Você está na página 1de 53

Reflex€o sobre o culto

moder no dos deuses


fe(i)tiches
Reflex€o sobre o culto
moderno dos deuses
fe(i)tiches
6
b RAbR€BMesRReeeeeao8•RAbRqqaBb

Coordena€•o  Editoria
 Editoriall
Irma Jacinta Turolo Garcia

 Assessoria
 Assessoria Admini
Administrativ
strativa
a
Bruno Latour
Irm€ Teresa Ana Sofiatti

 TRADU‚ƒO
Sandra Moreira

Coordenaۥo
Coordena€•o da Cole€•o Filoso/ia e Pol‚tica
Luiz Eugƒnio V„scio

FILLOSOFIAOPOLfTICA
E
D I
~ i SC
Editora da U niversidade do Sagrado Cora•io
Reflex€o sobre o culto
moderno dos deuses
fe(i)tiches
6
b RAbR€BMesRReeeeeao8•RAbRqqaBb

Coordena€•o  Editoria
 Editoriall
Irma Jacinta Turolo Garcia

 Assessoria
 Assessoria Admini
Administrativ
strativa
a
Bruno Latour
Irm€ Teresa Ana Sofiatti

 TRADU‚ƒO
Sandra Moreira

Coordenaۥo
Coordena€•o da Cole€•o Filoso/ia e Pol‚tica
Luiz Eugƒnio V„scio

FILLOSOFIAOPOLfTICA
E
D I
~ i SC
Editora da U niversidade do Sagrado Cora•io
Sum…rio

Pref…cio
Pr‚logo

Primeira parte: objetos-encantados, objetos-feitos*


Como os modernos fabricam fetiches entre aqueles com quem
entram em contato
Como os modernos conseguem construir seus pr‚prios fetiches
Como os modernos esfor†am-se para distinguir os fatos e os fe-
tiches sem, contudo, consegui-lo
Como fatos e feriches confundem suas virtudes, mesmo entre os
modernos
Como a pr…tica dos fe(i)tiches escapa ‡ teoria
Como estabelecer o perfil de um antifetichista
Como representar os fe(i)tiches clivados dos modernos

Segunda parte: Trans-pavores**

Nota do tradutor >69 Como obter, gra†as aos migrantes de periferia, as divindades de
contrabando
 faitiche. Este termo, sem equiva-
O original francƒs grafa  faitiche. Como se privar da interioridade e da exterioridade
lente em portuguƒs, condensa duas fontes etimol‚gicas que Como estabelecer o "caderno de encargos" das divindades
apresentam, ao mesmo tempo, fonemas quase idƒnticos:  fait Como transferir os pavores
adj. feito; s.m. feito,
feit o, fato e f„tiche s.m. fetiche.
fetiche. Isto permite
que se estabele†a, em francƒs, um jogo sutil entre os sentidos e
1-44 Como compreender uma a†€o "superada pelos acontecimentos"
as sonoridades das palavras  faitiche
 faitiche e fƒtiche. O termo aqui suge-
fƒtiche.
rido, fe(i)tiche, busca conservar tais sutilezas, condensando,
igualmente, os sentidos dos termos em portuguƒs, "feito" e "fe- * No original: objets f€es,objets faits. Os termos se valem dos diferentes
tiche", tomados na acep†€o proposta pelo autor, onde o primei-
sentidos de dois fonemas quase idƒnticos, em francƒs:  fie adj. aquilo
que ƒ encan tado, que possui poderes m…gicos; s.f. fada, feiticeira, e fait
ro "parece remeter ‡ realidade exterior", e o segundo, "‡s cren- adj. feito; s.m. feito, fato. A tradu†€o n€o consegue captar a sutileza
†as absurdas do sujeito". A grande dificuldade, em portuguƒs, desta rela†€o. (N.T.)
consiste em reproduzir a sonoridade do termo em francƒs. ** No original: trans frayeurs. Termo que condensa os sentidos de
transferƒncias [transferes] e pavores [frayeurs] conforme designado pela
Psicologia. O termo original estabelece urn duplo sentido sonoro en-
tre transferts [transferƒncias] e trans frayeurs [trans-pavores]. (N.T.)
Pref€cio

 Tobie Nathan
Na than e sua equipe
e quipe receberam-me
rec eberam-me durante tr•s m e-
ses em suas consultas de etnopsiquiatria. Isabelle Stengers pe-
diu-me que viesse explicar em seu semin€rio o efeito desta expe-
ri•ncia, que tento definir h€ alguns anos, sobre a antropologia
dos modernos. Philippe Pignarre prop‚s-me acolher esta refle-
xƒo, muito provis„ria no …mbito de sua cole†ƒo, a fim de acele-
rar o di€logo entre aqueles que falam dos fatos e aqueles que fa-
lam dos fetiches. Aceitei a oportunidade que me ofereceram de
comparar certos efeitos da sociologia das ci•ncias com alguns
tra†os da etnopsiquiatria.
Escolhi centrar minha compara†ƒo na no†ƒo multiforme de
cren†a. De fato, nossos antepassados, adeptos do pensamento li-
 vre, ao zombarem
zombar em de nossas c ren†as extravagan
e xtravagantes
tes e, ao mesmo
tempo, das dos outros, nos legaram a ironia ‡ qual Voltaire, ap„s
tantos, soube dar o tom. Mas para ridicularizar assim todos os
cultos, para derrubar todos os idolos, seria preciso acreditar na ra-
zƒo, ˆnica for†a capaz de refutar todas essas loucuras... Como fa-
lar simetricamente de n„s como dos outros sem acreditar nem na
razƒo nem na cren†a, respeitando, ao mesmo tempo, os fetiches e
os fatos? Esforcei-me para realizar isso, de forma um tanto desa-
jeitada, definindo o agnosticismo como uma forma de nƒo acre-
ditar, em absoluto, na no†ƒo de cren†a.
Por meio de seus prudentes conselhos, Isabelle Stengers,
 Antoine Hennion,
Hennion, Emilie Hermant,
Hermant, Tobie
Tobie Nathan,
Nathan, tentaram
tornar este texto menos bizarro, mas como eu os assessorei mal,
eles quase nƒo conseguiram realizar tal tarefa, donde esse "ob-
jeto compacto" que fala de outros objetos compactos.
 Agrade†o igualmente aos pesquisadores do Cresal,
Cresal, de
Saint-Etienne, por suas ˆteis sugest‰es.

"Diz-se que os povos de pele clara que habitam a faixa se-


tentrional do Atl…ntico praticam uma forma particular de culto
‡s divindades. Eles partem em expedi†ƒo a outras na†‰es, apro-
priam-se das est€tuas de seus deuses, e as destroem em imensas
fogueiras, conspurcando-as com as palavras `fetiches! fetiches!',
que em sua lŠngua b€rbara parece significar 'fabrica†ƒo, falsida-
de, mentira'. Ainda que afirmem nƒo possuir nenhum fetiche e
ter recebido apenas de si pr„prios a missƒo de livrar as outras na-
†‰es dos mesmos, parece que suas divindades sƒo muito podero-
sas. Na verdade, suas expedi†‰es
expedi†‰es aterrorizam e assombram os po-
 vos assim
assim atacado
atacados,
s, por
por meio de deuses
deuses concorr
concorrentes,
entes, que eles
eles
chamam de Mau Din, cujo poder parece ser tƒo misterioso quan-
to invencŠvel. Acredita-se que tenham erguido v€rios templos e
que os cultos realizados no interior dos mesmos sejam tƒo estra-
nhos, assustadores e b€rbaros quanto os realizados no exterior.
No decorrer das grandes cerim‚nias, repetidas de gera†ƒo em
gera†ƒo, eles destroem seus Šdolos a golpes de martelo; ap„s o
que, declaram-se livres, renascidos, nƒo tendo a partir de entƒo,
nem ancestrais, nem mestre. Acredita-se que tirem grande be-
nefŠcio destas cerim‚nias, pois, livres de todos os seus deuses,
podem fazer, durante este perŠodo, tudo o que quiserem, combi-
nando as for†as dos quatro Elementos ‡quelas dos seis Reinos e
dos trinta e seis Infernos, sem se sentirem, de modo algum, res-
pons€veis pelas viol•ncias assim provocadas. Uma vez termina-
das tais orgias, diz-se que entram em grande desespero, e que,
aos p„s de suas est…tuas destruidas resta-lhes apenas, acreditar-se
respons…veis por tudo que aconteceu e a que chamam `humano'
ou `sujeito livre de si', ou ao contr…rio, que n€o s€o respons…veis
 por nada, e se encontram inteiramente submetidos ao que cha-
mam `natureza' ou 'objeto causa de tudo' • os termos se tradu-
zem mal na nossa lŒngua. Assim, como que aterrorizados por sua
 pr‚pria aud…cia e para pˆr fim ao seu desespero, restauram as di-
vindades Mau Din que acabaram de destruir, oferecendo-lhes
milhares de oferendas e milhares de sacrifŒcios, recolocando-as
nos cruzamentos, protegendo-as com arcos de ferro, como faze-
mos com o fundo dos ton„is. Diz-se, por fim, que forjaram um
deus ‡ sua imagem, isto „, como eles, ora senhor absoluto de
tudo que fabrica, ora inteiramente inexistente. Estes povos b…r-
 baros parecem nao compreender o que agir quer dizer." (Relat‚-
Primeiraparte
rio do conselheiro D„obalŽ, enviado ‡ China pela corte da Co-
r„ia, na metade do s„culo XVIII).
Objetos-encantados,
objetos-feitos

2.
Como os modern fabrica fetiches entre
aqueles com q u e m entram em contato

 A cren†a nƒo ‹ um estado mental, mas um efeito das rela-


†‰es entre os povos; sabe-se disso desde Montaigne. O visitante
sabe, o visitado acredita ou, ao contr€rio, o visitante sabia, o vi-
sitado o faz compreender que ele acreditava saber. Apliquemos
este princŠpio ao caso dos modernos. Por todos os lugares onde
lan†am …ncora, estabelecem fetiches, isto ‹, os modernos v•em,
em todos os povos que encontram, adoradores de objetos que
nƒo sƒo nada. Como t•m que explicar a si pr„prios a bizarria des-
ta adora†ƒo, onde nada de objetivo pod e ser percebido, eles su-
p‰em, entre os selvagens, um estado mental que remeteria ao
que ‹ interno e nƒo ao que ‹ externo. A medida em que a frente
de coloniza†ƒo avan†ava, o mundo se povoava de crentes. Ž mo-
derno aquele que acredita que os outros acreditam. O agn„stico,
ao contr€rio, nƒo se pergunta se ‹ preciso acreditar ou nƒo, mas
por que os modernos t•m tanta necessidade da cren†a para en-
trar em contato com os outros.
 A acusa†ƒo, pelos portugueses, c obertos de amuletos da Vir-
gem e dos santos, come†a na costa da frica Ocidental, em algum
lugar na Guin‹: os negros adoravam fetiches. Intimados pelos
portugueses a responder ‡ primeira questƒo: "Voc•s fabricaram
com suas pr„prias mƒos os Šdolos de pedra, de argila e de madei-
ra que voc•s reverenciam?", os guineenses responderam sem hesi-
tar
dol s que sim. Intimados a responder ‡ segunda questƒo: "Esses
de pedra, de argila e de madeira sƒo verdadeiras divindades?",
os negros responderam com a maior inoc•ncia que sim, claro, sem
o que, eles nƒo os teriam fabricado com suas pr„prias mƒos! Os como os negros, a escolher entre o que toma forma atrav‹s do
portugueses, escandalizados m as escrupulosos, nƒo querendo con- trabalho e o artifŠcio fabricado; essa recusa, ou hesita†ƒo, con-
denar sem provas, oferecem uma ˆltima ch ance aos africanos: "Vo- duz ‡ fascina†ƒo, induz aos sortil‹gios. Ainda que todos os di-
c•s nƒo podem dizer que fabricaram seus fetiches, e que estes sƒo, cion€rios etimol„gicos concordem sobre tal origem, o presi-
ao mesmo tempo, verdadeiras divindades, voc€s t€m que es colher, ou dente de Brosses, inventor, em 1760, da palavra "fetichismo",
bem um ou bem outro; a menos que, diriam indignados, voc•s agrega aqui o fatum, destino, palavra que d€ origem ao subs-
nƒo tenham miolos, e que sejam insensŠveis ao princŠpio de con- tantivo fada [f‹e], como ao adjetivo, na expressƒo objeto-en-
tradi†ƒo como ao pecado da idolatria". Sil•ncio embotado dos ne- cantado {objet-f‹e]. 2
gros que, na falta de discernimento da contradi†ƒo, provam, fren-
te ao seu embara†o, quantos degraus os separam da plena e com- Os negros da Costa Ocidental da Africa, e mesmo os do inte-
pleta humanidade... Pressionados pelas quest‰es, obstinam-se a rior das terras at‹ a Nubla, regiƒo limitrofe do Egito, t•m por
repetir que fabricaram seus Šdolos e que, por conseq•ncia, os objeto de adora†ƒo algumas divindades que os europeus chamam
de fetiches, termo forjado por nossos comerciantes do Senegal,
mesmos sƒo verdadeiras divindades. Zombarias, esc€rnio, aversƒo sobre a palavra portuguesa Fetisso (sic), isto ‹, coisa encantada,
dos portugueses frente a tanta m€  f•. divina ou que pronuncia or€culos; da raiz latina Faturo, Fanam,
Para designar a aberra†ƒo dos n egros da Costa da Guin‹ e Fari. (p.15)
para dissimular o mal-entendido, os portugueses (muito cat„li-
cos, exploradores, conquistadores, at‹ mesmo mercadores de Qualquer que seja a raiz preferida, a escolha cominat„ria
escravos), teriam utilizado o adjetivo feitifo, origin€rio de  feito, permanece; escolha evocada pelos portugueses e recusada pelos
particŠpio passado cio verbo fazer, forma, figura, configura†ƒo, negros: "Quem fala no or€culo ‹ o humano que articula ou o ob-
mas tamb‹m artificial, fabricado, factŠcio, e por fim, fascina- jeto-encantado? A divindade ‹ real ou artificial?" Œ "Os dois",
do, encantado.' Desde o princŠpio, a etimologia recusa-se, respondem os acusados, sem hesitar, incapazes que sƒo de com-
preender a oposi†ƒo. Œ "Ž preciso que voc•s escolham", afirmam
os conquistadores, sem menor hesita†ƒo. As duas raŠzes da pala-
 vra indicam b em a ambigidade do objeto que fala, que • fabri-
1. L•-se no dicion€rio  Aur•lio de portugu•s as seguintes defini- cado ou, para reunir em um a s„ expressƒo os dois sentidos, que
†‰es (observar que em portugu•s  feiti‚o  vem do franc•s, por in-  faz falar. Sim, o fetiche ‹ um fazer-falar.
term‹dio do presidente de Brosses): Pena que os africanos nƒo tenham devolvido o elogio. Te-
- feiti†o [de feito + i†o}; 1. adj. artificial, factŠcio; 2. posti†o, fal-
so; 3. maleficio de feiticeiros; 4. vet bruxaria; 5. ver fetiche; 6. ria sido interessante que eles perguntassem aos traficantes por-
encanto, fascina†ƒo, fascinio. Prov‹rbio. "virar o feiti†o contra o tugueses se eles haviam fabricado seus amuletos da Virgem ou
feiticeiro";
- feitio [de feito + io]; forma, figura, configura†ƒo, fei†ƒo;
- fetiche; 1. objeto animado ou inanimado, feito pelo ho mem ou
produzido peia natureza, ao qual se atribui poder so brenatural e 2. Brosses, Charles de. Du culte des dieux f•tiches (1760), reedi†ƒo
se presta culto, Šdolo, manipanso; [depois, sƒo os mesmos signi- Corpus des oeuvres de philosophic. Fayard, Paris: 1988. A eti-
ficados do franc•s]. mologia de Charles de Brosses nƒo ‹ retomada em nenhum ou-
Observar o aspecto admir€vel do italiano, que d€ ao mesmo verbo tro lugar. Trata-se de uma contamina†ƒo entre as palavras fadas
 fatturƒre o sentido de: 1. falsificar, adulterar; 2. faturar; 3. enfeiti†ar. e fetiches?

. ............. ...
se estes caŠam diretamente do c‹u. Œ "Cinzelados com arte por zelo indignado de Mois‹s contra o veado de ouro. "Os Šdolos t•m
nossos ourives", teriam respondido orgulhosamente. Œ "E por olhos e nƒo v•em, ouvidos e nƒo escutam, bocas e nƒo falam."
isso eles sƒo sagrados?", teriam entƒo perguntado os negros. Quanto aos guineenses, eles nƒo percebem bem a diferen†a en-
"Mas claro, benzidos solenemente na igreja Nossa Senhora dos tre o fetiche derrubado e o (cone colocado em seu lugar e espa-
Rem‹dios, pelo arcebispo, na presen†a do rei". -- "Se voc•s reco- †o. Relativistas avant la lettre, pensam que os portugueses agem
nhecem entƒo, ao mesmo tempo, a transforma†ƒo do ouro e da como eles. Ž justamente essa indiferen†a, essa incompreensƒo
prata no cadinho do ourives, e o car€ter sagrado de seus (cones, que os condena aos olhos dos portugueses. Esses selvagens nƒo
por que nos acusam de contradi†ƒo, n„s que nƒo dizemos outra discernem nem mesmo a diferen†a entre "latria" e "dulia", entre
coisa? Para feiti†o, feiti†o e meio." Œ "Sacril‹gio! Ningu‹m pode seus fetiches e os (cones santos de seus inv asores; recusam-se com- 
confundir Šdolos a serem destruŠdos com (cones a serem louva-  preender o abismo que separa a constru†ƒo de um artefato feito
dos", teriam respondido os portugueses, indignados, uma se- pelo homem e a realidade definitiva daquilo que ningu‹m ja-
gunda vez, com tanta imprud•ncia. mais construiu. Mesmo a diferen†a entre a transcend•ncia e a
Podemos apostar, contudo, que eles teriam apelado a um iman•ncia parece escapar-lhes... Como nƒo v•-los como primi-
te„logo para livr€-los do embara†o no qual os mergulhara um tivos, e o fetichismo como urna religiƒo primitiva, visto que es-
pouco de antropologia sim‹trica. Teria sido necess€rio um s€bio ses selvagens persistem diabolicamente no erro?
sutil para ensin€-los a distinguir "latria" e "dulia". "As imagens
religiosas", teria pregado o te„logo, "nƒo sƒo nada por si pr„prias,
j€ que apenas evocam a lembran†a do modelo que deve ser, so- 3. Pietz resume de maneira exce ente a inven†ƒo do presidente de
l

mente ele, objeto de uma adora†ƒo legŠtima, enquanto que seus Brosses: "Fetishism was a radically novel category: it offered an
 Šdolos monstruosos seriam, segundo suas declara†‰es, as pr„prias atheological explanation of the origin of religion, one that accoun-
divindades, que voc•s confessam fabricar impunemente." Por ted equally well with theistic beliefs and nontheistic superstitions;
it identified religious superstition with false ca,]c2l reasoning
que se comprometer, ali€s, com discuss‰es teol„gicas com sim-
about physical nature, making people's relation to material ob-
ples primitivos? Envergonhado por tergiversar, tomado po r um jects rather than to God the key question for historians of reli-
zelo sagrado, o te„logo teria derrubado os Šdolos, queimado os fe- gion and mythology; and it reclassified the entire of ancient and
tiches e consagrado, em seguida, nos casebres desinfetados, a Ver- contemporary religious phenomema (...). In short the discourses
dadeira Imagem do Cristo sofredor e de sua Santa Mƒe. about fetishism displaced the great object of Enlightenment cri-
Mesmo sem a ajuda deste di€logo imagin€rio, compreen- ticism Œ religion Œ into a causative problematic suited to its own
demos bem que os negros id„latras nƒo se op‰em aos portugue- secular cosmology, whose "reality principle" was the absolute
split between the mechanistic-material realm of physical nature
ses sem imagens. Vemos povos cobertos de amuletos ridiculari- (the blind determnisms of whose events excluded any principle
zar outros povos cobertos de amuletos. Nƒo temos de um lado of teleological causality, that is, Providence) and the end-oriented
icon„filos e do outro iconoclastas, mas de iconodˆlios e mais human realm of purposes and desires (whose free intentionality
iconodˆlios. Entretanto, o mal-entendido persiste, pois todos se distinguished its events as moral action, properly determined by
recusam a escolher os termos que lhes sƒo pr„prios. Os portu- rational ideals rather than by the material contingency of merely
gueses recusam-se em hesitar entre os verdadeiros objetos de pieda- natural beings). Fetishism was the definitive mistake of pre-en-
lightened mind: it superstitiously attributed intentional purpose
de e as m€scaras patibulares cobertas de gordura e de sangue dos and desire to material entities of the natural world, while allowing
sacrificios. Cada portugu•s, na Costa do Ouro, ‹ tomado pelo social action to be determined by the (clerically interpreted) wills

~>~
Trƒs s„culos mais tarde, no Rio de Janeiro contempor‰neo, Eu fui raspado (iniciado) para Osala em Salvador m as  preci-
mesti†os de negros e de portugueses obstinam-se em dizer, no sei assentar Yewa (que pediu atrav„s da divina†€o para ser assen-
mesmo tom, que suas divindades s€o, ao mesmo tempo, cons- tada) e m€e Aninha (sua iniciadora) me mandou para o Rio de
truŒdas, fabricadas, "assentadas" e que s€o, por conseq†„ncia, reais.
Janeiro porque j… na „poca Yewa era por assim dizer um Orisa
Vejamos como a antrop‚loga Patricia de Aquino compila e tra-
em via de extin†€o. Muitos j… n€o conheciam mais os oro [Yo-
ruba para palavras e ritos] de Yewa.
duz o testemunho dos iniciados dos candombl„s:
Eu sou de Oba, Oba quase que j… morreu porque ningu„m
sabe assentar ela, ningu„m  sabe fazer, ent€o eu vim para c… (nes-
te candombl„) porque aqui eu fui raspada e a g ente n€o vai es-
quecer os awo [segredos em Yoruba]  para f azer ela."*

of contingently personified things, which were, in truth, merely


the externalized material sites fixing people's own capricious li- O antifetichismo que repousa em n‚s n€o pode suportar o
 bidinal imaginings (fancy in the language of that day )". Wil-
despudor destas frases. Escondam essa fabrica†€o, esse fazer, que
liam  Fetis hism a s Cultura l Disc ourse. Pietz, Cornell University
Press, Ithaca: 1993. p. 138. (0 fetichismo era uma categoria n‚s n€o conseguirŒamos ver! Como vocƒs podem confessar de ma-
radicalmente nova: oferecia uma explica†€o ateol‡gica da origem neira t€o hip‚crita que „ preciso fabricar, assentar, situar, construir
da religi€o que levava em conta tanto as cren†as teŒsticas quanto essas divindades que se apoderam de vocƒs e que, entretanto, lhes
as supersti†‹es n€o-teŒsticas; associava a supersti†€o religiosa escapam? Vocƒs ignoram ent€o a diferen†a entre construir o que
com um falso raciocŒnio causal sobre a natureza fisica, fazendo da  prov„m de vocƒs e receber o que prov„m de outro lugar qualquer?
rela†€o das pessoas com objetos materiais, e n€o com Deus, a
Por todos os lugares onde desembarcam, os portugueses,
quest€o-chave para os historiadores da religi€o e da mitologia; e
reclassificava todos os fenˆmenos religiosos antigos e contem- chocados com o mesmo despudor, tiveram que compreender o fe-
 por‰neos (...). Em resumo, os discursos sobre fetichismo substi- tichismo relacionando-o, ora ‡ ingenuidade, ora ao cinismo. Se vo-
tuŒram o grande objeto da crŒtica ilurninista • a religi€o • por cƒs reconhecem que fabricam inteiramente seus fetiches reconhe-
uma problem…tica causativa que se adequava ‡ sua pr‚pria cos- cem, ent€o, que manejam os fios como faria um marionetista.
mologia secular, cujo princŒpio de realidade era a absoluta sepa-
ra†€o entre a esf era material-mecanicista da natureza fŒsica (os
determinismos cegos cujos eventos excluŒam qualquer princŒpio
de causalidade teleol‚gica, ou seja, a Providƒncia) e a esfera
humana de prop‚sitos e desejos (cuja intencionalidade livre dis- 4. Patricia de Aquino (comunica†€o pessoal). Agrade†o-lhe por
tinguia seus eventos como a†€o moral, propriamente determina- ter me autorizado a utilizar estes dados extraŒdos de seu DEA (Di-
da pelos ideais racionais e n€o pela contingƒncia material de  pl‰me d' estudes approfondies / Diplomas de estudos aprofunda-
meros seres naturais). O fetichismo foi o erro definitivo da mente dos) " La construction de la personne dans le candombl„", Rio de
 pr„-iluminista: ele atribuŒa, de modo supersticioso, prop‚sito e Janeiro: Museu Nacional. Ver tamb„m Patricia de Aquino; Jos„
desejo intencionais ‡s entidades materiais do mundo natural, ao Flavio Pessoa de Barros (1994), "Leurs noms d'Afrique en terre
mesmo tempo em que permitia que uma a†€o social fosse deter- d'Am„rique",  Nouvelle revue d 'ethnopsychiatrie , vol. 24, p. 111-25.
minada pelas vontades (clericamente interpretad as) de coisas "Um Orisa em via de extin†€o" „ uma express€o da ecologia que
contingentemente personificadas que eram, na verdade, mani- designa as esp„cies em via de desaparecimento!
festa†‹es concretas que estabeleciam as pr‚prias fantasias libidi- * Em portuguƒs no original. As palavras entre parƒnteses s€o do
nosas e extravagantes das pessoas. original francƒs. (N.T.)
 Voc•s os manipulam furtivamente para impressionar os outros. nƒo ‹ nem inteiramente aut‚nomo nem inteiramente construi-
Manipuladores das cren†as populares, voc•s se juntam portanto, do, a no†ƒo de cren†a quebra em duas partes essa opera†ƒo deli-
a essa legiƒo de sacerdotes e de falsificadores que comp‰em, aos cada, essa ponte fr€gil lan†ada entre fetiche e fato, e permite aos
olhos dos anticlericais, a longa hist„ria das religi‰es. Ou entƒo, modernos ver em todos os outros povos, crentes ing•nuos, h€-
se voc•s se deixam surpreender por suas pr„prias marionetes, e beis manipuladores ou cŠnicos que iludem a si pr„prios. Sim, os
acrescentam f‹ aos disfarces das mesmas (ou antes, aos seus pr„- modernos recusam-se a escutar os idolos, quebram-nos como co-
prios), isto prova uma tal ingenuidade que voc•s engrossarƒo as cos, e de cada metade, retiram duas formas de logro: pode-se en-
massas eternamente cr‹dulas e ludibriadas que formam, sempre ganar os outros, pode-se enganar a si pr„prio. Os modernos acre-
aos olhos lˆcidos, a massa de manobra da hist„ria das religi‰es.' ditam na cren†a para compreender os outros; os adeptos nƒo
Da boca dos Fontenelle, dos Voltaire, dos Feuerbach, sur- acreditam na cren†a nem para compreender os outros nem para
ge sempre a mesma escolha cominac„ria: "Ou bem voc•s mani- compreender a si pr„prios. PoderŠamos recuperar para nosso uso
pulam cinicamente as cordas, ou bem se deixam enganar". Mais estas maneiras de pensar?
ingenuamente ainda: "Ou bem isso ‹ construŠdo por voc•s ou
bem ‹ verdade".6 E os adeptos raspados do candombl‹ a insisti-
rem tranquilamente: " Eu sou de Dada mas como nƒo se sabe  fa-
zer Dada, a gente entrega a Sango ou Osala pra eles pegarem a
cabe†a da pessoa"*... Enquanto os adeptos designam algo que

