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Guia de Apoio

às
Escolas
em
Matéria Disciplinar
INTRODUÇÃO

A Lei n.º 58/2008, de 9 de Setembro aprovou o Estatuto Disciplinar dos


Trabalhadores que Exercem Funções Públicas, que entrou em vigor a 1 de
Janeiro de 2009, revogando o anterior Estatuto Disciplinar.
O novo Estatuto Disciplinar veio proceder à adequação nesta matéria ao novo
regime legal sobre carreiras, vínculos e remunerações, que abrange, deste
modo, todos os trabalhadores que exercem funções públicas.
Verifica-se assim uma aproximação ao regime laboral comum, sem prejuízo das
especificidades do serviço público e, em especial, da prossecução do interesse
público, e sempre no respeito pelos direitos e interesses legalmente protegidos dos
cidadãos; é reforçado o papel dos dirigentes no âmbito das suas competências
disciplinares, em detrimento das atribuídas ao membro do Governo; e procede-se à
integração no Estatuto Disciplinar das alterações introduzidas, designadamente,
pelo Código Penal, Código do Processo Penal, Código do Processo Civil, Código do
Procedimento Administrativo, Código do Trabalho e Código de Processo nos
Tribunais Administrativos.
Sublinhe-se que a entrada em vigor do novo Estatuto da Carreira Docente (ECD),
aprovado pelo Decreto-Lei n.º 15/2007, de 19 de Janeiro, atribuiu às escolas a
responsabilidade da instrução dos processos disciplinares ao pessoal docente,
tarefa que antes cabia à IGE, tal como já acontecia com o pessoal não docente
(Decreto-Lei n.º 184/2004, de 29 de Julho).
Julga-se útil, pois, tal como já havia acontecido aquando da publicação do Decreto-
Lei n.º 15/2007, de 19 de Janeiro, disponibilizar nas páginas seguintes um conjunto
de informações que pretende ser um guia de apoio às escolas em matéria
disciplinar, onde se incluem minutas dos documentos necessários nas diversas
fases do processo disciplinar, bem como uma tabela de correspondência entre os
artigos da legislação revogada e os artigos da nova legislação.
Já se encontram também disponíveis as Perguntas Mais Frequentes (FAQ),
que procuram dar resposta às questões mais importantes levantadas pelo novo
regime disciplinar, e um Quadro-Síntese contendo as etapas e os prazos do novo
procedimento disciplinar.

• Princípios gerais
• Âmbito de aplicação
• Deveres gerais
• Prescrição do procedimento disciplinar
• Poder disciplinar
• Penas disciplinares
• Circunstâncias atenuantes, agravantes e dirimentes
• Suspensão e prescrição das penas
• Formas, natureza e instauração
• Instrução
• Acusação
• Defesa
• Relatório final
• Decisão
• Impugnação
• Tipos e regime dos processos
• Revisão do processo disciplinar e reabilitação
• Multas
• Minutas
• Tabela de equivalência

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PRINCÍPIOS GERAIS

Princípios gerais do Código do Procedimento


Administrativo aplicados ao processo disciplinar
Como procedimento administrativo, se bem que especial porque sancionatório, e por isso previsto
em lei especial, com uma concreta tramitação, deve o procedimento disciplinar igualmente
obediência aos princípios gerais – a que deve estar sujeita qualquer actuação da Administração –
contidos no Código do Procedimento Administrativo (CPA) e portanto também aplicáveis ao
processo disciplinar.

Princípio da legalidade
Começando pelo princípio da legalidade (art.º 3.º), tal significa que a Administração está
subordinada, no exercício da acção disciplinar, à Lei e ao Direito. Ou seja, leis, decretos-lei,
portarias, despachos, etc., bem como aos princípios gerais do Direito.

No fundo, a juridicidade, e não já a mera legalidade, da sua actuação será aferida ao Direito em
sentido amplo, a um bloco de legalidade que, além do direito positivo, engloba igualmente estes
princípios.

O que se pretende dizer é que uma decisão administrativa pode ser legal, no sentido de que não
viola norma legal, e ser, mesmo assim, inválida, por violar, isso sim, princípios gerais.

Princípio da prossecução do interesse público e da protecção dos direitos e


interesses dos cidadãos
Quanto ao princípio da prossecução do interesse público e da protecção dos direitos e interesses
dos cidadãos (art.º 4.º), ele é bem claro: interesse público como vector orientador da acção da
Administração e sempre no respeito dos direitos e interesses de todos quantos estabelecem uma
relação com ela. É mais uma vez a conformidade dos actos da Administração ao Direito em
sentido amplo.

Ver-se-á, a propósito dos deveres dos trabalhadores da Administração, que toda a sua actuação
deve estar exclusivamente ao serviço do interesse público, que pode ser considerado como a
impressão digital de toda a função administrativa, aquilo que ela tem de mais intrinsecamente seu
e que não pode ser usurpado por ninguém, salvo no caso limite de erro grosseiro nessa avaliação,
abrindo assim caminho à intervenção dos tribunais, pois estes têm o dever de fazer cumprir a lei
que a Administração incumpriu.

Poderá dizer-se, talvez de forma simples, que este interesse público é o resultado da ponderação
dos prós e contras de uma medida administrativa concreta. Será a solução mais conveniente à luz
dos critérios de política administrativa para o caso concreto e nos limites impostos por lei. É claro
que este interesse público deve ser sempre prosseguido no respeito dos direitos e interesses dos
particulares, aos quais deve ser sobreposto só nos casos e pelas formas previstas na lei.

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Princípios da igualdade e da proporcionalidade
No que respeita ao princípio da igualdade e da proporcionalidade (art.º 5.º), exige-se um
tratamento igual de situações de facto iguais e um tratamento diverso de situações de facto
diferentes. Portanto, se as situações, sendo iguais, forem tratadas desigualmente ou se, sendo
desiguais, forem tratadas igualmente, há então violação deste princípio.

Reclama a proporcionalidade que a actividade da Administração seja proporcional aos fins que
prossegue. Esta proporcionalidade, também conhecida pelo princípio da proibição do excesso, o
que pretende afinal é que as decisões administrativas, sejam elas quais forem, não apresentem
inconvenientes excessivos relativamente às vantagens que delas se espera.

Princípios da justiça e da imparcialidade


Passando agora ao princípio da justiça e da imparcialidade (art.º 6.º), não vislumbramos na lei
qualquer conceito de justiça. Parece até que, neste segmento, esta disposição legal quer dizer
tudo sem dizer nada, deixando ao aplicador do direito a tarefa de densificação deste comando
normativo. Daí este reparo: parte-se de uma referência abstracta a este princípio, quando
sabemos que a justiça só se alcança quando referida ao caso concreto.

No que concerne à imparcialidade, que é um dever geral de qualquer trabalhador da


Administração, como veremos adiante ao falarmos dos deveres do art.º 3.º do Estatuto Disciplinar
(ED), o que se pretende é proibir favoritismos ou perseguições e vedar a intervenção de certos
trabalhadores em decisões em que se sejam parte interessada – a sua violação pode ser causa de
um pedido de suspeição de instrutor, de que falaremos adiante, quando nos debruçarmos sobre
esta matéria – ED, art.º 43.º.

Princípio da boa-fé
Relativamente ao princípio da boa-fé (art.º 6.º-A), o que se quer dizer é que a Administração e o
particular, quando estabelecem uma relação, devem pautar o seu comportamento segundo as
regras da boa-fé. Trata-se de uma referência aos valores fundamentais do direito relevantes face
ao caso concreto, nomeadamente no que respeita à confiança que deve existir inter partes.

Princípio da colaboração da Administração com os particulares


Quanto ao princípio da colaboração da Administração com os particulares (art.º 7.º), consagra-se
aqui o dever da Administração de cooperar com o particular, de o informar e esclarecer, quando
este solicite a informação, ou quando a Administração pratique ou assuma, no decurso de
qualquer procedimento, algum acto ou conduta que possa lesar a esfera jurídica do particular.

Princípio da participação
No tocante ao princípio da participação (art.º 8.º), foi com o CPA que o legislador ordinário
consagrou pela primeira vez este princípio, contido fundamentalmente no seu art.º 100.º, como
sendo a audiência dos interessados. O que se pretende com este princípio é garantir um
mecanismo de controlo da Administração na fase da preparação das decisões. A defesa do arguido
em processo disciplinar no ED não é mais do que a consagração deste direito de audiência antes
da tomada de decisão neste foro específico, que é o disciplinar.

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Princípio da decisão
No que respeita ao princípio da decisão (art.º 9.º), este constitui um dever geral de decidir e exige
que a Administração se pronuncie sempre que seja solicitada. A excepção está no n.º 2, pois este
dever de decidir cessa se a Administração já se tiver pronunciado sobre o mesmo pedido sem
alteração da sua fundamentação de facto e de direito nos últimos dois anos.

Princípios da desburocratização e da eficiência, da gratuitidade e do acesso


à justiça
Quanto aos restantes princípios da desburocratização e da eficiência, da gratuitidade e do acesso à
justiça, previstos nos artigos 10.º a 12.º do CPA, remete-se para a sua simples leitura, pois não
colocam problemas especiais em matéria disciplinar. Sem prejuízo de se chamar a atenção para a
necessidade de que o processo disciplinar seja célere, como exigido no ED, com cumprimento dos
prazos previstos pela lei para as suas diferentes fases (início, instrução e decisão), para que assim
se possa emprestar eficiência às decisões em sede disciplinar.

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ÂMBITO DE APLICAÇÃO

Nesta matéria o que importa assinalar, no essencial, é que decorre do art.º 1.º do Estatuto
Disciplinar (ED), a regra de que todos os trabalhadores que exerçam funções públicas ficam
abrangidos pelos seus normativos, independentemente da relação de emprego estabelecida com a
Administração Pública, ou seja: aos trabalhadores nomeados, em comissão de serviço e com
contrato individual de trabalho (por tempo indeterminado) ou contrato a termo resolutivo (certo
ou incerto), em que se inclui o pessoal docente e não docente. A excepção reporta-se a todos os
que possuam estatuto especial (ex: juízes, militares, etc.).

Infracção Disciplinar
Nos termos do art.º 3.º do ED, a infracção disciplinar é o comportamento do trabalhador, por
acção ou omissão, ainda que meramente culposo, que viole deveres gerais ou especiais inerentes
à função que exerce.

Elementos essenciais
São assim elementos essenciais da infracção disciplinar:

• Ser trabalhador da Administração Pública: é este o sujeito activo da infracção


disciplinar, sendo que o Estado é o sujeito passivo e o titular do interesse ofendido;

• Um comportamento do trabalhador: a infracção disciplinar é meramente formal


ou de simples conduta. A sua verificação não depende da produção de resultados
prejudiciais ao serviço, a não ser que a lei assim o exija. Infringir disciplinarmente é
desrespeitar um dever geral ou especial decorrente da função exercida. A conduta do
trabalhador pode ser uma acção ou omissão.

• A ilicitude: ou seja, a contrariedade do facto à lei, ou a inobservância de deveres


gerais ou especiais inerentes à função exercida. No exercício das suas funções, o
pessoal docente e o pessoal não docente estão obrigados ao cumprimento dos
deveres gerais estabelecidos no art.º 3.º, n.º 2 a 11, do ED e demais deveres
(profissionais, específicos ou especiais) decorrentes, respectivamente, da aplicação
do Estatuto da Carreira Docente – art.º 10.º, n.º 2, com alcance genérico ou
transversal perante as diferentes vertentes da sua ligação funcional com a
Administração Educativa e, em particular, com o projecto educativo das escolas;
art.º 10.º-A, deveres para com os alunos; art.º 10.º-B, deveres para com a escola e
os outros docentes; e art.º 10º-A, deveres para com os pais e encarregados de
educação – e da aplicação do Estatuto do Aluno do Ensino Não Superior (em especial
os artigos 5.º e 13.º) e do Estatuto do Pessoal Não Docente (EPND) – art.º 4.º.

Podem também existir os chamados deveres da vida privada, cuja violação é susceptível de gerar
responsabilidade disciplinar por parte destes trabalhadores da Administração Pública. Mas esta
vida privada, para efeitos disciplinares, deve ser entendida apenas como as manifestações da sua
vida particular que, por se revestirem de publicidade, possam originar escândalo e pôr em causa a
dignidade e o prestígio do trabalhador ou da função exercida. Mas não já a vida íntima deste, que
só ao mesmo importa, como é evidente.

