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AS AVENTURAS DE UM

VIGILANTE BRASILEIRO
M
uito antes do ca- dos gibis, com histórias
nais por assina- escritas, pelo mestre Ge-
tura e da era do deone Malagola e com
streaming dominarem desenhos de Flavio Colin
o mundo do entreteni- e depois Osvaldo Talo.
mento, coisas bem legais Mas, como paixão de fã
passavam na telinha do não têm limite, resolvi
brasileiros no século homenagear o persona-
passado e que valem a gem com essa humilde
pena serem resgatadas. publicação, que conta
Um desses casos é o clás- com uma entrevista com
sico Vigilante Rodoviá- Carlos Miranda, ator que
rio, série pioneira da TV interpretou o Vigilante
brasileira e da América Latina, nos anos na série, interpretações exclusivas de
1960. Personagem tipicamente brasilei- grandes parceiros do traço e ainda uma
ro, o vigilante Carlos cativou toda uma história em quadrinhos, escrita por esse
geração, com seu senso de justiça e ética que vos fala, brilhantemente ilustrada
admirável. Inclusive eu, que assistia com pelo jovem e talentoso Gleisson Cipriano.
grande fixação cada um dos 38 episódios Espero que curtam.
das aventuras do Vigilante em nossas es- Aquele abraço.
tradas. Além da série de TV, o nosso herói
chegou a outras mídias, como as páginas Paulo Kobielski - Editor

Expediente:
Expediente
Editor: Paulo Kobielski Colaboradores:
Projeto Gráfico: Pablito Aguiar Kris Zullo (SP), Julio Shimamoto (RJ)
Ilustração da capa: Walter Junior (SP) Adan Marini, Sílvio Ribeiro (RS)
Layout da capa: Natalie Matiolo Adão de Lima (RS), Gleisson Cipriano(SP)
Contato:
pr.kobielski@hotmail.com / Rua Carlos Gomes, 961 Bairro Tupã Alvorada-RS CEP: 94824-380
Esta é uma publicação do Fanzine Mundo Gibi. Julho/2019
VIGILANTE
RODOVIÁ R IO:
HERÓI PIONEIRO DA TV BRASILEIRA