5. Rejeitando a cren†a ing•nua na cren†a ing•nua, Paul Veyne


nƒo escapa a essa alternativa, senƒo fazendo de codas as cultu-
ras, criadoras demiˆrgicas de mundos incomensur€veis sem re-
la†ƒo entre si, e sem rela†ƒo com as coisas , les Grecs ont-ils cru
leurs mythes? Essai  ser I'imagination constituaete, Paris: Le
Seuil: 1983. "Basta dar ‡ imagina†ƒo constituinte dos homens
esse poder divino de constituir, isto •,de criar sem modelo pr‹-
 vio" (p.137). A diferen†a e ntre saber e crer, m ito e razƒo, en-
contra-se abolida, mas ao pre†o de uma virada geral da imagi-
na†ƒo criadora, ligada, ali€s, sem ambigidade ‡ vontade de
pot•ncia nietzschiana. "Elas as doutrinas mŠticas] prov•m da
mesma capacidade organizacional das obras da natureza; uma
€rvore nƒo ‹ verdadeira nem falsa; ela ‹ complexa" (p. 132). So-
bre o modelo do "poder divino", que inspira os mais implac€-
 veis anti-religiosos , ver a ˆltima parte.
6. Ž a "m€ f‹" do 'canalha" sartriano, permitindo, contudo, ope-
rar a passagem de uma escolha a outra. Veremos mais adi ante o
que pensar destes argumentos.
* Em portugu•s no original. (N.T.)
capitulo 2
Como os moderrAds:conseguem construir
seus pr, fetiches

Se aceitamos nos deixar instruir por aqueles que nƒo acredi-


tam na cren†a, veremos que os modernos nƒo acreditam nesta mes-
ma cren†a mais do que os neg ros da Costa. Se os brancos acusam
os selvagens de fetichismo nƒo sƒo, por isso, ing•nuos antifetichis-
tas. O acreditar seria passar de Cila a Caribde. TerŠamos salvado os
negros da cren†a Œ transformada agora em ac usa†ƒo feita pelos
brancos sobre algo que nƒo compreendiam Œ mas mergulharŠamos
os brancos em um abismo de ingenuidade. Estes, acreditariam que
os outros cr•em! N„s tomarŠamos os brancos po r negros! O que
acabamos de fazer para os fetichistas anteriormente, precisaria ser
feito agora para os antifetichistas, e nos mostrarmos tƒo caridosos
com uns como fomos com outros.
Ora, assim como a acusa†ƒo de fetichismo nƒo descreve em
nada a pr€tica dos negros da Costa, a reivindica†ƒo de antifeti-
chismo nƒo leva em conta, em absoluto, a pr€tica dos brancos.
Por todos os lugares onde instalam suas m€quinas de destruir fe-
tiches, os brancos recome†am, como os negros, a produzir os
mesmos seres incertos, os quais nƒo saberŠamos dizer se sƒo cons-
truŠdos ou compilados, imanentes ou transcendentes.' Conside-
remos, por exemplo, tudo do que ‹ capaz o objeto fetiche, acu-
sado, entretanto, de nada fazer.

o magnŠfico capitulo sobre o martelo do escultor em Ser-


7.  Ve r
res Michel, Statues. Paris: Fran†ois Boutin, 1987, p. 195 s.  Ao fa-
lar da Pieta, de Michelangelo, ele escreve: "Os furos nos p‹s e

5
Como definir um antifetichista? Ž aquele que acusa um ou-  nada senƒo aquilo que o homem faz dele, ele acrescenta, contudo, al-
tro de ser fetichista. Qual • o conteˆdo desta denˆncia? O fetichis- guma coisa: ele inverte a origem da a†ƒo, ele dissimula o trabalho hu-
mo, segundo a acusa†ƒo, estaria enganado sobre a origem da for†a. mano de manipula†ƒo, ele transforma o criador em criatura.e
Ele fabricou o Šdolo com suas mƒos, com seu pr„prio trabalho hu- Mas o fetiche faz ainda mais: ele modifica a qualidade da
mano, suas pr„prias fant asias humanas, mas ele atribui este traba- a†ƒo e do trabalho humanos. Entretanto, ao revelar que s„ a
lho, estas fantasias, estas for†as ao pr„prio objeto por ele fabrica- a†ƒo do homem d€ voz e for†a aos objetos, o pensador critico
do. O fetiche, aos o lhos do menor dos antifetichistas, age, se as- deveria inverter a origem inversa da for†a e, colocar fim, de
si m podemos dizer, ‡ maneira de um retroprojetor. A imagem ‹ uma vez por todas, ‡ ilusƒo dos fetiches. Aquele que acreditas-
produzida pelo professor que colocou sua transpar•ncia no vidro se (ingenuamente) escutar vozes, se transformaria em ventrŠlo-
fosco da l…mpada, mas ela "parece" jorrar da tela em dire†ƒo ao au- quo. Ao tomar consci•ncia de seu jogo duplo, ele se reconcilia-
dit„rio, como se nem o professor, nem o retroprojetor tivessem ria consigo mesmo. Aquele que acreditasse depender das divin-
nada a ver com isso. Os espectadores, fascinados, "atribuem ‡ ima- dades, perce beria que est€, na verdade, sozinho com sua voz in-
gem uma autonomia" que ela nƒo possui. Derrubar o fetichismo terior, e que aquilo que as divindades possuem, foi dado apenas
equivale, portanto, a inverter a inversƒo, a retificar a imagem e por ele. Enfim desenganado, ele veria que nƒo h€ nada a ser vis-
restituir a iniciativa da a†ƒo ao seu verdadeiro mestre. No cami- to. Ele teria dado fim ‡ sua aliena†ƒo Œ mental, religiosa, eco-
nho, contudo, o verdadeiro mestre desapareceu no trajeto! O ob- n‚mica, polŠtica -- visto que nenhum alien viria mais parasitar
jeto que nƒo era nada realiza algo. Quanta ‡ o rigem da a†ƒo, eis a constru†ƒo de suas mƒos calejadas e de seu espirito criador.
que ela se perde em uma disputa terrivelmente emaranhada. Entusiasmado pela denˆncia crŠtica o homem se encontraria,
 Assim que o antifetichista desvenda a inefic€cia do Šdolo, ele enfim, ˆnico senhor de si pr„prio, em um mundo para sempre
mergulha, na verdade, em urna contradi†ƒo da qual nƒo sai mais. esvaziado de seus Šdolos. O fogo que Prometeu furtara aos deu-
No momento em que se quer que o fetiche nƒo seja nada, eis que ses, o pensamento crŠtico furtaria ao pr„prio Prometeu. O fogo
o mesmo come†a a agir e a deslocar tudo. Ele ‹ capaz, em particu- teria origem apenas no homem, e somente nele.
lar, de inverter a origem da for†a. Melhor ainda, j€ que, segundo os Somente nele? Nƒo totalmente, e ‹ aŠ que as coisas se co m-
antifetichistas, o efeito do fetiche s„ tem efic€cia se seu fabricante plicam novamente. Tal qual um escrivƒo que tem que dividir a
ignorar a origem do mesmo, ele deve ser capaz de dissimular total- heran†a de um intestado, o pensador crŠtico nƒo sabe jamais a
mente sua pr„pria fabrica†ƒo. Gra†as ao fetiche, com um s„ golpe quem restituir a for†a, atribuŠda, por erro, aos fetiches. E neces-
de condƒo, seu fabricante pode se metamorfosear de manipulador s€rio devolv•-la ao individuo, senhor de si como do Universo, ou
cŠnico em enganador de boa f‹. Assim, ainda que o fetiche nƒo seja a uma sociedade de indivŠduos? Caso responda-se que ‹ preciso
devolver ‡ sociedade o que a ela pertence, perde-se novamente o
dominio. A heran†a dos fetiches, agora recuperada, dispersa-se
em uma nuvem de herdeiros, todos eles, legŠtimos. Ap„s ter in-
nas mƒos do Cristo morto, a enorme chaga em seu flanco, as  vertido a inversƒo da ido latria, ap„s ter "retroprojetado" a retro-
marcas de lan†as ou de pregos cravados com martelo, diferem
dos ferimentos infligidos a martelo sobre a face de m€rmore da
mƒe de m€rmore, por um louco perigoso, no domingo de Pente-
costes de 1972, ou do golpe desferido em Mois‹s pelo pr„prio es- 8. Retomo aqui o argumento esbo†ado por Hennion, Antoine;
cultor, lan†ando sobre ele o martelo e cinzel, ordenando-o a fa- Latour, Bruno (1993). "Objet d'art, objet de science. Note sur
lar? Ou dos golpes que o talharam?", p.203. les li mites de l'anti-f‹tichisme". Sociologic de tart, v. 6, p. 7-24. 4

7
proje†ƒo da for†a, nƒo • comigo, o individuo trabalhador, que se O mundo sem fetiche ‹ povoado por tantos aliens quanto o
pode deparar de imediato, mas com um grupo, urna multidƒo, mundo dos fetiches. A inversƒo da inversƒo d€ acesso a um uni-
uma coletividade. Sob a fantasia do fetiche, agora dissipada, o  verso tƒo inst€vel quanto o mundo pretensamente invertido pela
humano esclarecido percebe que, por isso, nƒo est€ mais sozi- cren†a ilus„ria nos fetiches. Os antifetichistas, tanto quanto os fe-
nho, que divide sua exist•ncia com uma multidƒo de agentes. O tichistas, nƒo sabem quem age e quem se engana sobre a o rigem
alien que se acreditava eliminado, retorna sob a forma terrivel- da a†ƒo, quem ‹ senhor e quem ‹ alienado ou possuŠdo. Assim,
mente complicada da multidƒo social. O ator humano nada fez longe de ser esvaziado de sua efic€cia, mesmo entre os modernos,
senƒo trocar uma transcend•ncia por outra, como se v• bem em o fetiche parece agir constantemente para deslocar, confundir, in-
Durkheim, nas mƒos do qual, o social aparece um pouco menos  verter, perturbar a origem da cren†a e a certeza de um domŠnio
opaco que a religiƒo que explica e que ofusca. Marx, em sua cƒ- possŠvel. A for†a que se quer retirar ao fetiche, ele a recupera no
lebre defini†ƒo do fetichismo e da mercado ria, ilustra, primoro- mesmo instante. Ningu‹m acredita. Os brancos nƒo sƒo mais an-
samente, como prolifera aquilo que, entretanto, nada faz: tifetichistas do que os negros sƒo fetichistas. Acontece que, so-
mente os brancos estabelecem Šdolos por toda parte, entre os outros,
 somente uma determinada rela†€o social dos homens entre para em seguida destrui-los, multiplicando por toda parte, entre
si que assume a forma fantasmag‚rica de uma rela†€o entre as
coisas. Para encontrar uma analogia para este fenˆmeno, temos
eles mesmos, os operadores que disseminam a origem da a†ƒo. Sim, os
de ir busc…-la na regi€o nebulosa do mundo da religi€o. Aqui, os antifetichistas, como o s fetichistas, prestam aos idolos um culto
 produtos do c„rebro humano tƒm o aspecto de figuras autˆno- bastante estranho, que precisamos esclarecer."
mas, dotadas de vida pr‚pria, que mantƒm rela†‹es entre si e
com os homens. D…-se o mesmo com os produtos da m€o huma-
na no mundo da mercadoria.  o que chamo por fetichismo, que
adere aos produtos do trabalho, tƒo logo se apresentam como I1. Ao fazƒ-lo, dou continuidade ao movimento iniciado por
Boltanski Luc; Thevenot, Laurent.  De la justification, les Economie s
mercadorias, fetichismo insepar…vel deste modo de produ†€o. 9
de la grandeur, Paris: Gallimard, 1991, que conduz da sociologia
critica ‡ sociologia da crŒtica. Pode-se dizer mesmo que estendo
 A antropologia econ‚mica ‹ testemunha disso de forma bas- a an…lise reflexiva feita por alguns antrop‚logos, sobre o pr‚prio
tante eloqente; as rela†‰es entre os homens, fetichizadas ou nƒo conceito de fetiche. A palavra traz aos antrop‚logos m…s lem-
por interm‹dio das mercadorias, nƒo parecem mais simples nem  bran†as, e n€o aparece nem mesmo em Bonte, Pierre; Izard, Mi-
mais transparentes que as rela†‰es entre as divindades. 10 Se as mer- chel (Org.).  Dictionnaire de l'e thnologie et de 1'anthropolo gie, Paris:
cadorias perdem sua aparente autonomia, ningu‹m recupera, em PUF, 1991. 0 pequeno livro, de Alfonso Iacono,  Le Fe tichisme.
 Histoire d'un concep t, Paris: PUF, 1992, reconstr„i a hist‚ria do fe-
fun†ƒo disso, o dominio, muito menos o trabalhador incans€vel. tichismo em torno da no†€o de recusa do outro e desconstr‚i em
detalhes o livro de Charles de Brosses. Contudo, como na obra de
Pietz, William (1993). op.cit., ele n€o saberia nos guiar muito
longe, visto que ele nunca questionou as virtudes do antifetichis-
9. Marx, Karl. le Capital, Paris: p. 69. t, 1. Garnier-Flammarion. mo. Se ambos criticam, com raz€o, o mito racista de uma reli-
10. Ver, por exemplo, Thomas, Nicholas.  Entang led O bjects gi€o primitiva e as extravag‰ncias sistem…ticas de Auguste Com-
 Exchang e, Mate rial Culture and Colon ialism in the Pac ific. Univer- te, esses dois livros tomam com a maior seriedade e sem o menor
sity Press, Cambridge, Mass: Harvard 1991, e sobretudo o cl…s- distanciamento, o partido de Marx e de Freud. N as m€os destes,
sico Polanyi,  Karl. la Grande Transformation. Aux origines  politi- as ciƒncias sociais, Šnicas livres das fantasi as da cren†a, julgam
ques et ƒconomiques de noire temps. Paris: Gallimard, 1983. (1945). todos os outros, negros e brancos.
cap†tulo 3
Como osmodernos r 
zn~ s o
m-se para distinguir
os fatos e os fetiches , contudo, consegui-lo

Por que os modernos devem recorrer a formas complica-


das a fim de acreditar na cren†a ing•nua dos outros ou no seu
pr„prio saber sem cren†a? Por que devem fazer como se os ou-
tros acreditassem nos fetiches enquanto eles pr„prios pratica-
riam o mais austero antifetichismo? Por que nƒo confessar sim-
plesmente que nƒo h€ nem fetichismo nem antifetichismo, e re-
conhecer a efic€cia singular desses "deslocadores de a†ƒo" aos
quais nossas vidas estƒo intimamente ligadas?" Porque os mo-
dernos estƒo muito ligados a uma diferen†a essencial entre fa-
tos e fetiches. A cren†a nƒo tem por objetivo nem explicar o es-
tado mental dos fetichistas nem a ingenuidade dos antifetichis-
tas. Ela est€ ligada a algo inteiramente diverso: a distin†ƒo do
saber e da ilusƒo, ou antes, como veremos mais adiante, a sepa-
ra†ƒo entre uma forma de vida pr€tica que nƒo faz essa distin-
†ƒo, e uma forma de vida te„rica que a mant‹m.
Olhemos mais de perto como funciona o duplo repert„rio
que a no†ƒo de cren†a est€ encarregada de manter em comparti-

12. 0maior interesse do livro de Cassin, Barbara. l'Effet sophis- 


tique. Paris: Crallimard, 1995, ‹
descrever positivamente os sofis-
tas, que nƒo teriam jamais acreditado na cren†a, ao inv‹s de rea-
bilit€-los, segundo a maneira usual, imputando-lhes sua liga†ƒo
aos dissimulados. Ela desenha a "cena primitiva" onde se que-
brou (pela primeira vez?) a sinonŠmia entre o que ‹ fabricado e o
que ‹ real.

i
mentos separados. A partir do momento em que o antifetichis- plo jogo do ator que, "na verdade", projeta sobre um objeto iner-
ta denunciou a cren†a ing•nua, com o intuito de revelar o traba- te a for†a de sua pr„pria a†ƒo. 13
lho do ator humano, projetado, por erro, sobre Šdolos de madei- Poderiamos acreditar que o trabalho de denˆncia termina-
ra e de pedra, denunciar€, por conseguinte, a cren†a ing•nua que ra. S„brio, liberado e libertado, o sujeito agora retoma a energia
o ator individual humano acredita poder atribuir ‡ sua pr„pria que lhe pertencia e recusa, ‡s suas c onstru†‰es imagin€rias, a au-
a†ƒo. Nada f€cil, aos olhos dos antifetichistas, comportar-se tonomia que elas nunca souberam possuir. Entretanto, o trabalho
como um ator comum! No seu ritmo, nƒo se consegue jamais de denˆncia nƒo p€ra por aŠ, e ‹ retomado em seguida, mas, no
acompanhar a dan†a. Se voc•s acreditam ser manipulados pelos outro sentido. O sujeito humano livre e aut‚nomo se vangloria um
 ‘dolos, vamos m ostrar-lh es que voc•s os criaram com suas pr„- pouco r€pido demais de ser a causa primeira de codas as suas pro-
prias mƒos; mas se voc•s se vangloriam orgulhosam ente de po- je†‰es e manipula†‰es. Felizmente, aqui ainda, o pensador crŠti-
der acreditar tƒo livremente, vamos mostrar-lhes que voc•s sƒo co, infatig€vel, revela, desta vez, o trabalho da determina†ƒo sob
manipulados por for†as invisŠveis e organizados ‡ sua pr„pria re- as ilus‰es da liberdade. O sujeito acredita-se livre, quando "na
 velia. O pensador crŠtico triunfa duplamente sobre a ingenuidade  verdade" ‹ levado de um lado para outro.
consumada do ator comum: ele v• o trabalho invisŠvel que o ator
projeta sobre as divindades que o manipulam, mas v• tamb‹m Den‡ncia cr†tica: a forˆo ‰ projetada
as for†as invisŠveis que movimentam o ator quando ele acredita pelo ator sobre um objeto que n€o faz nada

estar manipulando livremente! (O pensador crŠtico, filho das


Luzes, v•-se bem, nƒo p€ra de manipular os invisiveis; o grande
libertador multiplica os aliens).
Como os modernos fazem para enquadrar a a†ƒo dos atores  Ator humano
revelado como
Objeto tomado
como projeˆ€o
comuns por meio de duas denˆncias tƒo contradit„rias? ’ que, ao livre monipulador fetiche

inv‹s de utilizar um s„ operador, eles utilizam dois: o objeto-encan- 


tado de um lado, o objeto feito do outro. Quando denunciam a cren-
†a ing•nua dos atores nos fetiches, os modernos se servem da a†ƒo Crenˆa ing‰nua no forˆa do
humana livre, centrada no sujeito. Mas quando denunciam a cren- objeto sobre o ator humano

†a ing•nua dos atores na sua pr„pria liberdade subjetiva, os pen-


sadores crŠticos se servem dos objetos tal como sƒo conhecidos pe- Figura 1: a primeira denˆncia critica inverte as dire†‰es da cren†a, re-
 velando, sob a for†a do objeto, a proje†ƒo de seu pr„prio trabalho por
las ci•ncias objetiv as que eles estabeleceram e nas quais confiam um ator humano livre e automanipulado.
plenamente. Eles alternam entƒo, os objetos-encantados e os obje-
tos-feitos, a fim de tornarem a se mostrar duplamente superiores aos
ing•nuos comuns.
Como a situa†ƒo arrisca complicar-se rapidamente, um es-
quema poder€ nos servir de guia. Co nsideremos, inicialmente, a
primeira denˆncia crŠtica. O ator humano cr•-se determinado 13. Retomo aqui o argumento desenvolvido, de maneira mais
pela for†a dos objetos, for†a esta que lhe prescreve um comporta- aprimorada, por Hennion, Antoine. la Passion musicale. Une socio-
mento. Felizmente, o pensador critico controla e denuncia o du- logia de la mediation. A.-M. Paris: M‹taili‹, 1993. p. 227 s.

33

PSIC€LO€IA - UFK[sA
Para explicar tais determina†‰es, recorreremos aos fatos sujeito; quatro listas que nƒo devem se confundir sob hip„tese al-
objetivos tais como nos sƒo revelados pelas ci•ncias naturais, hu- guma. Dito de maneira brutal, o pensador crŠtico colocar€ na lista
manas ou sociais. As leis da biologia, da gen‹tica, da economia, de objetos-encantados tudo aquilo em que ele nƒo acredita mais † a
da sociedade, da linguagem, vƒo calar o sujeito que se acredita- religiƒo, • claro, mas tamb‹m a cultura popular, a moda, as supers-
 va senhor de seus atos e ge stos. ti†‰es, a mŠdia, a ideologia, etc. Œ e, na lista dos objetos-causa, tudo
aquilo em que acredita convictamente † a economia, a sociologia, a
Crenˆa ing‹nua no forˆa do ator
humono, capaz de projetar livremente
lingŠstica, a gen‹tica, a geografia, as neuroci•ncias, a mec…nica,
etc. Reciprocamente, ele vai compor seu p„lo sujeito, inscrevendo
no cr‹dito todos os aspectos do sujeito pelos quais tem considera-
†ƒo Œ responsabilidade, liberdade, inventividade, intencionalidade,
Ator humano
Objeto tomado
como causalidade
etc. Œ e no d‹bito, tudo o que lhe parece inˆtil ou male€vel Œ os es-
manipulado pelas
determinaˆŒes
objetiva tados mentais, as emo†‰es, os comportamentos, as fantasias, etc.
objetivas Segundo os pensadores, a extensƒo, como o conteˆdo das listas, irƒo
 variar, mas nƒo essa quadriparti†ƒo.
Den‡ncia critica: a forˆo cujo ator humano acreditava-se
dotado, prov‰m das determinaˆŒes reconhecidas pelas ci‹ncias P“LO Primeiro denˆncia
Figura 2: a flecha da cren†a como a da denˆncia mudaram de senti- SUJElTO critica

do; o objeto-feito tomou o lugar do objeto-encantado; a marionete I: Ator h u m o n o l i v re ~


^'I:
Objeto.encantado
humana toma o lugar do livre ator.

