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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

CENTRO DE HUMANIDADES
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
PROGRAMA DE GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

LUCAS CAVALCANTE DOS SANTOS

ANÁLISE DE UMA CIDADE-ESTADO FICTICIA:


TRANSISTOR SOB O VIÉS DA FILOSOFIA SOCIAL

FORTALEZA
2019
LUCAS CAVALCANTE DOS SANTOS

ANÁLISE DE UMA CIDADE-ESTADO FICTICIA:


TRANSISTOR SOB O VIÉS DA FILOSOFIA SOCIAL

Trabalho acadêmico apresentado ao Programa


de Graduação em Ciências Sociais da
Universidade Federal do Ceará, como processo
avaliativo para disciplina de Sociologia I.
Docente: Prof. Dr. Luiz Fábio Silva Paiva.

FORTALEZA
2019
RESUMO
O presente trabalho consiste em examinar Transistor, jogo publicado em 2014 pela
desenvolvedora SuperGiant Games, sob viés da Filosofia Social para tratar de questões
relativas à essência e o significado da sociedade ficcional, considerando sua performática
trajetória e nuances, bem como as relações entre os integrantes, as funções e as estruturas de
convivência, com base na investigação do meio social interno. Esta análise ensaística conduz
à compreensão da existência e da interdependência de cada segmento orgânico presente no
universo do jogo, similar a um corpo orgânico, por meio de suas respectivas funções para,
então, apresentar os fatos sociais em conjuntura da complexidade da vida social em dada
fictícia sociedade. Usando-se da metodologia durkheimiana, é adaptado distintas áreas do
conhecimento, como a Psicologia e a Sociologia, para a análise das estruturas funcionais que
compõe a obra estudada para além do nível macrossociológico, bem como identificar os fatos
sociais presentes no universo do jogo, sendo o suicídio e a participação cívica.
Palavras-chave: Jogo; Transistor; Estrutura-funcional; Filosofia Social.
ABSTRACT
The present work consists of examining Transistor, a game published in 2014 by the developer
SuperGiant Games, under the bias of Social Philosophy to deal with issues related to the essence
and meaning of the fictional society, considering its performative trajectory and nuances, as
well as the relations among the members , the functions and structures of coexistence, based on
the investigation of the internal social environment. This essay analysis leads to an
understanding of the existence and interdependence of each organic segment present in the
game universe, similar to an organic body, through its respective functions, in order to present
the social facts at the juncture of the complexity of social life in given fictitious society. Using
the Durkheimian methodology, different areas of knowledge, such as Psychology and
Sociology, are adapted to analyze the functional structures that compose the work studied
beyond the macrosociological level, as well as to identify the social facts present in the universe
of the game, such as suicide and civic participation.
Keyword: Game. Transistor. Sociology. Social Philosophy.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 5

2 DESENVOLVIMENTO........................................................................................................ 6

2.1 Cloudbank, uma Cidade Utópica .................................................................................. 6

2.2 O Conceito de Cidade e Cidadão em Transistor ......................................................... 6

2.3 A Tecnologia Futurística OVC ...................................................................................... 8

2.4 O Poder Soberano em Transistor................................................................................ 10

2.5 O Processo e sua Evolução Funcional ......................................................................... 11

2.6 O Grupo Camerata, a Solidariedade e a Anomia ...................................................... 11

2.7 Os Fatos Sociais no Jogo .............................................................................................. 12

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................. 15

REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 16

APÊNDICE – RESENHA LITERÁRIA .............................................................................. 18


5

1 INTRODUÇÃO
O presente trabalho consiste em examinar Transistor, jogo publicado em 2014 pela
desenvolvedora SuperGiant Games, sob viés da Filosofia Social para tratar de questões
relativas à essência e o significado da sociedade ficcional, considerando sua performática
trajetória e nuances, bem como as relações entre os integrantes, a comunidade e as estruturas
de convivência, conduzindo para a explicação da possibilidade de existência em dada
sociedade. Esta análise ensaística conduz à compreensão da existência e da interdependência
de cada segmento orgânico presente no universo do jogo, similar a um corpo orgânico, por
meio de suas respectivas funções para, então, apresentar os fatos sociais em conjuntura da
complexidade da vida social em dada fictícia sociedade. Usando-se da metodologia
durkheimiana, é adaptado distintas áreas do conhecimento, como a Psicologia e a Sociologia,
para a análise das estruturas funcionais que compõe a obra estudada para além do nível
macrossociológico, bem como identificar os fatos sociais presentes no universo do jogo,
sendo o suicídio e a participação cívica.
Imerso ao universo fictício de Transistor (2014), todos os elementos que compõe a
cidade-estado Cloudbank são observados como segmentos de um organismo vivo social,
essencialmente relacionados entre si e extremamente importantes para o funcionamento de
todo corpo social, sendo: os cidadãos de Cloudbank; a tecnologia futurística OVC; a
ferramenta-arma transistor; e o Processo. Tal qual são classificáveis o suicídio e a
participação cívica sob o mesmo parâmetro como fatos sociais.
Um apêndice é dedicado à resenha literária referente aos eventos característicos do
enredo a fim de contextualizar o universo, os personagens e as contingências abordadas
durante toda a obra. Utiliza-se como base a metodológica campbelliana para análise de
roteiro.
6

