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QUESTÃO 85 : O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO I

QUAESTIO LXXXV QUESTÃO 85


DE MODO ET ORDINE INTELLIGENDI O MODO E A ORDEM DE CONHECER
in octo articulas divisa em oito artigos
Deinde considerandum est de modo et ordine A seguir devem-se considerar o modo e a or­
intelligendi. dem do conhecer.
Et circa hoc quaeruntur octo. A esse respeito são oito as perguntas :
Primo: utrum intellectus noster intelligat abs­ 1 . Nosso intelecto conhece abstraindo as es­
trahendo species a phantasmatibus. pécies das representações imaginárias?
Secundo: utrum species intelligibiles abstrac­ 2. As espécies inteligíveis abstraídas das re­
presentações imaginárias se referem a nos­
tae a phantasmatibus, se habeant ad in­
so intelecto como algo que se conhece ou
tellectum nostrum ut quod intelligitur, vel
algo em que se conhece?
sicut id quo intelligitur.
3. Nosso intelecto conhece naturalmente an­
Tertio: utrum intellectus noster naturaliter in­ tes o mais universal ?
telligat prius magis universale. 4. Nosso intelecto pode ao mesmo tempo co­
Quarto: utrum intellectus noster possit multa nhecer muitas coisas?
simul intelligere. 5. Nosso intelecto conhece compondo e divi­
Quinto: utrum intellectus noster intelligat com­ dindo?
ponendo et dividendo. 6. O intelecto pode errar?
Sexto: utrum intellectus possit errare. 7. Alguém pode conhecer a mesma coisa me­
Septimo: utrum unus possit eandem rem me­ lhor que outro?
lius intelligere quam alius. 8. Nosso intelecto conhece antes o indivisí­
Octavo: utrum intellectus noster per prius cog­ vel do que o divisível ?
noscat indivisibile quam divisibile.
ARTIGO 1
ARTICULUS 1 Nosso intelecto conhece as coisas corpóreas
Utrum intellectus noster e materiais• por meio de abstração das
representações imaginárias?
intelligat res corporeas et materiales
per abstractionem a phantasmatibus QUANTO AO PRIMEIRO ARTIGO, ASSIM SE PROCEDE:
parece que nosso intelecto não conhece as coi sas
Ao PRIMUM SIC PROCEDITUR. Videtur quod inteJ­ corpóreas e materiais por abstração das represen­
JectUS noster non intelligat res corporeas et mate­ tações imaginárias.
riales per abstractionem a phantasmatibus. 1 . Com efeito, qualquer intelecto que conhece
1 . Quicumque enim intellectus intelligit rem uma coisa diferentemente do que ela é é falso.
aliter quam sit, é st falsus. Formae autem rerum Ora, as formas das coisas materiais não são abs­
materialium non sunt abstractae a particularibus, traídas das coisas particulares cujas semelhanças
quorum similitudines sunt phantasmata. Si ergo são as representações imaginárias. Logo, se co­
intelligamus res materiales per abstractionem nhecemos as coisas materiais, abstraindo as espé-

PARALL.: Supra, q. 1 2, a. 4; Cont. Gent. 11, 77; 11 Metaphys., lect. I .


1
a. Se o conhecimento humano pode começar apenas pelo sensível, o pensamento humano se inicia pela abstração. Ele abstrai,
isto é, ele extrai a forma, a essência, aquilo mesmo que é inteligível, da matéria sensível individual que as representações
imaginárias representam. Todas as respostas às objeções especificam a noção freqüentemente tão mal compreendida da abstração:
I ) O espírito que abstrai não pensa a realidade universal como se ela existisse em estado separado.
2) Existem graus na abstração. O espírito não abstrai de início a essência de toda matéria, mas dessa matéria individual .
É o que ocorre quando ele pensa o homem. Ele pode contudo abstrair certas noções de toda matéria: é o que ocorre quando
ele pensa o ato e a potência, o bem, o ser. A partir daí pode conhecer os seres imateriais.
3) Abstrair não é produzir, construir um objeto de pensamento irreal : é revelar ao olhar da inteligência o que está na
representação imaginária, na realidade concreta, mas libertando-a do individual (terceira, quarta e quinta objeções). Não se deve
contrapor, portanto, a entidade abstrata à realidade concreta, mas distinguir a dimensão do real que atinge a inteligência daquela
na qual se detém o sentido.

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QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 1

specierum a phantasmatibus, erit falsitas in in­ cies das representações imaginárias, haverá falsi­
tellectu nostro. dade no intelecto.
2. PRAETEREA, res materiales sunt res natura­ 2. ALÉM msso, as coisas materiais são coisas
les, in quarum definitione cadit materia. Sed nihil naturais em cuja definição entra a matéria. Ora
potest intelligi sine eo quod cadit in definitione nada se pode conhecer sem aquilo que cai em sua
eius. Ergo res materiales non possunt intelligi definição. Portanto, as coisas materiais não po­
sine materia. Sed materia est individuationis prin­ dem ser conhecidas sem a matéria. Mas a matéria
cipium. Ergo res materiales non possunt intelli­ é o princípio de individuação. Logo, as coisas
gi per abstractionem universalis a particulari , materiais não podem ser conhecidas abstraindo o
quod est abstrahere species intelligibiles a phan­ universal do particular, o que é abstrair as espé­
tasmatibus. cies inteligíveis das representações imaginárias.
3 . PRAETEREA, in III de Anima 1 dicitur quod 3. ADEMAIS, no livro III da Alma se diz que as
phantasmata se habent ad animam intellectivam representações imaginárias estão para a alma in­
sicut colores ad visum. Sed visio non fit per abs­ telectual como as cores estão para a vista. Ora, a
tractionem aliquarum specierum a coloribus, sed visão não se obtém por abstração de algumas es­
per hoc quod colores imprimunt in visum. Ergo pécies das cores, mas pelo fato de as cores se
nec intelligere contingit per hoc quod aliquid imprimirem na vista. Logo, conhecer não resulta
abstrahatur a phantasmatibus, sed per hoc quod de uma abstração das representações imaginárias,
phantasmata imprimunt in intellectum. mas de uma impressão das representações imagi­
4. PRAETEREA, ut dicitur in III de Anima2, in nárias no intelecto.
intellectiva anima sunt duo, scilicet intellectus 4. ADEMAIS, como se diz no livro III da Alma,
possibilis, et agens. Sed abstrahere a phantasma­ há na alma intelectiva duas coisas, o intelecto
possível e o intelecto agente. Ora, não pertence
tibus species intelligibiles non pertinet ad intellec­
ao intelecto possível abstrair as espécies inteligí­
tum possibilem, sed recipere species iam abs­
veis das representações imaginárias, mas receber
tractas. Sed nec etiam videtur pertinere ad in­
as espécies já abstraídas. E nem mesmo parece
tellectum agentem, qui se habet ad phantasmata
pertencer ao intelecto agente, que está para as re­
sicut lumen ad colores, quod non abstrahit ali­
presentações imaginárias como a luz para as co­
quid a coloribus, sed magis eis influit. Ergo nullo
res, a qual nada abstrai das cores, mas antes as
modo intelligimus abstrahendo a phantasmatibus.
ilumina. Logo, de nenhum modo conhecemos abs­
5 . PRAETEREA, Philosophus, in III de Anima3,
traindo das representações imaginárias.
dicit quod intellectus intelligit species in phan­ 5 . ADEMAIS, o Filósofo diz, no livro III da Alma,
tasmatibus. Non ergo eas abstrahendo. que "o intelecto conhece as espécies nas represen­
SED CONTRA est quod dicitur in III de Anima4, tações imaginárias" Não é, portanto, abstraindo-as.
quod sicut res sunt separabiles a materia, sic EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o livro III da Alma:
circa intellectum sunt. Ergo oportet quod ma­ "Na medida em que as coisas são separáveis da
terialia intelligantur inquantum a materia abstra­ matéria, elas dizem respeito ao intelecto" É preci­
huntur, et a similitudinibus materialibus, quae so, pois, que as coisas materiais sejam conhecidas
sunt phantasmata. enquanto são abstraídas da matéria e das semelhan­
RESPONDEO dicendum quod, sicut supra5 dic­ ças materiais que são as representações imaginárias.
tum est, obiectum cognoscibile proportionatur REsPONDO. O objeto cognoscível é, como foi
virtuti cognoscitivae. Est autem triplex gradus dito, proporcionado à potência cognoscitiva. Ora
cognoscitivae virtutis. Quaedam enim cognosci­ há três graus da potência cognoscitiva. Uma é ato
tiva virtus est actus organi corporalis, scilicet de um órgão corporal ; é o sentido. Por isso, o
sensus. Et ideo obiectum cuiuslibet sensitivae po­ objeto de toda potência sensível é a forma con­
tentiae est forma prout in materia corporali exis­ forme existe em uma matéria corporal. Sendo essa
tit. Et quia huiusmodi materia est individuationis matéria princípio da individuação, toda potência

I. C. 7 : 43 1 , a, 1 4- 1 7.
2. C. 5 : 430, a, 1 0- 1 7.
3. c. 7: 43 1 , b, 2-9q.
4. C. 4: 429, b, 1 8-22.
5. Q. 84, a. 7.

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QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 1

principium, ideo omnis potentia sensitivae partis sensível só conhece o s particulares. - Outra po­
est cognoscitiva particularium tantum. - Quae­ tência cognoscitiva não é ato de um órgão corpo­
dam autem virtus cognoscitiva est quae neque ral e não está unida de nenhuma maneira à ma­
est actus organi corporalis, neque est aliquo modo téria corporal; é o intelecto angélico. Por isso o
corporali materiae coniuncta, sicut intellectus objeto dessa potência cognoscitiva é a forma sub­
angelicus. Et ideo huius virtutis cognoscitivae sistente sem a matéria. Embora conheçam as coi­
obiectum est forma sine materia subsistens: etsi sas materiais, não as conhecem senão vendo-as
enim materialia cognoscant, non tamen nisi in nas imateriais, a saber, em si mesmos ou em Deus.
immaterialibus ea intuentur, scilicet vel in seip­ - O intelecto humano se põe no meio : não é ato
sis vel in Deo. - Intellectus autem humanus de um órgão, mas é uma potência da alma, que
medio modo se habet: non enim est actus ali­ é forma do corpo, como ficou demonstrado. Por
cuius organi, sed tamen est quaedam virtus ani­ isso, é sua propriedade conhecer a forma que exis­
mae, quae est forma corporis, ut ex supra6 dictis te individualizada em uma matéria corporal, mas
patet. Et ideo proprium eius est cognoscere for­ não essa forma enquanto está em tal matéria. Ora,
mam in materia quidem corporali individualiter conhecer dessa maneira, é abstrair a forma da
existentem, non tamen prout est in tali materia. matéria individual, que as representações imagi­
Cognoscere vero id quod est in materia indivi­ nárias significam . Pode-se, portanto, dizer que
duali, non prout est in tali materia, est abstrahere nosso intelecto conhece as coisas materiais abs­
formam a materia individuali, quam repraesen­ traindo das representações imaginárias. E median­
tant phantasmata. Et ideo necesse est dicere quod te as coi sas materiais consideradas dessa manei­
ra, chegamos a um conhecimento das coisas ima­
intellectus noster intelligit materialia abstrahen­
teriais, enquanto os anjos ao contrário, conhecem
do a phantasmatibus; et per materialia sic consi­
as coisas materiais pelas imateriais.
derata in immaterialium aliqualem cognitionem
Platão atento só à imaterialidade do intelecto
devenimus, sicut e contra angeli per immaterialia
humano, e não à sua união com o corpo, afirmou
materialia cognoscunt.
as idéias separadas como objeto do intelecto, que
Plato vero, attendens solum ad immaterialita­
conhecemos não abstraindo, mas antes partici­
tem intellectus humani, non autem ad hoc quod
pando do que se abstraiu, como acima se disse.
est corpori quodammodo unitus, posuit obiectum
QuANTO AO 1 °, pois, deve-se dizer que há dois
intellectus ideas separatas; et quod intelligimus,
modos de abstração. O primeiro, por composição
non quidem abstrahendo, sed magis abstracta
e divisão: quando conhecemos que uma coisa não
participando, ut supra7 dictum est.
está em outra, ou que está separada dela. O se­
Ao PRIMUM ergo dicendum quod abstrahere gundo, por uma consideração simples e absoluta:
contingit dupliciter. Uno modo, per modum com­ quando conhecemos um objeto, nada consideran­
positionis et divisionis ; sicut cum intelligimus do de um outro. Se o intelecto abstrai, segundo o
aliquid non esse in alio, vel esse separatum ab primeiro modo, separando coisas que na realida­
eo. Alio modo, per modum simplicis et absolutae de não são separadas, isso implica um erro. Mas
considerationis; sicut cum intelligimus unum, nihil se procede segundo o segundo modo, isto não é
considerando de alio. Abstrahere igitur per in­ falso, como vemos claramente nas coisas sensí­
tellectum ea quae secundum rem non sunt abs­ veis. Se, com efeito, conhecêssemos ou dissésse­
tracta, secundum primum modum abstrahendi, non mos que a cor não se encontra no corpo colorido,
est absque falsitate. Sed secundo modo abstrahe­ ou que dele está separada, nossa opinião ou nos­
re per intellectum quae non sunt abstracta secun­ so dizer seriam falsos. Mas se consideramos a
dum rem, non habet falsitatem; ut in sensibilibus cor e suas propriedades, sem dar atenção ao fruto
manifeste apparet. Si enim intelligamus vel dica­ colorido, tanto o que assim conhecemos como o
mus colorem non inesse corpori colorato, vel esse que dizemos serão isentos de falsidade. O fruto
separatum ab eo, erit falsitas in opinione vel in não pertence à razão da cor; por isso, nada impe­
oratione. Si vero consideremus colorem et pro­ de que se conheça a cor, sem que se conheça de
prietates eius, nihil considerantes de pomo colo- alguma forma o fruto. - Do mesmo modo, o