 As duas formas de denˆncia se parecem tanto a ponto de se


confundirem, o pensador crŠtico, ocupando com sua cren†a nas
causas (figura 1) a mesma posi†ƒo que o ing•nuo, com sua cren- II: Ator humano
†a nos Šdolos (figura 2). Se algo parece ser denunciado pela sobre- determinado

posi†ƒo dos dois diagram as, haveria de ser a pr„pria denˆncia, j€ S e g u n d a d e n ˆ n c ia critica P“LO
que ela inverte novamente a o rigem da for†a, da qual ela preten- OBJETO
dia anteriormente reverter a origem invertida! Mas se trata tan-
to da denˆncia feita pelos pensadores crŠticos quanto da cren†a Figura 3: o duplo jogo das duas denˆncias criticas seu duplo reper- e

t„rio, mantidos ‡ dist…ncia pela cren†a na cren†a, a qual nƒo remete


ing•nua entre os atores comuns. A no†ƒo de cren†a permite aos nem a uma paixƒo nem a uma capacidade de conhecimento, mas ‡ for-
modernos compreender, ao modo deles, a origem da a†ƒo pelo du- ma de vida total dos modernos.
plo vocabul€rio dos fetiches e dos fatos.
Na verdade, os dois diagramas desenhados anteriormente nƒo  Assim, a cren†a ing•nua, aos olhos dos antifetichistas, en-
sƒo jamais sobrepostos, e ‹ dever da cren†a justamente impedir esta gana-se, a cada vez, de dire†ƒo. Ela atribui aos objetos-fetiche
sobreposi†ƒo. Por qu•? Porque a denˆncia crŠtica se faz a partir de um poder que vem da ˆnica engenhosidade humana Œ algo que
quatro listas diferentes, duas para o p„lo objeto e duas para o p„lo lhe ‹ bruscamente revelado pela primeira denˆncia (no alto da e

35.
figura 3); ela se atribui uma liberdade que lhe ‹ concedida por capŠtulo 4
um grande nˆmero de determina†‰es causais, que agem em des-
peito do que isso lhe provoca, revelando-lhe, de forma compla- Como fatos e fett e~,,Q onfundem suas
t F~Ž
cente, a segunda denˆncia crŠtica (parte inferior da figura 3). virtudes, mesmo eftre os modernos
Mas a semelhan†a entre as duas formas de procedimento nƒo
surpreende jamais o espirito, pois o objeto-feito, que serve ‡ se-
gunda crŠtica, prov‹m de urna lista de s„lidas caus as objetivas,
enquanto que o objeto-encantado, que ‹ denunciado na primei-
ra, ‹ apenas a proje†ƒo de uma miscel…nea de cren†as mais ou
menos vagas sobre um substrato sem import…ncia. Inversamen-
te, o sujeito ativo que serve • primeira denˆncia se v• confiado Portanto, a cren†a, longe de explicar as atitudes dos feti-
ao papel de um ator humano em revolta contra a aliena†ƒo, e que chistas, longe de justificar as atitudes d os antifetichistas, permi-
reivindica corajosamente sua plena e inteira liberdade, enquan- te manter ‡ dist…ncia dois repert„rios de a†ƒo opostos, e mesmo
to que aquele da segunda denˆncia, constituiu uma marionete contradit„rios, que estƒo encarregados de dissimular o ponto
despeda†ada por todas as determina†‰es causais que a mecani- transposto, desde sempre, pela tranqila afirma†ƒo dos negros
zam em todos os sentidos. Com a condi†ƒo de manter uma estri- da Costa do Ouro, segundo a qual eles c onstroem aquilo que os
ta separa†ƒo entre a parte superior e a inferior da figura 3, o pen- supera. Ora, os modernos, mesm o para produzir as ci•ncias exa-
samento crŠtico nƒo ter€, portanto, nenhuma dificuldade em tas, nƒo se utilizam  jamais desta diferen†a, sobre a qual parecem,
pretender que o ator humano livre e aut‚nomo crie seus pr„prios contudo, realmente insistir. A partir do momento em que se
fetiches e que, ao mesmo tempo, seja completamente definido suspende o aparato da cren†a, percebe-se que todos os cientistas
pelas determina†‰es objetivas reveladas pelas ci•ncias exat as ou falam como os negros, condenados ao sil•ncio, pelos portugue-
sociais. ses, um pouco r€pido de mais.
Podemos agora chamar por cren†a o conjunto da opera‚ao es- Escutemos, por exemplo, Louis Pasteur, um cientista de la-
tabelecida pela figura 3.  Tornamos a compreender que a cren†a borat„rio, defensor daquilo que ‹ demonstr€vel pela prova; falar,
nƒo remete, de modo algum, a uma capacidade cognitiva, mas a nƒo de fatos e fetiches, m as daquilo que toma forma em seu la-
uma configura†ƒo complexa pela qual os modernos constroem a borat„rio. Ao aplicar a defini†ƒo que damos sobre a cren†a, deve-
si pr„prios ao proibirem, com o objetivo de compreender suas rŠamos intim€-lo a escolher entre construtivismo e realismo. Ou
a†‰es, o retorno aos fetiches, os quais, como veremos, todavia bem ele construiu socialmente seus fatos e acrescenta ao repert„-
eles utilizam. rio do mundo apenas suas fantasias, preconceitos, h€bitos e me-
m„ria, ou bem os fatos sƒo reais, mas entƒo, ele nƒo os fabricou
em seu laborat„rio. Esta contradi†ƒo parece tƒo fundamental que
ocupa, ininterruptamente, h€ tr•s s‹culos, a filosofia das ci•ncias.
Ora, ela ocupa muito pouco Pasteur, que se obstina, como
o bom negro, a nƒo compreender a intima†ƒo, a nem mesmo ver
a dificuldade. Ele afirma, no mesmo tom que os negros, que o
fermento de seu €cido l€tico ‹ real  porque montou com precau-
†ƒo, com suas pr„prias mƒos, a cena onde ele Œ o fermento Œ se Ora, suponho que no ponto em que se encontram meus co-
nhecimentos a respeito da questƒo, todo aquele que julgar com im- 
revela por si s„. Indigna†ƒo dos realistas: "Voc• concede muito  parcialidade os resultados deste trabalho e daqueles que publica-
aos construtivistas ao confessar que fez tudo sozinho!" Sim‹trica rei em breve, reconhecerˆ, como eu, que a fermenta†ƒo se mostra
indigna†ƒo dos construtivistas sociais: "Como pretender que o aqui, correlativa da vida, da organiza†ƒo dos gl„bulos, nƒo da
fermento do €cido l€tico exista por si s„ e sem voc•, enquanto morte e da putrefa†ƒo destes gl„bulos, tanto quanto tal fermen-
 voc• maneja seus fios!". E Pasteur obstina-se tranqilamente, ta†ƒo nƒo surge como fen‚meno de contato, onde a transforma-
como a velha senhora raspada entrando no candombl‹ para "as- †ƒo do a†ˆcar se faria na presen†a do fermento, sem lhe dar nada,
sentar" ou para "fazer" sua divindade: sem lhe tomar nada. Estes ˆltimos fatos, veremos em breve, s‡o
contestados pela experi€ncia.
No decorrer desta lembran†a, refleti sobre hip„tese de que a
nova levedura est€ organizada, que se trata de um ser vivo e que
sua a†ƒo quŠmica sobre o a†ˆcar • correlativa de seu desenvolvi-  Trai†ƒo! Ele mudou com um s„ golpe sua filosofia das
mento e de sua organiza†ƒo. Se me dissessem que nestas conclu- ci•ncias. O construtivismo tornou-se realista, e da esp‹cie mais
s‰es vou al•m dos fatos, responderia que isto ‹ verdade, ‡ medida rasa, mais comum. Os fatos falam por si s„ aos olhos dos cole-
que me posiciono francamente em uma ordem de id•ias que, falando gas imparciais!
rigorosamente, ado podem ser irrefutavelmente demonstradas. Eis Pasteur se contradisse? Sim! aos olhos do pensamento criti-
minha maneira de  ver. Toda vez que um quŠmico ocupar-se destes co. Nƒo! aos seus pr„prios olhos e, portanto, aos nossos. Para ele
fen‚menos misteriosos, e se tiver a felicidade de dar um passo
construtivismo e realismo sƒo termos sin‰nimos. Os fatos sƒo fatos,
importante, ele ser€ instintivamente levado a colocar as causas pri-
meiras de tais fen‚menos em uma ordem de rea†‰es em relaf‡o sabemos desde Bachelard, mas o pensamento crŠtico nos prepara-
aos resultados gerais de suas pr„prias pesquisas. E o movimento ra para ver nesta etimologia ambŠgua, o fetichismo do objeto.
l„gico do espŠrito humano em todas as quest‰es controversas Enquanto fabricamos os fatos em nossos laborat„rios, com nossos
(sem grifo no original). 14 colegas, nossos instrumentos e nossas mƒos, eles se tornariam,
por um efeito m€gico de inversƒo, algo que ningu‹m jamais fa-
Nƒo se poderia ser mais construtivista. Thomas Kuhn ou bricou, algo que resiste a toda varia†ƒo de opini‰es polŠticas, a to-
Harry Collins poderiam ter redigido e stas frases, onde se revela, das as torment as da paixƒo, algo que resiste quando se bate vio-
com primor, o trabalho do cientista para construir seus fatos, ne- lentamente com a mƒo sobre a mesa, exclamando: "Aqui estƒo os
les projetando seus h€bitos profissionais, seus pressupostos, at‹ fatos imut€veis!"." Ap„s o trabalho de constru†ƒo, os antifeti-
mesmo seus preconceitos, os h€bitos do grupo ao qual pertence, chistas sustentam que os fatos "conquistariam sua autonomia".
os instintos de seu corpo, a l„gica do espŠrito humano. Infeliz-  Ainda que a mesma palavra queira dizer na realid ade, no mesmo
mente, para os soci„logos d as ci•ncias, Pasteur acrescenta, sem tom, aquilo que foi fabricado e aquilo que nƒo foi fabricado por
nenhuma solu†ƒo de continuidade, a seguinte frase: ningu‹m, deveriamos ver aqui uma contradi†ƒo recoberta por

15. Encontraremos em Ashmore; Malcolm; Edwards, Derek;


14. A an€lise completa e as refer•ncias encontram-se em "Les ob- Potter, Jonathan (1994). "The Bottom Line: the Rhetoric of
jets ont-ils une histoire? Rencontre de Pasteur et de Whitehead Reality Demonstrations". Configurations, v. 2, n. 1, p. 1-14, uma
dans an bain d'acide lactique", In: Stengers Isabelle (org.). l'Ef-  encantadora descri†ƒo etnol„gica dos  gestos do realismo.
 fet Whitehead, Paris: Vrin, 1994. p. 197-217. M

3 ,
kY'
.
,
,
uma opera†ƒo m€gica, depois dissimulada na cren†a, antes de ser, †ƒo de se prender pelos p‹s ‡s piruetas da dial‹tica, tudo ocorre
enfim, soterrada sob a m€ f‹?' 6 Nƒo necessariamente. Uma outra no interior do repert„rio nƒo-moderno, no momento crucial
solu†ƒo nos ‹ oferecida, mas ela sup‰e o abandono do pensamen- quando Pasteur, por ter trabalhado bem, p‚de deixar seu fermen-
to crŠtico, a renˆncia das no†‰es de cren†a, de magia, de m€ f‹, to, enfim aut‚nomo e visŠvel, agir, alimentando-se com prazer da
de autonomia, a perda desse fascinante domŠnio que nos transfor- cultura que acabava de ser inventada para ele. Enquanto a no†ƒo
mara em modernos e, orgulhosos por s•-los." de fato est€ quebrada em duas partes no alto do diagrama, ela ser-
O novo repert„rio surge tƒo logo se contorna o antifetichis-  ve, na parte inferior, de  passe para estabelecer o que se chama jus-
mo para dele fazer, nƒo mais o recurso essencial de nossa vida in- tamente por "uma solu†ƒo de continuidade" entre o trabalho hu-
telectual, mas o objeto de estudo da antropologia dos modernos. mano e a independ•ncia do fermento. O laborat„rio aciona o faz-
O primeiro repert„rio nos obriga a escolher entre dois sentidos fazer.  A dupla articula‚‡o do laborat„rio de Pasteur permite ao
da palavra fato: ele ‹ construido? Ele ‹ real? O segundo, acompa- faz-fazer de fazer-falar, reencontrando assim as duas etimologias
nha Pasteur, quando ele toma por sin‚nimo as duas frases: "Sim, da palavra fetiche e da palavra fato. O laborat„rio torna-se, se nos
‹ verdade que eu o construŠ no laborat„rio", e "por conseguinte, o atrevemos a dizer, o aparelho de fona†ƒo do fermento do €cido
fermento aut‚nomo surge por si s„, aos o lhos dos observadores l€tico assim como de Pasteur, da articula†ƒo de Pasteur e de "seu"
imparciais".1 e Enquanto o repert„rio moderno Œ alto da figura 4 fermento, do fermento e de "seu" Pasteur.
 Œ impede que aconte†a, seja o que for no seu meio, sob a condi-
Repertƒrio moderno
FATO = Fabricado FATO . n€o-Fabricado

0
16. Eu mesmo utilizei essa met€fora em la Vie de laboratoire. Pa- quebra
ris: La D‹couverte, 1988. Nesta ‹poca, em 1979, o fracasso da ex-
plica†ƒo social nƒo se mostrava ainda. S„ tirei conclus‰es disso
mais tarde, ao suprimir a palavra "social" da reedi†ƒo do livro, e Constru†do pelo homem Real e, portanto, n€o
depois, ao desenvolver com Michel Callon o princŠpio da simetria e, portanto, irreal constru†do pelo homem
generalizada, em les  Microbes, guerre et paix, seguido de Irw•ductions,
Repertƒrio n€o-moderno
 A.-M. M‹taili‹, col. Paris: Pandore, 1984 e em seguida, em la
Science em action. Paris: La D‹couverte, 1989. J€ havia detectado Articula•€o
FATO
tal fen‚meno, mas foram necess€rios vinte anos para eu com-
preender a sinonŠmia destes dois verbos: construir-superar. Fermento aut•nomo

17. Sobre a hist„ria desse dominio e da no†ƒo de antropologia si-


m‹trica, ver  Nous navons jamais •t• modernes Essai d'anthropolagie
sym•trique. Paris: La D‹couverte, 1991. Pasteur aut‚nomo
18. Nƒo considero aqui o tema referente ao "verum" e ao "facturo"
(por exemplo, em Vico) que reutiliza, no que diz respeito ao ho- passe Faz-fazer
mem, o argumento teol„gico sobre o conhecimento que pode ter FATO
Fazer-falar
de um mundo aquele que o criou. Ver Amos Funkenstein, Theo- 
logy and the Scientific Imagination from the M iddle Ages. Princeton: Figura 4: o repert„rio moderno obriga Pasteur a escolher entre constru-
Princeton University Press, 1986. Na verdade, o rema sup‰e uma tivismo e realismo, o repert„rio nƒo-moderno permite acompanhar Pas-
teologia e uma antropologia da t‹cnica que se op‰e totalmente ‡ teur quando ele toma fabrica†ƒo e verdade por dois sin‰nimos para um
li†ƒo que procuro tirar dos fetiches. Ver a ˆltima parte. s„ e ˆnico "faz-fazer".

40
Compreende-se a import…ncia decisiva das "science stu- P“LO
Primeira den‡ncia cr†tica
dies" ou da antropologia das ci•ncias. Elas agem como um ver- SUJEITO
dadeiro clinamen, quebrando a simetria invisŠvel que permitia ‡ I: Ator humano livre I: Objeto-encantado
cren†a exercer seus direitos.' De fato, ao for†ar a teoria a levar
em conta a pr€tica dos cientistas, a analise social das ci•ncias
combina os dois repert„rios e for†a a explicar os fatos incontes-
Felix culpa
tes das ci•ncias por meio de recursos elaborados para dar conta das 'science studies"
dos fetiches!=” Ela certamente  fracassa. Nƒo se pode explicar os
buracos negros por meio da primeira denˆncia crŠtica inventada II: Ator humano II. Objete-Feito
determinado
contra os fetiches e contra os deuses. Mas o fracasso mesmo des-
P“LO
tas explica†‰es deixa desamparado, pouco a pouco, todo o pen- Segundo den‡ncia cr†tica
OBJETO
samento crŠtico. Descobre-se entƒo, claramente, ao aplic€-las so-
bre "objetos verdadeiros", a fraqueza cong•nita da primeira de- Figura 5: por um erro de manipula†ƒo as "science studies" cruzam as
duas denˆncias e tornam visŠveis suas simetrias perfeitas, suspendendo,
de repente, o conjunto da opera†ƒo que permitiria a cren†a na cren†a.
19. Pouco importa o momento exato deste clinamen. Quanto a
mim, o situo na exemplar antropologia d as ci•ncias que Michel nˆncia, mas se compreende simetricamente a impot•ncia dos
Serres conduziu de LucrŠce ƒ Statues assim como no livro sŠmbo- objetos controversos, socializados, enredados em suas condi†‰es
lo de Bloor, David Socielogie de la logique ou les limites de 1'•pist•mo-  (sociais?) de produ†ƒo, que servem de bigorna e de martelo na
logie. Paris: Pandore, 1976 (1982), mesmo se outros preferem re- determina†ƒo causal das vontades humanas. A explica†ƒo social
conhecer tal distin†ƒo no trabalho de Kuhn, Thomas la Structu-  nƒo valeria talvez nada, mas a causalidade objetiva nƒo valeria
re des r•volutions scientifiques, Flammarion, Paris [1962] (1983). 0
que importa ‹ a virada pela qual as humanidades e as ci•ncias so- mais tampouco. Era preciso retomar tudo do zero, e escutar no-
ciais retomam as ci•ncias exatas ao abandonar as quatro postu-  vamente os prop„sitos do ator comum.
ras: da reconstru†ƒo racional, do ceticismo, do irracionalismo e Felix culpa, que permite nƒo mais acreditar na diferen†a es-
da hermen•utica, que as haviam guiado at‹ entƒo na rela†ƒo des- sencial, radical, fundadora dos fatos e dos fetiches. M as entƒo,
tas com o saber reconhecido como tal. Exagero, evidentemente, para que serve esta diferen†a se ela nƒo permite nem mesmo jus-
a import…ncia de minha disciplina ao afirmar que nƒo consegui- tificar a produ†ƒo cientŠfica?-' Porque insistir tanto sobre uma
riamos superestimar a import…ncia hist„rica! Na verdade, ela distin†ƒo absoluta que nƒo se pode jamais aplicar? Porque ela
coincidiu com a imensa reviravolta do modernismo, que lhe deu serve justamente para completar as vantagens da pr€tica atrav‹s
sentido e energia.
20. Para uma apresenta†ƒo do  fracasso da explica†ƒo social afron-
tada com objetos demasiadamente complexos, ver Callon, Mi-
chele Latour, Bruno les Scientifiques et leurs alli•s. Pandore, Paris 21. Paradoxalmente, as "science studies", longe de politizar a ci•n-
(1985), Callon, Michel; Latour, Bruno (Org.). la Science telle cia, permitiram ver a que ponto todas as teorias do conhecimento,
qu'elle se fait. Anthologie de la sociologie des sciences de la langue an-  desde os gregos at‹ nossos dias, estƒo sob o jugo de uma defini†ƒo
 glaise. Paris: La D‹couverte, 1991. (Edi†ƒo revista e amplianda). polŠtica que obriga ‡ separa†ƒo dos fatos e dos fetiches. Liberadas da
O fracasso possui virtudes filos„ficas superiores ao sucesso, con- polŠtica, as ci•ncias voltam a ser apaixonanres e abertas a uma des-
tanto que se possa tirar dali conclus‰es. cri†ƒo antropol„gica que resta ainda ser amplamente feita.

2,' 4,
das vantagens da teoria. O duplo repert„rio dos modernos nƒo capitulo 5
pode ser desvendado pela distin†ƒo dos fatos e dos fetiches, mas Como a pr„tica dot fi`l'hes escapa „ teoria
pela segunda distin†ƒo, mais sutil, entre a separa†ƒo dos fatos e
dos fetiches, feita, teoricamente, por um lado, e a passagem da
pr€tica, que difere totalmente desta, por outro. A cren†a toma
um outro sentido entƒo: ‹ o que permite manter ‡ distancia a
forma de vida pr€tica Œ onde se faz fazerŒ e as formas de vida
te„ricas Œ onde se deve escolher entre fatos e fetiches. Ž o meio
de purificar indefinidamente a teoria, sem arriscar, entretanto,
as conseq•ncias desta purifica†ƒo.
Desde que come†amos a avaliar a pr€tica, percebemos que
o ator comum, moderno o u nƒo, pronuncia exatamente as mes-
mas palavras dos negros da Costa e dos adeptos do candombl‹, na
companhia dos quais iniciei esta pequena reflexƒo. O ator co-
mum afirma, diretamente, aquilo que ‹ a evid•ncia mesmo, a sa-
ber, que ele ‹ ligeiramente superado por aquilo que construiu. "So-
mos manipulados por for†as que nos superam", ele poderia dizer,
cansado de ser sacudido de todos os lados e de ser acusado de in-
genuidade. "Pouco importa se as chamamos divindades, genes,
neur8nios, economias, sociedades ou emo†‰es. N„s nos engana-
mos talvez sobre a  palavra que designaria tais for†as, mas nƒo so-
bre o fato que elas sƒo mais importantes do que n„s." O ator co-
mum poderia continuar a dizer, ao contr€rio, "remos razƒo em di-
zer que fabricamos nossos fetiches, j€ que estamos na origem des-
sas for†as diversas das quais voc•s querem nos privar, nos fazen-
do de marionetes manipulad as pelas for†as do mercado, da evo-
lu†ƒo, da sociedade ou do intelecto. Talvez nos enganemos sobre
o nome a ser dado ‡ nossa liberdade, mas nƒo sobre o fato que agi-
mos de acordo com outros, que os chamemos divindades ou aliens.
O que fabricamos jamais possui ou perde sua autonomia".
 A palavra "fetiche" e a palavra "faro " possuem a mesma eti-
mologia ambŠgua Œ ambŠgua para os portugueses como para os fi-
l„sofos das ci•ncias. Mas cada uma das palavras insiste simetrica-
mente sobre a nuance inversa da outra. A palavra "fato" parece re-
meter ‡ realidade exterior, a p alavra "fetiche" ‡s cren†as absurdas

45
44 .
do sujeito. Todas as duas dissimulam, na profundeza de su as raŠ- como Pasteur, atrav‹s de uma de suas admir€veis f„rmulas, cujo
zes latinas, o trabalho intenso de constru†ƒo que permite a verda- sentido corre sempre o risco de ser perdido: "Somos os fios de
de dos fatos como a dos espŠritos. Ž esta verdade que precisamos nossas obras". E que nƒo venham nos dizer que eles estƒo se va-
distinguir, sem acreditar, nem nas elucubra†‰es de um sujeito psi- lendo da dial‹tica, e que o sujeito, ao se autoposicionar no obje-
col„gico saturado de devaneios, nem na exist•ncia exterior de ob- to, revela a si pr„prio, alienando-se atrav‹s dele, pois o s artistas,
ao zombarem do sujeito assim como do objeto, passam justa-
jetos frios e a-hist„ricos que cairiam nos laborat„rios como do c‹u. mente entre os dois, sem tocar, em nenhum momento, nem o su-
Sem acreditar, tampouco, na cren†a ing•nua. Ao juntar as duas jeito, senhor de seus pensamentos, nem o objeto alienante.23  To-
fontes etimol„gicas, chamaremos fe(i)tiche a firme certeza que per- dos aqueles que se sentaram na frente de um teclado d e compu-
mite ‡ pr€tica passar ‡ a†ƒo, sem jamais acreditar na diferen†a en- tador, sabem que tais romancist as tinham consci•ncia do que
tre constru†ƒo e compila†ƒo, iman•ncia e transcend•ncia.` pensavam sobre aquilo que estavam escrevendo, m as que nƒo se
 Tƒo logo come†amos assim a considerar a pr€tica, sem pode, por isso, confundi-los em um jogo de linguagem ou ima-
mais nos preocuparmos em escolher entre constru†ƒo e verdade, ginar que um Zeitgeist lhes diria o que esc re ver ‡ sua pr„pria re-
todas as atividades humanas, e nƒo somente aquelas dos adeptos  velia, pela excelente razƒo que esses manipuladores de segunda
do candombl‹ ou dos c ientistas de laborat„rio, come†am a falar categoria nƒo teriam maior controle sobre tal  Zeitgeist do que o
sobre o mesmo passe, sobre o mesmo fe(i)tiche. Os romancistas autor possui sobre o texto. Experi•ncia banal, tornada incom-
nƒo dizem tamb‹m que sƒo "levados por seus personagens"? N„s preensŠvel pela dupla suspeita da critica e remetida, por esta ra-
os acusamos, ‹ verdade, de m€  fƒ, submetendo-os primeiramen- zƒo, ao meio-sil•ncio da "simples pr€tica".
te ‡ questƒo: "Voc•s fabricam seus livros? Voc•s sƒo fabricados Por que exigir dos negros que escolham entre a fabrica†ƒo
por eles?" E eles respondem, obstinadamente, como os negros e humana dos fetiches e suas verdades transcenden tes, enquanto que
n„s, os brancos, os modernos, jamais escolhemos, exceto se nos
submeterem a essa questƒo e nos for†arem a quebrar a passagem
22. Seria necess…rio acrescentar aqui o artefato ˆ em um sentido contŠnua que, na pr€tica, acabamos de explorar? Em cada uma de
24

emprestado do inglƒs • e que designa, nos laborat‚rios, um pa- nossas atividades, aquilo que fabricamos nos supera. Do mesmo
rasita, tomado erroneamente como um novo ser • como quando
Tintin (a despeito das leis da ‚tical) tomou uma aranha que p as-
seava sobre o telesc‚pio do observat‚rio por uma estrela que 23. Cada pintor poderia dizer que sua tela ƒ "acheiropoeitos" (n€o
amea†ava a Terra. Ao contr…rio do fato, o artefato surpreende, feita pela m€o do homem), entretanto, ele n€o espera ingenua-
 porque descobrimos ali a a†€o humana quando n€o esper…vamos mente, vƒ-la cair do c„u inteiramente pronta.
 por isso. A palavra assegura, portanto, a transi†€o entre a surpre- 24. Explicarei, mais adiante, o sentido dessa ruptura. A fabrica-
sa dos fatos e a dos fetiches. N€o h… mais raz€o para abdicar da †€o t„cnica, apesar das aparƒncias, n€o escapa ‡ quest€o comina-
 palavra "fetiche" como da palavra "fato", sob o pretexto de que t‚ria, visto que os tecn‚logos dividem-se consideravelmente en-
os modernos teriam acreditado na cren†a e quiseram desacredi- tre os que seguem os determinismos materiais da fun€•o e os que
tar os fatos para ater-se aos fetiches. Na verdade, ningu„m nun-  se ligam ao arbitr…rio do capricho humano ou social da forma. So-
ca acreditou nos fetiches, e cada um preocupou-se, astuciosa-  bre este dualismo ver Latour, Bruno; Lemonnier, Pierre (Org.).
mente, com os fatos. As duas palavras continuam, portanto, in-  De la p rƒhistoi re aux missile s balistiq ues ˆ l'Intelli ge nce so ciale d es
tactas. Como a diferen†a entre os fonemas 'fƒ" e ' fait" nem sem- techniques. Paris: La D„couverte, 1994 e a disputatio entre os dois
 pre „ audŒvel, poderiamos preferir "factiche", entretanto menos autores em  Ethnologie fran€aise . v. XXVI, n. 1, p. 17-36, 1996.
elegante (factish , em ingl•s). e

