92 Brasil Silvado opinava o mesmo. Os agentes de segurança
parisienses (inspecteurs de police) eram inteligentes, instruídos e engajados com os

90
Sobre esta condição incômoda do comissário parisiense, tensionada entre o poder central e o poder
local, ver KALIFA, Dominique; KARILA-COHEN, Pierre. “L’homme l’entre-deux. L’identité
brouillée du commissaire de police au XIXe siècle”. In: KALIFA, Dominique; KARILA-COHEN,
Pierre (dir.). Le commissaire de police au XIXe siècle. Paris: Publications de la Sorbonne, 2008, p. 17-
20.
91
MUJICA FARÍAS, Manuel. La Policía de París. Op. Cit., p. 178.
92
A concepção oficial da polícia portenha sobre o equilíbrio entre centralização e descentralização
(um equilíbrio, por certo, mais retórico que efetivo), ficou plasmado no projeto de Código de 1911,
quando definia os três princípios que sustentam a organização dos serviços policiais: unidade de
direção focalizada na chefatura; descentralização dos serviços de acordo com a natureza de suas
funções; e autonomia do funcionário. Proyecto de Código de Policía para la Capital de la Nación.
Buenos Aires: Establecimiento Gráfico Colón, 1911, p. VIII-IX.

130
maiores escrúpulos, mas não produziam os resultados esperados por um “defeito de
administração bastante censurável em um sistema tão inteligente e completo”, ou
seja, “o hábito inveterado da centralização na França”.93 O comissionado brasileiro
julgava preferível guardar uma “pequena brigada de reserva” no edifício da
Prefeitura, distribuindo o resto da tropa nos distritos da cidade e na banlieue. Não era
suficiente ajustar os requisitos de ingresso e treinar melhor o vigilante de rua. Havia
que convertê-lo em “conhecedor cada vez mais completo dessas circunscrições” e
colocá-lo “sob as ordens imediatas dos chefes locais”.94

Vários anos depois destas viagens, as mesmas ideias persistiam em uma carta
que o Inspetor da Polícia Marítima do Rio de Janeiro, Trajano Louzada, enviava ao
chefe Leoni Ramos desde Paris. Louzada também havia percorrido Itália, Suíça,
Inglaterra, mas não se tratava de visitas oficiais. Mesmo assim, aproveitava a ocasião
para difundir no Brasil algumas observações:

O nosso corpo de agentes é ruim. O de Paris não é melhor (...).


Fica-se aterrado ao se conhecer de perto a coisa tal como ela é.
Quem vai ao Sr. Lépine, ou busca uma audiência do Sr. Hanard,
volta encantado com o cavalheirismo desses senhores, que são
gentilíssimos em nos contar anedotas sobre o secular serviço, cuja
organização nos é mostrada com todos os remates do chic. Agora,
venha ao quartier Montmartre à noite, gire sobre outros bairros
inferiores e depois diga-me o que mais o apavorou, se a audácia
dos caftens que em badernas, um por vez, esperam a escrava, lhe
arrancam o dinheiro todo e lhe ordenam ir buscar mais, ou se os
apaches, rapazes de 16 a 22 anos, todos franceses, que aparecem às
dúzias em todos os recantos de Paris (...) Os estrangeiros mais
animosos vão lá para conhecer a vida dos apaches!”.95

Em Buenos Aires, os policiais escritores avançavam um passo mais. Não se


tratava apenas de desmitificar os modelos europeus, mas também de anunciar, em
muitos aspectos, a superioridade da própria instituição. O livro de Mujica Farías
ensinava aos portenhos que não havia “nada que copiar do estrangeiro, no que se

93
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Op. Cit., p. 47.
94
Idem, p. 48.
95
LOUZADA, Trajano. “A nossa polícia e a polícia estrangeira. Uma carta interessante”, Boletim
Policial, Ano IV, n. 2, jun.1910, p. 54.

131
refere à organização policial, porque o sistema por nós adotado é bem superior ao
que rege nas mais afamadas polícias do velho continente”.96 No entanto, a “única e
relativa desvantagem” em relação à instituição que tinha a fama de “melhor polícia
do mundo” era a qualidade dos “elementos subalternos” disponíveis no mercado de
trabalho. Os agentes portenhos não se identificavam com o ofício, não estavam
dispostos a começar uma carreira policial, permanecer no posto e profissionalizar-se.
A organização policial de Buenos Aires parecia muito mais simples, racional e
eficaz. Mas o pessoal existente para executar as ações deixava muito que desejar.97

Se os inspecteurs de police e os gardiens de la paix eram admiráveis por suas


qualidades profissionais, o Great British Bobby constituía uma síntese de todas as
virtudes possíveis. Os relatos dos viajantes sul-americanos, policiais ou não,
lisonjeavam ao vigilante londrino de tal forma que pareciam apaixonados por sua
mítica figura. “A primeira impressão que o estrangeiro chegado a Londres recebe,
observando a polícia nas ruas, é excelente”, observava Brasil Silvado. “Os policiais,
extremamente corteses, senão amáveis, têm tal correção nas maneiras e no vestuário
que verdadeiramente seduz”.98 “Cortez, obsequiador, delicado, corajoso e tenaz”,
escrevia um jornalista carioca, o policeman mostrava um “aspecto sólido e vigoroso,
os modos lhanos mais imponentes”.99

Os exemplos argentinos podem se repetir até a saturação: “Todos sabem muito


bem o suave, o bem educado, o cavalheiro, para dizer em uma palavra, que são os
policeman. Qualquer pergunta que se faz a eles, as respondem apropriadamente,
demostrando preparação e inteligência”.100 Outro policial portenho, o delegado
Labanca, reproduzia em meados do século XX uma anedota que o próprio José

96
“La policía de París por el Dr. Manuel Mujica Farías”, Revista de Policía, Año IV, n. 88, Buenos
Aires, 16 ene. 1901, p. 243.
97
Idem, p. 243-244. Os elogios ao caráter profissional do agente subalterno francês se repetem, no
inicio do século XX, em outros artigos da revista. Ver por exemplo: MENDOZA, José T. “Modelos
que hay que imitar. Las academias de Policía de París y Londres”, Revista de Policía, Año XXIII, n.
534, Buenos Aires, 16 set. 1920, p. 456-457. “La Policía de París y la de Buenos Aires”, Revista de
Policía, Año XXIV, n. 557, Buenos Aires, 1 set.1921, p. 401.
98
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Op. Cit., p. 154.
99
“A Polícia de Londres”, Boletim Policial, Ano II, n. 6, Rio de Janeiro, out. 1908, p. 247-248. Este
artigo é uma reprodução de uma nota publicada no jornal O País, o dia 18 de set. 1908.
100
“El Policeman de Londres”, Revista de Policía, Año VII, n. 157, Buenos Aires, 1 dic. 1903, p. 201.

132
Vieyra lhe contou sobre sua viagem europeia na década de 1910. Em uma estação de
trens em Londres, um esbelto vigilante lhe havia advertido, com fabulosos modos,
que não se separasse da sua mala porque a podiam roubar, por aquilo de que “a
ocasião faz o ladrão”. Assim era visto o Bobby: “bastava simplesmente um toque
com seu bastão, todo um símbolo, para que se acatasse e respeitasse nele a lei”.101
Para Elysio de Carvalho, esse respeito à lei era uma prolongação policial de uma
característica essencialmente britânica:

Os povos, já o disse Ives Guyot, têm a polícia que merecem. O


povo inglês, por exemplo, possui um instituto de polícia modelar,
graças à sabedoria da nação e ao espírito de disciplina de sua gente.
(...) Obsequioso e delicado, corajoso e paciente, austero e temido, a
mais notável máquina humana que se inventou, o policeman, é não
só o mais belo exemplo do que podem o exercício e a disciplina,
como também uma espécie de símbolo da civilização britânica.102

Nem sequer o cop norte-americano, com toda sua herança anglo-saxônica,


podia ser comparado com o policial inglês. Inglaterra, segundo explicava Brasil
Silvado, não conhecia as demissões massivas e sistemáticas de agentes que
respondiam a interesses políticos adversos ao partido dominante: “infelizmente, a
grande república norte-americana não pode dizer o mesmo”.103 Essa suposta
neutralidade política dos policeman ingleses, assombrava a alguns viajantes
americanos. Segundo um cronista argentino em Nova York era “notório que a polícia
tomava parte ativa nas disputas eleitorais”, enquanto que em Londres qualquer
vigilante que se intrometer em questões partidárias, era imediatamente despedido do
serviço. “Bobby deixa de ser Bobby quando o descobrem”.104

101
LABANCA, Nicolás. Recuerdos de la comisaría 3º. Ambiente y acción policial hace 50 años.
Buenos Aires: Ediciones Viomar, 1969, p. 29.
102
CARVALHO, Elysio de. A polícia carioca. A criminalidade contemporânea. Op. Cit., p. 28.
103
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Op. Cit., p. 163.
104
“La policía de Londres. Un estudio curioso”, Revista de Policía, Año VI, n. 145, Buenos Aires, 1
jun. 1903, p. 395. Este argumento foi resaltado por um historiador que comparou o desempenho dos
cops norte-americanos e os Bobbies londrinos do século XIX, assinalando ainda que os primeiros
intervinham nos conflitos sociais (por exemplo, os enfrentamentos entre trabalhadores nativos e
imigrantes em diversas cidades dos Estados Unidos) em qualidade de parte interessada. MILLER,

133
Alguns policiais da Argentina e Brasil, no entanto, se irritavam com os elogios
ao policial inglês. Muitos apelavam a contra-argumentos estatísticos, revelando com
cifras que os vigilantes de Londres recebiam melhores salários, trabalhavam menos
horas e, dividindo a quantidade total de agentes pelos quilômetros quadrados da
cidade, resultava maior a extensão territorial que devia patrulhar cada policial carioca
ou portenho.105 Outros, talvez a maioria, pensavam que o Bobby podia ser muito
bonito, porém, assim como era, com sua elegância, não poderia sobreviver nem uma
tarde na selva urbana das capitais sul-americanas, entre tanta falta de respeito à lei,
tanta viveza criolla, tanta malandragem carioca, tanta desordem. Isidoro Nunes,
tenente da Polícia Militar do Rio de Janeiro, se referia a isso quando criticava uma
nota do jornal O Brasil:

Oxalá pudesse o policial do Rio de Janeiro imitar o policial


londrino, não no ponto de vista da instrução, porque esta lhe é
ministrada eficientemente nas Escolas da Polícia Militar, mas sim
no tocante a deixar, filosoficamente, nos quartéis suas armas e sair
como qualquer cidadão, em calmas atitudes de passeio, para
exercitar sua dupla missão preventiva e repressiva nas ocasiões em
que seja ameaçada a ordem pública na nossa capital, onde o
clássico não pode! ainda conta alguns prosélitos nos momentos
precisos.106

Não obstante, nestes livros de viagem havia uma região do trabalho policial
onde a Inglaterra parecia estar bastante atrasada, pelo menos em relação à França: a
“caça de delinquentes”, segundo a expressão que usava Brasil Silvado. O brasileiro
escrevia que em Londres os grandes crimes ficavam na impunidade e que “apesar do
orgulho britânico, a polícia inglesa consulta constantemente à Prefeitura de Paris”.
Quando os visitantes diziam-lhe isso, Monsieur Bertillon, “sorria maliciosamente”.107

Wilbur R. Cops and Bobbies. Police Authority in New York and London, 1830-1870. Chicago:
Chicago University Press, 1977.
105
Ver: “Las policías de Londres y Buenos Aires. Comparación entre sus gastos y servicios”, Boletín
de Policía, Año I, n. 8, Buenos Aires, 15 ago. 1905, p. 11-12. “Variedades”, Revista Policial, Ano II,
n. 14, Rio de Janeiro, 25 ago. 1904, p. 140.
106
NUNES, Isidoro.“O elogio do policial londrino”, Revista de Polícia, Club dos Oficiais da Polícia
Militar, Ano I, n. 8, Rio de Janeiro, ago. 1926, p. 244.
107
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Op. Cit., p. 158.

134
Como Auguste Dupin, o detetive imaginado por Edgar Allan Poe, o investigador
ideal, o descobridor de crimes da polícia, falava francês. Um folhetinista portenho,
autor de famosos romances populares sobre vigilantes e ladrões, se referia às técnicas
de investigação criminal como uma “especialidade da polícia belga”, em tempos que
em Buenos Aires os próprios delegados perseguiam aos autores dos delitos.108

Cruz Sobrinho reconhecia que esta linhagem francófona vinha de “épocas


remotas”, ao menos do início do século XIX, quando Vidocq começou a trabalhar na
Sûreté e a contratar criminosos, alguns velhos amigos dele, como espiões e agentes
infiltrados.109 Mujica Farías e Brasil Silvado rejeitavam esta tradição da “polícia
secreta” e asseguravam que tudo isso havia mudado na França. Sem recrutar antigos
criminosos, nem deixar as tarefas em mãos de informantes imorais, Paris soube se
manter como a capital mundial da investigação graças à inovação tecnológica. Os
agentes do serviço de segurança eram selecionados com critérios estritos e instruídos
em escolas de formação profissional.110 “O inspecteur francês é o nosso agente de
polícia, a quem o povo tão impropriamente chama secreta”, afirmava o comissionado
brasileiro.111 Em Paris eram agentes verdadeiramente secretos que manejavam com
maestria a técnica da camouflage: “uma verdadeira arte, ensinada, estudada e
praticada nos alojamentos da Brigada de Segurança, com essa finura, gosto e
perfeição peculiares ao inteligente povo francês”.112

Em 1894, Lépine havia criado uma Direção Geral de Investigações, a que


Mujica Farías dedicava três capítulos inteiros. As brigadas de polícia política, as
“brigadas de costumes”, a Sûreté, o arquivo com antecedentes criminais e o cada vez
mais poderoso Serviço de Identificação Judiciária de Alphonse Bertillon ficavam sob
a órbita desta enorme repartição. Tal como veremos no próximo capítulo, o bureau
de Bertillon era um dos passeios mais esperados pelos visitantes sul-americanos. Era
aí onde estava em jogo, mais que em nenhum outro lugar, o caráter científico da
polícia moderna. Mas, além disso, nesse espaço começavam a se tramar outras

108
GUTIÉRREZ, Eduardo. Amor funesto. Buenos Aires: La Patria Argentina, 1881, p. 6.
109
CRUZ SOBRINHO. “A Polícia de Paris e a nossa”, Op. Cit., p. 11.
110
MUJICA FARÍAS, Manuel. La Policía de París. Op. Cit., p. 257.
111
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Op. Cit., p. 34-35.
112
Idem, p. 34.

135
formas de intercâmbio entre os policiais, que iam muito além da comparação de
modelos institucionais.

O sistema de fichas de identificação antropométrica ideado por Bertillon


aspirava a internacionalizar-se e converter-se em um mecanismo de cooperação
policial. A “permuta de fichas signaléticas” já era uma realidade, segundo Brasil
Silvado, facilitada pelos rápidos meios de locomoção da Europa. E lamentava que o
Rio de Janeiro não houvesse implementado um Gabinete Antropométrico de acordo
com os princípios parisienses, como já o haviam feito Montevidéu e Buenos Aires, as
capitais vizinhas do Rio da Prata.113 O brasileiro saiu encantado de sua visita pelo
serviço de Bertillon e levou de lembrança uma ficha antropométrica com seu próprio
retrato de frente e perfil.

“Modelo de cartão antropométrico”


Fonte: João Brasil Silvado, O serviço policial em Paris e Londres, 1895, p. 95.

113
Idem, p. 112.

136
Mujica Farías também destacava as possibilidades de cooperação internacional,
a propósito de outro invento de Bertillon, a técnica do “retrato falado” (portrait
parlé):

O dia em que a polícia internacional o tiver adotado


definitivamente será como um olho universal que desmascarará os
criminosos, apesar da perfeição de seus disfarces. A adoção deste
elemento novo para a polícia, e a repressão internacional dos
crimes graves, não deixaria de sinalar um progresso verdadeiro na
caça ao homem culpável, que constitui talvez a parte mais
importante e menos fácil da ação repressiva.114

As polícias das capitais brasileiras e argentinas começavam a se preocupar pelo


intercâmbio de informações com seus pares europeus, e também com as conexões
entre si. A organização de um sistema de investigações criminais ainda era uma
dívida, embora Brasil Silvado antecipasse em 1895 uma questão que estaria presente
nas reformas policiais cariocas no começo do século XX. Afirmava que Buenos
Aires já contava com um corpo de agentes de investigação e que, pela aproximação
territorial e os constantes fluxos de pessoas entre ambos os países, era lamentável
que o Rio de Janeiro estivesse tão defasado. Havia que entrar urgente na era da
polícia técnica. “No dizer de um escritor francês, o crime, tendo-se tornado
profissional, exige também uma polícia profissional e científica”.115

114
MUJICA FARÍAS, Manuel. La Policía de París. Op. Cit., p. 306.
115
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Op. Cit., p. 235.

137
O bureau e o laboratório

Seria desejável que o nome de cada homem


estivesse escrito em sua testa, bem como
gravado em sua porta. Seria desejável que
não existisse nenhum segredo, que a casa de
cada homem fosse feita de vidro.
1
Jeremy Bentham, Deontology (1834).

João Brasil Silvado e Manuel Mujica Farías não foram os primeiros nem os
últimos policiais em se interessar pelo bureau de Alphonse Bertillon durante uma
viagem de estudos. Nos primeiros anos de existência, esse serviço foi visitado por
delegados de vários países, inclusive alguns sul-americanos. Na França, Brasil
Silvado havia advertido que os modernos sistemas de identificação de pessoas
começavam a ser usados no campo da cooperação internacional entre policiais
europeus. Por sua parte, na segunda metade do século XIX as polícias da América
Latina haviam incorporado a produção de retratos fotográficos de criminosos, o que
foi percebido como um grande avanço em relação ao único método utilizado até esse
momento: a circulação de filiações escritas com dados pessoais.2

1
BENTHAM, Jeremy. Deontology or the science of morality. Vol 2. London/Edinburgh: Longman
and William Taft, 1834, p. 100.
2
A historiografia das modernas técnicas de identificação ganhou densidade recentemente. Alguns
autores têm mostrado que as práticas de vigilância baseadas na identificação individual apareceram
em meados do século XVIII, em contextos de tentativas por controlar a aceleração da mobilidade
territorial humana. Ver os trabalhos coletados em CAPLAN, Jane; TORPEY, John (eds.).
Documenting Individual Identity. The Development of State Practices in the Modern World.
Princeton: Princeton University Press, 2001; e também: ABOUT, Ilsen; DENIS, Vincent. Histoire de
l’identification des personnes. Paris: La Découverte, 2010. Sobre os inícios da fotografia com fins
policiais na Argentina, ver: GARCÍA FERRARI, Mercedes. Ladrones conocidos/sospechosos
reservados. Identificación policial en Buenos Aires, 1880-1905. Buenos Aires: Prometeo, 2010, p. 55-
78. Sobre a fotografia de criminosos no Brasil: KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. Negros no
estúdio do fotógrafo. Brasil, segunda metade do século XIX. Campinas: Unicamp, 2010, p. 205-259; e
PESAVENTO, Sandra J. Visões do Cárcere. Porto Alegre: Editora Zou, 2009.
A fotografia policial foi rapidamente utilizada para intercambiar informações
sobre diversos tipos de criminosos que atravessavam as fronteiras dos países. Em
1887, o chefe da polícia portenha, Aureliano Cuenca, escreveu uma carta à chefia do
Uruguai, propondo que os departamentos de polícia de ambas as capitais do Rio da
Prata trocassem “retratos de ladrões conhecidos que houvessem sofrido uma ou mais
condenações”.3 Para isso, Cuenca havia encarregado ao Comissário de Investigações
a impressão de uma galeria fotográfica de ladrões, que nesse mesmo momento
enviava a Montevideo.4 O chefe acrescentava:

Seria também de suma utilidade que quando uma quadrilha ou


ladrão tentasse mudar daquela cidade a esta, ou vice-versa, se desse
recíproco aviso por telégrafo à chefia respectiva, indicando o ponto
onde se dirige, informação que poderia obter-se facilmente por
meio das Delegacias de Investigações.5

Duas invenções do século XIX, a fotografia e o telégrafo, se complementavam


para auxiliar as polícias na perseguição dos criminosos viajantes. Cuenca foi um dos
chefes mais interessados na incorporação de inovações tecnológicas e por isso
comissionou o médico da instituição, Agustín Drago, para estudar o sistema
antropométrico aproveitando uma viagem dele à Europa em 1887.6 O laboratório

3
Carta de 16 jul. 1887, reproduzida em: ROMAY, Francisco L. Extradición de delincuentes y
cooperación policial. Buenos Aires: Talleres Gráficos de la Penitenciaría Nacional, 1944, p. 13-14. E
em: REPÚBLICA ARGENTINA. Memoria del Departamento de Policía de la Capital, 1887-1888.
Buenos Aires: Imprenta del Departamento de Policía de la Capital, 1888, p. 35-36.
4
Esta galeria foi publicada em dois volumes nesse mesmo ano: POLICÍA DE LA CAPITAL
FEDERAL. Galería de Ladrones de la Capital, 1880 a 1887. Buenos Aires: Imprenta del
Departamento de Policía, 1887.
5
REPÚBLICA ARGENTINA. Memoria del Departamento de Policía de la Capital, 1887-1888. Op.
Cit., p. 35.
6
A viagem também havia sido uma visita de estudo encomendada pela chefia de polícia, embora
originalmente tivesse propósitos mais amplos e envolvesse outras cidades europeias. Isso fica claro na
carta que Cuenca entregou a Drago para que pudesse apresentá-la frente ao Prefeito Lépine: “Tenho a
honra de me dirigir a V.Sa. solicitando sua valiosa cooperação para que o Doutor Agustín Drago, que
apresentará pessoalmente esta nota, possa desempenhar com êxito a comissão que esta chefia lhe
confiou. Creio que em nenhuma parte mais que nas grandes capitais europeias, e especialmente
naquelas como Paris que tem reputação de contar com um excelente serviço de polícia, pode-se achar
um modelo para a organização definitiva do serviço médico policial. É este estudo o que constitui a
comissão encomendada ao Doutor Drago”. Drago levou à Europa cartas similares para apresentar nas
polícias de Londres, Viena, Bruxelas e Madrid. Idem, p. 38.

139
fotográfico, instalado na Polícia de Buenos Aires desde a década de 1870, era,
segundo Cuenca, uma “repartição de bastante movimento que, caso se estabelecesse
o Gabinete Antropométrico, duplicaria seu trabalho”.7 Drago regressou a Buenos
Aires em abril de 1888 e expôs ao chefe os resultados de suas observações em Paris.
Entusiasmado, Cuenca o autorizou a adquirir os instrumentos e aparelhos necessários
para o estabelecimento do serviço.8 Oficialmente, o Gabinete foi inaugurado um ano
depois, porque foi necessário instruir os funcionários na tomada de medições
antropométricas e no registro dos dados nas fichas. A “ordem do dia” da chefatura
que criou esta repartição por decreto, em abril de 1889, dizia:

Em vista do crescimento gradual da população e por consequência


do aumento proporcional da criminalidade, é necessário adaptar o
serviço da polícia a todas aquelas melhoras, cuja prática nas nações
europeias tem alcançado excelentes resultados. (...) Não há
atualmente base fixa para comprovação de identidade, nem se
subordina a nenhum princípio científico, de onde resulta que a
circunstância agravante da reincidência não pode, na maior parte
dos casos, ser estabelecida com precisão, pelo cuidado que têm
geralmente os criminosos de ocultar seus nomes e fornecer dados
falsos.9

Nesse mesmo ano realizou-se em Paris o II Congresso de Antropologia


Criminal, que foi central para a difusão transnacional do sistema antropométrico. O
primeiro (Roma, 1885) havia consagrado a Scuola Positiva italiana, liderada pelo
grande professor de Turim, Cesare Lombroso. A própria exposição parisiense
dedicou à nova ciência um setor na seção de ciências antropológicas, onde se
exibiam fotografias de delinquentes, pedaços de peles curtidas para conservar
tatuagens, esqueletos humanos, crânios e cérebros. Podiam-se ver também alguns
instrumentos – antropômetros, catetômetros – empregados pelas disciplinas da moda,
como a frenologia e a craniometria. Uma verdade científica parecia emanar dos

7
Idem, p. XIV.
8
CONI, Emilio R. Código de Higiene y Medicina Legal de la República Argentina. Buenos Aires:
Librería de Juan Etchepareborda, 1891, p. 392-393.
9
CEHP. “Orden del día 3 de abril de 1889”, Libro de Órdenes del Día 1889.

140
próprios corpos dos criminosos para tirar o crime da obscuridade do enigma
metafísico.

No entanto, este segundo congresso foi testemunha da emergência de vozes


contrárias à ideia do homo criminalis. As diatribes partiram da Escola de Lyon, onde
se destacava o fundador da prestigiosa revista Archives d’Anthropologie Criminelle
(1885-1914), o médico legista Alexandre Lacassagne. Ele será um dos principais
opositores à teoria lombrosiana e difusor de outras chaves interpretativas, tais como
os estudos de Gabriel Tarde sobre a influência do meio social na formação de uma
carreira criminal. Mas, por sua vez, Lacassagne se encarregou de dar um grande
impulso a uma região diferente dos saberes sobre a questão criminal. Desde sua
cátedra na Faculdade de Lyon, organizou um Museu e um Laboratório de Medicina
Legal, deixando ainda uma fileira de discípulos como Edmond Locard, verdadeira
eminência do campo de conhecimentos que começara a institucionalizar-se sob o
nome de “polícia científica” ou “criminalística”, uma amálgama eclética de técnicas
aplicadas à investigação e à reconstrução das circunstâncias materiais que rodeavam
o delito.10

Por isso, pouco chama a atenção o fato de que Lacassagne, ao mesmo tempo
em que combatia as “teorias antropométricas” (como ele chamava as contribuições
dos criminologistas italianos), acolhia com entusiasmo os novos usos que o policial
francês Alphonse Bertillon inventou para a antropometria. Estas técnicas não
buscavam uma explicação científica da etiologia do delito; ao contrário, aplicavam a
ciência para resolver alguns problemas concretos das burocracias judiciais e
policiais. No momento do Congresso de 1889, Bertillon já era Chefe do Serviço de
Identificação na Prefeitura de Polícia de Paris e membro da Sociedade de
Antropologia. Essas conquistas, junto ao apoio de Lacassagne, foram suficientes para
que ele se imiscuísse na lista de médicos e advogados do comitê organizador, sem ter
ele próprio título universitário algum.

A aposta de Bertillon era difundir seu sistema pelas polícias do mundo, uma
ambição desmedida, sem dúvidas, mas que começava a dar seus primeiros frutos.

10
QUINCHE, Nicolas. Sur les traces du crime. De la naissance du regard indicial à
l’institutionnalisation de la police scientifique et technique en Suisse et en France. Genève: Slatkine,
2011.

141
Após uma conferência teórica e prática sobre a identificação antropométrica,
Bertillon sentou-se em uma mesa presidida por Lombroso, para escutar o discurso de
um dos representantes argentinos. O bacharel Cantilo explicou que o sistema já havia
sido adotado fora da França: as polícias de alguns estados norte-americanos e a de
Buenos Aires tinham serviços antropométricos instalados sob os lineamentos de
Bertillon. Ao final de sua exposição, Cantilo leu as seguintes palavras:

O Congresso Antropológico declara o sistema de Bertillon aceito


para a determinação da identidade individual, por seus resultados
práticos incontestáveis. Considera que sua generalização, sua
instalação oficial em cada país, será de grande utilidade como
auxiliar das leis penais para a repressão do crime, e proporcionará
preciosos dados para os estudos de antropologia criminal.11

Nesta proposta, aprovada por unanimidade, continham-se as chaves do triunfo


internacional e das resistências imediatas ao sistema, assim como também parte dos
motivos de seu futuro declínio. Esta mesa no congresso de 1889 marca o início da
difusão transnacional do sistema de Bertillon, tanto ao interior da Europa como em
outros continentes. O caso da América Latina teve uma notável visibilidade: a partir
de viagens de estudo a Paris, traduções de artigos e manuais de Bertillon, formaram-
se especialistas em identificação antropométrica em países como México, Equador,
Peru, Chile, Uruguai, Argentina e Brasil.12 O próprio Bertillon reconhecia que a
polícia de Buenos Aires havia sido a primeira a adotar oficialmente seu método fora
da França. No entanto, o notável desenvolvimento de técnicos locais terminou
posicionando este continente, em especial a Argentina e o Brasil, como um dos
principais núcleos de oposição à antropometria judiciária, desde o momento em que
as polícias sul-americanas afirmaram a superioridade da datiloscopia.

11
CANTILO, M. “Sur le signalament anthropométrique”. In: Actes du Deuxième Congrès
International d’Anthropologie Criminelle, Biologie et Sociologie, Paris, 1889, p. 379.
12
Sobre a difusão na América Latina ver: GALEANO, Diego; GARCÍA FERRARI, Mercedes.
“Cartographie du bertillonnage. Le système anthropométrique en Amérique latine: circuits de
diffusion, usages et résistances”. In: PIAZZA, Pierre (dir.). Aux origines de la police scientifique.
Alphonse Bertillon, précurseur de la science du crime. Paris: Karthala, 2011, p. 308-331.

142
No ano seguinte à inauguração do Gabinete Antropométrico de Buenos Aires e
à consagração internacional do método de Bertillon no congresso parisiense, o
médico carioca Henrique Monat enviava da França ao primeiro chefe de polícia da
República do Brasil, um relatório sobre o sistema antropométrico.13 A instabilidade
política dos primeiros anos republicanos impediu avançar com as diferentes
propostas que chegaram às mãos das chefias. Em 1891, por exemplo, o professor da
Faculdade de Direito de Recife, Joaquim de Albuquerque Barros Guimarães, viajou a
Paris para estudar o sistema antropométrico, comissionado pelo governo federal.14
No ano seguinte, apresentou um volumoso relatório cujos capítulos foram publicados
parcialmente, em 1900, pelo “Boletim do Serviço de Identificação Judiciária”. No
relatório, o jurisconsulto pernambucano argumentava que os “malfeitores
internacionais” estavam desaparecendo de Paris e se mudavam a outras cidades
europeias, com medo que o serviço de identificação demonstrasse sua condição de
reincidentes e, em consequência, a justiça os deportasse às colônias francesas.15
Além disso, Barros Guimarães acrescentava:

São numerosos os casos de reconhecimento por informações


trocadas entre o serviço de Paris e o dos departamentos e dos
países estrangeiros que já possuem esse melhoramento [o sistema
antropométrico]. Em caso de urgência, as informações são pedidas
e transmitidas pelo telégrafo. Tudo leva a crer que em pouco tempo
será somente do domínio do romance o êxito feliz das declarações
falsas de identidade pessoal.16

As falsas declarações de identidade eram parte de um amplo universo de


simulações que invadiam as capitais sul-americanas e surpreendiam inclusive muitos
policiais, cronistas da imprensa e escritores de literatura. “Abriu uma caixa de
papelão, da qual sacou três estojos e umas barbas postiças”, escrevia Martel em La

13
MONAT, Henrique. “Carta do Dr. Henrique Monat”, Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, Ano
XLII, n. 117, 1903, p. 17-18.
14
AN, Fundo GIFI, Gabinete do Ministro, 8N-80. Despacho do Sr. Ministro da Justiça, 5 fev. 1892.
15
BARROS GUIMARÃES, Joaquim de Albuquerque. “Efeitos da aplicação do Método Bertillon”,
Boletim do Serviço de Identificação Judiciária, n. 2, Rio de Janeiro, mar. 1900, p. 2.
16
Idem, p. 5.

143
Bolsa. “Pouco depois, ninguém, nem o policial farejador de melhor olfato, poderia
suspeitar quem se ocultava detrás daquele operário loiro, com óculos azuis e ar
cordial”.17 Mudança de nomes, emprego de um arsenal de pseudônimos e disfarces
de todos os tipos eram parte do trabalho dos ladrões viajantes, que aproveitavam uma
realidade urbana cada dia mais contundente: nas capitais sul-americanas, em especial
nas cidades que recebiam imigrações maciças, as interações cotidianas estavam
dominadas pelo anonimato.

Simulações e identidades

Em 1888, na revista policial de Buenos Aires, apareceram duas notas sobre o


serviço antropométrico de Paris, sem menção de autor, mas provavelmente escritas
pelo próprio Agustín Drago. Na primeira delas narrava-se o caso, observado na
repartição de Bertillon, de um criminoso francês que ao ser preso dizia se chamar
Pedro Durand, ter nascido na cidade de Nîmes e não ter antecedentes penais. Depois
de tomarem suas medições antropométricas e buscarem seu caso no arquivo, os
policiais franceses haviam conseguido demonstrar que se tratava de Louis Dubois,
um sujeito nascido em Bordeaux e que tinha seis condenações prévias. “E como à
ficha está anexada a fotografia”, não havia forma de negar sua verdadeira identidade:
“o malfeitor teve que confessar imediatamente que havia firmado o processo verbal
com falso nome, na delegacia de polícia”.18 Na segunda nota, o autor explicava:

Este sistema tem por objetivo determinar a identidade dos


indivíduos reincidentes que pretenderem ocultar seu estado civil.
(...) A fotografia, usada antes a esse efeito, não podia dar resultados
positivos sobretudo nas grandes populações. Sendo muitos os

17
MARTEL, Julián. La Bolsa: estudio social. Buenos Aires: Imprenta artística Buenos Aires, 1898, p.
256.
18
“El servicio antropométrico de París”, Revista de la Policía de la Capital, Año I, n. 2, Buenos
Aires, 15 jun. 1888, p. 22-23.

144
indivíduos presos, as coleções fotográficas eram imensas (...). A
única classificação que podia ser empregada era a ordem alfabética
e bastava que o preso desse um nome falso para que o índice não
tivesse nenhuma utilidade.19

Os policiais sul-americanos estavam fascinados com as promessas do sistema


antropométrico, sobre a possibilidade de resolver um problema que eles viviam no
cotidiano e na própria pele. Até pouco tempo, os vigilantes estavam habituados a
visitar os calabouços das delegacias e as prisões para realizar rondas de
reconhecimento de “ladrões conhecidos”, uma prática baseada na memória visual
que na gíria da polícia portenha se denominava “mangiamento”.20 Assim como a
fotografia, esta prática também era superada pela realidade demográfica e criminal.
Bertillon pretendia trocar a velha escola do reconhecimento visual por um tipo de
memória policial objetivada em papeis, fichas e arquivos. Mas quem era este
personagem? E como havia chegado a solucionar este problema?

Alphonse Bertillon pertencia a uma família de reconhecidos cientistas


franceses. Seu pai, Louis-Adolphe Bertillon, era Diretor de Estatística e um dos
fundadores da Sociedade de Antropologia de Paris. Em 1879, foi ele quem lhe
conseguiu um emprego na Prefeitura de Polícia, após uma frustrada tentativa de
seguir carreira de medicina. Começou a trabalhar como auxiliar escrevente e passou
em seguida a um bureau dedicado à cópia e ordenação das fichas de criminosos.
Esses documentos eram guardados na sala de sommiers, um arquivo que conservava
os dados pessoais dos indivíduos condenados pelos tribunais de justiça. As fichas se
acumulavam nas estantes seguindo a ordem alfabética dos nomes e eram consultadas

19
“Determinación de la identidad. Sistema de señalamientos antropométricos”, Revista de la Policía
de la Capital, Año I, n. 3, Buenos Aires, 1 jul. 1888, p. 27-28.
20
DELLEPIANE, Antonio. El idioma del delito. Contribución al estudio de la psicología criminal.
Buenos Aires: Arnoldo Moen, 1894, p. 118. No mesmo momento em que Agustín Drago estava
estudando o sistema antropométrico na Europa, em Buenos Aires houve uma reunião dos funcionários
superiores no despacho da chefatura, com a presença do Comissário de Investigações e dos vinte
delegados da cidade. Um deles tomou a palavra para explicar que frequentemente levavam presos
“indivíduos sobre cujos maus antecedentes se têm veementes suspeitas, e que não podem ser
confirmadas pelos delegados porque eles dão nomes falsos”. A solução que propunha este delegado
era de levá-los nos “carros de polícia” para uma ronda pelos cárceres e correcionais, de modo que os
empregados dessas instituições os reconhecessem visualmente. REPÚBLICA ARGENTINA.
Memoria del Departamento de Policía de la Capital, 1887-1888. Op. Cit., p. 187.

145
pelos magistrados para saber se um acusado tinha antecedentes criminais, informação
que podia determinar um agravamento da pena por reincidência.

Desde a sanção de uma lei que em 1832 aboliu na França a prática de marcar a
pele dos reincidentes com um carimbo de ferro quente, o reconhecimento dos
reincidentes havia se tornado um processo burocrático bastante complexo. A busca
de um indivíduo no arquivo apresentava duas sérias complicações. Em primeiro
lugar, a quantidade de fichas crescia em ritmo constante e a averiguação fazia-se
cada dia mais dificultosa. Em segundo lugar, os chamados “malfeitores de profissão”
haviam aprendido um artifício para escapar à imputação de reincidência: bastava
trocar de nome, elegendo possivelmente um mais comum para aumentar a
dificuldade da procura na coleção alfabética, e desse modo a polícia não tinha forma
de demonstrar que esse nome era falso. Inclusive, essa artimanha tinha uma
expressão na gíria dos delinquentes franceses. Enganar a polícia e passar como um
novato sem antecedentes criminais era uma ação denominada “se blanchir”,
branquear-se.21

O problema da simulação de nomes era bem conhecido no século XIX. Em


vários romances de La Comédie humaine, Balzac criou um personagem chamado
Jacques Collin, um ex-presidiário que usava diferentes nomes falsos. Mas esta
questão excedia as ficções e o cotidiano dos policiais franceses. No Brasil, por
exemplo, o diretor do Gabinete Antropométrico do Rio de Janeiro explicava o
hipotético caso de um sujeito preso na Casa de Detenção sob o nome de Antônio,
logo depois condenado, mas posto em liberdade antes de ingressar na Casa de
Correção, pelo desconto de tempo da prisão preventiva. Se esse indivíduo fosse
novamente detido, mas desta vez declarasse chamar-se Pedro, como os registros de
condenações ficavam nos arquivos da Correção, ele seria “considerado como um
novo criminoso, quando não passa de um individuo insistente na prática do crime e,
muitas vezes, de um reincidente, nos restritos termos do nosso Código Penal”.22

21
KALUSZYNSKI, Martine. “Alphonse Bertillon et l’anthropométrie”. In: Vigier, Philippe; Faure,
Alain (eds). Maintien de l’ordre et polices en France et en Europe au XIXe siècle. Paris: Créaphis,
1987, p. 270-272.
22
CARMIL, Renato. “Circular da Seção de Identificação Anthropométrica da Polícia da Capital
Federal”, Boletim do Serviço de Identificação Judiciária, n. 3, Rio de Janeiro, mai.-jun. 1900, p. 10.

146
Foi para esquivar-se deste mesmo problema que a polícia francesa resolveu
abonar uma gratificação de cinco francos a cada agente – policial ou penitenciário –
que reconhecesse um reincidente. Esta proposta confiava na capacidade dos
funcionários para memorizar os rostos dos criminosos, tradição que Macé, chefe da
Brigada de Segurança (Sûreté), chamava de “école de reconnaissance”. Bertillon,
acérrimo inimigo de Macé dentro da polícia parisiense, denunciava as deficiências
desta prática, pelos métodos violentos e truques ilegais que utilizavam para obter
uma confissão de reincidência. Segundo Bertillon, quando chegavam os carros com
detidos, estes eram submetidos, um por um, a interrogatórios que continham vários
tipos de emboscadas: “Ha quanto tempo não te vemos, meu velho!”, “Você de volta!
Como é mesmo que você se chama?”. E se o sujeito insistisse em afirmar um suposto
nome falso, os agentes empregavam uma armadilha um pouco mais sofisticada:
“Você afirma que seu nome é Bernard Paul, nascido em Paris tal ano! Bem, você está
sem sorte: aqui está a ficha desse tal Bernard que você pretende ser!”.23 Essa ficha
inventada continha supostamente uns antecedentes tão ruins que o preso preferia
retificar-se e confessar o verdadeiro nome, para evitar uma condenação maior.

Quando Bertillon começou a trabalhar na sala dos sommiers, as fichas incluíam


retratos fotográficos. Sem dúvidas, esta técnica brindava uma prova mais precisa em
relação às descrições que até então ajudavam ao reconhecimento (idade, cor de pele,
altura, cicatrizes, etc.). O problema era que o acervo de fichas fotográficas
aumentava tanto quanto os pedidos de comprovação de reincidência. Enquanto
estava sendo discutida a lei de relegação forçada de reincidentes às colônias
francesas, Bertillon interveio apontando um obstáculo burocrático ao que poucos
pareciam prestar atenção:

Não é suficiente fazer uma lei contra os reincidentes; é preciso


também aplicá-la. Para condenar um reincidente à deportação, a
primeira condição é reconhecer sua identidade. Se um indivíduo
condenado certa vez sob o nome de Pierre afirma que se chama

23
BERTILLON, Alphonse. L'Identité des récidivistes et la loi de relégation. Paris: G. Masson, 1883,
p. 4.

147
Paul e que não tem condenação prévia, como podemos suspeitar de
sua mentira? Como podemos demonstrá-la? 24

Os retratos fotográficos podiam completar a tarefa de reconhecimento de um


sujeito, em caso de encontrar sua ficha, mas o desafio era precisamente encontrá-la.
A classificação alfabética demonstrava uma enorme fragilidade ante a prática da
simulação de nomes e a fotografia, pois ela própria não permitia nenhum tipo de
classificação. O método criado por Bertillon oferecia um fio de Ariadne para se
orientar no labirinto desses arquivos criminais: tratava-se de um novo procedimento
para a elaboração e classificação das fichas. Este ponto é fundamental para entender
o sentido da identificação antropométrica: embora o sistema fosse se modificando
com os anos, Bertillon manteve desde o início uma ideia que estava presente em
1879, quando apresentou ao Prefeito Andrieux um primeiro ensaio de seu método
classificatório baseado nas medidas corporais dos detidos. Nessa ocasião, a chefia
recusou a proposta, qualificando seu invento de fumisterie.

Em que consistia exatamente esta inovação? Inspirado nas ideias da


antropologia física, fundamentalmente no pensamento de Paul Broca e Adolphe
Quételet, Bertillon experimentou métodos para classificar estatisticamente as
medidas do corpo humano. Os ensaios baseavam-se em duas premissas básicas: por
um lado, a fixidez quase absoluta da ossatura a partir do vigésimo ano de idade e, por
outro, a diversidade extrema das dimensões comparando as medidas de um indivíduo
com qualquer outro. Bertillon estabeleceu uma técnica baseada em nove medições
corporais: estatura, envergadura, altura do busto, comprimento e largura da cabeça,
comprimento e largura da orelha direita, comprimento do pé, dedo médio e antebraço
esquerdo. Estas medições eram realizadas com instrumentos bem simples (precisava-
se apenas de uma escala métrica fixa na parede, um tamborete, um cavalete e uma
série de compassos), mas a precisão milimétrica de cada uma das medidas era
essencial para o êxito da classificação.25

24
Idem, p. 1-2.
25
BERTILLON, Alphonse. Identification anthropométrique. Instructions signalétiques. Melun:
Imprimerie administrative, 1893.

148
“Tomada do assignalamento anthropométrico”
Fonte: João Brasil Silvado, O serviço policial em Paris e Londres (1895), p.113.

A partir destas nove medidas se iniciava a classificação das fichas. O


procedimento estatístico se aplicava a um corpus de 120.000 sujeitos mensurados,
dos quais 20.000 eram mulheres e 10.000 homens menores de 21 anos. Descartando
essas duas populações, ficava então um conjunto de 90.000 homens adultos. O
primeiro passo era separá-los em três grupos de 30.000 fichas cada um, seguindo
uma tripla divisão das medidas da cabeça (comprimento pequeno, médio e grande;
categorias que eram determinadas por uma série de algoritmos). Cada um destes
grupos era subdividido em outros três de 10.000 fichas cada um, de acordo com as
dimensões da largura da cabeça. Estes nove conjuntos eram novamente divididos em
três, pelo comprimento do dedo, o que dava um total de vinte e sete subdivisões de
3.300 assinalamentos. Bertillon continuava esta lógica com outras medidas, até

149
chegar finalmente a uma caixa que somente continha uma dezena de fichas, em uma
operação que demorava – segundo seu autor – apenas alguns minutos.26

Para Bertillon, dois indivíduos podiam ter algumas dessas medidas iguais, mas
em nenhum caso apresentariam as mesmas dimensões nas nove categorias. Dessa
maneira, o próprio corpo humano brindava os dados necessários para estabelecer
rigorosamente a “identidade”, entendida aqui como uma qualidade do indivíduo que
o faz absolutamente singular; característica em que se pode reconhecer sempre como
ele mesmo e como diferente, por sua vez, de qualquer outro indivíduo. Quando um
detido passava pelo Serviço de Identificação, tiravam suas medidas e as anotavam
em uma ficha junto com outros dados. As medições antropométricas permitiam por
em funcionamento o sistema de classificação de fichas, mas a comprovação direta da
identidade se completava com três conjuntos de informações adicionais.

O primeiro era o que se chamava “assinalamento descritivo”, um tipo de


racionalização das velhas filiações de criminais usadas para auxiliar os pedidos de
capturas. Bertillon codificou cada um dos dados resultantes da observação
morfológica e fisionômica de uma pessoa, até criar um esquema quase matemático
para explicação verbal da aparência física, conhecido como “retrato falado”. A
explicação da forma do nariz, orelha ou sobrancelhas deveria estar sujeita a uma
série de fórmulas descritivas precisas que poderiam ajudar na identificação de um
suspeito na via pública. Especial atenção dedicou à reconstrução do olhar e de toda a
fisionomia que rodeava aos olhos.27

O relevo de “marcas particulares” constituía um segundo conjunto de dados,


utilizado para comprovar a identidade individual, uma vez que se chegava, seguindo
a classificação, a uma quantidade manipulável de fichas. Neste caso, tratava-se de
uma localização e descrição minuciosa das cicatrizes, marcas e tatuagens localizadas
no corpo do sujeito mensurado. Finalmente, o processo de identificação concluía
com a incorporação da “fotografia judiciária”. Mesmo que os registros fotográficos
não tivessem nenhuma utilidade para a classificação, uma vez que o sistema

26
BERTILLON, Alphonse. Identification anthropométrique. Op. Cit., p. XXI-XXV.
27
Dentro do kit de instrumentos para a identificação antropométrica, que os serviços policiais de
vários países importaram de Paris, havia uma tabela com as variações cromáticas da pigmentação da
íris. Idem, p. 137-140.

150
antropométrico tornava possível chegar até uma ficha, a coincidência do retrato
estampado no papel com rosto do detido era uma prova mais que contundente.

