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MEMORIAL

PADRE CÍCERO
e Outras Histórias
PREFEITURA MUNICIPAL DE JUAZEIRO DO NORTE Catalogação na fonte
Biblioteca Pública Municipal Dr. Possidônio da Silva Bem
Secretaria Municipal de Cultura – SECULT
M553  Memorial Padre Cícero e outras Histórias/ Textos: Regivania Rodrigues de
Almeida, Cristina Rodrigues Holanda. Nova Olinda-CE: Fundação Casa
Grande Memorial do Homem Kariri, 2018.
Arnon Bezerra
132 p.:il., color.; 21x21cm.
Prefeito Municipal
Inclui notas explicativas e referências.
A obra é parte integrante do Projeto Ponto de Memória Institucional, da
Giovanni Sampaio Secretaria de Cultura, Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte - CE.
Vice Prefeito ISBN: 978-85-53007-01-1
1. Museus – Educação Patrimonial. 2. Memorial Padre Cícero. 3. Juazeiro
Renato Fernandes Oliveira do Norte - CE. I. Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte - CE. II. Secretaria de
Secretário Municipal de Cultura Cultura. III. Almeida, Regivania Rodrigues de. IV. Holanda, Cristina Rodrigues.
CDU: 069 (2. ed.)
Sandra Nancy Freire Bezerra CDD: 069.15 (22. ed.)
Secretária Executiva Elaborada por Rosana Pereira Marinho – CRB-3 nº 1393

Presidente da Fundação Coordenadora Financeira FICHA TÉCNICA | LIVRO


Memorial Padre Cícero Jéssica Alves
Cristina Holanda Concepção do Projeto Ponto Agradecimentos
Coordenador do de Memória Institucional
Moradores do entorno do
Diretor de Comunicação Cultural Teatro Marquise Branca Alemberg Quindins Memorial Padre Cícero
Augusto Pessoa Leonardo de Luna
Pesquisa Histórica Servidores da Secretaria de
Diretora de Patrimônio Coordenadora do Centro Regivania Rodrigues de Almeida Cultura e Fundação Memorial
Histórico e Cultural de Arte e Cultura Marcus Jussiê Padre Cícero
Lis Cordeiro Maria Gomide Redação de Textos
Regivania Rodrigues de Almeida Daniel Walker
Diretora Administrativa Coordenadora de Cristina Rodrigues Holanda Demontier Tenório
Financeira Documentação e Memória Dudé Casado
Luciana Dantas Regivania Rodrigues Produção do Projeto Ponto
de Memória Institucional Mateus Quintans
Diretora de Projetos e Coordenadora da Biblioteca Lis Cordeiro Raimundo Araújo
Políticas Culturais Públicas Municipal Possidônio Bem
Maria Carvalho Rosana Marinho Consultoria Acadêmica Reginaldo Farias
Cristina Rodrigues Holanda Renato Casimiro
Coordenadora Administrativa Assessor Técnico Sandra Nancy Freire Bezerra
Charmene Rocha Demontiez Araújo Renato Dantas
Projeto Gráfico e Diagramação
Verônica Tamaoki
Coordenadora de Promoção Assessor Técnico e Conselheiro LaBarca.Design
e Difusão Cultural Administrativo do Fundo A todo (a)s que direta ou
Claudinália Almeida da Arte e da Cultura Revisão de Texto indiretamente contribuíram
Francisco Amorim REVVER Lucas Carneiro Revisor para a realização deste trabalho
Coordenador de Planos, Vernacular
Programas e Projetos Culturais
Erivaldo Casimiro
MEMORIAL

PADRE CÍCERO
e Outras Histórias

2018
Sumário

Prefácio, 6 Muito Antes do O Memorial


Memorial Padre Cícero Padre Cícero
Sob as bênçãos do
Padim: Memorial
Padre Cícero e Nos tempos do Uma quadra de A Construção, 38
outras Histórias, 8 Quadro Grande, 14 futebol de salão, 26
A Inauguração, 42
Apresentação Praças e Os clubes Treze
A Missão, 47
da Pesquisa, 10 edificações, 16 Atlético Juazeirense
e Asa Branca, 27 O Museu, 48
A capela do Socorro, 17
O Centro de Artesanato, A Biblioteca, 52
A capela de São o Tiro de Guerra e a
Vicente de Paulo, 18 Um centro de eventos, 56
Lira Nordestina, 29
Quantas praças e Seus Dirigentes, 59
A oficina Santa Helena, 30
quantos nomes!, 21
Antigas atrações
A Coletoria Estadual, 22 do entorno, 32
O Grupo Escolar O Circo Nerino, 33
Padre Cícero, 23
A Festa do Século, 34
Os postos de saúde, 25
A Feira Industrial
do Cariri (FIC), 35
Para Relação dos
Saber Mais Entrevistados, 129

Acervos Consultados, 129


O Quadro Grande, 62 A praça São Vicente O espetáculo Periódicos, 129
e o cinquentenário vai começar!, 106
A Feira do Capim, 65 Sites, 129
de Juazeiro, 88
E a luz chegou!, 110
Uma promessa à Virgem Crédito das Imagens, 130
Clube Atlético
do Socorro, 66 A primeira Feira
Juazeirense, 92
Industrial do Referências
Os Vicentinos, 73 Bibliográficas, 130
Os primeiros tempos do Cariri (FIC), 115
A Casa de Impostos da futebol em Juazeiro, 95
O artesanato local, 118
Rua Santa Rosa, 76
O velho Treze,
E o barro ganha vida:
A instrução pública das partidas e
a Oficina
e o Grupo Escolar dos carnavais, 97
Santa Helena, 122
Padre Cícero, 79
Antigos carnavais, 101
Um novo território, 124
A saúde na terra
Os serviços militares, 102
do “Padim”, 84
A Lira Nordestina, 104
Prefácio

José Arnon Bezerra de Menezes


Prefeito Municipal de Juazeiro do Norte

O s últimos instantes da noite já se reco-


lhem, enquanto alguns tropeiros deixam
o refúgio dos frondosos juazeiros para seguir
Padre Cícero um lugar, que contando sua
própria trajetória, adentrou também o gran-
de tabuleiro em que o Joaseiro se encravou.
viagem. O tilintar das enxadas e o rangido da Conduz e nos convida a caminhar com o pri-
moenda no engenho anunciam que o trabalho meiro agrimensor improvisado pelo Padre
já começou. O ano é mil oitocentos e tanto. Aqui Cícero, seu José Leandro Bezerra, pelos terre-
é o Tabuleiro Grande. É nele que tudo começa. nos que seriam as futuras ruas Grande, São
“Uma obra é significante apenas para al- Pedro e do Cruzeiro, entre tantas outras.
guém que lhe conheça o significado”. Faço As primeiras letras e a educação que se
empréstimo das palavras do historiador da arte, iniciou ainda com o Padre Pedro Ribeiro. A
o italiano Giuliu Carlo, para dar sentido e tra- eminente presença dos beatos e beatas, que,
zer ao conhecimento de todos esta publicação, além de suas vocações religiosas, tanto con-
como resultado do Projeto Ponto de Memória tribuíram para a formação das pequenas
Institucional, idealizado pela Secretaria de escolas que iam se formando pelo Joaseiro
Cultura de Juazeiro do Norte, por meio da antigo. Escolas que não se limitavam a
Diretoria de Patrimônio Histórico e Cultural. ensinar a ler e escrever. Experiências edu-
Além deste livro, o Projeto nos presenteia com cacionais que traziam, em pleno ano de 1912,
uma bela exposição de longa duração. a oportunidade de fruir arte e cultura, com
É uma história que não se ocupou somente teatro para os alunos, como foi o caso da
de nomes e datas. Foi além. Fez do Memorial escola do beato Salú.

6  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Aqui, as edificações se apresentam com as Tudo isso se encontra nas entrelinhas do
rezas, cheiros e sons que emanavam em outros Memorial, que apresenta a simbologia e a tra-
tempos. As capelas, os clubes de futebol e os jetória do Padre Cícero Romão Batista, o nosso
sociais. As grandes festas. Os bailes de carna- Padim Ciço, cuja história é a própria história
val. A eletrificação que fez a cidade sediar a de Juazeiro do Norte. Caminhando sobre a
Festa do Século, trazendo luz a toda a região linha do tempo, o ano de 1988 leva ao recém-
do Cariri, pelas portas do Juazeiro. -criado Largo do Socorro um mar de gente, pra
O tempo é dinâmico e dele herdamos a me- dar as boas vindas ao novo lugar da cidade:
mória. A presença do passado, nos dias atuais. o Memorial. Ele muito tem a contar.
As construções físicas e mentais que ganham Este livro é o fragmento de um tempo escri-
corpo e voz ao longo dos anos. Neste livro, to para um povo. Por isso me inspiro em Tolstói,
veremos que o próspero comércio tem seu nas- “canta a tua aldeia e serás universal”, para dizer
cedouro nas inúmeras oficinas, criadas desde que sinto que o Juazeiro é um mundo. A nossa
os fins do século XIX, onde o Padre Cícero história é viva, pulsante. Ela nos pertence!
orientava as levas de romeiros, que chegavam Boa leitura a todos(as)!
de todas as partes do Nordeste, a desenvol-
ver diversos ofícios como ferreiros, sapateiros,
santeiros, entre outros, dando início à grande
indústria artesanal que fez do Joaseiro uma
cidade de fé e trabalho.

 7
Sob as bênçãos
do Padim:
Memorial Padre Cícero
e outras Histórias

Renato Fernandes Oliveira


Secretário de Cultura de Juazeiro do Norte

8  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


O dia amanheceu com o sol dourando a
paisagem e a passarada anunciando nova
primavera. Grande alvorada festiva ganhava os
dizeres de Eduardo Galeano, “a memória viva
nasce a cada dia”. É com esse fio condutor
que tecemos relações entre o passado e o pre-
céus da cidade. Era 22 de julho de 1988. Dia do sente, possibilitando à população da cidade
município de Juazeiro do Norte e da inauguração conhecer, apropriar-se e valorizar o seu con-
do Memorial Padre Cícero: um grande prédio de texto histórico, identificando, assim, o seu
linhas modernistas, amparado num largo com patrimônio cultural.
três praças contínuas, dois espelhos d’água e um A cidade segue em ritmo dinâmico, como
anfiteatro. Esse novo espaço foi idealizado para sempre foi. Juazeiro do Norte se colocou à
ser um local de referência em âmbito nacional, frente de seu próprio tempo. Superou confli-
por estar situado numa área geograficamente tos, vivenciou milagres, acolheu quem por aqui
privilegiada no município, possuir uma arquite- conseguiu chegar, amparando-se na fé e na
tura e equipamentos arrojados para a sua época aura do homem que apadrinhou milhares de
de criação, comportar um amplo auditório para nordestinos, em busca de uma vida melhor.
grandes eventos, além de uma biblioteca e um O projeto Ponto de Memória Institucional
museu, especializados na história de uma das inaugura sua primeira exposição, Sob as bên-
personalidades mais marcantes da história do çãos do Padim: Memorial Padre Cícero e outras
país: o Padre Cícero Romão Batista. histórias, trazendo, além da história do próprio
Passaram-se trinta anos, desde então. Assim equipamento, os percursos e transformações
como a cidade viveu intensas transformações do sítio histórico onde está edificado nos dias
para abarcá-lo, o próprio Memorial também atuais, que o tornaram um marco espacial e
já guarda, em seus anais, os próprios escritos. simbólico dos mais representativos.
É com essa história que iniciamos o Projeto Assim, a cidade de Juazeiro do Norte se-
Ponto de Memória Institucional. Uma ação da gue alimentando, em cada habitante de seu
Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte, por território, o zelo pelos passos daqueles que
meio da Secretaria de Cultura, que propõe a escreveram sua história em outras histórias,
dinamização dos equipamentos culturais do construindo a certeza de que a compreensão
município, criando exposições e publicações do ontem qualifica o tempo presente e oferece
que abordam a história das edificações e a melhores possibilidades ao futuro.
memória das personalidades homenageadas,
que dão nome ao lugar.
De forma geral, as narrativas são marca-
das por lembranças e esquecimentos. Nos

Apresentação 9
Apresentação da Pesquisa

Regivania Rodrigues
Coordenadora de Documentação e Memória – SECULT Juazeiro do Norte

O poema a seguir traz uma síntese das


descobertas que fiz durante a pesquisa,
sobre a localidade onde foi erguido o prédio da
Do circo.
Da diversão.
As praças.
Fundação Memorial Padre Cícero, bem como As flores se derramando em cor.
sobre a construção dessa edificação. Foram São espirradeiras! Têm cheiro!
descobertas que, a princípio, emergiram das Do trabalho.
memórias de várias pessoas1 que aceitaram Das primeiras letras.
contribuir com seus depoimentos sobre a his- Da entrega e da saúde.
tória desse lugar, porque ali residiram/residem Ah! Ainda vejo o silêncio me conduzir pelas ruas.
ou trabalharam/trabalham. E a música puxava mais riso do que gente.
Roupas coloridas. Chapéus.
Era assim... o pretérito se faz presente! São fantasias. É carnaval!
As lembranças vão prescindindo a memória. Se fechar os olhos, escuto a pancada da bola.
E ela chega com força. Bate também o coração. Acelera.
Com aquela força de quem viveu e sentiu.
Fomos atravessados. E ela chega.
Ninguém está alheio. Nos pertence. Já mudou?
O terreno se expande e ganha dimensão de território. Existe um novo território.
Do nascimento. Mas aquele meu lugar tá aqui.
Da infância. E parece que foi.
Da brincadeira. Do que foi sem nunca ter saído.

1 Ver a Relação dos entrevistados ao final do trabalho, que identifica os depoentes.

10  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


O precioso material em forma de verbo che- Muitos escritos vieram juntando pe-
gou aos ouvidos como uma melodia, trazendo ças, alargando ruas, localizando o tempo.
risos, choros, revoltas, satisfação e resigna- As lacunas que as gentis memórias abriam,
ção. Para além dos prédios, casas e praças que aos poucos, foram ocupadas por apanhados
existiram ali, somavam-se corpos, cheiros e pesquisas de quem também se debruçou em
e almas. Começou-se a reconstruir neles: algum momento sobre o Joaseiro, do tempo em
os pensamentos e as lembranças. que Seu Padre acabava com os forrós debaixo
Depois veio a consulta à bibliografia e aos do cajueiro, onde hoje está sua representação
acervos públicos e particulares. O campo se em bronze, bem no centro da praça, que já foi
derramava em material. Eram milhares de da Liberdade, do Almirante Alexandrino e nos
fotografias, que, num intercâmbio fantástico dias atuais é dele, o morador mais ilustre des-
com as lembranças, ganhavam vida. As pes- sas terras, o Padre Cícero.
soas quase saltavam do papel que eternizou É nele que o novo território começa a se fa-
aquele momento. Ou do computador, na ver- zer. A história de sua história. O Memorial Padre
dade. Grande parte do acervo iconográfico já Cícero nasceu, e ainda hoje se mantém, como
desfila nas telas dos blogs, grupos privados um lugar de patrimônio na cidade de Juazeiro.
e redes sociais. E o acesso a esse lugar só foi Foram décadas e séculos pra caber em
possível pela sensibilidade e compromisso poucos meses. O resultado dessa experiên-
histórico de Renato Dantas, Daniel Walker, cia é a exposição Sob as bênçãos do “Padim”
Renato Casimiro e Raimundo Araújo. Além – Memorial Padre Cícero e outras histórias,
de tantos outros, que caminhantes da es- além dos conteúdos complementares que es-
trada que eles abriram, compartilham seus tão aqui neste livro, no terceiro capítulo.
momentos e lembranças.

Apresentação da Pesquisa 11
12  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
Muito Antes do

Memorial
Padre Cícero
por Regivania Rodrigues

Muito Antes do Memorial Padre Cícero 13


Nos tempos do
Quadro Grande
ɏɏ Para saber mais:
O Quadro Grande, p. 62
A Feira do Capim, p. 65

N o século XIX, o antigo Quadro Grande


ou Quadro de São José era formado por
terras do antigo Joaseiro3, que pertenciam,
originalmente, em grande parte, ao Tenente
José Dias Guimarães. Esse espaço foi, aos pou-
cos, sendo dividido, e foram surgindo as ruas,
Grande (atual Padre Cícero), São José, Santa
Rosa, São Francisco e Cruzeiro. Casas foram
construídas, bem como os primeiros pré-
dios públicos e praças.
O Quadro Grande situava-se no perímetro Av.
Leand
que compreende, atualmente, a Rua São Pedro ro B
eze
rra
até as proximidades do Memorial Padre Cícero,
englobando as Capelas do Socorro e de São Imagem 1
Croqui do povoado de Joaseiro,
Vicente, estendendo-se também pelas Ruas
feito por Otávio Aires, em 1875.
Santa Luzia até a Rua do Cruzeiro. Na porção
de terra mais concentrada no atual bairro do
Socorro, formou-se a Feira do Capim, que per- 3 Essa era a grafia utilizada para a designação do povoado no século XIX,
e assim se manteve até a década de 1940, quando passou a denominar-se
maneceu até os primeiros anos da década de Juazeiro do Norte, para diferenciar-se do munícipio de Juazeiro, na Bahia,
1920, quando foi transferida para fora desse às margens do rio São Francisco, na divisa com o Pernambuco. Neste livro,
portanto, iremos manter a grafia antiga quando estivermos tratando da
eixo central da cidade. localidade antes dos anos 40.

