Você está na página 1de 33

PREFÁCIO

Esse conjunto de poemas foi compilado e editado pelo Rosa dos Ventos
Conclave de Bruxaria, com o intuíto de homenagear o Dia Internacional da
Poesia.

Nossa imensa gratidão a todas e a todos que participaram desse importante


trabalho.

Boa leitura!

Maurício Melo
Arauto Soberano do Rosa dos Ventos Conclave de Bruxaria
O Invisível
Denis Libório

Tal como o vento toca a superfície do lago,


Os efeitos do invisível sobre o visível se tornam evidentes.
Não nasce fruto sem arvore, não nasce arvore sem semente.
Não nasce a ideia sem pensamento, não nasce pensamento sem existência.

03 04
A Besta Lupina
Christopher René Varjão

O aroma da noite de luar que causa arrepio no mais nobre.


Deixastes cair em tentação o teu filho,
Agora, surge aquele que persegue tua luz todas as noites.
Incansavelmente, seus olhos faíscam em cor anil.

O riso insano quebra o silêncio que embalava protegidos de Pã.


Passos pesados e respiração acelerada, assim anunciava a chegada do lupino.
Atroz exilado da paz
Caístes na própria loucura.

Vassalo do tempo e senhor da sabedoria,


Foste traído por tua inocência.
Teu ódio é em vão.
Manchastes tua alma.

Lagrimas que agora alimentam o solo,


Deixe crescer a esperança que ainda resta.
Abrace-a, pois ganhastes mais uma chance de mudar os vértices

05 96
Sou Bruxa
Cris Oliveira

Sou bruxa sim


Sou filha da Deusa
Filha da lua
Minha essência vem dos ancestrais
Que aqui já não habitam mais
Sou bruxa sim
Minha força vem da Deusa,
Meu lar é o universo
Seus mistérios são minha escola
Sou bruxa sim
Meu orgulho é a Grande Mãe
Seus elementos me sustentam
O ar enche meus pulmões
O fogo aquece meu ser
A terra sustenta meus pés
A água refrigera meu espírito
Sou bruxa sim e assim sempre será.

07 08
PEREGRINO
Luís Gustavo Pereira

Sozinho sigo pelas estradas da noite.


Perambulo passo a passo sem rumo.
Sem rumo, não significa sem propósito.
Não há rumo quando se trata de cuidar e vigiar,
Aqueles que estão a viver e os que estão para partir.

Sozinho sigo pelas estradas da noite;


Por trás das portas desvelo e conservo o Poder.
Além dos caminhos encontro meu bálsamo;
Encontro-me com o Séquito de Espíritos;
Com Eles eu sigo, na Vida e na Morte.

O medo torna-se uma brisa.


A dor nada mais é que uma palavra.
E nada poderá ser rotulado em meu Ser,
Pois vivo na mais clara das esferas;
E trilho seguramente na mais profunda Escuridão.

09 10
Sou Heathen!
Helena Pereira

Honro minha palavra.


Só eu sou responsável por mim e por meus atos.
Eu não peco, não preciso de perdão.
Não me ajoelho diante dos meus Deuses,
Não espero que eles atendam meus desejos.
Tenho coragem e enfrento meus desafios.
Não vivo minha vida procurando batalhas, usando armas e sendo arrogante;
Mas se preciso for defenderei a mim e aos meus
Com fúria, mas nunca sem honra.
Farei o meu melhor e sei que não estarei só.
Minha honra não é doutrinação, ela aparece em meus atos;
Minha coragem não é soberba é minha determinação;
Minha fidelidade não é por interesse, mas sim por meus valores.
Sou o que minhas ações representam
E assim honro meus Deuses, meus Ancestrais e minha fé.
Sim, sou Heathen com orgulho!

