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Colecção cultura e Evangelho

O NOME NA
Tradição AFRICANA

Fr. Adriano Langa,ofm

1
Versión digital
Hno. Rodolfo Patricio Andaur Zamora
Santiago de Chile
2019

2
INTRODUÇÃO

Estou convencido de que se nos déssemos ao trabalho de procurar saber o significado


etimológico, isto é, o significado inicial, o primeiro significado da palavra Home, ficaríamos
encantados, felizes e admirados. Acredito até que a maneira de pensar de muitos de nós, sobre
este assunto, ficaria tocada, senão mesmo modificada.

Na verdade, parece não ser difícil verificar de que a imposição de nome a uma pessoa
e mesmo a animais, a plantas e a coisas e fenômenos obedece a certas regras e isto desde do
"princípio".

Segundo os comentaristas bíblicos mais antigos, isto é, as pessoas que estudam e


explicam a Bíblia, o nome de ''Adão" quereria dizer Terra. Tirado da terra. De facto e segundo
a própria Bíblia, Adão foi feito por Deus a partir da terra, diretamente (Gn. 2,7).

Sobre a criação da mulher a Bíblia informa-nos:

"Então o homem exclamou: Esta sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela
será chamada mulher porque foi tirada do homem." (Gn. 2,23) (Gn. 2,2 3).

Seria interessante se percorrêssemos a Sagrada Escritura, nas muitas passagens sobre


este assunto, por exemplo Gn 4,25. Também interessante seria se soubéssemos o critério que
Adão utilizou para dar nomes aos seres "criados” Gn.2, 20) mas sobre isto o texto é mudo!

A questão do porquê não se limitou aos tempos bíblicos. Ela atravessou milênios e
culturas. Seguir esta história é uma viagem pitoresca e apaixonante.... No entanto, é uma
viagem longa, mas não estamos prepados para levá-la até ao fim. Mas arranjemos um ponto
[04] de observação e, daí, lancemos um olhar para esse horizonte imenso. O ponto de
observação escolhido foi a região dos Vatchangana (Xangana) e dos Vatchopi (Xopes). Oxalá
que as coisas, como se passam nesta região correspondam e coincidam em muito com as
demais regiões do nosso País.

Quero deixar aqui expresso um sincero reconhecimento e agradecimento a muitos


anciãos e anciãs me ajudaram com as suas preciosas informações sobre o assunto aqui
tratado. Agradeço a todos na pessoa do Bava Salomão Mathule pelas suas valiosas
informações sobre as tradições da região de Mandlakazi-Nguzeni (Macupulane) e na pessoa
do Bava Augusto Kwamba pela sua sabedoria dos usos e costumes das gentes do Vale do
Limpopo, as tradições dos Vatchangana (xanganas). Mais uma vez, a todos os que de uma
maneira ou doutra colaboraram para estas breves paginas um sincero obrigado em nome de
todos os leitores destas mesmas páginas.

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[05]

Na nossa tradição a imposição de nome a uma criança


passava por diversos ritos. A consulta ao Adivinho era
um desses ritos, que davam profundidade ao acto e o
nome era uma profecia para o ser humano que entra
na aventura de existir no tempo e no espaço...

[06]

A. PRINCÍPIOS DA IMPOSIÇÃO DE NOME

Vejamos como é que se processa a imposição do nome numa criança recém-nascida,


dentro do contexto africano patrilinear. Por uma questão de objetividade basear-nos-emos
nas Culturas dos Povos ao Sul do Save, mas certos de que há tona grande coincidência com
as Culturas dos Povos ao Norte de Moçambique, mesmo os contextos matrilineares.

1. Só depois de oito dias

Verificamos que entre gente de cultura ocidental, na actualidade, muitas vezes a


criança recebe o nome logo nos primeiros momentos do seu nascimento. Acontece, até, o pai
e a mãe combinarem, muito antes do nascimento, qual o nome a dar a criança que vai nascer,
seja ela um rapaz ou uma menina. Isto é cada vez mais possível com as técnicas de previsão
do sexo e de auscultação. Portanto, neste mundo tecnicamente evoluído, ocidental ou
ocidentalizado, a criança chega a nascer já com o nome.

Este procedimento deixa ver claramente qual é a mentalidade dos pais acerca dos
filhos: Um filho e uma propriedade mais ou menos absoluta, por isso, eles podem dar o nome
que quiserem e quando quiserem. Na mentalidade e Cultura africana tradicional tal
procedimento é impossível e inaceitável. A imposição de nome obedece uma série de normas
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e tabus. Na verdade, as sim pensa o africano, quem garante que a criança chegará a nascer e
viver? Por isso seria uma precipitação nefasta e desnecessária. É um tabu prever o nome,
como é tabu preparar um enxoval ates do nascimento.

Daqui podemos ver como podemos chocar as pessoas com os presentes de enxovais
antes do tempo...

[07] A criança vem para este mundo. Se ela vem para ficar, haverá tempo para tudo
e, nesse caso, para quê tanta precipitação. Mas se ela não vem para ficar, nascer morta ou
morrer logo depois de nascer, então, não-vale apena as pessoas se maçarem, com um ser que
está de passagem. Daí os oitos dias, como que para ver.

Na linha africana, a preparação do enxoval e escolha formal do nome são tabus


considerados suficientes para fazer fracassar o nascimento. Sendo assim, o problema pode
não estar em mim que ofereço, mas sim na pessoa que recebe. Querendo fazer-nos
simpáticos, podemos colocar-nos em situações bastante delicadas, pois, em caso de
problemas a pessoa atingida pensará em muita coisa e em muitas pessoas, nós aí incluídos...

2. Dar o nome ê assunto da família

Para um africano uma criança não é uma propriedade absoluta dos progenitores. Estes
são os "donos" imediatos do seu filho. Eles são os "guardiães" imediatos. Mas o filho
pertence à família alargada, incluindo os mortos. Por isso, os pais carnais não podem dispor
em tudo nos filhos que eles geraram. Um dos aspectos em que os pais não podem dispor e a
imposição (escolha) do nome. Eles não podem agir isoladamente. Para isto há todo um
percurso a fazer em família, um percurso com etapas bem definidas. É verdade que o processo
começa muito antes do nascimento, mas a imposição do nome é uma etapa posterior ao
nascimento. Antes, o percurso é constituído por actos orientados para o parto

5
[08]
3. Intromissão indevida?

A dependência dos progenitores de uma criança em relação a família alargada,


referida no número 1.2, vista a partir doutras culturas e mentalidades parece uma intromissão
alienante, um grupismc asfixiante e inaceitável, por tirar um dos direitos mais sagrados aos
pais directos: dar livremente um nome ao seu filho. Que dizer disto?

a. É uma questão de mentalidade


- Antes de adiantar com esta questão, importa observar que estamos no plano cultural.
Uma cultura gera uma mentalidade e uma sensibilidade próprias, por sua vez, geradoras
de atitudes. Tomando duas ou mais culturas constatam-se atitudes que podem ser
diametralmente opostas umas das outras, porque inspiradas em culturas diferentes. Daí
que se torna difícil apreciar práticas de uma cultura, partindo de esquemas de outra cultura
diferente: Seria como pretender comparar o ouro e o cobre ou a prata e o estanho. São
todos metais, mas diferentes uns dos outros.

b. Onde está o perfeito? –


Por aquilo que, na realidade quotidiana, nos vão mostrando sociedades como os
ocidentais ou ocidentalizadas, a filosofia sobre a qual estão assentes já não e tão
incontestável e tão perfeita como parecia ontem e, por isso, alguns dos seus "valores" não
passam automaticamente. Entre outras, hoje, verifica-se que estas sociedades estão a
contas com um individualismo selvagem. Selvagem e destruidor, e só ver o que vai pôr
esse mundo fora. Entre as explicações de fundo, está o tal individualismo, que também
se chama egoísmo.

Portanto, num extremo temos um gregarismo (agir em grupo) que é a ferida das
sociedades tradicionais africanas ou qualquer outra sociedade tradicional. Mas do outro
lado temos as sociedades dita “modernas” ou "civilizadas" manietadas pelo
individualismo e desagregação. Umas e outras têm caminho a fazer, rumo a meio, onde
está a virtude e a vida em plenitude.

[09]
4. Os grandes momentos da vida

Com o que dissemos, ainda não respondemos à pergunta deixada atrás, no número 3.
Para a questão, comecemos por nos entendermos sobre uma coisa e só então diremos se se
trata de uma intromissão indevida, conforme a pergunta. A coisa sobre a qual devemos nos
entender é esta: Ha ou não há momentos grandes na vida? Se respondermos que sim, então,
será preciso defini-los. Quais são?

Para o africano, a resposta é afirmativa: um ser humano tem momentos importantes


na vida, momentos vitais. São o nascimento, o casamento e a morte. Cada momento é
constituído por partes, com a sua importância e especificidade.

Estes momentos são grandes e carregados de emoção e significados que uma família

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nuclear e muito menos um indivíduo não conseguem vivê-los inteiramente, isolados. Estes
momentos são tão grandes que, alguns deles nem a família alargada e suficiente para
enfrenta-los e vive-los.

Observemos ainda e para ilustrar isto em ponto grande; A família nuclear e a alargada
não são suficientes para criar uma pessoa inteiramente equilibrada, normal. Elas necessitam
do concurso da sociedade para lhes completar no seu papel de pôr um ser humano de pé. Ora,
se no cumprimento de deveres a família nuclear necessita da solidariedade da família
alargada e da sociedade, estas não devem ser só solicitadas para cumprir deveres e serem
esquecidas e negadas quando se trata de usufruir direitos....

Mas continuemos a nossa análise à questão, no número que segue.

5. O significado de dar o nome

Dar o nome a um ser humano constitui um acto importante e sério; é um dos actos
que realizam o grande momento do aparecimento de um homem no mundo e na história. Na
verdade, um nome e importante [10] porque, entre outras coisas e razoes, dois actos se
juntam: a leitura da história que esse ser (criança) percorreu, desde dos seus antepassados até
aos seus progenitores directos e ele próprio. Por outro lado, o nome é uma profecia do futuro
dessa criança:

"Há-de a Virgem conceber e dar à luz um filho, a quem porá o nome de 'Emanuel'
"(Is.7,14 cfr. ainda Is. 9 e Is. 11. Também Lc.1,31-33).

Como se vê, uma criança é um passado e um presente voltados para o futuro. Um


nome devia tentar ser esta profecia. Que dizer de um indivíduo que se chama Feliz, mas, na
realidade, é um desgraçado?

Certamente que alguém poderá dizer: e se chamarmos alguém de Desgraçado e ser,


de facto, um desgraçado, não teremos dado a ele um mau destino (fatalismo)? Um nome feio
tem um outro sentido (oposto). Por isso, o africano invoca (insulta) o mal para afastá-lo. E
uma foi: má de desmascarar o mal para ele se afastar; como sucede com certas doenças
provocadas: recorre-se à causa para combater o mal que ela mesma originou.