6. Q. 76, a. I .
7 . Q . 84, a . I .

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QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO I

rato; vel quod sic intelligimus, etiam voce expri­ que pertence à razão d a espécie d e uma coisa
mamus; erit absque falsitate opinionis et orationis. material qualquer, por exemplo, uma pedra, um
Pomum enim non est de ratione coloris; et ideo homem, um cavalo, pode ser considerado sem os
nihil prohibet colorem intelligi, nihil intelligendo princípios individuais, que não pertencem à ra­
de pomo. - Similiter dico quod ea quae perti­ zão da espécie. Isso é abstrair o universal do par­
nent ad rationem speciei cuiuslibet rei materialis, ticular, ou a espécie inteligível das representa­
puta lapidis aut hominis aut equi, possunt consi­ ções imaginárias, isto é, considerar a natureza da
derari sine principiis individualibus, quae non sunt espécie, sem considerar os princípios individuais,
de ratione speciei . Et hoc est abstrahere universa­ significados pelas representações imaginárias.
le a particulari, vel speciem intelligibilem a phan­ Por conseguinte, quando se diz que o intelecto
tasmatibus, considerare scilicet naturam speciei está em erro quando conhece uma coisa diferen­
temente do que é, diz-se uma verdade se o termo
absque consideratione individualium principiorum,
diferentemente se refere à coisa conhecida. Está
quae per phantasmata repraesentantur.
em erro, com efeito, o intelecto, quando conhece
Cum ergo dicitur quod intellectus est falsus
uma coisa diferentemente do que é. Exemplo:
qui intelligit rem aliter quam sit, verum est si ly
abstrair a espécie da pedra da matéria, de sorte
aliter referatur ad rem intellectam. Tunc enim
que a conhecesse não existindo na matéria, à ma­
intellectus est falsus, quando intelligit rem esse neira de Platão. Mas não se diz a verdade se o
aliter quam sit. Unde falsus esset intellectus, si termo diferentemente se refere àquele que conhe­
sic abstraheret speciem lapidis a materia, ut intel­ ce. Não é errôneo admitir que um é o modo de
ligeret eam non esse in materia, ut Plato posuit8. ser daquele que conhece, em seu ato de conhecer,
Non est autem verum quod proponitur, si ly ali­ e outro o modo de ser da coisa em seu ato de
ter accipiatur ex parte intelligentis. Est enim abs­ existir. Pois o inteligido está imaterialmente na­
que falsitate ut alius sit modus intelligentis in quele que conhece, segundo a natureza do inte­
intelligendo, quam modus rei in existendo: quia lecto, mas não materialmente, segundo a nature­
intellectum est in intelligente immaterialiter, per za da coisa material .
modum intellectus; non autem materialiter, per QuANTO AO 2°, deve-se dizer que alguns julga­
modum rei materialis. ram que a espécie das coisas naturais seria so­
Ao SECUNDUM dicendum quod quidam puta­ mente a forma, e que a matéria não seria uma
verunt quod species rei naturalis sit forma so­ parte da espécie. Conforme essa opinião, não
lum, et quod materia non sit pars speciei . Sed caberia a matéria na definição das coisas natu­
secundum hoc, in definitionibus rerum natura­ rais. Por isso, deve-se dizer diferentemente. Há
Hum non poneretur materia. Et ideo aliter dicen­ duas matérias : uma, comum, e outra, designada
dum est, quod materia est duplex, scilicet com­ ou individual . A matéria comum é, por exemplo,
munis, et signata vel individualis: communis a carne e os ossos; a matéria individual, essas
quidem, ut caro et os; individualis autem, ut hae carnes e esses ossos. O intelecto abstrai, portan­
to, a espécie da coisa natural da matéria sensível
carnes et haec ossa. Intellectus igitur abstrahit
individual, mas não da matéria sensível comum.
speciem rei naturalis a materia sensibili indivi­
Por exemplo, ele abstrai a espécie de homem,
duali, non autem a materia sensibili communi.
dessas carnes e desses ossos que não pertencem
Sicut speciem hominis abstrahit ab his camibus
à razão da espécie, mas são partes do indivíduo,
et his ossibus, quae non sunt de ratione speciei, como se diz no livro VII da Metafísica; e por isso
sed sunt partes individui, ut dicitur in VII Me­ a espécie pode ser considerada sem essas partes.
taphys. 9; et ideo sine eis considerari potest. Sed Mas a espécie homem não pode ser abstraída pelo
species hominis non potest abstrahi per intellec­ intelecto da carne e dos ossos.
tum a carnibus et ossibus. As espécies matemáticas podem ser abstraídas
Species autem mathematicae possunt abstrahi da matéria sensível não somente individual, mas
per intellectum a materia sensibili non solum também comum; não todavia da matéria inteligí­
individuali, sed etiam communi ; non tamen a vel comum, mas somente individual. A matéria

8. Cfr. supra.
9. C. 1 0 : 1 035, b, 33 - 1 036, a, 1 3 .

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QUESTÃO 85 : O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 1

materia intelligibili communi, sed solum indivi­ sensível é a matéria corporal enquanto é o sujeito
duali . Materia enim sensibilis dicitur materia das qualidades sensíveis, como o frio e o quente,
corporalis secundum quod subiacet qualitatibus o duro e o mole etc. A matéria inteligível é a
sensibilibus, scilicet calido et frigido, duro et moi­ substância enquanto é o sujeito da quantidade. Ora,
li, et huiusmodi. Materia vero intelligibilis dicitur é evidente que a quantidade está presente na subs­
substantia secundum quod subiacet quantitati . tância antes que as qualidades sensíveis. Daí que
Manifestum est autem quod quantitas prius inest os modos da quantidade, como os números, di­
substantiae quam qualitates sensibi les. Unde mensões, figuras, que são seus limites, podem ser
quantitates, ut numeri et dimensiones et figurae, considerados sem as qualidades sensíveis, o que é
abstrair da matéria sensível ; mas não podem ser
quae sunt terminationes quantitatum, possunt
considerados sem o conhecimento da substância,
considerari absque qualitatibus sensibilibus, quod
subjacente à quantidade, o que seria abstrair da
est eas abstrahi a materia sensibili: non tamen
matéria inteligível comum. Pode-se, no entanto,
possunt considerari sine intellectu substantiae considerá-los sem tal ou tal substância, e isto é
quantitati subiectae, quod esset eas abstrahi a ma­ abstrair da matéria inteligível individuaJb.
teria intelligibili communi . Possunt tamen consi­ Algumas coisas podem ser abstraídas mesmo da
derari sine hac vel illa substantia; quod est eas matéria inteligível comum. Por exemplo, o ente, o
abstrahi a materia intelligibili individuali. uno, a potência e o ato; e outras, ainda, que podem
Quaedam vero sunt quae possunt abstrahi existir sem nenhuma matéria, como é claro nas
etiam a materia intelligibili communi, sicut ens, substâncias imateriais. - Como Platão não consi­
unum, potentia et actus, et alia huiusmodi, quae derou o que foi dito dos dois modos de abstração,
etiam esse possunt absque omni materia, ut patet afirmava que tudo o que, segundo nossa opinião, é
in substantiis immaterialibus . - Et quia Plato abstraído pelo intelecto, existia realmente separado.
non consideravit quod dictum est10 de duplici QuANTO AO 3°, deve-se dizer que as cores exis­
modo abstractionis, omnia quae diximus abstra­ tem da mesma maneira tanto na matéria corporal
hi per intellectum, posuit abstracta esse secun­ individual como na potência de ver. Elas podem,
dum rem. por isso, imprimir sua semelhança na vista. Mas
Ao TERTIUM dicendum quod colores habent as representações imaginárias, que são semelhan­
ças de coisas individuais e existem em órgãos cor­
eundem modum existendi prout sunt in materia
porais, não têm o mesmo modo de existir que tem
corporali individuali, sicut et potentia visiva: et
o intelecto humano, como fica claro pelo que dis­
ideo possunt imprimere suam similitudinem in
semos. Não podem, pois, por sua própria ação,
visum. Sed phantasmata, cum sint similitudines imprimir-se no intelecto possível . Mas, pela ação
individuorum, et existant in organis corporeis, non do intelecto agente, voltando-se para as represen­
habent eundem modum existendi quem habet tações imaginárias, se produz certa semelhança
intellectus humanus, ut ex dicti s 1 1 patet: et ideo no intelecto possível ; essa semelhança é represen­
non possunt sua virtute imprimere in intellectum tativa das coisas de que se têm representações
possibilem. Sed virtute intellectus agentis resultat imaginárias, somente quanto à natureza específi­
quaedam similitudo in intellectu possibili ex con- ca. E é nesse sentido que se diz que a espécie

1 0. In resp. ad I .
1 1 . In corp.

b. Matéria natural, matéria sensível, matéria individual, matéria comum, matéria inteligível (individual e comum) . . . como
distingui-las? Trata-se de estudar minuciosamente esse texto sutil e penetrante.
A "matéria natural" é a matéria tal como existe na natureza das coisas: quantificada, individualizada, revestida de quali­
dades diversas. Ela é o objeto do conhecimento sensível, que só atinge portanto o individual, "esse" ser material, "essa" carne,
"esses" ossos: a matéria sensível individual. A matéria comum (que só existe como tal na natureza das coisas) é a matéria livre
mediante uma primeira abstração, não pelo fato de ser individual e possuir qualidades sensíveis e propriedades características
(isso faz parte de sua essência), mas dessa individualidade, dessa individuação. Dessa matéria sensível comum pode-se abstrair,
todavia, o fato de que é sensível, e nela considerar apenas a quantidade. A matéria que se tem diante do espírito será intitulada
então matéria inteligível. É a abstração matemática. Contudo, não se poderá assim mesmo abstrair (sem o que não restaria nada
de material) da substância subjacente a quantidade, e que é, por sua natureza, material. Ao abstrair da matéria inteligível
individual não se abstrai portanto da matéria inteligível comum. Tal matéria, reduzida à quantidade, será a de Descartes. No
entanto, ela não existe . como tal na natureza das coisas.

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QUESTÃO SS: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 2

versione intellectus agentis supra phantasmata, inteligível é abstraída das representações imagi­
quae quidem est repraesentativa eorum quorum nárias, mas isso não significa que uma forma, nu­
sunt phantasmata, solum quantum ad naturam mericamente a mesma, que antes estava nas re­
speciei. Et per hunc modum dicitur abstrahi spe­ presentações imaginárias se encontre em seguida
cies intelligibilis a phantasmatibus: non quod ali­ no intelecto possível, à maneira como um corpo,
qua eadem numero forma, quae prius fuit in phan­ tirado de um lugar, é transportado para outro.
tasmatibus, postmodum fiat in intellectu possibi­ QuANTO AO 4°, deve-se dizer que as representa­
li, ad modum quo corpus accipitur ab uno loco et ções imaginárias não somente recebem a luz do
transfertur ad alterum. intelecto agente, como também é deles que são
Ao QUARTUM dicendum quod phantasmata et abstraídas as espécies inteligíveis pela ação desse
illuminantur ab intellectu agente; et iterum ab eis, intelecto. Recebem uma luz: com efeito, do mes­
per virtutem intellectus agentis, species intelligi­ mo modo que a parte sensível adquire uma força
biles abstrahuntur. Illuminantur quidem, quia, si­ maior por causa de sua união com a parte intelec­
cut pars sensitiva ex coniunctione ad intellecti­ tiva, assim as representações imaginárias, pela ação
do intelecto agente, se tomam mais aptas a que as
vam efficitur virtuosior, ita phantasmata ex virtu­
intenções inteligíveis sejam delas abstraídas. E o
te intellectus agentis redduntur habilia ut ab eis
intelecto agente abstrai as espécies inteligíveis das
intentiones intelligibiles abstrahantur. Abstrahit
representações imaginárias : na medida em que,
autem intellectus agens species intelligibiles a
pela ação do intelecto agente, somos capazes de
phantasmatibus, inquantum per virtutem intellec­
considerar as naturezas específicas sem as condi­
tus agentis accipere possumus in nostra conside­
ções individuais, e são as semelhanças dessas na­
ratione naturas specierum sine individualibus
turezas que informam o intelecto possível .
conditionibus, secundum quarum similitudines
QuANTO AO 5°, deve-se dizer que nosso intelec­
intellectus possibilis informatur.
to não somente abstrai as espécies inteligíveis das
Ao QUINTUM dicendum quod intellectus noster representações imaginárias, enquanto considera as
et abstrahit species intel ligibiles a phantasmati­ naturezas das coisas de modo universal , mas tam­
bus, inquantum considerat naturas rerum in uni­ bém conhece essas naturezas nas representações
versal i ; et tamen intelligit eas in phantasmatibus, imaginárias, porque não pode conhecer, sem se
quia non potest intelligere etiam ea quorum spe­ voltar para as representações imaginárias, até
cies abstrahit, nisi convertendo se ad phantasma­ mesmo as coisas de que abstrai as espécies inte­
ta, ut supra1 2 dictum est. ligíveis, como acima foi dito.

ARTICULUS 2 ARTIGO 2
Utrum species intelligibiles a phantasmatibus As espécies inteligíveis abstraídas das
abstractae, se habeant ad intellectum representações imaginárias se referem a
nostrum sicut id quod intelligitur nosso intelecto como aquilo que é conhecido?c
Ao SECUNDUM SIC PROCEDITUR. Videtur quod QUANTO AO SEGUNDO, ASSIM SE PROCEDE: parece
species intell igibiles a phantasmatibus abstractae, que as espécies inteligíveis abstraídas das repre­
se habeant ad intellectum nostrum sicut id quod sentações imaginárias se referem a nosso inte­
intelligitur. lecto como aquilo que é conhecido.
I . Intellectum enim in actu est in intelligente : I . Com efeito, o inteligido em ato está naquele
quia intellectum in actu e s t ipse intellectus in que conhece, porque o inteligido em ato é o pró-

1 2. Q. 84, a. 7 .
2 PARALL.: Cont. Gent. II, 75; IV, 1 1 ; De Verit., q. 1 0, a. 9; De Spirit. Creat. , a. 9, ad 6; Compend. Theol. , c. 85; III de Anima,
lect. 8.

c. Atingimos aqui o ponto em que atua o realismo do conhecimento. Sabemos que só se pode conhecer a realidade pela
mediação de "espécies", de "semelhanças" (imagens, conceitos). O objeto do pensamento é o conceito ou, por seu intermédio,
a própria realidade? Contrariamente ao que dirá Descartes (a idéia é uma "pintura" da realidade, sem qualquer garantia - além
da divina, providencial - de semelhança), Sto. Tomás afirma: o que conheço não é a imagem ou o conceito, é a própria
realidade representada pela imagem ou pelo conceito.