De fato, a aceitação da antropometria na Prefeitura de Polícia de Paris chegou a


começos de 1883 através de uma identificação exitosa que combinou o método de
classificação com a fotografia. Depois do fracasso de 1879, um novo prefeito
concedeu a Bertillon dois empregados auxiliares e três meses para identificar um
reincidente, prazo em que ele chegou a acumular umas duas mil fichas. Certo dia,
após medir um detido por roubo, a classificação o conduziu a uma ficha
confeccionada pelo próprio Bertillon. O nome não coincidia e o preso negava esses
antecedentes por roubo, mas quando lhe mostraram a ficha acompanhada pelo seu
retrato fotográfico, ele terminou confessando a identidade.28

A partir desse momento, a carreira de Bertillon seguiu uma linha de ascensão


acelerada. A chefia resolveu criar um bureau de identificação anexo à Sûreté, que
entre 1882 e 1888 produziu 31.849 medições antropométricas com um saldo de 615
reincidentes identificados que usavam nomes falsos.29 Além disso, Bertillon
reformou completamente o modo de produzir fotografias na polícia, a partir de
instruções que buscavam evitar qualquer tipo de intervenção artística (os retoques na
imagem eram até então habituais inclusive na fotografia de criminosos), e estipular
condições rigorosas no ângulo e na posição do corpo.30 O efeito mais visível dessas
mudanças foi a estandardização da fotografia de frente e perfil, uma técnica que na
década de 1890 estendeu-se pelas polícias do mundo, incluindo as brasileiras e as
argentinas:

28
DARMON, Pierre. Médicos e assassinos na Belle Époque: a medicalização do crime. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1991, p. 218-220.
29
BERTILLON, Alphonse. Notice sur le fonctionnement du service d'identification de la Préfecture
de Police: suivie de tableaux numériques résumant les documents anthropométriques accumulés dans
les archives de ce service. Paris: G. Masson, 1889, p. 847.
30
BERTILLON, Alphonse. La Photographie Judiciaire en France: avec un appendice sur la
classification et l’identification anthropométriques. Paris: Gauthier-Villars et fils, 1890.

151
Fotografia Judiciária da Polícia da Capital Federal (1896)
Fonte: AN, Fundo GIFI, 6C8

Manuel Rossi, retratado em agosto de 1889


Fonte: BNA, Galería de Ladrones, 1888-1891. Buenos Aires, 1892, ficha 34.

152
Uma vez consolidado o serviço de identificação na Prefeitura de Polícia,
Bertillon avançou na criação de um sistema nacional centralizado em Paris
(conquista concretizada em 1893), e ainda continuou estendendo suas investigações a
outros domínios da polícia científica: fotografia métrica no lugar do crime,
identificação de cadáveres, etc.31 Todo esse ensamble de técnicas foi batizado por
Lacassagne com o nome de bertillonnage, apelido que dominaria a cena na árdua
tarefa de difusão internacional que recém começava.32

Antes da irrupção de Vucetich no teatro mundial das técnicas de identificação,


Bertillon dominava a cena com relativa comodidade. Em 1893, quando acabava de
conseguir a aceitação do método em toda França, o pai da antropometria celebrava as
conquistas no mundo: Estados Unidos, Bélgica, Suíça, Rússia, Romênia e “grande
parte das repúblicas da América do Sul” haviam seguido o exemplo. Mas é preciso
compreender o que estava em jogo quando se discutia o alcance territorial do
sistema. Bertillon citava um documento difundido pelo Departamento de Polícia de
Genebra, onde se afirmava que desde a implementação da antropometria judiciária,
as “associações internacionais de malfeitores” e os “criminosos de profissão” dessa
cidade começavam a emigrar para Bélgica.33

Em sintonia com Barros Guimarães, Brasil Silvado destacava o efeito


produzido pelo método de Bertillon sobre a classe dos “ladrões internacionais”,
grupo que agora tratava de “evitar os lugares onde existe a identificação
antropométrica”. Porém, Brasil Silvado ainda adicionava outro argumento a favor da
implementação do sistema no Brasil. Da mesma forma que os criminosos de Genebra
migravam a Bruxelas para fugir da temível novidade policial, os ladrões do Rio da
Prata, cujo principal porto já contava com serviços antropométricos, poderiam
aproveitar a ausência de gabinetes de identificação nas cidades brasileiras.34 Por isso,

31
ABOUT, Ilsen. “Les fondations d’un système national d’identification policière en France (1893-
1914). Anthropométrie, signalements et fichiers”, Genèses, Paris, n. 54, 2004, p. 28-52.
32
LOCARD, Edmond. “L’œuvre d’Alphonse Bertillon”, Archives d’Anthropologie Criminelle, n. 243,
1914, p. 169.
33
BERTILLON, Alphonse. Identification anthropométrique. Op. Cit., p. LXXXII.
34
SILVADO, Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Relatório apresentado ao Ministro da
Justiça e Negócios Interiores, sendo ministro o ilustrado cidadão Dr. Gonçalves Ferreira. Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, 1895, p. 106.

153
logo após explicar cada um dos componentes do bertillonnage, recomendava
energicamente sua adoção no Brasil, para evitar a defasagem com a capital argentina.

Os gabinetes antropométricos

O que curiosamente Brasil Silvado desconhecia aqui era que enquanto ele
viajava pela Europa, o chefe da Polícia da Capital Federal, coronel Valladão, abria
no Rio de Janeiro um gabinete antropométrico. Diferente do caso argentino, aqui a
iniciativa provinha de fora da esfera policial: partiu do seio da Associação de
Antropologia e Assistência Criminal, fundada em 1892 por um grupo de médicos
legistas, juristas e criminologistas ligados à escola italiana, como Agostinho J. de
Souza Lima, Cândido Mendes de Almeida, José A. de Souza Gomes e Antônio
Maria Teixeira. Estes três últimos constituíram uma comissão que estudou o relatório
de Barros Guimarães e redigiram um parecer – datado de 20 de abril de 1893 – com a
ideia de persuadir o governo para que criasse o serviço. Nesse mesmo ano, antes de
fazer com que a Polícia da Capital aceitasse a proposta, Souza Gomes viajou ao
estado de Minas Gerais em nome da Associação e conseguiu que a chefia da polícia
instalasse um gabinete antropométrico na Cadeia de Ouro Preto. Dirigido por um
médico, segundo parece, o gabinete foi fechado antes de chegar a funcionar
regularmente.35

A presença de médicos e criminologistas marcou as tentativas burocráticas


destes anos. De fato, a entrada do bertillonnage no Brasil deve ser pensada no clima
de reformas institucionais durante os primeiros anos republicanos. O duplo estatuto
científico e técnico do sistema antropométrico foi bem recebido por uma fração das
elites urbanas que pretendia sustentar o exercício do poder político sobre as bases da
ciência moderna. Mas, ao mesmo tempo, foi objeto de uma multiplicidade de

35
CARMIL, Renato. “Relatório sobre o serviço de identificação antropométrica, apresentado ao
cidadão Ministro da Justiça e Negócios Interiores, pelo bacharel Renato Carmil, 4° adjunto dos
promotores”, Diario Official da União, Ano XXXVI, n. 91, abr. 1897, p. 4537-4539.

154
ataques, suspeitas e resistências. O bacharelismo vigente desde a época do Império
estava vendo como brotavam uma pletora de novos saberes – higienismo,
criminologia, psiquiatria, medicina legal – que começavam a disputar espaços no
campo estatal.36

O gabinete carioca, inaugurado em 12 de outubro de 1894, foi instalado no


laboratório de medicina legal e ficou a cargo de um antigo médico da polícia,
Thomaz Coelho. Por outra parte, todos os indícios parecem respaldar a suspeita do
escritor Félix Pacheco, quando acusava os membros da Associação de haverem
montado o serviço com maior interesse em realizar estudos de antropologia criminal
que em identificar reincidentes.37 Durante seus escassos meses de atividade efetiva,
apenas foram medidos dezessete homens e duas mulheres, entre eles um menor de
idade.38 As inclinações criminológicas de seus impulsores serviram de argumento
para questionar a legalidade do gabinete antropométrico, posição que tomaram
alguns juristas de tendência liberal, porque entendiam que este método podia ser um
vexame aplicado sobre indivíduos que ainda não haviam recebido condenação.39

36
Neste terreno, o rival mais forte dos juristas foram os médicos, cuja ascensão durante a Primeira
República foi um processo bastante estudado pela historiografia brasileira Ver, por exemplo:
CARRARA, Sergio. Crime e loucura: o aparecimento do manicômio judiciário na passagem do
século. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998. CORRÊA, Mariza. As ilusões da liberdade: Nina Rodrigues e
a antropologia no Brasil. Bragança Paulista: EdUSF, 1998. ÁLVAREZ, Marcos. Bacharéis,
criminologistas e juristas: saber jurídico e nova escola penal no Brasil. São Paulo: Método, 2003.
ANTUNES, José Leopoldo Ferreira. Medicina, leis e moral: pensamento médico e comportamento no
Brasil (1870-1930). São Paulo: Unesp, 1999.
37
PACHECO, Félix. “O problema da identificação: reforma do serviço anthropométrico”, Jornal do
Commercio, Rio de Janeiro, 30 dez. 1902. Traduzido na Argentina em: PACHECO, Félix.
“Identificación de los delincuentes. Ventajas del sistema dactiloscópico”, Archivos de Psiquiatría,
Criminología y Ciencias Afines, Buenos Aires, abr.-mai. 1903, p. 227-235.
38
Pouco depois da inauguração do gabinete carioca, Souza Gomes publicou um folheto em que
mostrava os resultados de uma série de “exames antropométricos” sobre homicidas brasileiros, presos
nas Casas de Detenção e Correção. SOUZA GOMES, José A. Crimes e criminosos: contribuição para
o estudo da criminologia no Brasil. Rio de Janeiro: Typ. Moraes, 1895. Em 1896 criou-se um
gabinete antropométrico na Cadeia de Porto Alegre, cujo diretor, o médico legista Sebastião Leão,
também incursionou em estudos de antropologia criminal empregando as medições antropométricas
sobre os detidos. LEÃO, Sebastião. “Relatório do Doutor Sebastião Leão, Médico da Polícia”. In:
Relatório da Secretaria de Estado dos Negócios do Interior e Exterior do Rio Grande do Sul. Porto
Alegre: s/d, 1897, p. 213-225.
39
Sobre estas críticas ver: CUNHA, Olívia M. Gomes da. “The Stigma of Dishonor: Individual
Records, Criminal Files, and Identification in Rio de Janeiro, 1903–1940”. In: CAULFIELD, Sueann;
PUTNAM, Laura; CHAMBERS, Sara (org.). Honor, Status and Law in Modern Latin America.
Durham: Duke University Press, 2005, p. 295-316.

155
Mesmo que na capital argentina a proposta de criação de um serviço de
identificação antropométrico surgisse da chefatura de polícia, existia também uma
ligação estreita do serviço com os círculos médicos e criminológicos de Buenos
Aires. Em 1885, o primeiro Congresso de Antropologia Criminal havia contado com
a participação de Bertillon, que apresentou um trabalho sobre a aplicação da
antropometria para a comprovação de antecedentes penais nos casos de
reincidência.40 O impacto do triunfo da escola italiana de criminologia nesse
congresso chegou rápido a Buenos Aires, onde em 1888 se criou a “Sociedade de
Antropologia Jurídica”, por iniciativa de Luis M. Drago, irmão do primeiro diretor
do Gabinete Antropométrico.41 Nesse ano Drago publicou Los hombres de presa,
considerado o primeiro livro de criminologia na América Latina, onde dedicava
algumas páginas a explicar o sistema de Bertillon, utilizando as atas do Congresso de
Roma e, além disso, anunciava a instalação do serviço na polícia portenha.42

O Gabinete Antropométrico de Buenos Aires se instalou no palácio recém


inaugurado do Departamento Central de Polícia, em novembro de 1888. Cuenca já
havia sido substituído na chefia por Alberto Capdevilla, que curiosamente
apresentava a novidade como uma decisão própria:

Há bastante tempo que tinha o pensamento de criar o Gabinete de


Identificação Antropométrica e não havia podido levar a cabo a
ideia no antigo palácio da polícia por falta de local. Imediatamente
instalado no novo, ordenei que trouxessem da Europa os
instrumentos necessários e a regulamentação que se solicitou ao
Dr. Alphonse Bertillon, Diretor do Gabinete Antropométrico de
Paris e criador do sistema. Hoje se encontra funcionando e seus
benéficos resultados não se farão esperar.43

40
BERTILLON, Alphonse. “Sur l'anthropométrie appliquée aux récidivistes”. In: Actes du Premier
Congrès International d’Anthropologie Criminelle, Biologie et Sociologie. Rome, Nov. 1885. Turin:
Bocca, 1886, p. 151-158.
41
DEL OLMO, Rosa. América Latina y su criminología. México: Fondo de Cultura Económica,
1981, p. 59.
42
DRAGO, Luis M. Los hombres de presa. Buenos Aires: Félix Lajouane, 1888, p. 183-188.
43
REPÚBLICA ARGENTINA. Memoria del Departamento de Policía de la Capital, 1888-1889.
Buenos Aires: Imprenta del Departamento de Policía, 1889, p. X-XI.

156
Como ficava claro no orçamento da polícia, o Gabinete Antropométrico estava
subordinado ao Serviço Médico.44 Apesar de Drago ter enfrentado problemas
estruturais para a instalação da nova repartição (como, por exemplo, falta de
despesas e escassa instrução dos funcionários), havia algumas diferenças com relação
à experiência no Rio de Janeiro: o gabinete portenho manteve seu funcionamento
sem interrupções até princípios do século XX e conseguiu aumentar o nível de
produção de fichas de identificação. Ao passo que durante o primeiro ano se
mediram 582 indivíduos, em 1901 a cifra anual de sujeitos fichados chegava a 2.507
e, nesses trezes anos, o serviço acumulou 16.147 fichas. A capacidade de
identificação de reincidentes também cresceu: 30% dos indivíduos medidos em 1892
já contavam com fichas no arquivo e em 1899 essa cifra chegou a um pico de 80%.45

Estes avanços não impediram a chuva de resistências que se originavam


principalmente no poder judiciário, e inclusive algumas críticas provenientes das
fileiras da própria polícia. Nas páginas da revista policial portenha se dizia em 1897
que o Gabinete Antropométrico “não servia para nada” e que “passava ignorado”
entre os vigilantes. Não se pedia uma supressão do serviço, nem se considerava o
sistema antropométrico inútil, mas recriminava-se o escasso movimento do arquivo,
composto unicamente por fichas dos indivíduos que passavam pelos calabouços do
Departamento Central e que, por isso, o serviço não atingia a numerosa população de
contraventores e diversos sujeitos detidos nas delegacias.46

Era verdade que a produção de fichas no gabinete de Buenos Aires estava


longe dos desempenho de Paris, mas superava amplamente os números do Rio de
Janeiro, levando em conta não apenas os dezessete indivíduos medidos em 1894, mas
também a segunda experiência, iniciada em 1899. Desde 1895, o Gabinete
Antropométrico do Rio de Janeiro ficou em suspensão e os instrumentos adquiridos

44
O Serviço Médico da Polícia da Capital se dividia em duas repartições: o Gabinete Antropométrico,
que contava somente com um “médico diretor” e um “ajudante de escritório”, e a “repartição de
conservação e exposição de cadáveres”. Idem, p. 4. Dois anos depois, haviam-se agregado um “oficial
primeiro”, um médico que atuava como subchefe, um fotógrafo e dois ajudantes. CONI, Emilio R.
Código de Higiene y Medicina Legal de la República Argentina. Op. Cit., p. 393.
45
GARCÍA FERRARI, Mercedes. Ladrones conocidos/sospechosos reservados. Op. Cit., p. 128-144.
46
“Oficina antropométrica”, Revista de policía, Año I, n. 15, Buenos Aires, 16 ene. 1897, p. 292-293.

157
em Paris permaneceram guardados no depósito da sala de medicina legal.47 Em uma
série de cartas enviadas por Juan Vucetich à polícia carioca, em 1896, percebe-se a
desordem administrativa em relação ao problema da identificação. Vucetich tratava
de difundir no Brasil seu sistema de filiação “baseado nos sinais particulares e
cicatrizes do corpo humano, segundo o método dos professores Broca e Bertillon”,
como escrevia em uma destas cartas. Da chefia respondiam que o gabinete
antropométrico não havia passado de “simples ensaios” e que atualmente estava de
fato paralisado.48

Em 1898, outra missiva, desta vez do cônsul do Império austro-húngaro, fazia


chegar uma inquietude do chefe da polícia de Viena, quem queria saber se no Rio de
Janeiro se aplicavam aos detidos as “medições antropométricas segundo o sistema
inventado por Alphonse Bertillon” e, em tal caso, pedia que lhe mandassem fichas e
fotografias. A resposta afirmava que não existia nenhum serviço de identificação e
que apenas tiravam fotografias de “gatunos reincidentes”.49 Nesse momento
começava a funcionar um gabinete antropométrico no estado de São Paulo, o que
acentuava ainda mais o letargo carioca: em 1897 se adotou oficialmente o método
antropométrico e se instalou na prisão um gabinete, que nos primeiros anos do século
XX passou a depender da polícia, até 1906, em que foi substituído pela datiloscopia,
chegou a acumular quase cinco mil fichas de identificação.50

47
Em 1899, quando foi reaberto o serviço, um cronista do Jornal do Comércio que narrava a visita do
chefe da polícia portenha ao Gabinete Antropométrico, escreveu sobre o destino dos instrumentos:
“Ao tempo da administração do Coronel Valadão, cogitou-se da criação deste serviço e chegou-se
mesmo a adquirir o material necessário e a efetuar diversas experiências. Sobreveio porém a revolta
setembrina e todo o serviço ficou não só paralisado como também desorganizado. Os aparelhos
voltaram para o depósito, onde ninguém mais se lembrou de retirá-los”. “Polícia Argentina”, Jornal
do Comércio, Rio de Janeiro, 15 ago. 1899, p. 1-2.
48
Cartas de Juan Vucetich (10 de abril e 16 de outubro de 1896), Arquivo Nacional, Fundo GIFI,
Documentos de Polícia, 6C8. Neste momento Vucetich era o chefe da Oficina Antropométrica na
Província de Buenos Aires. Embora já incorporasse em seu sistema as impressões digitais, ainda não
tinha descartado a antropometria, ver: GARCÍA FERRARI, Mercedes. “Juan Vucetich. Una respuesta
desde la dactiloscopia a los problemas del orden y la consolidación de la Nación Argentina”. In:
SOZZO, Máximo (coord.). Historias de la cuestión criminal en la Argentina. Buenos Aires: Ediciones
del Puerto, 2009, p. 235-236.
49
AN, Fundo GIFI, 6C 23 (1898). Carta do Cônsul do Império austro-húngaro, 7 mai. 1898, e
resposta da chefia da polícia, 11 mai. 1898.
50
SOUZA, Luís Antônio Francisco de. Lei, cotidiano e cidade. Polícia Civil e práticas na São Paulo
republicana (1889-1930). São Paulo: IBCCRIM, 2009, p. 197-199.

158
A possibilidade de estabelecer um mecanismo de trocas de informação entre as
polícias, sob um mesmo código, era uma das ambições que movia a difusão do
bertillonnage: “suprema aspiração da antropometria que é tornar-se um sistema
internacional, entendido em uma só linguagem escrita – a dos algarismos e a dos
sinais”, como observava Brasil Silvado.51 Foi precisamente ele quem resolveu
reestabelecer o serviço antropométrico, após ser designado chefe de polícia pelo
presidente Campos Sales. A rapidez com que o fez parece sugerir que a decisão
estava tomada de antemão: assumiu a chefia em 26 de julho de 1899 e nos primeiros
dias de agosto já começava a funcionar o novo gabinete.52

Em 1900, aparecia o “Boletim do Serviço de Identificação Judiciária”,


apresentado pelos diretores da repartição, Renato Carmil, um dos juristas que vinha
defendendo o bertillonnage como funcionário do Ministério da Justiça, e Souza
Gomes, que como vimos havia participado ativamente da experiência de 1894. No
primeiro número do Boletim, informava-se que o gabinete seguiu ordens da chefia
para estabelecer comunicação direta com as polícias estaduais e com os serviços
antropométricos estrangeiros. Durante os primeiros meses de funcionamento, o
serviço recebeu visitas pessoais de representantes dos estados do Pará, Bahia, Minas
Gerais e Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo, o modelo de ficha utilizado no
gabinete foi enviado por correio às polícias da França, Bélgica, Inglaterra, Alemanha,
Áustria-Hungria, Itália, Portugal, Espanha, Estados Unidos, Argentina, Uruguai e
Chile. O próprio Bertillon respondeu à missiva, pedindo que lhe mandassem mais
informações para adicionar à seção que a Prefeitura de Polícia teria na Exposição
Universal de Paris, realizada em abril desse mesmo ano, onde se armaram uma série
de painéis com documentos dos gabinetes antropométricos de todo o mundo.53

Junto a essas tentativas para ingressar na rede internacional de trocas policiais,


o gabinete antropométrico avançou na tarefa de ampliar o universo dos identificados

51
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Op. Cit., p. 105.
52
CARMIL, Renato; SOUZA GOMES, José A. “Relatório da Seção de Identificação Judiciária.
Apresentado ao Dr. Chefe de Polícia”, Boletim do Serviço de Identificação Judiciária, n. 1, Rio de
Janeiro, jan. 1900, p. 4-6.
53
Ver a seção de Notas diversas no Boletim do Serviço de Identificação Judiciária n. 1, jan. 1900, p.
8-9; e no Boletim do Serviço de Identificação Judiciária, n. 2, mar. 1900, p. 14-15; Boletim do Serviço
de Identificação Judiciária, n. 3, mai.-jun. de 1900, p. 11-12.

159
e organizar o arquivo para reconhecer reincidentes. Para isso, os diretores contaram
com dois agentes a quem ensinaram tomar as medidas e a preencher as fichas. O
serviço foi instalado em uma sala da Repartição Central da Polícia e pôde incorporar
o instrumental fotográfico que já era empregado para retratar “gatunos conhecidos” e
cadáveres. De qualquer forma, os diretores pretendiam que o gabinete se realocasse
para a Casa de Detenção, para evitar o envio de presos até a polícia e unificar os
registros da prisão com o arquivo de fichas antropométricas.54 Isso foi contemplado
durante a reforma policial de 1900, em dois decretos do governo que regulamentaram
o funcionamento da Polícia da Capital e da Casa de Detenção.

Nestas regulamentações, declarava-se “instituída a identificação


antropométrica obrigatória dos réus presos, de acordo com o sistema de Alphonse
Bertillon”, serviço que devia ser feito nas instalações da cadeia. Os reclusos seriam
submetidos ao processo de identificação logo após a detenção ou no dia seguinte,
porém algumas categorias de detentos ficavam excluídas: os acusados por crimes
políticos, calúnia e injúria, duelos sem lesões corporais, adultério, as prostitutas e as
mulheres presas por infrações contra a moral pública e, em geral, todas as detenções
que não fossem propriamente criminais. Os outros presos podiam recusar as
medições antropométricas, mas nesse caso sofreriam uma pena disciplinar.
Finalmente, o serviço de identificação seria “secreto”, isto é, ninguém teria acesso às
fotografias e às fichas antropométricas. Somente as polícias do Brasil, do estrangeiro
e as autoridades judiciárias podiam solicitar informações sobre os sujeitos
identificados.55

Ao contrário do serviço antropométrico de 1894, desta vez as medições foram


feitas de forma mais sistemática. No segundo semestre de 1899 foram medidos 530
detidos, o que significou uma produção de 1.060 fichas, somando as antropométricas
e as alfabéticas.56 Dessa primeira leva, 89 sujeitos foram novamente detidos e

54
CARMIL, Renato; SOUZA GOMES, José A. “Relatório da Seção de Identificação Judiciária”. Op.
Cit., p. 4-5.
55
Atos do Poder Executivo. Decreto n. 3640 (Regulamento para o Serviço de Polícia do Distrito
Federal), Art. 70, e Decreto n. 3641 (Regulamento da Casa de Detenção da Capital Federal). Art. 149-
164. Boletim do Serviço de Identificação Judiciária, n. 3, Rio de Janeiro, mai.-jun. 1900, p. 3-8.
56
Tais estimativas pertencem ao relatório apresentado ao chefe de polícia: CARMIL, Renato; SOUZA
GOMES, José A. “Relatório da Seção de Identificação Judiciária”. Op. Cit. Em um relatório posterior,

160
identificados, dois dos quais negaram ser reincidentes até que lhes mostraram o
retrato fotográfico tomado na detenção anterior. No entanto, os diretores aclaravam
que somente “estabeleceu-se a classificação alfabética, faltando apenas a
antropométrica, a qual depende de armários especiais que estão sendo
confeccionados”.57

E o que significava isso? No sentido estrito, as identificações não haviam sido


realizadas seguindo as regras do bertillonnage, mas revisando uma por uma as 530
fichas ordenadas alfabeticamente pelos nomes declarados, operação que em um
arquivo dessas dimensões ainda era possível. No ano seguinte, Souza Gomes viajou à
França para se atualizar sobre os instrumentos empregados no serviço parisiense.
Encomendou na Casa Saint-Laurent um jogo de aparelhos para tomar medições e
uma nova máquina fotográfica. E ainda, incorporou-se ao gabinete o armário que
permitia por em prática a classificação antropométrica stricto sensu.58 As
identificações, então, se multiplicaram: entre janeiro e dezembro de 1900 foram
medidos 1.633 detidos, dos quais 582 resultaram ser reincidentes cujas fichas
figuravam no arquivo.59

Em 22 de dezembro de 1900, os operadores do serviço antropométrico mediam


Carlos Justino, vulgo “Carletto”, que seis anos mais tarde se transformaria em um
personagem famoso, conhecido pelo “crime da Rua Carioca”, um roubo à joalheria
Jacob Fuoco e Cia, onde estrangulou duas pessoas.60 A ficha de Carletto revela qual

as cifras são um pouco diferentes: contabilizam-se 535 novas identificações e 87 verificações de


identidade, ou seja, um total de 622 sujeitos mensurados. CASTRO, Antônio A. Cardoso de.
“Relatório apresentado ao Ministro da Justiça e Negócios Interiores, pelo Chefe de Polícia do Distrito
Federal”. In: Anexos ao Relatório apresentado ao Presidente da República dos Estados Unidos do
Brasil pelo Ministro de Estado da Justiça e Negócios Interiores. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional,
1904, p. 153.
57
CARMIL, Renato; SOUZA GOMES, José A. “Relatório da Seção de Identificação Judiciária”. Op.
Cit., p. 6.
58
Boletim do Serviço de Identificação Judiciária, n. 3, Rio de Janeiro, mai.-jun. 1900, p. 2; Boletim
do Serviço de Identificação Judiciária, n. 4, Rio de Janeiro, jul.-ago. 1900, p. 8.
59
CASTRO, Antônio A. Cardoso de. “Relatório apresentado ao Ministro da Justiça e Negócios
Interiores, pelo Chefe de Polícia do Distrito Federal”. Op. Cit., p. 153.
60
Sobre Carletto e o caso do “crime da rua Carioca”, ver: DIAS, Allister A. Teixeira. Dramas de
sangue na cidade: psiquiatria, loucura e assassinato no Rio de Janeiro (1901-1921). Dissertação de
Mestrado em História das Ciências e da Saúde-Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2010, p. 51-
98. E também: OTTONI, Ana Vasconcelos. O paraíso dos ladrões: crime e criminosos nas

161
era o modelo adotado para realizar as identificações. Tratava-se da “ficha
parisiense”, um protocolo criado para unificar as informações na França que, a partir
de 1894, havia incorporado as impressões digitais da mão direita. Esta novidade era,
no interior do bertillonnage, uma tentativa de cooptação de uma técnica cada vez
mais ressonante, utilizada no mundo anglófono. Mas neste momento Bertillon não a
considerava uma peça do sistema classificatório, como mais tarde faria Vucetich,
porém uma prova suplementar de identificação, ao nível da fotografia e das marcas
particulares.61

Na parte superior da face frontal, a ficha tinha as observações antropométricas:


eram doze medidas, embora uma delas – a curvatura – estava neste caso em branco.
Também se registravam aí as notações cromáticas da íris esquerda, a cor da pele,
cabelo, barba e bigode. No centro se localizava o retrato fotográfico e na parte
inferior as cinco impressões digitais. Por seu turno, o verso era o espaço designado às
marcas particulares, cicatrizes e tatuagens. À direita, em cima de algumas linhas para
anotações diversas, constava o número da ficha e o nome do sujeito identificado.

reportagens policiais da imprensa. Tese de Doutorado em História Social, Universidade Federal


Fluminense, Niterói, 2012, p. 169-175.
61
PIAZZA, Pierre. “Alphonse Bertillon face à la dactyloscopie. Nouvelle technologie policière
d’identification et trajectoire bureaucratique”, Les Cahiers de la sécurité, Paris, n. 56, 2005, p. 251-
270. ABOUT, Ilsen. “Naissance d’une science policière de l’identification en Italie (1902-1922)”, Les
Cahiers de la Sécurité, Paris, n. 56, 2005, p. 167-200.

162
Ficha antropométrica de Justino Carlo, vulgo Carletto (frente)
Fonte: Hermeto Lima, A identidade do homem pela impressão digital (1908), p. 16.

Incluída no mesmo livro, a ficha alfabética de Carletto fornece ainda uma pista
a mais. Neste cartão, registravam-se os dados de filiação e as “prisões verificadas”,
espaço onde aparecia anotada, abaixo da primeira detenção por roubo, a reclusão de
1906 pelos estrangulamentos da Rua Carioca.62 Isso mostra que o arquivo
antropométrico, enviado para a Casa de Detenção no final de 1900, continuou sendo
usado apesar da renuncia dos diretores, Carmil e Souza Gomes. Ainda assim, o
volume anual de identificações se manteve, e inclusive cresceu um pouco em 1901:
realizaram-se 1.770 medições, correspondentes a 751 verificações de reincidências e
1.019 novas identificações.63 Em agosto de 1901 havia assumido a direção do serviço

62
LIMA, Hermeto. A identidade do homem pela impressão digital (datiloscopia). Rio de Janeiro:
Imprensa Nacional, 1908, p. 21.
63
CASTRO, Antônio A. Cardoso de. “Relatório apresentado ao Ministro da Justiça e Negócios
Interiores, pelo Chefe de Polícia do Distrito Federal”. Op. Cit., p. 154.

163
antropométrico Félix Pacheco, que se converteria no principal promotor da
datiloscopia no Brasil e obstinado adversário do bertillonnage.

Pacheco daria um grande impulso ao gabinete. Em 1902, 3.740 detidos


passaram pelo processo de identificação, o que duplicava as cifras do ano anterior, e
em 1903 a quantidade subia a 6.290.64 Em fevereiro desse ano, no entanto, uma nova
reforma no regulamento da polícia carioca mudaria as regras do jogo. O serviço
passava a se chamar Gabinete de Identificação e Estatística, ao passo que a
identificação de criminosos ficava estabelecida como uma combinação de seis
procedimentos: exame descritivo (retrato falado); notas cromáticas; observações
antropométricas; sinais particulares, cicatrizes e tatuagens; impressões digitais;
fotografia de frente e perfil. Mas em seguida aclarava-se que todos esses dados
seriam “na sua totalidade subordinados à classificação dactiloscópica, de acordo com
o método instituído por D. Juan Vucetich, considerando-se, para todos os efeitos, a
impressão digital como a prova mais concluinte e positiva da identidade do
indivíduo”.65 Era o começo do final do bertillonnage no Brasil. Pacheco, e através
dele Vucetich, ganhavam a batalha. Mas quando havia começado? Sobre o que se
tratava essa guerra?

O congresso parisiense de 1889 havia marcado o início da consagração


internacional do bertillonnage, declarando sua suposta superioridade como método
de identificação, mas também sua contribuição “para os estudos de antropologia
criminal”. Embora esta técnica nascesse para resolver um problema específico de
organização dos arquivos policiais, durante seu apogeu passeou orgulhosamente
pelos encontros acadêmicos e publicações científicas. Deste modo, o sistema de
medições corporais inventado por Bertillon habitou uma região cinzenta e polêmica
nas fronteiras entre as ciências antropológicas e a burocracia judiciária. Esta vida
dupla teve suas ramificações no Brasil e foi precisamente o que gerou maiores
resistências locais à antropometria como sistema de identificação nas polícias.66

64
Idem, p. 154-155.
65
“Regulamento da Secretaria de Polícia do Distrito Federal”, aprovado por decreto n. 4764, de 5 de
fevereiro de 1903. Diário Oficial da União, Ano XLII, n. 36, Rio de Janeiro, 12 fev. 1903.
66
Durante a Primeira República, cientistas como Edgard Roquette-Pinto usaram o bertillonnage no
laboratório de antropologia física do Museu Nacional. KEULLER, Adriana Tavares do Amaral

164
É preciso salientar que, apesar da sua inserção no mundo policial, Bertillon
nunca deu as costas às ciências antropológicas, com as quais estava vinculado desde
o início de sua vida profissional. Ao contrário, em 1909 publicou um tratado de
antropologia métrica junto a Arthur Chervin, cujo subtítulo era “conselhos práticos
para os missionários científicos sobre a forma de medir, fotografar e descrever
sujeitos vivos e peças anatômicas”.67 No livro, os autores difundiam um estojo
portátil com instrumentos para as medições antropométricas (denominado boîte de
mensuration), que havia sido utilizado uns anos antes por uma missão científica
francesa na América do Sul, especificamente nas regiões andinas do Peru, Bolívia,
Chile e Argentina. O estojo era composto por oito instrumentos para medições
antropométricas, três para as impressões digitais, uma tabela com a escala cromática
da íris humana e um livro de instruções.68

Estas derivações científicas do bertillonnage foram o eixo das críticas


encabeçadas pelos propagandistas brasileiros da datiloscopia no início do século XX.
Na principal acometida, Félix Pacheco protestava contra a intromissão da medicina e
da antropologia em um terreno que devia ser exclusivamente policial: a comprovação
da reincidência. O gabinete de identificação teria que se consolidar como um bureau
e não como um laboratório dedicado a estudos científicos, uma tendência que –
segundo Pacheco – havia dominado os ensaios de serviços antropométricos de Minas
Gerais, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Entre todos os possíveis usos
científicos, ao novo diretor do gabinete de identificação inquietava especialmente o

Martins. Os estudos físicos de antropologia no Museu Nacional do Rio de Janeiro: cientistas, objetos,
ideias e instrumentos (1876-1939). Tese de Doutorado, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, Universidade de São Paulo, 2008, p. 162.
67
BERTILLON, Alphonse; CHERVIN, Arthur. Anthropologie métrique: conseils pratiques aux
missionnaires scientifiques sur la manière de mesurer, de photographier et de décrire des sujets
vivants et des pièces anatomiques. Paris: Imprimerie Nationale, 1909.
68
Idem, p. 9-11. Tudo isso era guardado em uma mala de madeira idêntica a que usaram os
antropólogos brasileiros, cujo exemplar se preserva no Setor de Antropologia Biológica do Museu
Nacional. Ver: SÁ, Guilherme José da Silva e; SANTOS, Ricardo Ventura; RODRIGUES-
CARVALHO, Claudia; SILVA, Elizabeth Christina da. “Crânios, corpos e medidas: a constituição do
acervo de instrumentos antropométricos do Museu Nacional na passagem do século XIX para o XX”,
História, Ciências, Saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, Vol.15, n.1, jan-mar. 2008, p. 197-208.

165
rizoma criminológico: “é curioso acentuar que andam sempre juntas a antropometria
do Sr. Bertillon e a antropologia do Sr. Lombroso”.69

O jurista argentino Ernesto Quesada, também partidário da datiloscopia no


começo do século XX, concordava com a crítica de Pacheco ao bertillonnage,
quando escrevia que o sistema antropométrico tomava “uma série exagerada de
dados complicados e desnecessários” que conduziam a se dedicar “às mais graves
especulações científicas”.70 Em algumas ocasiões, a confusão entre antropologia
criminal e antropometria judiciária alcançava até o próprio universo mental dos
delinquentes submetidos às medições corporais. H. H. Holmes, famoso falsário e
assassino serial de Chicago, condenado a morte em 1896, escrevia em suas
confissões uma defesa contra as acusações de degeneração física e atavismos que lhe
havia atribuído a imprensa, seguindo os conceitos dos criminologistas da moda:
“durante minha detenção – contestava – fui examinado pelo sistema Bertillon, mas
não descobriram em mim anomalias”.71

Esta declaração revelava também que, além da confusão entre os estudos


criminológicos e as práticas policiais de identificação, o sistema antropométrico
envolvia para muitos uma ofensa à honra. As resistências ao bertillonnage não se
restringiram ao cenáculo dos especialistas em identificação, e inclusive surgiram
antes que se desencadeasse a disputa com o sistema datiloscópico. Em 1897, Renato
Carmil se referia às objeções que até então haviam impedido a instalação do serviço
antropométrico do Rio de Janeiro:

Ele nada tem de estigma, não traz constrangimento a liberdade


alguma, como procuram lobrigar seus antagonistas. (…) É muito
mais degradante a longa prática de expor nos teatros, cafés,
estradas de ferro e nos lugares mais públicos, retratos
acompanhados da nota – gatunos, caftens, etc. – isso por uma

69
PACHECO, Félix. “O problema da identificação: reforma do serviço anthropométrico”, Jornal do
Comércio, Rio de Janeiro, 30 dez.1902.
70
QUESADA, Ernesto. Comprobación de la reincidencia. Proyecto de ley presentado al señor
Ministro de Justicia e Instrucción Pública, Doctor D. Osvaldo Magnasco. Buenos Aires: Imprenta y
Casa Editora de Coni Hermanos, 1901, p. 145.
71
HOLMES, H. H. “La confesión de un gran criminal”, Criminalogia Moderna, Año II, n. 6, Buenos
Aires, abr. 1899, p. 168.

166
simples ordem do chefe de polícia. Entretanto, esse fato tem-se
reproduzido inúmeras vezes, sem levantar protestos.72

Entre esses detratores estavam os nomes de políticos centrais na primeira


década republicana, como os abolicionistas Rui Barbosa e Cândido Barata Ribeiro,
zelosos de algumas intervenções estatais que puderam ser interpretadas como
vexames. A ofensa à honra pessoal foi uma acusação dirigida contra o sistema
antropométrico em outras grandes capitais latino-americanas, como Buenos Aires e
México.73 Em 1903, a meses da substituição da antropometria pela datiloscopia no
gabinete do Rio de Janeiro, o então senador Barata Ribeiro apresentou um projeto de
lei para regular as identificações na Casa de Detenção. O primeiro artigo do projeto
resolvia que somente seriam “submetidos aos processos de identificação os réus
condenados”, acrescentando além disso que a restrição era válida para qualquer
recluso “seja qual for a sentença, o sexo, a idade e a condição social”.74

Do ponto de vista jurídico, a crítica apontava contra a prerrogativa policial para


submeter a medições antropométricas e fotografar os indivíduos que não haviam
recebido condenação firme. No entanto, o parecer da Comissão de Justiça foi
totalmente contrário à opinião de Barata Ribeiro. Para eles, a identificação
antropométrica não era uma pena nem um atentado à liberdade que agravasse a
própria coação física de estar preso. Ainda, rotulavam o projeto de
“sentimentalismo”, porque a revolta do senador contra o bertillonnage teria
começado quando o gabinete submeteu a medições antropométricas um político
amigo de Barata Ribeiro que foi processado por um crime comum. “Só permitir a

72
CARMIL, Renato. “Relatório sobre o serviço de identificação antropométrica”. Op. Cit., p. 4538.
73
Sobre Buenos Aires, ver: RUGGIERO, Kristin. Modernity in the Flesh: Medicine, Law and Society
in Turn-of-Century Argentina. California: Stanford University Press, 2004, p. 101-106. E sobre
México: SPECKMAN GUERRA, Elisa. “En la inmensa urbe y el laberinto de los archivos: la
identificación de criminales en la ciudad de México”. In: GALEANO, Diego; KAMINSKY, Gregorio
(Coord.). Mirada (de) uniforme. Historia y crítica de la razón policial. Buenos Aires: Teseo, 2011, p.
142. Não faltaram nestas repúblicas comparações com velhas práticas punitivas que implicavam
castigos corporais, tais como as marcas de ferro ou os açoites aos escravos. Ver: GALEANO, Diego;
GARCÍA FERRARI, Mercedes. “Cartographie du bertillonnage”. Op. Cit., p. 323-325.
74
SENADO FEDERAL. “Projeto n. 29, 15 de outubro de 1903”, citado em CARVALHO, Elysio de.
A identificação como fundamento da vida jurídica. Biblioteca do Boletim Policial: VI. Rio de Janeiro:
Imprensa Nacional, 1912, p. 17. Sobre este tema, ver: CUNHA, Olívia M. Gomes da. Intenção e
Gesto: pessoa, cor e a produção cotidiana da (in)diferença no Rio de Janeiro, 1927-1942. Rio de
Janeiro: Arquivo Nacional, 2002, p. 17-20.

167
identificação dos réus definitivamente condenados”, rematava o parecer, “é excluir
dessa medida uma porção da população adventícia, tão frequente nas grandes cidades
(...), que afluem às prisões e delas saem por motivos de segurança, mas sem que na
maior parte das vezes haja meios de processá-los”.75 Mesmo que o projeto do
senador Barata Ribeiro não fosse aprovado, a assimilação da antropometria com uma
prática vexatória é uma das chaves para entender o posterior sucesso das impressões
digitais.

Este receio frente ao possível caráter vexatório do bertillonnage estava também


presente em Buenos Aires. Uma nota da revista policial se queixava da atitude do
poder judiciário, principal responsável de que “se tenha discutido tantas vezes a
faculdade policial para medir os presos ou para conservar nos arquivos seus
antecedentes”.76 O redator exagerava muito quando acusava aos tribunais argentinos
de serem “os únicos, entre todas as demais nações que adotaram o sistema de
Bertillon, que tem dado curso a reclamações desta natureza”.77 Esta afirmação não
apenas desconhecia as críticas que havia recebido em outros países latino-
americanos, mas também os próprios questionamentos em Paris, a capital do sistema,
onde segundo Mujica Farías Bertillon era acusado de padecer de uma curiosa
“doença” que os jornais franceses haviam batizado “raiva antropometrômana”.78

Apesar das investidas contra o bertillonnage pelos seus usos cientificistas, a


explicação de sua futura derrota frente à datiloscopia não pareceria estar atada a esse
problema. No Brasil, de fato, a experiência do Gabinete Antropométrico de Renato
Carmil e Souza Gomes não estava tão perto dos “desvarios da escola italiana”,
segundo a expressão que empregava Pacheco.79 É verdade que os membros da
Associação de Antropologia e Assistência Criminal foram os responsáveis de dar-lhe
impulso. Mas não é menos certo que quando um de seus membros, o médico legista

75
Comissão de Justiça do Senado Federal, parecer n. 160, 22 de setembro de 1903 e parecer n. 22, 16
de agosto de 1906, citados em CARVALHO, Elysio de. A identificação como fundamento da vida
jurídica. Op. Cit., p. 17-19.
76
“La oficina antropométrica. Carta de F. Beazley”, Revista de Policía, Año I, n. 6, Buenos Aires, 15
ago. 1897, p. 93.
77
Idem, p. 94.
78
MUJICA FARÍAS, Manuel. La policía de París. Buenos Aires: Arnold Möen, 1901, p. 301.
79
PACHECO, Félix. “O problema da identificação”. Op. Cit.

168
Souza Lima, elogiou as atividades do serviço antropométrico, seus diretores saíram a
responder que eles não pretendiam “meter a mão em seara alheia”. Que queriam
dizer com isso? Esclareceram no artigo com todas as letras:

O inventor do sistema usado na Seção de Identificação dos


detentos, na Polícia da Capital Federal, Mr. A. Bertillon, não é
médico. A ele jamais preocupou observar em um detento, para o
fim da identificação, a que tipo pertence ele na família humana.
Brachicephalo, dolichocephalo, pouco importa que seja um
detento. O que se preocupa saber é se esse indivíduo já passou
alguma vez pela prisão e por qual motivo. (...) Não temos,
portanto, a pretensão de nos apresentarmos como nos dando a
elevados estudos de antropologia.80

A mesma ideia repetiram Souza Gomes e Renato Carmil em agosto de 1901,


quando após renunciar ao Gabinete Antropométrico, que já estava nas mãos de Félix
Pacheco, compareceram a uma reunião ordinária do Instituto dos Advogados para
dissertar sobre os sistemas de identificação de Bertillon e Vucetich.81 A eficaz
propaganda do chamado “sistema argentino” havia começado nesse ano no II
Congresso Científico Latino-Americano, realizado em Montevidéu, e continuou no
seguinte, que teve lugar precisamente no Rio de Janeiro. Aí se reuniu a seção de
Ciências Jurídicas e Sociais para discutir uma pergunta: “qual o sistema preferível
em matéria de identificação de reincidentes – o sistema antropométrico de Bertillon
ou o sistema dactiloscópico de Vucetich?”.82 Pergunta certamente capciosa, cuja
resposta já estava decidida pelos congressistas, entre os quais estavam Vucetich e
Pacheco.

A decisão de considerar ambos como sistemas antitéticos e irreconciliáveis foi


muito exitosa, ao menos nos países da América do Sul. Contribuiu para retirar
totalmente a antropometria dos serviços de identificação, apesar de outros aspectos
do bertillonnage (o retrato falado, a fotografia de frente e perfil) terem uma notável

80
Boletim do Serviço de Identificação Judiciária, n. 5, Rio de Janeiro, set.-out.1900, p. 1-2.
81
Ver “Instituto de Advogados”, Jornal do Comércio, 6 ago. 1901.
82
TERCEIRO CONGRESSO SCIENTIFICO LATINO AMERICANO. A Polícia Argentina e a
Polícia Brasileira. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1905, p. 2.

169
vigência nas polícias. Mas nenhuma explicação deste triunfo pode omitir a vantagem
relativa que as impressões digitais tinham sobre as medições antropométricas, por ser
uma prática que – inclusive utilizando uma parte do corpo dos identificados –
implicava um processo muito mais rápido, simples e, sobretudo, discreto.

É importante observar que a desaparição da antropometria judiciária não


significou, como presumia Pacheco, o fim das ambições científicas nos gabinetes de
identificação. Na primeira metade do século XX, em particular durante os anos do
Estado Novo, o médico legista Afrânio Peixoto e seu discípulo Leonidio Ribeiro, no
caso da polícia carioca, assim como Mario Guimarães em São Paulo, formaram parte
de seções que juntavam o serviço datiloscópico com laboratórios para estudos de
antropologia criminal.83 Porém, para esta época a datiloscopia havia avançado tanto
que os especialistas em identificação, longe das contendas sobre o estigma e o
vexame, discutiam sua extensão a diferentes domínios da vida civil. “Passou-se o
tempo em que a identificação era olhada como um meio oprobioso”, escrevia um
técnico em datiloscopia do Exército: “para os homens de moral elevada, de
princípios rígidos, a identificação consiste apenas numa formalidade”.84 A
identidade, cifrada no corpo, estava agora definitivamente localizada nas polpas dos
dedos.