Finalizemos este ponto dizendo: Se no nome exige esta leitura do passado e está
profecia (que é leitura do futuro) os progenitores sozinhos podem ser insuficientes para este
trabalho, que supõe inspiração. Esta nossa questão terá ainda outra parte da resposta, e vere-
mos onde começa e acaba a liberdade dos pais

6. Quem toma iniciativa?

Outra questão que interessa abordar é a de saber quem toma iniciativa para se escolher
o nome de um recém-nascido.

a) Qualquer pessoa da Família. – Qualquer pessoa da família pode tomar a iniciativa

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de dar nome a um recém-nascido. Assim, pode ser a mãe, o pai, avô, tio irmão, etc.
Numa palavra e como se disse, qualquer pessoa da família tem [11] "direito" (pode).

b) Um estranho - Também a iniciativa pode partir de uma pessoa estranha à família do


recém-nascido. Uma pessoa que casualmente passa por ali. Uma pessoa assim pode
dar o seu-nome à criança ou o nome de uma terceira pessoa. A Família aceita este
nome, sob a condição de a pessoa cumprir os requisitos previstos para a imposição
do nome.

c) Um bondoso - Por "bondoso" queremos referir-nos a uma pessoa que não tem
nenhuma relação de parentesco e, até pode ser desconhecida até ao momento do parto
mas que surge, de repente, no momento do parto: uma parteira, um médico que inter-
vém num parto difícil, uma família que acolhe uma parturiente, surpreendida pelo
parto em pleno caminho ou alguém que intervenha de uma maneira ou doutra para
facilitar o parto, mas uma intervenção que seja significativa.

Em todos estes e outros casos, uma família aceita de boa vontade e gosto o
nome que vier a partir destas circunstancias, que são interpretadas como providencia-
is. Tanto a pessoa de quem se toma o nome como a família do recém-nascido vêem
estes factos como uma intervenção de Deus e dos antepassados e como escolha: da
criança a família e pessoa, onde casualmente foi nascer ou tomar o nome.

d) A partir da própria criança - A criança recém-nascida pode sofrer quaisquer


incômodos e, como se sabe, ela manifesta-se chorando. Neste caso, vai-se consultar
o adivinho, para saber o que se está a passar. As vezes obtém-se como resposta que é
um X antepassado quer que se ponha o seu nome à criança, se esta não tiver ainda
nome.

e) Um segundo nome? - Por vezes acontece que um antepassado ou um espirito (que


são duas coisas diferentes) pode intervir tardiamente e pedir que se imponha o seu
nome a uma criança [12] que já tem nome. Isso acontece, embora seja raro. No
entanto, são muito poucos os casos em que este segundo nome vingue. Regra geral,
costuma ser um nome para cerimônias, permanecendo desconhecido de muita gente,
incluindo as pessoas da própria família e o nome acaba desaparecendo.

f) Consulta ao adivinho - Acontece muitas vezes que a família toma inciativa de ir


consultar um adivinho para pedir um nome ou pedir a sua confirmação, para ver se
tal nome e aceite ou não (se se tratar de um falecido). A expressão de:

“Vito la tihlolo / Di tina da tihlolo”

quer referir-se ao nome em que, para o obter, houve uma intervenção do adivinho.

g) Nome da iniciação - Tem se falado deste nome. Há quem afirma que este e o
verdadeiro nome, aquele nome que fica definitivamente. Não nos sentimos
autorizados a aceitar ou negar com conhecimento de causa. Aliás, existem escolas da
Iniciação e cada escola tem um procedimento especifico em certas coisas. Mas
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baseando-nos em princípios universais que regem a iniciação, opinaremos dizendo:
E pouco provável que isso aconteça, isto e, que o nome definitivo de um indivíduo
seja aquele que ele e atribuído na iniciação. A nossa opinião baseia-se nos seguintes
princípios e observação directa.

h) Gênero de nome - Os nomes usados na Iniciação são nomes simbólicos, destina dos
a isolar o indivíduo do mundo normal e sentir-se outro, criando, assim, na pessoa o
sentido de mistério. E por isso que os nomes ali usados não são nomes normais, alguns
até são obscenos e, por isso, impróprios para um uso normal, na vida normal: Leão,
Búfalo, Devorador, etc.

i) O Sigilo da Iniciação - Sabe-se que a iniciação é fortemente marcada pelo sigilo.


Nada do que se passa na iniciação transpira para fora, incluindo o próprio nome usado
para um fulano X, pois, este nome não é dado à toa; é um nome [13] muito relacionado
com a iniciação e com tudo o que se passou nessa experiência, uma experiência que
deve ser mantida em segredo. O nome devia fazer parte deste segredo, porque ele
lembra muita coisa desta experiência.

j) A solenidade do 1° nome - A solenidade que rodeia imposição do primeiro nome


leva-nos a concluir que ele não pode ser um nome provisório e que venha a ser
substituído por um nome posto às escondidas e por um estranho, como é um mestre
da iniciação, mesmo que seja objecto de muita veneração. A questão não é de ser um
estranho, mas por ser tardio (a iniciação pode ocorrer na adolescência ou, até, na
juventude), é ainda, por ser assim à margem das normas da imposição. Eis a nossa
posição, mas que dá lugar para uma afirmação mais fundamentada.

7. A cerimónia da impôsiçao

Achado o nome, segundo uma das formas expostas atrás, segue-se a cerimônia da
imposição, cujo esquema de desenvolvimento é simples, geralmente. Basicamente, a
cerimônia consiste em a família nuclear ir à arvore dos antepassados (altar familiar) para
apresentar o nome. Isto passa-se na família paterna, quando se trata das sociedades
patrilineares. Mesmo se o nome foi sugerido pelos antepassados ou outro meio esta cerimônia
é imprescindível: é preciso ir dizer aos antepassados que o nome foi aceite pela família.
Diríamos que se trata da oficialização do nome.

A criança oferece-se-lhe uma galinha, se é um rapaz ou um galo, se é uma rapariga.


No entanto, há contextos em que é sempre uma galinha, sem distinção de sexo. Esta ave é
também apresentada aos antepassados. Considera-se sagrada e não se pode matar de qualquer
maneira.

A ave pode ter sido oferecida como prenda, pelo xará da criança. Se o xará for um
falecido, serão os vi vos, próximos do xará falecido, que oferecerão esta prenda. Mas se a
prenda tiver sido outra coisa e não uma ave, será apresentada essa prenda, mas uma galinha
terá de aparecer também, por conta da família da criança.

9
[14]
8. A importância da prenda

A prenda a oferecer à criança porque dá o nome é uma condição para o nome valer e
ficar. Não basta a proposição de um nome para ele ficar e ser utilizado, mesmo se a família
deu um sinal de consentimento, é indispensável que quem da" o nome tire qualquer coisa e
ofereça à criança. Se o nome for de um defunto, algum vivo, próximo do referido defunto,
terá de assumir o fornecimento dessa prenda. Nas línguas xangana e xope, a prenda dada
nestas situações diz-se que serve para:

"Ku tchulisa a vito / Ku thulisa di tina"

Que traduzido para português significa que a prenda serve para dar o nome.

Mas imaginemos aquele caso em que um estranho dá o nome a uma criança, mas que
não contava com isso. Mesmo esta pessoa é obrigada a dar, imediatamento e seguir o seu
caminho ou, então, terá de voltar outra vez para vir cumprir o seu dever, ou ainda, quando a
família da criança levar a esta para a casa do xará, para:

"Ku heleketa a vito / kuheleketa di tina"

Literalmente esta expressão quer dizei: ir acompanhar o nome. O seu sentido real
significa "ir mostrar à criança a sua casa (casa do xará) para ela conhecer essa "sua casa" e
os familiares do xará também conhecer essa criança.

Esta viagem da criança não visa, portanto, ir buscar a prenda, embora as coisas
possam coincidir por economia de tempo e por combinação expressa.

9. Origem de uma aliança

As relações que se estabelecem a partir de um nome dado, entre duas fami1ias,


tornam-se serias e reais, pois, podem dar a uma familiaridade como a familiaridade de
sangue. A Família que deu o nome passa a interessar-se pela vida da criança e participar em
certos momentos importantes da vida da criança e da sua [15] família e está procurará
informar à outra as ocorrências da vida da criança, mesmo depois de esta ser adulta. As duas
famílias se sente co-responsáveis e os laços daqui resultante imitam os laços de sangue:
Haverá pais, mães, tios, irmãos, avôs, etc., por analogia.

10. Para a vida

Voltando ao caso da prenda, imaginemos que o que dá o nome não oferece nenhuma
prenda. Esta atitude inviabiliza o nome, regra geral, portanto, podendo haver excepções à
regra. Mesmo em caso desta excepção, a família experimenta um certo embaraço e se
interroga sobre a seriedade da proposta do nome ou da sua não seriedade. Isto significa que
a prenda é, também, uma prova da seriedade da intenção de quem propõe o nome, pois, há
casos de brincadeira. Mesmo se a iniciativa começou do lado da família da criança em causa.

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Mesmo assim é necessário que a parte solicitada demonstre interesse. Mas é isso não
acontecer, a família da criança não retirar o nome, mas ela experimentara seriamente uma
dose de incerteza do interesse e gosto da outra parte solicitada.

Daqui podemos apreciar a fraca figura que a gente ocidental ou ocidentalizada pode
fazer nestas circunstâncias, aceitando a imposição ou tomando a iniciativa de impor o nome
“secamente”

É verdade que gente de posse nunca falta a este gesto e dá e, até dá bastante. Mas não
basta dar: é preciso ver o que se oferece e como é que é oferecida essa coisa.
Tradicionalmente não se oferecem coisas utilitárias tais com; a comida, vestuário. Coisas
como estas podem ser oferecidas à parte, isto é, não são objectos para a cerimônia.

Também não se pense que é questão da quantidade que está em causa, mas sim e uma
questão de simbolismo. Portanto, estamos no plano religioso. Uma quantia insignificante de
dinheiro, uma galinha, ainda que seja um frango, são mais significativos do que certas coisas.

Outra particularidade que interessa saber é que um xará deve levar pessoalmente,
quanto possível, a sua [16] prenda, isto é, deve-se evitar utilizar intermediários não ser em
casos mesmo impossíveis e de forca maior. Também e de evitar entregar este tipo de ofertas
no caminho, pois, esta pratica não só não e cerimonioso como também é humilhante.
Também, tradicionalmente, é contrário ao protocolo o passar a oferta da mão do oferente
para a mão de quem recebe. Este caso conhece excepção no caso da oferta a criança. Doutro
modo, o objecto é colocado no chão e é ali que a pessoa beneficiaria irá buscar. Este protocolo
vale também para o valor de uma compra: quem compra não entrega o valor directamente na
mão do vendedor.

Eis mais um contraste cultural: enquanto para os ocidentais o pôr no chão um objecto
para o outro tomá-lo constitui um desrespeito e má vontade ou má educação, para o africano
e justamente o contrário. Sobre isto, há um tabu que diz: entregar na mão uma oferta ou o
valor de uma compra limita a sorte do beneficiário ou a sorte do vendedor.

O entregar na mão funciona na vida quotidiana, entre pessoas que são familiares e
não nos momentos específicos e solenes.

11. Prenda obrigatória?

A "obrigatoriedade" da prenda pode ser objecto de críticas: até que ponto é uma
prenda aquilo que se é obrigado a dar? Não será mais um imposto ou compra do que oferta?

Crítica como esta seria própria de quem vê as coisas através do vidro, isto é, de longe
e de quem não experimentou o calor humano com que se passam as coisas. Ou então, criticas
como esta revelariam um espirito curto e seco, em termos de sentimentos humanos.

Quem já observou (não é preciso ser muito observador para o verificar) sabe de que
existem estas “obrigações” voluntárias. "Obrigações" que ninguém nos vai exigir o seu

11
cumprimento: se não as fazemos, no entanto, fica-nos mal. São obrigações que não
assentarem [17] direito ou lei jurídica, se nos permitem a redundância.