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QUESTÃO 85 : O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 2

actu . Sed nihil de re intellecta est in intellectu prio intelecto e m ato. Ora, nada d a coisa conhe­
actu intelligente, nisi species intelligibilis abs­ cida está no intelecto em ato de conhecer, a não
tracta. Ergo huiusmodi species est ipsum intel­ ser a espécie inteligível abstraída. Logo, essa
lectum in actu . espécie é o próprio inteligido em ato.
2. PRAETEREA, intellectum in actu oportet in 2. ALÉM msso, o inteligido em ato deve existir
aliquo esse: alioquin nihil esset. Sed non est in re em algo, pois de outra sorte seria nada. Ora, ele
quae est extra animam : quia, cum res extra ani­ não está na coisa que existe fora da alma, porque
mam sit materialis, nihil quod est in ea, potest sendo essa coisa material, nada do que nela está
esse intellectum in actu . Relinquitur ergo quod pode ser inteligido em ato. Logo, o inteligido em
intellectum in actu sit in intellectu. Et ita nihil est ato está no intelecto, e é exatamente a espécie
aliud quam species intelligibilis praedicta. inteligível.
3. ADEMAIS, o Filósofo diz no livro Sobre a in­
3. PRAETEREA, Philosophus dicit, in I Periherm. 1 ,
terpretação: "As palavras são sinais das impres­
quod voces sunt notae earum quae sunt in anima
sões que há na alma" Ora, as palavras significam
passionum. Sed voces significant res intellectas: id
as coisas conhecidas, pois é pela palavra que ex­
enim voce significamus quod intelligimus. Ergo
primimos o que conhecemos. Logo, as impres­
ipsae passiones animae, scilicet species intelligibi­
sões da alma, a saber, as espécies inteligíveis, são
les, sunt ea quae intelliguntur in actu. isso mesmo que nós conhecemos em ato.
SED cONTRA, species intelligibilis se habet ad EM SENTIDO CONTRÁRIO, a relação entre a espé­
intellectum, sicut species sensibilis ad sensum. cie inteligível e o intelecto é a mesma que se dá
Sed species sensibilis non est illud quod sentitur, entre a espécie sensível e os sentidos . Ora, a
sed magis id quo sensus sentit. Ergo species in­ espécie sensível não é o que é sentido, mas aqui­
telligibilis non est quod intelligitur actu, sed id lo pelo qual o sentido sente. Portanto, a espécie
quo intelligit intellectus. inteligível não é o inteligido em ato, mas aquilo
RESPONDEO dicendum quod quidam posuerunt pelo qual o intelecto conhece.
quod vires cognoscitivae quae sunt in nobis, nihil RESPONDO. Alguns afirmaram que nossas po­
cognoscunt nisi proprias passiones; puta quod tências cognoscitivas não conhecem senão suas
sensus non sentit nisi passionem sui organi . Et próprias impressões; por exemplo, o sentido não
secundum hoc, intellectus nihil intelligit nisi suam sente senão a impressão de seu órgão. E nessa
passionem, idest speciem intelligibilem in se re­ teoria, o intelecto não conhece senão sua im­
ceptam. Et secundum hoc, species huiusmodi est pressão, que é a espécie inteligível recebida. E
ipsum quod intelligitur. em conseqüência, a espécie inteligível é o que é
Sed haec opinio manifeste apparet falsa ex conhecido.
duobus . Primo quidem, quia eadem sunt quae Mas essa opinião é evidentemente falsa, por
intelligimus, et de quibus sunt scientiae. Si igi­ duas razões . Primeira: porque é o mesmo o que
tur ea quae intelligimus essent solum species conhecemos e aquilo de que trata as ciências. Se,
pois, aquilo que conhecemos fosse somente as
quae sunt in anima, sequeretur quod scientiae
espécies que estão na alma, todas as ciências não
omnes non essent de rebus quae sunt extra ani­
seriam de coisas que estão fora da alma, mas
mam, sed solum de speciebus intelligibilibus
somente das espécies inteligíveis que estão na
quae sunt in anima; sicut secundum Platonicos
alma. Por exemplo, para os platônicos, não há
omnes scientiae sunt de ideis, quas ponebant esse ciência senão das idéias, que, segundo eles, são
intellectas in actu2• - Secundo, quia sequeretur conhecidas em ato. - Segunda razão: porque se
error antiquorum dicentium quod omne quod chegaria ao erro dos antigos que diziam que tudo
videtur est verum; et sic quod contradictoriae o que parece é verdadeiro, e assim afirmações
essent simul verae . Si enim potentia non cog­ contraditórias seriam ao mesmo tempo verdadei­
noscit nisi propriam passionem, de ea solum ras. Se, com efeito, uma potência não conhece
iudicat. Sic autem videtur aliquid, secundum senão sua própria impressão, só dela julga. Ora,
quod potentia cognoscitiva afficitur. Semper ergo uma coisa parece ser de tal maneira, conforme a

I . C. 1 : 1 6, a, 3-4.
2. Q. 84, a. I .

527
QUESTÃO 85 : O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 2

iudicium potentiae cognoscitivae erit de eo quod potência cognoscitiva está afetada desse ou da­
iudicat, scilicet de propria passione, secundum quele modo. Portanto, o julgamento da potência
quod est; et ita omne iudicium erit verum. Puta cognoscitiva terá por objeto aquilo mesmo que
si gustus non sentit nisi propriam passionem, ela julga, a saber, sua própria impressão, segundo
cum aliquis habens sanum gustum iudicat mel o que ela é; e assim todo julgamento será verda­
esse dulce, vere iudicabit; et similiter si ille qui deiro. Por exemplo, se o gosto não sente senão
habet gustum infectum, iudicet mel esse ama­ sua própria impressão aquele que tem o gosto
rum, vere iudicabit: uterque enim iudicat secun­ sadio julga o mel doce, julgará com verdade, e
igualmente julgará com verdade aquele que tem
dum quod gustus eius afficitur. Et sic sequitur
o gosto imperfeito e que julga o mel amargo. Um
quod omnis opinio aequaliter erit vera, et uni­
e outro julgam segundo é afetado o próprio gos­
versaliter omnis acceptio.
to. Por conseguinte, toda opinião será igualmente
Et ideo dicendum est quod species intelligibi­ verdadeira, e de modo geral, toda significação.
lis se habet ad intellectum ut quo intelligit intel­ Deve-se, portanto, dizer que a espécie inteligí­
lectus. Quod sic patet. Cum enim sit duplex actio, vel está para o intelecto como aquilo pelo qual
sicut dicitur IX Metaphys. 3, una quae manet in ele conhece. Isso se prova assim. Há duas espé­
agente, ut videre et intelligere, altera quae tran­ cies de ação, como se diz no livro IX da Metafí­
sit in rem exteriorem, ut calefacere et secare ; sica. Uma que permanece no agente, como ver e
utraque fit secundum aliquam formam. Et sicut conhecer; outra, a que passa a uma coisa exterior,
forma secundum quam provenit actio tendens in como esquentar e cortar. Ora uma e outra supõem
rem exteriorem, est similitudo obiecti actionis, alguma forma. Assim como a forma pela qual se
ut calor calefacientis est similitudo calefacti ; si­ realiza a ação transitiva é a semelhança do objeto
militer forma secundum quam provenit actio da ação, por exemplo, o calor do que esquenta é
manens in agente, est similitudo obiecti . Unde a semelhança do que é esquentado; assim tam­
similitudo rei visibilis est secundum quam visus bém, a forma segundo a qual se realiza a ação
imanente no agente é uma semelhança do objeto.
videt; et similitudo rei intellectae, quae est spe­
De onde, a semelhança da coisa visível é a forma
cies intelligibilis, est forma secundum quam in­
segundo a qual a vista vê, e a semelhança da
tellectus intelligit.
coisa conhecida, a saber, a espécie inteligível, é a
Sed quia intellectus supra seipsum reflectitur,
forma segundo a qual o intelecto conhece.
secundum eandem reflexionem intelligit et suum Mas porque o intelecto reflete sobre si mes­
intelligere, et speciem qua intelligit. Et sic spe­ mo, pela mesma reflexão conhece seu ato de co­
cies intellectiva secundario est id quod intelligi­ nhecer, e a espécie pela qual conhece. Assim, a
tur. Sed id quod intelligitur primo, est res cuius espécie inteligível é o que é conhecido em segun­
species intelligibilis est similitudo. do lugar. Mas o que é primeiramente conhecido,
Et hoc etiam patet ex antiquorum opinione, é a coisa da qual a espécie inteligível é a se­
qui ponebant simile simili cognosci. Ponebant melhançad.

3 . C. 8 : 1 050, a, 23 - b, 2.

d. Raciocínio incompreensível s e se desconhece o caráter dinâmico do pensamento. Pensar é um ato, o ato d o espírito pelo
qual ele se apodera da realidade inteligível e a faz sua, ao mesmo tempo em que a pensa diante de si. União e identificação
irredutíveis a qualquer outra união e identificação, testemunhadas apenas pela experiência do conhecimento, o qual se dá
inexoravelmente como afirmação de um real. Em tal atividade, inteiramente imanente, a "espécie inteligível" desempenha o
papel de forma, ou seja, de princípio, e não de termo, princípio que explica que o ato de pensar termina em determinada
realidade inteligível e não em outra. Na verdade, na teoria completa do conhecimento, seria preciso dizer que o ato de conhecer
se conclui e se exprime na produção de um conceito emanado do próprio sujeito, e que é a réplica, mas ativamente produzida,
da espécie inteligível impressa no espírito. No entanto, não mais do que esta, o conceito não é objeto direto do ato de
pensamento. Ele é aquilo mediante o qual é apreendida a realidade da qual ele é semelhança.
Na semelhança (imagem, conceito), é o próprio real, portanto, que é atingido. O objeto do pensamento é o real, e não uma
construção do espírito. Isso provém do fato de que a semelhança da qual se trata é "intencional": ela é apenas semelhança do
outro, e só se dá como tal. Essa noção de intencionalidade é característica do domínio do conhecimento. A consciência é, em
seu ser, voltada para o outro. As chamadas "espécies", "imagens", representações imaginárias, "conceitos" só possuem reali­
dade em relação àquilo do qual são a "semelhança" A "intencionalidade", essa aptidão a ser o que não se é, faz parte da
natureza do espírito, contraposto nisso à natureza da matéria ("a matéria determina a forma a ser uma coisa somente").

528
QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 2

enim quod anima per terram quae in ipsa erat, Podemos prová-lo, ainda, servindo-nos da teo­
cognosceret terram quae extra ipsam erat; et sic ria antiga que afirmava que o semelhante é co­
de aliis. Si ergo accipiamus speciem terrae loco nhecido pelo semelhante. Com efeito, afirmavam
terrae, secundum doctrinam Aristotelis, qui dicit que a alma conheceria, pela terra que está nela, a
quod4 lapis non est in anima, sed species lapidis; terra que está fora, e assim por diante. Se em
sequetur quod anima per species intelligibiles lugar da terra, tomamos a espécie da terra, segun­
do a doutrina de Aristóteles que declara: "A pe­
cognoscat res quae sunt extra animam.
dra não está na alma, mas a espécie da pedra",
Ao PRIMUM ergo dicendum quod intellectum
segue-se que é por meio das espécies inteligíveis
est in intelligente per suam similitudinem . Et
que a alma conhece as coisas que estão fora dela.
per hunc modum dicitur quod intellectum in actu QuANTO AO 1°, portanto, deve-se dizer que o
est intellectus in actu, inquantum similitudo rei inteligido está no que conhece por semelhança. É
intellectae est forma intellectus; sicut similitu­ por isso que se diz que o inteligido em ato é o
do rei sensibilis est forma sensus in actu . Unde intelecto em ato, enquanto a semelhança da coisa
non sequitur quod species intelligibilis abstracta conhecida é a forma do intelecto, como a seme­
sit id quod actu intelligitur, sed quod sit simi­ lhança da coisa sensível é a forma do sentido em
litudo eius. ato. Não se pode, portanto, concluir que a espé­
Ao SECUNOUM dicendum quod, cum dicitur in­ cie inteligível abstraída é aquilo que se conhece
tellectum in actu, duo importantur: scilicet res em ato, mas que é sua semelhança.
quae intelligitur, et hoc quod est ipsum intelligi. QuANTO AO 2°, deve-se dizer que quando se diz
Et similiter cum dicitur universale abstractum, "o inteligido em ato", duas coisas estão implicadas:
duo intelliguntur: scilicet ipsa natura rei, et abs­ a coisa que se conhece, e o ato mesmo de se conhe­
tractio seu universalitas . Ipsa igitur natura cui cer. Da mesma forma, quando se diz universal
accidit vel intelligi vel abstrahi, vel intentio uni­
abstraído, conhece-se tanto a natureza da coisa,
como a abstração ou a universalidade. Pois a mes­
versalitatis, non est nisi in singularibus ; sed hoc
ma natureza, a que acontece ser conhecida, abstraí­
ipsum quod est intelligi vel abstrahi , vel intentio
da, ou universalizada, não existe senão nos singula­
universalitatis, est in intellectu. Et hoc possumus
res, mas o ato mesmo de ser conhecida, abstraída,
videre per símile in sensu. Visus enim videt co­ universalizada, está no intelecto. Podemos ver isso
lorem pomi sine eius odore. Si ergo quaeratur ubi por um exemplo tomado dos sentidos. A vista vê a
sit color qui videtur sine odore, manifestum est cor da maçã, sem seu odor. Se, portanto, se pergun­
quod color qui videtur, non est nisi in pomo; sed ta onde está a cor que é vista sem o odor, é claro
quod sit sine odore perceptus, hoc accidit ei ex que é somente na maçã, mas que ela seja percebida
parte visus, inquantum in visu est similitudo co­ sem o odor, isso acontece por parte da vista, porque
loris et non odoris. Similiter humanitas quae in­ há na vista a semelhança de cor e não do odor.
telligitur, non est nisi in hoc vel in illo homine: Igualmente, a humanidade conhecida existe só em
sed quod humanitas apprehendatur sine indivi­ tal ou tal homem. Mas que a humanidade seja
dualibus conditionibus, quod est ipsam abstrahi, apreendida sem as condições individuais, no que
ad quod sequitur intentio universalitatis, accidit está a abstração, da qual resulta a idéia universal,
humanitati secundum quod percipitur ab intellec­ isso lhe acontece enquanto é percebida pelo intelec­
to, no qual se encontra a semelhança da natureza
tu, in quo est similitudo naturae speciei, et non
específica, e não a dos princípios individuais.
individualium principiorum.
QuANTO AO 3°, deve-se dizer que há na parte
Ao TERTIUM dicendum quod in parte sensitiva
sensível duas operações. Uma que é só por mu­
invenitur duplex operatio. Una secundum solam tação. Por exemplo, a operação dos sentidos se
immutationem: et sic perficitur operatio sensus realiza quando o sentido é modificado pelo sen­
per hoc quod immutatur a sensibili. Alia operatio sível. A outra é a formação, pela qual a imagina­
est formatio, secundum quod vis imaginativa for­ ção forma para si a imagem de uma coisa ausente
mat sibi aliquod idolum rei absentis, vel etiam ou jamais vista. Uma e outra operação reúnem-se
nunquam visae. Et utraque haec operatio co- no intelecto. Observa-se primeiro uma impressão