A
ntes mesmo das aventuras intergalác- 1973. A maior parte da programação era de
ticas da nave Interprise cruzarem os “enlatados” norte-americanos. Assim, Ary
confins do universo em Jornada Fernandes decidiu criar um personagem
nas Estrelas ou, das visitas as páginas da com hábitos genuinamente brasileiros, e
história mundial, em O Túnel do Tempo, não usar os nomes tradicionais como John,
séries criadas respectivamente por Gene George, Richard, William, ou lugares como
Roddenberry e Irwin Allen nos anos de Los Angeles, Nova Iorque e São Francisco.
1960, o Brasil foi um dos países pioneiros Este herói ficou nacionalmente conhe-
na América Latina, ao produzir um seriado cido apenas pelo primeiro nome e sua pro-
exclusivamente para TV, O Vigilante Rodo- fissão, CARLOS, O VIGILANTE RODOVIÁRIO.
viário. O responsável por essa façanha foi O seriado estreou na TV Tupi, Canal 4, em
Ary Fernandes, ator, cineasta e produtor. Março de 1961. O sucesso foi tanto que
Na década de 1950, a TV brasileira dava atores disputavam uma participação espe-
seus primeiros passos, poucas eram as fa- cial nos episódios. A produção do seriado
mílias que possuíam um aparelho em casa viajava a vários estados apresentando-se
– meu pai comprou nossa primeira TV, em ao público e distribuindo autógrafos e
tirando fotos com personalidades locais. em casa, visto que o aparelho era uma
O assédio dos fãs era tão grande que novidade. Foram feitas quatro adapta-
eles não conseguiam atender a todos. ções para o cinema, mas foram exibidos
Aproveitando o sucesso, foram produ- apenas três longa-metragens, originados
zidos bonecos de borracha (hoje, action da compilação de quatro episódios da
figures) do Vigilante Rodoviário, modelos série, com os títulos: O Vigilante Rodo-
do carro patrulha utilizado na série, um viário, O Vigilante e os Cinco Valentes e
Simca Chambord. O Vigilante e o Mistério do Taurus Trinta
e Oito. Sendo que foram filmadas cenas
para emendar uma história na outra.
Além da TV e do cinema, o Vigilante
também invadiu as páginas dos gibis,
muito consumidos na época. Aprovei-
tando a popularidade da série, em 1962,
a Editora Outubro chamou o roteirista,
desenhista e argumentista Gedeone Ma-
lagola, que ficou famoso pela criação do
super-herói Raio Negro, para transportar
para os gibis as aventuras do Vigilante Ro-
doviário. O desenhista convidado foi nada
mais que... Flávio Colin, que desenhara
outro personagem famoso na época, O
Anjo, personagem oriundo das novelas
radiofônicas estadunidenses. Depois de
As histórias do Vigilante Rodoviário Colin, o personagem passou para as mãos
eram centralizadas do trabalho desempe- do desenhista Osvaldo Talo, resgatando
nhado pelo policial Carlos e seu parceiro, o clima da época, ambiente , vestuário,
o cão pastor alemão Lobo, na rotina de veículos, etc. Os roteiros depois passaram
patrulhamento das rodovias paulistas. para Helena Fonseca e Talo e as capas
Nas aventuras eles se arriscavam na per- ficaram por conta de Jayme Cortez e Talo.
seguição de assaltantes, prisioneiros fugi- Ao todo foram publicados 12 números
tivos e sequestradores, sem nunca deixar da revista até 1964.
de zelar pelo bem estar e segurança dos Em 2001, o editor e roteirista Rober-
cidadãos, em especial as crianças. to Guedes chegou a escrever uma gra-
Mais tarde, O Vigilante Rodoviário phic novel do Vigilante Rodoviário para
foi levado para o cinema para suprir o o Studio Elenko, entretanto o projeto,
público que não possuía aparelhos de TV infelizmente, não saiu do papel.
Mas como diz a máxima popular: (nasceu em 29 de julho de 1933) e mais
“tudo que é bom dura pouco”. Após 38 ainda, escrever e roteirizar uma história
episódios filmados de forma heroica, a em quadrinhos de seu personagem má-
produção do Vigilante Rodoviário foi ximo, O Vigilante Rodoviário. E isso só
suspensa por problemas financeiros. foi possível graças ao engajamento de
Mesmo com seu final, a série foi reprisa- um jovem e talentoso artista, que tive
da em 1962 na TV Cultura, depois pela a honra de conhecer no FIQ (Festival
TV Excelsior em 1968, pela TV Record Internacional de Quadrinhos) de Belo
em 1971 e pela Rede Globo em 1976. Horizonte em 2018, e que não nega
O seriado deixou marcas de afetivas sua predileção pelos caninos. Gleisson
nas pessoas que o assistiram. Muito Cipriano, um paulista da cidade de
dessa empatia se deve ao carisma do Bauru, que desenha como poucos, nos
ator Carlos Miranda que incorporou o brinda com uma narrativa de encher
personagem de tal forma que, após o os olhos em seus detalhes. Boa leitura
término da série, entrou para a Polí- e apreciem esse tributo ao nosso mais
cia Rodoviária, passando de persona- famoso “Vigilante”.
gem fictício a personagem real, caso
único na história da TV, inclusive
entrando para Livro dos Re-
cordes. E isso não é pouco,
em se tratando de um
personagem criado
no Brasil e compe-
tindo com as inú-
meras produções
estrangeiras de
sua época.
The End...
Não, não é o fim.
Por que enquan-
to existirem fãs,
seus ídolos não
morrerão jamais. É
essa premissa que me
fez entrevistar o Carlos
Miranda, hoje com 86 anos
“LOBO EM APUROS”
Vigilante Rodoviário! Ro te iro: Paulo Kobie lski
De noite ou de dia, Arte: Gle isson Cipr iano
Firme no volante,

Vai pela rodovia,


Guardando toda estrada,
Forte e confiante,

É o nosso camarada,
Bravo Vigilante! ”

Hum?

Pai, o que
você está
assistindo?
Uma série da
tV do tempo
que teu PAI
ERA GURI.

Posso
assistir
contigo?
claro!
senta aí,
filhão.

Pelas estradas do
Brasil, o Vigilante
Rodoviário Carlos
tem a missão
de patrulhar e
zelar pela paz
e a redução
de acidentes,
cada vez mais
frequentes nas
rodovias.

Mas não é só pela paz nas estradas que nosso Vigilante deve zelar..
ENTREVISTA COM
CARLOS MIRANDA,
O VIGILANTE RODOVIÁRIO