A sua base ou "lei" é a boa convivência. Por exemplo, ninguém é obrigado a


cumprimentar as pessoas com que cruza nos caminhos (falando juridicamente): ninguém é
obrigado juridicamente a dar esmola, como também ninguém é obrigado a dar boas-festas.
Mas quem pode e não realiza estes gestos, revela um coração fechado e magro, que ninguém
o suporta. Não suportam que alguém não faça aquilo que juridicamente não está obrigado a
fazê-lo.... Por isso que ninguém lhe pedirá contas, mas o tal ficará na lista negra....

O dar uma prenda de que aqui falamos, não significa nenhum pagamento e muito
menos um imposto. Ela, como toda a oferta, é gratuita e espontânea. É um símbolo e, como
tal, exprime o contentamento que vai no coração de quem vê o seu nome repetido e chamado
quase à perpetuidade. Mesmo em outras circunstâncias, o não oferecer, enquanto pode, pode
ser sinal mais ou menos certo de não estar a comungar da alegria e da festa que se vive. Pode
significar que eu, que nada ofereço, não quero entrar na festa, fico a margem, estou
indiferente. Isto é chocante, não é? Por isso, em casos como o do nome de uma criança e
outros semelhantes, se o próprio não pode, outras pessoas vêm em ajuda e oferecem para ele
oferecer, tirando assim, a vergonha e o escândalo, ao mesmo tempo que se liberta o indivíduo,
na verdade, quem devia oferecer e não o faz, por não poder, encontra-se numa situação
terrível de opressão e humilhação: é mais doloroso um desejo insatisfeito do que um dever
insatisfeito, sobretudo um desejo involuntariamente insatisfeito.

12. Estrutura de um nome

A estrutura dos nomes varia ou pode variar de uma sociedade para outra. Vemos, por
exemplo, que há nomes mais compridos que outros, isto é, que alguns nomes são constituídos
por muitos nomes, formando um único nome, enquanto que outros comportam menor número
de nomes. A título de exemplo concreto, os portugueses são um dos povos que usam nomes
muito longos. Trabalhando [18] eu num cartório paroquial, já depareime com um nome de
nove (9) nomes. Os italianos são um dos povos que usam nomes muito curtos: a maioria dos
nomes italianos e constituído por dois nomes. Mas, o que determina a extensão de um nome?
Entre as possíveis causas, referir-nos-emos a esta, que nos parece a principal:

A extensão é determinada pelas leis que regem uma sociedade, no sistema familiar.
Ora há sociedades com leis mais exigentes do que outras. Segundo essas leis um indivíduo
deve estar devidamente identificado de maneira que não haja confusões, quanto possível.
Portanto o "devidamente" é que é susceptível de ser avaliado diferentemente de uma
sociedade para outra, daí as diferenças constatadas.

Esta identificação "devida" é importante para as famílias, para o seu funcionamento


interno, por exemp1o, para a questão das heranças e sucessões, daí que um nome já define a
posição de um indivíduo dentro da própria família: Se é filho, irmão, neto, sobrinho, etc.

Outro elemento que pode vir alongar um nome, são os títulos de nobreza. Para o
primeiro que usa o título, este é mais uma questão de luxo e grandeza mas para os seus

12
descendentes começa a ser uma exigência vital, para o indivíduo não vir a ser excluído do
usufruto de bens a que ele tem direito, por exemplo, a sucessão.

13. As partes de um nome

As partes constituintes de um nome não são postas ao calhar, estamos informados


disto. Na verdade, mesmo nos nomes mais longos a disposição não é ao calhar. A disposição
fala por si, ou devia falar. Tomemos um exemplo imaginário, de um nome português, que é
mais elucidativo: Manuel José Barbosa Pires dos Santos Costa. Neste nome há uma ordem
de elementos que é inviolável, de tal maneira que não se pode pôr Pires antes de Barbosa,
nem Costa antes de Dos Santos, para a mesma pessoa X que usa este nome. Mudando um
destes elementos já é um outro indivíduo ou é uma violação, que não deixa de ser uma
violação mais ou menos grave. As leis sobre a família e sobre a herança é que, numa
sociedade H, [19] determinam e obrigam a disposição. Entre as leis está o sistema familiar,
que pode ser matrilinear ou patrilinear, aliás, este é o mais determinante.

Por outro lado, naquela disposição está também uma cronologia (ordem de sucessão
de gerações) até se chegar ao Manuel. Por isso dizíamos nós mais atrás que no nome de uma
pessoa está inscrita a história passada dessa pessoa.

14. Nas sociedades ao sul do save

Estas sociedades são patrilineares, tal como se apresentam na actualidade, salvo uma
possível evolução que uma ou outra poderá ter sofrido num passado distante. Como tais, é o
pai (homem) que assegura a continuidade da linhagem de uma família, por isso, os filhos
tomam o apelido do pai e não da mãe, nem dos dois ao mesmo tempo.

É verdade que nos nossos dias aparecem nomes com dois apelidos (o que pode deixar
entender que o indivíduo em causa tomou o apelido do pai e da mãe). Este fenômeno trata-
se de um ocidentalismo (imitação do que se faz em alguns povos ocidentais) ou, talvez, pode
ser uma tentativa de conciliar dois sistemas contrários que se encontraram numa união de
cônjuges moçambicanos, mas de sistemas diferentes, sendo um dos cônjuges de sistema
patrilinear e outro de sistema matrilinear. Mas, seja num ou noutro caso, dentro da cultura
africana, trata-se de um desvio à norma. Dentro desta cultura, um indivíduo nesta situação
teria que se explicar e definir-se por um só lado, pois não podia estar com os dois apelidos.

Um desvio que pode ser expressão de desenraizamento cultural dos pais desse
indivíduo e sinal de ignorância dos princípios pelos mesmos pais (o desenraizamento e a
ignorância de princípios andam juntos, como causa e efeito...). A ser assim, é caso para nos
interrogarmo-nos: Será que estamos em presença de uma evolução? Se sim, o que
determinaria tal evolução? Com tal pratica, vamos para Portugal, para Cuba, para Itália, para
Holanda, Rússia...?

[20]. Estaremos conscientes das conseqüências, conseqüências que não serão os pais
(responsáveis) a pagar. Se não os filhos a fazê-lo pelos pais? Mas se nós comemos uvas
verdes, aos nossos filhos cairão os dentes. Só que o nosso pão é mole, mas o deles, poderá

13
ser bem duro, com eles sem dentes, seria bonito!

15. A estrutura do nome

Qual é a estrutura do nome de uma pessoa no contexto que nos ocupa (Sul de
Moçambique)? Em rigor e tradicionalmente o nome de umas pessoas nestas sociedades
consta de três elementos: o nome da pessoa em causa, o nome do pai e o apelido do pai.

B. O NOME DO INDIVIDUO

Só o primeiro nome de um indivíduo é insuficiente para identifica-lo e distingui-lo


dos outros indivíduos da mesma família alargada e da sua sociedade. Com efeito, já na família
alargada pode haver mais que uma pessoa com o mesmo nome.

É verdade que é muitíssimo difícil, para não dizer impossível, a repetição do mesmo
nome na mesma família nuclear, sobretudo se é para substituir um filho falecido, por
exemplo: um casal teve um filho Jose que faleceu. Este casal não pode voltar a dar este nome
a um outro filho seu. É tabu: esse José II morreria, como o primeiro, porque se diz, com a
morte do Jose I:

"A vito li yalile / Di tina di lambile"

Que quer dizer “o nome negou-se” ou seja o nome de Jose não quer nada com o casal.
Por isso não se deve insistir.

Mas imaginemos que um homem é polígamo. Ele pode repetir o nome de Jose num
filho que tiver com uma outra mulher, mesmo se o Jose I estiver vivo. Os dois são filhos do
mesmo pai, mas de mães diferentes.

Em relação a uma mulher também é possível a repetição, [21] sob a condição de os


dois filhos homônimos serem de pais diferentes. Tomemos um exemplo:

Helena Sambo casa-se com Zaqueu Tamele, filho de Estevão Tamele. Deste
casamente nasce um filho, que lhe dão o nome de Estevão Zaqueu Tamele. Mas, depois,
Zaqueu Tamele e Helena se separam ou morre o Zaqueu. Helena sambo casa-se novamente
com Feleciano. Desta casa mento nasce um filho. O nome de Estevão pode retira-se, sob as
seguintes hipóteses

 Se na Família do Feliciano houver alguém com o nome de Estêvão.

 Se na família da Helena houver alguém com o nome de Estêvão (aceita-se porque o


Estêvão I que a Helena teve referia-se ao Estevão da família Tamele).

 Se o casal Feliciano tiver um amigo chamado Estêvão e que queira dar o seu nome
ou por -que, se o amigo não se chama Estevão, mas que ele tenha uma relação com
este nome de Estêvão, não da Família Tamele.

14
São casos excepcionais, mas possíveis de ocorrer. E certo que, ocorrendo, não
deixariam de ser um pouco incômodos a mulher e não passariam sem diálogo com a mesma
mulher.

[22]
No regaço de uma mae esta ter mistério por se revelar. . . dar
nome a uma criança e tentar advinhar o future da mesma.

15
1. O NOME E A CULTURA

Neste capítulo vamos ver a implicação que existe entre o nome e o contexto sociocultural
e notaremos que um nome não só evoca uma pessoa e sua familia como também ele evoca
um contexto social e cultural, há nomes característicos de cada povo. Mesmo os nomes mais
universais adquirem características locais que nos permitem falar de "enculturação de
nomes". Como exemplos, tomemos os nomes como os de João, Jaime, Henrique. Maria,
Madalena, Júlia, etc.

16. Necessidade de se ter um nome

Experimentemos fazer subir ao palco um excelente cantor, mas desconhecido dos


assistentes e não anunciemos o seu nome, nem, antes nem depois da actuação do cantor e
termine tudo neste anonimato. Notaremos que a assistência experimentara, sem falta, uma
certa asfixia. Se houver outros actores, á muito provável que assistência não deixará prosse-
guir o programa, enquanto não saber o nome do excelente cantor desconhecido: Como se
chama o cantor? – Perguntarão. E um problema que pode fazer perder pontos ao cantor, por
ser desconhecido: Assistência tem alguma coisa para dar (pontos ou prêmio) mas não sabe a
quem dar esse prêmio...

Imaginemos que o responsável do programa diz ao público: o cantor chama-se Jaime.


Haverá, novamente, pai, mas e gritos de alegria: Héé! Héé! Jaime! Bravo! Foi um alivio o
saber-se que o cantor se chama Jaime. Mas, estou certo que ainda não e tudo. Foi para
diminuir a tensão, mas, para a assistência ainda não está tudo resolvido: O cantor e Jaime
quem? Imaginemos que o nosso apresentador do programa acrescenta, perante a exigência
[23] da assistência: Jaime Pedro Sitoi. Esta nova revelação será assinalada com mais uma
salva de palmas e gritos Héé! Jaime Pedro Sitoi! Pedro Sitoi! Sitoi! Sitoi!...

Note-se a evolução da evocação: De Jaime Pedro Sitoi para Pedro Sitoi e deste para
Sitoi, apenas. Por quê esta evolução até se ficar só com o Sitoi? E porque este nome de Sitoi
identifica melhor o cantor. Nele está contida a pessoa do cantor, a sua família, a sua raça. Na
verdade, um moçambicano bem entendido, ao ouvir este nome nunca pensará num
moçambicano origina rio de Lichinga, Pemba ou outras certas zonas do País. Logo entenderá
que o nome envia-o para Sul do Save. E mais precisamente, para a Província de Gaza.