4. De Anima, I. III, c. 8 : 43 1 , b, 28 - 432, a. 3.

529
QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 3

niungitur in intellectu. Nam primo quidem con­ do intelecto possível, enquanto recebe a forma da
sideratur passio intellectus possibilis secundum espécie inteligível . Assim formado, ele forma em
quod informatur specie intelligibili. Qua quidem segundo lugar uma definição, uma divisão ou uma
formatus, format secundo vel definitionem vel composição, o que é expresso pela palavra<. Por­
divisionem vel compositionem, quae per vocem tanto, a razão significada pelo nome é a defini­
significatur. Unde ratio quam significat nomen, ção, e a proposição exprime o ato intelectual de
est definitio; et enuntiatio significat compositio­ compor e de dividir. As palavras não designam,
nem et divisionem intellectus. Non ergo voces pois, as espécies inteligíveis, mas aquilo que o
intelecto forma para julgar as coisas exteriores.
significant ipsas species intelligibiles; sed ea quae
intellectus sibi format ad iudicandum de rebus
ARTIG0 3
exterioribus.
O que é mais universal é anterior
ARTICULUS 3 em nosso conhecimento intelectual?
Utrum magis universalia sint QUANTO AO TERCEIRO, ASSIM SE PROCEDE: parece
priora in nostra cognitione intellectuali que o que é mais universal é anterior em nosso
conhecimento intelectual.
Ao TERTIUM SIC PROCEDITUR. Videtur quod ma­ I . Com efeito, as coisas que são anteriores e
gis universalia non sint priora in nostra cognitio­ mais conhecidas segundo a natureza, são posterio­
ne intellectuali. res e menos conhecidas em relação a nós. Ora, o
1 . Quia ea quae sunt priora et notiora secun­ que é universal é anterior segundo a natureza: por­
dum naturam, sunt posteriora et minus nota se­ que "é primeiro o que não implica reciprocidade
cundum nos. Sed universalia sunt priora secun­ nas condições de existência". Logo, o que é univer­
dum naturam: quia prius est a quo non conver­ sal é posterior em nosso conhecimento intelectual.
titur subsistendi consequentia 1 • Ergo universalia 2. ALÉM msso, as coisas compostas, com rela­
sunt posteriora in cognitione nostri intellectus. ção a nós, são anteriores às simples. Ora, os uni­
2. PRAETEREA, composita sunt priora quoad nos versais são os mais simples. Logo, com relação a
quam simplicia. Sed universalia sunt simpliciora. nós, são posteriormente conhecidos.
Ergo sunt posterius nota quoad nos. 3. ADEMAIS, o Filósofo diz no livro I da Física
3. Praeterea, Philosophus dicit, in I Physic. 2 que o definido chega a nosso conhecimento antes
quod definitum prius cadit in cognitione nostra das partes da definição. Ora, o mais universal faz
quam partes definitionis . Sed universaliora sunt parte da definição do menos universal, por exem­
partes definitionis minus universalium, sicut ani­ plo: "animal " é parte da definição do homem.
mal est pars definitionis hominis. Ergo universa­ Logo, os universais, com relação a nós, são pos­
teriormente conhecidos.
Iia sunt posterius nota quoad nos.
4. ADEMAIS, é pelos efeitos que chegamos às
4. PRAETEREA, per effectus devenimus in cau­
causas e aos princípios. Ora os universais são
sas et principia. Sed universalia sunt quaedam
princípios. Logo, com relação a nós, são poste­
principia. Ergo universalia sunt posterius nota riormente conhecidos .
quoad nos. EM SENTIDO CONTRÁRIO, está dito no livro I da
SEo CONTRA est quod dicitur in I Physic. 3, quod Física que se deve proceder do universal para o
ex universalibus in singularia oportet devenire. singular.
REsPONDEO dicendum quod in cognitione nos­ REsPONDO. Há duas coisas a considerar em nos­
tri intellectus duo oportet considerare. Primo so conhecimento. Primeiro, que esse conhecimen­
quidem, quod cognitio intellectiva aliquo modo a to intelectual tem sua origem de algum modo no

3 PARALL. : I Poster., lect. 4; I Physic., lect. I .


I . Categ., c . 1 2 : 1 4, a , 29-35 .
2. C. 1 : 1 84, a , 26 - b, 1 2.
3. C. 1 : 1 84, a, 1 6-24.

e. O papel "construtivo" do pensamento humano surge aqui em um resumo bastante expressivo. Todavia, só se desenvolve
a partir da percepção do real.

530
QUESTÃO 115: O -MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 3

sensitiva primordium sumit. Et quia sensus est conhecimento sensível . Porque o sentido tem por
singularium, intellectus autem universalium; ne­ objeto o singular, e o intelecto, o universal, é
cesse est quod cognitio singularium, quoad nos, necessário que o conhecimento do singular, com
prior sit quam universalium cognitio. relação a nós, seja anterior ao do universal .
Secundo oportet considerare quod intellectus Em segundo lugar, nosso intelecto procede da
noster de potentia in actum procedit. Omne au­ potência para o ato. Tudo o que procede assim,
tem quod procedit de potentia in actum, prius chega primeiramente ao ato incompleto, interme­
pervenit ad actum incompletum, qui est medius diário entre a potência e o ato, antes de chegar ao
inter potentiam et actum, quam ad actum perfec­ ato perfeito. Esse ato perfeito é a- ciência acabada,
tum. Actus autem perfectus ad quem pervenit pela qual se conhecem as coisas de maneira dis­
intellectus, est scientia completa, per quam dis­ tinta e precisa. O ato incompleto, por sua vez, é
tincte et determinate res cognoscuntur. Actus au­ uma ciência imperfeita pela qual se conhecem as
tem incompletus est scientia imperfecta, per quam coisas de maneira indistinta e confusa. Pois o que
sciuntur res indistincte sub quadam confusione: se conhece dessa forma é conhecido sob certo
quod enim sic cognoscitur, secundum quid cog­ aspecto em ato, e sob outro, em potência. Por
noscitur in actu, et quodammodo in potentia. Unde isso, diz o Filósofo, no livro I da Física: "O que
Philosophus dicit, in I Physic.4, quod sunt primo é primeiro conhecido e certo é conhecido de ma­
nobis manifesta et certa, confusa magis; poste­ neira bastante confusa; mas em seguida distingui­
rius autem cognoscimus distinguendo distincte mos com nitidez os princípios e os elementos"
principia et e/ementa. Manifestum est autem quod Ora, conhecer uma coisa que encerra vários ele­
cognoscere aliquid in quo plura continentur, sine mentos, sem ter um conhecimento próprio de cada
hoc quod habeatur propria notitia uniuscuiusque um deles, é conhecê-la confusamente. Podem-se
eorum quae continentur in illo, est cognoscere conhecer assim tanto o todo universal no qual as
aliquid sub confusione quadam. Sic autem potest partes são contidas em potência, como o todo
cognosci tam totum universale, in quo partes integral. Um e outro podem ser conhecidos de
continentur in potentia, quam etiam totum inte­ maneira confusa, sem que suas partes sejam cla­
ramente distinguidas. Ora, quando se conhece dis­
grale: utrumque enim totum potest cognosci in
tintamente o que é contido em um todo universal,
quadam confusione, sine hoc quod partes distincte
conhece-se alguma coisa menos geral. Por exem­
cognoscantur. Cognoscere autem distincte id quod
plo, conhece-se indistintamente o animal, quando
continetur in toto universal i, est habere cognitio­
ele é conhecido só como tal; mas conhece-se o
nem de re minus communi. Sicut cognoscere ani­
animal distintamente, quando se conhece como
mal indistincte, est cognoscere animal inquantum
racional e irracional, o que é conhecer o homem
est animal ; cognoscere autem animal distincte,
ou o leão. Nosso intelecto, portanto, conhece o
est cognoscere animal inquantum est animal ra­
animal antes de conhecer o homem. E isso se aplica
tionale vel irrationale, quod est cognoscere homi­ a cada vez que comparamos um conceito mais
nem vel leonem. Prius igitur occurrit intellectui universal com o outro que é menos universal .
nostro cognoscere animal quam cognoscere ho­ E visto que o sentido passa da potência ao ato,
minem : et eadem ratio est si comparemus quod­ como o intelecto, também a mesma ordem do
cumque magis universale ad minus universale. conhecimento se encontra no sentido. Julgamos
Et quia sensus exit de potentia in actum sicut com nossos sentidos o que é mais comum antes
et intellectus, idem etiam ordo cognitionis appa­ do menos comum, tanto no que diz respeito ao
ret in sensu. Nam prius secundum sensum diiu­ espaço, como ao tempo. Com respeito ao lugar:
dicamus magis commune quam minus commu­ quando se vê alguma coisa de longe, percebe-se
ne, et secundum locum et secundum tempus. Se­ antes ser um corpo do que ser um animal ; e antes
cundum locum quidem, sicut, cum aliquid vide­ se percebe que é um animal do que se percebe
tur a remotis, prius deprehenditur esse corpus, ser um homem; e antes um homem, do que Só­
quam deprehendatur esse animal ; et prius depre­ crates ou Platão. Com respeito ao tempo: a crian­
henditur esse animal, quam deprehendatur esse ça distingue inicialmente um homem de um não­
homo; et prius homo, quam Socrates vel Plato. homem, antes de distinguir este homem de outro

4. C. 1 : 1 84, a, 1 6-24.

531
QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 3

Secundum tempus autem, quia puer a principio homem. Razão por que, como se diz no livro I da
prius distinguit hominem a non homine, quam Física: "As crianças inicialmente chamam todos
distinguat hunc hominem ab alio homine; et ideo os homens de pai, mas posteriormente distinguem
pueri a principio appellant omnes viros patres, cada um deles"
posterius autem determinant unumquemque, ut A razão disso é clara. Aquele que conhece uma
dicitur in I Physic. 5• coisa de maneira confusa está em potência para
E t huius ratio manifesta e s t . Q u i a q u i scit saber o princípio de distinção. Por exemplo, aquele
aliquid indistincte, adhuc est in potentia ut sciat que conhece o gênero está em potência para sa­
distinctionis principium; sicut qui scit genus , ber a diferença. Assim, o conhecimento indistinto
e s t in potentia ut sciat differentiam. Et s i c patet é intermediário entre a potência e o ato.
quod cognitio indistincta media est inter poten­ Concluindo, o conhecimento do singular é com
tiam et actum . relação a nós anterior ao conhecimento do uni­
Est ergo dicendum quod cognitio singularium versal, como o conhecimento sensível o é ao co­
est prior quoad nos quam cognitio universalium, nhecimento intelectual . Mas, tanto no sentido
sicut cognitio sensitiva quam cognitio intellecti­ como no intelecto, o conhecimento de um objeto
va. Sed tam secundum sensum quam secundum mais geral é anterior ao conhecimento de um
intellectum, cognitio magis communis est prior menos geralf.
quam cognitio minus communis. QuANTO AO 1 °, portanto, deve-se dizer que o
Ao PRIMUM ergo dicendum quod universale universal pode ser considerado sob dois aspectos.
dupliciter potest considerari . Uno modo, secun­ Primeiro, considerando-se a natureza universal si­
dum quod natura universalis consideratur simul multaneamente com a intenção de universalidade.
cum intentione universalitatis. Et cum intentio Ora, como essa relação, isto é, que uma só e mesma
universalitatis, ut scilicet unum et idem habeat coisa se refira a muitas, provém da abstração do
habitudinem ad multa, proveniat ex abstractione intelecto, é preciso que sob esse aspecto o univer­
intellectus, oportet quod secundum hunc modum sal seja posterior. Por isso, no livro I da Alma se
universale sit posterius. Unde in I de Anima6 di­ diz que "o animal universal ou não é nada, ou é
citur quod animal universale aut nihil est, aut algo posterior" Para Platão, que admitia a subsis­
posterius est. Sed secundum Platonem, qui posuit tência do universal, este é anterior aos particula­
universalia subsistentia, secundum hanc conside­ res, que, segundo esse filósofo, não existem senão
rationem universale esset prius quam particula­ por sua participação nos universais subsistentes,
ria, quae secundum eum non sunt nisi per parti­ que chama de idéias. - Segundo, considerando­
cipationem universalium subsistentium, quae di­ se o universal em relação à mesma natureza, isto
cuntur ideae. - Alio modo potest considerari é, de animalidade ou de humanidade, conforme
quantum ad ipsam naturam, scilicet animalitatis existem nos seres particulares. E então, deve-se
vel humanitatis, prout invenitur in particularibus. distinguir uma dupla ordem de natureza. A primei­
Et sic dicendum est quod duplex est ordo natu­ ra é a ordem da geração e do tempo: nesse caso,
rae. Unus secundum viam generationis et tempo­ as coisas imperfeitas e em potência existem pri­
ris : secundum quam viam, ea quae sunt imper­ meiro. O mais universal é, dessa maneira, anterior
fecta et in potentia, sunt priora. Et hoc modo magis por natureza, o que é claro para a geração do
commune est prius secundum naturam, quod appa­ homem e do animal. "O animal é gerado antes do
ret manifeste in generatione hominis et animalis; homem", se diz no livro da Geração dos animais.
nam prius generatur animal quam homo, ut dici­ A segunda ordem é a da perfeição ou da finalida­
tur in libro de Generat. AnimaU. Alius est ordo de da natureza. Assim, o ato é absolutamente an-

5. c. 1 : 1 84, b, 1 2- 1 4.
6. C. 1 : 402, a, 1 0 - b, 8.
7. L. li, c . 3 : 736, b, 2-4.

f. O real só se toma objeto de pensamento pelo que tem de universal. Todavia, o pensamento é perfeito apenas quando
apreende em seu objeto todos os elementos que compõem um universal , e até atingir os seres particulares nos quais se realiza
ou pode realizar-se. É fruto de um longo esforço. Do mesmo modo, o pensamento começa pelo que existe de mais universal,
mas em estado confuso. A passagem do confuso ao distinto, do implícito ao explícito, é característica do progresso do
pensamento humano.

