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I Seminário Nacional Crítica da

Economia Política e do Direito


Belo Horizonte, 21 a 23 de maio de 2018
Anais do
I Seminário Nacional Crítica da Economia
Política e do Direito
~~~
21 a 23 de Maio de 2018
Faculdade de Direito
Universidade Federal de Minas Gerais
~~~
Organização
Coordenação Geral:
Vitor Sartori, UFMG
Coordenação Executiva:
Bábara Duarte, UFMG
Helena Coelho, UFMG
Lucas Álvares, UFMG
Coordenação Acadêmica:
Alice Nogueira Monnerat, UFJF
Anna Paula Sales, UFJF
Elcemir Paço Cunha, UFJF
Comissão científica:
Deise Ferraz, UFMG
Elcemir Paço Cunha, UFJF
Vitor Sartori, UFMG
~~~
Programa de Pós-Graduação em Administração – UFJF
Programa de Pós-Graduação em Administração – UFMG
Programa de Pós-Graduação em Direito e Inovação – UFJF
Programa de Pós-Graduação em Direito – UFMG
~~~

Realização:

https://tramarx.org/
Sumário Geral

Mesa Redonda...........................................................................................................1

GT 1
Acumulação de capital, inovação tecnológica e desigualdade.................................55

GT 2
Crítica da economia política e crítica do Direito em Marx e no Marxismo............279

GT 3
Trabalho, Crise e Financeirização...........................................................................508
Mesa redonda

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I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

DINÂMICA AUTOMÁTICA DO CAPITAL E COTIDIANO: uma análise d’O


Capital ao “último” Lukács

Alexandre Arbia
Universidade Federal de Ouro Preto
aarbia@gmail.com

Resumo Como conciliar as diversas passagens em que Marx faz referência ao


desenvolvimento de uma dinâmica automática do capital com o papel ativo do homem
na construção de seu próprio devir? Estariam as proposições de Lukács em contradição
com os desenvolvimentos de O Capital? O presente artigo procura, problematizando
essas questões e suas consequências, demonstrar a perfeita compatibilidade entre as
teorizações sobre a dinâmica automática do capital, a determinação de classe e o agir
cotidiano dos indivíduos, trasladando da posição marxiana aos desdobramentos
categoriais do “último” Lukács.
Palavras-chave: dinâmica automática do capital; classe social; individualidade
moderna; cotidiano.

CAPITAL’S AUTOMATIC DYNAMICS AND DAILY: an analysis from Capital


to the “late” Lukács

Abstract
How to reconcile the Marx’s affirmations refers to the development of an automatic
dynamics of capital with the active role of man in the construction of his own
becoming? Are the Lukács’s propositions in contradiction with the developments of
Capital? The present article seeks to show the perfect compatibility between the
theories about the automatic dynamics of capital, the class determination and the daily
action of the individuals, approaching the Marxian acquisitions to the categorical
unfoldings from the "late" Lukács.
Keywords: Capital’s automatic dynamics; social class; modern individuality; daily.

Para demonstrarmos a compatibilidade entre a autonomização da dinâmica do


capital, como tratado por Marx n’O Capital, e as proposições do último Lukács sobre as
determinações ontológicas do cotidiano, devemos iniciar nosso argumento pela
explicação de como uma relação social1 pode adquirir autonomia. Em outros termos,

1
Retomemos a célebre definição: “o capital não é uma coisa, mas uma determinada relação social de
produção, que pertence a uma determinada formação histórico-social, representa-se numa coisa e confere
a esta um caráter especificamente social. O capital não consiste na soma dos meios de produção materiais
e produzidos. Ele consiste nos meios de produção transformados em capital, meios que, em si, são tão
pouco capital quanto o ouro ou a prata são, em si mesmos, dinheiro. Consiste nos meios de produção
monopolizados por determinada parte da sociedade, os produtos e as condições de atividade da força de
trabalho autonomizados precisamente diante dessa força de trabalho, que se personificam no capital
mediante essa oposição. O capital não se resume aos produtos dos trabalhadores, produtos transformados
em forças autônomas, aos produtores como dominadores e compradores daqueles que os produzem, mas
também se constitui pelas forças sociais e a forma futura […] desse trabalho que eles se contrapõem como
atributos de seu produto. De modo que temos aqui, pois, uma forma social determinada, muito mística à

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como uma ação executada socialmente pelos homens, e que somente por essa execução
pode adquirir existência, pode obter independência a ponto de constrangê-los a adotar
um determinado comportamento? Se nenhum objeto torna-se capital por suas
características imanentes, por suas propriedades físicas, como podemos falar, então, de
autonomia em relação a uma força que se manifesta materialmente através de um
conjunto de unidades corpóreas em mútua relação, sem estar presente em nenhuma
delas isoladamente?
Marx nos dá, já de saída, algumas pistas. O fundamento da questão pode estar
localizado na possibilidade de os homens dirigirem o próprio devir. Vejamos.
Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob
circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e
transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o
cérebro dos vivos (Marx, 1988, p. 7).

Adicionalmente,
na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas,
necessárias, independentes de sua vontade; essas relações de produção correspondem a um grau
determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas
relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se
eleva uma superestrutura jurídica e política à qual correspondem formas sociais determinadas de
consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política
e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o ser dos
homens que determina sua consciência (Marx, 2008, p. 47).
Duas ordens de problemas, ambos inscritas na relação sujeito/objeto, se põem.
Primeiro, em relação à forma e ao alcance da ação dos homens na construção de sua
própria história, voltamo-nos aos problemas da extensão e da qualidade do pôr, do
imperativo de um dever-ser, da escolha entre alternativas concretas, da possibilidade e
da qualidade da liberdade, da potência e da efetividade das ações e do caráter e da
autonomia das objetivações. Segundo, questões de ordem causal reportam à
permeabilidade dos processos e objetos externos a ação dos homens: o grau e a extensão
de sua deformação pela ação humana, a nova composição adquirida após as ações, as
possibilidades concretas de sua modificação, gênese e destruição, assim como sua
dinâmica de funcionamento imanente (o que inclui, também, uma explicitação da
orientação de suas linhas de força em relação a complexos outros, bem como a
influência que estes exercem sobre aqueles), o desenvolvimento de suas leis
constitutivas apesar (e para além) das relações dos próprios homens. Se gênese desse
processo se encontra na interação humana primária, responsável pela produção material
da própria existência – a relação entre o homem e as materialidades puramente naturais
– parece de reducionismo inegável deduzir toda sua complexidade a partir somente
desta forma de relação – sobretudo porque, ela mesma, estabelecido certo grau de
evolução, é moldada pelas relações dos homens entre si (em suma, as ações dos homens
em materialidades naturais são moldadas e condicionadas por meio da materialidade de
suas ações sociais)2.
Todo ser é objetivo3 e todo pôr humano tem, em última instância, um
ineliminável caráter prático – é sempre determinado por necessidades objetivas e visa a

primeira vista, de um dos fatores de um processo social de produção historicamente fabricado” (Marx,
2017, pp. 877-8).
2
Para uma explicitação do ser social como uma totalidade de complexos em interação, cf. Lukács (2013).
3
“Um ser não objetivo é um não ser. Ponha-se um ser que não seja propriamente objeto nem tenha um
objeto. Um tal ser seria, em primeiro lugar, o único ser, não existiria nenhum ser fora dele, ele existiria

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promover alguma alteração real, mesmo que de alcance limitado. Como ser autoposto e
autoconstituído, o homem nada mais é, em última instância, do que o resultado de
processos estabelecidos historicamente por ele próprio; é sua própria gênese e
desenvolvimento e está no cerne dos mais elevados complexos que o circundam: “a raiz,
para o homem, é o próprio homem” (Marx, 2010, p. 151). Como ser natural, o homem é
carente de objetos materiais; como ser genérico, é pela interação com outros homens
que produz e reproduz a materialidade que lhe permite existir:
o modo pelo qual os homens produzem seus meios de vida depende, antes de tudo, da própria
constituição dos meios de vida já encontrados e que eles têm de reproduzir. Esse modo de
produção não deve ser considerado meramente sob o aspecto de ser a reprodução da existência
física dos indivíduos. Ele é, muito mais, uma forma determinada de sua atividade, uma forma
determinada de exteriorizar a vida, um determinado modo de vida desses indivíduos. Tal como
os indivíduos exteriorizam sua vida, assim são eles. O que eles são coincide, pois, com sua
produção, tanto com o que produzem como também com o modo como produzem. O que os
indivíduos são, portanto, depende das condições materiais de sua produção (Marx; Engels, 2007,
p. 87 – itálicos do original).

Os meios de vida encontrados foram postos por outros homens; as relações


sociais, como modo de exteriorizar a vida, pela ação pretérita de outros homens.
Explicita-se a unidade histórica do gênero, ficando excluída da conformação humana
qualquer natureza abstrata geral, de caráter trans-histórico: o homem está imerso e ativo
em relações sociais dadas, em um mundo que não escolheu, mas no qual põe sobre um
conjunto de cadeias causais; é conformado pelas objetivações postas pelo gênero e, ao
mesmo tempo, as conforma, molda, destrói, reorienta e cria novas formas de
objetivação. O homem faz e se faz nesse processo, põe o mundo e a si mesmo. O objeto
posto retroage sobre seu criador, amplia e/ou restringe sua gama de possibilidades de
ação; o objeto posto confronta o homem, exigindo-lhe repostas, suprimindo e criando
novas carências. Ao objetivar, o homem responde às determinações que afetam sua vida
singular ao mesmo tempo em que suas objetivações tornam-se a herança dos homens
que virão, “oprimindo como um pesadelo o cérebro” dos homens futuros. Aclara-se a
“identificação ontológica da objetividade social – posta e integrada pelo complexo
categorial que reúne sujeito e objeto sobre o denominador comum da atividade sensível”
(Chasin, 2009, p. 95).
Qualquer possibilidade de autonomia, portanto, deve ser vista a partir de dois
aspectos. Primeiro, qualquer ser existente deve, necessariamente, ser um ser objetivo:
um ser que não seja objeto de um outro ser supõe, portanto, que não existe nenhum ser objetivo.
Logo que eu tenha um objeto, esse objeto tem-me por objeto. Mas um ser não objetivo é um ser
não real, não sensível, apenas pensado, i.e., apenas imaginado, um ser da abstração. Ser sensível,
i.e., ser real, é ser objeto do sentido, ser objeto sensível, portanto, ter objetos sensíveis fora de si,
objetos de sua sensibilidade (Marx, 2015, p. 376 – itálicos do original).

Segundo, embora a materialidade social tenha como base a própria cadeia de


causalidades naturais sobre a qual se assenta, não devemos tomá-las nem a partir de
uma correspondência determinativa imediata, nem em absoluto isolamento. Erigir-se
tendo por base as cadeias causais da materialidade natural não significa que a
materialidade social se desenvolva como simples reflexo mimético dos movimentos da
natureza e tampouco como uma entidade plenamente independente, transubstanciada e

solitário e sozinho. Pois, desde que haja objetos fora de mim, desde que eu não esteja só, sou um outro,
uma outra realidade que não o objeto fora de mim. Para este terceiro objeto eu sou, portanto, uma outra
realidade que não ele, i.e., seu objeto” (Marx, 2015, p. 376 – itálicos do original).

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destituída de vínculo. Ao tomarmos a objetividade da materialidade social temos de ter


claro que sua gênese reporta, por incontáveis mediações, à refuncionalização de nexos
causais naturais pela ação humana: em poucas palavras, à atividade sensível. Toda e
qualquer autonomia, portanto, tem como solo a objetividade real dos complexos, que
encontra seu fundamento mais profundo na forma originária da atividade sensível.
O capital, por exemplo. Tomado em si mesmo, é uma simples abstração. Seu
significado é puramente social, ou seja, é no estabelecimento de dadas relações sociais
de produção entre os homens que o capital se manifesta como espírito fugidio, ao
mesmo tempo omnipresente, a mover a produção material. Sua natureza evanescente
adquire objetividade através de formas (primárias4) bem definidas: como capital
monetário (D), capital produtivo (P) e capital-mercadoria (M’).
As formas, em seu isolamento, também nada dizem acerca do capital. Pensemos
na maquinaria. Empregada na produção de um dado objeto, não passa de um conjunto
de fixos e fluidos, causalidades naturais, teleologicamente reorientadas a partir de
determinados padrões rígidos, de modo a funcionar somente desta e não de outra forma.
O que torna a maquinaria uma manifestação do capital é seu desenvolvimento, emprego
e funcionamento dados e estruturados por um conjunto de relações sociais de produção
– o que, por seu turno, lhe confere certa conformação material específica5. Aqui,
portanto, não nos deparamos com uma reorganização teleológica in abstractu de
causalidades naturais, que viabiliza uma produção material abstrata; estamos diante de
uma reorganização teleológica de causalidades naturais que, conforme são confrontadas
teleologicamente de forma permanente, dando origem a formas complexas cada vez
mais elaboradas e independentes, viabiliza a produção material em condições de
produção socialmente dadas e historicamente constituídas – podemos completar, em
condições de produção “determinadas, necessárias, independentes de sua [dos homens]
vontade”, fetichistas e alienadas, na ordem do capital.
As formas pelas quais o capital se objetiva não podem ser assim reduzidas a
mero conjunto de causalidades naturais organizadas ao acaso; tampouco podem ser
deduzidas a partir dos movimentos internos autoconstitutivos dessas causalidades
mesmas: o specifico da objetivação do capital está exatamente nas formas mistas6 pelas
quais se materializa como relação social. O capital se objetiva nessas formas, pois essas
são formas necessárias de sua objetivação. Exatamente porque dessa forma, e não de
outra, servem de repositório objetivo da relação-capital. Toda autonomia, portanto, está
realmente condicionada e é sempre relativa – está condicionada pelas formas materiais
(materialidades naturais e sociais) históricas de sua expressão.

4
“Primárias” pois não estamos esgotando aqui todas as formas contemporâneas de manifestação do
capital. Por certo, elas envolvem todas as formas de irracionalismo, as instituições políticas, jurídicas e
burocráticas do Estado, o complexo militar-industrial e seu desdobramento em mecanismos de
administração, controle e supervisão da vida, etc.
5
“Os instrumentos humanos não são incontroláveis sob o capitalismo por serem instrumentos [...], mas
porque eles são os instrumentos – mediações de segunda ordem específicas, reificadas – do capitalismo.
Enquanto tais, eles não podem funcionar a não ser de forma ‘reificada’; isto é, controlando o homem em
lugar de serem controlados por ele. Não é, portanto, a característica universal de serem instrumentos que
está envolvida diretamente na alienação, mas sua especificidade de serem instrumentos de um certo tipo”
(Mészáros, 2006, p. 227 – itálicos do original).
6
Conjunto de legalidades nas quais “objetividade e subjetividade são resgatadas de suas mútuas
exterioridades, ou seja, uma transpassa ou transmigra para a esfera da outra, de tal modo que interioridade
subjetiva e exterioridade objetiva são enlaçadas e fundidas, plasmando o universo da realidade humano-
societária – decantação de subjetividade objetivada ou, o que é o mesmo, de objetividade subjetivada”
(Chasin, 2009, p. 98 – itálicos do original).

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O capital não pode ser tomado por unidade autônoma etérea, conteúdo
puramente espiritual, dotado de teleologia própria e, por essa razão, capaz de pôr.
Apenas o homem põe teleologicamente. Como relação social, o capital é essencialmente
objetivo7: dotado de materialidade social, encontra formas específicas de manifestação
no conjunto de causalidades postas com as quais os homens estão em interação
permanente – sejam essas causalidades mais estreitamente vinculadas ao sistema
primário de mediações, sejam elas conformadas pelas formas mais elevadas de
causalidades (puramente) sociais.
Enquanto relação social, portanto, o capital é uma objetividade objetivada pelos
homens, que engendra, por meio da construção de seu próprio sistema secundário de
mediações, todo o conjunto de mediações de primeira ordem8, envolvendo, num
processo de totalização totalitária, desde as primeiras ações teleológicas sobre
causalidades naturais até o conjunto de ações humanas sobre complexos outros – as
ações teleológicas dos homens sobre si mesmos (ou o conjunto das praxes). Na
concretude histórica da objetividade do capital temos uma peculiaridade:
a objetivação sob condições em que o trabalho se torna exterior ao homem assume a forma de
um poder alheio que confronta o homem de uma maneira hostil. Esse poder exterior, a
propriedade privada, é o ‘produto, o resultado, a consequência necessária, do trabalho
exteriorizado [alienado], da relação externa do trabalhador com a natureza e consigo mesmo’.
Assim, se o resultado desse tipo de objetivação é a produção de um poder hostil, então o
homem não pode realmente ‘contemplar a si mesmo num mundo criado por ele’, mas,
submetido a um poder exterior e privado do sentido de sua própria atividade, ele inventa um
mundo irreal, submete-se a ele, e com isso restringe ainda mais sua própria liberdade
(Mészáros, 2006, p. 146).

Como resultado dos atos humanos, o capital se constitui em ações que,


autonomizando-se dos indivíduos, tomam a forma de causalidades postas9 sob
condições sociais e históricas específicas – em que o trabalho foi tornado “exterior ao
homem” –, padecendo da mesma sorte das demais objetivações humanas nessa
circunstância: “assume a forma de um poder alheio que confronta o homem de maneira
hostil” (Mészáros, 2006, p. 146).

7
Embora encontre também formas de manifestação subjetiva, dentro da interação sujeito/objeto que
abordamos até aqui.
8
Sobre o conjunto primário de mediações, cf. Mészáros (2002, p. 213). Sobre o conjunto secundário,
Mészáros (2002, p. 180).
9
Neste ponto exsurge uma polêmica de difícil solução neste espaço: uma vez consubstanciadas as
relações sociais entre os homens, uma vez imersos em relações sociais dadas, que individualmente não
controlam, não poderiam estar confrontados, em seu agir teleológico, com cadeias causais postas? Poder-
se-ia abrir aqui tal polêmica a partir de uma interpretação da proposta lukacsiana, especialmente se
considerarmos que “o significado da causalidade posta consiste no fato de que os elos causais, as cadeias
causais etc. são escolhidos, postos em movimento, abandonados ao seu próprio movimento, para
favorecer a realização do fim estabelecido desde o início” (Lukács, 2013, p. 99). Ainda que, no fragmento
anterior, o marxista magiar esteja referindo-se estritamente ao trabalho, voltamos a nos deparar com a
questão quando do trato da ideologia: “embora tenham necessariamente surgido de pores teleológicos,
eles, enquanto processos sociais, não podem possuir qualquer caráter teleológico. O próprio processo
social consiste de cadeias causais, que de fato foram postas em marcha por pores teleológicos, mas que,
uma vez ganhando realidade, podem operar exclusivamente como causalidades” (Lukács, 2013, p. 536).
Estamos abordando até agora a ação teleológica dos homens de forma muito geral, em sua constituição
fundamental e genérica, e não temos condição de abrir, nos limites desta tese, tal polêmica. De resto, o
pôr teleológico cotidiano (logo, concreto) em situações de alienação possui características bastante
peculiares. Trataremos do agir cotidiano dos homens ao final deste item.

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A independência do valor toma uma feição fugidia. Ao mesmo tempo em que se


instaura pelas formas materiais de manifestação do capital, esconde, sob essas mesmas
formas, seu mecanismo de autovalorização, ou seja, seu acréscimo contínuo. Da mesma
forma que, sob a forma de capital monetário (D) – ou sob a forma de capital produtivo
(Mp, condições objetivas de trabalho), por exemplo – , o valor se confronta com a força
de trabalho como uma forma externa, alheia e estranha, como uma objetividade
independente, por outro lado, subsume em si os processos de sua constituição; apaga em
sua materialidade corpórea a diferença existente entre o valor original empregado e o
mais-valor, enquanto resultado do processo de produção do capital. As formas
instauram o capital como objeto externo, estranho e enigmático – e a forma mais geral
de manifestação do valor é, claro, a mercadoria10.
A independência do valor se instaura ao defrontar-se com a força criadora do valor, a força de
trabalho, na operação D – F (compra de força de trabalho), e realiza-se durante o processo de
produção como exploração da força de trabalho; mas não continua a ostentar-se nesse ciclo em
que dinheiro, mercadoria, elementos de produção são apenas formas alternativas do valor-capital
em movimento e em que se confronta a magnitude anterior do valor com a magnitude atual
modificada do capital (Marx, 2006b, p. 120).

Na circulação, o valor, por meio de suas formas necessárias (D e M), confronta-


se consigo mesmo em um processo de metamorfoses recíprocas. Dinamizando essas
metamorfoses estão os homens. A ação de realização global do valor que executam é
“inconsciente”, ou sua consciência adstringe-se aos resultados imediatos da ação
singular: as metamorfoses ocorrem para eles, em última instância, como a forma de
realização dos valores de uso (ainda que essa realização possa ser mediada não por uma,
mas por uma sequência infindável de processos de troca que, intermediários, não visam
a realizar o valor-de-uso, mas somente o valor). Para que possam realizar o valor-de-uso
não há outro meio: o confronto entre valores de troca torna-se condição inescapável,
sem a qual as necessidades não podem ser satisfeitas. No mercado, cada portador de
mercadoria precisa deter a posse (preferencialmente) exclusiva11 do veículo de
satisfação da necessidade alheia e, assim, busca obter maior quantidade possível de
mercadorias em troca da sua.
Em uma sociedade mercantil desenvolvida, as formas envolvidas nas relações de
troca – mercadoria e dinheiro (mercadoria em forma específica) – já se apresentam
tomadas pelo fetichismo: objetivas, figuram como objeto externo, estranho,
independente, sobre o qual repousam os desejos dos homens. Não por outra razão, a
sociabilidade adquire uma forma contingente: os contatos humanos – encontros
inevitáveis, sem os quais se inviabiliza a reprodução individual – aprecem como simples
meio para a obtenção de mercadorias. No quadro da “sociabilidade contingente”, cada
homem só desempenha seu papel social na exata medida em que é portador de
mercadoria permutável. Nessa condição, encontra-se protegido pelas leis e pelo Estado.
Todas as suas determinações concretas singulares, abstraídas, estão, finalmente,

10
Esclarece-se, pois, a constituição última das três formas de manifestação do capital (D, P e M’): a
mercadoria. Não por outra razão, a ordem do capital apresenta a generalização absoluta dessa forma como
generalização absoluta das formas de manifestação do capital. “A mercadoria é misteriosa simplesmente
por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como
características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalho; finalmente, as relações
entre os produtores nas quais se afirma o caráter social dos seus trabalhos, assumem a forma de relação
social entre os produtos do trabalho” (Marx, 2006, p. 94).
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“Preferencialmente exclusiva”, pois a existência de outros agentes portadores dos mesmos valores de
uso baralha as possibilidades de troca nas melhores condições possíveis.

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reduzidas à simples condição de portadores de mercadoria permutável – o que


pressupõe a condição de sujeito apto para a troca. Legitimado como sujeito abstrato
(proprietário-trocador ou, na definição marxiana de 1843/44, bourgeois), unidade
consciente do mundo burguês, está apto a circular pelo conjunto da “sociabilidade
contingente”, estabelecendo formas variadas de intercâmbio. Está dado o passo decisivo
para que a sociedade apareça como mercado e suas relações como relações mercantis. O
trânsito do valor por meio de suas formas necessárias, realizado pelos homens por
razões práticas e inconscientemente em relação ao seu movimento global, instaura a
reprodução automática do capital como reificação:
o valor torna-se aqui o agente de um processo em que, através do contínuo revezamento das
formas dinheiro e mercadoria, modifica sua própria magnitude como valor excedente, se afasta
de si mesmo como valor primitivo, e se expande a si mesmo. O movimento pelo qual adquire
valor excedente é seu próprio movimento, sua expansão, logo sua expansão automática. Por ser
valor, adquiriu a propriedade oculta de gerar valor. Costuma parir ou pelo menos põe ovos de
ouro12 (Marx, 2006, pp. 184-5).

Mas isso não é tudo. Se, do ponto de vista da circulação, o valor aparece como
mercadorias que se trocam, originando “milagrosamente” valor adicional, na produção a
autonomia se realiza sob a forma de subordinação da força de trabalho.
A constituição de um sistema de máquinas, pelo capital, marginaliza a força de
trabalho no processo de produção – a continuidade de seus movimentos passa a
depender, também de modo crescente e aparentemente tautológico, da continuidade de
seus próprios movimentos.
De acordo com a explanação de Marx, a maquinaria pode funcionar por meio de
um sistema de máquinas que, impulsionado por uma mesma força motriz, sofre ação de
trabalhadores heterogêneos (divididos por gênero, habilidade, força, estatura, destreza
etc.) que o alimentam (lubrificam, reparam etc.) cooperativamente; ou pela forma de um
imenso autômato, cujas partes são constituídas por unidades mecânicas e conscientes,
funcionando de maneira integrada sob o ritmo rígido de uma força motriz unitária que
se autorregula.
Essas duas conceituações não são de modo algum idênticas. Numa, o trabalhador coletivo ou o
organismo de trabalho coletivo aparece como o sujeito que intervém, e o autômato mecânico,
como objeto; na outra, o próprio autômato é o sujeito, e os trabalhadores são apenas órgãos
conscientes, coordenados com órgãos inconscientes e, juntamente com eles, subordinados à força
motriz central. A primeira conceituação aplica-se a qualquer emprego da maquinaria em grande
escala; a segunda caracteriza seu emprego capitalista e, consequentemente, o moderno sistema
fabril (Marx, 2006, p. 479 – itálicos nossos).

O desenvolvimento da produção de tipo capitalista generaliza o emprego da


maquinaria, cuja característica elementar é a elevação da produtividade por seu próprio
movimento, prescindindo, em escala crescente, da ação imediata do trabalho vivo: a
maquinaria empregada pelo capital – ou, em termos mais amplos, o desenvolvimento da
técnica pelo capital – apresenta como tendência generalizante a substituição da ação

12
Em edição mais recente, encontramos o trecho com a seguinte tradução: “o valor se torna, aqui, o
sujeito de um processo em que ele, por debaixo de sua constante variação de forma, aparecendo ora como
dinheiro, ora como mercadoria, altera sua própria grandeza e, como mais-valor, repele [abstösst] a si
mesmo como valor originário, valoriza a si mesmo [sic]. Pois o movimento em que ele adiciona mais-
valor é seu próprio movimento; sua valorização é, portanto, autovalorização. Por ser valor, ele recebeu a
qualidade oculta de adicionar valor. Ele pare filhotes, ou pelo menos põe ovos de ouro” (Marx, 2013, pp.
262-3 – itálicos nossos).

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humana viva, consciente, pelo movimento retroalimentar do próprio capital,


imobilizado como trabalho morto sob a forma de autômatos:
um sistema de máquinas [...] constitui em si mesmo um grande autômato, sempre que é movido
por um primeiro motor que se impulsiona a si mesmo. Mas todo o sistema pode ser impulsionado
pela máquina a vapor, por exemplo, embora certas máquinas-ferramenta precisem do trabalhador
para determinados movimentos [...] ou determinadas partes da máquina, para que esta leve a
cabo sua tarefa tenham de ser dirigidas pelo trabalhador, como se fosse uma ferramenta. É o que
se dava na construção de máquinas antes de a espera de torno se transformar em elemento
automático. Quando a máquina-ferramenta, ao transformar a matéria-prima, executa, sem ajuda
humana todos os movimentos necessários, precisando apenas da vigilância do homem para uma
intervenção eventual, temos um sistema automático, suscetível, entretanto, de contínuos
aperfeiçoamentos (Marx, 2006, p. 437).

O fundamento da constituição do capital enquanto uma dinâmica automática


pode ser encontrado na constituição do sistema de máquinas; no autômato. O meio de
trabalho está convertido em movimento independente, com ritmo próprio, como
objetividade estranha e opressora. Não é controlado pelo trabalho; ao contrário, reina e
governa absoluto todo o processo13. Surge “um monstro mecânico que enche edifícios
inteiros e cuja força demoníaca se disfarça nos movimentos ritmados quase solenes de
seus membros gigantescos” (Marx, 2006, p. 438), contra o qual o trabalhador individual
se confronta enquanto unidade diminuta e impotente14:
assimilado ao processo de produção do capital, o meio de trabalho passa por diversas
metamorfoses, das quais a última é a máquina, ou, melhor dizendo, um sistema automático de
maquinaria (sistema da maquinaria; o automático é apenas a sua forma adequada, mais
aperfeiçoada, e somente o que transforma a própria maquinaria em um sistema), posto em
movimento por um autômato, por uma força motriz que se movimenta por si mesma; tal
autômato consistindo em numerosos órgãos mecânicos e intelectuais, de modo que os próprios
trabalhadores são definidos como membros conscientes deles (Marx, 2011, p. 580 – itálicos do
original).

Está dada a inversão sujeito/objeto, consumando o quadro reificado do capital


como dinâmica automática. O meio de trabalho passa a dominar a força viva, o homem
submete-se ao ritmo e ao tempo do objeto, não como um predomínio do futuro sobre o
presente na forma de um dever-ser que orienta o sentido da ação, mas como uma
submissão opressiva que pressupõe a expulsão da capacidade criativa (da subjetividade
humana) para fora do ato do trabalho. A submissão da força viva às cadeias causais é
dada aqui não pela exigência de respostas em relação a um conjunto de causalidades
dadas como possibilidades expansivas do ser que trabalha, mas como exigência de
respostas limitadas, diminutas, condicionadas, adstringidas pelo ritmo dos meios de
trabalho e pela opressão da divisão técnica como formas necessárias da produção do
valor e do mais-valor. A força viva de trabalho passa a responder conforme as

13
“O processo de produção deixou de ser processo de trabalho no sentido de processo dominado pelo
trabalho como unidade que o governa. Ao contrário, o trabalho aparece unicamente como órgão
consciente, disperso em muitos pontos do sistema mecânico em forma de trabalhadores vivos individuais,
subsumido ao processo total da própria maquinaria, ele próprio só um membro do sistema, cuja unidade
não existe nos trabalhadores vivos, mas na maquinaria viva (ativa), que, diante da atividade isolada,
insignificante do trabalhador, aparece como organismo poderoso” (Marx, 2011, p. 581).
14
“A relação do capital como valor que se apropria da atividade valorizadora [trabalho vivo] é posta no
capital fixo, que existe como maquinaria, ao mesmo tempo como a relação do valor de uso do capital com
o valor de uso da capacidade de trabalho; o valor objetivado na maquinaria aparece, ademais, como um
pressuposto, diante do qual o poder valorizador da capacidade de trabalho individual desaparece como
algo infinitamente pequeno” (Marx, 2011, pp. 581-2).

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necessidades da produção (do valor e do mais-valor) e não a produção conforme as


necessidades do ser que trabalha.
Em nenhum sentido a máquina aparece como meio de trabalho do trabalhador individual. A sua
differentia specifica não é de forma alguma, como meio de trabalho, a de mediar a atividade do
trabalhador sobre o objeto; ao contrário, esta atividade é posta de tal modo que tão somente
medeia o trabalho da máquina, a sua ação sobre a matéria-prima – supervisionando-a e
mantendo-a livre de falhas. Não é como no instrumento em que o trabalhador anima como um
órgão com sua própria habilidade e atividade e cujo manejo, em consequência, dependia de sua
virtuosidade. Ao contrário, a própria máquina, que para o trabalhador possui destreza e força, é o
virtuose que possui sua própria alma nas leis mecânicas que nela atuam e que para seu contínuo
automovimento consome carvão, óleo etc. (Marx, 2011, pp. 580-1).

A adstrição das potencialidades humanas, que toma forma de emasculação da


subjetividade, posta pelo domínio do capital – o domínio do objeto sobre o sujeito – só
pode resultar numa reprodução empobrecida do próprio homem. A maquinaria, como
potência da produção autoexpansiva do capital, não se constitui causalidade posta
indistinta, anistórica ou neutra; sua materialização está condicionada pelo conteúdo
mesmo de seu desenvolvimento: é objetivada com a finalidade primeira de reproduzir o
valor15. Para tanto, está cravejada por determinações de alienação: reifica o trabalho
vivo, converte-o em seu apêndice, obedece estritamente à racionalização típica da
produção do capital, libera força de trabalho como resultado da busca por impulsionar
automaticamente seu próprio movimento, constitui-se em monstruoso volume de
capacidade produtiva, o que é o mesmo que dizer, no caso do capital, como monstruoso
volume de mercadoria (frente ao qual o próprio homem torna-se diminuto) e, como
mercadoria, amontoa-se como monstruoso volume de trabalho excedente objetivado –
ou, em outros termos, de capital.
Toda a produção, agora, aparece como um conjunto de mercadorias postas pelo
próprio movimento automático, do qual os homens participam apenas colateralmente:
como apêndices de autômatos imensos que expelem mercadorias em velocidade
vertiginosa ou como os portadores mudos dessa produção, transportadores de objetos
que precisam ir ao mercado para realizar seu destino: a troca. Toda a sociabilidade,
portanto, reduzida a D – M ... P ... M’ – D’, encontra sua própria razão de ser na
produção/reprodução do valor: os homens aparecem como simples forças vivas, por
meio das quais opera um conjunto de relações sociais entre coisas. A sociabilidade
termina adstringida por um conjunto empobrecido de relações causais postas irradiadas,
ainda que com variações complexas, das linhas de força centrais da reprodução do
valor.
A expansão histórica do capital exigiu a reprodução de suas contradições em
escala ampla. As tentativas de neutralização requereram, também em escala compatível,
a ativação de mecanismos corretivos capazes de garantir seu funcionamento sistêmico.
Sempre que se depara com a impossibilidade de conciliar a autenticidade das demandas
humano-genéricas crescentes e a realização acelerada de seu ciclo, o capital suprime os

15
Abre o capítulo XIII do Livro I de O Capital o seguinte argumento: “não é esse o objetivo do capital
[aliviar a labuta diária de algum ser humano – AA] quando emprega maquinaria. Esse emprego, como
qualquer outro desenvolvimento da força produtiva do trabalho, tem por fim baratear as mercadorias,
encurtar a parte do dia de trabalho da qual precisa o trabalhador para si mesmo, para ampliar a outra parte
que ele dá gratuitamente ao capitalista. A maquinaria é meio para produzir mais-valor” (Marx, 2006, p.
427). Marx refere-se aqui à seguinte afirmação de J. S. Mill: “É duvidoso que as invenções mecânicas
feitas até agora tenham aliviado a labuta diária de algum ser humano” (J. S. Mill, Principles of political
economy, apud Marx, 2006, p. 427).

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elementos humano-civilizatórios e reconstrói, sobre elementos mínimos e funcionais,


seu próprio sistema de mediações. Em seu processo de totalização totalitária, o capital
subordina o pleno desenvolvimento humano aos seus imperativos reprodutivos e realiza
o gênero como desefetivação. Sua instauração como dinâmica automática produz, na
cotidianidade dos homens singulares, uma espécie de inversão: o sujeito histórico
autêntico desenvolve-se como apêndice16, fazendo com que as ações se convertam em
uma espécie de mimese empobrecida e reiterativa dos movimentos de um sistema que
lhes parece, paradoxalmente, corrosivo e necessário. Não por outra razão, o capital
aparece assim como sujeito do nosso tempo.
A dinâmica do valor fornece o húmus que fertiliza a peculiaridade da relação de
classes no modo de produção do capital. A partir dela orienta-se o vetor do momento
preponderante: as relações sociais de produção do capital, relações necessárias, nas
quais se inserem os homens, independentemente de suas vontades, os colocam em
condições dadas de vida e fruição – circunscrevem o campo de possibilidades de seus
desenvolvimentos individuais. A dinâmica das relações sociais de produção (do capital)
inscreve determinados grupos de homens em uma dada posição estrutural, determinando
seus lugares objetivos no conjunto da reprodução do ser social. A realização dinâmica
da produção material pressupõe a existência de grupos humanos capazes de materializá-
la socialmente. Por suas ações, os indivíduos que constituem tais grupos põem e repõem
o conjunto de relações sociais de produção nas quais estão inseridos17. Fazem-no, no
mais das vezes, não como uma ação teleológica consciente de manutenção da
reprodução social do capital enquanto sistema, mas como uma ação prática (reiterativa)
capaz de realizar suas próprias reproduções (suas necessidades vitais de valores de
uso), hipotecadas, antes de tudo, à própria realização do valor.
Nesta perspectiva, a advertência marxiana coloca o problema em termos exatos:
o capital, como valor que acresce, implica relações de classe, determinado caráter social que se
baseia na existência do trabalho como trabalho assalariado. Mas, além disso, é movimento,
processo com diferentes estádios, o qual abrange três formas diferentes do processo cíclico. Só
pode ser apreendido como movimento, e não como algo estático. Aqueles que acham que
atribuir ao valor existência independente é mera abstração esquecem que o movimento do
capital industrial é essa abstração como realidade operante (in actu). O valor percorre aqui
diversas formas, efetua diversos movimentos que se mantém e ao mesmo tempo, aumenta,
acresce. [...] a produção capitalista só pode continuar existindo enquanto acresce o valor-capital
como ente autônomo que efetua seu processo cíclico, enquanto os transtornos de valor são de

16
“O sujeito real da atividade produtiva essencial é degradado à condição de objeto facilmente
manipulável, enquanto o objeto original e o momento anteriormente subordinado da atividade produtiva
da sociedade é elevado à posição na qual pode usurpar toda a subjetividade humana incumbida de tomar
decisões. O novo ‘sujeito’ da usurpação institucionalizada (ou seja, o capital) é de fato um pseudo-
sujeito, já que é forçado por suas determinações internas fetichizadas a operar no interior de parâmetros
extremamente limitados, substituindo a possibilidade de um desígnio consciente adotado a serviço da
necessidade humana, por seus próprios ditames e imperativos materiais cegos” (Mészáros, 2002, p. 432
– itálicos nossos). Essa condição de “pseudo-sujeito” deve ser entendida exatamente no interior da
incapacidade do capital de pôr teleologicamente.
17
“É o desenvolvimento da produção, de suas formas e limitações específicas, que determina o tipo da
diferenciação de classe, da função social e da perspectiva das classes, o que ocorre, todavia, na forma de
uma interação, porque o tipo da constituição das classes, sua relação recíproca, retroage decisivamente
sobre a produção” (Lukács, 2013, p. 183). Ou, em outras palavras: “sobre as diferentes formas de
propriedade, sobre as condições sociais, maneiras de pensar e concepções de vida distintas e
peculiarmente constituídas. A classe inteira os cria e os forma sobre a base de suas condições materiais e
das relações sociais correspondentes. O indivíduo isolado, que as adquire através da tradição e da
educação, poderá imaginar que constituem os motivos reais e o ponto de partida de sua conduta” (Marx,
1988, p. 26),

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qualquer modo dominados e eliminados. Os movimentos do capital aparecem como ações do


capitalista individual, no sentido de que este funciona como comprador de mercadoria e de
trabalho, vendedor de mercadoria e capitalista produtivo, com sua atividade, possibilitando,
portanto, o ciclo. Se o capital social experimenta uma revolução no valor, pode um capital
individual sucumbir e desaparecer por não preencher as condições dessa revolução. Quanto mais
agudas e mais frequentes as revoluções do valor, tanto mais o movimento automático do valor
como ente autônomo, operando com a força de um fenômeno elementar da natureza, se impõe
em confronto com a previsão e os cálculos do capitalista individual, tanto mais o curso da
produção normal se subordina à especulação anormal, tanto maior o perigo para a existência
dos capitais individuais. Essas revoluções periódicas confirmam, portanto, o que se quer que elas
desmintam: a existência independente que o valor como capital adquire e, com seu movimento,
mantém e exacerba (Marx, 2006b, p. 120 – itálicos e negritos nossos).

E em relação à independência que o movimento adquire de suas personificações,


acrescenta, noutro lugar:
Vimos que a crescente acumulação do capital implica uma crescente concentração deste último.
Assim cresce o poder do capital, a autonomização das condições sociais da produção,
personificadas no capitalista em face dos produtores reais. O capital se mostra cada vez mais
como um poder social, cujo funcionário é o capitalista, e que já não guarda nenhuma relação
com o que o trabalho de um indivíduo isolado possa criar – mas se apresenta como um poder
social estranhado, autonomizado, que se opõe à sociedade como uma coisa, e como poder do
capitalista através dessa coisa. A contradição entre o poder social geral em que se converte o
capital e o poder privado dos capitalistas individuais sobre essas condições sociais de produção
desenvolve-se de maneira cada vez mais gritante e implica a dissolução dessa relação, na
medida em que implica ao mesmo tempo a transformação das condições de produção em gerais,
coletivas, sociais. Essa transformação está dada pelo desenvolvimento das forças produtivas sob
a produção capitalista e pela maneira como se opera esse desenvolvimento (Marx, 2017, p. 303 –
itálicos nossos).

A localização dos indivíduos em camadas da estrutura social circunscreve o


conjunto de relações com as quais interagem, oferece possibilidades mais ou menos
limitadas de ação e fruição, das quais podem lançar mão na elaboração de respostas às
suas carências e aos problemas colocados pela vida social na realização prática de suas
próprias reproduções; em uma palavra: determina suas possibilidades de liberdade18.
Enquanto detentor de capital, como forma de manter sua própria reprodução, não
resta ao capitalista19 opção que não seja (re)pôr cadeias causais que permitam a

18
“É comum a toda individualidade a escolha relativamente livre (autônoma) dos elementos genéricos e
particulares; mas, nessa formulação, deve-se sublinhar igualmente os termos ‘relativamente’. O homem
singular não é pura e simplesmente indivíduo, no sentido aludido; nas condições da manipulação social e
da alienação, ele vai se fragmentando cada vez mais ‘em seus papeis’. O desenvolvimento do indivíduo é
antes de mais nada – mas de nenhum modo exclusivamente – função de sua liberdade fática ou de suas
possibilidades de liberdade” (Heller, 2000, p. 22 – itálicos do original).
19
Para não incorrermos em demasiada simplificação, devemos notar que própria morfologia da classe que
personifica o capital – cujo exemplo mais ilustrativo podia ser encontrado no capitalista clássico,
proprietário dos meios de produção – sofre alterações com a formação das sociedades por ações, uma
modificação que, “em oposição ao capital privado”, “é a suprassunção [Aufhebung] do capital como
propriedade privada dentro dos limites do próprio modo de produção capitalista” (Marx, 2017, p. 494). A
constituição do capital social faz com que “o capitalista realmente ativo se convert[a] em simples gerente,
administrador de capital alheio, e os proprietários de capital em meros proprietários, simples capitalistas
monetários. Ainda que nos dividendos que recebem estejam incluídos os juros e o ganho empresarial, isto
é, o lucro total (pois a remuneração do gerente é, ou deve ser, mero salário para remunerar certo tipo de
trabalho qualificado, cujo preço é regulado no mercado de trabalho, como o de outro trabalho qualquer),
esse lucro total é recebido agora apenas na forma de juros, isto é, como simples remuneração à
propriedade do capital, que, por sua vez, passa a ser inteiramente separada da função que desempenha no
processo real de reprodução, do mesmo modo que essa função, na pessoa do dirigente, se encontra

12
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(acelerada) reprodução do valor. Antes que uma reprodução “abstrata” do sistema do


capital, interessa-lhe, de modo bastante prosaico, a reprodução concreta de sua própria
condição – a manutenção de seu sistema de privilégios. Está visceralmente ligado – de
corpo e alma – ao próprio destino do capital. A abundância do valor (e do mais-valor) é
a garantia da abundância de suas próprias formas de fruição. Ao crescimento da
acumulação corresponde a melhoria de sua condição social. Para reproduzir seu modo
de vida, deve reproduzir, inescapavelmente, o capital, estando ou não consciente da
consequência de suas ações em nível sistêmico. Agindo conscientemente – pondo
teleologicamente – lança mão do conjunto de possibilidades que lhe é acessível;
mobiliza os complexos de objetivações necessários ao bom funcionamento da dinâmica
do valor. Sabe que deve produzir valor (e, sobretudo, mais-valor) como forma de
garantir a saúde de seus negócios e sua própria predominância na estrutura social. Por
sua capacidade estrutural de mobilizar maior quantidade de elementos (recursos
materiais, relações sociais etc.) acredita-se autônomo quando, na verdade, é apenas
simples funcionário do valor em seu movimento autorreprodutivo. Não há segredo: no
desdobramento de D’20, cabe-lhe exatamente a parte d21 – seja em sua totalidade, no
caso da reprodução simples, seja apenas uma determinada alíquota, no caso de
reprodução ampliada. Interessa-lhe, portanto, pessoalmente, a ampliação máxima de d
(que nada mais é do que forma transmutada de µ) e agirá teleologicamente para reiterar
o processo de reprodução do capital, facilitando todo o seu curso22.

separada da propriedade do capital. O lucro aparece assim (e não apenas uma parte dele, os juros, que
extrai sua justificação do lucro do prestatário) como simples apropriação de mais-trabalho alheio,
proveniente da transformação dos meios de produção em capital, isto é, de sua alienação diante do
produtor real, de sua oposição, como propriedade alheia, a todos os indivíduos que tomam parte
ativamente na produção, desde o gerente até o último dos diaristas. Nas sociedades por ações, a função
aparece separada da propriedade de capital, e o trabalho também aparece, portanto, completamente
separado da propriedade dos meios de produção e do mais-trabalho. Esse resultado do máximo
desenvolvimento da produção capitalista é uma fase de transição necessária até a reconversão do capital
em propriedade dos produtores, mas não mais como propriedade privada de produtores isolados, e sim
como propriedade dos produtores associados, como propriedade diretamente social. É, por outro lado,
uma fase de transição para a transformação de todas as funções do processo de reprodução até aqui ainda
relacionadas à propriedade do capital em simples funções dos produtores associados, em funções sociais”
(Marx, 2017, p. 494-5).
20
D – M (Mp + F) ... P ... M’ (M = µ) – D’ (D + d).
21
Sobre esta questão, com precisão e atualidade, considera Pachukanis (1988, p. 85): “por causa da
evolução do modo de produção capitalista, o proprietário afasta-se progressivamente das funções técnicas
de produção e deste modo perde também o domínio jurídico total sobre o capital. Numa empresa de
acionistas, o capitalista individual nada possui além da titularidade de uma quota-parte determinada do
rendimento que obtém sem trabalhar. A sua atividade econômica e jurídica, como proprietário, restringe-
se quase que inteiramente à esfera do consumo improdutivo. A massa mais importante do capital torna-se
inteiramente uma força de classe impessoal. Na medida em que esta massa de capital tem participação na
circulação mercantil, o que supõe a autonomia de suas diferentes partes, esta partes autônomas surgem
como propriedade de pessoas jurídicas. Na verdade, é apenas um grupo, relativamente restrito de grandes
capitalistas, que dispõe da grande massa de capital e que, além disso, opera não diretamente, mas por
intermédio de representantes ou de procuradores com poderes estipulados. A forma jurídica distinta da
propriedade privada já não representa mais a situação real das coisas, uma vez que a dominação efetiva se
estende através de métodos de participação, de controle etc., bastante além do quadro puramente
jurídico”.
22
O mesmo vale para outras personificações do capital, cujo fundamento estrutural é a posição na divisão
social e técnica do trabalho. Contudo, aqui, o problema ganha matizes que podemos apenas aludir. Alguns
determinantes precisam ser considerados ao analisarmos a posição e a função social dessas frações de
classes e a primeira delas é o lugar ocupado na estrutura da produção social. Não se pode esquecer ainda
do modo como participam na reprodução do complexo ideológico particular, que se consolida com a

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A reposição das cadeias causais reificadas, portanto, é a função das


personificações do capital. Para sua própria reprodução devem reproduzir o valor,
garantir que se expanda livremente. Fazem-no como forma de manutenção de sua
posição na estrutura social; desfrutam os benefícios que a sociedade do valor lhes pode
proporcionar. Desenvolvem as ações necessárias ao fluxo ininterrupto do capital,
garantindo uma hierarquia social rígida, indispensável à manutenção da subordinação
formal e real do trabalho. “Sua pessoa, ou melhor, seu bolso, é donde sai e para onde
volta o dinheiro. O conteúdo objetivo da circulação em causa – a expansão do valor – é
sua finalidade subjetiva23” (Marx, 2006, p. 183).
Por seu turno, ainda que como o “lado negativo da antítese” (Marx; Engels,
2011, p. 48), as personificações do trabalho, em sua ação econômica, repõem o conjunto
das causalidades postas reificadas: na busca por suas reproduções individuais, têm de se
inserir na cadeia de produção e reprodução do valor e do mais-valor, como condição
necessária – a condição de sua reprodução é, também, reproduzir o capital; do contrário,
torna-se simplesmente impossível seu emprego na ordem do capital. Do ponto de vista
econômico, não há qualquer absurdidade: a relação não viola a lei das trocas, a força de
trabalho é vendida no mercado por seu preço e é concedido ao capital, a partir desse ato,
o jus utendi et abutendi de suas propriedades e qualidades específicas durante o período
contratado. Esta é a condição socialmente posta para a reprodução das personificações
do trabalho na ordem do capital: a produção (e reprodução) do valor (e do mais-valor).
Também aqui, a inserção estrutural desses indivíduos os coloca em condições
determinadas, frente a um conjunto de objetividades sociais que se lhes mostra sob uma
determinada forma, mais ou menos acessível, como um leque de escolhas reduzido (e
permanentemente reduzido, relativamente ao agigantamento do volume de mercadorias
e ao encolhimento social do trabalho necessário), cujo potencial de respostas encontra-
se permanentemente adstringido pela urgência de manutenção/reprodução da própria
vida. A alarmante contingência que permeia suas condições de reprodução reduz
invariavelmente o campo de escolhas. Todavia, é justamente essa redução do leque de
possibilidades que coloca as personificações do trabalho frente à possibilidade decisiva
de realizar ações diruptivas da ordem vigente.
A possibilidade de controlar o sistema, por seu turno, não está dada a nenhuma
das classes. No entanto, elas parecem acessíveis às personificações do capital graças ao
poder que esses indivíduos têm de mobilizar, em prol de seus interesses, maior número
de elementos dos sistemas primário e secundário de mediações. A mobilização dos

generalização histórica do modo de produção burguês, das relações que estabelecem com as classes
fundamentais e outros grupos sociais, do modo como acessam e fruem as objetivações socialmente
produzidas e de como essas camadas organizam seu modo de vida, suas expectativas e suas
movimentações concretas no espectro político mais amplo. Vários autores se dedicaram a esse exercício
(a compreender os impactos dos processos de transformação do trabalho e da sociedade a partir de
meados do século XX na estrutura de classes) e há vastíssima bibliografia sobre o assunto. Apenas para
ficarmos nas mais significativas, pensemos em Braverman (1974); Gorz (1982); Lojkine (2002); Offe
(1989); o operaísmo italiano de Negri e Lazzarato; Sabel e Piore (1984); Schaff (1995) etc.
23
“Não se deve entender com isso como se, por exemplo, o rentista, o capitalista etc. deixassem de ser
pessoas, mas sim no sentido de que sua personalidade é condicionada e determinada por relações de
classe bem definidas; e a diferença torna-se evidente apenas na oposição a uma outra classe e, para os
próprios indivíduos, somente quando entram em bancarrota” (Marx; Engels, 2007, p. 65).

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complexos mediativos de primeira e segunda ordem, pelas personificações do capital,


nada mais é do que a luta por reiterar, em uma ação aparentemente autodeterminada24.
As ações teleológicas das personificações do capital, portanto, passam não
somente pela administração dos elementos propriamente econômicos, necessários ao
bom fluxo do valor, à realização de suas metamorfoses, etc., mas também pela
manutenção de um sistema de hierarquia e opressão social capaz de constranger as
individualidades à realização rápida e eficaz deste fluxo. Em outros termos, elas não
buscam controlar apenas todo o campo de posições teleológicas primárias: num sistema
de reificação generalizado, elas devem, em escala crescente, controlar toda a dinâmica
das posições teleológicas secundárias, mobilizando maior volume de mediações capazes
de influenciar os demais indivíduos sociais a realizar as ações necessárias à
continuidade do capital. Há, aqui, um inegável impulso à ampliação da divisão social e
técnica do trabalho como forma de garantir o direcionamento das posições teleológicas
secundárias. Na brilhante síntese de Lukács:
quanto mais se desenvolve o trabalho, e com ele a divisão do trabalho, tanto mais autônomas são
as formas dos pores teleológicos do segundo tipo, tanto mais eles conseguem se desenvolver
como complexo próprio da divisão do trabalho. Essa tendência do desenvolvimento da divisão
do trabalho cruza, no plano social, necessariamente, com o surgimento das classes; pores
teleológicos dessa espécie podem ser colocados espontânea ou institucionalmente a serviço de
uma dominação sobre aqueles que por ela são oprimidos, do que provém a tão frequente ligação
entre o trabalho intelectual autonomizado e os sistemas de dominação de classe (Lukács, 2013, p.
180).

Portanto, embora os complexos sociais realizem suas malhas causais reificadas


movidos por força de uma dinâmica automática – o capital – eles só o fazem – e só
podem fazê-lo – por meio da ação dos próprios homens, que devem operar num dado
nível de pôr capaz de viabilizar suas próprias reproduções individuais, pelo mesmo
movimento em que garantem a continuidade da reprodução social (da qual dependem
para sua manutenção); fazem-no inconscientes quanto aos resultados mediatos, mas de
maneira socialmente eficaz. Em meio ao fetichismo das formas e a reificação dos
conteúdos, interagem com os complexos sociais e com as determinações por eles postas
de maneira a oferecerem respostas adequadas à continuidade do processo de
produção/reprodução social alienado, pois dessa continuidade depende, no plano
imediato, suas próprias reproduções individuais. A ampliação das possibilidades de
respostas depende, todavia, de condições objetivadas anteriormente. Na positividade do
capital, que restringe tudo à lógica mercantil, o leque de possibilidades de pores
alternativos e enriquecidos torna-se progressivamente adstringido pelo círculo vicioso
da lógica do valor. Portanto, não apenas do ponto de vista da contradição do valor, mas
também a partir do campo de possibilidades humanas, a ordem do capital caminha para
um estrangulamento objetivo e uma tensão genérica: a redução das alternativas do pôr a
uma cadeia empobrecida de possibilidades (cuja essência final é, necessariamente, a
forma mercantil e o valor) oblitera as alternativas de sua administração racional, de
explicitação de uma subjetividade humana enriquecida, acuando as possibilidades
significativas de ação a uma única opção: a ruptura radical com essa cadeia de
alternativas (empobrecidas), de modo a abrir um leque totalmente novo de

24
“Os sujeitos automáticos configuram-se à medida que [os indivíduos – AA] devem aceitar como
evidente e espontânea certa sociabilidade, a qual, por meio do processo de valoração do capital, faz do
sujeito mera personificação de uma relação social” (Sartori, 2010, p. 122).

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possibilidades – o que requer a destruição do conjunto de mediações de segunda ordem


adstringidas e adstringentes do capital.
O movimento automático do capital, como vimos, encontra seu fundamento na
produção alienada – onde já aparece como pressuposto de si mesmo – mas não se
restringe a ela. O estranhamento da produção pelo trabalhador, como estranhamento dos
meios e objetos de trabalho, tem sua própria equivalência no estranhamento
generalizado na circulação. A mercadoria, como forma elementar de manifestação do
capital, invade todos os poros da vida social, evidenciando-se como a raison d’être do
mundo.
Na idade avançada do monopólio, a organização capitalista da vida social preenche todos os
espaços e permeia todos os interstícios da existência individual: a manipulação desborda a esfera
da produção, domina a circulação e o consumo e articula uma indução comportamental que
penetra a totalidade da existência dos agentes sociais particulares – é o inteiro cotidiano dos
indivíduos que se torna administrado, um difuso terrorismo psicossocial se destila de todos os
poros da vida e se instila em todas as manifestações anímicas e todas as instâncias que outrora o
indivíduo podia reservar-se como áreas de autonomia (a constelação familiar, a organização
doméstica, a fruição estética, o erotismo, a criação dos imaginários, a gratuidade do ócio etc.)
convertem-se em limbos programáveis. [...] A organização capitalista da grande indústria
moderna modela a organização inteira da sociedade macroscópica, impinge-lhe os seus ritmos e
os ciclos, introduz com a sua lógica implacável o relógio-de-ponto e os seus padrões em todas as
micro-organizações (Netto, 1981, pp. 81-2 – itálico do original, negritos nossos).

A administração do cotidiano, neste caso, tem de operar por meio de leis de


funcionamento que reinam e governam, sob um aspecto absolutamente natural, a vida
dos homens. As forças constritoras do capital encontram também formas de
materialização pela cadeia hierárquica que vertebra todo o tecido social. O movimento
automático se materializa por linhas de força condicionantes, que se desdobram em
formas coercitivas e ideológicas dimanadas de complexos institucionais coligidos a
partir de um sistema de mediações de segunda ordem reificado, cujo conjunto ocasional
é vivenciado pelos indivíduos como expressão e condição da própria fragmentação
subjetiva de suas personalidades:
a ubiquidade deste poder [...] aparece nas ações da bolsa, nos regulamentos, no talonário de
cheques, nas portarias, nos documentos, nos certificados –, instala-se na parafernália que valida a
cidadania. Está em todas as partes e não reside em lugar algum. Escamoteia os fluxos, as
continuidades e as rupturas: dá ao viver a sequência da lanterna-mágica – normas, trabalho, lazer
etc., tudo é uma mescla inorgânica, cujo enlace é a sucessão no tempo e no espaço: a vida é uma
justaposição de objetos, substâncias, implementos (Netto, 1981, p. 83).

A ação cotidiana dos homens, na ordem do capital, ganha seu sentido pessoal
como uma ação voltada para a própria autorreprodução dos indivíduos25. De acordo
como se inserem dentro de uma cadeia determinada – pelos loci de suas inserções na
estrutura de relações sociais de produção, ou seja, pelas suas posições de classe – de
relações causais que oferecem e restringem alternativas e possibilidades, respondem, a
partir dessas determinações dadas, ao conjunto de problemas e entraves colocados à

25
“As condições sob as quais os indivíduos intercambiam uns com os outros, enquanto não surge a
contradição [entre as forças produtivas e as relações de produção – AA], são condições inerentes à sua
individualidade e não algo externo a eles, condições sob as quais esses indivíduos determinados, que
existem sob determinadas relações, podem produzir sua vida material e tudo o que com ela se relaciona;
são, portanto, as condições de sua autoatividade e produzidas por essa autoatividade. A condição
determinada sob a qual eles produzem corresponde, assim, enquanto não surge a contradição, à sua real
condicionalidade [Bedingtheit], à sua existência unilateral, unilateralidade que se mostra apenas com o
surgimento da contradição e que, portanto, existe somente para os pósteros” (Marx; Engels, 2007, p. 68).

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suas reproduções individuais. As determinações pretéritas e futuras, no mais das vezes,


aparecem distanciadas frente à premência do imediato – a determinação futura sob a
ação teleológica presente, determinando o pôr com a força de um dever-ser, é
circunscrita por um futuro efêmero, cujo caráter é essencialmente iminente, e não como
uma perspectiva da linha histórica e do nexo ético que ligam indivíduo e gênero. Essa
dissociação só pode ser concebida em um modo de produção que, ao mesmo tempo em
que avança a potencialidade produtiva do gênero, o faz à custa da sufocação do
desenvolvimento pleno do indivíduo. Portanto, a ação cotidiana como autorreprodução
findada em si mesma só é possível em uma sociedade de relações sociais que realiza o
gênero pela negação do indivíduo e o indivíduo pela negação do gênero, colocando-os
em aparente oposição mútua.
A positividade do capital, em seu modo peculiar, emerge cotidianamente contra
os indivíduos,
coloca ininterruptamente alternativas que aparecem de forma inesperada e, com frequência, têm
que ser respondidas de imediato sob pena de ruína; uma determinação essencial da própria
alternativa consiste em que a decisão deve ser tomada sem que se conheçam a maioria dos
componentes, a situação, as consequências etc. (Lukács, 2013, p. 139).

É a partir dessa positividade que os homens objetivam cotidianamente. Sabemos


também que, para que a relação sujeito/objeto tenha efeito em toda sua profundidade,
um elevado grau de objetivação é requerido ou, em outros termos, quanto mais
duradouras as objetivações, maiores a relação e o desenvolvimento de possibilidades
que oferecem aos sujeitos; mais se prestam à análise e à formação de um reflexo correto
(condição indispensável para a ação sobre todas as suas causalidades imanentes) e mais
se colocam como condição permanente na vida dos homens, fundamento a partir do
qual serão postas as novas objetivações. O comportamento dos homens depende
também, assim, do grau de objetivação de suas atividades.
As relações imediatas, típicas da cotidianidade, executadas in totum (mesmo que
por formas muitíssimo mediadas) para a reprodução elementar dos indivíduos que as
realizam, resultam em objetivações frágeis. Pelas próprias características de suas
determinações, são repositivas e marginais em relação às linhas de força essenciais das
causalidades postas sobre as quais atuam; “cuanto más inmediatas son esas relaciones
[...] tanto más débil, más cambiante y menos fijada es la objetivación” (Lukács, 1966, p.
42). Atuando tendo por referência a imediatidade epidérmica dos processos causais
reificados, a inconsciência da ação dos homens reporta não tanto à realização das
necessidades imediatas de suas reproduções (no que operam conscientemente), mas a
todo o conjunto macroscópico de formas e conteúdos causais que o somatório das ações
dos indivíduos singulares mobilizam – em palavras rápidas, a todo o conjunto da
reprodução social, em suas formas e conteúdos. Como já dissemos, o valor orienta o
desenvolvimento das formas que adstringem os homens a determinado comportamento.
As ações cotidianas atuam, fundamentalmente, sobre o desenvolvimento epidérmico das
causalidades sociais: ele é seu fim último e o substrato primário das conformações
ideais que as orientam. As decisões tomadas no cotidiano campeiam entre o instantâneo
e o rigidamente fixado (mas pouco refletido):
en la vida subjetiva de la cotidianidad tiene lugar una constante oscilación entre decisiones
fundadas en motivos de naturaleza instantánea y fugaz y decisiones basadas en fundamentos
rígidos, aunque pocas veces fijados intelectualmente (tradición, constumbres) [...]. Se trata
siempre del rápido cambio, a menudo repentino, entre rigidez conservadora en la rutina o la
convención y acciones, decisiones, etc., cuyos motivos [...] presentan un caráter
predominantemente personal (Lukács, 1966, p. 44).

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Não por outra razão, no cotidiano estão mais fortemente vinculados teoria e
prática – a necessidade da ação imediata supõe e exige a formação de estruturas ideais
que possibilitem a ação. Ditas estruturas orientam-se muito mais em relação à eficácia
que o ato deve produzir que propriamente à explicitação de suas conexões internas mais
profundas e decisivas: para que a ação cotidiana funcione, basta que seja eficaz do
ponto de vista do agente26. A relação que se estabelece no cotidiano entre dever-ser,
reflexo, escolha de meios, objetivação e eficácia prática supõe o apagamento das
mediações que se interpõem entre teoria e prática em suas formas mais elevadas. Como
consequência, obtém-se um espelhamento carente de mediações – mas suficiente para a
ação imediata – e uma objetivação pouco duradoura. Na estrutura reificada da ordem do
capital, em poucas palavras: obtém-se um reflexo limitado, construído a partir do
encadeamento mais superficial dos nexos causais, que sequer resvala sobre seus
conteúdos essenciais (sobre a essência de funcionamento da própria socialidade dos
homens submetida ao valor), e uma ação prática epidérmica, reiterativa, incapaz de
atingir e alterar os fundamentos de funcionamento das legalidades autorreprodutivas
do capital, terminando por repor, inconscientemente, seu movimento automático.
Entretanto, é exatamente a ação prática do conjunto dos homens que movimenta, ainda
que sem a intenção direta de fazê-lo, todo o conjunto material de relações sociais,
repondo em patamares mais desenvolvidos e complexos toda essa malha causal.
A vivência cotidiana é, em última instância, uma experiência singular, de cada
indivíduo, na realização prático-empírica de suas demandas mais rotineiras. A urgência
de respostas práticas à pluralidade de situações requer um comportamento eficaz, capaz
de garantir a sobrevivência psicofísica imediata. Tomada por automatismos, a vida
cotidiana é marcada em seu conjunto por um universo plenamente múltiplo e variegado
de objetivações ativas, cujo caráter compósito e heterogêneo27 exige respostas múltiplas
para questões várias (aplicações da física, da biologia, do trabalho, das artes, da política,
etc.). Todas estas questões apresentam-se de maneira mais ou menos imediata,
requerendo respostas urgentes e ativas, a fim de propiciarem ao indivíduo sua realização
vital, de modo pragmático, ou seja, sem um supradesgaste de suas forças vitais. A
pluralidade das situações e a urgência das demandas exigem um rápido processamento
da ação – o que não permite, em último caso e no mais das vezes, uma análise rigorosa e
crítica: estamos diante de ações superficiais e extensivas.
Todas essas determinações são entrecortadas pela historicidade; “a vida
cotidiana não está ‘fora’ da história, mas no ‘centro’ do acontecer histórico: é a
verdadeira ‘essência’ da substância social” (Heller, 2000, p. 20). As formas
heterogêneas que se mostram no cotidiano derivam, por inúmeras mediações, das
condições historicamente postas nas quais os homens estão mergulhados. Como
objetividades heterogêneas da ordem do capital, parte das objetivações sociais tem seu
destino hipotecado à própria sorte do sistema do valor28. O confronto, no cotidiano, com
essas objetivações heterogêneas é resolvido, em sua imediatidade, por ações embasadas

26
“A unidade imediata de pensamento e ação implica inexistência de diferença entre ‘correto’ e
‘verdadeiro’ na cotidianidade; o ‘correto’ também é ‘verdadeiro’. Por conseguinte, a atitude da vida
cotidiana é absolutamente pragmática” (Heller, 2000, p. 32).
27
“Mas a significação da vida cotidiana, tal como seu conteúdo, não é apenas heterogênea, mas
igualmente hierárquica. Todavia, diferentemente da circunstância da heterogeneidade, a forma concreta
da hierarquia não é eterna e imutável, mas se modifica de modo específico em função das diferentes
estruturas econômico-sociais” (Heller, 2000, p. 18).
28
Pense-se, por exemplo, na forma-mercadoria, na forma-dinheiro, no trabalho alienado, no salário, nas
formas jurídica e política etc.

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pelo mais espontâneo materialismo – exatamente por isso, o fiador da ação é o critério
de eficácia e seu resultado uma objetivação efêmera, conforme já aludimos.
La fuerza y la debilidad de esa esponteneidad caracterizan claramente, desde otro punto de
vista, la peculiaridad del pensamiento cotidiano. Su fuerza se revela em el hecho de que
ninguna concepción del mundo, por idealista y hasta solipsista que sea, consiegue impedir que
aquella espontaneidad funcione en la vida y el pensamiento de la cotidianidad. Ni el más
fanático berkeleyano, cuando al cruzar la calle evita un automóvil o espera que éste pase, tiene
la sensación de estar entendiéndoselas sólo cun su propria representación [...]. Y la debilidad de
ese materialismo espontáneo se manifesta en el hecho de que sus consecuencias para la
concepción del mundo son escasísimas, y acaso nulas (Lukács, 1966, p. 48).

Absorvidos por toda ordem de problemas, os homens se comportam no


cotidiano como “homens inteiros” – operam como um todo, fornecendo as respostas
variadas necessárias à sua reprodução, nos mais diversos campos da vida social,
manipulando variáveis que remetem a várias áreas do saber, operando por
instrumentais, muitos dos quais extremamente complexos e sofisticados, mobilizando
um conjunto de objetivações densas, cujas mediações obnubiladas fazem aparecer como
um agrupamento absolutamente simples, funcional e manipulável.
Modificar as causalidades automáticas do capital exige uma ação no cotidiano
e, ao mesmo tempo, para além dele – orientações práticas conscientes que mirem na
eliminação do conjunto forma/conteúdo pelo qual se entificam as linhas de força do
capital. Por certo, não pode ser uma ação reiterativa (pragmática, calcada no
materialismo espontâneo): deve, através de formas conscientes, subverter as dinâmicas
de funcionamento interno das múltiplas manifestações sociais constringidas pelo
imperativo de realização do valor. Por seu desenvolvimento automático, as linhas de
força por meio das quais o capital realiza seu movimento dinâmico não podem ser
controladas – sua natureza imanente é autorreprodutiva, totalizante e totalitária,
parasitária dos homens, necessários apenas à realização de seu movimento
autoconstitutivo e autoexpansivo – embora possam ser destruídas. Somente por sua
destruição pode-se abrir o novo campo de possibilidades efetivamente humanas.

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REFLEXÕES SOBRE O TEXTO TRABALHO ASSALARIADO E CAPITAL

Ivan Cotrim
Fundação Santo André
ivancotrim@uol.com.br

Resumo
O texto Trabalho assalariado e capital de Marx registra um momento decisivo da
crítica originária da economia política, anterior à Contribuição à Critica da Economia
Política, de sua maturidade. O que os põe em conexão profunda é, já nesse texto de
1847, a compreensão sobre o trabalho nas condições históricas capitalistas. Ele observa
no trabalho, sob o capital, características confluentes com as das mercadorias,
especialmente sua subsunção às leis do mercado, como uma mercadoria com as mesmas
condições de qualquer outra. A partir daí Marx elabora sua compreensão do trabalho,
como categoria que se diferencia das demais, ao definir-se sob a forma potencial de
capacidade de trabalho, ao mesmo tempo em que registra sua condição sine qua non
para existência do capital. Ele indica, também, que as coalizões, a união da massa
trabalhadora em seus interesses comuns, em oposição aos do capital, resulta das
relações de assalariamento que no interior da regência do capital restringe o trabalhador
aos limites mínimos de sua sobrevivência. A oposição entre trabalho e capital
evidenciada o leva a definir que só pela organização e luta dos trabalhadores poderia
alcançar a emancipação da sociedade em relação às classes sociais na direção do
comunismo.
PALAVRAS-CHAVE: trabalho assalariado; estranhamento; capital; capacidade de
trabalho

REFLECTIONS ON THE TEXT WAGE LABOUR AND CAPITAL

Abstract
Marx’s writing Wage Labour and Capital sets a decisive moment of the original
critique of political economy, previous to A Contribution to the Critique of Political
Economy, a work belonging to the period of his maturity. Both of these writings connect
deeply in their understanding of labour in the capitalist historical conditions, which
figures already in the 1847 text. Marx observes that, under capitalism, labour assumes
characteristics typical of commodities, in particular their subsumption to the laws of
market as a commodity under the same conditions as any other. From that observation,
Marx elaborates his understanding of labour as a category that differs from others, by
defining itself as the potential form of labour power, while remarking its sine qua non
condition for the existence of capital. Marx also indicates that the coalitions or the union
of the working mass for their common interests as opposed to those of capital result
from the wage labour relationship under the rule of capital, that restricts the worker to
the minimum limits of their survival. The understanding of the opposition between
labour and capital leads Marx to sustain that only by their organization and struggle
could the workers emancipate society from the social classes, towards communism.
KEYWORDS: Wage labour; Estrangement; Capital; Labour power.

Introdução

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Consideramos importante introduzir um registro sintético do percurso teórico


crítico de Marx em sua crítica originária da economia política, recriando o ambiente
intelectual do autor até a elaboração de Trabalho Assalariado e Capital, (neste ano de
2018 em que comemoramos duzentos anos de seu nascimento). Marx enfrentou os
pensadores clássicos da economia política com espírito provido criticamente em
desvelar, por meio das suas formulações teóricas, a base de sustentação dos fenômenos
econômicos por eles abordados e suas derivações ideológicas que permitiram aos
clássicos emoldurarem tal ciência. O período em que essa crítica originária transcorre
tem início com os apontamentos e estudos analíticos publicados com o título de
Extratos de James Mill, mais tarde Cuadernos de Paris, assim nomeado por Adolfo
Sanchez Vasquez (Vasquez, 1974), na década de setenta do século XX. Esse texto
antecede os Manuscritos Econômico-Filosóficos, embora produzido no mesmo ano,
1844, bem antes, portanto, das concreções encontradas na Contribuição à Crítica da
Economia Política, de 1859, e em O Capital, de 1863.
Sua análise sobre a economia política acaba por desembocar no valor, categoria
central dessa ciência. Se a princípio Marx não utiliza o termo valor-trabalho, este será
incorporado durante a própria redação de suas notas, nos momentos em que as teses
tanto de Ricardo como de Smith estiverem sendo examinadas. Desta forma, não é
correto afirmar, como já o fizeram alguns analistas dos escritos desse período, que ele
inicia por rejeitar a teoria do valor-trabalho, mesmo tratando-se de seu primeiro contato
com as teorias da economia clássica. Vasquez nos indica que já nas leituras d’A Riqueza
das Nações, de Smith, Marx põe em destaque uma afirmação desse pensador na qual a
riqueza se coloca como produto do trabalho, e não sob a forma particular do ouro, prata
e pedras preciosas. E, mais adiante, nos Cuadernos, ele deixa apontadas questões
refletidas por Ricardo sobre o trabalhador em que destaca que ao trabalhador não resta
qualquer vantagem com a elevação de sua produtividade, e, de qualquer forma, seu
trabalho é fonte de todo valor. Vazquez faz notar que Marx evidenciou um amplo
quadro de observações sobre os argumentos dos clássicos nos Cuadernos que foram
retomadas para um aprofundamento crítico-analítico em O Capital.
Nessas anotações originárias o tema alienação marca forte presença em suas
críticas à propriedade privada que se torna referência indissociável de toda sua produção
juvenil sobre a economia política. Para os economistas clássicos a propriedade privada
tem origem natural, antropológica, posição plenamente rechaçada por Marx ao indagar
sobre a forma adotada pelas relações sociais nas condições da propriedade privada. Ele
indica, desde logo, que o nexo entre esta e a alienação e o estranhamento que define, em
essência, o agir econômico dos indivíduos nesta sociedade mercantil.
Vazquez destaca que além desse enfrentamento crítico anteriormente indicado,
Marx esteve enredado em várias posições naturalistas da economia política, dando como
exemplo a concepção dos clássicos no que toca ao sistema de necessidades, posição
coincidente com a de Hegel no que diz respeito às necessidades humanas, já que
registram sua origem na raiz natural dos indivíduos. Vazquez observa que em Marx
essa concepção de necessidade cede lugar à determinação social, tendo origem no
sistema de divisão do trabalho e intercâmbio, ambos circunscritos à sociabilidade
humana.
As anotações de Marx nos Cuadernos formam um conjunto temático, mas suas
críticas, no interior de suas anotações, recuperam cada categoria em particular para um
exame e consolidação de seu próprio desenvolvimento intelectual. A partir de então ele

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submete as categorias erigidas pela economia política a uma critica radical. Tomemos
por exemplo, a propriedade privada, esta se lhe afigura como base infundada dessa
ciência, como um fato carente de necessidade, pois, a economia política sustenta-se
nessa categoria, afirmando que não há riqueza sem propriedade privada, mas não
explica a necessidade humana dessa forma social, não explica a demanda histórico-
social da propriedade privada, pondo por terra um dos pilares teóricos dos clássicos.
Marx está, de fato, tomando contato com os pensadores da economia pela
primeira vez, muito embora já se detivera nas análises críticas de Esboço de uma Crítica
da Economia Política, elaborado por Engels, que o auxiliou a enfrentar o emaranhado
teórico deixado pelos clássicos; além disso, ele tem já recursos teóricos constituídos
acumulados que lhe permitiram o tom empregado nesse enfrentamento, principalmente
por ter dominado as críticas ontológicas anteriores, a crítica à politicidade e a
especulação filosófica, ambas expressões teóricas de uma e mesma realidade sócio
econômica. De maneira que estamos vendo uma complementação de seu percurso
crítico, complementação essa que, não custa repetir, tem sua manifestação originária nos
Cuadernos.
Os Manuscritos Econômico-Filosóficos (Marx, 1987) contêm críticas a temas da
economia política que motivaram também a redação dos Cuadernos. Marx explicita
aspectos e ângulos que não foram tratados no texto anterior, conseguindo então elevar a
um patamar crítico mais amplo e esclarecedor alguns dos temas comuns a ambos os
textos, dessa forma ele fica em condições mais favoráveis, no segundo, já que pode
contar com as análises precedentes.
Nesse texto a presença da categoria econômica: produção, ganha destaque; essa
categoria será tratada com mais insistência e por múltiplos ângulos, o que forma um dos
diferenciais em relação aos Cuadernos.
Nas considerações do já citado analista das obras de juventude de Marx, fica
patente um aprofundamento crítico nos Manuscritos, já que Marx avança numa
articulação entre categorias econômicas e as atividades políticas, como a luta de classes
por exemplo, entre outras, mas determinados temas dos Cuadernos serão apenas
referidos nos Manuscritos.
O capítulo Salário do Trabalho dos Manuscritos foi submetido por Marx a um
cotejo com a realidade ativa dos indivíduos. As lutas entre capitalistas e trabalhadores,
levaram vantagem sempre para as mãos dos primeiros, diz Marx, pois estes “podem
viver mais tempo sem o trabalhador do que o trabalhador sem o capitalista” (Marx,
1999, p.2). Em seguida ele desdobra os motivos que levam os capitalistas terem
vantagens no enfrentamento com a classe trabalhadora. O poder de união dos
capitalistas apresenta-se sempre, em condições favoráveis diante das dos trabalhadores,
e da sociedade, enquanto que para estes as adversidades de toda natureza são
evidenciada frente suas tentativas de coalizão que sempre lhes rendem sérias
consequências. Desigualam-se, também, as condições entre capitalistas e trabalhadores
em momentos de enfrentamento ao se tomar as fontes de renda de ambos; os capitalistas
têm seus rendimentos oriundos de distintas fontes, como renda fundiária, lucro
industrial ou juro, enquanto os trabalhadores dependem da única fonte, que é o salário
de seu trabalho, o que faz gerar uma maior intensidade na concorrência entre os
trabalhadores.
Marx destaca também, apoiado nas formulações de Smith, que os salários são
estabelecidos num limite restrito à subsistência do trabalhador e com uma parcela para a
manutenção de sua família, com o que ele “perpetua sua raça”. Eis aqui uma formulação

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que, vinda de Smith, será reposta por Ricardo, e mantida por Marx que afirma ser esta
questão uma expressão do real, da sua determinação, isto é, dos fundamentos sociais das
relações de assalariamento.
Marx apresenta a relação capital-trabalho na forma tal como a supõe a economia
política, ou seja, como “casual, e por isso só pode ser explicada exteriormente” (Marx,
1999, p.3-A) à própria economia política. De maneira que, para os clássicos, a união
dessas categorias mostra-se como se “o capital /.../ [fosse] trabalho acumulado”; ou
então, “o operário é um capital”; ou como “o salário faz [endo] parte dos custos do
capital”; ou ainda, “no que diz respeito ao operário, o trabalho é a reprodução de seu
capital”. Cabe observar que, neste último caso, fica mais evidente a conversão, pela
economia política, de todos os indivíduos em formas de ser do capital; e “no que diz
respeito ao capitalista, é um fator de atividade do capital”.
Ele destaca situações sociais específicas, para indicar a radical desigualdade,
dentro do universo do capital, entre os trabalhadores e os capitalistas: quando a riqueza
produzida socialmente entra em declínio, quem absorve em sua pessoa os danos dessa
situação é o trabalhador; quando a riqueza se eleva, ele tem realmente um momento de
vantagem, pois se acentua a concorrência entre os capitalistas e a procura por
trabalhadores é maior, favorecendo assim uma elevação salarial; entretanto, diz Marx, a
contradição está em que “a alta de salários desperta no trabalhador o mesmo desejo de
enriquecimento que no capitalista, mas só o pode satisfazer pelo sacrifício de seu corpo
e espírito”, e a busca por maiores rendimentos o obriga a uma alienação maior de sua
liberdade e uma subsunção maior ao trabalho assalariado, degenerativo ao trabalhador,
donde resulta uma redução de seu tempo de vida, “uma morte prematura, a degradação
em máquina, a sujeição ao capital que se acumula em ameaçadora oposição a ele”.
O pagamento do trabalho, o salário, revela-se, na economia política, tanto na
prática quanto na teoria, algo semelhante à troca de mercadorias confirmando o que Mar
já havia deduzido nos Cadernos: que o salário é uma expressão, ou uma forma da
relação da propriedade privada. Nos Manuscritos, essa questão é explicitada e
fundamentada nos seguintes termos: “Consequentemente salário e propriedade privada
são idênticos, pois o salário no qual o produto, o objeto do trabalho remunera o próprio
trabalho, é apenas uma consequência necessária do estranhamento do trabalho e no
sistema de salário o trabalho não aparece como fim em si, mas como servo do salário”
(Marx, 1999, p.27-a). Observa ele então que “O capitalista é sempre livre para
empregar o trabalho e o operário se vê obrigado a vendê-lo. O valor do trabalho fica
completamente destruído se não for vendido a todo instante”. (Marx, 1999, p.3-a). De
maneira que a reprodução do valor do trabalho fica na dependência de sua venda ao
capitalista, isto é: a vida do trabalhador tem sua reprodução dependente da venda do
valor do trabalho. E o que é o valor do trabalho? Algo que, diferente do valor “das
autênticas mercadorias /.../ não pode ser nem poupado, nem acumulado”, isto é, só pode
ter valor na compra pelo capital, para utilização na produção.
Mantendo sempre relação com temas presentes nos Cadernos, como o
empobrecimento crescente do trabalhador, contrariamente ao aumento da produção de
riqueza por ele efetivado, Marx procura evidenciar o estranhamento que resulta das
relações do trabalho, sob a propriedade privada, pois, como diz ele, se aquilo com que o
homem se relaciona não tem existência para si, evidentemente lhe é estranho, não faz
parte de sua essência, de sua vida, está alienado dele. Marx põe em evidência também
um dos momentos mais agudos da degradação no trabalho, quando a alienação dos
indivíduos em relação a si próprios desdobra-se no estranhamento social, de seu gênero.

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Se a essência dos indivíduos é parte de sua generidade, o estranhamento em relação ao


gênero, e, portanto à sua sociabilidade é sua própria desefetivação.
Por outro lado, Marx penetra o interior da economia política e articula seus
pressupostos, sempre sublinhando suas contradições, como fez nos Cadernos. Lá ele
afirma ser a propriedade privada o ponto de partida daquela, sem que ela o explique, e
embora aquela teoria estabeleça uma rede interligada de categorias e leis que compõem
a ciência econômica, “Não compreende tais leis /.../ não explica como elas derivam da
propriedade privada” (Marx, 1999, p.22-a). A economia política afirma que o
dinamismo econômico funda-se no interesse dos capitalistas, pressuposto este que
deveria ser explicado como resultado. Ele mantém-se centrado na sua referência
decisiva, a atividade humana, sua autoconstrução, e com vistas a aproximações,
concreções, determinações mais precisas, alinha sua análise crítica pelo ângulo do
trabalho, dizendo: “Não nos colocamos como o economista quando quer explicar algo,
colocando-se num estado original imaginário”, (Marx, 1999, p.22-a) ao contrário, “nós
partimos de um fato econômico atual”, visível e notável até para a economia política,
mas não explicado por ela: “o trabalhador se torna uma mercadoria tanto mais barata,
quanto mais mercadoria produz”, ou então, “com a valorização do mundo das coisas,
aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens”, e por fim,
indicando a absoluta restrição à autoprodução humana, observa que “o trabalho não
produz apenas mercadorias, produz também a si mesmo e ao trabalhador como uma
mercadoria, e justamente na mesma proporção em que produz mercadorias em geral”
(Marx, 1999, p 23). O homem é natureza modificada; sua diferenciação em relação à
natureza pura e simples encontra-se em seu produzir humano em relação ao natural,
pois: “Sem dúvida, o animal também produz /.../ Mas só produz o que é estritamente
necessário para si ou para suas crias; produz (o animal) de uma maneira unilateral,
enquanto o homem produz de maneira universal; produz unicamente sob a dominação
da necessidade física imediata, enquanto o homem produz quando se encontra livre da
necessidade física e só produz verdadeiramente na liberdade de tal necessidade; o
animal apenas se produz a si, ao passo que o homem reproduz toda a natureza; o seu
produto (do animal) pertence imediatamente ao seu corpo físico, enquanto o homem é
livre perante seu produto” (Marx, 1999, p 25-a).
Assim, perfilando essa atividade, o trabalho, com as características fundamentais
de alienação e estranhamento, sob a forma da propriedade privada, Marx extrai a
concepção de que “a propriedade privada resulta então da análise do conceito de
trabalho alienado” (Marx, 1999, p.27)., conceito oriundo da economia política, que,
pelo seu lado, embora tome o trabalho como “verdadeira alma da produção /.../ nada
atribui ao trabalho e tudo atribui à propriedade privada” (Marx, apud Mônica H. Costa,
1999, p27-a), por isso, o estranhamento se põe como expressão amplamente social, que
está permeando todas as relações, toda a sociabilidade. Certamente o trabalhador
questiona, diz Marx, se o produto do trabalho não me pertence, a quem pertence então?
Só pode ser a um não trabalhador, aí observa Marx: “Encontramos como produto, como
consequência necessária desta relação, a relação de propriedade do não trabalhador ao
trabalhador e ao trabalho. A propriedade privada, como expressão material resumida
do trabalho alienado, inclui ambas as relações: a relação do trabalhador ao trabalho,
ao produto do seu trabalho e ao não trabalhador, assim como a relação do não
trabalhador ao trabalhador e ao produto do trabalho daquele” (Marx, 1999, p.28-a). E
mais adiante reafirma: “O que é verdadeiro na relação do homem ao seu trabalho, ao
produto do seu trabalho e a si mesmo, é verdadeiro também na relação do homem aos

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outros homens, bem como ao trabalho e ao objeto do trabalho dos outros homens”
(Marx, 1999, p.25-a).
Depois de se deparar com os textos dos pensadores clássicos da economia
política, nos Cadernos de Paris e nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, depois de ter
redigido A Sagrada Família e A Ideologia Alemã, (aqui apenas citadas com vistas à
ambientação intelectual de Marx), juntamente com Engels, consolidando seu acerto de
contas com o idealismo hegeliano e com o materialismo feuerbachiano; depois de ter
exposto nestes textos o estranhamento, a alienação, a divisão do trabalho e a
propriedade privada, aos quais os indivíduos ativos se encontram subordinados; depois
de mostrar a perda de si a que estão submetidos os homens ativos num mundo cujas
relações são as relações da propriedade privada consigo mesma, e não deles próprios;
depois de ter indicado que a propriedade privada se completa na forma do capital e esta
é a forma estranhada e alienada por excelência da produção dos indivíduos, que, muito
ao contrário de tê-la sob seu controle, são por ela controlados, de tal forma que o
produto dos indivíduos, como expressão de sua generidade, aparece-lhes estranho,
convertendo sua própria generidade em algo estranho; depois de identificar que os
indivíduos ativos no trabalho sob o capital, como produtores de todo o valor que se
incorpora como capital encontra-se despojados ao máximo, isto é, são mantidos por
salários restritos à sua subsistência física, Marx expõe essa situação dos trabalhadores,
cinicamente reconhecida na economia política por Ricardo, observando que isto só
pode se dar sob a forma da relação de exploração de uma classe por outra, em que as
contradições entre proprietários e trabalhadores, capital e trabalho, estão conduzidas
como relações naturais, tal qual a relação de servidão, modernizada, porém, pela
concorrência, pela divisão do trabalho, enfim pelo capital.
Avançando na produção intelectual de Marx, no período de crítica originária à
economia política clássica, o texto A Miséria da Filosofia, (Marx, 1976) se notabiliza
entre outras coisas, pelo domínio sobre o tema alcançado por ele. As pretensões
proudhonianas de criticar a economia política clássica, tendo como alvo Ricardo,
padecia de profunda deficiência demonstrada por ele. Ricardo vinha sendo cotado
intelectualmente como referência teórico-econômica pelos socialistas franceses, o que
movia forte incômodo em Proudhon. De forma que resguardar a importância intelectual
de Ricardo das críticas adstringidas de Proudhon conduziu Marx à elaboração de sua
demolidora crítica em Miséria da Filosofia.
A assimilação das teorias ricardianas pelos socialistas tanto franceses (quanto
ingleses) residia no fato de que Ricardo, ao reafirmar o tempo de trabalho como
fundamento do valor das mercadorias, fazia derivar daí o valor da jornada de trabalho,
garantindo sua concepção de equivalência entre o valor da jornada paga aos
trabalhadores e o valor por eles criado na jornada. Nesse ponto era criticado pela
burguesia, pois, de sua proposição decorria o desaparecimento do capital e, portanto, do
valor excedente que lhe correspondia. Os socialistas, pelo seu lado, aferravam-se a tese
de que todo o produto do trabalho deveria pertencer ao trabalhador, e que o erro não se
encontrava na concepção ricardiana, mas na atitude burguesa-capitalista que não pagava
o valor correto do trabalho. Com isso, nascia para os socialistas ricardianos, uma
fundamentação na defesa de uma nova sociedade, onde vigorasse aquela equivalência
em que o produto integral do trabalho pertencesse ao trabalhador. Marx desmontou essa
concepção pueril em seu livro citado, e em vários artigos sobre o tema, articulando suas
críticas a Proudhon, atingindo indiretamente a ingenuidade dos socialistas
proudhonianos.