Ainda um bom entendido saberá que esse Sitoi é um homem, porque,


tradicionalmente, as mulheres não são chamadas pelo seu apelido paterno. A querer usar este
apelido tem que se acrescentar um prefixo e, então, seria Nwasitoi. Portanto, o prefixo a
acrescentar é "Nwa" e, então, sabe-se que se trata de uma mulher. Até se se tratar de uma
jovem, isto é, uma solteira e na vida norma, do dia-a-dia, usa-se, apenas, o primeiro nome. A
utilização do apelido e solenizarão e expressão de respeito para com uma pessoa adulta. Isto
significa que este sufixo "Nwa" corresponderia ao termo "senhora" ou "dona".

17. Um nome nos faz "viajar"

Imaginemos que a fama do nosso cantor chegue até na Inglaterra. Imaginemos um

16
cidadão inglês que conheça o cantor só de nome, isto e, não conheça em pessoa nem pela
fotografia. Conhece-o, somente de nome e de voz. Se cantar em português, certamente que o
nosso ouvinte inglês pensará, logo, num português. Não em alguém de uma das ex-colônias,
mas sim um originário de Portugal. Outros poderão lembrar-se do Brasil. As hipóteses podem
multiplicar-se: Um português emigrante em França, Alemanha, ou outro pais incluindo as
ex-colônias[24]. De qualquer maneira, com este nome, o sujeito será situado no mundo sob
a influência portuguesa e da cultura latina e não da cultura permãnica ou oriental.

Que significa tudo isto? Que um nome que me passe pelos lábios ou pela mente
"empurra-me" ou "arrata-me" automaticamente para uma "viagem”, que pode ser longa ou
curta, conforme, como que a querer ir mostrar-me o mundo que ele evoca e mostrar-me a
cultura que lhe dá sentido.

18. A incongruência dos nomes

Mas imaginemos que o nosso artista se chama apenas Jaime Pedro ou, pior ainda, se
ele se chamasse Jaime Pedro Monteiro, sendo ele negro; pessoas como aquele cidadão de
Londres, isto é, que conhecem o artista só de nome e de voz, não pensarão outra coisa senão
num cidadão originário de Portugal, está seria a primeira hipótese, só depois seguiriam outras
hipóteses e a hipótese de ser um negro seria das últimas ou mesmo a última hipótese.

Não havendo quem desfaça o equívoco e ponha as coisas no seu devido lugar, um dia
que o cantor fosse a Londres cantar, ele seria como que um tremor de terra nas suas cabeças,
por terem que tirar da idéia deles a imagem de um branco (português, originário de Portugal)
que eles tinham, para a substituir com a imagem de um negro. Seria um choque: Esperavam
uma coisa, mas apareceu-lhes outra, justamente oposta. Alguns correriam o risco de não
apreciar bem o cantor por causa deste "problema". Não vamos agora interpretar este choque
como sendo racismo. Poderá estar também o racismo, mas não automaticamente. Pois, esta
poderá ser também a reacção de um negrò que não conhecesse pessoalmente o cantar. Trata-
se de uma reacção inteiramente natural, embora se já susceptível de ser veículo doutros
sentimentos como e' o racismo. Mas porque é "natural"? Que quererá dizer este facto
possível?

[25] O facto ilustra o que dissemos atrás, facto que vamos ré exprimir desta maneira:
A adopção de nomes de uma cultura por uma outra, cria uma contradição, e uma
incongruência cultural. Existe aí uma violência cultural, seja ela querida ou forçada.
Entendamo-nos bem no que estamos dizendo. Não é uma violência moral ou física a pessoa
que traz o nome ou aos seus familiares, mas sim uma violência cultural, ao nível das culturas.
Violência cultural para as duas culturas: a que recebe e a que dá.

Isto porque, como dissemos, um nome está ligado a uma cultura e é aí que esse nome
encontra a sua explicação e sentido. Numa cultura diferente da sua origem, um nome é um
conjunto de letras que formam um som sem significado, senão o de designar uma pessoa, ou
mesmo um animal, objecto ou uma idéia, mas sem explicar essa pessoa, animal, objecto ou
idéia. Na verdade, que quer dizer Adriano, na cultura xope e na cultura moçambicana em
geral? Um xope ou um moçambicano tradicional não sabem explicar o que quer dizer este

17
nome, senão que é um nome que designa a pessoas que receberam este nome! ... Mas na
cultura latina-greca sim. Nesta, sabe-se porque se chamou Adriano a pessoa que usou pela
primeira vez este nome e a tradição oral e escrita fixaram esse sentido da explicação.

Toda gente sabe o que é uma roda. Mas pouquíssima gente saberá o porquê se chama
roda a uma circunferência e o que quer dizer a palavra "roda"...

Certamente que se poderá replicar: Não eram todos os indivíduos da cultura greco-
latina que sabiam o sentido etimológico (sentido da origem de uma palavra) das palavras que
eles usavam. É verdade e eu digo que até deviam ser poucos a saber, como são poucos os
indivíduos da minha região que saibam o que quer dizer, etimologicamente a palavra
“mabizwem”, senão que a palavra designa pessoas com o mesmo nome (xaras). Isto não
constitui nenhuma admiração. Mas se esses que ignoram o que quer dizer a palavra
mabizweni receberem uma informação, na sua língua, passarão a entender melhor que um
alemão a receber a mesma explicação em alemão...

[26] O alemão, depois de toda a explicação não entenderia mais nada senão que
pessoas com o mesmo nome se chamam "Mabizweni”, ou melhor, no plural,"Vamabizweni".

Mas, para um xangano / xope esta palavra, por si só, ela fala: Ela é composta. A raiz da
palavra é "bizwa" que também deriva da palavra ou verbo zulo "kubiza" que quer dizer
"chamar". Kubizwa é "ser chamado". Agora um xango / xope pode apreciar e saborear melhor
a palavra, mas, para um alemão, o que ficaria nele desta explica? Explicando, "viajamos" do
xangana e do xope e fomos até a língua zulo. É uma "viagem" longa e complicada para um
alemão e ele acabaria dizendo: O mais importante para mim é saber que duas pessoas com o
mesmo nome se chamam, em xangana e em xope de Mandlakazi, "vamabizweni”, o resto das
explicações fica para os "donos" da língua! .... É o que fazemos nós outros com as línguas
alheias: lambemos o osso e não atingimos a medula, isto também em relação aos nomes!

[27]

18
2. O SEGUNDO NOME: NOME DO PAI

O segundo elemento, num nome completo africano tradicional, é constituído pelo


nome do pai legítimo, já que se trata de uma sociedade patrilinear, se bem que não
generalizamos por uma questão de respeito e prudência cientifica, mas cremos que o mesmo
se passa em alguns sistemas matrilineares.

19. A legalidade da paternidade

A questão da legalidade da paternidade obedece a princípios próprios, baseados na


lei da família (tradicional). Por isso, existem desencontros com a mentalidade ocidental nesta
matéria, o que é normal e compreensível. Daí que podemos usar o mesmo termo, mas
entendendo coisas diferentes.

a) O que é um filho ilegítimo?

Trata-se de filhos gerados pôr pais (progenitores) que não estão casados segundo as
normas da constituição de um lar, estabelecidas socialmente.

Filhos assim, não pertenciam ao pai que na realidade os gerou, mas sim à família da
mulher (não a mulher, porque neste sistema a mulher não dá a continuidade a linhagem)
portanto, os filhos ilegítimos pertenciam a família dela. Em termos de registo, os filhos eram
registados em nome do avô materno (pai da mãe, portanto) ou em nome de um dos tios
maternos (irmão da mãe). Assinas coisas ficavam-se o verdadeiro pai (que os gerou) não
legalizasse a situação matrimonial, segundo a tradição. Ele podia fazer a qualquer altura esta
legalização e só então os filhos podiam ser registados no nome do verdadeiro pai, mesmo
depois de adultos.

Claro que com a entrada da administração colonial as coisas complicaram-se. Mas foi
possível a coexistência, enquanto foi possível, enquanto a administração respeitou [28] o
sistema tradicional. Mas como nada tinha sido estabelecido formalmente, dependendo apenas
dos administradores de cada lugar e conforme a pessoa do administrador, o sistema
tradicional foi sendo atropelado, com a situação; os "fora da lei" ficaram favorecidos. "Fora
da lei" segundo a tradição, pois, imaginemos que jovens considerados emancipados pelo
direito colonial, se casam no registo ou na Igreja. Estes são considerados legalmente casados.
Mas "legalmente" segundo qual lei? Eis um problema vivo e bem vivo ainda nos nossos
dias. Quem o resolve e como resolvê-lo? Coisa a pensar...

b) O filho de adultério.

Um filho que uma mulher casada tiver com um outro homem (amante) pertence ao
marido legítimo, enquanto o amante não pagar a indemnização segundo a lei. E certo que a
pertença do filho ao marido legítimo e mais fictícia ou formal porque, na pratica, o filho
pertence ao pai segundo o sangue (o tal amante). Isto porque quando se trata da doença ou
outros momentos vitais da criança o amante e a sua família são chamados para assumir essas

19
situações e ao nível cultual a criança participa na família do pai segundo o sangue (essa do
amante).

Por isso, interessa as duas famílias resolver esta situação incomoda para ambas. Mas
se o tal pai de sangue e a sua respectiva família não se interessarem do caso, a criança acaba
sendo integrada inteiramente na família onde a mãe está casada, mas permanece, no fundo,
um filho problema. Se o pai da criança pagar a indemnização pode levar o seu filho, uma vez
desmamado. A mãe é que terá de andar no vai-e-vem, para participar nos acontecimentos da
vida da criança, e tomar o seu lugar de mãe nesses acontecimentos.

c) O filho com uma viúva

Sendo o casamento africano uma aliança entre duas famílias, uma das conseqüências
resultantes e que, se o homem morre, a mulher continua juridicamente ligada a família do
falecido marido.

[29] Se acontecer ela ter um filho com um homem estranho a família onde ela se
casou, esse filho pertence juridicamente ao falecido marido e é em nome deste que o filho é
registado.

Mas existe um processo de "resgate", tecnicamente denominado pelo termo de


kukhupa / kusengula, processo que consiste em um homem tirar o "lobolo", no valor
correspondente ou superior ao dado pelo falecido marido. O lobolo e feito na família paterna
da viúva. Esta encarregar-se-á em entregar o valor correspondente à família do falecido.
Deste modo a mulher fica desligada da família do falecido marido e o novo marido adquiriu
assim a legalidade diante da ex-viuva. Os filhos que nasceram ou a nascer pertencerão
legitimamente ao novo marido e no seu nome serão registrado (os filhos do segundo
casamento ou segundas núpcias).

20
3. O TERCEIRO NOME: O APELIDO

20. O apelido

No sistema africano patrilinear pode-se omitir o nome do pai, mas nunca o apelido, a
não ser por razões como as expostas nos números anteriores (razões da ilegitimidade).

Na verdade, o apelido identifica melhor um indivíduo do que o seu nome próprio e o


do pai. Pelo apelido fica-se a saber a tribo ou raça de um indivíduo e localiza o mesmo
individuo no espaço. Com efeito, recuando no tempo, as raças humanas são localizáveis: Os
gregos são originários da Europa e não da Ásia nem da América. Na Europa, os mesmo
Gregos são originários da Grécia e não da Espanha antiga. Também se conhece um grego
através do seu nome, principalmente o apelido, esteja onde ele estiver...

