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O supereu e suas nuances de Freud a Lacan

O supereu e suas nuances


de Freud a Lacan
Breno Ferreira Pena

Resumo
Trabalhar com as diversidades, as diferenças e as semelhanças do supereu na obra de Freud e no
ensino de Lacan foi o caminho escolhido para defender a ideia de que, apesar de eles pensarem o
supereu de maneira distinta, suas formulações não podem ser consideradas como opostas, como
sugerem alguns de seus comentadores.

Palavras-chave
Supereu, Diferenças, Semelhanças, Interlocuções.

O supereu é um tema complexo e traz Sem negar essa oposição teórico/práti-


grandes dificuldades para quem tenta ca entre os dois autores, parece ser possível
compreendê-lo sob a ótica de um concei- também questioná-la e rearticulá-la, pois
to psicanalítico fechado. Seus paradoxos como se pretende demonstrar, o supereu
e mistérios podem levar ao risco de se formulado por Lacan é uma releitura refi-
perder boa parte de sua riqueza teórica nada do supereu que se encontra no texto
e clínica, na tentativa de dar conta dele freudiano, e como consequência disso,
em poucas páginas, com a precisão dis- pensar o supereu em Freud como pura
criminativa que ele exige. Neste artigo, proibição de gozo é reduzir a complexidade
não se pretende, portanto, esgotar as que envolve o tema. Soler também chama
diversas dificuldades que envolvem o atenção para um antagonismo radical
supereu, mas, ao contrário, explorá-las na entre Freud e Lacan no que se refere ao
tentativa de desconstruir esta ideia de um supereu, entretanto, a autora não deixa de
antagonismo teórico entre Freud e Lacan frisar que esta oposição pode ser apenas
diante deste tema, como indicam alguns aparente:
psicanalistas.
A partir desta concepção, o supereu “Nesta questão dos fenômenos para-
em Freud se reduziria a um proibidor da doxais do supereu, creio que é preciso
satisfação pulsional, uma instância que articular as teses freudianas com as de
apenas impõe limites ao gozo, e que em Lacan, teses que se opõem de forma
hipótese alguma pode ser confundido manifesta, posto que se dá uma fórmula
com o supereu em Lacan, neste sim um a cada um. Freud diz ‘o supereu proíbe
ordenador de gozo: “O supereu lacaniano o gozo’ – aqui é categórico – e Lacan
não pode ser confundido com o freudiano. diz ‘o supereu ordena o gozo’. Não
Seu imperativo não é o de obedecer, mas o de pode ser mais antagônico! É bastante
gozar, e o gozo é justamente o que o supereu surpreendente poder dizer que uma ra-
freudiano proíbe” (BRAUNSTEIN, 2007, cionalização de uma mesma experiência
p.327). possa produzir duas teses aparentemente
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tão opostas” (SOLER, 2000-2001, p. paradoxal, cabeça de uma longa série que
98 – tradução nossa). percorre de ponta a ponta a obra freudiana”
(GEREZ-AMBERTÍN, 2003, p.105).
Localizar o supereu em Freud e Lacan O supereu freudiano, então, ao
e, posteriormente, promover uma interlo- carregar duas vertentes que se mostram
cução entre os dois autores foi o percurso conflituosas e por serem algumas vezes
traçado para se demonstrar que Lacan, antagônicas, gera paradoxos que dificul-
apesar de todos os seus avanços, nunca tam sua compreensão, e demonstra a
deixou de se apoiar no texto freudiano. complexidade que envolve este conceito
na psicanálise desde sua criação. Em sua
O supereu freudiano vertente de herdeiro do Édipo, como res-
Os prenúncios do supereu podem ser salta Braunstein (2007), Freud traz a ideia
buscados desde o início da obra de Freud, de um supereu proibidor que vigia e pune
como ressalta Laender (2005), mas sua as ações do sujeito. É um supereu regula-
formalização se deu pela primeira vez em dor dos excessos pulsionais, ao assumir a
O Ego e o Id de 1923, a partir da segunda função parental de autoridade.
tópica, que divide o aparelho psíquico em: Esta vertente do supereu, portanto, se
isso, eu e supereu. Freud, anteriormente, já formaria somente após o fim do complexo
havia feito uma primeira tópica com uma de Édipo, sendo seu herdeiro. Com a disso-
divisão do aparelho psíquico em conscien- lução do complexo de Édipo, a criança se
te, pré-consciente e inconsciente. Mas identificaria ao pai, que é posto como ideal
com a descoberta da pulsão de morte no porque é esse pai que possui a mãe, objeto
texto Além do Princípio do Prazer (FREUD, de desejo da criança. O pai estabelece a
1920/1996), ele percebe que esta divisão, posição de ideal do eu para a criança, e é
da primeira tópica, não dava conta da o supereu que se apropria e exige o cum-
complexidade do aparelho psíquico que primento deste ideal pelo sujeito. Nesta
exige um mais além do princípio de prazer. perspectiva, o supereu é um conceito
Então, cria a segunda tópica, já contem- muito próximo ao do ideal do eu, que é
plando o movimento da pulsão de morte esse ideal que os pais transmitem para o
no aparelho psíquico. sujeito e ao qual ele procura corresponder
Freud, portanto, já havia notado que para tentar conseguir se realizar. Freud,
com a ação da pulsão de morte o aparelho inclusive, usa supereu e ideal do eu como