11 12
Conjuro
Mauricio Melo

Meia noite
Minha hora
Um sinal...
Uma sina...
Poder soturno que alucina!
Vozes errantes, como lâminas a lapidar
O picaresco em mim...
Dança insana dos meus devaneios
Anjo de ébano de joelhos
Pedindo a mim o perdão...
Acorrentado por antigas palavras
Sigilos em sangue desenhados no chão!
Dizem que com o diabo não se brinca
Mas se existe verdade nisso, há algo muito pior...
Com nascidos de águas profundas
De onde a noite é oriunda
Jamais se deve brigar!
Pois têm nos lábios doçura
Do veneno que perdura
Mesmo depois de matar!

13 14
NO MUNDO DA LUA
Mirian Marclay Fraga

Quando descobri na integralidade telúrica meus fins


E dei a mim o princípio da dúvida, meditei a arte quase dúbia,
Porém exata, das fórmulas abstratas que da energia surgiam.
Mesclei estrelas mortas vindas das luzes findas, que salpicaram
De poeira cósmica os meus receios.
E nos seios das novas galáxias,
Evoquei novas máximas a serem tidas pelo corte do punhal,
Como um novo ritual de libertação.
Quando o grande olho intercalou meu espírito entre
Inquietude e desassossego, pratiquei o desapego material
E evolui.
Impregnou-se em meus veios o calor escarlate de sóis
Transeuntes de outros mundos e planos.
A esfera foi sorvida no cálice leitoso
Que fomenta a sabedoria dos neófitos.
E sob a frondosa árvore mediúnica
Entoei minha divindade.

Fruto das escolhas que sou


É a bruxa
Que sempre me habitou...

15 16
Os opostos
Denis Libório

Talvez a tua tempestade seja uma gota d’água,


talvez a tua ventania seja somente suspiro,
talvez o teu inferno seja o meu Paraíso.

17 18
O ultimo pedido do rei
Christopher René Varjão

Antigas escrituras que foram perdidas no tempo, Todos os dias, o nobre espiava a bela mulher.
Voltam em fragmentos, repletos de uma antiga historia. Ele sabia que nunca iriam ficar juntos, pois ele era a morte.
O amor proibido. Aquilo o consumia, manchava sua alma. Mas ela não tinha culpa nenhuma.
Incompleto do completo
Complexidade na simplicidade Invernos se passaram, o rei estava no seu fim.
O sonho estampado na realidade. Mas ele não queria que tudo que sentiu fosse devorado pelo vazio.
Ela levava o calor da vida por onde passava. Invocou sua ultima gota de vida.
Ele congelava tudo que já não havia mais vida. Pousou seu punho junto a uma pena num papel velho,
Ele era o rei que vivia apenas em proteger os mais fracos. Ali gravou a declaração:
Ela dançava pela floresta, protegia tudo que pertencia ali. “Não importa o quanto estudei o macrocosmo.
Eu esqueci o que continha na essência de amar.
Numa tarde, o rei saiu de seu castelo. Quando pensei, já era tarde demais.
Triste, pois estava amargurado de sempre viver sozinho.
Ouvia de longe um cantar, era ela. Não enxerguei que havia encontrado a última estrela da grande constelação.
Aproximava-se cada vez mais. Ignorei todas as lições do amor, e definhei no tempo.
Descalça e com flores vestindo seu corpo tão delicado. Já é tarde demais para dizer que todos os verões desde aquele,
O rei, encantado, não soube como lidar, então apenas reverenciou. Admirei seu amor pela vida, mas você podia me ver.”
A ninfa sorriu e pediu para que ele não se se curva perante ela.
Então se foi.

19 20
Treze Bruxas em Reunião
Luma Elora Aislin

Uma bruxa prepara


O fogo no caldeirão
Duas bruxas purificam
Cada mão
Três bruxas rodam
Batendo os pés no chão
Quatro bruxas nos portais
Saúdam o guardião
Cinco bruxas formam
O pentagrama de proteção
Seis bruxas evocam
Amor no coração
Sete bruxas borrifam
Água e sal para a purificação
Oito bruxas entoam
Uma suave canção
Nove bruxas giram
A roda em cada estação
Dez bruxas evocam
A Deusa com devoção
Onze bruxas juntam
Suas varas de condão
Doze bruxas fazem
Da magia uma oração
Treze bruxas tramam
Caminhos de evolução
Na espiral da vida
Que é movimento e ação
As treze mulheres vivem
Em união.