No sistema africano tradicional, o apelido segue os mesmos princípios da legalidade


que o nome do pai e até, maior rigor ainda, como se viu; o nome do pai é [30] omitivel (há
muitos que não ostentam o nome do pai) mas não o apelido. Quando um africano não pode
usar o seu verdadeiro apelido, pelas razões exposta, diz-se, tecnicamente: ao tal "comeram-
lhe o apelido”, que em xangana e em xope se diz:

"Kugiwa a xibongo / Kudyiwa xibongo".

Facto que é considerado uma grande humilhação para o tal indivíduo. De facto, torna-
se vergonhoso não usar o verdadeiro nome (apelido) por um pai não ter cumprido a lei. O
filho fica marcado por toda ávida: Ele parece-se com aquilo que na realidade não é, por
incúria ou negligencia do pai!

21. Motivações na escolha de nome

0 que motiva um indivíduo para escolher este ou aquele nome? No africano, e mesmo
no geral, há duas motivações que nos parecem capitais que entram em acção para a escolha
de um nome:

a) Sugestão de alguém.

Este "alguém” pode ser um adivinho, um familiar ou mesmo um amigo, como pode
ser também um desconhecido, como se viu atrás. Trata-se de uma sugestão, uma proposta,
portanto, porque, a última palavra pertence aos progenitores, se bem que essas intervenções
têm muita força, e são geralmente tidas em conta.

b) A simpatia

A hipótese que se realiza em muitos casos é a simpatia. Esta simpatia pode ser em
relação a:

 Uma determinada pessoa (pai, mãe, tia irmão, amigo, etc.). Neste caso, não é tanto o

21
nome dessa pessoa que pesa, mas sim a afeição a essa pessoa.

 Em relação ao nome em si. Um nome que alguém ouviu e lhe agradou. Às vezes não se
conhece ninguém com esse nome, ou se se conhece, por vezes não se tem nenhuma
relação com ela. Esta atracção pelo nome pode ficar a dever-se, unicamente ao seu
sentido, ao seu significado.

[31]
22. Nomes circunstanciais

O que acabamos de dizer leva-nos à questão de nomes circunstanciais. Por "nomes


circunstanciais” queremos referir-nos aos nomes que evocam situações relacionadas com a
criança, seus pais ou com a família alargada. São nomes como: Castigo, Esperança, etc. Estes
nomes evocam situações ora desagradáveis ou agradáveis

Hoje, as pessoas têm tendência a rejeitar este tipo de nomes, porque os consideram
traumatizantes e humilhantes, sobretudo se evocam situações desagradáveis. Mas voltaremos
a este assunto mais adiante.

23. Mas há regras

Por quanto se disse e se se viu até aqui, ficou claro que a imposição de nome a uma
criança que nasce obedece a certos critérios. As motivações e hipóteses funcionam e operam
dentro de um espaço delimitado socialmente. O não cumprimento desses critérios pode
constituir infracções mais ou menos graves. Isto é normal e necessário, pois, uma sociedade
sem regras deixa de ser sociedade para ser, apenas, e quando muito, um grupo de pessoas que
moram uma mesma área, mas sem identidade comum e sem unidade. Cada sociedade, digna
deste nome, tem as suas normas, com uma lógica interna, lógica que pode passar
despercebida aos estranhos. A Isabel disse:

"Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.'" (Lc 1,61)

Este episódio revela-nos que naquela sociedade existiam normas sobre esta matéria,
normas que não podiam ser violadas sem mais nem menos e foi preciso um argumento série
para o nome de Joao passar.

A sociedade africana também tem as suas normas. Vimos que no Sul do Save
tradicional o nome do pai era muito importante e que não se podia omitir sem ferir
gravemente os princípios culturais e sociais Ainda mais importante é o apelido. A sua
violação podia [32] levar a conseqüências tais como:

a) Levantar dúvidas sobre a paternidade.


Se for a mãe da criança ou a família dela a fazer isso, salvo em caso da ilegitimidade, a
atitude deles podia conduzir ao desfasamento do lar ou a rejeição da criança pelo pai e pela
família deste não se responsabilizando por essa criança nos momentos vitais da mesma.

22
b) A desintegração da família nuclear, em primeiro lugar e, depois, a família clãnica,
pois, as gerações vão se ignorar:
Irmãos directos que poderão ignorar-se e duvidar sobre a sua filiação; gerações de primos,
e de sobrinhos que virão ignorar-se, sem culpa deles, mas sofrendo graves conseqüências
da desagregação, casamentos impróprios, por consangüinidade e o desaparecimento literal
do clã, porque embora existam pessoas não se conhecem. Seria um drama real entre gente
que não teriam consciência desse drama!

Em qualquer parte do mundo o apelido é o primeiro alarme e sinal de reconhecimento


de indivíduos e entre indivíduos, indo a ponto de evitar casamentos de irmãos e parentes.

Assim, perder o apelido equivale perder o verdadeiro nome. E perder a família e é


perder a raça. Haverá pior coisa, neste aspecto, do que perder a família ou a raça? Pois, até
um animal conhece a sua manada ou companhia e não segue qualquer grupo de animais,
mesmo da sua espécie: A um búfalo não basta seguir quaisquer búfalos como ele, assim a
maioria dos animais!

Portanto, liberdade sim, mas desde que essa "liberdade" não seja nem venha a ser
fonte de amargura e de desgraça para aqueles a quem se dizia amar - os filhos!

[33] Na cultura africana, e na maioria das culturas e povos, a liberdade de escolha diz
respeito a primeiro ou primeiros nomes do indivíduo. O nome do Pai e o apelido são sagrados
e, por isso, intocáveis. Posso mudar de fisionomia (cara) e até de estatuto e de cor, mas não
posso, não tenho poder de mudar de pai, de mãe e de apelido! Posso escrever nomes que eu
quiser nos papeis, mas não no meu próprio sangue. Não me pertence mudar o sangue que me
corre nas veias. Este e imutável!

A minha propriedade recai sobre o primeiro nome e talvez sobre o segundo, terceiro,
mas ao lugar que cabe ao pai e a família aí cessa a minha liberdade e o meu poder ou gosto. O
apelido e uma propriedade colectiva. Ele não é só meu, mas ele e nosso e não posso aliená-lo
ao meu gosto e capricho, senão os outros me exigirão contas do que fizer do nome que também
lhes pertence.

falho que e deles mas

Filho que é deles, mas que é todo, pois a realizaçao plena


de um ser humano só os progenitores são insuficientes

23
[34]

C. EFEITOS DA COLONIZAÇÃO NOS NOMES

Já dentro de uma mesma cultura a questão do nome e complexa, como vimos. Esta
problemática complica-se ainda mais quando se passa de uma cultura a outra. Aí há choques
de princípios, que chegam a anular-se uns aos outros. Mas, esse choque acaba sendo normal
porque esses princípios foram concebidos em contextos diferentes e as suas diferenças não
significam outra coisa senão uma afirmação e prova de que há e são possíveis muitas formas
de ser e estar no mundo.

Mas entremos nesse mundo, caracterizado pelas misturas é vejamos o que nele
acontece.

24. A situação dos nomes africanos

O encontro de culturas no contexto da colonização foi de desequilíbrio. Isto em toda


a parte onde houve colonização. Este desiquilíbrio consistiu na afirmação exagerada da
cultura do colonizador e na redução em nada da cultura do colonizado. Acreditou-se demais
na perfeição da cultura do colonizador e em tudo o que era deste.

Em relação aos nomes o que aconteceu? O colonizador negou categórica e


abertamente os nomes locais. Face a esta recusa, o povo, a certa altura, adoptou a pratica de
dar dois nomes a um mesmo individuo: um nome (tradicional) usado em casa e na vida dc
dia-a-dia e um segundo nome (ocidental) para o registo oficial e baptismo, aliás, o baptismo
era o argumento utilizado para se negar um nome, nome local tal maneira que, neste aspecto,
ainda mais tolerante era a administração colonial que a Igreja, diga-se a verdade. Este
segundo nome era conheci do por "Vito la xilungo / Di tina da txilungo" (nome dos brancos
ou da civilização).

[35] Este "nome dos brancos" ia-se impondo, na maioria dos casos, a medida que o
indivíduo se tornava adulto e ganhando uma certa respeitabilidade e influencia social. Isto
acontecia mais aos homens que as mulheres e a razão e que o homem emigrava mais e lá ele
apresentava-se pelo tal nome do branco, até porque era o branco quem lhe facultava essa
emigração. Assim, os homens iam -se familiarizando com os seus "nomes dos brancos" que
apanhavam o gosto deles e lhes criavam um certo complexo de superioridade e dignidade...

Com o evoluir da sociedade moçambicana, o nome ocidental foi-se impondo cada


vez mais e, hoje, os nomes locais praticamente deixaram de existir e lá onde ainda persistem,
a maioria não chegam a vingar.

No aspecto de nomes, Moçambique cedeu totalmente a lixívia colonial até ficar


prostrado, como veremos no número que agora se segue.

24
25. O complexo adquirido e aceite

Coisa muito fácil de observar e o seguinte: Procedamos à chamada nominal, de


pessoas em grupo, sobretudo se o grupo for constituído por jovens ou pessoas relativamente
novas. Se na chamada aparecer um nome tipicamente local, por exemplo Hlepasse, haverá,
quase infalivelmente uma gargalhada muito participada, sobretudo se aquele nome for o
primeiro nome da pessoa.

Que significa esta gargalhada? Não e outra coisa senão a exteriorização de um


complexo de inferioridade muito interiorizado e aceite segunde este complexo, os nomes
locais não são dignos e baixam o status (categoria). Para esta mentalidade, uma médica, uma
professora, uma engenheira, ou outra mulher formada, mas com um nome local (Hlevasse,
Tavassane) deixa de ser aquilo que ela é, pela sua formação para ser estúpida, por causa de
nome; da mesma forma um piloto, um arquitecto ou outro especialista deixa de ser o que ele
é, pela sua formação, para ser um desgraçado estúpido só porque tem o nome de
Matcholowonzo! Que quererá dizer isto? Cérebros lavados [36] até dizer amem!! ...

26. Quando se gosta daquilo que não se sabe.

Mas vamos ver a "civilização" dos "civilizados" da última hora, a "civilização"


apanhada na rua, mas que faz rir os donos, ao ver "sapatos" feitos "chapéus" Como? Ora
vejamos o que acontece quando se apanha mal uma coisa que é dos outros:

a) "Sapatos" feitos "chapéus".

A cada passo tropeçamos com apelidos transformados em primeiros nomes. Não


aparecem, por aí uns Oliveiras Jossias Sambo; Silva António; Almeida Manuel Timane;
Martins X, Mendes Y, etc? Ora um apelido tornado nome e como fazer de chapéu o sapato.
É verdade que tanto o chapéu como o sapato são para usar, mas usar em sítios diferentes-
Este é um fenômeno típico da colonização e do cruzamento de culturas.

Curioso é ainda o fenômeno da Guiné-Bissau: Ali, para dar nome de alguém a uma
criança, toma-se até o título ou profissão da pessoa de quem se toma o nome, por exemplo:
imaginemos um professor chamado António da Silva Mendes. O Guineense pode dar a uma
criança este nome assim: Professor António da Silva Bolama.... Por isso, aparecem por lá
engenheiros que não são engenheiros, aparecem enfermeiros que não são enfermeiros,
capatazes que nunca foram capatazes, etc.

b) Ser insultado numa língua alheia será melhor?