A linguagem universal

Em 1914, a morte encontrou Bertillon em uma etapa de franca declinação. Esta


fase se iniciou durante o affaire Dreyfus (1899), no qual participou com uma perícia
grafológica muito questionada que provocou uma chuva de ataques a seu prestígio

83
FERREIRA, Letícia Carvalho de Mesquita. Dos Autos da Cova Rasa. A identificação de corpos
não-identificados no Instituto Médico-Legal do Rio de Janeiro, 1942-1960. Rio de Janeiro:
UFRJ/Museu Nacional/PPGAS, 2007. FERLA, Luis. Feios, sujos e malvados sob medida: a utopia
médica do biodeterminismo, São Paulo (1920-1945). São Paulo: Alameda, 2009.
84
LORETO, Aliatar de Araujo. Lições de datiloscopia: a identidade do homem pela impressão digital.
Juiz de Fora: Companhia Dias Cardoso, 1930, p. 19.

170
pessoal. No entanto, outra corrosão, mais lenta, porém implacável, estava sucedendo
no terreno das técnicas de identificação. Longe de Paris, em cidades situadas fora do
mapa mental de muitos especialistas europeus, dois funcionários policiais
trabalhavam sobre novos sistemas baseados nas impressões digitais: Juan Vucetich,
na Província de Buenos Aires, e Edward Henry, nas Índias britânicas, desenvolveram
métodos de classificação de fichas datiloscópicas que rapidamente se expandiram
pelo mundo.85 Além da França, eram poucos os países que na década de 1910
mantinham ainda a antropometria judiciária. De fato, após a morte de Bertillon, a
própria Prefeitura de Polícia de Paris se rendeu ante a vitória incontestável das
impressões digitais.86

Mesmo assim, e como costuma suceder, sua morte acarretou uma série de
homenagens que tentaram reconhecer o lugar de Bertillon na história da polícia
científica e, inclusive, da ciência em geral. Lacassagne não duvidou em lhe dedicar
um dos últimos números de sua revista, onde Locard trazia as palavras do
antropólogo Léonce Manouvrier: “temos dois homens de gênio na França: Pasteur e
Bertillon”.87 No Brasil, a homenagem ficou nas mãos do escritor Elysio de Carvalho,
então Diretor do Gabinete de Identificação e Estatística. Embora esta instituição já
cumprisse uma década de forte defesa da datiloscopia, tampouco aqui se
economizavam elogios para este personagem considerado o “fundador da moderna
técnica policial”.88 Igualmente, para Carvalho, o triunfo do método datiloscópico era
uma realidade incontestável:

85
COLE, Simon A. Suspect Identities. A History of Fingerprinting and Criminal Identification.
Cambridge: Harvard University Press, 2001. SENGOOPTA, Chandak. Imprint of the Raj. How
Fingerprinting was born in Colonial India. London: Macmillan, 2003. RUGGIERO, Kristin.
“Fingerprinting and the Argentine Plan for Universal Identification in the Late Nineteenth and Early
Twentieth Centuries”. In: CAPLAN, Jane; TORPEY, John (eds.). Documenting Individual Identity.
Op. Cit., p. 184-196. RODRIGUEZ, Julia. “South Atlantic Crossings : Fingerprints, Science, and the
State in Turn-of-the-Century Argentina”, The American Historical Review, Vol. 2, n. 109, 2004, p.
387-416.
86
PIAZZA, Pierre. “Alphonse Bertillon face à la dactyloscopie. Nouvelle technologie policière
d’identification et trajectoire bureaucratique”, Les Cahiers de la sécurité, Paris, n. 56, 2005, p. 251-
270.
87
LOCARD, Edmond. “L’œuvre d’Alphonse Bertillon”, Archives d’Anthropologie Criminelle, n. 243,
1914, p. 167.
88
CARVALHO, Elysio de. Alphonse Bertillon. Biblioteca do Boletim Policial: XXVI. Rio de Janeiro:
Imprensa Nacional, 1914, p. 6.

171
Antigamente o criminoso ficava aterrorizado, quando se falava em
deixar o retrato na polícia, em ser escrachado. Tudo fazia para não
ser fotografado. Hoje ele se submete, sem protesto, facilmente, e
até com um sorriso nos lábios, a esta operação. Mas quando tem de
dar os dez dedos das mãos para serem tomadas as impressões,
protesta, discute, grita e até chora. (...). Não só os boçais, os
gatunos idiotas e os bandidos ignorantes sofrem o pavor da ficha.89

Os principais criminalistas europeus, em particular os discípulos de Lacassagne


(Edmond Locard e Archibald R. Reiss), haviam aceito no começo do século XX,
ainda com Bertillon em vida, a primazia da datiloscopia sobre o bertillonnage. Para
estes especialistas, as vantagens de um sistema sobre o outro eram várias. Em
primeiro lugar, as impressões digitais não apresentavam limitações etárias para a
identificação, porque eram imutáveis desde os últimos meses de vida intrauterina até
a decomposição cadavérica. Por isso, ao contrario da antropometria, a datiloscopia
permitia identificar menores e restos mortais não reconhecidos. Em segundo lugar,
não havia dois indivíduos no mundo com a mesma combinação de desenhos
papilares, por isso a busca de fichas no arquivo não tinha o caráter probabilístico do
sistema de Bertillon. Por último, existia um conjunto de melhorias práticas que
tinham a ver com os operadores dos serviços de identificação, já que tomar as
impressões digitais era mais simples e rápido que realizar as medições corporais,
além de ser menos ofensivo para o identificado. Quase não havia margem de erro no
procedimento, portanto se requeria menor capacitação aos funcionários policiais que
integravam os gabinetes.90

A partir destas ideias elementares, Vucetich lançou-se a disputar com Bertillon


o campo da polícia internacional. Assim como seu colega francês, tinha a aspiração
de que seu método se convertesse em um mecanismo estandardizado para
intercambiar antecedentes criminais entre os países, por via postal ou telegráfica.

89
CARVALHO, Elysio de. “História natural dos malfeitores. Apontamentos”, Boletim Policial, Ano
VII, n. 6, Rio de Janeiro, jun. 1913, p. 145.
90
VUCETICH, Juan. “Evolução da Datiloscopia”. In: TERCEIRO CONGRESSO CIENTÍFICO
LATINO-AMERICANO. A Polícia Argentina e a Polícia Brasileira. Op. Cit., p. 3-13. VUCETICH,
Juan. Dactiloscopia. Cuál debe ser la idoneidad del identificador. Su prueba legal en la reincidencia.
Congresos Científicos. La Plata: Joaquín Sesé Ed. 1909, p. 21-23.

172
Após inventar um sistema para a classificação de impressões digitais no arquivo,
Vucetich buscou a forma de criar um código para a transmissão dos dados
datiloscópicos, uma cifra que se converteria em uma “verdadeira linguagem
universal”.91 Para discutir este ponto, Locard escreveu da Suíça uma carta a
Vucetich, em 4 de agosto de 1905:

Existe um projeto que considero de maior importância. O senhor


não acha que seria possível provocar a reunião de um congresso de
polícia científica, em que você e eu proporíamos um modelo de
ficha, idêntico para todos os países civilizados e que serviria para
as trocas internacionais em uma época onde os criminosos vão
constantemente de uma região a outra e se tornam inapreensíveis
mediante uma viagem perpétua? Não lhe parece indispensável
organizar de maneira estável o serviço de troca de fichas?92

Vucetich ficou seduzido com esta ideia, mas também era consciente da
dificuldade da missão. O principal obstáculo era a diversidade de sistemas e critérios
de classificação utilizados nas distintas polícias do mundo, como ficava claro no
trabalho que o próprio Locard publicou, no ano seguinte, aprofundando a ideia da
ficha internacional.93 O criminologista de Lyon analisava os serviços de identificação
em dezenove países: onze da Europa, cinco da América Latina (México, Argentina,
Brasil, Chile e Uruguai), Egito, Indochina e as Índias inglesas. Desses países, doze
ainda empregavam o sistema antropométrico, as quatro repúblicas sul-americanas
haviam incorporado a datiloscopia de Vucetich e os restantes adotavam o sistema de
impressões digitais sob a classificação inglesa (Galton-Henry).94

Esta diversidade de sistemas e combinações contrastava com a homogeneidade


conquistada pelas polícias da América do Sul, após uma trabalhosa tarefa de
propaganda dos vucetichistas, onde – como veremos no próximo capítulo – as
conferências policiais jogaram um papel primordial. Sem renunciar às aspirações

91
Idem, p. 23.
92
“Cartas de dos sabios”, Boletín de Policía, Año I, n. 10, Buenos Aires, 15 set. 1905, p. 22.
93
LOCARD, Edmond. “Les services actuels d’identification et la fiche internationale”, Archives
d’Anthropologie Criminelle, n. 147, 1906, p. 145-206.
94
Idem, p. 153-201.

173
megalômanas da conquista universal, Vucetich apostou em uma estratégia que
consistia em mostrar ao mundo as maravilhas da cooperação policial com o exemplo
dos países sul-americanos. As palavras usadas pelos vucetichistas em suas
exposições em congressos internacionais sugerem que realmente acreditavam estar
falando ao mundo, e em cada resposta de uma eminência europeia interpretavam que
o mundo os estava escutando.

No Congresso Científico Americano de 1910, o discípulo preferido de


Vucetich, Luis Reyna Almandos, lia uma tese sobre as bases do que chamava “União
Policial Universal”. “O estabelecimento de uma polícia universal mediante um
tratado internacional não é uma utopia”, opinava Reyna Almandos.95 Desde o
surgimento dos sistemas modernos de identificação de pessoas, a ideia percorria o
pensamento de criminologistas e policiais, entre os quais estava, em primeiro lugar,
Vucetich. O pai da datiloscopia havia apresentado no Congresso Panamericano de
Santiago de Chile um projeto de ficha de troca universal.96

Juan Vucetich. “Ficha de canje universal”


Fonte: IV Congreso Científico Latinoamericano (1º Panamericano), Santiago de Chile, 1908.

95
REYNA ALMANDOS, Luis. Unión Policial Universal. Sus bases. Tesis presentada a la Sección de
Ciencias Jurídicas, Congreso Científico Internacional Americano, Buenos Aires, 10 a 25 de Julio de
1910. La Plata: Talleres gráficos Christmann & Crespo, 1910, p. 5.
96
VUCETICH, Juan. “Necesidad de crear en cada país una Oficina Central de Identificación”, Boletín
de la Policía de Santiago, Número especial, dedicado a los estudios y trabajos sobre Policía en el IV
Congreso Científico (1º Panamericano), Año IX, n. 79, Santiago de Chile, Enero de 1909, p. 60-66.

174
A ideia da “União Policial Universal” era um jogo de palavras com a “União
Postal Universal”, o organismo que regulava, desde a década de 1870, o intercâmbio
de correspondências entre os países. Esta comparação tinha muitos significados: no
século XIX, o telégrafo havia permitido unir as diferentes repartições policiais, no
sonho de instantaneidade que mais tarde a radiocomunicação ajudaria a reforçar.
Agora, os fios telegráficos se uniam aos métodos de identificação para produzir a
ficção de uma polícia universal. A cooperação internacional entre as forças da ordem
era uma velha aspiração, mas – segundo dizia o Comissário de Investigações da
polícia portenha – ainda não havia encontrado uma saída para o “problema de sua
praticabilidade”, que a datiloscopia resolvia convertendo-se na “linguagem de nossos
futuros alertas”.97

Se Vucetich chamava sua ficha de “modelo argentino 1908”, era porque


estavam circulando pelo mundo propostas paralelas. Sob a ideia da linguagem
universal, havia muitas linguagens possíveis, que estabeleciam entre si uma discreta
disputa. De fato, Reyna Almandos citava alguns dos modelos alternativos,
começando pela proposta de Locard, e outras “invenções admiráveis”, como o “Code
Signalétique International” do criminalista marselhês Séverin Icard.98 Mas não
entrava em detalhes sobre as diferenças que estes autores tinham com Vucetich.

Locard, por exemplo, aceitava a incorporação da datiloscopia em seu projeto


de ficha internacional, mas entendia que era necessário complementá-la com uma
técnica do bertillonnage: o “retrato falado”.99 Apesar de seu rápido apoio ao sistema
de Vucetich, em seus primeiros escritos sobre o assunto Locard havia sustentado a
ideia de incorporá-lo aos serviços de identificação junto com o método de
assinalamento inventado por Bertillon para auxiliar às capturas dos criminosos.100
Félix Pacheco publicou um folheto com uma tradução sua de um destes textos de

97
“Convención Internacional de Policía”, Boletín de Policía, Año I, n. 12, Buenos Aires, 15 out. 1905,
p. 13.
98
REYNA ALMANDOS, Luis. Unión Policial Universal. Op. Cit., p. 12-13.
99
LOCARD, Edmond. “Les services actuels d’identification et la fiche internationale”, Op. Cit., p.
202-206. Sobre los usos del retrato hablado en Francia, véase: LÓPEZ, Laurent. “Alphonse Bertillon
dans l’ombre des récidivistes et le bertillonnage dans l’œil des forces de l’ordre de la Belle Époque”.
In: Piazza, Pierre (dir.). Aux origines de la police scientifique. Op. Cit., p. 102-111.
100
LOCARD, Edmond. “L’identification par les empreintes digitales. L’emploi de la dactyloscopie en
Amérique du Sud. Le procédé Vucetich ”, Archives d’Anthropologie Criminelle, 1903, p. 145-206.

175
Locard, onde o professor de Lyon aceitava as vantagens da datiloscopia sobre a
antropometria. Porém, ao chegar ao tema do retrato falado, o tradutor incluía, em
nota rodapé, uma discussão com o autor traduzido:

Não negamos a utilidade que existe em ensinar aos agentes ou em


geral aos funcionários de polícia um método mais racional de
descrever as pessoas: isso facilita as capturas e reduz bastante os
casos de engano e confusão, sempre que os gabinetes técnicos não
possuírem outros elementos para intervir e auxiliar a diligência. O
velho sistema empírico devia naturalmente ceder lugar a outros
menos imperfeitos. Mas, se aqui, como aliás acontece em toda
parte, os indivíduos presos são fotografados de frente e de perfil,
não compreendemos aquele retrato falado, construído sobre a base
insegura do critério individual, pretenda ser mais fiel e mais digno
de apreço do que essas duas chapas apanhadas de súbito, num
flagrante vivo, pela objetiva que não falha e que não mente.
Excluídas as notas cromáticas, que a fotografia ainda não está
habilitada a fornece-nos, que vantagem restarão para que o retrato
falado possa ocupar assim o primeiro plano?101

A resposta a essa pergunta estava nos trabalhos de Reiss e de Icard. Em 1907,


Reiss publicou o folheto “Un code télégraphique du portrait parlé”, onde expunha a
ideia de estabelecer um sistema para transmitir o retrato falado através do telégrafo.
O invento baseava-se em um código decimal, e cada uma das qualidades individuais
estabelecidas pelo assinalamento descritivo de Bertillon estava representada por uma
cifra: se 0.3 significava “orelha”, 0.31 era a borda da orelha e 0.32 o lóbulo,
enquanto 0.321 fazia referência à “forma da borda livre do lóbulo”, e assim
sucessivamente.102 O código apresentava duas vantagens para a prática da
transmissão telegráfica. Em primeiro lugar, reduzia muito a quantidade de caracteres
que deviam ser usados para descrever um sujeito em um telegrama (no exemplo que

101
LOCARD, Edmond. A identificação pelas impressões Digitais. O emprego da datiloscopia na
América do Sul. O processo Vucetich (Trad. Félix Pacheco). Rio de Janeiro, Typ. Rebello Braga,
1904, p. 23. Outro questionamento de um vucetichista brasileiro, dirigido contra a defesa que Locard
fez do retrato falado, pode ser visto em: LIMA, Hermeto. “Retrato falado”, Boletim Policial, Ano III,
n. 8, Rio de Janeiro, dez. 1909, p. 183-185. Neste caso, a crítica se baseava em argumentos mais
técnicos que os de Pacheco, já que Hermeto Lima argumentava sobre as falhas do método quando dois
indivíduos pareciam-se fisionomicamente e, inclusive, se referia à possibilidade de um indivíduo
modificar seu rosto com cirurgias estéticas. Ver: LIMA, Hermeto. A identidade do homem pela
impressão digital (datiloscopia). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1908, p. 15-18.
102
REISS, R.A. Un code télégraphique du portrait parlé. Paris: A. Meloixe, 1907, p. 9.

176
dava no texto, Reiss reduzia um retrato falado de 75 caracteres em letras a 29
caracteres em números).103 Em segundo lugar, ao ser um código numérico, não
necessitava de traduções quando as mensagens se intercambiavam entre dois países
que falam idiomas distintos. Reiss explicava:

Este código é absolutamente internacional porque as cifras são as


mesmas para todos os países e podem facilmente ser traduzidas
para todas as línguas a partir do código francês; de modo que as
mesmas cifras signifiquem para todos os mesmos caracteres.
Advertir-se-á que, depois da aceitação do código, haveremos dado
um grande passo na internacionalização da polícia.104

Seguindo esta mesma ideia, Séverin Icard começou a publicar em 1909 seus
trabalhos difundindo uma “fórmula cifrada” que reduzia os custos da transmissão
telegráfica e fazia, supostamente, mais simples as traduções da linguagem
numérica.105 Enquanto Reiss continuava com sua obra de difusão e sistematização da
criminalística, Icard dedicou a este tema vários trabalhos, onde foi aperfeiçoando
cada vez mais a proposta.106 Mas o núcleo original da ideia de Reiss se mantinha
intacto. Se conseguisse instalar uma linguagem universal para a transmissão
internacional do retrato falado, a captura dos criminosos viajantes seria cada vez
mais simples e menos lenta.107 Estava claro que esse era o problema que Reiss
apontava:

Os bandos internacionais de estelionatários, ladrões de hotéis,


falsos jogadores, anarquistas etc., se fazem, pelas facilidades nos
transportes, cada dia mais numerosos, e é muito difícil, se não

103
Idem, p. 22-23.
104
Idem, p. 23.
105
ICARD, Séverin. “La formule chiffrée du portrait parlé. Application de la méthode aux marques
particulières”, Archives d’Anthropologie Criminelle, 1909, p. 783-790.
106
ICARD, Séverin. “Nouvelle méthode pour obtenir la formule chiffrée du portrait parlé. Le nombre
signalétique international”, Archives d’Anthropologie Criminelle, 1909, p. 123-131. ICARD, Séverin.
“Code signalétique international”, Archives d’Anthropologie Criminelle, 1912, p. 561-615.
107
No campo dos estudos da datiloscopia também buscaram-se formas diferentes de transmitir
internacionalmente as fichas de identificação, ver: ROMAY, Francisco. Teledactiloscopia.
Identificación a la distancia. Buenos Aires: Talleres Gráficos de la Penitenciaría Nacional, 1928.

177
impossível, vigiá-los pela polícia de um país, se esta não é ajudada
na tarefa por informações rápidas e precisas provenientes das
polícias dos países ou lugares onde estes bandos operam com seus
negócios delitivos.108

Apesar das lutas facciosas entre os partidários do sistema datiloscópico e os


defensores do bertillonnage, e contra suas tentativas de impor um conjunto de
técnicas de criminalística que excluíssem completamente as invenções do adversário,
a realidade dos serviços policiais tendia a ser muito mais eclética. Em 1907, por
exemplo, Elysio de Carvalho difundia no Boletim Policial uma notícia sobre a
criação da Escola de Agentes de Investigações na polícia portenha e explicava que os
estudantes eram instruídos em conhecimentos de datiloscopia, mas também na
técnica do retrato falado e em diversos métodos científicos de investigação
criminal.109

Como Locard e Reiss, Carvalho também era partidário deste ecletismo


tecnológico, princípio que aplicou ao criar sua própria escola de agentes de
investigação, em 1912.110 No ano seguinte, Reiss chegou ao Brasil convidado pela
polícia paulista e brindou conferências em São Paulo e no Rio de Janeiro.111 Na
capital, dissertou sobre uma grande quantidade de técnicas da moderna polícia
científica: perícias no local do crime, impressões digitais, exames de roupas,
recomposição e reconhecimento de cadáveres, análise de manchas de sangue, estudos
de cabelos, perícias gráficas sobre papel moeda falsa, falsificações de documentos
escritos etc.112

Em São Paulo também falou sobre esta multiplicidade de saberes, mas agregou
uma lição sobre a necessidade de avançar no campo da polícia internacional. Embora

108
REISS, R.A. Un code télégraphique du portrait parlé. Op. Cit., p. 23.
109
CARVALHO, Elysio de. “Escolas de Agentes”, Boletim Policial, Anno I, n. 3, Rio de Janeiro, jul.
1907, p. 17-18.
110
CARVALHO, Elysio de. La Police Scientifique au Brésil. Biblioteca do Boletim Policial: VIII. Rio
de Janeiro: Imprensa Nacional, 1912, p. 15-19.
111
Ver: MARTINS, Marcelo Thadeu Quintanilha. A civilização do delegado. Modernidade, polícia e
sociedade em São Paulo nas primeiras décadas da República, 1889-1930. Tese de Doutorado em
História Social, Universidade de São Paulo, 2011, p. 227-234.
112
REISS, R.A. Polícia Technica. Resumo das conferências realizadas no Rio. Biblioteca do Boletim
Policial: XXI. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1914.

178
Reiss entendesse a criminalística como um conjunto de técnicas diversas, a variedade
de procedimentos devia ter um limite: cada polícia tinha direito de organizar seus
serviços como quisesse, mas todas tinham a obrigação de encontrar uma linguagem
para transmitir informações e cooperar nas capturas dos criminosos transnacionais.113
Se no domínio das técnicas tinha se avançado muito, neste terreno da cooperação
policial estava tudo por ser feito. E, frente ao público brasileiro, Reiss realizava uma
observação curiosa sobre a internacionalização das polícias:

Deve, pois, tratar-se seriamente a união policial internacional. Não


será talvez possível às nações europeias, pelas delicadezas da sua
vida política internacional, chamar a si essa inciativa. Ela está
naturalmente indicada a um país neutral, alheio a essas lutas de
chancelarias; e, porventura, o Brasil seria bem acolhido numa
proposta dessa natureza.114

Reiss projetava estas dúvidas sobre as chances europeias de liderar qualquer


projeto de polícia internacional, apenas um ano antes do começo da Primeira Guerra
Mundial. Não é casual que os grandes criminalistas desse continente estivessem de
olho na América do Sul. A época da fascinação com Europa e com suas polícias
modernas parecia entrar em um processo de declive, como se notava na tardia
viagem do policial carioca Hermeto Lima ao bureau de Bertillon em 1910:

Pensávamos encontrar uma repartição luxuosa, que aliasse o


conforto ao fino gosto dos móveis e das tapeçarias. Engano
profundo nosso. Apesar de se achar esse departamento policial
instalado no suntuoso Palais da Justice, ele o está espalhado por
algumas salas estreitas e acanhadas. (...)
Depois de nos termos feito anunciar, fomos recebidos pelo Sr.
Alphonse Bertillon. Dissemos que éramos funcionários duma
repartição congênere do Rio de Janeiro.
- De Buenos Aires? perguntou o Sr. Bertillon.

113
REISS, R.A. Polícia Técnica. Resumo das conferências realizadas em S. Paulo. Biblioteca do
Boletim Policial: IXI. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1914, p. 39-42.
114
Idem, p. 41.

179
- Não, respondemos, do Rio de Janeiro, capital do Brasil, que é um
país que nada tem que ver com Buenos Aires, e que é tão grande,
que de seus vinte estados um dos menores é maior que a França.
(...) Passamos depois a visitar a repartição, onde não achamos
nada de novo, a não ser a descoberta, que fizemos, de mais uma
vantagem do vucetichismo sobre o bertillonnage. Aqui a ficha é,
como se sabe, dupla, o que dá lugar a maior quantidade de
armários e consequentemente de espaço para os colocar. Na
repartição há uma sala destinada à aula do portrait parlé, criação
do Sr. Bertillon e onde os agentes policiais vão aprender esse
complicado e falho método de achar entre a multidão o indivíduo
procurado.115

As coisas haviam mudado muito, não apenas na opinião que os policiais sul-
americanos tinham da Europa, mas também no olhar que os europeus arrojavam
sobre estas terras. Por isso, talvez, Locard não duvidou muito em declarar que os
gabinetes europeus de datiloscopia pareciam “sótãos infames ao lado das suntuosas
instalações americanas” e concluía: “mais uma vez se adivinhará onde está a
civilização e onde está a decadência”.116

115
LIMA, Hermeto. “A identificação em Paris”, Boletim Policial, Ano III, n. 12, Rio de Janeiro, abr.
1910, p. 84-85.
116
Citado em RIBEIRO, Leonidio. Dactiloscopia: a propósito do cinquentenário da sua descoberta.
Rio de Janeiro: Est. Graphico Canton & Reile, 1941, p. 23.

180
Encontros de policiais

Veio para Buenos Aires um agitador italiano,


anarquista de ação, homem perigoso, em uma
palavra, a quem o governo de seu país havia
expulsado de sua terra natal, com a
comodidade com que se leva adiante na
sociedade internacional isso de enviar
tranquilamente a outro país o que em seu
próprio incomoda.
Manuel Mujica Farías, Reportagem (1900).1

Na reportagem que a imprensa espanhola lhe fez, durante seu passeio pelas
polícias europeias, Mujica Farías contava este caso de um anarquista italiano, a quem
havia recebido em seu gabinete no Departamento Central de Polícia pouco tempo
antes. O militante libertário procurou a polícia para conversar sobre um assunto
vinculado a sua profissão de advogado e não hesitou em confessar, ao secretário
geral da instituição, suas inclinações ideológicas. No entanto, Mujica Farías não
narrava esta anedota com a única intenção de questionar a atitude dos países
europeus de expulsar seus “indesejáveis” à América do Sul, mas para mostrar a
capacidade de regeneração nestas repúblicas, com suas terras promissoras e sua
abundancia de trabalho. Segundo contava o policial portenho, três meses depois de
sua chegada a Buenos Aires, “o famoso anarquista italiano, cujo nome peço não
publicar, revalidava um título de doutor em jurisprudência, abria escritório e fundava
uma revista muito interessante (...). Eu, secretário de polícia, figuro na redação da
revista”.2

1
“Un reportaje interesante. El doctor Mujica Farías en Madrid”, Revista de Policía, Año IV, n. 79,
Buenos Aires, 1 set. 1900, p. 103.
2
Idem, p. 103.
Não é difícil adivinhar o nome deste anarquista e o da revista que dirigia.
Tratava-se de Pietro Gori, um conhecido militante libertário que se exilou na
Argentina em 1898 para evitar uma condenação à prisão por sua participação nos
protestos desse ano em Milão. A revista que fundou era Criminalogia Moderna, a
primeira publicação periódica de antropologia criminal na América Latina. De fato,
Mujica Farías aparecia – junto a outros nomes ilustres como Juan Vucetich, Antonio
Dellepiane, os irmãos Agustín e Luis María Drago – na lista de redatores da revista
desde seu primeiro número, do dia 20 de novembro de 1898. Apesar da confiança de
Mujica Farías em que esta dedicação a uma revista científica, produzida junto com
criminologistas e policiais, significava um afastamento do pensamento anarquista, a
realidade era muito mais complexa. Gori continuou sua atividade propagandística na
Argentina, influenciando, por exemplo, o pensamento do jovem criminologista José
Ingenieros, e seguiu professando essas ideias em sua última década de vida, na Itália,
aonde regressou em 1902.3

De qualquer modo, além dessa questão, o conteúdo desta reportagem era


altamente representativo da posição de muitos policiais sul-americanos nesses anos.
Não era um momento qualquer: Mujica Farías estava seguindo a doutrina formulada
pelo seu compatriota Miguel Cané, redator do projeto de lei de expulsão de
estrangeiros, apresentado em 1899 e sancionado no Parlamento argentino em 1902.4
Para Cané, as promissoras terras sul-americanas haviam se convertido em
“laboratório de delitos” e no destino predileto para “todo vagabundo ou criminoso
que já não encontra abrigo na Europa”.5 O autor não desconhecia nem ocultava, neste
texto, o temor frente ao “novo espírito das massas europeias”, os recentes atentados

3
Ver GELI, Patricio. “Los anarquistas en el gabinete antropométrico. Anarquismo y criminología en
la sociedad argentina del 900”, Entrepasados, Año I, n. 2, 1992, p. 7-24. ANTONIOLI, Maurizio.
Pietro Gori, il cavaliere errante dell’anarchia. Studi e testi. Pisa: BFS Ed., 1995.
4
As leis de expulsões de estrangeiros foram amplamente trabalhadas pela historiografia argentina,
com ênfase em seu surgimento e aplicação para a repressão do movimento operário e, em particular,
do anarquismo. Ver, por exemplo: SURIANO, Juan. Trabajadores, anarquismo y Estado represor: de
la Ley de Residencia a la Ley de Defensa Social (1902-1910). Buenos Aires: Centro Editor de
América Latina, 1988. ZIMMERMANN, Eduardo. Los liberales reformistas. La cuestión social en la
Argentina. Buenos Aires: Sudamericana, 1995. VILLAVICENCIO, Susana (ed.). Los contornos de la
ciudadanía. Nacionales y extranjeros en la Argentina del Centenario. Buenos Aires: EUDEBA, 2003.
CONSTANZO, Gabriela. Los Indeseables. Las Leyes de Residencia y Defensa Social. Buenos Aires:
Madreselva, 2009.
5
CANÉ, Miguel. Expulsión de extranjeros. Apuntes. Buenos Aires: J. Sarrailh, 1899, p. 11-12.

182
anarquistas com bombas e sua imediata resposta repressiva: a Conferência
Internacional celebrada em 1898 na cidade de Roma.6

A preocupação com a intensa circulação territorial dos militantes anarquistas e


o caráter eminentemente transnacional do movimento estiveram na base dos
primeiros projetos de criação de uma polícia internacional, tal como foi analisado por
diversos autores.7 Mas os argumentos empregados nos debates, as tecnologias
propostas para o intercâmbio de informações (entre as quais estava o bertillonnage) e
a decisão de considerar aos atentados anarquistas como delitos “não políticos” para
efeitos dos procedimentos de extradição, era uma posição que se sustentava em um
esqueleto discursivo prévio, sobre a necessidade de atacar com medidas
transnacionais a diversos criminosos viajantes: proxenetas, falsários, grandes
estelionatários, etc.

Na construção desse discurso, amplamente difundido pelo mundo, as


discussões sobre a troca internacional de fichas de identificação ocuparam um lugar
central. Além disso, a América do Sul, e em particular a rota atlântica entre Buenos
Aires e Rio de Janeiro, era um dos centros de irradiação desta corrente de
internacionalização policial. A conferência realizada em Buenos Aires em 1905
resultou em um dos primeiros convênios de polícia internacional de todo o mundo e
a proposta surgiu, precisamente, de uma série de aproximações entre as polícias da
Argentina e Brasil.

Tal como Ori Preuss mostrou recentemente, esta aproximação formava parte de
trocas mais amplas nas renovadas relações culturais e políticas entre ambos os países.
A majestosa visita do presidente Roca ao Rio de Janeiro em 1899 e, em retribuição, a

6
Idem, p. 9-10. Sobre a Conferência Anti-Anarquista de Roma e o movimento de internacionalização
da vigilância policial, ver: BACH JENSEN, Richard. “The International Anti-Anarchist Conference of
1898 and the Origins of Interpol”, Journal of Contemporary History, Vol. 16, n. 2, apr. 1981, p. 223-
347. E sobre os atentados anarquistas da década de 1890: MERRIMAN, John. The Dynamite Club.
How a bombing in fin-de siècle Paris ignited the age of modern terror. New York: Harcourt, 2009.
KNEPPER, Paul. “Anarchist Outrages”. In: The Invention of International Crime. A Global Issue in
the Making, 1881-1914. London: Palgrave, 2010, p. 128-158.
7
BACH JENSEN, Richard. “The International Anti-Anarchist Conference of 1898 and the Origins of
Interpol”, Op. Cit., p. 338-342. DEFLEM, Mathieu. Policing World Society: Historical Foundations of
International Police Cooperation. New York: Oxford University Press, 2004, p. 66-68. ANDREAS,
Peter; NADELMAN, Ethan. Policing the Globe. Criminalization and Crime Control in International
Relations. Oxford/New York: Oxford University Press, 2008, p. 79-96.

183
viagem de Campos Sales a Buenos Aires, foram o auge de um estreitamento de
vínculos que havia começado com os festejos portenhos pela abolição da escravatura
no Brasil e a transformação, produzida pelas elites republicanas, do olhar para a
República Argentina, país que os monarquistas consideravam um exemplo da
desordem política hispano-americana.8

Estas visitas presidenciais tiveram diversos ingredientes diplomáticos, entre os


que se destacava a jogada que Roca fez para evitar uma aliança do Brasil com o
Chile, no marco da tensão bélica com o país transandino pela questão limítrofe. Mas
na numerosa comitiva que acompanhou o presidente argentino em sua visita à capital
brasileira, cada um dos atores levou sua própria agenda, nem sempre subordinada aos
objetivos políticos das altas esferas do governo. A imprensa carioca brindou uma
detalhada cobertura da viagem de Roca, que ocupou a capa dos principais jornais
durante vários dias. Inclusive, desde antes de a comitiva oficial embarcar no porto de
Buenos Aires rumo ao Brasil, as notícias telegráficas informavam sobre as novidades
na Argentina. No dia 31 de julho de 1889, o Jornal do Comércio publicava um
telegrama enviado pelo correspondente de Buenos Aires:

O Sr. Beazley, Chefe da Polícia de Buenos Aires, com quem tive


ocasião de conversar hoje, declarou-me que a sua ida na comitiva
do General Roca tem por fim conferenciar com o Dr. Brasil
Silvado a respeito de importantes medidas de polícia internacional.
O Sr. Beazley exprimiu a maior confiança nos resultados dessa
entrevista, tendente a melhorar o serviço policial entre a Argentina
e o Brasil.9

Em um telegrama posterior, o correspondente agregava que no dia 2 de agosto,


perto da meia-noite, Roca e sua comitiva haviam embarcado rumo ao Rio de Janeiro
no vapor Patria e que Francisco Beazley levava consigo álbuns com retratos de
quinhentos criminosos.10 Uma semana depois, a recepção na capital brasileira era
espetacular, tanto nas ruas como nos jornais, que ocupavam integralmente as

8
PREUSS, Ori. Bridging the Island. Brazilian´s Views of Spanish America and Themselves, 1865-
1912. Frankfurt/Madrid: Iberoamericana-Vervuert, 2011, p. 116 e ss.
9
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 31 jul. 1899, p. 1.
10
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 3 ago. 1899, p. 1.

184
primeiras páginas com retratos e biografias de Roca, o primeiro presidente latino-
americano a fazer uma visita oficial ao Brasil. Alguns dias depois da chegada, o
Jornal do Comércio publicava uma extensa reportagem com o chefe da polícia
portenha, realizada por Félix Pacheco.11

Pacheco ratificava as informações do correspondente, explicando que a


inclusão de Beazley na comitiva não era de enfeite nem “de mera cortesia”. Sua
viagem ao Rio de Janeiro buscava tratar um “assunto da máxima relevância”, o qual
coincidia também com as notícias que publicava a revista policial portenha: a visita
não havia sido o produto de um “mero entretenimento, nem suas consequências se
limitaram às satisfações pessoais de uma viagem de lazer”.12 Segundo a reportagem
do Jornal do Comércio, antes da ascensão de Beazley à chefia, em 1896, as polícias
do Rio de Janeiro e Buenos Aires raramente se comunicavam. Nos últimos anos, os
intercâmbios diretos entre as chefaturas, sem intervenção das autoridades consulares,
haviam se intensificado. Esse laço direto era, segundo o chefe da polícia portenha,
imprescindível para o êxito de alguns procedimentos.

Havia que apurar esse canal de comunicações que tinha algumas interferências.
Os contatos nos anos prévios, aos que se referia Beazley na reportagem, eram tão
reais como os inconvenientes que os rodeavam. Um ano antes da visita, por exemplo,
a polícia portenha enviava um telegrama ao chefe da polícia do Rio de Janeiro
“rogando-lhe encarecidamente que se digne a responder os telegramas datados de 31
de outubro e 2 atual”, sobre um preso francês que fugiu do cárcere da província de
Misiones, e que segundo as investigações argentinas se encontrava em Porto Alegre,
hospedado no hotel Lagaché.13 A polícia de Buenos Aires solicitava sua captura

11
“Entrevista com o Dr. Beazley”, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 10 ago. 1899, p. 3. Embora
o jornalista que realizou a entrevista não aparecia mencionado na publicação, em seu discurso na
sessão inaugural da Conferência Sul-americana de Polícia de 1905, Félix Pacheco (que chegou a ser
coproprietário do Jornal do Comércio) recordava “a entrevista que o ilustre Dr. Francisco Beazley me
concedeu quando esteve no Rio de Janeiro com o senhor General Roca, e que foi publicada”. Discurso
reproduzido em: “Convención Internacional de Policía”, Boletín de Policía, Año I, n. 12, Buenos
Aires, 15 oct. 1905, p. 9.
12
“La policía de Río de Janeiro. El viaje del Doctor Beazley”, Revista de Policía, Año III, n.55,
Buenos Aires, 1 sep. 1899, p. 99.
13
AN, Fundo GIFI, 6C24, telegrama de 3 de nov. de 1898.

185
imediata e sua extradição. Em uma anotação nas margens do expediente gerado pela
reiteração de telegramas de Buenos Aires, lê-se:

O Sr. Ministro de Justiça declarou que o pedido do Comissário de


Ordens de Buenos Aires para a captura de Julio Mereau não pode
ser atendido, porque é indispensável que seja feito de governo a
governo, e não por autoridade inferior, sendo certo que não temos
atualmente Tratado de Extradição e regulam, na falta de acordo, os
princípios estabelecidos por outras nações, quer em tratados, quer
seguindo as regras do direito internacional.14

Talvez este tipo de curto-circuito ressoasse em Beazley quando dizia, na


reportagem com Pacheco, que buscava estabelecer canais de comunicação entre as
polícias “sem intermediários”. As informações deviam viajar com rapidez, sem
obstáculos burocráticos ou, do contrário, as polícias ficariam defasadas pela
velocidade com que os criminosos se moviam no espaço atlântico sul-americano.
Inclusive Beazley se explanou sobre uma teoria da distribuição espacial dos ladrões,
cuja lógica estava diretamente ligada à intensidade da perseguição policial:

Como se sabe, a nossa capital e a da República Argentina, são os


dois grandes centros de ação da gatunagem na América do Sul.
Perseguidos com rigor pelos agentes da lei, os gatunos foram para
o Rio de Janeiro. Inversamente, quando a polícia daqui vigia com
insistência e persegue com todo o rigor da lei, os amigos do alheio
vão se refugiar em Buenos Aires.15

Após esta explicação, o jornalista interrompeu Beazley para contar um fato que
apoiava sua teoria. Logos após ser anunciada a visita de Roca ao Rio de Janeiro,
segundo as investigações da polícia carioca, começaram a chegar gatunos de Buenos
Aires, que pretendiam aproveitar as aglomerações dos festejos públicos para roubar.
Pacheco agregava que o próprio Jornal do Comércio noticiara, recentemente, a

14
AN, Fundo GIFI, 6C24, nota de 17 nov. 1898. O primeiro tratado de extradição entre as repúblicas
do Brasil e Argentina se celebrou em 1933 e estabelecia que os pedidos de extradição deviam ser
apresentados sempre por “via diplomática”. AHC, “Tratado de Extradición entre la República
Argentina y el Brasil”, Río de Janeiro, Octubre de 1933, art. IV.
15
“Entrevista com o Dr. Beazley”, Op. Cit., p. 3.

186
detenção de um ladrão conhecido como “Gallego Octavio” que, com um grupo de
colaboradores portenhos, foram detidos ao desembarcar na capital brasileira e
enviados de volta a Buenos Aires no vapor Duchessa Di Genova.

Para provar o intenso fluxo de ladrões entre ambas cidades, Beazley ordenou
que viajassem ao Rio de Janeiro, em um navio diferente ao da comitiva oficial, “três
velhos agentes experientes” que conheciam “absolutamente a todos gatunos que
infestam Buenos Aires”.16 O chefe da polícia carioca, Brasil Silvado, autorizou esses
agentes a fazer uma ronda de reconhecimento pelas distintas prisões da capital. Dois
dias depois da reportagem, o Jornal do Comércio anunciava o desembarque dos
agentes secretos, que não eram três senão quatro, e que o cronista descrevia como
“perfeitos gentleman” que falavam diferentes idiomas.17 No mesmo dia os agentes
visitaram a Repartição Central de Polícia, a Casa de Detenção e a Casa de Correção,
onde reconheceram ao redor de doze ladrões que tinham visto em Buenos Aires,
entre os quais estavam: Felippe Monfo, vulgo “el brasilerito”; Francisco Taborda,
vulgo “ojo de buey”; Manoel de Oliveira, conhecido na capital argentina como
“Segundo Lobo”; José Ferrari e sua mulher Theresa, cúmplice em seus roubos, “que
ficou muito envergonhada e confusa com a descoberta”.18

Além disso, o jornalista teve acesso aos dois volumes da galeria fotográfica de
ladrões conhecidos que Beazley obsequiou a Brasil Silvado e pôde fazer seus
próprios reconhecimentos visuais. O criminoso número 40, segundo explicava a seus
leitores, que figurava no álbum portenho como Luciano Ludueña, Pantaleón Gómez
ou Pedro Ruiz, era conhecido pela polícia fluminense como “Julio Madurano”; e o
mesmo sucedia com Alberto Gomensoro.19 Efetivamente, os retratos desses ladrões
estavam numa galeria policial de 1892:

16
Idem, p. 3.
17
“Os Agentes da polícia secreta de Buenos Aires”, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 ago.
1899, p. 3.
18
Idem, p. 3. A roda de reconhecimento dos agentes secretos portenhos foi notícia também em: “Na
polícia”, Jornal do Brasil, 12 ago. 1899 e “Na polícia”, Jornal do Brasil, 13 ago. 1899.
19
“A polícia argentina”, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13 ago. 1899, p. 2.

187
Luciano Ludueña, retratado em julho de 1889.
Fonte: Galería de Ladrones de la Capital, 1881-1891. Buenos Aires, 1887, ficha 40.

Alberto Gomensoro, retratado em junho de 1889.


Fonte: Galería de Ladrones de la Capital, 1881-1891. Buenos Aires, 1887, ficha 84.

188
Beazley também percorreu as instalações das Casas de Detenção e Correção, e
passou pelo Gabinete Antropométrico, onde cumpriu com a cerimônia de se deixar
retratar com os padrões da fotografia métrica de Bertillon.20 No entanto, a parte mais
significativa da visita foram as reuniões entre os chefes de ambas polícias. Segundo o
jornal O País, esses encontros tiveram como principal objetivo firmar um acordo
para facilitar reciprocamente “os meios necessários à repressão da gatunagem”.21 Na
entrevista com Pacheco, Beazley explicou que durante sua chefia, a perseguição de
ladrões e punguistas intensificara-se muito, uma fama que a imprensa portenha
alimentava com frequência, como se via em uma ilustração da revista Caras y
Caretas, onde o chefe da polícia aparecia “limpando a cidade” de gatunos.

“El Doctor Beazley, por Mayol”


Fonte: Caras y Caretas, n. 22, Buenos Aires, 4 mar. 1899.

20
“Polícia argentina”, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 15 ago. 1899, p. 1-2. “O Dr. Francisco
Beazley”, O Paiz, Rio de Janeiro, 15 ago. 1899, p. 1.
21
“O Dr. Beazley”, O Paiz, Rio de Janeiro, 10 ago. 1899, p. 1.

189
De acordo com a entrevista, muitos ladrões começaram a fugir para
Montevidéu por causa desta perseguição, mas os acordos com a polícia uruguaia para
intercambiar informações telegraficamente permitiram que os criminosos viajantes
fossem detidos ao atravessar o Rio da Prata. Beazley suspeitava que agora o novo
destino escolhido por estes sujeitos fossem os portos brasileiros. Por isso, o objetivo
do chefe de polícia era estender esses acordos informais aos três países envolvidos
nas rotas transatlânticas sul-americanas: “com um serviço assim, internacionalmente
combinado, mas independente e harmônico, o Brasil, a Argentina e o Uruguai
acabariam por devolver à Europa o elemento pernicioso que ela nos envia”.22

O propósito de Beazley era a defesa da América do Sul frente aos “elementos


adventícios, anárquicos e dissolventes, de além-mar” que chegavam a estas costas
para “corromper o nosso meio social e semear aqui os germens funestos que
proliferam perigosamente no velho continente”.23 Essa tarefa, concluía, seria coroada
pela lei de expulsão de estrangeiros que estava sendo discutida no parlamento
argentino.

Estes projetos difundidos pela imprensa carioca coincidiam com a versão que a
revista policial portenha dava sobre a visita do chefe de polícia ao Rio de Janeiro.
“Não se firmaram convênios, nem se têm escrito tratados”, explicava o cronista, mas
haviam conseguido estabelecer acordos para a troca de comunicações, prontuários,
avisos e diversas informações sobre o “ativo e natural intercâmbio que a gente do
mal viver e os malfeitores de toda espécie mantém constantemente entre uma e outra
cidade”.24 Esta revista difundia, ainda, uma fotografia de uma das reuniões, onde se
viam os dois chefes rodeados por distintos funcionários da polícia carioca, entre os
quais estavam os titulares do Gabinete Antropométrico, Souza Gomes e Renato
Carmil.

22
“Entrevista com o Dr. Beazley”, Op. Cit., p. 3.
23
Idem, p. 3.
24
“La policía de Río de Janeiro. El viaje del Doctor Beazley”, Op Cit., p. 100.

190
“La Policía de Río de Janeiro. El viaje del Doctor Beazley”
Fonte: Revista de Policía, n. 55, Buenos Aires, 1 sep. 1899.

“Cremos não errar afirmando que entre os dois chefes de polícia, Drs. Beazley
e Brasil Silvado, ficou definitivamente assentado o modo em que de ora em diante se
comunicarão as duas polícias das duas grandes capitais da América”, festejava o
cronista do Jornal do Comércio.25 Mas alguns indícios sugerem que o entendimento
mútuo não foi tão completo. Quando na reportagem a Beazley, Félix Pacheco
perguntou sobre a possibilidade de “permuta de fichas antropométricas”, a resposta
do chefe portenho foi categórica: julgava-a totalmente desnecessária, “uma vez que
os retratos trazem à margem todos os dados indispensáveis para a verificação da
identidade dos criminosos”.26 É provável que a opinião de Brasil Silvado fosse outra,
considerando que recentemente havia criado o Gabinete Antropométrico, cujas
instalações mostrou com orgulho a Beazley durante a visita institucional. Mas poucas
implicações teve essa eventual diferença: os anos imediatamente seguintes seriam
testemunhas de uma ascensão inédita da cooperação policial entre Argentina e Brasil,
processo onde nem a antropometria nem a fotografia seriam as verdadeiras
protagonistas.

25
“Polícia Argentina”, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 18 ago. 1899, p. 1.
26
“Entrevista com o Dr. Beazley”, Op. Cit., p. 3.

191
Congressos, Convênios, Conferências

A viagem de Campos Sales a Buenos Aires, em novembro de 1900, envolveu


também manifestações públicas e festejos suntuosos nas ruas. Embora a comitiva
brasileira não levasse consigo as mesmas intenções de avançar nos acordos de
cooperação policial, a visita teve efeitos indiretos nesse campo. A polícia portenha
cuidou até o último detalhe da sua performance pública, seus desfiles, uniformes e a
vigilância durante as celebrações de rua, porque – como se percebe nas notas
dedicadas a estes preparativos na revista policial – havia uma preocupação deliberada
por se mostrar a vanguarda das forças de segurança da América do Sul.27

“Despedida del Presidente Campos Sales – Grupo de Comisarios”


Fonte: Revista de Policía, n. 84, Buenos Aires, 16 nov. 1900, p. 81.