21 22
Aos Meus
Dair Rofhessa Mac Morrigu

Vivo
Luto
Lido
Faço dessa terra meu abrigo
Ponho-me de pé ao menor sinal de perigo
Na minha porta, finco a cabeça do meu inimigo
Vivo
Luto
Morro
Sei que Ela virá em meu socorro
E se não vier, de mim não verás choro
Pois sei que me esperam do Outro Lado
Ela com sua Lança
Ele com seu Cajado
E ali sim, deixo meu legado
Pois sei que contra inimigo nenhum me acovardo.
Vivo
Luto
Livre
Corro pelo mundo como um tigre
Ecoo pelo Universo no mais belo timbre
E entendo que nada mais denigre
Meu espírito Guerreiro.

23 24
Pacto de Lilith
Raven Luques McMorrigú - Everson Romero

Tu que és a Noite Eterna e Oscura,


Ancestral Lilith do Negro Véu,
Coruja, Bruxa, Vontade Nua,
Mulher que urra debaixo do Céu...

Da Serpente os Caminhos herdaste


A Tortuosa Via da Iniciação,
infinitas Legiões de Demônios geraste,
Oh Vaso de Veneno, Sangue e Paixão...

A Adão seduziu a carne e a alma,


Soberbo, o deixaste, orgulhoso e sozinho,
A Eva ensinaste a não mais esperar calma,
Com o fruto feitiço, lucífero descaminho...

Teu Voo Nocturno, Desejo e Vingança,


A estrangular dos homens o pescoço e a natura,
Feiticeira e Bruxa da Negra Aliança
Perfume de olíbano, sangue e datura...

Contigo sela o Satânico Pacto


A Grei de Strigas e Lobos errantes,
E em Orgia Sabática se encerra este Ato
Oh Primeira Bruxa, Vampira e Amante!

25 26
Necromanteion
Lucas Melo

Em murmúrios inaudíveis se fez


O feitiço injuriado e maldito.
Do lado dela estavam os seus fiéis
Em acrópole muda e sombria...
De um reino funesto, pútrido, maligno.

De onde se extrai a vida,


Passado e futuro solvem-se
No cálice de sangue ancião.
Do santo nome, divina alma invoca.
Alma não viva, alma no sangue morta.

27 28
Eu?
Pedro Henrique Neves

Trancado na casa perambulante:


Uma mistura dos elementos das estrelas
Com o abstrato que veio antes
De qualquer manifestação de matéria.
Retornar à origem que é o nada
É vertigem, movimento, fluxo,
Preocupada a mente, alucinada sente
A materialização etérea.
Sou eu, (o Nada)
Passando pelo Tudo
E retornando sem pressa.
Morreu, (dá nada)
Sou eu, o conteúdo
Que realmente interessa.

29 30
Aviso
Mauricio Melo

Deixe-me com meus Santos


Deixe-me com meus Anjos
Com meus Deuses e Ancestrais...
Antes que me volte em sua direção
Não queira as palavras da minha oração
Pois sei ferir a alma
Destroçando o coração!
Aviso dado por quem conjura
O azedo azar como tortura
Usando a morte como atadura
Sempre pronto a costurar!
Destinos teço em minha roca...
Sabedoria que é minha
Mas que posso partilhar!
Só não venha aqui pedante
Pois detesto arrogância
Lanço-a as chamas para queimar!

31 32
Pedro Henrique Neves

A luz me acompanha em meio a escuridão.