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Acrescentemos ainda que logo na primeira abordagem de Marx à obra de


Proudhon ele aponta os limites concepcionais de fundo desse autor relatando-os em
carta de 1846 à Annenkov, em que afirma: “Proudhon recorre a um hegelianismo
superficial para dar-se ares de pensador profundo (...) mas quando o Sr. Proudhon
reconhece que não compreende, em absoluto, o desenvolvimento histórico da hu-
manidade — como o faz ao empregar as palavras ribombantes de razão universal,
Deus, etc. — não reconhece, também, implícita e necessariamente, ser incapaz de
compreender o desenvolvimento económico?” ( Marx, 1976, p.170).
Marx encaminha sua crítica explicitando os limites do filósofo francês em
questões fundamentais, perguntando: “Que é a sociedade, qualquer que seja sua
forma? O produto da ação recíproca dos homens. Podem os homens escolher,
livremente, essa ou aquela forma social? Nada disso. A um determinado nível de
desenvolvimento das forças produtivas dos homens, corresponde determinada forma
de comércio e de consumo. A determinadas fases de desenvolvimento da produção,
do comércio e do consumo, correspondem determinadas formas de constituição
social, determinada organização da família, dos estamentos ou das classes; em uma
palavra, uma determinada sociedade civil. A uma determinada sociedade civil,
corresponde um determinado regime político, que não é mais que a expressão oficial
da sociedade civil. Isso é o que o Sr. Proudhon jamais chegará a compreender, pois
acredita que fez uma grande coisa, apelando do Estado à sociedade civil, isto é, do
resumo oficial da sociedade a sociedade oficial.” (Marx, 1976, p.170).
Essa formulação, exposta na carta de Marx citada, será reencontrada com
modificações apenas formais, mas não de conteúdo, na introdução de sua “Contribuição
à Crítica da Economia Política”, o que mostra a correção de Engels na observação de
que em “Miséria da Filosofia” Marx detinha já na consciência uma concepção nova, que
mostrava a articulação real de história e economia. Além disso, Miséria da Filosofia,
por todo seu conteúdo crítico-econômico, pode ser tratada como um texto no qual as
concepções centrais da economia política de Marx foram expressas pela primeira vez,
conforme posição do próprio autor, exposta no prefácio à Contribuição à Crítica da
Economia Política (Marx,1977). Trata-se de um texto no qual Marx aplica diretamente
sua concepção crítica da economia política, depois de compreendê-la estudando seus
clássicos elaboradores, como Smith e Ricardo, em Cadernos de Paris e Manuscritos
Econômicos Filosóficos, em que os confronta com a realidade concreta. Só então pôde
enfrentar as formulações proudhonianas e aplicar-se na demonstração de suas
insuficiências e incongruências com a realidade mesma.
O trabalho Assalariado: estranhamento e mais-valia
Tendo como referência o texto de 1847 de Marx, Trabalho Assalariado e
Capital (Marx, 2010) destacamos alguns aspectos da análise do autor, nesse e noutros
textos, sobre o trabalho, todos escritos e publicados no período de sua produção
intelectual de juventude. Ele expõe, sinteticamente, a relação fundamental da
sociabilidade do capital, a partir da apropriação das energias humanas objetivadas no
processo de produção dos indivíduos apresentando a noção clara de que o trabalho é a
atividade vital do trabalhador, sua exteriorização de vida, mas que posta sob o domínio
do capital, essa atividade se converte em mercadoria, pois, “ele vende esta atividade
vital a um terceiro, para assegurar-se os necessários meios de vida. Sua atividade vital é,
pois, para ele somente um meio para poder existir. Ele trabalha para viver. Ele não
inclui o próprio trabalho em sua vida, ele é muito mais um sacrifício de sua vida. É uma
mercadoria que adjudicou a um terceiro” (Marx, 2010, p.534).

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Observemos que Marx destaca a ausência de fundamentação da economia


política na sustentação de seus argumentos, como ocorre quando a economia política se
apresenta dissimulada por noções de direito: É o caso da propriedade privada, que
aparece sempre como um direito natural (dependente da diligência dos indivíduos), ou
então do direito à propriedade do produto do trabalho alheio pelos proprietários, ou
ainda pelas determinações do direito natural subjacente aos contratos, entre outros.
Na busca pela determinação do trabalho sob a forma capitalista Marx toma como
referência as características essenciais da mercadoria (numa quase antessala teórica de
O Capital), sua produção, comportamento no mercado, subsunção às leis deste, como
concorrência, oferta e procura etc., para explicar o trabalho, a capacidade de trabalho, a
potência do trabalho, a força de trabalho1, como mercadoria subsumida às mesmas
condições de qualquer outra mercadoria.
Esse artigo foi publicado, junto com outros, num momento agudo do
enfrentamento de classe na Europa. Esse momento revolucionário é analisado em vários
artigos da Nova Gazeta Renana, onde Marx mostra que a permanência dessa relação, o
trabalho assalariado, resulta na subordinação da classe trabalhadora ao capitalismo, sua
derrota diante do capital.
Ao perceber que as lutas entre capitalistas e trabalhadores, naquele período,
levavam as vitórias para as mãos dos primeiros, ele procura desvelar as razões para isso,
indicando que estes “podem viver mais tempo sem o trabalhador do que o trabalhador
sem o capitalista” (Marx, 1999, p.2); os capitalistas se unem nos momentos de
enfrentamento, ao passo que a união dos trabalhadores encontra-se proibida por lei, e
qualquer ato nessa direção lhes traz sérias consequências; os capitalistas têm seus
rendimentos oriundos de distintas fontes, como renda fundiária, lucro industrial ou juro,
etc., enquanto o trabalhador mantém-se restrito à única fonte, que é seu trabalho
produtivo que, além de tudo, também produz seu próprio salário. Observemos que em O
Capital, Marx mostra que basta ao capitalista dispor de apenas o primeiro salário, um
investimento que retornará para ele periodicamente, e que ele o reinvestirá
sucessivamente na obtensão do excedente (mais valor)
Marx busca os elementos para sua análise crítica no bojo da própria economia
política, tendo sempre como referência a realidade que confere sua racionalidade
analítica, ou seja, ele penetra o interior da economia política sublinhando suas
contradições, observando que a propriedade privada se põe como ponto de partida da
economia política, mas que ela não a explica, e embora ela esteja diante do metabolismo
fundante da sociedade, extrai dessas relações sociais de produção leis gerais e abstratas,
que também não são por ela explicadas. O argumento da economia política inverte a
ordem das coisas, pois, embora conclua que as vicissitudes econômicas fundam-se no
interesse dos capitalistas, este pressuposto é que deveria ser explicado como resultado
de sua ação, já que ela, afirma que “os únicos motivos que põe em movimento a
economia política são a sede de riqueza, a guerra entre os avaros, a competição” (Marx,
1999, p.22-a), como se tudo isso fosse natural, sem perguntar ou compreender o que os
engendra, e sem revelar que é o desgaste humano da atividade multimodal da classe
trabalhadora que cria o excedente necessário à “guerra entre os avaros”, a competição,
etc.
Avançando em sua análise ele destaca que a concepção capitalista sobre o
trabalho leva a tratá-lo como uma parte do capital, como é o caso, na composição
1
Engels na reedição da obra em 1891 mostra, em várias passagens, que Marx utiliza o termo trabalho
com o evidente sentido de força de trabalho.

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orgânica do capital em que a força de trabalho é expressa como parcela v (variável) do


capital produtivo, concepção própria da economia política que Marx demonstra em O
Capital.
Marx indica que para os capitalistas “o capital não é senão trabalho acumulado”
e, no caso de Ricardo o tempo de trabalho acumulado se põe sem que ele diferencie
trabalho vivo e trabalho morto, sem indicar a existência de relações sociais de produção
necessárias para a conversão do trabalho vivo em capital. Assim, para a economia
política “o salário faz parte dos custos do capital”, ou ainda, “no que diz respeito ao
operário, o trabalho é a reprodução de seu capital”. Ao explicar o trabalho dessa forma,
a economia política patenteia a conversão dos homens em formas de ser do capital, e
“no que diz respeito ao capitalista, igualmente é um fator de atividade do capital”, fato
que naquele momento o capitalista ainda mantinha-se como classe útil no interior das
relações do capital.
Por outro lado, embora o trabalhador não ganhe quando os capitalistas têm
vantagens, perde, necessariamente, quando estes estão em situação desfavorável;
quando a riqueza produzida socialmente entra em declínio, quem absorve em sua pessoa
os danos dessa situação é o trabalhador; quando a riqueza se eleva, ele tem um momento
de vantagem, pois a concorrência entre os capitalistas favorece uma elevação salarial;
entretanto, diz ele, a contradição está em que “a alta de salários desperta no trabalhador
o mesmo desejo de enriquecimento que no capitalista, mas só o pode satisfazer pelo
sacrifício de seu corpo e espírito” (Marx, 1999, p.3-a), os obriga a uma alienação maior
de sua liberdade e uma subsunção maior ao trabalho, donde resulta uma redução de seu
tempo de vida, “uma morte prematura, sua degradação em máquina, a sujeição ao
capital que se acumula em ameaçadora oposição a ele” (Marx, 1999, p.3-a).
Vale indicar que Marx expõe com mordacidade o caráter inumano da economia
política dizendo: “Visto que, segundo Smith, ‘uma sociedade em que a maioria sofre
não é feliz’, e já que [mesmo] a mais próspera situação da sociedade origina o
sofrimento da maioria, /.../, segue-se que a infelicidade social constitui o objetivo da
economia política” (Marx, 1999, p.4).
De maneira que é o trabalho que resulta sempre prejudicado; se se aprofunda a
divisão do trabalho, a consequência é a unilateralidade e dependência do trabalhador,
pois aumenta a concorrência entre os trabalhadores, e entre eles e as máquinas; isto gera
expansão da indústria, da produção, dos mercados etc., conduzindo à superprodução, e
desta ao refluxo para o trabalhador no que se refere a emprego, salário etc.
Com mordacidade, também, ele critica a posição da economia política, na
formulação smithiana de que não são as pedras, nem os metais preciosos que
compraram a riqueza social, pois “tudo foi é comprado com o trabalho”. Diz Marx: ao
contrário de o trabalho poder comprar tudo, ele se vê compelido a vender tudo, até suas
qualidades humanas.
Marx observa que para a economia política o trabalhador não é mais que uma
besta de carga, pois vive de um trabalho abstrato e unilateral, e acrescenta: “A economia
política não se ocupa dele no seu tempo livre como homem, mas deixa este aspecto para
o direito penal, os médicos, a religião, as tabelas estatísticas, a polícia e o funcionário do
hospício” (Marx, 1999, p.5).
Diante destas considerações ele questiona: “Qual o significado, para o
desenvolvimento da humanidade, da redução da maior parte dos homens ao trabalho
abstrato?”, e responde: não é senão a manutenção da maior parte da população em
condições de restrita subsistência, uma desigualdade profunda lançada no seio da

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sociedade, em que a maior parte dos indivíduos responsáveis pela produção,


diversificação e ampliação das riquezas humanas, ampliação das necessidades humano
societárias mal consegue suprir suas necessidades básicas e as de sua família.
Vemos então como ele responde essa questão: o “significado no
desenvolvimento da humanidade” não é senão a manutenção da maior parte da
população em condições de restrita subsistência, a profunda desigualdade lançada no
seio do “desenvolvimento da humanidade”, em que a maior parte dos indivíduos
responsáveis pela produção, diversificação e ampliação das necessidades humano-
societária mal consegue suprir suas necessidades básicas e as de sua família.
Mais adiante, perspectivando a emancipação humana, observa: “O salário é a
consequência direta do trabalho estranhado e o trabalho estranhado é a causa direta da
propriedade privada, consequentemente, o desaparecimento de um dos termos arrasta
consigo o outro” (Marx, p.27-a). Às pretensões reformistas com relação aos salários,
Marx pergunta nos termos seguintes: “Que erros cometem os reformadores en détail,
que ou desejam elevar os salários e por este meio melhorar a condição da classe
trabalhadora, ou (como Proudhon) consideram a igualdade de salários como objetivo da
revolução social?” (Marx, 1999, p.5) e acrescenta que a concepção da economia política
sobre o trabalho é a de que este “aparece apenas sob a forma de atividade em vista de
um ganho” (Marx, 1999, p.5), portanto, a economia política reduz o trabalho apenas à
necessidade do trabalhador.
Como aponta Marx, as individualidades abstratamente postas pelos economistas
não encontram qualquer relação com seu gênero, ao passo que, para Marx, “O homem –
por mais que seja um indivíduo particular, e justamente é sua particularidade que faz
dele um indivíduo e um ser social individual real – é, na mesma medida, a totalidade, a
totalidade ideal, a existência subjetiva da sociedade pensada e sentida para si, do mesmo
modo que também na realidade ele existe tanto como contemplação e gozo da existência
social, quanto como a totalidade da manifestação da vida humana” (Marx, 1999, p.36).
Perfilando, contudo, a atividade trabalho, com as características fundamentais de
alienação e estranhamento, sob a forma da propriedade privada, Marx extrai a
concepção de que “a propriedade privada resulta então da análise do conceito de
trabalho alienado” (Marx, 1999, p.27), conceito oriundo da economia política, que,
pelo seu lado, embora tome o trabalho como “verdadeira alma da produção /.../ nada
atribui ao trabalho e tudo atribui à propriedade privada” (Marx, 1999, p.27-a).
Cabe ressaltar que as formas de estranhamento nesta sociabilidade, são
assimiladas pela economia política como forma natural de ser dos indivíduos. Desse
ponto de vista a economia política representada por Smith, assume a concepção de que
os indivíduos encontram-se subsumidos à malha categorial de um estado natural
fundado nos sentimentos morais. De sorte que a noção de uma moral natural substitui a
objetividade humana, e, “por isso, a economia política, apesar de sua aparência
mundana e prazerosa, é uma verdadeira ciência moral. A mais moral das ciências. A
autorrenúncia, a renúncia à vida e a todo carecimento humano é seu dogma
fundamental” (Marx, 1999, p.27).
Marx avançou, neste texto, para compreensão crítica muito significativa; vemos,
antecipadamente, formarem-se as condições basilares de sua concepção sobre a essência
do capital, quando observa: “O trabalhador recebe meios de subsistência em troca de
seu trabalho, mas o capitalista, em troca de seus meios de subsistência, recebe trabalho,
a atividade produtiva do trabalhador, a força criadora, pela qual o trabalhador não
apenas repõe o que consome, mas confere ao trabalho acumulado um valor superior ao

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que ele possuía anteriormente” (Marx, 2010, p.544). E na confirmação do custo humano
desta sociabilidade regida pelo capital, ele aduz as inevitáveis consequências para o
trabalhador: “O trabalhador recebe do capitalista uma parte dos meios de subsistência
disponíveis. Para que lhe servem esses meios de subsistência? Para o consumo
imediato. Mas, assim que eu consumo meios de subsistência, eles estão
irremediavelmente perdidos para mim, a menos que utilize o tempo durante o qual esses
meios me mantêm vivo para produzir novos meios de subsistência, para criar por meu
trabalho, durante o consumo, novos valores no lugar daqueles valores destruídos pelo
consumo. Mas o trabalhador transferiu ao capital justamente essa preciosa força
reprodutiva em troca dos meios de subsistência recebidos. Portanto, perdeu-a para si
mesmo” (Marx, 2010, p.554).
Marx procurará evidenciar o estranhamento que resulta das relações no trabalho,
sob a propriedade privada, destacando que aquilo com que os indivíduos se relacionam
não tem existência para eles, evidentemente lhe é estranho, não faz parte de sua
essência, de sua vida, está alienado dele.
Marx reafirma o caráter inumano da economia política indicando que: “O seu
caráter estranho aparece nitidamente no fato de se fugir do trabalho como da peste,
quando não existe nenhum constrangimento físico ou de qualquer outro tipo” (Marx,
1999, p.24-a). E cotejando com a alienação religiosa, ele mostra a perda de si do homem
observando: “Assim como na religião a atividade espontânea da fantasia humana /.../
reage sobre o indivíduo independentemente dele, como uma atividade estranha, divina
ou diabólica, da mesma maneira a atividade do trabalho não é sua atividade própria.
Pertence a outro e é perda de si mesmo” (Marx, 1999, p.24-a).
Mas o homem é como vimos um ser genérico, a perda de si no processo social
de produção, de exteriorização de vida, apresenta-se como perda de sua essencialidade;
esta essencialidade, que é seu gênero, é convertida, reduzida a meio de subsistência, o
que significa que “o homem estranho ao gênero faz de sua vida genérica um meio de
vida individual” (Marx, 1999, p.25) significa ainda que o trabalhador não reconhece a
sociedade senão como meio de sua subsistência e não a condição de sua humanização.

O trabalho assalariado e o capital

Em Trabalho Assalariado e Capital Marx avança na compreensão da base


fundante da exploração do trabalho pelo capital. Ele insere nesse texto o conceito
capacidade de trabalho distinguindo-o do conceito de trabalho em geral, impreciso e
inespecífico. Esta capacidade é uma categoria nova em relação ao trabalho em geral,
tem o formato de mercadoria, pois é comprada e vendida, possui um valor. Essa
capacidade é adquirida pelo capitalista com a finalidade de produzir (trabalhar). Resulta
dessa relação produtos que serão de propriedade daquele que comprou essa capacidade,
de tal maneira que o valor pelo qual foi comprada, reaparece nas mãos do capitalista
com um excedente pelo qual o proprietário dessa capacidade nada recebeu. Com isso,
simplesmente, Marx da o passo decisivo na definição do capital como uma relação
social desigual economicamente, mas uma desigualdade dissimulada pelo direito. Ele
aprofundara, com vários desdobramentos essa temática fundamental que será concluída
na chamada obra de maturidade O Capital. Trata-se do tema central da crítica da
economia política, o mais valor, cuja demonstração, nesse texto, ainda sem uma
nomenclatura definida revela já sua elevada compreensão sobre a economia política,
compreensão com a qual poderá criticá-la na radicalmente.

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O capital produtivo é já, nesse texto, uma referência incontornável para as


análises da relação capital-trabalho, no percurso da expansão do valor, do capital. Marx
expõe aqui, num quadro sintético, a relação fundamental da sociabilidade do capital, a
partir da apropriação das energias humanas objetivadas no processo de sua atividade
vital, convertida em capital. Observa ele então que “O capitalista é sempre livre para
empregar o trabalho e o operário se vê obrigado a vendê-lo. O valor do trabalho fica
completamente destruído se não for vendido a todo instante” (Marx, 1999, p.7-a). De
maneira que a reprodução do valor dessa capacidade de trabalho fica na dependência
de sua venda ao capitalista, isto é: a vida do trabalhador tem sua reprodução dependente
da venda do valor de sua capacidade de trabalho. E o que é o valor do trabalho? Algo
que, diferente “das autênticas mercadorias /.../ não pode ser nem poupado, nem
acumulado”, pois, “O trabalho é a vida e se a vida não for todos os dias permutados por
alimento, depressa sofre danos e morre” (Marx, 1999, p.7-a).
Outra das preocupações de Marx reveladas nesse artigo é a influência do
crescimento do capital produtivo na determinação do salário. A primeira questão posta
por ele é a inevitável acentuação da concorrência entre os operários, que se põe de
várias formas e por várias razões: “A maior divisão do trabalho capacita um trabalhador
a fazer o trabalho de 5, 10, 20; ela multiplica, pois, a concorrência entre os
trabalhadores em 5, 10, 20 vezes. Os trabalhadores concorrem entre si não apenas
vendendo-se um mais barato que o outro; eles concorrem entre si quando um executa o
trabalho de 5, 10, 20, e a divisão do trabalho introduzida e sempre ampliada pelo capital
obriga os trabalhadores a concorrer deste modo entre si” (Marx, 2010, p. 555). Ademais,
a divisão do trabalho simplifica as operações produtivas da indústria, proporcionando a
possibilidade de alocação de trabalhador com nenhuma ou quase nenhuma formação;
isto resulta em que “A habilidade específica do trabalhador se desvaloriza. Ele é
transformado em uma força produtiva simples, monótona, que não precisa pôr em jogo
energias intensas, sejam físicas ou espirituais. Seu trabalho torna-se um trabalho
acessível a todos. Em decorrência, é pressionado por concorrentes por todos os lados, e
ademais lembramos que quanto mais simples, quanto mais fácil de aprender é o
trabalho, quanto menor o custo de produção requerido pelo aprendizado, tanto mais
baixo cai o salário, pois, como o preço de qualquer outra mercadoria, ele é determinado
pelos custos de produção” (Marx, 2010, p. 555)
Por outro lado, o salário não se encontra determinado apenas “pela massa de
mercadorias” pela qual pode se trocar; “outras relações devem ser consideradas” (Marx,
2010, p. 547). Ele tem uma determinação pelo seu preço em dinheiro, mas que, a partir
dela, outras relações se desdobram necessariamente nos marcos do complexo monetário
em que se encontra o dinheiro. Marx toma, como exemplo, as alterações que atingiram
o valor do ouro e da prata no século XVI, com o afluxo desses metais para a Europa,
vindos das minas descobertas nas Américas. E mostra que, com a queda do valor desses
metais na Europa e a manutenção do valor das mercadorias lá produzidas,
considerando-se que os trabalhadores continuaram a receber em salário as mesmas
quantidades daqueles metais, em salário, este reduziu-se proporcionalmente. Certamente
essas desproporcionalidades dos preços ocorrem com todas as mercadorias, mas
nenhuma outra mercadoria sofre danos à sua existência como ocorre com essa
mercadoria intrínseca aos indivíduos trabalhadores sob o capital. Marx expõe outras
relações a que estão sujeitos os salários em dinheiro: “Tomemosnum outro caso. No
inverno de 1847, graças a uma má colheita, os preços dos meios de subsistência
indispensáveis, trigo, carne, manteiga, queijo etc., aumentaram significativamente.

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Suponhamos que os trabalhadores tenham continuado a receber a mesma quantia de


dinheiro por seu trabalho. Seu salário não caiu? Certamente. Pelo mesmo dinheiro
obtiveram em troca menos pão, carne etc. Seu salário caiu, não porque o valor da prata
houvesse diminuído, mas porque o valor dos meios de subsistência havia aumentado”
(Marx, 2010, p. 548). Ademais, “Suponhamos, finalmente, que o preço em dinheiro do
trabalho permaneça o mesmo, enquanto o preço de todos os produtos agrícolas e
manufaturados, graças à utilização de novas máquinas, estação mais favorável etc.,
tenha caído. Com o mesmo dinheiro, os trabalhadores poderiam comprar, então, mais
mercadorias de todo gênero. Portanto, seu salário aumentou, exatamente porque seu
valor em dinheiro não se modificou” (Marx, 2010, p. 548).
De maneira que a elevação ou queda dos salários têm, além das lutas operárias,
que operam evidentemente para sua elevação, determinações que se definem no bojo
das relações de produção próprias do capital, o que leva Marx à conclusão de que o
“preço em dinheiro do trabalho”, que não é outra coisa senão o salário nominal, “não
coincide, pois, com o salário real”, que não é nada além de “a quantidade de
mercadorias que é realmente dada em troca do salário” (Marx, 2010, p. 548).
Num outro ângulo de observação Marx põe em evidência a relação entre salário
real e salário relativo. A primeira expressão é diretamente o preço do trabalho em
relação ao preço das mercadorias; já o salário relativo, diferentemente, constitui a
relação entre o preço do trabalho imediato, vivo, e o preço do trabalho acumulado, que
se define pelo valor relativo do salário e do capital, ou “o valor recíproco de capitalistas
e trabalhadores” (Marx, 2010, p. 548). O que significa isto? Significa que “O salário
real pode permanecer o mesmo, pode inclusive aumentar, e o salário relativo, não
obstante, cair. Suponhamos, por exemplo, que os preços de todos os meios de
subsistência baixaram em 2/3, enquanto o salário diário baixou somente em 1/3,
portanto, por exemplo, de 3 francos para 2. Embora o trabalhador disponha, com estes 2
francos, de maior quantidade de mercadorias do que antes com 3 francos, ainda assim
seu salário diminuiu em relação ao lucro do capitalista. O lucro do capitalista (por
exemplo, do fabricante), aumentou em 1 franco, isto é, por uma quantia menor de
valores de troca que ele paga ao trabalhador, o trabalhador deve produzir uma
quantidade maior de valores de troca do que antes. O valor do capital em relação ao
valor do trabalho subiu” (Marx, 2010, p. 549). Marx aqui já expõe o significado e
importância da forma relativa do excedente a favor do capital, ele expõe aqui, sob a
forma dinheiro, o que será o mais-valor relativo que ele demonstra em O Capital sob
forma de tempo (necessário e excedente).
O que mostra que as relações do valor de troca do trabalho enredam-se numa
complexidade mercantil que se insere ao lado das lutas dos trabalhadores, das lutas de
classe e que são determinações próprias da produtividade e do mercado, para além da
luta de classe. Vale aduzir também que estas relações demonstradas por ele, em que o
movimento do preço do trabalho, do salário, coloca-se inversamente à produtividade do
trabalho, e que mesmo assim os capitalistas mantêm-se em vantagem, será amplamente
desenvolvido em O Capital.
Observemos que o avanço na compreensão e significado da relação capital-
trabalho levou Marx a desenvolver uma protoforma do mais-valor: “Tomemos um
exemplo: um arrendatário paga a seu jornaleiro 5 vinténs de prata por dia. Por 5 vinténs
de prata, ele trabalha no campo do arrendatário durante todo o dia e lhe assegura, assim,
uma receita de 10 vinténs de prata. O arrendatário não recupera somente o valor
transferido ao jornaleiro; ele o duplica. Portanto, ele utilizou, consumiu os 5 vinténs de

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prata pagos ao jornaleiro de uma maneira frutífera, produtiva. /.../ Os 5 vinténs de prata
foram, portanto, consumidos de uma dupla forma, reprodutiva para o capital, pois
foram trocados por uma força de trabalho que gerou 10 vinténs de prata, improdutiva
para o trabalhador, pois foram trocados por meios de subsistência que desapareceram
para sempre e cujo valor só poderá reaver repetindo a mesma troca com o arrendatário.
Portanto, o capital pressupõe o trabalho assalariado, o trabalho assalariado pressupõe
o capital. Eles se condicionam reciprocamente; eles se geram reciprocamente” (Marx,
2010, p. 545).
Marx indica também, a ausência do que é fundamental na determinação do
capital, a relação social que o determina, dando como exemplo o seguinte: “O que é um
escravo negro? Um homem da raça negra. Uma explicação vale a outra. Um negro é um
negro. Só se torna um escravo em determinadas condições” (Marx, 2010, p. 542). o que
obriga à necessária compreensão de que as relações sociais é que determinam sua forma
de ser social.
Dessa forma para ele as relações sociais são a própria sociabilidade humana, a
sociedade, e noutro exemplo afirma: “Uma máquina de fiar algodão é uma máquina de
fiar algodão. Só em determinadas relações se torna capital. Excluída dessas condições,
ela é tão pouco capital como o ouro é em si e por si dinheiro ou o açúcar é o preço do
açúcar” (Marx, 2010, p. 542). Desta forma, “o capital não é, portanto, somente uma
soma de produtos materiais, é uma soma de mercadorias, de valores de troca, de
grandezas sociais” (Marx, 2010, p. 543). De maneira que “É exclusivamente o domínio
do trabalho acumulado, passado, objetivado sobre o trabalho imediato, vivo, que
converte trabalho acumulado em capital” (Marx, 2010, p. 544).

Referências

Marx, K. Cuadernos de Paris [Notas de Lectura de 1844]. México: Ediciones


Era, 1974.
________ Manuscritos Econômico-Filosóficos. Tradução de Mônica H. Costa,
apresentado como anexo de sua dissertação de mestrado A diferença entre as categorias
Lebensäusserung, Entäusserung, Entfremdung e Veräusserung nos Manuscritos
Econômico-Filosóficos de Karl Marx de 1844, UFMG, 1999.
________“Trabalho Assalariado e Capital”, in A Nova Gazeta Renana. São
Paulo: Educ, 2010.
________“Trabajo Asalariado y Capital”, in Marx, K. e Engels, F. Escritos
Económicos Menores. México: Fondo de Cultura Económica, 1987.
________Contribuição à Crítica da Economia Política. São Paulo: Martins
Fontes, 1977.
________Miséria da Filosofia. São Paulo: Grijalbo, 1976.
________A Sagrada Família, ou Crítica da Crítica Crítica. Lisboa/São Paulo:
Editorial Presença-Martins Fontes, s/d.
________O Capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
________O Capital – Capítulo VI Inédito. São Paulo: Ciências Humanas, 1978.

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DIREITO E ECONOMIA NOS ARTIGOS DE K. MARX


PARA A NOVA GAZETA RENANA1

Lívia Cotrim
Centro Universitário
Fundação Santo André
liviacotrim@uol.com.br

Resumo
Examinando as relações entre modernização do estado – incluindo a legislação e a
magistratura – e as transformações econômicas que aquela requer, numa Prússia que
ainda conserva relações semi-feudais, os artigos marxianos escritos para a Nova Gazeta
Renana (01/06/1848 a 19/05/1849) exibem, por vários ângulos, os vínculos das
transformações econômicas com uma classe particular e com as relações sociais em
geral, bem como com o processo revolucionário. Com isso, demonstra sua condição
determinada, o que não lhe retira importância nem papel efetivo. Sendo necessário nas
sociedades cindidas em classes sociais, evidencia-se o elo entre o direito, o poder e a
força, seja nas formas de estado mais abertamente ditatoriais, seja nas democráticas.
Palavras-chave: Karl Marx; direito; política; revolução.

LAW AND ECONOMICS IN K. MARX’S ARTICLES


FOR THE NEW RHENISH GAZETTE

Abstract
By examining the relations between the modernization of the state – including
legislation and the judiciary – and the economic changes that it requires, in a Prussia
that still bears semi-feudal relationships, Marxian articles written for the New Rhenish
Gazette (06/01/1848 to 05/19/1849) show, from various angles, the bonds of those
economic changes with a particular class and with social relations in general, as well as
with the revolutionary process. Thus Marx demonstrates their determined condition,
what does not belittle their importance and effective role. As necessary in societies
divided in social classes, the bond among law, power and force is made explicit both in
more openly dictatorial forms of state and in democratic ones.
Keywords: Karl Marx; Law; Politics; Revolution.

INTRODUÇÃO

Em 1848, pouco depois da publicação do Manifesto do Partido Comunista,


escrito por Marx e Engels para a recém-criada Liga dos Comunistas, têm início
explosões revolucionárias que se estendem por toda a Europa. Em fins de março
daquele ano, o comitê central da Liga dos Comunistas elabora sua plataforma política,
as Reivindicações do Partido Comunista na Alemanha, que abarcam as transformações
mais radicais então concebíveis do ponto de vista do desenvolvimento burguês e ao
mesmo tempo ultrapassam esse limite, apontando para a revolução proletária. Diante da
fragilidade do proletariado alemão e da Liga, Marx, Engels e outros membros decidem
atuar na ala esquerda do partido democrata, ingressando na Associação Democrática de
1
Este artigo é uma versão modificada de um capítulo de minha tese de doutorado: Marx: política e
emancipação humana – 1848-1871. São Paulo: PPGCS – PUC-SP, 2007.

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Colônia e editar um jornal, a Nova Gazeta Renana (01/06/1848 a 19/05/49) como


instrumento de ação política. Em vários dos artigos que escreveu para esse jornal, Marx
trata de alguns aspectos do direito e suas relações com a economia no contexto do
processo revolucionário e contra-revolucionário na Prússia, no qual se confrontavam
duas formas de sociedade: a feudal ou semi-feudal e a capitalista. Assim, é importante
ter em mente o panorama desses processos, bem como dois aspectos do pensamento
marxiano: a determinação ontonegativa da politicidade (Chasin, 2000) e a questão das
formas particulares de objetivação do capitalismo.

I. A CRÍTICA DA POLITICIDADE E AS FORMAS PARTICULARES DE


OBJETIVAÇÃO DO CAPITALISMO

Ao fundar a Nova Gazeta Renana, Marx já desenvolvera as três críticas


ontológicas que constituem o processo de emersão de seu pensamento próprio: as
críticas da politicidade, da especulação e da economia política2.
Contra Hegel, cuja filosofia do direito era a expressão mais alta da
determinação ontopositiva da politicidade, vale dizer, da afirmação da necessidade do
estado, de sua perenidade e de sua condição de lócus da racionalidade, da liberdade e da
comunidade, Marx já afirmara a busca da “lógica da coisa”, ao invés da “coisa da
lógica”, bem como apreendera os homens, suas relações e sua consciência como
produtos da atividade prática dos indivíduos sociais. Recusando ao estado enquanto tal,
ainda que plenamente posto, o estatuto que Hegel lhe atribuíra, Marx descobre sua
determinação pela sociedade civil e sua complementaridade com esta: originando-se da
divisão social do trabalho, o estado é a encarnação autonomizada do interesse coletivo
contraposto aos interesses particulares, a corporificação do poder social dos indivíduos
previamente separado deles. O estado moderno e seu chão social, o capital, são as
expressões máximas dessa cisão, no bojo da qual a força política se evidencia como
coágulo de forças sociais, genéricas, usurpadas de seus produtores e concentradas.
Donde a percepção marxiana de que a necessidade do estado e da política em geral é tão
histórica quanto a das relações sociais materiais que os geram: as classes sociais,
expressões da divisão social do trabalho resultante do baixo desenvolvimento das forças
produtivas, das capacidades do indivíduo social. A determinação ontonegativa da
politicidade é a reprodução intelectual desta natureza real das instituições e relações
políticas, e a consequente identificação da alternativa, gestada objetivamente pela
ampliação das capacidades produtivas sob a regência do capital, de uma revolução que
liquide a politicidade ao suprimir todo o modo de vida atual.
Essa revolução social, que resulta na emancipação humana, se distingue da
revolução política, que não ultrapassa os limites da ordem do capital, limites que não
são um seu defeito, mas sim sua consumação. No entanto, reconhece sua importância e
a considera um grande progresso, “a última forma da emancipação humana dentro da
ordem do mundo atual”; a república democrática, forma acabada da emancipação
política, se configura como a melhor forma de estado para o proletariado no interior dos
limites da sociabilidade do capital, por ser a que permite levar as contradições deste às
últimas consequências, isto é, à revolução. Longe de significar a recusa liminar de
qualquer luta política, a determinação ontonegativa da politicidade exige uma alteração

2
São críticas ontológicas por tratarem prioritariamente de modos de ser, incluindo a apreensão da gênese,
da necessidade, do desenvolvimento e da eventual desaparição de algo existente; formas de pensar
determinadas são aceitas ou recusadas conforme sejam capazes ou não de os reproduzir.

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também radical nos modos, meios e objetivos dessa luta. Ainda que referida às
instituições políticas ou as tendo como foco, a atuação deve buscar suas raízes sociais, e
transformá-las: deve ser metapolítica (Chasin, 2000), portanto não pode se restringir à
esfera, à lógica ou aos instrumentos políticos.
Essa crítica da política (assim como a da especulação e da economia política)
abrange a um tempo a realidade apreendida e a(s) teoria(s) correspondente(s), razão pela
qual não deu nem poderia dar lugar a uma nova teoria política, sob cuja ótica fossem
observadas as situações concretas, seja porque o objetivo é apreender a lógica da coisa,
isto é, o objeto tal como existe por si mesmo, seja porque aquela crítica envolve a
percepção dos limites da razão política. Ao invés de uma teoria política, há em Marx um
exame que descortina e reproduz mentalmente as determinações, conexões, processos
etc. constitutivos do existente, trabalho possibilitado pela maturação e tensionamento do
próprio objeto.
A crítica ontológica à especulação, simultânea à crítica da política, assenta-se
no reconhecimento da prioridade ôntica do mundo sensível e da determinação objetiva e
subjetiva dos homens, partícipes desse mundo, por sua atividade sensível. Também em
contraposição a Hegel, Marx observa que o ser de algo existente reside nele próprio e
consiste em suas próprias determinidades, bem como que a historicidade é categoria de
todas as coisas, naturais e sociais. Ambas as críticas acarretam a necessidade de
submeter à análise as relações produzidas pela atividade prática dos homens, portanto à
crítica da economia política, entendida como a “anatomia da sociedade civil” (Marx,
1973), e iniciada já em 1844.
Tais lineamentos conduzem à identificação dos modos e formas particulares de
existência. Desde 1844, Marx aborda a “miséria alemã”, o modo particular pelo qual o
capitalismo vai se pondo na Alemanha, e as demandas específicas assim postas para a
classe trabalhadora, especialmente quando o capitalismo tornava-se já o velho, o que as
jornadas de junho de 1848 em Paris explicitarão. Esse modo particular de
desenvolvimento se demarcava pelo atraso e pelo “desajuste geral”, evidenciados na
forma das lutas de classes: mesclavam-se naquela ocasião batalhas que, em outros
povos, se deram em momentos distintos: a do período de unificação nacional e
centralização política, aquela posteriormente travada contra o absolutismo e, ao mesmo
tempo, o combate efetivamente contemporâneo, o do proletariado contra a burguesia
(Marx, 1977).
Diante disso, é essencial a distinção entre revolução social e revolução política;
nesta, uma parte da sociedade civil se emancipa e instaura sua dominação, o que só
pode ocorrer se essa parte for reconhecida como representante geral da sociedade,
encarnando em si a “potência da libertação”, em contraposição a outra parcela que
concentre “todos os defeitos e limites da sociedade”. Mas essas condições de
possibilidade nem sempre estão presente, e não estavam na Alemanha, em que se
mesclavam relações sociais feudais e capitalistas, submetendo os alemães a uma dupla
opressão. A essa mescla correspondia que nem a nobreza encarnava todos os males
sociais, nem a burguesia era ou se dispunha a ser a encarnação da luta contra eles.
Ademais, Marx entende que a própria modernização alemã constituiria um
anacronismo, pois a revolução burguesa, ainda que triunfante, já não mais significaria a
vitória de uma nova sociedade, mas sim a sobrevivência da velha, contra a qual os
povos modernos já lutavam. Assim, a emancipação parcial, meramente política,
mostrava-se ali problemática e sua eventual consecução redundaria em contornos

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distintos dos peculiares às formas clássicas, apontando já para a emancipação humana


geral.
Nesse quadro, em 18 de março de 1848, estimulado pela tempestade que
rebentara em Paris um mês antes, o povo berlinense desencadeia contra a monarquia
absolutista, objetivando a unificação alemã, a erradicação das relações sociais feudais e
o consequente estabelecimento das burguesas, modernas; não se tratava, pois, de uma
batalha do trabalho contra o capital. Desde o início, combatem três forças:
A nobreza de origem feudal – os grandes proprietários de terras (junkers) –,
que conservava grande parte de seus privilégios; embora a agricultura já fosse
“explorada industrialmente, e os velhos senhores feudais decaíram a fabricantes /.../ a
pessoas que comercializam com produtos industriais /.../ na prática se tornam
burgueses” (Marx, 2010, p. 462), os junkers economicamente aburguesados
continuavam apegados aos velhos privilégios econômicos e sociais e a seu domínio
político. Detentores da maioria dos postos na burocracia e no exército, recusavam-se a
se submeter à burguesia, bem como a perder a isenção de impostos, as indenizações pela
abolição de alguns de seus antigos tributos e, é óbvio, a perder suas terras para os
camponeses. Tal aristocracia era o “chão social verdadeiro e natural” da coroa. A
passagem da monarquia absolutista para uma monarquia constitucional, burguesa –
formas políticas de sociedades específicas – exigiria alterações nas relações de produção
e intercâmbio.
A burguesia, numericamente pequena e pouco concentrada, mas em contínuo
crescimento desde 1815, de sorte que os governos eram compelidos a inclinar-se, ao
menos, perante os seus interesses materiais mais imediatos. Para assumir o poder
político, o partido burguês, com a burguesia industrial à frente, precisaria entrar em
choque com a coroa e seus fundamentos sociais, em suma, com o partido feudal.
O povo, representado pelo partido democrático e composto pelos pequenos
comerciantes – a maioria da população das cidades –, operários, na sua maior parte
empregados de manufaturas pré-industriais, embora houvesse um núcleo operário
moderno nos distritos em que imperava a grande indústria, e pelo campesinato, que
constituía a maioria da população e se subdividia em diversas frações: grandes e médios
camponeses; pequenos camponeses livres, predominantes na região do Reno e em
algumas outras poucas localidades, cuja propriedade estava em geral fortemente
gravada por hipotecas; camponeses servis; e trabalhadores agrícolas (Engels, 1981).
Embora de caráter burguês, as conquistas pretendidas pela revolução
dependiam da ação do povo, do partido democrático, pois a burguesia não se dispunha a
revolucionar, sequer em seu próprio interesse, as relações econômico-sociais (e, com
elas, as políticas). Entretanto, quem empolga o poder é o partido burguês, de sorte que
já de início o povo é derrotado. Expressões dessa derrota são a conservação da
monarquia e a convocação, ao lado da Assembleia de Frankfurt, que deveria ser a
assembleia constituinte da unificação alemã, de diversas assembleias constituintes
regionais, das quais a mais significativa foi a Assembleia Nacional Prussiana, que Marx
e Engels denominaram de Assembleia Ententista por sua inclinação conciliatória.
Ao contrário de qualquer intenção revolucionária, os “cretinos ideológicos” da
burguesia defenderão, ao longo de 1848, o “terreno do direito” como ponto de partida
necessário de todas as transformações; mas tal terreno era, “na verdade, o terreno do
direito prussiano”, isto é, o direito existente antes da revolução de março, que
expressava e garantia justamente a situação contra a qual se batera a revolução. O
“terreno do direito” significava que a revolução não havia conquistado seu terreno e que

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a velha sociedade não havia perdido o seu. Apelar a ele, ao direito preexistente,
defender “leis pertencentes a uma época social passada” (Marx, 2010, p. 463), é recurso
próprio a posições retrógradas, com o qual a burguesia nega desde o início a revolução,
pretendendo, por intermédio do ministério Camphausen – fundamentalmente burguês –,
garantir os interesses de sua classe; assim, aquele ministério “semeou a reação no
sentido da grande burguesia” ao “privar a revolução de seus frutos democráticos”
(Marx, 2010, p. 113), alijando o povo que havia lutado por ela. A intenção, vocalizada
pela “teoria ententista”, era limitar as transformações. Mas, contrapondo-se ao povo, a
burguesia viu-se simultaneamente em choque com duas outras classes; incapaz de
sustentar a luta em duas frentes, e vendo-se obrigada a escolher entre a revolução, isto é,
abrir espaço para o povo, e a contra-revolução feudal, acolhe esta última alternativa.
Marx frisa a raiz desta opção: o medo da insurreição popular. A teoria ententista e a
defesa do terreno do direito são as expressões teóricas da aliança prática realizada pela
burguesia com as forças feudais, oferecendo uma interpretação da realidade e nela
sustentando a alternativa escolhida.
A defesa do terreno do direito contra o terreno revolucionário, a negação dos
resultados alcançados pela revolução em sua vitória inicial, e da legitimidade e
necessidade de continuá-la, implicava a tentativa de empreender a transição para o novo
a partir do terreno do direito – parte constitutiva da politicidade –, isto é, estritamente
pelo interior da esfera política existente, de suas formas e regras. Fica claro o nexo entre
a perspectiva conciliatória e a forma política que ela toma.
Camphausen instrumentaliza a teoria ententista e o terreno do direito contra o
povo, isto é, busca conscientemente lográ-lo, exatamente porque acredita nessa teoria,
crê que conseguirá defender seus interesses de classe conciliando com a coroa.
Aparecem aí conectadas a posição contra-revolucionária e uma ilusão politicista,
delineada pela crença em que os feudais também aceitariam o acordo por receio da
revolução popular, que a monarquia absolutista efetivamente precisaria do “escudo”
burguês contra a anarquia ((Marx, 2010, p. 103).
Essa crença, embora ilusória, decorria de uma situação real. Por isso, “A teoria
ententista não era de maneira alguma uma teoria oca”. Ao contrário, expressava o
resultado da revolução de março, que não submeteu o rei ao povo, mas somente obrigou
a Coroa a conciliar com a burguesia. De acordo com o programa burguês daí resultante,
“A Coroa sacrificaria a nobreza à burguesia, a burguesia sacrificaria o povo à Coroa.
Nestas condições, o reino seria burguês e a burguesia seria régia”. O “segredo da teoria
ententista” não residia em proclamar essa conciliação, mas sim em que a Coroa e a
burguesia “Servem-se reciprocamente de pára-raios da revolução” (Marx, 2010, p. 326).
Supondo que o exército, a burocracia e os junkers “tinham-se posto sem
reservas à sua disposição, e que haviam se transformado em devotos de sua própria
onipotência”, a burguesia não os considera mais como inimigos e não aproveita as
condições propícias para eliminá-los, permitindo que se recuperassem. Com as
“chicanas, frequentemente sangrentas, da guarda cívica contra o proletariado
desarmado” e as demais formas de repressão, as “forças do velho estado” sustentam
essa ilusão. Não duvidando de que aquelas forças se haviam posto a seu serviço, a
burguesia tratava de “reduzir ao mínimo os custos de produção de seu domínio e da
revolução de março que o condicionara”, para o que era preciso “restabelecer ‘a calma e
a ordem’”, despedaçando as armas que reclamara sob a razão social do povo e que este
“não tinha mais necessidade de empunhar para a burguesia” e ameaçava empunhar
contra ela ((Marx, 2010, p. 327).

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A defesa do “terreno do direito” é o modo como a burguesia reata a entente


com a Coroa, escamoteando a revolução. Não pretende manter a velha legislação, e sim
somente deduzir dela suas reivindicações, extraindo dela a monarquia constitucional –
para que a revolução não postule as suas próprias exigências.
A teoria ententista, com sua defesa do terreno do direito como patamar para a
conciliação, exalta o estado e a política como o âmbito privilegiado da ação. As
transformações se fariam dentro dos parâmetros institucionais e legais existentes. As
ações realizadas contra o estado, as instituições e leis vigentes é relegada a segundo
plano na teoria, e reprimida na prática.
Com essa teoria, o ministério Camphausen cumpriu “a tarefa da mediação e da
transição” entre a incômoda posição involuntariamente assumida pela burguesia após a
revolução de março – “alçada sobre os ombros do povo”, “que nos confrontos com a
Coroa representava aparentemente o povo” – e aquela mais condizente que pretende
alcançar – a de quem não precisa mais dos ombros do povo, “que nos confrontos com o
povo efetivamente representava a Coroa” ((Marx, 2010, p. 329).
Uma vez cumprida tal tarefa, Camphausen é substituído por Hansemann, que já
podia e “devia transformar a resistência passiva contra o povo em ataque ativo ao povo,
um ministério de ação” ((Marx, 2010, p. 331). Marx ressalta que o ministério
Hansemann passa a existir efetivamente em julho de 1848, pois a “revolução de junho
era os bastidores do ministério de ação, como a revolução de fevereiro era os bastidores
do ministério de mediação” ((Marx, 2010, p. 331). Em outras palavras, o esmagamento
do proletariado parisiense pela burguesia francesa é o estímulo e a retaguarda para a
repressão do povo alemão pela burguesia prussiana. Esse segundo ministério burguês
após março, originado da própria ANP – a Assembleia Ententista –, pretende
simultaneamente barrar a revolução e garantir as condições mínimas para a dominação
burguesa e o desenvolvimento do capitalismo, o que significaria desmantelamento das
relações feudais de propriedade da terra, a reforma do sistema judiciário e do fiscal, a
abolição das isenções de impostos, e o “fortalecimento do poder estatal, necessário à
tutela da liberdade conquistada contra a reação e contra a anarquia e para o
restabelecimento da confiança perdida”, isto é, “da confiança no comércio e no tráfico,
no rendimento do capital, na solvência dos parceiros de negócio, da confiança
comercial” ((Marx, 2010, p. 333).
A essa “ideia fixa da burguesia prussiana” – restabelecer a confiança, ou seja, o
crédito – liga-se diretamente a repressão ao povo. Está em jogo o fundamento da ordem
burguesa, pois o crédito “repousa sobre a certeza de que a exploração do trabalho
assalariado pelo capital, do proletariado pela burguesia, dos pequenos burgueses pelos
grandes burgueses prossiga do modo habitual”. Para sua manutenção é preciso evitar a
“movimentação política do proletariado, de qualquer natureza, mesmo se dirigida
diretamente pela burguesia”, já que põe em risco a permanência da exploração. Por isso
ao lado do restabelecimento da confiança havia sido posto o “fortalecimento do poder
estatal”, ou seja, “a polícia, o exército, os tribunais, a burocracia” ((Marx, 2010, p. 333).
Assim, a defesa dos canais políticos como o âmbito próprio para a efetivação
das transformações necessárias significava expulsar os trabalhadores e seus interesses,
resguardando somente os da burguesia.
A “ordem” é considerada requisito indispensável para realizar as reformas que
estabeleceriam melhores condições para o desenvolvimento do capital. Nesse sentido, o
fortalecimento do poder estatal deveria se voltar também “contra a reação, ou seja,
contra a Coroa e os interesses feudais, na medida em que tentassem se impor contra o

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bolso e ‘as condições mais essenciais’, isto é, as mais modestas pretensões políticas da
burguesia” (Marx, 2010, p. 334). Entretanto, mesmo as tímidas propostas feitas nessa
direção fracassaram, sem que a força do poder estatal se desencadeasse contra a reação.
O ministério Hansemann reafirma a escolha feita há muito pela burguesia
alemã – a conciliação com a grande propriedade agrária, contra o povo – e exprime a
ausência de qualquer perspectiva de libertação humana, de defesa dos interesses gerais
por parte dessa classe, no momento em que ela crê haver conquistado e procura manter
seu poder político. A ilusão de lutar por toda a humanidade, compartilhada pelas
burguesias que trilharam o “caminho europeu”, emanava do progresso real que a
sociedade capitalista representava; diante da perspectiva do trabalho, esta envelhece, e
aquelas ilusões se desfazem, alterando a consciência burguesa; em todos os lugares ela
assume mais ou menos abertamente, conforme suas necessidades específicas, que a
defesa de sua sociedade é a defesa de seus interesses particulares. A burguesia alemã,
que não fizera qualquer revolução quando aquelas ilusões eram possíveis, não pode
compartilhar delas quando busca alçar-se à dominação. Não se dispõe, pois, a alcançar
seu objetivo pela revolução.
O texto marxiano evidencia o vínculo entre a obsolescência da sociedade
burguesa e a ausência de qualquer disposição revolucionária seja na atuação prática,
seja no plano da consciência da burguesia, o que alimenta a estreiteza de seu
pensamento e a brutalidade da repressão que jamais hesita em desencadear. De sorte que
a revolução de março, embora burguesa em seus objetivos, não poderia ter eclodido por
iniciativa da burguesia; uma vez desencadeado o levante pelo povo, ela procura
simultaneamente apropriar-se das vantagens dele advindas e liquidá-lo.
Nesse quadro, a Coroa aparece à burguesia como guarda-chuva protetor de
seus interesses. Tratava-se de passar, pelo alto, para a monarquia constitucional e, por
meio dela, para a reforma das relações de produção e intercâmbio mais básicas para o
desenvolvimento da sociedade burguesa. A defesa dos meios políticos e jurídicos
existentes para realizar as alterações pretendidas é tanto uma tática usada contra a classe
trabalhadora, quanto parte do pensamento burguês, da compreensão que esta classe tem
da realidade.
Entretanto, o resultado do processo contra-revolucionário não foi a vitória da
burguesia, mas a dos junkers, da Coroa. Tanto Camphausen quanto Hansemann, diz
Marx, foram “enganadores enganados”, tornaram-se instrumento dos “apetites contra-
revolucionários” do partido feudal; deixando-se iludir, permitiram o fortalecimento da
contra-revolução, que logo em seguida “sente-se suficientemente forte para se livrar da
inoportuna máscara” liberal-burguesa com que se acobertara. Tanto a derrota de
Camphausen quanto a de Hansemann foram a derrota da burguesia e a vitória da contra-
revolução; ambos semearam “a reação no sentido da grande burguesia” e colheram-na
“no sentido do partido feudal” ((Marx, 2010, p. 113).
Na burguesia alemã, o conservadorismo, que se vai tornando apanágio dessa
classe em termos histórico-universais, envolve a quimera a propósito da suposta
capacidade resolutiva ou determinante da política. A repugnância da revolução
determina sua ilusão de que seria possível conquistar o domínio sem destruir as forças
do velho estado, engano emanado da posição ocupada pelos ministérios burgueses, às
ordens dos quais estavam formalmente os órgãos e instâncias componentes do estado.
Marx demonstra que essa formalidade encobre o elo com os modos de existência real
das classes e suas relações recíprocas, constitutivos da fonte e determinantes do grau de
seu efetivo poder. Formalmente subsumidas à burguesia, as forças feudais não haviam

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sido arrancadas de seu chão social, e nele puderam reforçar suas raízes
momentaneamente abaladas pela revolução.
A teoria ententista, expressando tanto a conciliação pelo alto quanto aquela
fantasia, considerava que não era preciso desmontar o estado, pois poderia transformar-
se – chegar à nova constituição a partir da velha – e tal metamorfose geraria ou imporia
as mudanças requeridas nos outros âmbitos da sociedade. Em contraposição, Marx
insiste em que “Toda situação política provisória posterior a uma revolução exige uma
ditadura, e mesmo uma ditadura enérgica”, a fim de remover “imediatamente os restos
das velhas instituições”, pois estas não se submetem ao novo poder, e sim o debilitam.
Ao contrário do que afirmava a teoria ententista, a Assembleia e a coroa representavam
classes antagônicas: “Atrás da Coroa se escondia a camarilha contra-revolucionária da
nobreza, dos militares, da burocracia. Atrás da maioria da Assembleia, estava a
burguesia”. E esta “não pode lutar por seu próprio domínio sem ter provisoriamente
como aliado todo o povo, sem, por isso, apresentar-se como mais ou menos
democrática” (Marx, 2010, p. 213). O repúdio a qualquer revolução cega a burguesia no
tocante a sua situação específica, levando-a a confundi-la com a da burguesia francesa e
a iludir-se quanto às premissas de sua dominação e a seus inimigos e aliados, pois, ao
contrário da primeira, os burgueses alemães “Não haviam derrubado trono nenhum, não
haviam eliminado a sociedade feudal, muito menos seus últimos vestígios, não tinham
que manter nenhuma sociedade criada por eles próprios” (Marx, 2010, p. 331).
Conservando a cegueira e a ilusão, a burguesia não suspeitou que, se o proletariado
francês era o inimigo da burguesia francesa efetivamente dominante, “a burguesia
prussiana, em luta contra a Coroa, não tinha mais do que um único aliado – o povo. Não
que ambos não tivessem interesses opostos e hostis entre si, mas porque o mesmo
interesse ainda os ligava contra uma terceira força que igualmente os oprimia” (Marx,
2010, p. 332).
A burguesia fortaleceu o poder estatal, mas “se enganou apenas sobre a
natureza deste ‘poder estatal’”, sobre a classe que, “segundo sua opinião, se encontra ao
leme do estado”: ao invés do poder estatal burguês, reforçou o poder estatal feudal,
abrindo caminho para a “restauração do domínio feudal prussiano”, pois, embora
concordando com a necessidade de subjugar o povo, “Apenas com dégoût a feudal casa
Hohenzoller escolheu esta canalha burguesa como vil ferramenta e espreitava o
momento de a despedir com pontapés”, pois ela ousara fazer a contra-revolução para a
Prússia e ainda se vangloriar disso (Marx, 2010, p. 511).
Para as burguesias revolucionárias, a ilusão politicista só se evidencia como tal,
ou seja, só leva ao fracasso, quando é empurrada ao seu limite máximo – no caso da
burguesia francesa, durante o domínio jacobino. Onde a revolução varre as relações
sócio-econômicas feudais remanescentes, a ilusão de que a política gerou a nova
sociedade pode sobreviver sem levar a burguesia ao fracasso porque a nova sociedade
foi efetivamente produzida, ainda que tal tenha se dado no plano das relações materiais.
Na burguesia alemã, retardatária, frágil e contra-revolucionária, a ilusão politicista se
acentua e conduz ao fracasso exatamente porque as velhas instituições não são
eliminadas. Não ocorrendo materialmente a produção da nova sociedade, a suposição de
que é a política que a faz não pode efetivamente se sustentar.
Prisioneira da crença na política por seu atraso e inapetência revolucionária,
acreditando que alterar a forma política era suficiente para garantir sua dominação real,
reduziu mesmo essa transformação à mera posse do aparelho estatal existente e à

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utilização dele para seus próprios fins. O resultado foi sua exclusão do poder político e
o retardamento do desenvolvimento capitalista.

II. DIREITO E ECONOMIA

Entre as diversas indicações que os artigos da NGR oferecem acerca das


instituições constitutivas do estado, a seguinte passagem é especialmente clara: “A
existência do poder soberano é justamente seus funcionários, exército, administração,
juízes. Abstraído desse seu corpo, ele é uma sombra, uma ilusão, um nome”. A menção
aos juízes remete a toda a esfera jurídica, de que estes fazem parte. Estas são as bases da
“alta cúpula política”, isto é, no caso alemão, do monarca e do ministério. Enquanto
componentes do estado, Marx mostra que cada uma delas aparenta autonomia e
desenvolve interesses particulares, aquela uma ilusão, estes vinculados aos de uma
classe e de uma forma social específica.
Como vimos, Marx denuncia inúmeras vezes que a defesa do terreno do direito
contra o terreno revolucionário implica a negação da revolução e de seus resultados, e a
proposta de passar para o novo a partir das condições jurídicas existentes, por dentro do
estado; evidenciou, assim, o nexo entre a conciliação e a via política de transformação.
A defesa do terreno do direito está no centro da teoria ententista; esta apóia no direito,
como expressão e garantia da ordem existente, seu apelo ao acordo.
Enquanto conjunto das leis que regem a sociedade o direito é válido, observa
Marx, para situações já constituídas. Num processo revolucionário, não há de fato
qualquer direito – qualquer corpo jurídico – válido, pois a revolução se volta contra a
situação social que o velho direito expressava e garantia, portanto também contra ele, e
um novo direito ainda não se estabeleceu por não se ter produzido ou consolidado a
nova forma social. Durante a revolução, os direitos das partes em luta são gerados pela
força efetiva que demonstram: “o maior direito está do lado do maior poder. O poder se
comprova na luta. A luta se comprova na vitória. Ambos os poderes só podem fazer
valer seu direito pela vitória, seu não-direito só pela derrota” (Marx, 2010, p. 262).
Essa luta que resulta na vitória de uma das partes, que assim afirma seu poder e
seu direito, se realiza e se decide fora da esfera jurídica. O poder, portanto, não se
fundamenta no direito. Ao contrário, este se fundamenta naquele. E assim é porque as
partes em luta são classes sociais opostas, defensoras de sociedades distintas. Assim
como a coroa deve sua força e seu direito aos estamentos constitutivos da sociedade
feudal em desaparição, a autoridade da ANP, burguesa, e a força de que poderia dispor,
não emana de sua condição legal ou jurídica, mas de sua origem social revolucionária.
O mesmo raciocínio se revela na crítica à grita dos ministros e da direita pelo
“princípio constitucional” contra “o colapso cada dia mais iminente de todas as
instituições históricas tradicionais”. Uma vez que “ainda estamos sobre o terreno
revolucionário”, e não sobre o “terreno da constituinte, da monarquia constitucional
acabada”, ainda se lutava por transformações, ainda se travava a luta entre revolução e
contra-revolução. E o princípio constitucional “só pode ser salvo em uma situação
provisória com energia”, isto é, com uma “ditadura enérgica”, a fim de remover os
restos das velhas instituições, derrotando definitivamente o partido vencido e tornando
possível estabelecer novas relações sociais (Marx, 2010, p. 212-213).
Assim, direito e poder, direito e força não são elementos contrapostos, polos
que se opõem, de sorte que a prevalência de um envolva a ausência ou subordinação do
outro. Ao contrário, o direito é sempre expressão de uma dada formação social, portanto

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é sempre o direito de uma das partes em luta, que só pode se afirmar pela força exercida
contra outras partes, pela força que destrói uma ordem social e estabelece outra, ou que
garante a permanência da ordem existente contra as tentativas de a abolir.
O vínculo com a força expõe o direito como instituição própria das sociedades
de classes; são os interesses e necessidades de uma delas que se impõem pela força, seja
contra uma sociedade velha, no momento de nascimento da nova, seja no interior desta.
Marx reitera que “‘Quem tem o poder, tem o direito’. – Os representantes do direito
estão em toda parte do lado do poder” (Marx, 2010, p. 288), não meramente por
oportunismo ou arrivismo, mas graças à conexão objetiva existente entre as relações
sociais e o direito. O oportunismo e o arrivismo, se são mais do que exceções casuais,
participam das características daquelas relações.
Demonstra também que decretar uma lei não é suficiente para a fazer valer. Em
11/11/1848, a ANP adota a resolução, já antes defendida pela NGR, de recusar os
impostos como arma contra o ministério Brandenburg, contra-revolucionário, sucessor
de Hansemann, arma cuja eficácia dependia de o povo a empunhar efetivamente – isto
é, adotar uma posição revolucionária; como isso não ocorreu, a lei não se impõs; os
encarregados de a fazer valer não são desprovidos de ligações de classe, donde a
necessidade de os substituir ou se opor revolucionariamente a eles, quando se pretende
validar lei oposta aos interesses da classe a que se vinculam.
A análise do projeto de lei de abolição dos encargos feudais ilumina tanto a
ilusão burguesa de pretender deduzir suas reivindicações da velha legislação, para evitar
que o povo afirmasse suas próprias exigências sob forma revolucionária, quanto o elo
entre a esfera jurídica e as condições e interesses econômicos, evidenciando que os
direitos feudal e moderno expressam e regulam relações sociais diversas, o que
determina o fracasso da tentativa de justificar relações modernas apelando ao direito
medieval. A posição de classe assumida pelo legislador se manifesta pelos interesses
objetivamente defendidos; nesse caso, os interesses específicos de um dado tipo de
burguesia, de um dado caminho de objetivação do capitalismo.
A proposta apresentada pelo ministro da Agricultura sob o ministério
Hansemann envolvia revogar sem indenização obrigações feudais insignificantes, e
restabelecer a corveia. Entretanto, era preciso revestir essa proposta com “uma
aparência de fundamentação jurídica e econômica”. Para demonstrar que alguns
encargos podem ser abolidos sem indenização e outros não, o ministro afirma que os
primeiros não teriam fundamentos suficientes, e para prová-lo “mergulha nas regiões
mais sombrias do direito feudal”. Como é impossível “extrair, do direito feudal,
oráculos de direito civil moderno, /.../ introduz clandestinamente conceitos modernos
entre as disposições jurídicas feudais”, recorrendo a eles para tratar de alguns dos
encargos, mas não de todos, pois “certamente as corvéias passariam por maus bocados
diante da liberdade do indivíduo e da propriedade” (Marx, 2010, p. 179). A
inconsistência do argumento é clara como o dia, pois, pelo direito moderno, todos os
encargos feudais deveriam ser abolidos, e pelo direito feudal, nenhum.
O projeto se vale do princípio da teoria ententista: passar para o novo a partir
do velho. Nesse caso, passar para relações modernas, burguesas no campo por meio das
leis que expressavam as velhas relações feudais. Isto se evidencia ainda mais
nitidamente em face de outra reivindicação camponesa. Alguns dos encargos que, pelo
projeto do ministério, deveriam ser abolidos naquele momento haviam sido
anteriormente resgatados, num processo em que “os camponeses foram terrivelmente
prejudicados, em benefício da nobreza, por comissões corruptas. Eles reclamam agora a

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revisão de todos os contratos de resgate firmados sob o antigo governo, e têm toda
razão!” (Marx, 2010, p. 180) O ministro, entretanto, não o admite; sua argumentação é
uma defesa da propriedade fundiária, posta por ele como fundamento do estado, de sorte
que qualquer abalo dela seria calamitoso para este; naquela reivindicação, “vê um
atentado ao direito de propriedade que abalaria todos os princípios jurídicos”. O
ministro “ataca a propriedade – é inegável – mas não a propriedade moderna, burguesa,
e sim a feudal. Ele reforça a propriedade burguesa, que se ergue sobre as ruínas da
propriedade feudal, destruindo a propriedade feudal. E é somente por isso que não quer
revisar os contratos de resgate, porque, por meio destes contratos, as relações feudais de
propriedade são transformadas em relações burguesas, porque não pode, portanto,
revisá-los sem ao mesmo tempo violar formalmente a propriedade burguesa. E a
propriedade burguesa é naturalmente tão sagrada e inviolável quanto a propriedade
feudal é atacável.” (Marx, 2010, p. 181)
Ilumina-se o vínculo do direito com as relações materiais: o direito expressa,
regula e garante a propriedade, as relações de produção e intercâmbio existentes, mas
não é capaz de a produzir. O direito feudal e o burguês exprimem relações sociais
fundadas na propriedade privada; cada qual enuncia os interesses gerais da respectiva
sociedade, aqueles cuja manutenção é essencial para a sobrevivência dela.
A análise desse projeto de lei também expõe o princípio do direito moderno: “a
liberdade do indivíduo e da propriedade”, princípio que identifica a liberdade individual
com a condição de proprietário, e que está no centro do interesse geral contemporâneo.
Tal princípio, bem como sua oposição ao feudal, também se depreende do exame da
condição social do júri constituído para julgar alguns líderes dos trabalhadores3. De
acordo com as leis censitárias então vigentes, os jurados eram escolhidos no interior de
uma única classe, a dos privilegiados; a lista inicial estabelecida por esse critério
passava por três clivagens sucessivas dos “representantes judiciais do governo”, até
chegar aos doze componentes finais. Esses métodos, evidentemente, fazem do tribunal
do júri “uma instituição para a afirmação dos privilégios de alguns e de modo algum
para a garantia do direito de todos” (Marx, 2010, p. 347), e relacionam-se com a forma
existente do estado, a qual, como Marx insiste inúmeras vezes, responde a relações de
produção e intercâmbio determinadas. O “direito de todos” supõe a igualdade de todos e
a “liberdade do indivíduo e da propriedade”, enquanto o “privilégio de alguns” supõe
uma sociedade em que a desigualdade entre os homens é a base.
A compatibilidade entre a igualdade jurídica, a garantia do direito de todos, e a
existência das classes é outra faceta da relação entre o estado político pleno e a
sociedade civil plena, isto é, a sociedade burguesa. Já foi indicado que Marx entende o
estado como a coagulação de forças sociais seccionadas do conjunto dos indivíduos,
bem como que a especificidade da forma política assumida depende do patamar de
desenvolvimento alcançado pelas capacidades humanas, que determina o modo
particular daquela separação. Assim, a presença de forças produtivas modernas,
industriais, vincula-se à completa separação entre trabalho vivo e trabalho morto, entre
trabalhadores e meios de trabalho; portanto também à completa separação entre
indivíduo e gênero, entre “homem” e “cidadão”. É no âmbito dessas condições que o
“homem” é determinado como indivíduo livre e proprietário privado, contraposto aos
demais na sociedade civil, e o cidadão se reconhece como ser genérico também na
condição de livre, proprietário privado e, por isso, igual. De sorte que, como Marx já
3
Gottschalk, Anneke e Esser (líderes dos trabalhadores). Ver “O processo contra Gottschalk e
camaradas” (Marx, 2010, p. 347-352).

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mostrara em outras obras, as condições concretas e contraditórias da vida individual


restringem-se à sociedade civil, desaparecendo do estado – e do direito. A condição que,
abstratamente tomada, é comum a todos e assim sustenta a igualdade não é vácua; ao
contrário, é a determinação mais central da existência humana moderna.
Essa igualdade jurídica nucleada pela liberdade individual do proprietário
privado, princípio do direito burguês como expressão de uma forma particular de
propriedade, deve impor-se, tal como essa mesma forma, primeiro destruindo a anterior
e, depois, em sua qualidade de direito, isto é de regulação do interesse geral abstrato
separado dos interesses particulares, portanto em sua condição de expressão da ordem
de uma sociedade classista, deve impor-se pela força também no interior desta. O direito
feudal, ainda vigente na Alemanha, expressava, por seu turno, uma sociedade em que a
separação entre individualidade e generidade, entre trabalho e meios de trabalho, entre
vida privada e vida pública, ainda não se consumara, portanto também não a separação
entre sociedade civil e estado, de sorte que as condições concretas da vida individual
determinavam tanto a participação política quanto os direitos.
De outra parte, o pensamento e a ação dos indivíduos que, de uma ou outra
forma, participam da esfera jurídica são, como os de quaisquer outros homens,
socialmente determinados: “a consciência está interligada ao conhecimento e a todo o
modo de existência de um homem”, de modo que “A ‘consciência’ dos privilegiados é
justamente uma consciência privilegiada” (Marx, 2010, p. 347). Esta observação,
retomando a determinação da consciência pela vida, desvela a impossibilidade de um
indivíduo atuar, legislar ou julgar independentemente de seus próprios interesses, vale
dizer, a impossibilidade de distanciar a jurisdicidade das condições reais de vida, das
classes e da dominação de classes.
As posições dos juristas e magistrados renanos demonstram a validade dessas
considerações, e acrescentam mais uma pincelada ao retrato da burguesia alemã. Na
Assembleia Ententista, diz Marx, os juristas renanos demonstraram ao governo
prussiano “que sua antiga oposição tinha quase o mesmo sentido da oposição do
parlamento francês antes de 1789 –defesa obstinada e em aparência liberal de interesses
corporativos”, e que eles eram “os mais bravos entre os bravos no exército do
servilismo” (Marx, 2010, p. 357-358); após a dissolução da Assembleia, a corte renano-
prussiana excede a velho-prussiana em servilismo e “fanatismo político”. A
magistratura burguesa agiu de modo mais subserviente do que a ligada aos junkers,
embora o governo ao qual se submetera não fosse um governo burguês.
Reacionária, conciliadora e submissa, da burguesia alemã não poderia se
originar uma magistratura com características opostas, já que esta sempre se vincula a
uma classe determinada, assim como o conteúdo do direito cuja observação deve
garantir. Entretanto, também nesse âmbito a subordinação obstaculiza os interesses
burgueses: “Na Prússia, por sua covarde confiança no governo e sua traidora
desconfiança contra o povo, a burguesia vê ameaçada a indispensável garantia da
propriedade burguesa – a organização burguesa da justiça”. Pois, conclui Marx, diante
da subordinação da magistratura, “o próprio direito burguês dá lugar ao arbítrio dos
funcionários” (Marx, 2010, p. 361). Devendo garantir a propriedade, a forma específica
desta determina a do direito; a propriedade burguesa exige, na organização da justiça,
uma magistratura independente, ou seja, não diretamente submissa ao governo, a fim de
a proteger e, tomando-a como base e critério, proteger a todos enquanto proprietários. A
prevalência do arbítrio dos funcionários é adequada à forma feudal da propriedade, de
que faz parte a desigualdade não somente de fato, mas de direito, bem como a

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dependência ou subordinação pessoal. Relações sociais desembaraçadas das limitações


objetivas e subjetivas próprias da forma feudal, fundadas em indivíduos livres e
proprietários inter-relacionados pela troca – portanto, concorrenciais – exige um direito
simultaneamente mais universal e mais formal, bem como uma magistratura
suficientemente independente a fim de garantir o andamento da sociedade moderna, e
não exclusivamente interesses singulares. A universalidade própria do direito burguês
tem por critério a propriedade privada burguesa, abrangendo a todos enquanto
proprietários privados, expressando, portanto, a universalidade das relações burguesas.
Magistratura independente não significa, assim, imparcialidade de classe.
A magistratura também é alvo daquelas ilusões populares cuja perda Marx
considera ser “O fruto principal do movimento revolucionário de 1848” (nº 177), pois,
entre essas ilusões, “figura em primeiro lugar sua superstição na magistratura. O
prosaico vento norte da contra-revolução prussiana arrancou também esta flor da
fantasia popular, cuja verdadeira pátria-mãe é a Itália – a eterna Roma” (Marx, 2010, p.
357). A referida crendice diz respeito à suposta imparcialidade de classe da
magistratura, conexa à igualmente suposta imparcialidade do direito.
A referência a Roma como pátria dessa superstição é esclarecedora. Ela
remete, em primeiro lugar, ao amplo desenvolvimento alcançado na república romana
pelo direito fundado na propriedade privada, individual, com a correspondente
instituição de uma magistratura que o fazia valer e o garantia para todos os cidadãos.
Mas também remete a uma situação social específica, historicamente determinada e há
muito desaparecida: aquela em que a divisão social do trabalho estabelece já a oposição
de classes, sem que deixe de reger ainda a comunidade de base natural, na qual os
cidadãos abarcados pelo direito eram fundamentalmente membros dessa comunidade e
de uma mesma classe – a dominante – enquanto a classe dominada, na sua condição
escrava, era necessariamente excluída, já que seus membros eram instrumentos
pertencentes aos proprietários livres. A universalidade do direito fundado na
propriedade privada e a imparcialidade da magistratura assentavam-se, pois, na restrição
da parcela social para a qual o direito se aplicava e na identidade dos indivíduos dessa
parcela como proprietários privados livres. Na sociedade burguesa moderna, entretanto,
todos – dominantes e dominados – se igualam como proprietários privados sans phrase;
a distinção, e mais ainda a oposição de suas condições reais é excluída da esfera do
direito. A ilusão a que Marx se refere envolve a crença no caráter autônomo e
determinante dessa esfera e a desconsideração do critério específico que molda a
universalidade do direito e a independência da magistratura – a igualdade de todos
como proprietários privados –, confundindo, assim, a universalidade do capital com a
universalidade humana. No período de ascensão revolucionária da burguesia, a
república romana é vista por essa classe como ideal a alcançar. Os trabalhadores,
enquanto ainda se subordinam a ela, compartilham também essa ilusão. Perdê-la é dar
mais um passo para se desvencilhar daquela subordinação, passo que pôde ser dado
quando a realidade mesma expôs suas determinações. A perda das ilusões a respeito do
direito e da magistratura é parte da perda das ilusões a respeito da política.
É no interior desse raciocínio que Marx entende que “a Convenção francesa é e
permanece o farol de todas as épocas revolucionárias. Ela inaugurou a revolução
destituindo, por um decreto, todos os funcionários. Também os juízes nada mais são do
que funcionários”, o que “as ações e declarações” dos tribunais renanos “testemunharam
perante toda a Europa” (Marx, 2010, p. 357). Frise-se: a Convenção é um “farol” porque
seu primeiro ato é de desmontagem do poder existente; este ato de demolição, a

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destituição dos funcionários, entre eles os juízes, inaugura a revolução, ou seja, não é o
resultado de um processo, mas o primeiro passo dele, é tarefa a realizar no início da
revolução.
Reencontramos aqui a mesma posição já manifesta quando Marc criticara
Camphausen por ter mantido em seus postos todos os funcionários do estado, o que
redundou no reerguimento da contra-revolução. Os juízes são também funcionários de
um determinado estado, portanto parte do corpo real dele. Dado o elo do direito e da
magistratura com uma classe social determinada, bem como sua condição de
garantidores de uma forma específica de propriedade, a conservação dos magistrados
em seus postos transformou o Ministério Público em instrumento da contra-revolução, e
como tal interpreta e aplica de acordo com os interesses desta a legislação em vigor.
É o que ocorre no processo aberto contra a NGR, acusada de incitar à
sublevação4. Em seu discurso de defesa perante o tribunal do júri de Colônia, Marx
mostra que, de acordo com a própria lei, não caberia o enquadramento do jornal no
parágrafo do Code Pénal sobre o qual se fundava a acusação. Analisando-o, mostra que
mesmo a tradução do texto original francês para o alemão, e mais ainda a interpretação
dele, distorcem a letra e o espírito da lei. O Ministério Público ateve-se a esse parágrafo,
diz Marx, porque “é muito mais indeterminado e permite muito mais facilmente
granjear uma condenação /.../. A violação da ‘délicatesse et honneur’, da delicadeza e da
honra, esquiva-se a qualquer medida. /.../ Não resta qualquer outra medida além do noli
me tangere de uma imensa, incomparavelmente arrogante vaidade de funcionário”
(Marx, 2010, p. 435).
Mas o discurso marxiano não se restringe a demonstrar a impropriedade da
acusação vis-à-vis a lei; explicita também que o Code Pénal supõe condições ausentes
na Alemanha contra-revolucionária: “Finalmente, meus senhores jurados, os ‘citoyens’,
os cidadãos a cujo ódio ou desprezo me expõe a acusação de um fato para, de acordo
com o art. 367, ser uma calúnia, estes citoyens, estes cidadãos não existem
absolutamente mais nos assuntos políticos. Existem ainda apenas partidários. O que me
expõe ao ódio e ao desprezo dos membros de um partido, me expõe ao amor e à
admiração dos membros do outro partido” (Marx, 2010, p. 435). Marx entende ser
fundamental essa distinção, não exclusivamente para o julgamento da NGR, “mas sim
para todos os casos em que o Ministério Público pretenda aplicar o art. 367 a polêmicas
políticas” (Marx, 2010, p. 436). A importância do vínculo de classe dos funcionários
judiciários é gritante. Utilizando contra a imprensa esse artigo, os jurados vão aboliriam
a liberdade de imprensa pela legislação penal, pois aos jornais seria interditado
denunciar a arbitrariedade e a vileza oficiais. Relatando um conjunto de fatos
relacionados às prisões de que trata o artigo pelo qual a NGR estava sendo processada –
outras prisões, restrições diversas à liberdade de manifestação e expressão –, ilumina o
apoio explícito à traição do governo contra o povo pelo Parquet, que, assim, agia
partidariamente, e não imparcialmente. Procuradores, promotores, juízes
revolucionários certamente não interpretariam nem aplicariam a lei desse modo. É o que
Marx conclama os jurados a fazer: interpretar a lei no sentido das necessidades sociais
atuais, enquanto o legislador não a atualiza.
Exibem-se, assim, por vários ângulos, os vínculos da lei e da magistratura com
uma classe e com as relações sociais em geral, seja expondo a posição tomada pelo

4
A acusação à NGR baseia-se no artigo “Prisões” (nº 35), em que supostamente haveria uma ofensa ao
procurador-geral Zweiffel e uma calúnia contra os gendarmes que efetuaram a prisão de Gottschalk e
Anneke.

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Ministério Público – contra-revolucionária – e a interpretação distorcida que faz da lei


para servir a essa posição, seja mostrando que o conteúdo mesmo da lei expressa
determinadas relações sociais, de sorte que, havendo estas mudado, seria preciso alterar
a primeira; a lei se torna “preceito morto” se contradiz o “nível de desenvolvimento
social” presente. Ao conclamar os jurados a “se adiantarem ao legislador” (Marx, 2010,
p. 436), ilumina a obrigatória parcialidade deles, pois devem decidir, primeiro, se
aplicam ou não o art. 367 à imprensa, como propôs o Ministério Público, portanto se
abolem ou não a liberdade de imprensa, ou se o aplicam interpretando-o de acordo com
as necessidades sociais atuais, portanto reinterpretando à luz da liberdade de imprensa
uma lei produzida na ausência dela e que não foi pensada para ser aplicada a ela. A
posição tomada pelos jurados, qualquer que fosse, não seria imparcial.
O júri é, pois, chamado a defender não apenas um periódico, mas a liberdade
de associação e de imprensa, a qual, entretanto, seria totalmente aniquilada se a contra-
revolução prussiana não fosse quebrada rapidamente por uma revolução popular
prussiana, afirmando novamente que a lei e sua aplicação não são determinadas pela
vontade do legislador, não são autônomas nem determinantes.
Mas a condição determinada de uma esfera ou relação social não diminui sua
importância. Marx frisa a necessidade de lutar contra os gendarmes e o Parquet, apesar
de sua insignificância diante dos grandes confrontos em tela, pois a servidão se apóia
nos poderes políticos e sociais subordinados, mais próximos à vida privada do
indivíduo, não sendo possível combater apenas as relações gerais e os poderes mais
altos; lembra que a revolução de março fora vencida por deixar intocadas as bases do
cume político – a burocracia, o exército, os juízes etc. Estes são os meios efetivos do
poder, ou melhor, são estes que exercem de fato o poder. Mantê-los é conservar esse
poder, e fora graças a tal conservação que a revolução de março fracassara. Fica claro
que “a estrutura da servidão tem seu mais verdadeiro apoio nos poderes políticos e
sociais subordinados, que confrontam imediatamente a vida privada da pessoa, o
indivíduo vivendo”, de sorte que a derrubada do governo é impossível sem oposição
violenta contra seus funcionários. Não sendo o estado, pois, abstrato, “Não é suficiente
combater as relações sociais gerais e os poderes mais altos”, é preciso atingi-lo em sua
existência efetiva (Marx, 2010, p. 439).
A magistratura é parte integrante desse estado, da forma real de existência do
poder, da estrutura da servidão. É parte desse corpo real sem o qual não há de fato
poder, ou este não tem como se exercer. Ou seja, os juízes, junto com todo o direito,
cumprem tarefas específicas no interior de uma estrutura de poder.
Em outro discurso em defesa da NGR, processada com base nas leis de 6 e 8 de
abril de 18485 por ter defendido a recusa dos impostos, Marx aborda a posição do
governo diante da revolução. Em 5 de dezembro de 1848, este outorgora uma
constituição e impusera uma nova lei eleitoral; assim, depois de 5 de dezembro, o
governo não poderia usar as leis por ele mesmo derrubadas contra seus inimigos: “Em 5
de dezembro, o governo se colocou no terreno revolucionário, especificamente no
contra-revolucionário. Diante dele só há ainda revolucionários ou cúmplices”. Perdera
o terreno do direito. A revolução – ou contra-revolução – destrói uma situação legal; em

5
Como resultado da “conciliação do governo com a Dieta Unificada” (instituição da Prússia pré-março
de 1848), permitiu-se que aquele instituto estamental promulgasse as leis de 6 e 8 de abril,
regulamentando eleições indiretas para a ANP, convocada para a tarefa de passar “à nova Constituição a
partir da Constituição existente”. Ver “A declaração de Camphausen na sessão de 30 de maio” (Marx,
2010, p. 84-88).