14  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 2 1 Memorial Padre Cícero (1988)
Croqui ilustrativo do 6
espaço urbano de 2 Capela do Socorro / Cemitério Novo (1908)
Juazeiro nos dias atuais,
trazendo uma projeção 3 Capela São Vicente (1922) Rua da Matriz (antiga Rua da Capela)

Rua Isabel da Luz


do antigo Quadro Grande,
4 Praça Padre Cícero (1910)
além de edificações e
espaços públicos, que 5 Cemitério Antigo (século XIX)
foram surgindo em
diferentes tempos. 6 Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores (1827)
Rua Dr. Floro Bartolomeu (antiga Rua Nova)

PROJEÇÃO DO ANTIGO QUADRO GRANDE

Rua do Cruzeiro

) 3
inho
(antiga Rua Santa Rosa)

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iga Rua
(ant

Rua Grande)
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Lean Rua São Francisco
Rua
1

Rua São Paulo


Rua São Pedro
Rua São José

Rua Padre Cícero (antiga


Av. Mons. Joviniano Barreto

Rua da Conceição

Rua Santa Luzia

Muito Antes do Memorial Padre Cícero 15


Rua Alencar Peixoto
Praças e
edificações

16  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


A CAPELA DO SOCORRO
ɏɏPara saber mais:
Uma promessa à Virgem do Socorro, p. 66

O s custosos anos de suspensão de ordens


do Padre Cícero pela Igreja Católica im-
primiam sérios danos à sua saúde. O estado
intervenções do Bispado, que não queria sua
conclusão, tampouco sua utilização. Mesmo as-
sim, ela foi finalizada e algumas pessoas foram
físico e emocional do sacerdote causava in- ali sepultadas, a pedido do Padre Cícero, como:
tensas preocupações e constantes investidas Hermínia Gouveia; a Beata Maria de Araújo
junto ao campo celestial por parte das pessoas (principal protagonista do Milagre da hóstia);
mais próximas e dos seus afilhados. Hermínia Maria Joaquina (funcionária da casa do Padre);
Marques de Gouveia lançou, então, suas in- D. Quinou e Angélica (mãe e irmã do sacerdo-
tensões à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, te). Somente em 1932 é que a Igreja Católica
para que intercedesse pelo seu conselheiro finalmente permite que a Capela seja benta e
Imagem 3
Capela do Socorro, espiritual. Ao alcançar a graça, havia ela de autoriza as atividades religiosas no local.
na década de 1940, construir uma capela em sua honra. Com a morte do Padre Cícero, em 1934,
com o muro do O lugar escolhido era o terreno destinado a Capela do Socorro torna-se um verdadeiro
lado esquerdo
do cemitério já para o novo cemitério, num dos limites do an- santuário, ao fazer-se de última morada do
construído. tigo Quadro Grande. A obra sofreu algumas patriarca de Juazeiro do Norte.

Muito Antes do Memorial Padre Cícero 17


A CAPELA DE SÃO VICENTE DE PAULO
ɏɏPara saber mais:
Os Vicentinos, p. 73

E m 1922, José Geraldo da Cruz adquire, com assistencialista, a construção foi feita por
recursos próprios, uma parcela de terra etapas. Para fazer o telhado, por exemplo, foi
comprada do Tenente José Dias Guimarães. realizada a Festa da Cumeeira, de forma cola-
Consegue, também, a autorização do Bispado borativa, ao som da Banda de Música da Família
do Crato para a construção de uma Igreja em Soares e muita comida. Uns fizeram o ema-
honra a São Vicente de Paulo. As obras se ini- deiramento, enquanto outros conduziram as
ciaram numa das extremidades do que fora o telhas, que iam sendo transportadas até a par-
Quadro Grande. Como se tratava de uma obra te superior por outras mãos, e assim por diante.

Imagem 4
Festa da Cumeeira,
realizada pelos
Vicentinos com
o propósito de
fazer a cobertura
da capela de São
Vicente de Paulo,
na década de 1920.

18  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Muito Antes do Memorial Padre Cícero 19
20  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
QUANTAS PRAÇAS E QUANTOS NOMES!
ɏɏPara saber mais:
A praça São Vicente e o cinquentenário de Juazeiro, p. 88

V ários nomes e demarcações territoriais se


sobrepuseram no decorrer do tempo para
denominar áreas públicas no centro histórico
das crianças do entorno, que eternizaram o
lugar como Pracinha.
Nos cinquenta anos de emancipação políti-
de Juazeiro do Norte, onde está situado hoje o ca de Juazeiro do Norte, em 1961, aconteceram
Memorial Padre Cícero. muitos festejos na cidade, em função da data.
Nas primeiras décadas do século XX, A Praça São Vicente foi reformada e passou a se
um início de pavimentação se fez em frente chamar Praça do Cinquentenário. Um grande
à Capela do Socorro, com uma grande calça- monumento de concreto com duas imagens do
da. Anos mais tarde, essa calçada foi ampliada, Padre Cícero compunha o lugar.
dando os primeiros contornos à praça batizada A Praça do Cinquentenário e o seu monu-
com o mesmo nome daquela Capela. mento, assim como outras construções do
Na década de 1940, a área das imediações entorno, cederam lugar ao Memorial Padre
do Grupo Escolar Padre Cícero (criado em 1935) Cícero, na década de 1980. Na época da inau-
era de chão batido, coberta por uma vegeta- guração do edifício, todo esse grande espaço foi
ção rasteira e pequenas moitas. Conta-se que dividido em três: a Praça Tasso Jereissati (nas
uma criança comeu uma frutinha do mato, proximidades da Capela São Vicente), a Praça
proveniente desse terreno, e acabou falecen- José Sarney (onde hoje está uma feirinha de
Imagem 5 do envenenada. A partir de então, o Prefeito artigos religiosos) e a Praça do Socorro (nas
Preparação do da época, Antônio Conserva Feitosa, mandou imediações da Capela homônima). As novas
terreno para a limpar o lugar, iniciando a estrutura básica nomenclaturas, entretanto, não ganharam eco
construção da
Praça São Vicente, pra a construção da Praça São Vicente, nome na população, que, generalizando, trata todo
na década de dado em alusão à capela próxima. Nos anos esse complexo como um único logradouro, que
1940. No primeiro seguintes, foi introduzido um piso maior, con- atende por Praça ou Largo do Socorro.
plano, vê-se o
tabelião José Teófilo sideravelmente alto, com vários degraus, que
Machado. Nesse davam acesso para a Rua do Salgadinho, atual
espaço, encontra- Leandro Bezerra. Um grande coreto e bancos
se, nos dias atuais,
o Memorial de madeira e ferro foram construídos, e ali
Padre Cícero. tornou-se espaço para muitas brincadeiras

Muito Antes do Memorial Padre Cícero 21


A COLETORIA ESTADUAL
ɏɏPara saber mais:
A Casa de Impostos da Rua Santa Rosa, p. 76

B em no encontro da Rua Santa Rosa (atual


Monsenhor Joviniano Barreto) com a do
Salgadinho (atual Leandro Bezerra), ficava
nha de outra cidade e peremanecia por uma
temporada em Juazeiro. Um dos seus últi-
mos moradores foi Orlando Rocha, Coletor Imagem 6
o prédio da Coletoria Estadual, ali instala- Estadual nos anos de 1950. A construção Prédio da antiga
da provavelmente entre as décadas de 1930 foi adaptada para receber o Clube Treze Coletoria Estadual,
conjugado com
e 1940. No mesmo espaço, ficava também Atlético Juazeirense e, posteriormente, o a residência
a residência do Coletor, que geralmente vi- Clube Asa Branca. do Coletor.

22  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


O GRUPO ESCOLAR PADRE CÍCERO
ɏɏPara saber mais:
A instrução pública e o Grupo Escolar Padre Cícero, p. 79

F oi criado em 1927, sob a direção da ca local e regional, bem como profissionais que
Professora Maria Gonçalves. Funcionava, se destacaram nas mais diversas áreas.
em termos provisórios, na esquina da atual Rua A Escola foi retirada da Rede Estadual e re-
Padre Cícero com a São Francisco. Somente em inserida na Rede Municipal no ano de 2005,
1935 é que foi concluída a construção do prédio com uma proposta de inclusão de alunos com
na Rua Santa Rosa (atual Monsenhor Joviniano necessidades educacionais especiais, adotan-
Barreto), onde permanece até os dias atuais. Lá do a nomenclatura Escola de Ensino Infantil e
foram formados importantes nomes da políti- Fundamental Padre Cícero.

Imagem 7
Fachada do Grupo
Escolar Padre Cícero,
construído na
administração de José
Geraldo da Cruz, em
1935, oito anos após
sua criação oficial.

Muito Antes do Memorial Padre Cícero 23


24  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
OS POSTOS DE SAÚDE
ɏɏPara saber mais:
A saúde na terra do “Padim”, p. 84

E m 1937, deu-se início à construção do


Posto de Higiene, obra que só veio a ser
concluída em 1946, na administração de José
que teve forte atuação no combate à doença.
Trabalhou por muitos anos no antigo Posto de
Tracoma, cujas instalações ficavam na antiga
Geraldo da Cruz. O lugar ficou conhecido tam- Rua Santa Rosa, numa construção modesta,
bém como Posto de Puericultura, por oferecer vizinha ao Grupo Escolar.
orientações e cuidados para mães e recém-nas- Os dois Postos foram integrados a outros
cidos. Posteriormente, uma nova instalação órgãos estaduais e municipais de saúde poste-
foi construída na rua do Salgadinho (atual riormente. A antiga instalação desativada do
Leandro Bezerra), onde a Legião Brasileira de Posto de Higiene servia de espaço de brinca-
Assistência (LBA) funcionou algum tempo de- deiras para crianças que moravam no entorno.
pois, em atividade conjunta ao Posto. Era também o lugar discreto para encontros
Ainda na década de 1940, muitos casos de fortuitos entre os casais enamorados.
tracoma foram registrados no Ceará, chegando
com forte impacto nas terras do Cariri. O Dr.
Possidônio da Silva Bem foi um dos médicos

Imagem 8
Posto de Puericultura.
Identificados na
foto, da esquerda
para direita, Rosalva
Oliveira com seu
filho Eckner Oliveira,
Lindalva Fernandes,
Dr. Hamilton Esmeraldo
e Elizabete Aires.

Muito Antes do Memorial Padre Cícero 25


UMA QUADRA DE FUTEBOL DE SALÃO
ɏɏPara saber mais:
Clube Atlético Juazeirense, p. 92
Os primeiros tempos do futebol em Juazeiro, p. 95

U
Imagem 9
m grupo de rapazes apaixonados por reno entre a Coletoria Estadual e o Grupo Construção da
futebol de salão criou, na década de Escolar Padre Cícero, e lá construíram uma quadra de futebol
1950, o Clube Atlético Juazeirense para a quadra para jogarem, com energia própria, de salão do
Clube Atlético
prática do esporte. Em seguida, montaram mantida por um motor a diesel. Esse lugar foi Juazeirense,
um time, o Independentes, e utilizavam, para inaugurado em 1955. Ao tempo que o Treze no terreno que
os treinos, a quadra da Escola de Comércio, Atlético Juazeirense passou a ocupar a antiga ficava entre a
Coletoria Estadual
bem na esquina da Rua da Glória com São Coletoria Estadual como sua sede, esta qua- e o Grupo Escolar
Francisco. Na sequência, adquiriram um ter- dra lhe foi incorporada. Padre Cícero.

26  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


OS CLUBES TREZE ATLÉTICO JUAZEIRENSE E ASA BRANCA
ɏɏPara saber mais:
O velho Treze, das partidas e dos carnavais, p. 97
Antigos carnavais, p. 101

O Treze Atlético Juazeirense teve suas


duas primeiras sedes no entorno da
Praça Padre Cícero. Depois, o clube passou a
construiu ainda uma sede campestre, na Av.
Virgílio Távora, fora do eixo central da cidade,
como mais uma opção de lazer, com piscinas
ocupar a antiga Coletoria Estadual, reformada e uma grande área aberta. No início da década
para tal fim. O Clube surgiu a partir do Treze de 1980, a sede social deslocou-se e fundiu-se
Sport Club, time de futebol criado por Antônio com a sede campestre.
Fernandes Coimbra, o Mascote, em 1937. Entre 1982 e 1985, o prédio que abri-
Em 1958, fundiu-se com outras agremiações gou a antiga sede social do Treze Atlético
– o Clube Atlético de Amadores, o Juazeiro Juazeirense foi arrendado para João Bezerra
Clube e o Clube da Chave – tornando-se uma de Oliveira, que fundou o Clube Asa Branca,
sociedade desportiva, recreativa e cultural. local que promovia grandes shows com artis-
As festas que organizava eram muito famosas, tas locais e de renome nacional, como Renato
especialmente as de carnaval, que reuniam e seus Blue Caps, Quinteto Violado, The
boa parte da sociedade juazeirense. O Clube Fevers, entre outros.

Imagem 10
Prédio da antiga
Coletoria Estadual,
adaptado para
abrigar a sede social
do Treze Atlético
Juazeirense, na
década de 1950.

Muito Antes do Memorial Padre Cícero 27


28  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
O CENTRO DE ARTESANATO, O TIRO DE GUERRA E
A LIRA NORDESTINA
ɏɏPara saber mais:
Os serviços militares, p. 102
A Lira Nordestina, p. 104

O Centro Municipal de Artesanato, cons-


truído para as comemorações do
cinquentenário de emancipação política de
em 1926, e passou a produzir folhetos de cor-
del, orações, novenas e almanaques, fazendo
com que a Tipografia alcançasse a posição
Juazeiro, em 1961, funcionou por um curto de maior folheteria do país, com títulos ain-
período, dando lugar ao Tiro de Guerra 210, da hoje considerados clássicos da literatura
uma instituição militar que se propunha a nordestina. Com o desenvolvimento das tec-
formar atiradores como reservistas para o nologias de impressão e a morte de José
Exército, conciliando a instrução militarizada Bernardo, a Tipografia entrou em decadência.
com o trabalho e os estudos. No ano de 1980, Em 1982, seu acervo e equipamentos foram
a instituição deslocou-se para uma nova sede, adquiridos pelo Governo do Ceará, adotando
no atual bairro Triângulo, onde permanece um novo nome. Hoje, a Universidade Regional
até os dias de hoje, com nova nomenclatura: do Cariri (URCA) responde por sua adminis-
Tiro de Guerra 10005. tração. Atualmente, a tipografia está situada
O prédio foi ocupado, então, pela Lira no prédio do Centro Multiuso (Vapt Vupt).
Nordestina, de 1982 a 1984. Essa é a nova
denominação da antiga Tipografia São
Francisco, de propriedade de José Bernardo
da Silva, um poeta que chegou ao Juazeiro

Imagem 11
Praça do
Cinquentenário.
No primeiro plano,
um monumento com
a imagem do Padre
Cícero. Ao fundo, o
Centro de Artesanato.

Muito Antes do Memorial Padre Cícero 29


A OFICINA SANTA HELENA
ɏɏPara saber mais:
O artesanato local, p. 118
E o barro ganha vida: a Oficina Santa Helena, p. 122

H elena Vieira dos Santos, juazeirense


nascida em 1938, recolhia, às margens
do Rio Salgadinho, o barro que servia de maté-
Foi incorporando ao seu trabalho vários
materiais. Tornou-se autodidata na produção
das suas obras. Passou a produzir imagens re-
ria-prima para produzir suas primeiras obras: ligiosas e de personalidades políticas. Ganhou
boizinhos e panelinhas de argila para brincar. grande notoriedade. Faleceu em 2007. Seu filho
Ao perceber que suas pequenas produções Gilson Vieira deu prosseguimento ao seu tra-
tinham valor econômico, passou a vendê- balho, inclusive concluindo obras inacabadas
-las na feira, vindo, assim, a cooperar para o da mãe. Dona Helena reside, através de sua
sustento da família. obra, em várias cidades do Brasil e da Europa,
Dona Helena, como era conhecida, casou em praças, igrejas e residências. Em Juazeiro,
cedo, teve nove filhos e adotou mais uma me- os bustos de Luiz Gonzaga (no largo do Socorro)
nina. Morava na Rua Santa Cecília, esquina e de Floro Bartolomeu (na Avenida Dr. Floro)
com Rua da Conceição, pelo antigo traçado levam sua assinatura.
a que as ruas obedeciam. Lá, criou a Oficina
Santa Helena, conjugada com sua residência,
de número 25, seguida por outras sete casas
de morada, até o Grupo Escolar Padre Cícero.