2 DESENVOLVIMENTO
Imerso ao universo fictício de Transistor (2014), todos os elementos que compõe a
cidade-estado Cloudbank são observados como segmentos de um organismo vivo social,
essencialmente relacionados entre si e extremamente importantes para o funcionamento de
todo corpo social, sendo: os cidadãos de Cloudbank; a tecnologia futurística OVC; a
ferramenta-arma transistor; e o Processo. Tal qual são classificáveis o suicídio e a
participação cívica sob o mesmo parâmetro como fatos sociais.
2.1 Cloudbank, uma Cidade Utópica
Utopia, palavra criada para o título do livro de Thomas Morus (2001) e que resulta da
justaposição dos termos gregos ou (prefixo de negação) e topos (lugar), significando o "não
lugar" ou "lugar que não existe", é a definição mais adequada a se tratar de uma cidade irreal e
feliz, isenta da doutrina capitalista, concomitantes com as visões de sociedade ideal do futuro,
mas de existência impossível sob a realidade, assim como explora Huberman (1981):

Há pobres por toda parte — na Utopia elimina-se a pobreza; há desperdício na


produção e distribuição de mercadorias — na Utopia, formula-se um método de
produção e distribuição 100% eficiente. Há injustiça por toda parte — na Utopia,
estabelecem-se tribunais honestos, presididos por juízes honestos (ou organizam-se
as coisas de tal modo que tribunais e juízes sejam totalmente desnecessários). Há
miséria, doença, infelicidade — na Utopia, há saúde, riqueza e felicidade para todos.
Talvez o princípio básico mais importante para todos os sonhadores de utopias fosse
a abolição do capitalismo. No sistema capitalista viam apenas males.
(HUBERMAN, História da riqueza do homem, capítulo XVIII, p.228)

Cloudbank não apresenta práticas da produção da vida material capitalista,


consequentemente, também não há desigualdades de qualquer esfera, portanto, representa-se
no plano visionário de uma sociedade planificada, dado que as propriedades dos meios de
produção são, de modo literal, sob posse da coletividade, finaliza-se “Isso era o socialismo —
e era o sonho dos utópicos” (HUBERMAN, 1987, p.229).
2.2 O Conceito de Cidade e Cidadão em Transistor
Similar a filosofia política aristotélica, a cidade Cloudbank é definida como
comunidade última, única capaz de ofertar a “boa vida”, ou seja, a vida perfeita e a felicidade,
uma vez que a cidade é a união de animais cívicos (sociais) em prol da mais elevada das
sociedades. Tais considerações são condizentes com a passagem aristotélica:

A sociedade constituída por diversos pequenos povoados forma uma cidade


completa, com todos os meios de se abastecer por si, e tendo atingido, por assim
dizer, o fim a que se propôs. Nascida principalmente da necessidade de viver, ela
subsiste para uma vida feliz. Eis por que toda cidade se integra na natureza, pois foi
a própria natureza que formou as primeiras sociedades [...]. Além disso, o fim para o
qual cada ser foi criado é de cada um bastar-se a si mesmo; ora, a condição de se
7

bastar a si próprio é o ideal de todo indivíduo, e o que de melhor pode existir para
ele. (ARISTÓTELES, Política, livro I, capítulo I, parágrafo 8).

Disto deriva duas consequências quase imediatas: a cidade existe naturalmente e o


animal cívico vive por natureza em cidades. Resulta-se tanto Cloudbank como cidade ao
passo que legitima seus habitantes como humanos, haja visto que provém de a ontologia
aristotélica considerar seus habitantes como animais sociais. Ademais, os habitantes de
Cloudbank classificados como cidadãos são somente aqueles dotados do exercício livre e
igual da autodeterminação política, condição semelhante desenvolvida por Aristóteles:

[...] cidadão é aquele que pode ser juiz e magistrado. Não existe outra definição
melhor. Alguns cargos tomam um tempo limitado, não podendo uns ser exercidos
duas vezes pela mesma pessoa, ou então somente depois de um período
determinado. Alguns existem, ao contrário, cuja duração é ilimitada, como acontece
com as funções de juiz e de membro das assembleias gerais. (ARISTÓTELES,
Política, livro III, capítulo I, parágrafo 4).

Logo, um cidadão integral pode ser definido por nada mais nem nada menos que pelo
direito de administrar justiça e exercer funções públicas.
Bem como “A República”, também pertencente ao gênero utópico, Platão reduz seres
diferentes à igualdade aritmética e aplica arbitrariamente uma proporcionalidade geométrica à
ordem social, mesmo que nesse domínio opera uma contingência que torna impossível a
aplicação estrita do raciocínio matemático, no entanto, em Cloudbank, tal problemática é
dissoluta quando considera-se a tecnologia futurística que proporciona um contingente
fictício, passível de plena coerção. Não mais que, conforme Aristóteles, o conceito de cidade
só se completa com um outro: o de lei. Esta é concebida como a norma de coexistência justa,
racionalmente perfeita. A lei é definida, na “Ética a Nicômaco”, como aquilo que pode criar e
conservar, no todo ou em parte, a felicidade da cidade:

Como vimos que o homem sem lei é injusto e o respeitador da lei é justo,
evidentemente todos os atos legítimos são, em certo sentido, atos justos; porque os
atos prescritos pela arte do legislador são legítimos, e cada um deles, dizemos nós, é
justo. Ora, nas disposições que tomam sobre todos os assuntos, as leis têm em mira a
vantagem comum, quer de todos, quer dos melhores ou daqueles que detêm o poder
ou algo nesse gênero; de modo que, em certo sentido, chamamos justos aqueles atos
que tendem a produzir e a preservar, para a sociedade política, a felicidade e os
elementos que a compõem. (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, livro V, capítulo I,
parágrafo 7).