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seu decorrer e no momento imediatamente posterior à vitória, pode-se matar ou expulsar


o inimigo vencido, mas não faz sentido julgá-lo pelas leis que acabam de ser
derrubadas. É o mesmo significado da observação, acima mencionada, de que o debate
político envolve posições partidárias opostas, nenhuma das quais poderia ser julgada
por um código legal que supõe uma universalidade inexistente nesse caso. Em
“situações ordinárias”, isto é, situações estabelecidas e contra as quais não há
questionamento, em que há leis igualmente estabelecidas, resta ao poder público sua
execução. Naquele momento, entretanto, a Alemanha não vivia uma “situação
ordinária”, mas sim uma luta entre dois poderes: a coroa e a Assembleia, luta que não
pertencia nem à esfera do direito privado nem à esfera do direito criminal. A questão
sobre quem está com a razão, a coroa ou a Assembleia Nacional, era uma questão
histórica, não jurídica. Foge à competência do direito e de seus executores decidir sobre
esta ou aquela forma social (entre a sociedade moderna e a feudal) porque o direito não
é matrizador, ao contrário, é expressão de uma sociedade dada e regula a vida nesta
forma dada. Marx evidencia que a contraposição ao poder não pode ser efetuada no
plano do direito, mas apenas no do próprio poder.
Estabelecida a insustentabilidade das acusações à NGR com base nas leis de 6 e
8 de abril, Marx ilumina a gênese social daquelas leis, resultantes da “entente do
governo com a Dieta Unificada” (Marx, 2010, p. 461). Retomando a história dessa
conciliação, mostra que, a fim de que a burguesia se apoderasse do poder, a revolução
deveria varrer os vários elementos que restavam do velho modo de produção e troca
feudal. É o que não ocorre. A Dieta Unificada foi convocada e deixou-se que ditasse leis
à nova sociedade, “Supostamente, para defender o terreno do direito”, isto é, para “a
defesa de leis de uma época social passada”. Marx entende que “Isso é uma ilusão
jurídica”, pois, de fato, a lei se apoia na sociedade, “deve ser expressão de seus
interesses e necessidades comuns, resultantes do modo de produção material atual,
contra o arbítrio do indivíduo isolado”. Nesse sentido, afirma que o Código
Napoleônico “não gerou a moderna sociedade burguesa”, mas esta “encontra no Code
apenas uma expressão legal” (Marx, 2010, p. 463). Vai na mesma direção a observação
de que “As evidentes reivindicações, necessidades e direitos da revolução naturalmente
não são sancionados por uma legislação cujos fundamentos foram pelos ares justamente
por meio dessa revolução” (Marx, 2010, p. 107).
É uma “ilusão jurídica” a de que as leis seriam geratrizes da sociedade, quando
somente expressam no plano legal as relações sociais já existentes. A defesa do terreno
do direito significava a defesa de determinadas leis – e não da legalidade em geral –,
nascidas das velhas condições de produção material. À medida que estas não mais
vigoram, a defesa daquelas leis “não passa, no fundo, da defesa hipócrita de interesses
particulares anacrônicos contra o interesse geral moderno”. Se as velhas leis não
afundam junto com a velha sociedade, obstaculizam o desenvolvimento da nova. Assim,
diz Marx, a tentativa de impor à sociedade “leis que foram condenadas pelas próprias
relações vitais dessa sociedade”, a defesa do terreno do direito, entra “em contradição
com as necessidades existentes, inibe a circulação, a indústria, ela prepara crises sociais,
que explodem em revoluções políticas” (Marx, 2010, p. 463).
As leis emergem das relações de produção e intercâmbio existentes, das classes
e da luta entre elas. As leis de 6 e 8 de abril de 1848 exprimiam interesses particulares
ligados a relações sociais ultrapassadas, contrapostos ao interesse geral moderno. Este
deve ser defendido por leis compatíveis com as necessidades e exigências atuais, contra
o arbítrio do indivíduo. Essa oposição e imposição do interesse geral ao arbítrio do

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indivíduo isolado é o reconhecimento da divergência entre interesse individual e


interesse comum, o reconhecimento de que o interesse comum não é o interesse de
todos os indivíduos, mas um interesse que se sobrepõe a todos; é a admissão do
confronto dos indivíduos entre si e com a sociedade. Desse modo, o direito moderno,
isto é, as leis adequadas às necessidades gerais da sociedade atual, é novamente
estabelecido como necessidade de uma sociedade contraditória, em que os indivíduos se
contrapõem uns aos outros e ao interesse comum, ou seja, à própria sociedade. Em
outros termos, o direito, enquanto expressão do interesse comum contra o arbítrio
individual, é necessário na medida em que os polos da individualidade e da generidade
se enfrentam como opostos, não como reciprocamente constitutivos. O direito expressa
a cisão entre indivíduo e gênero, aquele vivendo abstratamente no âmbito da vida
privada, este existindo de modo igualmente abstrato na esfera da vida pública, reduzida
à política.
Negando autonomia e capacidade geradora ao direito, a análise marxiana,
entretanto, não lhe recusa importância nem papel efetivo – se assim fosse, seria inócuo
bater-se contra determinadas leis e a favor de outras. No combate às leis de 6 e 8 de
abril, àquelas que restringem ou impedem a liberdade de imprensa, organização etc., e
ao projeto de lei penal, Marx mostra a importância da legislação, mas não a isola ou
autonomiza, nem alimenta a fantasia de que decorre da vontade imparcial do legislador,
ou de que possa por si alterar as relações sociais.
Instrumentos de regulação de uma dada formação social, as leis, se efetivas,
atuam facilitando, permitindo ou obstaculizando as atividades vitais, e nesse caso
gestando crises sociais que deságuam em revoluções, as quais, eclodindo contra aquelas
leis, são movimentos que visam adequar a esfera jurídica às relações materiais, e não
modificar estas últimas – por isso são revoluções políticas.
Como parte do corpo do estado, a jurisdicidade compartilha, assim, das
determinações deste: instrumento de uma sociedade fundada em relações materiais de
produção e intercâmbio específicas, nesse caso instrumento de regulação da vida de
indivíduos isolados de acordo com os interesses gerais dessa formação social. Da
existência de contradição, de interesses particulares que poderiam se chocar com aquele
interesse geral que a lei visa garantir, decorre que a lei não se auto-impõe, mas precisa
ser imposta, donde seu elo com o poder, a força. O direito está sempre do lado do poder,
seja por expressar e garantir os interesses dominantes, seja por carecer da força para se
fazer valer. Sendo necessário nas sociedades cindidas em classes sociais, esse elo entre
direito, poder e força não se apresenta, é óbvio, somente nas formas de estado mais
abertamente ditatoriais, mas também nas democráticas.

Referências Bibliográficas
CHASIN, J. Marx: Estatuto Ontológico e Resolução Metodológica. São Paulo:
Boitempo, 2009.
__________ “Marx - A Determinação Ontonegativa da Politicidade”, in Ensaios Ad
Hominem 1 - Tomo III – Política. Santo André: Ad Hominem, 2000.
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COTRIM, L. Marx: Política e Emancipação Humana – 1848-1971. Tese de doutorado
– PPG em Ciências Sociais – PUC-SP, 2007.
ENGELS, F. Revolução e contra-revolução na Alemanha. Lisboa: Avante, 1981.
MARX, K. Contribuição para a Crítica da Economia Política, Lisboa, Estampa, 1973.

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21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

_________ “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução”. In Temas de


Ciências Humanas, nº 2. São Paulo: Grijalbo, 1977.
_________ Nova Gazeta Renana. São Paulo, Educ, 2010.

54
GT 1

Acumulação de capital, inovação tecnológica e


desigualdade

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INVESTIGAÇÕES SOBRE FUNDAMENTOS E ESPECIFICIDADES DA


CHAMADA "QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL"

Gabriela Rigueira Cavalcanti


Universidade Federal de Juiz de Fora
grc1306@gail.com

Resumo
O presente trabalho expõe resultados parciais de pesquisa exploratória a respeito dos
fundamentos e especificidades do recente fenômeno de desenvolvimento e difusão de
novas tecnologias na esfera produtiva, por muitos chamado de “4ª revolução industrial”.
Inicialmente pretende-se fixar como parâmetro comparativo os fundamentos e
especificidades da terceira revolução industrial, conforme assinalado por Ernest Mandel,
para então apresentar os elementos constitutivos e o “estado da arte” da chamada
“Indústria 4.0”, não só indicando as inovações tecnológicas (bem como os efeitos
esperados de sua difusão), mas as determinações do cenário econômico mundial em meio
ao qual desponta. Ao fim e ao cabo, pretende-se fornecer material para o debate acerca
da facticidade da “nova” revolução industrial a partir dos principais textos sobre o tema.
Palavras-chave: Indústria 4.0; Progresso Tecnológico; Acumulação.

INVESTIGATIONS ON THE FOUNDATIONS AND SPECIFICITIES OF THE


SO CALLED "FOURTH INDUSTRIAL REVOLUTION"

Abstract

These work presents results of exploratory research on the fundamentals and specificities
of the recent development of new technologies in the productive sphere, by many
denominated "4th industrial revolution". Initially we intend to compare the foundations
and specificities of the third industrial revolution, as pointed out by Ernest Mandel, to
present the constituent elements and state of the art of the so-called Industry 4.0, not only
pointing out as technological innovations as they expected them to be, but as
determinations of the world scenario. Thus, it is intended to provide material for debate
on the facticity of the new industrial revolution from the main texts about the subject.
Keywords: Industry 4.0; Technological progress; Capital Acumulation.

Introdução

Muito se tem falado sobre uma quarta revolução industrial. As tecnologias


principalmente relacionadas com a inteligência artificial, internet das coisas e big data,
tem sido apontadas como fatores determinantes de um novo patamar tecnológico. Uma
série de inovações como carros auto-pilotados e robôs que conseguem aprender sozinhos
tem tomado páginas de jornais e despertado a imaginação e curiosidade de entusiastas e
cientistas.
Não se pode, entretanto, permanecer na superfície desses fenômenos que
começam a despontar na realidade. É preciso investigar a sua facticidade. Para isso, é
preciso questionar em que medida essas novas mercadorias máquinas são realmente
inovadoras em comparação com o maquinário do padrão tecnológico anterior? Qual o
potencial destas para o aumento de produtividade e consequente retomada das taxas de
lucros? Estes produtos já estão disponíveis para introdução em larga escala? Se sim, em

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quais setores chave concentram sua aplicação? Quais evidências econômicas corroboram
a tese de um novo salto tecnológico?
Para realizar essa primeira aproximação na tentativa de buscar respostas para essas
perguntas, partimos primordialmente das conclusões a que Marx chega no cap. 8 de O
Capital vol. 1. Vamos tomar pressuposta a discussão sobre o desenvolvimento da
maquinaria e grande indústria nos termos do próprio Marx, avançando sobre a discussão
com foco no século XX, já na terceira revolução tecnológica, a partir da abordagem de
Mandel. Com esse aporte, tentaremos enfrentar as considerações que tem sido feitas a
respeito de uma mudança para um novo patamar tecnológico, bem como as causas e
consequências dessa função.
Assim, num primeiro momento, buscaremos sedimentar as especificidades da
terceira revolução tecnológica, sabidamente, a base técnica que se impõe a partir da
segunda metade do século XX e que se arrasta até o presente momento. O objetivo deste
percurso é, num segundo momento, procurar o ponto de inflexão, isto é, qual seria o fator
decisivo para constatar um avanço para uma nova base técnica.
Enfim, procuraremos indícios no cenário econômico que corroborem com as
condições necessárias para o surgimento de um salto deste tipo. Ao final, enfrentaremos
criticamente os principais textos que tem servido de base para sustentar a tese da quarta
revolução industrial.

A terceira revolução tecnológica: fundamentos e especificidades

No sexto capítulo de “O Capitalismo Tardio” de Ernest Mandel, a saber, “A


Natureza Específica da Terceira Revolução”, está um dos mais importantes tratados sobre
as razões e consequências do desenvolvimento tecnológico em meio ao avançar da
acumulação de capitais no século XX. Filiamo-nos em grande medida às conclusões desse
autor, pois, no decorrer dos anos, a realidade tem dado provas de seu acerto. Assim,
basearemos a maior parte desta seção no caminho já trilhado por Mandel.
Antes de abordar a terceira revolução tecnológica propriamente dita, é necessário
reconstituir o curso das forças sociais que historicamente confluíram para possibilitar a
sua gênese. Começamos pois, nossa reflexão remetendo brevemente à era do chamado
“capitalismo de livre concorrência”, período em que a principal fonte de reprodução
ampliada parece ter sido o que Mandel chama de “desenvolvimento desigual e combinado
de regiões no interior dos mais importantes países capitalistas” (Mandel, 1982, p. 129).
A empresa colonial encabeçava a marcha da acumulação. Já num momento histórico
posterior, ainda dentro desta “fase” da “livre concorrência”, a produção mecânica – antes
restrita, de forma significativa, apenas à indústria do ferro e do carvão – ingressa na esfera
das máquinas motrizes, dos motores a vapor. A partir daí a base artesanal ou
manufatureira de produção de máquinas motrizes observou uma nova fase, na qual
“máquinas produziam máquinas para construir outras máquinas” (idem), embora
continuasse a predominar a produção artesanal de matérias-primas.
De modo geral, durante as duas primeiras “fases” constitutivas do “capitalismo de
livre concorrência”, a grande indústria operada por maquinas predominou apenas na
indústria de bens de consumo, sobretudo na indústria têxtil. Até o primeiro século após a
Revolução Industrial, a composição orgânica do capital no Departamento II era maior do
que no Departamento I. De fato, no volume 1 d’O Capital, Marx dizia que a gênese do
capitalismo industrial podia ser efetivamente descrita como a “produção mecânico-
industrial de bens de consumo por meio de máquinas feitas artesanalmente”.
Essa configuração explica porque o mais importante sentido internacional da
penetração da produção mercantil capitalista em regiões não industrializadas assumiu a
forma de exportação de bens de consumo e também porque esta fase inicial do capitalismo
pode ser identificado como de livre concorrência, pois o volume reduzido do mínimo de
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capital necessário para ingressar no setor de bens de consumo freava o surgimento de


monopólios e oligopólios.
Mas é somente mais tarde, quando o Departamento I troca a produção mecânica
de motores a vapor pela produção mecânica de motores elétricos que se observa uma
grande transformação na composição orgânica deste subdepartamento produtor de capital
fixo. Entretanto, a elevação da composição orgânica do Departamento I também sofre
expansão em função do subdepartamento produtor de capital constante circulante
(matérias-primas), pois observa-se no período a transição da produção artesanal de
matérias primas para sua produção por métodos manufatureiros ou do início da indústria.
Trata-se do período imperialista, o qual, ressalta Mandel, resulta, dentre outros fatores,
de uma

alteração no impulso principal da tendência capitalista à expansão: a


exportação de bens de consumo para regiões pré-capitalistas deu lugar à
exportação de capitais” (e de artigos comprados com esses capitais,
especialmente vias férreas, locomotivas e instalações portuárias, isto é,
aparelhamento infra-estrutural para simplificar e baratear a exportação de
matérias primas produzidas com o capital metropolitano). (Mandel, 1982, p.
131)

A penetração maciça do capital no Departamento I criou locais de produção que,


conforme anotou Marx, deviam operar com instrumentos ciclópicos de produção e,
consequentemente volumes ciclópicos de capital. Este é o principal fator que impulsiona
o surgimento dos monopólios, uma vez que o mínimo de capital requerido para competir
neste setor tornou-se absurdo. Este período coincide com a segunda revolução
tecnológica, sobretudo com a tecnologia dos motores elétricos – o que o próprio Lênin
foi capaz de enfatizar como fator decisivo para o aviltamento da monopolização. Como
bem destaca Mandel,

Não é surpreendente que essa monopolização ocorresse mais rapidamente nos


“novos ramos industriais (aço, máquinas elétricas, petróleo) e nas “novas”
nações industriais (EUA, Alemanha) do que nos “velhos” ramos da indústria
(têxteis, carvão) e nos “velhos” países industriais (Inglaterra, França).
(Mandel, 1982, p. 132).

Aqui, temos um fator determinante para compreender a relação acumulação x


tecnologia: a acumulação acelerada do período imperialista gerada pela segunda
revolução tecnológica (1893-1914) foi sucedida por um longo período de acumulação
bloqueada e de relativa estagnação, pois o aumento considerável na composição orgânica
do capital resultante da generalização da energia elétrica culminou em uma queda
tendencial na média das taxas de lucro. A resposta matematicamente óbvia para contrapor
esta tendência seria o aumento correspondente da taxa de mais-valia, porém, como
explica Mandel, após a Primeira Guerra Mundial, as instabilidades sociais impediram a
expansão da taxa de exploração e, mesmo com uma breve ascensão econômica entre 1924
e 1929, a queda nas taxas de lucro conduziu à Grande Depressão de 1929 a 1932.
Em meio ao declínio das exportações de capital para as colônias e à
subacumulação nos países metropolitanos, a fração de capital excedente que não participa
na valorização imediata do capital viu-se aumentada lado a lado com a queda nas taxas
de lucro. Este capital, conforme explica Mandel, passou a ingressar no Departamento II.
Um novo setor foi criado: o dos bens de consumo duráveis, com a aplicação da segunda
revolução tecnológica aos bens de consumo (a produção automobilística e o início da
produção de aparelhos eletrodomésticos – aspiradores de pó, rádios, máquina de costura
elétrica, etc). Embora essa produção se restringisse inicialmente aos EUA, ela permitiu
um aumento considerável da composição orgânica do capital capitaneada pelo
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Departamento II, reduzindo inclusive a sua desvantagem com relação ao Departamento


I.
A pressão para elevar a lucratividade no Departamento I assumiu, segundo
Mandel, quatro formas: a) um aumento imediato na taxa de mais-valia (com o fascismo
e economia de guerra, principalmente); b) a valorização imediata do capital através do
rearmemento; c) penetração em escala maciça do capital na produção de matérias-primas
(minerais e agrícolas) agora com tecnologia industrial avançada e consequentemente apta
a reduzir o custo do capital constante fixo, também motivada pela pressão por diminuir o
tempo de rotação do capital; d) redução radical na participação dos custos salariais no
preço de custo das mercadorias, conjugada com a experimentação nos campos da semi-
automação e automação.
Assim que as taxas de lucro se elevaram, a expansão do capital pode encontrar as
condições necessárias para subir vertiginosamente com a utilização do capital acumulado
mas não valorizado no período das décadas de 1920 e 1930, abrindo caminho para o que
Mandel chama de “onda longa de tonalidade expansionista”, de 1940 a 1965 – os
chamados “anos dourados” do capitalismo.
No que toca à base técnica deste novo período, a que Mandel denomina
“capitalismo tardio”, tem-se como principal característica o fato de que paralelamente aos
bens de consumo industriais feitos por máquinas (surgidos com a Revolução Industrial
no início do século XIX) e das máquinas de fabricação mecânica (realidade do final do
século XIX, já apontando para a segunda revolução tecnológica), observa-se a partir desse
momento a produção de matérias primas e mesmo gêneros alimentícios produzidos por
máquinas. Todos os ramos da economia encontram-se plenamente industrializados e
inclusive a esfera da circulação enfrenta uma mecanização crescente.
A expansão generalizada da mecanização determinou, ao longo dos anos, um
nivelamento geral na produtividade média do trabalho nos dois Departamentos. Uma vez
possível aplicar o princípio dos processos totalmente automatizados à produção em
massa, eles se toram facilmente aplicáveis também à produção em massa de matérias-
primas e “bens leves” de consumo, assim como o são na produção de aparelhos
transistorizados ou fibras sintéticas. Assim, pode-se dizer, que o nivelamento da
composição orgânica média do capital é parte da essência mesma na automação. O
capitalismo tardio se defronta, por tanto, com uma crescente igualização da produtividade
média do trabalho.
Justamente em virtude dessa igualização, desenvolve-se uma pressão permanente
para acelerar a inovação tecnologia. Desta forma, a “renda tecnológica” se torna fonte
crucial de mais-valia. Segundo Mandel, “as rendas tecnológicas são superlucros
derivados da monopolização do progresso técnico” (Mandel, 1982, p. 135). Em outras
palavras, passou a assumir um papel ainda mais determinante a operação que implica em
descobertas e invenções tecnológicas capazes de baixar o preço de custo das mercadorias
sem contudo serem generalizadas em determinado ramo da produção, pois uma vez
aplicadas pelos capitalistas individuais concorrentes, haveria igualização da
produtividade média no setor, minando os superlucros.
Este é o ambiente do surgimento da terceira revolução tecnológica. As quatro
formas de pressão para retomada das taxas de lucro no Departamento I desenvolvidas nas
primeiras 4 décadas do século XX culminaram em um conjunto de fatores capazes de
desencadear este fenômeno. A possibilidade técnica da automação está ligada, por
exemplo, às necessidades técnicas correspondentes ao grau particular de desenvolvimento
alcançado pela economia armamentista no período (basta pensar no princípio genérico de
processos de produção contínuos e automáticos livre de contatos humanos aplicadas ao

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manejo da energia nuclear, bem como a derivação direta dos princípios cibernéticos
aplicados à orientação precisa de mísseis automáticos de defesa aérea1).
Mandel salienta que a aplicação desta tecnologia disponível principia pela
indústria química na década de 1950 e se difunde gradativamente por outras esferas com
o intuito de “redução radical dos custos salariais diretos – isto é, a eliminação do trabalho
vivo do processo de produção” (Madel, 1982, 1935). Em meados da década de 50, com o
início da utilização de máquinas de processamento de dados no setor privado da economia
dos EUA, franqueou-se ara diversos setores o campo da inovação tecnológica acelerada
e a busca incessante por superlucros tecnológicos, que é, afinal, o traço distintivo do
“capitalismo tardio”.
Destrinchando as determinações da terceira revolução tecnológica e seu sentido
econômico e social, Mandel destaca dez características principais: aceleração qualitativa
do aumento na composição orgânica do capital (isto é, o deslocamento do trabalho vivo
pelo trabalho morto); transferência de força de trabalho viva ainda ligada ao processo de
produção do tratamento efetivo das matérias-primas para funções relativas à preparação
e supervisão; mudança radical na proporção entre as duas funções da mercadoria força de
trabalho nas empresas automatizadas; mudança radical na proporção entre a criação de
mais-valia na própria empresa e a apropriação de mais-valia gerada em outras empresas
ou em ramos plenamente automatizados; mudança na proporção entre os custos de
produção e o gasto com a compra de novas máquinas na estrutura do capital fixo e,
consequentemente, também nos investimentos industriais; diminuição do período de
produção conseguida por meio da produção contínua e da aceleração radical do trabalho
de preparação e instalação; propensão para acelerar a inovação tecnológica e acentuado
aumento nos custos de pesquisa e desenvolvimento; vida útil mais curta do capital fixo
especialmente da maquinaria; aumento na participação do capital constante no valor
médio da mercadoria; tendência à intensificação de todas as contradições do modo de
produção capitalista.

Uma quarta revolução industrial? Especificidades anunciadas e evidências de um


novo salto tecnológico

Tendo em mente, ainda que de forma breve, as especificidades da terceira


revolução tecnológica, podemos então lançar às bases para um questionamento: qual seria
o ponto de inflexão da base técnica característica da 3ª RT para uma 4ª RT supostamente
em curso? Qual seria esse traço distintivo capaz de apontar essa transformação?
Mandel salienta que a proporção entre a automação parcial e automação total
constitui um problema decisivo da 3ª RT. Segundo o autor,

Se processos semi-automáticos de produção forem introduzidos em


determinados ramos da produção em escala maciça, isso simplesmente
reproduzirá em nível mais alto a tendência inerente ao capital de aumentar sua
composição orgânica, e não levantará nenhuma questão teórica de importância.
No entanto, na medida em que a semi-automação, particularmente nos setores
fabricantes de bens industriais leves, conduz a uma redução substancial no
valor de bens de consumo necessários para realizar os salários reais, ela pode
facilmente acarretar um aumento não menos substancial na produção de mais-
valia relativa. [...] No entanto, se processos de produção plenamente
automatizados forem introduzidos em escala maciça em certas esferas de
produção, todo o quadro se altera, Nessas esferas, a produção de mais-valia
absoluta ou relativa deixa de aumentar e toda a tendência subjacente ao
capitalismo se transforma em sua própria negação: nessas esferas a mais-valia
praticamente deixa de ser produzida. (Mandel, 1982, 1939)

1
Mandel cita POLLOCK. Frederich. Automation. Frankfurt. 1964.
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Dignos de roteiro cinematográfico, é tentador o exercício da futurologia pelos


descaminhos da imaginação sobre uma “nova fase” do capitalismo plenamente
automatizado. Aliás, não são poucos os livros e artigos que tem sido produzidos sobre
este tema confundindo ciência, apologia e ficção de uma forma preocupante, conforme
comentaremos. Mas não daremos foco a uma discussão teórica sobre a
possibilidade/impossibilidade da automação no interior de relações de produção
capitalistas. Buscaremos antes distinguir qual a particularidade da automação na terceira
revolução tecnológica e qual seria a grande ruptura característica da automação
proporcionada por uma nova e revolucionária base técnica decorrente de um novo salto
tecnológico que tem sido chamado de “4ª revolução industrial”. Não só demarcar qual
seria essa diferença específica mas também averiguar se esta se põe já na realidade na
esfera produtiva de forma significativa é uma de nossas preocupações.
Analogamente ao que Marx distinguiu como duas fases do desenvolvimento da
grande indústria, Mandel também aponta para uma lógica similar no que diz respeito à
automação dentro da 3ª RT no “capitalismo tardio”. Segundo ele:

Assim como na primeira fase da grande indústria de operação mecânica, as


grandes máquinas não eram produzidas mecanicamente mas de maneira
artesanal, na primeira fase da automação atualmente em processo, os conjuntos
de máquinas automáticas não são produzidos automaticamente mas na linha de
montagem. (Mandel, 1982, p. 145).

O que se pode perceber é, então, que até o momento em que escreve na década de
1970, Mandel afirma que a esfera de produção no capitalismo tardio é caracterizada por
uma unidade contraditória de empresas não automatizadas, semi-automatizadas e
plenamente automatizadas. Inclusive, o autor registra que a indústria produtora de meios
eletrônicos de produção era, à época, particularmente portadora de uma baixa composição
orgânica de capital.
Mandel, citando Rezler (1969), afirma que o campo da terceira revolução
industrial é delimitado por quatro formas de automação: a) transferência de partes entre
processos de produção sucessivos, baseada em dispositivos automatizados (como na
indústria automobilística de Detroit na década de 1970); b) processos em fluxo contínuo,
baseados no controle automático do fluxo e de sua qualidade (como na indústria química,
nas refinarias de petróleo e nos equipamentos de gás e eletricidade na década de 1970);
c) processos controlados por computação em qualquer unidade fabril; d) diferentes
combinações dos três sistemas mencionados. A extensão e a importância que a automação
(nestes moldes) assumiu no período estudado por Mandel pode ser melhor compreendida
com o seguinte dado:

Em 1963, esse levantamento [empreendido pela companhia McGraw-Hill]


indicou que cerca de 7 bilhões de dólares, ou 18% do investimento bruto na
indústria de transformação (e cerca de 1/3 do investimento em maquinaria)
estavam sendo gastos em equipamentos que os informantes consideravam
automatizados ou avançados. (Froomkin, 1968, p. 180)

Entretanto, ainda assim as empresas e ramos plenamente automatizados de


produção não passavam, até aquele momento, de uma “pequena minoria” (MANDEL,
1982, p. 1939), assim como as empresas e ramos semi-automatizados também se
mostravam incapazes de provocar uma redução significativa no número de homens-horas
trabalhados e, consequentemente, a quantidade de trabalho na indústria continuava a
aumentar. Nesse sentido, para Mandel, na vigência do que chamou de “primeira fase da
automação”, o capitalismo tardio permanecia sendo definido pela concorrência
intensificada entre grandes empresas e entre estas e os setores não monopolistas da
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indústria – processo que, em seu conjunto, não se distingue qualitativamente do


capitalismo monopolista “clássico” do momento do imperialismo.
O autor ressalta então que o salto para uma “segunda fase da automação”, em que
processos de produção plenamente automatizados fossem introduzidos em escala maciça
em certas esferas de produção, traria à tona uma situação completamente nova, pois a
produção de mais-valia absoluta ou relativa deixaria de aumentar de forma drástica,
causando uma série de contradições para as tendências subjacentes ao capitalismo.
Porém, mais importante do que arriscar antever os efeitos, é preciso estabelecer qual seria
a característica distintiva desta “segunda fase da automação”. Seguindo a lógica das
“fases” do desenvolvimento da grande indústria, Mandel assinala que

a produção automática de máquinas automáticas representaria um novo ponto


de inflexão, em termos qualitativos, igual em significado ao aparecimento da
produção mecânica de máquinas em meados do século XIX, enfatizada por
Marx. (Mandel, 1982, p. 145).

Temos então um traço fundamental a ser explorado como parâmetro para delimitar
a razoabilidade de qualquer afirmação que aponte para o surgimento de um novo salto
tecnológico significativo na dinâmica da acumulação. Devemos buscar pois, na realidade,
informações e dados capazes de demonstrar se de fato ocorreu ou está ocorrendo nos
últimos 40 anos, desde a publicação de “O capitalismo Tardio”, a introdução, em escala
maciça, de processos plenamente automatizados, especialmente no Departamento I (“a
produção automatizada de máquinas automáticas”).
Como, porém, nossa pesquisa sobre estes dados ainda se encontra em
desenvolvimento, restringiremos nosso objeto, focando a análise primeiro nas condições
sócio-econômicas das últimas décadas enquanto pano de fundo para uma nova revolução
tecnológica e, finalmente, nos dados apresentados pelos textos e pronunciamentos que
constituem as principais referências sobre a “4ª revolução industrial” até o momento, bem
como outras obras que consideramos importantes para compreender o problema,
ponderando a razoabilidade de seus argumentos e avaliando a pertinência dos dados e
informações exibidos.
Partimos de três textos chave, talvez os mais mencionados internacionalmente nas
pesquisas, artigos e reportagens a respeito do tema, sendo eles os trabalhos de Frey &
Osbourne (2013), Schwab (2016), McKinsey Global Institute - MGI (2013).

O contexto da acumulação

Um esforço preliminar nos levou à sistematização2 proposta por Schwab (2016, p.


19), diretor executivo do Fórum Econômico Mundial, segundo quem as “megatendências”
condutoras da 4ª RI podem ser organizadas em três grupos: as físicas (veículos autônomos,
manufatura aditiva, robótica avançada, novos materiais), as digitais (inteligência artificial,
internet das coisas, nuvens e plataformas digitais de serviços) e as biológicas
(sequenciamento genético). Quais destas tecnologias emergentes tem o maior potencial para
aumentar a produtividade de modo suficiente a atender os critérios estabelecidos por Mandel
para definir uma revolução tecnológica? A classificação do Instituto Global McKinsey (MGI,
na sigla em inglês) a respeito das “tecnologias disruptivas” (MGI, 2013) é bastante relevante
neste sentido. Elas são distinguíveis por seu o maior potencial para gerar impacto econômico

2
O relatório “Advanced Manufacturing – A snapshot of priority technology areas across the Federal
Governement” do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia dos EUA (NTSC, da sigla em inglês) tem
sido uma das principais fontes oficias para especificar quais são de fato as novas tecnologias que despontam
como centrais na chamada “indústria 4.0”. A sistematização de Schwab é bastante pertinente com o
relatório.
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substancial e uma ruptura na próxima década. A lista do MGI coloca os seguintes termos para
atingir esta classificação: o rápido avanço (por exemplo, a tecnologia de sequenciamento
genético); o amplo alcance (por exemplo, internet móvel); o potencial de criar impacto
econômico (por exemplo, robótica avançada) e o potencial de mudar o status quo (por
exemplo, tecnologia de armazenamento de energia). As estimavas do MGI apontam que o
impacto econômico destas tecnologias – baseado nas quedas em seus preços, na sua difusão
e no melhoramento de sua eficiência – movimentará entre 14 e 33 trilhões de dólares por ano
em 2025.
O peso real que os investimentos nessa empreitada tecnológica já exercem na
economia mundial é realmente impressionante. Só no ano de 2011, o governo alemão
disponibilizou mais de 200 milhões de dólares para criação da plataforma “Industrie 4.0”
(cf. Comissão Europeia, 2017). Os EUA, desde 2014, tem disponibilizado verba federal
que varia de 70 a 110 milhões de dólares por ano3 para o programa da manufatura
avançada. O Japão prometeu totalizar até 2020 investimentos governamentais na casa dos
700 milhões de dólares, conforme seu 5º Plano Básico de Ciência e Tecnologia aponta.
A China, sob o slogan do projeto “Made in China 2025”, direcionou incialmente 24
bilhões de dólares para fundos destinados à inovação (cf. Wübbeke et al. 2016). Esta é
apenas uma pequena amostra de dados4 sobre os países que foram pioneiros. Deve-se
levar em conta a potência dos investimentos privados5 e também as iniciativas de outros
países6 que vem a reboque desta que parece ser uma nova estratégia do capitalismo
globalmente para reverter o quadro econômico que vem se arrastando nas últimas
décadas.
Três fatores inter-relacionados são centrais para compreender as possíveis
consequências do implemento massivo destas novas tecnologias na produção industrial e
em outros setores: o potencial da automação (e a consequente substituição do trabalho
humano por robôs ou tecnologias capazes de supri-lo), o aumento do desemprego e a
queda nos níveis salariais em face do aumento do stock de força de trabalho disponível e
desocupada. Para ilustrar a relação automação x desemprego x queda nos níveis salariais,
não é preciso voltar muito no tempo. A Alemanha experimenta consequências delicadas
decorrentes desta equação. Estudos recentes (cf. Dauth et al., 2017) apontam que no país
que supera todas as regiões do planeta na utilização de robôs7 (atrás apenas da Ásia), o
setor manufatureiro - representante de uma das maiores parcelas de empregos industriais
do país (por volta de 25%) – observou uma perda de 275.000 postos de trabalho pois,

3
Dados disponibilizados pelo próprio site oficial do programa: https://www.manufacturing.gov/funding/
Acesso em 04/01/2018
4
Deve-se considerar a participação destes investimentos no PIB dos mencionados países e a evolução desta
participação em comparação com outros períodos de inovação. O levantamento destes dados é abrangido
pelos objetivos específicos deste projeto.
5
Exemplos como os da Apple - que anunciou investimento de 4 bilhões de dólares em contribuições diretas
para o fundo de manufatura avançada dos EUA (disponível em:
https://www.apple.com/newsroom/2018/01/apple-accelerates-us-investment-and-job-creation/) - e da
SoftBank (uma rede bancária japonesa) – que destinou 28 bilhões de dólares para o seu Vision Fund, um
fundo voltado para investimentos em alta tecnologia (disponível em:
http://money.cnn.com/2017/10/20/technology/softbank-masayoshi-son-vision-fund-
technology/index.html) devem ser considerados para um correto dimensionamento dos investimentos em
pesquisa e desenvolvimento.
6
O Brasil, por exemplo, através do Banco Nacional para Desenvolvimento Econômico, pretende
desembolsar 22 bilhões de reais até 2020 para projetos industriais de alta tecnologia (disponível em:
http://www.valor.com.br/brasil/5218217/bndes-busca-aplicar-r-22-bi-em-projetos-de-alta-inovacao-ate-
2020)
7
Dauth et al. (2017) apontam que desde 1994 a Alemanha apresenta uma utilização de robôs em maior
escala do que nos EUA e em todo o continente Europeu. Em 2014, a diferença nesta escala atingiu uma de
suas maiores marcas: 7.6 robôs para cada mil trabalhadores humanos na Alemanha contra 2.7 no restante
da Europa e 1.6 nos Estados Unidos.
63
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conforme detalham Dauth et. al. (2017), uma média de dois empregos humanos foram
substituídos a cada robô instalado na produção entre 1994 e 2014. Paralelamente, a maior
potência europeia enfrenta uma das maiores crises relativas ao desemprego e baixos
salários das últimas décadas. Em 2016, o programa conhecido por “Hartz IV”, do governo
federal, registrou a marca de 6 milhões de cidadãos8 em situação de vulnerabilidade social
(2,6 milhões oficialmente desempregados, 1,7 milhões empregados em subempregos e
1,6 milhões de filhos dos assistidos) beneficiários deste que é o atual modelo alemão para
gestão da pobreza, aprofundada ainda mais após a implementação da “Agenda 2010”,
cujo escopo foi a desregulamentação do mercado de trabalho. Dados do relatório do
Instituto de Ciências Econômicas e Sociais da Agência Federal do Trabalho da Alemanha
permitem mensurar os impactos desta regulamentação: os empregos temporários
passaram de 300 mil contratados em 2000 para aproximadamente 1 milhão em 2016,
aumentou de 18% para 22% a proporção de trabalhadores considerados pobres (com
pagamentos inferiores a 979 euros por mês) e, atualmente, 4,7 milhões de trabalhadores
ativos sobrevivem com empregos que pagam menos do que 450 euros por mês.
É preciso colocar a experiência alemã em perspectiva com outros dados
alarmantes. O relatório de riscos globais do Fórum Econômico Mundial sugere que até o
ano de 2020, a automação potencializada pelo novo salto tecnológico colocará em risco
de extinção 47% dos postos de trabalho só nos Estados Unidos (cf. Frey; Osbourne, 2013).
Outro documento produzido pela Oxford Martin School (2016) aponta que o risco da
automação para os empregos nos países em desenvolvimento está estimado em 55% a
85% dos postos de trabalho. Grandes economias emergentes estarão sob alto risco,
inclusive a China (77%) e a Índia (69%), proporções maiores do que o risco médio (57%)
dos países desenvolvidos integrantes da OCDE (Organização para cooperação e
desenvolvimento econômico).
É preocupante, por exemplo, que a própria Organização Internacional do Trabalho já
esteja apontando como possibilidade (e mesmo uma necessidade) em seu relatório “The
future of work we want: a global dialogue” (2017) as recomendações sobre uma “renda básica
cidadã”. Trata-se de uma revitalização de proposta antiga, a dos “serviços universais”
(também chamada de “programa da renda mínima” ou “dividendo social”), que consiste no
fornecimento universal pelo Estado de uma renda mínima para todos os seus cidadãos ou
para parcelas vulneráveis economicamente. A proposta é um tema da moda também entre
magnatas da tecnologia, além de ser seriamente debatida institucionalmente por governos de
vários países como resposta à desigualdade social9. A Renda Básica Universal (RBU)
constantemente tem sido associada como resposta ao implacável aumento do desemprego
que pode ser gerado nos próximos anos em função da automação. A princípio uma saída
interessante como garantia de direitos fundamentais para os trabalhadores ameaçados pelo
desemprego, é preciso ir além da aparência benevolente da RBU e analisar seus fundamentos
dentro de uma lógica que pressupões a compra e venda da força de trabalho, com a
apropriação privada dos lucros decorrentes de sua exploração – ou seja, reconhecendo

8
Cf. CYRAN, Olivier. L’enfer du miracle Allemand. Le Monde Diplomatique – setembro de 2017.
Disponível em: https://www.monde-diplomatique.fr/2017/09/CYRAN/57833 Acesso em 23/01/2018.
9
Sam Altman, presidente da Y Combinator (que possui ativos em importantes empreendimentos como
Airbnb, Reddit e Dropbox, por exemplo), financia, por meio de sua companhia, um projeto em Oakland,
na Califórnia que começou este ano distribuindo entre US$ 1 mil e US$ 2 mil mensais a cem participantes
e pretende expandir para mil este número. A cidade de Utrecht, na Holanda, colocou em prática em janeiro
de 2016 um programa que vai pagar 900 euros para adultos morando sozinhos e 1.300 euros para casais. A
Finlândia também anunciou um projeto piloto semelhante. O governo separou 20 milhões de euros para
financiar uma iniciativa de dois anos, de 2017 a 2019, que vai pagar uma quantia mensal entre 800 e 1000
euros - o valor ainda está em discussão. A ONG americana GiveDirectly que tem como principais doadores
companhias e empresários do Vale do Silício, dá diretamente aos moradores de vilarejos rurais pobres no
Quênia cerca de US$ 22 por mês para cada beneficiário. Atualmente com 100 beneficiários, a expectativa
da ONG é atingir até 16 mil pessoas no próximo ano.
64
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oficialmente o fato (a reprodução do pauperismo e da desigualdade no processo de


acumulação de capital), sem, contudo, solucionar a contradição central.
Outro fator que chama atenção quanto a um novo salto tecnológico diz respeito à
relação dos investimentos produtivos com uma alegada tendência de alargamento do
capital financeiro. Por isso, compreender os processos de financeirização da economia
mundial é determinante para uma correta caracterização do que pode significar uma nova
revolução tecnológica em gestação. É que a liberalização dos capitais financeiros,
intensificada a partir da década de 1970, tem sido apontada por muitos autores (cf.
Chesnais, 2005; Lapavitsas, 2009; Dumenil e Levy, 2014) como um importante
deslocamento na estratégia de acumulação capitalista, dirigindo para o setor financeiro as
tentativas de obtenção de lucro como forma de reação aos assombros da lei da queda
tendencial da taxa de lucro10. Kliman (200, p. 76) demonstrou essa queda nas companhias
dos EUA: entre 1950 (início dos “Anos Dourados” do capitalismo) e 2009 a taxa de lucro
despencou de 45% para menos de 25%, índice similar aos padrões de acumulação
anteriores de 1929. Segundo o economista, essa queda tem sido majoritariamente
provocada pelo aumento na composição de valor do capital, observado principalmente a
partir da década de 1970 (cf. Kliman, op. cit, p. 130), já que a taxa de exploração do
trabalho tem sofrido pouca alteração desde 194711. Roberts (2016, p. 60) chama a atenção
para o fato de que desde a segunda metade da década de 1960 a queda na taxa de lucro
começa a despencar, mormente devido aos largos investimentos em tecnologia de
produção (capital constante). Entretanto, os efeitos desta queda só começam a ser sentidos
em meados da década de 1970, quando a maior recessão mundial desde 1929 explode.
A grande questão reside em perceber quais alternativas restaram ao capital se nem
as estratégias da financeirização, nem a tímida recuperação proveniente das apostas
neoliberais da década de 1980 e nem o pequeno impulso provocado no início dos 2000
pelos investimentos em computação foram capazes de restaurar as taxas de lucro dos
“anos dourados”. É sob essa perspectiva que as promessas de uma quarta revolução
industrial precisam ser compreendidas. Isso porque, ao que tudo indica, sob o rótulo de
“indústria 4.0” abriga-se uma nova estratégia organizada pelo centro do capitalismo
mundial em busca do aumento da produtividade do trabalho através de investimentos em
capital constante para promover um escape relativo da lei da queda tendencial da taxa de
lucro ou mesmo para neutralizá-la. A questão passa, portanto, invariavelmente pela busca
de especificidades (não só em termos de inovação) para caracterizar um novo fenômeno
de inovação tecnológica verdadeiramente revolucionário (no sentido definido por Mandel
e não no sentido sensacionalista do termo). Enfrenta-se assim a necessidade de ponderar
se há de fato uma disruptura, para usar linguagem corrente, capaz de impor uma situação
completamente nova, algo fora dos padrões inaugurados pela incorporação e difusão da
microeletrônica e da informática na 3ª RI. Para isso, nos questionaremos sobre os pontos

10
Apesar de que economistas clássicos como Smith e Ricardo já tivessem sido capazes de perceber uma
tendência geral das taxas de lucro caírem a longo prazo, foi Marx quem concebeu a queda tendencial da
taxa de lucro como lei fundamental da economia política no capitalismo. Para entender essa “lei” é preciso
compreender a seguinte expressão l = m/c+v em que l = taxa de lucro, m = taxa de exploração (ou mais-
valor, a parcela do produto do trabalho apropriada pelo capitalista sem remuneração equivalente para o
trabalhador, onde o valor, segundo Marx, é criado na produção capitalista), c = capital constante (ativos
fixos, maquinário e equipamentos para a produção) e v = capital variável (valor referente a remuneração da
força de trabalho, salários). Com o implemento tecnológico, o valor do constante (c) tende a aumentar (pois,
como pressuposto do capitalismo, a produtividade do trabalho se coloca como objetivo permanente).
Mantida constante a taxa de mais-valor (m) e o valor do capital variável (v), pela expressão matemática, a
taxa de lucro (l) tende a cair. Ou seja, em termos gerais, a taxa de lucro desce na razão contrária dos
investimentos em capital constante. Cabe a menção de que o próprio Marx aponta contratendências, isto é,
outros fatores capazes de, sob certas circunstâncias, conter esta tendência. (Cf. Marx, 1986).
11
Segundo o autor, entre 1947 e 2007 a taxa de mais valia sofreu apenas uma pequena depreciação de 3.9%.
65
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que tem sido trazido pela literatura como inflexões suficientes para comprovar esse novo
salto tecnológico.

Klaus Schwab e as expectativas do Fórum Econômico Mundial

O diretor do Fórum Econômico Mundial (WEF na sigla em inglês) publicou em


2016 o seu “Fourth Industrial Revolution”. Por muitos citado, o livro se tornou um livro
de cabeceira para os entusiastas das novas tecnologias “disruptivas”. De fato, Schwab
aponta uma série de “maravilhas tecnológias” que podem se tornar realidade nos
próximos anos: de carros auto-pilotados a microchips implantados em forma de tatuagem
em seres humanos.
Schwab se arrisca por vários campos em sua análise: vai dos possíveis impactos
causados pela “quarta revolução industrial” no meio ambiente e nas relações de gênero
(homens e mulheres) aos dilemas éticos que podem ser desencadeados pela inteligência
artificial e nano robótica. Sem botar de lado a importância desses assuntos, não passam
de devaneios ou meras apostas emocionadas no contexto geral do livro pois, no que diz
respeito à consistência dos dados econômicos apresentados para sustentar a tese da 4ª RI,
Schwab não convence com seus números. Os dados apontados, no geral, não passam de
comparativos impactantes (vide dados sobre emprego no vale do silício e acesso à
internet) ou de previsões e estimativas.
Aquilo que deveria ser mais essencial na discussão sobre um novo patamar
tecnológico fica de fora. Não há nenhuma informação relevante sobre a implementação
dessas novas tecnologias na esfera da produção industrial, assim como não há sequer
comentários sobre a disponibilidade dessas tecnologias em formas de máquinas prontas
para serem introduzidas na indústria de bens de capital. Aliás, no que diz respeito às
categorias essenciais do setor produtivo (de bens de capital ou de consumo) não há senão
informações soltas dentro de “estimativas” para a próxima década, sendo as mais
relevantes aquelas relativas ao desemprego. Neste ponto, Schwab se firma no relatório de
Frey e Osbourne como argumento principal.
A seção do livro voltada para os impactos na produtividade é frustrante.
Fraseologia batida sem dados consistentes. Nesta seção não há, aliás, sequer previsões
futurologísticas como na parte sobre “tipping points” da tecnologia.
De modo geral, Schwab recai em um erro muito comum nos textos sobre o
assunto: o seu foco é a aplicação das novas tecnologias no setor dos bens de consumo.
Não só na produção desses bens (manufatura avançada), mas principalmente nos produtos
em si. Focaliza também a aplicação dessas tecnologias no setor de serviços e em áreas da
economia que só tem relação indireta com a produção (gestão e circulação).
Aparentemente, o contato com essas camadas mais evidentes e aparentes da realidade
(afinal, cotidianamente estamos em contato com celulares, computadores, aplicativos
modernos para serviços, etc) conduz não só Schwab, mas uma série de outros autores, a
acreditar que a aplicação de novas tecnologias para criar produtos com softwares
sofisticados e prestação de serviços de forma cada vez mais ágil, eficiente e portátil
constitui, na verdade, uma evolução no próprio modo de produção.
De fato, a aplicação das potencialidades da eletricidade na segunda revolução
tecnológica à produção de bens de consumo gerou grandes transformações na dinâmica
da acumulação, criando condições de possibilidade mesmo para uma “alavancada” no
departamento I na primeira metade do século XX, conforme demostramos. Mas isso não
implica, de modo algum, uma revolução na esfera da produção, o que é, em última
instância o parâmetro fundamental para aferição da base técnica de um determinado
período.
Em conclusão, Schwab não comprova que a 4ª RI é uma realidade nem enquanto
tendência. Sua análise se limita ao entusiasmo com novas bugigangas para entretenimento
66
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21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

e avanços na área da saúde, transporte e informação. Talvez a única coisa valiosa de suas
expectativas seja o que republica de Frey e Osbourne no que diz respeito à potência da
automação para ampliação do desemprego – o que, conforme demonstramos, também não
constitui análise satisfatória.

Frey e Osbourne: atualização das estimativas keynesianas do desemprego


tecnológico

Para responder à pergunta “o quão suscetível à automação estão os postos de


trabalho?”, os autores da Oxford Martin School se baseiam na literatura existente sobre
as tecnologias do machine learning (ML) e mobile robotics (MR) para, através de uma
metodologia própria, delinear uma estimativa sobre como a computadorização implicará
na substituição dos trabalhadores por máquinas e sistemas computadorizados.
Pressupõe os autores a clássica previsão keynesiana, segundo a qual, em linhas
gerais, o desemprego tecnológico generalizado seria uma tendência em virtude do fato de
que o ritmo em que as descobertas de meios de economizar o uso da mão de obra
constantemente supera o ritmo em que se pode achar novas formas de se empregá-la. Essa
pressuposição marca inclusive a estrutura argumentativa do trabalho, principalmente a
parte 2 (“A history of technological revolutions and employement”). Não há uma
preocupação intensiva com a explicação dos fatores que levam ao desenvolvimento
tecnológico de forma crítica além da premissa keynesiana, aliás há uma influência do
pensamento de Schumpeter e a sua explicação sobre “destruição criativa” sobre os
autores. De modo geral, nesta parte do texto, há uma preocupação em demonstrar a
articulação de fatores como os níveis salariais, a introdução de novas tecnologias, a
alteração do perfil da força de trabalho (blue collar workers x white colar workers) e os
níveis de desemprego ao longo da história.
A forma como articulam essas categorias demonstra que a apreensão dos autores
não tangencia o problema da redução do tempo de trabalho necessário e do mais-valor,
ou seja, se limita a analisar decorrências de movimentos mais “superficiais” da realidade,
as camadas mais aparentes da produção e circulação de mercadorias. O problema da
superpopulação relativa surge não como dado estrutural, mas como contingência de um
dado patamar tecnológico que pode ou não estar acompanhado da realocação das massas
de trabalhadores em outros setores.
O ponto mais importante do trabalho de Frey e Osborne é, contudo, a sua
estimativa sobre a susceptibilidade dos empregos à automação. A metodologia
empregada e os achados podem ser sintetizados pelas próprias palavras dos autores:

We distinguish between high, medium and low risk occupations, depending on


their probability of computerisation. We make no attempt to estimate the
number of jobs that will actually be automated, and focus on potential job
automatability over some unspecified number of years. According to our
estimates around 47 percent of total us employment is in the high risk category.
We refer to these as jobs at risk – i.e. jobs we expect could be automated
relatively soon, perhaps over the next decade or two. Our model predicts that
most workers in transportation and logistics occupations, together with the
bulk of office and administrative support workers, and labour in production
occupations, are at risk. These findings are consistent with recent technological
developments documented in the literature. More surprisingly, we find that a
substantial share of employment in service occupations, where most us job
growth has occurred over the past decades (Autor and Dorn, 2013), are highly
susceptible to computerisation. Additional support for this finding is provided
by the recent growth in the market for service robots (MGI, 2013) and the
gradually diminishment of the comparative advantage of human labour in tasks
involving mobility and dexterity (Robotics-VO, 2013). (FREY, OSBORNE.
2013, p. 49).
67
I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
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O que mais chama atenção ao longo das previsões sobre a informatização é o fato
de que se baseiam em estimativas como a do MGI (2013) que sugere que algoritmos
sofisticados poderiam substituir aproximadamente 140 milhões de trabalhadores do
conhecimento em tempo integral em todo o mundo. Poderiam, substituiriam, seriam.
Nenhum dado concreto sobre a implementação atual dessas tecnologias, a não ser
aumento de vendas no mercado de robôs de serviço e menções a protótipos de robôs e
outras tecnologias “disruptivas”, mas cuja difusão não é sequer mencionada, mas apenas
tem comentada o que poderiam fazer caso implementados.
Em síntese, o esforço de Frey e Osborne, embora deva ser valorizado, carece de
evidências concretas sobre essa tendência dos próximos anos de implementação de
serviços informatizados capazes de substituir massivamente a força de trabalho humana.
É talvez, justamente pelo caráter especulativo (embora não totalmente carente de
fundamentos) deste que tem sido o principal trabalho citado pelos comentadores da 4ª RI,
que a falta de dados convincentes sobre a atualidade seja um problema quase generalizado
nas obras sobre o assunto.

O relatório sobre “tecnologias disruptivas” do MGI

Neste relatório, o McKinsey Global Institute (MGI) avalia o potencial impacto


econômico e a ruptura de grandes áreas de tecnologia que tem avançado rapidamente. Na
pesquisa, classificam-se 12 áreas de tecnologia com potencial de impacto maciço sobre
as indústrias e economias, visando também quantificar o impacto econômico potencial de
cada tecnologia em um conjunto de “aplicações promissoras” até 2025.
Dos documentos comentados, este é o que traz dados mais interessantes
relacionados ao grau de implementação e difusão das novas tecnologias, conforme no
quadro a seguir.
Tabela 1 (MGI, 2013, p. 17)

68
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Ainda assim, uma leitura integral do documento demonstra que há também


elementos de alarmismo mesmo na conjugação destes dados. Aliás, há um levantamento
de informações cujos números parecem, a primeira vista, surpreendentes, mas articuladas,
não dão demonstrativo da alegada tendência à transformação radical da economia. Em
termos financeiros, a previsão é que essas 12 áreas passem saltem de um movimento anual
de US$ 13 trilhões por ano para US$ 33 trilhões em 2025 (MGI, 2013, p. 23). Entretanto,
mais uma vez, a metodologia e os dados trazidos para realização da estimativa deixam a
desejar. Não havendo evidências contundentes, trata-se de outro relatório que se baseia
em estimativas “otimistas”, mas cujas provas de seu realismo não se mostram
satisfatórias, o que reforça uma hipótese de que existe uma certa tônica “propagandista”
nos relatórios de órgãos internacionais a respeito da 4ª RI. Fica indicado como ponto a
ser investigado em estudos futuros, sobretudo levando-se em conta os números reais dos
investimentos nessas novas “tecnologias disruptivas”, se haveria alguma semelhança
entre as apostas na 4ª RI e a chamada “bolha da internet” do início dos anos 2000.
69
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Considerações Finais

Até o momento, os principais textos usados como aportes de dados para


fundamentar previsões sobre um novo salto tecnológico, a 4ª RI, tem se mostrado
insuficientes para comprovar os fenômenos que os próprios autores alegam estar em
processo de desenvolvimento. Parece haver um hiperdimensionamento da questão das
inovações tecnológicas, tomando a aplicação de novas tecnologias como inteligência
artificial, big data, etc, aos setores da circulação (transporte, logística) e serviços como
pressuposto suficiente para alegar a existência de um novo patamar tecnológico.
Ainda que existam elementos conjunturais, como a queda nas taxas de lucro,
capazes de motivar uma nova empreitada do capital em busca do aumento da
produtividade via desenvolvimento tecnológico, é preciso confrontar dados reais sobre
investimentos nas novas tecnologias “disruptivas” bem como a especificidade destas
mesmos enquanto maquinas plenamente automatizadas para poder afirmar sobre a
existência de indícios razoáveis sobre a chegada de um novo ponto de inflexão rumo a
uma fase superior da automação.
Por hora, a pesquisa precisa avançar na coleta de dados e realizar um escrutínio
mais aprofundado de novos trabalhos e relatórios atualizados sobre a situação da indústria
4.0 ao redor do mundo.

Referências

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21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

A CRÍTICA CLÁSSICA DA TÉCNICA NO DEBATE JURÍDICO

Alice Nogueira Monnerat


Universidade Federal de Juiz de Fora
alicenmonnerat@gmail.com
Resumo
O artigo tem como principal objetivo investigar a crítica clássica à técnica, mais
especificamente no âmbito jurídico, isto é, a discussão acerca da justiça e da técnica
realizada na ciência clássica burguesa. Para tanto, inicialmente, é feita uma retomada
acerca do desenvolvimento científico clássico da burguesia, com ênfase, de forma
breve, na crítica clássica à técnica. Posteriormente, trabalhamos com as obras A
decadência do ocidente de Oswald Spengler, The theory of business enterprise, de
Thorstein Veblen e Le Bourgeois - Deuxième Livre, de Werner Sombart, para assim
analisar as especificidades da crítica clássica à técnica dentro do debate jurídico.

Palavras-chave: técnica, direito, apologética, irracionalismo.

THE CLASSICAL CRITICAL OF THE TECHNIQUE IN THE LEGAL


DEBATE
Abstract
The main objective of the article is to investigate the classical critique of technique, more
specifically in the juridical sphere, that is, the discussion about justice and technique
carried out in classical bourgeoisie science. For this, initially, a return is made to the
classical scientific development of the bourgeoisie, with a brief emphasis on the classical
critique of technique. Subsequently, we work with the The Decline of the West of Oswald
Spengler, The theory of business enterprise of Thorstein Veblen and Le Bourgeois -
Deuxième Livre of Werner Sombart, in order to analyze the specificities of classical
criticism and technique within the legal debate.

Keywords: technique, law, apologetic, irrationalism.

1. INTRODUÇÃO
O presente artigo tem como objetivo investigar a crítica clássica à técnica, mais
especificamente no âmbito jurídico, ou seja, a discussão que envolve direito e técnica na
ciência clássica burguesa. Para isso, em um primeiro momento, faremos uma breve
exposição acerca do desenvolvimento científico clássico da burguesia, retomando alguns
autores e criando assim a contextualização necessária para adentrar, de forma breve, no
âmbito da crítica clássica à técnica. No segundo momento, faremos a análise das obras de
alguns autores, buscando encontrar problematizações que façam à correlação entre a
crítica da técnica e o debate jurídico. Nesse artigo trabalhamos especificamente com as
obras A decadência do ocidente de Oswald Spengler, The theory of business enterprise,
de Thorstein Veblen e Le Bourgeois - Deuxième Livre, de Werner Sombart.

2. A CRÍTICA CLÁSSICA À TÉCNICA


Carlos Nelson Coutinho (2010) nos fala da divisão da história da filosofia
burguesa em duas fases, indo a primeira delas dos pensadores do Renascimento até Hegel,
e a segunda, caracterizada por uma ruptura ocorrida em meados de 1830 a 1848, seria o
período de decadência da filosofia burguesa: “[...] uma progressiva decadência, pelo

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abandono mais ou menos completo das conquistas do período anterior, algumas


definitivas para humanidade, como é o caso das categorias do humanismo, do
historicismo e da razão dialética” (COUTINHO, 2010, p. 21)
É em 1830 que se inicia o “processo de decomposição da filosofia burguesa
clássica”, processo esse que se encerra com a revolução de 1948, quando passa a
burguesia a cumprir o papel de defesa contra o proletariado, tendo terminado sua ofensiva
contra os resquícios do feudalismo (LUKÁCS, 1979, p. 32).
Lukács (1979, p. 38) coloca como a “camada social que se tornou depositária da
filosofia nova” passa a estudar cada vez menos a estrutura econômica social como
“problema filosófico”.
No que tange a divisão do trabalho no capitalismo, Lukács (1968, p. 63) aponta
como não apenas abarca toda a complexidade material e espiritual, como também se
“insinua profundamente na alma de cada um”, em um momento seguinte se mostrando
sob manifestações ideológicas. A aceitação, por parte dos pensadores do período da
decadência, de tais implicações da divisão do trabalho, de forma passiva, será um dos
atributos mais expressivos de tal período.
No campo ideológico, esta estreiteza encontra expressão no
contraste em moda nas concepções do mundo destas últimas
décadas: o contraste entre racionalismo e irracionalismo. A
incapacidade do pensamento burguês de superar este contraste
deriva, precisamente, do que ele tem raízes muito profundas na
vida do homem submetido à divisão capitalista do trabalho. [...]
O racionalismo é um direta capitulação, covarde e vergonhosa,
diante das necessidades objetivas da sociedade capitalista. O
irracionalismo é um protesto contra elas, mas igualmente
impotente e vergonhoso, igualmente vazio e pobre de
pensamento (LUKÁCS, 1968, p. 69).

O irracionalismo irá, portanto, se colocar como a ideologia do período de crise.


Sua característica mais marcante sendo a transformação da condição do ser humano
dentro do imperialismo na “condição humana geral e universal” (LUKÁCS, 1979, p. 57).
Nesse caso, o que é racional será inimigo da personalidade humana, sendo esta
naturalmente irracional. Assim, a crítica romântica irá proporcionar o desenvolvimento
de um apologética mais “complicada e pretensiosa”, que faz a defesa a partir da crítica
(LUKÁCS, 1968, p. 55), seus pensadores se afastando, consequentemente, de questões
econômicas, políticas e socais, sendo tal afastamento o respeito aos limites colocados pela
burguesia imperialista ao pensamento filosófico (LUKÁCS, 1979).
Acerca da crítica irracionalista clássica à técnica, Heidegger figura como um de
seus principais representantes:
[...] o âmbito em que Heidegger situa e critica a técnica não é
outro senão aquele em que, para Lukács, está o trabalho concreto
humano. E para o autor essa “determinação instrumental e
antropológica da técnica” deveria ser ultrapassada pela
fenomenologia – o mais importante não estaria na atitude ativa
do homem diante do mundo, o qual, por meio do trabalho, afasta
as barreiras naturais, tornando-se crescentemente socializado,
como ocorre em Marx e Lukács. O foco, antes, é um “deixar-
viger” que não se relacionaria à práxis transformadora da
“realidade objetiva”, mas à verdade alcançável pela filosofia.
Fins, meios, causalidade são também vistos de maneira

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essencialmente negativa pelo pensador de tal feita que as


relações propriamente materiais em que o homem atua
socialmente são vistas inelutavelmente como nefastas. A
técnica, pois, quando relacionada à produção, somente traria
mazelas, mazelas que alcançariam o “ocidente” (SARTORI,
2011, p. 78).

Sartori (2011, p. 79) atenta para o fato de Heidegger fazer a crítica a esfera
produtiva, porém, tal crítica não vem acompanhada de uma “análise histórica e social da
sociedade civil-burguesa”, sendo, a sociedade civil-burguesa, vista por Heidegger como
uma sociedade em decadente, onde o domina o chamado “homem vulgar” e a
“desenfreada técnica”.

3. O DEBATE JURÍDICO
3.1 Oswald Spengler
Adentrando ao debate jurídico, Spengler (1973, p. 440), em sua obra A decadência
do ocidente, traz a necessidade de uma concepção distinta de direito, que não tenha como
objetivo acumular riqueza, mas criar um “governo genuíno, distante dos proveitos
financeiros”. Aponta que o direito deve ir contra a democracia criada pelas potências
privadas da economia, dizendo que o confronto entre o “Dinheiro e o Direito” será uma
luta histórica, sendo o “Socialismo” o “desejo de criar, muito além de quaisquer interesses
de classe, uma poderosa organização político-econômica, um sistema de nobres cuidados
e deveres destinado a manter o conjunto ‘em forma’ para tal batalha”. O autor coloca a
“Máquina” como a “autêntica dona do nosso século”, estando próxima de “sucumbir a
uma potência mais forte”, o que levará ao término dos triunfos do “Dinheiro”.
Para Spengler (1973, p. 439), a “ditadura do Dinheiro” terá seu fim, pois, como
forma de pensamento, irá se extinguir quando pensar o mundo “até aos seus últimos
confins”. O autor (1973, p. 437) ressalta que a “nossa técnica, porém, há de deixar os
vestígios de sua presença, ainda quando todo o resto estiver desaparecido e olvidado”,
enquanto a “Política” arrastou povos e cidades e a “Economia humana” afetou os mundos
animal e vegetal, mas tão logo seus efeitos se apagaram.
Sua crítica irracionalista ao “Capitalismo” como “ditadura do Dinheiro” traz
portanto o “Direito” como salvação, um direito capaz de colocar ordem e de garantir a
vitória contra os “poderes do dinheiro” (SPENGLER, 1973, p. 440). Enquanto a técnica,
essa se coloca além das formas de pensamento, além da política e da economia, assim, na
visão de Spengler, a técnica permanece, e permanecerá (“sucumbirá”), às novas formas
de organização.

3.2 Thorstein Veblen


Veblen (1915, p. 271 e 272) traz a discussão acerca dos direitos naturais, e como
sua concepção partia de um ideal de igualdade entre os homens: direitos iguais a homens
iguais, estando os direitos de propriedade incluídos entre os direitos naturais. A liberdade
natural prescreve a liberdade de comprar e de vender, sendo apenas limitada pela
liberdade igual de outros para também comprar e vender. Veblen (1915, p. 274) ressalta
que a presunção é sempre de que o princípio do livre contrato deve ser deixado intacto
até onde for permitido pelas circunstâncias do caso, somente sendo possível que o cidadão
seja privado de vida, liberdade ou propriedade através do devido processo legal, sendo
que, mesmo o devido processo legal, parte da premissa de que são invioláveis os direitos
de propriedade.

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Para o autor, com a mudança gradual da situação econômica, o princípio de


liberdade contratual, não mitigável e inalienável, começa a se tornar obsoleto, não em lei,
mas na prática. Isso porque não se tornou um fato legal, na medida em que o
desenvolvimento econômico trouxe a padronização e restrição do sistema industrial,
padronização esta, imposta pela indústria de máquinas, que pode levar a possibilidade de
um indivíduo ou grupo de trabalhadores não ter um real poder de contratar livremente.
Assim, na vida prática, o trabalhador precisa aceitar um contrato específico para garantir
seu meio de vida. Porém, tal situação coercitiva não é vista como uma quebra de contrato,
não sendo condenável em vista dos princípios da liberdade natural (VEBLEN, 1915).
Veblen critica o conceito convencional de liberdade de escolha, associado aos
direitos naturais, que é sagrado e inalienável, dizendo que o interesse dos negócios pode
levar ao exercício dos direitos de propriedade de forma que desconsidere as necessidades
de um grupo ou classe, podendo inclusive atravessar as necessidades da comunidade no
geral.
Para Veblen (1915), as concepções de direitos naturais sob as quais a common
law repousa incorporam uma formulação que é reflexo das ilusões de um senso comum
inculcado pela disciplina da vida cotidiana do século XVII, assim, a disciplina da vida
cotidiana atual, de uma situação tecnológica e empresarial, inspira visões de senso comum
que estão, de certa forma, em desacordo com as noções de direitos naturais ainda
recebidas.
Veblen (1915) continua sua crítica nos dizendo que um governo constitucional é
um governo empresarial, em que o governo representativo apenas representa os interesses
empresariais, trabalhando no interesse dos chamados homens de negócios com
impressionante e consistente propósito.
Nas palavras do autor:
O governo tem, claro, muito mais a fazer além de administrar os
assuntos gerais da comunidade empresarial; mas na maior parte
do trabalho, mesmo naquilo que não é ostensivamente dirigido a
fins comerciais, está sob a vigilância dos interesses comerciais.
[..] A base do sentimento sobre a qual a aprovação popular de
um governo voltado para os negócios termina pode ser resumida
sob duas cabeças: patriotismo e propriedade. Ambos os termos
significam fatos institucionais que vêm do passado e que diferem
substancialmente da situação presente (VEBLEN, 1915, p. 286
e 287, tradução nossa).1

Completa Veblen (1915) dizendo que o caráter institucional da propriedade, sob


a disciplina moderna, premia a propriedade da propriedade em detrimento do operário
que a produziu. A situação moderna, para o autor, desde a revolução industrial, vai se
consolidando como uma situação de concorrência internacional nos negócios, o chamado
mercado mundial, em que, nessa competição internacional, a maquinaria e a política do
estado são levados ao serviço dos interesses maiores das empresas. Como consequência,
no comércio e na empresa industrial, homens de negócios de uma nação são colocados

1 No original: The government has, of course, much else to do besides administering the general affairs of
the business community; but in most of it work, even in what is not ostensibly directed to business ends, it
is under the surveillance of the business interests. [...] The ground of sentiment on which reata the popular
approval of a government for busineaa ends may be summed up under two heads : patriotism and property.
Both of these terms stand for institutional facts that have come down out of & past which differed
substantially from the present situation.

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contra os homens de negócios de outras nações e competem balançando com as forças do


Estado, sejam legislativas, diplomáticas e/ou militares, em um jogo em que vale a
vantagem pecuniária.
O autor aponta para a individualidade da empresa de negócios e da iniciativa
comercial. Ressalta como tal questão não é coletiva, pois não é da natureza do homem de
negócios individual, recuar quando enxerga uma possibilidade de ganho (1915).

3.3 Werner Sombart


Sombart (1928), em Le Bourgeois - Deuxième Livre, falará sobre a técnica em
um sentido mais estrito da palavra:
É impossível entender a natureza característica do homem
econômico moderno, sem levar em conta a orientação particular
da técnica, especialmente a de produção e transporte durante os
últimos cinco séculos. Por técnica, no sentido amplo da palavra,
quero dizer todos os processos que os homens usam para atingir
determinados objetivos, para atingir determinados fins. Mas
existe ainda uma técnica no sentido mais estrito da palavra, uma
técnica que eu chamaria voluntariamente instrumental, que
facilita ou torna possível o uso racional dos objetos concretos.
Esta é a única em que estamos interessados aqui. Quando a
instrumentalidade é usada para produzir bens, falamos da técnica
de produção; quando possibilita ou facilita o transporte de
pessoas, mercadorias ou notícias, estamos falando de tecnologia
de transporte. Em si, "técnica" não é uma "condição social", mas
um bem espiritual (SOMBART, 1928, p. 112, tradução nossa).2

Para o autor, a técnica não é simplesmente uma emanação do espírito capitalista,


afinal, diversas invenções surgem de forma inesperada. Sombart nos diz que os efeitos
produzidos pela técnica podem ser separados em dois grupos de acordo com o
favorecimento ou não da formação do espírito capitalista. Primeiramente, a técnica atuária
de forma direta ao despertar o espírito empreendedor, ampliando sua escala. Para
exemplificar, Sombart usa como exemplo as primeiras fases da evolução capitalista, antes
do ano 1484 - antes da invenção do astrolábio náutico -, era impossível para um navio se
orientar no mar, não sendo assim possível pensar em realizar expedições transoceânicas.
A invenção do astrolábio náutico foi o que tornou tais expedições possíveis, despertando
o espírito empreendedor dos homens daquela época (SOMBART, 1928).
Ou seja, na visão do referido autor, a técnica pode agir impulsionando o espírito
empreendedor ao colocar em voga possibilidades antes inexistentes:
E assim as coisas estão acontecendo, desde esses séculos
remotos até os dias atuais: qualquer invenção que tenha como

2 No original: Il est impossible de comprendre la nature caractéristique de l'homme économique moderne,


sans tenir compte de l'orientation particulière de la technique, surtout de la technique de la production et
des transports, au cours des cinq derniers siècles. Par technique, au sens large du mot, j'entends tous les
procédés dont les hommes se servent pour atteindre certains buts, pour réaliser certaines fins. Mais il existe
encore une technique au sens plus restreint du mot, une technique que je qualifierais volontiers
d'instrumentale, celle qui facilite ou rend possible l'utilisation rationnelle d'objets concrets. C'est cette
dernière quE seule, nous intéresse ici. Lorsque la technique instrumentale sert à produire des biens, nous
parlons de technique de la production; lorsqu'elle rend possible ou facilite le transport de personnes, de
biens ou de nouvelles, nous parlons de technique des transports. En elle-même, la « technique » n'est pas
une « condition sociale », mais un bien spirituel.

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objetivo dar ao processo de produção e transporte uma estrutura


mais ampla e o uso de meios mais intermediários, qualquer
invenção que tenha o efeito de estender o caminho da produção,
por assim dizer, age como estimulante para aqueles cujo gosto
por empreendimento ainda existe em estado latente: se a nova
forma de produção de bens, como que é determinada pela nova
técnica, possibilita a afirmação, a manifestação do espírito de
empreendimento, podemos dizer também que provoca essa
afirmação e essa manifestação (SOMBART, 1928, p. 114,
tradução nossa).3

Sombart (1928) afirma ser a indústria de meios de produção - indústria que produz
máquinas e máquinas para construção de máquinas - a indústria mais importante da época
em que escreve. Coloca como tais indústrias necessito da intervenção de empreendedores
competentes e possibilitam o florescimento amplo do espírito capitalista. Continua o autor
ressaltando os horizontes desconhecidos abertos pelo avanço técnico:
Desde que encontrou a possibilidade de fazer sem a ajuda da
natureza viva e organizando forças; desde que ela conseguiu usar
a energia que o sol acumulou por milhares de anos na terra;
desde que ela aprendeu a realizar seus fins com a ajuda de
substâncias mortas e forças "mecânicas", ela não conhece
limites, torna todos os dias possíveis coisas que a humanidade
sempre considerou impossíveis (SOMBART, 1928, p. 115,
tradução nossa).4

O autor nos diz para levar em conta a extensão do poder técnico de nossa
sociedade para compreender de forma plena a aspiração ao infinito e ao ilimitado que
caracteriza o espírito empreendedor. A forma como funciona a empresa capitalista
moderna reflete as possibilidades fornecidas pelo milagre tecnológico. Para Sombart, o
esforço que os homens de negócio fizeram para resolver os problemas trazidos pelo
progresso tecnológico impulsionou as almas dos grandes empreendedores, sendo uma das
principais características da tecnologia moderna o grande poder de transformação que
possui, trazendo constantemente novas invenções e assim criando novas possibilidades e
novas necessidades de organização técnica e econômica (SOMBART, 1928).
Sombart (1928), vem então apontar que a técnica, assim como traz forças às
manifestações dos sujeitos econômicos, também exerce uma grande influência no modo
de pensar do homem econômico, produzindo uma revolução intelectual, transformando o
pensamento, o tornando mais finalista, consciente e desperto, e favorecendo o
racionalismo. Racionalismo esse que, para o autor, constitui um elemento essencial do
3 No original: Et les choses se passent ainsi, depuis ces siècles reculés jusqu'à nos jours : toute invention
qui vise à donner au processus de la production et des transports un cadre plus vaste et comportant l'emploi
de moyens intermédiaires plus nombreux, toute invention qui a pour effet d'allonger pour ainsi dire le
chemin de la production, agissent comme des stimulants sur ceux dont le goût de l'entreprise n'existe encore
qu'à l'état latent : si le nouvelle forme de la production de biens, telle qu'elle est déterminée parla nouvelle
technique, rend possible l'affirmation, la manifestation de l'esprit d'entreprise, on peut dire aussi qu'elle
provoque cette affirmation et cette manifestation.
4 No original: Depuis qu'elle a trouvé la possibilité de se passer du concours de la nature vivante et de us

forces organisatrices; depuis qu'elle a réussi à utiliser l'énergie que le soleil a, depuis des milliers d'années,
accumulée au sein de la terre; depuis qu'elle a appris à réaliser ses fins à l'aide de substances mortes et de
forces « mécaniques », elle ne connaît plus de limites, rend tous les jours possibles des choses que
l'humanité avait de tout temps considérées comme impossibles, [...].

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espírito capitalista. Salienta como as inovações técnicas sempre tiveram papel importante
na formação do pensamento racional, principalmente no que diz respeito ao racionalismo
econômico, isso porque, o racionalismo econômico se diferencia das ciências do passado,
que eram puramente empíricas. A partir do século XVIII, a técnica começa a buscar a
redução da parcela de experiência pessoal e ampliar a utilização de dados de ciências
naturais:
A identidade da oposição que existe, por um lado, entre a velha
técnica e a tecnologia moderna e, por outro lado, entre a
mentalidade econômica do artesão e a do capitalista, é óbvia.
Agora, essas duas oposições são reduzidas à antinomia que
existe entre o empirismo e o racionalismo. Mas quando vemos a
mesma evolução, do empirismo ao racionalismo, sendo
realizada em dois campos de atividade tão próximos quanto a
tecnologia e a economia, podemos admitir, sem qualquer risco
de estarmos errados, que trata-se de uma relação de causa e
efeito, tendo o racionalismo técnico engendrado e promovido o
racionalismo econômico. Esta conclusão é, além do mais,
totalmente confirmada pelos fatos que nos mostram como o
racionalismo técnico molda a vida econômica e como a
tecnologia baseada na ciência favorece diretamente o
racionalismo econômico. No final, a organização da economia
privada na maioria dos ramos da indústria hoje está exatamente
de acordo com as demandas da tecnologia, e o chefe de uma
empresa não concebe seu sucesso de outra maneira além do que
de acordo com o grau de perfeição da técnica de produção
(SOMBART, 1928, p. 116)5.

O direcionamento calculista e preciso da economia foi possível graças a


progressiva melhora do aparato tecnológico, porém, Sombart (1928) sublinha, não se
pode esquecer que o pensamento científico da modernidade tende a reduzir às qualidades
à quantidades e é também fruto dos grandes avanços da técnica outra particularidade da
mentalidade moderna, que é o exagerado valor dado às coisas materiais.
Ficamos ricos rapidamente, a técnica se livrou do medo da peste
e da cólera; em um certo ponto, poderíamos até acreditar que
estávamos tocando a realização de uma paz perpétua: não é de
surpreender que, sob essas condições, os instintos inferiores do
homem, seu desejo de desfrutar sem impedimentos, seu amor
pelo conforto e bem-estar prevaleceu sobre suas aspirações

5 No original: L'identité de l'opposition qui existe, d'une part, entre la technique ancienne et la technique
moderne et, d'autre part, entre la mentalité économique de l'artisan et celle du capitaliste, saute aux yeux.
Or, ces deux oppositions se ramènent à l'antinomie qui existe entre l'empirisme et le rationalisme. Mais
lorsqu'on voit la même évolution, de l'empirisme au rationalisme, s'accomplir dans deux domaines d'activité
aussi proches que le sont la technique et l'économie, on peut admettre, sans risque de se tromper, qu'on se,
trouve en présence d'un rapport de cause à effet, le rationalisme technique ayant engendré et favorisé le
rationalisme économique.
Cette conclusion a priori se trouve d'ailleurs pleinement confirmée par les faits qui nous montrent à quel
point le rationalisme technique façonne la vie économique, et comment la technique à base scientifique
favorise directement le rationalisme économique. Au fond, l'organisation de l'économie privée, dans la
plupart de ses branches, se conforme aujourd'hui exactement aux exigences de la technique, et le chef d'une
entreprise ne conçoit pas son succès autrement qu'en fonction du degré de perfection de la technique de la
production.

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ideais. O rebanho pasta pacificamente nos pratos. A supremacia


que os interesses materiais adquiriram em nosso tempo só
poderia facilitar a orientação do empresário capitalista para uma
atividade puramente lucrativa, com o enriquecimento como
único propósito. A busca pelo dólar está longe de ser tão
imaginária quanto nos faria acreditar, do topo de suas torres de
ouro, alguns filósofos empreendedores. É o que constitui a
engrenagem mais importante no mecanismo da nossa economia
moderna, e o amor ao ganho, que o progresso da tecnologia
apenas exacerbou, constitui o principal elemento da organização
psíquica da economia. o homem econômico de nossos dias
(SOMBART, 1928, p. 118).6

Para Sombart (1928), a tendência de criar sem uma razão ou um propósito


definido é uma característica do homem econômico. Para o autor, tentou-se explicar tal
tendência através da psicologia, justificando-a como um tipo de alegria infantil diante do
novo, porém, ressalta, não se pode deixar de considerar que não modernidade essa alegria
é constante:
Agora, um século técnico como o nosso proporciona a esta
alegria um alimento constante, oportunidades ininterruptas, pode
vir à mente de um empresário que é vantajoso ou interessante
fazer tantas máquinas, aviões, etc. quanto possível, e que ele
encontrará alguma satisfação em realizar tal programa
(SOMBART, 1928, p. 119, tradução nossa).7

Na realidade, para o autor, a alegria infantil, é uma expressão das tendências gerais
da modernidade, havendo uma ligação direta entre o entusiasmo com o progresso, que
tanto empolga empresários, e a infantilidade otimista, uma mentalidade colonial, mas
também uma mentalidade de um homem que vive em um século técnico. A ideia de
progresso só faria sentido no século em que o poder técnico domina. Nas palavras do
autor:
Se a ideia de progresso, tão pouco justificada em geral,
tem algum significado, é apenas no domínio do poder
técnico. Embora não saibamos se a filosofia de Kant é
um "progresso" sobre as doutrinas de Platão, ou se as
doutrinas de Bentham estão "em progresso" sobre as de

6 No original: Nous nous sommes enrichis rapidement, la technique nous a débarrassés de la crainte de la
peste et du choléra; à un moment donné nous avions même pu croire que nous touchions à la réalisation
d'une paix perpétuelle : rien d'étonnant si, dans ces conditions, les instincts inférieurs de l'homme, son désir
de jouir sans entraves, son amour du confort et du bien-être l'ont emporté sur ses aspirations idéales. Le
troupeau paît paisiblement dans les grasses prairies.
La suprématie que les intérêts matériels ont acquise à notre époque n'a pu que faciliter l'orientation de
l'entrepreneur capitaliste vers une activité purement lucrative, ayant l'enrichissement pouf seul et unique
but. La chasse au dollar est loin d'être aussi imaginaire que voudraient nous le faire croire, du haut de leurs
tours dorées, certains entrepreneurs-philosophes. C'est eue qui constitue le rouage le plus important dans le
mécanisme de notre économie moderne, et l'amour du gain, que les progrès de la technique n'ont fait
qu'exaspérer, forme le principal élément de l'organisation psychique de l'homme économique de nos jours.
7 No original: Or, un siècle technique. comme le nôtre fournit à cette joie un aliment constant, des occasions

ininterrompues, Qu'il puisse venir à l'esprit d'un entrepreneur qu'il est avantageux ou intéressant de
fabriquer le plus possible de machines, d'avions, etc., et qu'il trouve une certaine satisfaction à réaliser un
pareil programme.

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Buda, sabemos, sem dúvida, que o modelo de 1913 está


em "progresso" em relação ao de Watt. Em conexão com
essa transmutação de valores está outra importante
manifestação da vida psíquica do homem econômico
moderno (e do homem moderno em geral); é a
transformação dos meios até o fim. Sem dúvida, o
dinheiro contribuiu muito para essa transmutação de
valores. Mas a técnica é uma grande parte disso
(SOMBART, 1928, p. 119, tradução nossa).8

Assim, a importância dos meios sobre os fins fica evidente, de forma que não se
pergunta mais a que fins servirão os meios desenvolvidos, se esquece qual meta a ser
atingida, os meios monopolizam os interesses.
Estamos entusiasmados em ver um avião subir no ar, sem pensar que este
dispositivo é usado apenas no momento para enriquecer um número
sensacional nosso programa de entretenimento e (no caso mais
favorável) para enriquecer alguns fabricantes. E assim por diante, em
todas as coisas. Temos aqui uma explicação, pelo menos parcial, do
absurdo de toda a nossa tabela de valores e de todas as aspirações
capitalistas de nossos dias, acrescentemos: o que caracteriza o espírito
burguês hoje em dia é sua total indiferença ao problema de qual é o
destino do homem. O homem é quase totalmente eliminado da mesa de
interesses econômicos e os valores dos campos econômicos: a única
coisa de interesse, no entanto, o processo, desde a produção ou o
transporte, ou formação de preços, etc (SOMBART, 1928, p. 119,
tradução nossa).9

A eliminação do homem, que deixa de ser o centro dos processos de produção,


com uma transformação radical na escala de valores humanos é produto da transformação
dos processos técnicos, são efeitos indiretos exercidos pela tecnologia sobre o
desenvolvimento do espírito capitalista (SOMBART, 1928).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

8
Si l'idée de progrès, si peu justifiée en général, a un sens quelconque, c'est uniquement dans le domaine
du pouvoir technique. Alors que nous ignorons si la philosophie de Kant constitue un « progrès » sur celle
de Platon ou si les doctrines de Bentham sont en « progrès » sur celles du Bouddha, nous savons, à n'en pas
douter, que la machine à vapeur du modèle de 1913 est en « progrès » sur celle de Watt. En rapport avec
cette transmutation des valeurs se trouve une autre manifestation importante de la vie psychique de l'homme
économique moderne (et de l'homme moderne en général); c'est la transformation du moyen en fin. Sans
doute, l'argent n'a pas peu contribué à cette transmutation des valeurs. Mais la technique y a une grande
part.

9 No original: Nous trépidons d'enthousiasme en voyant s'élever dans les airs un avion, sans penser que cet
appareil ne sert pour le moment qu'à enrichir d'un numéro sensationnel notre programme de distractions et
(dans le cas le plus favorable) à enrichir quelques fabricants. Et ainsi de suite, en toutes choses. Nous avons
là une explication, tout au moins partielle, de l'absurdité de toute notre table de valeurs et de toutes les
aspirations capitalistes de nos jours. Ajoutons encore ceci : ce qui caractérise l'esprit du bourgeois de nos
jours, c'est, nous l'avons vu, son indifférence complète pour le problème de la destinée de l'homme.
L'homme est à peu près totalement éliminé de la table des valeurs économiques et du champ des intérêts
économiques : la seule chose à laquelle on s'intéresse encore, c'est le processus, soit de la production, soit
des transports, soit de la formation desprix, etc.

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I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
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Os três autores analisados perpassam o campo do direito em sua análise da técnica


de diferentes formas. Podemos afirmar que as três abordagens têm como característica
comum traços ecléticos, menções quase honrosas metafísica e, fica claro que, os três
autores colocam suas concepções como soluções diferenciadas, como verdadeiras
“terceiras vias” ao capitalismo/socialismo. Spengler com seus ideais de criação de um
socialismo baseado no direito, Veblen com sua crítica ferrenha acerca da predominância
dos interesses empresariais dentro dos governos estatais, e Sombart com a ideia de
centralidade dos meios, perda de valores e eliminação do homem na sociedade
tecnológica. Spengler, Veblen e Sombart são autores irracionalistas, buscando em seus
trabalhos apontar um terceiro caminho possível, tendo como plano de fundo uma crítica
superficial aos problemas mais visíveis da sociedade capitalista. Dentro do debate da
técnica, suas visões se misturam em uma defesa apaixonada sobre o que o progresso
técnico pode proporcionar aliado a uma crítica às “aplicações” da técnica pelo “espírito”
do capitalismo.
A investigação feita no presente artigo tem como objetivo se aproximar da
compreensão da natureza da posição dominante sobre a técnica no debate jurídico
contemporâneo, sendo uma questão anterior e necessária, afinal, para que se chegue a
conclusões quanto às especificidades da contemporaneidade.
Uma visão ampla do debate clássico acerca do problema da técnica no âmbito
jurídico se faz essencial para que possamos realizar comparações e observações acerca
de possíveis modificações, auxiliando nossas análises futuras focadas mais
especificamente nas discussões contemporâneas a respeito da técnica dentro do meio
jurídico.