30  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 12
Oficina Santa
Helena, da artista
plástica Helena
Vieira, que ficava no
cruzamento da rua
Santa Cecília com
Rua da Conceição,
no antigo traçado
urbano. O espaço
já se encontrava
em desapropriação
na época da
construção
do Memorial
Padre Cícero.

Muito Antes do Memorial Padre Cícero 31


Antigas atrações
do entorno

32  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


O CIRCO NERINO
ɏɏPara saber mais:
O espetáculo vai começar!, p. 106

P ertencia à família Avanzi, de origem ita-


liana, e circulava por todo o Brasil desde
1913. Tornou-se uma grande referência na arte
Como os grandes circos, o Nerino apre-
sentava seus espetáculos em dois momentos.
No primeiro, vinham as acrobacias, malabares,
circense, percorrendo boa parte do território globo da morte, palhaços, entre outras atrações.
nacional durante mais de 50 anos. Chegou A seguir, peças teatrais. Chegou a incorporar,
ao Juazeiro, pela primeira vez, em 1948. Filas inclusive, um palco ao interior da lona, tornan-
enormes se formavam na Praça São Vicente do-se um grande circo-teatro, apresentando
para prestigiá-lo. Em 1953, registrou-se a sua peças de temática sacra e do cotidiano.
última passagem pela cidade.

Imagem 13
Tenda do
Circo Nerino,
montado na praça
São Sebastião,
na cidade de
Fortaleza - CE,
em 1953. Coleção
Circo Nerino,
Acervo Centro de
Memória do Circo/
SMC/PMSP.

Muito Antes do Memorial Padre Cícero 33


A FESTA DO SÉCULO
ɏɏPara saber mais:
E a luz chegou!, p. 110

E m 28 de dezembro de 1961, foi realizada


a Festa do Século. Era a celebração da
eletrificação do Cariri, da inauguração ofi-
memorações se encerraram com uma festa no
Treze Atlético Juazeirense, com Neir Sobreira
sendo escolhida a Miss Cinquentenário.
cial da Praça do Cinquentenário e do Centro A eletrificação do Cariri mudava os ru-
Municipal de Artesanato, tudo como parte mos do desenvolvimento local e a vida
das comemorações dos 50 anos de emanci- cotidiana da população. A partir de então,
pação de Juazeiro do Norte. as indústrias e o comércio teriam outro rit-
Muitas autoridades, de âmbito nacional, mo de funcionamento, pois a luz passava a
estadual e regional, se fizeram presentes. ser ininterrupta. Bens de consumo, como
Uma placa comemorativa fora afixada em ferros elétricos, enceradeiras, geladeiras e
frente ao Centro de Artesanato e feita uma outros, passaram a fazer parte das residên-
homenagem póstuma ao Sr. Antônio José cias. Os cinemas, que até então dispunham
Alves de Souza, Presidente da CHESF, que de uma única exibição às 19h, passaram a
falecera dez dias antes da inauguração. As co- oferecer outras sessões, à noite.

Imagem 14
Recepção da
comitiva da CHESF
e do Governo do
Estado do Ceará,
no aeroporto de
Juazeiro do Norte,
por ocasião da
Assembleia Geral
de constituição
e instalação da
Companhia de
Eletricidade do
Cariri (CELCA).

34  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


A FEIRA INDUSTRIAL DO CARIRI (FIC)
ɏɏPara saber mais:
A primeira Feira Industrial do Cariri (FIC), p. 115

A I Feira Industrial do Cariri (FIC) acon-


teceu em 1967. O Rotary, o Lions e a
Câmara Júnior eram apoiadores. O local
por Dona Zuíla Morais, fez a alegria da cida-
de. Diversas autoridades políticas se fizeram
presentes, assim como a comunidade local.
escolhido para sediá-la foi o Treze Atlético A Feira Industrial do Cariri acabou tor-
Juazeirense. Foram organizados stands com nando-se um embrião de futuras iniciativas
muitos produtos industrializados à venda, de caráter semelhante, como foi o caso da
área de alimentação e programações cultu- Feira de Negócios do Cariri (FENEC), rea-
rais. Caubi Peixoto e Ângela Maria foram as lizada pelo SEBRAE em várias edições
atrações artísticas da abertura. Até uma boa- e em parceria com outras instituições,
te, com o nome de Maria Bonita, organizada alguns anos adiante.

Imagem 15
Visita do Vice-
Governador do
Estado do Ceará,
General Humberto
Ellery à I FIC, na
sede social do
Treze Atlético
Juazeirense.

Muito Antes do Memorial Padre Cícero 35


36  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
O Memorial

Padre Cícero
por Cristina Holanda

O Memorial Padre Cícero 37


A CONSTRUÇÃO

N a década de 1980, o então prefeito de Juazeiro do Norte, Manoel


Salviano Sobrinho, decidiu construir o Memorial Padre Cícero, uma
obra grandiosa, para homenagear o patriarca da cidade e presentear a po-
pulação com um novo equipamento cultural que pudesse, entre outras
atribuições, abrigar “relíquias” do sacerdote que ainda estivessem em poder
de muitas famílias locais. Sua inspiração partiu do Memorial JK, em Brasília.
O projeto de construção do Memorial foi assinado por Sérgio de Souza, Imagem 16
Maquete do
da SERGEN – Serviços Gerais de Engenharia, empresa do Rio de Janeiro, e Memorial Padre
levou dezoito meses para ser executado, entre 1987 e 1988. Cícero.

38  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 17
Projeto
arquitetônico
do Memorial
Padre Cícero,
feito pelo
arquiteto Jorge
de Souza.

O Memorial Padre Cícero 39


Imagem 18 Imagens 19 e 20
Demolição da praça Obras do Memorial
do Cinquentenário Padre Cícero,
para a construção em 1987.
do Memorial.

Imagem 21
Construção das
praças do entorno
do Memorial.

40  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 22
Governador do
Estado, Tasso
Jereissati, junto
às autoridades
políticas da região
do Cariri, dando
entrevista no
canteiro de obras
do Memorial, em
julho de 1987.

Imagem 23
Lateral do prédio
da Fundação
Memorial Padre
Cícero, no dia da
inauguração.

O Memorial Padre Cícero 41


A INAUGURAÇÃO

O Memorial Padre Cícero foi inaugurado com grande solenidade no dia


22 de julho de 1988, data em que tradicionalmente se comemora a
emancipação política de Juazeiro do Norte. A cidade acordou com uma alvo-
rada festiva, que anunciava o novo feito. Um mar de gente veio prestigiar o
momento. Prefeitos da região do Cariri e de outras cidades do Ceará estavam
presentes. Governadores e Secretários de vários Estados do Brasil, sobretudo
do Nordeste, vieram conferir a inauguração e se congratular com o Presidente
da República, José Sarney, que se deslocou especialmente para a ocasião.

Imagem 24
Discurso do
Presidente
da República,
José Sarney, na
inauguração do
Memorial.

42  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 25
Frei Damião
visitando as
instalações do
Memorial, antes
da inauguração
oficial.

Imagem 26
Solenidade de
inauguração do
Memorial Padre
Cícero. Da direita
para a esquerda
estão o Presidente
da República,
José Sarney, o
Governador do
Estado do Ceará,
Tasso Jereissati, e o
Prefeito Municipal,
Manoel Salviano
Sobrinho.

O Memorial Padre Cícero 43


Imagem 27
Inauguração do
Memorial Padre Cícero,
em 22 de julho de 1988.

44  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


O Memorial Padre Cícero 45
Imagem 28
Convite para a
inauguração do
Memorial Padre Cícero.

46  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


A MISSÃO

A entidade mantenedora do Memorial, a Fundação Juazeiro do Norte, foi


criada pela Lei Municipal nº 1.439, de 9 de maio de 1989. Posteriormente,
em 20 de março de 1993, recebeu a denominação atual: Fundação Memorial
Padre Cícero (FMPC). Conforme seu Estatuto, sua finalidade principal é a de
“promover, preservar e divulgar a memória e a tradição da cultura material
e imaterial de Juazeiro do Norte, notadamente quanto aos aspectos da vida
do Padre Cícero Romão Batista”.
Ao longo de seus 30 anos, a instituição acolheu a todos: pesquisadores, artis-
tas, estudantes, turistas e romeiros, do Ceará e do mundo. Tornou-se, ao longo
dos anos, um território que agrega não apenas os valores do patrimônio cul-
tural do Cariri. É também um espaço de devoção dos mais visitados do país.

Imagem 29
Oratório com
imagem do Padre
Cícero Romão
Batista.

O Memorial Padre Cícero 47


O MUSEU

O Museu conserva um acervo variado, composto por mais de 2.000 peças,


entre mobílias, indumentárias, louças, fotografias, quadros e outros
itens que pertenceram ao Padre Cícero ou que se relacionam com a sua
vida. Parte fica em exposição e outra na biblioteca. É uma coleção cujo nú-
cleo inicial partiu de um acervo dos pesquisadores Daniel Walker e Renato
Casimiro, mas que, depois, foi expandida com várias doações da sociedade
juazeirense, a partir da atuação de uma comissão composta por Abraão Imagem 30
Museu da
Batista, Assunção Gonçalves, Daniel Walker, Nair Silva, Pe. José Alves, Pe. Fundação Memorial
Murilo de Sá Barreto e Renato Casimiro. Padre Cícero, 2018.

48  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 31
Chapéu do
Padre Cícero.

Imagem 32
Paramento
dourado. O mais
usado pelo Padre
Cícero, na época do
“Milagre da Hóstia”
entre 1889 e 1891.

Imagem 33
Primeira máquina
de datilografia
de Juazeiro do
Norte, adquirida Imagem 34
pelo Padre Cícero, Romeiros visitando o
por volta de 1930, Museu do Memorial,
para os Correios recém-inaugurado.
e Telégrafos.

O Memorial Padre Cícero 49


50  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
Imagem 35
Romeiros
visitando o Museu
do Memorial
Padre Cícero,
recém-inaugurado.
A BIBLIOTECA

A Biblioteca, por sua diversidade de suportes, pode ser considerada um


Centro de Documentação. Possui livros, revistas, jornais, fotografias,
documentos impressos e manuscritos, que também tratam da trajetória do
Padre Cícero, bem como das personalidades históricas relacionadas à sua
vivência, do município de Juazeiro do Norte e da região do Cariri. Tem por
objetivo atender prioritariamente a comunidade acadêmica (estudiosos e
pesquisadores), bem como os demais interessados nesses temas. Em 2017,
foram contabilizados mais de 12 mil itens em seu recinto.

Imagem 36
Missal utilizado
pelo Padre Cícero.

52  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 37
Jornal O Rebate,
o pioneiro do
jornalismo impresso
de Joaseiro, que
funcionou de
1909 a 1911, com o
objetivo de apoiar
o movimento que
reivindicava a
emancipação política
da localidade.
Imagem 38
Carta do Padre
Cícero a um afilhado,
datada de 1931.

O Memorial Padre Cícero 53


Imagem 39
Livro Breviarium
Romanum,
pertencente
originalmente
ao acervo da
Biblioteca de
José Marrocos.

Imagem 40
Livro de registro
que contém a
certidão de óbito
do Padre Cícero.

54  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 41
Fragmentos de um
manuscrito , com uma
mensagem para uma
afilhada, assinado
pelo Padre Cícero,
datado de 1924.

O Memorial Padre Cícero 55


UM CENTRO DE EVENTOS

P or comportar um amplo auditório, com 350 lugares, o Memorial se


transformou em um dos palcos mais requisitados da região do Cariri,
abrigando grandes eventos, de natureza diversa (políticos, administrativos,
Imagem 42
I Simpósio
Internacional:
“Padre Cícero e os
sociais, religiosos e culturais), embora sua prioridade seja a de impulsionar Romeiros”, realizado
ações de formação, como simpósios, seminários e colóquios, cujas temáticas pela Universidade
Regional do Cariri e
dialoguem ou se relacionem com a história do Padre Cícero Romão Batista Prefeitura Municipal
e a cidade de Juazeiro do Norte. Para tanto, tem estabelecido ao longo dos de Juazeiro do Norte,
anos várias parcerias com universidades e instituições afins. Destacam-se no período de 17 a 20
de abril de 1988, antes
como um dos principais eventos sediados, os Simpósios Internacionais da inauguração oficial
sobre o Padre Cícero. do próprio Memorial.

56  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 43
II Simpósio
Internacional:
“Juazeiro do Padre
Cícero e a beata
Maria de Araújo:
Um contexto de
milagre”, realizado
no período de 15
a 19 de setembro
de 1989.
Imagem 46
Simpósio “Mediunidade,
Misticismo e Beatos – Paralelos
Vivenciais”, realizado no
período de 27 a 31 de março
de 1990, pelo Memorial.
Imagem 44
Seminário “100
anos de Mestre
Noza”, realizado
pela Prefeitura
Municipal, no
período de 25 a
27 de fevereiro
de 1997.

Imagem 45
Simpósio Nacional
“100 anos de Imagem 47
Lampião”, realizado Cartaz do III Simpósio
no período de 4 a Internacional, realizado
7 de julho de 1997. em 2004.

O Memorial Padre Cícero 57


58  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
OS DIRIGENTES

P ela instituição, já passaram vários Presidentes, nesses quase 30 anos de


sua existência: Abraão Bezerra Batista, José Bendimar de Lima, Geraldo
Menezes Barbosa, João Batista Menezes Barbosa, Maria do Carmo Ferreira
da Costa, Antônio Renato Soares de Casimiro, Altamiro Pereira Xavier
Júnior, Ricardo Ferreira Lima, Marcelo Henrique Fraga Rodrigues, Antônio
Chessman Alencar Ribeiro, Solange Maria Tenório Cruz e Cristina Rodrigues
Holanda (desde janeiro de 2017).

Ex-Presidentes Memorial Padre Cícero:

1988 a 1996 Abraão Batista


1997 a 2000 José Bendimar de Lima
2001 a 2004 Geraldo Barbosa
2005 a 2008 João Barbosa
2009 Maria do Carmo Ferreira
2010 Renato Casimiro
2011 Altamiro Junior
2012 Ricardo Lima e Marcelo Fraga
2013 a 2014 Chessman Alencar
2015 a 2016 Solange Cruz

Imagem 48
Celebração da missa
comemorativa
dos 150 anos de
nascimento do
Padre Cícero, com
a presença de 150
sacerdotes, na
praça do Socorro.

O Memorial Padre Cícero 59


60  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
Para

Saber Mais
por Regivania Rodrigues

Para Saber Mais 61


O QUADRO GRANDE

E m visita ao Joaseiro, no ano de 1856, o escritor Dias Sobreira descreve as


suas impressões sobre o lugar:

O povoado, nesse tempo, compunha-se de umas sessenta casas de taipa, umas co-
bertas de telhas e outras de palha de carnaúba ou de palmeira. A disposição dellas
não obedecia à regra natural de arruamento. Logo na entrada do povoado, come-
çavam duas fileiras de casas, sem guardar a equidistancia, no seu prolongamento.
Ao seguir iam ellas affastando-se, de modo que, tendo no começo uns vinte metros
de largura, terminavam com mais de cem metros ao chegar à igreja, e assim ainda
hoje conservam-se. Não havia estética, nem nexo, naquella formação de arruamento
(SOBREIRA, 1921, p. 83).

E as coisas vão mudando. O tempo corre. Era assim no início da segunda


metade do século XIX. O Padre Cícero ia incentivando os moradores das
áreas mais distantes a fazerem casas na rua. As terras do patrimônio de
Nossa Senhora das Dores se estendiam do rio Salgadinho até a pendência das
águas, em direção às Timbaúbas. Conta-se que o encarregado dessas terras
era José Leandro, um neto do brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, uma
espécie de agrimensor improvisado. Era seu trabalho vender a terra, dividir
os terrenos e ainda alinhar as ruas. O preço era um vintém por palmo, o que
equivalia a vinte réis na moeda antiga. Sempre orientado pelo Padre Cícero,
Zé Leandro foi aumentando a rua da Matriz e a praça da Igreja. Prolongou
a Rua Nova (atual Dr. Floro) e melhorou a capelinha de Nossa Senhora do
Rosário, no cemitério3, que ficava nessa mesma rua.

3 Na antiga Rua Nova, atual Av. Dr. Floro, havia um antigo cemitério, junto do qual se ergueu uma
pequena capela em honra a Nossa Senhora do Rosário. A capela servia inicialmente aos escravos
da fazenda Tabuleiro Grande. A imagem da santa foi adquirida pelo Padre Pedro Ribeiro, neto do
Brigadeiro. Veio de Portugal, juntamente com a primeira imagem de Nossa Senhora das Dores. Foi
nessa capela do cemitério velho, como era conhecido, que foram enterrados o Brigadeiro Leandro
Bezerra Monteiro e sua esposa Rosa Josefa do Sacramento (OLIVEIRA, 1969).