532
QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 3

perfectionis, sive intentionis naturae; sicut actus terior, por natureza, à potência, o perfeito ao im­
simpliciter est prius secundum naturam quam perfeito. Nesse caso, o menos geral é anterior, por
potentia, et perfectum prius quam imperfectum . natureza, ao mais geral, como o homem é anterior
E t per hunc modum, minus commune e s t prius ao animal ; o fim da natureza não é parar na gera­
secundum naturam quam magis commune, ut ção do animal, mas gerar o homem.
homo quam animal: naturae enim intentio non QuANTO AO 2°, deve-se dizer que o mais uni­
sistit in generatione animalis, sed intendit gene­ versal é comparado ao que é menos, quer como
rare hominem. todo, quer como parte. Como todo, enquanto no
Ao SECUNOUM dicendum quod universale ma­ mais universal não somente se encontra em po­
gis commune comparatur ad minus commune ut tência o menos universal, mas também outras
totum et ut pars. Ut totum quidem, secundum coisas. Por exemplo: no animal, se encontra não
quod in magis universali non solum continetur in somente o homem, mas também o cavalo. Como
potentia minus universale, sed etiam alia; ut sub parte, enquanto na razão do menos universal está
anima/i non solum homo, sed etiam equus . Ut contido o mais universal , mas também outras
pars autem, secundum quod minus commune coisas. Por exemplo, o homem contém não so­
continet in sui ratione non solum magis commu­ mente animal , mas também racional . Em conclu­
ne, sed etiam alia; ut homo non solum animal, são, o animal, considerado em si, é conhecido
sed etiam rationale. Sic igitur animal considera­ por nós antes do homem; mas conhecemos o ho­
tum in se, prius est in nostra cognitione quam mem antes de sabermos que o animal é uma parte
homo; sed homo est prius in nostra cognitione de sua definição.
quam quod animal sit pars rationis eius. QuANTO AO 3°, deve-se dizer que a parte pode
Ao TERTIUM dicendum quod pars aliqua dupli­ ser conhecida de duas maneiras. Primeiro, absolu­
citer potest cognosci. Uno modo absolute, secun­ tamente, enquanto existe em si mesma; assim, nada
dum quod in se est: et sic nihil prohibet prius impede que se conheçam as partes antes do todo.
cognoscere partes quam totum, ut lapides quam Por exemplo, as pedras antes da casa. Segundo,
domum. Alio modo, secundum quod sunt partes enquanto pertence a esse todo; assim é necessário
huius totius: et sic necesse est quod prius cognos­ conhecer o todo antes das partes. Por exemplo,
camus totum quam partes; prius enim cognosci­ conhecemos a casa com um conhecimento confu­
mus domum quadam confusa cognitione, quam so antes de distinguir suas partes uma a uma. Igual­
distinguamus singulas partes eius. Sic igitur di­ mente, os elementos da definição considerados
cendum est quod definientia, absolute considera­ em si mesmos são conhecidos antes da coisa a
ta, sunt prius nota quam definitum : alioquin non definir; no caso contrário, o definido não seria
notificaretur definitum per ea. Sed secundum quod conhecido por eles. Todavia, enquanto partes da
sunt partes definitionis, sic sunt posterius nota: definição, são conhecidos depois da realidade a
prius enim cognoscimus hominem quadam con­ definir. Conhecemos primeiramente o homem com
fusa cognitione, quam sciamus distinguere omnia o conhecimento confuso, antes de saber distinguir
quae sunt de hominis ratione� tudo o que pertence à razão de homem.
Ao QUARTUM dicendum quod universale, se­ QuANTO AO 4°, deve-se dizer que o universal,
cundum quod accipitur cum intentione universa­ enquanto implica a relação de universalidade, é
litatis est quidem quodammodo principium cog­ certo princípio de conhecimento, pelo fato de a
noscendi, prout intentio universalitatis consequi­ relação de universalidade ser conseqüente ao modo
tur modum intelligendi qui est per abstractionem . de conhecimento por abstração. Mas não é neces­
Non autem est necesse quod omne quod est prin­ sário que todo o princípio de conhecimento seja
cipium cognoscendi, sit principium essendi, ut um princípio do ser, como pensava Platão, pois
Plato existimavit8: cum quandoque cognoscamus acontece-nos conhecer a causa pelo efeito, e a
causam per effectum, et substantiam per acciden­ substância pelos acidentes. Por isso, o universal,
tia. Unde universale sic acceptum, secundum sen­ tomado nesse sentido, não é para Aristóteles nem
tentiam Aristotelis, non est principium essendi, um princípio de existir, nem uma substância, como
neque substantia, ut patet in VII Metaphys. 9. - está no livro VII da Metafísica. - Entretanto, se

8. Cfr. loc. cit.


9. C. 1 3 : 1 038, b, 8- 1 6.

533
QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 4

Si autem consideremus ipsam naturam generis et consideramos a natureza genérica e a específica,


speciei prout est in singularibus, sic quodammo­ tal como existem nas coisas singulares, elas têm
do habet rationem principii formalis respectu de certa forma a razão de princípio formal com
singularium : nam singulare est propter materiam relação a estas coisas, pois o singular é tal por
ratio autem speciei sumitur ex forma. Sed natura causa da matéria, enquanto a razão específica vem
generis comparatur ad naturam speciei magis per da forma. Todavia, comparada com a natureza es­
modum materialis principii : quia natura generis pecífica, a genérica é antes um princípio material;
sumitur ab eo quod est materiale in re, ratio vero determina-se, com efeito, a natureza ·genérica pelo
speciei ab eo quod est formale; sicut ratio anima­ que é material na coisa, e a específica, pelo que é
lis a sensitivo, ratio vero hominis ab intellectivo. formal . Por exemplo, o gênero animal pela parte
Et inde est quod ultima naturae intentio est ad sensível ; a espécie homem, pela parte intelectiva.
Por conseguinte, a relação última da natureza é a
speciem, non autem ad individuum, neque ad
espécie, e não o indivíduo, nem o gênero, porque
genus : quia forma est finis generationis, materia
a forma é o fim da geração, enquanto a matéria é
vero est propter formam. Non autem oportet quod
para a forma. Mas não é necessário que o conhe­
cuiuslibet causae vel principii cognitio sit poste­
cimento de toda causa e de todo princípio seja
rior quoad nos: cum quandoque cognoscamus per posterior em relação a nós. Algumas vezes conhe­
causas sensibiles, effectus ignotos ; quandoque cemos os efeitos ocultos com ajuda de causas
autem e converso. sensíveis, e por vezes procedemos inversamente.

ARTICULUS 4 ARTIGO 4
Utrum possimus multa simul intelligere Podemos conhecer
Ao QUARTUM SIC PROCEDITUR. Videtur quod pos­ muitas coisas ao mesmo tempo?
simus multa simul intelligere. QuANTO AO QUARTO, ASSIM SE PROCEDE: parece que
1 . Intellectus enim est supra tempus. Sed prius podemos conhecer muitas coisas ao mesmo tempo.
et posterius ad tempus pertinent. Ergo intellectus 1 . Com efeito, o intelecto está acima do tem­
non intelligit diversa secundum prius et poste­ po. Ora, antes e depois pertencem ao tempo. Logo,
rius, sed simul. o intelecto não conhece diversas coisas enquanto
2 . PRAETEREA, nihil prohibet diversas formas antes e depois, mas ao mesmo tempo.
non oppositas simul eidem actu inesse, sicut ado­ 2. ALÉM msso, diversas formas, que não são con­
rem et colorem pomo. Sed species intelligibiles trárias, podem coexistir em ato numa mesma coi­
non sunt oppositae. Ergo nihil prohibet intellec­ sa; por exemplo, o odor e a cor numa maçã. Ora,
tum unum simul fieri in actu secundum diversas as espécies inteligíveis não são contrárias. Logo,
species intelligibiles. Et sic potest multa simul um mesmo intelecto pode passar ao ato simulta­
intelligere. neamente por diversas espécies inteligíveis. Assim,
3. PRAETEREA, intellectus simul intelligit ali­ pode conhecer muitas coisas ao mesmo tempo.
3. ADEMAIS, o intelecto conhece ao mesmo tem­
quod totum, ut hominem vel domum . Sed in
po um todo; por exemplo, o homem ou a casa. Ora,
quolibet toto continentur multae partes. Ergo in­
em qualquer todo estão contidas muitas partes. Logo,
tellectus simul multa intelligit.
o intelecto conhece ao mesmo tempo muitas coisas.
4. PRAETEREA, non potest cognosci differentia 4. ADEMAIS, não se podem conhecer as diferen­
unius ad alterum, nisi simul utrumque appre­ ças entre as coisas, a não ser que elas sejam
hendatur, ut dicitur in libro de Anima1 : et eadem apreendidas simultaneamente, como se diz no
ratio est de quacumque alia comparatione. Sed livro da Alma. E isso é verdade de qualquer outra
intellectus noster cognoscit differentiam et com­ comparação. Ora, nosso intelecto conhece as di­
parationem unius ad alterum. Ergo cognoscit ferenças e as relações entre as coisas. Logo, co­
multa simul . nhece muitas coisas ao mesmo tempo.

4 PARALL. : Supra, q. 1 2, a. l O; q. 58, a. 2; li Sent., dist. 3, q. 3, a. 4 ; III, dist. 1 4, a. 2, q.la 4; Cont. Gent. I, 55; De Verit.,
q. 8, a. 14: Q. de Anima, a. 1 8, ad 5; Quodlib. VII, q. I , a. 2.
I . L. III, c. 2: 426, b, 23-29.

534
QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 4

SED CONTRA est quod dicitur in libro Topie. 2, EM SENTIDO CONTRÁRIO, segundo uma passagem
quod intelligere est unum solum, scire vero multa. do livro dos Tópicos, "temos conhecimento de
RESPONDEO dicendum quod intellectus quidem uma só coisa, mas ciência de muitas"
potest multa intelligere per modum unius, non RESPONDO. O intelecto pode conhecer muitas
autem multa per modum multorum: dico autem coisas como se fossem uma unidade, mas não
per modum unius vel multorum, per unam vel muitas coisas como uma pluralidade. Quando digo
plures species intelligibiles . Nam modus cuius­ como uma unidade, como uma pluralidade, quero
dizer: por meio de uma ou várias espécies inteli­
que actionis consequitur formam quae est actio­
gíveis. Pois, o modo de uma ação segue a forma
nis principium. Quaecumque ergo intellectus po­
que é princípio de tal ação. Portanto, tudo o que
test intelligere sub una specie, simul intelligere
o intelecto pode conhecer por meio de uma só
potest: et inde est quod Deus omnia simul vi­
espécie, ele o conhece simultaneamente. Assim,
det, quia omnia videt per unum, quod est essen­ Deus vê tudo ao mesmo tempo, porque vê tudo
tia sua. Quaecumque vero intellectus per diver­ por uma só coisa, que é sua essência. Mas tudo o
sas species intelligit, non simul intelligit. Et que o intelecto conhece por meio de várias espé­
huius ratio est, quia impossibile est idem sub­ cies, ele não conhece ao mesmo tempo. A razão
iectum perfici simul pluribus formis unius ge­ disso é que um mesmo sujeito não pode ser si­
neri s et diversarum specierum: sicut impossibi­ multaneamente determinado por várias formas de
le est quod idem corpus secundum idem simul gênero idêntico e de espécies diversas. Por exem­
coloretur diversis coloribus, vel figuretur diver­ plo, é impossível que um mesmo corpo seja, sob
sis figuris . Omnes autem species intelligibiles o mesmo ponto de vista e ao mesmo tempo, co­
sunt unius generis, quia sunt perfectiones unius lorido de diversas cores, ou informado por di­
intellectivae potentiae ; licet res quarum sunt versas figuras. Todas as espécies inteligíveis são
species, sint diversorum generum. Impossibile de um mesmo gênero, porque são perfeições de
est ergo quod idem intellectus simul perficiatur uma só potência intelectiva, embora as coisas de
diversis speciebus intelligibilibus, ad intelligen­ que são espécies pertençam a gêneros diferentes.
dum diversa in actu . Não é, pois, possível que o mesmo intelecto sej a
Ao PRIMUM ergo dicendum quod intellectus est determinado a u m s ó tempo por várias espécies
supra tempus quod est numerus motus corpora­ inteligíveis, para conhecer em ato diversas coisasg.
QuANTO AO 1 °, portanto, deve-se dizer que o
lium rerum. Sed ipsa pluralitas specierum intelli­
intelecto está acima do tempo, que se entende como
gibilium causat vicissitudinem quandam intel­
o número do movimento das coisas corporais. Mas
ligibilium operationum, secundum quam una ope­
a pluralidade das espécies inteligíveis causa certa
ratio est prior altera. Et bane vicissitudinem Au­
sucessão das operações intelectuais, enquanto tal
gustinus nominat tempus, cum dicit, VIII super operação é anterior a uma outra. E essa sucessão,
Gen. ad litt. 3, quod Deus movet creaturam spiri­ Agostinho a chama tempo, quando diz que "Deus
tualem per tempus. move através do tempo a criatura espiritual" h.
Ao SECUNDUM dicendum, quod non solum QuANTO AO 2°, deve-se dizer que formas contrá­
oppositae formae non possunt esse simul in eo­ rias não somente não podem estar simultaneamente
dem subiecto, sed nec quaecumque formae eius­ em um mesmo sujeito, mas nem sequer as formas de
dem generis, licet non sint oppositae : sicut patet um mesmo gênero, embora não sejam opostas entre
per exemplum inductum4 de coloribus et figuris. si. Vemo-lo no exemplo dado das cores e das figuras.