Referências
COUTINHO, C. N. O estruturalismo e a miséria da razão. São Paulo: Expressão
Popular, 2010.
LUKÁCS, G. Marx e o problema da decadência ideológica. In: Lukács, G. Marxismo e
teoria da literatura. São Paulo: Civilização Brasileira, 1968.
LUKÁCS, G. Existencialismo ou marxismo? São Paulo: Ciências Humanas, 1979.
SARTORI, V. Ontologia, técnica e alienação: para uma crítica ao direito. Tese
(Doutorado em Filosofia e Teoria Geral do Direito) - Faculdade de Direito, Universidade
de São Paulo. São Paulo, 2013.
SPENGLER, O. A decadência do ocidente. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.
SOMBART, W. Le Bourgeois, Deuxième Livre. Payot, 1928.
VEBLEN, T. The Theory of business enterprise. New York: Charles Scribner’s sons,
1915.

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A RELAÇÃO CONFLITUOSA ENTRE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA E


EMPREGO: O PENSAMENTO DE MARX E RICARDO
Anna Paula Almeida Sales
Universidade Federal de Juiz de Fora
annapaulaasales@gmail.com

Resumo
A relação entre inovação tecnológica e emprego já preocupava no século XIX dois dos
maiores nomes da economia que existiram: David Ricardo e Karl Marx. Tendo como
pano de fundo a transição violenta da manufatura inglesa para a indústria e revolta dos
trabalhadores contra máquina, os referidos autores formaram seu pensamento no sentido
de afirmar que o emprego de maquinaria na produção seria responsável por demitir
centenas de trabalhadores ingleses, que ao não encontrarem novos empregos de forma
subsequente, acabavam sendo vítimas do chamado “desemprego tecnológico”. No
entanto, a partir da análise dos pensamentos desses autores, ficou demonstrado que a
relação entre tecnologia e emprego não é uma relação estática, mas sim extremamente
dinâmica.
Palavras-chave: tecnologia; emprego; Marx; Ricardo; teoria da compensação.

THE CONFLITUOUS RELATION BETWEEN TECHNOLOGICAL


INNOVATION AND EMPLOYMENT: THE THOUGHT OF MARX AND
RICARDO

Abstract
In the nineteenth century, the relation between technological innovation and
employment was already worrying two of the biggest names in the economy: David
Ricardo and Karl Marx. With the background of the violent transition from English
manufacture to industry and workers' revolt against machine, the authors formed their
thinking claiming that the use of machinery in production would be responsible for
laying off hundreds of English workers who, as they did not find new jobs
subsequently, ended up falling victim to the so-called "technological unemployment".
However, from the analysis of the thoughts of these authors, it was demonstrated that
the relation between technology and employment is not a static relationship, but
extremely dynamic.
Keywords: technology; employment; Marx; Ricardo; theory of compensation.

Introdução

Desde o início da Revolução Industrial no século XVIII até os dias atuais tem-
se debatido acerca dos reais efeitos da inovação tecnológica e sua aplicação à produção
de bens e serviços na economia e na sociedade, o que tem demonstrado a existência de
uma ampla gama de correntes de pensamento a respeito do progresso tecnológico.
Nesse sentido, uma das questões mais discutidas é aquela que envolve o avanço
tecnológico e os efeitos que ele gera no campo da força de trabalho, mais

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especificamente sobre a relação entre inovação tecnológica e emprego, que dentro do


sistema capitalista é uma relação que se dá de forma extremamente dinâmica, tendo em
vista que a introdução de novas tecnologias influenciam diretamente na criação e na
destruição de postos de trabalho.
O debate acerca da relação entre emprego e tecnologia sempre dividiu opiniões
de grandes estudiosos ao longo dos séculos, podendo ser rastreado até os economistas
pré-clássicos do século XVI: de um lado se colocavam aqueles que acreditavam que as
novas máquinas permitiriam aos trabalhadores trabalharem menos horas, tendo mais
tempo livre para se dedicarem à atividades que lhe fossem mais prazerosas, a introdução
de novas tecnologias na produção constituiria assim um benefício para o proletariado;
de outro lado se colocavam aqueles autores que possuíam uma visão menos otimista da
questão, acreditando que o progresso tecnológico na verdade não beneficiaria a classe
trabalhadora, liberando-a de algumas horas do trabalho, mas, pelo contrário, a
substituiria no processo produtivo. Dessa forma, a introdução de maquinaria moderna
destruiria alguns postos de trabalho, causando a demissão em massa de trabalhadores.
David Ricardo e Karl Marx são exemplos de autores clássicos que enxergaram
o problema do desemprego tecnológico e debateram sobre ele com clareza em sua obra,
expondo-o principalmente no capítulo XXXI de Princípios de Economia Política e
Tributação, de autoria de Ricardo, e no capítulo XIII do volume I de O Capital, de
autoria de Marx. Para ambos os autores, a introdução de novas tecnologias na produção
poderia causar desemprego e deslocamento de mão de obra humana, no entanto os
autores tinham opiniões distintas quanto à possibilidade de reabsorção do operariado
desempregado pelo mercado de trabalho.
A década de 1970 trouxe a crise econômica que se iniciou com o choque do
petróleo e uma mudança tecnológica da microeletrônica que impactou profundamente as
tecnologias da informática e da informação, afetando a natureza do trabalho nos mais
variados setores, tornando obsoletas algumas ocupações e criando outras novas que, por
sua vez, exigiam novas formações e qualificações do proletariado. Diante disso, nas
décadas que se seguiram, altos níveis de desemprego se abateram sobre diversos países
do globo, o que trouxe novo interesse e fôlego à discussão a respeito da relação entre
inovação tecnológica e o chamado “desemprego tecnológico”, aqui entendido enquanto
aquele desemprego que é caracterizado quando o trabalhador que é demitido pela
introdução de uma nova tecnologia na produção de determinado setor industrial não
encontra um novo emprego subsequentemente, permanecendo desempregado por um
período de tempo.
Dessa maneira, a relação entre o capital e emprego na esfera específica da
produção de novas tecnologias constitui uma questão fundamental de nosso tempo,
visto que o crescimento da produtividade do trabalho impulsionado pelo avanço
tecnológico e, por conseguinte, o aumento do tempo livre do trabalhador são essenciais
para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e com maior qualidade de
vida. Entretanto, o modo com que a ordem econômica capitalista tem se utilizado do
progresso tecnológico tem engendrado efeitos perversos aos conjuntos sociais, embora
também origine efeitos econômicos benéficos.
Ao assumirmos a perspectiva marxista, responsável por introduzir uma
consciência histórica na análise do modo de produção capitalista, e que tem como
pressuposto não a sobrevivência eterna do sistema, mas sim a possibilidade de sua
transformação, além do reconhecimento da existência de contraditoriedades inerentes a
este modo de produção, capazes de converter o potencial emancipador dos sujeitos em

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aprisionamento, o trabalho em questão objetiva fazer um breve traçado histórico do


pensamento de Marx e Ricardo a respeito da relação entre o desenvolvimento
tecnológico e a elevação na taxa de desemprego, tendo em vista que acreditamos ser
esse esforço histórico de recuperação dos economistas clássicos um importante passo
inicial para que seja possível entender as transformações que se deram a partir da
década de 1970. Frisa-se, portanto, que este trabalho é apenas um primeiro passo na
tentativa de compreensão da conjuntura atual, e que a partir dele surgiram muitos
questionamentos pertinentes.

2. O SÉCULO XIX E A REVOLTA DOS TRABALHADORES CONTRA AS


MÁQUINAS

Antes de adentrarmos nas opiniões de Ricardo e Marx propriamente ditas,


acreditamos ser importante fazer uma breve apresentação do contexto histórico que
serviu de pano de fundo para que os autores em questão tecessem suas considerações a
respeito da relação entre maquinaria e emprego. O desenvolvimento da grande indústria
na Europa não se deu de forma pacífica, tendo sido permeado por conflitos que se
davam principalmente entre o trabalhador e a máquina, visto que se de um lado a
maquinaria poupava trabalho e aumentava a produtividade, de outro ela demitia
diversos trabalhadores que se tornavam desnecessários para o trabalho que agora
poderia ser exercido pela máquina.
O século XVII presenciou a revolta dos trabalhadores em quase toda a Europa
contra uma máquina de tecer fitas e galões (chamada de Bandmühle) e contra uma
máquina de serrar movida por um moinho de vento. No século XVIII houve forte
resistência popular contra as máquinas hidráulicas de serrar, e cerca de 100 mil
trabalhadores desempregados pelo emprego da máquina de tosquear movida à água
colocaram fogo na mesma, além do fato de que 50 mil trabalhadores provocaram uma
petição ao parlamento inglês contra os moinhos de cardar lã (Scribbling Mills) e a
máquina de Arkwright (MARX, 2013, p. 610).
O denominado movimento ludita (ou ludismo) nasceu nos primeiros quinze
anos do século XIX na Inglaterra, e foi provocado principalmente pela utilização do tear
a vapor na produção (MARX, 2013, p. 610). Ned Ludd, precursor do movimento que
levava seu nome, invadiu uma fábrica e quebrou uma máquina de tricotear meias no
condado inglês de Leicestershire, entretanto naqueles locais onde as novas máquinas
não causaram desemprego não há registros de hostilidades praticadas contras elas
(HOBSBAWN apud COUTO et al, 2009, p. 06).
O movimento ludita tomou proporções maiores, atingindo o seu maior
momento, em abril de 1812, quando trabalhadores desempregados pela máquina de tear
a vapor invadiram e destruíram a fábrica de William Cartwright, no condado de York, na
Inglaterra (COUTO et al., 2009, p. 06). Nos anos seguintes, o movimento ludita se
abrandou, mas permaneceu existindo até que em 16 de agosto de 1819 uma multidão de
cerca de 60 mil pessoas se dirigiram ao parque de Saunt-Peter´s Field, em Manchester,
para exigirem melhores condições de trabalho, quando o exército inglês atirou contra a
população deixando vários mortos e feridos naquele que ficou conhecido como o
Massacre de Peterloo (COUTO et al., 2009, p. 06-07). A destruição massiva de
máquinas pelos trabalhadores do movimento ludita serviu de pretexto para a adoção de
medidas reacionárias de violência pelo governo inglês (MARX, 2013, p. 610).

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3. DAVID RICARDO E O DESEMPREGO TECNOLÓGICO


Ricardo tratou abertamente da questão relativa à tecnologia e ao emprego na
terceira edição de sua obra “Princípios de Economia Política e Tributação”. Importante
ressaltar que inicialmente o economista inglês acreditava que o emprego de novo
maquinário na produção traria benefícios ao proletariado, tendo em vista que a
maquinaria nunca seria causa de redução da demanda de trabalho, e, portanto, nunca
reduziria o preço do trabalho, mas, pelo contrário, causaria a sua elevação. A introdução
de novas tecnologias aumentaria a produtividade, o que, em contrapartida, geraria um
aumento de renda e, portanto, aumentaria a demanda e o emprego. Além disso, o
aumento de produtividade acarretaria uma diminuição nos preços das mercadorias,
porém antes desse barateamento e da banalização da nova tecnologia, os capitalistas
aufeririam um super lucro que constituiriam recursos para investimento em longo prazo,
recursos esses que se converteriam em mais empregos (MILLER, 2002, p. 75-76).
Conforme Ricardo:
Desde que, inicialmente, voltei minha atenção para as questões de
Economia Política, era da opinião que a introdução da maquinaria em
qualquer ramo da produção que tivesse por efeito poupar trabalho
constituía um benefício para todos, embora acarretasse alguns
inconvenientes que geralmente acompanham a maior parte das
transferências de capital e trabalho de uma atividade para outra.
Parecia-me que, se os proprietários de terras recebessem a mesma
renda em dinheiro, eles seriam beneficiados pela redução dos preços
de algumas mercadorias nas quais essa renda era gasta, e cuja redução
de preço não poderia deixar de ser conseqüência da utilização de
maquinaria. Eu julgava que o capitalista eventualmente seria
beneficiado da mesma maneira. Ele que, na realidade, descobrira a
máquina, ou que fora o primeiro a empregá-la utilmente, gozaria de
uma vantagem adicional, realizando grandes lucros durante algum
tempo. Mas, na medida em que a utilização da máquina fosse se
generalizando, o preço da mercadoria produzida baixaria até ao seu
custo de produção devido à concorrência, quando então o capitalista
obteria os mesmos lucros em dinheiro que antes; e ele somente
participaria das vantagens gerais como consumidor ao ser capaz, com
o mesmo rendimento em dinheiro, de adquirir uma quantidade
adicional de comodidades e satisfações. Eu julgava também que a
classe dos trabalhadores seria igualmente beneficiada pelo uso da
maquinaria, na medida em que dispusesse dos meios para comprar
mais mercadorias com o mesmo salário em dinheiro. Julgava ainda
que nenhuma redução de salários ocorreria, uma vez que o capitalista
teria o poder de demandar e de empregar a mesma quantidade de
trabalho que antes, embora tivesse necessidade de utilizá-lo na
produção de uma mercadoria nova ou, pelo menos, diferente. Se,
devido a um aperfeiçoamento da maquinaria, com o emprego da
mesma quantidade de trabalho, a quantidade de meias quadruplicasse
e a demanda de meias somente duplicasse, alguns trabalhadores
seriam necessariamente despedidos da indústria de meias. Mas, como
o capital que os empregava não havia deixado de existir, e como seria
do interesse de seus possuidores empregá-lo produtivamente, parecia-
me que ele seria empregado na produção de alguma outra mercadoria
útil à sociedade em relação à qual não poderia deixar de haver uma
demanda (...). Como naquela época parecia-me que existiria a mesma

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demanda de trabalho que antes, e que os salários não diminuiriam,


acreditava que a classe trabalhadora, assim como as demais classes,
participaria igualmente das vantagens do barateamento geral das
mercadorias decorrente do uso da maquinaria (RICARDO, 1996, p.
287-288).

Tendo em vista a repercussão do movimento ludita, em 1815, no seu “Ensaio


sobre a influência do baixo preço do trigo sobre os lucros do capital, mostrando a
inconveniência de restrições à importação”, Ricardo abordou a questão afirmando
apenas que a “maquinaria aperfeiçoada” tendia a elevar os “salários reais do trabalho”,
sendo benéfica para a classe trabalhadora, nada tendo registrado a respeito dos efeitos
dessa “maquinaria aperfeiçoada” em relação à demanda por trabalho (RICARDO apud
COUTO et al., 2009, p. 7). Entre 1815 e 1820, o economista inglês não acreditava que a
maquinaria pudesse prejudicar a classe trabalhadora, provocando uma diminuição no
número de empregos. O que ele acreditava era que um trabalhador demitido de uma
determinada empresa iria arrumar emprego em outro setor, mas isso só seria possível
através de novos investimentos que aumentassem a demanda por trabalhadores, pois do
contrário o trabalhador iria ficar desempregado, caracterizando o que entendemos por
“desemprego tecnológico”.
Ao ter contato com os trabalhos de John Barton e Ramsay McCulloch, Ricardo
mudou de opinião e publicou essa mudança na terceira e derradeira edição de sua obra
“Princípios de Economia Política e Tributação”, na qual adicionou um novo capítulo, o
capítulo XXXI, intitulado “Sobre a maquinaria” (COUTO et al., 2011, p. 305): “Essas
eram minhas opiniões, e elas seguem inalteradas no que diz respeito ao proprietário da
terra e ao capitalista. Mas estou convencido de que a substituição de trabalho humano
por maquinaria é freqüentemente muito prejudicial aos interesses da classe dos
trabalhadores” (RICARDO 1996, p. 288). O próprio Marx, ao comentar sobre o referido
capítulo em seus manuscritos que originaram a obra “Teorias da Mais-valia” dizia que
“este capítulo que Ricardo havia adicionado à sua terceira edição atestava sua boa-fé, o
que o distinguia tão essencialmente dos economistas vulgares” (MARX, 1980, p. 510).
Ricardo explicou sua mudança de opinião através dos conceitos de rendimento
bruto e rendimento líquido, concluindo que a maquinaria aperfeiçoada poderia
simultaneamente aumentar a produção de um país e diminuir a quantidade de trabalho
utilizada na mesma, gerando uma redução na demanda por trabalhadores, tornando uma
parte desses trabalhadores supérfluos:
O que desejo provar é que a descoberta e o uso da maquinaria podem
ser acompanhados por uma redução da produção bruta e, sempre que
isso acontecer, será prejudicial para a classe trabalhadora, pois uma
parte será desempregada e a população tornar-se-á excessiva em
comparação com os fundos disponíveis para empregá-la (RICARDO,
1996, p. 290).

Com a diminuição da demanda por trabalhadores em um determinado setor,


uma parte das mercadorias consumidas pelos trabalhadores também se tornaria
supérflua, o que acarretaria a diminuição da produção destas mercadorias, logo gerando
nova redução da demanda por trabalho nesse setor de produção (COUTO et al., 2011, p.
307). Ricardo afirmava ainda que “as máquinas e o trabalhador mantém-se em constante
competição, e as primeiras só podem ser utilizadas se o preço do trabalho se elevar”
(RICARDO, 1996, p. 293), pois do contrário não compensaria para o capitalista

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implantar a maquinaria, já que ela sairia mais cara que pagar os salários dos
trabalhadores.
No entanto, para o economista inglês, poderia haver o chamado efeito de
“compensação” tanto pelo aumento do emprego no setor de máquinas (MILLER, 2002,
p. 76), quanto por novos investimentos numa nova fábrica, por exemplo, na qual os
trabalhadores anteriormente demitidos poderiam ser empregados, o que evitaria o
desemprego tecnológico (COUTO et al., 2011, p. 307):
Se o aumento da produção, em conseqüência da utilização da
máquina, fosse tão grande que proporcionasse, sob a forma de
produção líquida, uma quantidade de alimentos e gêneros de primeira
necessidade tão grande quanto existia antes na forma de produto
bruto, a capacidade de empregar toda a população seria a mesma e,
portanto, não haveria necessariamente nenhuma população excedente
(RICARDO, 1996, p. 290)

Haveria ainda a possibilidade desses trabalhadores substituídos pela nova


maquinaria serem empregados como domésticos, pois conforme Ricardo, caso não
houvesse a compensação nem os novos investimentos, haveria um aumento no consumo
de luxo por parte dos proprietários de capital, gerando demanda de trabalho nesse setor
(RICARDO, 1996, p. 292).
Por fim, Ricardo acreditava que apesar da possibilidade de gerar desemprego,
jamais deveria deixar de se encorajar o progresso tecnológico num determinado país,
pois do contrário, o capital seria transferido ao exterior, o que seria mais prejudicial
para a demanda de trabalho do que a generalização mais completa do uso de máquinas,
vez que enquanto houver aplicação do capital no país, alguma demanda de trabalho
seria criada (RICARDO, 1996, p. 294).
A conclusão ricardiana, portanto, foi de que a introdução de novo maquinário
na produção poderia causar desemprego, prejudicando a classe trabalhadora. No entanto
esse desemprego, que posteriormente ficou conhecido como desemprego tecnológico ou
estrutural, seria transitório, já que dependendo dos novos investimentos feitos pelos
capitalistas em novas fábricas, o operariado dispensado poderia encontrar emprego em
outras empresas e setores. O que Ricardo reconheceu ao tratar da relação entre inovação
tecnológica - introdução de novo maquinário na produção - e emprego foi a
possibilidade de que esta gerasse desemprego ao substituir um trabalho que antes era
feito pela mão de obra humana, por um trabalho que agora seria feito pela máquina.
Conforme já afirmado, ele acreditava que novos investimentos seriam capazes de gerar
empregos em outros setores, não permitindo que o trabalhador ficasse durante muito
tempo desempregado.

4. MARX E O DESEMPREGO TECNOLÓGICO

Karl Marx falou explicitamente a respeito do desemprego tecnológico em pelo


menos duas de suas obras, nas quais a questão se encontra fartamente documentada: no
Livro I de “O Capital”, em seu capítulo XIII, intitulado “Maquinaria e grande
indústria”, e no Livro II de “Teorias da Mais-Valia”, no capítulo XVIII, intitulado
“Miscelânea Ricardiana. Final de Ricardo”. O autor alemão estudou detalhadamente os
economistas que o antecederam, e nestas obras Marx expõe seu pensamento e traça um
debate com as ideias de David Ricardo acerca da introdução de novas maquinarias na
produção e os efeitos que esta causava à classe trabalhadora.

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Marx, diferentemente de Ricardo, sempre teve convicção de que o emprego de


novas tecnologias na produção era responsável por causar a destruição de postos de
trabalho, ao substituir a mão de obra humana. Segundo o autor, “é só a partir da
introdução da maquinaria que o trabalhador luta contra o próprio meio de trabalho,
contra o modo material de existência do capital” (MARX, 2013, p. 609). Marx relata no
tópico “A luta entre o trabalhador e a máquina” do capítulo XIII do Livro I de “O
Capital” que o movimento ludita foi pretexto para a adoção das mais variadas formas de
violência reacionárias contra os trabalhadores: “Foi preciso tempo e experiência até que
o trabalhador distinguisse entre a maquinaria e sua aplicação capitalista e, com isso,
aprendesse a transferir seus ataques, antes dirigidos contra o próprio meio material de
produção, para a forma social de exploração desse meio” (MARX, 2013, p. 610). Para
Marx, portanto, não era a maquinaria em si mesma a responsável por desempregar
trabalhadores, mas o uso que o modo de produção fazia da maquinaria, do progresso
tecnológico.
É somente com a máquina que o meio de produção se converte em
“concorrente do próprio trabalhador” (MARX, 2013, p. 612). Quando o progresso
tecnológico permite que o manuseio da ferramenta seja transferido da mão humana para
a máquina, ele aniquila juntamente com o valor de uso, o valor de troca do trabalho
humano. “O trabalhador se torna invendável, como o papel-moeda tirado de circulação”
(MARX, 2013, p. 612). A maquinaria transforma uma parte do proletariado em
população supérflua, que abarrota o mercado de trabalho, aumentando a oferta de
trabalho, e, portanto, diminuindo o preço dos salários abaixo de seu valor (MARX,
2013, p. 613). Marx discorda que o efeito da maquinaria sobre o trabalhador seja algo
meramente “temporário”, “o efeito ‘temporário’ da maquinaria é permanente, porquanto
se apodera constantemente de novas áreas da produção” (MARX, 2013, p. 613). É dessa
forma que o “meio de trabalho liquida o trabalhador” (MARX, 2013, p. 614).
Mas há que se ressaltar que a maquinaria não exerce apenas o papel de um
concorrente direto à força de trabalho humano segundo Marx, mas ela também se torna
um meio de o capitalista repreender as greves e reivindicações do proletariado, se
tornando uma importante maneira de controlar a classe trabalhadora:
O capital, de maneira aberta e tendencial, proclama e maneja a
maquinaria como potência hostil ao trabalhador. Ela se converte na
arma mais poderosa para a repressão das periódicas revoltas operárias,
greves etc. contra a autocracia do capital. De acordo com Gaskell, a
máquina á vapor foi, desde o início, um antagonista da “força
humana”, o rival que permitiu aos capitalistas esmagar as crescentes
reivindicações dos trabalhadores, que ameaçavam conduzir crise o
incipiente sistema fabril (MARX, 2013, p. 618).

Em seguida, Marx também criticou a “teoria da compensação” defendida por


boa parte dos economistas clássicos, entre eles o próprio David Ricardo, conforme
citado acima. Na contramão daqueles que acreditavam que toda maquinaria que desloca
trabalhadores libera, simultânea e necessariamente, um capital para ocupar esses
mesmos trabalhadores, Marx afirmava que ao invés da liberação de capital, o que
ocorria era a transformação de capital variável (salários) em capital constante
(maquinaria, matéria-prima, insumos…), de modo que a cada aperfeiçoamento do
maquinário, ele ocuparia menos trabalho (MARX, 2013, p. 621). Seria absurdo dizer
que o capitalista investiria em salários o mesmo volume de capital que antes pois com o
aumento da produtividade alcançada através da implementação da nova tecnologia na

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21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

produção, o proprietário do capital vai investir em maquinaria, instrumentos e uma


grande parte em matéria-prima, já que agora produz mais mercadorias com menos
trabalhadores, e precisa, portanto de mais matéria-prima. Ocorre então uma diminuição
do capital variável em relação ao capital fixo, que, em contrapartida, tende a aumentar
mais rapidamente. Segundo Marx:
A demanda de trabalho aumentará em seu negócio com a acumulação
de seu capital, mas em grau muito menor do que aquele em que seu
capital se acumula, e seu capital já não será em absoluto a mesma
fonte de demanda de trabalho que antes. O resultado imediato é que
uma parte dos trabalhadores é lançada à rua. Mas, se dirá que,
indiretamente, seguirá sendo a mesma a demanda de trabalhadores,
pois a demanda de trabalho para a construção de maquinarias
aumentará. No entanto, o próprio Ricardo se encarregou de
demonstrar que a maquinaria nunca absorve tanto trabalho quanto o
que desloca. (...) O que (o capitalista) faz é simplesmente dar a seu
capital um investimento diferente, cujo resultado imediato será,
segundo a suposição de que parte, trabalhadores sendo despedidos e a
conversão de uma parte do capital variável em constante (MARX,
1980, p. 512-513, tradução nossa).

Portanto, no que tange a criação de novos empregos no setor de produção das


maquinarias, o autor alemão afirmava que “na melhor das hipóteses, sua fabricação
ocupa menos trabalhadores do que os números daqueles deslocados por sua utilização”
(MARX, 2013, p. 622), pois, do contrário, não seria lucrativo para o capitalista. As
demissões em massa geradas pela maquinaria introduzida em determinado setor,
aumentavam o número de trabalhadores disponíveis no mercado para a exploração
capitalista, engrossando assim o exército industrial de reserva. Com o aumento do
número de trabalhadores desempregados, havia uma diminuição na demanda de
produtos de subsistência, pois os trabalhadores sem dinheiro acabavam diminuindo o
consumo dessas mercadorias. Se não houver compensação da demanda por produtos de
subsistência pelo aumento da demanda em outro setor, o preço de mercado das
mercadorias cai, o que em longo prazo gera um novo deslocamento de trabalhadores e
de capitais antes ocupados na produção dessas mercadorias (MARX, 2013, p. 624).
Assim, uma nova onda de demissões, dessa vez no setor de produção de mercadorias de
subsistência é gerada. Conclui Marx (2013, p. 624): “a maquinaria põe trabalhadores na
rua, e não só no ramo da produção em que é introduzida, mas também nos ramos da
produção em que não é introduzida”.
É verdade que os operários expulsos de um ramo industrial poderiam encontrar
emprego em outro ramo, no entanto isso se efetivaria através de um capital novo, e não
por meio daquele capital anterior que havia se convertido em maquinaria (MARX,
2013, p. 625). Esse era o entendimento de Marx, que, portanto, contrariava a “teoria da
compensação” afirmada por alguns economistas clássicos, entre eles o próprio Ricardo.
É sempre importante ressaltar, entretanto, que para o autor alemão não é a
maquinaria responsável pelo suplício da classe trabalhadora. Não é a inovação
tecnológica que causa o aumento da taxa de desemprego, mas sim a utilização que o
capitalismo faz dessas inovações. As contradições e o antagonismo são inseparáveis da
utilização capitalista da maquinaria, pois não são inerentes à máquina em si, mas sim
decorrentes da utilização que o sistema capitalista faz dela (MARX, 2013, p. 626).

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Diante do exposto, podemos concluir que Marx sempre deixou claro em suas
obras que acreditava que a introdução de novas máquinas na produção ocasionava a
demissão de mão de obra humana, ou, pelo menos, o seu deslocamento para outro setor.
De acordo com Couto (et al., 2011, p. 312), Marx demonstrou que o aumento da taxa
desemprego era dependente de quatro variáveis: 1) avanço tecnológico; 2) crescimento
populacional; 3) taxa de acumulação de capital (ou novos investimentos) e 4) redução
da jornada de trabalho. O avanço tecnológico e o crescimento populacional aumentavam
a oferta de trabalho, já que aumentavam o número de trabalhadores disponíveis no
mercado seja pela demissão em massa, seja pelo aumento do número de pessoas
precisando trabalhar, impulsionando a taxa de desemprego; os novos investimentos e a
redução da jornada de trabalho por sua vez, aumentavam a demanda de trabalho, visto
que expandem os setores industriais e limitam o número de horas permitidas para
trabalho, fazendo com sejam necessários mais trabalhadores, reduzindo assim a taxa de
desemprego (COUTO et al., 2011, p. 312).

5. CONCLUSÃO

David Ricardo e Karl Marx foram dois economistas que escreveram


abertamente sobre a relação entre inovações tecnológicas e emprego já no início do
século XIX, trazendo importantes contribuições para o estudo da temática que podem
ajudar a esclarecer questionamentos que surgem na contemporaneidade. O presente
trabalho foi desenvolvido com o intuito de trazer as principais contribuições dos dois
autores a respeito do tema em questão, pois apesar de assumirmos a perspectiva
marxista, o próprio Marx dialoga bastante com Ricardo quanto à temática em questão,
concordando com ele em muitos aspectos e discordando em alguns outros. Ademais,
acreditamos também na importância da contribuição ricardiana, e principalmente na
trajetória do pensamento do referido autor, visto que ele possuía um pensamento antes,
que se modificou no decorrer de sua vida quando o autor foi tendo contato com outros
autores de opiniões diferentes e com o próprio movimento da realidade.
Tanto Ricardo quanto Marx acreditavam, portanto, que a introdução de nova
maquinaria na produção causava, pelo menos inicialmente, uma demissão de
trabalhadores. A realidade inglesa na época, permeada por movimentos de revolta dos
trabalhadores contra as máquinas como o movimento ludita, só respaldava o
entendimento de ambos os autores, tendo em vista a quantidade de trabalhadores que a
maquinaria colocou na rua, e que não encontraram outras ocupações, sendo obrigados a
enfrentar momentos de miséria e pobreza.
Entretanto, é importante destacar que existem pontos de divergência entre os
dois economistas. De um lado estava Ricardo, que acreditava que o tormento do
operariado desempregado pela maquinaria seria meramente temporário, pautando-se na
chamada “teoria da compensação”, a qual afirmava que novos empregos seriam criados
em outros ramos industriais a partir de novos investimentos feitos através daquele
mesmo capital que antes era gasto com salários dos trabalhadores, e que agora havia
sido “liberado” pela utilização da maquinaria; de outro estava Marx, para o qual o
sofrimento do trabalhador não era temporário, pois criticava fortemente a “teoria da
compensação”, afirmando que o emprego da maquinaria não só era capaz de gerar
desemprego no setor em que ela era empregada, como também poderia afetar outros
setores distintos, como o de produção de mercadorias de subsistência da classe operária.
Ademais, para o autor alemão, mesmo que o trabalhador expulso de um ramo da

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indústria pela máquina encontrasse emprego em outro ramo - o que de fato poderia
acontecer - isso ocorreria por intermédio de um novo capital que busca aplicação,
suplementar, e não por aquele capital que já existia e que foi convertido em maquinaria
(MARX, 2013, p. 625).
Há que se falar também do ponto de convergência entre o pensamento de
ambos os autores: as ideias de Ricardo e Marx confluiam no sentido de demonstrar que
a relação entre tecnologia e emprego não é algo que se dá de forma automática,
mecânica. A relação, portanto, não é estática e determinista, mas dinâmica, e seu
resultado a longo prazo nem sempre é o de um aumento na taxa de desemprego de um
país ou região, tendo em vista que existem muitas outras variáveis envolvidas como, por
exemplo, a velocidade de avanço da técnica e do crescimento da economia, associada à
velocidade do crescimento da população e da redução da jornada de trabalho.
Como já ressaltado no decorrer deste artigo, este é um trabalho inicial no
sentido de uma compreensão contemporânea da questão relativa ao “desemprego
tecnológico”. Diante disso alguns questionamentos surgiram, questionamentos esses
que achamos pertinentes colocar aqui e que podem vir a se tornar esforços de pesquisas
futuras e até mesmo de outras pessoas interessadas nesta temática. Sabemos que a taxa
de desemprego tanto no Brasil, quanto em outros países ao redor do globo, aumentou
nas décadas que seguiram a crise iniciada nos anos de 1970, tendo em vista que nem
todo desemprego é tecnológico, o desemprego que se configurou nas décadas de 80, 90
e até o dos anos 2000 poderia ser considerado um desemprego tecnológico? Como a
perspectiva marxista a respeito do desemprego tecnológico poderia contribuir para o
entendimento da questão no cenário atual? Após Ricardo e Marx, outros economistas de
outras escolas, como Schumpeter e os neo-schumpeterianos, teceram comentários sobre
o desemprego tecnológico, quais seriam, portanto, as semelhanças e as divergências
entre esses pensamentos? Marx reconheceu a honestidade intelectual de Ricardo e
afirmou que isso o diferenciava dos economistas vulgares do século XIX, aqueles que
Marx chamava de “apologetas” do sistema capitalista, tomando por base o pensamento
de economistas que vieram pós-Marx, como o já citado Schumpeter e os neo-
schumpeterianos, como esses pensamentos se configurariam diante de uma análise
marxista? Seriam eles também uma forma de apologia do capital ou não? Esses foram
alguns dos questionamentos que surgiram diante da confecção do presente trabalho e
que achamos importante registrar aqui com o intuito de impulsionarmos novas
pesquisas e contribuições.

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I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

A FUNÇÃO DAS FINANÇAS NO AVANÇO TÉCNICO BRASILEIRO


(2005-2014)1

Elcemir Paço Cunha


paco.cunha@facc.ufjf.br
Universidade Federal de Juiz de Fora

Leandro Theodoro Guedes


Universidade Federal de Juiz de Fora
ltheodoroguedes@yahoo.com
Resumo
O objetivo do artigo é determinar a função do sistema de crédito privado para o avanço
técnico no Brasil, considerando o período entre 2005 e 2014. Realizou-se o estudo por
meio de análise teórico-histórica e de dados primários sobretudo da economia brasileira
em comparação com Alemanha, Estados Unidos e Japão. O pressuposto fundamental é
que o avanço técnico é favorecido pela acumulação real que, por sua vez, foi possibilitada
historicamente pela acumulação crescente de capital monetário disponibilizado pelo
sistema de crédito. Na pesquisa verificou-se como o papel desempenhando pelo crédito
modificou-se ao longo da história do capitalismo, mas que foi mais decisivo à acumulação
de capital em países desenvolvidos do que na economia subordinada brasileira. Os
resultados sugerem que a funcionalidade do sistema de crédito foi alterada conforme se
desenvolveu a acumulação real, deixando de ser fonte de recursos para investimentos
produtivos nas economias centrais. Em paralelo, o sistema de crédito privado para
investimentos produtivos foi ausente no desenvolvimento do capitalismo no Brasil,
incluindo o período 2005-2014, e isso ajuda a explicar o baixo grau de acumulação e,
assim, o retardo tecnológico que marca a história do país.
Palavras-chave: Avanço técnico; sistema de crédito privado; acumulação; economia
brasileira.

THE FUNCTION OF FINANCE ON TECHNICAL ADVANCE OF BRAZIL


(2005-2014)

Abstract
The objective of this paper is to determine the function of the system of private credit for
the technical advance in Brazil, considering the period between 2005 and 2014. The study
was executed by means of historical-theoretical analysis and primary data mainly of
Brazilian economy in comparation with Japan, Germany, and United States. The
fundamental assumption is that technical advance is favored by the real accumulation,
which, by its turn, was made possible historically by the growing monetary capital
accumulation available by the credit system. In this research it was verified how the role
played by the credit has been changed throughout capitalism history, but it was rather
decisive to the capital accumulation in developed countries than in the subordinated
Brazilian economy. The results suggest that the functionality of the credit system has been
altered in accordance with the development of the real accumulation, ceasing to be source
of resources for productive investments in central economies. At the same time, the
private credit system for productive investments was absent in the development of
1
Agradecemos à FAPEMIG – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais pelo apoio à
pesquisa que gerou o presente artigo.

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I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

capitalism in Brazil, including the period between 2005-2014, and this helps to explain
the low grade of accumulation and, this way, the technological delay that marks country
history
Keywords: technical advance; credit system; accumulation; Brazilian economy.

Introdução
Este artigo tem por objetivo determinar a funcionalidade do sistema de crédito
bancário privado ao avanço técnico do setor não financeiro no Brasil. O foco recai sobre
os investimentos em inovação, especificamente de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D),
entendido este como um indicador mais direto da categoria em análise.
A problemática central se revela no pressuposto a ser questionado de que o sistema
de crédito privado tem funcionalidade universal para o avanço técnico. Nesse
pressuposto, desconsidera-se tanto as alterações históricas dessa funcionalidade quanto
as particularidades das economias nacionais, perdendo de vista as reciprocidades entre os
centros mais avançados e os tecnologicamente subordinados, como a economia brasileira.
É preciso dizer, no entanto, que o presente trabalho não se respalda nos cânones
da chamada Teoria Marxista da Dependência. O reconhecimento da subordinação
econômica não é exclusividade dessa específica linha da tradição marxista. Isto posto,
assume-se as reciprocidades entre as economias que formam o capitalismo global em uma
dinâmica de desenvolvimento desigual e combinado, constituindo um sistema
hierarquizado que tende a congelar e intensificar as “diferenças internacionais na
composição orgânica de capital” (Mandel, 1982:57), conforme retomado adiante. Disso
se depreende o impulso de determinação das formas particulares de desenvolvimento do
capitalismo e das modalidades de integração ao processo global de reprodução do capital
(Paço Cunha; Rezende, 2018). Não obstante a particularidade, reconhece-se o nexo entre
disponibilidade de capital monetário, acumulação real e avanço técnico como modo de
expressão da composição orgânica do capital.
Desse modo, a pesquisa foi realizada, por um lado, por meio de análise teórico-
histórica do desenvolvimento do capitalismo com o intuito de capturar as alterações da
função do sistema de crédito via bancos privados. A análise se respalda pelo movimento
da acumulação de capital que se expressa na formação e consolidação do capitalismo
centrado nas grandes corporações multinacionais. Por outro lado, a pesquisa se deu com
aproximação da realidade brasileira por meio de dados primários comparativos, quando
necessário e possível, às economias da Alemanha, Estados Unidos e Japão.
O período para esta última análise foi delimitado tendo em conta a disponibilidade
dos dados nacionais no Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação e do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. A avaliação dos dados não será feita a partir
do uso de instrumentos estatísticos, pois mais que avaliar possíveis correlações entre o
cenário nacional e o internacional, procura-se mostrar o quadro geral do papel do sistema
de crédito no financiamento do investimento nacional em inovação, as tendências de
aproximação e distanciamento desse quadro com aquele dos países mais desenvolvidos e
que possuem um quantitativo maior desses investimentos. Nesse sentido, considera-se a
amplitude de elementos a se levar em conta quando o tema inovação é colocado em tela.
Assim, optou-se, nesta pesquisa, por se utilizar, primordialmente, os dados de P&D como
o indicador central de balizamento, tendo em conta o fato de ser possível encontrar nele
elementos mais diretos acerca da movimentação dos países em termos de produção de
processos inovativos.

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I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

Desse modo, as três seções que seguem apresentarão, respectivamente, uma breve
retomada teórico-histórica acerca da discussão sobre o papel do sistema de crédito na
acumulação de capital no modo de produção capitalista, e, logo em seguida, serão
apresentados os dados coletados que buscam responder aos problemas propostos. Por fim,
há as considerações finais que procuram colocar em evidência os principais achados,
limitações e indicação de futuras pesquisas.

Dinâmica histórica do sistema de crédito, acumulação e avanço técnico


O objetivo central desse tópico é estabelecer a relação histórica entre as finanças
e o avanço técnico para, no tópico seguinte, considerar a mesma relação tendo em vista
uma economia particular como a brasileira, sobretudo após 2005. Não se trata de esgotar
as sutilezas existentes, mas de explicitar os nexos mais fundamentais.
A determinação histórica das finanças mostra que o desenvolvimento do
capitalismo carrega consigo a reposição do antediluviano capital usurário na forma do
capital portador de juros desdobrado, assim, como sistema de crédito. Uma vez
estabelecido o modo de produção capitalista em suas bases adequadas, o capital industrial
subordina o capital portador de juros, seu pressuposto, agora posto como resultante
sistema de crédito (Marx, 1980-1985:1508-9).
Considerando esse sistema, inicialmente, como modalidades de empréstimo
privado de capital monetário (abstraindo, pois, dívida pública, capitalização e outras
“inovações financeiras posteriores”), é preciso despi-lo de sua autonomia para capturar
seu nexo oculto com a produção do mais-valor. De partida, é preciso reconhecer o ciclo
de metamorfose do próprio capital na produção capitalista (Marx, 2013). Como resultado
já de processos anteriores, a forma, por assim dizer, inicial é a do capital monetário. Esta
forma converte-se em capital produtivo por meio da aquisição e aplicação dos meios de
produção (capital constante) e força de trabalho (capital variável). Do processo de
produção do valor excedente, por meio da exploração econômica do trabalho, constitui-
se o capital-mercadoria que, tendo seu valor realizado na circulação das mercadorias,
converte-se novamente no capital monetário, possibilitando novos ciclos do capital agora
acrescido.
A fórmula sintética D-M-D’ procura expressar esse ciclo e o montante acrescido
(D’) como resultado do processo. Por isso, considerando que o capital monetário tenha
origem em empréstimos bancários, dada a focalização da presente investigação, vê-se que
o “valor de uso do dinheiro emprestado consiste em poder funcionar como capital e, como
tal, produzir, em circunstâncias usuais, o lucro médio” (Marx, 2017:399). Em outras
palavras, “seu valor de uso consiste em engendrar um lucro” (Marx, 2017:402). O juro
gerado assim, como pagamento ao empréstimo, “nada mais é que a parte do lucro (e este,
por sua vez, nada mais é que mais-valia [mais-valor], trabalho não pago), a qual o
capitalista industrial paga ao proprietário do capital de empréstimo” (Marx, 1980-
1985:1510-1511).
Assim, diz-se que empréstimos bancários para diferentes aplicações produtivas
(compra de materiais, fluxo de caixa, investimentos em aquisição de maquinaria etc.),
retornam à forma de capital monetário acrescido de juros. Na forma D-D’ está a diferença
específica dessa modalidade de capital por aparecer externamente ao processo de
valorização do próprio capital. Entretanto, esse modo de efetivamente aparecer dissociado
do capital industrial oculta o nexo fundamental como parte ou alíquota do mais-valor
engendrado na produção. Os juros surgem, assim, como título de propriedade sobre o
direito de se apropriar de uma parte do mais-valor produzido que, na própria forma do

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lucro, já surge mistificado por não revelar o processo de sua constituição efetiva por meio
da apropriação do trabalho excedente (Marx, 1980-1985:1495-96; 1516).
Para o caso em consideração (crédito via sistema bancário privado), é possível
identificar a existência de um processo de acumulação de dinheiro em frações especiais
das classes capitalistas. A propósito de indicar esse aspecto, reforça-se o nexo existente
entre essa acumulação especial e aquela chamada “acumulação real” e, portanto, entre o
juro e o lucro industrial, ambos como forma do mais-valor, sendo ainda o juro uma
alíquota desse mais-valor:

Naturalmente, a acumulação de todos os capitalistas que emprestam dinheiro opera-se sempre na


forma direta de dinheiro, em contraste com a verdadeira acumulação dos capitalistas industriais,
que em geral se efetua, como vimos, mediante o aumento dos elementos do próprio capital
reprodutivo. Por isso, o desenvolvimento do sistema de crédito e a enorme concentração do
negócio de empréstimo de dinheiro nas mãos dos grandes bancos tem de acelerar por si só a
acumulação do capital emprestável, como forma distinta da acumulação real. Esse rápido
desenvolvimento do capital de empréstimo é, assim, um resultado da acumulação real, pois deriva
do desenvolvimento do processo de reprodução, e o lucro, que forma a fonte de acumulação desses
capitalistas monetários, não é senão uma dedução do mais-valor extraído pelos capitalistas
reprodutivos (ao mesmo tempo que é a apropriação de uma parte dos juros obtidos sobre as
poupanças de outrem). O capital de empréstimo se acumula às expensas tanto dos capitalistas
industriais como dos capitalistas comerciais (Marx, 2017:559)

O sistema de crédito em desenvolvimento cumpre diferentes funções frente ao


próprio capital industrial – fazendo abstração de outras funcionalidades, como crédito ao
consumo. Este sistema possui, portanto, a determinação histórica de ser um produto do
desenvolvimento capitalista ao passo que se converte, igualmente, em condição desse
desenvolvimento. É nessa relação de pressuposto-resultado que se marca a funcionalidade
das “finanças” atreladas ao capital industrial.
Já se destacou antes a funcionalidade como valor de uso, isto é, engendrar um
lucro operando como capital. Interessam agora outros desdobramentos daí possibilitados.
Variados observadores identificaram um aspecto angular. Registou-se, por exemplo, que
“mais importante, (...), para o desenvolvimento industrial foi a segunda metade de sua
revolução: o surgimento do banco de investimento em ações” (Landes, 1979:206), cuja
“principal virtude (...) assenta-se em sua habilidade de canalizar riqueza para a indústria”
(Landes, 1979:207). Destaca-se, então, a funcionalidade de alavanca que o sistema de
crédito desempenha ao processo de acumulação de capitais (crescimento do capital total
empregado) e às consequências derivadas. Assim, diz-se que:

com a produção capitalista, constitui-se uma potência inteiramente nova: o sistema de crédito, que
em seus primórdios insinua-se sorrateiramente como modesto auxílio da acumulação e, por meio
de fios invisíveis, conduz às mãos de capitalistas individuais e associados recursos monetários que
se encontram dispersos pela superfície da sociedade em massas maiores ou menores, mas logo se
converte numa arma nova e temível na luta concorrencial e, por fim, num gigantesco mecanismo
social para a centralização dos capitais (Marx, 2013:702)

É preciso destacar, portanto, que o “sistema de crédito (...) concentra diante dos
capitalistas individuais a massa inorgânica do capital social disponível” (Marx,
2017:231), de modo que “emprestar e tomar dinheiro emprestado converte-se num
negócio específico” (Marx, 2017:454). Não obstante, é esse “sistema de crédito que
constitui a base fundamental para a transformação gradual das empresas capitalistas
privadas em sociedades capitalistas por ações” (Marx, 2017:498-499). É essa

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transformação resultante do sistema de crédito: a constituição de uma centralização e


concentração de capitais na forma monetária, permitindo lucros específicos nas operações
de crédito, mas igualmente centralização e concentração de capitais na forma industrial,
formando gigantescas corporações capitalistas. E “enquanto reforça e acelera desse modo
os efeitos da acumulação, a centralização amplia e acelera, ao mesmo tempo, as
revoluções na composição técnica do capital, que aumenta a parte constante deste último
à custa de sua parte variável” (Marx, 2013:703). Assim, estabelece-se um nexo importante
entre a disponibilidade de fluxo monetário e a acumulação real de capital produtivo na
forma de sua fração constante, isto é, expansão dos investimentos em maquinaria,
sobretudo, potencializando o avanço técnico.
Assim, considerando, como já antecipado, o capital constante como investimentos
em meios de produção (maquinaria, instrumentos de trabalho etc.), constata-se o maior
peso relativo das “condições técnicas do próprio processo de produção, a maquinaria, os
meios de transporte etc.” (Marx, 2013:707-8). É importante destacar que o que
efetivamente caracteriza o desenvolvimento da produção capitalista – e também em
considerável medida o desenvolvimento geral da sociedade – é o avanço do capital fixo,
isto é, da produção de máquinas por meio de máquinas, a constituição de um “sistema
automático da maquinaria” (Marx, 2011:580) como forma aperfeiçoada da base técnica,
um verdadeiro “sistema de máquinas” (Marx, 2013:495) em que prevalece o “princípio
da automação” (Marx, 2013:455), reduzindo tendencialmente o tempo socialmente
necessário à produção das mercadorias e tornando o trabalho, ainda que indispensável no
limite, subordinado à atividade científica como ponto mais avançado do sistema (Marx,
2011:581-9). Há implicações disso, mas é decisivo para a presente investigação reter a
funcionalidade do sistema de crédito ao desenvolvimento desse sistema intenso em
maquinaria (capital constante), possibilitando desse modo o avanço técnico nos limites
da produção capitalista que impõe a contradição de avançar e restringir o progresso das
forças produtivas (Santos, 1987). Mas este é outro assunto...
Não obstante, tudo indica, portanto, que o sistema de crédito desempenhou um
importante papel não apenas para a composição das sociedades por ações, mas para os
investimentos em capital fixo decorrentes, sobretudo, possibilitando os avanços técnicos
circunscritos no capital constante. Ainda que mudanças históricas tenham ocorrido no
peso relativo do sistema de crédito para investimentos produtivos (cf. Paço Cunha;
Guedes, 2018), é possível reforçar as possibilidades criadas aos processos inovativos pelo
fluxo de capital monetário.
Nesse sentido, Durand (2017) traz sínteses interessantes ao procurar combinar
certos fundamentos da crítica da economia política com incrementos apresentados por
Perez, representante de uma tradição neoshumpeteriana. Durand (2017:102) explica que
“instituições financeiras e mercados de ativos” contribuem para guiar fluxos de capital
em razão de realizar seleção entre setores com lucratividade decrescente e com
lucratividade promissora. Assim, esse “sistema de finanças” se divide entre a “lógica
predatória inerente à sua incapacidade de gerar valor por si mesmo e, por outro lado, seu
papel na organização da acumulação de capital, a qual favorece a inovação”.
Considerando esse ângulo, o autor estabelece que o quadro analítico de Perez:

mostra que, mesmo em seus momentos de excesso, a finança desempenha um papel cognitivo
essencial à reorganização econômica. Ao dar suporte aos esforços de escavar novas oportunidades
para o lucro, ela cria grande instabilidade, provoca depressões e aumenta as tensões
socioeconômicas. Mas, em última instância, ela contribui para a emergência de setor que traz um
novo dinamismo. Em contexto de declínio, a finança cria as condições para um desenvolvimento

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de novas forças produtivas. Entretanto, a realização desse potencial requer mudança institucional
de caráter sócio-político, cujo resultado é contingente (Durand, 2017:115)

De tal modo, esse quadro analítico destaca que a “mudança tecnológica está
inscrita em um movimento sistemático que se move ao passo da dinâmica do lucro”,
explica Durand (2017:117). Entretanto, a discussão da autora (cf. Perez, 2009) se limita
a destacar o financiamento via mercado de ações (capitalização) e não por meio do
sistema de crédito bancário privado.
O sistema de crédito teria perdido sua função histórica atrelado ao avanço técnico?
Com base em literatura marxista e não marxista (cf. Mandel, 1982; Minsky, 2008;
Paço Cunha; Guedes, 2018) – em que prevalecem, aos propósitos presentes, as categorias
da primeira –, é possível traçar uma linha geral das tendências de financiamento produtivo
em três fases que expressam o desenvolvimento do capitalismo monopolista. Encontra-
se síntese razoável das mudanças no relacionamento entre os bancos e o setor produtivo
nas economias centrais nas linhas que seguem:

A primeira fase clássica do capitalismo monopolista testemunha uma fusão entre o capital
produtivo e financeiro sob a dominância do segundo. A formação de capital fixo respondia ao
financiamento bancário por meio do crédito, pelo menos até um momento em que o crescimento
das corporações e dos lucros retidos diminuiu o grau de dependência com relação ao financiamento
bancário para ativos fixos. Alterações institucionais e na dinâmica econômica com os processos
de crise da primeira metade do século XX e de destruição de capitais durante os enfrentamentos
bélicos culminaram em uma segunda fase na qual se dá elevação das taxas médias de lucro,
sobretudo nas principais economias, criando condições para o autofinanciamento e consolidação
da tendência de diminuição da dependência do capital produtivo frente ao financeiro para aquele
período. A redução da taxa média de lucro do final dos anos de 1960 em diante, por decorrência
do aumento da composição orgânica do capital (Dobb) e sobre-acumulação (Mandel), forçou
alterações institucionais e nova liberalização de capitais financeiros na tentativa de reverter as
tendências gerais, implicando tendencialmente para baixo o autofinanciamento das grandes
corporações não financeiras, configurando assim a terceira fase do capitalismo monopolista.
Constitui-se uma fase em que os empréstimos realizados pelas grandes corporações não financiam,
no entanto, a formação de capital fixo, mas o crescimento do patrimônio financeiro das próprias
corporações não financeiras. (Paço Cunha; Guedes, 2018:7-8)

Os autores adicionam resultados da análise da continuidade do período pós-1970.


Uma conclusão principal é que o autofinanciamento é ainda predominante em relação a
empréstimos bancários para fins produtivos. A isso corresponde o fato de que o sistema
de crédito tem pouco peso sobre o avanço técnico se comparado com o investimento
próprio. Isso tem validade para as economias centrais em que o autofinanciamento
mostrou comportamento de alta a partir dos anos de 1970. A economia brasileira, ao
contrário, demonstrou tendência de queda no autofinanciamento no mesmo período.
Outra conclusão igualmente significativa:

há uma tendência geral de aumento do autofinanciamento nas economias centrais em condições


de queda da taxa média de lucro. Por um lado, é preciso ter em mente que o autofinanciamento
possui limites cíclicos e que o atual estágio, com tendência de alta, denota uma fase que não é
caracterizada pela predominância financeira sobre os investimentos produtivos, como na primeira
fase do capitalismo monopolista, nem pelos altos patamares de autofinanciamento da segunda fase.
Por outro lado, as taxas de lucros em queda são compensadas pelos lucros financeiros a ponto de
não derrubar drasticamente os investimentos internos ainda que os investimentos totais estejam
com tendência de queda (Paço Cunha; Guedes, 2018:17-18)

98
I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

É possível dizer, a partir disso, que a fase atual não é de queda abrupta do
autofinanciamento, retrocedendo à primeira fase, nem de patamar superior que iguale à
segunda fase. Sendo algo intermediário entre a primeira e a segunda fases, sustenta-se a
constatação de que o sistema de crédito bancário em particular tem menor relevância para
o avanço técnico tanto nas economias centrais quanto na economia dependente brasileira.
O destaque, agora, que precisa ser feito em decorrência desse problema é para a
funcionalidade do sistema de crédito no processo de acumulação dos capitais nas
economias centrais. Uma vez que o grande capital pôde, por assim dizer, caminhar com
suas próprias pernas, o sistema de crédito perdeu a predominância inicial sobre o
investimento para o progresso técnico. Um dos principais efeitos do desenvolvimento do
grande capital foi uma diminuição da funcionalidade do sistema de crédito, embora essa
funcionalidade tenha sido crucial, como vimos, ao próprio processo de desenvolvimento
do capitalismo industrial e de sua fase monopolista centrada na grande empresa. A
história dos trusts (de um Rockfeller, de um JP Morgan etc.), combinando bancos e
indústrias nos Estados Unidos, é emblemática com respeito a essa funcionalidade em
particular (cf. Sklar, 1988; Chandler, 1978; 1998).
Em contraste, esse aspecto é decisivo para uma introdução ao problema do sistema
de crédito no processo de formação do capitalismo no Brasil. A título de registro histórico,
é possível identificar nos anos de 1930 certas necessidades colocadas como condição ao
avanço da produção nacional. Simonsen (1931:48), espelhando-se consideravelmente no
exemplo alemão, escreveu que o “nosso aparelhamento bancário não favorece tampouco
o financiamento da produção, como necessitamos”, acrescentando, em seguida, a
exigência de que fossem

criados aparelhos especiais que estabeleçam o financiamento da indústria. Estudando o nosso


meio, precisamos fomentar a criação de bancos industriais que cuidem não somente do
financiamento das indústrias para aquisição de matérias primas e expansão dos mercados como
também que sirvam de intermediários entre as indústrias e o público, procurando o
encaminhamento de nossas economias para o desenvolvimento do trabalho nacional (Simonsen,
1931:48-9).

Até aquela data, apenas o Banco do Brasil provinha fontes de crédito ainda que
em extrema carência, como o próprio autor relata (Simonsen, 1931). Anos depois,
entretanto, registrou Bastos a funcionalidade do crédito internacional. O autor fornece
indicações gerais do financiamento bancário da siderurgia no Brasil, responsável por
ampliação do estoque de capital fixo, a partir do final anos de 1930 (para não considerar
os empréstimos estrangeiros durante o período imperial). O Export-Import Bank dos
Estados Unidos e do Japão desempenharam, em momentos distintos, papel como fontes
de financiamento. Sobretudo um banco norte-americano, pois conta-se em “105 milhões
de dólares o financiamento do EXIMBANK à Volta Redonda, no período de 1941 a 1956”
(Bastos, 1959:270). Outras iniciativas posteriores também são contabilizadas, como a
COSIPA que recebeu aportes do também estrangeiro Pan-American Investment (Bastos,
1959:282). São elementos suficientes para ressaltar que as exigências feitas por Simonsen
não foram resolvidas, nas décadas imediatamente seguintes, pelo desenvolvimento de um
sistema bancário interno orientado para o financiamento produtivo.
Para o período entre 1963 e 1973, há registros dos percentuais de empréstimos ao
setor privado industrial no Brasil, tendo por fonte bancos comerciais. Uma análise
superficial mostra tendência regular com inclinação de baixa, variando entre 42.3, para
1963, e 36.5, para 1973. Há, entretanto, variação mais significativa entre 1972, com 38.4,

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I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

e 1980, com 50.5, mas com inclinação de alta (Minella, 1988:160). Há, no entanto,
carência de informações sobre a participação dos empréstimos de bancos privados, ainda
que se tenha notícia de que até a década de 1980 foram fundamentais, com maior força
do que os bancos públicos tangente o financiamento das indústrias, conforme sugerido
pelos percentuais de empréstimos à indústria acima.
Se o sistema de crédito privado interno só pôde exercer alguma funcionalidade
entre 1963 e 1973 no Brasil, os dados mais recentes, como comentado (cf. Paço Cunha;
Guedes, 2018), denotam baixa do financiamento via sistema de crédito privado e alta do
autofinanciamento ainda que com inclinação decrescente da série histórica. Por isso é
possível ter bastante claro que a função desempenhada pelo sistema de crédito privado
nas economias centrais, forjando o capitalismo da grande corporação, não teve a mesma
efetividade em território brasileiro. Num primeiro momento, como se viu antes, marca-se
a ausência completa de um sistema bancário (Simonsen). Em seguida, dominância do
crédito internacional para a siderurgia (Bastos), principalmente. Numa fase entre as
décadas de 60 e 70, alguma acentuação do sistema de crédito privado frente aos públicos
(Minella) para, em fase superior, marcar-se o autofinanciamento produtivo como
predominante para o setor industrial. Esse quadro geral e tardio, que será aprofundado no
tópico a seguir com dados para o período posterior a 2005, expressa que o sistema de
crédito no Brasil não desempenhou papel relevante na formação do capital fixo ou mesmo
em processos inovativos, haja visto a contínua dependência técnica do país frente às
economias centrais.
Dessa forma, em termos histórico-comparativos, nas economias centrais o
financiamento via sistema de crédito privado teve função decisiva para formação do
grande capital monopolista (processo de acumulação) e, logo, do avanço técnico que o
acompanha, embora a dinâmica posterior desse mesmo capital tenha tornado
relativamente (e talvez provisoriamente) obsoleto o sistema de crédito privado frente ao
autofinanciamento para o avanço técnico. Ao mesmo tempo, não se pode dizer que tenha
se tornado relativamente obsoleto para a economia brasileira uma vez que tal sistema
jamais teve aquela mesma função. Quando houve alguma sinalização de efetivo
desenvolvimento do sistema de crédito privado interno no transcorrer das décadas de
1960 e 1970, o capitalismo das grandes corporações internacionais já estava, por assim
dizer, consolidado e entrante em fase de crise, restando as limitadas e insuficientes
experiências desenvolvimentistas (se é que se pode assim denominá-las). Dessa maneira,
estabelece-se uma relação de reciprocidade internacional entre as economias centrais e as
dependentes de modo que o próprio desenvolvimento do sistema de crédito interno ficou
historicamente bloqueado, bem como as possibilidades de criação das grandes
corporações de capital nacional:

Quando a produção capitalista de mercadorias conquistou e unificou o mercado mundial, ela não
criou um sistema uniforme de preços de produção, mas um sistema diferenciado de preços de
produção nacionais variáveis e preços unificados no mercado mundial. Isso permitiu que o capital
dos países capitalistas mais desenvolvidos conseguisse superlucros, pois suas mercadorias podiam
ser vendidas acima de seu ‘próprio’ preço nacional de produção e, no entanto, abaixo do ‘preço
nacional de produção’ do país comprador. Em última análise, esse sistema internacionalmente
hierarquizado e diferenciado de valores diversificados de mercadorias é explicado por um sistema
internacionalmente hierarquizado e diferenciado de níveis variáveis de produtividade do trabalho.
O imperialismo, longe de nivelar a composição orgânica do capital em escala internacional – ou
de conduzir a uma equiparação internacional das taxas de lucro – congelou e intensificou as
diferenças internacionais na composição orgânica de capital e no nível das taxas de lucro (Mandel,
1982:57)

100
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21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

Disso resulta que a composição orgânica do capital (a relação entre capital


constante e variável que expressa o grau de acumulação), nas economias subordinadas é
relativamente mais baixa, possibilitando extração de superlucros aos capitais
internacionais ali investidos. Isso, ao mesmo tempo, significa um investimento inferior
em avanço técnico nas próprias economias subordinadas e, assim, obstruindo
possibilidades inovativas de ordem produtiva em termos de maquinaria, principalmente.
E dado que tal composição se marca em nível inferior, as possibilidades de superlucros
advêm sobretudo de nível também inferior do preço da força de trabalho relativamente às
economias centrais. Assim, o desenvolvimento de maquinarias fica consideravelmente
limitado e mesmo sua difusão via importações é tardia e lenta, uma vez que baixos
salários não são estímulo para a substituição (ou substituição acelerada) da força de
trabalho por máquinas que ampliem a produtividade do capital uma vez que se pode
prolongar a extração de mais-valor sem recorrer a alterações significativas na base técnica
(Marx, 2013:466).
Assim se vê que o sistema de crédito em uma economia subordinada responde às
condições dessa subordinação econômica sem ter sido, até agora, alavanca de uma
ruptura. Igualmente se vê que uma análise da função das finanças na forma do sistema de
crédito obedece à dinâmica histórica e de reciprocidades entre economias particulares
numa unidade global. Vejamos em detalhes os dados que expressam mais correntemente
essas questões.

Avanço técnico e sistema de crédito restritos no Brasil


Para compreender a especificidade da função do crédito privado no financiamento
do avanço técnico no Brasil é preciso avaliar como tem se desenvolvido essas formas de
financiamento na realidade concreta através dos dados disponíveis com respeito à
inovação. O problema aqui não está integralmente coberto dada a ausência de alguns
dados específicos, mas, analisando aqueles disponíveis, pretende-se chegar a
aproximações razoáveis do problema.
Como informado na introdução, coletou-se dados entre 2005 e 2014 que
compreendem o período estabelecido como escopo da pesquisa. Em primeiro lugar, esse
período foi escolhido diante da disponibilidade da principal fonte de dados para este
estudo. No Brasil, recorreu-se à PINTEC (Pesquisa de Inovação) feita trienalmente em
indústrias brasileiras pelo IBGE. Outras fontes úteis ao balizamento desse estudo foram
o Centro de Estudos do IBMEC (CEMEC), o Ministério de Ciência, Tecnologia,
Inovações e Comunicações (MCTIT), e o Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES). E, como provedores de dados internacionais, a
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Bank for
International Settlements (BIS). Este período também contribui para o melhor
entendimento dos acontecimentos contemporâneos e fornece condições de apreensão da
dinâmica posterior ao período centralmente analisado no tópico anterior.
Em primeiro lugar, antes de adentrar no problema do financiamento em si, é
preciso destacar que o Brasil não ocupa uma posição privilegiada no que diz respeito aos
investimentos em P&D. No Gráfico 1, é possível ver que o nível de investimento do Brasil
é persistentemente mais baixo que o dos países mais desenvolvidos, embora se registre
um tímido crescimento. Isso denota uma condição de evolução restrita que mantém o país
subordinado a essas grandes economias na medida em que é incapaz de alcançar os níveis
de investimento ou mesmo de evolução de investimento dessas potências. Em parte, os

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investimentos em P&D nos países centrais correspondem ao não investimento no país


subordinado em tela.

Gráfico 1: Investimento em P&D 2005-14 (% PIB)

Fonte: adaptado de OCDE (2018)

Considerando a evolução de investimentos, percebe-se que no Brasil, em termos


de dispêndios, não há, de fato, uma diferença proporcional muito grande entre
investimentos públicos e empresariais. De acordo com o MCTIC (2017), no período em
debate, apenas em 2005 os investimentos empresariais foram superiores aos públicos
(52,3%). Nos outros anos, os gastos públicos predominaram. Em 2014, a proporção de
gastos públicos foi de 52,8%.
Embora sejam sutilmente inferiores, não podem ser deixados de lado os
investimentos empresariais. Inclusive é na origem desses investimentos onde se pode
buscar uma compreensão melhor acerca das fontes, especialmente o crédito.
Considerando pormenorizadamente os dados da pesquisa de inovação do IBGE, é
interessante observar o que mostram os dados das fontes de financiamento das empresas,
foco principal desse estudo. No caso do financiamento dos investimentos das empresas,
tem-se conforme a Tabela 1:

Tabela 1: Estrutura de financiamento de inovação das empresas 2005-2014


Estrutura do financiamento (%)
Das atividades de P&D Das demais atividades
Ano
De terceiros Próprios De terceiros
Próprios
Total Privado Público Exterior Total Privado Público
2005 89 11 4 7 - 81 19 11 9
2008 76 24 4 19 - 75 25 9 16
2011 87 13 0 11 2 78 22 5 17

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2014 84 16 1 14 1 85 15 3 12
Fonte: Adaptado de IBGE (2005; 2008; 2011; 2014)

No aspecto correspondente às fontes de financiamento, o levantamento do IBGE


apontou, em todos os anos, que, no mínimo 80% das atividades de P&D nas empresas
avaliadas eram financiadas com capital próprio, e os recursos públicos alcançaram, no
máximo 15%. E aqui não somente com P&D, mas também com as demais atividades
inovativas, o que denota uma participação quase insignificante do crédito, privado ou
público, na evolução tecnológica do país no setor empresarial. De modo geral, o
financiamento da inovação tecnológica do setor empresarial no Brasil depende em grande
monta do aporte das próprias empresas, sem que haja uma dependência mais clara frente
ao crédito sobretudo privado. Com isso se confirma, como adiantado na seção anterior, a
predominância, no contemporâneo, do autofinanciamento produtivo (Paço Cunha;
Guedes, 2018). E fica revelado, especificamente, a predominância do autofinanciamento
com relação aos aportes destinados ao avanço técnico. Em outros termos, o sistema de
crédito privado não desempenhou função positiva ao avanço técnico uma vez que mesmo
sua existência para esta finalidade no contexto atual é discutível, constituindo elemento
de continuidade de uma acumulação dependente em base técnica restritiva (Paço Cunha
et al., 2018).
Uma compreensão mais abrangente do problema pode ser vista com a análise dos
dados acerca das fontes de financiamento de P&D no levantamento da OCDE (Gráfico
2). A divisão é feita entre recursos governamentais e recursos empresariais. Em certa
medida, é inclusive possível questionar a importância global do crédito na medida em que
a classificação da própria OCDE para fontes empresariais de recursos para P&D se
constituem em empresas, pós-graduação, organizações não privadas e recursos
internacionais. Isto é, o crédito bancário não é sequer mencionado como uma fonte
importante de recursos para esses investimentos, especialmente. Seja como for, dado esse
espectro de possibilidades de financiamento, é interessante acompanhar como está
colocada a realidade brasileira em comparação com as principais economias, no que toca
a relação entre financiamento governamental e empresarial.

Gráfico 2: Recursos para P&D financiados pelas empresas 2005-14 (% PIB)

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Fonte: (UNESCO INSTITUTE FOR STATISTICS, 2018)

Como se vê, o financiamento empresarial é maior comumente nos países


desenvolvidos, isto é, ocupa uma posição mais importante, superior a 50%, não caindo
desse patamar mesmo em condições de oscilação, em particular, posteriormente à crise
de 2008. No Brasil, além de haver uma baixa participação deste tipo de financiamento,
ocorre um movimento mais claro de decréscimo. A despeito dessas tendências, é
importante salientar que o financiamento bancário pode estar contido nessa categoria
(fontes empresariais), que não isola somente os recursos próprios, mas contempla os
recursos empresariais em geral, podendo inclusive abranger os fundos de investimento
compostos por empresas de diversos setores2. Esta é uma limitação dos dados. É, todavia,
possível dizer, que o Brasil tem caminhado na direção contrária dos países desenvolvidos
quanto à participação do financiamento privado nos investimentos em P&D, e isto
implica, logicamente, o oposto quanto ao financiamento público. Vejamos os dados,
conforme Gráfico 3:

Gráfico 3: Recursos para P&D financiados pelo governo 2005-14 (% PIB)

Fonte: Adaptado de (UNESCO INSTITUTE FOR STATISTICS, 2018)

Novamente, o Brasil aparece destacado dos países desenvolvidos, na medida em


que apresenta uma condição de participação governamental no financiamento de P&D
maior que os países desenvolvidos. Ao mesmo tempo em que, no período, regrediram-se
os financiamentos empresariais, aumentaram os governamentais. A dependência do
aporte governamental é flagrante e cada vez mais acentuada para o período, na medida
em que a diferença em relação ao financiamento empresarial torna-se cada vez mais
elástica.

2
A título de exemplo, pode-se citar um aporte, anunciado em 2017, de 100 bilhões de dólares de um fundo
de investimentos liderado pelo SoftBank que engloba grandes empresas do setor de tecnologia como Apple,
recursos públicos da Arábia Saudita e fundo de investimentos dos Emirados Árabes, em tecnologia da
informação no Japão. (Jones, 2017).

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Existem ainda outras fontes importantes não governamentais consideradas pela


OCDE, mas por apresentarem valores pouco significantes não se faz necessário
apresenta-los nesta exposição. Ademais, os dados apontados denotam uma matriz de
investimento brasileira distante dos países desenvolvidos, mas mais do que isso, a
participação pouco importante, apesar de não muito clara, do crédito privado nesses
investimentos. A própria pouca especificação é em si mesma índice de uma condição do
caso concreto dos países analisados no conjunto, incluindo o caso brasileiro. O sistema
de crédito privado não parece servir de alavanca para o avanço técnico. Para o caso dos
países desenvolvidos, o resultado presente se deve a uma trajetória histórica em que o
crédito bancário criou condições de possibilidade de acumulação de capital produtivo. O
caso brasileiro é distinto, nesse aspecto, pois a ausência atual coincide com a própria
trajetória histórica.
De um outro prisma, tratando mais diretamente o problema do crédito bancário, é
possível ver também algumas diferenças entre o Brasil e os países desenvolvidos,
sobretudo no que diz respeito ao volume de crédito para o setor privado não financeiro,
conforme Gráfico 4:

Gráfico 4: Crédito bancário (público e privado) para o setor privado não


financeiro 2005-14 (% PIB)

Fonte: Elaborado a partir de BIS (2018)

Aqui é possível ver uma evolução do Brasil, mas que ainda o deixa aquém de
Japão e Alemanha. Há, contudo, um movimento progressivo, isto é, tem aumentado o
crédito bancário para os setores não financeiros ao contrário dos países desenvolvidos
que apresentam, no máximo, uma estagnação. É evidente que nesse aspecto, há uma série
de outros fatores envolvidos, como o endividamento das empresas e o impacto da crise
de 2008. Mas, no que diz respeito ao crédito para o setor produtivo, não é possível colocar
o Brasil num patamar claramente mais baixo do que os países desenvolvidos. Neste ponto,
ao contrário, há uma aproximação maior. Não é suficiente, não obstante, para afirmar a
existência de uma efetiva função do crédito bancário privado no financiamento do avanço
técnico uma vez que o volume não parece ser suficiente, ou não é empregado de fato para

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tal finalidade. Nos países desenvolvidos esse ponto chama mais a atenção, pois mesmo
havendo disponibilidade regular de crédito, o avanço técnico tem sido financiado com
recursos próprios. Mesmo uma compreensão das empresas que mais investem em P&D
segue, de certa forma, as indicações dadas pelos dados já apresentados. Um levantamento
da União Europeia de 2014, o Industrial R&D Investment Scoreboard que faz uma
radiografia dessas empresas, aponta que ao menos quarenta e cinco das cinquenta
empresas que mais investem, passaram por algum processo de fusão ou aquisição.
Segundo relatório divulgado, “em alguns casos grandes mudanças em P&D resultam de
fusões & aquisições (M&As) ou desfusões quando a companhia aprimora seu foco
vendendo ou multiplicando uma ou mais divisões” (EUROPEAN COMMISSION,
2014:32). Das 50 empresas que mais investem em P&D, a farmacêutica Pfizer negociou
49,23 bilhões de euros em fusões e aquisições entre 2007 e 2014. Por outro lado, a
farmacêutica Abbot
desfundiu sua divisão farmacêutica em uma companhia separada agora chamada AbbVie cujas
ações foram listadas em dezembro de 2012. A AbbVie agora tem uma capitalização de mercado
maior que a da Abbott, sua antiga proprietária. O resultado da cisão é que a AbbVie está no 52º
lugar no placar deste ano, enquanto a Abbott está no 95º lugar (no placar do ano passado, a Abbott
estava no 35º lugar) (EUROPEAN COMMISSION, 2014:32).

Isto indica como as fusões e desfusões podem ter influências no nível de


investimento dessas empresas em P&D. Embora isto possa indicar a influência da
negociação dessas empresas no mercado financeiro, não há, de fato, relação mais próxima
com o crédito bancário. Essas empresas que compõe a lista, estão localizadas
majoritariamente em países desenvolvidos (Estados Unidos, Japão e Alemanha). Não há
qualquer empresa brasileira no grupo, tratando-se assim de uma tendência mais das
principais economias.
Por esta razão, para ficar mais próximo ao problema aqui proposto, e ao caso
nacional, é possível indicar as categorias para as quais se destinam esses recursos do
crédito bancário no Brasil, conforme Tabela 2:

Tabela 2: Crédito doméstico para pessoas jurídicas em % do total


2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014
BNDES 27,0% 27,0% 33,2% 35,6% 35,3% 34,6% 35,1% 37,0%
Outras operações 15,8% 15,5% 14,9% 14,3% 14,8% 16,3% 18,4% 18,3%
Cheque especial + conta garantida 7,7% 6,7% 5,6% 5,0% 4,9% 4,2% 3,8% 3,5%
Aquisição e Leasing de bens 2,9% 2,8% 2,4% 2,0% 1,8% 1,7% 1,5% 1,4%
Financiamento imobiliário 1,1% 1,3% 1,9% 2,4% 2,9% 3,3% 3,7% 4,4%
Capital de giro 19,0% 24,2% 27,1% 28,2% 27,9% 28,3% 26,5% 24,6%
PJ recursos externos 12,8% 11,8% 6,0% 4,5% 4,9% 5,0% 4,9% 5,5%
Aquisição e leasing de veículos 4,2% 3,8% 3,4% 3,0% 2,9% 2,4% 1,9% 1,6%
Desconto cheques 9,6% 6,8% 5,5% 4,9% 4,5% 4,2% 4,2% 3,8%
Fonte: Elaborado a partir de CEMEC (2017)

Vê-se que o BNDES é o principal fornecedor de recursos, e sendo ele um banco


público, já se tem aí um indício de que as finanças privadas possuem um caráter restrito
no próprio conjunto de fornecimento de crédito bancário privado. Além de “outras
operações”, outra modalidade importante que aparece é o capital de giro, que também não

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diz respeito à inovação, mas à operacionalidade das empresas, incluindo aí a possibilidade


de ampliação do chamado patrimônio financeiro via compra de ações próprias ou de
terceiros. Das modalidades apresentadas, a única que pode estar mais próxima da
inovação em uma análise com menor critério é a compra ou leasing de bens ou veículos
que apresentam, ambos, números baixos se comparados a outras categorias. Ou seja,
tendo em conta o destino do crédito bancário no país, percebe-se que não há uma relação
muito próxima com a inovação. As finanças sob a forma do sistema de crédito privado
no Brasil não parecem se articular como um elemento fundamental para o
desenvolvimento do avanço técnico, confirmando as tendências históricas identificadas.
Fica assim sugerido que o sistema bancário privado pode exercer funcionalidade direta
não sobre o avanço técnico, mas sobre o capital de giro, possibilitando aquisições de
natureza financeira em lugar de produtivas, restando as últimas aos aportes próprios.
É certo que o Brasil não caminha na vanguarda no desenvolvimento tecnológico,
mas também não está estagnado. A grande maioria das empresas depende de capital
próprio para financiar seus investimentos em inovação, o que pode indicar, por outro lado,
baixo dinamismo histórico dos instrumentos de financiamento privados via sistema de
crédito. Nessa direção, não é possível encontrar, dentre os principais instrumentos de
créditos disponíveis para as empresas, nenhum diretamente ligado à inovação que seja
relevante. Vê-se, por exemplo, a importância do BNDES na cessão de crédito, mas ao
mesmo tempo dentre os indicadores de desembolso do banco, a inovação, embora tenha
evoluído de 2010 para 2014 (de 1,4 para 5,9%), ainda tem participação no total de
desembolsos do banco reduzida (BNDES, 2014). Em suma, ainda que tenha havido um
aumento no fornecimento de crédito bancário para o setor não financeiro, os dados têm
mostrado que esse crédito parece não desembocar no avanço técnico.
Por isso, não é possível afirmar que o sistema de crédito privado serve de alavanca
à inovação mesmo nos países mais desenvolvidos. O que se apresenta é justamente uma
matriz de financiamento diferente naqueles (impulsionada majoritariamente pelo setor
empresarial) e evidentemente, um volume de recursos maior empregado em inovação.
Para o caso brasileiro, como visto, tal sistema também não alimenta as possibilidades de
avanço técnico e isso como padrão histórico jamais modificado.

Considerações finais
O presente trabalho objetivou determinar a funcionalidade do sistema de crédito
ao avanço técnico por meio da análise teórico-histórica e de dados primários da economia
brasileira entre 2005 e 2014.
A maior limitação da pesquisa pode ser tributada aos dados. Não foi possível, por
exemplo, determinar o peso relativo do sistema de crédito privado para investimentos
produtivos na comparação entre as economias destacadas. Isso teria permitido
compreender melhor a dinâmica dessa modalidade de financiamento. Entretanto, os dados
são muito agregados quando não ausentes.
Ainda mediante a tais limitações, a análise dos dados sugere que o sistema de
crédito via bancos privados não desempenha função para o avanço técnico no Brasil,
repetindo o padrão histórico dessa economia subordinada. A acumulação de capital nos
países centrais bloqueou as possibilidades brasileiras, impedindo inclusive o
desenvolvimento de um sólido sistema de crédito bancário que desenvolvesse a
acumulação interna como pré-condição do avanço técnico.
O estudo histórico do sistema de crédito bancário permite compreender que a
funcionalidade desempenhada mesmo para as economias centrais foi alterada ao longo

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do desenvolvimento do capitalismo centrado nas grandes corporações multinacionais.


Determinado estágio de acumulação real do capital produtivo tornou relativamente (ou
talvez temporariamente) obsoleto o sistema de crédito bancário privado para o avanço
técnico. A apropriação de parte do mais-valor por via dos juros encontrou outros canais
de fluxo, como sugere-se adiante.
Não obstante, na economia brasileira, tal sistema não se tornou obsoleto em razão
de nunca ter, de fato, desempenhado tal finalidade, pois não houve alterações para o seu
padrão histórico. Ficou confirmado que o sistema de crédito privado no Brasil não serviu
e continua tendencialmente não servindo de alavanca para um aumento da composição
orgânica do capital e, daí, ao avanço técnico potencialmente atrelado dados os
investimentos em maquinaria (capital constante). Isso ficou evidenciado pelos
investimentos em inovação comparativamente a outros países. O crédito via bancos
privados parece financiar mais fluxo de caixa e outras operações enquanto investimentos
em P&D são feitos com recursos próprios e via BNDES.
Assim, as constatações aqui sugeridas não implicam que o sistema de crédito
bancário privado não tenha qualquer função. Tem, logicamente, para a circulação das
mercadorias como crédito ao consumo, aquisições de veículos, mobiliário etc. Tampouco
são eles pouco importantes, como sugerem os próprios dados de crédito bancário para o
setor não financeiro. Destaca-se o financiamento do fluxo de caixa que inclusive permite
aquisições financeiras, pressionando capitalização própria ou alheia como canal mais
propício para a apropriação de parte do mais-valor e, ao mesmo tempo,
consideravelmente mais aderente às modalidades de capital fictício e suas variantes
irracionais (Marx, 2017). Mas não parece mais cumprir a função do passado em
potencializar o avanço técnico via acumulação de capitais.
Há, portanto, uma alteração na função do sistema de crédito bancário privado para
as economias centrais, frente ao padrão anterior, e para a brasileira, frente a esse mesmo
padrão. Vê-se que, potencialmente, tal sistema se destina a financiar compra de ações,
conforme sugere parte da literatura sobre o assunto (Duménil; Lévy, 2014:72; 165).
É possível extrair questões que avancem a pesquisa sobre o tema. Primeiramente,
a semelhança em termos de fonte de investimento via autofinanciamento pode expressar
nada mais do que transferências das multinacionais por via dos investimentos diretos na
economia brasileira. Tais recursos provenientes das matrizes são potencialmente
direcionados mais à difusão da inovação, como compra de máquinas via importação, do
que investimento de risco em inovações radicais. Tais inovações radicais ficam a cargo
das matrizes nos países de origem ou da malha de pequenas firmas inovadoras
sumariamente adquiridas quando bem-sucedidas. Isso ajudaria a explicar o permanente
atraso tecnológico brasileiro sem sinais de ruptura do padrão de acumulação dependente
(cf. Paço Cunha et. al., 2018). O estudo, portanto, dos investimentos diretos podem ser
úteis para compreensão, inclusive, da maior ampliação do capital fixo no Brasil
comparativamente aos países de origem, isto é, a baixa tendencial dos investimentos em
capital constante nos próprios países de origem não se deve a uma “financeirização”, mas
ao esforço de obter superlucros nas economias subordinadas onde as taxas de lucro
tendem a ser superiores dada a baixa composição orgânica do capital (Durand; Gueuder,
2016; Durand, 2017).
Adicionalmente, é possível fazer abstração do sistema de crédito privado para o
problema da relação entre finanças e avanço técnico. Por um lado, há o papel da
capitalização potencialmente mais forte nesse aspecto, considerando também o venture
capital. Por outro, os pontos de concentração do capital nas bigtechs é um fator

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diferenciador se considerado que, outrora, foram os bancos os grandes centralizadores de


capital social. Além disso, os fundos que resultam da articulação de bancos, bigtechs e
fontes governamentais provenientes inclusive da exploração do petróleo são capazes de
direcionar maior fluxo de capital (cf. Jones, 2017). Esses são problemas a serem
investigados. É preciso igualmente saber o impacto do crescimento do patrimônio
financeiro sobre os investimentos produtivos de longo prazo nos quais se incluem o
avanço técnico. Considerando que as finanças impõem certo horizonte de curto prazo,
estaria o salto tecnológico limitado a tais expectativas? Se considerarmos que o sistema
de crédito financia fluxo de caixa e outras operações, estariam aí incluídos o patrimônio
financeiro. Mas isso tem impacto sobre os investimentos produtivos e de logo prazo como
P&D? Em termos mais diretos, há fuga de investimentos em direção ao crescimento do
patrimônio financeiro? O que esperar em condições de uma potencial alteração
tecnológica, como a que vem sendo chamada de quarta revolução industrial?

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CRÍTICA À RELAÇÃO ENTRE OS MICRO E PEQUENO NEGÓCIOS E O


GRANDE CAPITAL

Janaynna de Moura Ferraz


Universidade Federal do Oeste da Bahia
Universidade Federal de Minas Gerais
janaynna.ferraz@ ufob.edu.br

Bárbara Katherine Faris Biondini


Universidade Federal de Minas Gerais
barbarakfbiondini@gmail.com

Rossi Henrique Soares Chaves


Universidade Federal de Minas Gerais
rossichaves@hotmail.com

Resumo
O objetivo deste ensaio consiste em analisar a relação entre os micros e pequenos
empreendedores e o grande capital, seja pelo uso mediado pela tecnologia,
especialmente os apps para smartphones ou ainda por atuarem massivamente na esfera
da circulação. Foi realizada uma análise da produção científica brasileira que se
dedica/dedicou ao tema e também foram investigados os relatórios elaborados pelo
Global Entrepreneurship Management (GEM), pelo SEBRAE e pelo IBGE. A análise
consistiu em contrapor as justificativas desenvolvimentistas de empreendedorismo
como motor do crescimento econômico a partir da bipartição entre empreendedor por
necessidade versus por oportunidade. Percebemos que, no Brasil, ambos estão
relacionados muito mais com uma saída para o desemprego do que uma chance de criar
um negócio de alto impacto, não havendo, portanto, sustentação para o empreendedor
inovador schumpeteriano. Por fim, concluímos que há uma relação de dependência
entre grande e pequeno capital, o primeiro se vale do segundo para realizar o valor e/ou
rebaixar o capital variável, contudo, a troca é desigual, visto que o pequeno, como, em
geral, não produz mais-valor, é apenas remunerado pela realização, terminando não
conseguindo acumular.
Palavras-chave: Capital; empreendedorismo; crítica economia política; micro e
pequeno negócio.