27
Ver, por exemplo: “La visita internacional” Revista de Policía, Año III, n. 65, Buenos Aires, 1 feb.
1900, p. 289. “Recepción del presidente de Brasil. Servicios policiales extraordinarios”, Revista de
Policía, Año III, n. 68, Buenos Aires, 16 mar. 1900, p. 330-331. “Sueltos. Visita del señor presidente
del Brasil”, Revista de Policía, Año IV, n. 79, Buenos Aires, 1 sep. 1900, p. 109-110.

192
Depois da visita, os jornais de Buenos Aires festejaram a “apurada aparência
dos delegados e a compostura de todos seus subordinados”, o modo em que a
“cultíssima polícia da capital” havia sido a estrela das celebrações.28 Sem ocultar
muito sua vaidade, os redatores do boletim policial exclamavam: “nossa polícia é,
sem dúvidas, superior a todas as outras deste continente sul-americano”.29 Este
postulado era inclusive alimentado por alguns representantes dessas outras forças do
subcontinente. Para uma comitiva de chilenos que viajou em 1903 a Buenos Aires,
com a intenção de estudar a organização da polícia portenha, esta era “não apenas a
primeira da América do Sul, senão também digna de figurar ao lado das melhores da
Europa”.30 No ano seguinte, após uma visita de policiais uruguaios, lia-se na revista
portenha:

Quando ocorreu a viagem do presidente dos Estados Unidos do


Brasil e quando se produziu a visita dos comissionados chilenos
(...), ouvimos da boca dos membros das duas comitivas os mais
sinceros elogios da polícia da metrópole sul-americana. A estes
elogios agregamos agora esta visita dos funcionários policiais
uruguaios, que tinham como objetivo praticar e estudar nossa
organização. Concluímos que, se somamos aos pontos de nossa
pluma uma palavra impregnada de certo tinte de vaidade, essa
vaidade fica plenamente justificada pelos fatos.31

Ao referir a sua própria instituição como a polícia da “metrópole sul-


americana” estava se sugerindo uma mensagem nada ingênua. Ao titular Buenos
Aires não só de metrópole argentina senão também sul-americana, pretendia-se
colocar a essa cidade como o eixo de uma comunidade incipiente de policiais da
América do Sul, eixo em torno do qual giravam uma multiplicidade de centros, que

28
Expressões dos jornais El País e El Diario, citadas em: “Ecos amables. La policía en las fiestas
brasileño-argentinas”, Revista de Policía, Año IV, n. 84, Buenos Aires, 16 nov. 1900, p. 177-179.
29
“El Coronel Fraga”, Boletín de Policía, Año I, n. 1, Buenos Aires, 30 abr. 1905, p. 6.
30
“Policías chilenas. Cuestiones interesantes”, Revista de Policía, Año VII, n. 156, Buenos Aires, 16
nov. 1903, p. 181. Sobre a visita ver também: “Sueltos. Jefe de Policía de Montevideo”, Revista de
Policía, Año VII, n. 148, Buenos Aires, 16 jul. 1903, p. 47. “Sueltos. De la policía de Chile”, Revista
de Policía, Año VII, n. 154, Buenos Aires, 16 oct. 1903, p. 154-155.
31
“La policía de Montevideo”, Revista de Policía, Año VIII, n.172, Buenos Aires, 16 jul. 1904, p. 51.
A visita dos funcionários uruguaios aparece também em: “Sueltos. Policía Uruguaya”, Revista de
Policía, Año VIII, n. 170, Buenos Aires, 16 jun. 1904, p. 21.

193
como veremos nem sempre eram as polícias das capitais.32 Evidentemente, as
palavras dos escritores da polícia portenha formavam parte de uma estratégia de
posicionamento. Mas nem o auge das visitas entre policiais sul-americanos no início
do século XX, nem a centralidade de Buenos Aires nessa trama de circulações, eram
ideias tão desconectadas com o que estava acontecendo.

Os funcionários brasileiros também elegeram Buenos Aires como paradigma


de organização policial a ser estudada, assim como haviam escolhido Paris e Londres
no final do século XIX. O chefe do gabinete de identificação da polícia de São Paulo,
Evaristo da Veiga, viajou com esse propósito à capital Argentina, em novembro de
1901, visitando o Departamento Central e várias delegacias.33 Desde o mesmo estado
e com o mesmo objetivo, viajaram a Buenos Aires dois delegados paulistas, Ascanio
B. de Cerquera e Octavio de Barros, em 1904.34 Nestes primeiríssimos anos do
século XX, a formação de uma rede de policiais da América do Sul teve, de fato, a
capital argentina como eixo de circulação. As técnicas de identificação ocuparam um
lugar destacado nesta rede, mas não foram seu único desencadeante, como se infere
da reportagem a Beazley, nem tampouco ao tema exclusivo de atenção nestas visitas
sul-americanas.

A conformação dessa rede e da multiplicidade de interesses em comum ficou


refletida também na intensa circulação de notícias entre as revistas policiais da
Argentina, Brasil, Uruguai e Chile. A plêiade de redatores que sustentavam essas
publicações começou a receber sistematicamente os exemplares das revistas dos
demais países, a resenhá-los em seus próprios números e, cada vez mais, a traduzir
artigos de autores sul-americanos.35 Além disso, este fenômeno se estendia às

32
Como indiquei na introdução, esta noção de “metrópole” foi problematizada pelo sociólogo norte-
americano Edward Shils, para discutir as interpretações do “modelo de transfusão” de um centro único
até a periferia. SHILS, Edward. La metrópoli y la provincia en la comunidad intelectual. In: Los
intelectuales en los países en desarrollo. Buenos Aires: Ediciones Tres Tiempos, 1981, p. 42-63.
33
“Sueltos. Un huésped distinguido”, Revista de Policía, Año V, n. 107, Buenos Aires, 1 nov. 1901,
p. 174.
34
“Sueltos. Delegados de la policía de San Pablo”, Revista de Policía, Año VII, n. 164, Buenos Aires,
16 mar. 1904, p. 315. “Sueltos. De la policía brasileña”, Revista de Policía, Año VIII, n. 169, Buenos
Aires, 1 jun. 1904, p. 15.
35
Ver, por exemplo: “Las revistas policiales sudamericanas”, Boletín de Policía de la Provincia de
Buenos Aires, Año I, n. 5, La Plata, 30 nov. 1905, p. 5-6. “La policía de Montevideo”, Revista de

194
publicações especializadas no campo da questão criminal, onde os intercâmbios entre
colegas da América do Sul também se fizeram mais frequentes.36

Essa intensificação dos intercâmbios simbólicos estava diretamente ligada aos


numerosos encontros vis-à-vis, facilitados pelo apogeu dos congressos científicos,
médicos e jurídicos na América Latina.37 Foi precisamente nestes congressos onde
terminou de adquirir forma a proposta que Beazley havia transmitido a Brasil
Silvado em 1899. O novo impulso teve como protagonistas os partidários do
“Sistema Datiloscópico Argentino”, que – com Vucetich à cabeça – buscaram apoios
sul-americanos em sua disputa internacional contra o bertillonnage. Na seção de
Ciências Jurídicas e Sociais do II Congresso Científico Latino-Americano
(Montevidéu, 1901), presidida pelo bacharel brasileiro Souza Sá Vianna, Juan
Vucetich expôs, pela primeira vez no exterior, as ideias básicas de seu sistema de
identificação. Entre as numerosas vantagens que, segundo seu criador, este método
tinha sobre o de Bertillon, estava a possibilidade de facilitar “a troca internacional de
capturas e pedido de antecedentes, posto que o sistema datiloscópico pode se
considerar um idioma legível corrente para todas as polícias do mundo”.38

As conclusões aprovadas neste congresso foram propostas por Alfredo


Garibaldi, o diretor do Gabinete Antropométrico de Montevidéu e veemente defensor
do bertillonnage. Aceitava-se a datiloscopia como um “complemento útil” nos

Policía, Año X, n. 233, Buenos Aires, 1 feb. 1907, p. 348-349. “Policía de Río de Janeiro. Boletín
Mensual”, Revista de Policía, Año XI, n. 241, Buenos Aires, 1 jun. 1907, p. 439.
36
Ver, entre outros exemplos, a resenha que Evaristo de Moraes fez em sua revista das estatísticas
publicadas por Criminalogia Moderna: “Estatística criminal. República Argentina”, Boletim Criminal
Brazileiro, Año I, n. 2, Rio de Janeiro, 15 nov. 1900, p. 7; ou a tradução que a principal revista
criminológica argentina fez de um artigo de Félix Pacheco, com anotações a rodapé de José
Ingenieros: PACHECO, Félix. “Identificación de los delincuentes. Ventajas del sistema
dactiloscópico”, Archivos de Psiquiatría, Criminología y Ciencias Afines, Buenos Aires, abr.-may.
1903, p. 227-235.
37
Sobre os congressos científicos, ver: SUPPO, Hugo Rogelio. “Ciência e relações internacionais. O
Congresso de 1905”, Revista da SBHC, n. 1, 2003, p. 6-20. Sobre os Congressos Médicos Latino-
Americanos e as Exposições Internacionais de Higiene: ALMEIDA, Marta de. “Circuito aberto: idéias
e intercâmbios médico-científicos na América Latina nos primórdios do século XX”, História,
Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 13, n. 3, jul.-set. 2006, p. 733-757; e sobre a cooperação latino-
americana em matéria sanitária: REBELO, Fernanda. A travessia: imigração, saúde e profilaxia
internacional (1890-1926). Tese de Doutorado em História das Ciências e da Saúde, Fundação
Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2010.
38
VUCETICH, Juan. Dactiloscopia. Cuál debe ser la idoneidad del identificador. Su prueba legal en
la reincidencia. Congresos Científicos. La Plata: Joaquín Sesé ed 1909, p. 19-20.

195
processos de verificação de identidade e criava-se uma comissão a fim de estudar
qual era o melhor procedimento “para que as nações americanas ibero-latinas
internacionalizem o serviço de identificação de pessoas”.39 Pela influência de
Garibaldi sobre os congressistas, as conquistas de Vucetich foram muito limitadas
nesta primeira investida fora da Argentina. No entanto, os vínculos que durante os
anos seguintes Vucetich foi estabelecendo com o Gabinete de Identificação do Rio
de Janeiro, dirigido por Félix Pacheco desde agosto de 1901, foram fundamentais
para avançar em seu projeto de construir uma polícia internacional sul-americana,
baseada nos intercâmbios de fichas datiloscopias.

Assim como em 1889 a polícia de Buenos Aires foi a primeira em implementar


o bertillonnage fora da França, a polícia carioca se converteu, em 1902, na primeira
em adotar o sistema datiloscópico fora da Argentina. A partir desse ano,
estabeleceu-se um acordo formal de troca de fichas entre os serviços de identificação
do Rio de Janeiro e La Plata, até mesmo antes que a datiloscopia fosse aceita na
polícia da capital argentina, em novembro de 1903. No ano seguinte, o médico
legista Afrânio Peixoto, delegado brasileiro no II Congresso Cientifico Latino-
americano (Buenos Aires, 1904), visitou o Gabinete de Identificação de Vucetich e
declarou, em apoio da posição de Pacheco, a superioridade da datiloscopia sobre a
antropometria.40

Todas estas conquistas prepararam o terreno para o que seria a


contraofensiva mais exitosa dos defensores do sistema datiloscópico. Não é casual
que essa investida, cuidadosamente preparada por Vucetich e Pacheco, tenha
ocorrido no Rio de Janeiro, durante o III Congresso Cientifico Latino-americano, em
agosto de 1905. Além de proclamar a absoluta supremacia do que agora preferia se
chamar, adotando a expressão dos criminologistas de Lyon, o “Sistema
Datiloscópico Sul-americano”, voltava-se sobre a ideia das trocas internacionais, que
ficava plasmada na última das conclusões aprovadas em forma unânime na primeira
jornada de reuniões da seção de Ciências Jurídicas e Sociais:

39
Idem, p. 20-21.
40
RIBEIRO, Leonidio. Dactiloscopia: a propósito do cinquentenário da sua descoberta. Rio de
Janeiro: Est. Graphico Canton & Reile, 1941, p. 18.

196
A individual dactiloscópica, por si só, determina a identidade da
pessoa, acrescendo que todas as polícias do mundo poderão ler na
mesma individual, qualquer que seja a classificação que adotem,
vindo assim a constituir o “Sistema Dactiloscópico” uma
verdadeira linguagem universal.41

O livro em que se publicaram as atas desta seção foi intitulado A Polícia


Argentina e a Polícia Brasileira, e publicado pela Imprensa Nacional nesse mesmo
ano. O boletim policial portenho fazia a mesma interpretação sobre este “triunfo das
ideias modernas”, apresentado, além disso, como uma prova da “fraternidade de
brasileiros e argentinos” nos artigos dedicados a traduzir as atas originais ao
espanhol.42 Juan Vucetich leu um trabalho sobre a “Evolução da Datiloscopia”, no
qual fazia um repasso dos avanços no campo internacional.43 Mas quem expôs, com
maior ênfase, a questão dos usos das fichas datiloscópicas para a cooperação policial
foi o chefe do Gabinete de Identificação do Rio de Janeiro. “Estavam nesse momento
na sala cerca de cinquenta pessoas, entre congressistas, advogados, professores,
funcionários policiais e numerosos estudantes de medicina e direito”, contava um dos
delegados de La Plata, quem interpretou as palavras de Pacheco como uma
“condenação formal do sistema Bertillon”.44

Pacheco recuperou uma ambiciosa tese que Vucetich havia apresentado antes,
no Congresso de Montevidéu de 1901: a criação de três “gabinetes intercontinentais
para a troca das fichas datiloscópicas de indivíduos perigosos”.45 A ideia original era

41
TERCEIRO CONGRESSO CIENTÍFICO LATINO-AMERICANO. A Polícia Argentina e a
Polícia Brasileira. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1905, p. 16.
42
“Tercer congreso científico latinoamericano. El triunfo de las ideas modernas. Fraternidad de
brasileños y argentinos”, Boletín de Policía, Año I, n. 10, Buenos Aires, 15 sep. 1905, p. 10-12.
43
VUCETICH, Juan. “Evolução da Dactyloscopia”. In: TERCEIRO CONGRESSO CIENTÍFICO
LATINO-AMERICANO. A Polícia Argentina e a Polícia Brasileira. Op. Cit., p. 3-13. Traduzido ao
espanhol em: “Tercer congreso científico latinoamericano. Memorias de brasileños y argentinos. I.
Evolución de la Dactiloscopia por D. Juan Vucetich”, Boletín de Policía, Año I, n. 12, Buenos Aires,
15 oct. 1905, p. 15-19.
44
“La Policía de la Provincia en el Tercer Congreso Científico Latinoamericano. Ruidoso triunfo de la
dactiloscopia”, Boletín de Policía de la Provincia de Buenos Aires, Año I, n. 2, La Plata, 31 ago.
1905, p. 7.
45
PACHECO, Felix. “A excelência do sistema datiloscópico Vucetich e a criação dos gabinetes inter-
continentais”. In: TERCEIRO CONGRESSO CIENTÍFICO LATINO-AMERICANO. A Polícia

197
que um desses gabinetes estivesse em uma capital europeia, outro em uma capital da
América do Sul e o último em América do Norte, mas o delegado de Guatemala
questionou que América Central ficasse supeditada aos Estados Unidos, e a proposta
finalmente aprovada recomendou a criação de quatro gabinetes.46

Se esta tese, por sua própria desmesura, não prosperou, distinta sorte teve a
segunda grande aposta do congresso. O próprio Vucetich e Alberto Cortina
apresentaram em público uma ideia que estava circulando entre os policiais da
Argentina e Brasil: a conformação de um “congresso policial sul-americano”.47
Segundo os representantes da Província de Buenos Aires, este passo seria o meio
mais eficaz para avançar na edificação de uma polícia internacional, uma
necessidade universal que, por complexas razoes geopolíticas, América do Sul podia
responder melhor que nenhum outro continente no mundo.48 Essas razões
justificavam a conveniência de “circunscrever unicamente aos países sul-americanos
a formação do congresso”, envolvendo as dez repúblicas de Venezuela, Colômbia,
Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai, Brasil e Paraguai.49

O congresso podia se iniciar com a participação de dois países, mas somente se


consideraria “estabelecido o serviço internacional de fato e de direito, com o
predomínio legítimo em todo o continente”, quando seis das dez repúblicas
estivessem representadas. Cada um destes países podia concorrer com representantes
nacionais, ou com delegados das polícias de algum dos estados ou províncias, e no
caso daqueles países que não enviassem representantes, poderiam aderir

Argentina e a Polícia Brazileira. Op. Cit., p. 45. Este trabalho também foi traduzido ao espanhol e
publicado em três entregas: Boletín de Policía, Año I, n. 13, Buenos Aires, 30 oct. 1905, p. 1-9;
Boletín de Policía, Año I, n. 15, Buenos Aires, 30 nov. 1905, p. 6-10; y Boletín de Policía, Año I, n.
17, Buenos Aires, 30 dic. 1905, p. 7-10.
46
“Tercer congreso científico latinoamericano. El triunfo de las ideas modernas. Fraternidad de
brasileños y argentinos”. Op. Cit., p. 11.
47
VUCETICH, Juan; CORTINA, Alberto. “Congreso Policial Sudamericano. Su necesidad y manera
de promoverlo”. In: TERCEIRO CONGRESSO CIENTÍFICO LATINO-AMERICANO. A Polícia
Argentina e a Polícia Brazileira. Op. Cit., p. 53-79.
48
Esses motivos, que iam desde vantagens geográficas e uniformidade dos sistemas políticos, até
questões históricas, eram um dos eixos do livro em que Cortina analisava comparativamente as
organizações policiais da Argentina, Brasil Chile e Uruguai. CORTINA, Alberto. La Policía en
Sudamérica. La Plata: Talleres Gráficos “La Popular”, 1905.
49
VUCETICH, Juan; CORTINA, Alberto.. “Congreso Policial Sudamericano. Su necesidad y manera
de promoverlo”. Op. Cit., p. 68.

198
posteriormente aos convênios acordados. A proposta de realização do primeiro
congresso policial foi também aprovada por unanimidade e entre os fundamentos se
aclarava:

A vinculação internacional deve existir também para efeitos do


perfeccionismo e maior desenvolvimento das polícias locais,
procurando em primeiro lugar: a harmonia, e concordância de uma
com as outras; a adoção de uma terminologia profissional comum;
a unidade de classificações em toda contravenção policial; o
procedimento uniforme.50

Esta intenção de uniformizar o trabalho das polícias sul-americanas era o tema


de exposição de outro delegado brasileiro, Antônio Bento de Faria. O jurista carioca
considerava que “a polícia coletiva dos países americanos, vinculados pelo
estabelecimento de preceitos idênticos e gerais uniformes e eficazes”, era a única
medida que poderia combater o problema dos criminosos viajantes. Os meios de
transporte, cada dia mais fáceis, permitiam aos delinquentes uma “mudança rápida de
seu campo de operações”: por isso um dos principais desafios das polícias era “tolher
o passo ao criminoso que se escapa”.51

A centralidade do tema dos “gatunos internacionais” nestas propostas de


congressos e convênios entre as polícias sul-americanas era um dado reiterado uma e
outra vez. Jose Gregorio Rossi, Comissário de Investigações e defensor da
datiloscopia na polícia portenha, dizia que o principal obstáculo na luta contra a
delinquência era sua crescente tendência ao “internacionalismo”. O criminoso
profissional tinha se “lançado a recorrer o mundo”, um fenômeno que já havia
alcançado o nível de uma verdadeira “vinculação mundial da delinquência”.52 Rossi
argumentava que essas redes mostravam um grande espírito de solidariedade, a tal

50
Idem, p. 79.
51
FARIA, Antônio Bento de. “Da necessidade e uniformizar a ação da polícia dos países americanos”.
In: TERCEIRO CONGRESSO CIENTÍFICO LATINO-AMERICANO. A Polícia Argentina e a
Polícia Brazileira. Op. Cit., p. 81-87.
52
ROSSI, José G. “La policía internacional”, Boletín de Policía, Año I, n.10, Buenos Aires, 15 sep.
1905, p. 5.

199
ponto que quando um ladrão viajante chegava a seu novo destino, era recebido por
um guia “para fazê-lo conhecer a cidade”.

A República Argentina, como todas as nações sul-americanas,


sujeitas a enormes correntes de imigração, está exposta a receber –
e recebe com toda segurança – grande parte da escória antissocial
da velha Europa, que vem quicando pelos cárceres do Brasil ao
Prata, ao Pacífico, e vice-versa.53

Eurico Cruz, bacharel e delegado da polícia carioca, considerava que o futuro


congresso constituiria uma “liga real e verdadeira contra esta ameaça recorrente para
os países sul-americanos”, que haviam se convertido em um “asilo do rebotalho das
populações criminosas e degeneradas das demais nações”. Já que, concluía Cruz,
“por sobre as fronteiras que nos separam, os criminosos dão-se as mãos”, era
necessário que, frente “às associações internacionais de criminosos, cuja existência é
flagrante, se oponha, em um rasgo de fortaleza, de coragem e de inteligência, a
solidariedade internacional das várias polícias”.54

Estas conquistas proclamadas no III Congresso Científico Latino-Americano


eram, em realidade, uma forma de propagar no resto dos países da América do Sul
um acordo selado de antemão entre argentinos e brasileiros. De fato, como
reconhecia o Boletín de Policía de la Provincia de Buenos Aires, já existia “uma
cooperação mútua entre as polícias” que organizavam este congresso.55 Por outra
parte, a revista policial portenha, em um artigo dedicado a informar o compromisso
com a realização da primeira Conferência Sul-Americana de Polícia na cidade de
Buenos Aires, admitia que o convênio já era “conhecido em seus lineamentos

53
Idem, p. 6.
54
CRUZ, Eurico. “Necessidade da fundação de um Congresso Policial Sul-Americano”. In:
TERCEIRO CONGRESSO CIENTÍFICO LATINO-AMERICANO. A Polícia Argentina e a Polícia
Brazileira. Op. Cit., p. 91-94. Reproduzido também em: CRUZ, Eurico. Relatórios policiais,
sentenças criminais. Rio de Janeiro: Typografia dos Annaes, 1914, p. 1-6.
55
“Convención Interpolicial”, Boletín de Policía de la Provincia de Buenos Aires, Año I, n. 4, La
Plata, 31 oct. 1905, p. 4.

200
gerais”: estabelecer a troca recíproca de fichas individuais datiloscópicas e acordar
formulas rápidas para a transmissão de antecedentes “com fins policiais”.56

Quando a meados de agosto finalizou o congresso do Rio de Janeiro, o chefe


da polícia carioca propôs a Juan Vucetich postergar um pouco seu regresso à
Argentina para viajar acompanhado por Félix Pacheco. O chefe do serviço de
identificação aproveitou a viagem para visitar o gabinete de seu mestre, na cidade de
La Plata.57 Para os policiais argentinos, Pacheco havia se convertido no principal
aliado na América do Sul para o projeto de cooperação internacional. Era o
incansável “propagandista brasileiro”, como o chamavam os redatores do Boletín de
Policía, quando nas vésperas da conferência de Buenos Aires festejavam as
conquistas do mestre e seu discípulo, “os dois campeões esforçados da polícia
científica e da defesa social eficiente”.58

“Os Srs. Vucetich e Felix Pacheco trabalhando no Gabinete de Identificação do Rio de Janeiro”
Fonte: Renascença. Revista mensal de letras, sciencias e artes, n. 49, Rio de Janeiro, 1908, p. 89.

56
“La próxima conferencia policial internacional”, Revista de Policía, Año IX, n. 201, Buenos Aires,
1 oct.1905, p. 70.
57
Véase “Del Doctor Félix Pacheco”, Boletín de Policía de la Provincia de Buenos Aires, Año I, n. 3,
La Plata, 30 sep. 1905, p. 3-4.
58
“Sr. Juan Vucetich y Dr. Félix Pacheco”, Boletín de Policía, Año I, n.10, Buenos Aires, 15 sep.
1905, p. 1-2.

201
“Dr. Félix Pacheco”
Fonte: Boletín de Policía, Año I, n.10, Buenos Aires, 15 sep. 1905, p. 1.

No entanto, a viagem de Pacheco à Argentina tinha outros propósitos


complementares. Os acordos informais entre Brasil e Argentina não se limitavam aos
vínculos entre Rio de Janeiro e La Plata. No breve interlúdio entre o Congresso do
Rio de Janeiro e a Conferência Sul-Americana de Buenos Aires, Rossi revelava a
existência de um “pacto de troca” entre as polícias de ambas as capitais, que existia
desde janeiro desse mesmo ano: o boletim policial difundia um intercâmbio epistolar
entre os chefes, Fraga e Cardoso de Castro, acordando a “permuta de antecedentes de
criminosos por meio da datiloscopia”.59 A poucos dias da finalização do Congresso
na capital brasileira, o chefe da polícia carioca escreveu novamente a seu colega,
explicando que enviava a Pacheco à Argentina com a ordem de lhe propor:

59
“El Convenio Internacional. La aceptación de la dactiloscopia”, Boletín de Policía, Año I, n. 13,
Buenos Aires, 30 oct. 1905, p. 12.

202
Uma reunião dos chefes do serviço de identificação datiloscópica
de La Plata, Buenos Aires, Montevidéu e Rio de Janeiro, opinando
que dita reunião poderia ser efetuada em 15 de setembro na
segunda das referidas cidades. Esses funcionários teriam a missão
de celebrar, ad-referendum nosso, um acordo para a troca de
“individuais datiloscópicas” relativas aos ladrões conhecidos, aos
sujeitos perigosos e, em geral, aos frequentadores habituais das
prisões.60

Na mesma data, 26 de agosto de 1905, Cardoso de Castro remetia outras cartas


ao chefe da Polícia de Montevidéu, Juan B. Jerez, e ao chefe da Polícia da Província
de Buenos Aires, Luis M. Doyhenard, informando-os sobre esta proposta, que não
considerava obra sua mas um resultado natural do “movimento de aproximação entre
as administrações policiais brasileiras e pratinas”.61 A este grupo original de quatro
instituições policiais, dos três países situados sobre a rota atlântica sul-americana,
somou-se por indicação de Vucetich um convite à polícia de Santiago do Chile, que
recentemente tinha incorporado o sistema datiloscópico.62 O representante designado
pelo governo chileno foi Luis M. Rodríguez, quem dois anos antes tinha formado
parte da comitiva de seu país que visitou a polícia portenha. Essa inclusão de último
momento obrigou a postergar quase um mês o início das reuniões, enquanto
Rodríguez embarcava rumo à cidade de Buenos Aires. A “Conferência Internacional
de Polícia” – como finalmente a denominaram os documentos oficiais – teve sua
inauguração, na chefatura, em 11 de outubro de 1905 às quatro da tarde.63

60
Idem, p. 14.
61
“Convenio Interpolicial Sudamericano”, Boletín de Policía de la Provincia de Buenos Aires, Año I,
n. 3, La Plata, 30 sep. 1905, p. 6.
62
Sobre a recepção de Vucetich no Chile ver o dossier publicado no Boletín de la Policía de Santiago,
Año IX, No. 79, Santiago de Chile: Imprenta de la Prefectura de Policía, enero de 1909.
63
CONFERENCIA INTERNACIONAL DE POLICÍA. Convenio celebrado entre las policías de La
Plata y Buenos Aires (Argentina), de Río de Janeiro (Brasil), de Santiago de Chile y de Montevideo
(R. O. del Uruguay). Buenos Aires: Imprenta y Encuadernación de la Policía de la Capital Federal,
1905.

203
“Congreso Internacional Dactiloscópico – La primera sesión”
Fonte: Boletín de Policía, Año I, n. 12, Buenos Aires, 15 oct. 1905, p. 8.

“Conferencia internacional entre as polícias”


Fonte: Renascença. Revista mensal de letras, sciencias e artes, n. 49, Rio de Janeiro, 1908, p. 88.

204
As fotografias das reuniões mostram os delegados em uma mesa de trabalho
repleta de papeis, entre os que se advertem algumas fotografias de criminosos, e um
tinteiro no meio. Nesse sentido, a reunião parecia estar um pouco mais afastada da
solenidade nos congressos científicos e mais perto de uma tertúlia íntima. Em torno à
mesa estava sentado Félix Pacheco, os dois representantes das polícias argentinas,
Juan Vucetich e José G. Rossi, Luis M. Rodríguez pela polícia de Santiago do Chile
e Alejandro Saráchaga pela de Montevidéu. Este último era o chefe do Gabinete de
Identificação Datiloscópica da capital uruguaia e mantinha uma feroz disputa com
Alfredo Garibaldi, que continuava encarregado do serviço antropométrico e seguia
defendendo o bertillonnage em seu país.64

Segundo explicava Rodríguez, a polícia de Santiago do Chile tinha sido uma


das primeiras em adotar a datiloscopia depois de La Plata, Rio de Janeiro e Buenos
Aires. Tal como no Uruguai, a novidade não impôs uma supressão do sistema
antropométrico, aplicado no país transandino desde 1898. No entanto, ao contrário de
Saráchaga, Rodríguez pedia “render a homenagem que merece a obra realizada por
Mr. Bertillon”, o que, neste contexto, significava uma reclamação para reduzir a
intensidade das lutas facciosas entre os partidários de ambos os sistemas.65
Rodríguez se mostrava muito mais eclético na hora de incorporar tecnologias
policiais para lutar contra “os criminosos viajantes que com os fáceis meios de
transporte, se deslocam mais numerosos a cada ano, da Europa a estas prósperas
cidades do Atlântico, do Rio de Janeiro e Montevidéu a Buenos Aires, e daqui a
Santiago do Chile”.66

O objetivo do convênio que começaram a discutir consistia em estabelecer um


mecanismo de “troca dos antecedentes úteis para fins policiais, a respeito das pessoas
classificadas ou consideradas perigosas para a sociedade”.67 As discussões se

64
Veja, sobre este tema, SARÁCHAGA, Alejandro. Dactiloscopia y Convenio Internacional de
Policía. Montevideo: Imprenta El Siglo Ilustrado, 1906.
65
“Actas de las Conferencias. Sesión Inaugural”. In: CONFERENCIA INTERNACIONAL DE
POLICÍA. Convenio celebrado entre las policías de La Plata y Buenos Aires (Argentina), de Río de
Janeiro (Brasil), de Santiago de Chile y de Montevideo (R. O. del Uruguay). Op. Cit, p. 21-22.
66
Idem, p. 20.
67
“Conferencia internacional de policías”, Revista de Policía, Año IX, n. 202, Buenos Aires, 16 oct.
1905, p. 78.

205
concentraram especialmente na definição da noção de “pessoa perigosa” e no
significado da frase “fins policiais”. Mais uma vez, o representante chileno marcou
diferenças com os demais, quando pedia que a informação circulada entre as polícias
tivesse um “caráter absolutamente reservado”. Rodríguez temia que a publicação de
dados acusatórios sobre um indivíduo sem condenação judicial pudesse ser
interpretada como uma prática vexatória. Para Pacheco, no entanto, “o interesse
superior da defesa da coletividade social” estava acima do direito individual e
justificava a vigilância preventiva.68Apesar desta resposta, e destas discussões, o
texto final do convênio incorporou a advertência de manter “em estrita reserva” os
antecedentes trocados e limitar seu uso a “fins policiais”.

O segundo eixo dos debates era a definição da categoria de “pessoa perigosa”


que habilitava esta circulação de informações entre os policiais. O amplo espectro de
sujeitos que abrangia esta noção buscava amalgamar, sob uma mesma categoria, o
universo dos gatunos urbanos, os criminosos internacionais e os ativistas do
movimento operário. Em primeiro lugar, era considerado perigoso todo indivíduo
que tivesse “mais de uma vez tomado parte como autor, cúmplice ou encobridor em
delitos contra a propriedade”; e também “todo aquele que carecendo de meios lícitos
de subsistência” tivesse conexões com ladrões, fizesse “vida comum” com os
“delinquentes habituais”, utilizasse “instrumentos ou objetos conhecidamente
destinados para cometer delitos contra a propriedade”.69

Entravam no critério de periculosidade: os falsificadores de moeda ou de


títulos e valores mobiliários; “o responsável mais de uma vez como autor de delitos
graves contra as pessoas”; os estrangeiros e nacionais que se ausentando do país
tivessem participado de qualquer atentado contra a propriedade ou contra as pessoas,
ou que apresentassem “antecedentes desfavoráveis no país de procedência”, também
eram pessoas perigosas. Igualmente o eram, para esta definição das polícias sul-
americanas, “os indivíduos que habitualmente e com fins de lucro exercerem o

68
“Actas de la Segunda Sesión”. In: CONFERENCIA INTERNACIONAL DE POLICÍA. Convenio
celebrado entre las policías de La Plata y Buenos Aires (Argentina), de Río de Janeiro (Brasil), de
Santiago de Chile y de Montevideo (R. O. del Uruguay). Op. Cit, p. 33.
69
CONFERENCIA INTERNACIONAL DE POLICÍA. Convenio celebrado entre las policías de La
Plata y Buenos Aires (Argentina), de Río de Janeiro (Brasil), de Santiago de Chile y de Montevideo
(R. O. del Uruguay). Op. Cit, art. 2, inc. a.

206
tráfico das brancas”, “os incitadores habituais a subverter a ordem social, por meio
de crimes comuns contra a propriedade, as pessoas ou as autoridades” e, por último,
“os agitadores de grêmios operários para perturbar com atos de violência ou de força
a liberdade de trabalho ou para atacar as propriedades, sempre que fizerem de
semelhante propaganda sua ocupação habitual e um meio de lucro”.70

Para a permuta de informações sobre estes sujeitos, adotava-se o sistema


datiloscópico. Ainda assim, nem tudo foram concessões para com os propósitos do
representante de La Plata. Apesar da oposição de Vucetich à prática do retrato
fotográfico sob os padrões do bertillonnage, esta foi incorporada à ficha sul-
americana. Alguns conferencistas argumentaram que a datiloscopia não permitia, por
si mesma, “reconhecer à primeira vista” um indivíduo, no caso de pedido de captura,
e que para tomar as impressões digitais a polícia necessitava detê-lo “coagindo sua
liberdade”. Para capturar alguém era preciso contar com elementos mais firmes de
suspeita e, nesse terreno, os retratos fotográficos seguiam sendo sendo úteis. Deste
modo, a ficha para os intercâmbios sul-americanos ficou integrada pela “individual
datiloscópica”, a descrição morfológica, os dados civis e judiciais, mais a fotografia
de frente e perfil.

A troca de antecedentes sobre estes sujeitos perigosos ficava estabelecida como


uma atividade que conectava diretamente os gabinetes de identificação, algo que
seria modificado na conferência de 1920. Esta “liga entre as instituições policiais sul-
americanas” era vista, após a conclusão do encontro, como o nascimento de um novo
campo de atuação. Era, como manifestava o delegado chileno, um fato inédito: aos
brasileiros e argentinos cabia agora “a glória de haver provocado pela primeira vez
na América, e acho que no mundo, um acordo internacional das polícias”.71 Mas
além dos debates sobre se se tratava efetivamente do primeiro convênio mundial no
seu gênero, o certo é que o espaço da polícia internacional estava se abrindo nestes
mesmos anos. Até agora, agregava Rodríguez, estes assuntos eram matéria exclusiva
do Direito Internacional, em sua incumbência sobre os tratados de extradição, porém
esta nova “polícia preventiva” de caráter transnacional ocuparia logo “a atenção dos

70
Idem, Art. 2, inc. b-g.
71
“Saudades! El torneo científico policial”, Boletín de Policía, Año I, n. 14, Buenos Aires, 15 nov.
1905, p. 4-5.

207
tratadistas”.72 O novo convênio para o intercâmbio de informações entre as polícias
habilitava um campo de atuação às costas das autoridades diplomáticas.

Expulsões, telegramas e receios

O convênio ad referéndum rubricado na primeira Conferência Sul-Americana


de Polícia devia ser ratificado pelos respectivos países para entrar em vigência. A
República Argentina recém o fez em agosto de 1920, meses depois da segunda
conferência, e Brasil ainda mais tarde, em tempos do governo de Getúlio Vargas.73
No entanto, isso não impediu que o convênio fosse posto em funcionamento e,
inclusive, que se intensificasse muito a rota de intercâmbios informais entre as
polícias de ambos os países.

Em outubro de 1906, o novo chefe da polícia portenha, Ramón Falcón, fazia


rapidamente uso dos contatos estabelecidos por seu antecessor e rubricados nos
encontros de 1905. A imprensa portenha havia reproduzido as notícias sobre um
roubo em uma joalheria da rua da Carioca, no Rio de Janeiro, que envolveu um
homicídio e cujo principal suspeito parecia ser um ladrão argentino. Os vigilantes da
Delegacia de Investigações de Buenos Aires não reconheciam este sujeito pelo nome
difundido na imprensa, por isso se pedia – de chefatura a chefatura – o envio da ficha
datiloscópica, “e se possível uma fotografia”.74 Ambas foram remitidas de imediato
pelo Gabinete de Identificação, que já não dirigia mais Félix Pacheco senão seu
sucessor, Edgar Costa. Tampouco o chefe da polícia carioca era o mesmo do ano

72
Idem, p. 5.
73
SOCIETE DES NATIONS/UNITED NATIONS. “Convention de police. Signée à Buenos Aires, le
29 février 1920”, Recueil des Traités/Treaty Series, n. 2930, 1932, p. 434. Ver também: CANCELLI,
Elizabeth. “De uma sociedade policiada a um Estado policial: o circuito de informações das polícias
nos anos 30”, Revista Brasileira de Política Internacional, vol. 36, n. 1, Brasília, 1993, p. 67-. 86.
74
AN, GIFI 6C 180 (1906). República Argentina, Policía de la Capital: Carta do Chefe de Polícia,
Ramón Falcón, ao Chefe da Polícia do Rio de Janeiro, Dr. Antonio Joaquim de Albuquerque Melo,
Buenos Aires, 19 oct. 1906. Ofício n. 1494, Gabinete de Identificação e Estatística, Rio de Janeiro, 7
nov. 1906.

208
anterior. Muitos nomes haviam mudado, mas o canal de trocas de fichas e
antecedentes pareciam se manter firme.

A aceleração desses intercâmbios não foi apenas alimentada pelo compromisso


com os acordos da Conferência de 1905. Dois anos mais tarde se sancionou no Brasil
a chamada “Lei Gordo”: se instituía – igual que na Argentina em 1902 – um
mecanismo de expulsões sumárias de estrangeiros “indesejáveis”. A lei, tal como foi
estudado por diversos historiadores, teve uma intensa aplicação desde seu início para
a repressão de gatunos conhecidos, proxenetas, militantes anarquistas e comunistas.75
Imediatamente depois das primeiras expulsões, Falcón escrevia, mais uma vez, à
polícia carioca, assinalando uma preocupação que somaria, nos anos seguintes,
algumas fricções às declarações de confraternidade, cooperação e amizade entre as
polícias. O chefe da polícia de Buenos Aires se inquietava ao constatar que, há
pouco tempo de ter sido sancionada a lei de expulsões no Brasil, grande parte dos
indivíduos embarcados nos portos brasileiros foram parar na Argentina.

De fato, alguns já têm sido presos, e por muitos indícios parecem


ser proxenetas. Alguns outros também foram surpreendidos
pretendendo cometer furtos na via ou em lugares públicos, sujeitos
que manifestaram haver residido até pouco tempo em distintos
pontos do Brasil. Esta circunstância nos fez pensar que muito
provavelmente estes indivíduos seriam precisamente os expulsos
por vossas autoridades.76

Por este motivo, e citando o artigo nove do Convênio de 1905, Falcón


solicitava que quando a polícia carioca tivesse “conhecimento da saída de qualquer
indivíduo perigoso que se dirigisse ao território de algumas das polícias contratantes,

75
Ver, por exemplo: MARAM, Sheldon Leslie. Anarquistas, imigrantes e o movimento operário,
1890-1920. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. MENEZES, Lená Medeiros de. Os indesejáveis:
desclassificados da modernidade. Protesto, crime e expulsão na Capital Federal (1890-1930). Rio de
Janeiro: Eduerj, 1996. SCHETTINI, Cristiana. Que tenhas teu corpo: uma historia social da
prostituição no Rio de Janeiro das primeiras décadas republicanas. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional,
2006.
76
Carta de Ramón Falcón ao Senhor Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, Buenos Aires, Abril de 1907,
reproduzida em: REPÚBLICA ARGENTINA. Memoria de la Policía de Buenos Aires: 1906-1909,
Jefatura del Coronel Ramón L. Falcón. Buenos Aires: Imprenta y Encuadernación de la Policía, 1909,
p. 130.

209
ou que ainda devesse passar por ele,”, se enviasse um aviso telegráfico,
especificando o nome do passageiro e o navio em que viajava. Simultaneamente,
pedia que mandassem por correio os antecedentes e dados de identidade que
permitissem reconhecê-lo facilmente no porto.77 Existem múltiplos indícios para
sustentar a ideia de que este pedido de Falcón teve consequências concretas, durante
os anos seguintes, nos intercâmbios entre as polícias da Argentina e Brasil.

A troca de fichas datiloscópicas via postal entre os países sul-americanos foi


muito intensa, como foram intensas também as circulações de telegramas com os
nomes e filiações dos expulsos. Os próximos capítulos se centrarão na análise de
uma amostra de sessenta processos de expulsão de estrangeiros, metade dos quais
eram assinalados como “gatunos internacionais” provenientes de outros países da
América do Sul onde as permutas de informações entre as polícias foi igualmente
fundamental.78

O formato de ficha individual datiloscópica “Sistema Vucetich” (expressão que


ficou impressa nos formulários), dominou os intercâmbios de antecedentes entre as
polícias do Brasil e das demais repúblicas sul-americanas, assim como também entre
as próprias polícias estaduais brasileiras, nos processos de expulsão de estrangeiros:

77
Idem, p. 130-131.
78
Estes processos foram selecionados do AN, Fundo IJJ7, Caixas 126 a 180. Os processos
compreendem os anos 1907 a 1930, com exceção do período em que a lei de expulsão ficou abolida,
entre 1913 e 1917. Sobre as leis de expulsão de estrangeiros no Brasil, ver: BONFÁ, Rogério Luis G.
“Com lei ou sem lei”. As expulsões de estrangeiros e o conflito entre o Executivo e o Judiciário na
Primeira República. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual de Campinas, 2008. Os
processos de expulsão da República Argentina também foram aplicados sobre uma multiplicidade de
sujeitos vigiados pela polícia. Ver os prontuários de expulsos nas primeiras três décadas do século
XX, elaborados pelas seções de “Ordem Social” e “Roubos e Furtos”, onde além de anarquistas e
comunistas aparecem numerosos casos de ladrões e vigaristas. AGN, Archivo Intermedio, Fondo
Ministerio del Interior/Secretos, Confidenciales y Reservados, Caja n. 14.

210
Ficha individual dactiloscópica. Frente e verso.
Fonte: AN, IJJ7 179 (1927)

No final de 1907, Falcón escrevia outra carta ao chefe da polícia carioca


acompanhada das fichas datiloscópicas de vários expulsos da Argentina, que haviam
embarcado no vapor Citá de Milano. Assegurava responder assim um pedido
telegráfico recebido do Rio de Janeiro, mas aproveitava a oportunidade para solicitar
resposta de sua carta anterior e o envio da listagem de indivíduos expulsos pelo
governo brasileiro, pedido que, segundo parece, não havia sido cumprido até aquele
momento.79 As polícias dos estados brasileiros em que estes navios tinham escalas, e
desde as quais muitas vezes os expulsos eram embarcados, deviam ser envolvidas
também na rede de circulação de informações. Em uma nova missiva de Falcón, esta

79
Carta de Ramón Falcón ao Sr. Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, Buenos Aires, Nov. de 1907,
reproduzida em: REPÚBLICA ARGENTINA. Memoria de la Policía de Buenos Aires: 1906-1909.
Op. Cit, p. 154-155.

211
vez à polícia de São Paulo, ficava explícito que o principal objetivo desses avisos era
evitar os desembarques nos portos do espaço atlântico sul-americano:

Vou aproveitar esta oportunidade para submeter a sua distinta


consideração um pensamento que, realizado, creio que nos há de
oferecer facilidades para defender nossas respectivas jurisdições da
incorporação de elementos antissociais. Consiste simplesmente em
que estabeleçamos, como procedimento regular, em primeiro lugar,
que as expulsões que fazemos não se executem com destino a
nenhum dos países sul-americanos, desde que não se trate do
domicílio de origem do expulso, e em segundo lugar, que nos
comuniquemos todos os casos de expulsões, proporcionando-nos
os elementos de identidade (impressões digitais, fotografias,
filiação etc.), e os antecedentes judiciais, policiais e morais do
sujeito.80

Este pacto entre os policiais de Brasil e Argentina estava evidentemente à


margem dos procedimentos legais, mas alinhado com o espírito anti-europeu das leis
de expulsão: proteger o espaço sul-americano era o objetivo primordial. As jovens
repúblicas da América do Sul tinham, segundo opinava um policial portenho em
1905, suas “portas de par em par abertas a toda imigração” que arrastava consigo “a
escória mais perigosa”. Ante esta situação, “com que nos defendemos?”, perguntava
o redator da revista: “a polícia mesma nada pode fazer legalmente com o delinquente
profissional” que a Europa enviava para estas terras.81 Para um dos discípulos de
Vucetich, Luis Reyna Almandos, a única solução possível era “estender o eficaz
cordão sanitário para impedir a entrada de semelhantes hóspedes, tal como se faz
com a cólera quando aporta algum navio procedente de lugar infecto”.82

No entanto, segundo agregava ironicamente Reyna Almandos, os sujeitos


perigosos que viajavam em navios “não trazem um letreiro na testa”. Os criminosos
viajantes contavam com meios de transporte cada vez mais rápidos e, além disso, as

80
Carta de Ramón Falcón ao Sr. Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, Buenos Aires, Abr. de 1907,
reproduzida em: REPÚBLICA ARGENTINA. Memoria de la Policía de Buenos Aires: 1906-1909,
Jefatura del Coronel Ramón L. Falcón. Buenos Aires: Imprenta y Encuadernación de la Policía, 1909,
p. 130.
81
“El Coronel Fraga”, Boletín de Policía, Año I, n. 1, Buenos Aires, 30 abr. 1905, p. 3-7.
82
Reyna Almandos, Luis. “A Dactiloscopia e a Defesa Social”, Boletim Policial, Anno IV, n. 1, jun.
de 1910, p. 7-8.