2. L. 1 1 , c. 1 0: 1 1 4, b, 34-35.
3 . Cc. 20, 22: ML 34, 388, 389.
4. In corp.

g. Só se pode abarcar em um único ato de pensamento aquilo que se pode representar em um só conceito. Daí a sucessão
e a multiplicidade de atos da vida intelectual, daí a carência e a necessidade das grandes idéias sintéticas para completar o
conhecimento.
h. A inteligência humana, na medida em que está ligada às imagens e também aos processos físicos e biológicos, depende
do tempo. Em si mesma, ela lhe escapa, exceto na medida em que seus atos são necessariamente múltiplos e sucessivos, por
serem imperfeitos e parciais. Mas é então de um outro tempo que se trata: um ato de pensamento por si mesmo não se escoa,
mas atinge o necessário, o eterno.

535
QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 5

Ao TERTIUM dicendum quod partes possunt in­ QuANTO AO 3°, deve-se dizer que as partes po­
telligi dupliciter. Uno modo, sub quadam confu­ dem ser conhecidas de duas maneiras. Primeiro,
sione, prout sunt in toto: et sic cognoscuntur per com certa confusão, enquanto as partes estão no
unam formam totius, et sic simul cognoscuntur. todo; nesse caso, são conhecidas pela única for­
Alio modo, cognitione distincta, secundum quod ma do todo, e conhecidas simultaneamente. Se­
quaelibet cognoscitur per suam speciem: et sic gundo, com um conhecimento distinto, enquanto
non simul intelliguntur. cada uma delas é conhecida por sua espécie; nesse
Ao QUARTUM dicendum quod quando intellec­ caso, não são conhecidas simultaneamente.
tus intelligit differentiam vel comparationem unius QuANTO AO 4°, deve-se dizer que quando o in­
ad alterum, cognoscit utrumque differentium vel telecto conhece a diferença ou a relação de uma
comparatorum sub ratione ipsius comparationis coisa a outra, ele conhece essas coisas sob a razão
vel differentiae; sicut dictum est5 quod cognoscit mesma da comparação ou da diferença; do modo,
partes sub ratione totius. como foi dito, que conhece as partes no todo.

ARTIGO S
ARTICULUS S

Utrum intellectus noster Nosso intelecto


conhece compondo e dividindo? ;
intelligat componendo et dividendo
QUANTO A O QUINTO, ASSIM S E PROCEDE: parece
Ao QUINTUM SIC PROCEDITUR. Videtur quod in­
que nosso intelecto não conhece compondo e
tellectus noster non intelligat componendo et
dividindo.
dividendo.
1 . Com efeito, composição e divisão só exis­
1 . Compositio enim et divisio non est nisi
tem com muitas coisas . Ora, o intelecto não pode
multorum. Sed intellectus non potest simul multa
conhecer simultaneamente muitas coisas. Logo,
intelligere. Ergo non potest intelligere componen­
não pode conhecer compondo e dividindo.
do et dividendo. 2. ALÉM msso, toda composição ou divisão im­
2. PRAETEREA, omni compositioni et divisioni plica o tempo, presente, passado ou futuro. Ora,
adiungitur tempus praesens, praeteritum vel futu­ o intelecto abstrai do tempo, como de todas as
rum. Sed intellectus abstrahit a tempore, sicut etiam outras condições particulares. Logo, o intelecto
ab aliis particularibus conditionibus. Ergo intellec­ não conhece por composição e divisão.
tus non intelligit componendo et dividendo. 3. ADEMAIS, o intelecto conhece assimilando­
3. PRAETEREA, intellectus intelligit per assimi­ se às coisas. Ora, composição e divisão não exis­
lationem ad res. Sed compositio et divisio nihil tem nas coisas. Cada coisa, com efeito, expressa
est in rebus: nihil enim invenitur in rebus nisi res pelo predicado e pelo sujeito, é única e a mesma,
quae significatur per praedicatum et subiectum, se a composição é verdadeira. Assim, o homem é
quae est una et eadem si compositio est vera; verdadeiramente esse ser que é animal . Logo, o
homo enim est vere id quod est animal . Ergo intelecto não compõe nem divide.
intellectus non componit et dividit. EM SENTIDO CONTRÁRIO, as palavras exprimem
SEo CONTRA, voces significant conceptiones in­ os conceitos do intelecto, diz o Filósofo no livro I
tellectus, ut dicit Philosophus in I Perihenn. 1 • Sed Da interpretação. Mas nas palavras, há composi­
in vocibus est compositio et divisio; ut patet in ção e divisão, como vemos nas proposições afir­
propositionibus affirmativis et negativis. Ergo in­ mativas e negativas. Portanto, o intelecto compõe
tellectus componit et dividit. e divide.

5 . In resp. ad 3.
5 PARALL.: Supra, q. 58, a. 4.
I. C. I : 1 6, a, 3-4.

i. Compor e dividir é reunir entre eles ou, pelo contrário, separar e opor elementos, separada ou sucessivamente conhecidos.
Em outros termos, é julgar, raciocinar, analisar, sintetizar. O pensamento simultaneamente perfeito e completo apreenderá com
um só olhar a totalidade de seu objeto e de seus elementos. O pensamento humano, que se elabora de maneira progressiva,
atinge a verdade por intermédio de uma multiplicidade ordenada e diferenciada de atos. Ter de julgar e raciocinar para alcançar
a verdade é a fraqueza do espírito humano. Poder fazê-lo é sua grandeza.

536
QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 5

RESPONOEO dicendum quod intellectus huma­ REsPONDO. É necessário que o intelecto huma­
nus necesse habet intelligere componendo et di­ no conheça por composição e divisão. Passando
videndo. Cum enim intellectus humanus exeat da potência ao ato, ele se assemelha às coisas
de potentia in actum, similitudinem quandam passíveis de geração, que não têm imediatamente
habet cum rebus generabilibus, quae non statim toda a sua perfeição, mas a adquirem gradual­
perfectionem suam habent, sed eam successive mente. Igualmente, o intelecto humano não ob­
acquirunt. Et similiter intellectus humanus non tém desde a primeira apreensão o conhecimento
statim in prima apprehensione capit perfectam perfeito de uma coisa; mas conhece primeiramen­
rei cognitionem ; sed primo apprehendit aliquid te algo dela, por exemplo, sua qüididade, que é o
de ipsa, puta quidditatem ipsius rei , quae est objeto primeiro e próprio do intelecto; depois
primum et proprium obiectum intellectus ; et conhece as propriedades, os acidentes, os modos
deinde intelligit proprietates et accidentia et ha­ de ser, que têm relação com a essência da coisa.
bitudines circumstantes rei essentiam. Et secun­ Desse modo, deve compor os elementos apreen­
dum hoc , necesse habet unum apprehensum ali i didos ou dividi-los, e em seguida passar de uma
componere v e l dividere ; e t ex u n a compositio­ composição ou divisão a outra, o que é raciocinar.
ne vel divisione ad aliam procedere, quod est O intelecto angélico e o intelecto divino são
ratiocinari . como as coisas incorruptíveis, que desde o prin­
Intellectus autem angelicus et divinus se ha­ cípio têm toda a sua perfeição. Por isso têm ime­
bet sicut res incorruptibiles, quae statim a prin­ diatamente o conhecimento total de uma coisa.
cipio habent suam totam perfectionem. Unde in­ Conhecendo a qüididade da coisa, conhecem, ao
tellectus angelicus et divinus statim perfecte to­ mesmo tempo, tudo quanto podemos conhecer
acerca da coisa compondo, dividindo e racioci­
tam rei cognitionem habet. Unde in cognoscendo
nando. - Portanto, o intelecto humano conhece
quidditatem rei, cognoscit de re simul quidquid
por meio dessas operações. Os intelectos divino
nos cognoscere possumus componendo et divi­
e angélico conhecem essas operações, mas não
dendo et ratiocinando. - Et ideo intellectus hu­
compondo, dividindo e raciocinando, e sim pela
manus cognoscit componendo et dividendo, si­
intelecção da simples qüididade.
cut et ratiocinando. Intellectus autem divinus et
QuANTO AO 1 °, portanto, deve-se dizer que a
angelicus cognoscunt quidem compositionem et
composição e a divisão do intelecto implicam certa
divi sionem et ratiocinationem, non componendo
diferença ou uma relação. Portanto, o intelecto
et dividendo et ratiocinando, sed per intellectum
conhece várias coisas compondo e dividindo,
simplicis quidditatis. como quando conhece as diferenças e as relações
Ao PRIMUM ergo dicendum quod compositio entre as coisas .
et divisio intellectus secundum quandam diffe­ QuANTO AO 2°, deve-se dizer que o intelecto
rentiam vel comparationem fit. Unde sic intel­ abstrai das representações imaginárias e no en­
lectus cognoscit multa componendo et dividen­ tanto, não conhece em ato senão voltando-se às
do, sicut cognoscendo differentiam vel compa­ representações imaginárias, como já foi tratado.
rationem rerum. Por causa disso, o ato de compor e dividir acon­
Ao SECUNOUM dicendum quod intellectus et tece no tempo.
abstrahit a phantasmatibus; et tamen non intelli­ QuANTO AO 3°, deve-se dizer que a semelhança
git actu nisi convertendo se ad phantasmata, sicut da coisa é recebida no intelecto à maneira de ser
supra2 dictum est. Et ex ea parte qua se ad phan­ do intelecto, e não à maneira de ser da coisa. Al­
tasmata convertit, compositioni et divisioni intel­ guma coisa da parte da coisa corresponde, certa­
Iectus adiungitur tempus. mente, ao juízo afirmativo ou negativo do intelec­
Ao TERTIUM dicendum quod similitudo rei re­ to, mas isso não se encontra da mesma maneira na
cipitur in intellectu secundum modum intellec­ coisa como no intelecto. O objeto próprio do in­
tus, et non secundum modum rei . Unde compo­ telecto é a qüididade da coisa material que é per­
sitioni et divisioni intellectus respondet quidem cebida também pelo sentido e pela imaginação.
al iquid ex parte rei ; tamen non eodem modo se Assim, há dois modos de composição na coisa
habet in re, sicut in intellectu . Intellectus enim material . Primeiro, o da forma com a matéria: a

2. A. 1, et q. 84, a. 7.

537
QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 6

humani proprium obiectum est quidditas rei ma­ isso corresponde no intelecto a compos1çao se­
terialis, quae sub sensu et imaginatione cadit. gundo a qual um todo universal é atribuído à sua
Invenitur autem duplex compositio in re mate­ parte. O gênero, com efeito, se toma da matéria
riali. Prima quidem, formae ad materiam: et huic comum; a diferença específica, da forma; o parti­
respondet compositio intellectus qua totum uni­ cular, porém, da matéria individual. O segundo
versale de sua parte praedicatur; nam genus su­ modo de composição é o do acidente com a subs­
mitur a materia communi , differentia vero com­ tância: a essa composição nas coisas corresponde
pletiva speciei a forma, particulare vero a mate­ no intelecto a atribuição de acidente ao sujeito.
ria individuali. Secunda vero compositio est acci­ Por exemplo, o homem é branco. Todavia, a-

dentis ad subiectum: et huic reali compositioni composição do intelecto difere da composição da


respondet compositio intellectus secundum quam coisa, pois as coisas são compostas de elementos
praedicatur accidens de subiecto, ut cum dicitur, diversos, enquanto a composição do intelecto é
homo est albus. Tamen differt compositio in­
- sinal de identidade dos elementos que se com­
tellectus a compositione rei : nam ea quae compo­ põem. O intelecto, com efeito, não compõe de tal
nuntur in re, sunt diversa; compositio autem in­ forma que afirme: "o homem é a brancura", mas
tellectus est signum identitati s eorum quae com­ diz: "o homem é branco", isto é, o que possui a
ponuntur. Non enim intellectus sic componit, ut brancura, pois, aquele que é o homem e o que
dicat quod homo est albedo; sed dicit quod homo possui a brancura é um mesmo sujeito. Igualmen­
est albus, idest habens albedinem : idem autem te, no caso da composição da matéria com a for­
est subiecto quod est homo, et quod est habens ma: animal designa o que tem a natureza sensível;
albedinem. Et simile est de compositione formae racional, o que tem a natureza intelectiva; homem,
et materiae: nam animal significat id quod habet o que tem uma e outra; Sócrates, o que tem tudo
naturam sensitivam, rationale vero quod habet na­ isso em uma matéria individual. É segundo essa
turam intellectivam, homo vero quod habet utrum­ razão de identidade que o nosso intelecto compõe
que, Socrates vero quod habet omnia haec cum um termo com o outro, pelo ato de atribuiçãoi.
materia individuali; et secundum hanc identitatis
rationem, intellectus noster unum componit alte­ ARTIG0 6
ri praedicando. O intelecto pode errar?

ARTICULUS 6 QUANTO AO SEXTO, ASSIM SE PROCEDE: parece que


o intelecto pode errar.
Utrum intellectus possit esse falsos 1 . Com efeito, diz o Filósofo no livro VI da
Ao SEXTUM SIC PROCEDITUR. Videtur quod intel­ Metafísica que "o verdadeiro e o falso estão na
lectus possit esse falsus. mente" Ora, a mente e o intelecto são a mesma
1 . Dicit enim Philosophus, in VI Metaphys. 1 , coisa, como acima foi afirmado. Logo, a falsida­
quod verum e t falsum sunt in mente. Mens autem de está no intelecto.
et intellectus idem sunt, ut supra2 dictum est. Ergo 2. ALÉM msso, a opinião e o raciocínio são
falsitas est in intellectu. atos do intelecto. Ora, encontramos o erro em
2. PRAETEREA, opinio et ratiocinatio ad intellec­ uma e em outro. Logo, também no intelecto.
tum pertinent. Sed in utraque istarum invenitur 3. ADEMAIS, o pecado está no intelecto. Ora, o
falsitas. Ergo posset esse falsitas in intellectu . pecado implica erro. "Enganam-se aqueles que
3. PRAETEREA, peccatum in parte intellectiva fazem o mal", diz o livro dos Provérbios. Logo,
est. Sed peccatum cum falsitate est: errant enim pode haver erro no intelecto.