CRITIQUE OF RELATIONSHIP BETWEEN MICRO AND SMALL BUSINESS


AND THE GREAT CAPITAL

Abstract
The purpose of this essay is to analyze the relationship between micro and small
entrepreneurs and great capital, either through the use mediated by technology,
especially smartphone apps or even to act massively in the sphere of circulation. An
analysis of the Brazilian scientific production dedicated to the topic was carried out and
the reports prepared by Global Entrepreneurship Management (GEM), SEBRAE and
IBGE were also investigated. The analysis consisted of opposing the developmental

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justifications of entrepreneurship as an engine of economic growth from the bipartition


between entrepreneur by necessity versus opportunity. We realize that in Brazil, both
are related much more to an exit to unemployment than a chance to create a high impact
business, and there is therefore no support for the innovative Schumpeterian
entrepreneur. Finally, we conclude that there is a relationship of dependence between
large and small capital, the former uses the latter to realize the value and / or lower
variable capital, however, the exchange is unequal, since the small, as in general, does
not produce more-value, is only remunerated for the achievement, ending up not being
able to accumulate.
Keywords: Capital; entrepreneurship; critical political economy; micro and small
business.

INTRODUÇÃO

— A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que o


soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem
trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-
lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que
esta é boa guerra, e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da
terra. — Quais gigantes? — disse Sancho Pança. [...] — Olhe bem Vossa
Mercê — disse o escudeiro — que aquilo não são gigantes, são moinhos de
vento [...] — Bem se vê — respondeu D. Quixote — que não andas corrente
nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em
oração enquanto eu vou entrar com eles em fera e desigual batalha. (Miguel
de Cervantes em Dom Quixote, 2005, p. 52)

O tema empreendedorismo tem sido extensivamente discutido em diversos


meios sociais, seja na academia, nas livrarias, nos programas de televisão, nos podcasts
ou no streaming, nas escolas e principalmente nos pequenos estabelecimentos que se
alastram pelos arredores das cidades (COSTA; BARROS; CARVALHO, 2011,
HISRICH; PETERS; SHEPHERD, 2014). O crescimento das discussões acerca da
temática se deu de maneira sutil e contínua, de modo que chega mesmo a ser elogioso o
desígnio de empreendedor, a ponto de se suspeitar sobre a existência de um espírito
empreendedor (PAIVA JUNIOR; ALMEIDA; GUERRA, 2008; FILARDI; BARROS;
FISCHMANN, 2014) como se fosse uma atualização da tese weberiana do capitalismo
para nosso tempo.
Atualmente, estima-se que haja 48 milhões de empreendedores brasileiros (cf.
GEM, 2017) cuja atuação se dá num cenário de precária estrutura produtiva, de baixo
nível de escolaridade, de baixo nível de pesquisa e de tecnologia, e, por fim, de alta
competitividade. O corolário desse cenário é que a maior parte das pequenas empresas
não ultrapassa o segundo ano de atividade (SEBRAE, 2017) - e quando conseguem se
desenvolver, são pressionadas por condições de atuação severas ao mesmo tempo em
que são fortemente influenciadas pela ideologia do empreendedor como o indivíduo que
supera as dificuldades, que é motivado, que é resiliente e que se perseverar chegará ao
sucesso, isto é, que com esforço e preparação será um grande capitalista (DORNELAS,
2008; HISRICH, PETERS, SHEPHERD, 2014).
Não estamos afirmando que um ou outro negócio não consiga crescer e tornar-se
um grande negócio, ou seja, que um trabalhador possa vir a ser um capitalista, possível
é - pois é basilar manter o encanto – contudo, o que a realidade assoma é que tais casos

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são raros, sendo fruto, muito mais de uma série de venturas do que necessariamente,
uma estrada comum. Não por acaso, no Brasil, a maior parte dos negócios são micros e
pequenos, o que faz com que a área da pesquisa de empreendedorismo esteja
intrinsecamente relacionada com os micros e pequenos empreendedores (MPE)
(FILLION, 1999; BARROS; PEREIRA, 2008; WADHWANI, 2010).
Diante desse contexto, nosso objetivo neste ensaio consiste em analisar a relação
entre os micros e pequenos empreendedores e o grande capital, seja por meio da
tecnologia, especialmente os apps para smartphones ou ainda por atuarem
massivamente na esfera da circulação (MARX, 2014).
A mediação da tecnologia tem profunda relação com o que tem sido nominado
Indústria 4.01 ou Quarta Revolução Industrial ou ainda Smart Factory (DREHER, 2016;
COSTA, 2017) assim, o smartphone foi aludido por nós como um ícone desse novo
estágio produtivo, por ser o canal que liga trabalhador-capitalista-consumidor. De
acordo com Schwab (2016) as principais alterações provenientes dessa nova Revolução
Industrial consistem na alteração das expectativas dos clientes; produtos mais
inteligentes e produtivos; novas formas de colaboração e parcerias; uma transformação
do modelo operacional e conversão em modelo digital. Seus pilares são, assim, a
Internet das coisas e serviços (IoT e IoS) e o Big Data (COSTA, 2017). Esse futuro
“inteligente” se anuncia em contradição com a condições de vida e trabalho dos que só
tem a força de trabalho para vender. O processo de valorização do valor encontra seus
obstáculos diante das próprias contradições, e na luta diária contra si mesmo e para si
mesmo o capital se metamorfoseia para continuar vivo e devorando todo o trabalho que
conseguir (MARX, 2013). De maneira, ainda que a compreensão das coisas do mundo
seja post festum, aparentemente a Indústria 4.02 tem modificado e pretende continuar
transformando as relações capitalistas, sem mudar, obviamente, suas bases estruturais:
exploração do trabalhador livre pelos capitalistas e mediação do Estado.
Acerca da circulação, ao seu turno, destacamos que 69% dos micros e pequenos
negócios se destinam a "serviços orientados para o consumidor" (GEM, 2017), o que
nos leva a inquirir o papel do empreendedorismo na aceleração da rotação do capital por
meio da realização do valor executado pelos micros e pequenos negócios; as
possibilidades de extração de mais-valor sem a necessidade de adiantar capital em
decorrência da fragilização das relações capital-trabalho mediadas pelo Estado seja por
meio da terceirização, do teletrabalho, do trabalho temporário ou ainda diretamente
entre grande capital e trabalhador no que tem sido chamado de uberização do trabalho
(FRANCO, FERRAZ, 2017), mediado por dispositivos tecnológicos (especialmente
com os smartphones).
Desconfiamos que a questão possa ser um pouco mais complexa que categorizar
o grupo dos empreendedores como "pequena burguesia" ou "classe média", e embora tal
grupo não se configure numa classe em si – visto que, assim como demais classes
proletárias vivem da própria força de trabalho –, devem ser analisadas em sua
particularidade dentro do capitalismo dependente brasileiro, visto que também exploram
força de trabalho, por outro lado, seu (pequeno) capital da mesma forma é incorporado

1
Não teremos espaço para discutir neste trabalho, restando-nos apenas pontuar que é uma mediação
importante para compreender a complexidade da relação capital-trabalho no mundo hoje.
2
O termo foi cunhado na Alemanha e se refere "a visão do que será uma fábrica no futuro" ou Smart
Factory que "é uma fábrica que faz produtos inteligentes, em equipamentos inteligentes, em cadeias de
abastecimento inteligentes" cf. Costa (2017, p. 7).

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na dinâmica de valorização de valor, seja pela produção ou na composição de capital


(ampliado).
Neste ensaio nos valemos da crítica da economia política marxiana e primamos
pelo ser do objeto, em sua materialidade e historicidade, esperando, dessa maneira,
avançar na compreensão do papel de uma importante franja da classe trabalhadora que
ora encontra-se do lado errado da trincheira, se distanciando, portanto, de um horizonte
emancipatório. Analisamos relatórios elaborados pelo Global Entrepreneurship
Management, doravante GEM, pelo SEBRAE e pelo IBGE em busca de dados que
pudessem contribuir com a reprodução ideal do movimento do real do fenômeno.
Quanto à exposição, este trabalho está organizado da seguinte maneira, após esta
introdução apresentamos uma breve exposição da produção científica sobre o
empreendedorismo, visando apontar que o fato de importar a explicação dificulta a
percepção da conjuntura no Brasil. Na sequência, expomos a investigação de algumas
mediações que explicam o empreendedorismo por oportunidade e por necessidade, bem
como a justificativa desenvolvimentista para o empreendedorismo. No quarto e último
tópico apresentamos as considerações finais.

EMPREENDEDORISMO MADE IN USA NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA


BRASILEIRA

Enquanto objeto de pesquisa, o empreendedorismo, no Brasil, data o início de


1990 (DORNELAS, 2008; ZEN; FRACASSO, 2008; BACELAR; TEIXEIRA, 2016;) e
tem ocupado progressivamente mais espaços em eventos da área da Administração,
tendo, inclusive, um evento especialmente voltado para os micros e pequenos negócios,
o EGEPE (Encontro de Estudos sobre Empreendedorismo e Gestão de Pequenas
Empresas), uma revista própria a REGEPE – Qualis B1 -, além de ser um tema que
atravessa diversas áreas temáticas do EnANPAD (Encontro da Associação Nacional de
Pós-Graduação e Pesquisa em Administração). Apenas para pontuar a magnitude, os
estudos bibliométricos da área indicam que 871 artigos científicos foram publicados
entre 2008 e 2014, 51% deles em periódicos cujos Qualis Capes3 variam entre B2, B1 e
A2 (BACELAR; TEIXEIRA, 2016). Um número robusto diante de outras áreas de
investigação dentro da Administração.
Fortemente influenciada pela literatura estadunidense, a produção nacional
reproduz seus conceitos como se fosse possível explicar a colônia e o império da mesma
maneira, sendo esse um dos pontos que tornam a pesquisa nacional frágil. Ao
compararmos os estudos estrangeiros (FERREIRA; PINTO; MIRANDA, 2015) e os
estudos brasileiros (BACELAR; TEIXEIRA, 2016) podemos inferir que as temáticas
convergem e também os autores referenciados, como Schumpeter, Shane e
Ventrakaram, Potter e Fillion, por exemplo. Há, contudo, uma diferença importante
entre o entrepreneurship e empreendedorismo (para além da semântica). Enquanto os
estudos do exterior combinam esforços para mapear a gestão das firmas (o que equivale,
na literatura da Administração, ao ambiente interno) alinhados com competição,
economia, mercado (isto é, ambiente externo), no Brasil, o foco se dá, em maior

3
"o Sistema Qualis foi instituído com o propósito de avaliar a produção científica dos programas de pós-
graduação stricto sensu, utiliza escalas de pontos para avaliar conjuntamente diferentes critérios, tais
como: normalização, regularidade, projeto gráfico, circulação, visibilidade, origem institucional e
geográfica dos autores, gestão editorial, além da quantidade, proporção e qualidade percebida dos artigos
publicados." (BACELAR; TEIXEIRA, 2016, p. 9).

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medida, na gestão do negócio e no comportamento desses sujeitos “empreendedores”


(FERREIRA et al, 2011; FERREIRA; PINTO; MIRANDA, 2015; BACELAR;
TEIXEIRA, 2016). Assim, os conceitos são importados, mas apenas parcialmente, e,
ainda assim, os argumentos que legitimam o empreendedorismo tanto como política
pública, quanto como objeto de investigação científica são os mesmos: combate ao
desemprego (AUTIO; FU, 2014; VALE, 2014; GONDIM; ROSA; PIMENTA, 2017) e
crescimento econômico (BARROS; PEREIRA, 2008; ZEN; FRACASSO, 2008;
SOUZA; LOPEZ JUNIOR, 2011; ISLA, 2015; ALMEIDA; VALADARES;
SEDIYAMA, 2017).
A tese que sustentamos neste ensaio é a de que os micros e pequenos
empreendedores no Brasil cumprem um papel importante no atual estágio das forças
produtivas do capitalismo dependente brasileiro, atuando como mediação para a
ampliação da valorização do valor do grande capital. Contudo, tal atividade não se
resume ao que tem sido propagado pelos ideólogos do capital, de que seria o
empreendedor o agente econômico por excelência ao ser o impulsionador da inovação, e
embora haja nuances que possibilitam a distinção entre os empreendedores por
oportunidade e o empreendedores por necessidade (GEM, 2017), ambos, grosso modo,
são corolário do movimento do capital e não força motriz. Sustentamos que, no segundo
caso, embora a aparência do fenômeno se relacione de maneira menos mediada, a
ideologia do empreendedorismo é um obstáculo de relevo para a consciência de classe,
para além da (importante questão) precarização do trabalho, conforme Jesus (2016)
apontou. No primeiro caso, por sua vez, a complexidade da relação exige maior exame
visto sua possível participação na (re)produção do valor.
Mas há ainda outro argumento bastante difundido pelos pesquisadores
brasileiros, a do empreendedor inovador de Schumpeter (ZEN; FRACASSO, 2008;
BRASIL; NOGUEIRA; FORTE, 2011; COSTA; BARROS; CARVALHO, 2011;
SANTOS-SILVA; MARTINS; CARVALHO NETO, 2014; FERREIRA; REIS;
PINTO, 2017), que insistem na teoria do economista austríaco de uma "destruição
criativa", como podemos observar a partir da afirmação de Barros e Pereira (2008, p.
977) (baseados no pesquisador americano Michael Porter)
A contribuição do empreendedor ao desenvolvimento econômico ocorre
fundamentalmente pela inovação que introduz e pela concorrência no
mercado. A inovação de produtos e de processos de produção está no coração
da competitividade de um país, conforme destacou Porter (1992).

Tem sido aceita a hipótese que o trabalho de Schumpeter exerceu grande


influência para o contexto americano, mas serviria para explicar o Brasil? A atividade
empreendedora pode determinar e ser determinada pelo desenvolvimento econômico de
maneiras opostas em países ricos (oportunidade, inovação) e países pobres (combate ao
desemprego), então, como poderia a inovação ter um comportamento idêntico em
contextos socioeconômicos tão distintos? Embora Schumpeter seja um dos autores mais
citados no Brasil – como foi apontado nas revisões bibliométricas (Cf. Ferreira; Pinto e
Miranda, 2015 e Bacelar e Teixeira, 2016) – os pesquisadores não explicam como essa
relação (empreendedorismo – desenvolvimento econômico – inovação) efetivamente
funciona, seus nós e limites, aparentemente, tal lacuna sugere que haja uma distância
entre o que dizem os ideólogos do empreendedorismo e as condições materiais em que
os empreendedores, em suas tipologias, efetivamente atuam.
A negligência ao postulado schumpeteriano chega a tal situação a ponto de
desconsiderar (ignorar?) que na sua obra tardia, Schumpeter (1946) acredita na

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obsolescência do empreendedor, momento em que a inovação trocaria de lócus. É o


professor de Development Economics and Entrepreneurship da Maastricht School of
Management, Win Naudé (2011), quem demonstra e sustenta que o postulado
schumpeteriano pouco influenciou os estudos sobre o desenvolvimento econômico pós
Segunda Guerra Mundial, não obstante, dado o afastamento contínuo entre estudos cujo
enfoque era o empreendedor individual e os aspectos econômicos e sociais do negócio
(WADHWANI, 2010), o empreendedor inovador permaneceu sendo utilizado de forma
particularizada, sem considerar o contexto, ou seja, continuou sendo reproduzida nas
pesquisas do empreendedorismo, porém em parte, tão somente aquela que interessava
para a massificação da ideologia empreendedora.
O que o ocorreu é que foram retirados excertos dos principais trabalhos de
Schumpeter a despeito da realização de uma investigação concreta, tomando-se, dessa
maneira, definições descontextualizadas para avalizar a inovação como uma categoria
abstrata e independente do cenário de reprodução das forças produtivas, sendo os
conceitos mais recorrentes, pelo que pudemos apurar nos diversos trabalhos
investigados, a destruição criativa e o empreendedor como motor do desenvolvimento
econômico, que como as lacunas na produção científica nacional demonstram, não se
sustentam.

MICROS E PEQUENOS NEGÓCIOS PARA ALÉM DA NECESSIDADE E DA


OPORTUNIDADE

Desde a década de 1990 vem sendo ampliada a ideia de um espírito


empreendedor no Brasil, cuja intenção seria propagar a atitude empreendedora como
algo virtuoso e necessário. Nas mídias de negócio fala-se de um capitalismo
empreendedor; a ascensão econômica no livre mercado e o herói global, conforme
apontam Costa, Barros e Martins (2012) enquanto na academia justifica-se o
empreendedorismo como sendo o motor do desenvolvimento econômico
(FONTENELE, 2010; NAUDÉ, 2011; SARFATI, 2013).
A ideia da produção de um espírito empreendedor não está apartada do real,
contudo também não representa a essência da relação capital-trabalho desses indivíduos,
o espírito empreendedor apenas “maquia” o capitalismo de hoje, afinal, como Marx
(2008) e Mészáros (2016) nos explicam, a ideologia não se restringe a uma mentira ou
falsa consciência, tendo pois uma raiz material que possibilita que seja operada como
um meio para acessar as contradições, conhecer sua natureza e transformá-la. De
maneira que se faz importante compreender materialmente como o empreendedorismo
efetivamente participa do sistema produtivo.
Situando o debate que sustenta a necessidade de um crescimento e
desenvolvimento da economia, a série histórica do crescimento do PIB brasileiro que no
período de 1950-1980, marcou uma taxa média de crescimento de 7,4% a.a., estagnou
em 2,5% a.a., em média, entre 1980-2015. Após uma leve elevação de 4,44% a.a. entre
2004 a 2011, vem apresentando um recuo que soma em média -0,96% nos últimos 6
anos no PIB nacional. Para Prado (2017), embora a produção tenha aumentado, o baixo
crescimento da produtividade das empresas brasileiras (economia dependente,
capitalismo tardio), atrelada a uma breve recuperação do poder de compra da classe
trabalhadora (decorrente da política de salário mínimo indexadas à inflação)
convergiram para as transformações da relação capital-trabalho cujas reformas estão nos
últimos estágios. Ao mesmo tempo, o que tem sido difundido é que os micros e

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pequenos empreendedores têm uma grande contribuição para o PIB (SEBRAE, 2015),
que deveriam, portanto, ser estimuladas.
Marx (2013, 2014, 2017) expõe de maneira totalizante como a valorização do
valor é tanto uma relação social quanto um processo de produção da vida, que não se
limita à esfera da produção - embora tenha nela seu momento preponderante -, sendo
um todo unitário de produção, distribuição, circulação e consumo (MARX, 2011). Ora,
a Indústria 4.0 prevê novas formas de relacionar esses quatro momentos utilizando para
isso a tecnologia digital como meio de produção robusto, ou seja, encontrar caminhos
para ampliar a extração mais-valor, seja reduzindo o capital adiantado, acelerando o
ciclo produtivo ou a circulação, descobrindo novas formas de valores de uso, contudo,
no centro de todo esse movimento está a uberização do trabalho, que marca o novo
estágio da valorização do valor.
Nesse contexto, é importante que analisemos a continuidade (relação capitalista)
sem perder de vista as descontinuidades (Indústria 4.0) e é necessário, igualmente,
investigar a particularidade do capitalismo dependente brasileiro em relação ao cenário
internacional, especialmente os chamados “países centrais” que detém a posse desses
conhecimentos objetivados. Entretanto, o que se vê, como sinalizado no item anterior, é
que pesquisadores brasileiros importam os conceitos gestados nos “países centrais”
como se nos países dependentes a reprodução da vida ocorresse da mesma maneira.
À guisa de exemplo, um dos principais manuais de empreendedorismo utilizados
no ensino do empreendedorismo no Brasil provém de uma tradução dos estadunidenses
Hisrich, Peters e Shepherd (2014), como costuma ocorrer nestes casos, o modelo
estadunidense é adotado como se explicasse todo o continente, especificamente o
empreendedorismo brasileiro. Neste livro, os autores classificam em três os tipos de
iniciativas empreendedoras: 1) estilo de vida – equivalente aos nossos micro e pequenos
negócios; 2) empresa de fundação – equivalente aos nossos médios negócios e que
possuem alguma inovação; 3) alto potencial – as startups, são empresas de crescimento
rápido. Notemos que os autores adicionam mais uma tipologia além da classificação
amplamente aceita do GEM (2017) – oportunidade e necessidade –, façamos, além
disso, duas observações que podem passar despercebidas: i) grandes negócios (o grande
capital) não entra na classificação e ii) os pesquisadores americanos destacam o papel
das empresas de alto potencial, cujo quantitativo e o debate é insipiente no Brasil.
O empreendedorismo brasileiro se relaciona, em maior medida, como uma
opção, muitas vezes a única, para que um enorme contingente de trabalhadores possa se
sustentar e por outro lado, ameniza os embates no qual a mediação do Estado, sob a
justificativa de combate aos índices de desempregos, incentiva o empreendedorismo e
faz parecer que a produção econômica está sob controle. Se nos “países centrais” o
empreendedorismo se apresentou desde a implantação da política neoliberal como uma
possibilidade de baratear a inovação e um meio efeito de combater o desemprego
estrutural (WADHWANI, 2010), no Brasil, mesmo a segunda opção é operada em
circunstâncias perniciosas, o que se convencionou chamar de empreendedorismo
engloba basicamente dois diferentes contextos - um nos “países centrais” e outro nos
países de capitalismo dependente e periféricos - , não seria imprudente afirmar, no
entanto, que as "gradações de empreendedorismos" seriam ainda maiores.
No Brasil, estima-se que 21% da população adulta, 22 milhões de pessoas,
seriam "Trabalhadores por conta própria" (PNAD/IBGE, 2017), um número em
tendência de alta frente às contrarreformas em andamento. Vide tabela 1. Chama
atenção os 10 milhões de empregados sem registro (sem a chancela do Estado) e os 4

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milhões de “empregadores”, pois, esses três tipos (conta-própria, empregados sem


registro, empregadores) de ocupações da força de trabalho estão relacionados com o
empreendedorismo, e perfazem 35% do total.

Tabela 1: Força de trabalho, no Brasil, no 1o trimestre de 2017

Fonte: SEBRAE (2017, p. 19 apud PNAD Contínua IBGE)


Vamos dividir, para fins didáticos, os empreendedores em dois grandes grupos:
os conta-própria (pois não tem empregados) e que equivalem ao empreendedor por
necessidade do GEM (2017) e os empreendedores por oportunidade, que na nossa
análise, seriam aqueles que teriam empregados - sejam eles formalizados ou não.
Segundo o GEM (2017), no Brasil, apenas no ano de 2002 havia mais empreendedor
por necessidade que por oportunidade, um quadro que se inverteu e se manteve em
ascensão desde então, sendo achatado apenas recentemente - após a crise de 2008 -,
quando em 2015 a proporção fica mais equilibrada. Contudo, sumariamente, conforme
ressaltam Barros e Melo (2008), metade dos empreendedores brasileiros seriam por
oportunidade e metade por necessidade.
A motivação para empreender (para além da necessidade de subsistir a própria
existência) também é investigada pelo GEM (2017), que sem qualquer modéstia
apresenta “os sonhos da população brasileira entre 18 e 64 anos”, divididos entre
aqueles que já empreendem e aqueles que desejam fazê-lo. Foi possível que os
entrevistados apontassem mais de um “sonho”, um fato auspicioso, visto que dada suas
condições materiais, talvez, o “espírito empreendedor” se quer aparecesse, como pode
ser visto na Tabela 2.
Uma análise preliminar nos permite induzir que quase metade dos respondentes
não possui propriedades tidas como elementares para a classe média nacional, como
imóvel (47%) e veículo (38%), por exemplo, e se 34% acreditam que ter o próprio
negócio será um meio possível para a realização de tais sonhos, 29% não tem ensino
superior, delineando, ainda que superficialmente, o perfil da população empreendedora
brasileira. Basta mencionar que o sonho de 8% desses indivíduos é adquirir um
computador ou tablet ou smartphone, tamanha a limitação do poder de compra.

Tabela 2: Os sonhos da população brasileira entre 18 e 64 anos (em %)

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Fonte: GEM (2017, p. 84).


Partiremos das duas franjas de empreendedores, oportunidade e necessidade,
para analisá-las mais detidamente.

O conta-própria ou empreendedor por necessidade


De acordo com o GEM (2017, p. 6), os empreendedores por necessidade, são
aqueles que "teriam afirmado ter iniciado o negócio por não possuírem outra opção de
trabalho e renda". São os trabalhadores tratados nos relatórios governamentais e na
academia pelo nome de conta-própria, que para o IBGE (2018, s/p) é a “pessoa que
trabalhava explorando o seu próprio empreendimento, sozinha ou com sócio, sem ter
empregado e contando, ou não, com a ajuda de trabalhador não-remunerado”.
Boa parte dos "conta-própria" - apontados na Tabela 1 - não estão registrados
como pessoa jurídica, mesmo com ostensiva política do Microempreendedor Individual
(MEI), que visa a "inclusão" dos trabalhadores informais no contrato jurídico estatal,
mas que não haverá espaço neste breve ensaio para aprofundar. Nos resta apenas
pontuar que sua ação material consistiu, em maior medida, na legalização da
precarização do trabalho, sem a devida contrapartida do fundo público.
Em uma investigação com e sobre os trabalhadores conta-própria de São Paulo,
os famosos ambulantes da 25 de março, Jesus (2016, p. 12) percebeu que
esta nova tentativa do capital em reconceituar o trabalho informal e
“disponibilizar” aos trabalhadores maior liberdade e possibilidade de
propriedade, perspectivas permeadas pelo discurso do sucesso sob o
comportamento empreendedor, conduz a contradições complexas na
composição e no conteúdo do trabalho informal, ao criar mecanismos
políticos e econômicos (...) ao operar na desconstrução do sujeito que
trabalha e na criação dos indivíduos que empreendem, sem colocar em pauta
o contexto capitalista que exige novo comportamento e um novo
gerenciamento da força de trabalho, mas com o objetivo único de gerar mais-
valia e manter seguro o circuito de realização das mercadorias.

Historicamente, no Brasil, a informalidade nos postos de trabalho esteve sempre


pareada com os postos formais, isso ocorre desde o processo de industrialização
nacional iniciado nos anos 1930 e consiste mais numa maneira de rebaixar o preço da
força de trabalho abaixo do seu valor que uma política de criação de empregos
(OLIVEIRA, 2013), ou seja, a via Colonial (CHASIN, 2000; PAÇO-CUNHA;
REZENDE, 2018) em seu corolário, também teria sua parcela de culpa do que
hodiernamente se conhece por empreendedorismo. O grande número de desempregados
no país não possibilita muitas alternativas para este estrato da população que se vê
impelida a “empreender”. Um fato constatado por Barros e Pereira (2008) e ratificado

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por Nogami e Machado (2011), a partir de um estudo empírico, foi que nos municípios
onde há maior proporção de trabalhadores conta-própria, o índice de desemprego é
menor, mas que este tipo de empreendedorismo, quando comparado ao crescimento do
PIB no local, revela um impacto negativo. Por isso, eles alertam
Em primeiro lugar, o conjunto destes trabalhadores é muito heterogêneo tanto
na natureza das atividades que exercem, quanto na motivação para
empreender. Profissionais liberais misturam-se aos camelôs e artesãos;
empreendedores inovadores (schumpeterianos) a proprietários-gerentes.
Outra limitação é a medição do conjunto de negócios existentes e não do
fluxo de novos negócios. Apesar das limitações, o conceito de empreendedor
equivalente a trabalhador por conta-própria continua sendo muito utilizado na
investigação científica. (BARROS; PEREIRA, 2008, p. 981)

No que se refere ao combate ao desemprego, o que as pesquisas empíricas


conseguiram demonstrar (BARROS; PEREIRA, 2008; NOGAMI; MACHADO, 2011;
NAUDÉ, 2011; SOUZA; LOPEZ JR., 2011) foi que em países com IDH baixo, as taxas
de empreendedorismo são maiores, o que faz com que de modo geral, o
empreendedorismo combata o índice de desemprego, contudo, não há evidências de que
contribua com o crescimento econômico (BARROS; PEREIRA, 2008; NAUDÉ, 2011).
Mesmo assim, eles reforçam que as políticas públicas de fomento a esses sujeitos
deveriam ser mantidas, o que é esperado, pois elas cumprem um papel a serviço da
reprodução do capital e contra o trabalhador.
Essa relação entre desemprego e empreendedorismo não consiste em uma
novidade, o fato novo que estamos buscando ressaltar é que esse estímulo do
empreendedorismo e todo o seu arsenal ideológico não apenas precariza as condições de
trabalho e vida desses indivíduos, mas também cumpre um papel na conformação da
classe trabalhadora (JESUS, 2016) que entende que a culpa pelo desemprego é sua
(FERRAZ, 2016), e, sobretudo, é sua a responsabilidade por ter uma vida melhor, o que
contribui com a formação de uma subjetividade individualista, que isenta e rechaça o
Estado - isenta quando o exime da responsabilidade pela empregabilidade, visto que,
como já sinalizado, o índice de empreendedorismo pode ser inversamente proporcional
ao do desemprego, ainda que isso não signifique melhores condições de vida aos
indivíduos, e rechaça quando aponta que é o Estado que impede o crescimento dos
empreendimentos, devido à quantidade de impostos requeridos. Vemos que se vê nos
grandes empresários a ética destes tempos, ratificando o que Marx e Engels (2007)
explanaram, que as ideias da classe dominante são ideias da sociabilidade vigente.
Ademais, além da superexploração e da conformação diante da luta de classes, o
empreendedorismo por necessidade (ou conta-própria) atua na manutenção dos baixos
salários praticados no Brasil, conforme o movimento do exército de reserva explanados
por Marx (2013) ao explicar a Inglaterra do século XIX e também por Ferraz (2013;
2015) ao demonstrar que a lógica imanente do capital atua na particularidade brasileira
mantendo intactas as bases da valorização do valor e avançando sobre a exploração da
força de trabalho.
E se o mercado de trabalho formal do Brasil pode ser caracterizado por
atividades de baixa complexidade, cujo rendimento médio real, segundo o IBGE (2018),
não ultrapassa 3 salários mínimos - sendo importante ressaltar que o maior quantitativo
destes postos são oferecidos pelas Micro e Pequenas Empresas, que são responsáveis
por 27% do PIB no Brasil e 52% dos trabalhos com carteira assinada (SEBRAE, 2015),
ou seja, o quantitativo desses postos de trabalho é considerável -, não é difícil supor que
o cenário para a atividade informal é ainda mais penosa.

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Nessa rota, fica latente um dos papéis que o Estado cumpre na luta de classe,
pois um dos critérios para categorizar “formal ou informal” é o registro na carteira de
trabalho, que faz com que a atividade seja regida pela Consolidação das Leis do
Trabalho (CLT), cuja proposição consiste em garantir proteção ao trabalhador, que seria
o lado “mais fraco”4 do contrato social mais emblemático do capitalismo: relação
capital-trabalho. Neste sentido, com o aumento do trabalho informal, o que podemos
observar é a crescente fragilidade das já limitadas garantias trabalhistas, o que empurra
os salários de médio para baixo, mas, contudo, retira a mediação do Estado, o que
poderia ser uma possibilidade de percepção da condição de exploração, se, por outro
lado, a extração do mais-valor não estivesse tão sofisticada como no caso dos motoristas
do Uber, por exemplo (além de diversos outros) que por não terem uma relação de
trabalho clássica (patrão, folha de ponto, colegas, etc.) desenvolve uma reprodução da
força de trabalho relativamente apartada da produção geral do mais-valor extraído pelo
capitalista.
Formal ou informal, assim, corresponde à forma como o contrato entre
capitalista e trabalhador é estabelecido, se a compra e a venda da força de trabalho
possuem um registro com fins legais para atender as normas jurídicas do país ele é
formal, se não, ele é informal. Não obstante, nem todo instrumento jurídico que medeia
a compra e a venda da força de trabalho garante acesso a todos os direitos trabalhistas.
Assim, na medida em que a informalidade é ensejada, a relação de troca mercantil da
força de trabalho permanece, contudo, o acesso aos direitos é diferente, assim, de um
modo geral, há perda de direitos de um grupo em relação ao outro, e neste caso
consolida-se a precarização das relações trabalhistas.
O entendimento dos limites da "formalidade" da venda da força de trabalho é
relevante na medida em que se apresenta por um lado, como uma necessidade
contingente da classe trabalhadora, em busca de melhores condições para reproduzir a
própria existência, bem como reduzir o mais-trabalho. Por outro lado, o direito (do
trabalho, inclusive) é forma ideológica de manutenção do modo de produção capitalista
(MASCARO, 2016; SARTORI, 2016) e como Marx (2010) argumenta, um aumento
geral de salário não seria útil aos trabalhadores [tomando a emancipação humana por
horizonte] e mesmo a atuação sindical é prejudicial, na medida em que a luta é por
conseguir meios mais amenos de exploração, e não por emancipação. Formal e
informal, portanto, se relaciona com condições de reprodução da existência e com a
organização e luta da classe trabalhadora.

O empreendedor por oportunidade

De acordo com o GEM (2017, p. 6), os empreendedores por oportunidade são


"aqueles que afirmaram ter iniciado o negócio, principalmente motivados pela
percepção de uma oportunidade no ambiente". Esses empreendedores, diferente dos
discutidos no tópico anterior, geralmente possuem trabalhadores – formalizados ou não
– embora os próprios empresários também atuem em seus negócios.

4
Ao classificar a classe trabalhadora como o lado mais fraco, que precisa da proteção do Estado, a
burocracia estatal cumpre seu papel de conformação na luta de classe, servindo como “juiz de paz”,
aquele que produz o valor – o trabalhador – vê-se impotente diante das leis, da ordem, da necessidade de
reprodução da própria existência, semelhante a situação apontada por Marx (2012) na França de Luís
Bonaparte.

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Dados do GEM (2017) apontam que nos empreendimentos em estágio


nascente, 1% atua apenas como pessoa jurídica (PJ) e 32% duplamente, como pessoa
física (PF) e PJ ao mesmo tempo, provavelmente a atuação sem registro é uma forma de
facilitar a evasão fiscal. Já os empreendedores estabelecidos buscam com o tempo
"formalizar" a atuação (provavelmente para buscar financiamento), 4,2% atuam
exclusivamente por meio da PJ, 22,6% alternando PF e PJ, mesmo assim, ainda são
73,2% atuando na "informalidade", isto é, como pessoa física.
No total, 6.700.828 empresas estão registradas no RAIS (Relação Anual de
Informações Sociais), 99% delas (6.634.119) cadastradas como micros e pequenas
empresas. Os critérios de classificação são os seguintes: MPE - até 49 empregados se o
ramo de atuação for comércio ou serviço e até 99 se for indústria ou construção; médias
empresas - entre 50 a 99 empregados, se comércio ou serviço, e de 100 a 499
empregados na indústria e construção. As grandes empresas, ao seu turno, são aquelas
com mais de 100 empregados no comércio ou serviço e se for indústria ou construção,
mais de 500 empregados. Ou seja, 99% das empresas, no Brasil, têm até 49
funcionários. A maior parte desses negócios está no setor de comércio (48,5%) e
serviços5 (38,3%), i.e., na esfera da circulação; quanto à força de trabalho que atua nas
MPE, 42,9% está no comércio; 32% em serviços e apenas 25,2% na indústria. E o
documento do SEBRAE (2015, p. 33) conclui que
Embora o capitalismo moderno se caracterize por forte tendência à
concentração em grandes empresas, o lugar de micro e pequenas empresas
está garantido em atividades como Serviços e Comércio, em que economias
de escala não sejam tão relevantes como ocorre nas atividades Industriais.
Para isso, as ações do SEBRAE se fazem cada vez mais necessárias.

A tendência à concentração (e a acumulação) relatada é imanente ao modo de


produção capitalista e não característica do estágio atual das forças produtivas, não
obstante, a menção ao "lugar garantido" das MPE que merece destaque, pois ao que nos
parece, se fossem atividades com potencial lucrativo estaria com o grande capital,
portanto, ao tomarmos por horizonte a totalidade do processo de valorização do valor, -
produção, circulação, distribuição e consumo - é possível perceber que os MPE estão
cumprindo uma tarefa no ciclo do capital.
Ora, no comércio, quem vende, vende um bem que foi produzido (certamente
por alguma grande indústria); no assim chamado "serviços", a atuação contribui para a
barateamento do preço da força de trabalho e também no consumo de produtos
produzidos pelas grandes, pensemos, por exemplo, num salão de beleza de um bairro
periférico especializado em cabelos crespos, a empreendedora foi demitida do salão
SPA Hair Studio da zona sul da cidade, investiu o FGTS nos equipamentos, contratou
cabeleireiras e manicures sem formalizar o contrato e que são remuneradas por
produção (seria financeiramente inviável assinar as carteiras de trabalhos), os produtos
utilizados são de uma poderosa indústria farmacêutica "engajada na luta contra o
preconceito", ou melhor, interessada em novos clientes.
Tentando muito brevemente sintetizar o fenômeno em sua complexidade: ao
considerar o movimento do capital que prescinde do capital adiantado para valorização
do valor (D-M-D’), tais empreendimentos encontram-se limitados na competição tanto
5
Serviços: "atividades de transportes, serviços auxiliares aos transportes e correios, serviços prestados
principalmente às famílias, serviços de informação e comunicação, atividades imobiliárias, serviços
profissionais, administrativos e complementares, serviços de manutenção e reparação, e outras atividades
de serviços" (SEBRAE, 2015, p. 8).

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por não dispor de capital suficiente para mobilizar a reprodução (ou por atuarem na
esfera circulação), como pela composição orgânica do seu (pequeno) capital, que se
destina ao pagamento do capital variável, embora a massa de extração de mais-trabalho
seja inferior aos níveis praticados pelos setores produtivos. Não sendo possível,
portanto, acumular mediante o ciclo do capital, pois não basta produzir, é preciso
reproduzir o capital para que a acumulação aconteça. Observemos no gráfico 1 que as
microempresas apresentam um índice de mortalidade substancialmente superior às dos
outros portes.

Gráfico 1: Taxa de mortalidade de empresas de anos por porte

Fonte: Sebrae (2016, p. 16).

Alguém pode questionar porque as MEI tem mortalidade inferior aos pequenos e
a causa principal, ao tomarmos o modo de produção capitalista, é que por trás do CNPJ
do MEI há um trabalhador desempregado ou informal que não tem outra alternativa
para subsistir é o caso do empreendedor por necessidade supra-abordado, isto é, não se
configura numa relação de D-M-D', trata-se, pois, da realização de alguma atividade de
baixa complexidade6 cujo rendimento vem do valor produzido pelo próprio trabalho e
vendido para outros trabalhadores; assim, quando encerram as atividades é porque não
conseguem sequer continuar desempenhando o trabalho que vinham fazendo. Nas
médias e grandes a perspectiva é outra, pois há capital investido, mas isso é outro
assunto. Marx, desde os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, havia atinado
para a concorrência de forças desproporcionais entre pequenos e grandes que faz do
primeiro o equivalente a um trabalhador. Para ele
O pequeno capitalista, tem, portanto, a escolha: 1) ou consumir totalmente
(aufessen) o seu capital, posto que ele não pode mais viver dos juros;
portanto, deixar de ser capitalista; ou 2) montar ele próprio um negócio,
vender mais barato sua mercadoria e comprar mais caro do que o capitalista
mais rico e pagar um salário elevado; portanto, arruinar-se, dado que o preço
de mercado, mediante a pressuposta elevada concorrência, já está baixo
demais. Se, ao contrário, o grande capitalista quer derrubar o pequeno, tem
perante este último todas as vantagens que o capitalista, como capitalista, tem
perante o trabalhador. Os ganhos menores lhe são compensados através da

6
As 10 atividades com maiores registros no MEI são: Comércio de vestuário e acessórios; barbeiro,
cabeleireiro, manicure/pedicure; pedreiro; cozinheiro (marmitaria, salgados, doceria); lanchonete;
depilador, esteticista, maquiador; promotor de eventos; eletricista; vendedor ambulante de produtos
alimentícios (churrasqueiro, pipoqueiro, sorveteiro); panfleteiro, promotor de vendas. Conforme Central
do MEI disponível em https://centraldomei.com/top-10-cnaes-mais-utilizados-pelo-microempreendedor-
individual-mei/ Acesso em 21 jun. 2018.

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maior quantidade do seu capital7, e ele pode inclusive suportar prejuízos


momentâneos por um tempo, até que o pequeno capitalista esteja arruinado e
ele se veja livre dessa concorrência. Assim, ele acumula os ganhos do
pequeno capitalista. (MARX, 2004, p. 50).

Contudo, a explicação que os ideólogos do empreendedorismo fornecem para a


mortalidade desses negócios são outras. Segundo o GEM (2017, p. 89), as barreiras que
impedem essas empresas cresçam são: “políticas governamentais; apoio financeiro;
educação e capacitação; características da força de trabalho e normas culturais e
sociais”. Esses seriam os gigantes - numa analogia ao romance de Cervantes - pois é
aparência do confronto (que é real, por sua vez) entre os MPE e a reprodução da
existência deles na sociabilidade capitalista. Mas, e quem seriam os moinhos de vento?
Seriam os movimentos do capital personalizados nos capitalistas. Diante desse cenário,
de intensa concorrência com os grandes; o fato de ter pouco (ou nenhum) capital para
adiantar na forma de meios de produção, atrelada à baixa produtividade - que seria o
meio capaz de elevar a extração do mais-valor relativo - decorrente da precária inovação
existente no capitalismo dependente brasileiro, faz com que os pequenos negócios
sucumbam.
O maior vilão, segundo organizações como a Endeavor8, é o Estado, pois, "A
burocracia que o empreendedor vive todos os dias é um dos maiores obstáculos para o
crescimento no brasil", como aludem na campanha intitulada "Burocracia Para Tudo9".
Atribui-se, então, à burocracia estatal a culpa pelo "atraso" que a formalização faz ao
empreendedor e ao crescimento econômico, a despeito da existência de MPE (formais
ou não) e de não haver uma relação significativa entre este tipo de empreendedorismo e
o desenvolvimento econômico, pelo contrário.
Dentre os motivos combinados que culminam com a sobrevivência ou
mortalidade das empresas, são pontuados: a) situação antes da abertura, quanto à tipo de
ocupação do empresário, experiência no ramo, motivação para o negócio; b)
planejamento do negócio; gestão do negócio; c) capacitação dos donos em gestão
empresarial (SEBRAE, 2016). O que se vê aqui é que a literatura empreendedora atribui
ao próprio empreendedor a culpa pelo fracasso, tal como ocorre na produção acadêmica
nacional acerca da temática, que centra-se no nível do indivíduo e afasta a análise
ambiental, pois se assim o fizesse teria que apresentar que as condições para competir
no capitalismo dependente brasileiro não credenciam os indivíduos da classe
trabalhadora, sequer, a entrar na briga.
Em resumo, se a empresa não prosperar a culpa será, em primeiro lugar, do
Estado que tanto burocratiza a exploração quanto leva o lucro na forma de imposto, em
segundo lugar, do próprio empreendedor que não se preparou para a "batalha". Não
obstante, não conseguimos encontrar nenhum autor da temática que explique que a
concorrência entre grandes e pequenos é tão provável quanto ganhar em uma loteria.
Mencionamos anteriormente que o argumento de que o empreendedorismo seria
o motor do desenvolvimento econômico por meio da inovação também não se sustenta,

7
Em seus estudos mais desenvolvidos, em O Capital, especialmente no Livro II, Marx aponta que não a
vantagem do grande capitalista não é pela quantidade de capital, i.e., que não é uma questão de grandeza,
mas do ciclo de rotação que envolve tanto a produção quanto a circulação do valor.
8
“É uma organização global sem fins lucrativos com a missão de multiplicar o poder de transformação
dos empreendedores”. Seja lá o isso signifique.
9
Disponível em http://burocraciaparatudo.com.br/

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ademais, a maior parte da atividade produtiva desenvolvida pelos MPE brasileiros se


destina à atividades de baixa complexidade como alimentação, vestuários, comércio,
etc., que não possuem relação direta com inovação tecnológica. Dados do IBGE (2015
apud Sebrae, 2017, p. 15) demonstram que as chamadas empresas de alto crescimento10
representam apenas 0,7% das empresas ativas. O que vemos é que o indivíduo inovador
schumpeteriano não seria um habitante de terras brasileiras, em seu capitalismo
dependente.
Entretanto, ao mesmo tempo, esses micro e pequenos empreendedores não estão
isolados da Indústria 4.0, pois assim como ocorreu com o revolucionamento das forças
produtivas desde a consolidação da sociabilidade capitalista, nesta última não há algum
aspecto da (re)produção da relação capital-trabalho que não seja tocado. Tem sido
crescente o uso de tecnologia digital, principalmente por meio dos app dos smartphones
- que foram massificados no Brasil - pelos conta-própria e MPE, seja para comprar ou
mesmo para vender, pode ser o Whatsapp para negociar, ou usar o Uber para fazer
alguma entrega, ou receber o pagamento com uma maquininha de cartão de crédito sem
fio, quem sabe pagar o boleto do fornecedor pelo home banking, ou apenas passar
adiante o post ou a corrente com uma frase de efeito sobre a "resiliência do herói
empreendedor", tudo isso aparece como se fosse sem custo para o usuário, mas que
oculta o fato de os dados coletados estarem sendo enviados para algum lugar (BIG
DATA), que há um intermediário sem rosto (IoT) que está sendo comissionado sem
necessitar adiantar capital e que com o mercado da palma da mão, o ciclo de
metamorfose do capital pode ser acelerado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: GIGANTES OU MOINHOS DE VENTO?

Nosso objetivo neste ensaio consistiu em analisar a relação entre os micro e


pequenos empreendedores e o grande capital, seja pelo uso mediado pela tecnologia,
especialmente os apps para smartphones ou ainda por atuarem massivamente na esfera
da circulação. Concluímos, pois, que há uma relação de dependência entre grande e
pequeno capital, o primeiro se vale do segundo para realizar o valor e/ou rebaixar o
capital variável, contudo, a troca é desigual, visto que o pequeno, como em geral não
produz mais-valor, é apenas remunerado pela realização, terminando não conseguindo
acumular. Os conta-própria tiram os rendimentos do próprio trabalho enquanto os MPE
conseguem as taxas de lucro (que é diferente do mais-valor) por meio da exploração da
força de trabalho (maior parte dela informal) e o grande capital ganha em qualquer um
dos cenários, seja pelo rebaixamento do preço do capital variável, seja pela aceleração
do ciclo do capital, seja pelo reforço ideológico do "espírito empreendedor".
Todo esse processo se dá mediado pelo Estado, "juiz de paz" e senhor do formal
e informal. Porém não é o Estado (a formalização dos trabalhadores, os impostos, a
educação deficitária, etc.) a causa do fracasso dos MPE, é antes, o capital, por isso
dizemos que o que aparece como gigantes, são moinhos de vento. Onde os
empreendedores veem obstáculos para empreender, o que existe de fato é o movimento
do capital, em sua lógica destrutiva e alienante.
Agora, pois, começamos a perceber com mais nitidez as franjas de classe
representadas aqui pelo empreendedorismo, como explica Sarfati (2013, p. 27) "o
10
“Aquelas apresentam crescimento médio do pessoal ocupado assalariado de pelo menos 20% ao ano
por um período de três anos e tem 10 pessoas ou mais ocupadas assalariadas no ano inicial de
observação” (EUROSTAT-OECD..., 2007)

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trabalhador por conta própria ou o tradicional pequeno empresário (estilo de vida) não
pode ser confundido com o empreendedor de alto impacto”, pois, a grande diferença
estaria na capacidade que o segundo tem de contribuir com o crescimento econômico.
Contudo, fica a dúvida: crescimento econômico de quem? Desse capitalista individual
(0,7% das empresas nacionais) ou do país? Seria o primeiro, e mesmo que fosse
crescimento econômico nacional, não seria possível afirmar que representasse um ganho
no desenvolvimento econômico, especialmente pelo capitalismo dependente existente
no Brasil. Mas, e quem ganha com a produção dessas startups?
Considerando que as políticas públicas de fomento ao empreendedorismo no
Brasil, em geral, se direcionam aos micros e pequenos negócios; que parte expressiva
desses negócios estão às margens da legalização estatal mas que estas empresas geram o
maior quantitativo de postos de trabalho da força produtiva, embora não sejam,
necessariamente, os responsáveis pelo crescimento econômico, qual o papel efetivo dos
micros e pequenos empreendedores, considerando que eles por um lado, exploram
outros trabalhadores e por outro lado, precisam fazê-lo em condições de competição
global? Para além de todo imbróglio dessa complexa relação que envolve o pequeno
empreendedor, o Estado e o grande empresário, afirmamos que a concorrência entre os
capitalistas individuais obscurece o movimento geral do capital, o deus mercado se
mostra como justo: reconhecendo os melhores e punindo os despreparados, e nisso a
luta de classes é dissolvida pois aparentemente não há mais classes, todos seriam
capitalistas.
Por isso, assim como em Dom Quixote, a cegueira não o permitiu visualizar que
não eram gigantes, eram moinhos de vento. Os MPE ao tentarem enfrentar a
concorrência no mercado lutam com as armas (e a tática) errada, pois a cegueira - a
atitude empreendedora -, em sua peleja diária pela sobrevivência torna-se um obstáculo
para sua práxis emancipatória, até mesmo para realização de seus "sonhos", o que não
impede que a agressão ao herói seja real e violenta (fechamento das empresas, perda de
dinheiro, tempo de vida dedicado ao capital). Entretanto, se o nosso Quixote - os MPE -
soubesse que o inimigo é outro - o Capital, talvez a luta se desse de outra maneira...
como no conto, o amigo Sancho Pança tenta intervir, que façamos o mesmo.

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TOYOTISMO COMO IDEOLOGIA NA PARTICULARIDADE BRASILEIRA


(1980-2000)1

Leandro Theodoro Guedes


ltheodoroguedes@yahoo.com
Universidade Federal de Juiz de Fora

Elcemir Paço Cunha


paco.cunha@facc.ufjf.br
Universidade Federal de Juiz de Fora

René Campos Teixeira Monteiro Junior


rene.ctmj@gmail.com
Universidade Federal de Juiz de Fora

Resumo
Este texto tem por objetivo contribuir com o estudo histórico das teorias administrativas
no Brasil e sua caracterização como ideologia, atuando na resolução de conflitos.
Concentrou-se especificamente na concreção do toyotismo na indústria nacional,
sobretudo no setor metalomecânico, e suas ressonâncias nas décadas finais do século XX.
Desse modo, constatou-se que diferentemente de outros complexos do pensamento
administrativo nas décadas anteriores como o taylorismo e o humanismo, o toyotismo
atuou dirimindo conflitos na particularidade brasileira. Isto se deu fundamentalmente por
intermédio da reestruturação produtiva e dos Círculos de Controle de Qualidade (CCQ),
importantes para a regressão das pautas sindicais e enfraquecimento da luta sindical
evidenciada pela redução do número de greves num período que sucedeu o momento de
maior vulto do movimento sindical neste país, ao mesmo tempo em que outros elementos
como o direito (mais atuantes em outros momentos) diminuíram a participação nessa
resolução de conflitos.
Palavras-chave: Toyotismo, Materialismo, Ideologia, Sindicalismo

TOYOTISM AS IDEOLOGY IN THE BRAZILIAN PARTICULARITY (1980-


2000)

Abstract
This text aims at contributing to the historical study of administrative theories in Brazil
and its characterization as ideology, actuating in conflicts resolution. It was concentrated
especially on Toyotism concretion in national industry, mainly in the metalworking
sector, and its resonances on twentieth century final decades. Therefore, the research
showed that differently from other complexes of the administrative thought in past
decades, as Taylorism and Humanism, Toyotism did acted resolving conflicts in Brazilian
particularity. It happened, fundamentally, by means of productive restructuring and
Quality Control Circle (QCC), which were very important in the regression of union
agendas and in the weakening of union struggle emphasized by a decrease in number of

1
Agradecemos à FAPEMIG – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais pelo apoio à
pesquisa que gerou o presente artigo.

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strikes in a period that followed the most massive moment of union movement in this
country. At the same time other elements such as the law (important in other moments)
decreased its participation in this conflicts resolution.
Keywords: Toyotism, Materialism, Ideology, Unionism

Introdução
As recentes pesquisas acerca da atuação das teorias administrativas como
ideologia no Brasil, privilegiando as evidências históricas probantes de sua efetividade
(ou ausência delas) (cf. PAÇO CUNHA; GUEDES, 2015; PAÇO CUNHA; GUEDES,
2017; PAÇO CUNHA et. al., 2017), têm dado fôlego a este velho e sempre renovado
problema, continuando o importante debate iniciado pelos clássicos da crítica marxista
da administração (TRAGTENBERG, 2005; MOTTA, 1984; FARIA, 2004). Recuperar,
historicamente, o traçado dessas teorias é fundamental para situar sua disseminação e
influência no Brasil e articulá-las às determinações econômicas e sociais sem que se faça
necessariamente alguma generalização que distancie o problema das suas bases reais.
A questão candente é demonstrar, por meio da pesquisa concreto-histórica, a
efetividade ou não de tais teorias, particularmente sobre os conflitos sociais no Brasil.
Como veremos adiante, um conjunto de ideias se convertem em ideologia quando são
acionadas por classes sociais no esforço de dirimir e dirigir, por assim dizer, os conflitos
sociais provenientes das condições basilares da sociedade capitalista. A presente linha de
investigação não se realiza pela nomeação, num plano mais teórico, das teorias da
administração como ideologia pelo fato de serem ideias interessadas que distorcem a
realidade (Tragtenberg é o melhor exemplo desse tratamento, cf. Paço Cunha; Guedes,
2015), mas privilegia os elementos probantes da conversão de determinadas ideias em
força material capaz principalmente de dissuadir temporariamente, claro, o conflito que
emana dos antagonismos classistas fundamentais.
Especificamente na presente exposição, pretende-se inquirir se o assim chamado
toyotismo atuou, na realidade brasileira, como ideologia. Não somente guiando a prática
das empresas, portanto, mas sendo um importante instrumento para a resolução dos
conflitos sociais, especificamente entre capital e trabalho. Para isso, elegemos o período
das décadas de 1980 e 1990, que compreenderam a introdução e o amadurecimento desse
ideário administrativo nas indústrias do ABC paulista, como o escopo temporal da
pesquisa. Entende-se também o setor industrial como aquele em que o modelo toyotista
de organização do trabalho é mais permeável e pode atuar de maneira mais profunda e o
ABC como a região mais prolífica da industrialização brasileira, logo, um laboratório
prático da introdução dessas técnicas no período. Em se falando de conflitos sociais, é
possível analisar a efetivação prática do toyotismo em conjunto com o movimento das
lutas operárias que dão o tom dos conflitos e que se materializam através de suas
expressões mais claras: as greves. Portanto, falar-se-á do toyotismo enquanto ideologia
caso ele tenha atuado na contenção dessas greves por ser um critério mais objetivo ainda
que não inteiramente suficiente e, por isso, deve ser complementado com outros aspectos
do próprio período investigado. Dessa forma, o objetivo foi determinar em que medida o
toyotismo se efetivou como ideologia nas indústrias do ABC paulista entre 1980 e 1990,
utilizando como critério básico o comportamento quantitativo das greves para o mesmo
período.
Como importantes recursos metodológicos, foram elementares para a realização
do estudo a avaliação qualitativa de materiais que contenham elementos da história desses
movimentos e da prática das indústrias no período estudado, bem como aqueles que se

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debrucem sobre a própria atuação do toyotismo. Foi também importante a avaliação de


indicadores estatísticos acerca das movimentações operárias e dados macroeconômicos
que denotem marcas da atuação daquele “sistema de produção”. Ambos deram elementos
probantes para as argumentações, podendo indicar, inclusive, fatores concorrentes nessa
atuação como ideologia ou mesmo consequências da sua atuação. Evidentemente, muitos
elementos não serão cobertos. Chegar-se-á a aproximações possíveis que atenderão ao
problema aqui proposto, deixando as limitações, ao final comentadas, para serem sanadas
por outras pesquisas necessárias.
Com efeito, o presente artigo está dividido em três partes. Num primeiro
momento, será feita uma avaliação dos antecedentes do período em debate lançando olhar
sobre os aspectos importantes do “novo sindicalismo” e das técnicas administrativas que
incidiam à época. Em seguida, procurar-se-á levantar os elementos gerais do toyotismo
enquanto prática particular. Depois será avaliada a década de 1980 em que aparecerão os
primeiros traços do modelo japonês no Brasil e por fim, acompanhar-se-á sua concreção
definitiva na década seguinte e os elementos decorrentes.

Ideologia do toyotismo ou toyotismo como ideologia?


Neste tópico consideraremos a determinação material da ideologia que norteou a
pesquisa e também os aspectos centrais do toyotismo que o caracterizam em seu sentido
prático. Esse último aspecto é igualmente importante por ajudar a demarcar o critério
decisivo à delimitação da própria ideologia.
Tradicionalmente, identifica-se ideologia a ideia, a um conjunto mais ou menos
amplo de afirmações e posições. Ideologia, então, estaria associada ao plano das ideias.
Mas não ideias de qualquer qualidade. Por ideologia também se identifica as falsas ideias,
as que distorcem a realidade e, por isso, é bastante frequente a ligação entre ideologia e
ilusão, imaginário e termos mais ou menos correlatos. Essa posição é possível de ser
extraída de diferentes materiais clássicos e também de outros mais recentes (cf. PAÇO
CUNHA; GUEDES, 2015).
A despeito da grande difusão dessa posição, nossa análise no presente trabalho
caminha em direção bastante distinta, pois acentua-se a dupla não identidade pura entre
ideologia e ideia e entre ideologia e falsidade. Não significa também que ideias não
possam ser convertidas em ideologia ou que esta não possa ser falsa. Ocorre, entretanto,
que a determinação ontoprática da ideologia (Vaisman, 1996) a explicita como força
material, inclusive em sentido prático, independentemente de sua falsidade ou
veracidade. Pode-se dizer, seguindo Lukács (2013), que a ideologia se determina por sua
efetividade e duração. Enquanto a primeira denota os efeitos reais mais imediatos na
realidade posta, a segunda é atinente à profundidade de tais efeitos. Limitando-nos, no
presente trabalho, ao primeiro aspecto, é nesses termos que se diferencia a ontoprática de
uma compreensão epistemologizante. Quer dizer, podendo ser verdadeira ou falsa, o que
determina algo (um sistema de ideias, por exemplo) como ideologia é sua efetiva atuação
na realidade social:

(...) verdade ou falsidade ainda não fazem de um ponto de vista uma ideologia. Nem um
ponto de vista individualmente verdadeiro ou falso, nem uma hipótese, teoria etc., científica
verdadeira ou falsa constituem em si e por si só uma ideologia: eles podem vir a tornar‑se
uma ideologia, como vimos. Eles podem se converter em ideologia só depois que tiverem se
transformado em veículo teórico ou prático para enfrentar e resolver conflitos sociais, sejam
estes de maior ou menor amplitude, determinantes dos destinos do mundo ou episódicos. Não
é difícil perceber isso no plano histórico (LUKÁCS, 2013, p. 467).

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Destacam-se dois aspectos importantes. A realidade social, como se vê na


passagem, não é algo amorfo. A ideologia tem sua funcionalidade inscrita nos conflitos
sociais, de maior ou menor alcance, que moldam essa mesma realidade. Conforme
colocou Vaisman (2010, p. 50), “algo, portanto, transforma-se em ideologia, não nasce
necessariamente ideologia, e essa transformação depende de vir a desempenhar uma
função precisa junto às lutas sociais em qualquer nível destas”. Por outro lado, percebe-
se que há uma conversão de algo em ideologia, isto é, ideologia é meio teórico ou prático
de atuação nos conflitos sociais. Queremos destacar sobretudo esse sentido de “veículo
prático” porquanto nos aproxima mais da problemática que pretendemos enaltecer com
respeito ao toyotismo não como um conjunto de ideias, princípios e regras, ou expressão
autêntica ou mistificadora da realidade, mas na medida em que esses elementos
convergem de maneiras variadas por veículo prático, constituindo-se assim em força
material.
Por este motivo, parece ser possível avançar na discussão da ideologia do
toyotismo, que vá além da “a amplitude de valores e regras de organização da produção
que sustentam uma série de protocolos organizacionais” (cf. Alves, 2000, p. 3). O passo
adiante está em determinar de forma concreta a efetividade do toyotismo como veículo
prático que potencialmente direciona o rumo dos conflitos sociais.
Com isto em mente, entende-se que tal veículo prático, também enquanto prática
administrativa, está posicionado justamente no âmago do conflito social básico do modo
de produção capitalista, entre capital e trabalho, e por esta razão é sensível a este conflito.
Por decorrência, é esperado que as formas de consciência teóricas associadas a tal prática
administrativa reflitam igualmente marcas desse conflito. Há então uma potencialidade
de atuação, como ideologia, nas condições objetivas do processo de trabalho e para além
dele. Mas não é suficiente a constatação desse potencial se tal forma de consciência
teórica for desprovida de meios práticos, podendo haver formas de consciência teóricas
que jamais são convertidas em ideologia. Daí a importância de nosso destaque à
efetivação da ideologia como veículo prático, restando saber sobre as contingências
históricas em que a potencialidade típica das formações ideias, incluindo aí a “teoria do
toyotismo” – por assim dizer – se tornou efetividade.
Essa determinação, entretanto, não exime de uma explicitação dos aspectos
nucleares dessa “teoria do toyotismo”, pois nos fornece também certo critério para
identificar as especificidades daquilo que veio a ser posto na particularidade brasileira.
Em síntese, podemos dizer, com base em Gounet (1999), Lima (2002) e Alves (2000) que
os principais aspectos podem ser resumidos a: 1. Produção puxada e flexibilidade da base
produtiva e da organização do trabalho; 2. diminuição do número de trabalhadores,
seguindo a tendência imposta nos anos anteriores na economia japonesa; 3. Um
envolvimento, engajamento da força de trabalho polivalente por meio de distintos
expedientes; 4. Mecanismos de organização da produção: automação por meio da
robótica (ao menos em uma fase superior de desenvolvimento), kanban, andon, Círculos
de Controle e Qualidade (CCQ) etc. O CCQ, em particular, possui um sentido especial.
Têm por objetivo o envolvimento dos trabalhadores e do sindicato no projeto de empresa,
encorajando uma posição mais agressiva e ambiciosa, não apenas dentro do grupo, mas
como ganho no caráter de suas posições pessoais, como explicou Lima (2002). A mesma
autora argumenta que esse tipo de dominação não tem o objetivo de ser uma participação
democrática, mas sim uma ferramenta para suprimir sindicatos: “Essa processualidade
deslocou do cenário histórico a resistência organizada dos trabalhadores e a possibilidade

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da solidariedade de classe” (LIMA, 2002, p. 57). Assim os sindicatos combativos


perderam espaço para aqueles mais corporativos e isso teve importantes ressonâncias nos
conflitos de classe no Japão cujo objetivo é a defesa do projeto da empresa. O toyotismo
não apenas consolidou seu espaço em cima da derrota do sindicalismo combativo,
classista, mas garantiu as bases para o surgimento de um sindicato pautado pela
colaboração com os gestores, o que já se apresenta como índice importante da potência
para resolver conflitos. Ainda segundo a autora, esse vínculo do sindicato ao toyotismo
acontece não apenas nos momentos de inovação tecnológica, mas também na inserção de
novos trabalhadores e como uma forma de levar o operário a participar das contínuas
inovações tecnológicas.
Esses aspectos de especificidade gravitam acerca de o núcleo invariante de se
tratar de remodelagem do processo de trabalho, tal como as práticas anteriores do
taylorismo e fordismo. Mas enquanto estes estiveram limitados consideravelmente a um
estágio ainda no interior do que se pode nomear por manufatura moderna, o primeiro
guarda maior potencialidade de se acoplar às mudanças na base técnica, particularmente
por meio da automação centrada na robótica e microeletrônica (SARTELLI; KABAT,
2014), embora seja algo apreensível em fase superior de desenvolvimento (MORAES
NETO, 2003). Não obstante, o núcleo invariante aponta para a redução do tempo de
trabalho socialmente necessário, intensificando o processo de trabalho quando não se
combina à redução quantitativa dos postos de trabalho. Tanto os aspectos de
especificidade quanto o núcleo invariante, entretanto, estão submetidos às
particularidades históricas.
Assim, tendo evidenciado a exigência de uma investigação material para se chegar
às condições de possibilidade de efetivação de ideologia, é preciso considerar as
particularidades distintas que se estabelecem no desenvolver histórico do capitalismo. O
que mostra, por exemplo, que não se pode, peremptoriamente, aceitar a história das teorias
administrativas nos Estados Unidos refletida no Brasil (cf. PAÇO CUNHA; GUEDES,
2017). O caso brasileiro exige um exame dedicado, centrado nos enlaces decisivos de
suas determinações particulares, compreendendo que a particularidade resulta da unidade
entre os traços gerais que identificam tanto os sistemas econômicos quanto a circulação
das ideias nos diferentes países e os traços singulares, muito específicos de cada formação
social. Sendo a história brasileira o plano principal deste trabalho, é primaz, portanto,
considerar a função, neste caso, do toyotismo na particularidade brasileira. Deve-se
considerar a tessitura sócio-histórica que condiciona a elaboração de uma ideologia e dá
as condições de possibilidade para efetuar-se atendendo o objetivo para o qual está
direcionada. A função, nesse contexto, dá conta do efeito prático da ideologia. As
consequências da sua atuação na condução dos conflitos podem dar o grau dessa
efetividade. Este é o elemento que sentenciará, de fato, algo como ideologia.

Notas preambulares: o novo sindicalismo e o taylorismo à brasileira dos anos 1970


Vargas (1985) assevera ter havido, sucessivamente, desde a década de 1930,
tentativas de implementação do taylorismo no Brasil, que, após sucessos efêmeros,
acabaram por se desenvolver como uma forma particular e generalizada nos anos 1970.
Com o “humanismo”, introduzido no país por intelectuais europeus (por meio da
psicotécnica) com o objetivo de ministrar cursos para a formação de gestores, sequer
chegou a haver um desenvolvimento substancial. Já na década de 1950 era tido como
exiguamente desenvolvido, pouco pesquisado e sem qualquer efeito prático (CUNHA,
1957). E já se mostrou que esse “humanismo” não teve efetividade como ideologia no

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Brasil, ao menos não até 1960 (cf. PAÇO CUNHA; GUEDES, 2017). Considerando que
até os anos de 1960 as teorias administrativas não apresentavam presença significativa na
própria prática das empresas, e, decerto, não se efetivaram como ideologia, cabe agora
debruçar-se sobre a década seguinte (1970), mais precisamente sobre a sua metade final.
De modo geral, é interessante acompanhar a argumentação de Fleury (1979), a
despeito do esquematismo que impõe algum purismo. Ao realizar pesquisa em empresas
de vários setores da Grande São Paulo, com a intenção de verificar o grau de
racionalização do trabalho, pôde colocar de maneira bem sintética o estágio de
desenvolvimento da organização do trabalho ao final dos anos 1970. Os resultados
mostraram que a forma organizativa das empresas pesquisadas, em geral, não se
enquadrava em nenhum modelo estabelecido nas principais correntes teóricas do
pensamento administrativo naquele momento. Designa então a forma de organização
encontrada nas empresas brasileiras como “rotinização” que “não permite a formação de
grupos e separa o planejamento de execução da tarefa até um nível conveniente”.
Contudo, “não estabelece a maneira ótima de produzir; não procede ao selecionamento e
desenvolvimento cientifico do trabalhador; não usa recompensas monetárias como fator
motivacional para aumentar a produtividade” (FLEURY, 1979, p. 24). Depreende-se
assim que, era possível, a esse tempo, falar em uma “racionalização” no principal centro
industrial brasileiro, não obstante suas debilidades em relação ao “taylorismo clássico”
(ou conceitualmente puro).
Se por um lado não houve a atuação da administração para dirimir conflitos
sociais, por outro a repressão do Estado, historicamente, atuou diretamente sobre as
organizações sindicais. Está posto exatamente o contexto de apoio do Estado para lidar
com a eclosão de movimentações contestatórias, o que apresenta resultados úteis ao
empresariado (FARIA, 1980; WEINSTEIN, 2000). Restringindo a amplitude dos
conflitos, desobriga esta fração do capital a oferecer qualquer resposta, como utilizar
práticas oriundas das teorias administrativas, por exemplo, para conter os conflitos. Elas,
portanto, no começo dos anos 1970, permaneciam adormecidas como nos períodos
anteriores em termos de atuação nos conflitos postos.
Todavia, no fim da década de 1970, observou-se o recrudescimento do movimento
sindical, no que ficou conhecido como “novo sindicalismo”. Em 1978, após a deflagração
da greve dos operários nas primeiras indústrias metalúrgicas no ABC Paulista, fica claro
que as empresas se apoiavam deliberadamente no Estado, apostando na repressão do
movimento para a sua resolução, ou no próprio ordenamento jurídico, uma vez que greves
eram ilegais. Mas, como elemento decisivo, havia também a disposição dos sindicatos a
negociar, o que se sobrepunha à inclinação dos operários para a luta e arrefecia os
movimentos, como asseverou Moura (2015). Na verdade, seguindo o autor, o elemento
definitivo que finalizou a greve consistiu no acordo que previa o aumento salarial aos
operários. Então a articulação de fatores como a repressão do Estado com o atendimento
de demandas dos sindicatos selou o fim daquelas contendas. Um prosseguimento do que
já ocorria nos anos anteriores, com a exceção de que neste ano a greve reuniu mais
trabalhadores de mais indústrias, denotando um movimento mais contundente.
No que toca a atuação do Estado, seja pelo aparato jurídico ou repressão policial,
é preciso ressaltar que justamente no ano de 1978, pouco tempo após o término da
primeira grande greve do ABC, há a publicação de um decreto presidencial, não muito
específico, que permitia às empresas cujas “atividades eram essenciais de interesse da
segurança nacional” (BRASIL, 1978) sancionar deliberadamente seus trabalhadores que

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aderissem às greves2. E isso englobava as indústrias que preenchessem esse critério pouco
específico, definido segundo a vontade do Presidente da República. É prudente ressaltar
que este dispositivo não se confunde com a lei antigreve, que já estava em vigor desde a
década anterior. Nota-se que as sanções eram determinadas juridicamente, mas para
serem aplicadas pela própria empresa sem a atuação direta do Estado. Desse modo, o
direito atuava na resolução provisória dos conflitos não apenas nas contendas judiciais ou
pelos braços da polícia, mas também no âmbito interno das empresas. Inclusive, é
justamente em meio à greve de 1979 que se deu o desencadeamento de um grande
contingente de demissões nas indústrias do ABC após a trégua de quarenta e cinco dias,
como explicou Moura (2010), mesmo havendo o acordo de que não haveria demissões
durante a trégua. O desfecho de 1978, em verdade, também foi o que marcou a greve
geral de 1979, que, embora tivesse sido ainda maior, alcançando a mobilização nas ruas
e mais de 200 mil trabalhadores, significou, para estes, uma regressão na luta tendo em
conta seus resultados negativos como a obrigação que impeliu os trabalhadores a pagarem
pelos dias parados, como parte do acordo com o empresariado. Ainda segundo o autor, a
resposta repressiva despontava cada vez mais como uma força para conter os confrontos
o que culmina na própria prisão dos operários em greve e a proibição de manifestações
públicas por parte dos grevistas, como sublinhou o autor supracitado. Aqui também, o
ponto conciliatório se apresenta de maneira diferente, uma vez que comissões de fábrica
independentes conseguem se impor mais e rejeitar algumas propostas de encerramento da
greve colocadas pelos sindicatos, o que não evita o acordo ao final. Moura (2010) ainda
mostra que esse panorama se repete também nas movimentações de 1980, sendo assim o
aspecto mais marcante desse período de retomada da mobilização operária no país.
A repressão policial atuou por diversos momentos durante essas greves, e foi
capaz de frear muitas movimentações dos trabalhadores, inclusive atuando
preventivamente nas fábricas a pedido dos empresários. Além de, evidentemente, existir
essa atuação policial a pedido dos empresários, havia também, nas empresas, guardas
armadas e numerosas não necessariamente mantidas pelas empresas, mas por elas
utilizadas para, por exemplo, obrigar trabalhadores parados a retomar o trabalho. Essas
ações também se davam no entorno das empresas

A repressão atinge a empresa em todos os níveis, e a empresa vai montar esquemas de


segurança que impedem a locomoção do operário, obrigando-o a permanecer exclusivamente
em sua seção; na entrada da fábrica proliferam ações policialescas com revistas de suspeitos,
cujos nomes estão marcados na portar, enquanto no interior da organização, mais
propriamente na linha de produção, a4:iressão para o andamento do trabalho será agravada e
as comunicações entre os operários impedida (FARIA, 1980, p. 356)

O enfrentamento dos conflitos de classe insurgentes do triênio mais complexo do


novo sindicalismo foi, em linhas gerais, capitaneado pelo Estado mediante diversas ações,
agindo em aliança com o capital, sobretudo por intermédio do aparato jurídico-policial.
Isto se somou à orientação predominantemente conciliatória dos sindicatos.

2
As sanções, chegavam até a demissão, dando total liberdade para a empresa: Art. 3º Sem prejuízo das
sanções penais cabíveis, o empregado que participar de greve em serviço público ou atividade essencial
referida no artigo 1º incorrerá em falta grave, sujeitando-se às seguintes penalidades, aplicáveis individual
ou coletivamente, dentro do prazo de 30 (trinta) dias do reconhecimento do fato, independentemente de
inquérito: I - Advertência; II - Suspensão de até 30 (trinta) dias; III - Rescisão do contrato de trabalho, com
demissão, por justa causa (BRASIL, 1978).

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Elementos contidos em teorias administrativas, sobretudo a organização do


trabalho, estavam consolidados na prática cotidiana das empresas, muito embora ainda
não tivessem força similar ao direito para impetrar efeito prático nos conflitos. De
maneira oposta, alguns elementos caros às teorias administrativas para o bom
funcionamento da empresa são inclusive deixados de lado na medida em que se instaura
o clima beligerante entre capital e trabalho. Exemplos disso vê-se nas próprias práticas
de comunicação as quais, colocadas como fundamentais para a fluência da administração
nas empresas, são cerradas cedendo lugar a interrogatórios e pressões no momento das
greves (FARIA, 1980).
Esse movimento mostra como o desenvolvimento da realidade concreta pode
impor condições favoráveis ou não aos aspectos de um complexo que potencialmente
pode se materializar como ideologia, no caso, a administração de modo menos potente do
que a repressão direta ou por via jurídica. Para o exame do período proposto inicialmente
no Brasil, far-se-á, primeiramente, a seguir, uma breve elucidação acerca do toyotismo.

Inserção do toyotismo, mudanças políticas e crise econômica nos anos 1980


A entrada da década de 1980 representou o início da introdução das técnicas
toyotistas no Brasil. No panorama econômico, esta década foi consecutiva às crises do
petróleo e apresentou, na sua duração, a oscilação entre momentos de recuperação e de
decaída, sendo a taxa média real de crescimento do produto interno bruto 1,66%
(GIAMBIAGI, 2010). Para a indústria metalomecânica, a metade final da década, a
mesma em que o toyotismo desponta, foi a mais prolífica, mas também percebeu
momentos de instabilidade, como podemos acompanhar na Tabela 1 abaixo:

Tabela 1: Índices Anuais da Produção Industrial (base: 1991=100)


1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995
Metalúrgica 106,27 118,96 119,47 115,59 121,39 106,07 100,00 99,36 107,02 117,91 115,81
Mecânica 110,08 134,28 139,70 127,68 134,04 111,44 100,00 90,52 106,23 128,61 122,77
Fonte: Adaptado de IBGE (s/da)

No setor metalomecânico, percebe-se que a principal decaída ocorre somente no


início da década de 1990, muito por conta dos problemas de liquidez resultantes do Plano
Collor. Em contrapartida ao crescimento da produção, há a oscilação com tendência à
retração no número de trabalhadores ligados à produção como pode-se ver na Tabela 2:

Tabela 2: Índices anuais do pessoal ligado à produção industrial (base: ano


anterior=100)
1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995
Metalúrgico 102,51 112,79 103,47 97,08 99,02 95,12 88,10 92,18 99,05 97,99 102,16
Mecânico 108,69 112,79 101,28 94,55 99,04 94,32 86,98 95,41 96,08 103,91 97,65
Fonte: Adaptado de IBGE (s/db)

Aqui se vê um relativo acréscimo de trabalhadores no fim da década de 1980, mas,


nos anos seguintes, esse número decai, não retomando na década de 1990 os níveis da
década de 1980, o que mostra um acréscimo na pressão da produtividade por trabalhador.
Na mesma direção, como mostra a Tabela 3, as taxas de investimento em maquinário e

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equipamentos segue a mesma oscilação, e mesmo se recuperando ao fim da década de


1990, não atinge os níveis anteriores.

Tabela 3: Formação bruta de capital fixo (máquinas e equipamentos) como porcentagem


do PIB
1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000
5,34 5,24 5,95 7,41 7,07 6,87 5,67 4,97 5,05 6,03 6,45 5,28 5,33 4,97 4,83 5,26
Fonte: Adaptado de IBGE (s/dc)

É importante acentuar que o toyotismo entra no Brasil num momento de ligeira


retomada do crescimento da indústria, mas é também um momento em que este setor
passa a representar menor participação no produto interno, com o crescimento do setor
de serviços. Na década de 1980, a indústria representava 34,29%, percentual que cai para
29, 97% no decênio posterior (BONELLI, 2006). Ademais é fundamental lembrar que o
toyotismo é inserido pela iniciativa de grandes multinacionais estrangeiras do setor
automotivo.
As importantes movimentações operárias ocorridas no fim década de 1970
legaram um histórico que favoreceu à continuidade dos movimentos no decorrer da
década seguinte. Ao longo desta, percebeu-se com intensidade a deflagração de greves no
setor industrial, em outros setores privados e também em instituições públicas. Destaca-
se, por um lado, o aspecto quantitativo, que percebeu sensível crescimento até 1989
(Gráfico 1),

Gráfico 1: Quantitativo de greves no Brasil

Fonte: NORONHA, 2009, p. 130.

E também a expansão de greves para além do ABC paulista:

Em 1981, os operários e operárias da Ford decretam uma importante greve. Em 1983 tem-se
a primeira greve geral da década, a segunda greve geral é deflagrada em 1986, seguida por

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uma terceira em 1987 e por fim a quarta greve geral em 1989. Em 1988 tem-se uma
importante greve com ocupação e enfrentamento armado com o exército na Companhia
Siderúrgica Nacional. Esta greve é seguida pelas greves com ocupações da Belco-Mineira e
da Mannesmann em 1989 (MOURA, 2010, p. 12).

Mantinham-se as formas comuns com que se levava ao cabo aquelas


manifestações. Mas, desta vez, outros elementos adquirem importância, como a
progressiva aproximação dos sindicatos com a luta parlamentar num momento de
constituição de novos partidos e do ganho de fôlego das campanhas pela
redemocratização. A alta inflação e o nível de emprego instável também ajudavam a
reduzir a movimentação operária. Ou seja, vê-se aqui uma variedade maior de fatores
atuando na contenção dos conflitos sociais emergidos da indústria. Outras formas de
refreamento dos movimentos se mantêm, como um prosseguimento dos anos anteriores,
no exemplo da forte repressão representada pela aliança entre o capital e a esfera
governamental pela forma da força policial (MOURA, 2010; POGIBIN, 2009). Em suma,
a despeito do crescimento quantitativo das greves neste início de década como se viu no
Gráfico 1, não se vê mais a força de concentração dos movimentos como no fim dos anos
1970.
É na segunda metade da década de 1980 que alguns aspectos ligados ao toyotismo
passam a se fazer presentes mais decisivamente nas indústrias do ABC. No contexto de
remonta do movimento sindical, as indústrias no ABC (sobretudo aquelas multinacionais)
viram-se mergulhadas num momento de tensão que exigia alguma reação mais imediata
(SILVA, 2004). Assim, passou-se a implementar métodos já difundidos
internacionalmente com o objetivo de reduzir essas movimentações operárias. Colocou-
se em prática os Círculos de Controle de Qualidade (CCQ). Evidentemente, era clara a
intensão de estabelecer esses círculos e suplantar ou reduzir a força dos sindicatos, em
pleno vigor à época: “Se, de um lado, esses modelos admitiam como legítimas as
reivindicações dos trabalhadores; por outro, buscavam estabelecer outros canais de
comunicação com os trabalhadores fora da ação do sindicato”. (SILVA, 2004, p. 152).
Coincidentemente, este método foi, antes, implementado no Japão no mesmo contexto de
conter movimentações operárias (LIMA, 2002). Na década de 1970 era possível
compreender alargada institucionalização da chama cogestão na Alemanha, inclusive
ratificada por leis que impunham a participação dos operários à empresas que atendessem
a determinados critérios de tamanho e atividade (TRAGTENBERG, 1980; FARIA,
1982). É possível também chamar a atenção para elementos do empresariado nacional,
defendendo essas técnicas, munidos dessa influência europeia (FARIA, 1982).
Inicialmente, no início da década de 1980, estes círculos não puderam ser
colocados em prática de maneira completa. Segundo Freyssenet; Hirata (1985), entre os
motivos mais importantes para essa dificuldade inicial estão a forte resistência sindical,
as diferenças estruturais entre as empresas nacionais e as japonesas e a baixa permissão,
por parte dos gestores, à participação dos operários nos CCQs, além da sua aplicação sem
o acompanhamento de outras técnicas que compunham originalmente o modelo japonês
de gestão.
A primeira expressão mais clara da atuação das técnicas de gestão no Brasil como
ideologia, como conjunto de ideias e princípios convertidos em força material de
resolução de conflitos, acontece na metade final dos anos 1980, ao mesmo tempo em que
já se percebia menor combatividade por parte dos sindicatos. No ano de 1987, nota-se a
progressão do modelo japonês com a expressão de mais um aspecto: a reestruturação
produtiva – série de mudanças na produção que coincidiam com algumas técnicas

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toyotistas e visavam à redução do número de empregados, sem que a produtividade


abaixasse. Isto ocorreu primeiro na Autolatina (MOURA, 2010). Como consequência
dessa fusão, houve, neste ano, a demissão de mais de 10 mil funcionários nessas fábricas.
Dessa vez, esse fato não representou, contudo, uma movimentação mais contundente por
parte dos trabalhadores (SILVA, 2004). Na medida em que se percebia um
enfraquecimento da formulação de pautas de luta e a participação cada vez mais tímida
dos sindicatos, as comissões de fábrica, materializadas nos CCQs, ganhavam espaço.
Tratavam-se, entretanto, de instâncias menores e portadoras de reivindicações mais
restritas, senão conservadoras. Isto fica aparente pela análise dos acontecimentos que
revela uma manifestação menos crítica dos trabalhadores “ao processo de reestruturação
produtiva desde que apresente duas características: seja negociado com a comissão de
fábrica e possibilite uma melhoria nas condições de trabalho” (SLVA, 2004, p. 161). Fica
aparente também na forma de encarar as novas técnicas sem desenvolver uma resistência
mais organizada, pois “as comissões institucionalizam conflitos, permitindo a introdução
negociada da reestruturação produtiva” (SILVA, 2004, p. 164).
Como se viu no Gráfico 1, o fim da década de 1980 demarca o início da queda do
quantitativo anual de greves no Brasil, compreendendo-se o ABC paulista como parte
desse contexto. Assim, tanto a baixa resistência oferecida pelas comissões representadas
no CCQs, quanto os ecos futuros que coexistem com o avanço da implementação de
técnicas japonesas de gestão no Brasil, configuram o primeiro momento em que a
administração, pôde, de alguma forma, atuar diretamente nos conflitos entre capital e
trabalho, demarcando também o início da atuação do toyotismo nesse mesmo sentido.
É preciso ressaltar que o desenvolvimento dessas técnicas de gestão não se dava
isoladamente, coexistindo, até o fim dos anos 1980, com importantes pontos do aparato
jurídico como a lei antigreve e o decreto que permitia punições a grevistas, revogados
após a Constituição de 1988, conforme assinalado anteriormente. O fato de haver a
diminuição de greves no ano subsequente, sem a concorrência desses dispositivos
importantes, abre mais espaço para a atuação das técnicas do modelo japonês na resolução
dos conflitos. A baixa participação dos sindicatos nas lutas também é um fator
concorrente, tendo em vista sua adesão mais sistemática à conciliação com as empresas,
como se verá, bem como a persistência da força policial do Estado. Em verdade, isso não
sofreu grandes mudanças, bastando lembrar que mesmo fora do contexto do ABC, a
grande greve na Companhia Siderúrgica Nacional em 1987 foi fortemente reprimida pelo
exército (MOURA, 2010). O que se depreende do movimento aqui demarcado é
exatamente o início de uma inflexão que passa a colocar as teorias de gestão, finalmente,
como um elemento importante na resolução de conflitos.