4
modo que os romancistas, os cientistas ou feiticeiros e os polŠticos sua import…ncia. Se antes s„ podŠamos nos alternar violentamen-
sƒo intimados a se deitar na mesma cama de Procusto, sob pena de te entre os dois extremos do repert„rio moderno Œ ou "super€-
passarem por mentirosos. "Voc•s constroem a representa†ƒo nacio- los" por meio da dial‹tica, como o Barƒo d e Mnchhausen "su-
nal?" Π"Sim, diriam eles, necessariamente e completamente." - pera" as leis da gravidade Πpodemos, agora, escolher entre dois
"Voc•s inventam, portanto, atrav‹s da manipula†ƒo, da propagan- repert„rios: aquele onde somos intimados a escolher entre constru-
da e do conchavo, aquilo que os representados devem dizer?" - †ƒo e verdade, e aquele onde constru†ƒo e realidade tornam-se si-
"Nƒo, somos fi‹is a nossos mandatos porque construŠmos justa- nŠnimos. Por um lado, estamos paralisados como um asno de Bu-
mente a voz artificial que eles nƒo teriam sem n„s." Œ "Eles blasfe- ridan, que deveria escolher entre fatos e fetiches; por outro,  pas-
mam!", exclamariam os crŠticos. "Por que temos que ouvi-los por  samos gra†as aos fe(i)tiches.
mais tempo? Eles nƒo conseguem nem mesmo, no seu illusio, per-  Assim, o ator comum quando por n„s interrogado, mul-
ceber suas pr„prias mentiras!."25 Ent retanto, do mesmo modo que tiplicar€ explicitamente, e com uma intelig•ncia absurda, as for-
os politicos, condenados ao sil•ncio h€ dois longos s‹culos, se mas de vida que permitem passar, gra†as aos fe(i)tiches, sem ja-
acham todos os dias, de manhƒ ‡ noire, entre essa constru†ƒo arti- mais obedecer ‡ escolha cominac„ria do repert„rio moderno. En-
ficial e essa verdade precisa; os cientistas, obrigados a escolher en- tretanto, essas teorias refinadas continuarƒo encobertas, visto que
tre constru†ƒo e verdade (ao menos nos manuais), levam dias e o ˆnico meio de represent€-las oficialmente situa-se na escolha a
muitas noites, para construir no laborat„rio a verdade verdadeira. ser feita entre constru†ƒo e autonomia, sujeito e objeto, fato e fe-
 A escolha proposta pelos modernos nƒo se d€, portanto, en- tiche. Tenhamos o cuidado em nƒo simplificar a situa†ƒo: nƒo se
tre realismo e construtivismo, ela se d€ entre a pr‡pria escolha e a pode ignorar nem a multiplicidade dos discursos que falam do
exist•ncia pr€tica, que nƒo compreende nem seu enunciado nem passe, ao se desviar da escolha moderna, nem a import…ncia da
teoria dos modernos que o briga a uma escolha, que parece nun-
ca servir para nada. Existe algo de sublime na c ompara†ƒo desta
25. Pode-se ler em Bourdieu "La delegation et le f„tichisme po- colcha de discursos, de dispositivos, de pr€ticas, de reflex‰es re-
litique". In Choses dites. Paris: Minuit, 1987. p. 185-202, a ex-
 posi†€o desse desprezo pela representa†€o politica na qual o an-
finadas, pelas quais os "zatoreszelesmesmos" declaram a evid•n-
*

tifetichismo ƒ levado ao seu limite extremo. "O mist„rio do mi-


cia da f€cil passagem ent re os dois lados da palavra "fato" como
nist„rio s‚ pode agir caso o ministro dissimule  sua usurpa†€o, da palavra "fetiche", e a preocupa†ƒo minuciosa, farisaica, com a
 bem como o imperium que ela lhe confere, afirmando-se como um qual, desde que procuramos nos acreditar modernos (isto ‹, radi-
simples e humilde ministro" (p.191), e ainda: "Logo, a violƒncia calmente e nƒo relativamente diferentes dos negros), acreditava-
simb‚lica do ministro s‚ pode ser exercida com essa esp„cie de se que a passagem estava fechada para sempre. 26
cumplicidade que lhe concedem, pelo efeito de desconhecimen-
to que a denega†€o estimula, aqueles sobre os quais se exerce essa 6,6

violƒncia" (id.). N€o se pode menosprezar mais o trabalho da re-


 presenta†€o assim como sabedoria dos representados. Somente o * No original: les "zacteurszeuxm„mes". (N.T.)
illusio  permite aos soci‚logos n€o ver a contradi†€o gritante do 26. DaŒ o fato, sem o qual, dificilmente explic…vel, de que a so-
antifetichismo, enquanto ela „ utilizada (ingenuamente?) pelo ciologia dos "zatoreszelesmesmos" possa afirmar que se conten-
soci‚logo crŒtico para retratar a incapacidade dos atores comuns ta, ao mesmo tempo, em coletar as declara†‹es dos atores e que
em ver a contradi†€o gritante do fetichismo! Nenhum outro rei acrescenta alguma coisa, entretanto, que eles jamais dizem. Lon-
 ge de dar uma voz aos sem-voz, ou de fazer a simples teoria de
est… mais nu do que o soci‚logo crŒtico, que se crƒ o Šnico lŠci-
do em um asilo de loucos. suas pr…ticas, ela se contenta em fazer passar, contra os diktats do
a

48 49.
 Avancemos um pouco . Ž a no†ƒo mesmo de pr€tica que cap†tulo 6
prov‹m da exig•ncia imposta pelos modernos. Na falta de po- Como estabelecer o •l de um antifetjchjsta
dermos nos exprimir segundo os termos cominat„rios do pensa-
mento crŠtico, somos obrigados a continuar fazendo o que sem-
pre fizemos, mas, clandestinamente.27  A pr€tica ‹ a sabedoria dis-
si mulada do passe que insiste em dizer (mas como e la nƒo pode
mais diz•-lo, ela se contenta justamente em faz•-lo, em murmu-
r€-lo ‡ meia voz) que constru†ƒo e realidade sƒo sin‚nimos. Es-
tranha clandestinidade, dirŠamos, j€ que ela ‹ tamb‹m, na expe-
ri•ncia comum, um segredo de polichinelo, confessado de mil
maneiras e segundo mil canais. Sim, mas a teoria continua, e por
raz‰es tƒo boas que precisamos agora compreender e nƒo levar a Para compreender a efic€cia misteriosa desta separa†ƒo en-
tre teoria e pr€tica, seria preciso poder dispor de descri†‰es de an-
s‹rio essas mˆltiplas confiss‰es. Chamaremos agora cren†a, a
opera†ƒo que permite manter uma teoria oficial o mais longe
tifetichistas. PoderŠamos, entƒo, co ntra-analisar os modernos fa-
possŠvel de uma pr€tica oficiosa, sem nenhuma rela†ƒo entre as zendo a descri†ƒo etnogr€fica de seus 28
gestos iconoclastas. Como
duas al‹m desta preocupa†ƒo apaixonada, ansiosa, meticulosa, nƒo dispomos ainda desses escudos, pelo que sei, escolhi junto a
um romancista da ndia contempor…nea uma anedota esclarece-
para manter a separa†ƒo. Chamaremos agnosticismo a descri†ƒo
dora." Jagannath era um br…mane do tipo modernizador. Ele
antropol„gica desta opera†ƒo.
queria destruir os fetiches e liberar da aliena†ƒo os p€rias empre-
gados por sua tia, for†ando-os a tocar a ped ra sagrada das nove
cores, o shaligram de seus ancestrais. Um fim de tarde, ap„s o tra-
pensamento crŠtico, as form as de vida comuns, que vƒo desde a balho, ele agarrou a pedra do altar, depois, diante de sua tia e do
sala dos fundos at‹ a vitrine de uma loja. Donde, as no†‰es de
media†ƒo, de ator-rede, de tradu†ƒo, de modos de coordena†ƒo,
de simetria, de nƒo-modernidade, no†‰es infrate„ricas, que nƒo
 visam nem a expressƒo Œ muito bem mantida pelos atores Œ nem 28. A. hist„ria da arte ofereceria, contudo, um
rico repert„rio
a explica†ƒo Œ igualmente nas mƒos dos atores Œ m as somente para esta antropologia hist„rica da iconoclasia antiga e moderna.
sua compila€ao  Œ que os atores pod eriam de fato encon trar, gra†as  Ver Christin, Olivier. Une rƒiolution symbolique. Paris: Minuit,
ao leve excedente que lhes ‹ oferecido pel as humanas ci•ncias. O 1991; Koerner, Joseph Leo. "The Image in Quotations: Cra-
soci„logo comum se encontra, portanto, no mesmo nŠvel dos ato- nach's Portraits of Luther Preaching", In Shop Talk. Studies in Ho-
res comuns, como os negros e os brancos e, pelas mesmas raz‰es. nor of SeymourSlive. Mass: Cambridge, Harvard University Press,
27. Coisa curiosa; o pragmatismo, que poderiamos acreditar ser 1995. p. 143-6, assim como os trabalhos de Dario Gamboni
a filosofia da pr€tica, continua de tal modo intimidado pela po- (1983). "M„prises et m„pris. l„ments pour une „tude de 1'ico-
si†ƒo de autoridade de seus advers€rios que ‹ obrigado a descre- noclasrne contemporain",  Actes d e la re cherche en sciences sociales,
 ver a pr€tica sob urn aspecto modesto, limitado, utilit€rio, hu-  vol. 49, p.2-28. Ver tamb‹m Heinich, Nathalie (1993). "Les ob-
manista, c‚modo, ocupando assim, sem questionamento, o lugar  jets-personnel. F„tiches, reliques et oeuvres d'art". Sociologic de
que lhe foi preparado pela filosofia crŠtica. A mod‹stia s„ ‹ uma  Part, v. 6, p. 25-56.
 virtude filos„fica se ela decide, por si pr„pria, a maneira pela 29. U.R. Anantha Murthy  Bharathipura, In:
 Anoth er In dia . Pen-
qual se privar€ de fazer seu dever ou de propor fundamentos. guin, Harmondsworth: 1990. p. 98-102. (tradu†ƒo do autor).
sacerdote, horrorizados, quis lev€-la aos servos, reunidos em um sinar-lhes n€o servira para nada. Ele amea†ou trƒmulo: "Toquem,
canto qualquer. Mas, no meio do p€tio, Jagannath hesitou a res- toquem, vocƒs VAO TOCA-LA!" Foi como se o grito de um lou-
co animal enfurecido o dilacerasse por inteiro. Ele era s‚ violƒn-
peito do que estava fazendo, entƒo parou e se indagou. cia; ele n€o sentia nada al„m disso. Os p…rias o achavam mais
amea†ador que Bhutaraya [o espirito demˆnio do deus local]. O
As palavras pararam na sua garganta. Esta pedra n€o „ nada, ar exalava um odor infecto de seus gritos. "Toquem, toquem, to-
mas meu cora†€o se ligou a ela e peguei-a para vocƒs: toquem- quem!" Para os p…rias, a tens€o era muito forte. Mecanicamente,
na, toquem aquilo que se tornou o ponto vulner…vel de meu es- eles avan†aram, tocaram de leve aquela coisa que Jagannath lhes
 pirito. Toquem-na! Aqueles que est€o atr…s de mim [minha tia e apresentava e partiram no mesmo instante.
o sacerdote] procuram me deter atrav„s das inumer…veis liga†‹es Esgotado pela violƒncia e pela decep†€o, Jagannath lan†ou o
de obriga†€o. Bom, o que vocƒs est€o esperando? Qual „ o pre-  shalig ram  para o lado. Uma grande angŠstia terminara de modo
sente que eu lhes trago? N€o sei ao certo: isto se tornou um  sha- grotesco. Mesmo a tia podia continuar humana quando tratava
ligram porque o apresento como uma
pedra. Se voc•s o tocarem, os p…rias como i ntoc…veis. Ele, por sua vez, perdera sua huma-
entƒo ele se tornar… uma pedra tamb„m para minha tia e para o nidade, por um instante. Ele tomara os p…rias por coisas despro-
sacerdote. Porque eu a ofereci , porque vocƒs a tocaram, porque vidas de significa†€o. Ele meneava a cabe†a sem perceber que os
todos foram testemunhas deste acontecimento, ao cair da noite,  p…rias haviam partido. A noite caŒra quando compreendeu que
que esta pedra se tr an sforma em  shaligram! Que este shaligram estava sozinho. Desgostoso de sua figura come†ou a andar sem
se transforme em pedra! (p. 101) rumo. Ele se indagava: "quando os parias cocaram a pedra, per-
deram, tanto quanto eu, sua humanidade? Estamos mortos?
Mas, para grande surpresa de Jagannath, destruidor de Onde est… a falha nisso tudo, em mim ou na sociedade?" N€o
 Šdolos, libertador, antifetichista, os p€rias recuaram, aterroriza- havia resposta. Ap‚s uma longa caminhada, ele voltou para
casa, aparvalhado. (p. 102)
dos. Ele ficou sozinho, no meio do p€tio, com u m objeto meio-
pedra, meio-divindade; o sacerdote e a tia gritando de vergonha
atr€s dele, enquanto aqueles que ele queria libertar se amontoa- O golpe que Jagannath destinou ao fetiche, ao Šdolo, ao
 vam o mais lo nge possŠvel do sac rificador sacrŠlego . passado, ‡s correntes da servidƒo, foi desviado. O que jaz agora,
destruido, disperso, n€o „ o fetiche, mas a sua humanidade,
Jagannath tentou seduzi-los. Ele proferiu em seu tom profes- como a dos p€rias, de sua tia e do sacerdote. Ele acreditou ter
soral: "E s‚ uma pedra Toquem-na e vocƒs ver€o bem. Se vocƒs destruŠdo o fetiche, e foi o fe(i)tiche que se rompeu. De repente,
n€o a tocarem, ser€o sempre pobres homens". ele se tornou um "animal selvagem", e o s p€rias, "criaturas hor-
Ele n€o compreendia o que acontecia com os p…rias. Todo o riveis". A objetividade estˆpida da pedra, aquela que Jagannath
grupo amontoava-se o mais longe possŒvel, assustado, sem ousar queria faz•-los verificar com suas pr„prias mƒos, passou pelos
fugir ou ficar. Como ele desejara, contudo, este momento sagra- servos, eles pr„prios transformados em "coisas desprovidas de
do! Este momento quando os p…rias tocariam, enfim, a imagem
de Deus. Ele falou-lhes corn u rn a voz raivosa: "V€o! Toquem-na"!
significa†ƒo". Invertendo os dons m€gicos do rei Midas, Jagan-
Jagannath avan†ou em dire†€o a el es. Eles recuaram. Ele se sen-
nath fez do shaligram algo que transforma em pedra aqueles que
tiu tomado por uma crueldade monstruosa. Os p…rias lhe parece- o tocam para dessacraliz€-lo. Ele queria dissipar a ilusƒo dos
ram como criaturas horrŒveis que rastejavam sobre seus ventres. deuses e, amarga ironia!, aqui est€ ele, mais " amea†ador que
Ele mordeu seu l…bio e ordenou com uma voz firme e inflexŒvel: Bhutaraya". Se ele conseguiu enfim, que os p€rias lhe obedeces-
"Pilla! Toque-a, sim, toque-a!". sem, ‹ porque eles cederam ao terror desta coalizƒo de divinda-
Pilla to contramestre] continuva em p„, piscando os olhos. des amea†adoras, aquelas de seu senhor, acrescentadas ‡s do es-
Jagannath sentiu-se esgotado e perdido. Tudo o que tenta ra en-
pŠrito-dem‚nio. E ainda, os servos s„ lhe obedeceram "mecani- cobre ao falhar seu golpe: nƒo se trata absolutamente de cren†a,
camente". Animais, coisas, m€quinas, eis que eles passam por mas de atitude. Nƒo se trata da pedra-fetiche, mas de fe(i)tiches,
todas as nuan†as do inumano. Mais grave ainda, o senhor e os esses seres deslocados, que nos permitem viver, isto •, passar con-
servos "estƒo mortos", porque o fe(i)tiche, uma vez destruŠdo, tinuamente da constru†ƒo ‡ autonomia sem jamais acreditar em
nƒo consegue mais manter, externamente, o que os tornava hu- uma ou em outra. Gra†as aos fe(i)tiches, constru†ƒo e verdade per-
manos. "Onde est€ a falha?", pergunta-se Jagannath. O humano manecem sin‚nimos. Uma vez quebrados, tornam-se ant‚nimos.
nƒo residiria mais no sujeito liberado de suas correntes, rio des- Nƒo se pode mais passar. Nƒo se pode mais criar. Nƒo se pode
truidor de Šdolos, no mode rnizador que possui um martelo, mas mais viver. Ž preciso, entƒo, restabelecer os fe(i)tiches.
em outro lugar, ligeiramente em outro lugar? Ž preciso real- Gra†as a Jagannath a efic€cia dos fe(i)tiches torna-se agora
mente manter-se ‡ sombra dos fe(i)tiches para nƒo morrer? Para mais clara. Partimos da escolha cominat„ria que impunha deci-
nƒo se tornar bicho, pedra, animal, m€quina? E preciso uma dir se construŠamos os fatos e os fetiches ou se, ao contr€rio, eles
si mples pedra para nƒo se tornar duro e frio como uma pedra? nos permitiam atingir realidades que ningu‹m jamais cons-
 Ao se e nganar de alvo, o indiano modernizador nos ensina truiu. Percebemos que essa escolha jamais ‹ obedecida na pr€ti-
muito sobre ele pr„prio, mas, sobretudo, sobre os brancos. Ž esta ca, cada um passa por outro lugar, discretamente, sem dificulda-
li†ƒo que precisamos seguir. 30 Para que sejam cientistas, criado- des, atribuindo, no mesmo tom e aos mesmos seres, a origem
res, politicos, cozinheiros, sacerdotes, fi‹is, o peradores, artesƒos, humana assim como a autonomia. Para falar de filosofia, nin-
salsicheiros e fil„sofos, ‹ preciso que os modernos passem, como gu‹m nunca soube distinguir entre iman•ncia e transcend•ncia.
todos, da constru†ƒo ‡ autonomia. Se vivessem sem os fe(i)ti- Mas essa obstina†ƒo em recusar a escolha, compreendemos ago-
ches, os brancos nƒo poderiam viver, eles seriam m€quinas, coi- ra, sempre existiu, como uma simples pr€tica, como aquilo que
sas, animais ferozes, mortos. nƒo pode ser acolhido nem com palavras, nem na teoria, mesmo
Nƒo lhes ‹ pedido, por isso, que "acreditem" nos fetiches, se os "zatoreszelesmesmos" nƒo param de diz•-lo e de oferecer a
que atribuam almas ‡s pedras, segundo a horrŠvel cenografia do sua descri†ƒo com grande luxo de precis‰es."
antifetichismo. Justamente, o shaligram • uma pedra, apenas uma O golpe em falso do destruidor de Šdo los, como a  felix cul- 
pedra; todos concordam com isso, s„ o denunciador, o destruidor  pa dos estudos sobre as ci•ncias, nos permitirƒo examinar defi-
de Šdolos nƒo o sabe. Ele aprendeu isso muito tarde. Ele equivo-
ca-se com os gritos do sacerdote e de sua tia. Jagannath acredita
que eles assistem, horrorizados, a um sacril‹gio libertador. Ora, •
31. Isto torna a generalizar, como Michel Callon e eu freqen-
 por ele, somente por ele que os dois se sentem cobertos de vergo- temente mostramos, a virada etnometodol„gica, estendendo-a,
nha. Como ele pode conferir-lhes sentimentos tƒo terrŠveis; como por interm‹dio da semi„tica, ‡ metafisica, como ˆnico organon ƒ
ele pode atribuir-lhes a adora†ƒo das pedr as, a idolatria monstruo- nossa disposi†ƒo que pode conservar, sem assombro, a diversida-
sa? O sacerdote, a tia e os p€rias j€ sabiam o que J agannath des- de dos modos de exist•ncia Œ ao pre†o, ‹ verdade, da transposi-
†ƒo para uma forma textual e para uma linguagem; restri†ƒo que
procuramos contudo superar, estendendo ‡s pr„prias coisas as
defini†‰es demasiado restritivas da semi„tica. RecaŠmos, entƒo,
30. Sobre os p€ri as, ver o admir€vel livro de Viramma, Racine, sobre as entidades que nos interessavam desde o inŠcio Œ sob o
 Josiane, Racine, Jean-Luc Une vie de  paria. Le rire des asservis. bide  vago nome de ator-rede Œ e que sƒo, a um s„ tempo, reais, so-
du Said, Paris: Plon-Terre Humaine, 1995. ciais e discursivas.
nitivamente o antifetichismo, a fim de descrever, do exterior, o capitulo 7
aparato da cren†a. A antropologia sim‹trica possui agora um Como representar
~
~

~e(i)tiches clivados
operador, o fe(i)tiche, que vai ajud€-la a retomar o trabalho de
compara†ƒo, mas sem se perder nos d‹dalos do relativismo cul- dose~' nos
tural e sem mais acreditar na cren†a. Ao levar o agnosticismo a
este ponto, nƒo temos mais que nos opor aos modernos sem fe-
tiches, revelando aos olhos dos negros e dos p€rias, ora a realida-
de exterior, sem disfarces, ora o abismo de suas pr„prias repre-
senta†‰es interiores. Nƒo temos mais que ridicularizar os mo-
dernos que acreditariam no antifetichismo tƒo ingenuamente
quanto os negros acreditavam em seus fetiches e as velhas tias Zomba-se, ‡s vezes, do car€ter grosseiro dos fetiches, tron-
em seus shaligrams. Os modernos t•m tamb‹m um fe(i)tiche,
32
cos mal esculpidos, pedras mal talhadas, m€scaras caricatas.
apaixonante, sutil, trickster astucioso. Resta esbo†ar rapidamen- Desculpem-me, portanto, propor uma descri†ƒo sobre os fe(i)ti-
te sua forma e compreender sua efic€cia. ches modernos tamb‹m desajeitada, um esquema sobre Macin-
tosh muito pouco desbastado. A particularidade interessante de
nossos fe(i)tiches reside no fato que n„s os quebrantos duplamen-
te, uma primeira vez verticalmente, uma segunda vez lateral-
mente. A primeira ruptura permite separar, violentamente, o
p„lo sujeito e o p„lo objeto, o mundo das representa†‰es e o das I,b
coisas. A segunda, separa obliquamente, de modo mais violento
ainda, a forma de vida te„rica, que leva a s‹rio esta primeira dis-
tin†ƒo dos objetos e dos sujeitos e, uma forma de vida pr€tica,
completamente diferente, atrav‹s da qual conduzimos nossa
exist•ncia, muito tranqilamente, confundindo sempre o que ‹
fabricado por nossas mƒos e o que est€ al‹m de nossas mƒos."