psíquico produzia o prazer no desprazer e sinônimos, muitas vezes, durante sua obra.
concebe, assim, o supereu como algo que Portanto, o supereu, ainda que de forma
proíbe e impõe limites para o sujeito de severa, por suas ligações com o isso, teria
forma severa e conflituosa. No entanto, uma função de proibir e regular as ações do
mesmo criando esta instância, nunca foi sujeito que não fossem adequadas ao ideal
tarefa fácil para Freud caracterizá-la, pois estabelecido. Em sua vertente de herdeiro
o supereu se formaria, em sua concepção, do complexo de Édipo, diz Freud:
em uma dupla vertente que deve ser
levada em conta para sistematizar seu “O superego é para nós o representante
funcionamento no psiquismo. Esta con- de todas as restrições morais, o advogado
cepção que propõe uma dupla origem para de um esforço tendente à perfeição – é,
o supereu vai marcar a posição freudiana em resumo, tudo o que pudemos captar
frente a este conceito e, além disso, vai dar psicologicamente daquilo que é cataloga-
também um caráter paradoxal ao supereu: do como o aspecto mais elevado da vida
“O supereu é herdeiro do isso, mas também do homem. Como remonta à influência
é herdeiro do complexo de Édipo. Conclusão dos pais, educadores, etc., aprendemos mais
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sobre seu significado se nos voltamos para “O superego deve sua posição especial no
aqueles que são sua origem” (FREUD, ego, ou em relação ao ego, a um fator que
1933[1932]/1996, p.72). deve ser considerado sob dois aspectos:
por um lado, ele foi a primeira identifica-
Freud, no entanto, traz também uma ção, uma identificação que se efetuou en-
outra vertente para o supereu ao defini-lo quanto o ego ainda era fraco; por outro, é
como representante do isso, a parte mais o herdeiro do complexo de Édipo e, assim,
obscura do inconsciente, onde se encontra introduziu os objetos mais significativos
a energia pulsional. Para Freud, tudo o no ego” (FREUD,1923/1996, p.61).
que há no isso são apenas “Catexias ins-
tintuais que procuram a descarga” (FREUD, Deve-se, portanto, delimitar o supereu
1933[1932]/1996, p.79). Assim, o isso nessa dupla perspectiva para marcar a
pertence ao campo puramente pulsional, forma com que Freud concebe e desen-
que se faz presente no psiquismo do su- volve o tema. Por ter uma dupla origem,
jeito desde o início de sua constituição. entretanto, o supereu em Freud gera um
Portanto, esta ligação do supereu com o paradoxo entre exigir e regular a satisfação
isso diz da pulsão, mas principalmente da pulsional e talvez esteja aí a maior dificul-
ligação da pulsão de morte com o supereu, dade em entendê-lo e trabalhá-lo na obra
o que explica sua severidade ao julgar o freudiana.
sujeito. Freud, inclusive, nunca se furtou
a enfatizar o excesso pulsional exigido O supereu lacaniano
pelo supereu, o que o levou a ressaltar Lacan, como se conhece, chegou à psi-
esta instância como decisiva no processo canálise na trilha do supereu em decor-
melancólico. rência do caso Aimée, uma paranoia de
Esta relação do supereu com o isso, autopunição, que investigou em sua tese
portanto, é essencial e sempre foi tra- de doutorado e onde recorreu aos textos
çada por Freud. Em sua obra O Ego e freudianos procurando outras respostas
o Id (1923/1996), por exemplo, afirma teóricas possíveis para este caso trabalhado
que o supereu é o representante do isso por ele. Na década de 1950 iniciou seus
e que suas origens devem ser buscadas Seminários e desde o primeiro (LACAN,
na primeira identificação. Mas, Freud 1953-1954/1986) rompeu com a ideia
diferencia esta identificação do supereu de um supereu proibidor, como herdeiro
das posteriores por ser direta e imedia- do complexo de Édipo. Separou, assim,
ta e por se efetuar antes que qualquer categoricamente o supereu, onde localiza
investimento de objeto. Freud ressalta, o mal-estar, do ideal do eu, que é de um
ainda, que se trata da mais importante estatuto completamente diferente e traz,
identificação, uma identificação ao pai inclusive, euforia: “O supereu é constran-
de sua própria pré-história pessoal. Tal gedor e o ideal do eu exaltante” (LACAN,
fato demonstra que Freud já vislumbrava 1953-1954/1986, p.123).
um momento para o supereu, anterior ao É importante ressaltar, no entanto,
Édipo, por suas ligações primitivas com que apesar de avançar sobre o entendi-
o isso. Entretanto, fica difícil entender mento conceitual do supereu, Lacan tam-
esta proposição como o momento da bém encontrou vários impasses ao fazer
fundação do supereu no sujeito, pois para suas formalizações teóricas sobre o tema.
Freud o supereu até pode ter uma ligação E segundo Gerez-Ambertín, não é possível
primeira com o isso, onde encontra sua encontrar uma formulação definitiva para
força pulsional, mas se formaria apenas o supereu em Lacan: “A contribuição laca-
em uma dupla origem: niana, para além da freudiana, permite uma
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demarcação acabada do conceito, ainda que Lacan se refere à neurose e à psicose ao