A atuação do toyotismo como ideologia nos anos 1990


A claudicante economia brasileira gerou, para o grande capital, a necessidade da
reestruturação da economia e do Estado, além da necessidade de repensar no modo de
inserção no sistema mundial do capital (ALVES, 2002). O Governo Collor, logo no início
da gestão, buscou implementar medidas como “a reforma administrativa, as privatizações
e um conjunto de políticas liberalizantes, que abarcavam a quebra de monopólios, a
abertura econômica, a desregulamentação e o fim dos subsídios e incentivos”
(CONCEIÇÃO, 2006, p. 112). Por conseguinte, isso acaba “tornando o país mais atrativo
e lucrativo para o capital financeiro internacional e para as grandes corporações que
buscavam vantagens comparativas”. (SANTOS, 2015, p. 101). Como estratégia mais
imediata, o “Plano Collor” tinha por objetivo reduzir a inflação, através do aumento dos

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impostos e exclusão dos incentivos fiscais, redução dos gastos públicos, substituição da
indexação mensal de salários por um índice prefixado, uso de taxa de câmbio flutuante e
o confisco das aplicações financeiras (CONCEIÇÃO, 2006). Gerou-se, no entanto, uma
crise de liquidez que repercutiu negativamente sobre a atividade industrial, pois como
pôde ser visto nas Tabelas 1, 2 e 3, nos primeiros anos da década de 1990 há
simultaneamente a depressão nos níveis de produtividade e emprego, além da maior baixa
na taxa de investimento em capital fixo.
As medidas econômicas de principal relevância nessa transição de década são os
planos de desenvolvimento estratégico das indústrias, em especial o Programa Brasileiro
de Qualidade e Produtividade (PBQP) (SANTOS, 2015). Este tinha, entre seus objetivos,
não apenas a simples transposição das técnicas passadas à técnica japonesa, mas
modificar a relação de confronto entre trabalhadores e capital, para uma relação de
pretensa cooperação. Ademais, os próprios sindicatos demonstravam sensível
potencialidade para a negociação com sua adesão às câmaras setoriais. Essas câmaras
eram instâncias de debates que envolviam governo, capital e trabalho, buscando soluções
para os problemas enfrentados pelo empresariado nacional com a liberalização da
economia e o acirramento da competitividade, durando até 1995 (ANDERSON, 1999).
Entendidos esses, obviamente, como problemas que, quando resolvidos, favoreceriam
não só ao capital, mas a todos os envolvidos. Por conseguinte, na prática, evidentemente,
a igualdade formal nessas instâncias se desfazia. Nos acordos firmados nas câmaras do
setor automotivo, por exemplo, a grande maioria dizia respeito às pautas importantes para
o empresariado como a queda de impostos, o incentivo ao consumo dos automóveis
produzidos em território nacional e financiamento da produção por bancos públicos
(ANDERSON, 1999). Pautas de trabalhadores eram minoritárias e apareciam em
demandas protocolares de aumento de salários. De forma precisa, podemos acompanhar
que “Pode-se, ainda, questionar o potencial democrático desse tipo de instrumento
analisando-se a capacidade de intervenção dos sindicatos na elaboração de políticas
públicas, já que grande parte das questões de interesse dos trabalhadores (vale dizer, as
propostas de longo prazo) não foi resolvida” (GALVÃO, 1998, p. 91. Há também um
importante sinal da fragmentação das lutas, pois as câmaras eram divididas em setores da
metalurgia. No entanto, aqueles firmados no setor automotivo foram expandidos aos
outros inadvertidamente, sem necessariamente se considerar suas especificidades. E isto
aconteceu com o aval do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, que não se
movimentou em relação aos setores excluídos:

as empresas tentavam reajustar os salários e dar o aumento real apenas para os trabalhadores
dos grupos contemplados na câmara setorial, montadoras e autopeças, excluindo outros,
como máquinas e eletroeletrônicos. Embora tenham cedido reajustes até outubro de 1992,
somente trabalhadores das montadoras e da indústria metal-mecânica obtiveram o aumento
real. Coube ao SMABC apenas sugerir que os operários das outras indústrias mantivessem a
mobilização, para conseguirem semelhantes benefícios (SANTOS, 2015, p. 94-5).

Ao tomar uma maior participação como mediador de conflitos nessa nova


configuração instaurada, os sindicatos influíam diretamente no interior dos conflitos
sociais, servindo aos empresários como aliados sem promover maiores movimentações
contestatórias. É sensível esta mudança de posicionamento do movimento operário que
abandona uma posição contestadora e bastante atuante, exacerbando a mera atuação
sindical por meio de comissões de fábrica atuantes, por exemplo, para uma posição

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apassivadora e que não encontra solução para a fragmentação das lutas, seguindo, na
verdade, um movimento contrário, de aliança desvelada com o próprio capital.
Para superar os efeitos da recessão profunda, durante a década, houve o incentivo
para as empresas implementarem novas medidas de administração, de reestruturação
produtiva sendo a indústria automotiva o principal objetivo dos entes federativos.

os programas que visavam subsidiar a modernização das indústrias tinham como objetivo dar
as condições institucionais para que as empresas adotassem o novo modelo de produção,
espelhado nas novas formas de gestão da produção japonesa, que se difundira para os países
centrais, sendo responsável pela redução dos custos de produção e considerável aumento da
produtividade (SANTOS, 2015, p. 87).

Vê-se, portanto, como a implementação do toyotismo em território nacional, se


alinhava à política econômica, e foi, por esse motivo, também incentivada pela esfera
governamental, de tal forma que passa a acontecer a pulverização de polos industriais por
conta de guerras fiscais, havendo, por esse motivo, certa desconcentração no ABC
Paulista. As unidades que se espalham pelo Brasil, já munidas do caráter toyotista, passam
a ser modernas e, em termos de competitividade, atingem altos níveis de produtividade já
com custos de mão de obra mais reduzidos. Este processo se desencadeara no ABC em
um ritmo mais lento, tendo em vista a necessidade de adequação frente ao histórico.

enquanto as fábricas de produção de automóveis da Volkswagen e da General Motors,


situadas em São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, respectivamente, possuíam,
naquele ano, produtividade de 14,5 e 13,1 veículos por trabalhador ao ano, as novas unidades
industriais da Mercedes- Benz (em Juiz de Fora, MG) e da Renault (em São José dos Pinhais,
PR) - também montadoras de automóveis - teriam produtividade de 46 e 48 veículos por
trabalhador ao ano (CONCEIÇÃO, 2006, p. 132-3).

As diferenças ficam mais nítidas quando se coloca em tela a comparação de novas


unidades de fábricas em outras regiões com as fábricas da ABC Paulista, como podemos
observar na tabela 4, que demonstra como no ABC, ainda que com todo o refluxo do
movimento sindical, os salários ainda eram mais elevados que em outras regiões do país.

Tabela 4 - Comparação do custo anual da mão-de-obra na indústria de autopeças: S.B.


Campo, interior de SP e Sul de Minas Gerais, 1998, em R$
S.B Campo Interior Sul de
SP MG
Subtotal Salários (1) 10.666,67 6.000,00 4.933,33
Subtotal Encargos Sociais (2) 4.160,00 2.340,00 1924
Subtotal Benefícios (3) 3.304,80 2.260,00 2.200,80
Total Geral (1+2+3) 18.131,47 10.600,80 9.058,13
Índice Comparativo 200,17% 117,03% 100,00%
Fonte: CONCEIÇÃO, 2006, p. 136.

De acordo com a Tabela 4, o custo anual de mão de obra em São Bernardo do


Campo é mais que duas vezes aquele encontrado no sul de Minas Gerais, por exemplo.
Como observamos anteriormente, um dos pilares da mudança estrutural do modelo
toyotista é reduzir o custo final da produção e isso é causado por diversos fatores como a
redução do custo de mão de obra, seja pela redução do custo com salários ou pela

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manutenção a fábrica com menor corpo efetivo de operários. Nesse sentido, Lima (2002)
destaca que havia, inclusive nas fábricas da Toyota no Brasil, importantes disparidades
salariais entre as unidades de Indaiatuba (região de Campinas) e São Bernardo do Campo.
Depreende-se assim que o toyotismo entrou no Brasil por intermédio de sua atuação em
empresas do ABC, mas se consolidou efetivamente com o impulso governamental fora
dele, nas unidades fabris que se instalavam no decorrer dos anos 1990, tendo o ABC
absorvido seus impactos mais tardiamente.
Isto, contudo, não significa que o ABC passou ileso à consolidação toyotista no
Brasil. O que pode ser acompanhado, por exemplo, na Tabela 5, que representa esse
processo ao demonstrar, através dos anos, como a consolidação de um novo modelo de
produção pressiona os custos com mão de obra aliada às políticas governamentais (como
a aceleração da abertura as importações, as medidas fiscais e monetárias restritivas)
influenciaram diretamente no aumento do desemprego. Principalmente, pela redução de
postos de trabalho na região do ABC paulista, como podemos observar a seguir:.

Tabela 5. Indústria automobilística no ABC

Nível de
Massa salarial
Produção anual (em emprego
versus receita
unidades) líquida em (%)
Por
Ano Total empregado (média anual)
1980 1.179.419 8,80 133.641 18,60
1981 780.883 6,60 118.776 19,60
1982 859.295 7,80 109.780 18,40
1983 896.469 8,30 107.493 16,10
1984 864.654 8,10 106.618 13,00
1985 966.708 8,10 119.357 13,60
1986 1.056.332 8,30 127.133 17,30
1987 920.071 7,70 120.121 12,30
1988 1.068.756 9,40 114.019 10,10
1989 1.013.252 8,80 114.955 10,10
1990 914.466 7,70 118.183 11,00
1991 960.219 8,70 110.954 12,50
1992 1.073.861 10,00 107.682 10,40
1993 1.391.435 13,10 106.227 8,80
1994 1.581.389 14,80 106.613 12,90
1995 1.629.008 15,10 107.874 10,20
1996 1.804.328 17,40 103.545 9,40
1997 2.069.703 19,60 105.641 8,50
1998 1.573.106 16,10 97.452 8,70
1999 1.345.515 15,9 84.632 8
Fonte: RODRIGUES, 2002, p. 145

Há aqui a exata medida de intensificação da exploração econômica do trabalho na


medida em que o decréscimo no número de trabalhadores contrasta com relativo aumento

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da produção de veículos, ao menos até 1997, ao mesmo tempo em que há a diminuição


da representação dos salários se comparados à receita. Ou seja, há a diminuição de custos
com a redução de operários e com a menor participação dos salários na receita das
empresas. Mesmo havendo, ainda em 1998, outros centros industriais menos custosos, o
ABC paulista já se encontrava completamente submergido no assim chamado processo
de flexibilização do trabalho. Também se salienta que há o aumento dos empregados no
setor de serviços, como um reflexo do movimento da economia nacional. Processo que
se dá principalmente pela “desverticalização” da grande indústria, encontrando, nas
empresas que prestam serviço terceirizado, mão de obra para suprir as necessidades da
grande indústria (CONCEIÇÃO, 2006).
Entendendo-se que este processo sucede e é contemporâneo de um período de
estagnação econômica, com momentos de recessão, o emprego do toyotismo no Brasil
acaba se dando de forma inteiramente diferente do que ocorreu no Japão: “Naquele país,
as modificações compuseram um quadro de melhoria competitiva; no Brasil as melhorias
são defensivas, visam a permanência e não a conquista de novas fatias de mercado”
(LIMA, 2002, p. 222). Certamente, este é o momento em que a organização do trabalho
se articula da forma mais concreta possível no Brasil. A forma acelerada com que esse
processo se deu foi inclusive contrastante com o taylorismo, que sequer chegou a um
nível tão universal mesmo nos anos 1970.
Na região de Campinas, que se transformou também num importante polo
industrial nos anos 1990, há uma situação similar à do Grande ABC Paulista. E um dado
fundamental, que também indica as consequências da flexibilização do trabalho para os
trabalhadores, indica que, em Campinas a partir da década de 1990, a rotatividade passou
a ser maior dentre os trabalhadores mais longevos nas empresas. Santos (2015) mostra
como esse ponto interfere diretamente na vida dos trabalhadores seguindo o contexto
vigente àquele tempo

Do ponto de vista político, agora sob o processo de transformações técnicas e


organizacionais, os números da rotatividade sugerem que, sem abrir mão de uma força de
trabalho experiente no processo produtivo, as empresas passam a tornar vulnerável a
permanência desse perfil de trabalhador, deslocando-os entre o conjunto de plantas da
Região, aumentando a sensação de insegurança nessa parcela da categoria. Insegurança
reforçada pelo enorme número de demissões, como vimos, e pela terceirização (SANTOS,
2015, p. 174-5).

A semelhança nos indicadores quantitativos também se articula nas relações de


trabalho. Sabe-se que as grandes empresas de Campinas, em especial a unidade da
Toyota, aderiram em grande parte (após a década de 1990) ao modelo japonês. Isso
matrizava grandemente os processos seletivos, que além de serem voltados aos ditames
da flexibilização, consideravam também o histórico recente de lutas operárias no Brasil.

A Toyota de Indaiatuba tomou cuidado de recrutar preferencialmente trabalhadores mais


jovens e, portanto, pretensamente mais propensos a aceitar as regras e os ritmos impostos
diante da oportunidade de ingressar em uma multinacional meio à crise de desemprego. Além
disso, os jovens não trazem o acúmulo de lutas sindicais passadas, não tem conhecimentos
de seus direitos, tem mais vigor físico, acumulam informações em fragmentos que os ajudam
a se tornar generalista (SANTOS, 2015, p. 186).

Os empresários passaram a mudar as formas de abordagem a seus funcionários,


passando uma imagem pretensamente amigável e/ou democrática, eliminando desse

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modo a noção de hierarquia, como os próprios CCQs objetivavam. O trabalhador por sua
vez, temendo os altos índices de desemprego, opta pela colaboração dentro da fábrica e
recusa envolvimentos com sindicatos, levando em consideração, como mostrou Santos
(2015), o risco de se juntar a uma instituição ineficiente em termos de movimento
combativo, se submetendo assim as mazelas geradas pelo modelo enxuto de produção.
A queda no quantitativo de greves é um aspecto importante que mostra um refluxo
do movimento operário no ABC na década de 1990. Mas é ainda mais notória a redução
das pautas defendidas pelos sindicatos, que se voltaram às questões mais específicas, e
certamente mais restritas, do cotidiano laboral. A agenda sindical

se voltou para o interior da empresa, discutindo mais diretamente temas relacionados à


problemática do trabalho, sejam vinculados à organização e gestão do trabalho, sejam aquelas
questões relacionadas à remuneração variável, como a participação nos lucros e resultados
(PLR) ou, ainda, as que dizem respeito à flexibilização da jornada de trabalho como o banco
de horas, entre outras (RODRIGUES, 2002, p. 142).

A especificidade dessas pautas dificultava, por exemplo, a tentativa de união entre


trabalhadores de diferentes empresas, por haver uma articulação diferente em cada uma.
Um reflexo disso são as negociações feitas, em grande monta, separadamente, o que
ocorre também na justiça do trabalho (ALVES, 2002). Aliam-se a isto os aspectos
conjunturais preponderantes da década que apontaram para uma diminuição dos postos
de emprego na indústria – o que ocorre progressivamente desde a década de 1980 – e o
aumento da produtividade por trabalhador. Uma pesquisa feita por Rodrigues (2002)
acerca das negociações entre sindicatos em empresas no ABC durante a década de 1990
aponta que majoritariamente os temas mais envolvidos eram a participação nos lucros
(que não se confunde com salários) e a jornada de trabalho, ambos pontos nodais da nova
forma de organização do trabalho como consequência de uma atuação mais consistente
do toyotismo. Outras pautas como as condições de trabalho e a própria organização
sindical, tão importantes em outros tempos, passaram para um segundo plano.
Mais precisamente, chegou-se inclusive à deflagração de greves por questões
salariais e de tempo de trabalho. Tais greves incluíram a união entre os sindicatos de São
Bernardo e Campinas, que compreendiam as fábricas da Toyota e foram greves encaradas
pela empresa com intimidações e ameaças incisivas. Houve uma vitória aparente, mas a
empresa respondeu com demissões e promoções de alguns operários arrefecendo o
movimento nos anos seguintes (LIMA, 2002). Seja como for, este é um movimento único
em toda a década. Mas aqui se repete uma situação vista também em momentos de maior
volume do movimento operário: a não utilização de um preceito administrativo teórico,
específico, para lidar com as greves. Ou seja, nesse caso, as técnicas toyotistas podem
atuar arrefecendo movimentos operários preventivamente, atuando sobre a mobilização
sindical, ou mesmo diretamente sobre os operários que abandonavam as mobilizações por
conta do próprio cansaço, mas não tem acontecido o mesmo no enfrentamento das greves
deflagradas, sendo usadas, nesse ponto, medidas mais drásticas (como as intimidações).
Isto pode apontar para uma particularidade da administração nessa atuação sobre os
conflitos: uma força mais preventiva do que reativa à eclosão de conflitos. E nesse
particular, cabe menção à forma específica de entificação do toyotismo no Brasil. É
possível identificar que uma particularidade muito forte da sua generalização na indústria
automobilística foi relativo desenvolvimento produtivo, que incidiu sobre uma base
técnica em transição para a automação, mas restrito em níveis mundiais, diferentemente
do Japão. E que, por outro lado, ocasionou a diminuição de salários e redução de postos

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de trabalho, ao contrário de países desenvolvidos como os Estados Unidos. Assim no


Brasil a atuação do toyotismo foi muito mais sensível à classe trabalhadora no setor
automobilístico (GUEDES; MONTEIRO JÚNIOR, 2018).
Fica, particularmente, configurada a importância dos CCQs nas relações entre
capital e trabalho também, como um fator de redução das querelas que contribuía com a
inibição do espaço dos sindicatos, que por sua vez já não ofereciam resistência. A
formação de grupos reduzia a abrangência das pautas e diminuía a força dos trabalhadores
que estavam divididos (FERRO; GRANDE, 1997). Uma pesquisa de 1994 feita em uma
série de indústrias do setor metalomecânico de São Paulo mostrou que, não somente essa
técnica sobreviveu aos percalços iniciais da década anterior, mas evoluiu e, fazendo
ajustes em relação ao modelo japonês, se expandiu para grupos com objetivos
operacionais similares, mas que se formavam em situações mais contingenciais sob a
forma de “força-tarefa, times da qualidade, equipes de projetos etc.” (FERRO; GRANDE,
1997, p. 84). Essa expansão se dá num momento de plena escalada da reestruturação
produtiva no país e passa ilesa a questionamentos dos sindicatos a ponto de haver uma
postura categoricamente acrítica dos sindicatos a seu respeito:

A resistência dos sindicatos, apontada como um dos fatores que mais afetou o
desenvolvimento dos Círculos nas organizações brasileiras na década passada, não foi
considerada uma oposição relevante nos casos estudados. Mesmo outros fatores, como a crise
econômica e as demissões, citados na literatura como um impedimento à consolidação do
CCQ nas empresas durante a década de 80, parecem não se ter constituído em obstáculo ao
seu desenvolvimento na visão das empresas (FERRO; GRANDE, 1997, p. 84).

Todo esse processo coincide com a diminuição da força do movimento operário


num momento em que este já estava tomado pelas “lutas diminutas”, ou seja, os embates
cotidianos no interior das fábricas. Os aspectos do toyotismo que se destacam atuando
como ideologia no Brasil se evidenciam muito claramente neste final do século XX
contribuindo juntamente com fatores que já estavam presentes anteriormente como o
direito, mas de uma forma mais direta, uma vez que a década de 1990 é marcada pela
diminuição da repressão tão presente em tempos anteriores. A diminuição das greves tem
menor participação do direito, ainda que ele continue atuando na resolução de
negociações individuais dos trabalhadores. A atuação do toyotismo adquire assim uma
posição sem precedentes inclusive na história da prática administrativa no país.

Considerações finais
A década de 1990 é o período em que, de fato, “medidas toyotistas” (não puras)
encontram condições materiais amplamente favoráveis para penetrar profundamente as
raízes da indústria e do capital brasileiros. Os indicadores econômicos apontavam a
tendência para a acentuação da exploração do trabalhador, ainda que não necessariamente
concorrente com o aumento da taxa de investimento que se manteve oscilante,
sublinhando o caráter defensivo do toyotismo pelo capital produtivo nacional. Os
sindicatos e o movimento operário em geral perdem a força, principalmente pela
fragmentação das lutas, com as unidades fabris sendo pulverizadas, a produção
horizontalizada, desconcentrando a localização dos trabalhadores e ocorrendo a própria
diminuição do quantitativo de operários. Há também a opção de luta através de instâncias
de debates, evidentemente conservadoras e que permitem menor participação aos
trabalhadores. Esses pontos relacionados aos sindicatos configuram uma atuação do
toyotismo como ideologia, primeiramente por serem produto da atuação da reestruturação

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produtiva no plano macroeconômico, que pressiona a força dos sindicatos, com a


diminuição do número de trabalhadores e influenciam na formação das câmaras setoriais,
também notadamente, há a difusão e atuação direta dos CCQs. Eles passam a ser o espaço
de participação dos trabalhadores para colocarem seus problemas em pauta, mas são
evidentemente um espaço aberto na empresa, com a participação de gestores e que
abrange problemas eminentemente operacionais que que dizem respeito aos problemas
da indústria. Restringem as querelas e enfraquecem a combatividade.
A redução de salários, diminuição de postos de trabalho, aumento da taxa de
desemprego, desorganização de sindicatos e trabalhadores, acentuação da exploração do
trabalho, elementos macroeconômicos tendentes eram diretamente impactados pelas
técnicas toyotistas. O toyotismo agiu diretamente nesses aspectos, como uma expressão
prática e organizacional sobre o processo de trabalho que viabilizava essas tendências e
isto o coloca em posição mais preponderante do que o “humanismo”, por exemplo, já que
este não toca nessas questões técnicas diretamente. O toyotismo age como ideologia
definitivamente atuando em aspectos fundamentais para a redução das lutas dos
trabalhadores de um modo geral. É assim que atua nos conflitos. Mas essa mesma força
não pode ser vista na contenção dos conflitos em disputa: no caso da greve da Toyota em
Indaiatuba, as ameaças, demissões e outras estratégias advindas da direção não são
exatamente técnicas desse modelo de gestão e isso pode ser fundamental para determinar
as possibilidades de efetivação como ideologia, isto é, tem um potencial maior na
prevenção dos movimentos, haja visto os dados probantes do arrefecimento das lutas, do
que na reação a eles como se vê nas análises específicas das greves.
É preciso ponderar, por fim, que o que se viu aqui não é definitivo e a questão dos
conflitos pode ter vista o surgimento de outras forças de combate. Demarcou-se a
aproximação do que podem ser os limites da atuação da administração na história do
capitalismo brasileiro, esforço que deve ser continuado com a reunião de mais dados
decisivos e a compreensão de períodos outros, sobretudo os mais recentes.

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151
I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

Os perigos da sedução romântica ao marxismo

Lucas Parreira Álvares


Universidade Federal de Minas Gerais
lucasparreira1@gmail.com

Resumo: O presente trabalho tem por objetivo, dentro de seus limites, compreender a
relação existente entre o pensamento de Karl Marx e a tradição romântica. Para tanto,
utilizará dos debates do velho mouro sobre a situação das comunas rurais na Rússia e da
interpretação que o sociólogo brasileiro/francês Michael Lowy faz desses escritos de
Marx associando-os a uma espécie de “romantismo revolucionário”. No plano de fundo
desse objetivo central, o presente trabalho compreende também o desenvolvimento do
interesse de Marx tanto pela literatura sobre as comunas rurais russas quanto pelos
aspectos sociais daquele país.
Palavras Chave: Marxismo; Romantismo; Pré-Capitalismo; Via Russa

The dangers of romantic seduction to Marxism

Abstract: This work has as its objective, within its limits, to understand the relation
existing between the thought of Karl Marx and the romantic tradition. To do so, he will
use Marx's debates about the situation of rural communes in Russia and the interpretation
that the Brazilian/French sociologist Michael Lowy makes of these writings of Marx
associating them with a kind of "revolutionary romanticism." In the background of this
central objective, the present work also includes the development of Marx's interest in the
literature on Russian rural communes and also on the social aspects of that country.
Keywords: Marxism, Romantism, Pré-capitalism, Russian Road

1. A sedução romântica ao marxismo

A publicação da obra Lutas de classes na Rússia pela Editora Boitempo,


organizada por Michael Löwy, contém alguns dos textos mais importantes dos últimos
anos de vida de Marx1, a saber, os rascunhos elaborados para confecção de uma carta em
resposta a questionamentos da revolucionária russa Vera Ivanovna Zasulitch2. Adiante,
voltaremos nossa atenção tanto para a carta de Vera Zasulitch, quanto para os rascunhos
e a resposta de Marx. No momento, porém, analisaremos uma passagem da introdução de

1
A primeira publicação dos rascunhos e das cartas está na obra Dilemas do Socialismo: Marx, Engels e os
Populistas Russos, de 1982 sob organização de Rubem César Fernandes pela editora Paz e Terra.
Recentemente, foi publicada também na recém publicada Marx e a via Russa, de Teodor Shanin, que
contém, dentre outros textos, os rascunhos e cartas de Marx a Zasulitch.
2
“Podemos dividir a organização da obra Lutas de Classes na Rússia em três partes: a primeira com a
Literatura de Refugiados V, que reúne textos de Engels publicados em 1875 (...) A segunda parte da obra
podemos atribuir à Carta à redação da Otechestvenye Zapiski – relevante revista de São Petersburgo
alinhada aos populistas russos – de autoria de Karl Marx, com a intenção de ser enviada à redação da revista.
(...) A terceira parte de Lutas de Classe na Rússia diz respeito ao debate de Marx com a revolucionária Vera
Ivanovna Zasulitch, integrante do grupo revolucionário russo “Emancipação do Trabalho”. Na edição, o
texto que antecede a discussão entre os revolucionários é uma introdução produzida por David Riazanov2
com o título “Vera Zasulitch e Karl Marx” (ÁLVARES, 2015).

152
I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais
Michael Löwy – cujo título é Dialética revolucionária contra a ideologia burguesa de
“Progresso” [marcação do autor] – à obra Luta de Classes na Rússia. Para Löwy, a partir
dos textos de Marx sobre a Rússia é possível encontrar

“uma dialética tipicamente romântico-revolucionária entre o passado e o


futuro, inspirada pelos trabalhos sobre o comunismo primitivo de historiadores
e antropólogos (românticos) como Georg Maurer e Lewis Morgan,
frequentemente citados por Marx e Engels.” (LÖWY; 2015, p.13)

Löwy desliza em cada elemento dessa passagem: nem se trata de uma “dialética
tipicamente romântico-revolucionária entre o passado e o futuro”, nem esses autores
produziram “trabalhos sobre o comunismo primitivo”, nem Maurer e Morgan eram
“românticos” e tampouco esses dois aurores foram “frequentemente” citados por Marx e
Engels. O desenvolvimento desse trabalho apresentará contraposições a cada elemento
dessa passagem de Löwy. Mas, para isso, é necessário compreender o que Lowy entende
enquanto “romantismo-revolucionário”.
No ano de 1992 veio a público a obra Révolte et Mélancolie: le romantisme à
contre-courant de la modernité, de autoria do sociólogo aqui em questão, Michael Löwy,
juntamente com o linguista Robert Sayre3. Tal obra propõe uma interpretação mais
abrangente do romantismo não o reduzindo meramente a uma corrente literária-artística
– o que já não seria pouco – como também o apresentando como um movimento de
resistência e reação ao modo de vida na sociedade capitalista moderna (LOWY; SAYRE,
2015, p.38). Lowy e Sayre elaboraram uma extensa tipologia desse movimento, “variando
da direita para a esquerda do espectro político” (LOWY; SAYRE, 2015, p.85-86),
distinguindo-o entre: 1) Restitucionista; 2) Conservador; 3) Fascista; 4) Resignado; 5)
Reformador; 6) Revolucionário e/ou Utópico4.
A peculiaridade dessa tipologia, “foi também estabelecer, no interior do
romantismo “Revolucionário e/ou Utópico”, suas diversas tendências: a) Jacobino-
democrática; b) Populista; c) Socialista utópico-humanista; d) Libertária; e) Marxista5.
Para Löwy (2015, p.112-113) – e Sayre, embora certamente essa é uma
abordagem do sociólogo, afinal está presente em outras de suas obras – o que distingue o
romantismo-revolucionário-marxista de outras correntes com sensibilidade romântica é a
preocupação central com alguns problemas essenciais do marxismo, a saber: “a luta de
classes, o papel do proletariado como classe universal emancipadora, a possibilidade de
utilizar as forças produtivas modernas em uma economia socialista”, entre outros
aspectos. E assim, cita alguns autores que, pela visão dos autores, compartilhariam dessa
abordagem romântica-revolucionária-marxista, dentre eles: E. P. Thompson, Raymond
Williams, György Lukács, Ernest Bloch, Walter Benjamin, Marcuse, Lefebvre, e William
Morris (esse que seria seu exemplo mais autêntico). Mas para além desses intelectuais,
Löwy e Sayre dedicam todo um capítulo de Revolta e Melancolia ao suposto romantismo
de Marx.

3
As edições brasileiras são duas: em 1995 pela Paz e Terra; e em 2015 uma reimpressão pela Editora
Boitempo.
4
Com exceção do tipo “Revolucionário e/ou Utópico”, o presente artigo não se aprofundará nas demais
tendências, afinal, a análise do romantismo como um todo não é o objeto desse artigo. Para mais, vide:
LOWY, Michael; SAYRE, Robert. Revolta e Melancolia. São Paulo: Boitempo Editorial, 2015, p.85-112.
5
Com exceção do tipo “Revolucionário e/ou Utópico”, o presente trabalho não pretende se aprofundar nas
demais tendências do romantismo de Löwy e Sayre, afinal, a análise desse movimento como um todo não
é o objeto desse trabalho. Para mais, vide: LOWY, Michael; SAYRE, Robert. Revolta e Melancolia. São
Paulo: Boitempo Editorial, 2015, p.85-112.

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I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais
Para fins de compreensão, consideremos que exista um amálgama no que se
refere às assim chamadas “fontes do marxismo”. A literatura marxista, a partir de Engels,
atribuiu a três as fontes importantes que influenciaram o pensamento de Marx: o
Idealismo Alemão, o Socialismo Utópico Francês e a Economia Política Inglesa. Para
Michael Löwy, existe uma quarta fonte que influencia o pensamento de Marx, o
Romantismo6. Essa influência do pensamento romântico no trabalho de Marx teria
ocorrido desde os primeiros trabalhos do velho mouro, embora Löwy admita que “após
converter-se à dialética hegeliana, ao materialismo e à filosofia da práxis (1840-1845),
Marx rompe com esse primeiro romantismo juvenil” (2015, p.120). Até mesmo Löwy
sabe muito bem que “no Manifesto Comunista (1848), Marx taxa de “reacionário”
qualquer sonho de voltar ao artesanato ou a outros modos pré-capitalistas de produção”
(p.120). Entretanto, independentemente dessa análise dos primeiros anos de produção
teórica de Marx, Löwy ainda admite uma influência do pensamento romântico em Marx:

“Numa atitude tipicamente dialética, [Marx] vê o capitalismo como um sistema


que transforma todo o progresso econômico em uma calamidade pública. É na
análise das devastações sociais provocadas pela civilização capitalista – bem
como em seu interesse pelas comunidades pré-capitalistas – que ele se junta,
pelo menos em certa medida, à tradição romântica” (LOWY, 2015, p.120)

Seguindo a exposição do autor, Löwy apresenta alguns “críticos românticos” que


teriam influenciado a obra de Marx, como por exemplo: o economista Sismondi; o
populista russo Danielson; escritores como Dickens e Balzac; filósofos como Carlyle; e
claro, não poderiam faltar os historiadores e antropólogos “românticos” – sob o olhar de
Löwy - como os já supracitados George Maurer e Lewis Morgan. Mas o ponto central
aqui, é que em sua introdução à Lutas de Classes na Rússia, o que Löwy associa àqueles
escritos de Marx ao tratar da comuna rural russa com o pensamento romântico é
exatamente o “seu interesse pelas comunidades pré-capitalistas”. Proponho então
analisarmos o desenvolvimento do interesse e dos estudos de Marx sobre a Rússia afim
de que possamos compreender o sentido em que essas investigações foram realizadas. E,
por fim, se é correto ou não atribuir a característica de romântico ao interesse de Marx
pelas comunidades “pré-capitalistas”.

2. Os perigos da sedução romântica ao marxismo

A seção IV do Manifesto Comunista é dedicada à “posição dos comunistas diante


dos diversos partidos de oposição”. Naquele momento, os comunistas lutavam “pelos
interesses e objetivos imediatos da classe operária”, mas, ao mesmo tempo, defendiam e
representavam “no movimento atual, o futuro do movimento” (MARX; ENGELS, 2010,
p.68). Assim, através do Manifesto, os comunistas se posicionaram de acordo com o
contexto de alguns países da Europa, que se conformava como “um campo limitado do
movimento proletário” (p.72) da época: na França se aliaram ao partido social-democrata;
na Suíça apoiaram os radicais; na Polônia os democratas revolucionários; e na Alemanha

6
Em Revolta e Melancolia, Löwy afirma que “o romantismo é uma das fontes esquecidas de Marx e Engels,
uma fonte que talvez seja tão importante para o trabalho deles quanto o neo-hegelianismo alemão ou o
materialismo francês” (2015, p.120-121). Além dessa passagem, Löwy afirma categoricamente em um
vídeo que considera o Romantismo como a quarta fonte de Marx, Engels e do pensamento marxista. Vide:
https://www.youtube.com/watch?v=oIT1Oho1srk. Teodor Shanin também não escapa desse “amálgama”
em apontar que, em sua visão, existe também uma quarta influência ao pensamento de Marx, mas, diferente
de Lowy, Shanin se refere ao populismo russo (SHANIN, 2017, p.52)

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I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais
o partido comunista (p.68-69). Percebam que a Rússia sequer foi mencionada nessa seção.
Existe, entretanto, um motivo.
O prefácio à edição russa do Manifesto Comunista de 1882, assinado por Marx
e Engels, é um documento especialmente interessante. Esse trabalho, de apenas seis
parágrafos, constitui, para Kevin Anderson (2010, p.197), como a única publicação de
Marx que estava em consonância com os trabalhos que o velho mouro vinha
desenvolvendo no decorrer da década de 70 e início da década de 80 do Século XIX até
sua morte, sobre sociedades pré-capitalistas para além da Europa ocidental7. A Rússia
passou por transformações significativas desde a publicação do Manifesto em 1848 até o
prefácio à edição russa do Manifesto, já em 18828. E essas transformações foram
ressaltadas pelo prefácio, que exprimia o fato de que, na época da publicação original do
Manifesto, “a Rússia se constituía na última grande reserva da reação europeia”; era a
Rússia um dos países que “proviam a Europa de matérias-primas, sendo ao mesmo tempo
mercado para venda de seus produtos industriais” e, de uma maneira ou de outra, era pilar
da ordem europeia vigente (MARX; ENGELS, 2010, p.73). Mas foi após a publicação do
Tomo I de O Capital que a Rússia figurou como um elemento determinante na vida de
Marx, não apenas pelo interesse teórico que aquele país de dimensões continentais
possuía, como também um interesse político, afinal, Marx era o responsável dentro do
Comitê Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores de estabelecer relações com
a Rússia.
Teodor Shanin aponta para quatro eventos que aparecem como marcos na
experiência política e intelectual para o pensamento de Marx no período pós publicação
de O Capital (ou seja, após 1867): O primeiro, a Comuna de Paris, de 1871, que ofereceu
uma lição dramática e um tipo de poder revolucionário nunca visto antes; segundo um
grande avanço no campo da produção de conhecimento, que foi a descoberta da “pré-
história”, que trouxe as sociedades “primitivas” para dentro de um espaço de estudos
históricos e etnológicos; terceiro a ampliação do conhecimento das sociedades rurais não
capitalistas inseridas em um mundo capitalista; e quarto a Rússia e os russos deram a
Marx uma potente combinação: a rica evidência sobre as comunidades rurais e a
experiência revolucionária direta, tudo isso junto com a teoria e a prática do populismo
revolucionário russo (SHANIN, 2017, p.31).
O desenvolvimento dos estudos de Marx sobre a Rússia se deu,
concomitantemente, ao desenvolvimento do capitalismo naquele país.
Naquela época, ao passo em que Marx desenvolvia suas investigações, por volta
de 3/5 das terras cultiváveis da Rússia europeia estavam nas mãos das comunas
camponesas. O modo de funcionamento da divisão da propriedade nessas comunas se

7
Mesmo assim, com uma peculiaridade que não pode deixar de ser notada, como demonstra a japonesa
Haruki Wada: “o manuscrito do prefácio, marcado ‘Londres, 21 de fevereiro de 1881, foi rascunhado por
Engels; Marx fez apenas uma correção mínima e colocou sua assinatura. Diante do fato de que o manuscrito
que temos hoje tem uma passagem no fim que foi escrita uma vez, rasurada, e não reescrita, é possível vê-
lo como uma cópia limpa que Engels transcreveu ainda de outro manuscrito. Todos esses fatores nos levam
a concluir que Marx, que estava desanimado na época, pediu a Engels para fazer um rascunho e o assinou.
Que Marx não ficou totalmente satisfeito com o resultado pode ser deduzido da carta que ele mandou a
Lavrov com o manuscrito: ‘se esta peça, que é para a tradução do russo, for para ser publicada como está,
em alemão, ainda precisa de toques finais em seu estilo’” (2017, p.116). Mesmo o único texto produzido
por Marx como resultado das investigações finais de sua vida é dotado de uma complexidade quanto à sua
produção.
8
Interessante adensar a esse ponto, o fato de que os estudos russos que Marx avançou até ali, “foram
interrompidos por um tempo considerável pela Comuna de Paris e, depois da derrota, pela luta interna
dentro da internacional. Foi só depois do congresso de Haia de setembro de 1872 que ele voltou à teoria e
à questão russa” (WADA, 2017, p.84)

155
I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais
conformava da seguinte maneira: cada família detinha apenas um pequeno pedaço de
terra, que concernia a uma casa e um jardim, além de seus animais e equipamentos. O uso
da terra cultivável era atribuído para uma família pela comuna em termos de longo prazo,
os prados eram redefinidos todo ano e com frequência eram trabalhados coletivamente.
Já os pastos e florestas eram de uso comum. Muitos serviços vitais eram realizados
coletivamente: o pastoreio da aldeia, as guardas locais, o cuidado com os órfãos, entre
tantos outros. A divisão dos cargos eram decididas através de uma assembleia dos chefes
de família. Em grande parte dessas comunas, essa assembleia era também responsável
por dividir, periodicamente, as terras cultiváveis entre as famílias. (SHANIN, p.38-39)
Durante toda a extensão da década de 70, bem como do início da década de 80
do Século XIX até sua morte, Marx investigou extensamente a literatura russa - sobretudo
no que concernia à questão da propriedade comunal da terra. O próprio Marx relatou que
em sua biblioteca continha aproximadamente 200 livros no idioma russo9, o que é
impressionante considerando o fato de que no início do ano de 1870 Marx sequer tinha
domínio sob tal idioma. O ponto de partida para que Marx aprendesse o idioma russo se
deu devido ao fato de que seu amigo Nicolai Danielson (1844-1918), importante populista
russo e um dos principais expoentes do marxismo naquele país, presenteou Marx com a
obra A situação da classe operária na Rússia, de autoria de Flerovsky, em outubro de
1869. Relatos datam que em fevereiro do ano seguinte Marx já iniciara suas investigações
sobre o livro russo. Em carta a Engels no dia 10 de fevereiro de 1870, Marx afirma que
“em qualquer circunstância, esse é o livro mais importante que apareceu desde o seu A
situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, em referência ao livro de Engels de 1844
(SAYER, 2017, p.211-212). Também em uma carta a Engels, nessa mesma época, a
esposa de Marx mencionou que “ele começou a estudar russo como se fosse uma questão
de vida ou morte”, e, assim, aliando “o útil ao agradável”, o modo pelo qual se deu o
aprimoramento de Marx junto ao idioma foi através de leituras de autores que debatiam
tais temas, como Herzen e principalmente Tchernichevski.
Na edição francesa de O Capital algumas modificações ocorreram na exposição
final da obra, provavelmente em função dessas novas leituras. Foi retirado, por exemplo,
o “assim chamado” do título do capítulo 24 de O Capital, constando apenas o Acumulação
Primitiva. Além disso, foi suprimida uma nota na qual Marx criticava Herzen, autor russo
que se alinhava com as perspectivas do conhecido grupo Populistas Russos. Também,
uma das passagens clássicas do capítulo 24 foi substituída. Onde se lia que:

“A expropriação da terra que antes pertencia ao produtor rural, ao camponês,


constitui a base de todo o processo. Sua história assume tonalidades distintas
nos diversos países e percorre as várias fases em sucessão diversa e em
diferentes épocas históricas. Apenas na Inglaterra, e por isso tomamos esse
país como exemplo, tal expropriação se apresenta em sua forma clássica”
(MARX, 2013a, p.963)

Passou-se a ler:

“No cerne do sistema capitalista está, portanto, a separação radical do produtor


e dos seus meios de produção (...) A base de toda essa evolução é a
expropriação dos camponeses. Isso só se realizou até sua forma final na
Inglaterra (...), mas todos os outros países na europa ocidental estão seguindo
o mesmo movimento” (MARX, 1872-1875; p.315).

9
“[após Marx retornar a] Londres, compila a lista dos ‘livros russos em minha estante’ – perto de 200
títulos” (SAYER, 2017, p.241).

156
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21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais
Uma implicação óbvia dessa correção é que a forma inglesa de expropriação dos
camponeses é aplicável apenas à Europa ocidental, ou seja, a Europa oriental e a Rússia
poderiam ter um desenvolvimento diferente (WADA, 2017, p.88). No ano de 1877 veio
a acontecer a guerra russo-turca, o que deu aos socialistas a esperança de desencadear
uma revolução na Rússia. Essa expectativa pode ser notada, por exemplo, em uma carta
que Marx enviou a Sorge, no dia 27 de setembro daquele ano, dizendo:

“Essa crise é um novo momento decisivo na história da europa. A Rússia – eu


estudei a situação desse país com base em fontes oficiais e não oficiais em
russo – esteve por um longo período à beira da revolução. Todos os fatores
para isso já estavam presentes (...) Se a mãe natureza não for
extraordinariamente dura conosco, talvez nós possamos viver o suficiente para
ver o dia maravilhoso da cerimônia. A revolução, neste tempo, começa do
Leste, esse mesmo Leste que nós por tanto tempo consideramos como o apoio
invencível da contrarrevolução” (MARX, apud WADA, 2017, p.96).

Em fevereiro de 1881, Vera Zasulitch, populista russa ligada à ramificação


Repartição Negra envia a Marx uma carta cujo o interesse estava em acordo com o
desenvolvimento das pesquisas que o velho mouro desenvolvia. Vera queria saber sobre
o destino da comuna rural russa e sobre “a teoria da necessidade histórica de que todos os
países do mundo passem por todas as fases de produção capitalista” (ZASULITCH, 2013,
p. 80). Marx, naquele mesmo mês, elaborou alguns extensos rascunhos como respostas a
serem enviadas à Vera. Mas sua resposta, em contrapartida, deu-se através de uma
pequena carta, que tinha como cerne a noção de que a assim chamada “fatalidade
histórica” desse processo “estava restrita aos países da Europa ocidental” e que os estudos
que desenvolveu o convenceram de que “essa comuna é a alavanca da regeneração social
na Rússia” (MARX, 2013b, p.114-115).
O entusiasmo de Löwy junto a essa carta, bem como os rascunhos que a
antecederam, reside no fato de que, para o sociólogo brasileiro/francês, esses escritos,
“significam uma ruptura profunda com qualquer interpretação unilinear, evolucionista,
“etapista” e eurocêntrica do materialismo histórico” (LÖWY, 2013, p.9). Löwy continua:
“a partir de 1877, eles sugerem, ainda que não de forma desenvolvida, uma perspectiva
dialética, policêntrica, que admite uma multiplicidade de formas de transformação
histórica, e, sobretudo, a possibilidade que as revoluções sociais modernas comecem na
periferia do sistema capitalista e não, como afirmavam alguns de seus escritos anteriores,
no centro”. E termina: “trata-se de uma verdadeira “virada” metodológica, política e
estratégica” (p.9). Ao tratar de Marx, parece-me correto afirmar que esses textos estão em
desacordo com uma interpretação “unilinear, evolucionista, etapista e eurocêntrica” do
assim chamado materialismo histórico. Entretanto, isso não se configura como uma
novidade no pensamento do velho mouro. Já em 1857, cerca de 20 anos antes, o capítulo
dos Grundrisse intitulado Formas que precederam a produção capitalista já deixava essa
abordagem implícita, e no capítulo A assim chamada acumulação primitiva, na citação
que mencionamos a pouco, essa perspectiva aparece de maneira explícita.
Parece-me que a proximidade com que Löwy associa o interesse de Marx junto
as formas pré-capitalistas e o pensamento romântico se dá através de um desarranjo que
não se configura no desenvolvimento do pensamento de Marx. Esse “desarranjo”, que se
constitui enquanto ponto central desse trabalho, se conforma da seguinte maneira: Löwy
associa a “romantismo” o que Marx tratou enquanto “regeneração”. Marx afirma que essa
“regeneração” que levaria a Rússia ao “novo sistema para o qual tende a sociedade
moderna, será uma reinvenção, em uma forma superior, de um tipo social arcaico”
(MARXb, 2013, p.91). A citação é clara, mas percebam como que Marx não propõe um
retorno ao modo arcaico, mas sim, uma reinvenção desse modo, principalmente no que

157
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concernia às suas características coletivas. Se não houvesse uma reinvenção desse modo,
não se trataria de uma perspectiva revolucionária, afinal, como o próprio Marx menciona,
“não é do passado, mas unicamente do futuro, que a revolução social do Século XIX pode
colher a sua poesia” (MARX, 2011, p.28). Ao tempo em que a perspectiva de Löwy do
anticapitalismo romântico busque um retorno às formas que precederam o capitalismo,
uma dura conclusão aqui já nos é inevitável, a saber: “romantismo-revolucionário” nada
mais é do que um oximoro.
A compreensão do romantismo em Löwy não parte do modo pelo qual esse
movimento se conforma na realidade, mas sim de uma suposição ideal do que o autor
acredita que esse movimento é. O movimento romântico, em Löwy, aparece como um
modelo acabado na medida em que, a partir desse modelo, são incluídos, ou não, autores
que estudam determinados assuntos ou que, em seus textos, apresentam determinadas
influências que se aproximam da sua perspectiva romântica. É importante mencionar,
nesse aspecto, como já salientava Marx e Engels (2010, p.119), que “o método
materialista se converte em sua antítese quando é utilizado não como fio condutor na
investigação histórica, mas como um modelo acabado a que há que adaptar os fatos
históricos”. Dessa forma, ao considerar o mero interesse de investigação em formas pré-
capitalistas como uma prática romântica, Löwy abre o precedente para considerarmos não
só que existe uma vertente romântica no pensamento de Marx como também que, a
antropologia, em si, seria um campo de conhecimento essencialmente romântico. A
história, consequentemente, também seria. O marxismo, que em grande medida busca a
gêsese do objeto ao rastrear o seu nexo interno, também teria sua vertente romântica. Esse
que vos fala, mesmo ao criticar o romantismo como intuito desse texto, seria um
romântico por estar interessado em investigar as formas pré-capitalistas no pensamento
de Marx. Cairíamos portanto em um círculo vicioso ao caracterizarmos tudo como
romântico, exceto o que não é. Quando Löwy caracteriza toda a extensão dos movimentos
que se opõem à modernidade como “românticos”, ele se assemelha à ironia que Jorge
Luis Borges (2000, p.76) traz ao mencionar a enciclopédia chinesa do doutor Franz
Kuhn, um modo curioso de classificação dos animais que se dividiriam em categorias,
dentre elas, “os que estão incluídos nessa classificação” e os “etcétera” (os que pertencem
ao imperador, e os que de longe parecem moscas).
Por isso que, embora Marx constate que Sismondi – o mais renomado dos
economistas românticos clássicos – tenha identificado contradições no modo de produção
capitalista, essa constatação não impossibilitou que, no Manifesto Comunista, Marx
critique especificamente o chamado “socialismo pequeno-burguês”, principalmente
através da figura de Sismondi. É interessante notar que na seção “literatura socialista e
comunista” do Manifesto, o tópico que mais se assemelha à crítica romântica é esse
mencionado, o “socialismo pequeno-burguês” – mesmo porquê é o tópico em que o nome
de Sismondi é citado. Porém a abrangência que Löwy deu a sua concepção de
Romantismo faz com que o assim chamado “socialismo feudal”, também criticado por
Marx, esteja incluído nas concepções de romantismo revolucionário do sociólogo
brasileiro/francês, afinal, a partir da “velha fraseologia da restauração”, Marx e Engels
(2010, p.59-60) apresentam que o surgimento do socialismo feudal se deu “em parte
lamento, em parte pasquim; em parte ecos do passado, em parte ameaças ao futuro” e “se
por vezes a sua crítica amarga, mordaz e espirituosa feriu a burguesia no coração, sua
impotência absoluta em compreender a marcha da história moderna terminou sempre
produzindo um efeito cômico”. Ao tempo em que Löwy agrega o socialismo pequeno-
burguês junto do socialismo feudal como se ambos fizessem parte do assim chamado
“romantismo revolucionário”, Marx e Engels, em uma seção do Manifesto na qual o

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intuito era exatamente criticar a literatura socialista, atribuiu a essas duas formas a
alcunha de “socialismo reacionário”.
Marx produziu intermináveis passagens críticas ao romantismo. Nos Grundrisse,
em uma passagem que é importante a Lukács para sua crítica ao anticapitalismo
romântico, Marx diz que:

“A conexão é um produto dos indivíduos. É um produto histórico. Faz parte de


uma determinada fase de seu desenvolvimento. (...) O grau e a universalidade
do desenvolvimento das capacidades em que essa individualidade se torna
possível pressupõem justamente a produção sobre a base dos valores de troca,
que, com a universalidade do estranhamento do indivíduo de si e dos outros,
primeiro produz a universalidade e multilateralidade de suas relações e
habilidades. Em estágios anteriores de desenvolvimento, o indivíduo singular
aparece mais completo precisamente porque não elaborou ainda a plenitude de
suas relações e não as pôs diante de si como poderes e relações sociais
independentes dele. É tão ridículo ter nostalgia daquela plenitude original: da
mesma forma, é ridícula a crença de que é preciso permanecer naquele
completo esvaziamento. O ponto de vista burguês jamais foi além da oposição
a tal visão romântica e, por isso, como legítima antítese, a visão romântica o
acompanhará até seu bem-aventurado fim. (2011, p.164-165)”

Já em O Capital, Marx faz duras críticas aos românticos Adam Müller – o chama
de “romântico sicofanta” (MARX, 2013a, p.1158) - e Edmund Burke – novamente, “esse
sicofanta, que a soldo da oligarquia inglesa desempenhou o papel de romântico contra a
revolução francesa” (p.1482). E mesmo se considerarmos o ponto de vista – equivocado
– de Löwy de que Lewis Morgan seja um pensador romântico, Marx, inclusive nos
próprios rascunhos à Vera Zasulitch, remete a Morgan como “um autor norte-americano
nem um pouco suspeito de tendências revolucionárias e que em seus trabalhos contou
com o apoio do governo de Washington” (MARX, 2013b, 2013, p.91). As críticas de
Marx ao romantismo é um trabalho ainda a ser feito. E será árduo a quem o realizar,
afinal, suas considerações críticas partem desde um texto de juventude como O manifesto
filosófico da escola histórica de direito, de 1842, até as formulações críticas que podem
ser extraídas em suas últimas investigações. Mas, por hora, algumas observações já
podem ser obtidas até então.

Considerações finais

A Rússia esteve presente em três aspectos do vida final do pensamento de Marx:


a primeira como fruto de investigações teóricas; a segunda como uma localidade na qual
Marx era responsável por se corresponder dentro da Associação Internacional do
Trabalho; e a terceira através da preocupação que Marx tinha com o modo pelo qual seus
textos repercutiriam na Rússia. Esse último aspecto é importante na medida em que na
última carta em que Marx trata da Rússia, em dezembro de 1882, ou seja, meses antes de
sua morte, ele diz a sua filha Laura Lafargue: “algumas publicações russas recentes (...)
mostram o grande avanço de minhas teorias nesse país. Em nenhum lugar meu Êxito é
mais agradável. Me dá satisfação saber que eu prejudico um poder que é, ao lado da
Inglaterra, o verdadeiro baluarte da antiga sociedade” (MARX apud WADA, 2017,
p.117).
O seu interesse pela Rússia, embora não esteja trabalhando conceitualmente com
essa questão, nos oferece provas de sua relação com o pensamento romântico. A
conclusão, nessa altura, já é evidente – e com ela, encerro minha exposição: ao ponto em
que Löwy buscou aproximar a perspectiva romântica da obra de Marx, esse, em

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contrapartida, procurou se distanciar, em toda a extensão de sua obra, dessa perspectiva.
E nesse aspecto, nenhuma outra evidência no que diz respeito à diferença de abordagem
desses autores, fica tão bem expressa quanto nos textos em que Marx tratou da Rússia, e
na interpretação que Michael Löwy faz desses textos de Marx.

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I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

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Tardio e a Via Russa: Marx e as periferias do capitalismo. São Paulo: Expressão
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ACUMULAÇÃO ATRÓFICA DE CAPITAL E ORGANIZAÇÃO DO


TRABALHO NA INDÚSTRIA TÊXTIL BRASILEIRA (1900-1950)1

Elcemir Paço Cunha


Universidade Federal de Juiz de Fora
paco.cunha@facc.ufjf.br

Resumo
O objetivo do artigo é demonstrar que o processo de acumulação atrófica no Brasil
tornou-se impeditiva, pelo menos até 1950, de formas de organização do trabalho no setor
têxtil orientadas para a intensificação do trabalho por meio de expedientes como o
taylorismo e o fordismo. Ao analisar os indicadores da acumulação de capital para o setor
têxtil, verifica-se simultaneamente crescimento da composição técnica do capital embora
queda na produtividade do capital e da força de trabalho.
Palavras-chave: acumulação; setor têxtil; organização do trabalho.

ATROFIC CAPITAL ACCUMULATION AND ORGANISATION OF LABOUR


IN BRAZILIAN TEXTILE INDUSTRY (1900-1950)

Abstract
The objective of this paper is to show that an atrophic accumulation process in Brazil
become restrictive, at least until 1950, to forms of organization of labor based on labor
intensification through means as Taylorism and Fordism. Analyzing some capital
accumulation data of textile sector, we can see simultaneously a technical composition of
capital growth despite of a downgrade of capital and labor productivity.
Keywords: accumulation; textile sector; organization of labor.

1. Introdução
O presente trabalho apresenta um estudo acerca da acumulação de capital no
Brasil, particularmente no setor têxtil, procurando contribuir para o debate acerca da
organização do trabalho.
Conforme mostraremos na próxima sessão, o debate a respeito das influências do
taylorismo e do fordismo na primeira metade do século XX esbarra na dificuldade de
acesso direto às modalidades de organização do trabalho e, por isso, limita-se no mais das
vezes ao discurso do empresariado daquele período.
A contribuição principal do artigo é explorar a unidade entre, de um lado, a base
técnica e a organização do trabalho e, de outro, o processo de acumulação ao fundo. Uma
vez que o acesso a dados diretos é impedido concretamente, propõem-se uma inversão,
investigando o estágio da acumulação de capital como condição de possibilidade para
mudanças técnicas que, por sua vez, condiciona a organização do trabalho. O argumento
principal está baseado nessa relação de modo que a investigação do estágio de
acumulação tem muito a dizer sobre as possibilidades das condições técnicas e do
trabalho. Nesse sentido, a pesquisa é precipuamente baseada em dados da economia
brasileira extraídos do IBGE e de fontes secundárias como pesquisas já realizadas.
Para levar o objetivo adiante, dividiu-se a exposição em quatro partes além desta
curta introdução. Na primeira está contida uma problematização dos elementos aqui
1
Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais – FAPEMIG pelo apoio
financeiro ao projeto que gerou o presente artigo.

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apenas aludidos. Na segunda, explora-se a relação entre acumulação, base técnica e


organização do trabalho recorrendo às categorias de manufatura, manufatura moderna e
grande indústria conforme legado por Marx. Em seguida, apresentamos os dados da
economia brasileira e particularmente do setor têxtil para o período entre 1900 a 1950.
Por fim, encontram-se as considerações finais do trabalho.

2. Problematização
Qual foi a medida da conversão das teorias da administração em força material no
Brasil? Essa é uma questão que permeia, direta ou indiretamente, considerável volume de
estudos que circulam entre as áreas da administração e da história, com diferentes
inclinações e graus de investida sobre a realidade concreta.
A começar pela literatura atinente à história, pode-se destacar pelo menos duas
tendências.
Uma primeira tendência é o estudo historiográfico realizado por diferentes
pesquisadores interessados, em geral, pelo assim chamado processo de “racionalização”
levado adiante no Brasil a partir dos anos de 1920. É o caso de Antonacci (1993) e Rago
(1985), por exemplo, que, ao investigarem o ideário do empresariado no período,
identificaram ampla disseminação de aspectos do taylorismo. A limitação está no próprio
objeto analisado, pois o fato da disseminação no ideário do empresariado, embora seja
uma pista, não significa que a realidade se conformasse a ele. Uma segunda tendência
enfatiza o esforço do empresariado em estabelecer um fordismo no Brasil (cf. Vianna,
1978). No geral, possui uma tentativa ainda limitada ao plano do ideário do empresariado,
mas, ao contrário da primeira tendência, encontra poucos elementos e precisa concluir
que não houve modificações convincentes na organização do trabalho no sentido de um
taylorismo ou fordismo no Brasil daquele período. Zanetti e Vargas (2007) sustentam
que, aquilo que se assemelhava aos enunciados teóricos de Ford, por exemplo, não passou
de palavreado do empresariado dos anos de 1930 em defesa de seus interesses com
respeito às leis trabalhistas e protecionismo governamental, como nos casos de Pupo
Nogueira e Roberto Simonsen, respectivamente. Não propuseram, porém, boas razões
explicativas para o fato identificado de não haver se desenvolvido um taylorismo ou
fordismo no Brasil. Adicionalmente, Vargas (1985) contrastou as práticas gerenciais no
Brasil com a pureza da descrição original do taylorismo pelo próprio Taylor. Assumiu,
assim, que quando foi possível falar sobre um taylorismo no Brasil, dava-se já em um
contexto de sua ultrapassagem pelo toyotismo a partir da década de 1970. Em mesmo
sentido de uma pureza conceitual, Fleury (1983) argumenta haver no Brasil do início da
década de 1980 não mais do que uma “rotinização” do trabalho em contraste com as
especificações gerais do taylorismo tal como prescrito por seu autor original.
Não obstante as importantes contribuições, prevalece o fato de que “ainda há
muito para ser pesquisado no que concerne ao processo de trabalho tal como se dava nos
estabelecimentos fabris daquele período” (Zanetti; Vargas, 2007:134).
Sobre a literatura mais ligada à administração, considerou-se as teorias da
administração como ideologias e, em grande medida, manteve-se a investida em um plano
mais lógico, procurando indicar o ímpeto de tais teorias em distorcer a realidade. Esse é
o caso dos proeminentes críticos das teorias da administração como ideologia, e esta,
como falsidade (cf. Paço Cunha, Guedes, 2015, para um tratamento mais longo sobre o
problema). Se, por um lado, a contribuição principal está em certa explicitação do caráter
apologético de tais teorias (com a ressalva de procurarem proteger certas tendências mais
sociológicas), por outro lado, o limite ao plano lógico, nunca elevando-se ao concreto-

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histórico, impediu a investida na realidade brasileira para se extrair desta a efetividade


daquelas.
Ainda ligada à essa literatura, Paço Cunha e Guedes (2016) fizeram esforço de
apreensão da problemática no caso concreto brasileiro, considerando ideologia não como
falsidade senão em seu sentido “ontoprático”, isto é, o determinante na ideologia não é
sua potência de verdade ou falsidade, mas sua efetividade nos conflitos sociais, dando-
lhes direção (cf. Paço Cunha; Guedes, 2015). Não obstante o esforço de avaliação do
ideário do empresariado, notícias em jornais e pesquisas de sociólogos em largo período
histórico (até 1960 aproximadamente) (cf. Paço Cunha; Guedes, 2016), esbarrou-se nos
mesmos limites da literatura na área da história em sua segunda tendência aludida. A
despeito de os autores assumirem conclusões semelhantes com respeito à baixa
generalidade de um taylorismo e de um “humanismo” no Brasil ao longo de toda primeira
metade do século XX, possuem elementos explicativos ligados tanto à materialidade do
contexto brasileiro daquele período quando intuem propriedades específicas de certas
teorias administrativas e seus potenciais de efetivação comparativamente a outras
expressões teóricas. A explicação ligada ao contexto nacional sugere que “um capitalismo
hipertardio (...) não cria as condições objetivas” (Paço Cunha; Guedes, 2016:1002)
adequadas, isto é, “condições de possibilidades reais que tornam tais ideologias
necessárias e possíveis” (ibdem:1005). Por outro lado, a explicação ligada a determinadas
propriedades assevera que:

As teorias que expressam mais nitidamente os problemas práticos de determinado momento nos
ciclos de acumulação possuem mais potencial de funcionar como ideologias, pois precisam
acomodar uma nova e às vezes drástica modificação na organização do trabalho como resposta às
alterações nos padrões de acumulação. Como esses padrões tendem a dominar amplos setores
produtivos por efeito da concorrência entre os capitais individuais, movimentam massas humanas,
implicam inúmeros efeitos e acionam reciprocidades dos aparelhos estatais como resposta às novas
condições produtivas. Os conflitos provenientes dessas modificações alcançam níveis para além
de casos singulares, demandando uma resposta num plano mais elevado de cobertura. Entram
nessa equação não apenas teorias da administração, mas também a política, o direito etc.
(ibdem:1003)
o nexo causal entre a efetivação desses ideários [“humanismo”] e as condutas humanas por eles
esperados é muito mais suscetível a resistências passiva e ativa, e ao acaso, do que modificações
objetivas na organização técnica do trabalho (taylorismo, fordismo...) como resposta a um estágio
específico dos padrões de acumulação (ibdem:1004)

As intuições apresentadas são importantes embora tenham limites que precisam


ser corrigidos. Ao retirar as conclusões a partir da inspeção de indicações históricas, os
autores não ultrapassam os mesmos limites das tendências da área da história e
permanecem no campo irresolutivo. Por outro lado, mantêm uma má-compreensão de o
taylorismo e fordismo constituírem em si “modificação drástica” ou, mais precisamente,
“modificações objetivas na organização técnica do trabalho”, embora apresentem retidão
ao indicar os padrões de acumulação como elemento incontornável ao fundo. É uma
marca semelhante à encontrada em outro material interessado na gênese do taylorismo
nas condições de desenvolvimento do capitalismo nos Estados Unidos (cf. Paço Cunha
et. al., 2017), pois mantém certa identificação entre organização do trabalho e taylorismo
apesar de dar o mesmo passo adiante na análise do processo de acumulação ao fundo
como explicativo do desenvolvimento de determinados ideários.
Centralmente, permanece uma dificuldade peculiar. O passo adiante apresentou
ainda limites com respeito a dados e informações que permitam o acesso direto à
organização do trabalho que possa dar a medida da modificação do processo de trabalho

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na particularidade brasileira, denotando, assim, a efetividade de um taylorismo ou


fordismo nas condições da primeira metade do século XX. Sem esses elementos não se
ultrapassa o limite da intuição ainda que relativamente referendada numa análise de
realidade.
A primeira medida necessária, para encaminhar a questão, é dissociar taylorismo
e fordismo da organização do trabalho, situando os primeiros como métodos de
intensificação do processo de trabalho no interior de uma modalidade posta de
organização do trabalho. Assim, considera-se a última como modalidade de divisão e
combinação do trabalho sobre uma base técnica determinada, isto é, base técnica como
estágio de desenvolvimento dos meios de produção. Assim, um baixo nível de
desenvolvimento dos meios de produção mantém a divisão do trabalho como elemento
decisivo e um alto desenvolvimento, como veremos adiante, supera a divisão e estabelece
os meios de produção como aspecto mais importante.
A segunda medida relevante e crucial – e neste ponto está o passo adiante já
realizado pela literatura ligada à área da administração – vemos na conexão entre
organização do trabalho e base técnica da produção. Esta unidade de determinações
recíprocas aparece, e esta é a terceira medida, como função do estágio de acumulação do
capital ao fundo. Dessa maneira, um modo especial de resolver o problema é, como
anunciado na introdução, trilhar outro caminho além daquele representado pelo ideário
do empresariado, e outros correlatos, inspecionando o processo de acumulação de capital
como elemento explicativo fundamental. É esse processo que dá a medida do avanço da
base técnica em conexão com modalidades de organização do trabalho e, no interior desta,
expedientes como o taylorismo e fordismo.
Para tanto, outras medidas são requeridas. É particularmente proveitoso inquirir
tal processo de acumulação no Brasil, especificando determinado setor da economia.
Àquele tempo (ao menos antes de 1946), os maiores aportes de capital industrial estavam
direcionados para setores como alimentos e têxtil. Particularmente este último, pode ser
considerado o setor mais avançado em termos técnicos do Brasil daquele período
(Ribeiro, 1988). Uma análise de suas especificidades e do processo de acumulação ali
desenvolvido pode dar uma medida mais aproximada da realidade e mesmo ajudar a
explicar as circunstâncias de outros setores. Se houve “modificações drásticas” na
organização do trabalho na economia brasileira de então, há grandes chances de que
tenham ocorrido no setor mais desenvolvimento tecnologicamente daquele tempo. Ao
mesmo tempo, esta medida pode ser completada pela delimitação mais ou menos restrita
dos dados nacionais à economia paulista, uma vez que já na década de 1930 comportava
o maior desenvolvimento industrial do país.
Antes, porém, de imergir na realidade brasileira e do setor têxtil paulista, é
necessário considerar a unidade refletida abaixo, como meio resolutivo da problemática
antes posta.

3. Acumulação, base técnica e organização do trabalho


Uma vez estabelecido o caminho básico de se determinar as possibilidades de
modificações tais no processo de trabalho, particularmente no setor têxtil da primeira
metade do século XX, torna-se incontornável o quadro concreto da diferenciação, no
interior do desenvolvimento histórico, entre manufatura e grande indústria.
Para tanto, é preciso considerar que tais modalidades gerais de configuração da
produção capitalista estão assentadas sobre a exploração econômica do trabalho.
Manufatura ou grande indústria, e seus pontos intermediários de desenvolvimento, são

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métodos de extração de mais-valor por meio de diferentes expedientes, a exemplo do


prolongamento da jornada de trabalho e da intensificação do processo de trabalho.
Aumentando o tempo total da jornada de trabalho ou diminuindo o tempo socialmente
necessário à produção das mercadorias, a diferença entre manufatura e grande indústria
não se encontra em sua funcionalidade senão em seus princípios fundamentais.
Em termos bastante sintéticos, enquanto a manufatura tem, por aspecto elementar,
a força de trabalho e suas ferramentas sustentadas na divisão do trabalho vivo e nas
potencialidades desse trabalho em cooperação sem eliminar integralmente certas
habilidades dos trabalhadores individuais parciais combinados (existentes custos de
aprendizagem), o princípio da grande indústria é a automação que se arqueia pelo
desenvolvimento do capital fixo, isto é, maquinaria e pela combinação dela como um
sistema. Permanece na manufatura uma base técnica estreita que exclui uma “análise
verdadeiramente científica” (Marx, 2013:413), uma vez que a combinação do trabalho é
natural-espontânea e cuja divisão ocorre segundo necessidade técnica percebida com a
experiência prática. Mantém-se nela o princípio subjetivo de adequação do processo de
trabalho ao trabalhador dado que seu pedestal segue sendo em grande medida o trabalho
artesanal. Assim, o desenvolvimento dos instrumentos e ferramentas é relativamente
limitado pelo próprio princípio da manufatura, ainda que ela mesma tenha desenvolvido
“os primeiros elementos científicos e técnicos da grande indústria” (Marx, 2013:451).
É a própria manufatura que faz avançar tais instrumentos e ferramentas a
determinado estágio em que suas limitações precisam ser ultrapassadas, pois desenvolve
uma base técnica cujo progressivo avanço passa a ser limitado por seus próprios aspectos
elementares. Esse estágio mais avançado da manufatura pode ser denominado de
manufatura moderna, isto é, pontos mais desenvolvidos em que se estrangulam as
limitações da própria manufatura em razão de acréscimos substanciais no
desenvolvimento técnico como a “oficina para a produção dos próprios instrumentos de
trabalho – e especialmente dos aparelhos mecânicos mais complexos” (Marx, 2013:442).
A base técnica da manufatura fica assim revelada: força de trabalho combinada e dividida
segundo funções desenvolvidas pela prática e que manipula instrumentos e ferramentas
de trabalho. As possibilidades reais da organização do trabalho manufatureiro são
limitadas por sua estreita base técnica cujo maior desenvolvimento é restringido, por sua
vez, pela organização real do trabalho deste tipo.
Processo de mudança na manufatura e dela para a maquinaria possui pontos de
inflexão difíceis de determinar. Por isso registram-se os grandes traços.
O aspecto elementar da grande indústria é o meio de trabalho que se dá pela
transformação da ferramenta em máquina. O que caracteriza o capitalismo em sua
autenticidade não é a manufatura ou a manufatura moderna senão a grande indústria
baseada no desenvolvimento da maquinaria. A continuidade desse desenvolvimento
encontra expressão na “produção de máquinas por meio de máquinas” (Marx, 2013:458)
como ponto mais avançado do sistema da grande indústria, isto é, setores de maior
desenvolvimento do capital fixo como medida das forças produtivas (Marx, 2011:582).
A tarefa precípua, alimentada pelo princípio da automação, torna-se a análise do
“processo de produção em suas fases constitutivas e (a resolução dos) problemas assim
dados por meio da aplicação da mecânica, da química, etc., em suma, das ciências
naturais” (Marx, 2013:532-3), dissolvendo “cada processo de produção (...) em seus
elementos constitutivos e, antes de tudo, fazê-lo sem nenhuma consideração para com a
mão humana, (criando) a mais moderna ciência da tecnologia” (Marx, 2013:556). Aqui o
trabalho perde o caráter elementar que mantinha na manufatura e surge agora em lugar

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secundarizado, embora não eliminado, no sistema desenvolvido de maquinaria. De tal


forma, a modificação da base técnica cria as condições para outra modalidade de processo
de produção em que a organização do trabalho revela uma atividade produtiva reduzida
a um tempo cada vez menor (enquanto cresce o volume de capital empregado em
maquinaria) e, simultaneamente, ganha contornos de vigilância e supervisão da
maquinaria. Nessas condições, a “divisão do trabalho (...) na fábrica automática consiste,
antes de mais nada, na distribuição dos trabalhadores entre as máquinas especializadas”
(Marx, 2013:492), pois no “sistema da maquinaria, a grande indústria é dotada de um
organismo de produção inteiramente objetivo, que o trabalhador encontra já dado como
condição material da produção” (Marx, 2013:459). A base técnica, agora, não se revela
como divisão do trabalho e ferramentas, mas máquinas operantes de modo combinado às
quais o trabalho é acoplado; é uma divisão do trabalho na medida que é, antes, sistema de
máquinas.
Assim, aquele princípio subjetivo da manufatura, e persistente na manufatura
moderna, é eliminado. A produção de máquinas por meio de máquinas como ponto mais
avançado do sistema anuncia o que aqui podemos chamar de tendência intrínseca da
grande indústria e que encontra, de maneira entrevista, na grande indústria moderna,
condições adequadas de avanço, pois a grande “indústria moderna jamais considera nem
trata como definitiva a forma existente de um processo de produção. Sua base técnica é,
por isso, revolucionária. (...) ela revoluciona continuamente, com a base técnica da
produção, as funções dos trabalhadores e as combinações sociais do processo de trabalho”
(Marx, 2013:557). O que era possível de ser entrevista no século XIX era a tendência de
revolucionamento constante dos meios de produção, ratificando o princípio da
automação. O extravasamento da grande indústria moderna como etapa superior da
automação somente encontra forma mais depurada com a robótica, a microeletrônica e,
daí em diante, nas tendências de implementação da computação e integração dos sistemas
produtivos com o desenvolvimento da tecnologia da informação, inteligência artificial e
internet das coisas, como veem testemunhando as quatro últimas décadas. Trata-se, no
entanto, de outro assunto...
Não obstante, o desenvolvimento do sistema de máquinas convive com as
pressões para o prolongamento da jornada de trabalho e para a intensificação do trabalho,
mas tratam-se de expedientes já conhecidos no período manufatureiro e que, não por
acaso, aparecem novamente sob a rubrica do taylorismo e do fordismo. O esforço de
estender o tempo de trabalho excedente e diminuir o trabalho socialmente necessário não
é privilégio das modalidades manufatureira ou industrial de extração do mais-valor;
ganham contornos mais ou menos diferenciados em termos de preponderância a depender
das condições das lutas sociais e dos regimes jurídicos contingentes. Em condições de
restrição ao aumento da jornada de trabalho, tende a preponderar a extração de uma maior
massa de trabalho em termos de grandeza intensiva. Para isso, o “método de pagamento”,
principalmente o salário por peça, faz com que o “trabalhador efetivamente movimente
mais força de trabalho” (Marx, 2013:483); é um expediente amplamente conhecido e
implementado por Taylor e Ford já no século XX, para citar as experiências mais
difundidas. Por outro lado, a mera redução da jornada de trabalho durante o período
manufatureiro provocou um “aumento da regularidade, uniformidade, ordem,
continuidade e energia do trabalho” (Marx, 2013:483). Tão logo a redução da jornada de
trabalho tenha se generalizado por força da lei, na Inglaterra primariamente, o
desenvolvimento da maquinaria que assim se estimulou, converte-se pouco a pouco no
meio de extrair cada vez mais trabalho em menor tempo “pela aceleração da velocidade

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das máquinas e pela ampliação da escala da maquinaria que deve ser supervisionada pelo
mesmo operário, ou do campo de trabalho deste último” (Marx, 2013:484). Certamente,
o chamado “estudo dos tempos e movimentos” está associado à aceleração do ritmo de
trabalho, reduzindo os movimentos desnecessários, assim como a aceleração da linha de
montagem fordista. Mas ambos os casos, entretanto, não constituem elementos de
intensificação no interior do sistema de máquinas tendo em vista que o trabalho, sob tais
regimes de intensificação, permanece ainda a força que manipula os instrumentos e
ferramentas, seja nas tarefas muito simples sobre as quais se dedicou Taylor, seja sobre a
montagem do automóvel que fez época sob a direção de Ford (cf. Sartelli; Kabat, 2014).
Tais formas de intensificação são relativamente dispensáveis uma vez que se estabelece
o sistema de máquinas ao qual a força de trabalho é adaptada, ou seja, essas formas são
típicas da manufatura moderna e não da grande indústria (Moraes Neto, 2003).
Da mesma forma que os pontos de inflexão são difíceis de determinar com
exatidão, também se diz que as modalidades aludidas (manufatura, manufatura moderna,
grande indústria, grande indústria moderna) coexistem e desempenham funções
particulares no conjunto articulado do modo de produção capitalista.
Devemos reter, entretanto, que a unidade entre base técnica e a organização do
trabalho (como o processo de trabalho se efetiva por divisão e combinação das funções
do trabalhador coletivo, seja como aspecto elementar ou como secundário), reflete e
repousa sobre o processo de acumulação de capital que condiciona e resulta do próprio
avanço técnico. Também em termos sintéticos – e limitado ao aspecto técnico da
composição do capital e fazendo abstração das taxas de sua rotação –, a acumulação é
resultado da tendência imanente ao processo capitalista de maior expansão possível do
valor. Para tanto, são necessários investimentos de parte do mais-valor extraído na
continuidade ampliada da produção. Seguindo de perto as determinações apreendidas por
Marx (2013:656), “para acumular é necessário transformar uma parte do mais produto
em capital”, isto é, converter o resultado de um ciclo de rotação do capital em condição
para um ciclo ampliado refletido no crescimento da massa de capital constante (meios de
produção) e variável (força de trabalho) invertido na produção. O crescimento dessa
massa, dada a necessária apropriação da maior quantidade possível de mais-valor, não é
proporcionalmente distribuído entre meios de produção e força de trabalho. A diminuição
do tempo socialmente necessário de produção precisa ser refletida em um crescimento
maior do componente constante do capital, sendo este um resultado igual à maior
produtividade do trabalho social, ou seja, o movimento de uma maior massa de meios de
produção por um quantum menor de força de trabalho barateada nesse processo. A
produtividade do trabalho social surge, assim, como poderosa alavanca do processo de
acumulação e essa produtividade pode ser conseguida em grande medida pelo avanço
técnico correspondente aos meios de produção que, por sua vez, reflete o estágio da
acumulação de capital.
Sob a transição entre a manufatura e a grande indústria, e depois sobretudo nesta
última, se dá o processo de acumulação. O crescimento da massa de capital disponível
para novos investimentos se reflete na aceleração progressiva das modificações técnicas.
Na grande indústria esse processo fica inteiramente revelado pelo grau de importância
que os meios de produção assumem como aspecto elementar em contraste com a força de
trabalho para a manufatura. É possível dizer que a grande indústria é, em si mesma, um
determinado estágio de acumulação do capital. Determinado estágio da acumulação pode
revelar, portanto, a unidade entre a base técnica e a organização do trabalho mais ou
menos correspondente.

168
I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

Nesses termos, a acumulação pode ser estabelecida por meio de determinados


indicadores, por assim dizer. O estoque de capitais, o tamanho das empresas em termos
de força de trabalho, a produtividade do trabalho, a concentração do capital e da força de
trabalho constituem elementos de aproximação do problema, conforme estudado adiante.
A limitação a essas indicações, abrindo mão de análises mais sofisticadas (cf. Marquetti;
Porsse, 2014), deve-se sobretudo à restrita disponibilidade de dados referentes à
economia brasileira na primeira metade do século XX.
O setor têxtil, como veremos, possui peculiaridades que permitem que se o
compreenda como o primeiro ramo a constituir a grande indústria. Já podemos descartar
qualquer impulso de taylorismo e fordismo porquanto estes sejam típicos da manufatura
moderna e não da grande indústria? Talvez possamos dar mais atenção ao taylorismo e
sua generalidade extensiva se comparada à especificidade do fordismo para determinados
setores e não todos. A razão disso, inclusive, são registros de desenvolvimento do
taylorismo do setor têxtil no Brasil. Nogueira Filho (1965:124) afirmou que, em 1923 na
Fábrica Santa Bárbara no interior paulista, pôs “em prática algumas normas tayloristas”,
adotava o “sistema Rowan de salário progressivo, racionalizava a distribuição das
matérias-primas, especializava as atividades dos mestres e contramestres e dava
providências visando suprir desperdícios, elevar a qualidade do trabalho e facilitar a
execução das tarefas”. Adicionalmente, tem-se o registro de que a implementação do
taylorismo numa fábrica no interior do estado de Minas Gerais “iniciou-se em meados da
década de 50, quando da reorganização da empresa com a criação de setores diversos de
produção e manutenção, a substituição do sistema de mestres e contramestres e a adoção
de meios racionais de controle de tempo e movimento nas operações de produção”
(Loyola, 1974, 23)2.
Insinua-se que, no caso da indústria têxtil, ao menos o taylorismo não é
impossibilitado pelo fato objetivo de este setor ser mais dominado pela maquinaria e,
logo, constituir-se em grande indústria. Se não é impossibilitado, qual a razão de sua não
generalização? Há algo mais além de sua correspondência mais forte à manufatura.
Devemos observar o problema do estágio da acumulação.

4. Acumulação no setor têxtil brasileiro


Como dito, o estudo da economia nacional na primeira década do século XX
apresenta consideráveis restrições com respeito a dados. Alguns disponíveis pelo IBGE e
outras pesquisas anteriores permitem uma aproximação razoável do problema ainda que
não inteiramente resolutiva.
É possível demarcar, de partida, que o processo industrializante nacional somente
ganha vigor efetivo na década de 1940 (Gráfico 1). Enquanto outras nações já dispunham
de uma dinâmica industrial estabelecida, como Inglaterra e Estados Unidos, outros mais
tardios, como Alemanha e Japão, desafiavam a repartição imperialista mundial. Quando
a dinâmica do capitalismo no Brasil esboça um comportamento para além da produção
agroindustrial orientada para a exportação, as condições de repartição estão praticamente
estabelecidas, restando internas as possibilidades de crescimento uma vez que o mercado
europeu passa a ser inteiramente dominado por capital estadunidense, valendo isso para
variados setores, inclusive o têxtil.

Gráfico 1: Índices anuais de produção industrial (1939=100)


2
Fora do Brasil, há também estudos que indicam essa aplicação do taylorismo no setor têxtil (Wright, 1993;
Tsutsui, 1998; Voos et al., 2010)

169
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250.0

200.0

150.0

100.0

50.0

0.0

Fonte: Gerado a partir dos dados do IBGE (1990)

Gráfico 2: Estoque de capital fixo (valores em reais de 1999)


9,000.00
8,000.00
7,000.00
6,000.00
5,000.00
4,000.00
3,000.00
2,000.00
1,000.00
0.00
1908
1910
1912
1914
1916
1918
1920
1922
1924
1926
1928
1930
1932
1934
1936
1938
1940
1942
1944
1946
1948
1950
1952
1954

Fonte: Gerado a partir dos dados do IBGE (2017)

No Gráfico 2 ficam confirmadas algumas questões para o plano geral da indústria


nacional do período. O estoque de capitais mede o volume em termos de preços dos seus
componentes fixos, como maquinaria, prédios, instrumentos e ferramentas. É um
indicador que proporciona a medida do investimento na indústria e, especificamente,
demonstra o potencial de crescimento da acumulação de capitais em seu componente
constante. Observamos uma tendência bastante regular entre o início da série e 1945, ano
que marca o término do conflito bélico internacional. De 1945 em diante, o estoque de
capital aumenta consideravelmente em razão dos investimentos na siderurgia nacional
(cf. Bastos, 1959). Ainda assim é discutível que até 1955 tenha se desenhado inteiramente
uma completa ruptura com os níveis anteriores dado que a diferença entre as médias da
produção para os períodos 1908-1944 e 1945-1955 é de aproximadamente 3,55 e o
crescimento percentual para todo o período é de 3,46. Embora significativo, não é
comparável ao patamar posterior a 1960 no Brasil. Esses elementos sugerem que a
acumulação para a economia brasileira é consideravelmente restritiva ao avanço técnico
e, por este motivo, também a modificações significativas na organização do trabalho.

170
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Essas questões são aprofundadas com dados de produtividade industrial,


sobretudo para o estado de São Paulo. No Quadro 1 é possível avaliar o crescimento tanto
do valor acrescentado (medido em preço) à produção quanto da força de trabalho
empregada. Considere, entretanto, que o crescimento do valor adicionado por trabalhador
registrou 2,09 no comparativo entre os anos de 1920 e 1940. É discutível se esse
crescimento é expressivo de um avanço na base técnica.

Quadro 1: Produtividade do trabalho nas firmas industriais (São Paulo, 1920x1940)

Valor acrescentado Força de


(contos) (a) trabalho (b) (a)/(b) (mil-réis)
1920 440366 83998 5240
1940 2988920 272865 10950
6.79 3.25 2.09
Fonte: Adaptado de Dean (1971:118)

O Quadro 2 mostra um comparativo entre as firmas individuais e as sociedades


anônimas. A acumulação de capital e o avanço técnico que o acompanha é muito mais
correspondente às grandes empresas do que às pequenas. As sociedades anônimas
conseguiriam, em suposição, uma maior capitalização necessária aos grandes
investimentos em maquinaria, por exemplo. Então, é nesse tipo de empresa que
encontraríamos melhores indícios de avanço técnico e de modificação da organização do
trabalho.

Quadro 2: Produtividade do trabalho nas firmas industriais (São Paulo, 1940)


(d) Valor
(a) (b) Força de acrescentado (e) = (d)/(b)
Número Trabalho (c) = (b)/(a) (contos) (mil-réis)
Firmas
individuais 7721 52808 6 447355 8460
Sociedades
anônimas 1255 170526 135 2076126 12760
3.23 1.51
Fonte: Adaptado de Dean (1971:129)

As diferenças são, como esperado, demarcadas em termos do quantitativo de


empresas, da força de trabalho que emprega e valor acrescentado (medido em preço da
produção). As grandes empresas apresentam, certamente, uma maior acumulação de
capital, inclusive em sua expressão variável (força de trabalho). Contudo, embora
empregue 3,23 mais força de trabalho do que as pequenas empresas, a produtividade dessa
força de trabalho é apenas 1.51 vezes maior do que o conjunto das empresas individuais.
Isso sinaliza uma baixa produtividade do trabalho mesmo nas grandes empresas o que,
por sua vez, possivelmente resulta de um baixo desenvolvimento técnico da produção e
mesmo a ausência, em 1940, de expedientes de intensificação do trabalho, como
taylorismo e fordismo.
Os dados específicos para a indústria têxtil também são tão ou mais difíceis de
acessar uma vez que em geral as informações econômicas para a primeira metade do
século XX são agregadas para toda a indústria nacional.

171
I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
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Para uma análise geral, é possível identificar no Gráfico 3 o comportamento da


produção de tecidos de algodão que, no geral, repete as tendências dominantes para a
produção industrial nacional como um todo para o mesmo período como visto antes.

Gráfico 3: A produção de Tecidos de Algodão no Brasil, 1911-1948 (1000 metros)


1600000

1400000

1200000

1000000

800000

600000

400000

200000

0
1905 1910 1915 1920 1925 1930 1935 1940 1945 1950

Fonte: Gerado a partir dos dados de Stein (1979, Apêndice II)

A tendência de crescimento até as vésperas da crise de 1929 e, depois da queda


acentuada, uma retomada do crescimento que, a partir da década de 1940, rompe os
maiores patamares anteriores, em nada contradiz o comportamento da produção na
indústria nacional em geral. Ainda que a produção em geral aumente, não é suficiente
para que o diagnóstico da acumulação de capital reverta as restrições que identificamos
para a indústria brasileira no período. Antes de aprofundar essa questão especificamente
para o setor em tela, vejamos a importação de máquinas para o período entre 1913-1950
conforme Gráfico 4.

Gráfico 4: Máquinas Têxteis Importadas pelo Brasil, 1913-1950 (quilos)


30000000

25000000

20000000

15000000

10000000

5000000

0
1910 1915 1920 1925 1930 1935 1940 1945 1950 1955

Fonte: Gerado a partir dos dados de Stein (1979, Apêndice V))

Apesar da incompletude dos dados para alguns anos e da medida em quilos (uma
vez que faltavam registros alfandegários sobre preço à época), é possível identificar um
comportamento mais restrito das importações, sobretudo das máquinas produzidas nos

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Estados Unidos e na Inglaterra. É dispensável dizer que no Brasil qualquer produção


sistemática de máquinas está ausentada no período. Os picos de importação, considerando
1925, 1937-38, 1945, 1948-49, acompanham em certa medida o comportamento da
produção industrial do setor e refletem também até certo ponto a formação de capital fixo
para a indústria nacional. Ainda assim, é igualmente discutível os patamares de aplicação
de nova maquinaria embora fique sinalizado o movimento de renovação do maquinário
em pontos distintos no período. Voltaremos a essa consideração adiante. Observemos por
agora que o Gráfico 3 mostra um crescimento da produção têxtil com um pico acentuado
em 1923. O Gráfico 4 demonstra que esse crescimento refletiu na importação de
maquinaria que, por sua vez, expressa certa expectativa de continuidade das tendências
de crescimento embora seriam frustradas poucos anos depois. Isso registra que a década
de 1920, pelo menos até à crise de 1929, demonstrou-se ser frutífera para o setor têxtil. O
Quadro 3 ajuda a considerar uma avaliação comparada entre 1907 e 1920 para o setor
têxtil no estado de São Paulo.