6 PARALL. : Supra, q. 1 7 , a. 3; q. 58, a. 5; I Sent., dist. 19, q 5 , a. I . ad 7; Cont. Gent. I. 59; III. 1 08 ; De Verit., q. I , a. 1 2 ;
I Perihenn., lect. 3 ; III d e Anima, lect. 1 1 ; VI Metaphy5 Iect. 4; I X , Iect. 9 .
I . c. 4: 1 027, b, 25-29.
2. Q. 79.

j. O realismo não impede de perceber que a realidade não está inteiramente no espírito assim como está nas coisas. O
espírito só pode pensar a realidade mediante seres de razão que só possuem realidade nele. Contudo, há uma correspondência
entre esses seres de razão e o ser real. A distinção entre gênero e espécie corresponde à distinção entre matéria e forma. A
distinção real entre substância e acidente dá lugar à atribuição pelo espírito de predicados ao sujeito.

538
QUESTÃO 85 : . O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 6

qui operantur malum, ut dicitur Prov 1 4,22. Ergo E M SENTIDO CONTRÁRIO, "Aquele que erra, diz
falsitas potest esse in intellectu. Agostinho, não conhece aquilo em que está er­
SED CONTRA est quod dicit Augustinus, in libro rando" E o Filósofo diz: "O intelecto é sempre
Octoginta trium Quaest. 3, quod omnis qui falli­ verdadeiro"
tur, id in quo fallitur non intelligit. Et Philoso­ REsPONDO. O Filósofo, no l ivro III da Alma,
phus dicit, in libro de Anima\ quod intellectus faz, a esse respeito, uma comparação entre o in­
telecto e os sentidos. Os sentidos não se enganam
semper est rectus.
a respeito de seu objeto próprio, assim a vista em
REsPONDEO dicendum quod Philosophus, in Til
relação à cor, a não ser talvez por acidente, em
de Anima5, comparat, quantum ad hoc, intellec­ razão de um impedimento proveniente do órgão.
tum sensui. Sensus enim circa proprium obiec­ Por exemplo, o gosto dos que têm febre acha
tum non decipitur, sicut visus circa colorem; nisi amargas as coisas doces, porque a língua está
forte per accideps, ex impedimento circa orga­ carregada de maus humores. Os sentidos, porém,
num contingente, sicut cum gustus febrientium se enganam sobre os sensíveis comuns, por exem­
dulcia iudicat amara, propter hoc quod l ingua plo, quando apreciam tamanho e figura. Assim,
malis humoribus est repleta. Circa sensibilia vero j ulgam que o sol não tem senão um pé de diâme­
communia decipitur sensus, sicut in diiudicando tro, quando é maior do que a Terra. Os sentidos
de magnitudine vel figura; ut cum iudicat solem se enganam ainda mais facilmente em relação aos
esse pedalem, qui tamen est maior terra. Et multo sensíveis conhecidos indiretamente; quando julga
magis decipitur circa sensibilia per accidens ; ut que o fel é mel, por causa da semelhança da cor.
cum iudicat fel esse mel, propter coloris similitu­ - A razão dessa retidão dos sentidos é clara.
dinem. - Et huius ratio est in evidenti . Quia ad Toda potência, enquanto tal, está por si ordenada
a seu objeto próprio. As coisas que são dessa na­
proprium obiectum unaquaeque potentia per se
tureza se comportam sempre da mesma maneira.
ordinatur, secundum quod ipsa. Quae autem sunt
Assim, enquanto a potência permanece, não erra
huiusmodi, semper eodem modo se habent. Unde
seu j ulgamento com relação ao objeto próprio.
manente potentia, non deficit eius iudicium circa O objeto próprio do intelecto é a qüididade.
proprium obiectum. Por isso, falando de maneira absoluta, o intelecto
Obiectum autem proprium intellectus est quid­ não erra sobre a qüididade da coisa. Mas o inte­
ditas rei. Unde circa quidditatem rei, per se lo­ lecto pode enganar-se sobre os elementos que têm
quendo, intellectus non fallitur. Sed circa ea quae relação com a essência ou qüididade, quando ele
circumstant rei essentiam vel quidditatem, intel­ ordena um elemento para o outro, por composi­
lectus potest falli, dum unum ordinat ad aliud, ção, divisão ou mesmo raciocínio. Por isso, o
vel componendo vel dividendo vel etiam ratioci­ intelecto tampouco pode se enganar sobre as pro­
nando. Et propter hoc etiam circa illas proposi­ posições, que são imediatamente compreendidas
tiones errare non potest, quae statim cognoscun­ desde que se compreende a qüididade dos ter­
tur cognita terminorum quidditate, sicut accidit mos, como acontece com os primeiros princípios.
circa prima principia: ex quibus etiam accidit in­ São eles que asseguram a verdade das conclu­
fallibilitas veritatis, secundum certitudinem scien­ sões, no que se refere à certeza da ciência.
Pode, entretanto, o intelecto se enganar aci­
tiae, circa conclusiones. - Per accidens tamen
dentalmente sobre a qüididade nas coisas com­
contingit intellectum decipi circa quod quid est
postas. Isso não se deve a um órgão, pois o inte­
in rebus compositis; non ex parte organi, quia
lecto não é uma faculdade que usa um órgão,
intellectus non est virtus utens organo; sed ex mas à composição que é requerida para uma
parte compositionis intervenientis circa definitio­ definição; ou porque a definição de uma coisa é
nem, dum vel definitio unius rei est falsa de alia, falsa a respeito da outra, por exemplo, a defini­
sicut definitio circuli de triangulo, vel dum aliqua ção do círculo aplicada ao triângulo; ou porque
definitio in seipsa et falsa, implicans compositio­ uma definição é em si mesma falsa, implicando
nem impossibilium, ut si accipiatur hoc ut defini- uma composição impossível, por exemplo, se se

3 . Q. 32: ML 40, 22.


4. C. 10: 433, a, 26-3 1 .
5 . c . 6 : 430, b , 26-3 1 .

539
QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 7

tio alicuius rei, animal rationale alatum. Unde in toma como definição de uma coisa: animal ra­
rebus simplicibus, in quarum definitionibus com­ cional alado. Por conseguinte, não podemos nos
positio intervenire non potest, non possumus enganar quando se trata de coisas simples, em
decipi ; sed deficimus in totaliter non attingendo, cuja definição não pode haver composição, mas
nos enganamos não as apreendendo totalmentek,
sicut dicitur in IX Metaphys. 6.
como diz o livro IX da Metafísica.
Ao PRIMUM ergo dicendum quod falsitatem
QuANTO AO I 0, portanto, deve-se dizer que o
dicit esse Philosophus in mente secundum com­ Filósofo diz que o falso está na mente que com­
positionem et divisionem . Et similiter dicendum põe e divide.
est AD SECUNDUM, de opinione et ratiocinatione. QuANTO AO 2°, o mesmo se responde à objeção
Et AD TERTIUM, de errore peccantium, qui consis­ da opinião e do raciocínio.
tit in applicatione ad appetibile. - Sed in abso­ QuANTO AO 3°, e igualmente, quanto ao erro
luta consideratione quidditatis rei , et eorum quae dos pecadores, que consiste em aplicar o juízo a
per eam cognoscuntur, intellectus nunquam de­ um objeto desej ável. - Mas no conhecimento
cipitur. Et sic loquuntur auctoritates in contra­ absoluto da qüididade, e de tudo o que se conhe­
ce por ela, o intelecto não se engana nunca. E é
rium inductae.
esse o sentido dos autores aduzidos em contrário.
ARTICULUS 7
ARTIGO 7
Utrum unam et eandem rem Pode alguém conhecer uma só e
unos alio melius intelligere possit mesma coisa melhor do que outro?
Ao SEPTIMUM SIC PROCEDITUR. Videtur quod unam QUANTO AO SÉTIMO, ASSIM SE PROCEDE: parece
et eandem rem unus alio melius intelligere non que alguém não pode conhecer uma só e mesma
possit. coisa melhor do que outro.
I . Com efeito, Agostinho diz: "Se alguém co­
I . Dicit enim Augustinus, in libro Octoginta
nhece uma coisa diferente do que ela é, não a
trium Quaest. 1 : Quisquis ullam rem aliter quam
conhece verdadeiramente. Não há dúvida, por­
est intelligit non eam intelligit. Quare non est
tanto, que há uma compreensão tão perfeita que
dubitandum esse perfectam intelligentiam, qua não se pode conceber outra que seja superior.
praestantior esse non possit; et ideo non per in­ Não se pode, por isso, proceder ao infinito num
finitum ire quod quaelibet res intelligitur; nec eam conhecimento de uma coisa, e não é possível que
posse alium alio plus intelligere. alguém a conheça mais que um outro "
2. PRAETEREA, intellectus intelligendo verus 2. ALÉM msso, o intelecto, em sua operação, é
est. Veritas autem, cum sit aequalitas quaedam verdadeiro. Ora, a verdade sendo certa igualdade
intellectus et rei, non recipit magis et minus: entre o intelecto e a coisa, não é suscetível de
non enim proprie dicitur aliquid magis et minus mais ou de menos. Não se pode dizer, propria­
mente, que uma coisa é mais ou menos igual a
aequale. Ergo neque magis et minus aliquid in­
uma outra. Logo, não há mais ou menos no co­
telligi dicitur.
nhecimento de uma coisa.
3. PRAETEREA, intellectus est id quod est for­ 3. ADEMAIS, o intelecto é o que há de mais
malissimum in homine. Sed differentia formae formal no homem. Ora, uma diferença de forma
causat differentiam speciei. Si igitur unus homo causa uma diferença de espécie. Logo, se um
magis alio intelligit, videtur quod non sint unius homem conhece melhor do que um outro, não
speciei . pertencerão à mesma espécie.

6. C. 1 0 : 1 05 1 , b, 23-33.
7 PARALL.: Supra. q . 1 2, a. 6, ad I; IV Sent., dist. 49, q . 2, a. 4, ad I; De Verit., q . 2, a. 2, ad 1 1 .
I . Q . 32: ML 40, 22.

k. O papel da composição no desenvolvimento do pensamento humano explica a possibilidade do erro. Uma primeira e
imediata intuição não pode enganar. No entanto, sempre que há julgamento, raciocínio e mesmo definição pode haver erro, ou
seja, discordância entre a realidade e o pensamento.

540
QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 7

SEo CONTRA est quod per experimentum inve­ EM SENTIDO CONTRÁRIO, vê-se por experiência
niuntur aliqui aliis profundius intelligentes; sicut que uns conhecem mais profundamente do que
profundius intelligit qui conclusionem aliquam outros. Assim aquele que pode ligar uma conclu­
potest reducere in prima principia et causas pri­ são aos primeiros princípios e às causas primei­
mas, quam qui potest reducere solum in causas ras conhece mais profundamente do que aquele
proximas. que a reduz somente às causas imediatas .
RESPONOEO dicendum quod aliquem intellige­ REsPONDO. Há duas maneiras de considerar este
re unam et eandem rem magis quam alium, po­ problema. Primeiro, quando "conhecer melhor" se
aplica à coisa compreendida. Nesse sentido, é
test intelligi dupliciter. Uno modo, sic quod ly
impossível que alguém conheça uma mesma coisa
magis determinet actum intelligendi ex parte rei
melhor do que um outro. Se fosse compreendida
intellectae. Et sic non potest unus eandem rem
de maneira diferente do que ela é na realidade,
magis intelligere quam alius: quia si intelligeret
quer para melhor quer para pior, haveria erro, e
eam aliter esse quam sit, vel melius vel peius,
não conhecimento, como argumenta Agostinho. -
falleretur, et non intelligeret, ut arguit Augusti­ Segundo, "conhecer melhor" se aplica àquele que
nus2. - Alio modo potest intelligi ut determinet conhece. Nesse caso, alguém pode ter um conhe­
actum intelligendi ex parte intelligentis . Et sic cimento mais perfeito de uma mesma realidade
unus alio potest eandem rem melius intelligere, do que um outro, porque tem uma melhor potên­
quia est melioris virtutis in intelligendo; sicut cia de conhecer; do mesmo modo que vê melhor
melius videt visione corporali rem aliquam qui com os olhos aquele que tem uma potência mais
est perfectioris virtuti s, et in quo virtus visiva est perfeita e em quem a vista é mais perfeita.
perfectior. Essa superioridade do intelecto depende de duas
Hoc autem circa intellectum contingit duplici­ condições. Primeiramente, do próprio intelecto que
ter. Uno quidem modo, ex parte ipsius intellec­ é mais perfeito. Pois, quanto melhor disposto é o
tus, qui est perfectior. Manifestum est enim quod corpo, tanto mais elevada a alma que lhe é atribuí­
quanto corpus est melius dispositum, tanto me­ da; o que se verifica claramente nos seres de es­
liorem sortitur animam: quod manifeste apparet pécies diversas. A razão disso é que o ato e a
in his quae sunt secundum speciem diversa. Cuius forma são recebidos na matéria segundo a aptidão
ratio est, quia actus et forma recipitur in materia desta. E porque, mesmo entre os homens, há al­
secundum materiae capacitatem. Unde cum etiam guns cujo corpo é mais bem disposto, cabe-lhes
in hominibus quidam habeant corpus melius dis­ uma alma cujo intelecto é mais vigoroso, razão
positum, sortiuntur animam maioris virtutis in in­ por que se diz no livro 11 da Alma: "Os de com­
pleição delicada têm a mente mais bem dotada".
telligendo: unde dicitur in 11 de Anima3 quod
- A segunda condição está ligada às faculdades
molles carne bene aptos mente videmus. Alio
-
inferiores das quais o intelecto tem necessidade
modo contingit hoc ex parte inferiorum virtutum,
para agir: aquelas que têm mais bem dispostas a
quibus intellectus indiget ad sui operationem: illi
imaginação, a cogitativa e a memória, são também
enim in quibus virtus imaginativa et cogitativa et as mais bem dispostas para a atividade intelectual'.
memorativa est melius disposita, sunt melius QuANTO AO 1 °, portanto, deve-se dizer que a
dispositi ad intelligendum. primeira dificuldade está resolvida pelo que se
Ao PRIMUM ergo patet solutio ex dicti s . - Et acaba de dizer.
similiter AO SECUNOUM : veritas enim intellectus IGUALMENTE QUANTO AO 2°, porque a verdade
in hoc consistit, quod intelligatur res esse sicu­ do i ntelecto consiste em que ele conhece a coisa
ti est. tal qual é .
Ao TERTIUM dicendum quod differentia formae QuANTO A O 3°, deve-se dizer que a diferença
quae non provenit nisi ex diversa dispositione de forma que não provém senão de uma disposi-

2. Loc. cit.
3. C. 9: 42 1 , a, 1 6-26.

I. A grande questão da desigualdade inata das inteligências humanas só é tratada aqui pelos princípios mais gerais e mais
essenciais: tudo reside na correspondência necessária entre o espírito e a matéria do qual ele é a forma. Observe-se que essa
desigualdade não traduz uma maior ou menor profundidade e totalidade na percepção do real.