Não quero caminhar na luz, na plena satisfação,
Eu quero levar a luz comigo, pro fundo do poço
E iluminar o rosto que quem caiu.
Iluminar as trevas é melhor do que
Estar em local já iluminado.
Apontar a luz pro escuro
E ajudar a libertar quem está aprisionado,
A luz atinge o irmão do lado.
Então, se és luz, que tal ir pra escuridão
Que não seduz, mas é onde precisa de luz.
Caminhemos na escuridão sendo luz,
Tiremos todo capuz,
Mostremos nossa esquizofrenia
E pintemos o breu com poesia,
Depois de já pintado e iluminado
Iremos para outro breu, outro dia
Sem levar eu, levando luz
Levando alegria pro triste,
Pro que vive no maior inferno que existe.

33 34
EXISTENCIALMENTE VAZIO DE NÃO SER
Luís Gustavo Pereira

O Frio transpassa meu Ser, É chegado o momento de partir;


A Luz novamente se faz aparecer; Não me refiro para Outro Mundo ir;
Há briga e dúvida entre o que é certo e errado; É sim chegado o momento de agir.
Mas no fundo sei que não estou enganado. Com o apoio de tudo aquilo que me fez surgir - e hoje existir
Os sons que agora vibram no Ar,
Ecoam traduzindo sentimentos de alguém que só sabe Amar. Denso Amor que minh’alma lava;
Por mais que se tente outro caminho buscar, Rogo aos meus que mantenham de pé cada um sua clava.
Acabo sempre prezo àquilo que jamais tento Ousar. Aos imundos nada desejo - nem sequer nutro ou sinto raiva.
Existo e simplesmente trilho o Caminho que meu destino rumava.
A benevolência dos Antigos não posso omitir:
Concordam aqueles que comigo tudo puderam sentir, Doce e Sagrada Morte, faça-me em Vida uno contigo!
Quando o Reino da Escuridão se fez em mim emergir, Que todo e qualquer recôncavo me sirva de abrigo.
A dor que rasgou meu peito transformou-me num sereno fluir. Que eu sempre possa estender minha mão a um amigo;
Jamais de mim ouvirão: “eu obrigo”.
Aguçados sentidos que pela noite perambulam:
Em vigília e cuidado àqueles que a tudo burlam. Meu Ser vagarosamente passa a deslumbrar plenitude:
Anunciam a esses que o pior ainda está por vir; Aos meus afirmo que o vazio também é uma virtude.
Mas jamais para aqueles que souberem ouvir. Que não pequem por excesso nem por falta de atitude;
Felizes são aqueles que diferem solidão de solitude.
O Silêncio fala mais que qualquer palavra.
A imensidão que o Calar provoca a mim desbrava.
O Querer já não mais importa - já perpetuei minha lavra.
Ao meu lado só tenho, mantenho e permito gente brava.

35 36
Poema para Morrigan
Claudia Bandeira

Guerreira, Astúcia, força e nobreza


É pura fortaleza
Deusa forte
Beleza em forma de morte
Força em forma de mulher
Das nossas guerras a certeza
Da tua força encontrar
A energia necessária
Para continuar a lutar
No lado escuro da roda
No meio da escuridão
Que tua lança seja nossa guia
Nesse verso em forma de oração
Agora e na hora de nossa morte
Um brinde a Deusa a Morrighan
Poder, força e proteção!

37 38
Raio Solar
Diego Far’fetch Trevas

Flechas luminosas crescem no horizonte


O Zênite equatorial em céus cristalinos
Verde azul turmalina do brilho opalino
Das planícies de vento suspensas

Erbúneo fulgor solar


Devastação de fogo sopra ao vento
Momento sereno do tempo
Radiância sutil queima em anil o firmamento

Reflexos áureos na linha do mar


No tênue mármore suspenso em linhas no ar
Refrata centelhas de cores no espelho das águas
Luminares de fogo na crista das vagas

Corona apolínea em esplêndido apogeu


Descende flamas em achas no céu do equador
Ardor em glória de ouro, aura de calor
Espírito em vapor de água do chão ascendeu

Império de luz que à terra se impõe


Vive e morre com o passar das estações
Mudança da vida, eterno pulsar cósmico

39 40
Filho da Lua
Matheus Azevedo

Eu sou o filho da Lua. Eu sou o filho da Lua.