Quadro 3: Estado de São Paulo - Indústria Têxtil Algodoeira - 1907 x 1920


Classificação por
Número de Número de
tamanho %
estabelecimentos operários b/a
(número de operários
(a) (b)
operários)
1907 Até 99 operários 2 85 1.23 42.50 -
de 100 a 499
11 2880 41.68 261.82
operários
de 500 a +
6 3944 57.08 657.33
operários
Total 19 6909 100.00 363.63
Classificação por Estabelecimentos, Operários,
Número de Número de
tamanho % crescimento crescimento
estabelecimentos operários b/a
(número de operários percentual 1907 x percentual
(a) (b)
operários) 1920 1907 x 1920
1920
até 99 186 2722 7.82 14.63 92.00 31.02
100 a 499 37 8399 24.12 227.00 2.36 1.92
de 500 a + 24 23704 68.07 987.67 3.00 5.01
Total 247 34825 100.00 140.99 12.00 4.04
Fonte: Adaptado de Ribeiro (1988:53-59)

Independente dos anos em consideração, vê-se que o setor têxtil é relativamente


concentrado, apresentando uma grande quantidade de força de trabalho em poucas
unidades fabris maiores, ao menos no maior parque industrial brasileiro para os anos
considerados. Em 1920, particularmente, empregava 68,07% da força de trabalho do
setor. O crescimento percentual do número de operários também é significativo para as
maiores empresas (5,01). Entretanto, os maiores crescimentos percentuais em número de
estabelecimentos (92,00) e número de operários (31,02) registram os pequenos
estabelecimentos com até 99 empregados. A despeito de ser o setor com maior
concentração de capital no país (Ribeiro, 1988), os dados sugerem uma predominância
de pequenas unidades produtivas, com poucos exemplos de firmas com mais de 500
operários. Stein (1979), que possui a melhor compilação de dados para o período, explica
que o crescimento do capital dos grandes industrialistas do setor não significou ampliação
dos negócios, mas a diversificação de investimentos em negócios com baixa articulação,

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impedindo qualquer processo de trustificação a despeito da concentração de capitais no


setor. Não apenas um número muito pequeno de firmas eram corporações, mas registra-
se o uso da forma jurídica de corporação apenas para obter vantagens legais (Dean, 1971;
Mello, 1991).
Mas a concentração da força de trabalho não é por si mesma um indicador
expressivo do problema da acumulação. Como vimos, a acumulação se reflete mais pelo
crescimento do capital constante, possibilitando uma maior produtividade do trabalho. Há
dados adicionais para uma comparação entre os anos de 1928 e 1950 nesse sentido. O
Quadro 4 traz elementos decisivos.

Quadro 4: Índices de produtividade, de concentração e composição orgânica3 (sic) do


capital da indústria têxtil paulista (1928 e 1950)
Indústria têxtil
Geral (Algodão,
Juta, Lã, Malha, Crescimento
-
Sedas) percentual
1928 1950
Capital/Fábrica = concentração 1.783 3.248 0.82
Trabalho/Fábrica = trabalho por fábrica 257 92 -0.64
Capital/Trabalho = composição técnica do capital 7 35 4.00
Capital/Produto = produtividade do capital 0.57 0.43 -0.25
Trabalho/Produto = produtividade do trabalho 0.08 0.01 -0.88
Fonte: Adaptado de Loureiro (2006:236)

Observando os dados, registra-se um crescimento da concentração do capital na


indústria têxtil paulista, ainda que o patamar atingido seja discutível (3,248) com um
crescimento percentual de 0,82. Os dados de força de trabalho por fábrica e de
composição técnica do capital são importantes por indicarem uma tendência de queda na
força de trabalho empregada por unidade fabril (de 257 para 92), podendo ser expressão
do crescimento da composição técnica, com crescimento percentual expressivo (4,00).
Particularmente a composição técnica dá a medida aproximada da acumulação de capital
uma vez que um número menor de trabalhadores empregados por fábrica (92, no ano de
1950), movimentam uma massa maior de capital (de 7 para 35). Esses elementos, porém,
são contraditos pela produtividade do capital e do trabalho, ambos com tendência de
queda, de 0,57 para 0,43 (-0,25) e 0,08 para 0,01 (-0,88), respectivamente. Fica evidente
que o aumento da composição técnica e a diminuição da força de trabalho por fábrica não
teve efeito na produtividade do capital empregado ou da força de trabalho.
Isso também sugere que não havia expedientes generalizados, como taylorismo,
para intensificação do processo de trabalho que refletisse em crescimento da
produtividade, mesmo já no ano de 1950. Não há notícias de níveis gerenciais que se
dedicassem ao estudo da produção e aplicação de tais expedientes, com exceção de casos
isolados para a indústria têxtil (cf. Nogueira Filho, 1965). As unidades fabris

3
O autor denominou de composição orgânica aquilo que é composição técnica. Enquanto esta expressa a
relação meramente quantitativa entre meios de produção e número de trabalhadores, composição orgânica
expressa a relação de valor entre capital constante e variável. Como o autor não apresenta a relação em
termos de valor, mas em termos quantitativos, fizemos essa correção que em nada obscurece sua
contribuição. Mesmo porque, a determinação da relação de valor certamente esbarra em grandes
dificuldades adicionais.

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apresentavam, quando muito, a direção dos proprietários, os operários propriamente ditos


e os chamados “condutores de trabalho”, isto é, supervisores mais diretos da produção.
Ribeiro (1988) comenta que a organização do trabalho era “espontaneamente”
desenvolvida com as mudanças na base técnica via incorporação de novas máquinas, ou
seja, a organização do trabalho e o processo de produção em si mesmos não foram
convertidos em objetos de investigação e sistematização generalizadas com vistas à
intensificação do trabalho no Brasil no período considerado.
Adicionalmente, ausência de níveis gerenciais também se manifesta na
informação de Stein (1979). Segundo o autor, havia um sistema de custos muito precário
mesmo nas maiores unidades fabris. Em outras palavras, não se tinha consciência dos
custos reais de produção como condição para qualquer investida na direção de diminuí-
lo via ampliação da produtividade do trabalho. Mas devemos recusar a tendência de
atribuir a um estado psicológico ou cultural a explicação para essa ausência de
conhecimento. Marx (2013:484) sugeriu que a limitação da jornada de trabalho na
Inglaterra obrigou o capitalista a exercer o mais rigoroso controle sobre os custos de
produção. A lei trabalhista no Brasil, que limitou a jornada de trabalho em 8 horas, foi
aprovada em 1932, mas sua aplicação somente teve efeito mais de uma década depois.
Isso explica porque, no avançar da década de 1940, não se tinha apreendido o controle
sobre os custos de produção no setor têxtil. E potencialmente ajuda a explicar também as
restrições identificadas até pelo menos a década de 1950.

5. Considerações finais
O objetivo do presente trabalho foi estudar a acumulação de capital no setor têxtil
brasileiro como fator explicativo do baixo desenvolvimento técnico e, por isso, de uma
organização do trabalho em que o processo de trabalho não foi intensificado por
expedientes como o taylorismo.
Há aqui uma série de questões que podem ser retomadas em futuras pesquisas. A
primeira delas é o aprofundamento da discussão sobre grande indústria não ser um
território propício para esse tipo de expediente. Uma segunda questão se manifesta na
baixa tendência do setor têxtil de constituir verdadeiros trusts (Schumpeter, 1997:89, nota
84), limitando ainda mais a expansão continuada de expedientes como esses. Mas há
outras questões de impasses. Se o empresariado não precisava de intensificação do
trabalho, possivelmente seus lucros tinham outra base. É possível se perguntar pela
extensão da jornada de trabalho nesse setor. É ainda mais possível perguntar pelos níveis
salariais, uma vez que uma remuneração restrita pode compensar os baixos ganhos em
termos de produtividade do capital e do trabalho, garantindo taxas satisfatórias de
exploração econômica do trabalho.
Não obstante, a estratégia indireta de pesquisa levada a cabo neste trabalho
mostrou-se bastante promissora em seu sentido explicativo, pois na linha do
desenvolvimento histórico o grau de acumulação de capital implica necessariamente a
alteração da organização do trabalho (cf. Albuquerque, 1990; Marx, 2013) em que, se
fosse esta a chave explicativa, teríamos a dificuldade de saber por que razão a mudança
na organização do trabalho seria levada adiante a despeito da acumulação de capital. Por
outro lado, se não pudéssemos encontrar no setor industrial mais desenvolvido elementos
da organização do trabalho naquele período, restaria apenas algumas poucas
multinacionais a serem investigadas e, por isso, não teríamos sentido explicativo a não
ser desses casos isolados. Ou seja, estaríamos sempre aquém de poder determinar o grau

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de generalização da organização do trabalho em seu sentido “racionalizado”, por assim


dizer.
Em suma, o setor privado apresenta dados que mostram uma condição que
poderíamos nomear de padrão de acumulação atrófica, inspirados em Chasin (2000), ou,
como prefere Mello (1991), industrialização restrita. Assim, a acumulação atrófica de
capital para todo o período aqui analisado é forte fator explicativo das consequentes
limitações identificadas na base técnica e na organização do trabalho.

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21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

FORMAS ESTATAIS E REGIMES DE ACUMULAÇÃO DE CAPITAL

Matheus Almeida
Universidade Federal de Minas Gerais
matheus.da.almeida@gmail.com

Resumo
O presente artigo promove um debate a respeito do Estado e das formas que ele
historicamente assume, relacionando-as com os regimes da acumulação capitalista,
buscando demonstrar quais são as determinações que esses regimes geram naquelas
formas. Para cumprir tal intento, partimos da análise marxista – expressa no uso do
materialismo histórico-dialético e do universo teórico desta perspectiva – a respeito do
Estado e de sua conceituação, procedendo com a investigação acerca da teoria dos
regimes de acumulação, para, por fim, verificar como o Estado se manifesta em cada
fase do desenvolvimento capitalista. Concluímos com esta pesquisa que os regimes de
acumulação são a determinação fundamental das formas estatais no capitalismo.

Palavras-chave: Estado; regimes de acumulação de capital; formas estatais.

STATE FORMS AND CAPITAL ACCUMULATION REGIMES

Abstract
This paper aims to discuss State and its different forms throughout the different capital
accumulation regimes, in order to demonstrate which are the determinations that those
regimes generate in those forms. To do so, we shall begin at the marxist analysis -
expressed by historical dialectical materialism and the theoretical universe of this
perspective - about State and it’s concept, proceeding with the investigation around
capital accumulation regimes theory, so, at last, we may verify how the State manifests
itself in each period of capitalist development. We conclude with this research that
capital accumulation regimes are the fundamental determination of State forms in
capitalism.

Keywords: State; capital regime of accumulation; State forms.

Introdução

O debate sobre o Estado é um dos mais realizados na modernidade, sob as mais


distintas perspectivas. No campo do marxismo, este é um tema recorrente e inesgotável
de mais de um século e meio de trajetória. Neste sentido, há uma longa tradição
marxista de discussão a respeito do Estado que se faz necessária ser retomada em cada
nova reflexão sobre a temática, mas mais importante ainda, é preciso resgatar o modo
como este debate é conduzido na perspectiva marxista: a partir da categoria de
totalidade.
O presente trabalho, portanto, parte de uma concepção de Estado fundamentada
na categoria marxista de totalidade, isto é, busca analisar o fenômeno entendendo-o
como síntese de múltiplas determinações que interagem entre si, e dentre elas, de uma
determinação fundamental. Este fundamento necessário para a compreensão do Estado é
o próprio capital. Por isto, realiza-se simultaneamente o debate sobre o Estado e a sua

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21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

relação indissociável com o capitalismo, de modo a desvelar o que vem a ser este
fenômeno analisado.
Partindo desta mirada, veremos quais formas o Estado assume historicamente
no capitalismo, conhecendo as suas características e as suas relações com as lutas de
classes de modo geral. Será traçado o seguinte percurso expositivo: discutir brevemente
o conceito de Estado partindo da perspectiva marxista, não sem antes mencionar
diferentes concepções sobre o Estado que se distinguem daquela defendida por Marx;
apresentar, de forma igualmente breve, os elementos gerais sobre a questão da
acumulação de capital e da teoria dos regimes de acumulação de capital; e, por fim,
relacionar as mudanças no Estado de acordo com as mutações de regimes de
acumulação, o que gera transformação nas formas estatais.
Com isto, veremos o resultado daquilo que se objetiva neste trabalho: conhecer
cada uma das principais formas estatais existentes na história do capitalismo,
relacionando-as com os regimes de acumulação existentes em suas respectivas épocas,
além de verificar algumas das produções intelectuais a respeito do Estado que emergem
em cada um destes períodos.

O conceito marxista de Estado

Este trabalho não pretende remontar a todas as interpretações que se


produziram no que, lato sensu, foi chamado de marxismo. Faremos, inicialmente,
apenas uma retomada dos elementos gerais que caracterizaram a análise marxista do
Estado, sem entrar nos meandros e especificidades da obra de Marx, o que já foi feito
em outra ocasião1. Anteriormente, realizaremos também uma breve distinção com
algumas interpretações supostamente marxistas ou associadas ao marxismo a respeito
do Estado, esclarecendo qual é a abordagem aqui adotada.
Antes de vermos qual é a concepção marxista a respeito do Estado, podemos
utilizar de um exercício que ajuda à sua melhor compreensão, qual seja: verificarmos
algumas das principais concepções não-marxistas e equivocadas sobre o Estado.
Vejamos, portanto, quais são estas interpretações.
a) O Estado-instrumento: Notabilizando-se por ser a ideologia mais
equivocadamente associada ao marxismo quanto à interpretação do Estado, esta
concepção compreende o Estado como algo, um objeto de caráter vazio, que é
“preenchido” pela classe que se encontra ao seu leme. Neste sentido, ele poderia ser
visto como um “instrumento”, supostamente neutro, que só adquire intencionalidade a
partir dos seus dirigentes2, como uma ferramenta qualquer que executa a vontade de seu
manuseador. Esta lógica pressupõe que o Estado capitalista é burguês porque a
burguesia governa o instrumento estatal, utilizando-o para os seus fins.
Ou seja, o que definiria a natureza do Estado não seria ele mesmo, mas sim
seus dirigentes. Tal concepção nada mais é do que uma forma de fetichismo da direção,
onde o Estado (e mesmo qualquer outra organização) é definido pelos seus dirigentes. A
socialdemocracia e o bolchevismo (sobretudo os trotskistas e stalinistas) são as
principais correntes que reforçam esta compreensão, que distorce a concepção de Marx,
por nega-la enquanto afirma desenvolvê-la.
b) O Estado-função: Semelhante à anterior, nesta visão o Estado passa a ser
definido pela função que ele exerce, seja ela repressiva (Weber, Lênin), ideológica

1
Cf. ALMEIDA, 2017.
2
O que faria concluir, como na tese trotskista, que os problemas existentes são “problemas de direção”,
bastando alterar o dirigente estatal para que o Estado seja burguês ou “proletário”.

180
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(Althusser), ou qualquer outra. Em outras palavras, o Estado é definido por aquilo que
ele faz (na realidade, pela parte das suas ações que o analista escolhe considerar), e não
por aquilo que ele é, por sua essência. Bourdieu critica, associando equivocadamente
esta concepção ao marxismo, a substituição da definição do Estado a partir do seu ser
pela consideração isolada de suas funções como uma abordagem funcionalista
(BOURDIEU, 2014).
Em verdade, tal concepção se encontra mais precisamente nas obras de Engels
e Lênin do que em Marx, não podendo ser confundidas com as ideias deste autor
(ALMEIDA, 2017; WRIGHT, 2015). No fundo, considerar o Estado a partir de sua
função, além de uma abordagem funcionalista ou semelhante ou funcionalismo,
representa um fetichismo da prática, em que por “prática” se entende uma determinada
ação, em contraposição a um determinado discurso. Assim, o Estado seria repressivo
porque ele age com repressão, mas, ao mesmo tempo, poderia se tornar pacífico se
agisse de forma pacifista, etc. Tal concepção se limita ao nível da aparência das ações, e
neste sentido, é profundamente distinta do marxismo.
c) O Estado-etéreo: Presente geralmente nas ideologias liberais e
neoliberais, conservadoras ou progressistas, mas também em algumas tendências
reformistas, esta visão representa o Estado como algo acima da sociedade em que ele
governa, como que pairando no ar, sem materialidade. Esta concepção parte e manifesta
nada mais do que uma forma de fetichismo do Estado, transformando o aparato estatal
em algo que possui vontade própria, como uma espécie de autômato. Trata-se de uma
concepção burguesa sobre o Estado burguês, que o legitima como gestor da sociedade
capitalista, uma vez que estaria além dos conflitos sociais.
d) O Estado-indelimitável: Tentando não cair em uma percepção que define
o Estado como algo monolítico, demarcado apenas nas suas instituições centrais
(geralmente somente os poderes legislativos, executivos e judiciários) ou nos indivíduos
que são imediatamente identificados como representantes estatais, esta ideologia
compreende o Estado como algo presente em todas as relações sociais em uma
sociedade de classes. O Estado, neste olhar, seria constituído tanto de seu “centro”
quanto de suas “margens” (DAS e POOLE, 2008), isto é, todo e qualquer indivíduo ou
organização que estabeleça relações positivas ou negativas com o Estado.
Tal concepção transforma o Estado em algo indelimitável, impensável e, no
limite, até mesmo incognoscível, já que se algo é tudo é também nada, tornando-se
impossível de ser pensado, classificado e conceituado. Esta abordagem é
frequentemente utilizada por autores pós-colonialistas e pós-estruturalistas, e expressa
outra forma de fetichismo do Estado, tornando-o algo ininteligível de forma rigorosa, e
confundido Estado com sociedade, ou seja, as relações sociais que compreendem o
Estado com o conjunto das relações sociais.

Ao contrário de todas estas ideologias3, para o marxismo o Estado não é algo,


uma coisa, tão pouco um instrumento. Também não se define o Estado por sua função,
nem o compreende como acima da sociedade ou sendo conceitualmente indelimitável.
O marxismo não interpreta o Estado a partir do próprio Estado, mas de sua relação com

3
Marx entende por ideologia uma falsa consciência sistematizada, ou uma consciência complexa que
inverte a realidade (MARX e ENGELS, 2007).

181
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21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

a dinâmica da sociedade capitalista, e sobretudo de sua relação com o motor do


capitalismo, que é a acumulação de capital4.
A forma mercadoria é a forma social fundante das demais formas sociais na
sociedade capitalista. A partir dela, se desenvolve determinadas formas políticas e
formas jurídicas a ela equivalentes. O Estado moderno deriva da revolução burguesa,
que adquiriu não somente o poder econômico, como também o político. O Estado,
assim, se torna um ser propriamente burguês, na medida em que se origina nesta
sociedade e em sua dinâmica social, de acordo com a sua divisão social do trabalho e
com a dominação burguesa.
Por isso, em realidade e do ponto de vista marxista, o Estado não é uma meta-
categoria, uma abstração a-histórica ou uma coisa qualquer, mas sim uma relação
social. Ele é uma relação social de classe, e mais especificamente, o Estado capitalista
“é uma relação de dominação de classe (no qual a burguesia domina as demais classes
sociais) mediada pela burocracia para manter e reproduzir as relações de produção
capitalistas” (VIANA, 2015, p. 55).
O modo de produção capitalista (a “infraestrutura” da sociedade) gera
determinadas formas de regularização das relações sociais (ou “formas sociais”, a
“superestrutura” da sociedade) que lhe são correspondentes. O Estado é a principal
forma de regularização das relações sociais na sociedade capitalista (VIANA, 2009). A
relação entre Estado e capital, nesta medida, é essencial, inexorável e indissociável. O
Estado se manifesta através dos seus aparatos (jurídico, educacional, sanitário,
repressivo, legislativo etc.) e de seus representantes, que expressam a materialidade
desta relação social.
O Estado capitalista, como relação social, é um aparato do poder burguês.
Assim, “em termos gerais, o Estado é um aparato do capital que, por sua vez, gera
diversos outros aparatos (jurídico, repressivo, educacional, comunicacional, cultural,
etc.)” (VIANA, 2017, p. 48). Portanto, o Estado do capital existe através de seus
aparatos. Ou seja, o Estado capitalista não é capitalista porque a burguesia acha-se
diretamente ao leme do Estado (pois, na verdade, é a burocracia estatal que se encontra
nele), e assim preenche o seu “conteúdo vazio”, nem porque ele é uma “ferramenta” da
classe burguesa, mas sim porque ele é uma relação social imbuída das contradições da
dinâmica do capital, derivada do modo de produção capitalista, e que regulariza as
relações sociais da sociedade burguesa através de seus diversos aparatos estatais.

Os regimes de acumulação de capital

A acumulação de capital

A mercadoria e a propriedade privada são categorias básicas para as relações


de produção capitalistas. Porém, só é possível compreendermos o modo de produção
capitalista quando observamos também o dinheiro e o mais-valor, que são os
pressupostos do capital. Marx afirma que “a riqueza das sociedades onde reina o modo
de produção capitalista aparece [erscheint] como uma ‘enorme coleção de
mercadorias’” (MARX, 2017, p. 113). Isto é, a mercadoria (ou melhor, a sua coleção) é
a aparência da riqueza.

4
Os autores associados à teoria da derivação, neste sentido, promovem um resgate e desenvolvimento da
concepção de Marx “segundo o qual as formas políticas poderiam ser entendidas apenas por meio da
anatomia da sociedade civil” (CALDAS, 2015, p. 86).

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O caráter aparente da riqueza na mercadoria é desvelado quando vemos que


por trás da mercadoria se encontra o valor de uso, que a constitui enquanto quantum de
riqueza. O valor de uso da mercadoria só pode ser medido de forma relacional, ou seja,
na relação entre mercadorias, que passam a ser trocáveis e medidas por um equivalente
comum, que é o dinheiro. O dinheiro, portanto, nada mais é do que o símbolo do valor
de troca.
Se a mercadoria é a aparência da riqueza e o valor de troca (e,
consequentemente, o dinheiro que lhe corresponde) é riqueza, nem um nem outro geram
riqueza. O que gera riqueza é uma potência viva que no capitalismo também é
transformada em mercadoria, mas permanece sendo uma mercadoria singular, sui
generis, que é a força de trabalho. A força de trabalho é singela porque é a única
mercadoria que não só repassa o seu valor de troca quando inserido em uma relação de
troca, mas também produz um novo valor, um mais-valor, em uma data mercadoria
produzida.
Este mais-valor é um valor a mais na mercadoria que é produzida pelo
trabalho, valor este que excede o simples repasse dos valores das mercadorias que
antecedem e originam a criação desta nova mercadoria (as matérias primas, instalações
físicas, equipamentos, ferramentas, força de trabalho utilizadas na produção da
mercadoria). A força de trabalho, o trabalho vivo, é a única produtora de riquezas, de
valor e mais-valor (que é o excedente do valor, produzido pelo operário e apropriado
pelo capitalista).
Deste modo, a exploração do trabalho produtivo de mais-valor, efetuado pela
classe proletária, é a chave da riqueza capitalista, e é a partir dela que é possível a
produção de capital e acumulação de capital. O processo produtivo no capitalismo se dá
em uma cadeia em que “o dinheiro é transformado em capital, (...) por meio do capital é
produzido mais-valor e do mais-valor se obtém mais capital” (MARX, 2017, p. 785),
repetindo-se esta relação ciclicamente.
Como se vê, o dinheiro se encontra no início deste processo de produção de
capital. Mas o dinheiro nada mais é do que expressão da produção capitalista, mais
especificamente, da produção das mercadorias e do seu valor de troca. Se o dinheiro é o
símbolo destas coisas (as mercadorias), são as mercadorias que se encontram na base
produtiva capitalista. A mercantilização de tudo, portanto, se coloca como o primeiro
passo da acumulação capitalista. A mercadoria coloca em relação proprietários e não-
proprietários, na medida em que constrange seus possuidores a vendê-la, e os não
possuidores a comprá-la, inserindo como mediador desta relação de troca o dinheiro.
A riqueza no modo de produção capitalista aparece como uma enorme coleção
de mercadorias, mas esta coleção só se coloca inicialmente para os que detêm os meios
de produção, que são proprietários não produtores. Os produtores, por sua vez, não
proprietários, são expropriados de suas terras e necessitam entrar nas relações de
produção capitalista sendo possuidores de uma única mercadoria que podem dispor para
a venda: sua força de trabalho.
É justamente este processo inicial de expropriação e mercantilização (da força
de trabalho, dos meios produtivos etc.) que constitui a acumulação originária de capital,
que gera dinheiro, mais mercadorias, mais-valor e mais acumulação de capital,
reforçando o ciclo produtivo (dinheiro-capital-mais-valor-capital) mencionado
anteriormente. Marx explica este processo da seguinte forma:
a acumulação do capital pressupõe o mais-valor, o mais-valor, a produção
capitalista, e esta, por sua vez, a existência de massas relativamente grandes
de capital e de força de trabalho nas mãos de produtores de mercadorias.
Todo esse movimento parece, portanto, girar num círculo vicioso, do qual só
podemos escapar supondo uma acumulação “primitiva” (“previous

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21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

accumulation”, em Adam Smith), prévia à acumulação capitalista, uma


acumulação que não é resultado do modo de produção capitalista, mas seu
ponto de partida (MARX, 2017, p. 785).
Acumular capital significaria, em um primeiro momento, por um lado,
transformar em capital “os meios sociais de subsistência e de produção”, e, por outro,
“converter os produtores diretos em trabalhadores assalariados” (MARX, 2017, p. 786).
Esta acumulação originária é o pressuposto do capitalismo, e “ela aparece como
‘primitiva’ porque constitui a pré-história do capital e do modo de produção que lhe
corresponde” (MARX, 2017, p. 786).
Em um segundo momento, a riqueza produzida pelo trabalho dos trabalhadores
assalariados e apropriada pela burguesia seria parcialmente reinvestida na produção,
tornando-se capital, no ciclo de transformação do dinheiro-capital-mais-valor-capital
que Marx já apontava. A produção de capital é necessariamente cumulativa, uma vez
que busca se expandir, enquanto é concentrada e centralizada ao longo do tempo.
Esta nova acumulação, já não mais primitiva, vai assumindo novas formas que
se cristalizam ao longo de determinada época. Estas formas são essencialmente formas
que o capital assume para realizar a valorização do valor, isto é, aumentar o quantum de
mais-valor, e derivado disso, emerge um conjunto de outras formações sociais
adequadas a esta forma de valorização.
A organização do trabalho, o Estado capitalista e as relações internacionais
entre os países capitalistas, entre outras questões, são determinados pela formação do
capital em seu processo de acumulação na valorização do valor, isto é, pelo regime de
acumulação de capital. Quer dizer, o Estado deriva da acumulação capitalista5. Uma vez
derivado, esta acumulação constitui a essência do Estado, e este passa a reforçar a
acumulação de capital.
Isto nos remete para a seguinte questão: para compreendermos a constituição
do Estado e de suas formas, é necessário compreendermos primeiramente a acumulação
capitalista e os regimes de acumulação de capital. Como já sabemos quais os elementos
centrais que Marx nos fornece para entendermos a acumulação de capital, faz-se ainda
necessário verificarmos: o que é um regime de acumulação?

O que é regime de acumulação de capital?

Pensar a história do desenvolvimento do capitalismo significa pensar a história


da sucessão dos regimes de acumulação de capital. O primeiro passo nesta direção foi
dado por Karl Marx, quando este analisa o processo de transformação da sociedade
feudal em burguesa (MARX, 2011; MARX e ENGELS, 2006). No capítulo 24 do livro
um de O Capital, dedicado a discutir a “assim chamada acumulação primitiva de
capital”, Marx demonstra o percurso histórico de transição do feudalismo para a
sociedade capitalista e sua consolidação, que, em seguida, gerou a formação do primeiro
regime de acumulação propriamente capitalista.
Marx não realizou uma periodização do capitalismo, devido à sua vida ter se
limitado apenas durante ao primeiro século do capital consolidado, e por isto, ele
5
Gilberto Mathias e Pierre Salama chamam atenção para o fato de que, nos países subdesenvolvidos, o
Estado não seria derivado do capital, tal como ocorreu na Europa, isto é, produto do desenvolvimento das
contradições internas destes países (que gerou o capital, e consequentemente, o Estado). Na realidade dos
países subdesenvolvidos, o Estado seria resultado de um modo de produção que “não emergiu das
entranhas da sociedade [destes países], mas foi de certo modo trazido do exterior: e foi precisamente isso
que criou o subdesenvolvimento” (MATHIAS e SALAMA, 1983, p. 29). Ou seja, estes contextos seriam
marcados por uma relação de difusão mercantil incompleta e específica, que teria o subdesenvolvimento
como fenômeno central de origem do Estado local.

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somente chegou a pensar o desenvolvimento do capital até o seu tempo. Porém, se Marx
não pôde analisar o capitalismo depois dele, ele nos forneceu importantes elementos de
suas tendências. Assim, a história da humanidade, para a perspectiva marxista, é a
história do desenvolvimento e sucessão de diferentes modos de produção. A história do
capitalismo, como já colocado anteriormente, é a história da sucessão de regimes de
acumulação.
Enquanto a sucessão de modos de produção significa a transformação radical
de uma forma de sociedade em outra, o desenvolvimento dos regimes de acumulação
significa apenas uma mutação no interior de uma permanência, pois diversos elementos
da sociedade capitalista se alteram, mas o seu essencial permanece inalterado. A
alteração de regimes de acumulação gera transformações no interior da sociedade
capitalista, o que implica na manutenção da sociedade capitalista sob determinadas
formas renovadas.
Deste modo, partimos da teoria dos regimes de acumulação, tal como
elaborada por Viana (2009, 2015), em diálogo crítico com autores como David Harvey,
Rostow, Sweezy, Gunder Frank, Samir Amin, Rabah Benakouche, Lipietz, etc. Segundo
Viana, “um regime de acumulação é um determinado estágio do desenvolvimento
capitalista, marcado por determinada forma de organização do trabalho (processo de
valorização), determinada forma estatal e determinada forma de exploração
internacional” (VIANA, 2009, p. 29-30). Sendo assim, o regime de acumulação é, em
síntese, um determinado estágio da luta de classes (VIANA, 2009).
Em outras palavras, “o regime de acumulação (...) é a forma que o capitalismo
assume durante o seu desenvolvimento” (VIANA, 2009, p. 31). A teoria dos regimes de
acumulação, portanto, permite compreendermos as continuidades e descontinuidades do
capitalismo, desde o seu processo de gênese até os dias atuais. O mesmo pode ser dito
sobre o Estado capitalista, que tem sua dinâmica fundamentalmente determinada por
tais mutações dos regimes de acumulação. Isto porque cada regime de acumulação gera
formas de regularização que lhes são correspondentes, e o Estado capitalista é a
principal instituição regularizadora da sociedade capitalista (VIANA, 2009).
Se um regime de acumulação se constitui pela tríade relacional entre
organização do trabalho, forma estatal e relações internacionais, é preciso conhecermos
quais são os regimes de acumulação e como estes três elementos se manifestam em cada
regime, antes de adentrarmos propriamente no debate específico sobre cada forma
estatal.

Relação entre formas estatais e regimes de acumulação de capital

Avançando além do que colocou a teoria da derivação, entendemos que tal


como o Estado deriva da acumulação de capital, as formas estatais derivam dos regimes
de acumulação. Isto é dizer que não foi apenas o Estado capitalista derivou
originalmente do modo de produção capitalista, mas que cada forma estatal em
determinada época deriva do regime de acumulação que marca esta respectiva época.
Neste sentido, as formas estatais não são tipologias, criadas a priori e de forma
ideal por um pensador, como modelos que são em seguida aplicados esquematicamente
à realidade, encaixando a realidade aos modelos. Em verdade, as formas estatais são
conceitos que expressam as formações sociais que o Estado assume em determinado
momento histórico, em determinado país.
É preciso notar que uma mesma forma estatal pode conter uma diversidade
interna de manifestações concretas, que varia segundo a realidade nacional, o governo,
as relações internacionais, entre outras razões, em síntese, segundo as lutas de classes.

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Este é o caso do Estado neoliberal, que pode apresentar diversas formas de


neoliberalismo: progressista6, discricionário7, neopopulista8, conservador9 etc. Com isto,
uma forma estatal preserva uma unidade na diversidade, possuindo distinções internas,
mas também um núcleo em comum que se manifesta em meio à sua multiplicidade.
Na relação indissociável entre o Estado e sua natureza capitalista, é possível
pensarmos que as mudanças das formas que assumem o capital (os regimes de
acumulação) geram também mudanças nas formas do Estado. Por isto, para a
compreensão das formas estatais historicamente constituídas na sociedade capitalista é
preciso partirmos de uma teoria dos regimes de acumulação de capital, já que a
manutenção do Estado capitalista só é possível com a manutenção da acumulação
capitalista. Como já vimos os aspectos fundamentais da teoria dos regimes de
acumulação, faz-se indispensável analisarmos cada regime de acumulação em
específico.
Entendemos que o capitalismo moderno e consolidado possui quatro principais,
mas não únicos10, regimes de acumulação em sua história até os dias atuais. O primeiro
regime de acumulação propriamente capitalista é o Extensivo, que surge após as
revoluções industriais e se estende até o final do século 19. O segundo regime de
acumulação é o Intensivo, surgido em finais do século 19 e vigente até a Segunda
Guerra Mundial. O terceiro regime de acumulação é o Conjugado, que se origina no
pós-Guerra e dura até os anos 1970. Em princípios dos anos 1980, origina-se o quarto e
atual regime de acumulação, o Integral. Assim, o desafio que se coloca agora é
compreendermos as diferentes formas estatais com base nestes distintos regimes de
acumulação.

As formas estatais

O Estado Absolutista

Se dissemos anteriormente que, assim como o Estado deriva do capital, as


formas estatais derivam dos regimes de acumulação, logo, a consequência lógica é que
não há forma estatal que precede ao primeiro regime de acumulação propriamente
capitalista, denominado de Extensivo. No entanto, o capitalismo é uma sociedade que
tem o seu modo de produção originado na sociedade que lhe é precedente, o feudalismo.
Esta transição entre os modos de produção feudal e capitalista se deu em uma forma
originária de acumulação de capital, a “assim chamada acumulação primitiva”.

6
Nancy Fraser (2017) identifica o neoliberalismo progressista nos EUA a governos como os de Bill
Clinton (1993-2001) e Barack Obama (2009-2017).
7
C. J. Polychroniou (2013) descreve a forma do neoliberalismo discricionário na realidade da Grécia
pós-crise de 2008, enquanto Nildo Viana (2016) entende que esta foi a forma que o neoliberalismo
brasileiro assumiu com o governo de Michel Temer.
8
Os governos petistas de Lula e Dilma se constituíram por uma combinação entre neoliberalismo e
neopopulismo (ALMEIDA, 2018).
9
O neoliberalismo conservador se manifesta na maioria dos governos neoliberais, como o de Thatcher no
Reino Unido e de Trump nos EUA.
10
Viana (2015) menciona a existência de outros regimes de acumulação não hegemônicos no capitalismo
mundial, como o regime de acumulação bélico (vigente durante o período do nazi-fascismo nos países
sob este regime), o regime de acumulação estatal (existente nos países de capitalismo de Estado,
equivocadamente identificados como socialistas, como URSS, Cuba, Coréia do Norte, Iugoslávia etc.), e
os regimes de acumulação subordinados (vigentes nos países de capitalismo subordinado, como os da
América Latina).

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Esta acumulação primitiva, como pontuava Marx, é prévia à acumulação


capitalista, sendo uma acumulação que não é resultado do modo de produção capitalista,
mas justamente o seu ponto de partida. Esta acumulação corresponde ao
desenvolvimento de um capitalismo ainda em formação, portanto, não consolidado, no
interior da sociedade feudal em declínio.
Ainda que não consolidadamente capitalista, a acumulação primitiva também
apresenta os três pilares de um regime de acumulação de capital: uma forma estatal,
relações internacionais e modo de organização do trabalho. A acumulação primitiva
representou um processo consecutivo de expropriação de terras, que se inicia na Europa
Ocidental, local onde o capitalismo se originou. A passagem de imensos contingentes
do campo para as cidades formava não só os centros urbanos modernos, como também a
divisão social do trabalho capitalista.
As classes fundamentais oriundas desta divisão foram os expropriados,
produtores não-proprietários, a classe operária, e os expropriadores, proprietários não-
produtores, os burgueses, sobretudo na sua fração de burguesia comercial e, em seguida,
industrial. Formou-se também um enorme exército industrial de reserva, isto é, uma
imensa massa de desempregados, que compõem o lumpemproletariado. A expropriação
– separação dos produtores dos meios de produção – era seguida da mercantilização, ou
seja, da transformação em mercadoria de todas as condições de vida dos trabalhadores,
que eram despojados delas e eram constrangidos a vender sua única mercadoria
remanescente: a força de trabalho, tornando-se trabalhadores assalariados.
Esta transformação das coisas e potências em mercadorias gerava uma grande
produção e circulação de mercadorias, que passava a assumir a forma de um
mercantilismo europeu. A imensa concentração inicial da riqueza, expressa nas
mercadorias, só foi possível com o deslocamento de matérias-primas oriundas de fora
do continente europeu, que eram a base substancial do capital manufatureiro desta
acumulação primitiva. Este processo representou o saqueamento das Américas, da
África e da Ásia, em uma forma de relação internacional denominada colonialismo.
Neste momento, o capital comercial produzia uma concentração de fortuna monetária,
que foi a condição para o desenvolvimento do capital industrial.
A formação dos Estados-nações é concomitante com este processo, na medida
em que o capital adquire maior circulação e as fronteiras territoriais passam a ser uma
necessidade de unificação nacional. Estas nações são governadas por uma forma estatal
própria da acumulação primitiva, que era o Estado Absolutista. Neste sentido, “o estado
absolutista, em termos de classes, se constituía como uma aliança entre nobreza e
burguesia mediada pela burocracia monárquica” (VIANA, 2015, p. 45).
O monarca, que encarna a ideia de poder absoluto do governante, pode ou não
estar vinculado à ideia de “direito divino dos reis”. Nascida no século 17, mais
especificamente a partir do governo de Luís XIV de França11, o Estado Absolutista era
uma tentativa de reação feudal à deterioração do poder feudalista, e que se aliava com a
nascente burguesia e a nobreza porque via que o poder político e financeiro dos
monarcas era insuficiente para governar isoladamente a sociedade em suas constantes
transformações12.

11
Refiro-me exclusivamente ao monarquismo absolutista, específico do Estado Absolutista, e não a
outras formas de governos monarquistas anteriores ou posteriores.
12
Não custa lembrar que a acumulação primitiva se inicia no século 16, portanto um século antes do
Estado Absolutista, com o colonialismo e a expropriação e cercamento (enclosures) de terras na
Inglaterra.

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O monarquismo e o absolutismo foram questões discutidas por filósofos


durante os vários séculos da transformação da sociedade feudalista em capitalista.
Nicolau Maquiavel (1469-1527), um pensador da fase final do renascentismo (e anterior
à acumulação primitiva de capital) já via o Estado como um fim em si mesmo, e
acreditava que um bom Estado dependia de um bom governante. Este autor rompe com
uma leitura medieval teológica acerca do Estado, e até mesmo com um determinado
elemento recorrente do renascentismo de defesa de um Estado ideal próximo à
perfeição.
Durante a acumulação primitiva, no século 17, diversos intelectuais trataram a
questão do Estado, principalmente os filósofos ingleses, em meio às transformações
econômicas na Inglaterra deste período. Tais autores abordam esta temática em meio a
um debate sobre processos civilizatórios e a relação indivíduo-Estado. Hobbes (1588-
1679) defendia um Estado absolutista, que teria um núcleo comum com a Igreja, e que
deveria impedir o homem de manifestar a sua própria natureza perversa. Locke (1632-
1704) defendia um Estado formado a partir da defesa da propriedade privada, e
apontava a necessidade de um contrato social.
Estes autores, porém, ainda carregavam as marcadas das contradições da
sociedade feudalista em que viviam, e por isto reproduziam parcialmente elementos
desta sociedade. Foram os intelectuais iluministas que passaram a radicalizar a sua
crítica ao Estado Absolutista e pautar a necessidade de um Estado Liberal. Estes autores
eram opostos a ideia de poder absoluto, defensores de um contrato social racional e da
passagem de um “estado de natureza” para um “estado civil”.
Rousseau (1712-1778) defendia a possibilidade não só de governos
monárquicos, como também aristocráticos e mesmo democráticos. Para ele, era
fundamental o estabelecimento de um “Estado Civil” que garantisse o “contrato social”
dos direitos dos cidadãos e de suas liberdades individuais. Do mesmo modo, Voltaire
(1694-1778), David Hume (1711-1776) e Immanuel Kant (1724-1804) interpretavam o
Estado a partir de suas aspirações burguesas, que representava a correlação de forças
materiais e ideológicas que a burguesia acumulava durante este século 18, que
culminaram na Revolução Francesa.

O Estado Liberal

As revoluções burguesas, e dentre elas, a mais decisiva e influente, a


Revolução Francesa (1789-1799), representaram a derrocada final do feudalismo e
consagração da burguesia como classe dominante, agora não apenas economicamente,
mas também politicamente. A acumulação primitiva de capital vinha reduzindo
gradativamente, na mesma medida em que a acumulação extensiva de capital crescia. O
Estado Absolutista é derrubado nestas revoluções burguesas, e em seu lugar surge a
primeira forma estatal propriamente capitalista: o Estado Liberal.
Esta forma estatal era correspondente ao primeiro regime de acumulação
definitivamente capitalista: o Extensivo. O regime extensivo se caracterizava pela
organização do trabalho na forma de extensividade (constituído fundamentalmente na
extração de mais-valor absoluto), pelas relações internacionais expressas no
neocolonialismo e pela forma estatal do Estado Liberal.
Com a internacionalização do capitalismo, há uma tendência crescente de
transformação dos modos de produção pré-capitalistas e não capitalistas em modo de
produção capitalista. Isto se dá pela necessidade de ampliação da produção, circulação e
consumo das mercadorias a nível mundial – o que demandava, por exemplo, a
transformação da força de trabalho escrava em assalariada. Por isto, a antiga relação

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colonial é consequentemente substituída pelo neocolonialismo, que passava a exportar


mercadorias e importar matérias-primas dos países subordinados, contribuindo com o
desenvolvimento do capitalismo nesses países.
Na própria Europa, o trabalho operário era organizado sob a brutalidade da
exploração ininterrupta capitalista, caracterizada por longas jornadas de trabalho,
chegando até a 16 horas, utilização da força de trabalho de crianças, jovens e mulheres,
pagamento de salários extremamente reduzidos, enfim, com a degradação das condições
de vida dos trabalhadores, que em muitos casos eram obrigados a viverem nos arredores
das fábricas. Com isto, a burguesia extraia uma imensa quantidade de mais-valor
absoluto, através principalmente da elevação do tempo de trabalho da jornada produtiva.
O Estado Liberal era coberto pelo manto ideológico da igualdade (jurídica) dos
cidadãos, das liberdades individuais e dos direitos com relação à propriedade, que
representavam uma “cidadania civil” da sociedade burguesa. A democracia passou a ser
cultivada como uma espécie de valor universal, e nada mais era do que uma forma de
dominação da burguesia, criada como uma arma da classe burguesa para unificar a
população em sua antiga luta contra o feudalismo (PANNEKOEK, 2010).
Mas mesmo esta democracia era restrita neste momento, pois as instituições
capitalistas ainda não eram tão desenvolvidas quanto viriam a se tornar depois, e a
classe dominante restringia a possibilidade de representação eleitoral aos homens das
classes privilegiadas, sendo esta uma democracia censitária. O Estado Liberal era um
Estado de Direito, e previa a existência dos poderes constitucionais, como os
Parlamentos, e representava um Estado laico, que era separado do domínio da Igreja,
No que se refere às produções ideológicas a respeito do Estado, o período pós-
Revolução Francesa foi marcado pela substituição do Iluminismo pelo Romantismo,
que teve vigência do final do século 18 ao 19, que é justamente a época do regime de
acumulação extensivo. O desenvolvimento do capital neste momento histórico, e mais
ainda, as lutas de classes em curso neste período, são fundamentais para
compreendermos a produção ideológica quanto ao Estado.
Hegel (1770-1831), talvez mais do que qualquer outro pensador de sua época,
foi aquele que melhor expressou em seu pensamento – acriticamente, é importante dizer
– as profundas transformações burguesas que marcaram o período transitório entre a
burguesia como classe revolucionária (antes da Revolução Francesa) e dela como classe
conservadora e dominante (após a Queda da Bastilha).
Hegel apresenta uma concepção teleológica e evolutiva da história, que teria
desembocado no Estado racionalista, o que representava uma defesa do Estado burguês
vitorioso após o fim do absolutismo. É neste sentido que ganha força a ideia do “Estado
constitucional dos cidadãos livres”, que por “liberdade” nada mais era do que a
liberdade com relação à terra e aos senhores, a liberdade de venda da força de trabalho,
assim como a igualdade jurídica e o direito à propriedade privada.
Se Hegel expressa justamente a ideologia dominante da época transitória entre
o Estado Absolutista e o Estado Liberal, os hegelianos foram alguns dos principais
responsáveis pelas representações ideológicas sobre o novo Estado capitalista. De um
lado, temos os “jovens hegelianos”, ou hegelianos de esquerda, como Ludwig
Feuerbach, Bruno Bauer e Max Stirner etc., e de outro, os hegelianos de direita, como
Heinrich Leo, Karl Daub e Hermann Friedrich Wilhelm Hinrichs, que possuíam entre si
afinidades e divergências.
Ambos os lados colocavam, no mais das vezes de forma apologética, que “o
Estado é Deus”, isto é, algo todo poderoso, o que manifestava uma compreensão de que
o poder do Estado burguês estaria além da ação humana, tal como a própria ideia de

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Deus13. Dentre os jovens hegelianos, Ferdinand Lassalle (1825-1864) foi um dos mais
influentes no que se refere à consagração de uma determinada interpretação a respeito
do Estado. Lassalle foi o formulador da ideia de “socialismo de Estado”, concepção
estatista que foi historicamente confundido com a proposta de abolição do Estado de
Marx14.
Marx e Engels nos anos 1840 já haviam rompido com o hegelianismo, e
afirmam no Manifesto Comunista que o Estado nada mais é que um “comitê para gerir
os negócios comuns de toda a classe burguesa” (MARX e ENGELS, 2006, p. 86), ou,
como diria Engels mais tarde em Do socialismo utópico ao socialismo científico, um
"capitalista coletivo ideal" (ENGELS, 1999, p. 117).
Em 1875 é fundado em um Congresso realizado na cidade de Gotha “o Partido
Socialista dos Trabalhadores da Alemanha (SAPD, da sigla em alemão), que em 1890
teve seu programa e nome alterado para Partido Social-Democrata da Alemanha (o
SPD, da sigla alemã)” (ALMEIDA, 2017). A socialdemocracia alemã, de forte
influência lassalliana, passou a assumir a hegemonia do movimento socialista
internacional, e com isto, direcionou a luta dos trabalhadores com relação ao sufrágio
universal.
A luta operária, no entanto, que desde as revoluções de 1848 se encontrava em
refluxo na Europa, viveu uma efervescência com a Comuna de Paris de 1871, que
representou a primeira tentativa de revolução proletária na história do capitalismo, e
após isso voltou a cair em refluxo, período este em que SAPD e o SPD se originaram.
Neste momento, o regime de acumulação Extensivo já estava em declínio,
juntamente com o Estado Liberal, devido às crises provocadas pela queda da taxa de
lucro dos anos 1870 e pela ascensão das lutas operárias que culminou na Comuna de
Paris. Os trabalhadores há anos batalhavam pela redução da jornada de trabalho, por
melhores condições de trabalho e contra a exploração do trabalho infantil e feminino,
assim como pelo reconhecimento das suas organizações de classe (partidos e
sindicatos).
Com o fortalecimento da socialdemocracia, a luta pela inserção dos
representantes dos trabalhadores na democracia eleitoral (sufrágio universal) também
veio à tona, o que gerava dificuldades para os capitalistas reproduzir a acumulação de
capital, devido ao conjunto destas lutas de classes dentro e fora da esfera produtiva. É aí
que um novo regime de acumulação, e com ele, uma nova forma estatal, é desenvolvido
pelo capital.

O Estado Liberal-Democrático

As transformações de regimes de acumulação são sempre reações capitalistas a


derrotas que a burguesia sofre em determinadas épocas. No caso do regime de
acumulação Intensivo, que emerge após a queda do regime Extensivo, não foi diferente.
A classe operária conseguiu reduzir a jornada de trabalho para 12 horas e 10 horas em
alguns países. As organizações dos trabalhadores obtiveram amplo apoio popular e
tiveram uma grande difusão, o que obrigou o Estado a reconhecer a sua existência e

13
É neste sentido que Marx parte, na Introdução da Crítica da filosofia do direito de Hegel, da crítica da
religião como pressuposto para a crítica da política, da economia, da filosofia etc. (MARX, 2010).
14
Para uma discussão sobre as razões pelas quais a concepção de Estado de Marx foi confundida com a
de Lassalle, assim como com outras concepções distintas que passaram a ser associadas ao marxismo e
deforma-lo, cf. ALMEIDA, 2017.

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alguns direitos mínimos do proletariado. O movimento socialista internacional ganhava


corpo cada vez mais, a partir de fins do século 19.
Contudo, com a emergência do regime de acumulação Intensivo, o capitalismo
se reconfigura e reestabiliza cada aspecto ameaçado de seu domínio. O capital toma a
obra de Taylor para promover uma “administração científica do trabalho”, pois, na
medida em que a jornada de trabalho foi reduzida, a burguesia pôde aumentar a
produtividade durante um mesmo tempo de trabalho, o que amplia a extração de mais-
valor relativo. Deste modo, o taylorismo é a forma como o regime Intensivo organiza o
trabalho, aumentando-se a produtividade com a organização do processo do trabalho,
através de mecanismos como a disciplina, a supervisão, o controle do tempo, a
padronização etc.
Do ponto de vista das relações internacionais, o neocolonialismo dava lugar ao
imperialismo financeiro, que, devido à centralização e concentração de capital oriundas
do período anterior, “proporcionou a formação dos oligopólios e a dinâmica do
capitalismo oligopolista passou a ser centrada na acumulação intensiva” (VIANA, 2015,
p. 125). Ou seja, há um aumento exponencial da extração de mais-valor relativo nos
países de capitalismo imperialista, e um deslocamento gradativo da forma de trabalho
extensiva (baseado em longas jornadas de trabalho) da Europa para os países de
capitalismo subordinado.
Com isto, inicia-se a tendência, que será intensificada no momento histórico
posterior, de parte do mais-valor absoluto explorado dos operários destes países ser
transferido para as nações imperialistas de origem dos oligopólios sob a forma de
capital-dinheiro (BENAKOUCHE, 1980 apud VIANA, 2015). Era necessário expandir
estes oligopólios para novas regiões do planeta, e é neste contexto que se dá a
Conferência de Berlim de 1884-1885 que tratou de promover a Partilha da África entre
as nações imperialistas (em sua maioria, europeias).
Neste regime Intensivo, que teve vigência entre os anos 1870 e 1940, o Estado
Liberal também foi substituído por uma nova forma estatal: o Estado Liberal-
Democrático. Este Estado promoveu um processo de ampliação da cidadania,
abrangendo os direitos políticos (cidadania política), o que representava a extensão do
direito ao voto (sufrágio universal) inicialmente aos homens das classes
desprivilegiadas e, posteriormente, às mulheres
Com isto, houve também a legalização das organizações operárias (partidos e
sindicatos) e do direito à greve, o que tratou de arregimentar estas organizações e
formas de luta. Ocorre a legalização da classe operária (EDELMAN, 2016), uma forma
encontrada pelo capital de conter na sua dinâmica institucional qualquer insatisfação
dos trabalhadores, erradicando as possíveis aspirações insurrecionais e revolucionárias
do proletariado. A transformação da democracia censitária em democracia partidária
significava uma institucionalização da luta de classes pela democracia burguesa.
Com a institucionalização das organizações operárias, dando a elas um caráter
jurídico, legal e eleitoral, o capital promove uma onda de burocratização da sociedade
civil, criando a sociedade civil organizada (VIANA, 2015). O Estado Liberal-
Democrático, nesta medida, reforçava um imaginário comum na crença de sua suposta
superioridade diante dos conflitos de classe, buscando integrar em sua lógica
reprodutiva as classes desprivilegiadas.
O regime de acumulação Intensivo corresponde ao período de consolidação da
socialdemocracia, no final do século 19, e das suas rupturas, dando origem a correntes
como o bolchevismo (que adquiriu a hegemonia no interior do movimento socialista
internacional a partir de 1917, quando da tomada do poder na Rússia por Lênin) e o
comunismo de conselhos (que emerge a partir da radicalização teórica das experiências

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revolucionárias dos sovietes e dos Conselhos Operários durante, principalmente, a


Revolução Alemã, Húngara e Italiana dos anos 1910 e 1920)15.
Tanto na concepção socialdemocrata – seja em sua origem (com forte
contribuição de Engels), seja na sua fissura (já sob grande influência de Kautsky) –
quanto na concepção bolchevique (em Lênin, Trotsky ou Stálin), os construtos do
“Estado-instrumento” e do “Estado-função” foram largamente utilizados para interpretar
o Estado sob o manto do socialismo.
A diferença entre ambos era não tanto a respeito do Estado, quanto do regime
político. Enquanto os socialdemocratas aderiram às ilusões da democracia burguesa e
não almejavam romper com ela, os bolcheviques consideravam a democracia eleitoral
um engodo, mas, assim como os socialdemocratas, desejavam o poder do Estado,
substituindo apenas seu governo (o que, para os bolcheviques, já seria a ascensão ao
socialismo).
A crítica radical no campo do marxismo que se faz ao Estado nesta época era
aquela efetuada pelos comunistas conselhistas (que se opunham aos “comunistas de
partido”, socialdemocratas e bolcheviques), que viam a democracia como a via suave e
a ditadura como a via dura da exploração capitalista (PANNEKOEK, 2010), e
propunham a abolição do Estado simultaneamente à do capital, pois entendiam que
ambos nasceram juntos e só poderiam ser derrocadas conjuntamente também.
O Estado, na perspectiva conselhista, deveria ser abolido e em seu lugar era
necessário ser edificado a Comuna e os Conselhos Operários, formas de auto-
organização autogeridas pelos produtores livremente associados, tal como Marx já
propunha em sua análise diante da Comuna de Paris (MARX, 2011). Os conselhistas
combatiam, portanto, tanto a dominação burguesa quanto a burocrática, e recusavam
todas as ideologias e organizações que almejavam tomar o Estado, e não destruí-lo.
Como se vê, a primeira metade do século 20 foi marcada por diversas
tentativas de revoluções proletárias, o que estremeceu o capital, sobretudo porque a
queda da taxa de lucro já era uma realidade desde os anos 1920, o que representava uma
crise para o capital que demandava por um novo regime de acumulação.

O Estado Integracionista

A Segunda Guerra Mundial gerou uma enorme destruição de forças produtivas,


o que possibilitou uma ampliação e generalização da acumulação de capital sob novo
regime, sobretudo devido ao desenvolvimento tecnológico existente (VIANA, 2015).
Deste modo, o capital se reorganiza formulando o regime de acumulação Conjugado,
que tinha como tripé o fordismo como modo de organização do trabalho, o
imperialismo transnacional como forma de relações internacionais, e o Estado
Integracionista como forma estatal.
Com a intensificação da acumulação de capital, abria-se também a
possibilidade de buscar conter a luta operária. O fordismo aprimorava a organização do
trabalho taylorista, e se utilizava de uma ampla quantidade de tecnologias para acentuar
a extração do mais-valor relativo, pela via do aumento do ritmo e intensidade da

15
Várias outras correntes existiam no movimento socialista internacional. As mais radicais no interior do
marxismo ficaram conhecidos pela terminologia “esquerdista” dada por Lênin contra seus adversários, em
sua famigerada obra Esquerdismo, doença infantil do comunismo. Sob esta classificação se encontravam
tanto Comunistas Conselhistas (Karl Korsch, Paul Mattick, Anton Pannekoek, Herman Gorter, Otto
Rühle etc.), a Liga Spartacus (Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, Clara Zetkin, Franz Mehring etc.) a
Esquerda Extraparlamentar Inglesa (Sylvia Pankhurst, Guy Aldred etc.), a Esquerda Comunista Italiana
(Amadeo Bordiga etc.), entre outros.

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atividade produtiva. O aumento da riqueza capitalista foi proporcionado nesta nova


onda de acumulação, que se expressava tanto na reconstrução dos territórios destruídos
durante a Guerra, quanto pelo aumento da extração e transferência do mais-valor
(relativo e absoluto) dos países de capitalismo subordinado para as nações imperialistas.
No regime de acumulação Conjugado, o imperialismo oligopolista assume a
forma transnacional, em que há um significativo deslocamento de empresas
(especialmente estadunidenses, francesas e japonesas) de seus países de origem para o
capitalismo subordinado. Este é o caso das montadoras de automóveis, que aumentam a
sua produção industrial em larga escala sob regime fordista. Com o aumento da
tecnologia, aumenta-se não apenas a produção, mas também o consumo de mercadorias.
O Estado Liberal-Democrático dá lugar ao Estado Integracionista, também
chamado de Keynesiano, “Estado de bem estar social” ou Welfare State. Esta forma
estatal buscava “integrar” a classe operária ao capitalismo através principalmente do
consumo de mercadorias, com reprodução ampliada do mercado consumidor, mas
também aumentando os níveis de renda, os direitos e benefícios sociais. A cidadania é
expandida para cidadania social, em que o Estado assegurava ao conjunto da população
direitos como saúde, segurança e educação de qualidade, além de benefícios como
aposentadoria, seguridade social, etc. Por isto este período ficou conhecido como “os
anos de ouro” da Europa.
Porém, esta integração da classe operária nunca se deu de forma plena, e este
Estado de bem estar social só teve existência nas nações imperialistas da Europa
Ocidental e EUA, e tão somente porque encontravam a fonte de manutenção desta
riqueza na transferência de mais valor dos países de capitalismo subordinado para os
tais nações imperialistas. Integrar a classe operária era um objetivo para o Estado e para
o capital tanto para evitar que ela se sublevasse, quanto se aliasse ao capitalismo de
Estado da União Soviética, então chamado de “comunismo”.
Como há um aumento expressivo da exploração nos países de capitalismo
subordinado para sustentar a riqueza usufruída nos países imperialistas, há também um
aumento da reação das classes trabalhadoras, que leva ao acirramento da luta de classes.
Como resposta, o Estado nestes lugares amplia o seu grau de repressão, adotando a
forma ditatorial, como ocorreu em diversos países da América Latina nos anos 1960-
1980. Tais ditaduras são respostas do Estado no capitalismo subordinado diante do
aumento da resistência dos trabalhadores. E este cenário é o resultado do deslocamento
dos conflitos sociais das nações imperialistas para as subordinadas, pela via da
transferência e aumento da exploração.
O Estado intervencionista e integracionista foi alvo de inúmeras reflexões pelos
pensadores contemporâneos ao regime de acumulação conjugado. Quatro distintas
concepções gerais sobre este fenômeno são aqui interessantes de serem retomadas. A
primeira, a perspectiva dominante do “marxismo” do leste europeu, a soviética, que
partia da ideia de “Estado-instrumento” engelsiana e era reforçada pela ideologia
stalinista. Esta ideologia afirmava que bastava mudar a classe dominante (burguesia por
proletariado) para que o Estado se tornasse um instrumento adequado para o
“socialismo” (isto é, para realizar a metamorfose jurídica da propriedade privada para o
Estado, sem alterar em nada a valorização do valor e a exploração do mais-valor). Este
era o “marxismo oficial” dos Partidos Comunistas de quase todo o mundo.
A segunda, a concepção crítica de autores conservadores e reacionários, como
Hayek, Milton Friedman e Von Mises, que não encontravam maior ressonância naquela
época, e se opunham ao Estado Integracionista, defendendo um Estado Liberal ou
Neoliberal. As ideias destes autores só ganharam força décadas depois, quando o regime

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de acumulação conjugado já não mais satisfazia ao capitalismo em razão de suas novas


crises.
A terceira é de autores com pensamentos distintos entre si, mas que
partilhavam de uma determinada concepção sobre o Estado a partir da ideia de
“autonomia do político”. Autores estes como Poulantzas e Miliband, que defendiam
uma autonomia relativa do político frente ao econômico, e entendiam que o político
deveria ser estudado a partir de suas próprias categorias. Estes autores caíam em erro
semelhante ao de inúmeros juristas e liberais, que definem o jurídico e o Estado a partir
de si próprios.
A crítica a esta primeira e terceira concepção era feita justamente pela quarta
perspectiva a respeito do Estado neste momento que aqui nos interessa, que é a chamada
Teoria Derivacionista. O debate derivacionista, que se dá mais fortemente nos anos
1970 na Alemanha e 1980 na Inglaterra partia da necessidade de retomada de Marx para
realizar a análise da forma estatal daquela época.
Neste sentido, e diferente de Poulantzas e Miliband, os derivacionistas
consideravam que as categorias econômicas marxistas (mercadoria, mais-valor,
acumulação de capital etc.) eram fundamentais para compreender não apenas a
dimensão econômica, como também a política da sociedade capitalista.
E estes autores consideravam isto mesmo concordando que havia uma
autonomia relativa do político frente ao econômico (ou do Estado diante do modo de
produção). Os derivacionistas surgem justamente com a queda das ilusões a respeito do
Estado de bem estar social que houve na Europa Ocidental no final dos anos 197016, em
um momento já de crise do regime de acumulação conjugado.
No final dos anos 1960 se inicia mais uma vez a queda da taxa de lucro, que
vai se intensificando ao longo dos anos 1970. Concomitantemente, há uma retomada
das lutas operárias radicalizadas, e das lutas sociais de forma mais ampla, no final dos
anos 1960, expressas sobretudo pelo Maio de 1968, que manchou o véu ideológico da
integração da classe operária no centro do capitalismo mundial.
A retomada da radicalidade das lutas acompanha uma retomada das ideias
revolucionárias radicais, como o anarquismo, o autonomismo e o conselhismo. Mais
que isto, há uma retomada das teses de autoemancipação formuladas por Marx frente à
Comuna de Paris, que após o Maio de 1968 francês servem de base para a assimilação e
formulação do marxismo autogestionário (GUILLERM e BOURDET, 1976).

O Estado Neoliberal

Diante das dificuldades encontradas pelo capital em se reproduzir nos anos


1970, são resgatadas e desenvolvidas ideias antigas de autores conservadores e de
projetos burgueses que passaram a encontrar eco nesta nova conjuntura do capital. Nos
últimos anos desta década, e de forma mais consolidada nos anos 1980, forma-se o
regime de acumulação Integral que readequou as bases materiais e ideológicas do
capitalismo.
O trabalho passou a ser organizado através do toyotismo, que gerava uma
acentuação da organização do trabalho e do uso da tecnologia visando o aumento da
extração de mais-valor absoluto e relativo combinados. Esta mudança, denominada de
“reestruturação produtiva”, desenvolve todas as demais formas de exploração
capitalistas do trabalho, acrescentando novos elementos, como o método kan-ban, o

16
Não por coincidência, o texto inaugural do debate derivacionista se chama Die Sozialstaatsillusion (“A
ilusão do Estado Social”), de Rudolf Wolfgang Müller e Christel Neusüβ (CALDAS, 2015).

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trabalho em equipe, etc. Realiza-se a precarização das condições de trabalho com as


privatizações e terceirizações, aumenta-se o uso de métodos secundários de exploração
(como o pico em demanda, recompensa à produtividade, trabalho temporário etc.),
promove-se a desregulamentação das relações de trabalho, o que gera a desvalorização
da força de trabalho e acentua o processo da lumpemproletarização (VIANA, 2015).
Como há uma redução do nível de renda dos trabalhadores, reduz-se o
consumo e com isto a reprodução ampliada do mercado consumidor. Isto impacta na
esfera da produção, que tem que
desacelerar a produção de bens de consumo, seja através da transformação de
capital produtivo em capital improdutivo (capital financeiro), seja através de
guerras, o que permite um fortalecimento do capital bélico e a destruição das
forças produtivas nacionais que, no pós-guerra, tornam-se um mercado
consumidor subordinado (VIANA, 2015, p. 134)
Deste modo, desenvolve-se uma relação internacional pautada no
Hiperimperialismo, que promove uma constante destruição de forças produtivas e
aumento da transferência de mais valor para as nações de imperialismo avançado. A
combinação de extração de mais valor relativo e absoluto se dá com tanto o aumento da
produtividade quanto do tempo de trabalho, ainda que em jornadas de trabalho não
necessariamente contínuas.
Por consequência, o Estado Integracionista se torna uma impossibilidade neste
novo regime de acumulação, já que os gastos sociais são insustentáveis para esta nova
lógica do capital. O neoliberalismo, que era um conjunto de velhas ideias abandonadas
produzidas após a Segunda Guerra Mundial, torna-se um interesse do capitalismo e
adquire materialidade com a eleição dos primeiros governos neoliberais, que demarcam
a emergência do Estado Neoliberal.
Esta forma estatal foi pioneiramente iniciada com a eleição dos governos de
Margaret Thatcher no Reino Unido em 1979, Ronald Regan nos EUA em 1981, e
Helmut Kohl na Alemanha em 1982. Além destas nações imperialistas, o Chile pode ser
considerado como o laboratório do neoliberalismo, quando as teses neoliberais foram
aplicadas durante o governo do ditador Pinochet, de acordo com a política econômica
elaborada pelos Chicago Boys, quase dez anos antes daqueles países.
O Estado Neoliberal retoma a tese Liberal de não intervenção estatal na
econômica (o que é apenas uma retórica discursiva utilizada pela burguesia e seus
representantes intelectuais), reduzindo o Estado apenas à prestação de serviços básicos,
quando não somente ao seu caráter repressivo. Assim, todos os direitos sociais, políticas
de seguridade e benefícios aos trabalhadores são progressivamente reduzidos ou mesmo
eliminados.
No mais das vezes, o Estado Neoliberal se caracteriza tão somente como um
Estado Penal (WACQUANT, 2001), em que se acirra as práticas do encarceramento em
massa, da criminalização dos pobres e dos movimentos sociais, das formas punitivas e
do pan-penalismo, da militarização da vida cotidiana em comunidades e favelas, do
genocídio negro nas periferias, da vigilância e controle generalizados etc.
As políticas sociais universais são substituídas por políticas segmentares, e as
reformas estruturais são dispensadas em função de microrreformas. O Estado Neoliberal
é regido para ser mínimo e forte. Mínimo nos benefícios sociais para a população
(obviamente que com exceção da burguesia e dos altos extratos da burocracia e
intelectualidade), e forte em seu aparato repressivo, que juntamente com o aparato
judiciário tendem a ser os que mais recebem recursos e poder no Estado Neoliberal.
Certamente o Estado Neoliberal possui uma diversidade de formas de
manifestação, que dependem da realidade de cada país e época, em que estas tendências

195
I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

gerais podem sofrer variações, que não chegam a ser significativas17. No regime de
acumulação integral, a produção mercantil atinge novos patamares, não somente com os
produtores descartáveis, a obsolescência planejada, produtos digitais e as mercadorias
para mercadorias (capa para celular, roupa para pets etc.), mas a cultura e as ideias se
tornam cada vez mais mercantilizadas. Um mercado de ideologias é produzido e
reproduzido sem cessar.
É neste momento, por exemplo, que surgem ideologias como a do “fim da
história”, de Fukuyama, e do “Estado impensável” dos pós-estruturalistas. A defesa de
revoluções totais é abandonada em lugar das revoluções segmentares. A compreensão
de um poder central (como o Estado e o capitalismo) é dissipada em função do poder
microfísico. O regime de acumulação integral produz, na dimensão cultural, o
paradigma hegemônico do pós-vanguardismo nas artes e do pós-estruturalismo nas
ciências (VIANA, 2015). Surge, com isto, uma “nova gramática da dominação”
(BOURDIEU e WACQUANT, 2002).

Considerações Finais

O presente trabalho buscou debater qual era a relação entre as formas


assumidas pelo Estado e a etapa de desenvolvimento do capitalismo em suas respectivas
épocas, isto é, os regimes de acumulação de capital. Para isto, vimos inicialmente uma
breve exposição a respeito do conceito marxista de Estado, destacando e diferenciando
outras compreensões que não a marxista.
Em seguida, retomamos os elementos gerais da teoria de Marx acerca da
acumulação de capital e das categorias basilares do modo de produção capitalista, para
chegarmos à compreensão da teoria dos regimes de acumulação de capital. E, por fim,
observamos cada uma das principais formas estatais, relacionando-as com seus
respectivos regimes de acumulação de capital.
Diante desta trajetória, verificamos que o objetivo deste artigo foi concluído,
uma vez que pudemos conhecer o modo como o modo de produção capitalista se
caracteriza como determinação fundamental do Estado, tal como os regimes de
acumulação se constituem como determinações fundamentais das formas estatais.
Com isto, concluímos que a análise marxista, autêntica e não deformada,
através do materialismo histórico-dialético (em especial, pela categoria de totalidade), é
uma ferramenta heurística intelectual de inestimável importância para o desvelamento
das múltiplas determinações do real, e para a contínua atualização do marxismo na
interpretação e crítica da sociedade capitalista e da realidade.

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Revista Enfrentamento, ano 12, nº 21, jan./jun. 2017, p. 13-47.

17
Para conhecer, por exemplo, a especificidade do neoliberalismo brasileiro durante os governos do PT,
cf. ALMEIDA, 2018.

196
I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
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<http://informecritica.blogspot.com/2016/11/a-pec-24155-e-as-politicas-de_29.html>.
Acesso em 10 de julho de 2018.

18
Há uma tradução deste artigo em português em: POLYCHRONIOU, C. J. A tragédia da Grécia: Uma
acusação à teoria económica neoliberal, à elite política interna e ao duo UE/FMI. Disponível em
<http://resistir.info/grecia/polychroniou_mar13.html#asterisco>. Acesso em 10 de julho de 2018.

197
I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 23 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

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TECNOLOGIA, INFORMAÇÃO E MERCADORIA NO CAPITALISMO


Julio Cesar Pereira Monerat
IF Sudeste MG – Campus Muriaé
julio.monerat@ifsudestemg.edu.br

Rubens Ahyrton Ragone Martins


IFMG - Campus Congonhas
rubens.ragone@ifmg.edu.br

Resumo
O artigo objetiva estabelecer a relação entre desenvolvimento tecnológico, informação e
capitalismo. Parte do entendimento sobre o trabalho humano para chegar ao conceito de
modo de produção e sua relação dialética de mútua determinação com a tecnologia.
Discute-se criticamente o fetichismo tecnológico e a transformação da informação em
mercadoria decorrente de sua privatização e monopolização. A contradição entre o
caráter social e compartilhável da informação frente a sua mercantilização pelo capital
revela que o capitalismo coloca-se como obstáculo ao livre fluxo do conhecimento e,
consequentemente, do desenvolvimento das forças produtivas condizentes com relações
sociais fundadas na cooperação e no compartilhamento, apontando, enfim, para a
necessidade de sua superação. Por fim, verifica-se o fetichismo tecnológico e
informacional como decorrente do fetichismo da mercadoria.

Palavras-chave: tecnologia, informação, mercadoria, capital, fetichismo.

TECHNOLOGY, INFORMATION AND MERCHANDISE IN CAPITALISM

Abstract
The article aims to establish the relationship between technological development,
information and capitalism. Part of the understanding about human work to arrive at the
concept of mode of production and its dialectical relation of mutual determination with
technology. Critical discussion of technological fetishism and the transformation of
information into merchandise stemming from its privatization and monopolization. The
contradiction between the social and shareable character of information and its
commodification by capital reveals that capitalism poses itself as an obstacle to the free
flow of knowledge and, consequently, to the development of the productive forces that
are in harmony with social relations founded on cooperation and sharing, pointing,
finally, to the need for its overcoming. Finally, there is technological and informational
fetishism as a result of the commodity fetishism.

Keywords: technology, information, commodity, capital, fetishism.

Introdução
A transformações propiciadas pelo desenvolvimento tecnológico ocorrido a
partir da segunda metade do século XX como resultado da confluência entre
telecomunicações e informática – o que inclui revoluções na microeletrônica, nos

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I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 22 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

computadores, nas telecomunicações e na constituição de redes informacionais (KATZ,


1996) – acarretaram a criação de dois modelos básicos de expectativas com relação a
seus resultados: os que viam de maneira positiva essas mudanças e outros que focavam
em sua potencialidade negativa – paradisíacos e apocalípticos, respectivamente.
Hipóteses como o fim do trabalho, sociedade do conhecimento, dentre outras foram
aventadas principalmente por aqueles que viam de uma maneira promissora para a
humanidade as transformações em curso, às quais se contrapunham autores críticos que
apontavam para as consequências das mudanças em curso para a classe trabalhadora:
desemprego estrutural, precarização, flexibilização do trabalho. Apesar das diferenças,
ambas perspectivas tinham em comum a atribuição de um papel subjetivamente
autônomo à tecnologia com diferentes gradações. Ou seja, a transformação tecnológica
apresentava-se como automovida, e mais, com capacidade por si só de operar mudanças
sociais, enfim, como um fetichismo tecnológico.
Tendo em vista esse cenário, o que se pretende nesse trabalho é buscar as
raízes desse fetichismo tecnológico na própria mercadoria, bem como indicar que sua
superação requer não o mero reconhecimento do fetiche, mas justamente a superação da
forma mercantil. Para isso, em nosso itinerário investigativo, retomaremos autores como
Claudio Katz que, já nos anos 1990 denunciavam o fetichismo de que eram portadoras
as visões acima indicadas. Na verdade, Katz resume bem as contradições relacionadas
às transformações da tecnologia em um contexto capitalista naquilo que ele identifica
como os sete postulados do impacto econômico e social das mudanças tecnológicas:
1) Atravessamos, na atualidade, a fase inicial de uma revolução tecnológica
baseada na aplicação das novas tecnologias da informação;
2) A principal limitação deste processo é a continuidade de uma crise
econômica capitalista de longo prazo;
3) Enquanto subsistir esta etapa globalmente depressiva, os efeitos
destrutivos das inovações terão ampla primazia;
4) Existe uma contradição entre o explosivo crescimento das tecnologias da
informação e a perdurabilidade da crise que, se não virar uma reativação
econômica geral, freará o desenvolvimento destas tecnologias;
5) Em qualquer alternativa, a informática será um dos principais cenários dos
confrontos entre os monopólios em curso;
6) Existem diversas expressões de um desenvolvimento potencialmente
alternativo, cooperativo, democrático e não comercial das novas tecnologias;
7) Esta utilização constitui a plataforma de uma aplicação socialmente
proveitosa e emancipadora das inovações (KATZ, 1996, p. 71).

Se as considerações desse autor já perscrutavam o cenário porvir, é preciso


atualizar algumas de suas conclusões não porque se tenham verificado equivocadas, mas
por conta do aprofundamento das contradições que se agudizam nos tempos presentes
em que a monopolização da natureza, dos saberes e das informações contrasta-se de
uma maneira cada vez mais explícita e, contraditoriamente, obscura com as
possibilidades emancipatórias do compartilhamento dos conhecimento em suas
múltiplas formas. Ou seja, atualizam-se as possibilidades e a necessidade (não no
sentido de uma inexorabilidade, mas de uma realização que se mostra urgente) de uma
revolução que supere o metabolismo da forma mercadoria.
Dentre os elementos que comprovam essa urgência, enfatizamos aqui o caráter
contraditório do metabolismo do capital que é revelado pela transformação da
informação em mercadoria. Assim, crescimento de recursos extraeconômicos – tal como
as patentes e as demais formas de registros de propriedade intelectual – pelo capital para
impedir o livre fluxo da informação revela mais um elemento da senilidade do modo de

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produção capitalista. Entendendo a informação como resultado do trabalho humano cujo


uso não implica em desgaste ou perecimento e que, por isso, é potencialmente
compartilhável de maneira ilimitada, verificamos que sua privatização e monopolização
pelo capital são provas contundentes de que o capital coloca-se como obstáculo ao
desenvolvimento das forças produtivas condizentes com relações sociais fundadas na
cooperação e no compartilhamento.
Contraditoriamente, porém, mesmo diante dessa explicitação dos obstáculos que
o capital representa ao desenvolvimento da tecnologia, a superação do capitalismo,
ainda que urgente, continua obscurecida. Para isso contribui de maneira fundamental o
próprio fetichismo da mercadoria cuja prevalência mantém como obscuras as relações
sociais que poderiam avançar para uma sociabilidade em que os seres humanos se
relacionariam entre si de forma mais transparente. Daí a necessidade de buscar entender
essa dupla dinâmica que incorpora fatores econômicos, e extraeconômicos, bem como
coerção e fetiche para a reprodução de relações sociais capitalistas.
No desenvolvimento das reflexões aqui apresentadas, após percorrermos o
debate sobre desenvolvimento tecnológico e informação, seremos conduzidos aos
apontamentos marxianos sobre o fetichismo e a desmedida do valor como indicador dos
limites colocados pelo capital ao desenvolvimento do indivíduo social e,
consequentemente, de uma tecnologia que seja coerente com esse desenvolvimento.
Nosso foco será a verificação dessas dinâmicas a partir das Novas Tecnologias
Informacionais (NTI) ou, dito de outra maneira, como as contradições entre a
apropriação privada e o compartilhamento de informações é capaz de nos revelar tanto
os limites da sociabilidade fundada no capital quanto as potencialidades emancipatórias
daí decorrentes.
Comecemos, pois, com um entendimento da relação entre capitalismo e
tecnologia. Na sequência desenvolveremos as reflexões mais diretamente relacionadas
às NTI e à informação em geral. Ao final, debatermos a relação entre tecnologia,
informação e fetichismo para concluirmos refletindo sobre as contradições dessa relação
no capitalismo.

Capitalismo e mudança tecnológica


Lojkine (2002) é um dos autores que, em A Revolução Informacional, nos
proporciona uma visão dos efeitos e da importância das Novas Tecnologias
Informacionais (NTI) nos meios produtivos. No entanto, é um autor que deixa de
considerar aquele elemento que para nós é fundamental: é que a chamada Revolução
Informacional se dá em meio a uma sociedade capitalista que se defronta
permanentemente com as dinâmicas que colocam a necessidade de valorização do
capital contraditoriamente frente à imanência de crises de superprodução. Assim sendo,
não há uma revolução informacional apartada de uma materialidade histórica que, no
caso, é fundada no processo de valorização de capital. O que implica em dizer que não
há uma autonomia absoluta do desenvolvimento tecnológico, como tampouco há uma
identificação automática entre capitalismo e inovação. Portanto, é preciso contextualizar
o desenvolvimento da tecnologia para que não se faça um entendimento linear da
consideração marxiana do permanente avanço das forças produtivas.
É essa contextualização que nos franqueia verificar que contraditoriamente o
capital é sim capaz de desenvolver as forças produtivas, mas também pode bloquear
esse avanço em conformidade com a reprodução das relações de produção capitalistas.
Em determinadas situações o capital chega mesmo ao ponto de tornar-se propulsor não

201
I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 22 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

de forças produtivas, mas de forças destrutivas, desde que com isso exista a
possibilidade de manutenção ou renovação dos processos de reprodução ampliada do
capital. Que o digam as guerras, a mercantilização de uma natureza tornada escassa e o
processo que nos interessa diretamente no presente artigo: o monopólio da informação.
Para o entendimento contextualizado do desenvolvimento tecnológico que
pretendemos desenvolver nesse texto, no entanto, recorreremos a uma abordagem
inicialmente abstrata sobre o trabalho que, por sua vez, nos levará ao debate sobre os
modos de produção e, por fim, à contextualização mais concreta das mudanças
tecnológicas. Municiados desse entendimento, avançaremos para a compreensão do
desenvolvimento tecnológico e da informação num contesto capitalista.
Iniciamos chamando a atenção para aquilo que Foladori (2001) distingue como
conteúdo e forma do metabolismo social. É que o atendimento das necessidades
humanas é realizado por meio do trabalho, entendido como uma atividade
teleologicamente orientada, segundo uma prévia ideação, que se utiliza de mediações
para sua consecução. Essa dinâmica constitui-se, então, o conteúdo do metabolismo
social, que se desenrola historicamente por meio de diferentes articulações entre as
mediações que os seres humanos estabelecem com a natureza e entre os demais seres
humanos, o que, por sua vez, é identificado como as formas em que acontece
concretamente o metabolismo social. Em síntese:
O trabalho humano inter-relaciona uma atividade física com um meio
ambiente externo e com os meios de trabalho transmitidos por processos de
trabalho anteriores. (...) Assim a produção pode ser desagregada em sua
forma e seu conteúdo. O conteúdo é a relação do trabalhador com os meios
de produção e o ambiente; seria uma relação genérica, aistórica. Esse
conteúdo toma corpo em cada atividade específica como uma relação técnica
na qual o que importa é o conhecimento do processo de trabalho. Assim
considerados, conteúdo e relação técnica são sinônimos. Entretanto, a forma
é a maneira como os diferentes indivíduos se relacionam entre si para
produzir. Inclui as relações de propriedade e/ou apropriação dos meios de
produção e da natureza externa e determina notavelmente o processo de
produção (Foladori, 2001, p. 104).

Ainda nas palavras de Foladori, “essas diferenças na forma social da produção


são decisivas na determinação de que materiais utilizar, do ritmo em que são usados e
do relacionamento com o meio ambiente” (Foladori, 2001, p. 105), além, é claro, do
mais importante que é o estabelecimento da distribuição dos meios de produção entre os
indivíduos e classes sociais. Mas é o próprio Foladori quem rejeita uma visão linear da
relação entre forma e conteúdo ao enfatizar que há uma interconexão entra ambas. As
formas que representam as relações sociais de produção relacionam-se dialeticamente
com os conteúdos das relações técnicas:
Por sua vez, essa interconexão entre relações sociais de produção e relações
técnicas é dialética; tanto as relações sociais influenciam as relações técnicas,
interpondo-se no seu desenvolvimento ou agudizando-o, como essas últimas
colocam determinados limites ao tipo de relação social (Foladori, 2001, 86).

Com essa análise também concorda Romero (2005) que se coloca criticamente
contra a “concepção de neutralidade das forças produtivas em relação às relações de
produção” e, consequentemente crítico “da ideia de um hipotético desenvolvimento
autônomo das forças produtivas frente às relações sociais de produção” (Romero, 2005,
p. 21).
Ao desenvolvimento tecnológico não será possível, portanto, furtar-se às

202
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determinações da relação dialética entre forma e conteúdo. No capitalismo, a forma das


relações mantidas entre proprietários dos meios de produção e proletários que não
possuem tais meios estará coerentemente reproduzindo as relações que preservem a
propriedade daquelas referidas mediações e a apropriação dos resultados da produção.
Posto que é justamente a propriedade privada capitalista dos meios de produção que
garante que os proprietários apropriem-se do trabalho excedente daqueles não-
proprietários na forma de mais-valor1, que irá constituir-se na fonte do lucro capitalista.
Verificamos estar diante de uma contradição fundante do modo de produção capitalista
que contrapõe duas classes sociais: proprietários e não-proprietários dos meios de
produção. Mas essa contradição entre classes produtoras e não produtoras, que não é
exclusividade do capitalismo, revela-se mais profunda nesse modo de produção do que
se pode verificar imediatamente, tendo implicações importantes para o desenvolvimento
tecnológico.
É que a essa contradição junta-se a concorrência capitalista que, ao fim e ao
cabo, será a responsável por determinar quais os capitais individuais estarão
conseguindo realizar o mais-valor anteriormente produzido. Isso leva a uma permanente
busca pelo aumento da produtividade da força de trabalho e, consequentemente, a uma
elevação na composição orgânica do capital, que representa aquela proporção entre
meios de produção – o trabalho morto já acumulado – e força de trabalho – o trabalho
vivo. Dito de outra forma, o aumento da produtividade decorre, com o desenvolvimento
capitalista, do incremento da produtividade que, por sua vez, implica em um maior
dispêndio de capital em meios de produção, onde entra, sem dúvida, a inovação.
Na dinâmica concorrencial, em um primeiro momento, a mudança tecnológica
valoriza o capital e redistribui os lucros aos capitais que se tornaram mais produtivos, o
que significa vantagens às empresas que tenham se mostrado mais inovadoras. Isso
porque, em decorrência da transformação dos valores em preços de produção, cada
capital individual exige ser remunerado não em proporção ao mais-valor produzido pela
força de trabalho que ele emprega, mas sim tendo por referência o capital total
adiantado em meios de produção e força de trabalho (Carcanholo, 2011). É essa
determinação que garante que haja uma transferência de riqueza dos setores em que há
uma menor composição orgânica de capital para aqueles em que ela é maior.
Explicando melhor: os capitais mais produtivos foram aqueles que reduziram
as proporções de trabalho vivo em suas produções totais, portanto, tiveram o valor de
suas mercadorias reduzidos. No entanto, o preço geral das mercadorias não reflete
imediatamente essa redução de valor, sendo resultado do estabelecimento de um lucro
médio. Assim sendo, os capitais mais produtivos são aqueles que reduziram o valor de
suas mercadorias individuais em relação aos demais capitais, mas que, por conta da
transformação dos valores em preços, estarão recebendo parte do mais-valor total
produzido pelos ramos que, por não serem tão produtivos quanto eles, transferem-lhes
riqueza, em conformidade com a já referida exigência de os capitais remunerarem-se
com base nos capitais totais – meios de produção e força de trabalho – empregados2.