32 Desde o presidente de Brosse, faz-se muito caso sobre estes fe-


tiches materiais, pesados, toscos, esnipidos e brutos. Isto signi-
fica esquecer que a res extensa s„ ‹ brutal aos olhos de um espŠri-
to conhecedor. Suas mat‹rias de madeira, osso, argila, pluma ou
m€rmore, pensam, falam e se articulam como todas as outras ma-
t‹rias. Uma pedra nƒo tem nada de particularmente informe.
Suas articula†‰es permitem tanto o "fazer-falar" quanto aquelas
do fermento l€rico.
33. Este diagrama oferece um pouco de corpo aos esquemas ex-
cessivamente abstratos do livro sobre os modernos op.cit., 1991.
Primeira fratura demos permanece, portanto, tr•s vezes invisivel, tanto que ou-
realidade construˆ€o ALTO: ESCOLHER tros, em outros lugares, como Jagannath, nƒo nos fornecem a
CLARAMENTE ENTRE imagem unificada desses fe(i)tiches. Tƒo logo compreendemos
p‚lo objeto p‚lo sujeito FATOS E FETICHES
essa imagem, esse retrato, percebemos que o fe(i)tiche reside no
conjunto desse dispositivo. E necess€rio estabelecer o fe(i)tiche
restauraˆ€o por completo, a fim de compreender por que os modernos ac re-
ditam na cren†a e se acreditam desprovidos de fetiches.
Segunda fratura Em todo lugar onde os modernos t•m que, ao mesmo tem-
passagem cotidiana comentada po, construir e se deixar levar por aquilo que os arrebata, nas pra-
po r um discurso sutil e entreco rtado
†as pˆblicas, nos laborat„rios, n as igrejas, nos tribunais, nos su-
permercados, nos asilos, nos ateli•s de artistas, n as f€bricas, nos
BAlXO: N„O ESCOLHER, PASSAR GRAƒAS AO FE(l)TICHE seus quartos, ‹ preciso imaginar que tais fe(i)tiches sƒo erigidos
MAS SEM DIZE-LO EM ABSOLUTO, OU MOSTRA-LO como os crucifixos ou as est€tuas dos imperadores de outrora. Mas
todos, como os Hermes castrados por Alcibiades, todos sƒo des-
Figura 6: o fe(i)tiche moderno possui a particularidade de tornar tr•s
 vezes invisŠvel aquilo que o torna eficaz; no alto nƒo h… fetiche, em ab- truŠdos, quebrados a golpes de martelo por um pensamento crŠti-
soluto, mas uma escolha cominat„ria entre dois extremos; embaixo, o co, cuja longa hist„ria nos remeteria aos gregos, que abandonaram
fe(i)tiche permite a p assagem, o faz-fazer, mas nƒo se deve jamais diz•- os Šdolos da Caverna, mas erigiram as Id‹ias; aos judeus destrui-
lo claramente; enfim, alto e baixo sƒo hermeticamente distintos. dores do Bezerro de ouro, mas construtores do Templo; aos cris-
tƒos queimando as est€tuas pagas, mas pintando os Šcones; aos
protestantes caiando os afrescos mas erguendo sobre o pˆlpito o
Frente ‡ astˆcia deste dispositivo compreendemos por que texto verŠdico da BŠblia; aos revolucion€rios derrubando os anti-
os modernos podem acreditar que, ˆnicos entre os demais povos, gos regimes e fundando um culto ‡ deusa Razƒo; aos fil„sofos que
escapam ‡s cren†as e aos fetiches. No alto da figura 6, a quebra se valem do martelo, auscultando o vazio cavernoso de tod as as es-
entre os sujeiras construtores e os objetos aut‚nomos nƒo permi- t€tuas de todos os cultos, m as tornando a erigir os antigos deuses
te mais ver aqui o fe(i)tiche. Embaixo, a efic€cia do fe(i)tiche
pagƒos do desejo de poder. Como se pode observar nos dois Sƒo
desdobra-se, mas o discurso indefinido que fala desta efic€cia Sebastiƒo feitos por Mantegna, em Viena ou no Louvre, os moder-
nƒo p€ra de interromper sua continuidade, de se deslocar, como
nos s„ podem substituir os antigos idolos que jazem destruŠdos a
se ele devesse codificar o trabalho incessante de suas media†‰es seus p‹s, por uma outra est€tua, tamb‹m de pedra, tamb‹m sobre
para torn€-las invisŠveis ‡ teoria. Entre os dois a separa†ƒo ‹ to- um pedestal, mas tambem quebrada pelo m€rtir, atravessada por fle-
tal, separa†ƒo que protege, ao mesmo tempo, a efic€cia dos pas- chas, logo destruŠda. Para fetiche, fetiche e m eio.
ses, embaixo, e a pureza da teoria, no alto. O fe(i)tiche do s mo-
Mas nƒo, estou enganado, ‹ preciso acrescentar ainda algu-
ma coisa a esses fe(i)tiches. E preciso retomar o diagrama e acres-
centar o trabalho pelo qual restaurou-se, emendou-se, remendou-
Substituo a dupla separa†ƒo natureza/sociedade de um lado, pu- se as est€tuas destruŠdas. Sabemos que os etn„logos como os et-
rifica†ƒolmedia†ƒo de outro, por um objeto que mant•m ambos e
cuja presen†a, a descri†ƒo, a composi†ƒo poderƒo ser objeto de es- nopsiquiatras admiram, com razƒo, os pregos, os cabelos, as plu-
tudos empŠricos. mas, os bˆzios, escarifica†‰es e tatuagens com os quais os antigos
fetiches eram marcados Œ quero dizer os fetiches destituŠdos dos de cima. Eles passariam ‡ a†ƒo como sempre se fez na Costa da
negros da Costa, antes de serem jogados na fogueira ou no museu.  Africa Ocidental, como sempre se faz no vasto paŠs tagarela e si-
O que dizer entƒo, da extraordin€ria prolifera†ƒo de marcas, de pe- lencioso da pr€tica. Por que esta bizarra configura†ƒo? Por que
da†os de barbante, de pregos, de plumas, de arame farpado, de fita destruir para restaurar em seguida, fato que surpreendeu o co-
adesiva, de alfinetes, de grampos, com os quais restaura-se, desde reano cujo texto inventei no pr„logo? – que ao remeter ‡ pr€ti-
sempre, o alto clivado dos fe(i)tiches modernos, assim como o ca subterr…nea a preocupa†ƒo de resolver a contradi†ƒo contŠnua
gancho que os mant•m sobre seus pedestais? Todo mundo, desde imposta pela quebra violenta dos fe(i)tiches transportadores e
sempre, restaurou o duplo rasgo com remendos incessantes. mediadores, os modernos puderam mobilizar for†as extraordin€-
rias, sem que elas jamais aparecessem como amea†adoras ou
Primeira fratura monstruosas. O alto destruŠdo dos fetiches nƒo ‹ um illusio a
realidade constru†ƒo mais, uma ideologia que dissimularia, pela falsa consci•ncia, o
 verdadeiro mundo da pr€tica. Este alto desorganiza a teoria da
p‚lo objeto p„lo sujeito a†ƒo, cria o mundo independente da pr€tica, e lhe permite des-
dobrar-se sem ter que prestar contas instantaneamente. Gra†as aos
restaura•€o idolos destruidos, pode-se realizar inova†‰es sem risco, sem res-
remendo ponsabilidade, sem perigo. Outros, mais tarde, em algum outro
lugar, suportarƒo as conseq•ncias, medirƒo o impacto, avaliarƒo
Segunda fratura as repercuss‰es e limitarƒo os estragos.
passagem cotidiana comentada O pesquisador do Instituto Pasteur que se apresenta para
por um discurso sutil e entrecortado mim inocentemente dizendo: "Bom dia, eu sou o coordenador do
cromossomo 11 da leved ura de cerveja", diz apenas esta famosa
frase: "Os Bororo sƒo Araras". O pesquisador tamb‹m confunde
Figura 7: ‡ dupla quebra dos fetiches, ‹ preciso acrescentar, para se suas propriedades com a da levedura de cerveja, como Pasteur
compreender os modernos, o remendo indefinido que permite restau- confundia seu corpo ao do €cido l€tico, e como as na†‰es do Ama-
rar os peda†os esparsos, por urna sucessƒo de opera†‰es de salvamento, zonas confundiam suas culturas com suas naturez as dom‹sticas)
de restaura†‰es e de expia†‰es. Claro que nosso pesquisador nƒo se toma por um cromossomo
tanto quanto os Bororo por um papagaio. Mas ao fim da conver-
Por que os etn„logos se interessam tƒo pouco por esses ma-
sa, ap„s ter discorrido, durante tr•s hor as, sobre a Europa, a in-
ravilhosos remendos, que permitem restaurar todos os dias, e de dˆstria da cerveja, os programas de visualiza†ƒo d as bases de
mil maneiras diferentes, a efic€cia do fe(i)tiche, ainda que a teo- DNA sobre Macintosh, o genoma de Saccharomyces cerevisiae, ele
ria tenha destruŠdo a passagem entre a constru†ƒo e a realidade?
Se eles tivessem sido realmente destruŠdos, ningu‹m, em parte
alguma, nƒo poderia mais agir. Mas se eles nƒo tivessem sido 34.  Ver sobre estas confus‰es, o belo livro de Descola, Philip-
destruŠdos por um s„lido golpe de martelo, os mod ernos nƒo se pela  Nature domestique. Symbolisme et praxis dans l'•cologie des
 Achuar. Paris: Maison des Sciences de l'Homme, 1986 e sua
distinguiriam radicalmente dos outros. Nƒo haveria nem mes-
mo diferen†a entre a parte de baixo de seus fe(i)tiches e a parte reinterprera†ƒo liter€ria e reflexiva em its Lances du Cr•puscule,
Paris: Plon, 1994.  A
confessa-me, tamb‹m inocentemente: "Mas eu estou fazendo se, j€ que sabem oferecer muitos tra†os distintivos aos olhos da
apenas ci•ncia!". Aqui se encontra a pequena diferen†a, a quebra antropologia comparada...
de simetria. Pois se o mundo das  Ataras nƒo pode se movimen- Que me compreendam bem. Nƒo rebaixo aqui os moder-
tar sem que o mundo dos Bororo se abale, e vice-versa, ‹ possŠvel nos, devido ao seu fracasso, ‡ piedade monstruosa e b€rbara com
que esse cientista se tome por urn cromossomo e que movimen- a qual acreditam ter definitivamente rompido. Nƒo retomo o
te toda uma indˆstria, toda uma ci•ncia, como se este duplo aba- tema dos Šdolos do f„rum, do templo, do mercado, para acusar os
lo s6 perturbasse fatos homog•neos. Quando o cromossomo 11 da sensatos de acreditar, apesar de tudo, ‡ m aneira dos negros ou dos
levedura de cerveja surgir no mundo, ele apenas preencher€, de p€rias. Nƒo os encorajo, como o fil„sofo que se vale do martelo,
uma s„ vez, inesperadamente, a ˆnica natureza, no alto, na clari- a destruir enfim, por um ˆltimo e her„ico esfor†o, as ˆltimas su-
dade. Em frente, tomados de assalto, outros deverƒo subitamen- persti†‰es que repousariam ainda nas ci•ncias e na democracia. E
te ocupar-se das conseq•ncias Œ ‹ticas, polŠticas, econ‚micas Œ a defini†ƒo mesma do monstro, da barb€rie, dos Šdolos, do mar-
desta a†ƒo. O pesquisador faz, ter€ feito, far€ "apenas ci•ncia". telo e da ruptura , que ‹ preciso ser novamente retomada. Nun-
 Voc• pode, no fundo de seu laborat„rio, revolucionar o ca houve b€rbaros; n„s nunca fomos modernos, nem mesmo em
mundo, modificar os genes, dar nova forma ao nascimento e ‡ sonho Œ sobretudo em sonho! Se coloco no mesmo nivel os por-
morte, implantar pr„teses, redefinir as leis da economia, tudo tugueses cobertos de amuletos e os guineenses igualmente cober-
isso s„ aparecer€ como uma simples pr€tica, opaca e silenciosa. tos de amuletos, os fetichistas e os antifetichistas, os adoradores
No alto, na claridade dos fetiches destruidos, s„ se falar€ de ci•n- do shaligram e os br…manes iconoclastas, ‹  pelo alto, nƒo por baixo
cia, de um lado, e, de liberdade, de outro, sem que jamais os dois que o fa†o. Quem conhece melhor tal assunto? Mas claro, sƒo
lados de confundam, mesmo se, por um prodigioso remendo, aqueles que sempre imputaram a seus fe(i)riches a condi†ƒo de
gra†as a circuitos de retroa†ƒo, gra†as a flechas, idas e vindas, servirem de passagem, tƒo logo construŠdos, ‡quilo que os supe-
juntarmos as duas partes quebradas sem nunca restaurar-lhe no- ra. Somos capazes, n„s tamb‹m, os modernos, desta grandeza?
 vamente a alma. Todas as vantagens da critica Œ no alto Œ; todas Mas — claro, tranqilizern-se, sem o que voc•s nƒo poderiam re-
as vantagens da pr€tica Œ embaixo. Todas as vantagens da distin- zar, acreditar, pensar, descobrir, construir, fabricar, trabalhar,
†ƒo meticulosa entre os dois lados. Tod as as vantagens da passa- amar. Acontece que nossa particularidade prov‹m deste tra†o dis-
gem de um lado para outro com todo o conhecimento (pr€tico)35 tintivo; nossos fe(i)tiches, ainda que destruŠdos, encontram-se de
dos tr•s repert„rios, o da quebra, o do passe e o da restaura†ƒo. tal forma remendados, que eles remetem ‡ pr€tica o que a teoria
 Voc•s percebem que os brancos sƒo tamb‹m dignos de interes- s„ pode apreender sob a dupla forma da quebra e da restaura†ƒo.
Esta ‹ nossa tradi‚‡o, a dos destruidores e dos restauradores de fe-
tiche, estes sƒo nossos ancestrais, a serem respeitados sem excessi-
35. Ao querer que os modernos sigam, em suas idas e vindas, as  vo respeito, como se faz em toda linhagem."
conseq•ncias de suas a†‰es, Jonas, Hans em le Principe responsa- 
bilit•. Paris: Cerf, 1990, os toma por negros porque exige dos
modernos, sem medir as conseq•ncias disso, que eles percam 36. Nƒo nos esque†amos que devemos tamb‹m aos modernos, e
justamente o que faz Œ o que fazia Œ sua for†a ser exemplar: a ir- somente a eles, esta outra dicotomia entre o respeito pelos ances-
responsabilidade parcial, a ruptura na continuidade da a†ƒo, a trais, de uni lado, e a inven†ƒo liberada de todo entrave do pas-
surpresa incompreensŠvel diante da apari†ƒo distinta de fatos da sado, de outro. Rea†ƒo e revolu†ƒo, tradi†ƒo e inova†ƒo, emergem
natureza, de um lado, de responsabilidade ‹tica, de outro. da estranha concep†ƒo de um tempo tamb‹m rompido.
 Aprecio bastante, confesso, o retrato d o mundo mode rno tii mperialismo. Pela primeira vez, talvez, n€o
obtido quando ele ‹ restabelecido em todos os pontos, todas as tenhamos mais
b€rbaros, nem no exterior, nem, sobretudo, em nosso meio. Pela
pra†as, todo cume, todo frontƒo, todo templo, toda ramifica†ƒo, primeira vez, talvez, possamos utilizar a palavra "civiliza†ƒo",
todo cruzamento, a multidƒo de fe(i)tiches rompidos, refeitos, sem que este termo admir€vel seja cingido por for†as obscuras
pr€ticos. Nƒo precisamos mais opor o mundo desencantado, vir- que s„ estariam ‡ espera de uma palavra de ordem para transpor
tual, ausente, desprovido de territ„rio, ao outro, rico, intimo, o limes* e devastar tudo. Pela primeira vez, talvez, possamos nos
compacto e completo, o dos primitivos Œ que jamais viveram na lembrar que as civiliza†‰es ndo sdo mortais. 38
quietude fetal dos sonhos do s bons selvagens. Mas n€o devemos
tampouco imaginar que vamos, gra†as ‡ verdade, ‡ efic€cia, ‡
rentabilidade, sair do horrŠvel magma b€rbaro, em dire†ƒo do
qual, se nƒo tom€ssemos cuidado, nosso passado nos lan†aria Œ
os b€rbaros nƒo existem mais do que o s selvagens e n„s, os mo-
dernos, com nossas ci•ncias, nossas t‹cnic as, nossos direitos, nos-
sos mercados e nossas democracias, n€o somos, tampouco b€rba-
3
ros, contrariamente ‡ imagina†ƒo dos heideggerianos. ' Somos
como todo mundo (onde est€ a dificuldade?, onde est€ a perda?,
onde est€ o perigo?), tƒo pr„ximos, que estamos ligados por mil
la†os aos fe(i)tiches particulares, nossos ancestrais, nossas tradi-
†‰es, nossas linhagens, que nos permitem viver e passar. Somos
os herdeiros desses destruidores e desses restauradores de feti-
ches. A antropologia comparativa possui agora os me ios de res-
tabelecer um di€logo que me parece mais fecundo que os pro-
postos pelo CNN ou pelos ressentimentos enfadonhos do an-

37. Os movimentos reacion…rios deste s„culo que quiseram • e


* Zona fronteiri†a de uma provŒncia do Imp„rio Romano. (N.T.)
que querem ainda • fazer o elogio do paganismo e que desejam
destruir a universalidade da raz€o, enganam-se terrivelmente 38. Como lembra Marshall Sahlins em um recente artigo "Sen-
tanto sobre o que adoram como sobre o que execram: eles descre- timental Pessimism and Ethnographic Experience or Why Cul-
vem a selvageria desej…vel segundo o exotismo mais raso, e de- ture is Not a Disappearing Object" (no prelo), enquanto a antro-
testam a raz€o naquilo que ela pretende  ser, ao passo que ela  pologia at„ pouco tempo se desesperava com o fim das culturas
mostra, na pr…tica, a mais civilizada, a mais fina, a mais sociali-  • ou de sua pr‚pria implos€o p‚s-moderna • ela encontra-se ago-
zada, a mais localizada, a mais coletiva das formas de vida. Caso ra invadida pela renascen†a de novas culturas que n€o s€o moder-
nas e que  ped em  para ser estudadas. N‚s n€o terminamos de ava-
se deva reantropologizar o mundo moderno, „ pelo alto, pelas
ciƒncias e t„cnicas, e n€o por baixo, dando credibilidade ‡ vis€o liar o quanto o reequilŒbrio em benef Œcio da Asia alivia os oci-
que trƒs s„culos de clericalismo e de racismo comuns acreditaram dentais. Fim da m… consciƒncia europ„ia. Inicio da antropologia,
 poder oferecer sobre os primitivos e os pag€os. enfim t€o vigorosa quanto as sociedades que ela deve poder ana-
lisar sem faz• -las perecer. a
Segurt a parte
Trans-pavores
capitulo 8
Como obter, graˆas : rgrantes de periferia,
as divindade ontrabando

Podemos agora definir com precis€o o antifetichismo: „ a


de apreender como se passa da a†€o humana que fabri-
 pro ibi fŒi o
ca ‡s entidades autˆnomas que ali se formam, que ali se revelam.
Ao contr…rio, podemos definir a antropologia sim„trica como
aquilo que revoga esta proibi†€o, e confere ao fe(i)tiche um senti-
do positivo. O fe(i)tiche pode ser definido, portanto, como a  sa-
bedoria do passe, coma aquilo que  permite a passagem da fabrica†€o
‡ realidade; como aquilo que oferece a autonomia que n€o possuŒ-
mos a seres que n€o a possuem tampouco, mas que, por isso mes-
mo, acabam por nos concedƒ-la. O fe(i)tiche „ o que faz-fazer, o
que faz-falar. "Gra†as aos fe(i)tiches", poderiam dizer os feiticei-
ros, os adeptos, os cientistas, os artistas, os politicos, "podemos
 produzir seres ligeiramente autˆnomos que nos superam at„ cer-
to ponto: divindades, fatos, obras, representa†‹es". Infelizmente
esta formula†€o reutiliza os termos "n‚s", "produ†€o", "autono-
mia", "supera†€o", que foram forjados durante s„culos, para ali-
mentar a polƒmica anrifedchista da qual procuramos justamente
nos desvencilhar.' Ap‚s ter investigado durante muito tempo os

1. Pode-se ler em Hutchins, Ed Cognition in the Wild. MIT Press,


Mass:Cambridge, 1995, ainda que representando uma tradi†€o
completamente diferente, a da "cogni†€o distribuŒda", a mesma
exterioriza†€o do trabalho do pensamento, e sua transposi†€o
 para a antropologia, sob formas compativeis com as da presente
reflex€o.
avatares do objeto, e verificado que ele jamais ocupa, nem a po- Fica-se um pouco surpreso que o paciente nƒo esteja no centro
si†ƒo de objeto-encantado nem a de objeto-causa, ‹ preciso ago- da sala, nem da conversa. Alguns tentam falar dele, dot€-lo de
ra, voltar-se para os avatares do sujeito. O construtivismo social uma interioridade, de uma hist„ria pr„pria, de uma responsabi-
nos obriga, com efeito, a nos iludirmos tanto sobre as entidades lidade: "Ele est€ melhor, ele se encarrega mais de si pr„prio, ele
que mobiliza quanta sobre o trabalhador infatig€vel que ele su- est€ aberto, ele se comunica', mas isso parece interessar pouco
p‰e trabalhar regido por uma tarefa. Se Pasteur pode dizer, sem aos outros. Eles olham para baixo, para cima, para o lado, para
se contradizer, que tornou o fermento do €cido l€tico aut‚nomo; outro lugar, e falam de qualquer outra coisa. Do que? Das divin-
se o adepto do candombl‹ pode afirmar, sem hesitar, que deve dades. No inicio, o paciente se espanta, constrangido. Esgotado
aprender a fazer sua divindade; se a tia de Jagannath pode dizer, por dezenas de entrevistas psicol„gicas (seria preciso dizer psico-
sem piscar, que o shaligrant nada mais ‹ do que urna pedra, e que g•nicas), ele parece entediado de falar disto. Disto? Nƒo absolu-
‹ por isso que ela lhes permite viver, o sujeito concebido como tamente, voc•s nƒo estƒo compreendendo. Nƒo se procura de
fonte de a†ƒo deve mudar tanto quanto o objeto-alvo. Eu preci- modo algum, neste cŠrculo, passar da sala de jantar para a cozi-
saria de um lugar, diferente dos laborat„rios, para prosseguir esta nha, e de l€, para os fundos da cozinha ou para o porƒo. Nƒo, as
elabora†ƒo dos sujeitos, que corresponde simetricamente ‡ elabo- pessoas nƒo se interessam em absoluto por e le, nem por sua su-
ra†ƒo dos fatos. Tobie Nathan ofereceu-me tal lugar, ao qual que- perfŠcie, nem por sua profundidade. Se vieram para falar do fi-
ro tentar fazer justi†a, sem certamente conseguir. lho, ‹ ‡ mƒe e aos av„s que dedicamos duas horas de nosso tem-
Esse evento tem lugar na periferia, em um tipo de visita po. Se vieram para tratar da irmƒ, ‹ peio tio que ficou no seu paŠs
de controle fo rmada pela reuniƒo de psiquiatras, psic„logos, es- de origem que nos interessamos. Se vieram para compreender o
tudantes, etn„logos, visitantes, jornalistas, curiosos, de indivi- crime cometido por um beur -, vamos dedicar a manhƒ ‡s rela-
duos impertinentes, transeuntes que participavam da sessƒo. †‰es de Al€ com seu pai e seu av‚. O constrangimento do pa-
Neste cŠrculo, um elo entre outros, sem privil‹gio nem inferio- ciente nƒo dura. Depois de algum tempo, interessado, ele se
ridade, o paciente. N„s lhe damos este nome a fim de preencher mostra atento, junta-se ‡ conversa como se fal€ssemos de um ou-
os registros da previd•ncia social, mas ele quase nƒo o merece, tro Œ e ‹ de um outro, na verdade, que se fala em v€rias lŠnguas.
pois ele ‹ bastante ativo. Nada a ver, em to do caso, com as apre- Ele acrescenta, ‡s vezes, sal ‡s feridas. Acontece at‹ mesmo, coi-
senta†‰es dos doentes nos asilos que conheci no tempo e m que sa espantosa para o observador moralista e psicologizado que
os fil„sofos prestavam seus exames para o ce rtificado de psico- sou, que se ria ‡s gargalhad as com ele, a prop„sito dos dramas
logia. Por certo que o paciente est€ presente, e sua doen†a se horrŠveis que se tramam no seu exterior. Estamos todos no asilo,
ajusta bem ‡ sua pessoa, mas ela vai se desprender rapidamen- prontos para a camisa de for†a na saida? Nƒo, pois assistimos em
te e nƒo mais merecer o nome de doen†a. O doente Œ j€ que ‹ Saint-Denis**, na Fran†a, a uma curiosa experi€ncia: aquilo que as
preciso manter este nome Œ vem com sua primeira familia: tio, entrevistas de psicologia podem fazer, uma sessƒo de etnopsi-
mƒe, pai, irmƒo ou filhos, mas tamb‹m com sua segunda famŠ- quiatria pode desfazer. O sujeito respons€vel e doente, sabe-se
lia: juŠzes, assistentes sociais, psic„logos, educadores. A primei-
ra •, na maioria das vezes, negra ou parda, a segunda, quase
sempre branca.
O paciente fala sua ou suas lŠnguas. Um primeiro tradutor * Jo vem norte-africano, nascido na Fran†a de pais migrantes. (N.T.)
comenta em franc•s, e depois, cada um faz sua pr„pria tradu†ƒo. ** Municipalidade francesa, situada ao norte da regiƒo metropo-
litana de Paris. (N.T.)
desde Foucault, nƒo existe desde sempre. Ž preciso, para ret•-lo, reux, migrantes reencontram su as divindades ao perderem suas
para mant•-lo, um aparato cuidadoso, institui†‰es ampl as e s„- psicologias; bulevar Saint-Michel', no CSI, cientistas reencon-
lidas, exercŠcios de disciplina e de inquisi†ƒo. Mas caso se modi- tram suas equipes ao perderem suas epistemologias. Eu nƒo po-
fiquem as condi†‰es da experi•ncia, caso se jogue o paciente-da- deria perder isso. Dois centros qu e nƒo estavam ligados por nada
psicologia em uma sessƒo do Centro Georges Devereux`, eis que (a nƒo ser pelo silencioso ‚nibus que garante o ir e vir de uma jo-
ele se transforma em uma "empreitada" completamente diferen-  vem e a sabedoria de um fil„sof o belga) fazem o mesmo trabalho,
te. E como se, em tr•s horas, assistŠssemos ‡ liquefa†ƒo progres- duas vezes, um sobre os objetos, o outro sobre os sujeitos. Com o
siva do sujeito psicol„gico que se desprenderia lentamente do que se pareceria Paris se eu juntasse os dois centros e se, aos ob-
paciente, migraria pouco a pouco para o meio da consulta e ter- jetos novamente socializados pela nova hist„ria das ci•ncias, fos-
minaria por ali se dissolver, para se configurar inteiramente de sem acrescentados os sujeitos aos quais a etnopsiquiatria torna a
outro modo. A doen†a, ali€s, nƒo mais encontrando a que se oferecer su as divindades? Nƒo terŠamos mais cientistas racionais,
prender, parte de forma precipitada tamb‹m, mas ningu‹m dƒ eficazes, ˆteis, tentando integrar ‡ Repˆblica migrantes em via
realmente import…ncia a isso. Como bem disse Freud, o pacien- de moderniza†ƒo. Os objetos mˆltiplos dos primeiros nƒo se
te ser€ necessariamente curado... manteriam mais no lugar do que os ancestrais dos segundos.
Outros podem descrever tais sess‰es muito melhor que eu.' Um paciente (eu, voc•, ele) que, um minuto antes, na sala
 Visto que o dispositivo da cura impede a observa†ƒo fria, ‹ do ig- de espera, preparava-se para que seu eu superficial ou profundo
norante que sou, paciente e impaciente, doente e sadio, compac- fosse examinado, encontra-se preso por divindades cuja exist•n-
to e mˆltiplo, que quero falar. Fiquem tranqilos, nƒo vou expor cia ignorava, isento da obriga†ƒo de possuir um eu que teria
minha psicologia, mas, ao contr€rio, aproveitar-me do testemu- sido dotado de uma interioridade e de uma consci•ncia, e assis-
nho da cura para eu tamb‹m me desfazer dela durante a consul- te, em observa†ƒo participante, ao questionamento daqueles
ta, acompanhando essa migra†ƒo progressiva da alma, esse desli- que lhe dƒo apenas uma aten‚‡o passageira, como a aten†ƒo dada
gamento, para compreender do que sƒo feitos os sujeitos brancos. pelas divindades, que s„ se interessam por ele por um feliz aca-
Como se pode de spsicologizar em tr•s horas um paciente sobre- so. Nƒo ‹ mais dele, justamente, que se trata, ele ser€ talvez cu-
carregado por quarenta e oito anos de s„lidas psicog•neses? rado disso. Mas para compreender esse deslocamento, essa per-
Entretanto, isto nƒo deveria me espantar. Em tr•s horas em da das ilus‰es, seria preciso oferecer novamente uma morada
um laborat„rio, hi vinte anos, compreendera que era preciso "de- para os fetiches, construir um pombal onde as divindades,
sepistemologizar" todos os objetos das ci•ncias exatas. Confessem como em um v‚o de pombas, possam voltar para tagarelar ‡
que a simetria ‹ extremamente bela. No Centro Georges Deve-  vontade. Nƒo se trata de aceitar, compreendi isso rapidamente
durante a sessƒo, de entrar nas "representa†‰es culturais" dos
atores com a hipocrisia condescendente dos psic„logos e, de
acreditar nas divindades sob o pretexto que os migrantes tam-
* Centro Universit€rio de Ajuda Psicol„gica ‡s FamŠlias Migran-
tes, da Universidade de ParisVlIl, situado em Saint-Denis. (N.T.) b‹m acreditam nelas (como esses loucos de hist„rias em quadri-
2. Nathan, Tobie ...Fier de n'avoir ni pays, ni arais, quelle sottise c'•-  nhos, onde os enfermeiros, para acalm€-los, fazem de conta que
tait. Paris: La Pens‹e sauvage, 1993; l'Influence qui gu•rit.
Paris:
Odile Jacob, 1994; Nathan, Tobie; Stengers, Isabelle.  M•decins et
sorrier!. Les Emp•cheurs de penser en rond, Paris: 1995. * Avenida situada no centro de Paris. (N.T.)
tamb„m s€o Napole€o). N€o se trata, justamente, nem de acre- capitulo 9
ditar, nem de suspender a cren†a comum. As divindades agem Como se pr `dainterioridade
sozinhas. Mas como, e em qual mundo, e sob qual forma? Tal- e daexterio ridade
vez vamos, enfim, colher os frutos de nossos fe(i)tiches. Ao mo-
dificar t€o profundamente a defini†€o de cren†a, ao levar o ag-
nosticismo t€o longe, ser… que conseguirei situar mais facil-
mente este tr…fico de divindades?