Minh’alma é composta Meus olhos vêem nas trevas
Por milhares de estrelas E meu corpo desperta os eu.
Que reluzem em meus olhos. Eu porto a semente que faz germinar.
Assim como Lilith, a primeira,
Eu sou o filho da Lua. Jamais serei dominado e
Sou o filho livre como Jamais me submeterei a outrem.
Assim é a bela Ártemis. Assim como Lilith, a Mãe,
Miro o céu com o meu arco Eu sou o portador da sedução.
E, retesando-o, lanço uma
Flecha de luz aonde bem quero. Eu sou o filho da Lua.
Eu habito os infernos e
Eu sou filho da Lua. Ando sobre a terra.
Eu habito as trevas e Sobre a noite, espalho
As domino assim como Hécate. A minha semente em
Aos que desejo, levo o terror Corpos ainda imaculados.
E os fantasmas atormentadores.
Sou o lado negro da Lua e sou Eu sou o filho da Lua.
O cão infernal que uiva na noite. Sob sua luz eu sou poderoso,
Sob sua luz eu sou soberano,
E sob a sua luz encantadora,
Eu posso beber a vitalidade...

41 42
Pedro Henrique Neves

Vou empurrado pelos ventos galácticos É o espírito entediado consigo,


Até sua morada, como se estivesse ao lado, Envolto pela solidão do vácuo infinito,
Mas não vim pela estrada, vim atravessado Querendo do seu lado um amigo,
Pelo saudoso nada. Ou o conhecimento da luz.
Minha origem é longe: Expansão! É a palavra chave
Lá onde se isolam os monges Da criação! Eu tive que tirar
Para caminharem nas ruas e vielas Do meu olho uma trave
Do próprio ser. Para poder remover o cisco do seu.
A alma tem uma janela, Enfim, no fim, falei tudo isso a você
São os olhos, pode ver. Será que entendeu?
Eles fecham, Entendeu a origem da estrutura?
Para não mais ver, Corpo e mente
Ou ver só dentro.. Vai saber.. São os dois que você sente,
Enfim, olha para mim, Mas quem é você que sente?
Vim só mostrar você a você mesmo, É a origem da estrutura,
O lado bom do ruim O ponto inicial que expandiu
E o ruim do bom. É o protagonista da loucura
Conseguir ver tão claro assim Desse planeta denso
Nessa terra é um dom. Onde você caiu.
Tais ventos que me empurraram
No caminho me mostraram
A origem da flor da vida.

43 44
Osonmilu Argdão

Nas conjunturas dos sois, que com mesma força se atraem, se chocam, quem de vós
poderás impedir meu calor sobre teu corpo?
Sobre ele percorro a serpente mais sagaz e assim te envolvo lhe mordo o pescoço, a
cada abraço lhe mato, lhe liberto.
Quiseras tu fugir, até onde meus pensamentos não te encontrem, tão densos que
tu podes sentir, renuncia a tudo menos aos abismos que coloco em teus pés e as
chamas que ergo em teu coração.
Se um dia me levar à ruína como previ em visão, que o nosso mundo se torne escom-
bros entre o encontro de dois sois.
Sou teu vicio mais mortal!
E você meu desejo mais letal!
E assim matamos um ao outro.
Por tudo que não dizes...
Por tudo que não omito...
Pelos confrontos e conflitos...
Amamo-nos sobre abismos...
Amaldiçoou a tua chegada
Amaldiçoo a tua partida
A mesma lança que te fere é a mesma que me abre as feridas...
Bebe da minha dor, da minha luxuria e do meu desejo, pois também bebo de ti.
Dessa sombria alquimia de provocar dor em amor, deitamos em uma cama de áspi-
des e escorpiões.
Encha a taça!