Em concordância com a acepção de cidadão aristotélica juntamente com a tripartição


dos poderes de Montesquieu (1996), conclui-se que o sufrágio universal dos cidadãos
cloudbankianos reside apenas na esfera executiva, ou seja, nenhum outro elemento do
universo participa nas escolhas dos planos de ações que implicam na felicidade de toda a
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sociedade e nem implicam no poder público, sendo assim, devido o contingente utópico, o
cidadão de Cloudbank não detém, e nem necessita, dos outros dois poderes — legislativo e
judiciário — e está resignado às funções sistêmicas ao que se refere a atuação no corpo social:
o uso da democracia. Discorre em melhor definição o autor:

[...] “o governo republicano é aquele no qual o povo em seu conjunto, ou apenas


uma parte do povo, possui o poder soberano;” [...]. Quando, na república, o povo em
conjunto possui o poder soberano, trata-se de uma Democracia. (MONTESQUIUE,
O Espírito das Leis, livro II, capítulo I, II, p.19).

Logo, a república cloudblankiana apresenta um projeto sistémico político democrático


perfeito, aliado a medidas do socialismo utópico, pois dada sociedade é dotada de uma ordem
social racional ideal, em que a justiça, a liberdade e a solidariedade presentes impedem a
existência de qualquer desigualdade social ou econômica, assim como não há possibilidade de
uma dicotomia econômica através de classes prescrita por Friedrich Engels (1820-1895) ao
citar a dialética do materialismo histórico em sua obra a fim de inviabilizar os modelos
românticos do socialismo utópico:

A ordem social vigente [...] é obra das classes dominantes dos tempos modernos, da
burguesia. (ENGELS, Do socialismo utópico ao socialismo científico, capítulo III,
p.13).

Em Cloudbank, na sua completude, não há época que remonta qualquer separação de


sua sociedade em classes, porque, ao suprir suas necessidades econômicas de maneira
autossustentável por causa de seus princípios ficcionais, provém uma política isenta tanto de
práxis humanas falhas quanto de concentração de soberania popular, aspectos condizentes
com a formação da república descrita por Cícero, que afirma:

[...] a República coisa do povo, considerando tal, não todos os homens de qualquer
modo congregados, mas a reunião que tem seu fundamento no consentimento
jurídico e na utilidade comum. Pois bem: a primeira causa dessa agregação de uns
homens a outros é menos a sua debilidade do que um certo instinto de sociabilidade
em todos inato; a espécie humana não nasceu para o isolamento e para a vida
errante, mas com uma disposição que, mesmo na abundância de todos os bens, a
leva a procurar o apoio comum. (CÍCERO, Da República, livro I, parágrafo XXV).

Firma-se que a sociedade cloudbankiana participa integralmente de toda e qualquer


mínima decisão pública proposta em prol das transformações estruturais da vida coletiva. E
tal democracia somente se torna perfeita ao uso da tecnologia futurística alcunhada de OVC.
2.3 A Tecnologia Futurística OVC
Após corroborar a existência da sociedade cloudbankiana — e sua composição
essencialmente humana —, torna-se palpável a coesão social da mesma. A tecnologia
9

futurística OVC (do inglês Open Voting Consourtium), é a pontífice que transcende para um
além do plano metafísico, conforme Durkheim designa como um fenômeno de alta densidade
social, o OVC toma a forma literal da estrutura de solidariedade complementar —
proporcionando coesão social à Cloudbank —, em que se cria, por meio da divisão social do
trabalho, uma relação de interdependência, uma função social, entre os animais civis de
Cloudbank, possibilitando a existência da sociedade. Logo, é abstraído da tecnologia OVC
não somente o seu carácter funcional — uma espécie de fórum virtual, onde vários cidadãos
fazem comentários, debatem e entram em consenso sobre uma determinada pauta através do
uso dos físicos terminais —, como também a sua participação no mecanismo de rito social,
haja visto que por esta se faz a máxima interativa na vida cotidiana em Cloudbank, pois,
somente por meio da OVC, dá-se o movimento de conformidade da consciência individual à
consciência coletiva, permitindo a coexistência da solidariedade, semelhante ao descrito por
Durkheim (1999):

É uma verdade evidente, visto que a divisão do trabalho aqui está muito
desenvolvida e produz a solidariedade. Mas é preciso sobretudo determinar em que
medida a solidariedade que ela produz contribui para a integração geral da
sociedade: pois é apenas então que saberemos até que ponto é necessária, se é um
fator essencial da coesão social, ou, ao contrário, se é só uma condição acessória e
secundária. (DURKHEIM, Da divisão do trabalho social, capítulo I, parte III, p.30).