62  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Pouco depois, num depois que ninguém espiou pra marcar, foram abrindo
mais casas de comércio. Foi chegando mais gente pra vender e pra comprar,
fixando moradia no Joaseiro. O Padre Cícero iniciou um plano de organização
urbana e o Quadro Grande começou a ser talhado, fazendo nascer as ruas Grande,
São José e Santa Rosa. A Rua Grande, como o próprio nome diz, era a maior rua
da época, e é atualmente a Rua Padre Cícero. Depois cortou as ruas São Francisco
e do Cruzeiro. O traçado do pequeno povoado começava a ganhar novos ares.

Já se podia chamar de povoado. Joaseiro crescia. A rua Nova se prolongava em dire-


ção às Malvas. A Rua do Padre, a São José e a Santa Rosa se estendiam em paralelas,
direcionadas ao sítio Pedrinhas, estrada do Crato. Como também recebiam o mesmo
impulso e prolongamento as ruas do Cruzeiro, São Francisco, Conceição e Santa Luzia.
Novas ruas se iniciavam, com suas margens construídas e com casas de taipa, meia
água, entremeadas por prédios de alvenaria (MENEZES, 2012, p. 122).

O Quadro Grande estava dividido. Naquele momento, nascia o que hoje


se conhece como Praça Padre Cícero. A porção de terra mais concentrada no
atual bairro do Socorro permanecia com a Feira do Capim até os primeiros
anos da década de 1920, quando José Geraldo da Cruz recebeu autorização do
Bispado do Crato para construir a Capela em honra a São Vicente de Paulo, sob
a coordenação dos vicentinos. A Feira foi, então, transferida para fora do eixo
central da cidade, local onde hoje é a Prefeitura Municipal. Por lá, permaneceu
por um longo período.

Imagem 49
Desenho artístico do
Tabuleiro Grande,
na primeira metade
do século XIX.

Para Saber Mais 63


64  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
Imagem 50
Terreno para onde
A FEIRA DO CAPIM
foi transferida a
Feira do Capim, O Povoado ia crescendo: aumentavam as casas localizadas sempre em torno da Capela
na década de 1920. e ao longo das proximidades da margem do Rio Salgadinho. E foram surgindo os
Ao fundo, vê-se a
Rua Carlos Gomes, aglomerados: ‘Cacimba do Povo’, ‘Rua do Brejo’, ‘Feira do Capim’, ‘Mercado Velho’.
em formação. Mais adiante — Bôca de Cobra, Volta, Salgadinho, Mochila, Comboeiro, (Malvas)
Nos dias atuais, o (OLIVEIRA, 1969, p. 35).
local corresponde à
Praça da Prefeitura.
Uma réstia de noite ainda está aparecia, enquanto o sol começava a es-
tender seus primeiros braços de luz sobre o Joaseiro. É a terra da fé e do
trabalho. O dia mal abria o olho e os animais já iam se ajuntando, tangidos
por Bigodeiro, Zé Roseno e Manuel Baião4, que logo traziam seus animais
pro carrego. Assim como eles, outros que se ocupavam do mesmo afazer pro-
curavam lugar no espaçoso terreiro, o Quadro Grande. Os animais eram pra
carregar tudo quanto era coisa: material de construção, alimento, utensílios.
O aluguel dos animais de carga foi aos poucos gerando um pequeno co-
mércio. Para manterem os animais, os agricultores das proximidades da serra
do Catolé e arredores traziam e comercializavam capim pra dar de comer
pros bichos. O movimento se concentrava mais na porção de terra onde hoje
está localizado o largo do Socorro. Por causa da forrageira para alimentar os
animais, o lugar passou a ser conhecido como Feira do Capim. E o povo se
juntava pra vender, comprar, botar as conversas em dia. Em pouco tempo já
se vendia de tudo: tora de cana, café, tapioca, bolo de macaxeira, amendoim
e até a famosa garapa de cana de seu Zé Chaves. Desde de manhãzinha até
a noite, o povo ficava por ali, ouvindo as músicas que o Cego da Lata, vinha
da Rua do Horto, vinha cantar.

4 Citados por Daniel Walker (2017).

Para Saber Mais 65


UMA PROMESSA À VIRGEM DO SOCORRO

O s custosos anos de suspensão de ordens do Padre Cícero lhe impri-


miram sérios danos à saúde. A conturbada situação levou influentes
comerciantes locais, como Manoel Vitorino (chegado ao povoado de Joaseiro
nas primeiras levas de romeiros), a se unirem aos comerciantes da capital
junto ao Bispo Dom Joaquim José Vieira. Essas iniciativas geravam no sacer-
dote lampejos de esperança na reversão da sentença imposta.

Tomamos no devido apreço o pedido da ilustre Comissão, mas não podemos satisfa-
zer seu desejo porque a questão está afeta ao Santo Ofício, que, por três vezes, já se
pronunciou sobre ela. Dirijam-se, pois, os interessados a este Santo Tribunal, que é o
competente para resolver o caso proposto.

Fortaleza, 30 de março de 1906.

Ass. Joaquim, Bispo Diocesano (OLIVEIRA, 1969, p. 124).

A resposta do Bispo Dom Joaquim, acrescida de outras portarias e severas


advertências, lançou as expectativas do Padre Cícero ao solo, debilitando-o
de forma tal que se prostrou por quatro meses, acometido de erisipela, uma
doença infecciosa, caracterizada por uma inflamação da pele.
O estado físico e emocional do Padre causava preocupações e constantes
investidas junto ao campo celestial, por parte das pessoas que lhe eram
mais próximas. Uma delas, Hermínia Marques de Gouveia, lançou suas
intenções a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, para que intercedesse por
seu conselheiro espiritual. Ao alcançar a graça, havia ela de construir uma
capela em sua honra.
Hermínia nasceu em 1871 na vila de Jardim (CE). Casada com um homem
simples e pacato, criador de canários, o que lhe rendeu o apelido de João
Canário, não teve filhos. Sua chegada em Joaseiro se deu em 1891. Conta-se que
era uma mulher dedicada aos afazeres domésticos e muito dada a contribuir Imagem 51
com o que se fizesse necessário. Sofreu calúnias que feriam sua honra, por mui- Capela de Nossa
Senhora do
tas vezes ser confundida com uma beata. O Padre Cícero fazia pessoalmente Perpétuo Socorro,
seu acompanhamento espiritual, dada a necessidade que a mulher apresentava. na década de 1940.

66  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Para Saber Mais 67
Imagem 52
Concentração
da população à
frente da Capela
do Socorro
após a missa,
década de 1950,
aproximadamente.

68  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Consta que Hermínia tinha visões e fora orientada pelo Padre a registrá-las
no papel, pois escrevia e lia muito bem. Não se sentia à vontade com o que
a acometia, sentimento este que a fez queimar alguns dos seus escritos e
enterrar outros, pouco antes de sua morte. A atitude desagradou seu orien-
tador espiritual, que mandou desenterrar os papéis, dos quais não restaram
praticamente nada, pois havia chovido na noite anterior.
Nos primeiros sinais de recuperação do sacerdote, Hermínia apressou-se
em cumprir com o seu prometido. O lugar escolhido era o terreno da capela
destinada para o novo cemitério. Iniciada a obra, os trabalhos foram logo
suspensos pelo Padre Quintino de Oliveira e Silva, que seguia ordens de Dom
Joaquim, e logo se tornaria o primeiro Bispo da Diocese de Crato.
Imagem 53
Capela de Nossa Determinada a cumprir a sua promessa, Hermínia pede a Dr. Floro
Senhora do Bartolomeu da Costa que advogasse pela continuação da obra, pois, já debi-
Perpétuo Socorro, litada por doença, temia morrer sem ver a sua conclusão.
na década de 1940.
Padre Cícero comprometeu-se com as despesas decorrentes da continui-
dade da construção. Não querendo se colocar diretamente, Floro orienta
José Xavier de Oliveira, que trabalhava no erguimento da capela, a con-
versar com o clero, já que gozava de afeição junto à Igreja. E assim se fez.
O Padre Quintino permitiu de pronto, com a condição de nenhum envolvi-
Imagem 54 mento do Padre Cícero.
Padre Silvino
Moreira Dias,
Parecia mais um capricho e o P. Cícero já com o côro duro de tantas bordoa-
primeiro sacerdote
da capela de das daquela natureza, resignado, se dispoz, sem que o seu nome aparecesse,
Nossa Senhora do a concorrer com o necessário, até com o dinheiro. De modo que, qualquer outro
Perpétuo Socorro.
christão por mais pecador que fosse, poderia fazer a obra, menos o Padre Cícero
(COSTA, 2010, p. 61).
Imagem 55
Hermínia Marques Paredes erguidas e teto feito, morre Hermínia Gouveia. Diante do
de Gouveia, cuja
promessa pela seu empenho, o Padre Cícero decide enterrar a mulher na capela, cuja
saúde do Padre existência se devia, em maior parcela, a sua pessoa. Sabendo da inten-
Cícero resultou na ção, o Padre Quintino envia um emissário para proibir tal ação, mas era
construção da Capela
de Nossa Senhora do tarde, pois Hermínia já repousava eternamente no interior de sua pro-
Perpétuo Socorro. messa materializada.

Para Saber Mais 69


Nova proibição imposta à conclusão da capela, que Floro Bartolomeu
ignorou completamente, argumentando que o submetido às ordens da
Igreja era o Padre Cícero e não ele. Deu prosseguimento aos trabalhos, até
concluir os acabamentos, conforme relata José Xavier de Oliveira.

A mandado do Pe. Cícero, pedi ao vigário Quintino, licença para fazer a Capela do
cemitério. Quando as paredes já tinham cerca de 2m de altura, veio aqui o vigário
e foi olhar o trabalho; achou que eu estava ‘fazendo uma Igreja grande e não uma
capela de cemitério como havia pedido licença’. Ficou zangado; mas eu suportei sua
zanga, calado, depois de lhe haver dito que, de futuro, aquela Capela seria pequena
para caber o povo que já era muito (OLIVEIRA, 1969, p. 127).

A obra foi concluída, mas não pôde sediar nenhum ato religioso, pois
a Diocese não permitiu que a capela fosse benta. Em plena guerra de 1914,
a 17 de janeiro, morre a beata Maria de Araújo, principal protagonista do
Milagre do Joaseiro. A oralidade logo dá a sua versão para a morte, contan-
do que a religiosa ofereceu sua vida pela vitória do Joaseiro, já emancipado
do Crato, mas ameaçado de ser invadido pelas forças do Governo de
Franco Rabelo. A mando do Padre Cícero e à revelia da Igreja, a beata foi Imagem 56
enterrada num túmulo na Capela do Socorro, preparado por José Xavier, Convite da missa
de 7º. dia da morte
que trancou o caixão e entregou a chave ao Padre. O túmulo ficava no do Padre Cícero.
lado direito de quem entra na porta principal. Foi violado e destruído,
em 1930, pelo então vigário de Joaseiro, Monsenhor José Alves Lima, sob
o argumento de reforma física do local.
Sem autorizações expressas do clero, também foram enterradas no in-
terior da capela: Maria Joaquina, funcionária da casa do Padre; D. Quinou
e Angélica, mãe e irmã do Padre Cícero, respectivamente. Em dezembro
de 1921, indignados com o veto do clero à utilização da capela, alguns
beatos e devotos invadiram o local e passaram a noite em vigília, rezando
e cantando, vindo a se retirar com a intervenção do Padre Cícero.
Somente 24 anos após a conclusão da obra da Capela é que a Diocese
finalmente, em 10 de junho de 1932, benze e autoriza as atividades reli-
giosas no local. Suspenso de ordens desde 1892, o Padre Cícero nunca

70  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 57 celebrou na tão conflituosa capela, que veio a tornar-se um verdadeiro
Década de 1970, santuário, ao fazer-se sua última morada, em 20 de julho de 1934.
aproximadamente,
com o antigo Ao longo de sua existência, a capela passou por algumas reformas e
traçado urbano hoje se mantém como importante patrimônio da história da cidade. Para
a que o espaço lá se deslocam milhares de pessoas vindas de vários Estados do Nordeste
obedecia.
e outros pontos do país, para pedirem ou agradecerem graças, especial-
mente no feriado de Finados.

Para Saber Mais 71


72  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
OS VICENTINOS

J osé Geraldo da Cruz Bezerra de Menezes nasceu no sítio Santa Clara, em 8


de outubro de 1889, mesmo ano em que a hóstia se derramava em sangue
na boca da beata Maria de Araújo. Estudou com o professor José Marrocos,
no Colégio São José. Em 1913, abriu um estabelecimento de manipulação,
a Pharmácia dos Pobres, na Rua Padre Cícero, em atividade até os dias de
hoje, com a venda de seu principal produto: o Bálsamo da Vida.
Na atividade profissional, atendia como clínico, enfermeiro, parteiro,
ortopedista, traumatologista, dentista, otorrino e massagista. Casou-se duas
vezes e teve dezessete filhos. Muito comprometido com o desenvolvimento
de sua cidade, fundou a União Comercial, que posteriormente passou a se
chamar Associação Comercial de Juazeiro do Norte. Entrou na vida políti-
ca a partir dos anos 1930. Ocupou por cinco vezes a função de Prefeito de
Juazeiro. Criou a União Beneficente, associações dos Pedreiros, dos Volantes,
entre outras. Fez parte da comitiva que contribuiu para a criação do Grupo
Escolar Padre Cícero.
Passou a integrar a Conferência Vicentina em 1916, imprimindo aí uma
ação de dinâmica liderança e reunindo centenas de integrantes à causa.
A Sociedade de São Vicente de Paulo ou Conferência Vicentina, como ficou
mais conhecida, uma organização civil de leigos, formada por homens e
mulheres dedicados ao trabalho cristão de caridade. O movimento surgiu
em maio de 1833, em Paris, por iniciativa de Antoine Frédéric Ozanam e
mais seis jovens universitários e católicos, com o intuito de aliviar o sofri-
mento de pessoas vulneráveis, fortalecendo sua fé. Inicialmente chamava-se
Imagem 58
Confraternização
Conferência da Caridade, tendo sido oficializada como Sociedade de São
dos Vicentinos no Vicente de Paulo somente em 1835.
sítio Catolé, de São Vicente de Paulo é o ícone católico conhecido como Santo das Obras
propriedade de
José Geraldo da
de Caridade. Presente em 150 países do mundo, no Brasil foi fundada em 1872,
Cruz e sua esposa chegando a ter, nos dias atuais, mais de 153 mil membros.
Maria Estácio Em 1922, o vigário da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, Padre
da Cruz, após a
cobertura da capela
Pedro Esmeraldo da Silva, e José Geraldo da Cruz, já haviam criado algu-
de São Vicente. mas Conferências Vicentinas na cidade de Joaseiro. No mesmo ano, José

Para Saber Mais 73


Geraldo adquire, com recursos próprios, uma parcela de terra comprada do
Tenente José Dias Guimarães. Consegue autorização do Bispado do Crato
para a construção de uma Igreja em honra a São Vicente, e se iniciam as
obras, nas extremidades do que fora anteriormente conhecido como Quadro
Grande. A pequena capela ainda existe até os dias atuais, no encontro das
ruas Monsenhor Joviniano Barreto e Leandro Bezerra.

Para tanto, tivemos que carregar tijolos (na cabeça) do Sítio Volta até o centro da
cidade. Valeu a pena o sacrifício. À frente da multidão, caminhava o beato José, con-
duzindo uma bandeira, a bandeira da vitória. Construímos a capela, mas faltava o sino.
Ao tomarem conhecimento de um sino de propriedade do Cel. Antônio Fernandes,
os interessados pela aquisição do referido objeto negociaram com ele, e o resultado
não foi outro senão a compra do sino que ainda hoje badala naquele templo, chamando
os fiéis à oração (RIBEIRO, 1992, p. 43-44).
Imagens 59 e 60
Como se tratava de uma obra assistencialista, os trabalhos de construção Padre Pedro
Esmeraldo da Silva e
foram feitos em etapas. Para fazer o telhado do pequeno templo católico, foi José Geraldo da Cruz,
realizada, sob a organização de José Geraldo, a Festa da Cumeeira. Todos os respectivamente,
integrantes se reuniram para o trabalho, que aconteceu de forma colabo- responsáveis
pela criação das
rativa, ao som da Banda de Música da Família Soares e com muita comida. Conferências
Uns faziam o emadeiramento, enquanto outros já conduziam as telhas, que Vicentinas em
iam sendo transportadas até a parte superior por outras mãos, e assim por Joaseiro.

diante. Uma grande festa, que foi noticiada até na Revista O Malho, do Rio
de Janeiro, em 1923.
Após a conclusão dos trabalhos, todos seguiram para uma confraterniza-
ção no sítio Catolé, de propriedade de José Geraldo da Cruz e de sua esposa,
Maria Estácio da Cruz.