212
aglomerações nos portos jogavam a favor deles na tarefa de se esconderem das
autoridades. A cooperação policial era uma forma de contra restar esta defasagem
com os recursos do mundo criminal. Em particular, havia um elemento da
modernização tecnológica que podia marcar uma nova diferença: os fios telegráficos.
O telégrafo foi pensado como uma forma de corrigir essa diferença cinética com que
podiam se deslocar policiais e delinquentes. “Em sua tarefa de fazer a polícia de
segurança”, opinava em 1869 o jornal La Tribuna sobre o chefe da Polícia de Buenos
Aires, “não se limitaram aos subúrbios da cidade ou aos limites da província e,
usando o telégrafo provisoriamente e enviando empregados quando for necessário,
ele tem conseguido que nem Rosário, nem Montevidéu, sejam asilos dos criminosos
daqui”.83

O telégrafo selava esta nova época da modernidade policial além das fronteiras,
posicionando-se como um contrapeso dos problemas gerados pelas viagens
ultramarinas: ao contrário do correio postal, que dependia dos meios de transporte, os
telegramas estabeleciam uma distância temporal em relação às cartas, porque
viajavam mais rápido que os navios a vapor. Assim, para conseguir que um suspeito
fosse detido no porto de destino, ou em alguma eventual escala, bastava em princípio
enviar uma mensagem telegráfica com seu nome e sua descrição física. As velhas
filiações de criminosos ordenavam a informação em listas com o nome, apelidos,
idade, nacionalidade, cor dos olhos etc. Todos esses dados eram integrados em uma
linguagem telegráfica, sem pontuações: “no vapor Algerie partido ontem vão
deportados ladrão Juan Corradi italiano 23 anos 167 estatura branco bem sardento e
anarquista Afonso Garcia (a) Lanata espanhol 25 anos branco 170 estatura cabelo
castanho”.84

Esta mensagem, enviada pela polícia portenha ao Rio de Janeiro em 1905,


mostrava duas faces da cooperação policial via telegráfica entre Argentina e Brasil.
Em primeiro lugar, os telegramas existiam desde os primeiros anos das expulsões no
país pratino e antes da sanção da lei brasileira. Em segundo lugar, mostrava uma
característica que se repetia quase sempre na comunicação entre as polícias sul-

83
La Tribuna, “El Sr. O´Gorman, Jefe de Policía”, Buenos Aires, 2 oct. 1869.
84
AN, GIFI 6C 158 (1905). “Telegrama de Baires”, 10 mai. 1905,

213
americanas: as autoridades de um país queriam evitar qualquer possível regresso dos
expulsos. Um dos destinos do vapor Algerie era Barcelona (aonde provavelmente se
dirigiam Corradi e García), mas tinha uma escala no Rio de Janeiro e o governo
argentino temia que um eventual operativo de retorno se iniciasse com o
desembarque no porto brasileiro. Isso ficava claro em uma anotação à margem do
papel que levava impresso a mensagem telegráfica: “parece que haveria que
recomendar ao Inspetor da Polícia do Porto para que não os deixe desembarcar”.

Os telegramas não eram apenas utilizados para evitar o desembarque no caso


das expulsões. Também se empregavam para auxiliar a captura de pessoas acusadas
de algum delito e procuradas pela justiça, cada vez que se suspeitava que pudessem
haver fugido para outros países em transportes de ultramar. E não apenas criminosos:
outro telegrama da polícia portenha pedia “averiguação paradeiro menor Juan Bazal
ou Salinas argentino 18 anos marcas varicela artista excêntrico que se encontra a
cargo de Ruiz Salinas músico que recorre teatros e cafés”. 85

Em ocasiões em que o crime parecia ter dimensões mais consideráveis que a de


um simples estelionatário ou um menor desaparecido, e que o motivo da busca
tornava o emprego do telégrafo desnecessário, o próprio chefe da polícia firmava
uma carta que se enviava por correio. Em uma delas, por exemplo, pede-se à polícia
da capital brasileira averiguar “reservadamente o paradeiro do fugitivo desta capital”,
Alfredo W. Gaspart, que havia embarcado com o nome falso em Montevidéu no
vapor Planeta, junto com uma mulher e com passagens de primeira classe. Era
acusado pela polícia por defraudações vinculadas à venda de automóveis, se fazendo
passar por representante de casas europeias e norte-americanas.86 Um dado
importante que marca este pedido de busca “reservada” caracteriza quase todas as
comunicações entre Argentina e Brasil: eram feitas em segredo e por fora de
qualquer instância diplomática formal.87

85
AN, GIFI 6C 158 (1905). Telegrama da Polícia de Buenos Aires, 9 out. 1905.
86
AN, GIFI 6C 158 (1905). Carta 25 out. 1905.
87
Sobre a circulação de informações entre a polícia carioca e os consulados estrangeiros, ver:
NASCIMENTO, Álvaro Pereira do. “A polícia e o porto: marinheiros, imigrantes e os consulados
estrangeiros no Rio de Janeiro (1890-1920). In: BOHOSLAVSKY, Ernesto; CAIMARI, Lila;
SCHETTINI, Cristiana (org.). La policía en perspectiva histórica: Argentina y Brasil (del siglo XIX a
la actualidad). Buenos Aires: UDESA/UNGS/UNSAM (CD-Rom), 2009.

214
Nesse sentido, havia uma diferença significativa com os intercâmbios entre as
polícias do Rio de Janeiro e Montevidéu, porque cada vez que os uruguaios
respondiam um pedido dos brasileiros utilizavam mediações diplomáticas. Longe da
informalidade e do aclamado caráter expeditivo da cooperação policial, que se
constatavam em cada um dos intercâmbios entre as polícias das capitais de Argentina
e Brasil, os uruguaios cingiam seus pedidos em uma trama consular precisa e ainda
assim bastante dinâmica. Através do Ministério de Relações Exteriores, a polícia
enviava um telegrama ao cônsul do Brasil, que por sua vez elaborava uma carta
dirigida à polícia carioca:

Sirva-se gestionar a prisão preventiva de José Martínez, passageiro


de terceira classe do vapor Aragon, partido hoje, autor de tentativa
de assassinato de sua própria filha. Pistas: espanhol, de quarenta
anos de idade, cor branca, bigode negro, roupa negra e paletó claro.
Caso não obter a prisão, recomenda-se reserva para obtê-la em
outro porto. Comunique o resultado telegraficamente.88

Dez dias depois, quando chega á capital brasileira um telegrama da polícia de


São Paulo avisando que Martínez havia sido detido no porto de Santos, novamente o
consulado e o governo uruguaio intervêm, enviando um delegado para acompanhar
o detido em sua volta a Montevidéu. Essa triangulação de dados entre São Paulo, Rio
de Janeiro e Montevidéu ilumina outra zona da cooperação policial: mesmo tratando-
se de relações informais, parece haver se respeitado bastante o princípio de primazia
da polícia das capitais como o ponto pelo qual tinham que passar os pedidos de
informação. O mesmo sucedia com as polícias da Bahia e Pernambuco, como se nota
em um telegrama enviado por Ramón Falcón, advertindo ao Rio de Janeiro sobre a
expulsão de um “circulador de moeda falsa” com destino a Salvador.89 Por um
informe reservado da Polícia Marítima, pode-se reconstruir que esse aviso de Falcón
era uma resposta a uma comunicação prévia, na qual os brasileiros alertavam à

88
AN, GIFI 6C 443 (1913), Policía Marítima, mai. 1913.
89
AN, GIFI 6C 308 (1909). “Telegrama de B. Aires”, 3 nov. 1909.

215
polícia argentina que “a viagem deste indivíduo ao Rio da Prata podia ter como
finalidade buscar novos clientes para o negócio que há muito tempo exerce”.90

Todo este intercâmbio culmina em 8 de novembro com o regresso forçado do


estelionatário à Bahia. É a última intervenção telegráfica firmada por Falcón que
aparece no arquivo, porque uma semana depois o chefe da polícia portenha era
assassinado em atentado do anarquista Simón Radowitzky. Os telegramas seguintes –
firmados por seu sucessor no cargo, Luis Dellepiane – são uma larga lista de avisos
de anarquistas expulsos para diversos destinos europeus (Barcelona, Marselha, Vigo,
Gênova). Falcón havia avisado sobre a expulsão de alguns anarquistas até esse
momento, mas eram poucos os casos e cada telegrama informava, como muito, dois
ou três nomes. A partir de dezembro de 1909 se percebem expulsões massivas em
uma série de telegramas anunciando que no mesmo navio viajavam quinze ou vinte
anarquistas expulsos. E, efetivamente, os informes da Polícia Marítima mostram que
ela teve que impedir o desembarque de muitos deles no Rio de Janeiro e em outros
portos brasileiros.91

As autoridades que decretavam as expulsões queriam impedir simplesmente


que um passageiro que viajava rumo à Europa conseguisse evitar sua saída da
América desembarcando em algum dos portos em que o navio tinha escalas (Santos,
São Salvador, Pernambuco). Esse era um problema muito claro no caso do Brasil,
por sua posição geográfica. As expulsões traçavam uma rota de mão única, do sul ao
norte, salvo os casos em que o governo brasileiro expulsava um estrangeiro que era
embarcado com destino ao Rio da Prata. Mas essa era sempre uma alternativa que se
tentava evitar.

Além do seu papel nas expulsões de estrangeiros e na caça de criminosos


viajantes, os telegramas às vezes serviam como um mecanismo para solicitar
antecedentes pessoais. No arquivo brasileiro se encontram telegramas deste tipo:

90
AN, GIFI 6C 308 (1909). Ofício do Inspetor da Polícia Marítima, n. 693, 19 out. 1909.
91
AN, GIFI 6C 308 (1909). Ofícios Reservados da Polícia Marítima, n. 818, 20 dez. 1909, n. 840, 29
dez.1909, n. 793, 7 dez. 1909. Não apenas com anarquistas se deram os processos de expulsões
massivas. Em 1913 a polícia portenha embarcou no vapor inglês Aragon mais de 200 proxenetas, com
destino ao porto de Southampton. No Rio de Janeiro a Polícia Marítima teve que impedi-los de
ingressar e aparentemente aconteceu o mesmo na Bahia e em Pernambuco. , AN, GIFI 6C 443 (1913).
Relatório da Polícia Marítima n. 714, 1 out. 1913.

216
“Silva não tem moeda falsa é estafador por simulação de falsificações mantenho
vigilância saudações atentamente R. M. Fraga”.92 Ou seja, aqui havia uma resposta a
um primeiro telegrama enviado do Rio de Janeiro sobre um sujeito que
provavelmente estava detido na Argentina.

É importante reconhecer que, para o trabalho da Polícia Marítima, a troca de


fichas datiloscópicas não tinha muita utilidade. Por isso os telegramas foram
incorporados como uma novidade, embora, em termos de técnicas de identificação,
utilizassem os recursos mais conhecidos das velhas filiações de criminosos. Os
telegramas incluíam apenas os nomes na maior parte dos expulsos, já que cada um
estava inscrito na lista de passageiros, tinham seu número de boleto e sua
documentação. Isso não estava isento de obstáculos e possíveis fraudes, porque a
quantidade de expulsões tornava difícil um controle mais rigoroso. No caso de
pessoas que escapavam da justiça e de investigações policiais, muitas vezes a polícia
enfrentava o problema do uso de nomes falsos. Quando se descobria que um suspeito
havia embarcado com destino à Europa, já não havia tempo para enviar por correio
postal uma fotografia. Empregava-se, então, a descrição fisionômica, usando uma
linguagem bem mais rústica que a dos códigos do retrato falado.

Vejamos dois casos diferentes. O primeiro parte de uma série de suspeitas


sobre uma vigarista uruguaia que levou a polícia desse país a pensar que poderia ter
embarcado no vapor Formosa com o nome falso de María Pérez. O telegrama
brindava dados bastantes elementares: “32 anos alta forte mancha grande lado
esquerdo”. A partir disso a polícia brasileira tinha que buscar essa mulher quando o
navio chegasse ao porto do Rio de Janeiro. Não puderam encontrá-la: o comandante
explicou que o nome falso correspondia ao bilhete número 18 de segunda classe e
que também aparecia na listagem de passageiros embarcados em Buenos Aires, mas
que de fato aquela pessoa não havia embarcado. O testemunho do Maître d'hôtel
afirmava que não tinha visto a bordo nenhuma passageira com as características
explicadas no telegrama. A polícia portuária revisou minuciosamente os passageiros

92
AN, GIFI 6C 158 (1905). Telegrama 7 ago. 1905.

217
que desceram no Rio de Janeiro e tampouco encontrou coincidências. O navio
continuou rumo a Gênova.93

No segundo caso se suspeitava que um estelionatário tivesse escapado de


Buenos Aires pelo porto, mas não se sabia exatamente que dia nem em qual navio.
Por isso a colaboração se dava em dois movimentos: um telegrama com a esperança
de conseguir a detenção em sua chegada ao Rio de Janeiro e uma carta postal com
informação mais completa caso conseguisse desembarcar, e fosse necessário buscá-
lo pela cidade.94 O informe da Polícia Marítima, datado dois dias depois do
telegrama, mostra o fracasso da primeira busca. Pela data em que havia desaparecido,
calculou-se que poderia estar chegando ao Rio no vapor Araguaya, mas o suspeito
não apareceu. Provavelmente nesse mesmo navio chegou a documentação da Divisão
de Investigações da Polícia da Capital, que incluía este prontuário:

Prontuário de Cayetano Amadeo Piaggio


Fonte: AN, GIFI 6C 454 (1913)

93
AN, GIFI 6C 454 (1913). Relatório sobre Cayetano Amadeo Piaggio. Jun. 1913.
94
Idem, Telegrama 23 jun. 1913.

218
O texto explicava que Piaggio era gerente de uma companhia de seguros e que
desaparecera uns dias antes após uma importante fraude. Desde o arquivo da polícia
do Rio de Janeiro não fica claro se os investigadores portenhos tinham indícios
precisos sobre sua possível fuga ao Brasil ou se era uma vaga hipótese. De qualquer
forma, uma semana depois o Ministro de Justiça ditou uma ordem de detenção de
Piaggio, em que se declara que poderia haver ingressado também em outros navios
que chegaram naqueles dias desde o Rio da Prata.

Esta estratégia particular de cooperação policial que se articulava entre os


telegramas e o trabalho da Polícia Marítima buscava impedir o desembarque de
passageiros embarcados compulsoriamente em Buenos Aires que seguiam com
destino à Europa, fundamentalmente anarquistas e proxenetas cujas expulsões se
tornaram possíveis com as leis de expulsões. A polícia carioca recebia, por
telegrama, pedidos de captura de indivíduos embarcados que a Divisão de
Investigações portenha presumia fossem criminosos fugindo da ação da justiça.
Nesses casos as informações necessárias eram o nome do passageiro, o navio em que
havia partido, e o número do boleto. Mas também recebia telegramas em que a
polícia argentina parecia conhecer o autor do delito, tendo testemunhas que
afirmavam sua fuga por via atlântica. Nesse caso o telegrama devia incluir uma
filiação do procurado, mas nem sempre a Polícia Marítima estava em condições
materiais de fiscalizar a todos os passageiros.

Esta polícia portuária também realizava operativos de controle de bagagens nos


barcos e muitas vezes mandava de volta pessoas que chegavam de Buenos Aires por
haver encontrado “irregularidades”. Isso podia incluir desde passageiros que
viajavam sem bagagem ou sem documentação de identidade, até um homem que
encontraram com mercadoria de contrabando escondido no colchão e nos
travesseiros.95 No porto do Rio de Janeiro também se retinham passageiros que
vinham da Europa e que ao chegar eram denunciados pelas autoridades do navio. A
postura dos policiais sempre tendia à intenção de embarcá-los de volta para seus
portos de origem, mesmo quando o destino final não fosse o Brasil, mas no caso de
cidadãos europeus muitas vezes intervinham autoridades consulares para evitá-lo.

95
AN, GIFI 6C 308 (1909). Relatório da Polícia Marítima, n. 312, 9 mar. 1909.

219
Desta maneira, o trabalho cotidiano da Polícia Marítima nem sempre era
compatível com os objetivos da cooperação policial sul-americana, porque muitas
vezes no Brasil se impedia o desembarque de passageiros que vinham da Europa,
mas os deixavam continuar o caminho até o Rio da Prata.96 Nota-se isso em vários
casos de homens sobre os quais recaiam suspeitas de proxenetismo, provavelmente
por suas aparências ou seus países de origem. A Polícia Marítima evitava que
descessem no Rio de Janeiro, mas não reunia suficientes elementos para devolvê-los
aos seus respectivos países e então seguiam no mesmo navio até Montevidéu ou
Buenos Aires.97 Estas eram limitações na tarefa de circunscrever um mapa que devia
ser defendido dos “indesejáveis”, uma região marcada por constantes fluxos
atlânticos.

Estas barreiras foram objeto de posteriores encontros entre policiais. A


perseguição policial a ladrões viajantes, proxenetas e anarquistas aumentou
notavelmente durante os anos que mediaram entre as duas reuniões. Na Conferência
Sul-Americana de 1920, realizada novamente em Buenos Aires, se somaram às
delegações anteriores, representantes do Peru, Bolívia e Paraguai. A intenção dos
representantes da polícia portenha era revisar agora o convênio de 1905, moderando
a influência de Vucetich e do método datiloscópico da Polícia da Província de
Buenos Aires. A nova delegação argentina estava formada por Miguel Denovi,
Francisco Laguarda e o chefe da polícia, Elpidio González.

96
Ver, por exemplo, o caso de um comandante de um barco que se negou a continuar a viagem com
um grupo de passageiros que haviam provocado distúrbios a bordo. O chefe da polícia escreveu ao
cônsul francês no Rio de Janeiro e recebeu como resposta uma carta em que o consulado pedia aos
cidadãos franceses que “continuassem sua rota como simples passageiros” até Buenos Aires. AN,
GIFI 6C 308 (1909). République Française, Consulat de France à Rio de Janeiro, 16 Février 1909.
97
Ver os Relatórios da Polícia Marítima n. 173 e n. 174, 1 mar. 1909. AN GIFI 6C 308 (1909).

220
“Conferencia Sudamericana de Policía” (1920)
Fonte: AGN, sección de fotografías, Inv. 189.824.

A tonalidade política da reunião foi menos contemplativa com as garantias


individuais. Buenos Aires, sede nada casual das conferências, era cenário de uma
escalada de grupos autoritários que reduziam toda luta sindical às filas dos inimigos
da sociedade.98 A preocupação com a escalada dos conflitos operários estava na base
da nova convocatória, tal como explicava o chefe da polícia portenha:

Os últimos acontecimentos de caráter social subversivo, ocorridos


em distintos pontos desta parte do continente americano, tem
evidenciado que os diretores deles mantinham relações com seitas
radicais, estabelecidas umas vezes em uns, outras vezes em outros
destes países.99

98
Esta posição estava alinhada com a escalada repressiva na polícia carioca, que recentemente havia
discutido o endurecimento da vigilância política em uma conferência organizada por Aurelino Leal.
Ver: TÓRTIMA, Pedro. Polícia e justiça de mãos dadas: a Conferência Judiciária-Policial de 1917.
Dissertação de Mestrado em História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1988.
99
“Congreso Sudamericano de Policía. Sus orígenes. Constitución y desarrollo”, Revista de Policía,
Año XXIII, n. 523, Buenos Aires, 1 abr. 1920, p. 177.

221
Pouco depois da primeira reunião, Ramón Falcón havia assumido a chefatura
da polícia e, na Seção Especial, liderou uma batalha contra o anarquismo que incluía
infiltrações nos âmbitos de sociabilidade libertária e repressões nas mobilizações de
rua. Um massacre na greve geral convocada para o 1º de maio de 1909 e o posterior
atentado em que morreu Falcón desencadearam uma onda repressiva que derivou na
sanção da lei de Defesa Social, em 1910 .

Desde então, até os acontecimentos da chamada “Semana Trágica” de janeiro


de 1919, estavam as condições dadas para reorientar a direção da cooperação policial
a “uma verdadeira cruzada para a profilaxia social” como afirmava um dos delegados
peruanos.100 Foi precisamente essa posição que justificou o afastamento de Vucetich:
os delegados eram autoridades policiais de alto nível e não unicamente
representantes das áreas de investigação e identificação; além disso, os organizadores
pretendiam dar à conferência um caráter próprio, mais próximo da esfera da
repressão política que às discussões sobre a determinação da identidade dos
criminosos.

De fato, várias questões separavam a nova conferência da velha cruzada pela


difusão da datiloscopia. Por um lado, o projeto de identificação civil de Vucetich
excedia amplamente o horizonte policial.101 A reforma do convênio concentrava o
intercâmbio em um plano especificamente policial: troca de dados sobre “tentativas
ou execução de fatos anárquicos tendentes à alteração da ordem social”, “circulação
de jornais, periódicos, folhetos, imagens e gravuras”; “resoluções de caráter legal ou
administrativo referidos à defesa social”; “dados sobre a preparação ou perpetração
de delitos comuns”. Por outro lado, pretendia-se diferenciar a conferência do enfoque

100
CONFERENCIA INTERNACIONAL SUDAMERICANA DE POLICÍA. Convenios y Actas.
Buenos Aires: Imprenta J. Tragant, 1920, p. 44. O vínculo imediato da conferência com os
acontecimentos políticos prévios era reconhecido também na carta convite que girou telegraficamente
pelas chefaturas. O texto dizia: “O Governo Argentino, em vista dos últimos acontecimentos de
caráter social subversivo ocorrido em distintos pontos do Continente Americano, que evidenciaram
que seus diretores mantinham relações com seitas radicadas em um desses países, resolveu apoiar a
ideia sugerida pela Chefatura da Polícia da Capital, com o propósito de que se realize uma
Conferência entre todas as polícias interessadas para acordar formas de procedimento que sirvam de
defesa comum e tendentes a uma maior vinculação institucional.” Idem, p. 52.
101
Sobre este tema, ver: GARCÍA FERRARI, Mercedes. “Juan Vucetich. Una respuesta desde la
dactiloscopia a los problemas del orden y la consolidación de la Nación Argentina”. In: SOZZO,
Máximo (coord.). Historias de la cuestión criminal en la Argentina. Buenos Aires: Ediciones del
Puerto, 2009, p. 225-243.

222
dos congressos científicos nos quais a datiloscopia havia adquirido espaço graças a
dissertações magistrais. No banquete de encerramento, um dos delegados argentinos
celebrava que a conferência não havia “perdido seu tempo em dissertações banais” e
que havia se dedicado “à realização de uma obra prática, de suma utilidade”.102

“Discurso del delegado paraguayo” (1920)


Fonte: AGN, sección de fotografías, Inv. 92.640.

Juan Vucetich reagiu frente ao afastamento de sua figura do centro da cena da


cooperação policial: protestou na revista policial portenha, faltando poucos dias para
o começo da conferência, atribuindo ao chefe do Serviço Datiloscópico da Capital e
ao titular da Divisão de Investigações uma deliberada omissão do papel da
datiloscopia na gênese da primeira conferência, e acusava o convênio de 1920 de ser
uma “simples cópia” do anterior.103 Esta afirmação não estava muito longe da letra

102
CONFERENCIA INTERNACIONAL SUDAMERICANA DE POLICÍA. Convenios y Actas. Op.
Cit., p. 125.
103
VUCETICH, Juan. “Reseña histórica de la primera aplicación oficial de las impresiones digitales
(icnofalangometría) y sus resultados”, Revista de Policía, Año XXIII, N. 520, Buenos Aires, 16 feb.
1920, p. 108-110.

223
do convênio, mas as propostas discutidas durante as reuniões indicam algumas
mudanças na trama da cooperação policial.

Desde a conferência de 1905, surgiu uma série de problemas no controle da


mobilidade geográfica do delito, mas não se planejou outro paliativo que circular
fotografias e fichas datiloscópicas. Desta vez pretendia-se diminuir a brecha entre as
capacidades cinéticas do mundo criminal e os antiquados recursos policiais. A
explicação desta defasagem, para os policiais, era simples: os criminosos fugiam a
rápida velocidade, amparados nas facilidades dos meios de transporte, se deslocavam
de um país a outro com absoluta liberdade, mudavam recorrentemente seus nomes e
revelavam distintas nacionalidades. Em troca, os policiais estavam obrigados a
cumprir com todos os procedimentos legais para mudar de país e chegavam sempre
tarde onde o criminoso já não estava.

Frente a este dilema, levantaram-se possíveis soluções em um terreno


“puramente policial”. A delegação argentina propôs, por exemplo, um plano de
“facilidades para a perseguição de delinquentes”, no qual um policial que quisesse se
deslocar para deter um suspeito em qualquer um dos países que participavam na
conferência, poderia ser excetuado de reunir previamente toda a documentação
solicitada nesses casos. Sugeria-se que fosse aceito um “simples aviso telegráfico” da
chefia para deixar passar um agente, com a promessa de enviar pelo correio a
documentação em um prazo combinado. O Comissário de Ordens da polícia da
capital argentina, Miguel Denovi, formulou uma proposta, aprovada como
“recomendação aos governos” (fora da letra do convênio), para outorgar recursos
postais e telegráficos às chefias a fim de acelerar o tempo das comunicações.104

Uma maior ênfase na repressão política do anarquismo e do comunismo


marcava a distância entre as conferências de 1905 e 1920. O afastamento de
Vucetich indicava que a discussão “científica” dos métodos de identificação já não
estava na agenda, em parte porque a discussão estava encerrada e o sistema
datiloscópico aceito em todo o continente. Por outro lado, as polícias das capitais
tentavam exercer um controle cada vez maior sobre as polícias dos estados e

104
CONFERENCIA INTERNACIONAL SUDAMERICANA DE POLICÍA. Convenios y Actas. Op.
Cit., p. 25.

224
províncias, que já não tinham representação direta no novo congresso internacional.
Mas se prestarmos atenção na forma em que os delegados discutiram as medidas
concretas de cooperação, fica claro que, tanto no nível dos procedimentos e das
técnicas, como nas definições de periculosidade, a questão dos criminosos viajantes e
da mobilidade territorial dos sujeitos a vigiar, seguia dominando as discussões.

225
PARTE III
LA CHASSE A L’HOMME
Interlúdio: bandidos e detetives

A caça aos criminosos constitui hoje um


“sport” como a caça ao tigre, como o “foot-
ball”, o “tênis”, o “polo” e, ainda mais que
todos esses jogos, tem seus encantos inéditos,
as suas surpresas, as suas alegrias íntimas.
Elysio de Carvalho, Sherlock Holmes no
Brasil (1921).1

Pouco depois da primeira conferência de policiais sul-americanos, nos últimos


dias de 1905, os jornais de Buenos Aires noticiavam um fato curioso. Aconteceu a
uns setecentos quilômetros da capital, em Villa Mercedes, um povoado da província
de San Luis. Desde finais do século XIX, o lugar vinha crescendo após se converter
em uma estação da linha do trem transandino que unia Buenos Aires com Valparaíso.
Na manhã de 19 de dezembro a sucursal do Banco de la Nación havia sido assaltada
por quatro bandidos armados, que pouco tempo antes passeavam pelas confeitarias e
pelos hotéis do lugar simulando ser um grupo de milionários norte-americanos
planejando comprar terras na região.2

Já haviam chamado bastante atenção quando desceram do trem que os trazia de


Buenos Aires. Estes quatro homens vestidos como cowboys, com excelentes trajes de
montar e pistolas Colt adornadas com aplicações de ouro, eram acompanhados de

1
CARVALHO, Elysio de. Sherlock Holmes no Brasil. Rio de Janeiro: Casa A. Moura, 1921, p. 143.
2
“Bank Held Up in San Luis. Exciting morning at the Banco de la Nación”, The Buenos Aires Herald,
Buenos Aires, 20 dez. 1905. “Asalto al Banco de la Nación en Villa Mercedes. Audacia de los
bandoleros. El gerente del banco herido. Persecución de los asaltantes”, La Prensa, Buenos Aires, 20
dez. 1905. “San Luis. El asalto al Banco de la Nación. Un bandolero herido. Peripecias de la
persecución”, La Prensa, Buenos Aires, 21 dez. 1905. “San Luis. El asalto al Banco de la Nación.
Antecedentes de los bandoleros. Persecución infructuosa”, La Prensa, Buenos Aires, 22 dez. 1905.
“The Bank Robbers”, The Buenos Aires Herald, Buenos Aires, 23 dez. 1905.
uma mulher elegantíssima, a única do grupo que falava espanhol. Passaram cinco
dias entre a chegada a Villa Mercedes e o roubo. Os viajantes se hospedaram no
Hotel Young, o melhor da cidade. Tentaram se assegurar de que ninguém duvidasse
da veracidade de suas intenções comerciais usando a ostentação e o consumo
desmedido. A mulher foi à principal loja de roupas importadas e comprou um traje
recém-chegado de Paris, participaram de bailes no hotel e assistiram a uma corrida
no Hipódromo.

O assalto ao banco caiu no povoado como um raio fulminante, absolutamente


inesperado. Ao melhor estilo Far West – segundo conta a memória da cidade – os
pistoleiros levaram catorze mil pesos em sacolas de moedas de níquel e conseguiram
escapar em meio a um tiroteio confuso, em que um dos membros do bando saiu
ferido. O incidente não os deteve e se perderam no horizonte, entre disparos e a
poeira provocada pelo galope dos cavalos. Um grupo de policiais buscou os bandidos
pelo sertão da Província de San Luis, mas apenas encontraram sacolas rasgadas e
vazias, jogadas no meio do deserto. Presume-se que cavalgaram até Neuquén para
atravessar a fronteira com o Chile. A lenda atribui a este bando a primeira série de
assaltos armados a bancos na Argentina. Apesar dessa suspeita estar baseada em
conjecturas vagas, o certo é que nessa manhã os policiais de Villa Mercedes estavam
tão surpreendidos com o ataque em plena luz do dia que pensaram até que era um
golpe para derrubar o governador.

Dez dias após o roubo, em seu número de 30 de dezembro de 1905, o Boletín


de Policía de Buenos Aires publicava os retratos dos supostos autores. As indagações
não ficaram a cargo da Polícia de San Luis, mas na Delegacia de Investigações da
capital. Cada um dos retratos seguia acompanhado por um prontuário de
antecedentes. O primeiro suspeito era Longbaugh ou Frank Jones ou Bayd ou Harry
A. Place, vulgo Kid ou Sundance Kid: “homem jovem, agricultor, com as pernas bem
abertas, segundo a agência nacional de pesquisas”. Tinha aproximadamente quarenta
anos, era “branco, cowboy, saqueador, ladrão de bancos e de gado”. A dama que os
acompanhava parecia ser sua esposa: Miss Place, Ethel ou Etta Place, grande

228
amazona “de uma coragem viril admirável” que, além disso, manejava todas as
armas com a maior precisão.3

Os outros dois sujeitos mencionados eram Harvey Logan, vulgo Kid Curry ou
Boh, também usava os nomes de Jonas Tom Mevilles ou R. T. Whelar; e George
Parker ou James Ryan ou Casmidg, vulgo Buth.4 Este último era nada mais nada
menos que “Butch Cassidy”, o mais conhecido de todos os pseudônimos de Robert
LeRoy Parker, um popularíssimo ladrão norte-americano, salteador de bancos e
trens. Ele e os outros dois acusados pela publicação policial haviam integrado uma
quadrilha famosa para o imaginário do Western: a “Wild Bunch”, formada nos
últimos anos do século XIX, mas cujo prestígio atravessou comodamente o século
XX, desde que John Schwartz os retratou no Texas em 1900, pouco depois de um
assalto ao First National Bank de Nevada, até o longa-metragem Butch Cassidy and
the Sundance Kid (1969).5

“Fotografia da Wild Bunch”


Fonte: Forth Woth Five (fotografia de John Schwartz) , Texas, 1900.

3
“El robo de Villa Mercedes. Los presuntos asaltantes del Banco Nacional”, Boletín de Policía, Año
I, n. 17, Buenos Aires, 30 dez. 1905, p. 6.
4
Idem, p. 6-7.
5
O assalto em Villa Mercedes, seguindo a crônica dos jornais locais, foi reconstruído por:
GUTIÉRREZ, Ricardo; MORENO, Hugo. Butch Cassidy & the Wild Bunch. Asalto al Banco Nación
de Villa Mercedes. San Luis: Instituto Científico y Cultural El Diario, 1992, p. 39-117.

229
Encurralados pelas autoridades norte-americanas, os membros da Wild Bunch,
encabeçada por Butch Cassidy, Sundance Kid e sua companheira, fugiram para
Buenos Aires, embarcando no porto de Nova York em fevereiro de 1901. Chegaram
à capital argentina em março e se hospedaram com nomes falsos no Hotel Europa.
Adquiriram terras na Patagônia e partiram para o sul do país. Na América do Norte
ficou uma sólida lenda, cuja épica o cinema de Hollywood se encarregou de cultivar:
eram uma quadrilha de ladrões simpáticos e criativos, mais propensos à astúcia que à
violência. Na Argentina, no entanto, Sundance Kid e Butch Cassidy deixaram um
saldo de enfrentamentos armados, feridos e, segundo parece, alguns assassinatos.6

No início de 1905, depois de certo tempo de residência em uma fazenda


localizada na Cordilheira dos Andes, no território de Chubut, começaram a ser
procurados pela justiça argentina que os acusava por dois roubos anteriores: o assalto
a um banco de Río Gallego, uma das localidades mais austrais da região patagônica,
e outro na cidade bonaerense de Bahía Blanca.7 Depois do golpe no Banco Nacional
de Villa Mercedes, a intervenção da Polícia da Capital foi imediata. Cinco dias após
o roubo, a imprensa publicava os retratos de Butch Cassidy, Sundance Kid, Etta
Place e Kid Curry, atribuindo-lhes também o assalto ao banco de Río Gallegos.8
Como chegou à polícia portenha, tão rapidamente, a pista sobre o Wild Bunch? O
jornal que publicou os retratos o explicava bem:

As façanhas deste bando, composto de três homens e uma mulher,


esposa de um deles, são conhecidas em toda Europa e América do
Sul, onde circulam com profusão uma série de impressos em que se
detalham os curiosos pormenores de cada um desses bandidos. A

6
Sobre a vida de Cassidy, Sundance Kid e Etta Place na Patagônia, ver: GAVIRATI, Marcelo.
Buscados en la Patagonia. La historia no contada de Butch Cassidy y los bandoleros norteamericanos.
Buenos Aires: La Bitácora Patagónica, 2011. Uma visão mais ampla sobre o bandidismo rural na
região: RAFART, Gabriel. “Violência rural e bandoleirismo na Patagônia”, Topoi, vol. 12, n. 22, Rio
de Janeiro, jan.-jun. 2011, p. 118-136.
7
“El asalto al Banco de Tarapacá en Río Gallegos. Medidas del Gobierno”, La Prensa, Buenos Aires,
16 fev. 1905. Uma das hipóteses policiais sobre o trajeto percorrido por estes bandidos sugere que
fugindo de Río Gallegos se dirigiram à Cordilheira e que em São Carlos de Bariloche tomaram um
navio para cruzar a fronteira com o Chile pelo Lago Nahuel Huapi.
8
Segundo o Boletín de Policía, quando a imprensa da capital começou publicar os retratos, os
habitantes de Villa Mercedes, e em particular o dono de uma confeitaria onde haviam tomado whisky
até minutos antes do roubo, reconheceram os membros da Wild Bunch como os assaltantes do banco.
“El robo de Villa Mercedes. Los presuntos asaltantes del Banco Nacional”, Op. Cit., p. 7.

230
agência nacional de pesquisas estabelecida nos Estados Unidos se
encarregou de fazer conhecida a quadrilha que nos ocupa e o
doutor Beazley, sendo chefe de polícia no ano 1903, mandou à
Delegacia de Investigações os prontuários de toda a curiosa
história. 9

Qual era essa “agência nacional de pesquisas” dos Estados Unidos? Referiam-
se ao serviço de detetives privados criado em 1850 por Allan Pinkerton, na cidade de
Chicago. Nos anos de 1870, converteu-se na National Detective Agency, estendeu
suas oficinas a outras cidades norte-americanas e adotou como logotipo um olho
aberto sob a legenda “We Never Sleep”. Longe da figura do investigador privado dos
romances de enigma, os agentes de Pinkerton eram operários da detecção que muitas
vezes desempenhavam um trabalho mecânico submetido a regras estritas. Se alguma
ficção se aproximava, não era a daqueles detetives homo cogitans de Poe y Conan
Doyle, senão daqueles cinzentos investigadores assalariados da literatura noir,
principalmente na obra de Dashiell Hammett, que por sinal trabalhou para a Agência
Pinkerton no início do século XX.10

Para esse então a Pinkerton era uma complexa organização burocrática de uma
estrutura hierárquica impecável. Além de empregar guardas de segurança privada
para proteger empresas, bancos e custear transporte de dinheiro, realizava diversas
tarefas de espionagem política e investigação criminal propriamente dita. Contratava
centenas de agentes para arrecadar informações “nas sombras”, de acordo com
instruções precisas, detalhadas em uma série de regulamentos e manuais para
detetives. As regras definiam critérios para se comportar na via pública, estabelecer
comunicação com estranhos, manipular a informação juntada e produzir relatórios
escritos para os prontuários do arquivo. No terreno da perseguição de bandidos, a
Agência Pinkerton era considerada de uma eficácia superior a de qualquer força

9
“Noticias de Policía. ¿Los bandoleros de San Luis? El Asalto al Banco de Villa Mercedes. Nuevos
detalles. Sospechas justificadas. Historia de unos salteadores. Avisos a la policía de Chile. Medidas
que deben adoptarse. Los bancos de la República en peligro”, La Prensa, Buenos Aires, 24 dez. 1905.
10
RACZKOWSKI, Christopher. “From Modernity’s Detection to Modernist Detectives: Narrative
Vision in the Work of Allan Pinkerton and Dashiell Hammett”, Modern Fiction Studies, vol. 29, n. 4,
2003, p. 629-659.

231
policial da América do Norte.11 De fato, frente a casos difíceis como os de Jesse
James, da própria Wild Bunch e vários “yeggmen” (gíria usada nos finais do século
XIX para se referir aos bandos de ladrões de bancos e caixas fortes), o governo
deixou o trabalho nas mãos da Pinkerton.12

Ao lado dessa “criminalidade yanqui”, escrevia um redator da revista policial


portenha, “nossa delinquência está ainda nas fraldas”.13 Esta nota apareceu um ano
antes do assalto ao banco de Villa Mercedes e reproduzia uma monografia lida por
um dos herdeiros da dinastia, Willian A. Pinkerton, na Convenção Anual da
International Association of Chief of Police (Missouri, 1904). Um ano e alguns
meses mais tarde, após o impacto dos supostos assaltos de Butch Cassidy na
Argentina, a mesma revista trocava o olhar exótico por uma advertência sobre os
perigos dos “yeggmen de importação”.14 Três características das quadrilhas norte-
americanas chamavam especialmente a atenção dos policiais portenhos: a destreza no
manejo das armas, os assaltos em plena luz do dia e as fugas a toda velocidade. Estes
modernos pistoleiros constituíam, até pouco tempo, “um gênero particular de
criminalidade reservada aos Estados Unidos, país das coisas fabulosas”, mas
ameaçavam cada vez mais a “tomar carta de cidadania entre nós”. 15

11
Goron afirma que nos Estados Unidos havia mais fé na “iniciativa privada” que na “polícia oficial”.
A Agência Pinkerton – escrevia – contava com um “exército de detetives” que até então somavam
mais de 2.500 homens repartidos em diferentes cidades do país. Quando detiam um delinquente,
podiam colocá-lo nas mãos da justiça, mas também podiam apelar a mecanismos de resolução não
judicial dos conflitos, mediante pagamento de uma compensação às vítimas, clientes da Agência.
GORON, Mr. Las policías extranjeras. Op. Cit., p. 338-344.
12
Referências sobre os Arquivos da Agência Pinkerton, os yeggmen e os bandos de ladrões de bancos:
FRISBY, David. Paisajes urbanos de la modernidad. Exploraciones críticas. Bernal: Universidad
Nacional de Quilmes/Prometeo, 2007, p. 82-102.
13
“El Yegg y los Yeggmen. Los grandes ladrones norteamericanos”, Revista de Policía, Año VIII, n.
180, Buenos Aires, 16 nov. 1904, p. 185. Outra nota sobre um bandido norte-americano “com dados
extraídos dos Arquivos da famosa Agência Nacional de Investigações Pinkerton”, aparece em:
“Ladrones famosos. Adam Worth (a) el pequeño Adam, uno de los que se han apropiado mayor suma
de dinero en el mundo”, Boletín de Policía, Año I, n. 5, Buenos Aires, 30. Jun. 1905, p. 12- 13.
14
“Nuevas formas de la delincuencia”, Revista de Policía, Año IX, n. 207, Buenos Aires, 1 ene. 1906,
p. 119.
15
Idem, p. 119. Em Buenos Aires, estas três características do fenômeno do pistoleiro moderno terão
uma enorme visibilidade nas décadas de 1920 e 1930, pelo surgimento das armas automáticas e do
automóvel como meio de locomoção para a fuga. Ver: CAIMARI, Lila. La ciudad y el crimen. Delito
y vida cotidiana en Buenos Aires, 1880-1940. Buenos Aires: Sudamericana, 2009, p. 145-188; e
CAIMARI, Lila. Mientras la ciudad duerme. Pistoleros, policías y periodistas en Buenos Aires, 1920-
1945. Buenos Aires: Siglo XXI, 2012, p. 27-58.

232
O que estas notícias revelavam era que a Agência Pinkerton sabia o destino
sul-americano de Butch Cassidy desde o preciso momento em que os membros da
Wild Bunch embarcaram para Buenos Aires. Inclusive, a polícia portenha foi avisada
e um detetive norte-americano viajou à Argentina:

Os detetives da agência Pinkerton, que é uma instituição toda yanqui,


descobriram seu paradeiro em um esconderijo afastado da Patagônia. Um
agente da Pinkerton que chegou a Buenos Aires há pouco mais de dois
anos, constatou o fato, comunicou seus superiores de Nova York, e estes,
de acordo com as vítimas destes fugitivos e com as autoridades do país,
adotaram o seguinte procedimento, verdadeiramente yanqui: deixar em
paz os perseguidos e rogar à nossa polícia que unicamente no caso de
algum dos membros do bando abandonar a Argentina para voltar aos
Estados Unidos, comunicasse o fato por telégrafo à agência nova-
iorquina! 16

Tudo isto sugere que a rápida difusão dos nomes da quadrilha e a imediata
publicação de seus retratos na imprensa teve a ver com a existência de contatos
prévios entre a Agência Pinkerton e a Polícia da Capital. Os prontuários dos
bandidos norte-americanos estavam na Delegacia de Investigações ao menos desde
1903. Quando souberam dos roubos a bancos cometidos por sujeitos anglofalantes
com aspecto de cowboys, a pista da Wild Bunch se ativou imediatamente. A polícia
portenha coordenou as comunicações de duas formas: por um lado, mantinha uma
linha de diálogo internacional com os Estados Unidos e com a polícia do Chile, onde
se supunha que a quadrilha havia escapado; por outro, recebia informações de San
Luis e pedia às polícias das províncias próximas que aumentassem a vigilância rural
para encontrar os bandidos. Além da publicação dos retratos nos jornais da capital, a
Delegacia de Investigações se encarregou de circular um cartaz de três páginas com
dados expressamente obtidos pela Agência Pinkerton.17

16
“Nuevas formas de la delincuencia”, Op. Cit., p. 119.
17
Este cartaz se encontra encadernado junto ao Boletín de Policía (1905-1906), no volume
conservado na Hemeroteca da Biblioteca Nacional Argentina, Topográfico n. 226533. Sobre esta
circulação, na revista de polícia se lia: “é sabido que a Delegacia de Investigações indicou
imediatamente às polícias das províncias interessadas, o nome e antecedentes dos supostos autores do
mencionado delito, cujos retratos têm circulado profusamente em diversos órgãos da imprensa”.
“Nuevas formas de la delincuencia”, Op. Cit., p. 119.

233
Cartaz com pedido de captura da Wild Bunch
Fonte: Boletín de Policía, jan. 1906, s/n.

Este caso mostra que as polícias das capitais buscavam assumir a representação
do país na trama internacional da cooperação policial. A tentativa de federalização de
facto das polícias metropolitanas chocava frequentemente contra a inércia dos
contatos diretos entre diversas cidades sul-americanas: as trocas de informação das
polícias do Rio de Janeiro, Montevideo e Santiago do Chile com La Plata, sem passar
por Buenos Aires, ou da polícia de São Paulo com diversas cidades argentinas, eram
testemunhas dessa prática. Desde o último quarto do século XIX, os escritores da
polícia portenha vinham requerendo o reconhecimento de iure para essas atribuições
federais que – segundo eles – correspondiam por estar esta instituição sob ordens
diretas do governo nacional.

O Proyecto de Código de Policía para la Capital de la Nación de 1894, por


exemplo, dedicava uma seção para definir a questão da “jurisdição territorial”. Os
codificadores pretendiam legitimar o poder de capturar suspeitos fora dos limites da
cidade capital, “naqueles casos em que, por urgência, não se podia proceder a

234
extradição interprovincial na forma determinada por lei”.18 Igual ao convênio sul-
americano de 1905, a ideia era que bastasse um aviso telegráfico entre as chefias de
polícia para permitir que os vigilantes se movessem pelo território do país sem
obstáculos burocráticos. Este projeto e todas as tentativas posteriores para avançar
sobre a jurisdição das polícias provinciais naufragaram até a criação da Polícia
Federal Argentina, em meados do século XX. No entanto, quando se tratava de
perseguir delinquentes viajantes, que além de circular por vários pontos do país,
tinham prontuários no exterior, muitas vezes a Polícia da Capital intervinha através
de sua enérgica seção de investigações, por mais que os crimes houvessem sido
cometidos em território das províncias, como havia sucedido com a Wild Bunch.

O modo em que circulou a informação neste caso seguia um dos postulados


básicos das conferências policiais: “que as polícias das províncias ou estados se
entendessem diretamente com a da capital do respectivo país, e esta com as demais
estrangeiras”.19 Mas essa centralidade das polícias metropolitanas não emanava
necessariamente de uma relação harmônica e fluída com as demais forças de
segurança de seu país, e sim da capacidade de impor uma liderança baseada na
primazia tecnológica: recursos para coletar, arquivar e transmitir rapidamente a
informação, funcionários melhor treinados e dotados de algumas ferramentas
técnicas que faziam a diferença. Sem dúvidas, o campo que mais abria perspectivas
às polícias das capitais da Argentina e Brasil para disputar esse lugar dominante,
dentro de seus vastos países, era a investigação criminal.

Nas primeiras décadas do século XX, ao ritmo das notícias sobre façanhas dos
yeggmen e dos pistoleiros norte-americanos, o trabalho dos detetives privados
começou a interessar cada vez mais aos policiais sul-americanos. Esse interesse tinha
muito a ver com a péssima fama dos vernáculos agentes de investigação. Em Buenos
Aires e no Rio de Janeiro existiam serviços de “polícia secreta” desde o último
quarto do século XIX. Estavam constituídos por agentes sem uniforme, mais
orientados às tarefas de polícia política que à perseguição de ladrões, estafadores ou

18
REPÚBLICA ARGENTINA. Proyecto de Código de Policía para la Capital de la Nación. Buenos
Aires: Imprenta y Encuadernación de la Policía de la Capital, 1894. Título III. “Jurisdicción
Territorial”, art. 103, p. 23.
19
“Conferencia internacional de policías. Terminación de sus trabajos”, Revista de Policía, Año IX,
n.203, Buenos Aires, 1 nov. 1905, p. 86.