O Conselho OVC, regente do poder público de Cloudbank, é formado de cidadãos


através de eleições e tem como singular função fiscalizar a execução das ações públicas,
empregando editores para fornecer conteúdo informativo, mantendo uma rede de terminais
OVC por toda Cloudbank; bem como os terminais OVC são utilizados para pesquisas, censos,
votações, publicação de texto e voz, comunicação pública e privada e entre outras funções,
além de serem usados por pessoas físicas, empresas ou grupos de Cloudbank como um pétreo
banco de dados. Bem como uma crítica à vida afastada da atividade pública, Cícero afirma
que tal órgão governamental é vital para a manutenção da república, pois “toda coisa pública
necessita, para ser duradoura, ser regida por uma autoridade inteligente que sempre se apoie
sobre o princípio que presidiu à formação do Estado”. (CÍCERO, Da República, livro I,
parágrafo XXVI).
A densidade social na cidade-estado torna-se exponencialmente intensificada devido a
democratização das escolhas e o livre acesso de informações proporcionadas pela OVC,
tornando os papéis sociais singulares e toda sociedade cloudblankiana interdependente.
Todavia, distinto da interpretação de alienação de Karl Marx (2004), o nicho de
especialização não causa competição entre indivíduos, pois não há perda na capacidade de
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controle nos meios de produção por causa da propriedade privada, justificando a sustentação
da divisão de trabalho social nas condições socialistas-utópicas.
2.4 O Poder Soberano em Transistor
Como legítima personificação de poder, é definido, ao que cerne o conceito weberiano
de dominação tradicional, a arma tecnológica transistor como objeto real de soberania do
governo vigente, em virtude da mecânica, da experiência do jogador durante a sua interação
com os sistemas do jogo e de tudo aquilo que torna a obra interativa, isto é, da “jogabilidade”.
Sua dominância não se sustenta apenas pela supressão, mas também pela absorção,
manipulação e controle do Processo e dos demais elementos do jogo. Para o universo da obra
Transistor (2014), os status sociais dos indivíduos, após sua síntese, tornam-se peças-chave
para as modificações das representações coletivas e, consequentemente, para provocação de
uma ruptura no vigente tecido social. Originalmente sob posse da autônoma cidade-estado, o
transistor serve apenas como ferramenta unificada ao que cabe as ações de gestão pública,
coercitivas ao Processo e às modificações estruturo-funcionais e sociopolíticas de Cloudbank
de maneira legal.
Em aplicação, correlacionando os estudos sobre estratificação social pela divisão
social do trabalho segundo Karl Marx junto de Engels Friedrich (1877) e Max Weber (2004),
a sociedade cloudblankiana não possui caráter classificatório de classe, somente de estamento,
ou seja, não há divisão de classes econômicas, apenas uma distinção de status social que
postula uma fôrma de meritocracia, pois, durante o tempo que a posse da ferramenta transistor
está sob Cloudbank, não há distribuição de recursos como poder, autoridade e riqueza entre
seus membros. A estratificação e a desigualdade, que compunha o eixo do conflito social, não
encontram sustentação na cidade-estado fictícia. Entretanto, o detentor do transistor, seja a
própria cidade-estado, seja uma organização ou um indivíduo, também tem o controle do
Processo que, por sua vez, concentra a ideologia dominante, restabelecendo uma alusão à base
da teoria do conflito marxista ao apresentar uma dicotomia no universo fantasioso: aquele(s)
que detém o poder soberano; e aquele(s) que o não. A ferramenta transistor atua, seguindo o
pensamento marxista, como homólogo aos meios de produção, haja vista que é através dela
que se dá as mediações entre trabalho humano — ações de origem do poder público de
Cloudbank, das quais provém dos cidadãos na participação cívica democrática — e a natureza
— o próprio universo fantasioso —, no processo de transformação da natureza em si. A
sociedade cloudbankiana é posta como modificadora da própria realidade social, postulando o
materialismo histórico dialético.
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2.5 O Processo e sua Evolução Funcional


Como último elemento dinâmico que constitui o organismo social de Cloudbank,
encontra-se o Processo. O Processo, subordinado ao transistor e destituído de função
administrativa direta, atua como motor de modificações de natureza física da cidade-estado,
todavia, conflita-se com o próprio propósito ao romper sua ligação com a ferramenta. De
modo breve, o Processo, antes apenas máquina, sofre disfunção e passa a assumir uma
personalidade semiautônoma à medida que se adequa aos novos contingentes. Ao se utilizar
de uma semelhante síntese evolutiva neodarwiniana — surgindo aleatoriamente através de
mutação e recombinação genética —, o Processo assume uma forma similar a dos cidadãos de
Cloudbank como tentativa de preencher a lacuna causada pela ruptura social e restabelecer a
posse dos meios de produção aos proprietários, isto é, no contexto fictício, reatar o vínculo da
arma-ferramenta transistor à cidade-estado Cloudbank.
Uma tipologia evolutiva constata-se no próprio jogo através das terminologias dos
autômatos e semiautômatos.
2.6 O Grupo Camerata, a Solidariedade e a Anomia
Não basta ter consciência da real estrutura social, são necessárias outras condições
factuais para a tomada e quebra de paradigma social e, posteriormente, o surgimento de uma
nova consciência. A Camerata emerge como uma comunidade intelectual cloudbankiana
qualquer que se distingue apenas pela busca de uma reforma no tecido social, unindo seus
integrantes em torno de um sentimento em comum com objetivo de reivindicar os meios de
produção através da suspensão dos controles de poder. Entretanto, somente com a descoberta
da ferramenta-arma transistor no enredo é que as ideologias do grupo Camerata passa a entrar
em vigor, e este método se concretiza pelo controle e manipulação do Processo mediante a
posse da arma transistor.
Do ontológico ao fenomenológico, o seleto grupo não compactua com a constituição
socialista de Cloudbank e tão pouco compartilha dessa “solidariedade devida à divisão do
trabalho” — ou orgânica, descrita por Durkheim (2004) —. A tecnologia futurística e a
democracia utópica proporcionam intensas e constantes transformações — físicas e sociais —
na cidade-estado, modificando a ordem moral vigente na mesma proporção durante o
processo. Dado que a projeção de serviços civis na cidade-estado é incessantemente
substituída e isenta do pressuposto qualitativo, impedindo que a hipotética escolha racional
em auto interesse seja mensurada, bem como Durkheim critica as concepções utilitaristas
12