isso não nos autorize a afirmar a existência de mencionar obediência ou convicção, em
uma teoria lacaniana consolidada do supereu” uma relação de exclusão. Parece razoável
(GEREZ-AMBERTÍN, 2003, p.288). conceber a obediência como algo da neu-
O supereu em Lacan será definido rose, de quem está submetido à lei e pode
levando-se em conta as formulações que obedecê-la ou não, mas tendo invariavel-
o denominaram enquanto “supereu goza- mente que se haver com ela, enquanto
dor”. Na obra lacaniana, entretanto, é a convicção seria própria da certeza
plausível pensar que o supereu é sempre psicótica. Trata-se, portanto, do objeto
gozador, na medida em que essa instância voz enquanto supereu, que é literalmente
psíquica, em sua concepção, não teria em incorporado por ser um objeto que não
nenhum aspecto uma função de interdição pode ser assimilado pelo sujeito e assim se
e regulação da satisfação pulsional, como volta contra ele de forma mortífera. É bom
propunha Freud ao pensar o supereu em ressaltar, assim, que esse objeto a é causa
sua vertente de herdeiro do Édipo. Para de tormentos, não de desejos. O objeto a
Lacan, o supereu se dá tão somente pela causa de desejo é de outra ordem e se dá
exigência da satisfação da pulsão como um com a dissolução do complexo de Édipo
imperativo de gozo: “[...] a palavra funda- na neurose, que tem como consequência a
mental do supereu, como Lacan entende, é: extração, e não a incorporação, do objeto
goza!” (MILLER, 1997, p.169). a do campo do Outro.
Um momento privilegiado, segundo Outro momento importante para en-
Miller (1986), para se pensar o supereu tender a formalização do supereu no ensi-
enquanto real e, portanto, gozador no en- no lacaniano é o Seminário, livro 20. Nele,
sino lacaniano é o Seminário, livro 10. Ao Lacan retoma mais uma vez a questão do
desenvolver a ideia do objeto a disjunto do supereu gozador, perguntando o que é o
significante, enquanto voz, Lacan (1962- gozo. Responde que é uma instância ne-
1963/2005) irá conceber o supereu como gativa, que não serve para nada. Ressalta
uma de suas formas, um objeto de puro também que este gozo sem serventia está
gozo, que é incorporado pelo sujeito como diretamente relacionado ao supereu que o
som. Ressaltará, inclusive, que o supereu exige de maneira exclusiva e insaciável no
enquanto voz é, das cinco formas de objeto psiquismo: “nada força ninguém a gozar, se-
a formalizadas nesse Seminário, a mais não o superego. O superego é o imperativo de
original, objeto impensável, que aparece gozo – Goza!” (LACAN, 1972-1973/1985,
em um tempo primitivo da constituição p.11).
do sujeito. A voz do supereu formalizada Nesse mesmo Seminário Lacan tam-
por Lacan enquanto objeto a apresenta- bém destaca que o supereu é correlato
se no real, ou como ele diz, é um “eco no da castração. Mas como ressalta Gerez-
real” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 300). Ambertín (2003), ser correlato da castra-
É uma voz que se diferencia da voz signifi- ção faz do supereu um resíduo mortífero
cante que se encadeia na e pela linguagem, que investe contra o próprio sujeito in-
dentro de uma sonoridade que a modula, dependentemente de ele passar ou não
sendo neste caso apenas um puro som pelo Édipo, pois o supereu é correlato da
desvinculado de qualquer fonetização. castração estrutural. É, portanto, com a
Pensada dessa maneira, segundo castração estrutural, a castração da pró-
Lacan (1962-1963/2005), é uma voz que pria linguagem que não dá conta de dizer
funciona como imperativo e que, assim, tudo, que o supereu se faz como o gozo
exige obediência ou convicção. Aqui, é que escapa à simbolização por ter uma
possível interrogar e talvez até sugerir que primazia do real.
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No mesmo período, inclusive, Lacan Não parece prudente, então, pensar