74  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 61
Momento de
descontração na
confraternização
dos Vicentinos no
Sítio Catolé, junto
aos integrantes da
banda de música
da Família Soares.

Imagem 62
Vicentinos após
reunião na capela
de São Vicente de
Paulo, em 1923.

Para Saber Mais 75


A CASA DE IMPOSTOS DA RUA SANTA ROSA

N o encontro da Rua Santa Rosa (Av. Monsenhor Joviniano Barreto) com


a Rua do Salgadinho (Leandro Bezerra), ficava um bonito bangalô onde
funcionava a Coletoria Estadual, como também a residência do Coletor,
que geralmente vinha de outra cidade e ficava em Juazeiro por uma tem-
porada. O Sr. Jesus Rodrigues, um dos mais antigos coletores, veio à cidade
trabalhar por uma temporada, mas resolveu ficar, dada a afeição que de-
senvolveu pelo lugar.
Nas suas pesquisas para escrever o livro Milagre em Joaseiro, na década
de 1970, Ralph della Cava encontrou um importante documento nos arqui-
vos dos salesianos, apresentado à Assembleia Legislativa do Ceará em 1º de
janeiro de 1909, provavelmente organizado por Floro Bartolomeu. Havia
nele a descrição do povoado, que já contava à época com dois cemitérios,
uma bolandeira de algodão, 18 engenhos de ferro para cana e quatro de
madeira, Estação Telegráfica, Agência dos Correios, Coletoria Estadual e
Cartório de Registro.
Muito provavelmente, a Coletoria não estava instalada nas dependências
da Rua Santa Rosa, o que se supõe que tenha vindo a acontecer entre as dé-
cadas de 1930 e 1940. Um dos últimos moradores dessa casa foi Sr. Orlando
Rocha, Coletor Estadual nos anos 1950. Logo depois, o prédio da Coletoria
foi adaptado para receber as instalações do Treze Atlético Juazeirense.

76  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 63
Vista panorâmica
do prédio da
Coletoria Estadual
e do Grupo Escolar
Padre Cícero,
a partir da rua
Santa Rosa.

Para Saber Mais 77


78  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
A INSTRUÇÃO PÚBLICA E O
GRUPO ESCOLAR PADRE CÍCERO

E m tempos remotos, o primeiro responsável pela Capela de Nossa Senhora


das Dores, o Padre Pedro Ribeiro, já alfabetizava e ensinava a doutrina cristã
aos meninos de sua família e a alguns filhos de escravos. Por volta de 1860, foi
criada, na povoação, a primeira Escola Régia, que tinha como professor o Padre
Antônio de Almeida. Logo, em 1865, o padre seguiu como voluntário para a
Guerra do Paraguai, vindo a ser substituído pelo Professor Semeão Correia de
Macêdo, que teve como seu subsequente o irmão, Pedro Correia de Macêdo.
O ensino era limitado somente a meninos, que aprendiam a ler, a escrever, a fazer
contas e obtinham noções de teoria musical, para comporem a Banda de Música
local, mantida pelos irmãos Climério e Pelúsio Macêdo, filhos do professor.
Pelos idos de 1876, iniciava-se o ensino para meninas, sob a regência de Dona
Naninha, uma moça recém-chegada do Riacho do Sangue5, onde já trabalhava
no ensino particular. Sob sua tutela, traz consigo uma criança por nome de
Joana Tertulina de Jesus, que se tornaria, anos à frente, administradora da casa
e dos interesses do Padre Cícero e que ficou conhecida como Beata Mocinha. Era
lá que as meninas aprendiam a ler, a escrever, a fazer contas e alguns trabalhos
domésticos, como renda de almofada e costura em máquina de mão.
Seguiram-se outras iniciativas de ensino, tendo como professoras Dona
Carolina Gonçalves Sobreira e Dona Generosa Moreira Landim, com escolas
para meninos e para meninas, separadamente. Sob a orientação e vigilância
do Padre Cícero, os mestres Guilherme Ramos de Maria, Miguel e Joaquim
Siebra também ofereciam seus ensinamentos em escolas para meninos.
Em 1896, mais uma escola feminina abre as portas, sob a condução da
Imagem 64 professora Isabel Montezuma da Luz, beata do padre Felix, de Missão Velha.
Fachada do Grupo Ainda na década de 1890, a também beata Maria Cristina de Jesus Castro,
Escolar Padre
Cícero, construído conhecida como Cotinha, que fora diplomada na Escola Normal do Rio
na administração Grande do Norte, assume outra escola, frequentada por crianças e adultos,
de José Geraldo com aulas inclusive no período noturno, cujo ensino era voltado para as
da Cruz, em 1935,
oito anos após sua
criação oficial. 5 Antigo nome do município cearense de Solonópole.

Para Saber Mais 79


domésticas que trabalhavam nas residências das famílias mais abastadas.
Funcionava na sala de visitas da casa da beata Minda da Cruz Neves, que
se localizava onde foi construído, posteriormente, o Colégio Monsenhor
Macêdo, na Rua Padre Cícero, ao lado da Igreja Matriz.
Havia ainda a Escola primária do beato Salú, que funcionou nos anos de
1912 e 1913, encenando peças teatrais com os alunos.

A escola de Salú era uma escola ativa: havia sessões com números de artes, nos quais
tomavam parte os alunos Cícero e Pedro Coutinho, Vicente Xavier de Oliveira (Ferrer)
José e Otacílio de Cincinato Silva, Antônio de Siqueira Filho (Siqueirinha), José e
Demócrito Guimarães. Nas lapinhas, eles funcionavam como os caboclinhos da ‘aldeia’,
dançando com as pastorinhas, que eram as alunas da escola de Isabel da Luz... sua
atuação extraescola foi notável, na época (OLIVEIRA, 1969, p. 236).

O professor José Joaquim Teles de Marrocos, que era também jornalista e


abolicionista, iniciou os trabalhos educacionais em Juazeiro em 1908, com
Imagem 65
o Colégio São José, onde ensinava para alunos já alfabetizados, de ambos os Sobrado do Cel.
sexos, gramática portuguesa, aritmética, além de rudimentos de francês e Manoel Fernandes,
latim. Os melhores trabalhos eram revisados e publicados como artigos no no cruzamento das
ruas Padre Cícero
jornal semanário O Rebate. com São Francisco,
O Joaseiro dos primeiros anos do século XX seguia num ritmo acelerado onde funcionou
de desenvolvimento. A ação do Padre Cícero se fazia presente em pratica- inicialmente o
agrupamento
mente tudo. Em um documento6 municipal de 1909, consta que a povoação das classes para a
apresentava 18 ruas, 4 travessas e uma população de 15.050 habitantes. formação do Grupo
O mesmo documento menciona ainda que, no povoado, já funcionavam Escolar, em 1927.

18 escolas particulares (12 para mulheres e 6 para homens), além de duas


escolas públicas (uma para mulheres e outra para homens). É importante
considerar que desde os tempos iniciais, a estrutura física e funcional das
escolas era equivalente a uma sala de aula.

6 Documento encontrado nos arquivos dos salesianos pelo historiador Ralph della Cava, nas pesqui-
sas para escrever o livro Milagre em Joaseiro (1976).

80  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Escolas estaduais foram instaladas na segunda década do século XX,
regidas por Maria Luiza Furtado e Josefa de Alcântara Leite. Era comum que,
além do trabalho no ensino público, os professores também tivessem sua
própria escola particular, como eram os casos dos Colégios Santa Filomena
e Salete, que levavam os nomes de suas professoras; o Colégio São Miguel,
somente para rapazes, de propriedade de Dr. Manoel Pereira Diniz; o Colégio
São Geraldo, fundado e dirigido pelo professor Edmundo Milfont, que funcio-
nou entre os anos de 1926 e 1931; e o Colégio do Professor Anchieta Gondim.
Todas essas iniciativas fertilizaram o terreno para a proposição de agrupar
algumas escolas num núcleo educacional. Após sua formação no ensino
pedagógico da antiga Escola Normal Pedro II, em Fortaleza (CE), Maria
Gonçalves da Rocha Leal retorna, em 1923, para Joaseiro, sua cidade natal,
e no ano seguinte, já se faz presente no encontro que culminaria na criação
do primeiro Grupo Escolar Estadual. Em 1924, a professora Gonçalves, como
ficou conhecida, foi nomeada para a terceira cadeira docente da cidade,
assumindo a direção do Grupo Escolar Padre Cícero, oficialmente criado em
Imagem 66
Maria Gonçalves 1927, segundo consta de um telegrama enviado pelo Dr. Juvêncio Santana,
da Rocha Leal, que, na época, era Secretário dos Negócios do Interior:
primeira Diretora
do Grupo Escolar
Padre Cícero. Diretor Instrução (Lourenço Filho) acaba me informar que por ato hoje, foi criado
Grupo Escolar dessa cidade sendo nomeada Diretora, Profa. Maria Gonçalves. Para
completar número professores necessário funcionamento Grupo, foi transferida de
Araripe conforme pedido Pedro Silvino, D. Luiza Alencar e nomeada acordo sua pro-
messa a Fenelon (Gonçalves Pita) D. Stela Pita. Presentemente, não é possível outras
nomeações. Saudações. Juvêncio Santana (CASIMIRO, 2017, [s/p.]).

Com o agrupamento das classes, o Grupo Escolar funcionou em termos


provisórios na esquina da Rua Padre Cícero com São Francisco, onde existia
o imponente sobrado do Cel. Manoel Fernandes da Costa. Nos anos de 1940,
o velho casarão cedeu lugar ao palacete da família Viana, existente ainda hoje.
Durante anos, a construção do Grupo Escolar foi promessa política de al-
guns governadores do Ceará, como João Thomé de Sabóia e Silva, Justiniano
de Serpa, José Moreira da Rocha, entre outros. Foi na administração muni-

Para Saber Mais 81


82  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
cipal de José Geraldo da Cruz, com o apoio do Interventor do Estado, Felipe
Moreira Lima, em 1935, oito anos depois de sua criação oficial, que se con-
cluiu a construção do prédio do Grupo Escolar Padre Cícero, na Rua Santa
Rosa, atual Av. Monsenhor Joviniano Barreto.
Posteriormente, no início dos anos 2000, o Grupo Escolar foi extinto
da rede estadual, sendo reinserido no munícipio, em 2005, pelo prefeito
Raimundo Antônio de Macedo, com uma proposta de inclusão de alunos
com necessidades educacionais especiais e uma nova nomenclatura: Escola
de Ensino Infantil e Fundamental Padre Cícero.
O antigo Grupo traz escrito, em seus anais, capítulos importantes da
história educacional de Juazeiro do Norte. Por lá estiveram, na condição de
alunos, importantes nomes da política local e regional, além de profissionais
Imagem 68 que se destacaram nas mais diversas áreas.
Escola Normal Aconteceram, ainda, outras experiências que tiveram grande impor-
Rural, na década
de 1950. tância para a educação não só da cidade, mas também da região do Cariri,
e que não se podem deixar de registar. Em 1927, no Colégio das Doroteias,
em Fortaleza, Amália Xavier torna-se a segunda filha de Joaseiro a ser di-
plomada. Sem uma indicação imediata para o magistério público, abriu um
externato para ministrar aulas particulares, em março de 1928. Iniciativa
que se tornou, mais tarde, o Ginásio Santa Teresinha. Em 1934, foi criada a
primeira Escola Normal Rural do Brasil, instalada na cidade de Joaseiro, como
primeiro Diretor Plácido Castelo Branco, auxiliado pela professora Amália
Xavier, que, logo depois, tornou-se Diretora, ficando à frente da escola por
mais de duas décadas.

Imagem 67
Estudantes da
Escola Normal Rural
na década de 1950.

Para Saber Mais 83


A SAÚDE NA TERRA DO “PADIM”

A quinta edição do jornal semanário Correio do Juazeiro, do dia 13 de


fevereiro de 1949, trazia na capa a matéria de Taumaturgo Nogueira,
intitulada Morrem 60 creanças por dia! O jornal chamava a atenção para a
situação da mortalidade infantil na cidade.
A principal causa da mortandade era uma doença chamada enterite, uma
inflamação na mucosa do intestino delgado, causada geralmente por infecção
alimentar e consumo de água não tratada. Muitas famílias viviam em situa-
ções precárias em termos financeiros, o que incidia diretamente na falta de
uma alimentação adequada e consumo de água potável. Essas circunstâncias
expunham grande parte da população à vulnerabilidade de saúde e bem estar,
sobretudo na fase da infância. Crianças e recém-nascidos apresentavam o
maior índice de patologias.
Em 1924, o Padre Cícero já se empenhava pessoalmente em buscar so-
luções para que essas situações não tomassem grandes proporções. Ainda Imagem 69
neste ano, no dia 8 de julho, foi inaugurado o Posto de Profilaxia e Saneamento Posto de Higiene,
construído na
Rural da Região do Cariri Moura Brasil, cujo primeiro dirigente foi o Dr. José gestão de José
Epifânio de Carvalho, seguido por Dr. Manoel Belém de Figueiredo. O Padre Geraldo da Cruz.

84  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


nomeou ainda Maria Soledade Magalhães como atendente do posto. Com
empenho, a jovem, de apenas 15 anos de idade à época, dedicou-se e foi além
de sua função inicial. Aplicava injeções, vacinas, fazia curativos e manipulava
medicamentos. Frequentemente era solicitada às escolas e residências para
pequenos procedimentos.
Nos idos de 1932, um surto de cólera e varíola acometeu a população de
algumas propriedades rurais, nas imediações da cidade. Juntamente com
Dr. Belém de Figueiredo e o sanitarista carioca Dr. Manoel Rodrigues, Dade,
como ficou conhecida a dedicada enfermeira, trabalhou empenhadamen-
te. Nos anos seguintes, teve reconhecimento do seu trabalho, quando os
médicos Amaral Machado e Gavião Gonzaga vieram do Rio de Janeiro e lhe
concederam o título de Enfermeira Chefe. Afastada do serviço público por
questões políticas, trabalhou na Farmácia dos Pobres a convite de Dr. José
Geraldo da Cruz até abrir as portas do seu próprio Ambulatório, que funcio-
nou na Rua Padre Cícero, durante 26 anos.
Imagem 70 Dr. Mário Malzone também foi um importante nome da saúde pública na
Jornal semanário Correio cidade. Nascido em Guaxupé (MG), formou-se na Faculdade de Medicina da
do Juazeiro, cuja Direção
era do Dr. Geraldo Bahia, em 1934. Especializou-se em Clínica Geral e Anestesiologia. Logo em
Meneses Barbosa. seguida, veio trabalhar e morar em Joaseiro. Em 1943, fundou a Sociedade
de Tisiologia do Ceará e, alguns anos depois, a Sociedade São Francisco das
Chagas, trabalho que abriria as portas para a proposição e construção do
Hospital e Maternidade São Lucas, inaugurado em 1955, cujo atendimento se
destinava aos mais pobres, de forma gratuita e com qualidade. Anos à frente,
fundou, juntamente com os médicos Leão Sampaio e Possidônio da Silva
Bem, o Hospital Santo Inácio. Malzone foi, ainda, diretor da Escola Técnica
de Comércio e professor de ciências biológicas da Escola Normal Rural.
Um levantamento feito na década de 1940, por Elvídio Landim, um Agente
Municipal de Estatística, mostra dados realmente alarmantes da mortalida-
de infantil na primeira infância, na cidade: 702 crianças em 1945; 701 em
1946; e 860 em 1947.
Dr. Malzone foi o primeiro a encaminhar estatísticas da localidade para
o Ministério da Saúde.

Para Saber Mais 85


Imagem 71
Coluna do Dr.
Mário Malzone,
“Cuidemos da
Criança”, no
jornal semanário
Correio de Juazeiro,
em 1949.

Em 1937, antes de ser deposto do cargo de Prefeito, José Geraldo da Cruz


dá início à construção do Posto de Higiene, obra que só veio a ser concluída
em seu retorno como Interventor, no ano de 1946.

Assumida a delegação de poder, por nomeação do Interventor Estadual Pedro Firmeza, Imagem 72
José Geraldo da Cruz iniciava essa fase administrativa pela conclusão das obras do Dr. Mário Malzone,
Diretor do Posto
Posto de Higiene, constante de projeto de quando prefeito constitucionalmente eleito
de Puericultura
(NASCIMENTO, 1998, p. 69). por muitos anos.