como determinantes de segunda ordem na morfologia da estrutura social, em Cloudbank, tais


pressupostos são simplesmente infundados.
No entanto, é somente com a perda da posse da arma-ferramenta transistor que a
Camerata, Cloudbank e toda a sociedade colapsam. Os ditos fenômenos, físicos e sociais,
acarretam na ausência de propósito, na exaustão utilitária e na perda de norma nos indivíduos
pertencentes ao organismo social, caracterizando um evento patológico, em outras palavras,
as consequências da conjuntura entre as incessantes modificações físicas da cidade-estado, a
condição de imutabilidade sociopolítica e, por fim, a perda da posse da arma transistor
resultam neste fenômeno mórbido, define de melhor forma Durkheim (2004) ao considerar
que os fenômenos sociológicos (e biológicos) podem ser classificados em dois tipos básicos:
aqueles que são comuns a toda espécie, ou seja, “[…] encontram-se senão em todos os
indivíduos, pelo menos na maior parte deles e, se não se repetem identicamente em todos os
casos em que se observam, variando de indivíduo para indivíduo, estas variações estão
compreendidas entre limites muito próximo” (p. 86); e os fenômenos excepcionais, que “[…]
não se encontram apenas na maioria, como acontece, onde se reproduzem, não durarem as
mais das vezes a vida inteira do indivíduo” (p.86). Logo, é classificado o fenômeno social
como normal ou patológico (ou mórbidos) devido à sua frequência em dada sociedade, então,
formula três critérios para distinguir o normal do patológico: “1) um facto social é normal
para um tipo social determinado, considerado numa fase determinada de desenvolvimento,
quando se produz na média das sociedades dessa espécie, consideradas numa fase
correspondente da sua evolução; 2) os resultados do método precedente podem verificar-se
mostrando que a generalidade do fenómeno está ligada às condições da vida colectiva do tipo
social considerado; e, 3) esta verificação é necessária quando um facto diz respeito a uma
espécie social que ainda não completou a sua evolução integral” (p. 94).
2.7 Os Fatos Sociais no Jogo
Segundo o pensamento durkheimiano, não existe uma ação individual, pois tudo que
acontece dentro do organismo vivo social é, também, social. Explicita o grupo Camerata que
toda Cloudbank vive à mercê de um “fenômeno sobrenatural” e que ninguém está livre, uma
vez que todas as tendências de arte, todas as novas políticas administrativas, todas as
alterações do design da cidade proveriam dessa determinante externa, genérica e coercitiva: o
fato social. Torna-se notável que, no autômato contingente determinista de sistema político
utópico, atuar como um animal político na cidade-estado ficcional concilia-se com as
características do fato social explicitado por Durkheim (2014):
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É toda a maneira de fazer, fixada ou não, susceptível de exercer sobre o indivíduo


uma coerção exterior: ou então, que é geral no âmbito de uma sociedade dada
tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria, independente das suas
manifestações individuais. (DURKHEIM, As Regras do Método Sociológico, p.47)

Em Cloudbank, o ato de participar da gestão governamental, isto é, da atividade cívica,


advém da própria cidade-estado e é imposto a todos os cidadãos, caso contrário, tais
indivíduos não mais seriam parte de sua sociedade. Tendo dita tal obrigatoriedade presente no
universo fantasioso, a participação cívica é tida como fato social na sociedade cloudbankiana.
Não obstante, outro fato social é paralelamente apresentado no jogo: o suicídio. Na
perspectiva de Durkheim (2000), o fenômeno do suicídio é analisado em sua obra colocando a
questão da conservação/dissolução social no centro do seu referencial. Ao não encontrar
"nenhum estado psicopático ou psicológico normal, variável racial, cósmica, [...] que
mantenha com o suicídio uma relação regular e incontestável", fundamenta que "existe para
cada grupo social uma tendência específica para o suicídio que nem a constituição orgânico-
psíquica dos indivíduos, nem a natureza do ambiente natural explicam, resultando disso, por
eliminação, que essa tendência deva depender de causas sociais e constituir por si mesma um
fenómeno coletivo." Existe uma disposição social para o suicídio, isto é, uma tendência dos
grupos sociais para o suicídio, isoladamente das suas manifestações individuais, logo, é
apresentada duas grandes dimensões para uma malha social: integração e regulação.
Integração refere-se às relações sociais que ligam o indivíduo ao grupo, e regulação aos
preceitos morais e função normativa associada ao grupo. O posicionamento do indivíduo num
ou noutro extremo de um dos eixos predisporia ao suicídio, e deste modelo resultam os três
tipos de suicídio da sua teoria, sendo: egoísta; altruísta; e anômico.1
Portanto, para análise do fenômeno social suicídio, é necessário escrutinar detalhes
ainda mais ínfimos do enredo através dos personagens.
Grant Kendrell, líder e um dos fundadores da Camerata, segue uma doutrina ética de
cunho racional-utilitária, junto de ideais totalitários, uma vez que, para ele, a moral
eudemonista coletiva é única perspectiva de promoção à felicidade de Cloudblank, bem como
a liderança da cidade-estado estar em seu exclusivo poder, pois somente Grant, antes parte do
Conselho OVC, ao adquirir o título de Administrador Central, sabe o melhor a ser feito
para Cloudbank, silogismo expressado pela ênfase dada ao porta-voz da Camerata,
Asher Kendrell, em: "tudo que fizemos, tudo que estamos fazendo, é por Cloudbank".