235
assassinos. A polícia portenha instituiu o serviço depois da revolução de 1874, e no
relatório anual do ano seguinte o chefe Manuel Rocha respondia as primeiras críticas.
Reconhecia que desde seu nascimento francês a inícios desse século, a polícia secreta
havia desatado “controversas apaixonantes” no mundo da cultura. Mas entendia que
seus agentes não deviam ser julgados seguindo princípios morais abstratos, porque
eram – de fato – uma “negação viva de todas as qualidades que realçam e enobrecem
o homem”. Mentiam, ocultavam sua identidade, viviam entre ladrões, falavam seu
mesmo jargão: em suma, existiam graças a um tipo de pacto com o diabo, a um
“sacrifício de todas as virtudes humanas”. Sua diferença com o mundo dos
criminosos era da ordem dos fins: em todo o resto se pareciam.20

A imprensa pouco se convencia desta ideia de semear a cidade com


“pesquisas”, como chamavam aos agentes secretos em Buenos Aires. O núcleo da
crítica apontava contra o estabelecimento de um serviço de espionagem para seguir
as atividades dos dissidentes ao governo. Mas o interessante é que os jornais não se
limitavam a um ataque per se à polícia secreta: ironizavam a imperícia que a polícia
tinha para pôr em prática as regras mais elementares do ofício detetivesco. Os
agentes secretos apareciam como sujeitos toscos e incapazes de passar
despercebidos: “avisamos ao chefe que são muito torpes”, escrevia um redator da La
Prensa, “porque não sabem dissimular o baixo papel de espião que lhes
confiaram”.21 No mesmo tom, um jornal carioca questionava o serviço secreto do
Corpo de Segurança Pública, cujos integrantes eram chamados “secretos”, embora
tivessem se convertido nos “homens mais conhecidos da cidade”.22

No Rio de Janeiro, o chefe da Secretaria de Polícia da Corte opinava, em seu


relatório de 1878, sobre a criação de “cinco turmas de agentes secretos”, cujas tarefas
definia em termos muito próximos aos da polícia argentina: “imiscuir-se por toda
parte sem causar receios nem suspeitas”, inventar manobras engenhosas para
“provocar as expansões da franqueza, captar certas intimidades, e chegar até muitas

20
ROCHA, Manuel. Memoria del Departamento General de Policía correspondiente al año 1875.
Buenos Aires: Imprenta La Tribuna, 1876, p. 91-98.
21
“Vigilantes disfrazados”, La Prensa, Buenos Aires, 28 fev. 1875. Véase también: GALEANO,
Diego. Escritores, detectives y archivistas. La cultura policial en Buenos Aires, 1821-1910. Buenos
Aires: Biblioteca Nacional/Teseo, 2009. p. 86-87.
22
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 25 dez. 1905.

236
vezes por um simples fio ou remotíssimo indicio à concretização das provas do fato
criminoso”.23 Mas nestes mesmos relatórios dos últimos anos do Império, os
inquéritos por “crimes contra as pessoas” (homicídios, ferimentos graves) e “crimes
contra a propriedade” (roubos, assaltos, estafas) eram feitos por delegados e
subdelegados. O serviço secreto estava mais vinculado à polícia política e, por isso,
depois de 1889, alguns republicanos o consideravam um baluarte monárquico que
era necessário desarmar. 24

No começo do século XX, as chefias do Rio de Janeiro e Buenos Aires


tentaram apagar a herança das polícias secretas “a la Vidocq” e reorganizar os
serviços sob a modalidade do detetive profissional.25 A moderna polícia de
investigações se fundava sobre uma multiplicidade de tecnologias aplicadas à
resolução de crimes. Era o fim da “polícia empírica” e o começo de uma era da
“polícia científica”, em que as indagações pareciam se afastar das ruas e se
concentrar nos laboratórios. “Não há agente de polícia melhor que o microscópio”,
dizia Elysio de Carvalho em 1921, em uma frase que aproximava o investigador
ideal aos modelos dos grandes detetives de romance do século XIX, enquanto os
afastava dos farejadores urbanos da Agência Pinkerton.26

No entanto, uma década antes, o próprio Carvalho, então diretor do Gabinete


de Identificação e Estatística, havia proposto a criação de uma “Agência Geral de
Polícia Privada” inspirada nos serviços similares existente na América do Norte e
Europa. A ideia era estabelecer uma instituição híbrida (privada porém reconhecida
pelas autoridades estatais e financiada com fundos públicos), capaz de estender –

23
LIMA. Francisco José de. “Relatório do Chefe de Polícia da Corte. Secretaria da Polícia da Corte,
em 30 de setembro de 1878”. In: Relatório apresentado à Assembléia Geral Legislativa pelo Ministro
e Secretario de Estado dos Negócios da Justiça, Conselheiro Lafayette Rodrigues Pereira. Rio de
Janeiro: Typ. Perseverança, 1878, Anexo 5, p. 56-58.
24
SAMET, Henrique. Construção de um Padrão de Controle e Repressão na Polícia Civil do Distrito
Federal por meio do Corpo de Investigações e Segurança Pública (1907-1920). Rio de Janeiro: Tese
de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em História Social, UFRJ, 2008, p. 54-57.
25
Sobre a figura do detetive policial, veja os trabalhos compilados em EMSLEY, Clive; SHPAYER-
MAKOV, Haia (eds.). Police Detectives in History, 1750-1950. Aldershot: Ashgate, 2006.
SHPAYER-MAKOV, Haia (eds.). The Ascent of the Detective. Police Sleuths in Victorian and
Edwardian England. New York: Oxford University Press, 2011.
26
CARVALHO, Elysio de. “As descobertas extraordinárias do Dr. Balthazard”. In: Sherlock Holmes
no Brasil. Op. Cit., p. 51.

237
como tinha feito a Agência Pinkerton – suas atividades aos demais estados da
confederação.27 Não cabe nenhuma dúvida que o exemplo dos detetives norte-
americanos era o que pairava sobre a cabeça de Carvalho. Em um texto publicado
neste período, ele mesmo explicava claramente:

O detetive americano é o tipo mais acabado, mais completo, mais


perfeito do agente de polícia, dotado de todos os recursos e
conhecimentos, aparelhado admiravelmente para a luta contra a
criminalidade moderna, intrépido e vigoroso, apto para vencer em
astúcia e em inteligência o mais esperto dos canalhas. Hoje em dia
não ha quem ignore a existência das agências particulares de
polícia. Os americanos (...) compreenderam perfeitamente o papel
importante que, na sociedade moderna, estava reservado à nova
profissão de detetive. (...) O nome da “Pinkerton Agência” está
ligado a todos os grandes sucessos que se têm passado na América
nestes últimos quatro anos.28

O projeto de Agência Privada não prosperou e no seu lugar avançaram as


reformas no Corpo de Investigações, inspiradas nas inovações da criminalística
europeia. A escola de instrução de agentes inaugurada em 1912, com o próprio
Carvalho como diretor, reafirmava a decisão de manter o monopólio policial da
investigação de delitos. Mas por sua vez abria as portas às técnicas da polícia
científica que, embora recém nascia, já tinha seus clássicos: Bertillon, Vucetich,
Reiss, Locard. Mais que aprender a se disfarçar, viver entre os criminosos passando
despercebido, falar a linguagem dos submundos delitivos e decifrar os sinais da rua,
o detetive policial devia estudar noções de datiloscopia, aprender a técnica do retrato
falado, tornar visível o invisível (uma mancha de sangue, uma impressão digital
imperceptível, uma palavra sobre um papel queimado), saber olhar com a ajuda da
lupa e do microscópio.

Estes dois ofícios, do criminalista policial e do detetive privado, não eram,


entretanto, necessariamente incompatíveis. Aproximar esses dois mundos era a

27
AN, GIFI 6C, Caixa 378, Requerimento de Elysio de Carvalho ao chefe da polícia Belisario
Taborda, 11 out. 1912.
28
CARVALHO, Elysio de. A polícia carioca. A criminalidade contemporânea. Op. Cit., p. 94-95.
Veja também: CARVALHO, Elysio de. Repressão e criminalidade nos Estados Unidos, Boletim
Policial, Ano V, n. 16/17, Rio de Janeiro, jul.-set. 1911, p. 476-483.

238
aposta do delegado Olyntho Nogueira em seu Tratado elementar para se chegar a
ser polícia e detetive (1923), livro que se originava de uma viagem aos Estados
Unidos realizada seis anos antes.29 Não estava aqui, como em Elysio de Carvalho, a
ideia de formar uma agência privada. Tratava-se principalmente de dar ao detetive da
polícia pública um status profissional. A singular proposta de Nogueira consistia em
combinar elementos da tradição detetivesca dos Estados Unidos com as últimas
novidades da polícia científica europeia.

Assim, o tratado começava com “lições de observação” que buscavam treinar o


olhar na via pública (aliás, a capa do livro estava ilustrada com um olho aberto, ao
estilo da Agência Pinkerton). O leitor encontrava exercícios práticos que iam desde
observar erros em gravuras até a sair à rua e descrever minuciosamente uma cena em
uma confeitaria. Também ensinava a “sombrear”, expressão da gíria detetivesca que
designava a prática de perseguir uma pessoa em via pública. A habilidade do
sombreador consistia em ficar no ponto exato para passar despercebido e conseguir a
distância perfeita para não ser visto nem perder de vista a presa. Incluía, por último,
lições de “embrulhagem”, ou seja, formas de estabelecer contato e dialogar com o
suspeito, extraindo informações sem despertar desconfiança.30

Mas, ao mesmo tempo, junto a estas técnicas Nogueira incorporava lições de


perícias gráficas sobre manuscritos, análises de impressões digitais na cena do crime
e interpretação de fotografias.31 A rua e o laboratório apareciam aqui como os dois
territórios complementares da polícia de investigações, territórios repletos de sinais
que aguardavam ser interpretados. Se “sombrear” e “embrulhar” eram tarefas que
formavam parte dos mandamentos de rua do bom detetive privado, estas outras
técnicas requeriam o treinamento do olho no espaço fechado do gabinete do

29
NOGUEIRA, Olyntho. Tratado elementar para se chegar a ser polícia e detetive. Rio de Janeiro:
Imprensa Guanabara, 1923.
30
Idem, p. 115-126 y p. 188-203.
31
Idem, p. 128-180. Estas mesmas noções estarão presentes em distintos manuais destinados aos
agentes policiais, investigadores e detetives, e publicados nas décadas de 1930 e 1940 por policiais
civis em atividade e aposentados. Por exemplo: NOGUEIRA, Olyntho. Policia Técnica: Base para a
Criação da Escola Brasileira de Detetives. Rio de Janeiro: Renascença, 1934. TERRA, Sylvio. A
polícia e a defensa social. Rio de Janeiro: Graphica Guarany, 1939. Sobre estes manuais veja:
CUNHA, Olívia Maria Gomes da. “Os Domínios da Experiência, da Ciência e da Lei: os Manuais da
Polícia Civil do Distrito Federal, 1930-1942”, Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 12, n 22, 1998,
p. 235-263.

239
investigador. Era, definitivamente, uma versão científica do matrimônio que os
leitores de ficções policiais conheciam muito bem pelos folhetins. O novo “policial
de laboratório”, segundo a expressão usada por Locard para se referir aos agentes de
investigações, era um tipo de reencarnação dos detetives de Poe e Conan Doyle. Para
Elysio de Carvalho, na América do Sul, chegava a hora de utilizar os avanços no
campo da criminalística para combater os ladrões viajantes e gatunos internacionais,
“desmascarar os cavalheiros da indústria”, a todo rastaquouère que se escondia
detrás do cambrioleur gentleman.32

32
CARVALHO, Elysio de. Sherlock Holmes no Brasil. Op. Cit., p. 139-140.

240
A sociedade dos malfeitores

É preciso fugir, sair, desaparecer, tomar outro


nome, continuar. (…) O gatuno, quando é só
gatuno, quando adota na esperteza e no
“avança” geral a mais difícil das profissões,
que é a de gatuno só sem mais nada, tem que
continuar, insistir, morrer nesse infernal e
magnífico desporto.
Dr. Antônio, Memórias de um rato de hotel
(1912).

Em 1912 começou a funcionar no Rio de Janeiro a Escola de Polícia proposta e


dirigida por Elysio de Carvalho, “nos moldes singelos mas eficazes da School for
Detectives dos norte-americanos”.1 As aulas brindavam uma “educação técnica” de
caráter obrigatório para os aspirantes ao Corpo de Investigação e Segurança Pública,
embora também abrisse suas portas a agentes de outras repartições.2 O programa de
estudos incluía um curso de “política criminal”, onde se ensinava criminologia,
direito penal brasileiro e legislação penitenciária, e outro de “polícia científica”, que
reunia noções elementais de criminalística e diferentes técnicas de identificação. Este
segundo curso tinha uma unidade chamada “a sociedade dos malfeitores”: seu
objetivo consistia em fornecer conhecimentos sobre o “modo de trabalho das várias

1
“Corpo de Investigação e Segurança Pública”. In: Relatório apresentado ao Presidente da
República dos Estados Unidos do Brazil pelo Ministro da Justiça e Negócios Interiores. Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, 1912, p. 84.
2
Sobre a Escola Policial, ver: SAMET, Henrique. Construção de um Padrão de Controle e Repressão
na Polícia Civil do Distrito Federal por meio do Corpo de Investigações e Segurança Pública (1907-
1920). Rio de Janeiro: Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em História Social, UFRJ,
2008, p. 326-336.
categorias de criminosos, seus hábitos e seus costumes, seu argot e arte do disfarce”.3
Por que estudar estes ladrões a partir de suas práticas habituais, sua forma de falar e
se vestir? Carvalho explicava:

Nos nossos tempos, os criminosos se tornaram,


incontestavelmente, verdadeiros especialistas do crime, executando
tão somente um determinado gênero de trabalho. O que tem
coragem e sangue frio, torna-se um ladrão arrombador e, às vezes,
assassino, o que tem agilidade e destreza nas mãos acaba batedor
de carteira, o que tem audácia e cinismo, faz-se rato de hotel.4

O ladrão estava se tornando um profissional e o roubo um campo repleto de


ofícios. Em 1903, o delegado carioca Vicente Reis fez o trabalho de enumerar e
explicar todas essas especialidades: batedores de carteiras, gravateiros,
arrombadores, falsificadores de bilhetes, vigaristas, ratos de hotel.5 Mas este tema do
“delinquente profissional” estava na boca de todos: nos congressos internacionais de
ciência penitenciária e de antropologia criminal, nos escritos de policiais europeus e
sul-americanos, na imprensa e na literatura popular. Nestes discursos, a
profissionalização do delito estava atravessada por duas figuras características. Em
primeiro lugar, os ladrões começavam a fazer uso sistemático das inovações
tecnológicas da modernidade e a operar “de acordo com as descobertas da ciência”,
como escrevia em 1910 o Inspetor da Polícia Marítima do Rio de Janeiro. “A estrada
de ferro, o telégrafo, o telefone, o automóvel, etc., e amanhã o aeroplano, são armas
contra os ladrões e ao mesmo tempo as que eles mais utilizam para burlar a ação
combinada da polícia”.6

3
CARVALHO, Elysio. A polícia carioca. A criminalidade contemporânea. Rio de Janeiro: Imprensa
Nacional, 1910, p. 132-133.
4
CARVALHO, Elysio de. “História natural dos malfeitores. Apontamentos”, Boletim Policial, Ano
VII, n. 6, Rio de Janeiro, jun. 1913, p. 147.
5
REIS, Vicente. Os ladrões no Rio, 1898-1903. Rio de Janeiro: Laemmert, 1903.
6
LOUZADA, Trajano. “A nossa polícia e a polícia estrangeira. Uma carta interessante”, Boletim
Policial, Ano IV, n. 2, jun. 1910, p. 55.

242
Em segundo lugar, cada vez mais ofícios dentro do campo da criminalidade
profissional involucravam práticas de mobilidade territorial, facilitadas pela
revolução nos transportes. O surgimento do crime internacional e, dentro deste
campo, a figura do “ladrão viajante” era destacada como uma novidade mundial e
mundializada. Este “grande número de ladrões internacionais que não fixam
residência” e que “viajam sempre após os roubos sem que ninguém os detenha”,
estavam por todos os lados.7 Não apenas os yeggmen norte-americanos viajavam de
um país a outro. Apenas ao Rio de Janeiro – segundo escrevia Elysio de Carvalho –
tinham vindo apaches e cambrioleurs de Paris, hooligans e hobos da Inglaterra,
atracadores e guapos andaluzes, camorristas de Nápoles e mafiosi da Sicília,
spitzbuben da Alemanha, charami árabes, oyabuns do Japão, capucheros do Chile,
lunfardos da Argentina, além de “anarquistas, niilistas e revolucionários de todas as
raças e de todas as cores”.8

Talvez Carvalho exagerasse um pouco, mas o certo é que algumas destas castas
circulavam efetivamente pela América Latina. Mencionamos as viagens dos
yeggmen, por causa das aventuras sul-americanas de Butch Cassidy e a Wild Bunch.
Mais à frente veremos a presença de lunfardos do Rio da Prata em diferentes estados
do Brasil. Antes, detenhamo-nos um momento nas notícias sobre a suposta existência
de apaches parisienses em Buenos Aires e Rio de Janeiro.9 Quatro anos antes da
publicação do artigo onde Carvalho os mencionava, o jornal carioca Gazeta de
Notícias, em sua seção “bastidores da polícia”, se referia à presença de violentos
apaches, que aqui se relacionavam com a família dos “gravateiros”.10

7
Idem, p. 54-55.
8
CARVALHO, Elysio de. “A delinqüência dos estrangeiros”, Boletim Policial, Ano VII, n. 6, Rio de
Janeiro, jun. 1913, p. 223.
9
Sobre a figura dos “apaches” na Paris da Belle Époque ver: KALIFA. Dominique. “Archéologie de
l´apachisme : barbares et Peaux-Rouges au XIXe siècle”. In: Crime et culture au XIXe siècle. Paris:
Perrin, 2005. p. 44-66. Carvalho se referia também aos apaches parisienses em: CARVALHO, Elysio.
A polícia carioca. A criminalidade contemporânea. Op. Cit., p. 51-54.
10
“Bastidores da polícia”, Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 6 mar. 1909; e “Os bastidores da
polícia: gravateiros ou apaches”, Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 7 mar. 1909. Segundo o
dicionário de gíria do próprio Carvalho, o “gravateiro” era o gatuno que passava “o braço no pescoço
de um indivíduo de modo a tolher-lhe os movimentos, sufocando-o, enquanto outro ladrão lhe saqueia
as algibeiras”. CARVALHO, Elysio de. Gíria dos Gatunos Cariocas. Vocabulário organizado para os
alunos da Escola de Polícia. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1912, p. 25.

243
Em 1912, o jornalista Juan José de Soiza Reilly começou a difundir, na recém-
fundada revista Fray Mocho, notícias sobre apaches em pleno centro de Buenos
Aires:

– Você quer ver os apaches?, perguntou um ativo comissário de


investigações.
– Apaches? Existem em Buenos Aires?
– Abundam. Pouco a pouco vão se multiplicando. Lentamente
introduzem em nossa cidade seus bárbaros costumes. Alguns
trazem consigo, da França, suas mulheres.11

Soiza Reilly narrava nesta crônica o percurso junto ao comissário pelos bares
em que tramavam seus roubos estes apaches, que eram seguidos de perto pela polícia
de investigações. Segundo o relato, escaparam da França porque a perseguição
policial havia se tornado intensa. Alguns – assegurava o cronista – saíam de Paris
chorando. Tempo atrás os haviam visto por Marrocos e Argélia. Agora estavam em
Buenos Aires. Ironicamente, Soiza Reilly celebrava o que parecia ser uma nova
conquista da europeizada modernidade portenha, que sempre se imaginava inspirada
na capital francesa: “não podemos nos queixar, posto que o apache é como uma flor
de Paris que não parece ser transplantável a estufas crioulas”.12

No mesmo ano, a revista Sherlock Holmes difundiu uma série de notícias sobre
outros roubos cometidos pelos apaches. Até este momento, lia-se em uma delas, “a
lenda tenebrosa do apachismo” era uma coisa de Paris e do “prestígio de sua novela
folhetinesca”. No entanto, um “sopro trágico de sangue” havia atravessado o
atlântico para chegar à capital argentina e romper essa asséptica distância marcada
pela realidade de papel.13 Neste caso, tratava-se de um assalto a uma agência de
loteria que a polícia portenha atribuía a um grupo de apaches armados com

11
SOIZA REILLY, Juan José de. “Buenos Aires tenebroso. Los apaches”, Fray Mocho, Año I, n. 3,
Buenos Aires, 17 may. 1912, p. 20.
12
Idem, p. 22.
13
“El apachismo en acción”, Sherlock Holmes, Año II, n. 65, Buenos Aires, 24 sep. 1912, p. 34-35.

244
revólveres e cassetetes. Dias depois outra, sobre um roubo em uma confeitaria
perpetrado por estes “exímios artistas recém-chegados da Europa”, fração integrante
de uma “inesgotável gatunagem pour l’exportation”, que aparentemente tinham um
volumoso prontuário de antecedentes na polícia parisiense.14

Ao final deste ano, Sherlock Holmes informava a seus leitores uma


tranquilizadora notícia: os apaches eram deportados a seus países pela lei de
expulsão de estrangeiros da Argentina.15 Na sua obra de “higienização moral da
metrópole”, a polícia portenha havia embarcado “um novo carregamento de
apaches”.16 Esta crônica estava ilustrada com seis fotografias em que se viam os
expulsos no porto, carregando seus pertences e escoltados por vigilantes. Na
caminhada, um deles escondia a cara com um sombreiro e outro secava as lágrimas
com um lenço. As fotografias restantes os mostravam abraçando suas maletas nas
lanchas que os conduziam até o transatlântico.17

Apesar de serem expulsos de Buenos Aires, os apaches deixaram certa fama no


Rio da Prata, ao tal ponto que em 1913 o bandoneonista Berstein compôs um tango
chamado “El apache porteño”. E não era nem o primeiro nem o único: “El rey de los
apaches”, de Alberto Bellomo, “El apache oriental” (1912) de Enrique Delfio, e
“Apache uruguayo” (1914) de Francisco Baldomir, formavam uma série na que se
destacou “El apache argentino”, de Manuel Aroztegui. Mas sua letra apagava a
história dos criminosos viajantes de origem francesa, aproximando o apache à figura
tangueira do compadrito, o protagonista de brigas com facas nos subúrbios
portenhos, personagem muito parecido ao malandro carioca.18

14
“Los apaches en acción. Un golpe audaz que se frustra”, Sherlock Holmes, Año II, n. 68, Buenos
Aires, 15 oct. 1912, pp. 54-55. Neste mesmo número, a revista noticiava sobre ações dos apaches em
Paris: “Los grandes crímenes de París. Apaches en la estación de Aubrais”, Sherlock Holmes, Año II,
n. 68, Buenos Aires, 15 oct. 1912, p. 69.
15
“La deportación de tenebrosos. Complementos indispensables”, Sherlock Holmes, Año II, n.70,
Buenos Aires, 29 oct. 1912, p. 63.
16
“Deportación de apaches”, Sherlock Holmes, Año II, n. 71, Buenos Aires, 5 nov. 1912, p. 32.
17
Idem, p. 32-33.
18
A letra começava enfatizando o caráter nacional desta figura e os traços que o aproximavam ao
compadrito: “Es el apache argentino/el tipo fiel de una raza/que se echa’e ver por su traza/la astucia

245
Manuel Aróztegui, “El apache argentino” (circa 1913)
Fonte: BNA, Coleção de Partituras, Inv. 179639.

Soiza Reilly havia observado que entre os apaches encontrados em Buenos


Aires havia “certa confraternidade maçônica”, se ajudavam, se protegiam e usavam
no exílio seu “calão parisiense, tão cheio de imagens e tão cheio de símbolos”.19
Neste sentido, coincidia com o olhar de Elysio de Carvalho sobre os ladrões viajantes
que chegavam ao Rio de Janeiro: “todos eles têm um stock especial de instrumentos,
processos, expressões, sentimentos e ideias”, e também “uma linguagem

de su valor”. Veja a partitura: ARÓZTEGUI, Manuel. El apache argentino. Buenos Aires: Juan S.
Baleiro, s/d. Biblioteca Nacional, Colección de Partituras, Inv. 179639.
19
SOIZA REILLY, Juan José de. “Buenos Aires tenebroso. Los apaches”, Op. Cit., p. 22-23.

246
convencional, secreta, que é arma de defesa da associação, que o fala ou a escreve, o
argot”.20

Os criminologistas, policiais e jornalistas escreveram abundantemente sobre


estes grupos de criminosos profissionais, viajantes e cosmopolitas. Nessa profusão
tiveram muito a ver as ansiedades das elites sobre as mudanças tecnológicas, as
transformações urbanas e a presença de estrangeiros nas grandes cidades.21 Sem
dúvida, as discussões nos congressos de criminologia, as conferências sul-americanas
de policiais e a imprensa sensacionalista refletiam estas inquietudes. Mas, sem
prescindir dessa dimensão, a história da criminalidade transnacional deve ser
rastreada mais além dos discursos das teorias criminológicas, crônicas jornalísticas e
romances policiais. É preciso explorar o terreno pantanoso das práticas delitivas.

A Maffia Criolla e os gatunos internacionais

Em 1926, o escritor e jornalista Roberto Arlt publicava seu primeiro romance,


El juguete rabioso. No início da história, um grupo de jovens formam um tipo de
sociedade delitiva, inspirados por leituras da saga rocambolesca de Ponson du
Terrail.22 O personagem Rocambole, como depois Fantômas e Arsène Lupin, era um
delinquente sagaz e elegante, o que mais tarde se chamaria um “gentleman

20
CARVALHO, Elysio de. “História natural dos malfeitores. Apontamentos”, Op. Cit., p. 152.
21
Ver DEFLEM, Mathieu. Policing World Society: Historical Foundations of International Police
Cooperation. New York: Oxford University Press, 2004, p. 45-77; y KNEPPER, Paul. The Invention
of International Crime. A Global Issue in the Making, 1881-1914. London: Palgrave, 2010, p. 12-42.
22
A sociedade com fins criminosos criada nesta novela se chamava “El club de los caballeros de la
media noche”. ARLT, Roberto. El juguete rabioso. Buenos Aires: Latina, 1926, p. 24-29. Sobre o
tema do delito urbano na obra de Arlt, ver: SAÍTTA, Sylvia. “Traiciones desviadas, ensoñaciones
imposibles: los usos del folletín en Roberto Arlt”, Iberoamericana, vol. 23, n. 2, 1999, p. 63-81.
CANALA, Juan Pablo. “Las aspiraciones de Silvio Astier: fama, delito y lectura en El juguete rabioso
de Roberto Arlt” (Mimeo). Parte das publicações de Roberto Arlt sobre o crime foram coletadas em:
ARLT, Roberto. Escuela de delincuencia. Aguafuertes (selección y prólogo de Sylvia Saítta).
Montevideo: Ed. de la Banda Oriental, 2000.

247
cambrioleur”, um ladrão de luvas brancas. O criminoso viajante e aristocrático foi
um grande assunto policial nas primeiras décadas do século XX, que ainda
transcendeu as fronteiras da polícia para fazer lugar no jornalismo gráfico, na
literatura, na música popular e nos cinematógrafos. A novela de Arlt, mas
fundamentalmente algumas de seus “Aguafuertes” na imprensa, davam conta deste
fenômeno. No mesmo ano de 1926, na revista Don Goyo, aparecia este diálogo entre
ladrões portenhos que discutiam as bases para a criação de outra sociedade
criminosa:

CÚMPLICE: Digam o que quiserem, eu estou contente. Com o


progresso de Buenos Aires, minhas propriedades se valorizarão.
LADRÃO CÉTICO: Eu não vejo o progresso.
ENCOBRIDOR: Eu sim o vejo. Nossa cidade está se colocando à
altura das capitais europeias.
LADRÃO SUTIL: Verdade. O progresso das cidades se põe de
manifesto por sua opulência, e sua opulência se comprova pelo
número de atentados que cometem contra ela.
ENCOBRIDOR: Por isso eu dizia que Buenos Aires chegará a ser a
primeira cidade do mundo.
LADRÃO CÍNICO: Sua polícia já é a primeira do mundo.
LADRÃO ANATOLFRANCESCO: Cada estado diz que sua polícia é a
primeira do mundo. Um estado cuja polícia não é a primeira do
mundo, correria o risco de ser invadido por ladrões de todas as
repúblicas, cuja polícia é a primeira.
ENCOBRIDOR: Deus não permita que nossa polícia deixe de ser a
primeira do mundo. Se tal desgraça ocorrer, se produziria uma tal
invasão que, com a competição, morreríamos de fome.23

Este diálogo condensava noções centrais para a construção da figura do


criminoso internacional. Os fios que entrelaçavam o progresso urbano com a
opulência e a ostentação, e a tudo isso com a profusão de delitos, marcavam a
presença de uma primeira hipótese. A outra unia a tecnificação policial e a trama da

23
ARLT, Roberto. “Nuestra policía, la mejor del mundo”, Don Goyo, n. 55, Buenos Aires, 19 oct.
1926, p. 10.

248
migração de criminosos viajantes. O comentário irônico sobre o alarde de ser “a
primeira polícia do mundo” aludia a um discurso repetido uma e outra vez: a imagem
que uma polícia dava ante o olhar do estrangeiro – imagem conformada, entre outras
coisas, por seus recursos tecnológicos e suas capacidades repressivas – parecia
incidir diretamente nas decisões dos ladrões viajantes, na hora de escolher um novo
destino.

Por sua parte, a ligação entre o progresso urbano e crime, era um dos temas
preferidos do escritor Elysio de Carvalho, na época em que dirigia o Gabinete de
Identificação e editava a revista Boletim Policial: “a nossa cidade vai adquirindo os
principais aspectos das grandes metrópoles, cuja vida social se caracteriza pela sua
criminalidade astuta, fraudulenta”.24 Sua Historia natural dos malfeitores, publicada
em série nessa revista, propunha uma hipótese sobre a evolução da delinquência, que
ia de mão com uma teoria da civilização. Segundo esta leitura, a sociedade moderna
e urbana não trazia consigo uma supressão, nem sequer uma diminuição da barbárie
criminal. Na realidade, o desenvolvimento efetivo da modernidade social em
distintas partes do mundo, vinha a demonstrar que a cada momento correspondia
configurações específicas das práticas delitivas. Assim, a lei desta história evolutiva
indicava que “a criminalidade natural vai substituindo as formas primitivamente
rudes, musculares, impulsivas da violência, pelas formas modernamente intelectuais,
requintadas, civilizadas de astucia”.25

Para Carvalho, Rio de Janeiro não estava ainda à par das cidades mais
civilizadas da Europa. A criminalidade violenta, expressa nas altas taxas de
homicídios, ainda prevalecia sobre a “delinquência civilizada, intelectual,
fraudulenta”.26 No entanto, o predomínio das habilidades “espirituais” sobre o uso da

24
CARVALHO, Elysio de. “História natural dos malfeitores. Notas e crônicas”, Boletim Policial, Rio
de Janeiro, Ano VII, n. 4, abr. 1913, p. 60.
25
CARVALHO, Elysio de. “A physionomia da criminalidade carioca”, Boletim Policial, Rio de
Janeiro, Ano VII, n. 5, mai. 1913, p. 107.
26
Idem, p. 109-111. Embora Carvalho não fosse muito propenso a explicitar suas fontes, esta teoria
havia sido formulada antes pelos criminologistas italianos da escola lombrosiana, em particular
Alfredo Niceforo. Além disso, a ideia havia sido bem recebida pelos criminologistas argentinos. Veja,
por exemplo: GÓMEZ, Eusebio. La Mala Vida en Buenos Aires. (Prólogo del Doctor José
Ingenieros). Buenos Aires: Juan Roldán, 1908, p. 41-44.

249
violência física não era a única característica do protótipo de criminoso moderno e
civilizado. A profissionalização e a consolidação de especialidades na arte de roubar,
o emprego de inovações tecnológicas e a mobilidade territorial, eram outros aspectos
em que a delinquência brasileira estava mostrando notáveis avanços. Mas o traço
mais sobressaliente, o que revestia o crime de maior modernidade, era a organização
coletiva, a formação de sociedades com fins criminosos; aquelas sociedades que Arlt,
a meados da década de 1920, levava ao terreno da literatura.

Alguns anos antes, um dos redatores do semanário portenho Sherlock Holmes,


o delegado Villamayor, publicou duas notas consecutivas sob o sugestivo título “la
Maffia Criolla”. Segundo o relato, tratava-se de uma sociedade delitiva constituída
ao final de 1909 e originada em um acordo de proteção mútua entre uma dezena de
ladrões, cujos nomes e retratos apareciam nas páginas da revista. 27

“La Mafia Criolla”


Fonte: Sherlock Holmes, año III, n. 80, 9 ene. 1923, p. 32.

27
VILLAMAYOR, Luis C. “La Mafia Criolla”, Sherlock Holmes, Año III, n. 80, Buenos Aires, 9 ene.
1913, p. 32. Um dado que chama a atenção em ambos os números da revista é que Villamayor em
nenhum momento menciona o nome dos integrantes da sociedade, limitando-se a chamá-los por seus
pseudônimos e letras iniciais. No entanto, ao pé dos retratos aparecem os nomes completos junto aos
apelidos, o que parece indicar que os editores, e não o autor, tomaram a decisão de incluir as
fotografias e os nomes.

250
As primeiras reuniões se realizaram em um café-bilhar do centro de Buenos
Aires onde costumava se reunir a gatunagem. O dono do local era conhecido como
Don Drope, o “pai da muchachada maleante”, que acolhia os ladrões quando recém
saíam da prisão, dando a eles casa e comida, sabendo que mais tarde receberia em
troca dinheiro e objetos roubados.28 Depois de comer um guisado de galinha,
discutiram acaloradamente a proposta da sociedade, que ficou conformada por um
presidente (el Zurdo P), um vice-presidente (Pibe Oscar), um secretário (Pibe
Curdela), um encarregado da correspondência e um tesoureiro. Os outros ladrões
presentes ficaram como simples membros e “sócios honorários”. Muitos deles eram
nomeados com frequência por jornalistas e policiais argentinos: Mandaleón, o Loco
Camilo, Madama, Franginche, o Tano Roque, a Tota, o Tartamudo ou Colita, o Pibe
Caraelá ou Miguelito.29

A polícia portenha os seguia de perto há vários anos e, efetivamente,


Villamayor afirmava que a decisão de se associar foi uma reação ante o
endurecimento das perseguições policiais e as detenções reiteradas no começo do
século XX. A presença de alguns de seus integrantes nas galerias fotográficas de
ladrões confirmava que, ao menos, a polícia os tinha registrados em seus arquivos de
prontuários. Um dos sócios fundadores mencionados por Villamayor era Feliciano
Mauriño, vulgo El Pardo de las Caméndulas, cuja ficha aparecia na Galería de
Ladrones Conocidos de 1904, embora houvesse sido retratado pela polícia muito
antes, em 1889.

28
Idem, p. 32.
29
Segundo o autor, no momento de escrever a nota, quatro anos depois da constituição da sociedade, a
maior parte dos fundadores estava fora da Argentina porque os haviam aplicado a lei de expulsão de
estrangeiros. VILLAMAYOR, Luis C. “La Mafia Criolla”, Op. Cit., p. 33.

251
Feliciano Mauriño, retratado em junho de 1889.
Fonte: Galería de Ladrones Conocidos, Buenos Aires, 1904, ficha 202.

Outro membro da sociedade era Ricardo Augusto Schenone, ou José Martínez,


ou José Álvarez, vulgo Rusito de Palermo. No caso, o retrato aparecia mais tarde, em
1923, na seção “Galeria de L. C.” da revista Magazine Policial, onde o definiam
como um “scruchante” ou “madruguista”, o que significava, segundo o vocabulário
de gíria criminal publicado pelo próprio Villamayor em 1915, um “profissional do
delito que opera no interior das casas depois de meia-noite”.30

30
VILLAMAYOR, Luis C. El lenguaje el bajo fondo: vocabulario lunfardo. Buenos Aires:
Establecimiento Gráfico La Bonaerense, 1915, p. 95.

252
Retrato do “Rusito de Palermo” (à direita)
Fonte: Magazine Policial, año II, n. 9, Buenos Aires, abr. 1923, p. 24.

Nos anos seguintes à constituição da sociedade, seus membros buscaram


estendê-la incorporando outros ladrões à rede. De acordo com a crônica de
Villamayor, os “principais centros de propaganda” foram lugares de detenção: a
Penitenciária Nacional, o Depósito de Contraventores, as cadeias de La Plata e
Rosário, e até o presídio de Ushuaia. Mesmo assim, esta ramificação não se limitou
aos confins da República Argentina. Alguns de seus sócios, ao que parece, foram
expulsos pela Lei de Defesa Social e seus colegas aproveitaram o contratempo para
lhes encarregar a missão de conseguir afiliados em outros países. Deste modo, “a
notícia se propagou rapidamente entre todos os malfeitores, não apenas de Buenos
Aires, mas também de Rosário, Santa Fé, Montevidéu, Brasil, La Plata e demais
povoações onde habitava o mau elemento”.31 Na capital do Uruguai, no Rio de
Janeiro, em Pernambuco e também em algumas cidades do Chile, segundo agregava
o autor, conseguiram reunir dezenas de ladrões profissionais “de primeira linha”.

31
VILLAMAYOR, Luis C. “La Mafia Criolla”, Op. Cit., p. 32.

253
Frente a este exitoso recrutamento, cabe se perguntar que exigências
implicavam ser parte desta sociedade e, fundamentalmente, que vantagens oferecia.
Estas dúvidas podem ser respondidas com a segunda nota, já que oferece um dado
curioso e essencial para entender as intenções da chamada “Maffia Criolla”.32 A
sociedade tinha um regulamento com cinquenta e oito artigos, um estatuto por escrito
que o autor considerava “uma jóia nos anais de história da gatunagem argentina”.
Villamayor havia consultado o que parecia ser o único exemplar, manuscrito, em
mãos de um “gatuno velho, retirado da vida, que não abre mão dele nem por mil
pesos, e nem permite que se tire uma cópia”.33 De uma leitura rápida, Villamayor
havia tomado nota de seus princípios.

Fazer parte da sociedade garantia, antes de tudo, proteção em diferentes


circunstâncias. Na prisão, por exemplo, os companheiros deviam ajudar com a
“pilcha” (roupa) e o “marroco” (comida). Tinha de evitar que qualquer sócio que
estivesse atravessando uma situação difícil, por enfermidade ou outras causas, se
sentisse seduzido a se converter em um “apontador” ou “batedor”, ou seja, em um
delator ante as autoridades públicas.34 Por isso, o estatuto obrigava à sociedade a
utilizar seu capital comum para passar uma mensalidade ao sócio que não pudesse
“trabalhar” (roubar). Do mesmo modo, esses fundos estavam destinados a pagar
fiança dos que estivessem detidos na polícia e não tivessem dinheiro.35

Da mesma forma que um club da alta sociedade, ou de uma coletividade de


imigrantes, cada sócio devia abonar uma cota de entrada e uma cota mensal. O
dinheiro se depositaria em um Banco e o encarregado de efetuar as transações seria
nomeado entre algum dos “reduzidores” (compradores de objetos roubados) de
confiança. A Maffia Criolla não pretendia socializar o produto do “chorreo” (roubo),
inclusive cuidava em dedicar um artigo do estatuto para aclarar que seguia sendo um

32
VILLAMAYOR, Luis C. “La Mafia Criolla II”, Sherlock Holmes, Año III, n. 81, Buenos Aires, 16
ene. 1913, p. 9-11.
33
Idem, p. 9.
34
Seguindo novamente o dicionário de Villamayor, apuntador era o “ladrão que já não exerce sua
profissão e serve de auxílio à polícia, para o qual indica quando um ex-companheiro perambula por
algum lugar”. VILLAMAYOR, Luis C. El lenguaje el bajo fondo. Op. Cit., p. 34.
35
VILLAMAYOR, Luis C. “La Mafia Criolla II”, Op. Cit., p. 9.

254
ganho estritamente individual. Mas os membros deviam cumprir com seriedade o
pagamento das cotas:

Os sócios devem compreender e ter sempre presente que se não são


pontuais em seus “pagamentos”, podem chegar um dia que cairão
em “cana” [prisão], e a sociedade, por causa disto, não os poderá
ajudar eficazmente e menos ainda proteger aos membros de sua
família. Assim, então, a palavra de ordem que deve reinar na
“Maffia Criolla”, a este respeito será: “formar” com as cotas antes
de tudo; depois gastar a “meneguina” [dinheiro] na forma que se
creia mais conveniente.36

Além de aportar dinheiro à arca, seus integrantes tinham outras obrigações.


Uma primeira regra proibia terminantemente as brigas entre os sócios e, além disso, a
violência contra as vítimas dos roubos, salvo em circunstâncias excepcionais onde
resulta imperioso para escapar ou salvar a própria vida. Quando essa violência era
inevitável, o ladrão deveria usá-la na dose mínima necessária para “abatatar” a
vítima e “abrirse cancha”, ou seja, assustá-la para poder fugir.37

Em linha com a hipótese de Elysio de Carvalho sobre as características da


criminalidade moderna e civilizada, a sociedade delitiva tentava reduzir a violência
física a sua mínima expressão. O estatuto tratava inclusive de regular o uso das
punhaladas (ao companheiro que ousasse surrupiar o rendimento do roubo, por
exemplo, era preferível “meter uma ou várias facadas na mão direita”, sem o ferir de
morte). “Roubar, furtar, estafar e falsificar sempre que se possa”, sem assassinar
ninguém, era para o estatuto “o horizonte de todo sócio da Maffia Criolla”.38

O regulamento era muito rigoroso também no pedido de manter os segredos da


sociedade. Qualquer membro que difundisse informação seria automaticamente
expulso e sorteariam um dos sócios para meter nele o “feite” no “escracho” (na gíria,

36
Idem, p. 10.
37
VILLAMAYOR, Luis C. “La Mafia Criolla”, Op. Cit., p. 32.
38
VILLAMAYOR, Luis C. “La Mafia Criolla II”, Op. Cit., p. 9.

255
fazer um corte com uma navalha no rosto).39 Se um sócio decidisse sair para
trabalhar por sua conta em atividades lícitas, simplesmente deveria deixar de
cumprimentar e simular desconhecer os membros em caso de encontrá-los em
qualquer situação. Todos os empregos estavam admitidos menos um: o sócio que
saía tinha proibido o ingresso na polícia ou, caso contrário, lhe “declaravam a
guerra”. No entanto, podiam se converter em empregados do serviço penitenciário,
sempre que com dissímulo se dedicassem a proteger os sócios que caíssem presos.40

Mais além do estatuto manuscrito, Villamayor tinha informantes na Delegacia


de Investigações, que levava adiante uma pesquisa sobre esta associação. Segundo
dados recolhidos pelos policiais, a três meses de sua constituição, a Maffia Criolla
contava com setecentos e cinquenta e cinco membros apenas em Buenos Aires. Em
outras cidades argentinas (La Plata, Rosário e Santa Fé) e em algumas capitais da
América do Sul, começaram a se formar “pequenas sucursais”, armadas por sócios
que buscavam novas oportunidades de roubo, que fugiam de Buenos Aires porque a
justiça os perseguia ou eram deportados pelas leis de expulsão de estrangeiros. Logo,
no marco dos preparativos para os festejos do primeiro Centenário da República
Argentina, a Polícia da Capital começou a utilizar suas “razzias” para pôr em prática
uma estratégia de detenções massivas e desarmar a sociedade.41

Presos os chefões, a Maffia Criolla começou a declinar até desaparecer por


completo. A segunda nota atribuía este final ao bom trabalho da Delegacia de
Investigações e os editores de Sherlock Holmes incluíram os retratos de dois
responsáveis da pesquisa. Porém, Villamayor sugeria outra explicação
complementar, que punha na voz de um informante com quem havia conversado em
Montevidéu: “Veja senhor: aqui nas repúblicas sul-americanas, nenhuma associação
desta índole pode prosperar, pois o elemento crioulo é inconstante, revoltoso, brigão
entre si e inimigo de se associar”.42

39
VILLAMAYOR, Luis C. El lenguaje el bajo fondo. Op. Cit., p. 69 y p. 80.
40
VILLAMAYOR, Luis C. “La Mafia Criolla II”, Op. Cit., p. 9.
41
Idem, p. 10.
42
Idem, p. 11.

256
É verdade que algumas formas arraigadas de roubar nos países sul-americanos
continuavam sendo – como também sucedia na Europa e América do Norte –
práticas delitivas solitárias e individualistas. Mas ao contrário da opinião do
informante uruguaio, a inícios do século XX era muito clara a tendência à
conformação de grupos e quadrilhas de ladrões. Este fenômeno tinha seu correlato
linguístico na aparição de noções como “máfia” e mais tarde “hampa”, que aludiam
às sociedades organizadas em torno de um código de honra, com regras explícitas de
conduta e o uso de um argot específico.43

Não se tratava simplesmente de reconhecer que alguns ladrões roubavam


acompanhados por auxiliares, como haviam mostrado na Argentina, a final do século
XIX, os cronistas do “mundo lunfardo” Benigno Lugones e Fray Mocho.44 O
fenômeno tampouco se limitava aos “ladrões de rua” e “gravateiros”, cujas façanhas
no Brasil narraram Vicente Reis e Mello Moraes Filho, nos primeiríssimos anos do
novecentos.45 Eram os primeiros passos do crime organizado, cujos traços elementais
já se adivinhavam na complexa trama transnacional das redes de falsificadores de
bilhetes, as associações dedicadas à diversos estelionatos e defraudações, as
quadrilhas de assaltantes de bancos e sequestradores.46

Uma das características mais sobressalentes destas organizações era seu caráter
internacional, seja porque seus membros eram de diversas nacionalidades ou porque

43
Um estudo clássico sobre o surgimento do crime organizado e o desenvolvimento do hampa urbana
no século XX, aborda estas características: MCINTOSH, Mary. La organización del crimen. México:
Siglo XXI, 1977, p. 24-32. Os usos da noção de “hampa” pode-se ver em: MEJÍAS, Laurentino.
“Coloquio hampesco”, Magazine Policial, Año 4, n. 43, Buenos Aires, Abril de 1926, p. 11-12.
BARRÉS, M. El hampa y sus secretos. Buenos Aires: Imprenta López, 1934.
44
LUGONES, Benigno B. “Los beduinos urbanos”. In: Crónicas, folletines y otros escritos (1879-
1984). Edición crítica y estudio preliminar de Diego Galeano. Buenos Aires: Biblioteca Nacional,
2012, p. 99-112. ALVAREZ, Jose S. (Fray Mocho). Memorias de un vigilante. Buenos Aires,
Vaccaro, 1920.
45
REIS, Vicente. Os ladrões no Rio. Op- Cit., p. 72-86. MELLO MORAIS FILHO, Alexandre J. de.
Factos e Memórias. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1904, p. 31-45.
46
Sobre as bandas de pistoleiros, assaltos a bancos e sequestros na Argentina durante os anos de 1920
e 1930, ver: CAIMARI, Lila. “Suceso de cinematográficos aspectos: secuestro y espectáculo en la
Buenos de los años treinta”. In: CAIMARI, Lila (comp.). La ley de los profanos. Delito, justicia y
cultura en Buenos Aires (1870-1940). Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2007, p. 209-250.
E também: CAIMARI, Lila. La ciudad y el crimen. Delito y vida cotidiana en Buenos Aires, 1880-
1940. Buenos Aires: Sudamericana, 2009, p. 145-188.