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DEVERES GERAIS

Vejamos agora cada um destes deveres gerais, com uma breve referência aos números 2 e 3 do
art.º 3.º onde se consagram dois princípios constitucionais:

a) prossecução do interesse público, ou seja, a acção da Administração deve sempre


nortear-se pelo bem da comunidade – art.º 269.º, n.º 1, da Constituição da República
Portuguesa (CRP);
b) imparcialidade, isto é, tratar igualmente todos os cidadãos – art.º 266.º, n.º 2, da
CRP.

Dever de isenção
Previsto na alínea b) do n.º 2 e definido no n.º 4 do art.º 3.º do Estatuto Disciplinar (ED). É um
dever que está relacionado com o valor da honestidade e está intimamente ligado ao princípio
constitucional da subordinação ao interesse público.

Dever de informação
Previsto na alínea d) do n.º 2 e definido no n.º 6 do art.º 3.º do ED. Consiste em prestar ao
cidadão as informações que forem solicitadas e que sejam devidas. É a consagração do dever
funcional de informar o cidadão, acompanhando a alteração do paradigma do exercício de funções
públicas e da legislação sobre acesso à informação e aos documentos administrativos (Lei
n.º 46/2007, de 24 de Agosto).

Dever de zelo
Previsto na alínea e) do n.º 2 e definido no n.º 7 do art.º 3.º do ED. Consiste em conhecer e
aplicar as normas legais e regulamentares e as ordens e instruções dos superiores hierárquicos,
bem como exercer as funções de acordo com os objectivos que tenham sido fixados e utilizando as
competências que tenham sido consideradas adequadas.

Dever de obediência
Previsto na alínea f) do n.º 2 e definido no n.º 8 do art.º 3.º do ED. Da violação do dever de
obediência nasce a desobediência. Fora da hierarquia não é devida obediência. A ordem ou
instrução apenas obriga quando vem de legítimo superior hierárquico. E superior hierárquico é
aquele a quem a lei atribui todos ou alguns dos poderes de direcção, de inspecção, de
superintendência e de disciplina. Portanto, apenas há exclusão da responsabilidade disciplinar do
inferior quando este cumpra uma ordem ou instrução que considere ilegal somente após ter
reclamado das mesmas. Ou depois de ter exigido a transmissão a escrito da ordem ou instrução
às quais imputa essa ilegalidade. A esta reclamação se chamava anteriormente o direito de
respeitosa representação. Caso não venha a ter resposta, o subalterno deve cumprir, não sendo
responsável disciplinarmente pelo cumprimento da ordem ou instrução recebidas. Se a ordem ou
instrução forem para cumprir imediatamente, então o trabalhador deve cumprir, mas de seguida
adoptar o procedimento atrás referido. Não há dever de obediência quando o cumprimento da
ordem ou instrução implique a prática de qualquer crime. Aqui o trabalhador simplesmente não
deve cumprir, não sendo responsabilizado disciplinarmente por esse facto (art.º 5.º do ED e n.º 2
e 3 do art.º 271.º da CRP).

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Dever de lealdade
Previsto na alínea g) do n.º 2 e definido no n.º 9 do art.º 3.º do ED. O dever de lealdade deriva,
de certo modo, do princípio constitucional da subordinação ao interesse público.

Dever de correcção
Previsto na alínea h) do n.º 2 e definido no n.º 10 do art.º 3.º do ED. O dever de correcção
aparece aqui como cortesia, boa educação, polidez e urbanidade.

Deveres de assiduidade e de pontualidade


Previstos nas alíneas i) e j) do n.º 2 e definidos no n.º 11 do art.º 3.º do ED. São deveres
complementares, pois dizem ambos respeito à comparência ao serviço, mas em todo o caso
distintos. Na verdade, um trabalhador pode ser assíduo mas não pontual. E vice-versa.

• O nexo de imputação traduz-se na censurabilidade da conduta, a título de dolo ou


culpa. Para que haja infracção disciplinar é ainda preciso, para além do facto e da sua
ilicitude, que se possa demonstrar que o facto (acto ou omissão) pode ser imputado
ao arguido a título de dolo (intenção) ou mera culpa (negligência). Trata-se da
distinção clássica entre a intenção e a culpa. A intenção pressupõe uma conduta
adoptada no sentido de produzir determinado resultado, em si mesmo ilegal. A culpa
ou negligência verifica-se quando o trabalhador, estando consciente e possuindo
liberdade para se conduzir, tenha deixado de cumprir um dever, ainda que por
simples distracção, inconsideração, leviandade, falta de conhecimento das normas
aplicáveis, etc.

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PODER DISCIPLINAR

Sujeição ao poder disciplinar


O art.º 4.º do Estatuto Disciplinar (ED) afirma que todos os trabalhadores são disciplinarmente
responsáveis perante os seus superiores hierárquicos. A regra é a de que os trabalhadores ficam
sujeitos ao poder disciplinar desde a aceitação da nomeação, a celebração do contrato ou a posse,
ou desde o início legal de funções, quando este anteceda aqueles actos. Ou seja, é
disciplinarmente responsável quem serve, e enquanto serve, a função pública e unicamente por
factos consumados durante o respectivo exercício.

A corroborar este entendimento, refere-se no n.º 4 do art.º 4.º do ED que a cessação da relação
jurídica de emprego público ou a alteração da situação jurídico-funcional não impedem a punição
por infracções cometidas no exercício da função.

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PRESCRIÇÃO DO PROCEDIMENTO DISCIPLINAR

O art.º 6.º do Estatuto Disciplinar (ED) refere-se à prescrição em processo disciplinar. O decurso
de determinado lapso de tempo faz desaparecer as exigências de efectivação da pena, que deixou
de ter actualidade, uma vez que a entidade competente renunciou ao seu direito de punir.

Merecem aqui referência os prazos de prescrição do direito de instaurar o procedimento


disciplinar. Nos termos da lei, tal direito prescreve nas seguintes situações:

A prescrição de longo prazo (1 ano)


Decorrido 1 ano sobre a data em que a infracção houver sido cometida (n.º 1). Aqui o que importa
dizer é que o procedimento disciplinar prescreve passado 1 ano sobre a data em que a falta
houver sido cometida. Mas é de salientar que, neste caso, não pode haver conhecimento por parte
do superior hierárquico em momento anterior a este prazo de 1 ano. Porque, se assim for,
passamos para o n.º 2 deste artigo, ou seja, para um novo e curto prazo de prescrição, que é de
30 dias.

A prescrição de curto prazo (30 dias)


Decorrido os 30 dias sobre o conhecimento da infracção por qualquer superior hierárquico, não
tenha sido instaurado o competente processo disciplinar (n.º 2).

A prorrogação penal da prescrição em processo disciplinar


No caso das infracções disciplinares que constituem simultaneamente infracções penais, sendo o
prazo prescricional da lei penal superior a 1 ano, aplicar-se-á ao processo disciplinar o prazo
estabelecido na lei penal (n.º 3). E para que estes prazos de prescrição penal, que constam do
art.º 118.º do Código Penal (CP), sejam aplicáveis ao processo disciplinar, apenas importa indagar
da pena máxima abstractamente cominada na lei para o tipo legal de crime (parte especial do CP),
em cuja previsão os factos disciplinarmente relevantes sejam, igualmente, em abstracto,
susceptíveis de subsunção.

Mas assim sendo, torna-se necessário que o instrutor use da necessária cautela nesta sua emissão
de um juízo jurídico-penal dos factos (para poder beneficiar da prorrogação penal) que virão
eventualmente a constituir a sua acusação em processo disciplinar, pois que, a existir erro nesta
matéria, tal prorrogação é indevida, podendo comprometer, em via de recurso, a legalidade do
acto decisório do procedimento disciplinar (por prescrição).

Feita a participação destes factos ao Ministério Público (MP), nos termos do art.º 8.º do ED, o
instrutor não fica vinculado na sua instrução, em termos de questão prejudicial, a aguardar
decisão judicial que irá caracterizar em termos definitivos e penais os factos participados.

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A suspensão da prescrição
Suspendem o prazo de prescrição de 1 ano ou superior (longa duração) ou de 30 dias (curta
duração), a instauração de processo de sindicância aos órgãos ou serviços, bem como a de
processo de inquérito ou disciplinar, mesmo que não dirigidos contra o trabalhador a quem a
prescrição aproveite e apenas pelo prazo máximo de 6 meses (n.º 4). Mas esta suspensão só se
opera se cumulativamente (n.º 5):

(1) os processos acabados de referir forem instaurados nos 30 dias seguintes à suspeita
da infracção;

(2) o processo disciplinar subsequente a estes mesmos processos for instaurado nos 30
dias seguintes à sua recepção pela entidade competente para o efeito;

(3) e, finalmente, se à data da instauração destes processos/procedimento, não se


encontre já prescrito o direito de instaurar procedimento disciplinar – os referidos prazos
de 1 ano (ou superior) ou de 30 dias.

Prazo da prescrição para a conclusão do procedimento disciplinar


O ED fixa agora um prazo máximo de 18 meses para a conclusão do procedimento disciplinar,
contados desde a data da sua instauração até à notificação do arguido da decisão final, sob pena
de prescrever (n.º 6).

Este prazo de prescrição de 18 meses pode suspender-se nos termos do disposto nos n.º 7 e 8, ou
seja, durante todo o tempo em que não possa ter lugar o início do procedimento ou a continuação
da sua tramitação, em virtude de decisão jurisdicional ou de apreciação jurisdicional de qualquer
questão atinente ao caso em apreço, sendo que o referido prazo de 18 meses só retoma a sua
contagem a partir do dia em que cesse a causa da suspensão.

Efeitos da pronúncia e da condenação em processo penal


No n.º 1 do art.º 7.º do ED, relativo aos efeitos da pronúncia do arguido em processo-crime,
determina-se que a secretaria do tribunal, por onde corra o processo, deve entregar, no prazo de
24 horas sobre o trânsito em julgado do despacho de pronúncia ou equivalente, por termo nos
autos, cópia de tal despacho ao MP, a fim de que este a remeta ao órgão ou serviço em que o
trabalhador desempenha funções.

Sendo que em caso de condenação do trabalhador por infracção (n.º 2) deve-se aplicar, com as
necessárias adaptações, o disposto no n.º 1.

A condenação em processo penal não prejudica a acção disciplinar que se imponha fazer actuar no
caso concreto. É o princípio da dupla responsabilidade disciplinar e penal, derivada da
independência destes ramos do direito. Não havendo, pois, violação do princípio non bis in idem,
ou seja, de que ninguém pode ser punido duas vezes pelo mesmo facto.

Factos passíveis de serem considerados infracção penal


O art.º 8.º do ED trata da comunicação obrigatória que o instrutor deve fazer ao MP, que tem o
exercício da acção penal, de todos os factos de que tome conhecimento na instrução dos
processos e que indiciem a prática de infracção criminal, com a cautela já anteriormente referida a
propósito da prescrição.

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PENAS DISCIPLINARES

As penas aplicáveis aos trabalhadores são as mencionadas nas alíneas a) a d) do n.º 1 e n.º 2 do
art.º 9.º do Estatuto Disciplinar (ED): repreensão escrita, multa, suspensão, demissão ou
despedimento por facto imputável ao trabalhador e cessação da comissão de serviço dos titulares
de cargos dirigentes e equiparados. A enumeração da lei é taxativa e é feita por ordem crescente
de gravidade.

Caracterização e efeitos das penas


A caracterização das penas consta do art.º 10.º do ED. A aplicação de algumas destas penas
levanta problemas delicados, que serão abordados na devida altura, nomeadamente as mais
gravosas que implicam a demissão ou o despedimento por facto imputável ao trabalhador.

Os efeitos das penas estão no art.º 11.º do ED. Verifica-se que nele se não estabelece qualquer
efeito para a repreensão escrita e para a multa, mas apenas para as demais penas.

A pena de multa não pode exceder o valor correspondente a seis remunerações-base diárias por
cada infracção e um valor total correspondente à remuneração-base de 90 dias por ano (cfr.
artigos 69.º e 70.º da Lei n.º 12-A/2008, de 27 de Fevereiro).

A pena de suspensão não tem como efeitos a perda do direito a férias e a impossibilidade de
promoção.