1
Um quarto tipo, o fatalista, é adicionado posteriormente com os durkheimianos.
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Contudo, após perder a posse da ferramenta transistor, Grant apresenta um episódio de surto
psicótico devido à perda simbolizar a relação entre ele e a possibilidade de dominação das
normas morais da sociedade cloudbankiana. Durante o surto, Grant reflete sobre a falta de
sentido da vida, apresentando estado melancólico juntamente de uma crise existencial, de não-
pertencimento para com a sociedade cloudbankiana — indícios de baixa integração social —,
cometendo suicídio em sequência, exemplificando um suicídio egoísta.
Ao ver Grant — seu implícito amante — morto, Asher Kendrell também comete
suicídio. Grant era, para Asher, a síntese humana das representações coletivas em Cloudbank,
e a sua finda resulta em uma situação caótica, de baixa regulação, uma vez que as
representações coletivas não mais balizam a consciência individual e, porventura, diante da
liberdade total da sua consciência individual, Asher não vê limites em suas ações,
manifestando o estado de anomia, semelhante a caracterização de um suicídio anômico.
A protagonista Red, no final da jornada, se depara com um cenário de liberdade plena,
do qual ela percebe que está em posse da arma-ferramenta transistor, capaz de subverter
qualquer contingência no presente universo, além de estar demasiadamente integrada à
sociedade cloudbankiana. Red comete suicídio dedicada a uma causa que lhe ultrapassa, em
prol de um bem-comum, tornando o suicídio um dever social, mesmo que opcional, uma vez
que dita sociedade inclina-se para tal ato de caráter altruísta.
15

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho acadêmico, buscou-se examinar Transistor sob viés da Filosofia Social.
A metafísica do jogo estudado atribuiu à realidade um fundamento transcendente. No jogo, a
cidade-estado Cloudbank é observada como organismo vivo social, enquanto todos os
elementos que a compõe são segmentos do mesmo corpo, essencialmente relacionados entre
si e extremamente importantes para o funcionamento de todo corpo social, sendo: os cidadãos
de Cloudbank; a tecnologia futurística OVC; a ferramenta-arma transistor; e o Processo.
Portanto, sua ciência social segue o pressuposto estrutural-funcionalista, igualmente
identificável em sua utopia. O foco analítico conduz à compreensão da existência e da
interdependência de cada segmento orgânica presente no universo do jogo, similar a um corpo
orgânico, por meio de suas respectivas funções para, então, apresentar os fatos sociais em
conjuntura da complexidade da vida social em dada fictícia sociedade usando-se da
metodologia durkheimiana.
Cloudbank assemelhasse ao conceito aristotélico de sociedade última, apresentando-se
como república democrata segundo Cícero. Os habitantes da cidade-estado são classificados
como humanos e fazem uso do sufrágio universal, no entanto, em concordância à tripartição
dos poderes de Montesquieu, postulam sob o poder executivo, não necessitando, devido aos
contingentes fictícios, do poder judiciário e do poder legislativo.
A tecnologia futurística OVC situa-se para além da sua função como ferramenta e
compõe o único viés de interação social e política na sociedade cloudbankiana, permitindo a
coesão social à Cloudbank através da divisão social do trabalho.
A ferramenta-arma transistor personifica, de forma literal, o conceito de dominação
tradicional concebido por Max Weber, suportado pela existência do elo com a legião de
autômatos e a cidade-estado, juntamente com as mecânicas de interação com os sistemas do
jogo, bem como o transistor atua como homólogo aos meios de produção segundo a teoria
marxista, uma vez que é através dele que se dá as mediações entre trabalho humano e a natureza,
no processo de transformação da natureza em si.
O Processo, antes uma legião de autômatos isentos de razão, assume o mesmo cargo de
cidadão na cidade-estado através de um processo evolutivo por causa de uma ruptura no tecido
social.
Equidistante ao desenvolvimento do grupo Camerata em Cloudbank referentes às
caracterizações da solidariedade e da anomia segundo a perspectiva durkheimiana, é
apresentados dois fatos sociais presentes no jogo: o suicídio e a participação cívica.
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REFERÊNCIAS
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Ed., 1991.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. in Coleção
Livros que Mudaram o Mundo. São Paulo: Folha de São Paulo, 2010.
CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. Trad. De Adail Ubirajara Sobral. São Paulo:
CULTRIX/PENSAMENTO, 10a. Ed., 1997.
CÍCERO. Da República. Edição Ridendo Castigat Mores. Disponível em:
<http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/darepublica.pdf>. Acesso em: 05 de Junho. 2019.
DURKHEIM, Émile. As Regras do Método Sociológico. Trad. De Eduardo Lúcio Nogueira.
Lisboa: EDITORIAL PRESENÇA, 9a. Ed., 2004.
DURKHEIM, Émile. Da Divisão do Trabalho Social. Trad. De Eduardo Brandão. São Paulo:
Martins Fontes, 2a. Ed., 1999.
DURKHEIM, Émile. O Suicídio. Trad. De Monica Stahel. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
ENGELS, Friedrich. Do socialismo utópico ao socialismo científico. Edição Ridendo Castigat
Mores, 1877. Disponível em:
<http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/socialismoutopico.pdf>. Acesso em: 05 de Junho.
2019.
HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. Trad. De Waltensir Dutra. Rio de
Janeiro: ZAHAR EDITORES, 16a. Ed., 1981.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Trad. De Jesus Ranieri. São Paulo:
BOITEMPO EDITORIAL, 1a. Ed., 2004.
MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Manifesto comunista. Edição Ridendo Castigat Mores,
1877. Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/manifestocomunista.pdf>.
Acesso em: 05 de Junho. 2019.
MONTESQUIEU, Charles de Secondat. O Espírito das Leis. Trad. De Cristina Murachco. São
Paulo: Martins Fontes, 2a. Ed., 1996.
MORUS, Thomas. Utopia. Edição Ridendo Castigat Mores, 2001. Disponível em:
<http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/utopia.pdf>. Acesso em: 06 de Junho. 2019.
17