1
Seguimos orientação de Duayer (2011) que, em tradução recente dos Grundrisse de Marx,
justificou o uso da expressão “mais-valor” em lugar daquela mais até então mais usual, qual seja: mais-
valia. No intuito de uniformizar esse uso no decorrer do texto, tomamos a liberdade de também
“atualizar” a grafia em autores que haviam originalmente utilizado a expressão mais-valia.
2
Na impossibilidade de reproduzir aqui a dinâmica de transformação de valores em preços de

203
I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 22 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

Portanto, num primeiro momento a inovação que impacta positivamente a


produtividade da força de trabalho mostra-se vantajosa para as empresas inovadoras por
possibilitarem auferir um maior lucro que as demais. Em segundo momento, porém,
quando a inovação já está disseminada entre os diferentes concorrentes capitalistas, o
sobrelucro deixa de existir já que a todos os capitais produzem com as mesmas
condições. Com o tempo, a evolução dessa dinâmica acaba abrindo mesmo a
possibilidade de uma crise que se manifesta como uma queda geral na taxa de lucro,
freando a reprodução. Como salienta Katz:
Por meio da mudança tecnológica, as empresas que reduzem com maior
rapidez o tempo socialmente necessário para a fabricação de produtos,
barateiam a produção e obtêm um lucro excedente sobre os seus concorrentes
enquanto não se generaliza a inovação. Esta dinâmica coloca a mudança
tecnológica como instrumento da lei do valor-trabalho, ao induzir a maneira
pela qual será distribuído o trabalho social nas diferentes empresas, ramos e
negócios de acordo com os parâmetros de custo e benefício. A inovação é um
processo imprevisível, dada a sua dependência à lei do valor que acompanha
a forma anárquica da relação dos capitalistas do mercado.” (Katz, 1996, p.
11).

Assim sendo, a contradição fundamental entre trabalho vivo e trabalho morto


no capitalismo mostra-se por inteiro, já que o aumento da produtividade acaba por
eliminar progressivamente do processo produtivo justamente aquele elemento que
produz o valor: a força de trabalho. Quando esse aumento da produtividade generaliza-
se encontramo-nos diante de uma desmedida da reprodução capitalista: há capital em
abundância, ou seja, superprodução de capital. Para retomar a reprodução das formas
capitalistas de produção, o capital pode mostrar sua faceta destrutiva das forças
produtivas. Se a guerra é uma das mais claras evidências do caráter destrutivo do
capitalismo, algumas “inovações” podem mostrar-se também destrutivas: agrotóxicos –
cuja produção massificada relaciona-se com as guerras químicas -, patentes – que vão
das sementes à saúde -, mercantilização da natureza – incluindo créditos de carbono e
privatização da água -, monopólio de informações, fuga para a esfera financeira, dentre
outras modalidades em que a valorização do capital, se não se mostra claramente
destrutiva, constitui-se como bloqueio ao desenvolvimento de forças autenticamente
produtivas.
Como ressalta Claudio Katz, no capitalismo, “a mudança tecnológica é
guiada pelas mesmas forças que arbitram o trabalho assalariado, a troca de mercadorias,
a concorrência entre produtores privados, a acumulação de capital ou a extração de
mais-valor” (Katz, 1996, p. 10). Ressalte-se, entretanto, que não há uma identificação
linear entre avanço tecnológico e capitalismo, principalmente tendo em vista que a
mudança tecnológica relaciona-se diretamente com a possibilidade de crise. Assim
sendo, o capital “impulsiona inovações que reduzem custos da força de trabalho; [mas]
bloqueia transformações tecnicamente factíveis que acentuariam a queda da taxa de
lucro ou agravariam a saturação dos mercados”3 (Katz, 1996, p. 79).

produção, remetemos ao Livro III de O Capital, bem como a introdução ao tema apresentada por
Carcanholo (2011).
3
Lembrando que o entendimento da força de trabalho como “custo” é inerente à lógica do
capital que, de maneira fetichista, incorpora-a ao capital total na forma de capital variável, velando-a
como produtora do valor.

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Ou seja, contraditoriamente, a concorrência capitalista é um incentivo à


inovação por possibilitar um lucro excepcional aos capitalistas que se antecipam na
corrida tecnológica, mas, ao mesmo tempo, as mesmas relações capitalistas constituem-
se num obstáculo ao avanço tecnológico por esbarrarem na perigosa elevação da
composição orgânica do capital, o que impacta a taxa de lucro. Daí que em
determinados momentos o capital acabe por frear o avanço tecnológico. Essa dinâmica,
porém, ainda que necessária, não tem um desenlace previamente estabelecido, tendo em
vista que a crise é uma imanência do metabolismo do capital da mesma forma que o são
as contratendências que objetivam impedir a crise.
Observando o desenvolvimento tecnológico pela ótica daqueles que o
classificam apocalipticamente, um tema que ganha relevância é o do chamado
desemprego tecnológico. Katz é enfaticamente crítico ao identificar também nessa
compreensão a atribuição de um papel autônomo à tecnologia. Para ele, “a própria
noção de desemprego tecnológico é incorreta, porque supõe que a paralisação é uma
função direta de certo tipo ou quantidade de maquinaria, omitindo a intermediação
central das leis de acumulação entre um e outro fenômeno” (Katz, 1996, p. 85).
Contextualizando, Katz complementa:
O atual desemprego é um processo social, não tecnológico. Vem estimulado
pela necessidade capitalista de gerar reservas de desempregados, pressionar
em direção do barateamento dos salários, aumentar a taxa de mais-valor e
assim restabelecer uma taxa de benefício ascendente de longo prazo. A nova
população flutuante, latente e estacionária de homens sem trabalho não é
requisito da informática, mas do capital (Katz, 1996, p. 86).

Enfim, as colocações até agora feitas reforçam o distanciamento das visões –


sejam paradisíacas ou apocalípticas – que descontextualizam o desenvolvimento
tecnológico da dinâmica capitalista, que é a forma de metabolismo social vigente. Mais
importante: o desenvolvimento tecnológico, bem como seu travamento, relacionam-se à
produção de mercadorias, o que nos leva a uma primeira conclusão que o fetichismo
tecnológico que atribui um papel autônomo à tecnologia tem suas raízes no fetichismo
da forma mercantil, conclusão essa que retomaremos ao final do artigo.
Avançaremos para o estudo da relação entre capitalismo e informação (NTI) no
sentido de contribuir um pouco mais para o desvelamento das relações alienantes que
perpassam a produção de mercadorias.

Capitalismo e informação
Marx já considerava a transmissão de informações como parte do processo de
produção:
Existem, porém, ramos autônomos da indústria, nos quais o processo de
produção não é um novo produto material, não é uma mercadoria. Entre eles,
economicamente importante é apenas a indústria da comunicação, seja ela
indústria de transporte de mercadorias e pessoas propriamente dita, seja ela
apenas de transmissão de informações, envio de cartas, telegramas, etc.
(Marx, 1983, p. 43).

Através dessas inovações o capital vai executando a reorganização e


redistribuição espacial do processo produtivo e do trabalho. Com as novas tecnologias
da informação não há mais a necessidade de concentrar o trabalho em espaços
próximos. Grande parte das atividades que ocupavam tempos redundantes relativamente
prolongados de trabalho vivo pôde se transferir para o trabalho morto e ser realizado

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quase que instantaneamente.


A produção de uma mercadoria pode, hoje, estar distribuída por dezenas de
países. Essa distribuição vai de acordo com os interesses acumulativos do capitalismo.
As unidades de concepção, produção e comercialização serão estrategicamente
escolhidas de acordo com os critérios do lucro. Uma indústria pode, então, criar seu
produto no país matriz, produzi-lo em países com matéria prima e mão de obra baratas e
comercializá-los em várias partes do mundo. Nesta mundialização do ciclo de produção
está a qualidade central do padrão de acumulação típico do capitalismo informacional.
As NTI passam a evidenciar o assombroso grau de internacionalização da
economia na atualidade. Segundo Cláudio Katz (1996), a informática sendo utilizada
nos moldes do capitalismo possibilita uma polarização acentuada entre tarefas
qualificadas de concepção em economias avançadas de um lado e, do outro, degradação
do trabalho nos países atrasados. Com a introdução da automatização, o capitalismo viu
a oportunidade para destruir, em zonas de baixos salários e de reduzida proteção social,
as relações contratuais e os meios conquistados pelos operários para resistir a
exploração no local de trabalho.
Essas dinâmicas contraditórias entre locais avançados e atrasados, por sua vez,
tem nuances que precisam ser enfatizadas. No que se refere à força de trabalho verifica-
se que “junto à qualificação dos trabalhadores dirigidos às tarefas mais complexas,
aumenta dia a dia a massa de operários empurrados para atividades degradantes” (Katz,
1996, p. 87). Ou seja, uma dinâmica que pode ocorrer na relação entre países
desenvolvidos e atrasados, ou simplesmente no interior dos países. Esse
desenvolvimento desigual e combinado entre países e no interior de um determinado
país revela mais uma contradição do desenvolvimento tecnológico restringido pelas
relações de produção capitalistas: “a informatização requer uma melhora qualitativa das
condições de trabalho. Porém, esse progresso está em conflito direto com a meta
patronal de elevação dos lucros” (Katz, 1996, p. 87), o que impede a generalização de
trabalhos menos embrutecedores. O capital segue lucrando com os trabalhadores
espacialmente distribuídos de modo desigual e combinado conforme as determinações
do próprio capital: aqueles que desenvolvem as NTI e aqueles que se consolidam cada
vez mais como meros apêndices dos equipamentos.
Marcos Dantas (1996) defende que o ordenamento institucional passa por
profundas reformas que objetivam possibilitar a apropriação do valor da informação, ou
seja, privatizar a informação e retirar-lhe seu caráter social. Para ele, a informação tem
desempenhado um papel cada vez mais importante nos processos atuais de produção,
automatizado o conhecimento que um dia pertenceu aos trabalhadores, transferindo-o às
máquinas em forma de informação cristalizada. Com a utilização crescente das
máquinas nos meios produtivos, o processo de produção não é mais um processo de
trabalho no sentido de ser controlado pelo próprio trabalho como sua unidade
dominante e sim que o produto deixa de ser um produto do trabalho imediato (Marx,
1993). O trabalho humano que ainda resta tem como função dar assistência à máquina
(Dantas, 1996). A esse respeito convém ouvir Marx nos Grundrisse:
O saber aparece na maquinaria como algo estranho, externo ao trabalhador; e
o trabalho vivo é subsumido ao trabalho objetivado que atua autonomamente.
O trabalhador aparece como supérfluo desde que sua ação não seja
condicionada pelas necessidades [do capital] MARX, 2011, p. 580).

É importante relacionar a informação às diferentes formas de saber, em


especial o saber científico, tendo em vista a importância do uso produtivo das

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informações decorrentes da pesquisa cientifica:


No entanto, à medida que a grande indústria se desenvolve, a criação da
riqueza efetiva passa a depender menos do tempo de trabalho e do quantum
de trabalho empregado que do poder dos agentes postos em movimento
durante o tempo de trabalho, poder que – sua poderosa efetividade –, por sua
vez, não tem nenhuma relação com o tempo de trabalho imediato que custa
sua produção, mas que depende, ao contrário, do nível geral da ciência e do
progresso da tecnologia, ou da aplicação dessa ciência à produção. (Por seu
lado, o próprio desenvolvimento dessa ciência, especialmente da ciência
natural e, com esta, todas as demais, está relacionado ao desenvolvimento da
produção material.) (MARX, 2011, p. 585; grifos nossos).

O desenvolvimento tecnológico, ao condensar-se enquanto informação científica


acumulada no trabalho morto, condiciona que a produção de valor deixe de poder ser
verificada diretamente pelo quantum de trabalho socialmente despendido, passando a
depender justamente daquele desenvolvimento científico-tecnológico. Ou seja, o
desenvolvimento tecnológico apresenta-se como elemento central da desmedida do
valor e, portanto, elemento constituinte da crise do capital.
Vejamos esse raciocínio com mais cautela: o valor, enquanto trabalho
socialmente necessário para a produção da mercadoria, perde a capacidade de ser essa
medida devido ao desenvolvimento do nível geral da ciência e da tecnologia e sua
aplicação à produção. Isso porque o capital, na busca do aumento da produtividade,
expulsa progressivamente do processo produtivo o elemento que produz o valor: a força
de trabalho – que dispende o trabalho socialmente necessário, medida do valor. Essa
contradição mostra-se como desmedida, tendo em vista que “o próprio capital é a
contradição em processo, [pelo fato] de que procura reduzir o tempo de trabalho a um
mínimo, ao mesmo tempo que, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única
medida e fonte da riqueza” (MARX, 2011, p. 583).
A possibilidade de crise aberta por essa desmedida acarretará a adoção de um
comportamento esquizofrênico pelo capital. É preciso, portanto, que o capital coloque-
se não mais como impulsionador do desenvolvimento das forças produtivas, mas
justamente seu contrário: seu obstáculo. Para isso, o capital deve necessariamente
assumir dois tipos de posturas para controlar aquele avanço: não meramente econômicas
e econômicas.
Isso fica claro no caso da informática quando se verificam os limites que lhe são
postos e suas potencialidades. Se na década de 1970 as pequenas empresas de
computação estavam “muito integradas às sociedades de aficionados, que pretendiam
obter, por meio da informática, uma democratização da vida política estadunidense”
(Katz, 1996, p. 102). As patentes representaram, a partir da década seguinte, uma
modalidade de contenção desse uso democrático da informática. Contudo, conforme
indica Bensaïd, “as patentes de software explodiram na década de 1990 nos Estados
Unidos, ultrapassando as 100 mil”. As patentes eram ainda um meio de tentar impedir o
avanço da pirataria, haja vista que “tornou-se difícil, se não impossível, lançar um
software que não fosse passível de pirataria. [...] Desse modo, a patente veio fortalecer o
sigilo industrial e frear a inovação” (Bensaïd, 2017, p. 57).
Conforme aponta Katz ressaltando a importância das patentes e dos lucros como
forças coatoras desse controle:
Nenhuma tentativa de inovar à margem das patentes e das leis do lucro pode
alcançar um desenvolvimento ulterior dentro do sistema capitalista. Por isso
existe um conflito entre a inovação e sua utilização mercantil, representativo
da contradição entre a mudança tecnológica e o modo de produção dominante

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(Katz, 1996, p. 103).

A utilização de meios extraeconômicos – como o recurso jurídico às patentes –


tem, portanto, um caráter impositivo, mas que é coerente com o sentido econômico
decorrente da hegemonia das relações mercantis. Porém, a imposição de medidas
jurídicas para garantir a permanência de relações econômicas privatistas demostra sua
inadequação aos potenciais de socialização da informática:
Desenvolvimento objetivo da informática gera utilizações cooperativas e não
comerciais, contraditórias com a norma capitalista prevalecente. São apenas
tentativas e possibilidades sufocadas (ou absorvidas) pelo processo de
acumulação dominante. Ilustram, porém, como como a informática
corresponde a um determinado grau de socialização da produção, oposta à
apropriação privada (Katz, 1996, p. 102).

Enfatizamos, assim, a expressão entre parênteses na citação: “ou absolvidas”,


tendo em vista que, em seus anos iniciais, a informática era portadora de ideais
cooperativos em favor de sua universalização que foram confrontados de uma forma
coercitiva com as patentes e de uma forma econômica pela hegemonia da forma
mercantil. Ainda que se considere a atualização permanente desse conflito no caso dos
softwares livres cujo “caráter fortemente cooperativo do trabalho intelectual que se
cristaliza nele (Bensaïd, 2017, p. 59), não se pode desconsiderar a força decorrente do
predomínio de ralações mediadas pela mercadoria e seus impactos. Ampliando esse
debate para a questão das redes, é Bensaïd quem reforça que “o mercado, porém,
continua esbanjando saúde. Só precisou domesticar a rede, tornando-se um mercado
reticular. Mas ele não foi sempre assim? Quanto ao ‘acesso’, ele não tomou o lugar da
propriedade. Como todo pedágio, ele é apenas um direito de entrada” (Bensaïd, 2017, p.
67).
Essa última colocação nos recorda da importância da forma social tal como
apontada por Foladori na determinação dos usos das mediações das relações humanas
de trabalho. Ou seja, o potencial original politicamente emancipador da informática
sendo obstaculizado juridicamente pelas patentes e economicamente pela forma
mercadoria. Enfatizemos o debate sobre as NTI torna flagrante a artificialidade do
travamento do desenvolvimento das forças produtivas pelo capital. Como salienta Katz:

Tendência à gratuidade da mercadoria informação como uma característica


associada à natureza específica de um bem imaterial, que não se destrói ao
ser consumido e é incomensurável em unidades correntes. Mas, se os custos
da reprodução da informação tendem a zero, sua mercantilização tornou-se
artificial e empobrecedora das qualidades potenciais oferecidas por seu
aproveitamento numa sociedade socialista (Katz, 1996, p. 111).

Essa artificialidade fica mais clara nos embates sobre as patentes que são
travados no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). Bensaïd faz esse
alerta ao indicar que
A privatização não visa mais apenas os recursos naturais ou os produtos do
trabalho. Ela cobiça cada vez mais os conhecimentos e os saberes. É isso que
está em jogo nas negociações e nos debates realizados na Organização
Mundial do Comércio sobre os serviços, a propriedade intelectual e a
patenteabilidade (Bensaïd, 2017, p. 50).

As patentes constituindo-se como obstáculo ao desenvolvimento, tendo em vista


que

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A privatização da pesquisa e dos conhecimentos resultantes, o sequestro


desses conhecimentos em prejuízo dos concorrentes, a cultura do sigilo e da
busca do monopólio, freiam a difusão dos saberes socializados que poderiam
beneficiar a maioria da população (Bensaïd, 2017, p. 51).

Situação essa que leva Bensaïd a considerar que estejamos vivenciando um novo
período de cercamentos (enclosures) tal qual aquele relacionado aos primórdios do
modo de produção capitalista. Agora não somente as terras, mas os conhecimentos, as
informações, revelando que “A lei do valor não consegue mais medir a desmesura do
mundo senão por desatinos e violências globais cada vez maiores” (Bensaïd, 2017, p.
54), o que, no caso da informação, é feito pelo patenteamento e pela censura, pelas
cláusulas de confidencialidade, enfim, por seu monopólio. E essa lógica revela rompe
até mesmo com princípios liberais de propriedade relacionados ao trabalho:
Podemos privatizar uma ideia, apesar de um software não ser nada mais que
um elemento da lógica aplicada ou, em outros termos, uma parcela de
“trabalho morto”, isto é, trabalho intelectual acumulado? Seguindo a lógica
da apropriação privativa, chegaríamos ao ponto de patentear fórmulas
matemáticas para submetê-las ao direito de propriedade? A socialização do
trabalho intelectual começa com a prática da linguagem que, evidentemente,
constitui um bem social comum inapropriável da humanidade. Os conflito em
torno do direito de propriedade intelectual tendem a desmontar o direito
liberal clássico e sua legitimação da propriedade pelo trabalho (Bensaïd,
2017, p. 56).

O crescimento recente das patentes preventivas, cujo caráter explícito de


obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas não poderia ser menos evidente, é
mais um dos elementos extraeconômicos utilizados pelo capital, tendo em vista que “as
empresas podem pedir patentes de inovações que ficam sem uso apenas para evitar que
sejam utilizadas por empresas concorrentes” (Bensaïd, 2017, p. 58-9).
Contraditoriamente, contudo, a desmedida do valor já apontada como decorrente
das “contradições entre, de um lado, a socialização crescente do trabalho intelectual e,
de outro, entre o trabalho abstrato que sustenta a medida mercantil, e o trabalho
concreto dificilmente quantificável” (Bensaïd, 2017, p. 56), abre possibilidades
emancipatórias que devem ser consideradas. Se manutenção da forma mercantil e das
patentes representam a forma de manutenção de relações capitalistas de produção que se
mostram arcaicas frente às possibilidades de desenvolvimento das forças produtivas, é
preciso reconhecer, porém, que, contraditoriamente, ela abre à urgência de sua
superação:
Todavia, a produção capitalista produz, com a mesma necessidade de um
processo natural, sua própria negação. É a negação da negação. Ela não
restabelece a propriedade privada, mas a propriedade individual sobre a base
daquilo que foi conquistado na era capitalista, isto é, sobre a base da
cooperação e da posse comum da terra e dos meios de produção produzidos
pelo próprio trabalho (Marx, 2013, p. 832).

Esse superação, por suas peculiaridades, tem hoje não a perspectiva do


restabelecimento de um passado, mas aponta para a importância dos bens comuns,
sejam eles as informações e/ou meio ambiente – coincidentemente ambos objetos de
privatização agudizada nos tempos presentes. Bensaïd retoma o jovem Marx para
estabelecer os necessários confrontos:
Pelo debate sobre o furto da madeira, Marx enveredava em 1842 no caminho
escarpado da “crítica da economia política”, que iria conduzi-lo ao centro dos

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mistérios e dos prodígios do capital. Do direito consuetudinário dos pobres


aos bens comuns da humanidade, passando pelo princípio de um “domínio
público”, o material mudou, mas a pergunta permanece: cálculo egoísta ou
solidariedade e interesse comum, propriedade ou direito oponível à
existência, quem vencerá? Nossa vida vale mais que o lucro. “De pé,
despossuídos do mundo!” (Bensaïd, 2017, p. 73).

Um confronto que está em aberto, mas que requer desdobramentos prático-


revolucionários para que tenha uma resolução que permita o destravamento dos
obstáculos econômicos e extraeconômicos ao desenvolvimento das forças produtivas.
Para entendermos tanto a potencialidade desses desdobramentos virem a ocorrer quanto
a sua não efetivação é preciso que avancemos um pouco mais no entendimento da
mercantilização que perpassa as tecnologias e a informação.

Tecnologia, informação e mercadoria


Enfim, o caráter contraditório do capital pôde ser verificado até aqui tendo por
referência o desenvolvimento tecnológico e a informação. Justamente é esse caráter
contraditório que nos coloca frente à possibilidade de negação da negação, ou seja, de
superação dessa presente forma das relações sociais que acabam por obstaculizar o
desenvolvimento das relações técnicas. Mas, se há essa possibilidade, é preciso indagar:
por que a superação da forma mercantil não se realiza?
Na busca de resposta a essa indagação já apontamos dois elementos centrais ao
discutirmos sobre tecnologia e informação. Em síntese afirmamos que:
1- Com relação à tecnologia existe uma tendência a seu desenvolvimento
permanente que é traduzido em termos marxianos como desenvolvimento
permanente das forças produtivas. Desenvolvimento este que é comum aos
demais modos de produção e que, no modo de produção capitalista, tem seu
caráter contraditório explicitado. Isso porque no capitalismo, cada capital
individual, com o objetivo de realizar o mais-valor produzido, deve superar os
demais capitais na disputa concorrencial, o que é feito por meio do aumento da
produtividade e, consequentemente, do revolucionamento permanente das forças
produtivas. A contradição mostra-se quando, para atingir esse objetivo, o capital
aumenta a proporção de trabalho morto na forma de meios de produção em
detrimento do trabalho vivo, que é justamente o elemento que produz o valor. Se
isso significa uma vantagem inicial para capitais inovadores, quando essa
dinâmica se generaliza por toda a produção, o que ocorre é uma queda do valor
total produzido, o que se refletirá na tendência de queda geral da taxa de lucro e,
consequentemente, na possibilidade das crises de superprodução de capital.
Para tentar contornar essa contradição o capitalismo mostra mais uma
contradição: ao invés do permanente revolucionamento das forças produtivas, o
capital é capaz de criar obstáculos ao desenvolvimento tecnológico. Esses
obstáculos podem ser econômicos – tal como o risco de falência daqueles
capitais cujas inovações não tiveram o retorno esperado – ou extraeconômicos –
tais como a obsolescência programada, as patentes preventivas, dentre outros.
2- No caso da informação também se verificam as mesmas contradições
relacionadas ao desenvolvimento tecnológico, porém, com um agravante: a
informação, como o conhecimento, em geral, tem uma peculiaridade de não ser
destruída por seu uso. Ou seja, ela pode ser usada de forma compartilhada sem
que com isso se extinga enquanto tal. Assim sendo, as contradições decorrentes

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de sua monopolização pelo capital são ainda mais evidentes quando se verificam
os controles econômicos – mercantilização - e extraeconômicos – pagamento por
acesso, patenteamento etc. - que lhe impedem o livre fluxo.
Feitas essa consideração sobre as contradições relativas à tecnologia e à informação,
é preciso reconhecer que ainda não respondemos à indagação central desse tópico.
Vamos reformulá-la de modo mais específico à nossa temática: tendo em vista a
radicalidade das contradições postas pelo capital no que tange à tecnologia e à
informação, por que a superação da forma mercantil não se realiza? Para buscarmos
responder à questão formulada é preciso primeiramente enfatizar o que já
desenvolvemos acima, ou seja, que tanto a tecnologia quanto a informação tornaram-se
mercadoria no modo de produção capitalista, o que, por sua vez, leva- nos à
necessidade de buscar a resposta não em uma generalidade da tecnologia ou da
informação, mas tão somente na própria forma mercadoria. É isso que faremos
brevemente a seguir.

Marx alerta-nos sobre a trivial fantasmagoria da mercadoria:


O caráter misterioso da forma-mercadoria consiste, portanto, simplesmente
no fato de que ela reflete aos homens os caracteres sociais de seu próprio
trabalho como caracteres objetivos dos próprios produtos do trabalho, como
propriedades sociais que são naturais a essas coisas e, por isso, reflete
também a relação social dos produtores com o trabalho total como uma
relação social entre os objetos, existente à margem dos produtores. É por
meio desse quiproquó que os produtos do trabalho se tornam mercadorias,
coisas sensíveis-suprassensíveis ou sociais (MARX, 2013, p. 142).

Ou seja, as mercadorias irão refletir aos homens o caráter social de seus próprios
– dos homens - trabalhos. Porém, elas o fazem como se esse caráter social fosse uma
propriedade natural dessas coisas-mercadorias ao relacionarem-se como coisas-
mercadorias entre si. O que era uma relação entre produtores de mercadorias assume a
forma de uma relação entre as próprias mercadorias que, por serem coisas e não seres
humanos, coloca-nos diante do fetichismo da mercadoria: “Assim se apresentam, no
mundo das mercadorias, os produtos da mão humana. A isso eu chamo de fetichismo,
que se cola aos produtos do trabalho tão logo eles são produzidos como mercadorias e
que, por isso, é inseparável da produção de mercadorias” (MARX, 2013, p. 143). Ou,
ainda nas palavras de Marx: “É apenas uma relação social determinada entre os próprios
homens que aqui assume, para eles, a forma fantasmagórica de uma relação entre
coisas” (MARX, 2013, p. 142-3). Nessa processualidade em que as coisas apresentam-
se como sujeitos das relações sociais, aos homens resta, em contrapartida, tão somente
relacionarem-se como coisas: estamos diante da reificação.
Salientemos, contudo, que não estamos diante de um equívoco por parte de dos
produtores de mercadoria quando não se percebem relacionando-se entre si quando
levam suas mercadorias a serem trocadas no mercado. A determinação do valor é feita
justamente a posteriori no mercado quando os tempos individuais de trabalho tornam-se
tempos sociais de trabalho necessário, uma operação que escapa ao produtor mercantil.
E mais, uma relação da qual o produtor torna-se dependente para ter validado seu
trabalho individual naquela forma de trabalho socialmente necessário. Ou seja, não
estamos diante de um desvio de percepção, mas tão somente da aparência efetiva das
relações sociais sobre a forma mercantil. Marx pode nos esclarecer mais uma vez:
Os objetos de uso só se tornam mercadorias porque são produtos de trabalhos
privados realizados independentemente uns dos outros. O conjunto desses

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trabalhos privados constitui o trabalho social total. Como os produtores só


travam contato social mediante a troca de seus produtos do trabalho, os
caracteres especificamente sociais de seus trabalhos privados aparecem
apenas no âmbito dessa troca. Ou, dito de outro modo, os trabalhos privados
só atuam efetivamente como elos do trabalho social total por meio das
relações que a troca estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio
destes, também entre os produtores. A estes últimos, as relações sociais entre
seus trabalhos privados aparecem como aquilo que elas são, isto é, não como
relações diretamente sociais entre pessoas em seus próprios trabalhos, mas
como relações reificadas entre pessoas e relações sociais entre coisas
(MARX, 2013, p. 143; grifos nossos).

Chamemos a atenção para o trecho que grifamos: “aparecem como aquilo que
elas são”, em que Marx nos oferece da dialética entre ser e parecer, que também pode
ser identificada como a relação entre essência e aparência. Por ser uma lógica dialética é
preciso que abandonemos a linearidade do princípio da não-contradição. Pelo contrário,
aqui ser e parecer andam simultaneamente juntos e separados. Isso é que nos permite
verificar que a mercadoria é uma relação social e, ao mesmo tempo, é uma relação entre
coisas. Afinal, ainda que fruto da divisão social do trabalho humano, as mercadorias só
se colocam frente a si quando levadas pelos produtores ao mercado para confrontarem-
se como coisas. Assim sendo, ela não deixa de ser resultado do trabalho humano, mas
essa sua condição de trabalho humano é revelada quando se comparam os valores dos
diferentes trabalhos privados no mercado e simultaneamente velada quando esses
trabalho aparecem como características inerentes ás próprias mercadorias. Portanto, a
relação mercantil faz com que a aparência da relação entre as mercadorias seja
determinante, o que leva Marx à afirmação destacada: “aparecem como aquilo que elas
são. É a troca mercantil que faz com que assim seja.
Tendo feito esse percurso, podemos retornar a nosso tema para verificar a
presença do fetichismo no desenvolvimento tecnológico e na informação. Assim sendo,
podemos concluir:
1- Que os autores e os sujeitos sociais que sucumbem ao fetichismo do
desenvolvimento tecnológico e da informação estão tão somente reproduzindo
em seus âmbitos específicos o fetichismo da mercadoria em geral. Ou seja, já
que tecnologia e informação são tornados mercadorias pelo capital, seria
impossível que não reproduzissem o caráter fetichista próprio da forma
mercantil. Afinal, o fetichismo, tal como já indicamos a partir de Marx: “é
inseparável da produção de mercadorias” (MARX, 2013, p. 143).
2- O fetichismo continua mostrando-se eficaz no velamento que permite a
manutenção da tecnologia e da informação sob o controle do capital na condição
de mercadoria e, portanto, pelos quais se deve pagar um preço. Explicando de
outra maneira: tecnologia e informação ao dirigirem-se ao mercado na condição
de mercadoria cumprem o papel fetichista que contribui fundamentalmente para
a reprodução das relações sociais capitalistas.
3- No entanto, o crescimento das formas extraeconômicas de controle do
desenvolvimento tecnológico e da informação explicita a contradição entre, de
um lado, a privatização e o monopólio e, do outro, as potencialidades
cooperativas e compartilháveis de ambos. Contradições essas que revelam a
caducidade do modo de produção capitalista e a necessidade de sua superação
por uma forma social superior. Ou seja, a manutenção cada vez mais violenta da
tecnologia e da informação na condição de mercadoria têm se mostrado um

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obstáculo tanto ao desenvolvimento tecnológico quanto ao compartilhamento


das informações. E mais: são graves as consequências para a humanidade e a
natureza dessa dinâmica claramente destrutiva do capital.
4- A mera identificação do fetichismo não é condição para sua efetiva superação.
Ou seja, não basta uma simples “tomada de consciência”, mas sim implica na
necessidade de constituição de uma sociabilidade que não seja mediada pela
mercadoria. Só assim é possível que coisas deixem de relacionar-se entre si ao
invés de seus respectivos produtores. Só assim serão estabelecidas relações
transparentes entre os produtores livremente associados.
5- Por fim, se a possibilidade de superação do capitalismo, que se mostra em sua
senilidade, apresenta-se como uma urgência nos tempos presentes, não devemos
desconsiderar a capacidade de o capital renovar-se ainda que cada vez mais
destrutivamente. Constatação essa que ao mesmo tempo que nos redime de uma
visão teleológica da história, coloca-nos tarefas urgentes de serem realizadas.
Que estejamos à altura desses desafios.

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Referências

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O DIREITO À MORADIA E A QUESTÃO TRABALHISTA NO BRASIL

Thaís de Souza Corrêa Netto


Universidade Federal de Juiz de Fora
thaisscnetto@hotmail.com

Resumo

Este artigo analisa o processo de acumulação capitalista, mediado pelas inovações


tecnológicas e pela organização do trabalho, bem como, os desdobramentos
relacionados com o direito à moradia e a questão trabalhista no Brasil. Para
compreender a correlação entre a questão trabalhista e a habitação, faz-se necessário
estudar os aspectos econômicos, os aspectos jurídicos e os processos históricos conexos.
Defende-se a hipótese de que a moradia serviu de instrumento de troca e de controle de
classes pelo Estado, que buscava apoio. Portanto, a “política habitacional” de 1946 era
vista como clientelista e populista. Apesar de em 1964, a “moradia” ter passado por um
processo de transformação, não deixou de ser uma forma de cooptação e de controle por
parte do governo. A investigação da pesquisadora compreende o período entre 1930 e
1970.

Palavras-chave: Questão trabalhista; Marxismo; Direito à moradia; Lógica do Capital.

THE RIGHT TO DWELLING AND THE LABOR ISSUE IN BRAZIL

Abstract

This article analyzes the process of capitalist accumulation mediated by technology


innovations and by the work organization as well as the related consequences with the
right to dwelling and the labor issue in Brazil. To understand the correlation between
the labor issue and the dwelling, it is necessary to study the economic aspects, the legal
aspects and the associated historical processes. It is argued the hypothesis that the
dwelling has been a tool for the exchange and classes control by the State that was
seeking support. Therefore, the Housing Policy of 1946 was seen clientelist and
populist. Although that in 1964, the dwelling have gone through a process of
transformation, it was still a form of cooptation and control by government. The
researcher`s research comprises the period between 1930 and 1970.

Keywords: Labor Issue; Marxism; Right to dwelling; Logic of capital.

INTRODUÇÃO

Objetiva-se com este trabalho iniciar um estudo sobre a conexão envolvida


entre o direito à moradia e a questão trabalhista no Brasil. Para tanto, será importante
compreender a lógica do capital - o modo de produção e o processo de acumulação

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capitalista. Destarte, para entender o contemporâneo, torna-se essencial a


fundamentação do artigo nas obras dos clássicos Karl Marx e Friedrich Engels.
Conforme exposto por Marx (2013), juntamente com a acumulação do capital
ocorria a concentração e a centralização, que eram distintas entre si. Com a acumulação
desenvolvia-se o modo de produção capitalista, cada acumulação era um meio para uma
nova acumulação. À medida que se desenvolvia a acumulação e a produção ampliavam-
se a concorrência e o crédito, alavancas poderosas da centralização, que complementava
toda a obra da acumulação. A concentração estava relacionada com a integralização de
capitais já formados e com a transformação de pequenos capitais em grandes capitais.
Salienta-se que quanto mais rápida era a acumulação de capital numa cidade,
mais rápida era a exploração do ser humano e, por sua vez, mais miseráveis eram as
moradias improvisadas dos trabalhadores (Marx, 2013). Além disso, segundo Marx
(2013) o resultado dessa acumulação capitalista era a fome que atingia as camadas
operárias mais trabalhadoras e o consumo refinado que atingia os mais ricos.
Assim, Melo (2015) afirma que com o sistema capitalista de produção, ocorre o
fenômeno do pauperismo, ou seja, a riqueza e a pobreza passam a ser produzidas
socialmente com a produção de mais-valor. A mesma sociedade que assiste a ampliação
da riqueza convive com o crescimento da miséria.
Friedrich Engels, em “Sobre a questão da moradia” assim como Marx também
relatou a Europa ao longo do século XIX, demonstrando aspectos que poderiam
enquadrar o Brasil do século XXI. De acordo com Engels (2015) a escassez de moradia
é o agravamento das más condições de moradia dos trabalhadores, é o aumento do preço
dos alugueis, é a aglomeração dos trabalhadores em casas particulares, e, para alguns, é
a total impossibilidade de encontrar alojamento.
No Brasil, conforme nota técnica divulgada pelo Instituto de Política
Econômica Aplicada – Ipea, o déficit habitacional no período de 2007 a 2012 cresceu
para a população de baixa renda, de até três salários mínimos. A problemática
envolvendo a habitação não é recente. O primeiro “esforço” do Estado em tratar da
referida questão foi a instituição da Fundação da Casa Popular em 01 de maio de 1946
pela Lei n. 9.218, pelo Ministro do Trabalho, Indústria e Comércio do governo.
Segundo Bonduki (1994), o estado toma iniciativas desarticuladas, emanadas
de diferentes órgãos e com interesse político, porém, não se pode deixar de considerar
que o Estado brasileiro “assume” o problema da habitação. Além disso, é de práxis dos
governos de caráter populista a atuação em questões com grande repercussão na vida do
trabalhador, como o peso do aluguel, a visibilidade pública e o apelo à construção de
conjuntos habitacionais.
Outro ponto importante foi o Decreto-lei do Inquilinato de 1946, que se tratou
de uma medida de grande “repercussão social e econômica”. Não se sabe ao certo se a
respectiva medida fazia parte da política econômica ou se era uma decisão útil para
ampliar as bases de apoio do poder (BONDUKI, 1994).
Com a Lei n. 4.380 de 1964 foi dado o passo inicial para uma “nova política
habitacional”. O Plano Nacional de Habitação surge em um contexto em que era crucial
para o novo regime dar provas de que era capaz de atacar os problemas sociais
(AZEVEDO; ANDRADE, 2011). O Banco Nacional de Habitação representava uma
inovação sob três aspectos: era constituído por um Banco, diferentemente, da Fundação
da Casa Popular e nas caixas de pecúlio e órgãos previdenciários; os financiamentos
previam um mecanismo de compensação inflacionária – a correção monetária; por fim,

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um sistema que se busca articular o setor público com o privado (AZEVEDO;


ANDRADE, 2011).
Conforme exposto por Gomes (apud PAÇO CUNHA, 2017), no caso brasileiro
o pauperismo e a questão trabalhista eram irmãos siameses de modo que as
reivindicações trabalhistas apareciam como um problema de carestia. Para Paço Cunha
(2017) a finalidade da criação do Ministério da Ordem representava disciplinação e
habituação a determinado regime de funcionamento. Era uma resposta administrativa,
que não visava abolir as contradições que constituíam o fundamento para o problema
social.
Paralelo esse que pode ser traçado com relação às soluções dadas pelo governo,
para o problema da moradia, que não visavam de fato solucionar o problema, apenas
conseguir o apoio. Durante o BNH a classe média foi a mais beneficiada.

A LÓGICA DO CAPITAL: O MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA E O


PROCESSO DE ACUMULAÇÃO

Os indivíduos produzem em sociedade, dessa forma, o ponto de partida para se


compreender a produção material é analisar a produção dos indivíduos socialmente
determinada (MARX, 2011). O indivíduo ao longo da história aparece sempre
produzindo em coletivo, seja como dependente ou como membro de um todo maior, no
início, na família, que posteriormente se amplia em tribo e mais tarde nas comunidades
resultantes da fusão das tribos. Isso ocorre tendo em vista que o ser humano é um
animal social, que somente pode isolar-se em sociedade (MARX, 2011).
A sociedade possui um papel importante na produção, tendo em vista que é
mediadora do processo de apropriação da natureza pelo indivíduo, processo este, que
ocorre em seu interior. O modo de produção, por sua vez, conforme exposto por Marx, é
definido pela maneira como se organiza a produção – a relação entre os produtores
diretos e a classe exploradora. O elemento fundamental para definir o modo de
produção são as relações sociais de produção que ligam o produtor ao explorador
(BOTTORMORE, 2013).
Segundo Marx (2013), o processo que cria a relação capitalista é o processo de
separação entre o trabalhador e a propriedade das condições de relação do seu trabalho.
Tal processo transforma em capital os meios sociais de subsistência e de produção e
converte os produtores diretos em trabalhadores assalariados. Dessa forma, a
acumulação primitiva constitui a pré-história do capital e do modo de produção que o
constitui.
A partir do modo de produção capitalista tem-se o modo de apropriação
capitalista. A propriedade privada capitalista é a primeira negação da propriedade
fundada no trabalho individual. Conforme delimitado por Marx (2013), a produção
capitalista produz a sua própria negação. Assim, a produção capitalista restabelece a
propriedade individual sobre o que foi conquistado na era capitalista – sobre a base de
cooperação e de posse comum da terra e dos meios de produção produzidos pelo próprio
trabalho.
Salienta-se que a transformação da propriedade privada fundamentada no
trabalho dos indivíduos, em propriedade capitalista é um processo mais longo e
dificultoso do que a transformação da propriedade capitalista na organização social da
produção – propriedade social. Na primeira tratava-se da expropriação da massa do
povo por poucos usurpadores e na segunda trata-se da expropriação de poucos pela

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massa do povo (MARX, 2013). Para Marx (2013) o modo de produção capitalista, a
acumulação e a propriedade privada, exigem o aniquilamento da propriedade fundada
no trabalho próprio.
Com relação à Lei geral da acumulação capitalista importa destacar que o
aumento do capital exerce influência sobre o destino da classe trabalhadora, tendo em
vista que a composição do capital sofre diversas alterações durante o processo de
acumulação capitalista. A referida composição do capital pode ser analisada sobre dois
aspectos: o do valor e o da matéria.
Marx (2013) entende que a composição do capital de valor ocorre sob o
aspecto do valor e se determina pela proporção em que o capital se reparte em capital
constante e em capital variável. Com relação ao aspecto da matéria todo capital se
divide em meios de produção e força viva de trabalho, tem-se então a composição
técnica.
A acumulação de capital é vista como a multiplicação do proletariado, já que a
acumulação reproduz de um lado a relação capitalista em escala ampliada – mais
capitalistas – e de outro, mais assalariados. Segundo John Bellers (1696) apud Marx
(2013), o trabalho dos pobres é a mina dos ricos. Isso ocorre uma vez que os pobres
realizam o trabalho que tornam os ricos cada vez mais ricos, em virtude da exploração
dos trabalhadores.
O aumento do preço do trabalho decorre da acumulação do capital. A força de
trabalho é comprada para satisfazer às necessidades pessoais do comprador. O objetivo
perseguido pelo comprador é a valorização do capital, em que são produzidas
mercadorias que contém mais trabalho do que ele paga. A referida produção de mais
valor - excedente – é a lei absoluta desse modo de produção (MARX, 2013).
Com a acumulação do capital desenvolve-se o modo de produção capitalista e
aumenta, consequentemente, o número de capitalistas. Cada capital individual é uma
concentração maior ou menor dos meios de produção e possui comando sobre um
exército maior ou menor de trabalhadores. Cada acumulação é um meio para uma nova
acumulação. Juntamente com a acumulação como já dito anteriormente desenvolve-se a
concorrência e o crédito que são fundamentais para o processo de centralização. A
centralização e a concentração se distinguem (MARX, 2013). A concentração de capital
é um processo crescente de concentração por intermédio da acumulação.
Segundo Marx (2013), a centralização de capital é um processo que ocorre pela
alteração na distribuição de capitais já existentes e pela modificação do agrupamento
quantitativo dos componentes do capital social, que é o valor a integralizar ou a ser
integralizado. Pode-se dizer que a centralização complementa o processo de
acumulação, pois possibilita aos capitalistas industriais ampliar a escala de suas
operações.
Ao comparar a centralização com a acumulação verifica-se que a acumulação é
um processo mais lento. A centralização precisa alterar apenas o agrupamento
quantitativo dos componentes do capital social. Assim, salienta-se que a centralização
possibilita mais avanços em curto espaço de tempo.
Diante do exposto, resta claro que a concentração dos meios de produção, a
centralização de capital e a acumulação capitalista provocaram diversas mudanças na
vida das camadas operárias. Tais mudanças ultrapassaram o trabalho desempenhado
pelos operários nas fábricas e atingiram a saúde, a moradia e a alimentação dos mesmos,
além de modificarem a relação afetiva entre os indivíduos, pontos estes que serão
abordados de forma mais detalhada no decorrer deste artigo.

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ASPECTOS SOBRE A QUESTÃO TRABALHISTA E A MORADIA NA


EUROPA

Em O Capital, Marx (2013), ilustra a Lei geral de acumulação capitalista,


analisando o crescimento da população na Inglaterra entre 1846 e 1866, o crescimento
da riqueza e a repartição dos rendimentos, dando destaque para a situação da maioria da
classe trabalhadora – a mais mal remunerada. Enfatizando ainda, a importância de se
analisar não somente a situação dentro das oficinas, como também as condições de
alimentação e de moradia. Não deixou de mencionar, inclusive, o crescimento da
população que perdeu sua condição de “existência”, os indigentes, que não podendo
mais vender sua força de trabalho vegetavam nas ruas graças a esmolas.
Outrossim, cabe abordar a obra de Engels A situação da classe trabalhadora
na Inglaterra, que compreende um estudo sobre o panorama de 1160 a 1180 e de 18^0 a
1845, anterior ao estudo descrito acima feito por Marx em O Capital. Para Engels
(2010), o proletariado nasce com a introdução das máquinas. Com a expansão da
indústria aumentou a demanda de mais trabalhadores, os salários aumentaram e, em
consequência disso, um grande número de trabalhadores de regiões agrícolas emigraram
para as cidades, o que provocou o crescimento da população urbana – em destaque para
a classe dos proletários.
Dessa forma, pode-se dizer que:

Adquirindo importância ao converter instrumentos em máquinas e oficinas


em fábricas, a nova indústria transformou a classe média trabalhadora em
proletariado e os grandes negociantes em industriais; assim como a pequena
classe média foi eliminada e a população foi reduzida à contraposição entre
operários e capitalistas, o mesmo ocorreu fora do setor industrial em sentido
estrito, no artesanato e no comércio: aos antigos mestres e companheiros
sucederam os grandes capitalistas e operários, os quais não tem perspectiva
de se elevarem acima de sua classe; o artesanato industrializou-se, a divisão
do trabalho foi introduzida rigidamente e os pequenos artesãos que não
podiam concorrer com os grandes estabelecimentos industriais foram
lançados às fileiras da classe dos proletários (ENGELS, 2010, p. 60).

Como se pode perceber houve uma transformação na questão trabalhista. A


nova indústria com a conversão dos instrumentos em máquinas e das oficinas em
fábricas transformou a classe média trabalhadora em proletariado, os grandes
negociantes em industriais e a pequena classe média foi eliminada, ocasionando a
divisão da população entre operários e capitalistas. A referida mudança na divisão do
trabalho gerou uma série de consequências para as cidades e para os seus habitantes.
A indústria centraliza a propriedade em poucas mãos e exige enormes capitais.
A partir de tais capitais cria gigantescos estabelecimentos, arruína a pequena burguesia
artesã e expulsa do mercado os trabalhadores manuais isolados. Pode-se dizer que as
três grandes alavancas que possibilitaram o avanço da indústria no mundo foram: a
divisão do trabalho, a utilização da força hidráulica, especialmente, do vapor e a
maquinaria. Com a pequena indústria foi criada a classe média e, por sua vez, com a
grande indústria a classe operária. A numerosa burguesia dos “bons e velhos tempos”
foi destruída pela indústria e decomposta em ricos capitalistas e em pobres operários
(ENGELS, 2010, p. 64).

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Engels (2010) acrescenta a este fato que a população se torna centralizada


como o capital – o que é visto como natural, tendo em vista, que na indústria, o homem,
o operário, não é considerado mais que uma fração do capital colocada à disposição do
industrial, que paga um juro, sob o nome de salário por seu trabalho.
Destaca-se que a centralização da propriedade atinge o seu mais alto grau nas
grandes cidades, pois é nelas que a indústria e que o comércio se desenvolvem de modo
mais completo e por isso, é nelas que emergem de forma mais clara as consequências do
desenvolvimento sobre o proletariado, como o desaparecimento dos costumes e as
condições dos “bons e velhos tempos” e a separação entre a classe rica e a classe pobre.
A imensa maioria das cidades é constituída por proletários que exercem grande
influência sobre a grande cidade (ENGELS, 2010).
Contudo, para realizar todos os milagres da civilização de que a grande cidade
– metrópole – esbanja, foi necessário uma série de sacrifícios. O que se percebe nas
cidades é um crescimento de indiferença brutal e de insensível isolamento entre os
indivíduos, cada um no terreno de seu interesse pessoal. O isolamento do individuo e o
mesquinho egoísmo, constituem em toda parte o princípio fundamental da sociedade
moderna – que se manifesta de forma nítida na grande cidade. A humanidade é
desagregada em mônadas e cada qual possui seu objetivo igualmente particular, o
mundo é atomizado e isso traz extremas consequências (ENGELS, 2010).
Segundo Marx (2011), o caráter social da atividade – a forma social do produto
e a participação do indivíduo na produção – aparecia como algo estranho e com caráter
de coisa frente aos indivíduos, que se encontravam subordinados às relações que
subsistiam independente deles e que nasciam do choque de indivíduos reciprocamente
diferentes.
Desse modo, a partir de Marx e Engels, fica demonstrada a indiferença, o
isolamento e a indistinção do indivíduo na sociedade capitalista. O capital e o valor de
troca passam a intermediar as relações entre os indivíduos, anulando suas diversidades e
provocando o individualismo e a indiferença brutal entre os mesmos. Nesse tipo de
sistema, o trabalho, a moradia e as relações entre os indivíduos acabaram perdendo o
seu “real valor”, se anularam e se tornaram mercadorias.
Conforme exposto por Engels (2010), ocorre a declaração de uma guerra de
todos contra todos. Os homens só se consideram como objetos utilizáveis. Cada
indivíduo explora o outro e o resultado disso, é que o mais forte pisa cada vez mais no
mais fraco e os poucos fortes – capitalistas – se apropriam de tudo, restando aos muito
fracos - pobres – apenas a vida.
Os indivíduos se tornam cada vez mais isolados e ninguém se preocupa com os
pobres que muitas vezes morre de fome. Engels ao analisar de forma mais detalhada as
condições da guerra social, observa a habitação, o vestuário e a alimentação (ENGELS,
2010).
Assim, foi exposta a concentração da classe operária nos “bairros de má fama”,
em que se situam uma massa de casas dispostas de maneira irregular e com porões
habitados. Nesses lugares as ruas não são planas nem as calçadas, além de serem sujas,
tomadas por detritos vegetais e animais, sem esgotos ou canais de escoamento, cheias
de charcos estagnados. A ventilação é precária e em virtude da aglomeração de pessoas
há baixa qualidade do ar (ENGELS, 2010).

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De acordo com Engels (2010) as casas eram inabitáveis e as ruas cheiravam


mal. Segundo os relatos dos inspetores das Casas de Trabalho1 os pobres viviam em
locais apertados, como em 52 casas, com 390 quartos, da Barrack Street, viviam 1.318
pessoas e em 71 casas, com 393 quartos, na Church Street, viviam outras 1.997 e que
nesse bairro e no vizinho havia becos e pátios tomados por um “miasma nauseabundo”,
muitos porões só recebiam luz do dia pela porta e muitos indivíduos dormiam no chão.
A situação foi descrita por Marx em O Capital, ao tratar das reformas
realizadas nas cidades, como a construção de estradas de ferro, o alargamento das ruas,
entre outros, que eram consideradas como “melhorias”. As respectivas melhorias
somente eram possíveis com a expulsão dos trabalhadores de suas antigas casas.
Segundo Marx (2013), o único paradeiro dessas famílias expulsas seria as workhouses,
que já se encontravam superlotadas. As “melhorias” já aprovadas estavam apenas no
começo de sua execução. Os trabalhadores expulsos de suas antigas casas, não
abandonavam a região em que viviam, procuravam se instalar próximos a sua paróquia
ou na paróquia mais próxima.
Foi demonstrado ainda, por Marx em O Capital (2013), o resultado dessas
reformas nas cidades, que foi o amontoamento dos seres humanos em locais cada vez
menores. Com o alto preço dos alugueis além deles não conseguirem alugar uma
quantidade adequada de quartos para a família, acabavam muitas vezes alugando
moradias piores do que as que residiam anteriormente e em muitos casos distantes do
seu local de trabalho. Sem contar a propagação de doenças por conta desse
amontoamento dos seres humanos e da falta de higiene da população.
Para Engels (2015), estava claro que o Estado era a totalidade do poder
organizado das classes possuidoras, dos proprietários de terras e dos capitalistas em
confronto com as classes espoliadas, os agricultores e os trabalhadores.
Percebe-se que a Inglaterra tanto no ambiente urbano como no rural era
marcada por grandes disparidades, de um lado encontrava-se os proprietários de terras e
os capitalistas detentores dos instrumentos de produção e do outro as classes que apenas
possuíam sua força de trabalho para vender, os agricultores e os trabalhadores, que eram
duramente explorados.

A MORADIA E A QUESTÃO TRABALHISTA NO BRASIL

Diante da relação entre a questão trabalhista e a moradia no Brasil ser o objeto


de estudo desse artigo foi fundamental analisar as condições de habitabilidade dos
operários na Inglaterra, que é fruto da moderna sociedade industrial, berço do
capitalismo. Após a referida análise, é importante partir para o estudo, ainda que breve,
do capitalismo tardio no Brasil e suas particularidades, mais precisamente, do
nascimento e da consolidação do Capitalismo Industrial, que será norteado pelo livro de
João Manuel Cardoso de Mello.
Segundo Mello (1991), o movimento da economia brasileira entre 1888 e 1932
é imprimido, em última instância, pela acumulação cafeeira, em virtude da hegemonia

1
As Casas de Trabalho foram estabelecidas na Inglaterra no século XVII. Segundo a Lei dos Pobres
(1834), só era admitida uma forma de ajuda aos pobres: o alojamento em casas de trabalho com um
regime prisional; os operários realizavam trabalhos improdutivos, monótonos e extenuantes; as casas de
trabalho foram designadas pelo povo de “bastilhas dos pobres”. Disponível em: <
https://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/w/workhouses.htm>. Acesso em: 07 abr. 2018.

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do capital cafeeiro. Para o autor, as condições de acumulação foram extremamente


favoráveis, como a ampla disponibilidade de terras, “produzida” pela extensão das
estradas de ferro e a oferta de força de trabalho superabundante, gerada pela maciça
imigração, que permitiu atender as necessidades de mão-de-obra, tanto no núcleo
produtivo quanto no segmento urbano.
Outrossim, é válido destacar o fluxo imigratório, que deslocou para o Brasil,
entre 1888 e 1900 cerca de 1.400.000 pessoas, das quais 890.000 se fixaram em São
Paulo. O referido fluxo imigratório foi decorrente das transformações que sacudiram a
Europa nas duas últimas décadas do século XIX, que funcionaram como fatores de
expulsão, que provocaram a formação de grandes contingentes de homens livres e sem
trabalho, dispostos a emigrar – mercado internacional do trabalho (MELLO, 1991).
Pode-se dizer que o capital cafeeiro é, ao mesmo tempo, agrário, industrial e
mercantil. O complexo exportador cafeeiro é integrado por um núcleo produtivo, que
inclui a atividade de beneficiamento, segmento urbano que acolhe os serviços de
transportes – estradas de ferro, portos -, atividades comerciais – casas importadoras e
exportadoras – e financeiras – bancos (MELLO, 1991).
Assim, conforme exposto por Mello (1991), a acumulação cafeeira é, a
acumulação urbana, que absorveu grande parte da força de trabalho imigrante e exigiu a
importação de meios de produção, quais sejam, os trilhos, os materiais de construção, os
equipamentos ferroviário e portuário. A reprodução da força de trabalho tanto no núcleo
produtivo como no segmento urbano foi, em parte considerável dependente das
importações de alimentos e de bens manufaturados de consumo.
Além disso, segundo Mello (1991) o capital industrial não nasceu em momento
de crise, despontou no auge exportador cafeeiro, em que a taxa de rentabilidade
alcançou níveis consideráveis. A acumulação financeira ultrapassava as possibilidades
da acumulação produtiva, em virtude do “vazamento” de capital monetário do complexo
exportador cafeeiro. Para que os projetos industriais se transformassem em decisões de
investir bastava que os projetos industriais garantissem rentabilidade positiva. O
movimento do capital cafeeiro ao capital industrial foi amplamente facilitado pelas
condições de financiamento, pois o Estado prestava auxílio aos agricultores “para lhes
facilitar a passagem do trabalho escravo para o assalariado”.
Posteriormente à exposição sobre a situação da economia brasileira durante a
República Velha, período compreendido entre 1889 até 1930, cumpre discorrer sobre as
ações realizadas pelo governo no que se refere à habitação, seja para a produção ou para
a regulamentação do mercado de locação de residências que eram praticamente nulas.
Outrossim, apesar de não ser o foco deste trabalho, merece destaque a
proposição de Costa e Azevedo (2016) sobre os reflexos da abolição da escravidão no
Brasil, tendo em vista que os ex-escravos eram um dos segmentos, que não possuía
local adequado para morar e por isso, precisou ocupar outros espaços. A abolição da
escravidão foi considerada pelas autoras já citadas como incompleta, pois não rompeu
com as heranças escravocratas e obrigou a população negra no país a continuar morando
em espaços multifamiliares, onde não havia qualidade de água, de luz e de higiene. Os
milhares de negros e de negras ex-escravizados (as) que moravam no país foram
obrigados a ocuparem espaços impróprios para moradia, como encostas de morro e
margens de rios e de lagoas.
Segundo Rolnik (apud Bonduki, 1994), o Estado durante a República Velha
estava atrelado ao liberalismo, privilegiava a produção privada e se recusava a
intervenção direta na construção de casas para os trabalhadores. A atuação estatal

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restringia-se à repressão e às situações mais graves de insalubridade, via legislação


sanitária e a concessão de isenções fiscais, que beneficiavam basicamente os
proprietários de casas de locação.
Nessa época, a estrutura da economia brasileira estava centrada nas atividades
agroexportadoras, nas cidades predominava o comércio sobre a produção e a indústria
ocupava um papel subordinado e secundário. As casas de aluguel eram uma forma
segura e excelente de rentabilizar poupanças e recursos disponíveis na economia urbana,
aquecida pela atividade agrário-exportadora, já que a indústria possuía pouca
capacidade de absorver os novos e crescentes investimentos (BONDUKI, 1994).
Outrossim, pode-se dizer que existia o debate em diversas localidades sobre a
atuação do poder público de prover moradias para os trabalhadores. Contudo, concluía-
se, na maioria dos casos, que não era papel do poder público, pois, tal atitude estaria
desestimulando a iniciativa privada. Indo além, argumentavam, inclusive, que isso
poderia agravar a crise da época.
A visão que predominava durante a República Velha era a de concessão de
favores à iniciativa privada, para que a mesma produzisse moradias mais baratas e, com
isso alugueis mais baratos. A solução ideal era a promoção de vilas operárias pelos
industriais para servirem de moradias aos empregados (BONDUKI, 1994).
As vilas operárias foram consideradas como os primeiros empreendimentos
habitacionais de grande porte construídos no país e estavam vinculadas à emergência do
trabalho livre e da necessidade das empresas fixarem seus operários nas imediações de
suas instalações, mantendo tais trabalhadores sob controle político, ideológico e criando
um mercado de trabalho cativo (BLAY apud BONDUKI, 1994).
Como se pode perceber, durante a República Velha, a moradia já era utilizada
como forma de dominação, cooptação e controle dos operários. Os trabalhadores eram
indispensáveis à manutenção das máquinas, dessa forma, era importante mantê-los sob
controle evitando greves ou até mesmo paralisações, pois a perda do emprego implicava
em perda da casa. Portanto, a criação das vilas operárias, que muitas vezes,
localizavam-se próximas as fábricas e contavam com escolas, creches, igrejas e
armazéns, representavam um controle absoluto da vida dos operários e do seu tempo
livre.
A Revolução de 1930 representou um marco importante de ruptura na forma de
intervenção do Estado na Economia e na regulamentação das relações de capital e
trabalho. Vargas necessitava legitimar o poder político, que passou a deter pós
Revolução de 1930 e por isso, precisava firmar um compromisso com as massas
populares, bem como, montar uma estratégia de desenvolvimento econômico baseado
na indústria e requerer intervenções no campo trabalhista (BONDUKI, 1994).
Dessa forma, em 26 de novembro de 1930 foi criado o Ministério do Trabalho,
Indústria e Comércio, que contava com a seguinte estrutura: Secretário de Estado,
Departamento Nacional do Trabalho; Departamento Nacional do Comércio;
Departamento Nacional de Povoamento e Departamento Nacional de Estatística. O
respectivo projeto surgiu com o intuito de interferir sistematicamente no conflito entre
capital e trabalho.
Em 1942, foi instituído o Decreto-lei do Inquilinato, com o intuito de congelar
os alugueis e suas sucessivas renovações, tendo em vista que a grande maioria dos
trabalhadores e da classe média pagava aluguel e com isso, comprometia grande parte
do seu salário. Contudo, de acordo com Bonduki (1994), a Lei do Inquilinato gerou
escassez para o processo de produção habitacional. A iniciativa privada, principalmente,

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21 e 22 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

os grandes investidores reduziram drasticamente a construção de casas de aluguel,


aumentando de forma dramática a carência de habitações nas grandes cidades
brasileiras. Com isso, os despejos se intensificaram e paralelamente a essa situação tem-
se a especulação imobiliária e a elevação no preço dos imóveis, sobretudo nas áreas
centrais, o que agrava ainda mais a situação.
Em 01 de maio de 1943 foi unificada toda a legislação trabalhista existente no
país: a Consolidação das Leis Trabalhistas - CLT. A CLT regulamentava o trabalho
urbano – industrial e comercial - e deixava de lado expressamente outros tipos de
trabalho, dentre eles o realizado por trabalhadores rurais, que exerciam funções ligadas
à agricultura e à pecuária, conforme o artigo 7º, b) do referido Decreto-lei.
Em 01 de maio de 1946 foi instituída a Fundação da Casa Popular – FCP, pelo
Decreto – lei n. 9.218, durante o governo de Dutra. Antes da FCP, os Institutos e Caixas
de Aposentadorias e Pensões atuavam na questão habitacional de maneira fragmentada,
por carteiras prediais, atendendo apenas os associados.
Para Azevedo e Andrade (2011) diversas considerações de ordem política
parecem ter motivado a ideia de criação da FCP. Nessa mesma época, o Partido
Comunista encontrava-se em ascensão, com forte penetração junto às populações
operárias das grandes cidades. Os candidatos comunistas à Assembleia Constituinte
foram muito votados, formavam uma bancada composta por 14 deputados e um
senador, perfazendo 9% do eleitorado. Acrescido a este fato, tem-se a candidatura de
Fiúza a presidência – quase desconhecido – lançado pelo partido comunista e que
alcançou 600 mil votos.
Assim, diante da referida incerteza política, o governo empregou duas
estratégias, sendo elas: a declaração de ilegalidade do Partido Comunista e as ações de
cunho social. A própria escolha da data para a promulgação do Decreto-lei, que criou a
FCP é reveladora do alcance político que se pretendeu alcançar com essa iniciativa
(AZEVEDO; ANDRADE, 2011).
Acredita-se que a FCP foi instituída no dia do trabalhador, em virtude da
necessidade de apoio das massas populares, já que a habitação conforme exposto por
Bonduki (1994, p.717) “sempre representou um grande ônus e um problema dos mais
graves a ser resolvido pela classe trabalhadora urbana, visto o aluguel da moradia
consumir uma parcela considerável do salário”.
Com esse decreto, a FCP, passaria a ter oportunidade de atuar em áreas
complementares que fariam dela um verdadeiro órgão de política urbana lato sensu.
Cabia a FCP financiar obras urbanísticas de abastecimento d’água, esgotos, assistência
social, entre outras, que melhorassem a qualidade de vida da classe trabalhadora;
financiar as indústrias de material de construção, nos casos, em que por deficiência do
produto de mercado, se tornasse indispensável o estímulo ao crédito; financiar
construções de iniciativa ou sob responsabilidade de prefeituras municipais, destinadas
à venda a baixo custo ou a locação a trabalhadores, sem objetivo de lucro e, por fim,
estudar e classificar os tipos de habitações populares. Foi introduzida a habitação rural
“nos aspectos de construção, de reparação e melhoramento”, como nova meta
institucional (AZEVEDO; ANDRADE, 2011, p. 3).
Para Bonduki (1994), a proposta da FCP revelava objetivos amplos, tendo em
vista que se propunha financiar além da moradia, a infraestrutura, o saneamento básico,
a indústria de material de construção, a pesquisa habitacional e, inclusive, a formação de
técnicos no município. Contudo, identificava na proposta algumas fragilidades, como a

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I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 22 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

carência de recursos, a desarticulação no âmbito do aparato estatal e a ausência de ação


coordenada para enfrentar o problema de modo global.
Pode-se dizer que Bonduki (1994) considerou a intervenção dos governos do
período como pulverizada e atomizada e por isso, não pôde ser considerada
efetivamente uma política. No entanto, reconhece que nesse período é desenvolvido
certo consenso da sociedade de que a questão da habitação dos trabalhadores não
poderia ser enfrentada pelo livre jogo do mercado, seria indispensável uma intervenção
do Estado.
Conforme delimitado no decreto, a população que faria jus ao financiamento
eram: os brasileiros e os estrangeiros com mais de dez anos de residência no país, ou
com filhos de brasileiros que não tivessem habitação própria. A preferência para a
construção ou aquisição seguia a respectiva proporção: trabalhadores em atividades
particulares 3, servidores públicos ou de autarquias 1 e outras pessoas 1. Mais tarde tais
critérios seriam incorporados a outros, quais sejam, a renda e o tamanho da família.
Somente poderiam pleitear tal financiamento os indivíduos com renda familiar líquida
não excedente a 60 mil cruzeiros anuais e que tivessem sob sua dependência econômica
um mínimo de cinco pessoas (AZEVEDO; ANDRADE, 2011).
Pode-se dizer que por não exigir renda mínima, a medida foi considerada de
cunho eminentemente social. Contudo, permitia que os setores que possuíssem mais
renda também disputassem as almejadas casas populares, mas isso não aconteceu em
grande escala por exclusão voluntária dos setores médios. Salienta-se, ainda, o número
de dependentes era o fator determinante na classificação e na escolha dos candidatos
(AZEVEDO; ANDRADE, 2011).
Em virtude das pressões políticas e clientelísticas da época, sob a forma de
“reserva técnica”2, de difícil superação, e sem dispor de fonte estável de recursos que
lhe permitisse fazer frente às conjunturas desfavoráveis, não foi capaz de alcançar
maturidade institucional (AZEVEDO; ANDRADE, 2011).
Outra questão importante é que se enxergava na FCP, um paternalismo
autoritário na administração dos conjuntos, uma vez que se partia do pressuposto de que
as classes populares não estavam preparadas para a vida em comunidade. Precisavam
ser guiadas para utilizar e conservar as instalações da casa, daí as visitas de inspeção nos
primeiros anos (AZEVEDO; ANDRADE, 2011).
Em 1964 foi criado o Banco Nacional de Habitação - BNH, o primeiro órgão
de alcance nacional, que tinha como base o Sistema Financeiro Habitacional – SFH. As
fontes principais desse sistema eram o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço – FGTS
e o Sistema Brasileiro Poupança e Empréstimo3. O objetivo do BNH era financiar a
aquisição da casa própria para as populações de baixa renda. Com a referida política o
governo pretendia responder e controlar as pressões populares por moradia, em virtude
do grande déficit habitacional daquela época que crescia com o processo de urbanização
acelerado.

2
A “reserva técnica” era constituída de pequeno número de unidades em cada conjunto, que não eram
sujeitas aos critérios formais de distribuição, medida que se apresentavam candidatos com “cartucho
político”, a Fundação fazia uso de tal estoque (AZEVEDO, 2011, p.12).

3 FGTS, um tipo de poupança compulsória constituída por depósitos correspondentes a 8% dos salários
dos trabalhadores formalizados para financiar moradias destinadas à população de baixa renda. SBPE,
fundo de poupança voluntária, para financiar o setor de classes média e alta (Arretche, 1990; Azevedo e
Andrade, 1982, p. 113).

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I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 e 22 de Maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

Segundo Maricato (1987) o SFH possibilitou a capitalização de empresas


ligadas ao provimento de habitações, permitiu a estruturação de agentes financeiros
privados, permitiu o financiamento à produção e do consumo. Nessa época houve
também uma política de concentração de renda que possibilitou a ampliação do mercado
imobiliário para provimento de moradias do tipo capitalista. A hipoteca para o
financiamento passou a ser o futuro edifício e não mais o terreno, o que fez com o que
mercado de terras ficasse cada vez mais atrelado ao setor produtivo imobiliário. A
mercadoria – a casa própria – além dos aspectos econômicos cumpria importante papel
ideológico. Os setores da população que foram beneficiados por essa política foram os
sustentáculos do governo ditatorial.
Ponto este que vai ao encontro da exposição de Guerra e Loureiro (2014) que
observaram que o BNH fracassou nos objetivos sociais de promover a moradia para a
população de baixa renda, uma vez que acabou sendo atrelado à orientação econômica
de ativar o mercado interno por meio da construção civil e a lógica empresarial voltada
para o financiamento dos segmentos de média e alta renda.
Guerra e Loureiro (2014) expõe ainda, que em 1975 dez anos depois de seu
lançamento foi observado que só destinava 3% dos seus recursos para família abaixo de
cinco salários mínimos, os grandes beneficiários foram mutuários com rendimentos
superiores a vinte salários mínimos. Assim, do ponto de vista institucional o modelo
BNH, forjado no contexto autoritário, foi marcado por arenas centralizadas.
Por fim, conforme exposto por Maricato (1987, p. 28) “o campo das lutas em
torno da habitação e das condições de vida urbana em geral, ao mesmo tempo, que é um
espaço da luta de classes, é também espaço privilegiado da cooptação e do exercício da
hegemonia burguesa”.

CONCLUSÃO

Objetivou-se com este artigo iniciar um estudo sobre a conexão envolvida entre
o direito à moradia e a questão trabalhista no Brasil. Defendeu-se a hipótese de que a
moradia serviu de instrumento de troca e de controle de classes pelo Estado que buscava
apoio, tanto durante o governo de 1946 quanto durante 1964.
Assim, para demonstrar a veracidade da hipótese, partiu-se inicialmente, para
uma análise do modo de produção capitalista, do processo de acumulação de capital, de
centralização e de concentração de capital na Inglaterra e dos reflexos desse sistema
capitalista na vida das pessoas, abarcando desde a relação de trabalho, a alimentação, o
vestuário, a moradia e os relacionamentos, em virtude das transformações tecnológicas.
Como fora demonstrado ao longo do artigo, a industrialização trouxe uma série
de avanços, mas a modernidade separou o indivíduo, produzindo isolamento,
competitividade, provocando exploração de trabalho nas fábricas e a precariedade das
moradias, do vestuário, da alimentação e de higiene.
Foi necessária a análise da Europa, em especial, da Inglaterra, berço do
capitalismo, para compreender a lógica do capital e em seguida, analisar as
particularidades brasileiras. Apesar do foco da investigação ter sido indicado como entre
1930 e 1970, traçou-se um breve estudo sobre a República Velha, englobando o
nascimento e a consolidação do capitalismo industrial no Brasil, para compreender o
trabalho e assim, a dominação que era exercida sobre os trabalhadores.
Observa-se que a dominação exercida sobre os trabalhadores assalariados, no
que se refere à ideologia, a política e a vida acontece desde as vilas operárias. Foram

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apontados ao longo do artigo aspectos cruciais sobre a relação entre moradia e trabalho
e, mais precisamente, sobre a sua utilização como instrumento de troca e de controle.
Desde as vilas operárias identifica-se tal postura, nas medidas adotadas por
Vargas durante o seu governo também, como a criação MTIC, Lei do Inquilinato e CLT
– verifica-se o cunho eminentemente populista; na FCP não foi diferente, a “Política
Habitacional” apresentou uma serie de problemas, acontecia a “reserva técnica”, que
nada mais era do que uma forma de cooptar voto e apoio político e o BNH, também não
alcançou o que se propôs com relação à aquisição de moradias pela população de baixa
renda, uma vez que a classe média e a classe alta foram as mais beneficiadas com a
referida política.
Acredita-se que cabem estudos mais aprofundados sobre os aspectos jurídicos,
econômicos e políticos conexos com a moradia e o trabalho. Em apenas um artigo seria
impossível analisar, de forma pormenorizada, todos os pontos cruciais que foram
indicados. Além disso, pontos importantes, que embora não seja objeto de estudo
diretamente, mas que se relacionam com a formação do capitalismo tardio no Brasil,
infelizmente precisaram ser deixados de lado.

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228
I Seminário Crítica da Economia Política e do Direito
21 a 23 de maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

PROPRIEDADE INTELECTUAL E RENDA NO CAPITALISMO


INFORMACIONAL

Larissa Ormay
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro
lrssa@protonmail.com

Resumo
Este artigo resume a tese de doutorado de mesma autoria, que propõe a analogia entre a
renda da terra descrita por Karl Marx e a “renda informacional” obtida a partir de direitos
de propriedade intelectual. Em primeiro lugar, expõe-se o desenvolvimento teórico
realizado na pesquisa para, em seguida, analisar-se sua aplicação a um caso concreto
sobre o conflito entre o acesso e a apropriação privada do conhecimento científico
envolvido na criação de tecnologias quânticas. Por fim, conclui-se que o trabalho
científico é subsumido ao capital em um processo de acumulação marcado pelo rentismo
informacional.
Palavras-chave: Propriedade intelectual; Renda; Capitalismo informacional.

INTELLECTUAL PROPERTY AND RENT IN INFORMATIONAL


CAPITALISM

Abstract
This article summarizes the author's doctoral thesis, which proposes the analogy between
the rent of the land described by Karl Marx and the “informational rent” achieved by
intellectual property rights. The theoretical development carried out in the research is
exposed to analyze its application to a concrete case about the conflict between free access
and the private appropriation of the scientific knowledge involved in the creation of
quantum technologies. At the end, it is concluded that the scientific labor is subsumed to
capital in a process of accumulation marked by informational rentism.
Keywords: Intellectual property; Rent; Informational capitalism.

Introdução

Desde os anos 1980, a apropriação do conhecimento pela aquisição de direitos de


propriedade intelectual (DPIs) vem se expandindo aceleradamente, conforme dados da
Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, 2017). Esse fenômeno suscita
o aprofundamento da seguinte contradição: se, por um lado, a produção de ciência e
tecnologia depende do amplo acesso ao conhecimento, por outro, os DPIs funcionam
como barreiras a tal acesso, já que são monopólios.
Como reação às dificuldades de acesso e utilização do conhecimento surgidas pela
rápida expansão dos DPIs, movimentos em prol da flexibilização do regime proprietário
do conhecimento – como Ciência, Tecnologia e Inovação Abertas, Acesso Aberto,
Software Livre, Creative Commons entre outros – se pretendem alternativas ao tradicional
modelo proprietário. Porém, até que ponto essas alternativas se traduzem em formas de

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21 a 23 de maio de 2018, Universidade Federal de Minas Gerais

resistência, ou são capturadas pela lógica capitalista, intrinsecamente assentada na


apropriação? O presente artigo retrata uma pesquisa de tese desenvolvida a partir desse
questionamento.
Assumindo-se a premissa de que o capitalismo se caracteriza por sistemáticos
movimentos de acumulação por despossessão (HARVEY, 2008), aponta-se que a
informação e o conhecimento seriam largamente apropriados pelo capital com respaldo
em direitos de propriedade intelectual a partir de meados do século XX, cultivando-se um
novo tipo de rentismo baseado em rendas informacionais. Esse novo movimento de
acumulação por despossessão consistiria em uma importante marca da transição entre o
fordismo e o pós-fordismo.
De acordo com Marcos Dantas (1994), enquanto o fordismo, na primeira metade
do século XX, reorganizou a economia capitalista assentada no trabalho simples, o
contemporâneo pós-fordismo reconfigurou a produção ao conferir uma centralidade ao
trabalho informacional de recuperar, processar, registrar e comunicar informação. Por
essa razão, o período pós-fordista é batizado pelo autor de "capital-informação" ou
"capitalismo informacional" (DANTAS, 1994). Ao contrário de certas posições
deterministas que atribuem a nova fase do capitalismo ao advento de novas tecnologias
da informação e da comunicação (TICs) digitais, Dantas (1994) demonstra que o que está
em questão continua sendo a exploração do trabalho, que, por sua vez, continua sendo
explicada pela teoria do mais-valor formulada por Karl Marx (2013). No contexto do
capital-informação, portanto, pela velha lógica da extração de mais-valor, persiste a
espoliação da classe trabalhadora em relação à riqueza que ela produz.
Nesse sentido, ainda de acordo com Dantas (2008), a exploração do trabalho
informacional tem repercutido na extração de rendas informacionais garantidas por DPIs,
que seriam uma nova versão das rendas da terra descritas por Marx (2017). Contudo,
apesar do grande feito de Dantas em construir um arcabouço teórico sobre um novo tipo
de rentismo ligado à propriedade intelectual, não foi encontrada, na literatura acadêmica,
nenhum estudo empírico das rendas informacionais.
Em face disso, pretendeu-se visualizar o rentismo informacional diante do
desenvolvimento de tecnologias quânticas oriundo de uma disciplina da Física chamada
Informação Quântica. Observou-se que está em curso uma corrida mundial pela criação
de inovações baseadas nas leis da Mecânica Quântica, tecnologias que prometem mudar
o paradigma da computação. Companhias do mundo inteiro – incluindo Google,
Microsoft, Intel, Toshiba e IBM – investem substancialmente para realizar esse potencial,
ao mesmo tempo em que os pesquisadores continuam compartilhando maciçamente,
sobretudo em uma plataforma de Acesso Aberto1 denominada arXiv, conhecimento sobre
os respectivos avanços científicos. Por envolver grandes interesses econômicos e
políticos, a disputa pela informação na corrida mundial para a criação de tecnologias
quânticas se mostrou um bom caso para testar de que modo novas ferramentas de acesso
ao conhecimento impactam (se é que impactam) no regime de propriedade intelectual.
Em suma, a tese em questão pretendeu testar a analogia entre o conceito de renda
da terra, formulado por Karl Marx (2017), e a remuneração do trabalho informacional
garantida pelos DPIs, a partir, principalmente, da teoria das rendas informacionais

1
O Acesso Aberto é um movimento criado com a Declaração sobre Ciências e a Utilização do
Conhecimento Científico, ou Declaração de Budapeste, emitida na Conferência Mundial sobre Ciência
promovida pela Unesco no ano de 1999 em Budapeste. Em consonância com os termos expressos nesse
documento, o Acesso Aberto se traduz na disponibilidade online ao acesso livre e irrestrito para todos aos
resultados de pesquisa científica publicados em forma de artigos ou preprints.

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construída por Marcos Dantas (2008). Aplicou-se esse desenvolvimento teórico a um


estudo de caso sobre a publicação de pesquisas no campo da Física, especificamente
acerca de assunto de grande interesse político e econômico – qual seja, a criação de
tecnologias quânticas –, para fins de apuração dos limites do cercamento do conhecimento
para a extração de rendas informacionais.

Capitalismo informacional e cercamento do conhecimento

De meados do século XIX ao início do XXI, seguidas fases do desenvolvimento


capitalista são datadas de acordo com suas características específicas quanto ao modo de
organização e dinâmica econômica pautada pela acumulação de capital. Em geral,
identificam-se os períodos do imperialismo, do fordismo e do pós-fordismo (CHESNAIS,
1996).
Aproximadamente entre 1880 e 1913, o imperialismo consistia na expansão
econômica de alguns Estados para outros territórios transformados em colônias. Em
seguida, houve um período de guerras e pós-guerras mundiais, que deu fim ao antigo
imperialismo e preparou as condições geopolíticas mundiais para o surgimento de uma
nova fase do capitalismo, o fordismo.
O fordismo foi uma fase de crescimento, compreendendo os "trinta anos
gloriosos", do pós-Segunda Guerra Mundial até o final dos anos 1970.
Na passagem do fordismo para o pós-fordismo, o trabalho informacional passa a
ser o mais valorizado economicamente, gerando uma acelerada expansão dos direitos de
propriedade intelectual (DPIs) e do correlato rentismo informacional. O trabalho
informacional é, segundo Dantas (1999), aquele que capta, processa, comunica e registra
informação pela produção de sentido e significado em um contexto cultural e científico.
Com essa perspectiva, ancorada na importância do trabalho informacional – e não da
informação isoladamente – Dantas denomina o período pós-fordista de capitalismo
informacional ou capital-informação, iniciado no final dos anos 1970, perdurando até os
dias de hoje. No conceito de capitalismo informacional, o destaque atribuído ao trabalho
para a constituição do valor econômico não é fortuito: a interpretação sobre os fenômenos
do capitalismo informacional se desenvolve com base na obra de Karl Marx (2013, 2014,
2017), que realizou, no século XIX, uma importante crítica da economia política a partir
da teoria do valor-trabalho, segundo a qual o valor econômico é medido pelo tempo de
trabalho humano social médio necessário para produzir mercadorias.
Com foco no protagonismo do trabalho, portanto, a alusão ao capitalismo
informacional implica uma visão crítica sobre a atribuição das transformações
econômicas das últimas décadas ao puro avanço da tecnologia. A tecnologia não é neutra;
é sempre pensada, projetada e utilizada dentro das condições materiais em vigor, sendo
capturada pelos interesses do capital.
A necessidade de o capital se reinventar para continuar se autovalorizando fez
emergir o capitalismo informacional2, contrastando com a rigidez do fordismo. Nessa

2
Outros inúmeros autores têm sugerido termos e conceitos que dialogam com as transformações das
forças produtivas na virada do século XX para o XXI, como, por exemplo, acumulação flexível
(HARVEY, 1992), capitalismo digital (SCHILLER, 2000), capitalismo virtual (DAWSON, FOSTER,
1998), capitalismo de alta tecnologia (HAUG, 2003), capitalismo informático (FITZPATRICK,
2002), capitalismo comunicativo (DEAN, 2005), capitalismo cognitivo (NEGRI, VERCELLONE,
2008), mundialização do capital (CHESNAIS, 1996) e capital-imperialismo (FONTES, 2010).

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nova fase, a produção industrial se fragmenta em serviços terceirizados e outras quebras de


vínculo formal de trabalho, com o auxílio das tecnologias da informação e da comunicação
(TICs) – o marco da terceira revolução industrial. O trabalho passa a se distribuir entre
amorfas "redes" de pessoas cada vez mais "autônomas", isto é, formalmente excluídas dos
quadros de trabalhadores de estruturas empresariais mais e mais concentradas e lucrativas.
Além disso, a produção vai se automatizando, substituindo trabalhadores pela tecnologia. No
início do século XXI já se fala em quarta revolução industrial, ou “Indústria 4.0”, ligada à
robotização, inteligência artificial e tecnologias quânticas (SILVA et al, 2017).
A introdução da tecnologia no processo produtivo significa que o trabalho redundante
passa a ser realizado por máquinas, de modo que o trabalho humano gradativamente se
concentra mais em processos informacionais (DANTAS, 1999). Contudo, como somente o
trabalho humano gera valor (SMITH, 1996; MARX, 2013), a substituição do trabalho vivo,
humano, por trabalho morto, realizado por máquinas, incide no que Marx (2017) chamou de
tendência à queda da taxa geral de lucro, inerente ao sistema capitalista. Diante desse
fenômeno, os grandes proprietários dos meios de produção buscam formas de continuar
acumulando riqueza apesar da queda do lucro, o que é alcançado, em certa medida, por um
modo rentista de enriquecimento.
A encruzilhada entre a exclusivista propriedade privada e o caráter social da
informação e do conhecimento tem encaminhado teorias que descrevem a expansão dos DPIs
como uma reedição do cercamento sobre relações comuns enquanto condição da acumulação
de capital (BOYLE, 2003; HESMONDHALGH, 2008; GLASSMAN, 2006; PEEKHAUS,
2012). Desse modo, se na acumulação primitiva de capital a terra comunal precisou ser
cercada e expropriada (MARX, 2013), agora, cada vez mais, o conhecimento parece fazer as
vezes da terra, sendo cercado e expropriado por meio dos DPIs. Em torno do direito de
propriedade, a relação entre a terra e a informação se reforçaria pela analogia entre a renda
da terra (MARX, 2017) e a renda informacional (DANTAS, 2008).
Pela teoria econômica clássica (SMITH, 1996[1776]), a terra não tem nenhum valor
em si porque não é produto de trabalho. Qualquer "preço da terra", portanto, é irracional.
Trata-se de uma ficção imposta à sociedade, porém com efeitos reais. De modo análogo às
terras, durante muito tempo as obras eminentemente produzidas pela criação intelectual
humana sequer eram encaradas como bens passíveis de comercialização, eis que essas obras
eram oriundas da "pura natureza" da cognição humana. Em dado momento, o "cercamento"
do domínio intelectual passou a acontecer sob a denominação de propriedade intelectual,
levando à hipótese desenvolvida por James Boyle (2003) de um novo movimento de
cercamento, análogo ao de terras, caracterizando-se como uma segunda onda de acumulação
de capital na História.
A visão de Boyle se coaduna com a argumentação de David Harvey (2013) segundo
a qual o processo de acumulação primitiva não pertence exclusivamente à pré-história do
capitalismo. A expropriação das populações rurais e camponesas, a política de exploração
colonial, neocolonial e imperialista, o uso dos poderes do Estado para realocar recursos para
a classes de terras comuns, a privatização das terras e dos recursos do Estado e o sistema
internacional de finança e crédito, além dos débitos nacionais crescentes e da continuação da
escravidão por meio do tráfico de pessoas, são processos específicos de acumulação que Marx
descreve e que ainda permanecem entre nós (HARVEY, 2013, p. 293). Assim, ocorre uma
continuidade da acumulação primitiva por toda a geografia histórica do capitalismo. Trata-se
de políticas de acumulação por desapossamento que, inclusive, tendem a se intensificar na
medida em que aumenta a desigualdade social ou concentração de riqueza, pois a acumulação
pode abarcar tudo: desde o confisco do direito de acesso à terra e à subsistência até a privação
de direitos – aposentadoria, educação e saúde, por exemplo (HARVEY, 2013, p. 296).
Diferentemente de Boyle, que vê no alastramento da propriedade intelectual um segundo

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