retoma a ideia de um supereu voraz, não que o supereu freudiano possa ser con-
domesticado pela linguagem, mas surgindo cebido apenas como uma pura proibição
da própria falha estrutural desta, do que de gozo, ao funcionar como uma espécie
ela não consegue recobrir, em seu texto de representante da autoridade parental.
Televisão: “a gulodice pela qual Freud deno- Em sua vertente de representante do isso,
tou o supereu é estrutural – não é um efeito Freud ressalta um supereu que possui um
da civilização (...)” (LACAN, 1973/2003, lado sempre nefasto e sem perdão, que, na
p.528). Como lembra Ferrari (2005), ao desfusão pulsional, remete ao intratável do
pensarmos que a estrutura que menciona sujeito frente a essa instância. Além disso,
Lacan é a da linguagem, podemos concluir Freud (1926[1925]/1996) também formula
que a matriz do supereu já está posta desde o supereu como a resistência mais obscura,
a existência da voz do Outro primordial, que se impõe com o mais alto rigor frente ao
e que os psicóticos, que não passam pelo tratamento analítico, o que demonstra que
Édipo, dão disso a prova cabal. o autor não ignorava a satisfação pulsional
Lacan desvincula o supereu da pro- através da resistência e do prazer no des-
posta freudiana de herdeiro do complexo prazer imposto e exigido pelo supereu.
de Édipo, situando-o, não mais como O supereu como voz que vem como
moral, o que propunha Freud, mas como imperativo e tem ligação com os primei-
amoral, um agente da pulsão de morte que ros objetos que se apresentam à criança
impõe somente uma ordem: goze! Assim, é outro ponto de acordo entre Freud
para o supereu tanto faz se o sujeito goza (1923/1996) e Lacan (1962-1963/2005).
obedecendo à lei ou transgredindo-a. E, Porém, como lembra Soler (2000-2001),
além disso, trata-se de um imperativo de em Freud essa voz é herdada do pai,
gozo que jamais será cumprido, porque enquanto em Lacan, apesar de ser trans-
sempre, pela lógica superegoica, é pos- mitida pelo Outro original, não é de todo
sível exigir um pouco mais de empenho herdada do pai. Assim, é ao pensar no
ao sujeito, goze o que ele gozar. Temos, pai e em seus entrelaces com o supereu
portanto, uma gula pulsional insaciável e que as divergências teóricas entre Freud
amoral como marca registrada do supereu e Lacan aparecem e até se acentuam.
em Lacan. Freud (1923/1996), então, liga o supereu
em sua vertente de representante do isso
Uma interlocução possível a uma identificação ao pai da pré-história
De início, é interessante notar que pessoal, e Lacan (1962-1963/2005) a uma
Freud, ao pontuar o lado pulsional do voz primordial que vem do Outro, não por
supereu, suas ligações com o isso e, em identificação, mas por incorporação dessa
especial, com a pulsão de morte, faz uma voz. Além disso, em Freud, a figura do
aproximação à ideia desenvolvida por pai presente no complexo de Édipo está
Lacan de um supereu gozador e voraz. diretamente ligada ao supereu pelo viés do
Em ambos, portanto, não há como negar, ideal do eu, o que definitivamente não se
existem formulações teóricas que reme- encontra no ensino lacaniano.
tem a algo no sujeito marcado pela ação Para Freud (1923/1996), o supereu
de um supereu implacável e aniquilador, tem uma dupla origem; então, apesar de
que exige o gozo a qualquer custo: “Freud ser representante do isso, seria formado
e Lacan formulam o supereu como resíduo apenas no final do complexo de Édipo,
aniquilador do desdobramento do sujeito pois, com a interdição paterna, o pai é pos-
contra si mesmo” (GEREZ-AMBERTÍN, to pela criança no lugar do ideal do eu, e é
2003, p.225). esse ideal que representa os valores morais
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herdados pelo supereu e que serão exigi- são conceitos disjuntos, o que permite a
dos do sujeito. Lacan (1953-1954/1986), Miller (1997) situar o supereu lacaniano
contudo, desde seu primeiro Seminário apenas no campo do gozo e frisar que essa
diferencia e separa o supereu do ideal do eu. instância, em Lacan, é amoral e nunca
Assim, ele pôde afirmar que o que a criança pode ser concebida como interdição.