Deve ser possŒvel dar novamente lugar ‡s divindades, com


a condi†€o de modificar o espa‚o onde elas poderiam se manifes-
tar.  preciso, para tanto, redefinir os espa†os plenos como os va-
zios, determinados pela no†€o de cren†a. O pensamento critico
funcionava, se quisermos, como uma gigantesca bomba aspiran-
te e refluente. Sob o pretexto de que ajudamos a fabricar os se-
res nos quais acreditamos, tal pensamento esvaziava todos os ob-
 jetos-encantados, expulsando-os do mundo real, para transfor-
m…-los, uns ap‚s os outros, em fantasias, em imagens, em id„ias.
O pensamento crŒtico, se se deseja, funcionava como uma gigan-
tesca pompa aspirante e refluente. Sob o pretexto de que os ob-
 jetos-feitos, uma vez elaborados no laborat‚rio, parecem existir
sem a nossa presen†a, ele alinhava os fatos em batalh‹es com-
 pactos, compondo um "mundo real", contŒnuo, sem lacuna, sem
vazio, sem humano. O pensamento crŒtico estabelecia, assim, o
 pleno. Ao evitar por duas vezes, a curiosa pr…tica que exige que
os objetos-encantados como os objetos-feitos sejam fabricados
 por humanos, essa pompa aspirante e refluente criou simulta-
neamente, por subtra†€o e por adi†€o, por suc†€o e por press€o,
 por esvaziamento e por preenchimento, a interioridade como a
exterioridade. Quanto mais espa†o para as divindades, mais su-
 jeitos jogados, por engano, em um mundo de coisas . Mais espa-
†o para o …cido l…tico; contudo, objetos exteriores subitamente
descobertos por sujeitos conhecedores.
 VAZIO PLENO
interioridade preenchida por sonhos vazios, sem refer•ncia ne-
nhuma ‡ realidade conhecida pelas ci•ncias exatas ou sociais.
Pode-se ver que o sujeito da interioridade serve de co ntra-
partida para os objetos da exterioridade. Para fazer a liga†ƒo, in-
 ventaremo s, em seguida, a no†ƒo de repreentaEio. Gra†as a ela, o
" Mundo sonhado" 'Mundo real" sujeito da interioridade come†a a projetar sobre "a realidade ex-
Multiplica‰‡o de todos os objetos-feitos, Extra‰‡o de todos os objetos-encantados, terior" seus pr„prios c„digos Œ os quais lhe seriam dados de fora,
para fazer dos mesmos os ingredientes para fazer dos mesmos fantasias por um encadeamento causal dos mais impressionantes, das es-
que povoam o interior dos sujeitos
continuos do mundo exterior truturas da lingua, do inconsciente, do c‹rebro, da hist„ria, da
sociedade. Desta vez a confusƒo ‹ completa. Um sujeito fonte da
a†ƒo, dotado de uma interioridade e de uma consci•ncia, frag-
FE(I)TICHES mentaria arbitrariamente a realidade exterior, que existiria inde-
Entidades que possuem suas pr•prias condi‰Œes
de satisfa‰‡o e suas pr•prias maneiras de ser pendentemente dele, e determinaria, por um outro canal, estas
mesmas representa†‰es. E aquelas pessoas pretendiam atormen-
Figura 8: a dupla omissƒo dos fe(i)tiches permite criar, ao mesmo tem-
po, por uma esp‹cie de bomba aspirante e refluente, a interioridade das tar os negros da Costa! Decididamente, ‹ o hospital que zomba
fantasias, que t•m como origem apenas as profundezas do suj eito e a da caridade. Pior, decididos a nƒo mais repetir a condescend•n-
exterioridade do mundo real, que ‹ constituida apenas por um tecido cia dos portugueses conquistadores, alguns hip„critas preten-
contŠnuo de fatos objetivos. dem respeitar os selvagens afirmando que estes, deliram conto eles
e que esses negros ou br…manes infelizes teriam tamb‹m a chan-
Olhando este esquema, compreende-se melhor por que a ce de possuir "representa†‰es sociais" que fragmentariam a rea-
psicologia nƒo pode mais nos servir para situar os sujeitos do que lidade segundo outros vieses e outros arbŠtrios. Modo estranho
a epistemologia para descrever a hist„ria bizarra dos objetos. de respeitar os outros, fazendo-os parceiros emocionados e reco-
Uma, de fato, nƒo existe sem a outra. Assim como os objetos de nhecedores dos delirios modernistas! O relativismo cultural
hoje nƒo se parecem de modo algum com aquilo em que se acre- acrescenta um ˆltimo delŠrio a todos os que prec ederam.
ditava recentemente, quando se acreditava que se sabia, sem in- Seria com certeza possŠvel privar-se completamente da in-
termedi€rio e sem media†ƒo, do mesmo modo, os sujeitos nƒo se terioridade naturalizando a vida interior. O pensamento critico
parecem, de modo algum, com aquilo em que se acreditava, oferece, de fato, um repert„rio rico Œ demasiado rico, demasiado
quando se acreditava saber que existia, em algum lugar, uma f€cil, demasiado vantajoso Œ para mergulhar o sujeito nas causas
cren†a ing•nua. Cren†a e saber navegavam no mesmo barco; eles objetivas que o manipulariam (ver figura 2). Nada mais f€cil
seguiram o mesmo rumo. Como o mundo estava abarrotado de que fazer do sujeito o efeito superficial de um jogo de lingua-
causas objetivas, conhecŠveis ou conhecidas, mas que alguns pri- gem, a capacit…ncia provis„ria que emergiria de uma rede neu-
mitivos, arcaicos, infantis, inconscientes, obstinavam-se em po- ronal, o fen„tipo de um gen„tipo, o consciente de um incons-
 vo€-lo com seres fetiches inexistentes, era preciso colocar em al- ciente, o "idiota cultural" de uma estrutura social, o consumidor
gum lugar estas fantasias produzidas por cabe†as vazias. Onde de um mercado mundi al. Cortar bra†os e pernas aos sujeitos: to-
enfi€-las? Nas cabe†as vazias, justamente. Mas elas estƒo cheias! dos soubemos dessas amputa†‰es ao lermos os jornais. Somos
Pouco importa, vamos esvazia-las! Inventemos a no†ƒo de uma

77
preparados para a morte do homem desde o DEUG". Felizmen- mo um empurrƒozinho, para que ele aparecesse como um ser
te, tais procedimentos nos sƒo interditados desde o pequeno es-  vivo. Entretanto, Pasteur pe de que se ide ntifique a esse fermen-
to toda autonomia da qual ele • capaz. Os adeptos do candombl‹
c…ndalo assinalado anteriormente: a  felix culpa da antropologia nƒo pretendem, de modo algum, que su as divindades lhes falem
das ci•ncias. Seria preciso, com efeito, falando s‹rio, acreditar diretamente por uma voz caŠda do c‹u, j€ que confessam, tam-
em uma ou nas v€rias ci•ncias sociais ou naturais, importadas,
b‹m ingenuamente, que suas divindades arriscam se tornar, na
no todo ou em parte, para calar os faladores. Mas passar brutal- falta de uma t‹cnica, uma "esp‹cie em via de extin†ƒo". Entre-
mente dos sujeitos aut‚nomos aos objetos cientificos que o s de- tanto, em suas bocas, essa confissƒo refor†a, ao inv‹s de enfra-
terminam, prolongaria o antifetichismo ao inv‹s de livrar-se quecer, a pr„pria exist•ncia da divindade que lhes fala. A tia de
dele. Nƒo queremos confundir Pasteur, atento aos gestos preci-  Jagannath nƒo pede que a pedra seja outra coisa al‹m de uma pe-
sos que revelam seu fermento, canto como nƒo desejamos perder dra. Ningu‹m jamais manifestou, concretamente, uma cren†a
nosso adepto do candombl‹, que fabrica sua divindade, ou igno- ing•nua em um ser qualquer.4 Se existe cren†a, ela ‹ a atividade
rar como os ancestrais de Jagannath fizeram de uma simples pe- mais complexa, mais sofisticada, mais critica, mais sutil, mais
dra aquilo que os mant•m vivos. Nossa teoria da a†ƒo de ve reu- reflexiva que h€. Mas esta sutileza nƒo pode jamais se manifes-
5

nir exatamente o que eles produzem como alga particular, no mo- tar caso se procure, em primeiro lugar, fragment€-la em objetos-
mento em que sƒo ligeiramente superados por suas a†‰es. causa, em sujeitos-fonte e em representa†‰es. Privar a cren†a de
Curiosamente, a via dos fe(i)tiches (parte de baixo da figura sua ontologia, sob o pretexto que ela tomaria lugar no interior do
8) parece muito mais simples, mais econ‚mica, mais razo€vel, sim, sujeito, ‹ desconhecer, ao mesmo tempo , os objetos e os atores
mais razo€vel. Ao inv‹s de dedicar-se, primeiramente, a objetos- humanos. E nƒo conseguir atingir a sabedoria dos fe(i)tiches.
causa, que preenchem inteiramente a totalidade do mundo exte-
rior; em segundo lugar, a sujeitos-fonte, dotados de uma interiori-
dade e abarrotados de fantasias e emo†‰es; em terceiro lugar, a re- 4. A cada ano, cada um dos exemplos can‚nicos e revirado pela
presenta†‰es mais ou menos arbitr€rias, que tateiam, com maior ou historiografia moderna, como no admir€vel exemplo estudado
por Russel, Jeffrey Burton Inventing Flat Earth. Columbus and
menor sucesso, para estabelecer uma liga†ƒo fr€gil entre as ilus‰es  Modern Historians,  New York: Praeger, 1991. Entretanto, como
do eu e a dura realidade conhecida somente pelas ci•ncias; em se zombou desses monges, bastante ing•nuos, por acreditarem
quarto lugar, a nov as determina†‰es causais, a fim de explicar a ori- literalmente na terra plana! O autor prova, com  brio, que essa
gem arbitr€ria destas representa†‰es; pot que nƒo abandonar a du- cren†a na cren†a ing•nua data do s‹culo XIX, quando ela nƒo ti-
pla no†ƒo de saber/cren†a, e povoar o mundo com as entidades de- nha, ali€s, nada de ing•nuo,  j… que ela participava da bela ceno-
senfreadas3 que saem da boca dos "zatoreszelesmesmos"? grafia das Luzes, que emergia dos periodos obscuros.
5. Uma obra para mim decisiva, a de Darbo-Peschanski, Claude
Pasteur nƒo pede que seu fermento de €cido T€tico seja ex-
terior a ele, j€ que disp‰e do mesmo no laborat„rio e, em fun†ƒo le Discours du particular. Essai stir 1'enqu€te herodot•enne. Paris: Le
Seuil (des Travaux), (1987), pode servir de m‹todo geral para
de seus preconceitos, confessa ingenuamente, que lhe deu mes- reunir a diversidade de posi†‰es que a no†ƒo de cren†a destruŠa.
Para exemplos que nos sƒo mais pr„ximos, ver Gomart, Emi-
lie(1993).  Enqu€te s tir le travail des hom•opathes. DEA-Ecole des
haures „tudes en sciences sociales; Remy, Elizabeth (1992), Des
* Diploma de estudos universit€rios gerais. ( N.T.)
3. Sobre esta no†ƒo ver (1994), "Note sur certains objets cheve- vipŠres ldch•es par helicoptŠre, anthropologie d'un ph•nom•ne appel• ru- 
rneur. (doutorado). Universir„ Paris-V.
lus".  Nouvelle revue d'ethnopsychiatrie, v. 27, p. 21-36.

79
O prov‹rbio chin•s, "Quando o s€bio mostra a Lua, o im- das, que eles existam sob a forma de fatos brutos, continuos, obstina-
becil olha para o dedo", se aplica primorosamente ‡ atitude de- dos, inflexŠveis. Quando Elizabeth Claverie segue em peregrina†ƒo
nunciadora do pensamento crŠtico. Ao inv‹s de olhar para o que a Medjugorje para ver a apari†ƒo da Virgem Maria, ao mei o- dia em
chama a aten†ƒo apaixonada dos atores, o antifetichista se cr• ponto, ela nƒo se comporta como o idiota do prov‹rbio chin•s, e nƒo
muito astucioso, porque denuncia, com um dar de ombros, o ob- come†a a se dizer, pavoneand o-se de sua superioridade cientŠfica:
jeto da cren†a Œ que sabe, pela ci•ncia infusa, ou antes, confusa, "Como bem sei que a Virgem nƒo existe e nem aparece, vou tentar
que ele nƒo existe Œ e dirige sua aten†ƒo para o dedo, depois para somente compreender como os humildes trabalhadores franceses
o punho, para o cotovelo, para a medula espinhal, e, de l€ para o podem acreditar na sua exist•ncia e por quais raz‰es". 7 Ela segue o
c‹rebro, depois para o espŠrito, de onde torna a descer, em segui- dedo que indica a Virgem, atitude extremamente sensata, e sobre-
da, ao longo das causalidades objetivas oferecidas pelas outras tudo, extre mamente s€bia. Sim, claro, a Virgem aparece, todo mun-
ci•ncias, na dire†ƒo da educa†ƒo, da sociedade, dos genes, da evo- do a v•, toda a multidƒo, no crepitar das Polaroids, obt‹m a prova
lu†ƒo, em suma, do mundo pleno, que as fantasias dos sujeitos dessa apari†ƒo. Elizabeth tamb‹m a v•: como nƒo v•-la? Mas caso
nƒo conseguiriam amea†ar. Uma hip„tese muito mais simples, agora se escute as vozes mˆltiplas que se elevam na multidƒo em
mais inteligente, mais econ‚mica e, finalmente, por que nƒo prece, assim como o murmˆrio emocionado no trem que reconduz
diz•-lo, mais cientŠfica, consiste em dirigir o olhar, como o pro- os peregrinos para Paris, percebe-se, com surpresa, que em nenhum
 v‹rbio nos convida a fazer, nƒo apenas em dire†ƒo ‡ Lua,' mas momento os fot„grafos esperavam ver a Virgem se fixar, como uma
tamb‹m na dire†ƒo dos fermentos de €cido l€tico, das divindades, est€tua de Saint Sulpice, no papel fotogr€fico. A Virgem nƒo exige,
dos buracos negros, dos genes desordenados, das Virgens apare- de modo algum, ocupar a posi†ƒo de coisa a ser vista Œ ou de ilusƒo
cidas, etc. Que temos a perder? Do que temos medo? Que o a ser denunciada; o fermento de Pasteur nƒo exige, em momento al-
mundo seja demasiado populoso? Ele nƒo ser€ jamais o suficien- gum, para que possa realmente existir, o papel de objeto construŠ-
re. Ž provavelmente o vazio destes espa†os que nos aterroriza. As- do Œ ou de objeto descoberto; o shaligram nƒo exige jamais ser ou-
si m como o mundo escol€stico tinha horror ao vazio, o mundo tra coisa al‹m de urna simples pedra. O envolt…rio ontol…gico criado
das explica†‰es sociais e causais tem horror a essas ontologias de pela Virgem salvadora, seu "caderno de encargos", pode-se ousar di-
 geometria variˆvel, que obrigariam a redefinir tanto a a†ƒo como os zer, obedece a exig•ncias que nƒo recortam, em nenhum momento,
atores, e que se estenderiam pelo espa†o intersideral como os pla- os dois p„los da pobre exist•ncia e da pobre representa†ƒo. 8 Ela  fa z
netas e as gal€xias, irredutŠveis, umas ‡s outras.
O medo de nƒo restringir suficientemente a popula†ƒo desses
seres, abandonando a diferen†a ent re epistemologia e ontologia, * Pequena localidade ao sul da B„snia-Herzegovina. Local de in-
cren†a e saber, vem apen as , felizmente, do alarido feito pelo pensa- tensa peregrina†ƒo, desde 1981, quando seis jovens declararam
mento crŠtico. Ž o barulho do pistƒo da bomba aspirante e refluen- ter visto a Virgem Maria que, segundo relatam, lhes envia men-
te e, somente ele, que nos impede de perceber que os "zacoreszeles- sagens diariamente.
7. Claverie, Elizabeth (1990). "La Vierge, le d‹sordre, la criti-
mesmos", raramente exigem dos seres com quem dividem suas vi- que". Terrain, v. 14, p. 60-75, e (1991), "Voir apparaitre, regar-
der voir". Raisons Pratiques,  v. 2, p. 1-19.
8.  Ver o modelo proposto em "Did Ramses II Die of Tuberculo-
6. Sabe-se do sofrimento necess€rio a Galileu e a seus pares para sis? On the Relative Existence of Existing and Non-existing Ob-
dirigir para a Lua o dedo e a ocular do telesc„pio. jects". In Daston: Lorraine (ed.), no prelo. ˜

Iv"' d ~ u DE PSICOLO GIA „to-tv


algo completamente diferente, ela ocupa o mundo Œ sim, eu disse o Entretanto, olhando isso mais de perto, mesmo essa esp‹-
mundo Œ de uma forma que surpreende tanto os cl‹rigos como os cie de cientismo poderia escapar ‡ acusa†ƒo de ingenuidade, pois
anticlericais. a busca intermin€vel dos uf„logos visa objetos desordenados Œ
O ˆnico exemplo de cren†a ing•nua que possuŠmos, viria, por certo, empobrecidos Œ que nƒo conseguem obedecer ao pa-
portanto, da cren†a ing•nua dos estudiosos no fato de que os ig- pel que o cientismo lhes preparara. Curioso mal-entendido, que
norantes acreditariam ingenuamente? Nƒo completamente, pois deixaria, entƒo, a cren†a ing•nua sem nenhum exemplo que pro-
existem, de fato, ignorantes que reproduzem bastante bem a  ve sua exist•ncia. O resultado seria engra†ado. Os epistem„lo gos
imagem que os estudiosos gostariam que eles fizessem de si pr„- exibiriam aos nossos olhos, por conseguinte, o ˆnico caso verda-
prios. Os fot„grafos de discos voadores, os arque„logos de cida- deiramente seguro de cren†a ing•nua, em primeiro grau. Novo
des espaciais perdidas, os zo„logos que buscam vestŠgios do cogito, novo ponto fixo: creio na cren†a, logo, sou moderno! En-
yeti', aqueles que mantiveram contato com pequenos homens tretanto, mesmo este h€pax nƒo est€ provado, visto que a inten-
 verdes, os criacionistas em luta contra Darwin, todas essas pes- †ƒo polŠtica que mant‹m a cren†a na cren†a, a despeito da uni-

soas que Pierre Lagrange estuda com a aten†ƒo apaixonada de  versalidade de to dos os contra-e xemplos, que derrubam assim o
um colecionador, procuram efetivamente fixar entidades que te- princŠpio da indu†ƒo, determina um objeto exagerado, interes-
riam aparentemente as mesmas propriedades de exist•ncia, o sante e muito! Existem boas raz‰es polŠticas para acreditar na di-
mesmo caderno de encargos, que as entidades que, segundo os feren†a entre razƒo e polftica. 10
epistem„logos, saem dos laborat„rios.' Coisa curiosa, eles sƒo
chamados de "irracionalistas", quando seu maior defeito prov‹m
antes da confian†a apaixonada que manifestam em um m‹todo
cientifico que data do s‹culo XIX, na explora†ƒo do ˆnico modo
de exist•ncia que eles conseguem imaginar: o da coisa j€ l€, pre-
sente, esperando ser fixada, conhecida, inflexŠvel. Ningu‹m ‹
mais positivista que os criacioniscas ou os uf„logos, visto que s„
conseguem imaginar outras maneiras de ser e de falar descreven-
do matters of  fact. Nenhum cientista ‹ tƒo ing•nuo, ao menos no
laborat„rio. De modo que, paradoxalmente, o ˆnico exemplo de
cren†a ing•nua que possuŠmos parece vir dos irracionalistas, que
pretendem constantemente derrubar a ci•ncia oficial com fatos
obstinados, encobertos por um compl‚.

* Abomin€vel homem da neves. (N.T.)


