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Booker T.

Washington profere seu famoso discurso “Compromisso de


Atlanta” em 1895
(Traduzida do inglês por Eduardo Viveiros de Sousa, formado em filosofia pela
CEUCLAR (Centro Universitário Claretiano), membro do site Filosofia Hoje
(www.filosofiahoje.com), e membro do MNU (Movimento Negro Unificado), seção
Distrito Federal), tomando como texto-base o original em inglês do site History
Matters (http://historymatters.gmu.edu/d/39/).

Em 18 de setembro de 1895, o orador afro-americano Booker T. Washington


discursou perante um público predominantemente branco na Exposição Internacional
de Estados Sulistas em Atlanta. [1] Seu discurso, mais tarde chamado “Compromisso
de Atlanta”, foi um dos mais importantes e influentes discursos da história norte-
americana. Embora os organizadores dessa exposição manifestassem receio de que “o
sentimento público não estava preparado para um passo tão avançado”, eles
decidiram que convidar um orador negro impressionaria os visitantes nortistas,
fazendo-os acreditar no progresso das relações raciais no sul. Washington acalmou as
preocupações de seus ouvintes com o “atrevimento” negro afirmando que sua raça
ficaria contente em viver com o “produto de nossas mãos”.

Senhor Presidente, senhoras e senhores do Conselho de Diretores, e Cidadãos:

Um terço da população do Sul é da raça negra. Nenhuma iniciativa que busque o bem-estar
moral, civil ou material deste evento pode desmerecer esta parte de nossa população e alcançar
êxito. Eu entretanto transmito a vocês, senhor presidente e diretores, o sentimento do meu povo
quando eu digo que, de forma alguma, o valor e a humanidade do homem negro há sido mais
apropriada e generosamente reconhecida do que pelos organizadores desta magnífica exposição,
concebida no atual estágio de progresso em que estamos. É um reconhecimento que faz mais para
cimentar a amizade entre nossas duas raças do que qualquer coisa desde o alvorecer de nossa
liberdade.
Não apenas isso, mas esta oportunidade aqui concedida nos despertará para uma nova era de
progresso industrial. Ignorantes e inexperientes, não era estranho que nós comecássemos nos
primeiros anos de nossa nova vida em cima em vez de embaixo; que uma cadeira no congresso ou
na legislatura estadual fosse mais desejada que cursos para trabalhar com negócios imobiliários ou
industriais; que convenções partidárias ou campanhas políticas tenham atraído mais atenção do que
trabalhar em uma fazenda de laticínios ou com jardinagem.
Um navio perdido há vários dias subitamente avista um navio aliado. Do mastro do
desafortunado barco havia um sinal: “água, água, estamos a morrer de sede!”. A resposta vinda do
navio avistado foi: “lancem um balde de onde vocês estão”. Pela segunda vez, um sinal foi enviado:
“água, água, mande-nos água!”, e foi novamente respondido: “lancem um balde de onde vocês
estão”. E enviaram um terceiro, e um quarto sinal, e todos foram respondidos: “lancem um balde de
onde vocês estão”. O capitão da tripulação aflita, tentando uma última vez, resolveu seguir a

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[1] – Cotton States and International Exposition: exposição internacional realizado na cidade de
Atlanta, no estado da Geórgia, de 18 de setembro de 1895 a 31 de dezembro do mesmo ano. Foi
feito para promover o sul dos E.U.A. perante o mundo, mostrando novos produtos e tecnologias,
assim como para encorajar o comércio com a América Latina. Atrai cerca de 800 mil visitantes.
resposta do navio avistado e lançou seu balde à água, e ele veio cheio de água fresca, vindo da boca
do rio Amazonas, lugar onde eles estavam. Para aqueles de minha raça, que pretendem melhorar de
vida em uma terra estrangeira, ou que subestimam a importância de cultivar boas relações com o
homem branco sulista, que é seu vizinho de porta, eu digo: “lance seu balde de onde vocês estão”.
Lancem-no para fazer amigos no meio das pessoas de todas as raças que rodeiam vocês. Lancem o
balde na agricultura, mecânica, no comércio, no serviço doméstico, e em qualquer outra profissão.
E, em conexão com isso, tenham em mente que, quaisquer que sejam os pecados que o Sul tenha
que expiar, quando se trata de ganhar dinheiro, é no Sul que está a chance de ouro no mundo dos
negócios aos negros, e nada é mais eloquente do que esta exposição para enfatizar isso. Nossa maior
ameaça durante o grande salto da escravidão para a liberdade consiste em negligenciar o fato de que
nós devemos viver pelo produto de nossas mãos, e esquecer que nós prosperaremos à medida que
nós aprendamos a dignidade e a glória do trabalho em comum, e esquecermos de usar nossos dons
nas ocupações do nosso dia-a-dia. Prosperaremos à medida que aprendamos a diferença entre o
superficial e o substancial. Entre os ornamentos fúteis da vida e os úteis. Nenhuma raça pode
prosperar até que aprenda que há tanta dignidade em cultivar um campo quanto em escrever um
poema. É debaixo que nós temos que começar, não de cima. Não podemos permitir que nossas
queixas obscureçam nossas oportunidades.
Para aqueles da raça branca que olham oportunidades de lucro entre estes que nasceram fora
do país e possuem um estranho sotaque e hábitos exóticos, em nome da prosperidade do Sul,
permitam-me que eu repita o que acabei de dizer para minha própria raça: “lancem seu balde de
onde vocês estão”. Lancem-no entre os oito milhões de negros cujos hábitos vocês conhecem, cuja
fidelidade e amor vocês testaram nos dias que vocês tiveram que enfrentar por meios traiçoeiros a
ruína de suas casas. Lancem seu balde entre esse povo que tem, sem greves e conflitos trabalhistas,
cultivado seus campos, limpado suas florestas, construído suas ferrovias e cidades, e trazido
inúmeros tesouros das entranhas da terra, e ajudado a tornar possível esta magnífica representação
das riquezas do Sul. Lancem seu balde entre meu povo, ajudem-no e encorajem-no e, através da
educação de seus corpos e mentes, vocês descobrirão que eles comprarão suas terras excedentes,
farão florescer os lugares abandonados em seus campos, e farão funcionar suas fábricas. Quando
fizerem isto, vocês podem estar certos de que no futuro, assim como no passado, vocês e suas
famílias estarão rodeados pelas pessoas mais pacientes, confiáveis, não-ressentidas e cumpridoras
da lei que o mundo jamais viu. Assim como provamos nossa lealdade para vocês no passado,
amamentando suas crianças, velando pelas suas mães e pais acamados, e muitas vezes seguindo-os
com lágrimas até a sepultura, no futuro, do alto de nossa humildade, estaremos com vocês com uma
devoção que nenhum estrangeiro poderia lhes dar, prontos para dar nossas vidas, se assim for
necessário, em sua defesa, entrelaçando nossas vidas religiosas, civis, comerciais e industriais com
suas vidas, de uma forma tal que torne o interesse de ambas as raças um só. Em todas as coisas
puramente sociais, estaremos separados como separados são os dedos, ainda que todos os dedos
trabalhem juntos para o progresso mútuo de todos.
Não há alternativa para nenhum de nós a não ser no desenvolvimento de todos nós. Se, em
algum lugar, há esforços que pretendam cortar o completo desenvolvimento dos negros,
transformem estes esforços em estímulo e encorajamento para fazer-nos úteis e inteligentes
cidadãos. Esforços investidos assim renderão lucros de milhares por cento. Tais esforços serão
duplamente abençoados – abençoará aqueles que dão e aqueles que recebem. Não há escapatória à
lei do homem ou de Deus para o inevitável:

As leis da imutável justiça ligam o oprimido ao opressor:


E tão próximo como o pecado está do sofrimento, assim caminharemos juntos para o futuro….

Cerca de dezesseis milhões de mãos podem ajudar vocês a puxar a carga para cima, ou a
puxarão para baixo contra vocês. Nós poderemos compor um terço ou um pouco mais da ignorância
e do crime no Sul, ou nós poderemos fazer parte do um terço inteligente e do progredido; Nós
poderemos sermos o um terço que contribui para a prosperidade comercial e industrial do Sul, ou
poderemos ser uma fonte bastante certa de morte, estagnação, depressão, ajudando a retardar muitos
esforços que poderiam ajudar o corpo politico sulista.
Senhoras e senhores desta exposição, embora apresentemos nosso humilde esforço rumo ao
progresso, os senhores não devem esperar muito de nós. Começando alguns anos atrás com uma
propriedade, algumas colchas, abóboras e galinhas (provindas de variadas fontes), lembrem-se que
o caminho que levou à invenção e produção de implementos agrícolas, carros, máquinas à vapor,
jornais, livros, estatuária, escultura, pintura, desenvolvimento de farmácias e bancos, não foi feito
sem pisar em cima de espinhos e cardos. Embora estejamos orgulhosos de tudo que nós fizemos
como resultado de nossos esforços independentes, não podemos nos esquecer, nem por um
momento, que o que conseguimos ainda está aquém de suas expectativas mas, através da constante
ajuda que temos recebido para nossa educação, não apenas por parte dos estados do sul, mas
também dos filantropos nortistas, nós a temos tansformado em um rio constante de bençãos e
encorajamento.
Os mais sábios dentre a minha raça entendem que a agitação em questões como a igualdade
social é extremamente insensata, e que o progresso no desfrute de todos os privilégios que vierem a
nós deve vir a ser antes o resultado de uma luta constante e severa do que ser o resultado de algo
artificialmente criado. Nenhuma raça que tenha contribuído para os mercados mundiais foi de
alguma forma ostracizada. É certo e importante que todos os privilégios da lei sejam também
nossos, mas é muito mais importante que antes estejamos todos preparados para o exercício desses
privilégios. A oportunidade de ganhar um dólar numa fábrica é infinitamente mais importante que a
oportunidade de gastar um dólar em um teatro.
Concluindo, eu poderia repetir que nada nesses trinta anos nos deu mais esperança e
encorajamento, e nos deixou mais próximos de vocês, ó raça branca, do que esta oportunidade
oferecida por esta exposição; e aqui estamos unidos, como deveria ser, sobre este altar que
representa as lutas de sua e de minha raça, ambas começando praticamente de mãos vazias três
décadas atrás. Eu prometo que, em seu esforço para trabalhar o longo e intrincado problema, que
Deus deixou às portas do Sul, vocês poderão contar, em todos os momentos, com a ajuda simpática
e paciente de minha raça; apenas não esqueçam, enquanto nessas coisas aqui exibidas, isto é, o
produto dos campos, das minas, das fábricas, cartas, artes etc, há representado muita coisa boa que
existe, atestando o progresso do Sul, coisas ainda melhoras, se Deus quiser, virão. Coisas que
apagarão as suspeições e as diferenças raciais entre nós, coisas que determinarão a mais absoluta
justiça para todos, coisas que fomentarão entre todas as classes a obediência à lei. Isto, junto com
nossa prosperidade material, trará a nosso amado Sul um novo céu e uma nova terra.

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