257
o território de ação delitiva envolvia vários países. No Rio de Janeiro e Buenos
Aires, haviam se internacionalizado até os grêmios de punguistas. Palavra que
segundo Elysio de Carvalho passou do lunfardo argentino à gíria dos ladrões
cariocas, nomeando aos especialistas no “furto de carteira de bolso, relógio de
algibeira, alfinete de gravata, etc., cometido nas ruas, nos lugares onde há muita
gente, nos bonds, com apropriada habilidade, sem que a vítima pressinta, valendo-se
da especial agilidade manual, especificada nos dedos polegar e indicador da mão
direita”.47

É verdade que a punga era, dentro da arte de roubar, uma especialidade que
requeria destrezas eminentemente manuais, e nesse sentido, segundo a teoria de
Carvalho, remetia à criminalidade muscular, rudimentar, primitiva. No entanto,
desde finais do século XIX, havia adquirido uma forma mais “moderna” e
“civilizada”: o pick-pocket profissional. Já o havia notado João Brasil Silvado
durante sua visita a Paris, em 1895: nas principais capitais europeias, os gatunos de
rua haviam se transformado em verdadeiros “ladrões internacionais, inteligentes,
muitas vezes instruídos, viajando muito, falando diversas línguas”.48

E uma nota da revista policial portenha, traduzida da Revue Belge de Police,


insistia nesta mesma ideia. Se a princípios do século XIX esses criminosos “eram uns
pobres ladrões que não sobressaíam no seu gênero, não inventavam nada, eram
pouco numerosos e se contentavam com um apoucado furto”, agora haviam se
convertido em uma rede coordenada e prolixa. Em uma tarde, os pick-pockets
passavam pelo centro das metrópoles europeias como nuvens de gafanhotos por um
campo semeado, arrasando tudo: bolsas, carteiras, porta-moedas, relógios, colares,
braceletes e anéis. Em Londres o “pickpocketismo” havia se convertido em “um
ofício como o de pedreiro ou serralheiro: existem professores que ensinam seus

47
CARVALHO, Elysio de. Gíria dos Gatunos Cariocas. Op. Cit., p. 38.
48
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres: relatório apresentado ao Ministro da
Justiça e Negócios Interiores, sendo ministro o ilustrado cidadão Dr. Gonçalves Ferreira. Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, 1895, p. 106.

258
discípulos ladrões a maneira de roubar, lições de educação e bom tom”. O pick-
pocket era visto, assim, como um punguista profissionalizado.49

Ao final da década de 1920, a Revista Criminal, empregando seus


estreitíssimos contatos com a polícia carioca, costumava publicar em cada número
quadros com retratos fotográficos de estrangeiros expulsos, sob os títulos “saneando
o país” e “expurgando a cidade”. Em um número de 1928 apareceu um quadro com
os rostos de oito punguistas: Francisco Martins Bermudes, Sebastião Gomes e Carlos
Pozo eram sinalados como chilenos e “criminosos internacionais”; José Vicenti
Orlandi ou Julio Soares e Henrique Martins eram argentinos, também ladrões
internacionais, “com detenções nos países da América e nos Estados” do Brasil;
nesse mesmo território operavam também Pedro Chiara, italiano, e Armando Dias,
português; e André Cundaré González, espanhol, tinha um prontuário com prisões na
Espanha, Portugal, Argentina, Chile e Uruguai.50

“Ladrões batedores de carteiras”


Fonte: Revista Criminal, ano II, n. 18, Rio de Janeiro, jul. 1928, p. 73.

49
“Los pickpockets y el pickpocketismo en Francia e Inglaterra”, Revista de Policía, Año V, n. 108,
Buenos Aires, 16 nov. 1901, p. 186. Ver também: “La policía detuvo a una banda de ladrones que
operaba en el subterráneo”, Gaceta Policial, Año 3, n. 42, Buenos Aires, 30 jun. 1928, p. 17-18.
50
“Ladrões batedores de carteiras”, Revista Criminal, ano II, n. 18, Julho 1928, p. 73.

259
Este quadro representava bastante bem o universo dos punguistas expulsos do
Rio de Janeiro durante as três primeiras décadas do século XX. Para começar, a
elegância na vestimenta estava longe dos andrajosos “ladrões de galinhas” e perto
dos “batedores de carteiras” que descrevia Vicente Reis em 1903.51 O mesmo se
adverte nos retratos fotográficos de punguistas nos processos de expulsão de
estrangeiros. Dos sessenta casos de ladrões selecionados no arquivo, mais da metade
eram marcados como punguistas integrantes de uma “quadrilha internacional”. Tanto
os países de origem como o território de ação desses casos coincidiam bastante com
o quadro da Revista Criminal. Excetuando aos europeus que ficaram fora da mostra
(em sua grande maioria portugueses e espanhóis, embora também houvesse alguns
italianos), dos trinta e dois punguistas sul-americanos, vinte e dois provinham da
Argentina, cinco do Uruguai, quatro do Chile e apenas um do Peru. É hora de ver
alguns destes casos com detalhes.

Histórias de punguistas viajantes

A figura do punguista profissional era uma das mais antigas entre os ladrões
internacionais. Embora a viagem não era parte do modus operandi, se convertia com
frequência em uma sequela inevitável de suas ações. O segredo da punga era passar
despercebido, atuar sigilosamente, mimetizar-se com a paisagem urbana. Mas como
o punguista trabalha na rua, nos trens, nos bancos, seu rosto estava exposto
constantemente ao olhar alheio. Qualquer descuido resultava fatal. A primeira
detenção policial prognosticava futuras perseguições, muitas prisões arbitrárias por
estar em companhia de delinquentes, e novos períodos “em cana” que não faziam
mais que acrescentar sua fama de ladrão. A necessidade de fugir e levar o ofício à

51
REIS, Vicente. Os ladrões no Rio, 1898-1903. Op. Cit., p. 69-89.

260
outra cidade era uma solução repetida em cada prontuário criminal, nas galerias
fotográficas de ladrões conhecidos e nos processos de expulsão de estrangeiros.

Manuel Rossi, por exemplo, havia sido detido por roubo em 11 de maio de
1873. Tinha vinte e um anos e era sua primeira prisão. Catorze anos mais tarde,
acumulava cento e quarenta e oito entradas na polícia. O chamavam “el Ruso”,
embora fosse italiano e falasse espanhol com grande facilidade. Em 1887 já era um
dos delinquentes mais conhecidos de Buenos Aires e seu retrato ocupava um lugar na
Galeria de Ladrões da Capital, editada pelo escritor José S. Álvarez (Fray Mocho).
Essa fama o obrigou migrar ao Brasil e ao Uruguai.52 O mesmo caminho haviam
seguido Carmelo Laguna, vulgo Linterna, e Adolfo Lucas Antinori, vulgo Mosquito,
dois ladrões argentinos que empreenderam juntos viagens pelo Brasil. A descrição
que Fray Mocho fazia de Antinori dava conta destes caminhos:

É ladrão desde jovem e indivíduo que com uma grande dose de


audácia uniu outra igual de habilidade. Comete roubos e
estelionatos por meios que as circunstâncias requerem. Forma
quadrilhas de não mais de três indivíduos, e não se arrisca em
grandes empresas. Rouba nos hotéis onde se aloja e aos
passageiros dos trens a vapores em que viaja, e na camuflagem é
notável. Com frequência visita o Brasil acompanhado de Linterna
(Número 98). Leva a vida ordenada, mas é um grande bebedor e
jogador. Veste-se com certa elegância e afeta maneiras um tanto
cultas. Conhece todas as repúblicas, do Brasil e do Estado
Oriental.53

Por este fluido movimento de ladrões entre o Rio da Prata e Brasil, e pelo
aumento dos intercâmbios entre as polícias, não chama atenção encontrar os mesmos
nomes e as mesmas caras em publicações policiais dos diversos países. Esse era o
caso de Agustín Almada ou Melgarejo ou Ciciaco ou Tocas, segundo o Magazine
Policial de Buenos Aires; Alberto Mujica ou André Melgarejo ou Agostinho

52
REPÚBLICA ARGENTINA. Galería de Ladrones de la Capital, 1880 a 1887, Tomo 1. Buenos
Aires: Imprenta del Departamento de Policía, 1887, p. 31-33.
53
REPÚBLICA ARGENTINA. Galería de Ladrones de la Capital, 1880 a 1887, Tomo 2. Buenos
Aires: Imprenta del Departamento de Policía, 1887, p. 174.

261
Melgarejo ou Cyriaco Souza ou Pedro Zomoza ou Bautista Troncoso, segundo a
Revista Policial do Rio de Janeiro, que o definia como “um ladrão conhecido,
escorraçado das Repúblicas do Prata e de diversos Estados do Brasil”.54 Muitos
nomes, duas revistas separadas por sete anos, mas um mesmo retrato fotográfico:

Retrato fotográfico de Almada ou Melgarejo ou Mujica


Fonte: Magazine Policial, año IV, n. 45, Buenos Aires, jun. 1926, p. 10. (à esquerda)
Fonte: Revista Policial, ano I, n. 1, Rio de Janeiro, 15 out. 1919, p. 11. (à direita)

Mudar de nome e de cidade, às vezes de país, era uma estratégia muito


frequente entre os ladrões sul-americanos, ao menos desde a segunda metade do
século XIX. No entanto, nas primeiras décadas do século XX estas práticas não
pareciam ter a mesma eficácia. As inovações no campo da identificação de pessoas e
as lembranças policiais que, a partir de 1905, facilitaram o terreno para o intercambio
de fichas datiloscópicas, conseguiram reduzir muito as distâncias. Os processos de
expulsão aplicados no Brasil ao combate dos “gatunos internacionais” mostravam
claramente que os longos trajetos percorridos por trem e em navios de alto-mar já
não garantiam por si só a chance de iniciar uma nova vida criminal, deixando a folha
de antecedentes penais em branco.

54
“Ladrões conhecidos”, Revista Policial, ano I, n. 1, Rio de Janeiro, 15 out. 1919, p. 11.

262
O caso de Zapaterito mostra claramente esta novidade. Na capa do processo se
lê: “Expulsão do estrangeiro Agustín Ferreira Baudraco. Gatuno conhecido”.55 A
polícia do Rio de Janeiro iniciava este pedido de expulsão em agosto de 1911, logo
após submetê-lo a um interrogatório na Sala de Audiências da Segunda Delegacia
Auxiliar. O Auto de Qualificação dizia o seguinte:

Qual é seu nome?


Agustín Ferreyra Baudracco.
De quem é filho?
De Flavio Baudracco e de Isabel Ferreyra.
De onde é natural?
De Buenos Aires, República Argentina.
Sua idade?
Trinta e dois anos.
Seu estado?
Solteiro.
Sua profissão?
Mecânico.
Sabe ler e escrever?
Sabe.
Onde reside ou mora?
Rua do Riachuelo, duzentos e trinta e seis.
Há quanto tempo reside no Brasil?
Desde o dia dois de janeiro do corrente ano, tendo desembarcado
em Santos, Estado de São Paulo. E nada mais disse.56

55
AN, IJJ7 129. Secretaria de Estado da Justiça e Negócios Interiores. Expulsão de Agustín Ferreira
Baudraco (1911).
56
AN, IJJ7 129. Expulsão de Agustín Ferreira Baudraco (1911). Segunda Delegacia Auxiliar. Auto de
Qualificação. Rio de Janeiro, 16 ago. 1911.

263
A atuação continuava com as declarações das “testemunhas” que, tal como
ditava o ritual burocrático das expulsões, eram extraídas da própria instituição
policial e se limitavam a confirmar os dados incriminatórios.57 A primeira das
testemunhas era o Agente de Segurança Pública Olympio José dos Santos, que
contava como havia conhecido a Zapaterito. Durante os festejos de Carnaval desse
ano, o havia descoberto em flagrante delito quando acabava de furtar a carteira de um
cavalheiro com “um conto e cento e vinte mil réis”. Por esse feito foi preso e
absolvido, mas – agregava a testemunha – “continuou a sua vida de gatunice”.58 A
segunda testemunha confirmava estes dados e acrescentava que Zapaterito integrava
um grupo de punguistas, “indivíduos de má nota, com os quais convive, vivendo do
produto de pequenos furtos”.59 A terceira testemunha repetia o mesmo e não somava
nada.

O Gabinete de Identificação, através de seu diretor Elysio de Carvalho, provia


o prontuário e a ficha “individual datiloscópica”, assinada pelo acusado, com uma
caligrafia prolixa que confirmava sua alfabetização. A folha de antecedentes tinha
apenas uma entrada completa: o sucesso do Carnaval, datado em 2 de março de
1911. Aí se especificava que havia sido absolvido pelo Juiz da Quarta Vara Criminal
e que saiu da Casa de Detenção em 31 de maio do mesmo ano.60 Evidentemente, este
único delito era insuficiente para acusar a Zapaterito de “elemento pernicioso à

57
O caráter inventado das declarações testemunhais foi questionado pelos juristas contemporâneos
que consideravam as expulsões como processos “inquisitoriais” ou “simulacros” de justiça. Ver:
MENEZES, Lená Medeiros de. Os indesejáveis: desclassificados da modernidade. Protesto, crime e
expulsão na Capital Federal (1890-1930). Rio de Janeiro: Eduerj, 1996, p. 221-236. SCHETTINI,
Cristiana. “Los elementos inadaptados: ley e identidades en las expulsiones de extranjeros en
Argentina y en Brasil, a comienzos del siglo XX”, Fuera de la ley. Jornadas de discusión sobre delito,
policía y justicia en perspectiva histórica (siglos XIX y XX), Universidad de San Andrés, Buenos
Aires, 17-19 jun. 2010. Sobre as discussões jurídicas dos processos de expulsão, ver: BONFÁ,
Rogério Luis G. “Com lei ou sem lei”. As expulsões de estrangeiros e o conflito entre o Executivo e o
Judiciário na Primeira República. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual de Campinas,
2008.
58
AN, IJJ7 129. Expulsão de Agustín Ferreira Baudraco (1911). Segunda Delegacia Auxiliar. Auto de
Declarações que faz Olympio José dos Santos. Rio de Janeiro, 16 ago. 1911.
59
Idem. Auto de Declarações que faz Antonio Marinho de Aguiar. Rio de Janeiro, 16 ago. 1911.
60
Idem. Gabinete de Identificação e Estatística, Rio de Janeiro, 19 ago. 1911.

264
sociedade e comprometedor da tranquilidade pública”, segundo a fórmula empregada
nos decretos de expulsão firmados pelo Ministro de Justiça.61

Não era então aquela detenção durante o Carnaval, mas as informações


enviadas desde Argentina, o que justificava o processo contra esse punguista. A
poucos dias da primeira apreensão, o diretor do Gabinete de Identificação recebia
uma carta da Divisão de Investigações da polícia portenha. O texto explicava que
tratava-se da resposta a uma comunicação prévia, na que o Gabinete do Rio de
Janeiro havia anexado uma cópia da ficha datiloscópica. Zapaterito figurava “no
prontuário numero 96 da Seção R. y H [Robos y Hurtos]” e usava também os nomes
de Delmiro Arena ou Delmiro Creusa.62

Nos arquivos de Buenos Aires seus antecedentes eram muito mais extensos. O
primeiro roubo estava datado em agosto de 1897 e o valeu três meses de prisão.
Possuía várias detenções por furto até que em 1905 o Juiz Madero o condenou a três
anos de prisão. Pouco depois de cumprir a pena, em 1908, já aparecia outra detenção,
novamente por furto. Ao ano seguinte, outra pelo mesmo motivo, mas no Uruguai.
Em 1910 voltam a aparecer detenções em Buenos Aires e o Juiz Argerich o condena
a outros dez meses de encarceramento.63 Tudo indica que Zapaterito decidiu
abandonar o Rio da Prata, sem saber que pelo mesmo meio de transporte que o levou
ao porto de Santos viajaria tempos depois seu próprio prontuário.

O intercambio de dados entre os policiais argentinos e brasileiros foi decisivo


em numerosas expulsões de ladrões viajantes, durante as décadas de 1910 e 1920. O
prontuário de Angelo Funes permite traçar um mapa de suas migrações delitivas
desde 1907 até 1929. Neste período obteve mais de vinte detenções, registradas na
Folha de Antecedentes elaborada pelo Gabinete de Investigações da Polícia de São

61
AN, IJJ7 129. Expulsão de Agustín Ferreira Baudraco (1911). Decreto de Expulsão, Rio de Janeiro,
30 ago. 1911.
62
AN, IJJ7 129. Expulsão de Agustín Ferreira Baudraco (1911). República Argentina, Policía de la
Capital Federal, División de Investigaciones, Buenos Aires, 14 mar. 1911.
63
Idem.

265
Paulo, a que elevou seu pedido de expulsão.64 As primeiras eram resultado de dados
enviados pela polícia da cidade de Buenos Aires, onde havia sido aprisionado por
furtos e fraude entre 1907 e 1909. No entanto, neste caso a polícia portenha não era a
única que aportou informações.

A troca de fichas de identificação com a Espanha agregava outro ponto ao


mapa: de acordo com os dados da polícia de Madrid, em 1912 esteve preso nessa
cidade com o nome de Francisco Lago Marsi. A seguinte notícia mostrava que havia
regressado à Argentina, mas desta vez à cidade de Rosário, onde a polícia o incluiu
em seus arquivos com duas detenções por roubo em 1915. Nesse mesmo ano havia
sido aprisionado em outras duas ocasiões no Rio de Janeiro e, se prestar atenção aos
meses anotados na planilha, fica claro que chegava a passar as fronteiras de
Argentina e Brasil várias vezes ao ano.65 A partir de 1915, a Folha de Antecedentes
não oferece novas informações sobre sua passagem pela Argentina. Mas entre 1919 e
1929 as entradas às prisões policiais continuavam sendo frequentes, a maior parte em
distintas cidades do Estado de São Paulo, outras em Curitiba e em Belo Horizonte,
em todos os casos como “batedor de carteiras”.

64
AN, IJJ7 135. Expulsão de Angelo Funes (1929). Polícia do Estado de São Paulo, Gabinete de
Investigações, Serviço de Identificação, Boletim Positivo n. 39.609, 19 jun. 1929.
65
Idem. Dos quatro feitos registrados em 1915, o primeiro foi uma detenção em Rosário no mês de
março como “Angel Funez”, o segundo foi em junho e no Rio de Janeiro, sob o nome de “Frederico
Amaro”, o terceiro foi em novembro, novamente no Rio de Janeiro, mas anotado como “Angelo
Funes”, enquanto que poucos dias depois, em 4 de dezembro, volta a ser preso em Rosário.

266
Ficha de identificação de Angelo Funes
Fonte: AN, Fundo IJJ7 139 (1922)

Em 1922 foi submetido pela primeira vez a um processo de expulsão. Nesse


momento dizia ter residência fixa na cidade de Ribeirão Preto e assegurava trabalhar
ali como chauffeur, apesar de na ficha de identificação estar anotado como
“negociante ambulante”.66 Declarou ainda ser argentino, nascido em Buenos Aires, e
embora sua expulsão fora firmada pelo Ministério de Justiça, não é aclarado se nesse
momento embarcou até o Rio da Prata.67 No expediente tampouco aparece algum
recursos de habeas corpus, que eventualmente pudesse haver impedido a expulsão. O
certo é que tudo parece indicar que não regressou à Argentina, já que em apenas seis
dias depois de ser formalmente expulso, era preso pela polícia de Belo Horizonte.68

66
AN, IJJ7 139. Expulsão de Angelo Funes (1922). Secretaria da Justiça e da Segurança Pública,
Gabinete de Investigações e Capturas, Seção de Identificação, São Paulo, 12 abr.1922.
67
Idem. Decreto de Expulsão, República dos Estados Unidos no Brasil, Secretaria de Estado da
Justiça e Negócios Interiores, Rio de Janeiro, 20 jul. 1922.
68
O decreto de expulsão levava a data de 20 de julho de 1922 e a detenção em Belo Horizonte foi em
26 de julho do mesmo mês. AN, IJJ7 135. Expulsão de Angelo Funes (1929). Polícia do Estado de
São Paulo, Gabinete de Investigações, Serviço de Identificação, Boletim Positivo n. 39.609, 19
jun.1929.

267
Curiosamente, nem essa nem as quatro detenções seguintes em São Paulo reativaram
o processo de expulsão, trazido à tona recentemente em 1929.

Em nenhuma parte do novo processo mencionava a expulsão anterior. A capa


da folha levava o mesmo nome que a primeira, Angelo Funes, mas aqui aparecia
como uruguaio e o expediente não contém a ficha de identificação com seu retrato
fotográfico. O que faz presumir então que se trata da mesma pessoa? A Folha de
Antecedentes arquivada pelo Gabinete de Investigações da Polícia de São Paulo era
exatamente a mesma: os mesmos antecedentes policiais; o mesmo pseudônimo
(Choricero para os argentinos, Choriceiro segundo os brasileiros); os mesmos nomes
de antes (Ángel Funes ou Funez, Frederico Amaro, Francisco Lago Marsi) e outros
que se agregavam pelas detenções posteriores a 1922 (Amada ou Amato ou Spinetto,
Ángel ou Angelo Maya, José Artezze, João Funes).

Através destes nomes, sobrenomes e combinações possíveis entre ambos, cada


vez declarava se chamar de uma maneira diferente para não ser reconhecido, como
ressaltava a definição do Inquérito Policial de 1929: “incorrigível gatuno
internacional com várias entradas na polícia de São Paulo, e duas em Curitiba e Belo
Horizonte, o qual tem usado, para ludibriar a ação das autoridades, diversos
nomes”.69 No interrogatório, o fizeram declarar que havia sido detido numerosas
vezes em São Paulo, Rio de janeiro, Paraná, Rosário e Montevidéu, o que indicava
que nesta ocasião o deixaram ainda menos margem para se defender.70 Embora os
policiais-testemunhas e demais atores que interviram no processo se limitavam a
repetir os dados do prontuário, o chefe do Gabinete de Investigações não teve
vergonha de escrever que ficava tudo demonstrado “com luxo de provas”.71 Assim,
em 3 de julho de 1929 se decretou novamente sua expulsão.72

69
AN, IJJ7 135. Expulsão de Angelo Funes (1929). Polícia do Estado de São Paulo, Gabinete de
Investigações, Inquérito Policial, São Paulo, 25 jun. 1929.
70
Idem. Termo de declarações, São Paulo, 25 jun. 1929.
71
Idem. Relatório do Chefe do Gabinete de Investigações , São Paulo, 19 jun. 1929.
72
AN, IJJ7 135. Expulsão de Angelo Funes (1929). República dos Estados Unidos no Brasil,
Secretaria de Estado da Justiça e Negócios Interiores, Rio de Janeiro, 3 jun. 1929.

268
Nada permite afirmar, com alguma certeza, se Choricero nasceu na Argentina
ou no Uruguai, como tampouco podia ser comprovada a procedência de Arthur
Narbona, cuja história, no entanto, merece também ser narrada. Sua trajetória de
punguista viajante se replica – cidade mais, cidade menos – em muitos outros casos
de ladrões expulsos pelas autoridades brasileiras. Em 1926 um agente policial do Rio
de Janeiro o caçou infraganti. Terminou preso na Casa de Detenção, embora a
condenação tenha ficado em suspenso e ao ano seguinte voltou a ser preso,
desencadeando o processo de expulsão. Tinha então trinta e cinco anos e uma
carreira de punguista de aproximadamente duas décadas.

Retrato de Arthur Narbona


Fonte: AN, Fundo IJJ7 142 (1927)

A cópia do prontuário afirmava que em sua terra natal, Montevidéu, começou a


ser vigiado pela polícia aos treze anos de idade. Segundo este informe, nesse
momento, já o viam em “companhia de ladrões profissionais”. Pelas perseguições da
polícia uruguaia, decidiu cruzar o Rio da Prata e se estabelecer em Buenos Aires,
“onde travou relações com o punguista Pedro Victor, iniciando então a sua vida de
punguista”. Para evitar suspeitas policiais em sua nova cidade, buscou um emprego

269
nos comércios e conseguiu trabalhar na Casa Rossi. Igualmente foi preso três vezes e
resolveu de novo buscar outro destino. Foi assim que terminou no Brasil, onde
deambulou com suas pungas por vários estados: primeiro no Rio Grande do Sul,
depois em São Paulo e finalmente no Rio de Janeiro. À capital chegou em torno de
1920 e em seguida entrou em contato com o submundo delitivo. Começou a visitar
com assiduidade “a casa da meretriz Annita, que era nesse tempo frequentada por
toda espécie de ladrões” e a polícia carioca o deteve por punguista várias vezes.73

O processo de expulsão foi, como na maior parte dos casos, sucinto, embora
algo demorado porque o Consulado da República do Uruguai recusou o pedido do
passaporte necessário para sua viagem, porque argumentava que Narbona mentia em
sua declaração de nacionalidade.74 Apesar de tudo, um ofício reservado do chefe de
polícia comunicava que em 23 de outubro de 1927 Arthur Narbona embarcou a
bordo do vapor Commandante Capella com destino a Porto Alegre, sem especificar
até onde iria desde essa cidade.75 É possível que ante as reclamações das autoridades
diplomáticas uruguaias, a polícia carioca tenha determinado – em segredo – enviá-lo
para Argentina. Conjectura difícil de corroborar, mas alimentada por um desses
quadros de indesejáveis que publicava a Revista Criminal, no que se festejava a
expulsão de Narbona, sinalando-o como batedor de carteiras argentino.

73
AN, IJJ7 142. Processo de Expulsão dos indivíduos Víctor Reys, Alfredo Giménez e Arthur
Narbona (1927). Quarta Delegacia Auxiliar, Seção de Arquivo e Informações, Cópia do Prontuário de
Arthur Narbona, Rio de Janeiro, 12 set. 1927.
74
Ver a cópia da resposta do Consulado em: Arquivo Histórico do Itamaraty, Lata 54, Maço
425.Legación de la República del Uruguay, Oficio n. 380/927, Rio de janeiro, 18 oct. 1927.
75
Idem, Secretaria da Polícia do Distrito Federal, Oficio Reservado, Rio de Janeiro, 28 out. 1927. O
mesmo sucedeu com outros dois ladrões que haviam declarado ser uruguaios, mas o Consulado
recusou a emissão do passaporte: Víctor Reys y Alfredo Giménez. Os processos de ambos se
encontram no Arquivo Nacional, agrupados junto com o de Narbona. Reys foi expulso com destino a
Lisboa e Alfredo Gimenez com destino a Porto Alegre, em 26 de julho e em 30 de agosto de 1927,
segundo consta nas listas de expulsos do Arquivo Histórico do Itamaraty, Lata 54, Maço 425, Relação
dos indivíduos expulsos do território nacional (1927).

270
Retrato de Arthur Narbona (acima)
Fonte: Revista Criminal, Ano I, n. 8, Rio de Janeiro nov. 1927, p. 33.

Conjectura alimentada, ainda mais, por uma infinidade de indícios documentais


que sugerem que os acordos de cooperação entre as polícias da Argentina e Brasil
eram tão reais como as desconfianças recíprocas, embora estas últimas não tenham sido
reveladas tão abertamente. Muitas vezes – como vimos – os chefes de polícia
mostravam preocupação ante as ondas de expulsões no país vizinho e pediam para
ajustar os controles nos portos para evitar desembarques clandestinos. Em casos de
controversas de nacionalidade também existiam tensões entre os países. Quando se
generalizou o uso da ficha datiloscópica nas polícias da América do Sul, começou a
se resolver o problema da simulação de nomes, inclusive à escala transnacional. Mas
nesta época não existia um Registro Civil unificado, sustentado por tecnologias de
identificação, capazes de adicionar à comprovação de identidade o lugar de
nascimento da pessoa.

Deste modo, a incerteza da nacionalidade fazia possível imputações de origem


estrangeira às pessoas nascidas no país, a fim de aplicá-los a lei de expulsão.
Também se concluíam os processos negociando com o acusado um destino, sob a
ameaça de uma pena maior. Mas isso podia provocar o desagrado dos policiais do
país ao que o enviavam. Inclusive antes das leis de expulsões, em 1899, Alberto
Artiag foi embarcado “voluntariamente” para Buenos Aires como alternativa para

271
continuar no cárcere onde se encontrava acusados de roubo.76 Frente a um caso
similar, em 1907, o chefe da polícia portenha (Ramón Falcón) escreveu uma carta ao
seu par do Rio de Janeiro, advertindo-o que a polícia carioca havia expulso para
Buenos Aires um sujeito de suposta nacionalidade espanhola. O mais chamativo
desta carta era que Falcón não exigia a seus colegas brasileiros que se informassem
melhor sobre o lugar de nascimento dos acusados antes de expulsá-los. Na realidade,
pedia que se cumprisse um acordo informal entre as polícias sul-americanas: em
casos de controversa de nacionalidade, o combinado era mandá-los a Europa.77

Por sua parte, o processo de Alberto Graffiña reunia todas as dificuldades


possíveis, incertezas sobre a nacionalidade, multiplicidade de nomes (José Alegre,
José Ponce de León, José Vaker, Joe Vázquez) e de apelidos (Rosarino, Chingolo). O
informe do Serviço de Identificação da polícia paulista resumia sua biografia em
poucas palavras: “filho de Francisco Graffinha e Thereza Nicacia, solteiro, padeiro,
nascido em Paysandú (Uruguay), a 6 de janeiro de 1900, cútis branca, cabelos
castanhos, barba feita, bigodes rascados, sobrancelhas e olhos castanhos”.78 Mas
quando interrogado na Delegacia de Investigações sobre Roubos afirmou ser
argentino, natural de Buenos Aires. O resto do testemunho era um tipo prolixo de
autoincriminação, muito detalhado e transcrito pelo escrevente em terceira pessoa.
Graffiña declarou:

(...) que desde a idade de sete anos, em Buenos Aires, sua terra
natal, iniciou-se na prática de furtos de carteiras, acompanhando
ladrões dessa especialidade; que uns anos depois, já com oito anos
de idade furtou a carteira da esposa do falecido coronel argentino
Ataliba Roque, quando essa senhora viajava em um bonde; que
preso em flagrante na prática desse furto, foi internado no Cárcere
de Menores “Marcos Paz”, (...) quatro anos, e dele saindo
continuou sua vida de furtos de carteiras; que só no Depósito de
Contraventores de Buenos Aires foi várias vezes processado, sendo
que no ano de 1914 foi processado com o nome de José Ponce de

76
AN, GIFI 6C 27 (1899).
77
AN, GIFI 6C 252 (1907). Ofício do Chefe da Polícia de Buenos Aires, 24 mar. 1907.
78
AN, IJJ7 126. Expulsão de Alberto Graffiña (1927). Polícia do Estado de São Paulo, Delegacia de
Técnica Policial, Serviço de Identificação, São Paulo, 29 nov. 1927.

272
León por ter assaltado uma senhora na via pública, Avenida de
Mayo, das mãos de quem arrebatou a carteira (...); que vindo para o
Brasil há sete anos continuou nesta Capital [São Paulo] e no Rio de
Janeiro sua vida de gatuno, tendo cometido uma infinidade de
furtos e roubos; cometeu ainda vários roubos em casas comerciais,
à noite, e muitos outros furtos de carteiras de cujo produto tem
vivido sempre; que na cidade do Rio Grande do Sul, no ano de
1915 ou 1916, assaltou à noite uma casa comercial sita à rua
Quinze de Novembro, daí subtraindo a importância de 38 contos de
réis em dinheiro que se achavam em um cofre, sendo que este
estava aberto; que com esse dinheiro embarcou para Europa onde
permaneceu três messes, percorrendo a Espanha, Portugal e
França; que nas capitais desses países se associou a ladrões que
eventualmente conhecia e praticou somente furtos de carteiras; que
perseguido em Paris por um furto que cometeu, fugiu, embarcando
para sua terra natal; que depois de estar no Brasil, tem
constantemente viajado para Buenos Aires e Montevidéu,
demorando-se as vezes mais de seis meses; (...) que já conta entre
processos, suspeita e vadiagem mais de cento e vinte passagens
pelas polícias dos lugares onde tem residido ou passado.79

A polícia portenha enviou um prontuário, acompanhado pela ficha


datiloscópica, confirmando inumeráveis detenções e à polícia de Porto Alegre um
telegrama em que figuravam os roubos no Rio Grande do Sul. A circulação de
informações entre as polícias mostrava que a confusão sobre sua nacionalidade era
cultivada por ele mesmo: em Buenos Aires se dizia italiano, em São Paulo afirmava
ser uruguaio e neste processo de expulsão no Brasil se declarava argentino. Em seu
Relatório, o Delegado de Investigações sobre Roubos escrevia que não restavam
dúvidas sobre sua “verdadeira origem”, posto que todas as testemunhas afirmavam
que ele era argentino.80 Esta afirmação dizia mais sobre as intenções de expulsá-lo a
algum lugar que sobre a verdade do próprio processo. De fato, uma das testemunhas
não declarava nada sobre sua nacionalidade e outro duvidava: “parecendo-lhe ser ele
espanhol ou de nação onde se fale esse idioma, visto como ele fala mal o português,
no qual intercala muitas palavras espanholas”.81 Mas nem sequer a verdade das

79
Idem, Polícia do Estado de São Paulo, Delegacia de Investigações sobre Roubos, Auto de
Qualificação, São Paulo, 1 dez. 1927.
80
Idem, Relatório do Delegado de Investigações sobre Roubos, São Paulo, 11 jan. 1928.
81
Idem, Declaração da 2ª. Testemunha, São Paulo, 1 dez. 1927.

273
testemunhas parecia importar muito. Em 28 de janeiro de 1928 decretou-se sua
expulsão.

Os casos de Agustín Ferreira Baudraco, Angelo Funes, Arthur Narbona e


Alberto Graffiña representavam um universo mais amplo, uma região particular dos
ladrões urbanos. Sem ser aristocratas da delinquência como o “Conde Terol de
Palma”, os rats d’hôtel e alguns estelionatários do 1900, igualmente estavam um
degrau acima dos gatunos dos bajos fondos. Os casos poderiam se multiplicar apenas
com os processos de expulsão de argentinos. Héctor Eulogio Morales foi embarcado
em 1927 com destino a Buenos Aires, por formar parte de uma “quadrilha de ladrões
internacionais” que operava no Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba.82 A mesma
acusação recebeu Alfredo Sinquetti, quem, igual a Artur Narbona, luzia no retrato de
identificação um elegantíssimo terno, camisa e gravata.83

Retrato de Alfredo Sinquetti


Fonte: AN, Fundo IJJ7 126 (1927)

82
AN, IJJ7 135. Expulsão de Héctor Eulogio Morales (1927).
83
AN, IJJ7 126. Expulsão de Alfredo Sinquetti (1927). A fotografia foi reproduzida entre os quadros
de expulsos da Revista Criminal, ver: “Outros mais que se vão. A polícia continua deportando
indesejáveis”, Revista Criminal, Ano I, n. 4, Rio de Janeiro, set. 1927, p. 35.

274
Também Leónidas Arena, ladrão argentino com uma década de carreira
criminal; Luis Mariani, vulgo Jeilefe, punguista com ramificações em Buenos Aires,
Santiago del Estero, Montevidéu e São Paulo; Julio Dantas, batedor de carteiras na
Argentina, Uruguai, Brasil e Paraguai; José Castillo; Pedro Enrid e outros: todos
punguistas com vasto território de ação, enviados à Buenos Aires durante a década
de 1920.84 Estes “gatunos internacionais” viajavam, tinham contatos com ladrões de
distintos países e manejavam vários idiomas. Falavam, ainda, uma linguagem
transnacional que haviam filtrado nas babélicas conversações no Rio de Janeiro e
Buenos Aires, entrelaçando-se com o português e o espanhol, incorporando palavras
do italiano e do francês, enlouquecendo aos acadêmicos e puristas da língua. Eram a
gíria e o lunfardo. Era o argot dos ladrões viajantes.

O calão dos delinquentes

Em 1878, vários anos antes destas expulsões de punguistas e da organização da


Maffia Criolla, um anônimo cronista da imprensa portenha afirmava que os ladrões
de Buenos Aires constituíam “uma confraria, a mais invejável e eficaz sociedade de
socorros mútuos, contra as intenções da Polícia”. Esta comunidade dos submundos
criminais tinha “seus sinais e sua língua própria”, um extenso vocabulário que
permitia aos sócios “armar seus planos em público sem serem entendidos”.85 O autor
da nota explicitava sua fonte de informação: um delegado que se ocupava de “fazer a
guerra aos ladrões” havia elaborado uma espécie de dicionário para usos policiais.
Desse escrito o jornalista extraiu algumas vozes e expressões, cujo significado

84
AN, IJJ7 177. Expulsão de Leónidas Arena (1928). AN, IJJ7 177. Expulsão de Luis Mariani (1928).
AN, IJJ7 175. Expulsão de Julio Dantas (1930). AN, IJJ7 167. Expulsão de José Castillo (1928). AN,
IJJ7 149. Expulsão de Pedro Enrid (1927).
85
“El dialecto de los ladrones”, La Prensa (Sección “Boletín del día”), 6 jul. 1878.

275
traduzia a seus leitores para socorrê-los na tarefa cotidiana de se cuidarem dos
roubos.

Três décadas mais tarde, no Boletim Policial carioca, aparecia um artigo


titulado “o calão dos delinquentes”, apresentado como um breve vocabulário da gíria
“usada pelos ladrões e gatunos”.86 Desta vez, a fonte era o livro Através do Cárcere
do repórter Ernesto Senna, quem havia recolhido as palavras em uma série de visitas
à Casa de Detenção do Rio de Janeiro.87 A aposta à utilidade de decifrar essa
aparente linguagem secreta marcava uma coincidência com a nota de Buenos Aires:

Além da curiosidade que apresenta, o conhecimento pode ser útil


ao policial em ocasião oportuna, porque organizado esse
vocabulário para que se possam entender reciprocamente sem que
outros o compreendam, quem sabe se alguma vez não será possível
descobrir algum fato delituoso pela conversa ouvida ou pelo escrito
encontrado? 88

Embora não se aclarava o nome do autor desta resenha sobre o livro de Senna,
é provável que fosse o então subdiretor do Gabinete de Identificação, Elysio de
Carvalho, já que quatro anos depois cumpriu com a tarefa. Em 1912 publicou o
folheto Gíria dos Gatunos Cariocas, um dicionário composto por mais de quinhentas
vozes e orientado à leitura dos alunos da Escola de Polícia.89 Em um conjunto de
vinte palavras extraídas da etnografia carcerária de Senna, chama atenção que oito
estavam presentes no texto de 1878 sobre o argot dos ladrões portenhos.

86
“O calão dos delinqüentes”, Boletim Policial, Ano I, n. 12, Rio de Janeiro, abr. 1908, p. 7-8.
87
SENNA, Ernesto. Através do Cárcere (Casa de Detenção). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional,
1907. Sobre esta e outras crônicas jornalísticas da prisão carioca no começo do século XX, ver:
ANTUNES, Marilene Sant´Anna. “Histórias do confinamento nas crônicas cariocas”, Anais do XXVI
Simpósio Nacional de História – ANPUH, São Paulo, jul. 2011.
88
“O calão dos delinqüentes”, Op. Cit., p. 7.
89
O próprio folheto especificava que era um “vocabulário organizado para os alunos da Escola de
Polícia”: CARVALHO, Elysio de. Gíria dos Gatunos Cariocas. Op. Cit., p. 3. O programa da
disciplina “polícia científica” que ditava Carvalho na Escola incluía o ensino do argot, ver:
CARVALHO, Elysio. A polícia carioca. A criminalidade contemporânea. Op. Cit., p. 132.

276
Em ambas as listas, bobo aparecia como o termo que usavam os punguistas
para se referirem aos relógios que roubavam; enquanto que bacán e bacano,
respectivamente em Buenos Aires e no Rio de Janeiro, faziam referência à “pessoa
rica que esta em condições de ser roubada”, e se era pobre o chamavam de misho ou
micho.90 Campana era o que vigiava para que não chegasse a polícia enquanto seus
companheiros roubavam. A mulher do delinquente era conhecida como mina; o
oficial ou delegado de polícia, mayorengo ou majorengo; a vítima ingênua era o
otário. Finalmente, ao ladrão ou gatuno também se dizia lunfardo, palavra que na
argentina designava tanto ao delinquente como ao seu argot particular.91

Além destas oito coincidências, os ladrões cariocas chamavam de ventanas às


janelas, peça léxica castelhana utilizada para designar este objeto. E embora as doze
palavras restantes mencionadas no livro de Senna não figurassem na nota portenha
de 1878, todas elas (afanar, cana, escrucho, guita, punga, etc.) haviam sido
incorporadas em diversos dicionários de lunfardo publicados em Buenos Aires até
finais do século XIX.

Esta prática de recompilar vozes do calão dos ladrões não era uma
exclusividade sul-americana. Desde a publicação do livro de Vidocq Les voleurs,
pshysiologie de leurs moeurs et de leur langage (1837), e em particular desde a
interpretação que Lombroso ofereceu sobre o argot em L´uomo delinquente (1876),
os especialistas da questão criminal não pararam de auscultar jargões secretos e de
discutir a natureza da sua existência.92 Assim fizeram outros criminologistas italianos
como Niceforo e Ferri, alguns da escola francesa, como Lacassagne e Tarde.
Também foi matéria de análise de Los hombres de presa, considerado o primeiro

90
“O calão dos delinqüentes”, Op. Cit., p. 8. VILLAMAYOR, Luis C. El lenguaje el bajo fondo. Op.
Cit., p. 38.
91
Na nota de 1878 não aparecia esse duplo significado da voz lunfardo, mas uma crônica publicada
no ano seguinte no folhetim do jornal La Nación afirmava que a expressão “o lunfardo” podia fazer
referência tanto ao ladrão como ao calão utilizado por este. LUGONES, Benigno B. “Los beduinos
urbanos”. Op. Cit., p. 99-100.
92
VIDOQC, Eugène-François. Les voleurs, pshysiologie de leurs moeurs et de leur langage. Paris :
Imp. de Beaulé et Jubin, 1837. LOMBROSO, Cesare. L´uomo delinquente. In Rapporto
all´antropologia, alla giurisprudenza e dalle discipline carcerarie. Quinta Edizione. Vol. 1. Torino:
Fratelli Bocca, 1896, p. 531-552.

277
livro da criminologia latino-americana e traduzido ao italiano sob o título de I
criminali nati, pelo próprio Lombroso.93

Apesar dos estreitos vínculos entre os criminologistas de Torino e Buenos


Aires, que esta mesma tradução testemunhava, Drago marcava algumas diferenças
com Lombroso. Uma delas era, precisamente, a análise do argot delitivo. O grande
maestro da escola italiana havia sinalado, entre os traços peculiares do homo
criminalis, sua inserção em sociedades de malfeitores, o uso da gíria e as tatuagens
no corpo. Para o jurista argentino, o vínculo conceitual entre a tendência à
associação, a construção de um vocabulário particular e os estigmas degenerativos
próprios do delinquente nato, eram um ponto débil da teoria lombrosiana. Na
discussão desta leitura, Drago se interrogava:

A inclinação de formar associações não seria, talvez, a


manifestação, dentro de uma atividade anormal, de um fenômeno
puramente humano? Não vemos que todas as ordens de funções
sociais buscam fortificar-se por meio da cooperação, tanto na
indústria e nas artes, como no comercio, na literatura, na política e
nas mais altas manifestações do pensamento e o trabalho
intelectual? 94

A resposta de Drago apontava distinguir o delinquente profissional do


criminoso nato. Era natural que aqueles ladrões que faziam do crime “uma forma de
vida” buscassem nas associações “o sucesso mais fácil de suas empresas e a maneira
de escapar das perpétuas armadilhas da lei”.95 Os lunfardos, os ladrões e malfeitores
de Buenos Aires, brindavam um excelente exemplo desse tipo de criminalidade. E o
lunfardo como argot, “essa linguagem às vezes pitoresca e cínica”, revelava a

93
CREAZZO, Giuditta. El positivismo criminológico italiano en la Argentina. Buenos Aires: Ediar,
2007, p. 46.
94
DRAGO, Luis M. Los hombres de presa. Buenos Aires: Félix Lajouane, 1888, p. 99. Uma parte das
páginas que Drago dedicou neste livro à análise do argot foram publicadas simultaneamente na revista
policial: “El argot de los lunfardos bonaerenses”, Revista de la Policía de la Capital, Año I, n.9,
Buenos Aires, 1 oct. 1888, p. 108; e “El argot de los lunfardos bonaerenses”, Revista de la Policía de
la Capital, Año I, n.10, Buenos Aires, 15 oct. 1888, p. 120.
95
DRAGO, Luis M. Los hombres de presa. Op. Cit., p. 100.

278
necessidade que tinham estas confrarias de “recorrer em certos casos a uma gíria
especial, desconhecida dos profanos”, a um vocabulário “destinado, como dizem os
mesmos criminosos, a ocultar dos estranhos suas comunicações”.96

Esta restituição de racionalidade ao uso do argot delitivo coincidia com a visão


que muitos policiais portenhos tinham sobre o fenômeno do mundo lunfardo. O
delegado Laurentino Mejías o expressava com sua prosa sarcástica, quando se referia
aos ladrões que circulavam nos calabouços de sua seccional: “são esses nenes
(lunfardos) a quem se referia um psicólogo que os estuda, qualificando-os pobres de
mentalidade? Não demonstra inteligência natural o lunfardo analfabeto ao se fazer de
tonto quando o interrogam?”.97 Embora não nomeasse, o “psicólogo” a quem Mejías
se referia não devia ser Lombroso, mas Francisco de Veyga, professor da cátedra de
medicina legal da Universidade de Buenos Aires.

Desde 1899, o doutor Veyga dirigia um tipo de “clínica criminológica” que a


polícia de Buenos Aires o havia permitido instalar no Depósito de Contraventores,
feito que – segundo um de seus discípulos – significava “não apenas a consagração
definitiva da Escola Positiva em nossa Faculdade, mas sua aceitação pela autoridade
policial”.98 As palavras do delegado Mejías sugeriam que essa aceitação não era
generalizável a todas as esferas da polícia portenha. Sua rejeição à patologização dos
lunfardos parecia aludir diretamente a uma conferência sobre a “psicologia dos
ladrões profissionais”, ditada por este médico e publicada como folheto em 1910.99

96
Ídem, p. 101-102. A interpretação do uso de argot como uma característica das associações de
delinquentes profissionais estava alinhada com a leitura dos criminologistas mentores da polícia
científica. Ver, por exemplo: REISS, Rudolph A. Manuel de Police Scientifique (Technique). Vol. 1.
Vols et Homicides. Lausanne: Payot, 1911, p. 82-113. LOCARD, Edmond. Le Crime et les Criminels.
Paris: La Renaissance du Livre, 1925. p. 34-45.
97
MEJIAS, Laurentino. La policía por dentro. Tomo 1. Barcelona: Imprenta Viuda de Luis Tasso,
1911, p. 182.
98
BARBIERI, Pedro. “Clínica criminológica en el depósito 24 de Noviembre”, Revista de Policía,
Año IV, n.73, Buenos Aires, 1 jun. 1900, p. 6-7. Sobre esta Sala de Observação instalada no Depósito
de Contraventores, ver: VEZZETTI, Hugo. La locura en la Argentina. Buenos Aires, Paidós, 1985, p.
175-176. RUIBAL, Beatriz. Ideología del control social. Buenos Aires: Centro Editor de América
Latina, 1992, p. 54. SALESSI, Jorge. Médicos, maleantes y maricas. Higiene, criminología y
homosexualidad en la construcción de la nación argentina. Buenos Aires: Beatriz Viterbo, 1995, p.
148-151.
99
DE VEYGA, Francisco. Los lunfardos. Psicología de los delincuentes profesionales. Buenos Aires:
Talleres Gráficos de la Penitenciaría Nacional, 1910.