Podia acontecer eu ter vergonha (e porquê?) de o meu nome ou de meu pai ser
Nyankukwane mas aceitar de ombros levantados o nome de Galo. Poderá acontecer
envergonhar-me de ser chamado Nkanjwane, mas sentir-me inchado de ser chamado
Castanheira. Preferir ser chamado Cordeiro do que ser Nyempfu. Negar ser Thomo para ser
Sorte, etc. Mas, afinal de contas o que há neste e noutros nomes desta natureza? Uma simples
tradução quase literal. Será que a gente se dá conta do absurdo em que se cai? Se na língua

25
local um X nome e insultuoso ou deselegante, [37] mudando de língua o mesmo nome deixa
de ser deselegante e insultuoso? Ou e melhor ser insultado e humilhado na língua do outro
(por mim mal sabida)? Mas talvez tenham razão por isto: Nkuku é feio e fere mais do que
Galo, já que este usa sapatos e penteia

27. Nomes circunstanciais

Aqui voltamos a encontrar a questão já tratada. Vimos que a mentalidade actual reage
negativamente a este tipo de nomes (circunstanciais). Voltamos a esta questão para dizer o
seguinte: Aqui se dá o que acabamos de ver nas linhas anteriores, acima. Na verdade, os
apelidos alheios que usamos e abusamos, fazendo deles nomes principais, são nomes
circunstanciais. Com efeito, todo o apelido nasceu de uma circunstância: Para alguém se
chamar Castanheira, Pereira, Lobo Carreira, Oliveira, Manso, Matos, Saraiva, Malvestio
(italiano) etc. é porque alguma coisa houve, alguma coisa feliz ou triste, alguma coisa cômica
ou dramática e dolorosa, que marcou a pessoa e toda a sua descendência, para sempre.
Alguém se deixou ou se fez identificar com um acontecimento marcante da sua vida e marcou
toda a posteridade.

Portanto, queiramos ou não, fujamos do nosso mundo para o mundo dos outros,
mascaremo-nos com as máscaras alheias, as situações que marcam a existência das pessoas,
dos seres humanos, estarão lá à nossa espera e nos surpreenderão até nos assustarem, como
o coelho, quando pensou que tinha corrido mais do que a tartaruga.... E agora? Prefiro deixar-
me marcar pelas circunstâncias dos outros (desconhecidos) ou pelas minhas próprias
circunstancias ou aquelas que marcaram a minha ascendência, cujo sangue trago comigo?
Prefiro ir pedir a água do poço do vizinho? Mas não sei o que ele pôs no fundo do poço ou
no fundo do pote, nem sei com que objecto ele tira a água do poço para o pote...

28. Cuidado com os nomes alheios.

As imitações contem outros inconvenientes. Alguns apelidos têm um significado


muito especial, até diferente daquele sentido que o termo correspondente pode ter no
dicionário. Com efeito, há nomes [38] que na sua origem ou a partir de uma certa altura
passaram a designar ou exprimir dramas vividos por filhos ilegítimos, filhos rejeitados pelos
pais, filhos cujo pai ou mãe ou os dois juntos são desconhecidos, filhos de pais divorciados,
etc. Há apelidos que em algumas regiões do globo traduzem estas situações vividas por quem
os trazem.

Certamente que esta informação desperta muita curiosidade. Quais são esses
apelidos? Pois bem, são aqueles que você conhece, mas não sabe! Uma coisa e certa eles
existem por aí. De resto, tenha calma e não deite fora o seu nome, até porque não tem culpa
nenhuma, a não ser que tenha sido você a escolher o seu próprio nome e mesmo se tiver sido.
Mas, a partir de agora, cuida de não tomar o capacete do mineiro por uma panela...

Por tudo o que dissemos aqui sobre os nomes estrangeiros esperamos termos sido
claros e nós tenhamos feito entender: Pode-se tomar o que se preferir. Apenas nos advertimos
aqui para que se saiba o que se toma ou adopta, pois, culturalmente falando, nem tudo é

26
"tomável" nem tudo e adoptável, se não queremos ferir as culturas: Tanto a culta donde se
toma como a cultura que recebe. Na verdade, eu não deveria sentir-me de forma nenhuma
feliz se alguém resolvesse chamar-se Langa, por simples opção.

Em segundo lugar, quisemos dizer que uma escolha de nome não deve partir de
complexo de inferioridade, pois, sonhar acordado até esse ponto ou fazer projecções de
grandezas e nobrezas imaginarias e frustradas e mais humilhante e ridículo do que se pode
ser pela natureza humilde. É-se realmente grande e nobre quando se é, aquilo que realmente
se é, e que se deve ser. Alguém será realmente ele quando sentir em si mesmo o seu
verdadeiro sangue a circular lhe nas veias e sentir, mais do que ouvir, a sua história a falar-
lhe no sangue.

[39]
29. Reprodução dos apelidos

Seria interessante um estudo exaustivo para ver que os apelidos se reproduzem de tal
maneira que existem apelidos "pais", apelidos "filhos", apelidos "irmãos", apelidos "netos",
apelidos com várias formas ou versões. Não dispomos de tempo para um tal estudo e
limitamo-nos a assinalar a questão e apresentar alguns exemplos:

1° Exemplo: Canda (Cande)


Gundi
LANGA Matsimbe (Matimbi)
(Origem zulo Tamele(?)
e significa SOL) Langane
...

Mandlazi
2° Exemplo a) MANDLATE
Manjate

Khwambe
3°Exemplo b) GWAMBE
Cuamba

O que origina a evolução de um apelido? São várias as causas e nos vamos apontar
algumas que nos parecem proeminentes, isto é, importantes

1° Rupturas e Alianças familiares

Seria interessante saber porque um certo Langa, um momento para o outro, passou a
chamar-se Tamele. Oque sabemos é que esta palavra quer dizer "guardar" ou "segurar". O
seu segundo sentido e "bater ", quando se diz "ndzi ta ku tamela". Assim, lamele será aquele
que guarda ou que cuida, que correctamente seria Mutameli, aliás, o próprio apelido, a ser
bem pronunciado, seria "Ntamele".

[40]

27
2° Regionalismo.

Um apelido regionaliza-se pura se adaptar (ou e adaptado) a uma determinada língua


e suas regras fonéticas e gramaticais. São exemplos desta adequação à língua as formas, já
vistas de Muianga (versão xangano/ronga de Langa); Mandlazi (versão do xangana
conhecido por xikhambani, muito conectado com o xangana de Gazankulo, na Africa do Sul);
Mandlate é a versão do xangana do litoral do Indico, sobretudo o distrito de Mandlakazi
(Manjacaze).

O mesmo se passa com o apelido Gwambe, que tem a versão Khuambe. A primeira
forma é partilhada por xopes e gitongas (bitongas) enquanto que a segunda forma tem uma
conotação de xangana e xope. Dai que a origem deste apelido é disputada por xopes e
gitongas (Batonga, para ser correcto). Os Vatxopi (xopes) gozam do forte argumento de que
existiu um reino ou mesmo reinos nas terras hoje conhecidas por Guambá Grande e Guambá
Pequeno, no distrito de lnharrirae, localidade de Mocumbi, confinando com distrito de Panda
e com o de Mandlakazi. Esta zona é, realmente xope e do xope clássico. Será que Gwambe
veio dos Batonga fixar-se ali e fundar um reino ou terá sido descendente dos Batonga? Tudo
e' possivel.

3° A colonização

A colonização portuguesa foi outro factor de diversificação de apelidos e de nomes


em geral e isto por três razões maiores

a) Problemas lingüísticos - O Sul do Save sofre uma fortíssima influencia zulo, vinda dos
Zulos da região de Natal e Cabo, na África do Sul, apanhando e passando por Suazilândia.
Esta influência faz-se sentir mais nas línguas desta região, sobretudo no xangana. Nessas
línguas abundam, e muito, sons característicos e muito difíceis para um estrangeiro,
sobretudo europeus, mas mesmo para os moçambicanos do Norte de Save. O português
contornou estas dificuldades à sua maneira, aportuguesando muitos termos. Eis alguns
exemplos:
[41]

Tchale Chale

Gwambe Cuamba (que podia ser Qamba)

Mandlate Manjate

Sílabas como “Va” passaram para “Ba”, sílabas como “nho" (nhonga=pau) passaram
para no. E muitas outras coisas mais.

b) A Mentalidade colonial - Mas tais sons, sendo difíceis para estranhos da língua, não são,
no entanto, impossíveis, para o português e a prova disso é que, hoje, há brancos originários
de Portugal que pronunciam correctamente a maior parte desses sons, outrora julgados
impossíveis de pronunciar por um branco. Neste campo mais progresso é possível, pois, eu
já encontrei europeus (sobretudo na Suazilândia) que falando Swati, dominam

28
maravilhosamente o dificílimo estalido palatal, também caracteristico das línguas do Sul de
Save.

Portanto, a mentalidade colonial e civilizacionista foi o maior obstáculo e causa de


deturpações das línguas locais. Basta ver os escritos, em línguas locais, até aos anos 70, mais
ou menos, em termos de ortografia.

Foi seguindo esta onda civilizacionista que muitos apelidos sofreram o fenômeno de
"aportuguesamento" por conta dos próprios negros, que iam apanhando os raios da cultura
ocidental portuguesa e então descobriram que os Matusses e os Matules podiam civilizar-se
e passarem a ser Matos. Os Khossas ficaram Costas, os Langas ficaram ora Lages ora Lagos,
os Matshinyes passaram para Martins e por aí fora. Que dizer? Era o fermento colonial em
plana acção

c) Questão Literária - As regras gramaticais e ortográficas portuguesas foram também


responsáveis da deturpação dos termos. AÍ também os intérpretes e escrivães coloniais
tiveram o seu peso. Senão vejamos alguns exemplos elucidativos:
[42]
NYankhale Inhacale (apelido)

Khukhu Cuco (apelido)

Nyumbani Inhembane (lugar)

Hlangeni Lhanguene (lugar)

Isto porque em ortografia portuguesa não existem palavras que começam pelos
conjuntos nh nem lh. De tal maneira que, no caso de Lhanguene aconteceu uma grande
concessão e um erro se impôs e foi aceite, pois, "correctamente" seria Ilhanguene,
Alhanguene, Ulhanguene, Ethanguene ou Ulhanguene, pois, outra regra dizia ou ainda diz
que em português não se podem juntar três consoantes, seguidas. Mas já não houve tolerância
com as sílabas ngue e ni. Entre o “g” e o “e” intercala-se o “u” para não soar nje e emprega-
se o “e” final para a palavra não ser aguda (Lhanguení)

A palavra Cuco, no fim, usa-se o “o” para também a palavra não ser aguda Cucú ou
para não ser átona (palavra sem acento tônico) segundo a nomenclatura antiga da gramática
portuguesa. Questões cientificas, portanto.