A pena de despedimento aplica-se ao trabalhador contratado, tendo como efeito a cessação da


relação jurídica de emprego público.

A pena de demissão aplica-se ao trabalhador nomeado, tendo como efeito a cessação da relação
jurídica de emprego público.

Penas aplicáveis em caso de cessação da relação jurídica de emprego


público
As penas de multa, suspensão, demissão ou despedimento por facto imputável ao trabalhador são
executadas desde que estes trabalhadores constituam nova relação jurídica de emprego público.

Competência disciplinar
O princípio geral nesta matéria (art.º 13.º do ED) é que a competência disciplinar dos superiores
envolve sempre a dos seus inferiores hierárquicos dentro do órgão ou serviço.

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Competência para aplicação das penas
De acordo com orientações transmitidas pela Ministra da Educação, a competência nesta matéria
encontra-se repartida da forma seguinte:

Pessoal docente
A competência para a aplicação da pena de repreensão escrita é do órgão de
administração e gestão do estabelecimento de educação ou de ensino – n.º 1 do art.º
116.º do Estatuto da Carreira Docente (ECD), com a redacção que lhe foi introduzida pelo
Decreto-Lei n.º 15/2007, de 19 de Janeiro. Sendo o arguido membro do órgão de
administração e gestão a competência para a aplicação desta pena cabe ao director
regional de educação.

A competência para a aplicação das penas de multa e suspensão é dos directores


regionais de educação – n.º 2 do art.º 116.º do ECD.

A competência para a aplicação das penas de demissão ou despedimento por facto


imputável ao trabalhador é da Ministra da Educação – n.º 3 do art.º 116.º do ECD.

Pessoal não docente


A competência para a aplicação da pena de repreensão escrita é do órgão executivo da
escola ou do agrupamento de escolas – n.º 1 do art.º 40.º do Estatuto do Pessoal não
Docente (EPND), aprovada pelo Decreto-Lei n.º 184/2004, de 29 de Julho. Sendo o
arguido membro do órgão de administração do estabelecimento de educação ou de ensino
a competência para a aplicação desta pena cabe ao director regional de educação
respectivo.

A competência para a aplicação das penas de multa e suspensão é do director regional de


educação respectivo – n.º 2 do art.º 40.º do EPND.

A competência para a aplicação das penas de demissão ou despedimento por facto


imputável ao trabalhador é do membro do governo competente – n.º 3 do art.º 40.º do
EPND.

Estas competências para aplicação das penas (pessoal docente e não docente) são
indelegáveis, excepto no que diz respeito ao Governo – n.º 6 do art.º 14.º do ED.

Factos a que são aplicáveis as penas


Nos artigos 15.º a 19.º constam os factos a que são aplicáveis as várias penas já elencadas no
art.º 9.º do ED (repreensão escrita, multa, suspensão, demissão ou despedimento por facto
imputável ao trabalhador), acrescidas de uma outra aplicável só ao pessoal dirigente (cessação da
comissão de serviço).

A repreensão escrita
Segundo o art.º 15.º do ED a repreensão escrita é aplicável por infracções leves de serviço. Existe
no ED (art.º 28.º) um processo simplificado para a aplicação desta pena disciplinar.

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A multa
A multa, prevista no art.º 16.º do ED, é aplicável a casos de negligência ou má compreensão dos
deveres funcionais. No corpo do artigo temos a cláusula genérica onde tudo o que pode
consubstanciar um caso de negligência ou má compreensão dos deveres funcionais pode ser
subsumido, constituindo as diversas alíneas deste artigo exemplificações que muito auxiliam o
instrutor a compreender correctamente estes conceitos.

A suspensão
A pena de suspensão está prevista no art.º 17.º, também com a sua cláusula geral no corpo do
artigo e exemplificações nas suas alíneas.

A demissão e despedimento por facto imputável ao trabalhador


As penas expulsivas estão previstas no art.º 18.º do ED, uma vez mais com a mesma cláusula
geral no n.º 1 (demonstração da inviabilização da manutenção da relação funcional), suas
exemplificações, e casos particulares do seu n.º 2 – trabalhadores que, encontrando-se em
situação de mobilidade especial, exerçam qualquer actividade remunerada fora dos casos
previstos na lei e trabalhadores que estando no gozo de uma licença extraordinária, exerçam
qualquer actividade remunerada nas modalidades que lhes estão vedadas.

A cessação da comissão de serviço


Está prevista no art.º 19.º do ED. Pode ser aplicada aos titulares de cargos dirigentes e
equiparados:

1) a título principal, no caso das alíneas a) a d) do n.º 1;

2) a título acessório, pela prática de outras infracções, que não estas, sempre que lhes
corresponda pena igual ou superior à de multa.

Escolha e medida das penas


O art.º 20.º do ED trata da matéria da escolha e medida das penas. O que aqui se quer afirmar é
que o instrutor, na sua proposta de punição, deve ter sempre em conta os critérios apontados nos
artigos 15.º a 19.º do ED; em relação ao arguido, é relevante saber:

a) A natureza, missão e atribuições do órgão ou serviço;


b) As particulares responsabilidades inerentes à modalidade da sua relação jurídica de
emprego público (nomeação, contrato de trabalho em funções públicas e comissão de
serviço);
c) O seu grau de culpa;
d) A sua personalidade;
e) As circunstâncias em que a infracção tenha sido cometida que militem contra ou a seu
favor.

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CIRCUNSTÂNCIAS DIRIMENTES, ATENUANTES E
AGRAVANTES

As circunstâncias dirimentes
Nos termos do art.º 21.º do Estatuto Disciplinar (ED), são circunstâncias dirimentes da
responsabilidade disciplinar:
a) A coacção física;
b) A privação acidental e involuntária do exercício das faculdades intelectuais no momento
da prática da infracção;
c) A legítima defesa, própria ou alheia;
d) A não exigibilidade de conduta diversa;
e) O exercício de um direito ou o cumprimento de um dever.
As circunstâncias dirimentes são aquelas que afastam a responsabilidade disciplinar pela
existência de causas que excluem a ilicitude (caso da legítima defesa, do exercício de um direito
ou cumprimento de um dever e da actuação no cumprimento de ordens ou instruções prevista no
n.º 1 do art.º 5.º do ED, mas que se contém na anterior), ou que afastam a culpa (caso da
coacção física, da privação acidental e involuntária do exercício das faculdades intelectuais no
momento da prática da infracção e da não exigibilidade de conduta diversa). Desta forma, ocorrida
uma destas circunstâncias dirimentes, não há lugar à responsabilidade disciplinar por não se
verificar a prática de uma infracção disciplinar.

A coacção física, as faculdades intelectuais do arguido à data da prática


dos factos e a não exigibilidade de conduta diversa como causas da
exclusão da culpa
• Na coacção física, o trabalhador é compelido fisicamente à prática do facto (que é
ilícito) não o conseguindo evitar, não sendo mais do que um instrumento nas mãos do
verdadeiro autor que o coage à prática da infracção (por exemplo, infracção praticada
com ameaça de arma de fogo).
• Na privação acidental e involuntária do exercício das faculdades intelectuais no
momento da prática do acto ilícito, o trabalhador está incapaz de avaliar a sua
conduta e de se determinar de acordo com essa avaliação (situações de desequilíbrios
psíquicos graves, com falta de discernimento relativamente aos factos praticados e
sua avaliação, como sucede, por exemplo, nestas condições, com a falta de entrega
de atestado médico justificativo da situação de doença).
• Na não exigibilidade de conduta diversa, o trabalhador não dispõe, agora, de
liberdade para se comportar de modo diverso (exemplo do diplomata que é colocado
em consulado no exterior sem quaisquer condições, pois o hotel em que tem que
residir não tem água nem electricidade, etc., e que por isso mesmo se recusa a
exercer as suas funções).

A legítima defesa, o exercício de um direito ou o cumprimento de um


dever e a actuação no cumprimento de ordens ou instruções como
exclusão da ilicitude
A legítima defesa pode ser própria ou alheia, ou seja, em defesa de um terceiro, para
repelir agressão actual e ilícita de interesses do arguido ou de terceiros, praticando assim
um acto lícito (caso de uma agressão física praticada pelo arguido a um colega de

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trabalho para repelir uma outra agressão de que está a ser vítima). Quanto ao exercício
de um direito ou o cumprimento de um dever, podemos exemplificar, no primeiro caso,
com o trabalhador que no seu horário de trabalho tem que comparecer em tribunal; e na
segunda situação, podemos dar o caso da obediência de um inferior para com o superior
relativamente a ordem dada sob forma legal e em matéria de serviço.

As circunstâncias atenuantes especiais


As circunstâncias atenuantes especiais da infracção estão previstas no art.º 22.º do ED. Mas
existem, também, circunstâncias atenuantes gerais, que não as previstas neste artigo, que são
todas as circunstâncias que se apresentem em favor do arguido, como, por exemplo, a falta de
cadastro disciplinar e um bom desempenho profissional, podendo, até, em alguns casos, ser
reconduzidas às circunstâncias do art.º 20.º do ED.

A prestação de mais de 10 anos de serviço com exemplar comportamento e


zelo
A prestação de mais de 10 anos de serviço com exemplar comportamento e zelo, prevista na
alínea a), é referida com frequência pelo arguido na defesa apresentada em processo disciplinar,
tendo em vista desagravar o seu comportamento. Acontece, porém, que com alguma frequência
se verifica, igualmente, não resultar dos autos que tenha sido feita prova da citada exemplaridade,
que constitui a previsão legal. E, portanto, não pode, nestas condições, relevar, em sede
disciplinar, a referência a esta circunstância atenuante, pois o bom comportamento e o zelo só
relevam quando exemplares, ou seja, se tiverem sido melhores do que o comum dos
trabalhadores da categoria do arguido, prova que deve resultar nos autos quer pelo registo
biográfico quer por meio de quaisquer outros elementos trazidos para o processo. Parece ser de
aceitar, a título de exemplo, o registo de louvores, o bom exercício das funções em condições
precárias, a regularidade com que determinado trabalhador exerce as suas funções, mesmo para
além do seu horário, sem contrapartida, apenas lhe interessando a eficácia do seu serviço e
elevadas notações profissionais. Note-se, também, que esta circunstância tem que ser ponderada
à data da prática da infracção e não em data posterior, como, por exemplo, à data da elaboração
da nota de culpa, que pode ocorrer muito para além da ocorrência do ilícito disciplinar.

A confissão espontânea da infracção


A confissão espontânea da infracção, constante da alínea b), apenas releva para efeitos
disciplinares se contribuir decisivamente para a descoberta da verdade, isto é, a confissão só será
espontânea se não estiver já provada a infracção disciplinar. Não é assim, por exemplo, na falta
de assiduidade quando esta fica provada, desde logo, por prova documental, nomeadamente
através do mapa de faltas, livro de ponto, etc. E pode ser obtida em qualquer fase do processo. Se
for na instrução, deve constar da acusação, como se verá mais adiante.

A prestação de serviços relevantes ao povo português/actuação com mérito


na defesa da liberdade e da democracia
A prestação de serviços relevantes ao povo português e a actuação com mérito na defesa da
liberdade e da democracia, referidas na alínea c), têm que ser apreciadas caso a caso. Só perante
o caso concreto é que se pode proceder a essa avaliação. O mesmo é dizer que não há um
catálogo onde nos possamos socorrer para efeitos da subsunção destas condutas. Porém, pode-se

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afirmar a verificação desta atenuante em casos de prestações que se revistam de uma importância
invulgar, de um significado notável no plano nacional e não de actos meramente louváveis ou
meritórios.

A provocação
A provocação, referida na alínea d), só deve relevar disciplinarmente quando se verifique uma
certa proporção (adequação) entre o facto provocador e a infracção cometida. Ou seja, a reacção
contrária aos deveres funcionais a que se encontra vinculado o provocado (o arguido) tem de ser
consequência adequada do facto injusto de terceiro, que lhe diminuiu a liberdade de avaliação e
determinação. A título de exemplo, não pode um professor que agrediu à palmada uma aluna,
depois de lhe ter pedido a aula inteira, sem sucesso, para estar calada no seu lugar sem perturbar
os seus colegas, vir alegar provocação por ter assumido esta conduta (agressão física) sob o
domínio de influência externa que lhe alterou o ânimo, predispondo-o para a prática esta
infracção.

