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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Figura 64 - Ōgami Daigorō. Capítulo CXXXII, Arms1.

Fonte: Página 30 do volume 06 de Lone Wolf and Cub, Throne of Lotus. Roteiro de Kazuo Koike e arte
de Goseki Kojima. Estados Unidos: Dark Horse, dezembro de 2002 (Dark Horse Manga).

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No Brasil, este capítulo recebeu o título Kanjô-Satsujin, no volume publicado em pela editora Panini em
abril de 2007.
Uma pergunta que não cala: Jizō, o Bodhisattva guardião das crianças, se fez presente
para defender Daigorō dos assassinos Yagyu que deram cabo e de sua mãe, Azami? Crê-se
que a resposta dessa questão seja mais fácil de responder que se Ana Rosa perdeu ou não o
filho de Raimundo, em O Mulato, de Aluísio de Azevedo.

À mesma quantidade de Anéis para os Reis-Elfos, três foram os desafios basilares


desta pesquisa. O inicial consistiu em situar a Religião a primeiro plano em comparação às
demais áreas do conhecimento aqui tratadas. Após idas e vindas, lidas e relidas, noites não-
dormidas e reflexões (muitas reflexões!) sobre os textos utilizados e o próprio objeto de
pesquisa, finalmente estruturou-se uma sólida base a fim de responder a pergunta-problema
que guiou esta inquirição. Como esperado em qualquer pesquisa, as especificações
delimitadas ainda na primeira versão do pré-projeto ganharam novos rumos e proporções.
Estes rebalizamentos converteram-se em delineações assaz singulares e agradáveis ao
corpo do trabalho. Alguns destes novos rumos foram tomados a partir de antigos, e
igualmente contribuíram para o rematar da empreitada. Situá-los devidamente à luz das
Ciências da Religião enquanto cátedra a fim que não atuassem de modo independente
determinou a segunda dificuldade basilar.
O último embaraço é de conhecimento geral dos pesquisadores de cultura visual:
escolher as imagens a ser trabalhadas. Quais imagens escolher? Onde estão os detalhes
religiosos? Como religião permeia a sociedade japonesa de sua idade feudal, foi preciso
estudar a fundo Budismo, Budismo japonês e Xintoísmo e como influíram nesta comunidade.
Entretanto, houve um cuidado de não ver o objeto de pesquisa como um produto de arte
religiosa propriamente dito, ainda que o shukyō osabi também apresente este fim, caso
previamente especificado.
A mesma quantidade de Anéis e Problemáticas, três capítulos. O fenômeno humano
Religião na condição de área do conhecimento protagonista norteou o primeiro capítulo desta
iniciativa, visando edificar o alicerce no qual o objeto de estudo pudesse ser tratado de modo
analítico, como pede uma dissertação de mestrado. Mesmo que nuances e pormenores tenham
sido apresentados, foi preciso sempre centralizar esta manifestação idiossincrática a uma
espécie dentre um colosso de informações. E, como necessário, à luz da pesquisa, Lone Wolf
and Cub dentro de sua especificade multitextual que permite sua crítica pelo agrupamento de
teorizações que estabelece as Ciências da Religião e as Ciências das Religiões.
Esta diferença de nomenclatura se relevou mais intensa no capítulo segundo, visto que
a Religião no Japão teve um processo diferenciado de formação do seu equivalente
“ocidental” (mas não menos conturbado, tal qual ocorrera na América Latina, p.ex.2). Para
situar metódica e metodologicamente o gênero textual no qual se visou incluir Kozure Ōkami
a discussão entre Religião e Arte foi conduzida para contemplar os processos formatório e
adaptatório de estatuto (objetivando responder “o que torna uma religião Religião e não
somente um elenco de doutrinas conveniente escolhidas?”), e enfim conhecer das
especificidades deste conjunto de produtos culturais que atendem as referidas transições que
abrangem shūkyō e shishō.
No primeiro capítulo, como também pesquisador da Literatura, me vali da Literatura
Comparada para um fim hermenêutico. No primeiro capítulo, cuidados e cuidados para que a
empreitada não se tornasse uma de Literatura Comparada e sim uma de Ciencias da Religião.
No segundo capítulo e ainda imerso na minha graduação em Letras, situei áreas da Linguística
Textual para convirem às Ciências da Religião e não agissem por si. A escaramuça
fundamental consistiu em não permitir que um dos campos delimitados para análise, a
Morfologia e a Semântica, sobressaísse ao outro. “Se valer da zona de conforto para sair da
zona de conforto”, teorizo.
Seria muito fácil apenas elencar o que há de religião budista e de religião xintoísta na
segunda parte de “A Invenção das Tradições” Religiões em Lone Wolf and Cub. Em verdade,
este foi um dos objetivos primeiros quando esta inquirição ainda era um pré-projeto de
pesquisa para ingresso no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da
Universidade do Estado do Pará. E isso não condiz, julgo atualmente, a uma pesquisa deste
porte. Os questionamentos “o que é Pesquisa?” “como se procede em uma pesquisa de viés
acadêmico?” “como exercer a pesquisa acadêmica mediante à pluralidade metodológica e
teórica das Ciencias da Religião?” assumiram contornos definitivos neste capítulo último.
Essas delineações viabilizaram tecer uma metodologia correta de estudo, que resultou em uma
Ciência da Religião (ciência enquanto “conjunto de ciências por mim escolhidas para sólido
desenvolvimento da minha pesquisa”) que me fosse idiossincrática para encarar devidamente
o objeto de estudo escolhido. O objeto de estudo escolhido inicialmente para esta tarefa.
É sabido que há a Religião e o que cada indivíduo entende como Religião a partir de
sua visão de mundo a partir de suas experiências culturais, sociais e artísticas. O que é
mostrado nas produções deste último viés é: como um indivíduo entende a Religião a partir
de sua visão de mundo fundamentada nos pontuados vieses. Caso o produto seja fabricado
por mais de uma pessoa, tem-se o resultado do diálogo de entendimentos da Religião a partir
de suas visões de mundo construídas por estas vivências. Este resultado do diálogo de
2
Lembrar aqui do tratado na nota 24, p.10.
entendimentos da Religião a partir de visões de mundo construídas por estas vivências é
apresentado em Kozure Ōkami, por ter sido produzido a quatro mãos. Logo, o objetivo do
capítulo último foi identificar essas leituras em passagens escolhidas de antemão a fim de
cumprir esta diligência. Identificar e demonstrar que, apesar das mudanças genetteanas de
conjutura, estas valores, funcionalidades e simbolismos religiosos não perdem suas
identidades fundamentais. E, ainda que fosse o caso, Kozure Ōkami seguiria como um Shūkyō
manga, já que uma das funcionalidades específicas deste (sub)gênero é modificar elementos
religiosos de tal forma que não sejam reconhecidos em uma primeira leitura. E a principal é se
valer da Religião para sustentar uma narrativa. Sendo esta Lone Wolf and Cub.