NOTA: Dizíamos nós mais atrás, página 37 desta nossa reflexão, que havia dúvidas sobre se o apelido
Khwambe seria de origem xope ou gitonga. Pois bem, temos uma última informação que registamos com
interesse: Os Khwambe(s) são os mesmos que os Thovele(s)!... Mais ainda: Estes dois (Khwambe e Thovele)
são os mesmos que os Nhovele(s) ou Novele e Mavulule(s) e Mavulule(s). Assim sendo, seria:

Nhuvunga (Nuvunga)
? Nhovele (Novele)
Mavulule
Thovele
Khwambe

29
A interrogação é nossa e significa que não sabemos qual destes apelidos é a raiz.

[43] Se o apelido Khwambe estiver bem inserido neste conjunto, então, a questão de
o mesmo apelido ser de origem xope ou gitonga cai por terra e somos levados para fora dos
mundos xope e gitonga e somos conduzidos para a zululandia, na África do Sul, pois, certeza
temos nos de que os Nhuvunga e Mavulule sao de origem zulu.

É verdade que nos falta saber qual e, realmente, a origem dos próprios vatchopi
(xopes) e dos Batonga (gitongas ou bitongas). Mas, para resolver esta pergunta seria precisa
uma investigação histórica mais aturada.

Encerramos esta nossa humilde reflexão perguntando a todo o moçambicano: Quem


é filho de quem? E quem é írmao de quem? Quem veio donde?!... Não andarão por aí pais e
filhos que se desconhecem e desrespeitam, sogros e genros que se ignoram, irmão numerosos,
mas que cada um se julga filho único? No meio disto tudo os que perdem mais são os netos
maternos, que não "thuthulam" juntos das vovós. O que vale é que esses netos não sabem o
que quer dizer "ku thuthula"! Mas eu vou aproveitando e não quero explicar-vos aqui o que
isso significa, pois, passaria mal com os meus sobrinhos! ...

30
[44]

D. AS RELIGIÕES E OS NOMES

Na problemática sobre o nome entram muitos elementos de várias categorias, que não
é fácil identificar a todos eles. Até aqui, já vimos alguns, tais como a colonização, o
parentesco, a amizade-simpatia. Mas um outro elemento muito importante que não pode ser
esquecido é a religião. Vejamos:

30. Influencia religiosa

O fenômeno da ocidentalização dos nomes entre nós foi também promovido pelas
diversas igrejas de matriz ocidental. Coisa que não deve espantar a ninguém, tendo em conta
a confusão que existiu entre a evangelização e colonização.

Mas a influência religiosa na questão dos nomes não é apenas conseqüência dessa
"confusão". O missionário e a religião tinham razões ou argumentos de força que um
administrador e a sua política não tinham para impor. Um administrador, para negar um nome
como o de Nkanjwane só poderia recorrer a depreciações e argumentos como estes: É nome
selvagem, de um inculto, ignorante, de alguém que nunca viu um branco e não dá para alguém
que amanhã vai andar na escola, andar e trabalhar com gente civilizada (brancos) etc.
Amanhã esta criança vai ser gente grande (?) ir para Lourenço Marques e até Lisboa.... Ela
deve chamar-se Manuel da Costa Faduco!

Estas razões corriam o risco de não convencer a muita gente céptica ou desconfiada
e crítica, mas, pelo contrário podiam provocar rejeição. Mas dentro de um ambiente religioso,
de fé, muita coisa podia passar sem a menor objecção. A religião é capaz de anestesiar um
indivíduo e levá-lo a aceitar coisas que num outro ambiente ou circunstância a pessoa reagiria
mal e até violentamente. Para ver esses mecanismos analgésicos (que não fazem doer)
tomemos, como exemplo, a religião crista:

[45]
a) Sinal de mudança de vida – Qualquer religião propõe uma maneira de viver aos seus
seguidores. Essa maneira de viver ou de se comportar pode ser muito ou pouco afastada da
maneira original de todos ou de cada um desses indivíduos que seguem tal religião. Por isso,
o tema da conversão ou mudança de vida é central em qualquer religião: Cada simpatizante
procura operar em si mesmo esta mudança de vida e manifestá-la no seu comportamento
íntimo, privado e público e quanto mais apaixonado e convencido for o indivíduo nessa
crença maior será o esforço para se engajar e assumir as determinações vindas da religião
professada e até ir mais além do mandado...

Portanto, quanto mais convencido se está, mais radical se será e os sinais exteriores
serão também radicais e mais visíveis, justamente para exprimir visivelmente a mudança.
Um dos sinais radicais mais usados é a mudança de nome.

31
b) Entre os cristãos - Entre os cristãos preferiam-se os nomes de Santos, isto é, de cristãos já
falecidos, mas que se notabilizaram enquanto viviam na observância do Evangelho. Ao tomar
o nome de um santo, o cristão procura garantir a protecção e ajuda do "xará" do céu, como
acontece entre os vivos. Com isto o cristão procurava garantir que a sua busca do céu seja
bem-sucedida. Assim, o santo pode ser visto como sendo uma "cunha" junto de Deus, visto
que é difícil conseguir entrar no céu.

c) Quem toma a iniciativa? - A iniciativa pode vir de um dos dois lados: O próprio indivíduo,
levado pelo seu fervor espiritual. Pode vir também da Comunidade religiosa, que pode ser
representada por um indivíduo concreto, quando essa comunidade estabelece, como norma,
a mudança de nome a todo o indivíduo que queira ser membro que acontecia nas
Congregações religiosas, se se quer tomar um exemplo. É o que acontecia também, no [46]
passado, na Igreja primitiva, quando um indivíduo era baptizado: ele era obrigado ou
aconselhado a tomar um outro nome, para significar que ele, a partir daquele acto e momento
não era o mesmo indivíduo, no seu comportamento. Era sinal de conversão (mudança de
vida).

31. Que dizer disto?

Olhando o fenômeno a partir de dentro, isto é, com um olhar de fé, diremos que ele é
interessante, sobretudo tendo em conta que foi o próprio Jesus que começou: ao tornar-se
homem, aconteceu alguma coisa no seu Ser divino: Feito homem, deram-lhe o nome igual
ao nome dos homens. Deram-lhe o nome de Jesus; ora lhe chamavam de "Emanuel" ora de
"Messias". Todos estes nomes pretendiam significar alguma coisa daquilo que Je sus era e
tinha como missão aqui na terra. Depois, foi a vez de Simão filho de Jonas:

Mas é importante notarmos que Jesus não só não suprimiu o nome de Simão para pôr
no lugar deste o nome de Pedro, mas o próprio Jesus não deixou de usar es se nome de Simão.
Portanto, Jesus nunca disse, nem a Simão nem às outras pessoas: A partir de agora tu ficas
Pedro e não mais te chamarás Simão. Simão permaneceu Simão para Jesus.

A passagem que poderia dar a impressão de supressão do nome de Simão seria aquela
que relata o primeiro encontro do futuro Apostolo com Jesus e o recrutamento do mesmo
para as fileiras de Jesus:

"Viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro e seu irmão André. . . " (Mt. 4,18).

Marcos vai contar a história um pouco doutra maneira, mas que não choca com
Mateus, pois, aquele diz:

"Ele constituiu, pois, os Doze, e impôs a Simão o nome de Pedro..." (Mc.3,16).

[47] Nas duas passagens não é Jesus quem fala, mas outros contam o que teria
acontecido. Na primeira passagem, a de Mateus, parece que Simão tinha dois nomes mesmo
antes de se encontrar com Jesus. Enquanto na segunda passagem, a de Marcos vê-se que o
nome de Pedro aparece com Jesus.

32
Uma observação importante nesta questão de nome de Simão é que sempre que Jesus
se dirigia ao Apostolo expressamente Ele utilizou sempre o nome de Simão:

"Jesus, porém, tomando a palavra, disse-lhe: "Simão, tenho uma coisa a dizer-te". - Fala,
mestre", respondeu ele,"(Lc.7,40).

Outra ainda:

"Depois de comerem, Jesus disse a Simão Pedro: "Simão, filho de Jonas, tu me amas mais
do que a estes"?

E sabemos que esta frase foi repetida por Jesus três vezes..., Mas, mais do que a
repetição da pergunta, esta mesma frase tem um interesse particular porque:

 É um episódio que, segundo João, ocorre pouco antes da Ascensão, depois da Ressurreição
e nos últimos momentos da existência terrena de Jesus.

 É o momento mais solene da relação entre Simão e Jesus: Este confia a Simão Pedro o
cuidado da Igreja. Jesus declara a Pedro como chefe da Igreja.

Portanto, Jesus tendo dado o nome de Pedro a Simão não abandonou o nome de Simão
mas utilizou-o até ao fim dos seus dias aqui na terra. Mesmo entre os seus irmãos Apóstolos,
pelo menos os Evangelistas, os dois nomes coexistiram, isto é, eram utilizados quase
indiferentemente, "quase" porque, na realidade, o de Simão era aquele que tinha mais
significado solene.

Conclusão: Por quanto vimos pode-se tirar a conclusão de que Jesus acrescentou o nome [48]
de Pedro ao de Simão, sem pretender com isso abolir o nome de Simão.

Sendo assim, toda a justificação que se apoiar na actitude de Jesus estará a apoiar-se
numa verdade, mas esta verdade não pode ser absolutizada. O facto não serve para obrigar.
Os textos vistos atrás são apenas e quando muito, sugestivos: sugerem e não obrigam. São
uteis lá onde há abertura para isso, isto é, o texto serve onde há boa vontade para isso.

32. Nova actitude da Igreja

Com a excepção para o caso dos Papas, que ainda mudam de nome, a Igreja
abandonou este hábito de mudar o nome, embora não proíba, mas ela não estimula, certo que
em algumas Congregações religiosas este costume se mantém, mas elas são livres de o fazer
e se algum dia decidir o contrário poderão aquelas Congregações acabar com tal hábito que,
repetimos, tem o seu significado piedoso, mas não passa daí.

Sem muito comentar a questão dos Papas, queremos, no entanto, apontar para o facto
de que cada um e livre na escolha do nome. Essa liberdade quer nos dizer alguma coisa. Por
outro lado, imaginemos alguém que é feito Papa, sendo o seu nome Clemente. Eleito Papa,

33
pode escolher o nome de Clemente.... Será que iriam negar-lhe dizendo: já que o teu nome
de Baptismo é Clemente, não podes tomar o nome de Papa Clemente XXI, ou coisa parecida?
Cremos que não.

É digna de ser meditada esta atitude da Igreja do abandono do costume de mudar o


nome aos seus membros em geral, na verdade, não e o nome em si que conta e santifica a
pessoa e os santos não são de forma nenhuma, uns corruptos para se deixarem comprar e
vender pelos homônimos (xarás). Porque estes podem não estar a fazer nenhum esforço para
serem perfeitos. Se algum santo ou santa quisesse favorecer um xará preguiço, por isto
mesmo deixaria de ser santo e seria saneado do paraíso... na verdade um tal ou uma tal estaria
para instaurar e [49] instalar a injustiça e a candonga no Céu, ao pretender premiara quem
não merece! Isto seria a repetição da lei da de Lucífero: Este anjo revoltou-se contra Deus,
querendo assim instaurar a desobediência no Céu. Uma parte dos anjos aderiu, mas, vencidos,
foram expulsos do Céu.

De resto, se houve um primeiro António que se esforçou e conseguiu ser santo,


também pode haver um primeiro Mathande que esforçando-se, será santo, o primeiro e tal
vez o único S. Mathande. Portanto, não é só adoptar um X nome de um santo que, um
bandido, um mentiroso, preguiço ou qualquer outro defeituoso moral e corrupto, será santo
na religião de Jesus Cristo. Destas experiências os nossos olhos estão cheios. Só os nomes
de Santos em indivíduos que nada fazem por serem santos não operam milagres. Tentando
uma linguagem capaz de ser entendida por todos nós: Não é o chamar-me de "Pasteur" que
eu serei um bom médico: não será o eu adoptar o nome de “Ayrton Senna “ou de “Alain
Prost" que eu vou ser condutor de renome; não é o eu chamar-me de Armstrong que eu vou
ser um excelente tripulante de aviões ou naves espaciais. Se alguma coisa disto acontecesse,
não obstante a minha preguiça ou incapacidade, seria uma superstição e magia e, portanto,
seria a-científico (contrário a ciência).