O acatamento bem-intencionado de ordem superior


Quanto ao acatamento bem-intencionado de ordem de superior a que não fosse devida
obediência, prevista na alínea e), vigora aqui tudo o que se disse atrás sobre o art.º 5.º do ED,
relativo à exclusão da responsabilidade disciplinar, para onde se remete.

Atenuação extraordinária da pena disciplinar


A atenuação extraordinária da pena (art.º 23.º do ED), que se traduz na aplicação de pena
disciplinar inferior à prevista para os factos acusatórios, só é possível em presença de
circunstâncias que diminuam substancialmente a culpa do trabalhador. Têm que ser, pois,
circunstâncias fortemente mitigadoras da culpa e não qualquer circunstância. Pense-se, por
exemplo, num trabalhador responsável por dinheiros públicos que, no exercício das suas funções,
furta determinada quantia, que veio a repor a tempo de prestar contas, para fazer face a
assistência médica inadiável de um seu familiar vítima de doença terminal.

As circunstâncias agravantes especiais


As circunstâncias agravantes especiais da responsabilidade disciplinar do arguido estão
mencionadas no art.º 24.º do ED:

O dolo directo
O dolo, como vontade determinada de produzir prejuízo com a sua conduta – alínea a).

A produção efectiva de prejuízos com dolo necessário


A produção efectiva de prejuízos, não com dolo directo, como em a), mas com dolo necessário,
pois o resultado prejudicial era previsível pelo arguido – alínea b). Trata-se de um grau de dolo
menos intenso que o directo.

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A premeditação
A premeditação consagrada na alínea c) – definida no n.º 2 como sendo o desígnio para o
cometimento da infracção, formado, pelo menos, 24 horas antes da sua prática; ou seja, reflectir
sobre a prática de determinado facto e a forma de o consumar (o mesmo é dizer «identificar os
meios a empregar», no mínimo 24 horas antes da sua ocorrência).

A comparticipação
A comparticipação, traduzida na vontade do arguido, com terceiros, praticar a infracção disciplinar
– alínea d).

A infracção praticada em período de cumprimento ou suspensão de pena


A prática de nova infracção disciplinar quando o arguido ainda estava a cumprir pena anterior ou
se encontrava em período de suspensão da pena – alínea e). É o caso, por exemplo, do arguido
que, estando há sessenta dias a cumprir uma pena de cento e oitenta dias de suspensão ou
encontrando-se a um ano de terminar o período de dois anos de suspensão da execução desta
pena, comete uma nova infracção disciplinar.

A reincidência
A reincidência dá-se quando a infracção é cometida antes de decorrido um ano sobre o dia em que
tiver findado o cumprimento da pena imposta por virtude de infracção anterior – alínea f). De
realçar que as infracções em causa não têm que ser da mesma natureza (ex: agressão física com
posterior desobediência). As penas de repreensão escrita, multa, demissão e despedimento por
facto imputável ao trabalhador consideram-se cumpridas, para efeitos da reincidência, no dia
seguinte ao da notificação ao arguido ou no 15.º dia após publicação da decisão no Diário da
República, enquanto que a pena de suspensão considera-se cumprida no último dia do prazo
considerado.

A acumulação de infracções
A acumulação de infracções prevista na alínea g), dá-se quando duas ou mais infracções são
cometidas na mesma ocasião (1.ª parte) ou quando uma é cometida antes de ter sido punida a
anterior (2.ª parte). No primeiro caso, temos o trabalhador que em certo período de tempo faltou
injustificadamente ao serviço, tendo-se deslocado, nesse período de ausência, ao seu local de
trabalho para aí agredir fisicamente um terceiro. Na segunda situação, temos o mesmo
trabalhador a quem foi instaurado processo disciplinar por falta de assiduidade e que no decurso
da instrução desse processo se apresentou ao serviço embriagado.

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SUSPENSÃO E PRESCRIÇÃO DAS PENAS

A suspensão das penas e seus requisitos legais


Nos termos do n.º 1 do art.º 25.º do Estatuto Disciplinar (ED): «as penas previstas nas alíneas a)
a c) do n.º 1 do art.º 9.º podem ser suspensas quando, atendendo (1) à personalidade do
arguido, (2) às condições da sua vida, (3) à sua conduta anterior e posterior à infracção, (4) e às
circunstâncias desta, se conclua que a simples censura do comportamento e a ameaça da pena
realizam de forma adequada e suficiente as finalidades da punição.»

Verifica-se, pois, que as penas de repreensão escrita, multa e suspensão podem ser suspensas
sempre que, ponderados os requisitos de que fala a lei, seja possível extrair do processo
disciplinar que o aviso que constitui para o arguido o procedimento disciplinar é suficiente para o
levar de futuro a actuar de acordo com o direito (prevenção especial). E que está acautelado que
tal suspensão não levará os demais trabalhadores a concluírem que a infracção compensa
(prevenção geral).

A suspensão não será inferior a seis meses nem superior a um ano no caso das penas de
repreensão escrita e de multa, nem inferior a um ano nem superior a dois anos no caso da
suspensão (n.º 2). Prazos que se contam desde a data da notificação desta decisão ao arguido
(n.º 3); realçando ainda que a suspensão caduca se o mesmo vier a ser, no seu decurso,
novamente condenado em processo disciplinar (n.º 4).

A prescrição das penas


O art.º 26.º do ED refere que, sem prejuízo do disposto no art.º 12.º (as penas previstas nas
alíneas b) a d) do n.º 1 do art.º 9.º serão executadas desde que os trabalhadores constituam nova
relação jurídica de emprego público), as penas disciplinares prescrevem nos prazos seguintes,
contados da data em que a decisão se tornou inimpugnável:

a) Um mês para a pena de repreensão escrita;


b) Três meses para a pena de multa;
c) Seis meses para a pena de suspensão;
d) Um ano para as penas de demissão, de despedimento por facto imputável ao
trabalhador e de cessação da comissão de serviço.

É matéria que não coloca problemas de difícil interpretação, sendo apenas de salientar que a
prescrição das penas se deve contar a partir do momento em que a decisão disciplinar se torna
firme, ou seja, irrecorrível por não impugnação administrativa ou contenciosa nos prazos
legalmente previstos ou por decisão judicial transitada em julgado.

19
FORMAS, NATUREZA E INSTAURAÇÃO

As formas de processo (comum e especial)


As formas de processo disciplinar estão contidas no art.º 27.º do Estatuto Disciplinar (ED). Para o
processo comum, regem as disposições dos artigos 39.º e seguintes. Para os especiais, rege o
regime especialmente previsto para cada um deles. Na falta de regime especial, aplica-se a
tramitação comum. Para a descoberta da verdade, dispõe o art.º 36.º que pode o instrutor lançar
mão das providências que reputar convenientes para o efeito. E, nos casos omissos, deve recorrer
aos princípios gerais do processo penal.

A natureza secreta do processo


O processo disciplinar tem natureza secreta até à acusação (art.º 33.º). O arguido pode, nesta
fase, consultar o processo, sem, contudo, divulgar o que dele conste, sob pena de incorrer em
novo ilícito disciplinar. O pedido de consulta do processo pode ser indeferido pelo instrutor, com a
devida fundamentação. É também permitido ao arguido requerer a passagem de certidões
destinadas à defesa de interesses legalmente protegidos, para o que deve indicar o fim a que se
destinam, podendo ser proibida a respectiva publicação.

A constituição de advogado
O arguido pode constituir advogado, em qualquer fase do processo, cuja intervenção abrange o
exercício dos direitos que a lei lhe reconhece (art.º 35.º). Após a constituição de advogado, cabe
ao instrutor notificá-lo para todos os actos em que o arguido tenha que exercer direitos
reconhecidos pela lei, de modo especial os que se insiram no respectivo direito de defesa,
constitucionalmente consagrado.

Obrigatoriedade de processo disciplinar para aplicação da pena. O caso


especial da repreensão escrita
A regra geral, constante do art.º 28.º, é a de que a aplicação de uma pena disciplinar é precedida
obrigatoriamente de um processo, onde se apurará a responsabilidade disciplinar do arguido. Mas,
tratando-se de faltas leves de serviço, isto é, estando em causa apenas a aplicação da pena de
repreensão escrita, então consente-se que essa pena seja aplicada sem dependência de processo,
mas sempre com audiência e defesa do arguido. Neste caso, a pedido do visado é lavrado auto
das diligências relativas à sua audiência e defesa, na presença de duas testemunhas por si
indicadas e, caso pretenda, tem cinco dias para produzir a sua defesa por escrito.

20
A competência para a instauração do processo. Sua repartição
O art.º 29.º do ED trata da competência para instauração do processo.

Pessoal docente
Esta matéria está tratada nos números 1 a 3 do art.º 115.º do Estatuto da Carreira
Docente (ECD):

1) A instauração de processo disciplinar é da competência do órgão de administração e


gestão do estabelecimento de educação ou de ensino.
2) Sendo o arguido membro do órgão de administração e gestão do estabelecimento de
educação ou de ensino, a competência cabe ao director regional de educação.
3) A instauração de processo disciplinar em consequência de acções inspectivas da
Inspecção-Geral da Educação é da competência do inspector-geral da Educação, com
possibilidade de delegação nos termos gerais – cf. alínea e) do art.º 5.º do Decreto
Regulamentar n.º 81-B/2007, de 31 de Julho, que aprova a orgânica da IGE.

Pessoal não docente


Esta matéria está tratada no art.º 37.º do Estatuto do Pessoal não Docente (EPND):

1) A instauração de processo disciplinar é da competência do órgão executivo da escola


ou do agrupamento de escolas, salvo o disposto nos números seguintes.
2) Sendo o arguido membro de órgão de administração do estabelecimento de educação
ou de ensino, a competência referida no número anterior cabe ao director regional de
educação respectivo.
3) A instauração de processo disciplinar em consequência de acções inspectivas da
Inspecção-Geral da Educação é da competência do inspector-geral da educação, com
possibilidade de delegação nos termos gerais.

Comunicação da instauração do processo à IGE


De acordo com o previsto no n.º 5 do art.º 115.º e no n.º 4 do art.º 37.º, respectivamente, do
ECD e do EPND, o despacho de instauração do procedimento disciplinar, deve, nos termos do n.º
1, ser imediatamente comunicado à respectiva delegação regional da IGE, à qual pode ser
solicitado o apoio técnico-jurídico considerado necessário.

Local da instauração e mudança de órgão ou serviço na pendência do


processo
O processo é sempre instaurado no órgão ou serviço em que o arguido exerce funções à data da
infracção (art.º 30.º). A mudança de órgão ou serviço, após a prática da infracção ou já com o
processo em instrução, transfere a competência de aplicação da pena disciplinar para a entidade
competente à data da respectiva aplicação.

Apensação de processos
O trabalhador responde, num só processo, por todas as infracções cometidas. Tendo sido
instaurados vários, são os mesmos apensados ao primeiro (art.º 31.º).

21
Arguido em exercício acumulativo de funções
Se a um trabalhador em acumulação de funções, em vários órgãos ou serviços, for instaurado um
processo disciplinar e se, até à decisão deste, lhe vierem a ser instaurados novos processos,
noutros órgãos ou serviços, serão estes apensados ao primeiro e a respectiva instrução caberá ao
instrutor do mesmo (art.º 32.º).

Quer a instauração quer a decisão final devem ser comunicadas aos órgãos ou serviços em que o
trabalhador exerce funções.

Nulidades
Há duas espécies de nulidades: as insupríveis, que resultam da falta de audiência do arguido em
artigos de acusação e da omissão de diligências essenciais para a descoberta da verdade; as
demais são consideradas supríveis, se não forem reclamadas pelo arguido até à decisão final (art.º
37.º).

Do despacho de indeferimento de diligências probatórias cabe recurso hierárquico ou tutelar para


o membro do governo competente, no prazo de cinco dias. O prazo de decisão do recurso é de dez
dias. A falta de decisão neste prazo tem como consequência a procedência do recurso.

Alteração da situação jurídico funcional do arguido


Na pendência do processo disciplinar, mesmo que suspenso preventivamente, o trabalhador
mantém o direito à alteração da sua situação jurídico-funcional, podendo, designadamente,
candidatar-se a procedimentos concursais (art.º 38.º).