Dr. Mário Malzone foi diretor desse posto por muitos anos. O lugar era
conhecido também como Posto de Puericultura, por oferecer cuidados e
orientações para mães e recém-nascidos. Funcionou inicialmente num pré-
dio grande alpendrado, mudando-se, anos à frente, para um outro prédio,
com alpendre em forma de arco, na rua do Salgadinho, atual Leandro Bezerra.

86  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


A LBA (Legião Brasileira de Assistência), órgão assistencial, foi criado
pela então primeira-dama do país, Darcy Vargas, em 1942, para ajudar as
famílias dos soldados enviados à Segunda Guerra Mundial. Ao final da guerra,
expandiu os trabalhos, oferecendo assistência a todas as famílias necessita-
das em geral. Em Juazeiro, funcionou, em atividade conjunta, no Posto de
Puericultura, durante um período.
Ainda na década de 1940, muitos casos de tracoma foram registrados no
Ceará, chegando com forte impacto nas terras do Cariri. Trata-se de uma
doença inflamatória ocular crônica, causada por uma bactéria, transmissível
através do contato direto com o infectado, podendo causar cegueira. A doen-
ça chegou ao Brasil trazida pela imigração europeia, a partir do século XVIII,
com a deportação de ciganos que, expulsos de Portugal, estabeleceram-se
nas províncias do Ceará e Maranhão, constituindo, a partir de então, os pri-
meiros focos de tracoma no país, dos quais o de maior evidência nacional foi
o que ficou conhecido como Foco do Cariri.
A primeira medida, em âmbito nacional, para controle da doença, foi
registrada somente em 1923 e consistia na proibição da entrada de imigran-
tes infectados no país. Como a medida mostrou-se ineficiente, em 1943,
Imagem 73
Dr. Possidônio o Governo Federal inicia a Campanha Federal contra o Tracoma, sob a re-
da Silva Bem, gência do Departamento Nacional de Saúde Pública.
médico do Posto Dr. Possidônio da Silva Bem foi um dos médicos que teve forte atuação no
de Tracoma.
combate e orientação quanto aos cuidados com a doença. Nascido em Serrita
(PE) no ano de 1900, formou-se na Faculdade de Medicina da Bahia e, em 1942,
fixou residência na cidade de Juazeiro do Norte. Foi também professor de francês
da Escola Normal Rural e da Escola Técnica de Comércio. Trabalhou por muitos
anos no antigo Posto de Tracoma, cujas instalações ficavam na Rua Santa Rosa
(atual Monsenhor Joviniano Barreto), numa modesta construção, vizinha ao Grupo
Escolar Padre Cícero. Em 1946, Dr. Possidônio participa de uma formação sobre o
tracoma, no Rio de Janeiro. Em 1955, integra, também no Rio de Janeiro, a primeira
turma de pós-graduação, promovida pela Sociedade Brasileira de Oftalmologia.
Os dois postos foram integrados a outros órgãos estaduais e municipais
de saúde, posteriormente, e as antigas instalações, desativadas, serviram de
espaço de brincadeira para as crianças que moravam no entorno. Era também
o lugar discreto para encontros fortuitos entre casais enamorados.

Para Saber Mais 87


A PRAÇA SÃO VICENTE
E O CINQUENTENÁRIO DE JUAZEIRO

T ambém conhecida como Pracinha, a Praça São Vicente foi construída


na administração municipal de Antônio Conserva Feitosa. Abrigava
vários bancos de madeira e ferro, além de um coreto. Os circos que fa-
ziam temporada pela cidade ocupavam o seu terreno, como foi o caso do
famoso circo Nerino.
Antônio Conserva Feitosa ou simplesmente Dr. Feitosa, como era mais
conhecido, foi um médico pernambucano que chegou a Juazeiro em 1940.
Comunicativo, logo estava integrado ao quadro social da cidade. Foi nomeado
interventor, permanecendo no cargo de 18 de junho a 22 de novembro de 1945.
Disputou eleições municipais, ainda na década de 40, sendo eleito prefeito para
o período de 1948 a 1951, voltando a exercer o cargo, num outro pleito vitorioso,
para os anos de 1959 a 1963. Foi ainda Deputado Estadual, de 1951 a 1954.

Antônio Conserva Feitosa foi para Juazeiro do Norte uma espécie de semideus. Na mi-
nha infância e adolescência pela rua São José, ainda se ouvia falar de um certo ‘Anjo
da Lagoa’, personificado no mítico líder político que construía sua residência no cru-
zamento das ruas Santa Luzia e São José, onde antes havia uma lagoa.7

Foi no segundo mandato de Dr. Conserva Feitosa que Juazeiro come- Imagem 74
morou seu primeiro cinquentenário de emancipação política, com muitos Antigo coreto da Praça
São Vicente, também
preparativos para a festa. A Praça São Vicente foi reformada e passou a se conhecida como
chamar Praça do Cinquentenário. Um grande monumento de concreto com Pracinha, onde se
duas imagens do Padre Cícero compunha o espaço. Na mesma época e ao veem, da esquerda para
a direita, os irmãos
lado da praça, foi construído o Centro Municipal de Artesanato, um prédio de Antônio, Vicente, José
arquitetura arredondada, que se destinaria à exposição e venda do artesanato e Iderval, da família
local, além de mostras de artes. Oficialmente, a praça e as demais constru- Reginaldo Tenório.

ções só foram inauguradas em 28 de dezembro de 1961, mesmo dia em que

7 Discurso pronunciado por Renato Casimiro, em nome da Associação dos Filhos e Afilhados de
Juazeiro (AFAJ), no dia 24/3/2009. Veja: AFAJ, 2017, p. 203-204.

88  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 76
Preparação do
terreno para a
construção da
Praça São Vicente,
na década de 1940.
Ao fundo, a rua
do Salgadinho,
atual rua Leandro
Imagem 75 Bezerra.
Praça São Vicente,
em 1953. Ao centro,
o escritor Renato
Casimiro e sua irmã,
Ana Célia Casimiro,
quando crianças.

Para Saber Mais 89


Imagem 77
Praça do
Cinquentenário,
vista do ângulo
da atual Travessa
Maria Gonçalves.

se celebrou a conquista da chegada da energia de Paulo Afonso à cidade, cujo


marco foi fixado no monumento, em forma de placa.
O cinquentenário da cidade aconteceu no dia 22 de julho de 1961, com
celebrações religiosas e festividades. Uma missa, celebrada por Dom Vicente
de Paulo, Bispo Auxiliar da Diocese do Crato na época, levou um grande nú-
Imagem 78
mero de pessoas aos pés da Coluna da Hora da Praça Padre Cícero, local da Dr. Antônio
celebração, que foi transmitida ao vivo pela Rádio Iracema. Crônicas e sau- Conserva Feitosa.
dações foram escritas para homenagear a cidade que, em tão pouco tempo,
já exibia um caminho de conquistas e prosperidades.

O Ceará em peso comemorará o cinquentenário de autonomia de Juazeiro do Norte,


cidade das que mais têm crescido no interior do Nordeste brasileiro, em todos os setores
da atividade humana. O artesanato juazeirense firmou-se a transpor fronteiras, impon-
do-se em toda parte. Indústria promissora de beneficiamento de algodão, cortumes e
fábricas de óleo nasceram e tendem a progredir (FIGUEIREDO FILHO, 1994, p. 55-56).

90  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 79
Celebração realizada
por Dom Vicente,
aos pés da Coluna
da Hora, na Praça
Padre Cícero, em
comemoração ao
cinquentenário da
cidade de Juazeiro
do Norte, em 1961.

Para Saber Mais 91


CLUBE ATLÉTICO JUAZEIRENSE

E xistia um grupo de rapazes apaixonados por futebol de salão na cidade


de Juazeiro, na década de 1950, quando a modalidade praticamente nem
existia ainda no Ceará. Era sempre no finalzinho da tarde que o bate-bola co-
meçava. Juntava muita gente: quem ia jogar e quem ia só olhar. Foi Francisco
Augusto Tavares, mais conhecido por Dr. Nei, recém-chegado de Recife, que
iniciou a prática com os amigos João Barbosa, José Leite Feitosa (Dr. Zi), José
Vasconcelos Neri (Didi Neri), José Wilson, Ronald Brito e outros (CASIMIRO,
2013). Eles criaram o Clube Atlético Juazeirense, para a prática do esporte.
Logo em seguida, montaram um time, o Independentes, utilizando a quadra
da Escola de Comércio, na esquina da Rua da Glória com a São Francisco, para
treinarem. Mais à frente, adquiriram o terreno entre a Coletoria Estadual e
o Grupo Escolar Padre Cícero, e ali construíram uma quadra, com energia
própria, mantida por um motor a diesel, o que permitia que a moçada jogasse
bola até a hora que conviesse.
O novo espaço foi inaugurado em 1955, com as presenças do Padre Silvino
Moreira e do Prefeito da época, José Geraldo da Cruz, além dos integrantes do
time e convidados. Alguns anos à frente, foi criado um novo time, o Cruzeiro,
e uma partida entre os dois adversários logo foi organizada. A vitória foi do
Independentes, dono da casa e da bola.

Imagem 80
Construção da
quadra de futebol
de salão do
Clube Atlético
Juazeirense.

92  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 81
Inauguração
da quadra de
futebol de salão
do Clube Atlético
Juazeirense, em
1955, com as
presenças do
Padre Silvino e
do Prefeito José
Geraldo da Cruz,
entre outros.

Para Saber Mais 93


Imagem 82
Time do Treze Sport
Club, na formação
da década de 1950.

Imagem 83
Time do Treze Sport
Club, na formação
da década de 1960.

94  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


OS PRIMEIROS TEMPOS DO FUTEBOL
EM JUAZEIRO

O Joaseiro Futebol Clube foi o primeiro time formado em Joaseiro de que


se tem notícia. Foi criado em 15 de janeiro de 1927, por Júlio Gomes, João
Tenório de Assis, Fauser Jereissati, Agauço Oliveira, José de Almeida e Didi
Melo. Era representado pelas cores verde e branca.
O time fez um pedido ao Padre Cícero: a doação de um terreno para a
construção de um campo. Terreno doado, o campo passou a funcionar fora do
centro da cidade, na Rua do Seminário, onde, tempos à frente, foi construída
a Usina José Bezerra.
O alambrado era feito de corda. No jogo de estreia, o Joaseiro Futebol
Clube enfrentou o Crato Atlético Clube, perdendo a partida por dois a zero.
Logo na sequência, outro time formou-se: o Artístico Futebol Clube. Era o
representante da periferia. Sua sede estava localizada nas imediações da Rua
Imagem 84 Santa Luzia, onde, depois, passou a funcionar a Feira Nova e, nos dias atuais,
Antônio Fernandes está o Mercado Central.
Coimbra,
fundador do time Posteriormente, um outro campo foi criado. Funcionava como um primei-
do Treze Sport ro estádio, onde atualmente está o Santuário de São Francisco. Era conhecido
Club, em 1937. como o campo de Dr. Mozart.
Em meados de 1950, Antônio Fernandes Coimbra, mais conhecido por
Mascote, funda a Liga Desportiva Juazeirense (LDJ), com um novo campo, que
ficava no antigo Quadro Santo Antônio, no entroncamento das Ruas São Luiz,
Conceição e São Francisco, finalizando na linha férrea. Os próprios jogadores,
ajudados por outros simpatizantes da causa, fizeram a mudança das traves,
do antigo para o novo campo. Nomes como Antônio Padre, Tonico, Beato,
Quixaba, entre outros, fizeram jogos memoráveis no lugar.

Para Saber Mais 95


96  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
O VELHO TREZE, DAS PARTIDAS E
DOS CARNAVAIS

A ntes de ser clube social, o Treze era um time de futebol: o Treze Sport
Club. Foi criado em 1937, por Antônio Fernandes Coimbra, mais co-
nhecido por Mascote, que ganhou esse apelido por “dar sorte” a um time de
futebol que acompanhou num campeonato, quando criança. Era natural de
Juazeiro, nascido em 15 de fevereiro de 1920. Gostava de livros de história.
Em 1944, criou o jornal O Centenário, para homenagear o centenário de
Imagem 86
Primeira Sede do nascimento do Padre Cícero. Foi publicitário e dirigiu o Centro Regional de
Treze Sport Club, Publicidade, precursor da implantação do rádio no Cariri. Teve sua primeira
no entorno da experiência na gráfica O Bancário, de Odílio Figueiredo. Depois, montou
Praça Padre Cícero.
seu próprio empreendimento comercial, com grande êxito, fabricando e
vendendo calendários.
Mascote foi presidente e treinador do Treze de 1953 até 1960. Foi ele quem
o sustentou financeiramente, com recursos próprios. O Treze foi, por mais de
uma década, o grande representante do futebol juazeirense em campeonatos
locais e interestaduais.
Em 1958, o Treze Sport Club fundiu-se com outras três agremiações:
o Clube Atlético de Amadores, o Juazeiro Clube e o Clube da Chave. Tornou-
se o Treze Atlético Juazeirense, uma sociedade desportiva, recreativa e
cultural, cuja sede social localizou-se, inicialmente, na Praça Padre Cícero.
Na sequência, o Clube ocupou a edificação outrora destinada à Coletoria
Estadual, na Praça São Vicente, na esquina da Rua do Salgadinho com a Rua
Santa Rosa. A quadra do Clube Atlético Juazeirense, utilizada para a prática
de futebol de salão, foi incorporada à nova sede do Treze.
Odílio Figueiredo foi um dos responsáveis pela reforma do prédio da
Coletoria, para receber as novas atividades. A pista de dança em breve estaria
Imagem 85
Festa Branca, no aberta para oferecer-se ao bailado de Mirival Calado, considerado um dos
clube do Treze, maiores dançarinos da época. Muitas programações passaram a fazer parte
quando a sede do calendário do novo espaço de convivência e diversão da cidade. Matinais,
era ainda no
entorno da Praça vesperais, Festa Branca e os velhos carnavais.
Padre Cícero.

Para Saber Mais 97


Entre as décadas de 1950 a 1970, João Martins era o grande animador das
festas do Treze e de outros clubes da cidade. Nascido em Missão Velha, foi
morar na cidade de Milagres, onde trabalhava como alfaiate. Ainda em 1950,
os irmãos Alberto e José Brasileiro fizeram um show na cidade de Milagres,
acompanhados pelo violão de João Martins. Empolgados com a qualidade
do músico, chegaram a Juazeiro e contataram o radialista Coelho Alves, que
foi em busca do novo talento, oferecendo-lhe 800 mil réis para tocar no re-
gional da Rádio Iracema, que, à época, desfrutava de grande audiência. João
Martins aceitou o convite e, em 1952, passou a morar em Juazeiro, exercendo
sua vocação musical na Rádio, mas sem deixar de trabalhar como alfaiate. Imagem 87
Em parceria com o sobrinho Rosiel, montou o J. Martins e seu Conjunto. J. Martins e seu
Depois tornou-se J. Martins Show e, finalmente, na década de 1970, numa Conjunto, em
apresentação no
parceria com Hildegardo Benício, o HildeMartins Som. Entretanto, o grupo Treze Atlético
ficou popularmente conhecido como o Conjunto do Treze. Juazeirense.

98  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 88
Diretoria do
Treze e a Rosa
do Ano, 1969.

O Clube construiu ainda uma sede campestre, na Av. Virgílio Távora, como
mais uma opção de lazer, com piscinas e uma grande área aberta. No início da
década de 1980, a sede social deslocou-se e fundiu-se com a sede campestre.
Entre 1982 e 1985, o prédio que abrigou a sede social do Treze Atlético
Juazeirense, na Praça do Cinquentenário, foi arrendado para João Bezerra de
Oliveira, que fundou o Clube Asa Branca, local que promovia grandes shows
com artistas locais e de renome nacional, como Renato e seus Blue Caps,
Quinteto Violado, The Fevers, entre outros.