Sendo eu Mpawani, estudante e trabalhador esforçado e curioso, o mundo pode vir a


ter em mim, com aquele nome, um gênio de medico, um aviador de renome, um químico
ímpar, um filósofo luminoso como a estrela da manhã, chamado Mpawani!

De resto, atitudes civilizacionistas são o B.l. de quem não possui espinha dorsal
cultural e que, com espantosa facilidade sai da admiração aos ídolos para a alienação de todo
o tamanho e peso!! Que vá em paz, não na peça a merenda para a sua viagem de perdição.

[50]
33. A passagem de nomes entre as culturas

Isto constitui sinal pico entre povos que entram em contacto estreito. Este fenômeno,
em si mesmo e sinal certo de que um povo X e um outro povo Y já entraram em contacto e
se influenciaram. Assim, o facto de se encontrarem indivíduos moçambicanos com nomes
como Antonio, Jaime, José, etc, é testemunha de que moçambicanos e portugueses e
espanhóis já se encontraram e se influenciaram, culturalmente, a ponto de uns copiarem
(adoptarem) os nomes doutros. Isto, em si mesmo, não tem nada de condenável.

34
No entanto, nem oito nem oitenta, o fenômeno é digno de suspeita se olharmos
atentamente sobre a maneira como as coisas se passam no terreno da vida, de um lado para
o outro: Se o movimento for unívoco, isto é, se o movimento for só de um lado para o outro,
aí há um desiquilíbrio e este desiquilíbrio pode acontecer por duas razões maiores: Pode ser
que está havendo uma imposição, velada ou aberta, de um dos lados; Ou pode ser que um
dos lados (aquela que aceita os nomes alheios) esteja sofrendo de graves complexos de
inferioridade e esteja a curvar-se para mendigar, não por que não haja nomes locais e próprios
mas porque os considera "feios" e humilhantes!... Chocante, não é?!

34. A inculturação dos nomes

Como dissemos atrás, o hábito de alguém de um povo X tomar um nome de um outro


povo Y é coisa bem antiga. Mas respeita-se o apelido.

Um pormenor que pode parecer sem importância, mas a verdade é que tem
importância: É o fenômeno da transformação de nomes, adaptando-os ã língua e cultura que
os adoptam.

Seguindo a tradição cristã, podemos identificar no que vem do judaísmo e que


passaram para diversas línguas, com muitas ou poucas transformações gráficas, tais como:
Maria, Isabel, Moisés, José, Isaac, etc. Como já dissemos, estes nomes aparecem já
assimilados em várias [51] línguas, que até podemos não reconhecê-los como sendo os
mesmos nomes, por tão mudados que eles estão: Maomé, Mohamed, Mosee, Joseph,
Elizabeth, Miriamo, Mary, Marie, etc.

Muito interessante seria se podássemos aprofundar este assento. No entanto, aqui e


agora não pretendemos senão assinar a questão e deixar o leitor elucidado, quem não estiver.

Este fenômeno ê universal e muito usado, como se vê. Que dizer, então? Ele
testemunha claramente o esforço de cada povo: esforço de abertura a outros povos e culturas,
por um lado, e o esforço de manter a própria cultura e identidade cultural, por outro lado:
Aceitar os outros, mas assimilando. É como quem come alguma coisa: aceita o alimento mas
assimila-o e o primeiro acto de assimilação é o mastigar bem o alimento, pondo-o a própria
saliva. Depois deste acto, o alimento é realmente meu. Se eu engolir de qualquer maneira,
que poderá acontecer-me? Muita coisa é possível: O meu organismo pode rejeitar o alimento
que chega ao estômago mal trabalhado e até mal identificado e, então, temos o vômito. A
conseqüência pode ser também uma digestão difícil e dolorosa, com todas as conseqüências:
dores de barriga, má assimilação (fraco proveito para o organismo); feridas no aparelho
digestivo, tonturas, etc, etc.

Talvez estamos muito longe de pensar que em termos culturais coisa semelhante
acontece, quando engolimos tudo e mais alguma coisa e de qualquer maneira, com a
agravante de que nada "sentimos" de anormal, como acontece com uma má digestão! ...

Nos conhecemos este fenômeno, nas línguas nacionais, mas e um fenômeno em


estagnação. São exemplos dessa tentativa que houve e que hoje está quase abandonada:

35
Zabela, Juwawa, Pawulu, Wujeni, etc. Isto é sintoma de uma doença muito grave que nos
está corroendo: a desagregação das línguas nacionais, com efeito, estas línguas [52] estão se
tornando uns criolos (criolo é uma mistura de línguas). O português é o condimento básico
desta salada. Quer dizer, as línguas nacionais estão se tornando criolos portugueses. De facto,
é cada vez mais difícil encontrar um indivíduo que fale puramente a sua língua local e
materna, sem meter palavras portuguesas e se faz isto não porque as palavras portuguesas
metidas não tenham as suas correspondentes na língua local. Vejamos, num exemplo muito
simples: a palavra Swoswi está praticamente a cair em muitas línguas do Sul do Save e é
substituída por "já"; o "Kasi" deu lugar ao "para": "hi ndzako" está dando o lugar ao "depois",
etc, etc. A ignorância e a preguiça é que comandam e determinam neste assunto.

Ora um indivíduo, que fala tão mal a sua língua nacional, que força terá e que esforço
fara para incultura um nome estranho que lhe aparece na esquina. Já está feito e é bonito e
limpo. De resto, nós temos o gosto de "parecer como se fosse”! ... Gostamos das máscaras
dos outros.

Terminamos lembrando o que dissemos mais atrás: vemos um espaço de liberdade,


mas uma liberdade dignificante na aceitação de nomes vindos doutros povos ou culturas e
isto em relação primeiro ou primeiros nomes de um indivíduo, não vemos esse espaço de
liberdade e não recuamos um passo sequer para facilitar ou inadmissível.

[53]

CONCLUSÃO

Este olhar rápido sobre a problemática do nome parece ter deixado suficientemente
claro, para despertar, numa pessoa normal, a consciência sobre a complexidade deste assunto.

 O nome. Uma palavra curta que significa uma realidade "comprida". Dar o nome a
alguém, muitas vezes passa por ser um privilégio e honra, mas que, afinal, é uma
responsabilidade pesada.

 Um nome. Parece ser uma realidade simples porque, não poucas vezes, se pensa que
é uma questão de juntar umas tantas letras do alfabeto (que alfabeto?!) que produza um som
muito ou pouco agradável ao ouvido mas, afinal, trata-se de algo que indique a origem, a
vocação e o destino de um ser.

Porque há quem ignora isto, ou porque, simplesmente, se perdeu o sentido do nome,


há gente cujos nomes não falam, não dizem nada ou falam falsamente, acabando, na
realidade, em conjuntos de letras alfabéticas sem qualquer significado antropológico!

Se quisermos chamar a este fenômeno, com o nome que realmente merece, tal
fenômeno chama-se alienação cultural. Ele é um dos aspectos que pode tomar uma
alienação. Certamente que isto que aqui dizemos não agrada a quem gosta de trocar os nomes
às coisas, às pessoas e aos fenômenos e chamá-los por nomes não verdadeiros. Está bem.
Quem quiser pode arranjar outro nome, que não é verdadeiro; o, mas que lhe agrade porque
mais suave. Quem quiser arranje outro nome da alienação cultural, para ter alienação por

36
dentro, que é a verdade e outra coisa por fora, que não é a verdadeira: Pílula amarga
embrulhada em açúcar. Às vezes é necessário.... As vezes não se pode sem anestesia...

1
Tabla de contenido
INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 3

A. PRINCÍPIOS DA IMPOSIÇÃO DE NOME ............................................................. 4


1. Só depois de oito dias ..................................................................................................... 4
2. Dar o nome ê assunto da família .................................................................................... 5
3. Intromissão indevida? .................................................................................................. 6
a. É uma questão de mentalidade................................................................................. 6
b. Onde está o perfeito? – ......................................................................................... 6
4. Os grandes momentos da vida ........................................................................................ 6
5. O significado de dar o nome ........................................................................................... 7
6. Quem toma iniciativa? .................................................................................................... 7
7. A cerimónia da impôsiçao .............................................................................................. 9
8. A importância da prenda............................................................................................... 10
9. Origem de uma aliança ................................................................................................. 10
10. Para a vida .................................................................................................................. 10
11. Prenda obrigatória? ..................................................................................................... 11
12. Estrutura de um nome ................................................................................................. 12
13. As partes de um nome ................................................................................................ 13
14. Nas sociedades ao sul do save .................................................................................... 13
15. A estrutura do nome ................................................................................................... 14

B. O NOME DO INDIVIDUO ....................................................................................... 14

1. O NOME E A CULTURA ......................................................................................... 16


16. Necessidade de se ter um nome .................................................................................. 16
17. Um nome nos faz "viajar" .......................................................................................... 16
18. A incongruência dos nomes ........................................................................................ 17

2. O SEGUNDO NOME: NOME DO PAI ................................................................... 19


19. A legalidade da paternidade ....................................................................................... 19
a) O que é um filho ilegítimo? ............................................................................... 19
b) O filho de adultério. ........................................................................................... 19

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c) O filho com uma viúva ....................................................................................... 20

3. O TERCEIRO NOME: O APELIDO....................................................................... 21


20. O apelido .................................................................................................................... 21
21. Motivações na escolha de nome ................................................................................. 21
a) Sugestão de alguém. ................................................................................................. 21
b) A simpatia ................................................................................................................ 21
22. Nomes circunstanciais ................................................................................................ 22
23. Mas há regras .............................................................................................................. 22
a) Levantar dúvidas sobre a paternidade. ............................................................... 22
b) A desintegração da família nuclear, em primeiro lugar e, depois, a família
clãnica, pois, as gerações vão se ignorar: ..................................................................... 23

C. EFEITOS DA COLONIZAÇÃO NOS NOMES ..................................................... 24

24. A situação dos nomes africanos ................................................................................. 24


25. O complexo adquirido e aceite ................................................................................... 25
26. Quando se gosta daquilo que não se sabe. .................................................................. 25
a) "Sapatos" feitos "chapéus". ...................................................................................... 25
b) Ser insultado numa língua alheia será melhor? ........................................................ 25
27. Nomes circunstanciais ................................................................................................ 26
28. Cuidado com os nomes alheios. ................................................................................. 26
29. Reprodução dos apelidos ............................................................................................ 27
1° Rupturas e Alianças familiares ................................................................................ 27
2° Regionalismo. .......................................................................................................... 28
3° A colonização........................................................................................................... 28

D. AS RELIGIÕES E OS NOMES ................................................................................ 31

30. Influencia religiosa ..................................................................................................... 31


31. Que dizer disto? .......................................................................................................... 32
32. Nova actitude da Igreja ............................................................................................... 33
33. A passagem de nomes entre as culturas ..................................................................... 34
34. A inculturação dos nomes .......................................................................................... 35
CONCLUSÃO..................................................................................................................... 36

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