22
INSTRUÇÃO

Início e termo da instrução. Prazos. Contagem


A instrução inicia-se no prazo de 10 dias a contar da notificação ao instrutor do despacho que o
nomeou e deve estar concluída em 45 dias a partir da data em que dê início a essa instrução -
art.º 39.º do Estatuto Disciplinar (ED) - só podendo ser excedido com autorização da entidade que
o nomeou e em casos de excepcional complexidade. Estes prazos são contados, nos termos do
art.º 72.º do Código do Procedimento Administrativo (CPA), em dias úteis.

A autuação como primeiro acto de instrução


O início da instrução deve ter lugar no prazo de 10 dias a contar da notificação ao instrutor do
despacho que o tenha nomeado, sendo a autuação o primeiro acto de instrução, nos termos do n.º
1 do art.º 46.º do ED. E o que é que se autua? O despacho de instauração, os actos de nomeação
do instrutor e do secretário e demais documentação atinente ao caso, designadamente a
participação ou queixa, juntando aos autos o registo biográfico do arguido.

Comunicações do início da instrução


A instrução deve ultimar-se no prazo de 45 dias após as comunicações que o instrutor tem de
fazer ao arguido, ao participante e a quem o nomeou de que vai iniciar a sua instrução (n.º 3 do
art.º 39.º). Este prazo de 45 dias pode ser prorrogado pela entidade que tenha instaurado o
processo sob proposta fundamentada do instrutor, nos casos de especial complexidade (n.º 1 do
art.º 39.º).

Fase de instrução do processo

Participação ou queixa
A participação ou queixa pode ser feita por escrito ou oralmente, devendo, neste caso, ser
reduzida a escrita por quem a receber (art.º 40.º).
Sobre qualquer participação ou queixa de conduta infraccionária, praticada por um trabalhador,
feita a superior hierárquico do mesmo, recai despacho da entidade competente para instaurar o
respectivo procedimento, o qual será de arquivamento, se entender que não há lugar a tal, e de
instauração no caso contrário. Quando a entidade competente para instaurar não for a competente
para punir e entenda que não há lugar a procedimento, deve a primeira submeter o assunto à
segunda.

23
A nomeação do instrutor
Uma vez proferido o despacho de instauração do processo disciplinar, é necessário nomear um
instrutor que proceda à sua instrução. A nomeação do instrutor (regra geral) é da competência da
entidade que mandou instaurar o processo disciplinar, nos termos do art.º 42.º do ED, com as
especialidades previstas nos artigos 115.º e 38.º, respectivamente, do Estatuto da Carreira
Docente (ECD) e do Estatuto do Pessoal Não Docente (EPND):

Nos processos disciplinares instaurados a pessoal docente


A nomeação do instrutor do pessoal docente é da competência do órgão de administração
e de gestão do estabelecimento de educação ou de ensino (n.º 1 e 4), do director regional
de educação (n.º 2 e 4) e do inspector-geral da educação, quer nos processos
disciplinares por si instaurados em consequência de acções inspectivas da IGE (n.º 3 e 4),
quer a título excepcional e com fundamento na manifesta impossibilidade da nomeação do
instrutor, através da respectiva delegação regional e a pedido da entidade que instaurou o
processo (n.º 1, 2 e 6 do art.º 115.º do ECD).

Nos processos disciplinares instaurados a pessoal não docente


A nomeação do instrutor do pessoal não docente é da competência do órgão executivo da
escola ou do agrupamento de escolas (n.º 1 dos artigos 37.º e 38.º), do director regional
de educação (n.º 2 do art.º 37º e n.º 1 do art.º 38.º) e do inspector-geral da educação
(n.º 3 do art.º 37.º e n.º 1 do art.º 38.º). Ou seja, segue-se a regra geral do art.º 42.º
do ED: a entidade que instaurar o processo disciplinar nomeia o instrutor. Contudo, nos
casos de processos disciplinares instaurados pelo órgão executivo da escola ou do
agrupamento de escolas, respeitantes a casos de negligência grave ou de grave
desinteresse pelo cumprimento de deveres profissionais, de procedimentos que atentem
gravemente contra a dignidade e prestígio do funcionário ou agente ou da função e de
infracções que inviabilizem a manutenção da relação funcional, a competência para
nomeação do instrutor compete ao director regional de educação respectivo (art.º 38.º,
n.º 1 do EPND).

Suspeição do instrutor

A suspeição do instrutor. Seus fundamentos


A lei exige ao instrutor que actue com isenção e imparcialidade no apuramento dos factos.
Para o mesmo efeito, confere ao arguido e ao participante que possam «...deduzir a
suspeição do instrutor quando ocorra circunstância por causa da qual possa
razoavelmente suspeitar-se da sua isenção e da rectidão da sua conduta...», constituindo
fundamentos especialmente previstos os constantes das várias alíneas do n.º 1 do art.º
43.º.

Decisão do pedido de suspeição do instrutor. Recurso hierárquico da sua


não admissão. Suspensão do processo
Arguida a suspeição do instrutor, deve este enviar imediatamente o requerimento à
entidade que tiver mandado instaurar o processo, que decide em 48 horas (n.º 2 do art.º
43.º).

24
A suspensão preventiva do arguido. Requisitos legais. Competência para a
sua solicitação e decisão
Durante a instrução, pode vir a ser colocada a questão da suspensão preventiva do arguido. Está
prevista no art.º 45.º do ED, com as especialidades constantes do n.º 7 e 8 do art.º 115.º do ECD
e n.º 1 e 2 do art.º 39.º do EPND.

Consiste na possibilidade de suspender o arguido, ainda antes da decisão final, sem perda da
remuneração de base, quando a sua presença é inconveniente para o serviço ou para o
apuramento da verdade, em caso de infracção punível com pena de suspensão ou superior. Pode
ser pedida pela entidade que instaurou o processo e pelo instrutor e é decidida pelo membro do
Governo competente ou pelo director regional de educação. Será o membro do Governo se o
arguido pertencer a órgão de administração e gestão. Será o director regional de educação, nos
restantes casos.

Neste sentido, para o pessoal docente, o n.º 7 do art.º 115.º do ECD estipula:

A suspensão preventiva é proposta pelo órgão de administração e gestão da escola ou pelo


instrutor do processo e decidida pelo director regional de educação ou pelo Ministro da Educação,
conforme o arguido seja docente ou membro do órgão de administração e gestão do
estabelecimento de educação ou de ensino.

Por sua vez, para o pessoal não docente, o n.º 1 do art.º 39.º do EPND estipula:

A suspensão preventiva é proposta pelo órgão executivo da escola ou do agrupamento de escolas


ou pelo instrutor do processo e decidida pelo membro do Governo competente ou pelo director
regional de educação, conforme o arguido seja ou não membro de um órgão de administração e
gestão do estabelecimento de educação ou de ensino.

A notificação da suspensão deve indicar, ainda que genericamente, a infracção ou infracções de


que o trabalhador é arguido.

Prazo da suspensão preventiva. Sua prorrogação até ao termo do ano


lectivo
O prazo é de 90 dias com possibilidade de ser prorrogado até final do ano lectivo, sob proposta da
entidade competente para instaurar o processo disciplinar - para o pessoal docente (n.º 8 do art.º
115.º do ECD) e para o pessoal não docente (n.º 2 do art.º 39.º do EPND) - com os fundamentos
da inconveniência para o serviço (requisito funcional) ou para a descoberta da verdade (requisito
processual).

25
Instrução do processo
Como prescreve o art.º 46.º, na instrução propriamente dita, o instrutor promove as diligências
necessárias ao esclarecimento da verdade, por iniciativa sua ou a requerimento do arguido.

As diligências requeridas pelo arguido podem ser indeferidas, com fundamento na existência de
prova produzida suficiente, em despacho fundamentado.

A audição do arguido, nesta fase, é obrigatória, se for requerida pelo próprio e se o instrutor a
considerar conveniente.

O arguido pode também requerer que sejam ouvidos representantes da sua associação sindical.

As diligências a promover fora do lugar onde corre o processo podem ser requeridas à respectiva
autoridade administrativa ou policial.

Na fase de instrução, o número de testemunhas a inquirir não tem limite (art.º 47.º).

Termo da instrução
Finda a instrução, o instrutor pode, nos termos do art.º 48.º do ED, entender:

a) que os factos não constituem infracção disciplinar;


b) que não foi o arguido o agente da infracção;
c) ou que não é de exigir responsabilidade disciplinar por virtude de prescrição ou outro
motivo.

Nestas condições, elaborará no prazo de cinco dias o seu relatório e remetê-lo-á imediatamente,
com o respectivo processo, à entidade que o tiver mandado instaurar, propondo que se arquive.
Caso contrário, deduzirá, no prazo de 10 dias, a acusação, articulando os factos constitutivos da
infracção, com indicação das respectivas circunstâncias de tempo, modo e lugar e das que
integram atenuantes e agravantes, com referência ainda aos correspondentes preceitos legais e às
penas aplicáveis.

26
ACUSAÇÃO

A notificação da acusação
Finda a instrução e entendendo-se, nos termos do art.º 48.º, n.º 2, do Estatuto Disciplinar (ED),
que deve ser deduzida acusação, incumbe ao instrutor, no prazo de quarenta e oito horas, dela
extrair cópia para ser entregue ao arguido. Esta entrega traduz-se na notificação da acusação ao
arguido, a qual deve ser realizada, em primeira linha, pessoalmente.

Pretende-se que o arguido, tão cedo quanto possível, fique ciente dos factos pelos quais está
acusado e, ainda, do prazo que dispõe para deles se defender – a estabelecer de 10 a 20 dias, em
resultado de acusação notificada pessoalmente ou por via postal (art.º 49.º, n.º 1).

Mediante prévia autorização da autoridade que mandou instaurar o processo e atendendo à


complexidade processual, o instrutor pode alargar o limite até ao máximo de 60 dias (art.º 49.º,
n.º 4).

Apenas quando a notificação pessoal não for possível é que se recorrerá à notificação postal (por
carta registada com aviso de recepção), devendo fundamentar-se a razão do recurso a esta via e
juntando aos autos prova da impossibilidade de realização da (anterior) notificação pessoal
(designadamente o termo de notificação pessoal do arguido não assinado por este).

Ficando nos autos comprovado que a notificação pessoal (primeiro) e a notificação postal (depois)
não obtiveram sucesso, notificar-se-á o arguido por aviso no Diário da República. Neste caso,
fazendo-se as menções requeridas no n.º 3 do art.º 49.º, bem como do lugar onde os autos
podem ser consultados, dar-se-á um prazo de 30 a 60 dias para o arguido apresentar a sua defesa
(art.º 49.º, n.º 2 e 3).

Quando na acusação estejam em causa as gravosas consequências previstas na parte inicial do


n.º 5 do art.º 49.º (nomeadamente a susceptibilidade de aplicação da pena de demissão), o
instrutor, no prazo de quarenta e oito horas, deve também remeter cópia da acusação à comissão
de trabalhadores respectiva (parte final do artigo), não o podendo fazer, todavia, se o arguido a
isso se opuser (art.º 49.º, n.º 7).

De modo idêntico, sendo o arguido representante sindical, o respectivo instrutor deve remeter, no
mesmo prazo, uma terceira cópia da acusação à associação sindical, não o podendo fazer, todavia,
se aquele a isso se opôs durante a instrução (art.º 49.º, n.º 6 e 7).

27
DEFESA

Incapacidade física e mental


É ao arguido que compete organizar a sua defesa. Todavia, este pode estar incapaz ou
impossibilitado de o fazer. Se assim suceder, estando o arguido incapacitado por doença ou por
incapacidade física devidamente comprovadas, pode nomear um representante especialmente
mandatado para organizar a sua defesa - art.º 50.º, n.º 1, do Estatuto Disciplinar (ED).

Se o arguido estiver impossibilitado de exercer tal direito, o instrutor nomeia imediatamente um


curador com poderes apenas para o procedimento disciplinar, o qual pode usar de todos os meios
de defesa facultados ao arguido – art.º 50.º, 2 e 3 (a remissão para a lei civil respeita ao art.º
143.º do Código Civil).