Para Saber Mais 99


100  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
ANTIGOS CARNAVAIS

O primeiro carnaval que aconteceu em Juazeiro foi em 1925, por iniciativa


de Floro Bartolomeu, que, fantasiado de Pierrô, tinha a companhia das
moças de famílias fantasiada de colombinas. Grande parte das fantasias fora
trazida do Rio de Janeiro por Floro. Albertina Brasileiro, mais tarde reconhe-
cida como a atriz Marquise Branca, tinha apenas 15 anos de idade e já se fez
presente à brincadeira.
Foram organizados três blocos de rua: o Bloco das Bananas, o Bloco das
Mexicanas e o Bloco dos Cavadores. O bloco dos Cavadores era formado por
rapazes vestidos de marinheiros, que desfilavam pelas ruas até em carros de boi,
munidos de muita alegria. Juazeiro contava, à época, com uma frota de dez carros,
aproximadamente, dentre os quais, dois estavam presentes, no desfile dos blocos.
Nos carnavais promovidos pelo Treze, a música embalava quem estava
Imagem 90
Carnaval dos na brincadeira e quem não estava. Escutava-se de longe. O cordão de gente ia
anos de 1970, no passando e as ruas ficavam cheias de fitinhas coloridas de papel, as famosas
Treze Atlético
serpentinas, e os confetes eram jogados de vez em quando, “caindo do céu”.
Juazeirense, com
Francisco José dos Os carros abertos traziam as beldades que iam dançar no salão. Os rapazes
Santos, conhecido desavisados das presenças femininas ficavam a suspirar quando passavam as
por Chico Romeiro,
rainhas, ficando no ar o lança-perfume a envolver todo mundo.
conduzindo a
rainha do Carnaval. Mascote criou os blocos Diabos Loiros e Garotas Infernais, que eram
compostos por rapazes e moças da cidade. Não se deteve aí e criou a Escola
Batuqueiros do Samba, que era, inicialmente, um grupo de rapazes com re-
co-recos, tamborins, surdos e triângulos. Em suas viagens comerciais ao Rio
de Janeiro e a São Paulo, aproveitou para buscar influência e inspiração para
ampliar e melhorar a escola de samba, que passou a ser Batuqueiros da Mascote,
funcionando até 1984, ano em que seu criador faleceu.
Francisco José dos Santos, mais conhecido por Chico Romeiro, diretor do
Treze por muitos anos, também foi um grande incentivador, não apenas dos
Imagem 89 velhos carnavais, mas de outras muitas festas, das quais algumas se tornaram
Bloco Bicho tradicionais, como a Festa das Flores, que acontecia anualmente, reunindo
do Bicão, em
participação no grande parte da sociedade juazeirense. Nos carnavais, Chico Romeiro vestia-se
carnaval do Treze. de Rei Momo e participava dos concursos de fantasia e desfiles no salão.

Para Saber Mais 101


OS SERVIÇOS MILITARES

N os fins da década de 1910, o Padre Cícero fez a doação de uma grande


faixa de terra ao Ministério da Guerra. A intenção era instalar as pri-
meiras instruções do serviço militar de reserva, fato que só veio a acontecer
na década de 1930. De qualquer modo, um documento encaminhado ao
Padre Cícero pela Comissão Executiva da Liga da Defesa Nacional, datado
de 19 de maio de 1919, agradecia ao sacerdote o comprometimento com
a defesa da pátria.

A Liga da Defesa Nacional, que bem avalia o concurso que sob esse ponto de vista pode
o clero prestar à causa da educação, moral e cívica e preparo militar dos nossos conci-
dadãos, não pode deixar de congratular-se com Vossa Reverendíssima, por esse gesto de
benemerência, que é uma segura demonstração do seu interesse pelo engrandecimento
da nossa Pátria. Por outro lado, denominado o local ‘Campo Marechal Farias’, Vossa
Reverendíssima não só prestou justa homenagem ao benemérito Ministro da Guerra,
que pôs em execução e Lei o Serviço Militar, de cujo diretório central, sua Exa. é vice
Presidente. Assim sendo, faço votos pela felicidade de Vossa Reverendíssima, para que
bem possa, agora, como sempre, pôr a serviço da Pátria o seu prestígio de sacerdote de
Deus, em prol dos ideais por que se bate a Liga da Defesa Nacional (BARBOSA, 2011, p. 135).

Imagem 91
Turma do ano
de 1966, sob
a regência do
Sargento Veras,
constituída por
Daniel Walker,
José Araújo
Monteiro, Paulo
de Sousa, José
Carlos Pimentel,
entre outros.

102  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


A fundação de um Diretório Civil (grupo que contou com a presidência
e a vice-presidência de Josias de França e Odílio Figueiredo, respectiva-
mente), em 1932, pleiteou a abertura da primeira turma do Tiro de Guerra8
em Juazeiro. No mesmo ano, o sargento Paulo Lima assumiu a Chefia de
Instrução do recém-criado Tiro de Guerra 210. Contudo, mal se abriram as
portas, o serviço foi suspenso em função da Revolução de 19329.
O serviço militar voltou a oferecer instrução no ano seguinte, 1933,
constituindo finalmente sua primeira turma: Almino Loiola de Alencar,
José Nery Rocha, Sebastião Teixeira Lima, Odílio Figueiredo, Olímpio
de Almeida (Pimpim), José de Melo Sobreira, Durval de Sousa, Manoel
Inácio da Costa, Otávio Farias, Doca Barbosa, José Leandro de Sousa, José
Sebastião da Paixão, José Nobre da Cruz, Mauro Pita, Lauro Pereira de Matos,
Benjamim Abraão, José Rodrigues Soares, Plínio Figueiredo e Vicente Ribeiro
Imagem 92
Antigo Centro Sobrinho (Senhorzinho).
de Artesanato, O segundo Sargento Veras era o responsável pela turma de 51 atiradores,
que tornou-se a que tiveram uma grande festa de encerramento do serviço militar, com des-
sede do Tiro de
Guerra 210, na taque e entrega de medalhas a José Carlos Pimentel (atirador mais dedicado),
década de 1960, Paulo de Sousa (atirador modelo) e José Araújo Monteiro (atirador mais assí-
onde permaneceu duo). Neste grupo também esteve presente o escritor Daniel Walker.
até 1980.
Ainda na década de 1960, o Tiro de Guerra mudou-se da praça das
Cacimbas e passou a utilizar as instalações do Centro Municipal de Artesanato,
construído para as comemorações do Cinquentenário de Juazeiro do Norte,
em 1961, mas com breve funcionamento. Somente nos anos 1980, assumiu
outra sede, no atual bairro Triângulo, onde permanece até os dias de hoje,
com nova nomenclatura: Tiro de Guerra 10005.

8 O Tiro de Guerra é uma instituição militar do Exército Brasileiro que se propõe a formar atiradores
de segunda categoria como reservistas, conciliando a instrução militar com o trabalho.
9 A Revolução Constitucionalista de 1932 foi um movimento armado ocorrido no Estado de São Paulo,
entre julho e outubro de 1932, que tinha por objetivo derrubar o governo provisório do presidente
Getúlio Vargas e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte (SOUZA, 1994).

Para Saber Mais 103


A LIRA NORDESTINA

O prédio da Praça do Cinquentenário que abrigava o Tiro de Guerra,


após a transferência de sede do serviço militar, passou a ser ocupa-
do pela Lira Nordestina, de 1982 a 1984. A Lira Nordestina é o atual nome
da antiga Tipografia São Francisco, de propriedade de José Bernardo
da Silva, um poeta mascate que chegou ao Juazeiro no ano de 1926,
em busca da bênção do Padre Cícero. Na década de 1930, comprou sua
primeira impressora, que recebeu o apelido de quebra-pedras, pois era
manual e barulhenta. Inicialmente imprimia seus próprios versos e de
outros poetas da região. Em 1934, noticiou, em primeira mão, a morte do
Padre Cícero, em verso.
A tipografia ganhou novo impulso em 1949, com a aquisição dos direi-
tos autorais do acervo de João Martins de Athayde, que incluía as obras de
Leandro Gomes de Barros. Já instalado na Rua Santa Luzia, José Bernardo dá
ao cordel a dimensão de negócio. A pleno vapor, a Tipografia São Francisco Imagem 93
imprimiu folhetos, orações, novenas e almanaques, alcançando, em meados Xilogravura de
José Lourenço
do século XX, uma produção semanal de 50 mil exemplares, o que lhe rendeu representando o
a posição de maior folheteria do país. trabalho da Lira
Ao final dos anos 1960, começa um período difícil. Já se falava muito em Nordestina.

desenvolvimento e progresso, que associava manufatura ao atraso. As ven-


das caíram. Em 1972, morre José Bernardo. Sem um sucessor preparado para
comandar em sua ausência e com um mercado cada vez mais competitivo,
a tipografia entra em decadência. Em 1982, encerrou temporariamente suas
atividades e teve seu acervo e equipamentos vendidos ao Governo do Estado
do Ceará. Ainda no mesmo ano, já sob o nome de Lira Nordestina, voltou a
funcionar na Praça do Cinquentenário, por um período de dois anos.
Hoje a Universidade Regional do Cariri (URCA) responde pela administra-
ção do lugar. José Lourenço e outros xilógrafos trabalham cotidianamente e
a produção de xilogravuras supera a publicação de cordéis. Nos dias atuais,
funciona também como espaço para visitação de pequenos grupos para in- Imagem 94
José Lourenço
tercâmbio com os artistas que trabalham no local, em suas novas instalações Gonzaga, xilógrafo
no prédio do Centro Multiuso (Vapt Vupt). da Lira Nordestina.

104  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Para Saber Mais 105
O ESPETÁCULO VAI COMEÇAR!

A lona estendida na praça já chamava a atenção, e muitas pessoas co-


meçavam a se aglomerar. Era o circo que chegava! Novidade, diversão.
No primeiro momento, só muito trabalho, carregando peso, subindo o
mastro, esticando a lona, desembalando figurinos e pendurando trapézios.
Os olhos se ocupavam sem querer perder uma parte sequer e o coração se
enchia de expectativa.
Iluminado à luz de carboreto, o primeiro circo que aportou nas terras do
Joaseiro foi o José Bulandim. Era pequeno e tinha como uma das principais
atrações o desafio entre duas moças muito bonitas, cada uma representando
uma cor (azul ou vermelho). A plateia se dividia, cada lado representando
uma das moças. Era a diversão!
Em 1918, chegava o circo Jule Hermósio. Em 1922, o circo Fernandes trazia
uma grande novidade, diferente do que até ali se tinha visto: seus palhaços des-
filavam pelas ruas da cidade em pernas de pau. Era uma sensação, porque, até
então, os artistas divulgavam os espetáculos pelas ruas em lombo de animais.
A prática das companhias era viajar apenas com a coberta do circo.
Geralmente, nas pequenas localidades, alugavam o arame e a madeira para
servir de mastro. No caso de Juazeiro, as próprias famílias levavam suas
cadeiras e as recolhiam ao final das apresentações. Após a implantação da
estrada de ferro, em 1926, facilitou-se a logística de transporte desses grupos
até o sul do Ceará.
Em 1931, estreia o circo Internacional Stryguine, que trazia em seu elenco
acrobatas, trapezistas e equilibristas, apresentando seus números na grande
lona armada na Praça da Matriz. Vários circos passaram por estas terras: Imagem 95
Fekkete, Leão do Norte, Orfei, Garcia, entre outros, trazendo palhaços con- Picolinos:
sagrados como Caboclinho, Serenata, Cricri, Tampinha etc. Entre os circos, Roger Avanzi Filho,
Nerino Avanzi
um em especial povoa até os dias de hoje o imaginário e as lembranças dos e Roger Avanzi.
juazeirenses. O Circo Nerino, da família Avanzi, que circulava por todo o Coleção Circo
Brasil desde 1913, chegou ao Juazeiro, pela primeira vez, em dezembro de Nerino, Acervo
Centro de
1948. Todos queriam ver o circo, e filas enormes se formavam na Praça São Memória do Circo/
Vicente, onde hoje está o Memorial Padre Cícero. SMC/PMSP.

106  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Para Saber Mais 107
Filho de italianos que integravam uma companhia de ópera, Nerino
nasceu no Brasil, ao fim de uma temporada, depois que seus pais ficaram
impossibilitados de voltar à Europa, porque a mãe estava prestes a dar à
luz. Permaneceram em São Paulo, morando no Teatro Polytheama, no Vale
do Anhangabaú, com o apoio da Prefeitura. Nerino cresceu por ali mes-
mo. Mais à frente, acompanhou um dos vários circos estrangeiros que
chegavam a São Paulo e começou a trabalhar como palhaço. Anos depois,
conheceu Armandine Ribolá, uma francesa que já era da sexta geração de
uma família de artistas circenses. Casaram-se em São José do Rio Preto e
a lona do circo abarcava então as duas famílias: Nerino e Felipe Avanzi,
além dos irmãos Armandine, Gaetan e Myris Ribolá. Em 1922, nasceu o
filho do casal Nerino e Armandine, Roger Avanzi, que mais tarde tornou-se
famoso em todo o Brasil, como o palhaço Picolino, personagem já vivido
por seu pai e seu tio, anteriormente. Roger casou-se com Anita Garcia,
uma importante atriz dramática, filha do casal Agenor e Margarida Garcia,
também de uma família de circo. A partir do enlace da filha, eles passam Imagem 96
a integrar o Circo Nerino. Cartaz do
Circo Nerino,
Os grandes circos apresentavam seus espetáculos em dois momentos. década de 1950.
O primeiro com acrobacias, malabares, globo da morte, palhaço, entre ou- Coleção Circo
tros. O segundo momento, com peças teatrais. O Nerino estreou O mártir Nerino, Acervo
Centro de
do calvário, sua primeira experiência encenada com texto teatral, em 1930. Memória do Circo/
Com os Garcia, passou a ampliar o repertório teatral, incorporando um SMC/PMSP.
palco ao interior da lona, tornando-se um grande circo-teatro. A partir de
então, as peças deixam de ser majoritariamente sacras e passam a tratar
mais do cotidiano, como os textos Ébrio e Compra-se um marido.
Em janeiro de 1949, o circo seguia temporada pelo Cariri, fazendo
as cidades de Crato, Juazeiro e Missão Velha. Durante esta temporada,
a filha do casal Roger e Anita, esta grávida de nove meses, resolve vir
ao mundo. Ronita Garcia Avanzi nasce, então, na Casa de Saúde Dr.
Gesteira, na cidade do Crato.
O circo retornou ao Juazeiro em 1953, quando se registra sua última pas-
sagem por aqui. Até os sacerdotes ocupavam as primeiras fileiras dispostas,
havendo noites em que se registravam nove padres presentes na plateia,

108  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 97 prestigiando a apresentação. Muitas histórias se passaram sob essa lona.
Apresentação do Conta-se que as moçoilas, empolgadas com um dos artistas, juntaram
Circo Nerino em
temporada na dinheiro entre si e compraram uma joia de ouro pra lhe darem de presente.
cidade de Fortaleza - Filha do casal Lourdes Maria e Georges Le Blum de Vielmond, Renné de
CE, em 1953. Coleção Vielmond estreou no Circo Nerino aos cinco meses de idade, em dezembro
Circo Nerino,
Acervo Centro de de 1953, num auto de natal. Anos mais tarde, já atriz de cinema e televisão,
Memória do Circo/ Renné conhece, apaixona-se e casa-se com um rapaz juazeirense, na ci-
SMC/PMSP. dade do Rio de Janeiro. Nasce Mariana Vielmond, do enlace entre Renné
e José Wilker Magalhães Almeida.
O circo Nerino tornou-se uma grande referência na arte circense, per-
correndo boa parte do território nacional, durante 51 anos. Em setembro
de 1964, apagaram-se as luzes, pararam os trapézios, e o palhaço, que era
o verdadeiro dono do riso, guardou o seu nariz vermelho na memória de
todos aqueles que passaram por sua alegria.

Para Saber Mais 109


E A LUZ CHEGOU!

O povo ficava muito nas calçadas conversando. Os mais velhos contavam


suas histórias de vida e de trancoso, dizendo que os mais novos abris-
sem bem os ouvidos para escutarem. Cada história bonita, às vezes saíam até
versos. Quando o sol começava a fechar os olhos, o acendedor de lampião já
ia colocando a fagulha de luz nos postes de madeira espalhados pelas ruas.
Mas era só até certa hora, depois apagava. E dentro de casa, era o candeeiro
a querosene que clareava tudo.
No ano de 1925, Dr. Audálio Costa e Joana Tertulina de Jesus (mais conhe-
cida como Beata Mocinha) registraram no cartório Machado uma sociedade
para fornecer energia na cidade de Joaseiro, a partir de um gerador. A casa de
força do gerador foi instalada na Rua São José, próximo à casa do Padre Cícero.
O novo serviço se propunha a levar luz, mesmo que de forma privada e limi-
tada em termos de horários, às residências e casas comerciais. Inicialmente
funcionava no horário de 18h às 21h.
Nessa época, o Padre Cícero ocupava o cargo de Prefeito, mas foi com seu
investimento particular que a empreitada foi posta em prática. A Beata não
dispunha de recursos financeiros para tal, mas era uma boa administradora.

Imagem 98
Assembleia Geral de
constituição e instalação da
CELCA, em 28 de outubro de
1960, onde vê-se compondo
a mesa, da esquerda para a
direita, Dr. Conserva Feitosa
(Prefeito Municipal), Eng.
Amaury Alves de Meneses
(Diretor Técnico da CHESF),
José Parsifal Barroso
(Governador do Ceará), Eng.
Antônio José Alves de Souza
(Presidente da CHESF) e Eng.
Gileno Ferreira Gomes (Diretor
da CELCA), lendo a ata, em pé.