45 46
14
Poema para Airmid
Morrighan Brigante

Beleza e palidez em um largo sorriso Entregue ao chão


Amou os mortais e fez deles seus preciosos amigos Serem lançadas ao vento
Ombro estreito e esguia Gritar
Cabelo baio 365 lamentos dentro do seu coração
Da cor das éguas de soberania Osso para osso
Escorrem pelas costas Veia para veia
Tocam a terra Sangue para sangue
Solo querido que ela tanto ama Tendão para tendão
De onde brotam suas filhas Essa era sua magia
Vive abaixada a catar o chão Na mais feliz companhia
Com as mãos ligeiras Do loiro e adorado irmão
Mãos maternas de gratidão Ao perceber que a vida lhe retornara
Afaga suas crias Mas não era mais querida e amada
Lindas crias Foi para longe e não mais quis voltar
Doces e amagas crias A fim de esquecer a grande dor
Tudo podem curar Que em seu peito trazia a encerrar
Tinha um irmão de habilidade tamanha Mais ainda hoje ela é vista
Que o próprio pai se pôs a invejar Embora muito bem disfarçada
O ciúme é perfídia Para não ser reconhecida
E sem nenhum aviso Não se mostra verdadeiramente a danada
A espada viu fincar Não vive escondida
E a maestria do irmão findada E sim em lugares a vista
Até virar a página seguinte Por todas as sendas da fé
Onde a vida ele retornara Na simples rezadeira com a arruda
Sempre a natureza volta Na xícara de chá que me deixa muda
Ao seu antigo curso E finge ser uma mulher mortal
Como espiral E quem dele com coragem se aproxima
Abre e fecha Recebe centenas de presentes
E o rio no leito corre seu rumo Ganha a cura do corpo
Viu suas filhas amadas O alívio da alma
Que nasceram do corpo E a calma na mente

47 48
O Rio da Morte
Diego Far’fetch Trevas

A água macabra que corre nos rios do nada


Se derrama em minha boca aberta desdentada
Esquecido e frio nas terras do pesadelo
Volto e acordo desmembrado pelo medo

Cadência errática, passo claudicante


Sufoco engolfado na garganta berrante
Ardência na pele, atmosfera estafante
Queima meus olhos, o sonho inconstante

Como o dia escorre em horas de luz


Nuvens vagando nos céus da mente
Corroem a lembrança vaga evanescente
Do mundo do além, do real inconsciente

Raiva, medo, a saliva escura e amarga


Frustração e estranhamento, desgraça
Maldição de existir nessa plaga
Escuridão me leva de volta ao mundo das almas

Trovão de arco voltaico reverbera em meus nervos


Agora tão cedo, não voltarei à terra do pesadelo
A riqueza, tesouro da mente ao meu alcance esteve
Parece que nunca mais volverá a estar em meus dedos

49 50
Vênus Escura
Matheus Azevedo

Escavei meu Jardim Selvagem. Lancei-me à ela e àquele fogo alaranjado.


Abri mil túmulos - inclusive o meu- Queimei e cai ao chão, abraçado aos
Simplesmente para inalar o passado Mortos do meu Jardim Selvagem.
E constatar que nada daquilo me era Beijei a todos eles e a seus ossos
Mais tão familiar como fora uma vez. Impregnados pelo tempo que morreu.

A estrela matutina brilhou no céu Ali deixei-me ficar, aos olhos da Vênus Escura
Desanuviado e ofuscou as duas luas Que perpetuou sua dança ofídica e fez ressoar
Tão amantes e amadas por mim. Sua gargalhada indubitavelmente misteriosa.
Algo estalou em minha mente e
Meus sentidos e minha 2ª pálpebra cerrou-se.