O n.º 4 do art.º 50.º refere um outro caso de impossibilidade de organização da defesa, agora
indiciada pelo (eventual) estado mental do arguido. Esses indícios legitimam que o instrutor
solicite uma perícia psiquiátrica, a realizar, com as devidas adaptações, nos termos do Código de
Processo Penal (CPP), dirigida ao Instituto Nacional de Medicina Legal, I.P., entidade a quem
compete, por regra, a realização das perícias médico-legais.

Nos termos do art.º 50.º, n.º 5, a perícia psiquiátrica pode, ainda, ser solicitada nos termos do
art.º 159.º, n.º 7, do CPP, norma que alarga aos sujeitos aí enumerados a possibilidade de
requererem a referida perícia.

Se a perícia médica concluir pela inimputabilidade do arguido, este não pode ser responsabilizado
disciplinarmente, pelo que o instrutor deve propor o arquivamento dos autos com tal fundamento
(art.º 54.º, n.º 1).

Cumpre alertar, ainda, que a solicitação (e a realização) da perícia não suspende o prazo de 18
meses estabelecido para a conclusão do procedimento disciplinar, constante no art.º 6.º, n.º 6, do
ED.

Para concluir, chama-se a atenção para que todos os expedientes que o art.º 50.º coloca à
disposição do instrutor devem ser usados com ponderação e cautela.

Exame do processo e apresentação da defesa


Rege nesta matéria o art.º 51.º, o qual estabelece, no n.º 1, que durante o prazo para
apresentação da defesa (art.º 49.º, n.º 1 a 4), o arguido, o seu representante ou curador, bem
como o advogado constituído por qualquer um dos três, podem examinar o processo a qualquer
hora de expediente.

A resposta, ou defesa à acusação, pode ser assinada pelo arguido ou, sendo caso disso, pelo seu
representante, curador ou advogado constituído, sendo apresentada no lugar onde o procedimento
tenha sido instaurado; caso seja remetida pelo correio, a resposta considera-se apresentada na
data de expedição postal (art.º 51.º, n.º 2 e 3).

Com a defesa, que deve expor com concisão e clareza os factos que a fundamentam, o arguido
pode apresentar o rol de testemunhas, juntar os documentos que considerar convenientes e
requerer ao instrutor a produção de diligências (art.º 51.º, n.º 4 e 6).

28
Se a resposta extravasar o estrito âmbito da defesa, manifestando uma utilização cujo objectivo
não é defender-se dos factos pelos quais está acusado, pode fazer incorrer o arguido em novo
procedimento disciplinar.

Se o instrutor entender que a mesma revela factos e infracções estranhos (diferentes) à acusação
deve autuá-la e extrair certidão, considerada participação (art.º 40.º) para efeitos de (eventual)
procedimento, o qual sendo instaurado pela entidade competente sê-lo-á por esses (novos) factos
(art.º 51.º, n.º 5).

Por fim, o art.º 51.º contém a importante regra relativa à falta de resposta do arguido dentro do
prazo dado pelo instrutor para a apresentação da defesa, dispondo o n.º 7 que em tal caso se
considera efectivada a audiência do arguido.

Todavia, alerta-se, que de tal comportamento não pode concluir-se qualquer confissão dos factos
articulados na nota de culpa, mas apenas e tão-só que o arguido renunciou ao direito de deles se
defender, isto é, que instado a responder o arguido optou por o não fazer.

Confiança do processo
O art.º 52.º, por remissão para os artigos 169.º a 171.º do Código do Processo Civil (CPC),
estabelece a confiança, isto é, a possibilidade de exame do processo fora do local onde esteja
disponível para consulta, a qual é facultada ao advogado e nunca ao arguido. Para tanto deve ser
elaborado um auto de entrega no qual se fixará um prazo para a devolução do processo, que, nos
termos do n.º 3 do art.º 169.º do CPC, é de cinco dias.

Este prazo pode ser prorrogado pelo instrutor, a requerimento do advogado, em casos de elevada
complexidade e se de tal prorrogação não advierem quaisquer inconvenientes para a instrução do
processo.

Não procedendo o advogado à atempada devolução do processo, o mesmo deverá ser notificado
pelo instrutor para, em dois dias, apresentar a justificação para tal procedimento, a qual não
sendo atendível poderá fazer incorrer aquele mandatário nas sanções previstas no art.º 170.º do
CPC.

Produção da prova oferecida pelo arguido


A matéria da produção de prova do arguido é regida pelo disposto no art.º 53.º, o qual concretiza
o que já determinara o n.º 6 do art.º 51.º (requerimento de diligências, apresentação de
testemunhas e junção de documentos).

No que respeita às diligências requeridas pela defesa, o instrutor pode recusá-las em despacho
fundamentado na sua manifesta impertinência e na desnecessidade de tal realização (art.º 53.º,
n.º 1).

No tocante à apresentação de testemunhas, o ED determina que por cada facto podem ser
ouvidas até três testemunhas, podendo o instrutor recusar a inquirição de testemunhas quando
considere suficientemente provados os factos alegados pelo arguido (art.º 53.º, n.º 2 e 3).

Tal recusa deve ser muito bem fundamentada, devendo o instrutor explicitar no despacho que
indefira a pretensão da defesa, as razões que o levam a considerar já estarem «suficientemente
provados os factos alegados pelo arguido» e que, portanto, a serem realizados mais não seriam
que actos inúteis.

29
O art.º 53.º, n.º 2, estabelece, ainda, a possibilidade de serem ouvidas testemunhas que não
residam no lugar onde corre o processo. Nessa situação, caso o arguido não se comprometa a
apresentá-las, estas podem ser ouvidas por solicitação a qualquer autoridade administrativa,
diligência que o instrutor efectivará por carta precatória, a qual indicará os factos sobre os quais a
testemunha prestará o depoimento (art.º 53.º, n.º 6).

Todas estas diligências para inquirição de testemunhas são sempre notificadas ao arguido, disso
mesmo se notificando o advogado - esta notificação respeita apenas às inquirições de
testemunhas a realizar na fase de defesa do arguido, caso este o tenha constituído, pois o
advogado pode estar presente e nelas intervir (art.º 53.º, n.º 5 e 7).

A inquirição das testemunhas e a reunião dos demais elementos de prova oferecidos pelo arguido,
designadamente em resultado das diligências requeridas nos termos do n.º 1 do art.º 53.º, devem
realizar-se no prazo de 20 dias, prazo que pode ser alargado (por despacho fundamentado do
instrutor, art.º 53.º, n.º 8) até 40 dias, mas apenas no caso de se realizarem actos fora do local
onde corre o processo.

Terminada a produção de prova, o instrutor pode, nos termos do art.º 53.º, n.º 9, ordenar a
realização de novas diligências, mas apenas se as mesmas forem indispensáveis para o completo
esclarecimento da verdade. A produção desta prova complementar fica sujeita a (nova) audiência
do arguido, sob pena de violação do princípio do contraditório e, portanto, de verificação de
nulidade insuprível.

30
RELATÓRIO FINAL

Relatório final do instrutor


A matéria relativa à elaboração do relatório final encontra-se no art.º 54.º do Estatuto Disciplinar
(ED), o qual determina, no n.º 1, que com a conclusão da instrução - com apresentação da defesa
à acusação e com as diligências a ela atinentes - o instrutor dispõe de cinco dias para elaborar um
relatório (prorrogáveis até ao limite de 20 dias, mediante autorização da entidade com
competência para decidir, nos termos do art.º 54.º, n.º 2).

O objectivo deste relatório é que a entidade competente decida nas melhores condições, pelo que
este documento deve evidenciar todos os factos disciplinarmente relevantes e a respectiva prova.
É com esse propósito que o ED requer que o relatório seja completo e conciso, referindo
obrigatoriamente:

• A existência material dos factos, referindo as diligências efectuadas que os


demonstraram e comprovaram;
• A qualificação dos factos dados como provados, indicando o dever ou deveres
violados, o tipo de infracção daí resultante e o seu enquadramento nas normas do ED;
• A gravidade das infracções, por referência ao disposto nos artigos 20.º, 21.º, 22.º,
23.º e 24.º;
• A determinação das importâncias que haja a repor e o seu destino;
• A proposta da pena adequada ou a proposta fundamentada de arquivamento.

Terminado o relatório, o processo deve, nos termos do n.º 3, ser remetido no prazo de vinte e
quatro horas à entidade que o tenha instaurado, a qual, não sendo competente para decidir, o
enviará para a entidade com competência para tal.

Nos termos do n.º 4 do artigo em questão, sendo a proposta no sentido de aplicar a pena de
demissão, de despedimento por facto imputável ao trabalhador, ou de cessação da comissão de
serviço, a entidade decisora apresenta cópia integral do processo à comissão de trabalhadores, a
qual pode emitir parecer fundamentado no prazo de cinco dias. Sublinhe-se que, aquando da
aplicação de uma daquelas penas disciplinares a arguido representante sindical, a entidade com
competência para decidir, para além de remeter cópia integral do processo à comissão de
trabalhadores, deve, ainda, remeter outra cópia à respectiva associação sindical, para que esta em
cinco dias emita parecer fundamentado. Em ambos os casos, porém, a remessa das referidas
cópias não tem lugar se o arguido a isso se opuser por escrito (art.º 54.º, n.º 4 e 5).

31
DECISÃO

O n.º 1 do art.º 55.º, do Estatuto Disciplinar (ED), dispõe que junto o parecer ou pareceres
referidos no art.º 54.º, n.º 4, ou decorrido os prazos aí previstos para a sua entrega, a entidade
competente analisa o processo tendo em vista a sua decisão.

Concordando com as conclusões do relatório e não entendendo necessárias a realização de novas


diligências de prova, ou a emissão do parecer do superior hierárquico do arguido ou de unidades
orgânicas do órgão, ou serviço a que o mesmo pertença, a entidade competente deve decidir no
prazo máximo de 30 dias, contados da recepção do processo – alínea a) do n.º 4 do art.º 55.º,
determinando o seu incumprimento, nos termos do n.º 6, a caducidade do direito de aplicar a
pena.

Sempre que a entidade competente para decidir discorde das conclusões ou da proposta contida
no relatório, deve fundamentar a sua decisão (art.º 55.º, n.º 4). Não concordando
fundamentadamente com conclusões do relatório, pode a entidade competente para a decisão
ordenar a realização de novas diligências, marcando um prazo para a sua realização, findo o qual
proferirá, no prazo máximo de 30 dias, a respectiva decisão – alínea b) do n.º 4 do art.º 55.º,
determinando o seu incumprimento, nos termos do n.º 6, a caducidade do direito de aplicar a
pena.

Antes de tomar a decisão final a entidade competente pode pedir parecer ao superior hierárquico
do arguido ou a unidades orgânicas do órgão ou serviço a que o mesmo pertença, o qual deve ser
emitido em 10 dias. Do termo deste prazo é proferida a decisão do procedimento no prazo
máximo de 30 dias – alínea c) do n.º 4 do art.º 55.º, determinando o seu incumprimento, nos
termos do n.º 6, a caducidade do direito de aplicar a pena.

A determinação do art.º 55.º, n.º 5, no sentido de impedir ao decisor a invocação de factos novos,
vale para todas as decisões finais, independentemente da escala das penas, do facto de ser feita
prova complementar ou juntos pareceres.

Só assim não é quando a invocação de factos novos exclua, dirima ou atenue a responsabilidade
do arguido, isto é, que o beneficie.

Pluralidade de arguidos
A norma do art.º 56.º visa definir a entidade competente para proferir a decisão condenatória no
caso de existirem vários trabalhadores arguidos pela prática do mesmo facto ou por factos
conexos entre si.

O primeiro critério, nos termos do n.º 1, é que decidirá relativamente a todos os arguidos quem
detenha competência para punir o trabalhador de cargo ou de carreira, ou categoria, de
complexidade funcional superior.

Sendo os trabalhadores titulares do mesmo cargo ou de carreira, ou categoria, de complexidade


funcional idêntica, a decisão competirá, nos termos do n.º 2, à entidade competente para punir o
arguido com antiguidade superior no exercício de funções públicas.

32
Notificação da decisão disciplinar
Pretende-se que o arguido, logo que possível, fique ciente da decisão que recaiu sobre o
procedimento.

A matéria relativa à notificação da decisão disciplinar encontra-se prevista no art.º 57.º, o qual,
no n.º 1, remete para o disposto no art.º 49.º quanto à notificação da nota de culpa.
Pelo que a notificação do arguido deve ser feita pessoalmente, apenas no caso de esta não ser
conseguida é que se recorrerá à notificação postal (carta registada com aviso de recepção) ou,
falhando esta também, à publicação por aviso publicado no Diário da República.