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<https://www.infoescola.com/biologia/teoria-moderna-da-evolucao/> Acesso em: 20 de Junho.
2019.
PLATÃO. A República. São Paulo, SP: Martin Claret, 3a Ed., 2007.
VOGLER, Christopher. A Jornada do Escritor: estruturas míticas para escritores. Trad. De
Ana Maria Machado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2a. Ed., 2006.
WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. Trad. De José Marcos
Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Trad. De Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Livros
Técnicos e Científicos Editora, 5a. Ed., 1982.
SUPERGIANT GAMES. (2014). Transistor. [Steam]. PC.
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APÊNDICE – RESENHA LITERÁRIA


Transistor (2014) é um jogo, isto é, uma obra digital interativa, disponibilizado na
plataforma Steam2 e produzido de forma independente pela desenvolvedora SuperGiant
Games, compõe um gênero sci-fi3, adjunto do caráter utópico, retrata um enredo linear na
futurística cidade-estado Cloudbank, cuja veicula elementos audiovisuais — música e arte —
e situações factuais — homicídio e suicídio — formulados essencialmente como amálgama
para narrar ao interlocutor tais conflitos sociais e políticos gerados durante toda campanha de
jogatina.
É válido ressaltar que a palavra “transistor” provém do inglês transfer resistor que em
tradução livre, significa transferidor de resistência. O transistor é o bloco de construção
fundamental, e onipresente, nos circuitos dos dispositivos eletrônicos modernos que, segundo
o site “Computer History Museum”, foi desenvolvido por uma série de físicos estadunidenses,
sendo uns deles: John Bardeen; Walter Brattain; e William Shockley, premiados com Nobel
de Física em 1956, concebendo o termo como alcunha de um componente eletrônico essencial
para a revolução eletrônica da década de 1960.
Em paralelo com contexto ficcional, a obra Transistor (2014) compartilha a mesma
terminologia com a arma tecnológica — o transistor —, assim como serve de pilar central
para a narrativa e a jornada do herói, cuja se faz uso para base metodológica de análise de
roteiro. A jornada do herói, ou monomito, é um conceito de jornada cíclica presentes em
mitos, segundo o antropólogo Joseph Campbell (1997), e para se fazer uso da metodologia
analítica exata no presente trabalho, é necessário embasar-se no modelo proposto pelo escritor
e cineasta Christopher Vloger (2006) dos doze estágios da jornada do herói, pois segue o
padrão campbelliano para análise de roteiro. Todavia, assim como Campbell (1997) explica
que os estágios do monomito não são obrigatoriamente ordenados em progressão aritmética, o
jogo Transistor (2014) também tem sua campanha em estágios com quebras cronológicas,
entretanto, na presente resenha é disposto de modo linear seguindo a sucessão de eventos do
enredo.
O início do enredo se dá com o estágio quatro, Encontro com o Mentor. No Sudoeste
de Goldwalk, a baía da cidade Cloudbank, a jovem humana protagonista da saga se vê ao lado
de um corpo masculino meio oculto sem vida e uma espada tecnológica perpassada pelo