Ouvi um canto silencioso que parecia


Emergir das águas frias e mortas.
Um perfume selvagem como o meu
Jardim despertou-me e diante de
Meus olhos resplandecia uma Vênus Escura,
Nascida do fogo que crepitou sem
Combustível aparente a alimentá-lo.

Ela gargalhou docemente e dançou


Ao som de uma música que só ela ouvia.
“Venha! Venha! O fogo lhe chama, não ouves?”

51 52
Paula Machado

A espada gira, fazendo o ar gemer


As Nornes resolveram olhar para você
Com seus terríveis olhos negros
As Valquírias despertam e olham para a Terra
Com seus profundos olhos azuis
A Terra estremece embebedada pelo sangue dos homens
Não cruzei seu caminho ali, e saí ilesa a tudo
Hail Freyja!

Uma lâmina qualquer rasgará sua carne!


Uma lâmina qualquer perfurará suas entranhas!
Hoje é o seu dia!

Caminhando na densa névoa


Com o ódio esfriando por todo o corpo
Um corvo voa à minha frente
Abrindo a cortina de fumaça
Vejo então sua carcaça podre estendida
Visão doce da vingança
Hail Oden!

Nenhuma Valquíria te buscou


Ali eu pude sentir
Grudada em sua carcaça
Seu espírito atormentado
Tormento de uma alma sem honra
E meu repúdio a ti,
Dará a força que falta
Para te levar ao Salão de Hella

53 54
Maldição
Mauricio Melo

Insossa ovelha de pentagrama


Feliz a pastar no prado da ignorância...
Marcada pelo ferrete forjado do vil metal
Oriundo das trinta moedas de Judas
Traição é seu legado!
Destino traçado ao sem rumo
Pois não há caminhos para quem trai...
Amaldiçoada por sua indolência
Seguirá sempre falsos profetas
Que tem como meta os bolsos forrar...
E quando no vale da sombra da morte
Sua triste sorte findar
Hécate, a escura rainha
Na treva que sempre caminha
A paga lhe conferirá!

55 56
Rhiannon
Mauricio Melo

Égua alada da meia noite


Banhada no sangue dos inocentes...
Me lava com água fluída
Prata líquida de tuas correntes!
Cavalgo contigo na relva abissal
Despido dos medos e anseios...
E nos seios de Gaia nos fartamos
Como animais que somos
O abandono do mundo, há um segundo deixei
Permiti licorosa loucura
Bebi dos sonhos de Érebo
E com ele me deitei!

57 58
AMOR POR AMOR
Erika Bokel Schoellkopf

Reflete o amor, arte do mistério.


É tão livre e profundo, o amor rima com tudo.

Amor é canção, não força a barra, não escora e,


Se chora é por ter alcançado um coração.

Dono de si mesmo voa livre de proibições.


Na brisa do vento pega carona em tempestade de ilusões.

Elevado e humilde lá estão o amor.


Vem até nós, Seres de certo torpor.

No cenário da vida, o amor não se repete, ama sempre de novo.


Presente, o amor não se desfaz e não se prende à própria falta que ele faz.

Ensina o amor a qualquer um...


Como canto dos anjos e cheiro de flor, está porque é.
Simples assim:
Amor por amor.

59 60
pela última vez, adeus.
Gabriel Leal

De joelhos sob a Grande Senhora


Entre lágrimas sorri
Questionei-a onde encontrar
O amor que outrora vivi
Respondeu-me a Bela Rainha:
- Siga as trilhas que lhe ponho e teu sonho irás de alcançar
Desvairado me ergui e andei a buscar

Tomado de desejo, por vastos caminhos te procurei


E a cada ladrilho um pedaço perdi
Foi assim, quando finalmente encontrei
Oh Deuses, logo notei
Que já não restava nada de ti

61 62
Diagramação e identidade visual por
Gabriel Leal - Membro do Conventículo da Serpente

Você também pode gostar