Respeitando a notificação a uma decisão disciplinar que implique suspensão ou cessação de


funções, a entidade que a tenha decidido pode também autorizar que a notificação seja protelada
pelo prazo máximo de 30 dias, desde que ponderando, quer a imediata execução da decisão, quer
a permanência do trabalhador punido no exercício das suas funções, se conclua que para o serviço
resultam inconvenientes mais graves na primeira das situações apontadas (art.º 57.º, n.º 2).

A notificação deve ser feita ao instrutor e ao participante (dado este ter legitimidade para a
interposição de recurso hierárquico, nos termos do art.º 60.º, n.º 1, a notificação deve ser feita
ainda que não requerida), comunicando-se também a decisão à comissão de trabalhadores e à
associação sindical se o processo lhes tiver sido apresentado nos termos do art.º 54.º, n.º 4.

O conteúdo da notificação é o previsto no art.º 68.º do Código do Procedimento Administrativo


(CPA), dela devendo constar:

• O texto integral do acto administrativo – entendendo-se como tal não apenas o


despacho que aplica a pena disciplinar, mas também a fundamentação de facto e de
direito em que aquele se apoiou, juntando cópia integral do relatório final e, caso
exista, o parecer ou informação jurídicos que precederam a decisão;
• A identificação do procedimento administrativo em que a decisão foi tomada, a data
em que esta foi proferida e a indicação do seu autor.

Adverte-se, no que respeita à prescrição do procedimento, que a regra que impõe que o
procedimento disciplinar seja concluído em 18 meses impõe que a notificação se realize dentro
daquele prazo (art.º 6.º, n.º 6).

Início de produção de efeitos das penas


Nos termos do disposto no art.º 58.º, as penas disciplinares começam a produzir os seus efeitos
legais (estatuídos no art.º 11.º) no dia seguinte ao da notificação do arguido ou, não podendo
este ser notificado (pessoalmente e por via postal), 15 dias após a publicação de aviso publicado
no Diário da República.

33
IMPUGNAÇÃO

Natureza do recurso e legitimidade


Sem prejuízo do direito que assiste ao trabalhador-arguido e ao participante de impugnarem
judicialmente os despachos e as decisões proferidas no âmbito do processo disciplinar, tanto pelo
instrutor como pelos seus superiores hierárquicos, e que não sejam de mero expediente (art.º
59.º do Estatuto Disciplinar – ED), aqueles têm também o direito de deles recorrerem
hierarquicamente, i.e., para o membro do Governo (art.º 60.º, n.º 1).

Prazos do recurso hierárquico

Os prazos-regra para a interposição de recurso hierárquico são os seguintes:

a) 15 dias, contados da notificação do despacho ou da decisão (o participante também


tem legitimidade para recorrer da decisão que puser termo ao processo, dentro deste
prazo) – art.º 60.º, n.º 2;
b) 20 dias contados da publicação do aviso em Diário da República, quando não se
consegue a notificação pessoal ou por carta registada com aviso de recepção – art.º
60.º, n.º 2;
c) 15 dias contados do conhecimento pelo recorrente do despacho ou decisão, se estes
não tiverem sido notificados ou não tenha sido publicado o aviso referido na alínea
anterior – art.º 60.º, n.º 3.

Contudo há um prazo especial de 5 dias para impugnação hierárquica do acto que indefira o
requerimento de quaisquer diligências probatórias (art.º 37.º, n.º 3).

Efeitos do recurso hierárquico


Este recurso hierárquico suspende a eficácia do acto recorrido (i.e., se for recorrida uma pena,
esta não poderá ser aplicada até decisão do recurso), a não ser em dois casos:

a) O autor do acto recorrido considera que o seu acto deve ser cumprido de imediato,
pois se assim não o for, causa grave prejuízo ao interesse público (art.º 60.º, n.º 4, 2.ª
parte);

b) O membro do Governo (para onde se recorreu) considera o mesmo, embora o autor


do acto recorrido considere o contrário. Ou seja, o membro do Governo revoga uma
decisão do autor do acto recorrido, que considerava que esse acto não deveria ser
suspenso na sua eficácia (art.º 60.º, n.º 5).

Em sede de recurso, o membro do Governo só pode agravar a pena recorrida, se esse recurso for
interposto pelo participante. Fora deste caso, pode a mesma entidade revogar, manter ou alterar -
mas aqui somente para uma pena mais leve - o acto recorrido (art.º 60.º, n.º 7).

Aquando da interposição do recurso, pode haver ainda produção de prova:

a) O recorrente pode:

1) Requerer novos meios de prova, que não pudessem ter sido requeridos antes;

2) Juntar os documentos que entender, desde que não pudessem ter sido
utilizados antes;

34
b) O membro do Governo pode:

1) Ordenar novas diligências probatórias.

As diligências probatórias solicitadas pelo recorrente, e autorizadas pelo Governo, no prazo de


cinco dias, bem como as que sejam por este determinadas em idêntico período de tempo, iniciam-
se em cinco dias e devem estar concluídas no prazo que esse mesmo governante fixar (art.º
61.º).

Regime de subida dos recursos hierárquicos


É o seguinte o regime de subida dos recursos hierárquicos (art.º 62.º):

a) Imediatamente e nos próprios autos (i.e., não esperam pela decisão final):

1) Os recursos das decisões interlocutórias (i.e., que não sejam finais) que,
ficando retidas, perdem o seu efeito útil;

2) Recurso de despacho que não admita a dedução de suspeição do instrutor ou


não aceite os fundamentos invocados para a mesma;

b) Diferidamente (i.e., sobem com a decisão final se dela se recorrer):

Recurso das decisões interlocutórias que não ponham termo ao processo, salvo se
ocorrerem algumas das situações previstas no n.º 4 do art.º 37.º (despacho a
indeferir o requerimento de quaisquer diligências probatórias) e no n.º 2 e 3 do
art.º 62.º - neste último caso, situações referidas acima.

Em resumo, os pontos anteriores podem ser sintetizados neste quadro.

Reabertura do processo disciplinar


Onde o actual ED inovou foi ao consagrar a possibilidade de reabertura do procedimento
disciplinar. Com efeito, diz-se no art.º 63.º que, no caso de a aplicação da pena ter sido
impugnada jurisdicionalmente pelo trabalhador com fundamento em preterição de formalidade
essencial do processo disciplinar (por ex.: má elaboração da nota de culpa), a instauração de
procedimento disciplinar pode ser renovada até ao termo do prazo para contestar a acção
jurisdicional, de modo a expurgar do processo disciplinar as invalidades formais que dele
inicialmente constavam.

a) 1.ª constatação: esta norma é inaplicável a casos de inexistência de processo


disciplinar (pois trata-se da reabertura de processo disciplinar);

b) 2.ª constatação: só há lugar à reabertura do processo disciplinar, se


cumulativamente:

1) O trabalhador, no processo reaberto, voltar a ser acusado da prática de factos


(podem até ser novos, em relação à anterior acusação) que tenham ocorrido
antes de expirado um ano sobre a sua prática - art.º 63.º, n.º 2, alínea a);

2) A preterição de formalidade essencial não tiver já sido objecto de apreciação


em anterior recurso hierárquico e este tenha sido rejeitado ou indeferido - art.º
63.º, n.º 2, alínea b);

35
3) For a primeira renovação (só é possível uma renovação) - art.º 63.º, n.º 2,
alínea c).

c) 3.ª constatação: a renovação do acto pode ter lugar antes da acção de impugnação
da pena aplicada, mesmo antes da própria decisão de aplicação da pena, ou até em
execução de sentença, onde haja o trabalhador-arguido obtido ganho de causa (isto
naturalmente se ainda se estiver em prazo para tal);

d) 4.ª constatação: com a renovação ir-se-á prolongar a acção judicial, pois ocorrida a
reabertura do procedimento disciplinar – o que pode acontecer até ao termo do prazo
para contestar – a acção não pode prosseguir sem interrupção dos seus trâmites e fases
normais, uma vez que ao trabalhador impugnante tem de se lhe dar a oportunidade de se
pronunciar sobre o renovado procedimento disciplinar;

e) 5.ª constatação: invalidando-se o anterior processo disciplinar, a instauração de novo


processo disciplinar não faz retroagir os seus efeitos à data do primeiro.

Efeitos de invalidade de penas disciplinares


Se um trabalhador intentar uma acção em tribunal e este anular ou declarar nula ou inexistente
uma pena de despedimento por facto imputável ao trabalhador, de demissão ou de cessação da
comissão de serviço, este trabalhador pode optar:

a) Pela reintegração no serviço;

OU

b) Pela indemnização (se optar até à data da decisão jurisdicional em 1ª instância –


artigos 64.º e 65.º.

Se o trabalhador optar pela reintegração, tem direito, cumulativamente – art.º 64.º:

a) A ser indemnizado por todos os danos patrimoniais e não patrimoniais causados pela
pena ilícita - art.º 64.º, n.º 1, alínea a);

b) A receber todas as remunerações que deixou de auferir desde a data em que se tornou
efectiva a aplicação da pena até ao trânsito em julgado da decisão do tribunal (que
invalidou essa pena - art.º 64.º, n.º 1, alínea b) e n.º 2). Ou seja, havendo recurso,
atender-se-á à decisão do tribunal de recurso (Tribunal Central Administrativo ou
Supremo Tribunal Administrativo). Mas, repare-se, é preciso que, entre esses dois
momentos, o contrato não se extinga. Se, por ex., entretanto, o trabalhador morrer, só
há direito a esses salários intercalares desde a data do despedimento até à data da sua
morte;

c) À reintegração no seu posto de trabalho, sem prejuízo da sua categoria e antiguidade -


art.º 64.º, n.º 1, alínea c).

36
No cálculo dos montantes há que deduzir os seguintes valores (art.º 64.º, n.º 3, n.º 4 e n.º 5):

a) Se o trabalhador não impugnou judicialmente a pena nos 30 dias seguintes ao início do


seu cumprimento, são-lhe deduzidas todas as remunerações desde esse início até 30 dias
antes da data dessa impugnação;

b) As importâncias que o trabalhador tenha comprovadamente obtido com a cessação da


relação jurídica de emprego público e que não receberia se não tivesse sido punido;

c) O montante do subsídio de desemprego, que o empregador entregará à segurança


social.

Se o trabalhador optar pela indemnização (em substituição da reintegração), terá direito a uma
indemnização, indexada à antiguidade, e a calcular cumulativamente nos seguintes termos (art.º
65.º):

a) Pena de demissão ou de despedimento

1) Um mês de remuneração base por cada ano completo de antiguidade ou


proporcionais se for fracção de um ano, nunca sendo, no entanto, inferior a seis
meses de remuneração de base (art.º 65.º, n.º 2, alínea a) e n.º 4). Para efeitos
da determinação da antiguidade, o tribunal deve atender a todo o tempo
decorrido desde a data do início da pena até ao transito em julgado da decisão
judicial (art.º 65.º, n.º 3). Ou seja, havendo recurso, a indemnização só pode ser
quantificada a final.

b) Pena de cessação da comissão de serviço

1) Um mês de remuneração base por cada mês completo de antiguidade ou


proporcionais se for fracção de um mês, nunca sendo, no entanto, inferior a três
meses de remuneração base - art.º 65.º, n.º 2, alínea b) e n.º 4.

37
TIPOS E REGIME DOS PROCESSOS

Processos de inquérito e sindicância

Inquérito e sindicância
O regime dos processos especiais de inquérito e de sindicância está previsto nos artigos 66.º a
68.º e, na parte não prevista naquelas normas, pelas disposições respeitantes ao processo comum
(art.º 27.º, n.º 3, entendendo-se como tal o processo disciplinar propriamente dito).

Podem socorrer-se destes instrumentos os membros do Governo e os dirigentes máximos dos


órgãos ou serviços, ordenando a sua realização à actuação dos órgãos, serviços ou unidades
orgânicas na sua dependência ou sujeitos à sua superintendência ou tutela (art.º 66.º, n.º 1).

Ainda que compartilhem um regime aproximado, o respectivo objecto é diferente, pois o inquérito
visa o apuramento de factos determinados e a sindicância tem como objecto uma averiguação
geral ao funcionamento do órgão, serviço ou unidade orgânica (art.º 66.º, n.º 2).