2
Steam é um programa de gestão de direitos digitais criado pela Valve Corporation ou Valve L.L.C., de
plataformas digitais como jogos e aplicativos de programação e fornecer serviços facilitado como atualização
automática e banco de dados, em conjunto de um próprio mercado.
3
Ficção Científica. É um gênero que trata de conceitos ficcionais e especulativos, relacionados ao futuro, ciência
e tecnologia, porventura, entre si.
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mesmo. Em conjunto dos elementos não verbais e verbais dispostos na tela do jogo, é somente
após do monólogo de uma voz que é possível alcunhar a protagonista mulher de Red, nomear
tal arma atravessada de transistor e deliberar que a voz que emana da arma transistor provém
do desconhecido homem morto. A protagonista retira a arma fincada ao corpo, a empunha e
inicia a jornada. A voz do transistor atua como guia/mentor para a protagonista, consente
sobre o caminho a seguir, os objetivos e os alvos — os “quatro problemas” descritos por ele
—, e o próprio poder que agora Red obtém: a arma transistor, passível de ser manejada
semelhante a uma espada. Após travar embate corporal contra o Processo — a priori, inimigos
dos protagonistas —, Red segue para o leste atravessando a periferia da cidade empunhando
seu mentor, a arma tecnológica. Prossegue-se ao estágio três, Recusa do Chamado. Ao
chegar no fim da Plaza, Red se depara com resquícios do seu antigo “mundo comum” —
mundo da vida cotidiana —, proporcionando um contraste devido ao chamado à aventura;
Então, Red recebe a proposta de sair da cidade e, por conseguinte, desistir da jornada. No
entanto, ao contrariar o conselho do seu mentor, Red recusa a proposta. O estágio dois,
Chamado à Aventura, não ocorre de forma indivisível, pois este estágio está em amalgama
com estágio cinco, dado os eventos do mesmo. Ao chegar no Set, o enredo apresenta uma
analepse (do inglês flashback), narrando os acontecimentos referentes ao estágio cinco,
Travessia do Primeiro Limiar, e uma breve menção ao estágio um, Um Mundo Comum —
ressalva-se que a maior parte da obra se estende no limite dos dois mundos, o Mundo Comum
e o Mundo Especial, pois Red é constantemente confrontada contra o Processo, do qual
assemelhasse aos “guardiões de limiar” —. Na noite anterior, descrita pela interrupção
cronológica, Red sofre tentativa de homicídio comandada pela Camerata — um grupo de
quatro cidadãos da elite de Cloudbank, anteriormente mencionados como os “quatro
problemas” —, mas o misterioso homem interveio a favor da protagonista, morrendo em seu
lugar devido a arma transistor ter atravessado seu corpo, além de ambos serem
teletransportados instantaneamente para a baía Goldwalk. Ao término da analepse, surge Sybil
Reisz, uma integrante do grupo Camerata, corrompida pelo Processo e impondo à Red o
estágio seis, Testes, Aliados, Inimigos. O combate de Red contra Sybil é, de maneira literal,
uma prova de sobrevivência à adaptação do novo mundo — Mundo Especial. Logo após a
derrota de Sybil, Red desce à doca e faz uso de um veículo aquático para chegar até o porto
do distrito Highrise. Após trespassar todo o complexo Annex pela avenida Tranverson e a
praça Jallaford, Red alcança as gôndolas-elevador para ir até a torre Bracket, galgando o
estágio sete, Aproximação da Caverna Oculta. Ao adentrar o apartamento do topo da torre, a
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protagonista encontra outros dois integrantes da Camerata: Asher e Grant Kendrell; contudo
ambos cometeram suicídio. Com as informações coletadas, Red salta do alto da torre e usa o
Processo como transporte para ir em direção à Farview, local do qual reside o último membro
da Camerata. Destruindo falanges do Processo no caminho, Red adentra o estúdio de Royce
Bracket, transpassando para o estágio oito, Provação. Royce demonstra obter das mesmas
características e unidades que Red, tal qual outro transistor. Durante o entrave entre os dois,
Red consegue sobrepujar o adversário e logra vitória; o transistor de Royce é destruído e a
protagonista, junto do seu guia-arma, é materializada para uma ponte que conecta Farview e o
sudoeste de Goldwalk. Em sequência, concretiza-se o estágio nove, Recompensa. A
protagonista reivindica a posse do transistor e dispõe de todo seu poder, alterando a
infraestrutura urbana a seu bel prazer. Quase simultâneo ao estágio anterior, Red é obstruída
pelo estágio dez, Caminho de Volta. Somente no fim da jornada que se torna explicito o
relacionamento romântico do homem assassinado e da protagonista, como também o objetivo
primário da saga: ambos retornarem à vida cotidiana em conjunto, seja restaurando o antigo
Mundo Comum, seja se habituando ao novo Mundo Especial. Red prova que não há maneiras
de regressar ao Mundo Comum, senão condescender com o ponto de não retorno causado pela
Camerata e viver no Mundo Especial, isto é, trazer seu amante de volta a vida em Cloudbank;
então, a protagonista não admite tal condicional e se suicida, sendo absorvida pelo transistor.
No estágio onze, Ressureição, Red, após morrer em Cloudbank, é enviada através do
transistor para outra dimensão-cidade, o Country, encontrando-se com seu enamorado, cujo
origina a voz que emana da arma. O conluio tem o seu fim com heroína e o mentor-amante
juntos em Country, isentos das obstruções do Processo e das permanentes sequelas
promovidas pela Camerata à Cloudbank, constituindo a passagem e término do estágio doze,
Retorno com o Elixir.