U
ma das séries clássicas da TV bra- Desde criança quis ser ator de cinema
sileira, O Vigilante Rodoviário, teve principalmente.
no seu protagonista, o carismático
Inspetor Carlos um dos responsáveis pelo 3-Daria para descrever o que era exa-
sucesso desse programa pioneiro, não só tamente os estúdios Maristela? O que
no Brasil, mas também na América Latina. você fazia nesses estúdios?
Carlos Miranda, ator que interpretou o Comecei como office boy, depois mo-
herói das estradas, e que hoje conta com torista, e em seguida fui trabalhar como
86 anos (nasceu em 29 de julho de 1933), auxiliar de produção de filmes, comer-
lembra nesta entrevista exclusiva, dos mo- ciais, etc....
mentos que marcaram a produção de O
Vigilante Rodoviário, como as gravações e 4-Você sabe quem criou O Vigilante Ro-
a participação de atores famosos na série. doviário? Quem escrevia os roteiros?
Quem criou o personagem foi o Ari Fer-
1- Como tu está Carlos? Como são as ati- nandes, juntamente com o Alfredo Palá-
vidades do Vigilante Rodoviário hoje? cios que era o produtor. Quem escrevia
As atividades do Carlos Miranda (o perso- os roteiros era o Ari com a colaboração
nagem era Vigilante Rod oviário, rsrsrs), de outros.
são principalmente apresentações em
Encontros de Carros Antigos por todo 5-Como foi o processo de escolha para
Brasil, palestras sobre a série, e sobre o papel do Vigilante Rodoviário?
segurança (eventos na Polícia) Fizeram uma seleção com mais de 200
atores e policiais. Quando já estavam de-
2-Você trabalhou em circo e depois foi sistindo, a D. Inês mulher do Ari, sugeriu
para o teatro. O que o levou a essas que eu fizesse o teste. Como eu já tinha
escolhas? feito o curso de teatro no SESI, tinha algu-
Digo sempre que “o artista nasce pronto”. ma experiência , e felizmente fui escolhido.
6-Tu já conhecia as características do Foram filmados (não havia gravação na
personagem que iria interpretar antes época) em S.Paulo – capital e interior,
do processo de escolha? Paraná, Rio de Janeiro, e Minas Gerais.
Depois de escolhido, tomei a iniciativa
de fazer um treinamento na Escola Trei- 9-Como era a rotina de gravação dos
namento de Policiais Rodoviários em episódios?
Jundiaí – SP. Nós filmávamos de 2ª a sábado, e a maior
dificuldade era mesmo a dificuldade fi-
7-Você já tinha feito cinema ou te- nanceira, mesmo contando com o pa-
levisão? Se não, como foi atuar pela trocínio da Nestlé.
primeira vez diante das câmeras?
Eu já tinha feito teatro e trabalhava como 10-Como foi a sua relação com o Lobo?
assistente de direção em cinema. Estava Foi a melhor possível. Desde o primeiro
acostumado com toda a estrutura de dia nos demos super bem. Com o tempo
cinema. ele até ficava na minha casa para irmos
trabalhar juntos. Um animal super inte-
8-Onde eram gravados os episódios ligente. Viajávamos juntos também, pois
do Vigilante Rodoviário? nem sempre seu dono podia ir conosco.
11-Que horário os episódios passavam o Tuca), Luiz Guilherme, e outros... Não
na TV? Você os assistia? Gostava do tenho muito contato com eles por causa
resultado final? de nossos diferentes trabalhos. Com o
. Passava às 4as feiras às 20:30hrs. Nem Juca Chaves e o Ari Toledo quando vêm
sempre eu podia assistir, mas hoje vendo fazer shows aqui na região, nos ligamos
os episódios acho que foi muito bem feito e vamos sempre bater um papo após
considerando as dificuldades técnicas os shows.
da época
13-Você assistia algum outro seriado
12-Os demais atores do seriado, você na TV ou cinema? Quais? Tinha algum
mantêm algum contato ainda hoje? preferido? Por quê?
Quais? Não tinha muito tempo para isso, mas
Todos os atores que trabalharam na sé- sempre que possível vou ao cinema.
rie se tornaram muito conhecidos: Ro-
samaria Murtinho, Juca Chaves, Fúlvio 14-Flávio Colin foi um dos desenhistas
Stefannini, Milton Gonçalves, Ary Fon- do gibi. Você o conheceu?
toura, Marlene Morel, Reginaldo Vieira ( Conheci o Colin e quando fizeram a
adaptação achei interessante.Tenho nanceira. Não me arrependo de jeito
uns 10 gibis. nenhum. Tenho muitos amigos em todas
as áreas.
15-Qual foi a importância desse per-
sonagem em sua vida? 17-Você assiste seriados ou filmes?
A importância foi enorme. Não consigo Quais, e o acha dessas produções?
me ver hoje em dia sem a influência do Assisto TV para me atualizar, mas me
seriado e dos outros filmes que fiz depois. sinto meio decepcionado quanto à falta
de criatividade. Compram programas
16-Pergunta que não quer calar. O que prontos ao invés de criar novos.
o levou a sair da televisão e migrar
para Polícia Rodoviária? Se arrepende 18-Que recado ou conselho você daria
da decisão? para as novas gerações?
A minha passagem pelo teatro, cinema O conselho que eu poderia dar aos jovens
e TV me deram subsídios para minha é que usem a tecnologia e criatividade
carreira militar. Na época foi também para fazer desse país uma potência em
uma escolha ditada pela segurança fi- todas as áreas.