541
QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 8

materiae, non facit diversitatem secundum spe­ ção diferente da matéria não acarreta uma dife­
ciem, sed solum secundum numerum; sunt enim rença específica, mas somente uma diversidade
diversorum individuorum diversae formae, secun­ numérica. Com efeito, a diversidade de formas
dum materiam diversificatae. dos indivíduos provém da matéria.

ARTIGO S
ARTICULUS 8
O intelecto conhece
Utrum intellectus per prius intelligat
o indivisível antes do divisível?
indivisibile quam divisibile
QUANTO AO OITAVO, ASSIM SE PROCEDE: parece
Ao OCTAVUM SIC PROCEDITUR. Videtur quod in­ que o intelecto conhece o indivisível antes do
tellectus noster per prius cognoscat indivisibile divisível.
quam divisibile. 1 . Com efeito, afirma o Filósofo no livro I da
1 . Dicit enim Philosophus, in I Physic. 1 , quod Física: "Entendemos e sabemos mediante o co­
intelligimus et scimus ex principiorum et elemen­ nhecimento dos princípios e dos elementos" Ora,
torum cognitione. Sed indivisibilia sunt principia indivisíveis são os princípios e os elementos dos
et elementa divisibilium. Ergo per prius sunt nobis divisíveis. Logo, os indivisíveis são por nós co­
nota indivisibilia quam divisibilia. nhecidos antes dos divisíveis.
2. ALÉM msso, o que entra na definição de
2. PRAETEREA, id quod ponitur in definitione
algo, nós o conhecemos em primeiro lugar, por­
alicuius, per prius cognoscitur a nobis: quia defi­
que a definição se forma do que é anterior e mais
nitio est ex prioribus et notioribus, ut dicitur in
conhecido, como diz o livro dos Tópicos. Ora, o
VI Topic.2• Sed indivisibile ponitur in definitione indivisível entra na definição do divisível . Por
divisibilis, sicut punctum in definitione lineae: exemplo, o ponto, na definição da linha: "a linha,
linea enim, ut Euclides dicit3, est longitudo sine diz Euclides, é um comprimento sem largura,
latitudine, cuius extremitates sunt duo puncta. Et cujos extremos são dois pontos" A unidade, na
unitas ponitur in definitione numeri : quia nume­ definição do número: "O número, diz o livro X
rus est multitudo mensurara per unum, ut dicitur da Metafísica, é uma multidão medida pela uni­
in X Metaphys.4• Ergo intellectus noster per prius dade" Logo, nosso intelecto conhece primeira­
intelligit indivisibile quam divisibile. mente o indivisível .
3 . PRAETEREA, simile simili cognoscitur. Sed 3 . ADEMAIS, "o semelhante é conhecido pelo
indivisibile est magis simile intellectui quam di­ semelhante" Ora, o indivisível se assemelha mais
visibile: quia intellectus est simplex, ut dicitur in ao intelecto do que o divisível, uma vez que "o
III de Anima5• Ergo intellectus noster prius cog­ intelecto é simples ", diz o livro III da Alma. Logo,
o intelecto conhece primeiramente o indivisível .
noscit indivisibile.
EM SENTIDO CONTRÁRIO, está dito no livro III da
SED CONTRA est quod dicitur in III de Anima6,
Alma, que o "indivisível é manifestado da mes­
quod indivisibile monstratur sicut privatio. Sed
ma maneira que a privação" Ora a privação é
privatio per posterius cognoscitur. Ergo et indivi­ conhecida em segundo lugar. Portanto, também
sibile. o indivisível .
RESPONDEO dicendum quod obiectum intellec­ REsPONDO. O objeto de nosso intelecto, na vida
tus nostri, secundum praesentem statum, est presente, é a qüididade da coisa material que é
quidditas rei materialis, quam a phantasmatibus abstraída das representações imaginárias, como
abstrahit, ut ex praemissis7 patet. Et quia id quod fica claro das explicações anteriores. Porque o

8 PARALL . : Supra, q. 1 1 , a. 2, ad 4; ill de Anima, lect. 1 1 .


I. C. 1 : 1 84, a, 1 0- 1 6.
2. C. 4: 1 4 1 , a, 26 - b, 2.
3. Element., I. I.
4. C. 6: 1 057, a, 1 -7.
5. Cfr. c. 4: 429, a, 1 8-24; 429, b, 22-26.
6. C. 6: 430, b, 20-26.
7. A. I et q . 84, a. 7.

542
QUESTÃO 85: O MODO E A ORDEM DE CONHECER, ARTIGO 8

est primo et per se cognitum a virtute cognosci­ que é primeira e diretamente conhecido por uma
tiva, est proprium eius obiectum, considerari potest faculdade cognoscitiva é seu objeto próprio, po­
quo ordine indivisibile intelligatur a nobis, ex eius demos considerar em que ordem conhecemos o
habitudine ad huiusmodi quidditatem . Dicitur indivisível segundo sua relação com essa qüidi­
autem indivisibile tripliciter, ut dicitur in III de dade. Ora, o indivisível se toma de três maneiras,
Anima8• Uno modo, sicut continuum est indivisi­ conforme está no livro III da Alma. Primeiro, à
bile, quia est indivisum in actu, licet sit divisibile maneira do contínuo, que não é dividido em ato,
in potentia. Et huiusmodi indivisibile prius est embora seja divisível em potência. E este indivi­
intellectum a nobis quam eius divisio, quae est in sível é conhecido por nós antes de sua divisão,
partes: quia cognitio confusa est prior quam dis­ que é a divisão em partes, pois o conhecimento
tincta, ut dictum est9• - Alio modo dicitur indi­ confuso é, como já dissemos, anterior ao conhe­
visibile secundum speciem, sicut ratio hominis cimento distinto. - Segundo, à maneira da espé­
est quoddam indivisibile. Et hoc etiam modo in­ cie, por exemplo, a razão de homem é algo indi­
divisibile est prius intellectum quam divisio eius visível . Nesse caso ainda conhecemos o indivisí­
in partes rationis, ut supra1 0 dictum est: et iterum vel antes da divisão em partes de razão, como j á
prius quam intellectus componat et dividat, affir­ foi dito; e mesmo antes que o intelecto compo­
mando vel negando. Et huius ratio est, quia huius­ nha ou divida, afirmando ou negando. A razão
modi duplex indivisibile intellectus secundum se disso é que o intelecto, enquanto tal, conhece estas
intelligit, sicut proprium obiectum. - Tertio modo duas espécies de indivisível, como seu objeto
dicitur indivisibile quod est omnino indivisibile, próprio. - Terceiro, à maneira do absolutamente
ut punctus et unitas, quae nec actu nec potentia indivisível, por exemplo, o ponto e a unidade,
dividuntur. Et huiusmodi indivisibile per poste­ que não se dividem nem em ato, nem em potên­
cia. Este indivisível é conhecido em segundo lugar,
rius cognoscitur, per privationem divisibilis. Unde
por privação do que é divisível . O ponto é assim
punctum privative definitur, punctum est cuius
definido de uma maneira privativa: "O que não
pars non est: et similiter ratio unius est quod sit
tem partes" ; igualmente, a razão de unidade é
indivisibile, ut dicitur in X Metaphys. 1 1 • Et huius
que ela é indivisível. E isso porque tal indivisível
ratio est, quia tale indivisibile habet quandam
apresenta certa oposição às coisas corporais, cuja
oppositionem ad rem corporalem, cuius quiddita­
qüididade o intelecto percebe primeiro e por si.
tem primo et per se intellectus accipit.
Se nosso intelecto conhecesse, participando
Si autem intellectus noster intelligeret per
dos indivi síveis separados, segundo a doutrina
participationem indivisibilium separatorum, ut
platônica, daí se seguiria que esses indivisíveis
Platonici posuerunt 1 2 , sequeretur quod indivisi­
seriam conhecidos por primeiro. Pois, nessa dou­
bile huiusmodi esset primo intellectu m : quia
trina, as coisas participam por primeiro das coi­
secundum Platonicos, priora prius participantur sas primeiras .
a rebus 1 3 • QuANTO AO ] 0, portanto, deve-se dizer que
A o PRIMUM ergo dicendum quod i n accipiendo quando se adquire a ciência, não se começa sem­
scientiam, non semper principia et elementa sunt pre pelos princípios e pelos elementos. Por vezes,
priora: quia quamdoque ex effectibus sensibili­ progredimos dos efeitos sensíveis para o conhe­
bus devenimus in cognitionem principiorum et cimento dos princípios e das causas inteligíveis.
causarum intel ligibi lium. Sed in complemento Mas, adquirida a ciência, a ciência dos efeitos
scientiae, semper scientia effectuum dependet ex depende sempre do conhecimento dos princípios
cognitione principiorum et elementorum: quia, ut e dos elementos. Pois, segundo a expressão do
ibidem dicit Philosophus, tunc opinamur nos scire, Filósofo no mesmo lugar, "pensamos saber quan­
cum principiata possumus in causas resolvere. do podemos reduzir os efeitos às suas causas".

8. c. 6: 430, b, 6- 1 4 .
9. A. 3 .
1 0. Ibid.
1 1 . C. 1 : 1 052, a, 34 - b, I .
1 2. Cfr. q . 84, a. I , 6.
1 3 . S. TH., De substantiis separatis, c . I .

543
QUESTÀO 86 : O QUE NOSSO INTELECTO CONHECE NAS REALIDADES MATERIAIS?, ARTIGO I

Ao SECUNDUM dicendum quod punctum non QuANTO AO 2°, deve-se dizer que não nos ser­
ponitur in definitione lineae communiter sumptae: vimos do ponto para definir uma linha qualquer,
manifestum est enim quod in linea infinita, et porque é claro que em uma linha infinita, ou
etiam in circulari, non est punctum nisi in poten­ mesmo numa linha circular, não há ponto senão
tia. Sed Euclides definit lineam finitam rectam: em potência. Mas Euclides dá a definição da linha
et ideo posuit punctum in definitione lineae, sicut reta acabada: e, por conseguinte, emprega o ponto
para definir a linha, como o limite para definir o
terminum in definitione terminati . - Unitas vero
limitado. - Quanto à unidade, é a medida do
est mensura numeri : et ideo ponitur in definitione
número, e é por isso que ela é usada para definir
numeri mensurati . Non autem ponitur in defini­
o número mensurado. Não é colocada na defini­
tione divisibilis, sed magis e converso. ção do divisível ; é antes o contrário que ocorre.
Ao TERTIUM dicendum quod similitudo per
QuANTO AO 3°, deve-se dizer que a semelhança
quam intelligimus, est species cogniti in cognos­ pela qual conhecemos é a espécie do objeto co­
cente. Et ideo non secundum similitudinem natu­ nhecido em nós. Se, portanto, algo é conhecido em
rae ad potentiam cognoscitivam est aliquid prius primeiro lugar, não é em razão de uma semelhança
cognitum, sed per convenientiam ad obiectum: de natureza com a faculdade que conhece, mas de
alioquin magis visus cognosceret auditum quam sua conformidade com o objeto; de outra sorte, a
colorem. vista conheceria melhor o som do que a cor.

QUAESTIO LXXXVI QUESTÃO 86


QUID INTELLECTUS NOSTER IN O QUE NOSSO INTELECTO CONHECE
REBUS MATERIALffiUS COGNOSCAT NAS REALIDADES MATERIAIS?
in quatuor articulos divisa em quatro artigos
Deinde considerandum est quid intellectus nos- Em seguida deve-se considerar o que nosso
ter in rebus materialibus cognoscat. intelecto conhece nas realidades materiais. Sobre
Et circa hoc quaeruntur quatuor. isso são quatro as perguntas:
Primo: utrum cognoscat singularia. 1 . Conhece os singulares?
Secundo: utrum cognoscat infinita. 2. Conhece coisas infinitas?
Tertio: utrum cognoscat contingentia. 3 . Conhece os contingentes?
Quarto: utrum cognoscat futura. 4. Conhece o futuro?

ARTIGO 1
ARTICULUS 1
Nosso intelecto
Utrum intellectus conhece os singulares?•
noster cognoscat singularia
QUANTO AO PRIMEIRO ARTIGO, ASSIM SE PROCE­
Ao PRIMUM SIC PROCEDITUR. Videtur quod intel­ DE: parece que nosso intelecto conhece os sin­
lectus noster cognoscat singularia. gulares.

PARALL.: � I Sem., dist. 3, q 3, a. 3, ad I ; IV, dist. 50, q. I , a : 3 ; Cont. . �ent . I, 65; D� Verit. , q. 2, a. 5, 6; q. 1 0, a. 5 ;
1 : .
Q. d e Amma, a . 2 0 ; Quodlrb. VII, q. 8 ; Opusc. XXIX, d e Prmcrp. Indrvrd. ; fi, de Amma, lect. 8.

a. Se o pensamento só pode atingir nas realidades materiais aquilo que ele abstrai do singular, a saber, a essência universal,
deve-se deduzir que não conhece o singular, que este pertence unicamente ao conhecimento sensível? Admitir-se-á semelhante
dicotomia, semelhante paralelismo entre o conhecimento sensível e a percepção intelectual da essência universal que nele se
realiza? Não, o pensamento conhece a essência em sua realização singular, realização que conhece de maneira indireta, por uma
espécie de reflexão sobre seu ato, como aquilo do qual a essência universal foi extraída e em virtude de uma conexão ontológica
entre o ato do "sentido" e o do espírito. Poder-se-ia afirmar também que o conhece "abstratamente" (resposta à quarta objeção)
como constituindo um singular, o sujeito de tudo o que os sentidos percebem diretamente nele, e que a inteligência atribui a
um só ser. Disso derivam os artigos seguintes a respeito do conhecimento que o espírito humano tem do infinito, das realidades
contingentes, das realidades futuras. Pressupondo-se claramente que as próprias idéias de finitude e de infinitude, de contin­
gência e de futuro pertencem somente ao espírito.

544