O professor Edward Said tratou da visão da Ásia por estadunidenses e europeus e


como estes a veem e tratam nos próprios termos. A academia prossegue nessa metodologia e
de acordo a teóricos que frequentam tais pairagens. Todavia e mesmo com o fascínio que este
continente exerça na Europa, Estados Unidos e Brasil, creio ser necessário estudar o que é
produzido no mencionado continente a partir de como os nativos deste o veem. E não mais a
partir de “monstros sagrados” das Ciências da Religião, como Rudolf Otto, Ludwig Andreas
Feuerbach e David Hume. Sim, há de levar em conta não somente como as diferenças
linguísticas e dificuldade no acesso a estes conhecimentos (isso quando não o estudo não é
encontrado somente na língua do[a] pesquisador[a] e não há um equivalente em uma língua
latina comumente estudada) desencorajam essas missões, mas o desestímulo por colegas e
professores se faz igualmente vigente. Não estou dizendo que os teóricos citados perderam
sua importância para a área, mas que seu “ocidentalismo” não é mais cabível enquanto ponto
de partida para estudo de algo não-ocidental, mesmo que grande parte dos estudos sobre
orientalismos no sentido de produtos culturais manufaturados na Ásia seja levado a cabo por
não-asiáticos.
Ademais e finalmente: por que não estudar Histórias em Quadrinhos à luz das
Ciências da Religião? E jogos eletrônicos? E role-playing games? E desenhos animados?
Como dito na introdução desta pesquisa, nunca estiveram presas somente ao púbico infantil. E
não há motivos para pensar o mesmo dos videogames, RPGs e desenhos animados. À vista do
Shūkyō osabi, há um ponto de partida para novas inquirições tendo estes objetos de estudo. De
acordo ao sempre ensinado, somente a Fé não é passível de análise. Então à Hermenêutica da
Religião todo o produzido sob os termos Arte, Mídia, Linguagem e Cultura? À Hermenêutica
da Religião todo o produzido sob os termos Arte, Mídia, Linguagem e Cultura! Os cientistas
da religião, enquanto pesquisadores sérios, não devem furtar-se a analisar as representações
do sagrado na mídia de massas, vistos os sabidos caminhos de mão dupla entre a Religião e
estes fenômenos igualmente humanos, e não permitindo que especialistas de outras áreas
deleguem sempre tais incursões.
¡Vamonos!
¡Vamonos!
¡Vamonos!

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