Com o inquérito pretende saber-se se num serviço verdadeiramente ocorreram os factos que
chegaram ao conhecimento do inquiridor, qual a sua natureza e se são imputáveis a alguém em
particular.

A sindicância traduz-se numa significativa verificação ao funcionamento do serviço, com vista a


aferir o nível de observância disciplinar de todo o pessoal a ele adstrito, dispondo de especiais
regras de publicitação (anúncios e editais) e de participação dos particulares (queixa escrita
dirigida ao sindicante), nos termos do art.º 67.º.

Relatório e trâmites ulteriores


Assim que concluída a instrução, o instrutor elabora no prazo de 10 dias um relatório, remetendo-
o imediatamente à entidade que instaurou o processo. Este prazo pode ser prorrogado, até ao
limite máximo de 30 dias, por aquela entidade, se esta entender fundamentadamente que a
complexidade assim o justifica (art.º 68.º, n.º 1 e 2).

Com suporte naquele relatório e verificando-se a existência de infracções disciplinares, a entidade


que instaurou o processo de inquérito ou de sindicância é competente para instaurar, agora, os
processos disciplinares que entenda deverem ser instaurados (art.º 68.º, n.º 3).

A mesma entidade pode, mediante decisão expressa, constituir o inquérito ou a sindicância como
fase instrutória daqueles. Tal decisão implica que o instrutor deverá em 48 horas deduzir a
acusação ou acusações a que haja lugar (art.º 68.º, n.º 4).

Se assim acontecer, convolando-se um processo (de inquérito ou de sindicância) na fase


instrutória de um outro (disciplinar, propriamente dito), é de aconselhar que tal seja proposto pelo
inquiridor ou sindicante, pois são estes que estão em melhor situação para ajuizar a suficiência da
prova até ali produzida. De igual modo, em tais situações é aconselhável que os mesmos
inquiridores ou sindicantes sejam nomeados para a condução do processo disciplinar subsequente.

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Processos de averiguações

Instauração
O processo de averiguações é um procedimento disciplinar especial a instaurar imediata e
obrigatoriamente pelo dirigente máximo do órgão ou serviço, no caso em que um trabalhador
obtenha consecutivamente duas avaliações de desempenho negativas, conforme estatui o art.º
69.º, n.º 1.

No actual ordenamento é a Lei n.º 66-B/2007, de 28 de Dezembro, que aprova o sistema


integrado de gestão e avaliação do desempenho na Administração Pública, que estabelece no art.º
2.º o seu âmbito de aplicação.

O processo visa apurar se aquele desempenho negativo, pressuposto das correspondentes


avaliações, constitui infracção disciplinar a imputar ao avaliado por violação culposa (portanto, não
meramente negligente) dos deveres funcionais (art.º 69.º, n.º 2).

O prazo para a realização da averiguação é de três meses, a contar da data em que foi instaurada,
tendo o instrutor que concluir o processo e elaborar o respectivo relatório de modo a que, ainda
dentro daqueles três meses, este seja recebido pela entidade competente (cfr. art.º 69.º, n.º 4).

A prescrição do processo de averiguações pode suspender-se, mas apenas por força de decisão
jurisdicional, ou de apreciação jurisdicional de qualquer questão, e durante o tempo em que, por
força disso, a marcha do processo não possa começar ou continuar a ter lugar (art.º 69.º, n.º 4 e
5 e art.º 6.º, n.º 7 e 8), voltando a correr cessada a causa de suspensão.

Por fim, resultando deste processo indícios de violação de deveres por parte dos intervenientes na
avaliação do desempenho (definidos no art.º 55.º da Lei n.º 66-B/2007, de 28 de Dezembro), o
instrutor deve participá-los ao dirigente máximo do órgão ou serviço, podendo este instaurar
processo de inquérito ou disciplinar (art.º 69.º, n.º 6).

Tramitação
A nomeação do averiguante deve recair em dirigentes que nunca avaliaram o trabalhador; na falta
destes, deve ser solicitado a outro dirigente máximo de outro órgão ou serviço que o nomeie
(art.º 70.º, n.º 1).
Assim que seja nomeado, o instrutor do processo reúne todos os documentos respeitantes às
avaliações e à formação frequentada, ouvindo obrigatoriamente o trabalhador e todos os
avaliadores intervenientes nas avaliações negativas em causa (art.º 70.º, n.º 2).

As razões da eventual impossibilidade de ouvir o avaliador ou avaliadores devem ficar


devidamente fundamentadas no relatório final, juntando aos autos a prova das diligências levadas
a cabo para proceder à audiência daquele ou daqueles responsáveis (art.º 70.º, n.º 3).

Para além de dever ser ouvido, como já se fez referência, assiste ao avaliado o direito de
apresentar três testemunhas, as quais devem ser obrigatoriamente ouvidas pelo averiguante,
podendo até ao termo da instrução juntar a prova documental que entender (art.º 70.º, n.º 4).

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Todas as diligências instrutórias devem estar concluídas no prazo máximo de 20 dias, contado da
data em que, nos termos do art.º 69.º, o processo de averiguações foi instaurado. O final da
instrução deve ser comunicado, quer ao dirigente máximo do órgão ou serviço, quer ao
trabalhador (art.º 70.º, n.º 5).

Relatório e decisão
Findas as diligências instrutórias, o averiguante dispõe de 10 dias, contados da data de conclusão
da instrução, para elaborar um relatório final fundamentado, remetendo o processo ao dirigente
máximo do órgão ou serviço para decisão (art.º 71.º, n.º 1).

Caso este tenha sido um dos avaliadores do trabalhador, a competência para decidir é do membro
do Governo, devendo-lhe, então, ser remetido o processo (art.º 71.º, n.º 2).

Nos termos do art.º 71.º, n.º 1, alíneas a) e b), o relatório final proporá:

• Ou o arquivamento do processo, entendendo-se não haver lugar a procedimento


disciplinar por ausência de violação de deveres funcionais;
• Ou a instauração de procedimento disciplinar por violação de deveres funcionais.

Como já se referiu, o órgão competente deve decidir, sob pena de prescrição do procedimento, no
prazo de três meses, contados da instauração do processo de averiguações.

No caso de instauração de procedimento disciplinar, a entidade que mandou instaurar o processo


de averiguações pode, ainda, decidir que esse processo passe a constituir a fase instrutória do
processo disciplinar, seguindo-se em tal caso, com as devidas adaptações, o regime previsto no
art.º 68.º, n.º 4 (prevendo-se, ainda, que no processo de averiguações o trabalhador possa
constituir advogado a todo o tempo, nos termos do art.º 68.º, n.º 5, aplicável por força do art.º
71.º, n.º 4).

Sendo interposto processo disciplinar em consequência de prévio processo de averiguações, a


infracção ou infracções consideram-se cometidas na data da proposta de instauração,
designadamente para efeitos do previsto no art.º 6.º (art.º 71.º, n.º 5).

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REVISÃO DO PROCESSO DISCIPLINAR E REABILITAÇÃO

A revisão do processo disciplinar

Requisitos
A revisão do processo disciplinar deve ser distinguida do recurso. A revisão é admitida a todo o
tempo, quando se quer atacar a injustiça de uma sanção, mas não a sua ilegalidade ou a do
processo. Para isso, existe tanto o recurso hierárquico como a acção contenciosa. Por isso, a
pendência do recurso ou da acção contenciosa, não impede que seja requerida a revisão - art.º
72.º, n.º 4, do Estatuto Disciplinar (ED).

O condenado pode vir a apresentar meios de prova susceptíveis de demonstrar a sua inocência:
ou seja, a inexistência dos factos que determinaram a sua condenação, a sua não participação
neles ou que, na altura da sua prática, era irresponsável, mas apenas se esses elementos não
puderem ter sido utilizados no processo disciplinar (art.º 72.º, n.º 1 e 2).

Legitimidade
Podem pedir a revisão da pena o condenado em processo disciplinar ou o seu representante,
requerendo-a à entidade que tenha aplicado a pena disciplinar (art.º 73.º, n.º 1).

Tramitação
Trata-se de um processo disciplinar especial, i.e., sujeito, em parte, a uma tramitação específica,
indicada na lei (artigos 73.º e 74.º) e, noutra parte, à tramitação do processo comum (art.º 75.º).
Este processo pode ter dois momentos:

a) Um requerimento feito pelo condenado, onde constem os meios de prova a apresentar


ao aplicador da pena, que decidirá em 30 dias se deve ser ou não concedida a revisão
(art.º 74.º, n.º 1).

SE FOR CONCEDIDA A REVISÃO:

b) Abre-se um novo procedimento disciplinar, a correr por apenso ao processo revidendo,


com a nomeação de um outro instrutor, com um prazo para a defesa da anterior nota de
culpa entre 10 e 20 dias, seguindo-se a restante tramitação até final, como nos processos
disciplinares comuns (art.º 75.º - como refere este art.º, a tramitação encontra-se
nos artigos 49.º e ss.).

Efeitos
O processo de revisão não suspende o cumprimento da pena (art.º 76.º).

Se a revisão vier a ser concedida, pode a pena disciplinar revidenda ser:

a) Revogada,

OU

b) Alterada.

Os efeitos da revisão encontram-se sintetizados neste quadro.

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Reabilitação
A reabilitação consiste na declaração de cessação de certas incapacidades e efeitos resultantes da
condenação, em razão da boa conduta posterior à condenação demonstrada pelo condenado.

Esta reabilitação nada tem que ver com a revisão, pois neste caso trata-se de reabilitação de
condenados, enquanto que na revisão, trata-se de reabilitar infractores inocentes (art.º 78.º, n.º
2).

Requisitos
A reabilitação só será concedida a quem prove ter tido uma boa conduta posterior à condenação
(art.º 78.º, n.º 1). É ao requerente que cabe o ónus da prova desta boa conduta. Não basta, para
a concessão da reabilitação, a prova do normal cumprimento, por parte do trabalhador, das suas
obrigações funcionais. É necessário provar-se, sem margem para dúvidas, uma inflexão segura no
seu comportamento anterior que permita concluir, em função de critérios de avaliação do homem
médio, que o condenado retomou uma situação de cumprimento normal dos seus deveres
profissionais sem perigo de recidiva (seguiu-se nesta parte o Acórdão do Supremo Tribunal
Administrativo, de 11 de Novembro de 1993, P.º n.º 28012).

Legitimidade
O condenado ou o seu representante legal podem requerer a reabilitação à entidade que aplicou a
pena (art.º 78.º, n.º 1 e 3).

Prazos
A reabilitação só pode ser requerida dentro dos seguintes prazos:

a) Repreensão escrita - seis meses;


b) Multa - um ano;
c) Suspensão e cessação da comissão de serviço - dois anos;
d) Demissão e despedimento - três anos (art.º 78.º, n.º 3 e respectivas alíneas).

Estes prazos contam-se da seguinte forma:

a) Se forem penas efectivas, desde a sua aplicação ou cumprimento;


b) Se forem penas suspensas, desde o decurso do tempo de suspensão (art.º 78.º, n.º 3).

Efeitos
Para o reabilitado cessam as incapacidades e os demais efeitos da condenação, sendo registada a
reabilitação no seu processo individual (art.º 78.º, n.º 4).

Tenha-se, porém, em atenção que, com a reabilitação, o reabilitado de pena de demissão ou de


despedimento não ganha o direito a restabelecer a relação jurídica de emprego público que tinha
antes da condenação (art.º 78.º, n.º 5).

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MULTAS
As multas e as reposições de quaisquer quantias a que haja lugar na sequência de processo
disciplinar constituem receita do Estado (art.º 79.º) e devem ser pagas voluntariamente pelos
condenados no prazo de 30 dias, após notificação, ou pedido o seu pagamento em prestações
(art.º 81º, n.º 1). Findo esse prazo, ou não sendo requerido o pagamento em prestações, serão
essas importâncias descontadas na remuneração, em prestações mensais, de montante a definir
pela entidade que aplicou a pena, mas nunca superior à sexta parte da remuneração (art.º 81.º,
n.º 2).

Isto não exclui o recurso à execução coerciva da dívida, que segue os termos do processo de
execução fiscal, constituindo título executivo a certidão contendo o despacho condenatório (art.º
82.º).

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