9. Ver a tese em andamento (em longo andamento!) de Lagran- 10. Para acompanhar essa polŠtica da razƒo que salva concretamen- 
ge Pierre e seus artigos (1990), "Enqu•te sur les soucoupes vo- te aepisternologia de sua pr„pria teoria, ver Stengers, Isabelle l'
Invention des sciences moderns. Paris: La D‹couverte, 1993 e o livro
lantes". Terrain, v. 14, p. 76-10, 1991 e o nˆmero especial de
 Ethnologie fran‚aise, v. XXIII, n. 3, 1993, organizado por ele. de Cassin, Barbara. op.cit. 1995.
capitulo l o
Como estabelece demo de encargos"
das ivind des

Quando o dedo indicar a Lua, olharemos a partir de entƒo


para a Lua. O pensamento conca menos que os seres pensados; ‹
a estes que devemos nos ligar. Munidos desse resultado, procu-
remos voltar para a consulta. Naquele momento, nƒo tinha um
lugar para instalar as divindades sem delas fazer representa†‰es.
Mas como pretender respeitar entidades que teriam sido inicial-
mente privadas de exist•ncia? A exist•ncia nƒo faz parte dos
ideais indispens€veis ao respeito, algo que a no†ƒo de cren†a nƒo
permite jamais conservar?" Ž preciso, entƒo, que eu retorne ‡
fenda entre as quest‰es epistemol„gicas e as quest‰es ontol„gi-
cas. A nova hist„ria d as ci•ncias permitiu-me deslizar entre as
duas. O fermento do €cido l€tico descoberto/construido/ induzi-
do/formado por Pasteur, serviu-me de mo delo na compreensƒo

11. A solu†ƒo que consiste em produzir, a partir disso, significan-


tes distribuŠdos por regras inconscientes, permitiu aos estrutura-
listas belos efeitos de inteligibilidade, mas pode-se avaliar melhor
agora o pre†o que tiveram que pagar para elaborar essa ci€ncia do
nonsense: foi preciso que eles abandonassem o sentido das pr€ticas
e privassem o pensamento da ontologia sutil que ele manifestava
tanto no momento oportuno, como no inoportuno. Mais vale,
certamente, a l„gica do significante que o del‘rio do "pensamen-
to primitivo", mas a solu†ƒo mais vantajosa permanece, entretan-
to, a de povoar o mundo com seres sobre os quais os atores falam,
e segundo as especifica†‰es diversas que eles reivindicam.
das divindades.  Ele tampouco teria seu lugar no mundo, caso fos-  Antes de voltar a esse est€gio, devemos compreender a
se necess€rio dividir as coisas em causas, interioridades e repre-  vantagem de semelhante ecumenismo para compreender a cura.
senta†‰es. Vantagem da simetria: ao tomar o exemplo dos seres Nƒo sucumbimos mais ao irracionalismo, quando acompanha-
mais respeitados por uma cultura, a nossa, lan†a-se uma luz so- mos um paciente que mobiliza suas divindades, do que devemos
bre os seres mais desprezŠveis de uma outra. Todos estes seres pe- "sucumbir ao racionalismo", a fim de seguir a forma como P as -
dem para existir, nenhum se ampara na escolha, que se acredita teur se confunde com seu fermento.  Ndo h‡ mais vertentes. Em
de bom senso, entre constru†ƒo e realidade, mas cada um requer todo caso, nƒo h€ mais duas vertentes, mas v€rias, que formam
formas particulares de exist•ncia das quais ‹ preciso estabelecer, outras tantas facetas ou desdobramentos. Perguntar-se como es-
com cuidado, o caderno de encargos. sas entidades se mant•m, uma vez arrancados os dois s„lidos su-
 J€ preenchi a primeira condi†ƒo desse caderno : as divinda- portes, do sujeito e do objeto, leva a perguntar para onde vƒo os
des investidas na cura realmente existem. Corro o risco de, evi- s„is, as gal€xias e os planetas quando se perde o cosmos aristot‹-
dentemente, enfraquecer de imediato esse reconhecimento ao lico. Elas se mant•m sozinhas contanto que o quadro de refer•n-
distinguir tal exist•ncia com demasiada generosidade. ™ pri- cia de um mundo finito, dotado de um alto e de um baixo, nƒo
meira vista, de fato, temos coisas demais a levar em conta, visto as venha mais for†ar, em um movimento relativo, a cair ou a su-
que os sonhos, os licornes, as mo ntanhas de ouro, devem convi- bir. Da mesma forma, as entidades irredutŠveis se mant•m mui-
 ver, sem nenhuma sele†ƒo, com os deuses, os espŠritos, os fer- to bem umas ‡s outras. Elas descansam em seu mundo sem ex-
mentos do €cido l€tico, as obras de arte, as sociedades, os shall-  cesso nem resŠduo. Caso se admita essa questƒo, ser€ possŠvel fa-
 grams, os genes e as apari†‰es da Virgem Maria. Como nos pri-
lar com fervor, calor e entusiasmo sobre Pasteur revolvendo seu
 vamos voluntariamente do recurso oferecido pelo antifetichis- laborat„rio, sua carreira e seu fermento, e considerar co m frieza,
mo e como nƒo podemos mais organizar todas essas entidades precisƒo e dist…ncia, os adeptos do candombl‹ preparando suas
nas quatro listas do repert„rio crŠtico (ver figura 3), temos a im- divindades. Nada impede, portanto, a utiliza†ƒo impr…pria dos
pressƒo vertiginosa that anything goes. Ao lado desse relativismo jogos de linguagem, j€ que eles nƒo correspondem mais aos do-
ontol„gico, o relativismo cultural parece quase inocente. Como mŠnios ontol„gicos nos quais uns seriam frios e outros quentes,
os hebreus no deserto, suspirando frente ‡ lembran†a das cebo - uns abertos, outros fechados, uns espirituais e outros materiais.
las que lhes eram concedidas por seus senhores egŠpcios, ser€  A metade inferior dos fe(i)tiches, para diz•-lo de outra for-
que lamentaremos a s„lida diferen†a entre o psiquismo, as re- ma, nƒo nos introduz no mist‹rio. Ela s„ ‹ sombra por meio da
presenta†‰es e as causas? Tal diferen†a tinha a vantagem, ao sombra que lhe ‹ feita pela parte superior, que aspira sozinha ‡
menos, de ordenar toda essa miscel…nea e de nos obrigar a dis- claridade. Afastemos esta claridade! Nossos olhos se habituam
tinguir, a cada vez, aquilo que estava inerte na interioridade dos rapidamente ‡ luz fosforescente que parece vir dessas entidades,
sujeitos daquilo que jazia na exterioridade das coisas. Este novo como as matrizes ativas das telas planas de computador que nƒo
iluminam nada no exterior. A linguagem do mist‹rio, as osci-
ecumenismo, demasiado laxista, nos mergulha na noite onde la†‰es e os tremores de voz, as inquieta†‰es, os desassossegos,
todos os gatos sƒo pardos. Horrorizados por essa confusƒo, nƒo
serŠamos tentados a recuar, e a nos colocar novamente a ques- tudo isso provinha dessa desastrosa transcend•ncia que se que-
tƒo, ‡ sombra dos fe(i)riches clivados dos modernos: Isso ‹ cons- ria acrescentar ao simples mundo tal como conhecido somente
truŠdo por n„s? 1~ aut‚nomo? Est€ na cabe†a? Est€ nas coisas? pela ci•ncia. De fato, nƒo podendo mais situar as inumer€veis
Somos os senhores ou fomos superados? entidades com as quais misturamos nossas vidas (j€ que a ima-

86
gem tradicional da ci•ncia nos descrevera este baixo mundo re- capitulo I I
pleto de causalidades eficazes), e nƒo podendo tampouco nos re- Como transferis pavores
signarmos em aloj€-las no …mago do nosso eu, transformando-
as em fantasias, complexos ou jogos de significantes, s„ tŠnha-
mos como recurso inventar um outro mundo, preenchido por
deuses, diabos, espŠritos que, nas sess‰es de espiritismo se ma-
nifestam com golpes sobre um objeto ou sˆcubos, bricabraque
ex„tico, abrigo da gnose, celeiro de toda mercadoria ordin€ria
 New Age. Falar de mist‹rio, ou pior, falar ‡ meia-voz com uma
tonalidade misteriosa, seria blasfemar contra todos os fe(i)ti-
ches, contra aqueles das divindades, certamente, mas tamb‹m
contra aqueles dos laborat„rios. Dividir o mundo em alto e bai- Uma vez que as divindades estejam instaladas na exist•ncia,
xo, em natureza e sobrenatureza, seria impedir que se com- podemos registrar no caderno de encargos que se pode descrev•-
las com uma linguagem exata e precisa, sem utilizar nenhuma
preendesse, ao mesmo tempo, P asteur e seu fermento, o pacien- das cenografias do exotismo e, sem ter necessidade de acreditar
te e suas divindades, o peregrino e sua Virgem, Jagannath e sua
pedra. Nƒo existe outro mundo senƒo o baixo mundo. Nƒo se que elas vieram de um outro mundo, diferente do nosso Œ supos-
tem tampouco que sucumbir ‡s fantasias cio eu. Uma vez exa- to, por contraste, plano, baixo, pleno, causal e razo€vel. O que ‹
minadas estas tr•s concep†‰es, nƒo existe mais mist‹rio parti- preciso acrescentar ainda para que o modo de exist•ncia dessas di-
cular, ou, ao menos o mist‹rio torna-se, como o bom senso, a  vindades seja distinguido do modo de exist•ncia dos outros? De-
coisa mais bem partilhada no mundo. Somos todos, como foi paro-me aqui com uma nova dificuldade. Devo acreditar no que
os ernopsiquiatras dizem sobre o que fazem, ou seguir suas pr€-
mencionado, "superados pelos acontecimentos". ticas? Nƒo esque†amos que, entre os modernos, as partes alt as e
baixas dos fe(i)tiches se op‰em completamente. O que •  verda-
deiro para os fil„sofos das ci•ncias pode ser tamb‹m para os et-
nopsiquiatras. Ora, a consulta da qual participei realizou-se na
periferia, ela reuniu etnias diversas que jamais teriam se encon-
trado fora do solo da Repˆblica, ela foi feita em v€rias lŠnguas, foi
gravada em video, foi reembolsada pela previd•ncia social, al-
guns migrantes que ali vƒo, estƒo h€ muito tempo integrados ‡
sua nova terra de acolhida, enfim, sƒo tratados ali tamb‹m, aque-
les que v•m da Beauce e da Borgonha`. DifŠcil imaginar um dis-

* La Beauce: regiƒo da Bacia P arisiense, situada ao norte da re-


giƒo francesa chamada "Centro"; Bourgogne: regiƒo francesa si-
tuada ao centro-leste da Fran†a. (N.T.) O
positivo mais heterog•neo, menos tradicional. Ž justamente por salariado, a escola, congregam talvez, tƒo seguramente quanto os
se tratar de um instrumento artificial que ele me interessa. Pou- ancestrais, a ra†a, a terra, os mortos. Ou ao menos, a constru†ƒo
co importa pois, a meu ver, que esse aparelho , semelhante a um e a transforma†ƒo d as culturas sƒo fen‚menos demasiado comple-
acelerador ou a uma m€quina de calcular, esteja revestido de todo xos para que sejam reduzidos ‡ subst…ncia de uma identidade de-
um folclore que falaria de culturas, de autenticidade, de retorno finitiva que seria reencontrada voltando-se ‡s origens. O cultura-
aos ancestrais, de assembl‹ias de aldeias, de baob€s ou de curan- lismo ruiu h€ muito tempo, junto com o exotismo que o condu-
deiros tradicionais. Fa†o questƒo de separar, no que se segue, o zia.14 Nƒo se pode mais justificar a cura reavivando este espectro.
efeito produzido por esse instrumento experimental de grande al-  As raŠzes desenvolvem-se em muitas dire†‰es, entrela†am-se
cance da etnografia por meio do qual seria desej€vel defini-loš muito rapidamente, formam rizomas nas ramifica†‰es demasiado
Um tipo de energia particular ‹ aqui produzida, mobiliza- surpreendentes para que se espere c ongregar os doentes, tratan-
da, ajustada, dividida, trabalhada, construŠda, distribuŠda. Como do-os originalmente
,., como bailes`, ou como aqueles que v•m da
captar esta energia? Como defini-la? Ap„s ter afastado a preten- Cabila ou da Beauce. A migra†ƒo e a neoforma†ƒo de nov as cul-
sƒo ‡ autenticidade Œ que contradiz a pr„pria natureza da inova- turas, neste momento, no mundo inteiro, tornaria, de toda for-
†ƒo e que nƒo permitiria fazer justi†a ‡ sua originalidade  Œ preci- ma, impossivel semelhante exercŠcio. Imaginar, ali€s , que somen-
so afastar um outro fen‚meno , certamente importante, mas que te os negros da Costa possuiriam culturas fortes e ancestrais en-
perturba o interesse neste assunto (ainda aos meus olhos de pa- raizados, ao passo que os brancos errariam sem alma e sem mor-
ciente e de ignorante). Sƒo feitos esfor†os, por interm‹dio da tos, seria inverter o racismo do presidente de Brosses e faltar, pe-
cura, para dotar os doentes uma identidade, para congreg€-los no- cado capital no meu entender, com os princŠpios de simetria.
 vamente, para reinseri-los em um territ„rio. Ora, a fabrica†ƒo da O te„rico da etnopsiquiatria nos interessa pois, menos do
identidade exige outros veŠculos, outros meios, outros procedi- que oprdtico. O que este faz? Ele trata o doente, por meio de ges-
mentos, outros arranjos que aqueles que mobilizam as divinda-
des. N„s, os brancos que descendemos dos macacos, nƒo somos
menos associativos que aqueles que descendem dos her„is, dos 14.  Apesar das f„rmulas ambŠguas, a produ†ƒo de identidade na
totens ou dos clƒs.' 3 O futebol, o rock, as drogas, as elei†‰es, o cura, renovada por Tobie Nathan, nƒo se baseia em nada sobre o
culturalismo, mas sobre a cria†ƒo voluntarista, por vezes violen-
ta, de uma associa†ƒo exatamente tƒo artificial quanto o disposi-
tivo de consulta. Ver, por exemplo, uma formula†ƒo recente em
12. Ž isso que explica, no meu entender, a incompreensƒo de cer- Nathan, Tobie (1995). "La haine. R‹flexions ethnopsychanalyti-
tos antrop„logos pelo trabalho de Tobie Nathan; eles buscam a ques sur I'appartenance culturelle".  Nouvelle revue d'ethnopsychia- 
autenticidade da "etnicidade", que nƒo conseguem aqui encon- trie, v. 28, p. 7-17. Este ponto ‹ capital, pois ‹ ele que distingue
trar, sem saber que a originalidade do laborat„rio do Centro De- a etnopsiquiatria do pensamento reacion€rio, que pretende, ao
 vereux prov‹m justamente de sua artificialidade. contr€rio, encerrar para sempre a identidade ‹tnica em um per-
13. Chamo este trabalho de representa†ƒo, em constante movi- tencer natural. Aqui ainda, o artifŠcio • aliado e nƒo inimigo da
mento, por transportes de vontades, e ele coincide, na minha opi- realidade, quer se trate do dispositivo de laborat„rio ou da cria-
niƒo, com aquilo a que chamamos usualmente polŠtico. Sobre †ƒo de afilia†‰es.
aqueles cujos ancestrais sƒo macacos, ver o livro de Haraway, * No original: Baoul‹s. Povo da Costa do Marfim. (N.T.)
Donna. Primate V i sions. Gender, Race and Nature in the World. ** Regiƒo montanhosa ao norte da Arg‹lia, que abriga tribos
Routledge and Kegan Paul, Londres: 1989. berberes. (N.T.)
tos, no interior de um dispositivo experimental artificial, que daquele que se acreditava nosso quando acredit€vamos nas cren†as
revela um tipo particular de energia cuja exist•ncia havŠamos es- e, portanto, nos saberes! Infelizmente, a ci•ncia da qual nos servi-
quecido, de tanto epistemologizar nossos objetos e de psicologi- mos para esta argumenta†ƒo deve tudo ‡ teoria dos epistem„logos
zar nossos sujeitos. Ele ‹ um grande "charlatƒo", e eu nƒo teria e nada ‡ pr€tica dos palha†os.` 6 Ao inv‹s de comparar as teorias,
compreendido o que ele faz antes de ter restituido um sentido comparemos as pr€ticas Œ no sentido definido anteriormente ‡
positivo a esta palavra que serve comumente para estigmatizar o sombra dos fe (i)tiches. Ningu‹m pode substituir o antrop„logo
mal m‹dico.” No dispositivo da cura, os negros como os bran- para descrever a coer•ncia de um sistema de pensamento; mas nin-
cos se encontram despsicologizados. E este fen‚meno que gostaria gu‹m pode substituir o etnopsiquiatra para recriar a efic€cia do
de isolar, aproveitando as condi†‰es extremas do dispositivo ex- gesto que, aqui, agora, na periferia, cura pelo duplo artifŠcio do
perimental montado em Saint-Denis. E este meu fermento de dispositivo de consulta e de uma afilia†ƒo voluntarista.
€cido l€tico. A inova†ƒo decisiva da cura vem, no meu entender, Nosso caderno de encargos alonga-se pouco a pouco. Essas
da recria†ƒo, no interior do laborat„rio, de um modus operandi cu- divindades existem; elas sƒo objetos de um discurso positivo
jas no†‰es de cren†a e de representa†ƒo nƒo permitiam avaliar a sem nenhum mist‹rio; elas nƒo sƒo substancias, mas modos ope- 
randi; pode-se constatar sua passagem entre os negros como en-
efic€cia. De fato, as divindades nƒo sƒo substancias Œ nƒo mais,
ali€s, que o fermento l€tico. Elas sƒo todas a†ƒo. tre os brancos, em condi†‰es tƒo artificiais quanto quisermos,
Por certo, a literatura etnogr€fica abunda em descri†‰es de contanto que tudo gire em torno do gesto que cura.
tais artificios, mas o selvagem cujo retrato ela descreve, permane-  Acrescentemos ainda um tra†o, antes de poder defini-las: as
ce um te„rico bricoleur que recorta o mundo em fun†ƒo de seus divindades nƒo se confundem com os deuses. Os deuses que sal-
pensamentos. P‚de-se, efetivamente, salvar o primitivo, mas atri-  vam por meio daquilo que chamarei de estar na presen†a, s€o ex-
buindo-lhe um pensamento te„rico tƒo pr„ximo quanto possŠvel celentes veŠculos para fabricar pessoas, mas pobres agentes para

16. L„vi-Strauss desenvolveu h… muito tempo, a partir disso, um


15. Ver o texto de Scengers, Isabelle que comp‹e a segunda par- gƒnero liter…rio, mas pode-se encontrar esta teoria da ciƒncia at„
te de Nathan e Stengers (1995) op.cit. A "vontade de fazer ciƒn- no artigo apaixonante de Moisseeff, Marika 1994. "Les objets
cia" priva o charlat€o, tornado s…bio, da capacidade de com-
culturels aborigŽnes ou comment repr„senter I'irrepr„sentable",
 preender a influƒncia que exerce. Ver Stengers, Isabelle la Volon- Gen‹ses. Sciences sociales et histoire, v. 17, p. 8-32, que pretende
tƒ de faire science , les Empƒcheuts de penser en rond, Paris (reedi- afastar-se das met…foras da linguagem para voltar-se ao objeto. A
†€o 1996) que permite dar um sentido positivo e n€o crŒtico ao
mais alta grandeza ‡ qual ela pode comparar o objeto „ a de
livro de Borch-Jacobsen, Mikkel Souvenirs d'Anna O. Une mystifi- "puro significante" (p. 28). Da mesma forma, Aug„, Marc. le
cation centenaire. Paris: Aubier, 1995. Ao aplicar aos humanos um  Dieu obj et, Paris: Flammarion, 1988, s‚ encontra maneiras mais
modelo epistemol‚gico que nenhum cientista jamais aplicara aos
elevadas de falar dos deuses-objeto transformando-os em pensa-
objetos, os psiquiatras n€o teriam conseguido compreender, por
mentos: "A rela†€o rem necessidade da mat„ria para, ao mesmo
i mita†€o de um modelo inexistente da ciƒncia, a originalidade
 pr‚pria da cura. Paradoxalmente, „ preciso tratar os humanos tempo, representar-se, dizer-se, atualizar-se, e a mat„ria necessi-
ta da rela†€o para tornar-se objeto de pensamento". (p. 140) N€o
como Pasteur trata o fermento de seu …cido l…tico, a fim de co- se avalia jamais o suficiente a que ponto o positivismo dos etn6-
me†ar a "fazƒ-los falar" de maneira interessante. Sobre toda esta logos, no que se refere a  seu acesso ‡ natureza, forma de antem€o
confus€o dos modelos de domina†€o, ver Stengers, Isabelle. Cos-
sua defini†€o de cultura.  muito difŒcil encontrar etnografias
mopolitiques (em prepara†€o). que saibam se desfazer de Kant.
cur„-las.17 O sujeito constituŠdo pelos deuses escapa e fetivamen- Qual ‹ a tomada pr„pria ‡s divindades? Seus modos de
te da morte, mas nƒo sai dela, por isso, curado.te Se o antigo su- atrair? Seus passes? Elas constroem aquilo que as assentam ou as
jeito da psicologia podia acumular sobre si mesmo, no seio de sua fabricam; este tra†o faz parte tamb‹m do caderno de encargos.
interioridade, a totalidade de seu ser, aquele que aqui aparece, Sem elas, n„s morremos, como compreendeu Jagannath, no
quase-sujeito misturado aos quase-objetos, assemelha-se antes meio do p€tio, no mo mento mesmo que sacralizou e dessacrali-
com algo disposto em camadas, como uma massa  folhada, atra- zou o shaligram de sua famŠlia. Ou mais precisamente, nƒo po-
 vessado por diferentes veŠculos onde cada um o define em parte, derŠamos, sem a divindade, nos desfazer de outras divindades
mas, sem jamais ali se deter completamente. Como se pode per- que poderiam amea†ar nossa exist•ncia. Cada divindade surge,
ceber, ao menos eu espero, abandonar as diferen†as entre as inte- entƒo, como urna antidivindade. Na falta de nƒo ter procedido
rioridades da psicologia e as exterioridades da epistemologia nƒo com aten†ƒo em rela†ƒo a elas, outras divindades poderiam to-
torna a misturar tudo. Ao se perder a distin†ƒo entre as represen- mar seu lugar. Nƒo nos enganamos muito talvez, ao defini-las
ta†‰es e os fatos, nƒo se mergulha de forma alguma no indiferen- como um g•nero muito particular de relafes de farta. Foi justa-
ciado. Seguir os diversos veŒculos permite, ao contr€rio, retra†ar mente assim que J eanne Favret-Saada estabelecera este sentido. 2 “
outras distin†‰es al‹m das duas ˆnicas impostas pela19ceno grafia Para encontrar o modelo referente a isso, talvez fosse necess€rio
moderna, e nos convida a registrar o utros contrastes. se voltar na dire†ƒo da sociologia complexa dos macacos tal
como a descrevem os novos primat„logos.21 Ou ainda na dire†ƒo
de alguns tipos de rela†‰es polŠticas analisadas por Machiavel e
17. Nƒo deve, pois, causar espanto que o judaŠsmo, o cristianis- que podem ser enco ntradas, em um estado quase puro, nas rela-
mo e o islamismo tenham condenado regularmente as divinda-
des, mas que tenham todos, sob diferentes formas, deixado pro- †‰es internacionais. Nada de psicol„gico neste caso. Encontra-
liferar as curas sem poder integr€-las ‡s suas teologias. Ver sobre mo-nos constantemente amea†ados por for†as que t•m, no en-
o "mal-entendido" do judaŠsmo sobre a luta contra os ‘dolos, tanto, a particularidade de poderem ser derrubadas ou, mais exa-
Halbertal Moshe; Margalit, Avishai. Idolatry. Mass: Harvard tamente, invertidas por um gesto. "Todos os drag‰es de nossa
University Press, Cambridge, 1992.  vida, indagava Rilke, nƒo seriam belas jovens que pedem para
18. Chamo transportes de pessoas essa media†ƒo particular, tƒo dife- ser socorridas?" Ao inv‹s de for†as que exerceriam continuamen-
rente daquela aqui estudada, quanto dos transportes de vontade, te seus efeitos, temos aqui for†as capazes de modificar brutalmen-
pelos quais se fabricam identidades e representa†‰es. Ver "Quand
les auges sont de bien mauvais messagers". In: la Clef de Berlin †
et autres lefons d'un amateur de sciences. Paris: La D‹couverte, 1993
e "On the Assomptions of Science and the Virgin Mary" in Jones, rŠamos agora substituir urna i magem em cores, por interm‹dio
E.; Galison, P. (eds.), no prelo. Inˆtil sublinhar que os deuses sem da fabrica†ƒo feita por numerosos psic„logos, para registrar os
subst…ncia aqui invocados diferem tanto daqueles da teologia ra- principais contrastes que parecem importantes aos "zatoreszeles-
cionalista quanto os objetos das ci•ncias se distinguem dos so- mesmos", nossos ˆnicos senhores.
nhos das epistem„logos ou quanto as divindades distinguem es- 20. Em seu cl €ssico livro les Mots. la mart, le sort. Paris: Gallimard,
pŠritos misteriosos ou seres sobrenaturais. (1977), mas, sobretudo em seu artigo com Contreras, Jos‹e (1990),
19. E esta a diferen†a entre o trabalho iniciado por Michel Cal- "Ah! La feline, la sale voisine...", Terrain, vol. 14. p. 20-31.
lon h€ quinze anos, sobre os atores-rede e o que come†amos h€ 21. Strum, Shirley. Voyage chez les babouins (reedi†ƒo). Le Seuil.
pouco. Ver Callon, Michel R•seaux et coordination. A-M. M‹taili‹, Point Poche, Paris: 1995; Waal, Franz De. De la reconciliation
no prelo.  A televisƒo em branco e preto dos atores-rede, deseja- chez les primates. Paris: Flammarion, 1992.
Hesito em reempregar o termo, mas desejaria falar, para des-
seus rumos, de drag‰es em princesas, de carruagens em ab„- crever esse movimento, em transfer•ncias de pavores." Se os termos
te se