herda do pai, enquanto supereu, são apenas As diferenças teóricas entre Freud e
suas faltas: “É o discurso do meu pai, por Lacan, com relação ao supereu, são evi-
exemplo, na medida em que meu pai cometeu dentes, todavia, parece precipitado afirmar
faltas as quais estou absolutamente condenado que são concepções opostas. Em primeiro
a reproduzir – é o que se denomina super- lugar porque as formulações de Freud
ego” (LACAN, 1954-1955/1985, p.118). sobre o supereu representante do isso não
O ideal do eu, entretanto, como lem- desconsideram uma exigência que ordene
bra Soler, também pode ser extremamente o gozo. Além disso, mesmo que o sujeito
doloroso e capaz de gerar no sujeito um se submeta às ordens do supereu freudiano
grande incômodo psíquico: proibidor, em sua vertente de herdeiro do
complexo de Édipo, isso não pode ser con-
“O ideal do eu também pode ser esma- siderado a priori como uma pura proibição
gador, pode submergir dando ao sujeito da satisfação pulsional, na medida em que
o sentimento da imensa diferença que há a submissão às leis superegoicas também
entre o que ele queria ser, ou seja, seus pode ser extremamente carregada de gozo,
ideais e logo o que percebe apesar de tudo, como nos lembram os obsessivos.
quando tem um pouco de sensatez, de Com tudo isso, não se pretende negar
como é” (SOLER, 2000-2001, p.100. os avanços teóricos e clínicos que Lacan
Tradução nossa). conseguiu ao formular suas concepções
sobre o supereu. A proposta deste artigo
Talvez essa severidade que, de certa é apenas questionar esta ideia de um anta-
maneira, também está presente no ideal gonismo teórico onde o supereu freudiano
do eu possa ter influenciado Freud a proíbe o gozo e o lacaniano o incita, pois as
tentar uni-lo ao supereu. Freud, assim, formulações do supereu em Lacan encon-
apesar de não negar que o supereu exige tram suas bases no texto de Freud.ϕ
a satisfação pulsional a qualquer custo
– através daquilo que Lacan, posterior- THE SUPEREGO AND ITS SHADES,
mente, caracterizou como gozo –, também FROM FREUD TO LACAN
dá a ele caráter de interdição e limitação
dessa satisfação pulsional, colocando-o Abstract
como a instância que assumiria a função This article defends the idea that Freud and
paterna: “(...) o superego assume o lugar da Lacan’s formulations presented in their works
instância parental e observa, dirige e ameaça cannot be considered as opposite ideas, as sug-
o ego, exatamente da mesma forma como gest some commentators of them. In spite of it,
anteriormente os pais faziam com a criança” the two authors have different considerations
(FREUD, 1933[1932]/1996, p.68). on the concept of superego. To work with the
É a partir dessa concepção que Freud superego‘s diversities, with the differences
(1923/1996) vincula o supereu ao ideal do and the similarities in Freud’s works and in
eu e à moralidade, caracterizando-o em Lacan’s transmission was the chosen way of
alguns casos até mesmo como hipermoral. defending this idea.
Segundo Soler (2000-2001), Freud chega
mesmo a unir o supereu à consciência Keywords: Superego, Differences, Simila-
moral. Já para Lacan, ideal do eu e supereu rities, Interlocutions.
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Referências SOBRE O AUTOR

Breno Ferreira Pena


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FERRARI, I.F. Melancolia: de Freud a Lacan, a dor PUC/MG. Membro do Círculo Psicanalítico de
de existir. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Minas Gerais.
Fundamental, v. VI, p.105-115, 2005.
Endereço para correspondência:
FREUD, S. Além do princípio de prazer (1920). In: Rua Ceará, 1709/1003 – Funcionários
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30150-311 – Belo Horizonte/MG
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Tel.: (31)3221-4045
FREUD, S. O ego e o id (1923). In: Edição standard E-mail: brenopena@hotmail.com
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RECEBIDO EM: 28/06/2011


APROVADO EM: 15/07/2011

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