279
Para Francisco de Veyga, os lunfardos eram sujeitos “dotados de escassíssima
capacidade mental e desprovidos de todo recurso moral para a luta pela vida”.100
Toda a descrição dos ladrões habituais que havia observado no Depósito de
Contraventores estava dominada pelas ideias de “inferioridade psíquica”,
“degeneração” e “debilidade de espírito”.

Em 1894, outro criminologista argentino, Antonio Dellepiane, havia publicado


um livro titulado El idioma del delito, onde recusava a interpretação do lunfardo
como um vocabulário secreto destinado a ocultar as intenções delitivas frente o olhar
de desconhecidos. No entanto, Dellepiane tampouco coincidia com a ideia
lombrosiana sobre o argot como um sintoma de estigmas degenerativos. Abraçava,
igual a Drago, a perspectiva defendida por Gabriel Tarde, que Dellepiane resumia na
fórmula “o argot é um tecnicismo profissional”.101 O vocabulário lunfardo não era
um idioma porque não possuía uma gramática diferenciada: era simplesmente uma
“monstruosidade bastarda” de palavras e sons de diferentes línguas que os ladrões
intercalavam em suas conversas.

Dellepiane coincidia então com Drago em assinalar o lunfardo como a gíria dos
ladrões profissionais. Mas entendia que esse vocabulário não buscava ocultar as
intenções delitivas na presença de vigilantes e vítimas incautas, mas que tinha um
caráter bem mais lúdico: “a característica culminante das gírias criminais – escrevia
– é o cinismo, a tendência à burla sarcástica e às vezes cruel”.102 A questão é que,
seja para encobrir seus diálogos ou simplesmente para se entreterem, o vocabulário
lunfardo era visto aqui como o calão de um grupo profissional.

Nesse sentido, os criminologistas anteciparam a opinião de muitos literários


argentinos que, a inícios do século XX, escreveram sobre o lunfardo no marco de
uma polêmica sobre o papel dos imigrantes estrangeiros na formação do “idioma

100
Idem, p. 10.
101
DELLEPIANE, Antonio. El idioma del delito. Contribución al estudio de la psicología criminal.
Buenos Aires: Arnoldo Moen, 1894, p. 16.
102
Idem, p. 40.

280
nacional”.103 Ernesto Quesada, por exemplo, opinava em 1902 que o lunfardo era
uma “gíria dos delinquentes” que – parafraseando a Dellepiane – qualificava de
“verdadeiro tecnicismo, cheio de colorido”.104 Enquanto que em 1926, um linguista
argentino de ascendência alemã, Rudolf Grossmann, afirmava que muitas destas
palavras nascidas na sede delitiva haviam sido adotadas já pela “língua coloquial
geral”.105

Grossmann adicionava outro dado importante para a circulação das palavras


lunfardas. Ao parecer, não apenas se moviam dentro da Argentina entre o mundo
criminal e a fala vulgar, mas também se estendiam territorialmente “até Uruguai e
Brasil”, e por sua vez se alimentavam de vozes que “provêm do português, ou mais
precisamente, do brasileiro”.106 Palavras como quilombo, empregada no lunfardo
portenho para se referir aos bordeis, caften para os proxenetas, capiango para os
ladrões astutos e cafua para as prisões, eram empréstimos atribuídos aos
intercâmbios léxicos com os delinquentes brasileiros.

Os diferentes dicionários de lunfardo e gíria publicados na Argentina, Brasil e


outros países vizinhos, desde finais do século XIX, já haviam advertido sobre este
fenômeno dos empréstimos léxicos, que parecia ser um testemunho linguístico da
circulação de ladrões na América do Sul. O primeiro apareceu no próprio livro de
Dellepiane. Era apresentado como um “dicionário lunfardo-espanhol” com seiscentas

103
Ver DI TULLIO, Ángela L. Políticas lingüísticas e inmigración. El caso argentino. Buenos Aires,
Eudeba, 2010, p. 99-134.
104
QUESADA, Ernesto. “El criollismo en la literatura argentina”. In: RUBIONE, Alfredo V. (comp.).
En torno al criollismo. Textos y polémica. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina, 1983, p.
213.
105
GROSSMANN, Rudolf. El patrimonio lingüístico extranjero en el español del Río de la Plata.
Buenos Aires: Biblioteca Nacional, 2008, p. 149. Estudos posteriores abordaram esta relação do
lunfardo com a fala popular dos argentinos. Alguns autores continuaram considerando o lunfardo
como uma gíria nascida no mundo dos ladrões profissionais, ver: VILLANUEVA, Amaro. “El
lunfardo”, Universidad, n. 52, Santa Fe, abr.-jun. 1962, p. 13-42. Outros, em uma operação crítica que
buscava redimir este vocabulário de seu “pecado original” delitivo, inverteram os termos,
argumentando que foi “o mundo da delinquência que se apropria das palavras que estão no uso do
povo”. TERUGGI, Mario E. Panorama del lunfardo. Buenos Aires: Sudamericana, 1978, p. 247. A
mesma hipótese foi aprofundada recentemente por: CONDE, Oscar. Lunfardo. Un estudio sobre el
hablar popular de los argentinos. Buenos Aires: Taurus, 2011, p. 60 y p. 86-91.
106
GROSSMANN, Rudolf. El patrimonio lingüístico extranjero en el español del Río de la Plata. Op.
Cit., p. 149-150.

281
e vinte entradas, entre vozes e locuções.107 O número não estava longe das
quinhentas e sessenta e oito registradas no folheto que Elysio de Carvalho publicou
em 1912. No Brasil, haviam aparecido antes outros vocabulários que davam conta da
existência de um argot de delinquentes. Ao redor de 1897, o médico Sebastião Leão,
diretor da Oficina de Antropologia Criminal, dependente da polícia do Rio Grande
do Sul, elaborou um estudo empírico baseado nos detentos da Casa de Correção de
Porto Alegre. No texto analisou o uso do argot por parte dos presos e ensaiou um
brevíssimo glossário.108

Mello Morais Filho anexou um “vocabulário dos ladrões” ao seu livro de


memórias urbanas sobre o Rio de Janeiro, onde se registravam cento e setenta e seis
expressões, entre as quais havia várias coincidentes com os dicionários de
lunfardo.109 Em 1910, o escritor Raul Pederneiras publicou Geringonça carioca,
repertório que não se limitava ao argot criminal, embora incluía uma grande
quantidade de vozes identificadas como “gíria ladra”.110 O estudo de Elysio de
Carvalho não constituía, então, o primeiro vocabulário de gíria brasileira, mas trazia
duas novidades importantes. Por um lado, como reconhecia o delegado portenho Luis
Villamayor em seu próprio dicionário de lunfardo, através da Gíria dos Gatunos
Cariocas, a polícia brasileira era a única na América do Sul que contava com um
“argot de seus malfeitores” e que o havia “entregue oficialmente para o estudo de
seus empregados”.111 Pelo outro, Carvalho agregava uma análise da procedência do
vocabulário da gíria dos ladrões.

107
DELLEPIANE, Antonio. El idioma del delito. Op. Cit., p. 57-104.
108
LEÃO, Sebastião. “Relatório do Doutor Sebastião Leão, Médico da Polícia”. In: Relatório da
Secretaria de Estado dos Negócios do Interior e Exterior do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: s/d,
1897, p. 230. Sobre Leão e seus trabalhos na Cadeia de Porto Alegre ver: PESAVENTO, Sandra J.
Visões do Cárcere. Porto Alegre: Editora Zou, 2009.
109
MELLO MORAIS FILHO, Alexandre J. de. Factos e Memórias. Op. Cit., p. 337-344. Às
coincidências já mencionadas, sobre o livro de Ernesto Senna, agregavam-se outras novas como gurda
(adinheirado), marroco (pão), ragú (fome) e vento (dinheiro).
110
PEDERNEIRAS, Raul. Geringonça carioca. Verbetes para um dicionário da gíria. Rio de Janeiro:
s/d, 1910. Nesse mesmo ano publicou-se no Chile um dicionário apresentado no Congresso
Internacional Americano (realizado em Buenos Aires durante o mês de julho de 1910). VICUÑA
CIFUENTES, Julio. Jerga de los delincuentes chilenos. Estudio y vocabulario. Santiago de Chile:
Imprenta Universitaria, 1910.
111
VILLAMAYOR, Luis C. El lenguaje el bajo fondo. Op. Cit., p. 27.

282
“LUNFARDO – Gatuno [G. dos gs. args]”, se lia no meio do folheto: essa
aclaração entre colchetes significava que a voz procedia da gíria dos gatunos
argentinos.112 Cento e vinte vozes e locuções eram reconhecidas por Carvalho como
usos da gíria derivados do espanhol e do lunfardo portenho. Por isso em 1913, a
Revista de Polícia de Buenos Aires publicava uma nota com o título “Vocabulário
dos ladrões no Brasil”, que informava a seus leitores sobre o dicionário de Carvalho
e destacava que muitos vocábulos eram “análogos aos que usam nossos
delinquentes”.113 Se o ladrão lunfardo era, segundo escrevia Francisco de Veyga,
“todo um nômade que se movia de um lado a outro sem encontrar paradeiro aonde se
assentar”; se ele era, como lhe chamava Benigno Lugones, um tipo de “beduíno
urbano”, então não resultava estranho que suas viagens deixassem sedimentos no
argot criminal.114

Esses empréstimos incluíam várias ações próprias da arte de roubar:


começando pelo próprio verbo “roubar”, que tanto o lunfardo como a gíria o chamam
de afanar. Bater o justo, explicava Carvalho, era outra locução proveniente do
lunfardo que significava “dizer a verdade”; o mesmo campanear, “vigiar o local
onde está se cometendo um roubo” e espiantar, que era “furtar mercadorias expostas
à venda”.115 Havia também um repertório de vozes para denominar personagens
relevantes no cotidiano delitivo: botão era o “soldado de polícia”, proveniente,
segundo Carvalho, do lunfardo botón; a mesma procedência tinha burrista, “menor
que auxilia os ladrões profissionais”; e madruguista, o “gatuno que aproveita a
madrugada para roubar”.116 Finalmente, havia uma grande quantidade de
empréstimos léxicos referentes a objetos e artefatos: bufoso diziam às armas de fogo;
carola à libra esterlina; marroca à corrente de relógio; música à “carteira de

112
CARVALHO, Elysio de. Gíria dos gatunos cariocas. Op. Cit., p. 30.
113
“Sueltos. Vocabulario de los ladrones en el Brasil”, Revista de Policía, Año XVI, n. 379, Buenos
Aires, 1 mar. 1913, p. 182.
114
DE VEYGA, Francisco. Los lunfardos. Op. Cit., p. 26. LUGONES, Benigno B. “Los beduinos
urbanos”. Op. Cit., p. 99-112.
115
CARVALHO, Elysio de. Gíria dos gatunos cariocas. Op. Cit., p. 4, 13 e 20.
116
Idem, p. 11 e 30.

283
algibeira”; toco à “porção que toca a cada um na partilha do produto de um
roubo”.117

Todos estes empréstimos do lunfardo à gíria pressupunham uma multiplicidade


de intercâmbios nas práticas delitivas. Ao contrário de alguns cultores das línguas
populares que, a partir do século XX, começariam a buscar nestes vocabulários
algum tipo de “essencialismo nacional”, Carvalho e os policiais estudiosos do argot
criminal, enfatizavam sua intrínseca natureza transnacional. Por isso, às vezes o
comparava com as hieroglíficas inscrições que os ladrões deixavam nas paredes ou
nas portas das casas que marcavam para roubar. Eram palavras difíceis de decifrar
pela multiplicidade de idiomas e dialetos que contribuíam para sua constituição. “A
sociedade dos criminosos não é tão fácil de conhecer como à primeira vista parece”,
escreveu Brasil Silvado em sua visita a Paris. “Eles conhecem o segredo de Protheus
e têm mil formas de disfarce, mil maneiras de agir, a par de uma audácia incalculável
e de uma linguagem, o argot dos franceses, que não se aprende em um dia”.118

117
Idem, p. 11, 14, 31, 34 e 43.
118
SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres. Op. Cit., p. 233-234.

284
A aristocracia do roubo

A natureza mais profunda de um indivíduo


não vai muito além da pele, da espessura da
pele de seus outros.
Erving Goffman, Relations in public (1971).1

Em 1911, o cronista João do Rio publicou no jornal A Notícia um artigo sobre


o “roubo inteligente”. Era quase uma denuncia sobre a “chateza dolorosa” da
criminalidade brasileira, na qual vislumbrava nenhum ladrão memorável, nenhum
digno de admiração. 2 Mas nem todos os escritores da Belle Époque carioca estavam
de acordo com esse olhar. Onde João do Rio via “gravateiros ordinários,
prestidigitadores insignificantes, vigaristas indecentes, punguistas para distraídos de
bonde”, Elysio de Carvalho preferia enxergar o surgimento de uma nova classe de
ladrões:

O gatuno de hoje não é mais o escruchante dos tempos famosos do


não menos famoso Vidigal. Rato de hotel, batedor de carteira ou
escroc, o criminoso que vive a custa do próximo é um tipo como
qualquer um de nós, vestindo-se com apurada elegância,
frequentando as melhores rodas e os mais afamados clubs, com
amantes de luxo e créditos nas garages, hospede de hotéis de
primeira ordem e com relações no mundo da Bolsa. Tem todas as
aparências de um clubman, o patife passa por um gentleman até o
dia em que é preso em flagrante.3

1
GOFFMAN, Erving. Relaciones en público. Microestudios de orden público. Madrid: Alianza, 1979,
p. 354.
2
RIO, João do. “O representativo do roubo inteligente”, A Notícia, Rio de Janeiro, 20 ago. 1911.
3
CARVALHO, Elysio de. “História natural dos malfeitores. Notas e crônicas”, Boletim Policial, Rio
de Janeiro, Ano VII, n. 4, abr. 1913, p. 60.
Agora, o criminoso típico não era o escruchante, “gatuno que comete a
subtração da coisa alheia, com arrombamento, escalamento ou chave falsa”, segundo
definia o próprio Carvalho em seu folheto sobre a gíria delitiva, orientado à leitura de
alunos da Escola de Polícia.4 Carvalho contrastava aqui o tempo dos escruchantes,
protagonistas de um passado recente dominado pelo roubo manual e muscular, com
esse presente do século XX, da delinquência astuta e dos ladrões gentlemen. Mas isso
não significava que todos os ladrões do século anterior fossem da mesma categoria.
Em 1879, num dos primeiros textos dedicados a descrever o lunfardo portenho, o
jornalista Benigno Lugones assegurava que os “escruchantes inteligentes” tinham o
costume de enviar a “Montevidéu, Rosário, Rio de Janeiro e ainda à Europa” as joias
que roubavam em Buenos Aires, e que também recebiam artigos roubados daquelas
cidades.5

Não apenas os ratos de hotel e os estelionatários se vestiam com elegância,


viajavam e tinham conexões transnacionais; também o faziam alguns escruchantes
do século XIX e o seguiriam fazendo nas primeiras décadas do século XX. Assim
testemunha o caso de “Eufelio de Duvitus”, também registrado como José Francisco
Formica ou Gino Pasqua, um “famoso ladrão de um colar de pérolas e outras joias de
senhora em Mar del Plata”, detido no Rio de Janeiro em 1919 e extraditado à
Argentina.6 Fosse um punguista profissional, um arrombador, um vigarista ou um
ladrão de hotéis, o certo é que na primeira metade do século XX a questão do
delinquente internacional adquiriu uma visibilidade inédita.

Na América do Sul, entre os discursos jurídicos, policiais, jornalísticos e


literários se construiu uma figura do ladrão viajante aristocrata que reunia três
características fundamentais: além da profissionalização e da capacidade de
mobilidade territorial, era assinalado como um delinquente “científico”, “gentleman”
e “vaidoso”. A primeira característica fazia referência ao uso de inovações

4
CARVALHO, Elysio de. Gíria dos gatunos cariocas. Op. Cit., p. 20.
5
LUGONES, Benigno B. “Los beduinos urbanos”. In: Crónicas, folletines y otros escritos (1879-
1984). Edición crítica y estudio preliminar de Diego Galeano. Buenos Aires: Biblioteca Nacional,
2012, p. 108.
6
“Ladrões conhecidos”, Revista Policial, Ano I, n. 1, Rio de Janeiro, 15 out. 1919, p. 21.

286
tecnológicas aplicadas a alguma especialidade na arte de roubar. A segunda tinha a
ver com a aprendizagem dos estilos necessários para se infiltrar nos espaços da alta
sociedade e com as capacidades dramatúrgicas nas interações com os outros.
Finalmente, a última característica aludia à construção de uma fama dentro do
próprio mundo dos ladrões e, em parte, à projeção dessa popularidade nas páginas da
imprensa e nos seus leitores.

O tema do “ladrão científico” era parte de uma problematização mais ampla da


relação entre o delito e a modernidade. Em finais do século XIX, criminologistas
italianos como Alfredo Niceforo e Scipio Sighele levantaram uma hipótese sobre a
existência de duas formas diferentes de criminalidade: a “delinquência atávica”, a
cujo estudo Lombroso havia dedicado seus maiores esforços, e a “delinquência
evolutiva”, caracterizada mais pela fraude e astúcia do que pelos roubos violentos e
brutais, os homicídios ou estupros.7 Seguindo essa leitura da escola italiana, diversos
juristas sul-americanos interpretaram essa criminalidade científica e civilizada como
um efeito da vida metropolitana. Para Miguel Lancelotti, por exemplo, essa
consequência indesejável da modernização já se constatava no final do oitocentos
com “verdadeiro assombro”. Era fato que a delinquência havia profanado “o
santuário da ciência” e havia usado seus descobrimentos mais seletos para “livrar-se
da roupagem rude, cruel e selvagem”.8 Os criminologistas liam esse processo como
uma lei de evolução da criminalidade, desde as formas atávicas, musculares e
violentas, até outra astuta, refinada “e até científica”, como expressava um jurista
argentino.9

7
SIGHELE, Scipio. Delinquenza Settaria. Apuntti di sociologia. Milano: Fratelli Treves, 1897.
NICEFORO, Alfredo; SIGHELE, Scipio. La mala vita a Roma. Torino: Roux Frassati, 1898, p. 11-
30.
8
LANCELOTTI, Miguel A. “Civilización y delito”, Criminalogia Moderna, Año II, n. 13/14, Buenos
Aires, nov.-dic. 1899, p. 407;
9
ZINNY, Enrique N. La delincuencia en la ciudad de Buenos Aires. Sus factores principales. Tese de
doutorado, Universidad de Buenos Aires, Facultad de Derecho y Ciencias Sociales. Buenos Aires: Ed.
Adolfo Grau, 1903, p. 15. Ver também: PESENTI, Víctor R. Influencia de la civilización sobre el
movimiento de la criminalidad. Tese de doutorado, Universidad de Buenos Aires, Facultad de
Derecho y Ciencias Sociales. Buenos Aires: Tailhade y Rosselli, 1901. TABORDA, Héctor. Factores
del delito. Tese de doutorado, Universidad de Buenos Aires, Facultad de Ciencias Médicas. Buenos
Aires: Rodríguez Giles, 1910.

287
A imprensa policial também brindava detalhes sobre a modernização dos
delinquentes no mundo inteiro. Em 1912, uma “nota do estrangeiro” da revista
Sherlock Holmes contava o caso de dois ladrões especializados em abrir cofres, que a
polícia russa havia detido, encontrando em sua residência “uma biblioteca composta
de obras científicas sobre explosivos, metalurgia, construções de cofres e sobre
maçaricos para fundir metais”. Também havia nas estantes “alguns volumes de
criminologia” e, ao lado da biblioteca, um laboratório para fazer experimentos.10 E
nas páginas do Boletim Policial do Rio de Janeiro, Elysio de Carvalho escrevia um
texto sob o título de “As nevroses e os vícios da cidade”, no qual vinculava a
criminalidade fraudulenta à dinâmica da vida metropolitana, onde “todo mundo está
atacado pela febre dos negócios, é preciso correr, andar célere, chegar à hora,
engolindo quilômetros e ampliando o tempo numa fúria louca”.11

A onipresença do dinheiro nas interações cotidianas e a intensificação dos


“estímulos nervosos” eram o tema de um célebre ensaio que Georg Simmel havia
publicado uma década antes.12 Para Carvalho, o desejo de lucro e o consumo
desmedido iam de mãos dadas com a proliferação de ladrões de luva branca, que
elegiam caminhos delitivos para alcançar fins compartilhados por toda sociedade
burguesa. Por isso os países eleitos pelos imigrantes europeus para se “fazer a
América” – esses destinos promissórios onde tantas pessoas buscavam uma forma de
progresso econômico – eram apontados como ninhos de delinquentes aristocráticos.
A ênfase que a literatura especializada dava às metrópoles norte-americanas não era,
nesse sentido, casual: “a febre do ouro, que organiza as enormes fraudes comerciais”,
lia-se em 1899 na revista portenha Criminalogia Moderna, “é a verdadeira lagosta da
América do Norte”. O culto ao dinheiro, a “adoração ao dollar” eram o “fenômeno
mortal que exala quase toda a atmosfera criminosa desse grande e corrompido

10
“Notas del extranjero. Los ladrones estudian para robar”, Sherlock Holmes, Año II, n. 76, Buenos
Aires, 10 dic. 1912, p. 46.
11
CARVALHO, Elysio de. “As nevroses e os vícios da cidade”, Boletim Policial, Ano VIII, n. 7, Rio
de Janeiro, jul. 1914, p. 328.
12
SIMMEL, Georg. “Las grandes urbes y la vida del espíritu”. In: El individuo y la libertad. Ensayos
de crítica de la cultura. Barcelona: Península, 1986, p. 247-261.

288
país”.13 As revistas policiais de Buenos Aires difundiam histórias de ladroes
gentlemen norte-americanos, algumas delas acompanhadas de ilustrações, como o
caso de Sir John Bulner:

Sir John Bulner


Fonte: Boletín de Policía, Ano I, n. 11, Buenos Aires, 30 sep. 1905, p. 22.

Carvalho também via nos Estados Unidos da América o reino dos ladrões
aristocráticos e uma prefiguração da criminalidade científica que estaria invadindo
todos os demais países. Nas práticas criminais, os norte-americanos haviam sido os
primeiros a utilizar o telégrafo, o telefone, o automóvel e o aeroplano “como
instrumentos de delito”. Eram os pioneiros em “construir aparelhos especiais para
abrir os cofres-fortes, para arrombar portas de aço e para abrir fechaduras
complicadas” e, ainda, pioneiros em empregar as últimas descobertas da ciência,
fornecendo “os recursos aperfeiçoados de que se servem atualmente em todo o
mundo os pick-pockets, os cambrioleurs e os ratos de hotel”. Sem eles, concluía
Carvalho, “a arte de furtar não teria progredido tanto nem se teria tornado uma

13
STEEVENS, C. “Mundo criminal Norte Americano”, Criminalogia Moderna, Año II, n. 6, Buenos
Aires, abr. 1899, p. 165.

289
profissão tão próspera”.14 O crime de colarinho branco (white collar crime) se
converteria, a partir da década de 1930, num campo de estudos para os sociólogos da
Escola de Chicago, em especial nos escritos de Edwin H. Sutherland.15 Porém, nas
três décadas anteriores já era um tema muito presente nos discursos de policiais de
todo o continente e, em particular, nos dois maiores países da América do Sul:

Os ladrões europeus começam agora a fazer a América. O Brasil e


a Argentina recebem de quando em quando a visita de alguns
desses senhores. Seduzidos pela legenda do nosso progresso e da
nossa atividade e, muitas vezes, impossibilitados de operarem nas
cidades da Europa por se terem tornado bastante conhecidos da
polícia, eles resolvem montar tenda de trabalho nas principais
cidades sul-americanas. Aqui chegam, dizendo-se quase sempre
hommes d’affaires, representantes de indústrias europeias ou de
importantes casas comerciais, e, depois de estudar o meio onde vão
agir, fazem entrar em cena as suas habilidades e as suas
artimanhas.16

Além de fazer uso das inovações científicas, esses ladrões aristocratas eram
sujeitos com aparência de homens de negócios cuja fachada – segundo denunciavam
os policiais – escondia forasteiros e oportunistas que, em sociedades com um alto
grau de mobilidade demográfica e social, era muito difícil distinguir dos novos ricos
da burguesia. O grande problema da simulação de identidade era parte do jogo das
interações metropolitanas, onde os encontros entre estranhos facilitavam a
“fabricação de uma nova personalidade”, como escrevia em 1889 um redator da
revista portenha, sobre um ladrão viajante milionário de origem francesa.17

14
CARVALHO, Elysio de. “A história do diamante azul”. In: Sherlock Holmes no Brasil. Rio de
Janeiro: Casa A. Moura, 1921, p. 154.
15
White Collar Crime (1949) foi um dos livros mais ressonantes da série de investigações
sociológicas sobre o delito que proliferaram nos Estados Unidos na primeira metade do século XX,
mas já na década de 1930 Sutherland havia publicado The Professional Thief, onde enfocava o estudo
do delinquente sob um ângulo muito diferente daquele das criminologias europeias da moda.
SUTHERLAND, Edwin H. The Professional Thief: by a Professional Thief. Chicago: University of
Chicago Press, 1937. SUTHERLAND, Edwin H. White Collar Crime. The Uncut Version. Nova
Iorque: Yale University Press, 1983.
16
CARVALHO, Elysio de. “História natural dos malfeitores. Notas e crônicas”, Op. Cit., p. 65.
17
“La vuelta al mundo de un galeote. Las aventuras del bandido Couteseune. Pescador, guerrero,
relojero, millonario y ladrón”, Revista de la Policía de la Capital, Año I, n. 15, Buenos Aires, 1 ene.
1889, p. 179.

290
A performance pública dos delinquentes gentlemen, a construção teatral de
uma identidade forjada para obter benefícios era o espelho invertido da lógica geral
da burguesia. Por isso, quanto mais incertos fossem os limites entre os setores com
linhagem aristocrática e os novos ricos, mais fina era a linha que separava um
estelionatário de um burguês qualquer. “Talvez o verdadeiro crime do vigarista –
escrevia sarcasticamente Erving Goffman, outro sociólogo de Chicago – não seja
roubar dinheiro das vítimas, mas livrar-nos, a todos, da crença de que as maneiras e a
aparência da classe média podem ser sustentadas apenas pela gente da classe
média”.18

Assim como nas principais metrópoles dos Estados Unidos, a vida em algumas
capitais sul-americanas era uma mise-en-scène permanente, onde a construção de
uma fachada, a vestimenta e as habilidades retóricas valiam muito mais que a
linhagem social efetiva. Nesse contexto, os ladrões com aparência nobre eram um
grande problema para os vigilantes, já que, como é sabido, provinham em sua grande
maioria dos setores populares: de fato, se um agente policial se encontrasse “frente a
frente com um desses escrocs internacionais, inteligentes e astuciosos, elegantes e
audaciosos, afeitos à vida cosmopolita, conhecedor de todos os meios sociais”,
perguntava Elysio de Carvalho: “que poderá fazer o nosso pobre diabo senão deixar-
se embrulhar?”19 Por isso Rolando Pedreira, diretor da Gazeta Policial e chefe da
Quarta Delegacia Auxiliar, advertia aos novos agentes, no seu livro Lições de Polícia
Prática, que tivessem desconfiança frente a estes “tipos curiosos que são
delinquentes simpáticos à polícia: bem educados, maneirosos, agradáveis na palestra
e leais à autoridade, desde o momento em que se mostra o cavalheiro de sua árdua
missão”.20

18
GOFFMAN, Erving. The Presentation of Self in Everyday Life. Nova Iorque: Anchor Books, 1959,
p. 18. Sem intenção nem espaço para realizar aqui exposições teóricas, é preciso, no entanto,
reconhecer que a análise que esse capítulo faz de certas práticas delitivas deve-se muito às ideias de
Goffman. Vários elementos de seus escritos estão aqui presentes: a concepção teatral das “situações
de interação”, a personalidade (self) como uma mise-em-scène, o valor das aparências, das fachadas, e
do gestual nos encontros com outros no espaço público. Ver também sobre este tema: GOFFMAN,
Erving. Encounters. Harmondsworth: Penguin, 1972, p. 17-72.
19
CARVALHO, Elysio. A polícia carioca. A criminalidade contemporânea. Rio de Janeiro: Imprensa
Nacional, 1910, p. 87.
20
PEDREIRA, Rolando. Lições de Polícia Prática: seguida de uma galeria dos principais habitués
das prisões do Distrito Federal. Rio de Janeiro: Ed. da Gazeta Policial, 1935, p. 40.

291
A centralidade da fisionomia, a vestimenta e as maneiras dos ladrões viajantes
refletia-se na expressão que Carvalho usava com maior frequência para se referir a
eles: “moços bonitos”.21 Os pseudônimos usados por esses personagens marcavam
uma diferença com os punguistas e gatunos comuns. Em seu livro de memórias sobre
a vida carioca, Mello Moraes Filho incluía uma lista dos “vulgos” mais famosos.22
Ao lado dos sobrenomes de diversos “ladrões conhecidos” (Bunda-Estragada,
Borracheira, Carvão de Pedra, Chico Bigodinho, Carne Seca, Perna Podre, etc.),
apareciam os “doutores”: Dr. Anísio, Dr. Cornélio, Dr. Cartola, Dr. Faria. Muitos
deles eram mencionados também no livro de Vicente Reis, e alguns (Dr. Braguinha,
Dr. Junqueira) reapareciam três décadas depois na galeria fotográfica “dos principais
habitués das prisões do Distrito Federal”, publicada como apêndice no livro de
Pedreira.23

O título de “doutor” era parte da carta de apresentação do ladrão gentleman


quando entrava em contato com suas vítimas, mas paulatinamente convertia-se
também em parte de seu prestígio. De fato, não eram poucos os testemunhos sobre a
preocupação de alguns ladrões em relação à fama que iam adquirindo entre seus
colegas do mundo delitivo, e fundamentalmente com a projeção de seus nomes na
imprensa. O criminologista Rudolph Reiss tratava essa questão na seção sobre a
“psicologia dos delinquentes profissionais” em seu Manuel de Police Scientifique.
Entre suas características principais, destacava a tendência ao “desperdício de
dinheiro” (o malfeitor raramente poupava e se enriquecia, era um bon-vivant que
saboreava seus luxos no presente sem pensar no futuro) e a “vaidade” (muitos
gostavam que os jornais se ocupassem deles e que seus nomes estivessem em todas
as bocas).24

21
Em seu dicionário de gíria o definia como “um rapaz inteligente, vestindo-se com certo apuro,
ostentando luxo, frequentador de rodas alegres e elegantes, mas que não tem modo de vida conhecido
nem decente e, entregando-se à prática de expedientes ilícitos, vem um dia cair nas mãos da polícia
acusado de falcatrua”. CARVALHO, Elysio de. Gíria dos gatunos cariocas. Vocabulário organizado
para os alunos da Escola de Polícia. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1912, p. 33.
22
MELLO MORAIS FILHO, Alexandre J. de. Factos e Memórias. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1904,
p. 343-344.
23
PEDREIRA, Rolando. “Galeria dos principais vigaristas e batedores de carteira que infestam a
Metropole brasileira”. In: Lições de Polícia Prática. Op. Cit., s/n.
24
REISS, Rudolph A. Manuel de Police Scientifique (Technique). Vol. 1. Vols et Homicides.
Lausanne: Payot, 1911, p. 38-41.

292
O mentor de Reiss, Alexandre Lacassagne, havia denominado “erostratismo”
esta tendência vaidosa dos delinquentes, marcada por desejos de exibição pública e
de celebridade.25, e o mais ilustre criminologista argentino, José Ingenieros, opinava
que havia “verdadeiros Quixotes e Cyranos do crime”, que buscavam um “caminho
para a glória”, uma “vaidade criminal que visa ao público e à posteridade”.26 Esse
cultivo da aparência, da vestimenta e das maneiras como ferramenta própria de
algumas práticas delitivas, e também como parte da construção de prestígio, estará
presente neste capítulo final, onde o foco de análise se concentrará em duas figuras
destacadas dentro do mundo criminal sul-americano: o rato de hotel e os passadores
de contos do vigário.

Cenas do rat d’hôtel

Em Dentro da noite, um livro de crônicas sobre a vida noturna na Belle


Époque carioca, João do Rio incluía um relato cuja história girava em torno dos
hóspedes de um hotel situado na Rua do Catete. Certa noite, no saguão de entrada,
com seus pisos de mármore e móveis em estilo otomano, podia-se ver no hotel
“representantes de todas as classes sociais, desde a diplomacia até o trololó”.27 Mas a
trama central do relato começava na manhã seguinte, quando o narrador, enquanto se
vestia para descer para o almoço, percebeu que lhe faltava um alfinete da sua
gravata, uma peça cara feita com uma turmalina azul. Um dia depois, o hóspede
conversava com uma distinta atriz de teatro, que lhe confessou:

– Ah! Meu amigo, este hotel tem casos curiosos… Sabe que fui
roubada?

25
VALETTE, Pierre. De l’érostratisme ou vanité criminele. Lyon: Storck, 1903, p. 8.
26
INGENIEROS, José. “La vanidad criminal”, Archivos de Psiquiatría y Criminología, Año IV, n. 3,
Buenos Aires, 1907, p. 163.
27
RIO, João do. “Aventura de hotel”. In: Dentro da noite. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1910, p. 130.

293
– Sério?
– Sim. O objeto tinha um valor todo estimativo, era um berloque
que me dera o Raymundo logo no começo de nossa ligação. Não
lhe diga nada que o incomodaria. De resto, não sou eu a única. O
Dr. Pontes foi também roubado no seu portemonnaie.
– Como eu!
– O Sr. também? Mas estamos na caverna de Ali-Babá! 28

Até esse momento, o narrador havia mantido em segredo, por pudor, o roubo
de seu alfinete, mas depois do diálogo com a atriz, explodiu o escândalo. A outro
hóspede também haviam roubado uma madrepérola com incrustações de ouro, e o
gerente despediu o criado porque faltavam os passadores de guardanapos. Mas como
os roubos continuaram, os hóspedes entenderam que o ladrão estava entre eles e isso
desatou um estado de pânico. Ninguém conversava com os demais, e saíam de seus
quartos com seus valores no bolso. A tensão chegou ao ponto de aceitarem que a
polícia revisasse todos os quartos com a esperança de que encontrasse as joias
roubadas e descobrisse o ladrão, mas o próprio narrador terminou descobrindo que o
autor era uma das damas hospedadas, Madame de Santarém, que padecia do vício da
cleptomania.

Dois anos depois da publicação de Dentro da noite, apareceu no Rio de Janeiro


o livro Memórias de um rato de hotel. O subtítulo (“vida do Dr. Antônio narrada por
ele mesmo”) apontava a reafirmação do gênero autobiográfico, ainda que desde o
começo isso se colocasse em dúvida e muitos atribuíssem a obra ao próprio João do
Rio.29 Elysio de Carvalho apoiava essa suspeita nas páginas do Boletim Policial, num
artigo dedicado aos ladrões aristocratas.30 Nesse momento, abril de 1913, havia

28
Idem, 132-133.
29
DR. ANTÔNIO. Memórias de um rato de hotel. A vida do “Dr. Antônio” narrada por ele mesmo.
Rio de Janeiro: s/d, 1912. Existem poucos exemplares desse livro. Até onde investiguei, a Biblioteca
Nacional, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a Casa de Rui Barbosa guardam um volume
da obra em seus acervos. O exemplar desta última instituição pertencia à biblioteca pessoal de Plínio
Doyle, que assegura tê-lo comprado num sebo. Quando o comprou, o livro já tinha na primeira página
uma anotação manuscrita do seu dono original – Francisco Prisco –, que diz “o autor deste livro é
João do Rio”. Ver a nota prévia na segunda edição: DOYLE, PLÍNIO. “De como surgiram as
Memórias de um rato de hotel, do Dr. Antônio, edição de 1912”, In: MACIEL, Arthur Antunes (Dr.
Antônio). Memórias de um rato de hotel. Rio de Janeiro: Dantes, 2000, p. 9-13.
30
CARVALHO, Elysio de. “História natural dos malfeitores. Notas e crônicas”, Op. Cit., p. 58-65.

294
morrido o verdadeiro ladrão que se escondia por detrás do pseudônimo “Dr.
Antônio”: chamava-se Arthur Antunes Maciel e morreu aos quarenta e sete anos de
idade, enquanto estava preso. Havia entrado na cadeia em agosto de 1911. Entre
dezembro desse ano e fevereiro de 1912, as Memórias de um rato de hotel foram
publicadas como folhetim no jornal Gazeta de Notícias, enquanto que o livro saiu no
mês de março, e em novembro falecia seu suposto autor.31

Para Elysio de Carvalho, a biografia era obra de “um dos nossos jornalistas”,
mas a história de Dr. Antônio era verdadeiramente digna de ser contada. Perfeito
modelo do “gatuno inteligente e astucioso”, sua fisionomia era típica nesta classe de
gatunice: “singular expressão de bonomia, alguma coisa de clerical, o que, sem
dúvida, muito contribuiu, na sua agitada carreira, a inspirar confiança às vítimas”. O
rosto de Dr. Antônio mostrava a “astúcia da raposa, uma astúcia feita de hipocrisia e
de extrema cautela, insinuante e canalha”.32

Mas o que era exatamente um “rato de hotel”? Segundo contava Carvalho em


seu dicionário de gíria gatuna, era precisamente o “ladrão que tem como
especialidade o roubo e furto nos hotéis”, personagem que tinha outro
correspondente noturno na gíria dos ladrões cariocas – o “pinga de madrugada”, que
operava nos hotéis enquanto os hóspedes dormiam.33 A definição do dicionário era
pobre, mas acertava em atribuir à expressão origens francesas. O rat d’hôtel era uma
figura importante no mundo do roubo durante a Belle Époque, como se adverte nos
livros dos criminologistas Rudolph Reiss e Edmond Locard. Reiss explicava que
havia duas categorias de “ladrões de hotéis” (voleurs d’hôtels): os de “basse prège” e
os de “haute prège”. Os primeiros eram gatunos vulgares que se introduziam nas
“casas mobiliadas” para roubar artigos de baixo valor. Os segundos eram os rats
d’hôtels propriamente ditos, “infinitamente mais interessantes, mas ao mesmo tempo
muito mais perigosos”.34

31
RODRIGUES, João Carlos. “Um mistério literário”. In: MACIEL, Arthur Antunes (Dr. Antônio).
Memórias de um rato de hotel. Op. Cit., p. 287.
32
CARVALHO, Elysio de. “História natural dos malfeitores. Notas e crônicas”, Op. Cit., p. 63.
33
CARVALHO, Elysio de. Gíria dos Gatunos Cariocas. Vocabulário organizado para os alunos da
Escola de Polícia. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1912, p. 37 e 39.
34
REISS, Rudolph A. Manuel de Police Scientifique (Technique). Op ; Cit., p. 213.

295
O rato de hotel reunia todas as características de um ladrão internacional: se
deslocava a uma velocidade assombrosa e tinha a aparência de um “verdadeiro
gentleman”, o que o permitia evitar que sua presença chamasse a atenção entre os
outros hóspedes. Às vezes, como no caso do Dr. Antônio, trabalhavam sozinhos, mas
segundo Reiss, era comum que integrassem bandos de dois ou três ladrões e, em
alguns casos, até pertenciam a vastas redes transnacionais.35 As mulheres ladras
constituíam uma porcentagem alta no universo dos ratos de hotel. Operavam nos
hotéis de luxo das grandes cidades, onde o fluxo constante de viajantes dificultava
reconhecer a todos. Registravam-se usando nomes falsos que aparentassem uma
linhagem aristocrática e ganhavam a confiança da recepção distribuindo gorjetas com
generosidade, embora nunca em excesso para não despertar suspeitas.36

Raramente roubavam no mesmo dia em que chegavam. Aguardavam várias


jornadas de trabalho, enquanto construíam laços de confiança com os funcionários,
estudavam os hóspedes e seus pertences. O roubo ideal para o rato de hotel era
aquele que se conseguia sem a necessidade de forçar a fechadura, analisando os
movimentos das vítimas e as ocasiões em que o pessoal do hotel não circulava pelos
corredores mas muitos usavam chaves falsas e gazuas para forçar as fechaduras
durante a noite. Quando trabalhavam abrindo portas, vestiam pijamas para realizar a
operação, porque no caso de serem surpreendidos por outro hóspede simulavam
haver saído de seu quarto por um mal-estar. Além das chaves falsas, gazuas e
pijamas, completavam o instrumental umas maletas adornadas com etiquetas de
hotéis de luxo (que na “psicologia hoteleira” – segundo escrevia Reiss – era
sinônimo de viajante respeitável) e navalhas especiais para cortar as maletas das
vítimas.37, mas que nunca eram usadas para ferir alguém: como concordavam Reiss e
Locard, o rato de hotel jamais utilizava armas ou violência física em suas
operações.38

35
Sobre um bando internacional de ladrões de hotéis dava notícia a revista portenha Sherlock Holmes:
“Una banda internacional de ladrones”, Sherlock Holmes, Año II, n. 62, Buenos Aires, 3 sep. 1912, p.
45-46.
36
Idem, p. 213-215.
37
Idem, p. 222-223.
38
Idem, p. 220. LOCARD, Edmond. Le Crime et les Criminels. Paris: La Renaissance du Livre, 1925.
p. 101.

296
Os ladrões que pertenciam a associações de rats d’hôtels faziam uso de
cúmplices que ingressavam nos hotéis como visitas ou como entregadores, entrando
em seu quarto com a desculpa de deixar alguma encomenda, quando na verdade o
faziam para sair com as joias roubadas. Inclusive, algumas investigações policiais
haviam demonstrado que essas quadrilhas conseguiam introduzir cúmplices como
funcionários dos hotéis de luxo, para facilitar os roubos aos hóspedes. Reiss
explicava uma série de medidas que podiam ser tomadas para melhorar a perseguição
aos singulares ladrões, mas advertia que o rato de hotel era um “malfeitor
internacional por excelência” e que para combatê-lo era imprescindível adotar
medidas de polícia transnacional. Assim, voltava à ideia de os policiais sul-
americanos criarem gabinetes de polícia internacional, sob o modelo da União Postal,
a fim de estabelecer formalmente a troca de informações sobre os ladrões viajantes.
A fórmula repetia-se: ante o fenômeno da criminalidade internacional, era preciso
criar uma polícia técnica e transnacional.39

O livro de Reiss foi publicado em 1911, quase simultaneamente às memórias


de Dr. Antônio, e os exemplos que dava eram todos da primeira década do século
XX. Embora os ladrões de hotel de basse prège não fossem uma novidade absoluta,
o rat d’hôtel parecia ser um personagem nascido nesses anos. Personagem novo, mas
rapidamente famoso. Quando em 1925 Locard publicou Le Crime et les Criminels,
afirmava que o cinematógrafo lhe havia outorgado “uma auréola que, conhecendo-
os, não é absolutamente imerecida”: para o criminologista de Lyon, os ratos de hotel
haviam se convertido em “verdadeiros artistas”.40 A menção da indústria
cinematográfica seguramente aludia aos filmes “Rat d’hôtel” (1909) e “Rigadin rat
d’hôtel” (1912), ambas produções da exitosa companhia francesa Pathé-Frères, que
no início do século XX havia adquirido as patentes dos irmãos Lumière e contava
com centenas de salas na Europa e Estados Unidos.41

39
REISS, Rudolph A. Manuel de Police Scientifique (Technique). Op. Cit., p. 227.
40
LOCARD, Edmond. Le Crime et les Criminels. Op. Cit., p. 100.
41
O’BRIEN, Charles. “Motion Picture Color and Pathé-Frères. The Aesthetic Consequences of
Industralization”. In: GAUDREAULT, André; DULAC, Nicolas; HIDALGO; Santiago (eds.). A
Companion to Early Cinema. West Sussex: Wiley-Blackwell, 2012, p. 298-313. Longas-metragens
estreados na América do Sul também difundiram essa figura delitiva. Por exemplo, o periódico O
Jornal anunciava a estreia de Grand Hotel! (1927), drama protagonizado pela estrela Mady

297
Fosse pela via da ficção ou pela própria intensificação da mobilidade delitiva, a
figura do rato de hotel chegou rapidamente à América do Sul. Em 1905, o Boletin de
Policía de Buenos Aires noticiava o caso de Juan Smith ou Schorat ou Zemet, um
alemão de quarenta e oito anos de idade que havia migrado à Argentina em 1887 e
acumulava uma dezena de prisões por furtos, destacando-se na especialidade da
“punga hoteleira”.42 O cronista enfatizava seu semblante refinado, seu cabelo e barba
loira, quase ruiva, que lhe davam um ar de pessoa rica. Por sua vez, a revista
reforçava esse relato com a inclusão de uma fotografia em que se o via vestindo um
fraque elegante, chapéu e gravata borboleta, numa imagem parecida à do célebre rato
de hotel carioca, Dr. Antônio.

“Juan Smith”. Fonte: Boletín de Policía, año I, n. 9, Buenos Aires, 30 ago. 1905, p. 19 (à esquerda).
“Dr. Antônio”. Fonte: Memórias de um rato de hotel (seg. ed.), p. 293 (à direita).

Christians, em cuja trama aparecia a figura de um rato de hotel. “Grande Hotel Boulevard, Um
romance cheio de emoção vivido por Mady Christians”, O Jornal, Rio de Janeiro, 17 nov, 1929.
42
“Juan Smith o Schorat o Zemet. Un profesional distinguido huésped de nuestros principales
hoteles”, Boletín de Policía, Año I, n. 9, Buenos Aires, 30 ago.1905, p. 19.

298
Em 1908, o criminologista argentino Eusebio Gómez incluiu os “punguistas de
hotel” em sua classificação dos ladrões profissionais. Tratava-se de uma “classe
elevada, quase aristocrática, no mundo dos lunfardos”.43 No estudo de suas
características principais havia um dado importante para compreender a carreira
delitiva desses ladrões. Gómez considerava que a maior parte deles tinha começado
por crimes inferiores na escala da complexidade delitiva, como o de “burrista” e
“espiantador”.44 Subiam um degrau se convertendo em “escruchantes” e no final de
sua carreira já estavam em condições de se dedicar ao complicado ofício de rato de
hotel.45

Essa análise era próxima à leitura que João do Rio fazia da vida de Arthur
Antunes Maciel. O cronista anunciava o começo do final do grande rato de hotel
brasileiro, quando caiu preso em Juiz de Fora em meados de 1911. Não ocultava sua<