boras, de em pedras. O melhor que que emprego nƒo sƒo terrivelmente inadequados, curar equivale a
o Be rem-
shaligrams d e f r
domŠnio de tais for†as, ‹ persistir por um pouco
opo, tomando algumas precau†‰es a mais, "tomando cuidado". fazer passar o pavor, vindo de lugar nenhum, de outro lugar, mais
distante, nƒo importa de onde, mas sobretudo, sobretudo que o pa-
Michel Serres definiu a religiƒo como "o contr€rio da neglig•n-  vor nƒo se detenha, que ele nƒo se fixe no paciente, tomando-o por
cia'. Existe efetivamente religiƒo na constante aten†ƒo em rela- um outro, e o leve, substituindo-o por outros, em sua louca s‹rie
†ƒo aos perigos que nos amea†ariam, porque aqueles a quem de- de substitui†‰es, sempre diferentes. Para isso ‹ preciso valer-se de
 vemos nossa exist•ncia nƒo poderiam vir em nosso socorro. artimanhas.  A artimanha reside neste modo de ser, de um lado a ou-
 Arrisquemos um termo, enfim, para definir tais divinda-
retomando bela explica†ƒo tro. Ž preciso enganar o pavor, ‡s cust as de uma complicada nego-
des. Proponho cham€-las  pavores, cgem cia†ƒo, da qual se d€ conta, com frequ•ncia, por termos empresta-
dada por Tobie Nathan para esta palavra, que tel a
2 Os pavores nƒo neces- dos das transa†‰es, das negocia†‰es, das trocas. Tomemos antes a
de nƒo supor nem ess•ncia, nem pessoa: palavra encantamento, dando-lhe novamente o sentido vigoroso que
"II  pleut' ("chove").
sitam mais do sujeito pessoal do que a frase a lŠngua perdeu. O encantamento permite ser astucioso para com
Lembremos que o caderno de encargos q ue procuro estabelecer o pavor, segundo a f„rmula bastante geral: "Se voc• pode me tomar
e que define os modos particulares de ser dos pavores nƒo con- por um outro qualquer, voc• tomar€ talvez este outro por mim".
duz ‡ exist•ncia bruta e obstinada da subst…ncia. Os pavores
lcode-  ArtifŠcio necess€rio, cuja mitologia oferece centenas de exemplos.
 vem, nƒo somente inverter bruscamente o sentido  p~a
mal‹ az r u
Imaginemos entƒo, a forma provis„ria deste quase-sujeito d as di-
ben‹fico de suas rela†‰es, mas devem tamb‹m rov‹m do fz o e
 vindades, que substituiria o sujeito-da-psicologia: cercado por pa-
passar. Sua principal particularidade, com efeito, p  vores que podem possuŠ-lo, por e ngano, apelando para os contrapa-
que eles nƒo se det•m jamais no sujeito que devem absoluta-  vores que sƒo objeto de uma preocupa†ƒo contŠnua, o paciente cria
mente ignorar, para que ele permane†a salvo, um momento a
mais. Os pavores passam, atravessam, saltam sobre o sujeito;
caso eles se prendam a este Ultimo, ser€ por engano, quase por 24. Ou melhor, "transpavores" (em franc•s, "transfrayeurs"). Nƒo
inadvert•ncia; caso eles o possuam, ser€ porque se enganaram de h€ tanto perigo quanto se acredita, na reutiliza†ƒo da antiga lingua-
alvo. S‹rie de substitui†‰es sem lei, os pavores podem tr ansmu- gem da psican€lise pois, no final das contas, urna vez reintroduzi-
tar, a todo instante, qualquer ser em outro ser. Donde o terror do o divƒ, o consult„rio, o dinheiro, as associa†‰es profissionais, as
que, com razƒo, suscitam." controv‹rsias, as obras, o estilo, os ancestrais, isso termina por criar
um dispositivo tƒo artificial, tƒo pouco psicol„gico e, portanto, tƒo
interessante quanto o da etnopsiquiatria. Vantagem da simetria, to-
dos os "redutores de cabe†a" podem ser estudados da mesma forma.
 A etnopsiquiatria en trega sua cultura material e coletiva a uma pr€ti-
ca psicanalitica cuja teoria pretendia que ela repousasse sobre o s su-
jeitos e que ela fosse uma ci•ncia sedenta de verdade! E importan-
Nathan, Tobie. 1994. op.cit.
22.  A te notar que a simula†ƒo, como os fe(i)tiches, recusa obedecer a es-
livre associa†ƒo apenas mant‹m o eco longŠnquo destas
23. colha cominat„ria: ‹ real, ‹ simulado? No laborat„rio, como sobre
substitui†‰es ontol„gicas que sƒo uma forma, entre v€rias outras,
de explora†ƒo do ser-enquanto-outro. E uma outra versƒo da ar- o divƒ, a simula†ƒo recusa justamente escolher entre o artificial e a
ticula†ƒo que "faz-falar" no laborat„rio artificial do divƒ.  verdade. V er Borch-J acobsen, 19 95. op .cit.

9
invisiveis porque sua subst…ncia incluiria algum mist‹rio, as
um envolt„rio bastante frouxo, revolvido, caso se possa dizer, por transfer•ncias de pavores mant•m tal invisibilidade pela clareza
urna quantidade de encantamentos, onde cada um afasta as for†as mesmo de suas condi†‰es de satisfa†ƒo. O mist‹rio, dito de outra
por meio de uma artimanha. Nƒo se trata de um sujeito. Ele nƒo- forma, nƒo reside nas transfer•ncias de pavores, m as somente na
tem nem interioridade, nem consci•ncia, nem vontade. Papai-ma tor†ƒo que lhes ‹ imposta, ao aplicar a este veŠculo particular, as
nƒo o definem mais. Se ele delira,
mƒe, sabe-se desde o Anti-Ždipo, que explora por s‹ries de subs- condi†‰es de satisfa†ƒo pr„prias a outros veŠculos, mais freqente-
‹ com o mundo, o cosmos, o socius mente, aquelas dos transportes de informa†ƒo. 27 Intimadas a trans-
titui†ƒo." Nenhuma identidade o designa ainda; submete a ema portar formas e refer•ncias, ess as palavras parecem tƒo pobres
pode erigi-lo em uma pessoa ; nenhuma intera†ƒo a na- u quanto os "abracadabras" que desesperam os amantes do exotis-
pr€tica; nenhuma liga†ƒo sujeita-o a um direito; nenhum pe mo. Os encantamentos, como os anjos, sƒo maus mensageiros.
gem vem habit€-lo por meio de uma obra; nenhuma transa†ƒo vem  Ao reformular na minha pobre linguagem a travessia des-
acrescentar-lhe valor. Mas esse envolt„rio existe, at‹ certo ponto, ses invisŠveis, nƒo pretendo ter compreendido a etnopsiquiatria,
que se pode dizer desse
apesar de tudo. "Nƒo antisujeito", ‹ tudo nem ter feito sua teoria. Foi somente por mim, ‹ claro, que me
possui estofo suficiente para nƒo ser possuŠdo, para interessei, ou antes, por esses infelizes brancos, os quais se quer
envolt„rio. Ele
resistir um pouco mais, contanto que se "zele" por ele, noite e dia. privar de sua antropologia, encerrando-os em seu destino mo-
nƒo prov‹m, compreendemos
 A invisibilidade desses pavores derno de anrifetichismo. A consulta recria, no seu pr„prio arti-
isso agora, de uma aus•ncia de exist•ncia. Ela nƒo prov‹m tam- fŠcio, as condi†‰es de laborat„rio pr„prias ‡ detec†ƒo dos invisŠ-
, sobrenatural, me-
pouco da origem extraterrestre, extra-sensori al trocar  veis entre n„s, na periferia. Ela exp‰e, sessƒo ap„s sessƒo, gestos
tafŠsica dos pretendidos espŠritos. Aquilo que deve poder ela terap•uticos h€beis e objetos bem feitos que parecem escapar ao
rapidamente de sentido, transformando-se, em um golpe, pela discurso, mas cujo discurso, ao contr€rio, parece-me suscetŠvel
das rela†‰es de for†a, de bem em mal ou de m le
possessƒo ; be
de uma descri†ƒo precisa, contanto que se estabele†a o caderno
aquilo que deve passar em outro lugar, sob pena p dede uma forma de encargos das entidades mobilizadas, assim como as condi†‰es
de loucura; aquilo que subsiste sem interrup†‰es> de satisfa†ƒo referentes ao engajamento das mesmas na a†ƒo."
para outra, explorando, por livre associa†ƒo, as co mbina†‰es do
cosmos; aquilo que pode ser desviado pela interven†ƒo de um en-
cantamento astucioso: tudo isso nƒo pode permanecer visŠvel, con-
27. Ž o que chamo, em meu jargƒo, "o m„bil imut€vel e combi-
tinuamente, obstinadamente. Os fatos imut€veis servem para ou- n€vel". Sobre as transforma‚es de informa‚es,  ver, por exemplo,
efeito, v€rias outras intera†‰es, outras rela†‰es exi- "Le 'P‹dofil' de Boa Vista". In: (1993). op.cit.
tros usos. Com 26 Esta aqui nƒo exige. Lange de serem
gem a continuidade no ser. 28. Nƒo esque†amos que a id‹ia mesmo de uma pr€tica inef€vel,
era proveniente apenas da ilusƒo dos epistem„logos sobre o forma-
lismo explŠcito do discurso cientifico. Eu e meus colegas aprende-
l'Anti-Edipe. Capitalisme et mos, ‡s nossas expensas, a dificuldade de exprimir em palavras o
25. Deleuze, Gilles; Guattari, Felix.
1972. trabalho das ci•ncias. Mas, por causa disso, nenhuma pr€tica ‹
schizophr•nie. Paris: Minuit, transforma‚es de intera‚es, que mais f€cil ou dificil de explicitar que outra. Sobre o trabalho do
26. $ o caso, em particular, das esta
chamamos, um pouco precipitadamente, "t‹cnicas"" Sobre  T
i
formalismo, ver o fascinante ensaio de Bryan Rotman, cujo tŠtulo
forma muito particular de media†ƒo, ver (1994)."64 e (1994),
c hnical
sozinho, j€ • um programa por completo,  Ad Infinitum. The Ghost
Mediation". Common Knowledge, v. 3, n. 2, p. - in Touring Machine.Taking God out of Mathematics and Putting the
"Une sociologia sans objet? Note th‹orique sur l'interobjecti Body Back In. Stanford: Stanford University Press, 1994.
36, n. 4, p. 587-607.
 vit‹". Sociologie du travail, v.
 Apenas escolho com cuidado os termos, para que eles possam
passar de um lado a outro da antiga "grande divisƒo", varrendo cap†tulo 12
um tipo de fen‚meno que nem a psicologia Œ sem objeto Œ nem Como compreen urna aˆ€o "superada
a epistemologia Œ sem sujeito Œ parecem-me capazes de abrigar. pelos a‘tdmentos"
Interessam-me somente as quest‰es que essa reformula†ƒo per-
mite colocar, agora que dispomos de uma base comparativa mais
sim‹trica e mais vasta: j€ que eles nƒo t•m mais psicologia que
os outros, quais sƒo as divindades dos brancos? Quais sƒo o s in-
 visŠveis indispens€veis ‡ constru†ƒo provis„ria e fr€gil de seus
inv„lucros e de seus qu ase-sujeitos? Como fazem para afastar os
pavores e para transferi-los para outro lugar? Por meio de quais
encantamentos? Por meio de quais artimanhas? Por meio de No decorrer desta pequena reflexƒo, propus trƒs acep†‰es
quais dispositivos? Quem sƒo seus curandeiros? Que m sƒo seus diferentes para o "culto moderno dos deuses fe(i)ciches". Como
etnopsiquiatras?' 9 — de costume no pensamento crŠtico, reutilizei, inicialmente, o
sentido pejorativo das palavras "fetiche" e "culto". Os moder-
nos nƒo se mostram a partir de entƒo desprovidos de fetiche,
nem desprovidos de culto, como eles se acreditavam Πseja para
se vangloriarem, seja para se desesperarem. Eles t•m um culto,
o mais estranho de todos: eles negam ‡s coisas que fabricam a
autonomia que conferem ƒs mesmas, ou negam ‡queles que as fabri-
cam, a autonomia que estas conferem aos mesmos. Eles pretendem
nƒo ser superados pelos acontecimentos. Eles querem manter o
domŠnio, e encontrar tal fonte no sujeito humano, origem da
a†ƒo. 3o Ou entƒo, por uma altern…ncia brutal com a qual esta-
mos agora familiarizados, os modernos, ressentidos por nƒo po-
29. Se n€o conseguirmos responder a estas quest‹es, a si metria der explicar a a†ƒo pelo trabalho humano, querem aniquilar o
ser… quebrada, e os brancos ficar€o, de fato, sem fe(i)tiche. Se nos
lan†armos na pesquisa empŒrica dos fe(i)ciches duplamente frag- sujeito-fonte, sufocando-o nas linguagens, na gen‹tica, nos tex-
mentados e as tuciosamente remendados, deverŒamos poder en-
contr…-los, por exemplo, nas fun†‹es espantosas dos medicamen-
tos (Pignarre, Philippe les Deux Mƒdecines. Mƒdicanzents, psychotro- 30. Encontraremos em Jullien, Fran†ois. La Propension des choses,
 pes e t sugge stion thƒrapeutique . Paris: La Decouverte, 1995) ou das Le Seuil, Paris: 1992, (cole†€o Travaux), uma outra teoria da a†€o,
drogas (ver a tese, em andamento, de Gomart, Emilie sobre a me- na China, que tampouco se adapta ‡ teoria dos ocidentais, pois ela
tadona). E este o interesse do novo trabalho dos soci‚logos da me- ignora, ao mesmo tempo, a imanƒncia e a transcendƒncia, o sujei-
dicina (para uma aprecia†€o da obra, ver Mol, Anne-Marie; Berg,
to como o objeto. Parece que os chineses • na interpreta†€o de
Marc (Org.),  Difference s in Me dicine , Harvard University Press, no Jullien • apresentam uma linguagem ‡ pr…tica, da qual os bran-
 prelo, e Akrich, Madeleine; Dodier, Nicolas (Org.). "Les Objets cos nunca se desfizeram, mas que a filosofia destes Šltimos, por
de la M„decine". Techniques et Cultures, n. 25-26, 1995. raz‹es polŒticas interessantes, desejou, freq‘entemente, renegar.
tos, nos campos, nos inconscientes, nas causalidades diversas. co o marionetista. 31 Ele lhe dir€, como todo mundo, como rodo
"Visto que o sujeito nƒo tem o total domŠnio e liberdade reivin- criador e manipulador, que suas marionetes lhe ditam seu co m-
dicados pelo sujeito sartriano, entƒo, ningu‹m poder€ mais dis- portamento, que elas o fazem agir, que elas se exprimem atrav‹s
por de tal domŠnio e liberdade'", exclamam os modernos com dele, que ele nƒo saberia manipul€-las, nem automatiz€-las. En-
furor. E sobre o amontoado de seus Šdolos destruidos, eles lan- tretanto, ele as mant‹m, as domina e as controla. Ele ir€ confes-
†am o homem. Os respons€veis pela restaura†ƒo, irƒo, em segui- sar, naturalmente, que ‹ ligeiramente superado por aquilo que
da, ao dep„sito de entulhos, para ali remendar um "sujeito de controla. Suponhamos agora, que um marionetista de segunda
direito". O existencialismo, o estruturalismo, os direitos do ho- categoria venha manipular nosso artista. Nƒo faltarƒo candida-
mem, avatares sucessivos do culto dos fe tiches, daqueles que se tos: o texto, a lŠngua, o espirito do tempo, o habitus, a socieda-
cr•em muito astutos porque se cr•em livres para sempre dos fe- de, os paradigmas, as epistemes, os estilos, qualquer agente far€
tiches, das cren†as e da ingenuidade, ao passo que ningu‹m ja- o trabalho para controlar nosso marionetista como este controla
mais acreditou ingenuamente nos fetiches Œ nem mesmo e les! suas marionetes. Mas, justamente esses agentes, tƒo poderosos
 Tomei, logo ap„s, a expressƒo com um segundo sentido, quanto voc•s os fi zerem, serƒo superados pelo marionetista,
que restituŠa valor e poder ‡ palavra fe(i)tiche como ‡ palavra como este ‹ superado por suas marionetes. Voc•s jamais farƒo
culto. A hip„tese ‹ muito mais simples, e os modernos, na ver- melhor do que isso; voc•s jamais o terƒo tƒo sob controle. Ao in-
dade, nunca a abandonaram. Aquele que age nƒo tem o domŠ-  v‹s de uma cadeia causal que transmitiria uma for†a, que atua-
nio daquilo que faz; outros, que o superam, passam ‡ a†ƒo. lizaria um potencial, que realizaria uma possibilidade, voc•s ob-
Nada que autorize, contudo, a afogar o sujeito no mar do deses- terƒo apen as sucess‰es de ligeiras supera†‰es. Sim, acontecimentos,
pero. Nƒo existe em lugar algum um €cido capaz de dissolver o outro nome do fe(i)tiche e do culto que lhe ‹ prestado.
sujeito. Este ˆltimo ganha autonomia, ao conceder a autonomia Mas refa†amos toda a cadeia; suponhamos um manipulador
que nƒo possui aos seres que adv•m gra†as a ele. Ele aprende a de fios, enfim mestre, enfim criador, um ser todo poderoso, urn
media†ƒo.  Ele prov•m dos fe(i)tiches. Ele morreria sem eles. Se a deus ‡ antiga, onisciente, onipotente. Isso nƒo mudaria nada. Ele
expressƒo parece difŠcil, que ela seja comparada ‡ aparelhagem nƒo poderia fazer mais do que isso. Criatura entre as criaturas, ele
inverossŠmil, com todos seus maquinismos, engrenagens, con- tamb‹m seria ligeiramente superado pelo que faz, aprendendo com
tradi†‰es,  feedbacks, reparos, epiciclos, dial‹ticas e contor†‰es o que fabrica no que ele consiste, conquistando sua autonomia no
destes marionetes-marionetistas, enredados em seus fios, ‡s ve- contato com suas criaturas, como n„s conquistamos todos, nossa
zes visŠveis e invisŠveis, mergulhando na cren†a, a m€ consci•n- exist•ncia, ao descobrir, por ocasiƒo de encontros com outr as en-
cia, a m€ f‹, a virtualidade e o illusio... Ao querer fazer mais tidades, aquilo que nƒo sabŠamos ser capazes no minuto anterior.
si mples que os fe(i)tiches, os modernos fizeram mais complica- Por tr€s da ostenta†ƒo do antifetichismo, esconde-se uma teolo-
do. Ao querer fazer mais luminoso, fizeram mais obscuro. gia da cria†ƒo, lament€vel, Šmpia. Imaginamos um deus criador
Quem quer fazer o anjo, faz o homem. que nƒo seria superado pelo que faz e que dominaria suas criatu-
Sim, os modernos t•m que prestar um culto explŠcito aos
fe(i)tiches, ‡s media†‰es, aos passes, j€ que nunca tiveram o do-
mŠnio do que fazem, e ‹ bom que seja assim. A imagem da ma- 31. Sem esquecer da etimologia que nos lembrar€, muito oportu-
rionete vem bem a prop„sito, contanto que se indague um pou- namente, que se trata aqui de urna f„rmula afetuosa para designar
as "pequenas Santa Maria", virgens mediadoras por excel•ncia. e
ras! Mesmo quando negamos sua exist•ncia Œ sobretudo quando de da aparelhagem complicada do d eterminismo, da liberdade e
a negamos Œ ‹, contudo, este modelo de a†ƒo que gostarŠamos de da  gra‚a, • pela falta, talvez, de ter compreendido os fe(i)tiches.
usurpar ao homem. O construtivismo social ‹ o criacionismo do "Nem deus, nem senhor" deveria servir de slogan somente aos
pobre. Nƒo h€ mais cria†ƒo por um deus-fonte do que constru†ƒo anarquistas. Esse slogan deveria ser tamb‹m escrito sobre o pe -
por um homem-fonte. Ao querer rebaixar o orgulho do homem destal dessas est€tuas invisiveis, destruŠdas e depo is restauradas,
construtor pelo grosso fio do deus criador, os cl‹rigos se engana- que permitem a a†ƒo sob todos os aspectos. Se acontecimentos
ram tanto quanto os livres de preconce itos, que pretendem cor- existem, ningu‹m ‹ deles senhor, muito menos Deus.
tar todas as liga†‰es e dominar o que fabricam, abaixo de si pr„- "E necess€rio autorizar a importa†ƒo dos `djinns'?", 3 i' in-
prios, sem nenhum senhor acima de si pr„prios. O que? Um en- daga Tobie Nathan, e ‹ este o terceiro e ˆltimo sentido que
genheiro controlaria sua m€quina? P asteur seu fermento de €cido conferi ao meu tŠtulo. Os migrantes passeiam com suas divin-
l€tico? Um programador seu programa? Um criador sua cria†ƒo? dades na periferia, e mesmo em Paris, mas o culto de seus deu-
Um autor seu texto? Mas ‹ preciso jamais ter agido para pensar ses fe(i)tiches ‹ bem moderno, j€ que vivem, ao mesmo tempo,
uma coisa dessas, para proferir tais sacril‹gios! E porque Deus ‹ desenraizados e reenraizados. Em todo caso, tal culto nƒo se
uma criatura e porque nossas cria†‰es possuem, para n„s, tanta parece em nada com aqueles de seu passado. Entretanto, os
autonomia quanto n„s possuŠmos para Ele, que podemos reutili- migrantes reconfiguraram para n„s a sabedoria do passe, obs-
zar, de verdade, as palavr as referentes ‡ constru†ƒo como aquelas tinando-se em nƒo acreditar em seus deuses, ao passo que n„s
referentes ‡ cria†ƒo." Se tivemos durante tanto tempo necessida- nos obstin€vamos em acreditar que eles adorariam ingenua-
mente a mat‹ria bruta, e que n„s tŠnhamos nos livrado da
cren†a para penetrar no saber. A etnopsiquiatria talvez consi-
32. Raras sƒo as descobertas em teologia; entretanto, aquela efe- ga, felizmente, curar os migrantes; nƒo serei eu o juiz. Mas os
tuada por  Whitehead, a respeito do deus criatura, ‹ efetivamente migrantes conseguem nos curar, em todo caso, e pude testemu-
uma descoberta. Na verdade, ele descobre menos do que com- nhar isso. Eles mant•m entidades em estados mˆltiplos
preende, por uma outra liguagem, o que todos j€ haviam com- interessantes, fr€geis, sem exigir que elas durem obstinada-
preendido anteriormente, de outra forma: o deus de Whitehead ‹
encarnado. "  All actual entities share with God this characteristic
mente ou que provenham de nossa psicologia. Eles desfiam,
of self-causation. For this reason every actual entity also shares portanto, para n„s, a diferen†a entre fabrica†ƒo e realidade, do-
 with God the characteristic of transcending all other actual enti- mŠnio e cria†ƒo, construtivismo e realismo. Eles passam taga-
ties, including God", p. 222, Process and Reality. An Essay in Cos-  relando, l€, onde s„ poderiamos passar com meia palavra. Eles
mology, New York: Free Press, 1978; "Todas as entidades atuais nos permitem compreender com mais exatidƒo nossas ci •ncias
dividem com Deus este car€ter de ser causa de si. Por esta razƒo, e nossas t‹cnicas, essas fabrica†‰es que se poderia ac reditar que
cada entidade atual divide tamb‹m com Deus o car€ter de trans- eles ignoravam ou que elas os dominavam. Encontro mais exa-
cender todas as outras entidades atuais, incluindo Deus", Alfred
 Whitehead, North ProcŠs et r alit•. Essai de cosmologie. Gallimard,
Paris: 1995, p. 358.  Acreditar que Deus  vai, por conseguinte,
dissipar-se nas criaturas, ‹ repetir sempre o mesmo erro.  As cria- 33. Nƒo confundir com a questƒo da importa†ƒo dos "jeans", se-
turas nƒo sƒo imanentes. Media†‰es, acontecimentos, passes e gundo a anedota belga que nƒo contaria se ela nƒo me tivesse
fe(i)tiches, tais criaturas nƒo servem nem para dissipar, nem para sido contada por um fil„sofo da mesma etnia!
dissolver, mas para produzir. El as surgem. Elas distinguem -se. * Djinn: espŠrito do ar, g•nio nas cren†as €rabes. (N.T.)

t 05
•qS~ITU ~ ~ PSICOLOGIA

Você também pode gostar