110  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Em setembro de 1929, a Beata Mocinha fecha contrato com a Prefeitura
Municipal para o serviço de iluminação pública. Os velhos lampiões de rua
começariam aí a ser recolhidos, pouco a pouco. Em 1938, ela vendeu a empresa
para Antônio Gonçalves Pita, que, alguns anos à frente, revendeu novamente
para a Beata. Dessa vez, a casa de força passou a funcionar na antiga Rua São
Vicente, atual Rua do Cruzeiro, no quarteirão entre as ruas São José e Santa Rosa.
Em 1940, a empresa foi arrendada por Expedito Pita e comprada pela Prefeitura
Municipal, em 1948, na gestão do Dr. Antônio Conserva Feitosa, que fez investi-
mentos e ampliou o serviço de fornecimento e iluminação pública, na década de
1950, passando a alcançar as imediações do mercado público, na Rua Santa Luzia.
A cidade seguia com um próspero comércio, que se expandia a cada ano.
Indústrias, escolas, grandes sobrados e bangalôs traziam novos ares para
Juazeiro. No início da década de 1950, a Companhia Hidroelétrica do São
Francisco (CHESF) intencionava expandir a rede de energia elétrica para o
Ceará a partir da usina de Paulo Afonso. Existiam dois caminhos: o chamado
Sistema Cariri, plano que trazia a energia iniciando pela região do Cariri;
e o Plano Távora, proposto por Virgílio Távora, que pretendia levar energia
inicialmente a Fortaleza, por um linhão, via Campina Grande (PB), que se
mostrou muito mais caro e demorado.
Formou-se, então, em 1954, uma comitiva de juazeirenses, que seguiu para
Paulo Afonso, onde se encontrava o Presidente da República, Getúlio Vargas.
Na comitiva, estavam o Prefeito Municipal, José Monteiro de Macedo; o Presidente
da Associação Comercial, Edmundo Morais; Dr. Hildegardo Belém de Figueiredo;
Antônio Corrêa Celestino; Felipe Neri da Silva; José Maria de Figueiredo e José
Colombo de Souza. Recebidos pelo Presidente, retornaram exultantes.

Já estão bem adiantados os estudos e providências para a pronta realização de uma


linha de transmissão que, no sentido norte, atingirá o coração do Ceará na região den-
samente povoada do Cariri, cujo desenvolvimento econômico e capacidade industrial
têm sido testemunhados pelo progresso do artesanato ali existente10

10 Pronunciamento do Presidente da República, Getúlio Vargas, em referência à eletrificação do Ceará,


pelo Sistema Cariri, na solenidade de inauguração de duas novas turbinas na Usina de Paulo Afonso,
em 1954 (CASIMIRO, 2017, s/p).

Para Saber Mais 111


Formou-se, então, um Comitê Pró-eletrificação do Cariri, com membros
representantes das cidades de Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha. Os tra-
balhos seguem com a preparação da infraestrutura, instalando postes e fios.
No dia 25 de julho de 1959 é realizada em Juazeiro a Festa do Poste, um mo-
mento simbólico para a instalação do primeiro poste de energia elétrica, que
contou com a presença do Ministro da Guerra, General Henrique Duffles
Baptista Teixeira Lott. O primeiro poste que trazia a eletricidade de Paulo
Afonso fora afixado na Av. Padre Cícero, nas proximidades da linha férrea.
Foi feito um marco e afixada uma placa comemorativa.
A primeira distribuidora foi a Sociedade de Eletrificação do Cariri
(SOELCA), constituída por determinação do Governo Federal, sendo logo
substituída pela Companhia de Eletricidade do Cariri (CELCA), fundada
como sociedade anônima de economia mista, em 28 de outubro de 1960,
Imagem 99
em Assembleia Geral. Funcionou por muitos anos. Visita da Comitiva
O momento mais esperado acontece, finalmente, no dia 28 de dezembro da CHESF, Governo
de 1961, a chamada Festa do Século. Era a celebração da eletrificação do do Estado do Ceará e
autoridades políticas
Cariri, a partir de Juazeiro, com as comemorações dos 50 anos da cidade, locais à subestação
a inauguração oficial da Praça do Cinquentenário e do Centro Municipal de da CELCA em
Artesanato. Muitas autoridades de âmbito nacional, estadual e regional se Juazeiro do Norte.

fizeram presentes. Uma placa comemorativa foi exposta em frente ao Centro


de Artesanato e feita uma homenagem póstuma ao Sr. Antônio José Alves
de Souza, Presidente da CHESF, que faleceu dez dias antes da inauguração.
Na Praça Padre Cícero aconteceram desfiles de carros alegóricos, com os te-
mas eletricidade e história de Juazeiro. As comemorações se encerraram com
uma festa no Treze Atlético Juazeirense, com Neir Sobreira sendo escolhida,
em desfile, a Miss Cinquentenário.
Aquele acontecimento mudava muito os rumos do desenvolvimento
local e a vida cotidiana da população. A partir de então, as indústrias e o
comércio teriam outro ritmo de funcionamento. A luz agora era ininter-
rupta. Bens de consumo, como ferro de engomar, enceradeira, geladeira
e outros, podiam fazer parte das residências. Os cinemas, que, até então
dispunham de uma única exibição às 19h, passaram a oferecer outras duas
sessões, às 18h30 e às 20h30.

112  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 100
Monumento
construído na praça
do Cinquentenário,
local onde
aconteceu a Festa
do Século, em
1961, na ocasião
da eletrificação
do Cariri, com a
chegada da energia
de Paulo Afonso a
Juazeiro do Norte.

As lojas comerciais da rua São Pedro aderiram à novidade das placas luminosas. Os ci-
nemas colocaram vitrines para exporem os cartazes dos filmes, substituindo os velhos
cavaletes de madeira instalados nas esquinas das ruas próximas aos cinemas e que
tinham os nomes dos filmes e dos artistas principais escritos com tinta a óleo. O Cine
Capitólio, localizado onde atualmente existe o Bradesco, foi inaugurado nessa época,
com o seu nome estampado num colorido letreiro em néon, como já existia nos cine-
mas chics das capitais (MARQUES, 2010, s/p)

A vida cotidiana, em várias outras instâncias, estava modificada com a


eletricidade vinda de Paulo Afonso, fazendo valer a profecia do Padre Cícero,
que dizia que as águas do São Francisco ainda iriam banhar a cidade de
Juazeiro. E banharam!

Para Saber Mais 113


114  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
A PRIMEIRA FEIRA INDUSTRIAL DO CARIRI (FIC)

C om o grande número de oficinas existentes na cidade, iniciadas com o


incentivo do Padre Cícero, a partir da máxima “em cada casa um orató-
rio, em cada quintal uma oficina”, Joaseiro foi alcançando o desenvolvimento.
Ainda em 1902, na antiga Rua do Salgadinho, atual Leandro Bezerra,
o comerciante Joaquim Bezerra instalou uma máquina de descaroçar al-
godão. Inspirado pelo desenvolvimento industrial, que viu em sua viagem
à Europa, o Padre Cícero também logo mandou trazer uma máquina para
o mesmo fim. A ideia era valorizar o produto para exportação e atender
a demanda artesanal dos pequenos teares locais, além de impulsionar a
agricultura com o plantio do algodão, ocupando novas áreas. Na sequência,
outras descaroçadeiras também foram compradas por Fenelon Pita, Dirceu
Figueiredo e Juvêncio Barreto.

Agora é o momento para que os agricultores aproveitem todas as terras para o plantio
do algodão. Quem precisar de sementes, me procure. E quem não é agricultor, cuide em
adquirir terras e situar algodão, inclusive aproveitando a serra de São Pedro, os baixos e
os ariscos. Com essa descaroçadeira, o produto terá preço alto e os galegos vão comprar
bastante (Padre Cícero, apud BARBOSA, 1992, p. 123).

A partir de então, a produção de algodão em Joaseiro ganhou novo im-


Imagem 101 pulso. As novas indústrias já faziam parte do dia a dia do lugar. As máquinas
Feira Industrial do eram conhecidas como “vapor”, devido ao apito que soava durante o seu
Cariri, realizada funcionamento, ou como “bolandeiras”. Os novelos eram feitos a partir
em 1967, na sede
do Treze Atlético do algodão em pluma, rodado em fusos manuais e transformado em fios.
Juazeirense. Na Assim, aumentava-se a fabricação de redes, lençóis, sacos e cordões. A esse
imagem veem-se processo de fabricação artesanal, seguiram-se as modernas usinas Pita &
as presenças de
João Barbosa, Cia., P. Machado, Anderson Clayton, Bezerra de Menezes e Usina Maria
Eliseu Damasceno, Amélia, que vieram a enfrentar duras crises com a chegada do bicudo nos
Lurdinha Brito, plantios de algodão.
José Wilson,
Maria Correia e Outras indústrias foram surgindo, o comércio crescia a passos largos,
Aderson Borges. e Juazeiro tornou-se, ao longo do tempo, um verdadeiro polo industrial e co-

Para Saber Mais 115


mercial, abastecendo não somente a instância local e regional, mas também
várias cidades do interior do estado do Ceará, Pernambuco, Rio Grande do
Norte, Piauí, Maranhão e Paraíba.
A I Feira Industrial do Cariri (FIC) aconteceu em Juazeiro, no ano 1967.
A iniciativa de João Barbosa tomou corpo a partir da articulação de Aderson
Borges de Carvalho, recém-chegado do sudeste do país, quando participou
de uma reunião cujo objetivo era organizar uma festa patrocinada pelas
indústrias locais, no Clube dos Doze, que se iniciaria com um desfile para
a escolha da Rainha.

A ideia era interessante, mas na minha ótica, sem retorno aos patrocinadores, em ter-
mos de eficiência publicitária, por realizar-se num salão, que, elitista, seria inibidor Imagem 102
da presença de pessoas, socialmente mais modestas. Sugeri então que déssemos Visita do Vice-
Governador do
maior amplitude ao evento, partindo para uma mostra onde os expositores fossem Estado do Ceará,
indústrias de toda a região, já que estávamos empolgados e ansiosos pelo sucesso do General Humberto
‘Plano Asimov’11 em incipiente implantação.12 Ellery à I FIC, na
sede social do
Treze Atlético
De pronto a sugestão foi aceita e Aderson Borges se tornou Presidente do Juazeirense.
Comitê de Organização da Feira, acompanhado por Aldemir Sobreira como
Secretário e por João Barbosa, na Tesouraria. O Rotary, o Lions e a Câmara
Júnior seriam apoiadores, além do Banco do Nordeste, que, informalmente,
através da pessoa do gerente Valtemar Aquino, incentivava os industriais,
clientes da agência local, a participarem do evento.
Os interessados foram chegando e a logística sendo providenciada. O lo-
cal era o Treze Atlético Juazeirense. Os convites seguiram para o Presidente
da República, Ministros, Governador, Secretários, Deputados, Prefeito etc.
Ansiava-se pela presença de importantes personalidades locais e nacionais

11 O Plano Asimov foi realizado na década de 1960, por meio de um convênio de cooperação técnica
entre a Universidade da Califórnia e a Universidade Federal do Ceará. O trabalho era construir um
plano de diretrizes de ação, dentre as quais se apresentava a consolidação da Universidade Regional
do Cariri, um sistema viário estrutural compartilhado pelos três polos principais (Juazeiro, Crato e
Barbalha) e o incentivo à industrialização regional.
12 Depoimento de Aderson Borges de Carvalho, postado por Daniel Walker no dia 4 de agosto de 2011,
em http://historiadejuazeiro.blogspot.com.br/. Data de acesso: 10/09/2017.

116  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


para prestigiarem a Feira. A notícia já chegava às residências e ao comércio
pela voz do rádio. Até na capital do Estado já se sabia. Mas veio a complica-
ção: o Delegado do Ministério da Indústria e Comércio, Edgar Damasceno,
por telegrama, anuncia ao então prefeito municipal, Mauro Sampaio, que
o evento não aconteceria por descumprimento das exigências legais sobre
feiras e exposições. Com a colaboração do silêncio do radialista Coelho Alves,
que sabendo em primeira mão, ainda na Prefeitura, do conteúdo do telegra-
ma, Aderson segue para Fortaleza, intencionando convencer o Delegado
da importância da feira para a cidade. Sem muito sucesso na empreitada
junto ao Sr. Edgar, mas com o seu consentimento, o Presidente do Comitê
Organizacional resolve seguir até às instâncias superiores, expondo a si-
tuação de desconhecimento das orientações legais obrigatórias e pedindo
consentimento especial para o caso. Atenção dada, o evento é liberado.
Seguem os preparativos.
A Feira é aberta. Stands com produtos expostos, área de alimentação e
programações culturais. Caubi Peixoto e Ângela Maria foram as atrações
artísticas da abertura, empreendendo à realização sucesso total. Até uma
boate com o nome de Maria Bonita, organizada por Dona Zuíla Morais, fez a
alegria de tropas militares que se encontravam na cidade, sob a supervisão
do General Dilermando Monteiro. Diversas autoridades políticas se fizeram
presentes, assim como a comunidade local.
A Feira Industrial do Cariri acabou tornando-se uma espécie de embrião
para futuras iniciativas de caráter semelhante, como foi o caso da Feira de
Negócios do Cariri (FENEC), realizada pelo SEBRAE em várias edições, alguns
anos à frente, em parceria com outras instituições.

Para Saber Mais 117


O ARTESANATO LOCAL

V ilarejo de Tabuleiro Grande, em 1827. Um pequeno aglomerado de ca-


sinhas de taipa e bem poucas de tijolos, nos arredores de uma capela
dedicada a Nossa Senhora das Dores. Era um ponto de apoio aos que se
dirigiam pela estrada que ligava o Crato a Missão Velha. O lugarejo não teve
grande desenvolvimento até que, a 11 de abril de 1872, lá chegou o Padre
Cícero Romão Batista, sucessor do Padre Pedro Ferreira de Melo.
O pequeno vilarejo contava, então, com 12 casas de tijolos e 20 de taipa e
palha, devendo subordinação à cidade do Crato. O jeito simples e carismático
do Padre Cícero contagiava a população cada vez mais. Seus conselhos muito
contribuíram para o crescimento da cidade. Ele apregoava a máxima: “de dia
trabalho, de noite oração”.
Após o milagre da hóstia convertida em sangue na boca da beata Maria
de Araújo, em 1889, os rumos do povoado começariam a mudar vertigino-
samente. O Padre Cícero ganhava cada vez mais fama, e levas de romeiros
chegavam fugindo das dificuldades que a aridez do sertão impunha e em
busca de novas oportunidades de vida e de trabalho, junto ao lugar que
apresentava ares de “terra prometida”.

Imagem 103
Obras produzidas
pelos artistas do
Centro de Cultura
Mestre Noza, na
cidade de Juazeiro
do Norte.

118  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Para Saber Mais 119
Imagem 104
Detalhe de uma
obra sendo
produzida no
Centro de Cultura
Mestre Noza, na
cidade de Juazeiro
do Norte.

120  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Na virada do século XIX para o século XX, mais gente chegava. As ruas
ficavam cheias de famílias, que perambulavam e aguardavam um momento
com o sacerdote, cujas orientações norteavam, em sua maioria, trabalho e
moradia. O Padre Cícero ia identificando as expertises e encaminhando, mui-
tas vezes com recursos próprios, os recém-chegados. Alguns se ocupavam
da agricultura, outros da construção ou do comércio. Havia ainda os que se
dedicavam à manufatura de artigos de uso doméstico com matéria-prima
Imagem 105 local. Nesse processo, foram surgindo muitos artesãos, que utilizavam os
Navio de flandre, mais diversos tipos de materiais.
feito pelo Mestre
Maurício da Silva. À medida que o povoado crescia, aumentavam as necessidades de
consumo. O comércio prosperava. A nascente indústria do artesanato co-
meçava a preparar o terreno e erguer as primeiras colunas para se afirmar
como principal atividade econômica do lugar. Eram ferreiros, cuteleiros,
sapateiros, louceiras, chapeleiros, santeiros, entre outros. As oficinas
surgiam nas calçadas e/ou nos quintais, em sua maioria. Algumas com
forja de tornos, máquinas de costura ou simplesmente a principal fer-
ramenta: as mãos dos artesãos. Eram utilizados madeira, corda, barro,
palha, flandre, gesso etc.
Os artigos religiosos, como medalhas, crucifixos, escapulários, rosários
e imagens de diversos santos, entre eles Nossa Senhoras das Dores, eram
fabricados numa infinidade. Uma grande parte desses artesãos de produtos
religiosos foram, aos poucos, se transformando em ourives, cuja quantidade
Imagem 106 se agigantou tanto que rendeu a Juazeiro, anos à frente, a notoriedade de
Bule de flandre cidade do interior com o maior número desses profissionais no Brasil.­­
produzido em
Juazeiro do Norte.
Além dos artesãos aglomerados em torno do Padre Cícero, outros vieram de lugares
diferentes do Nordeste, atraídos certamente pela fertilidade do Cariri e pela fama do
taumaturgo. Explica-se, assim, certa especialização da mão-de-obra em tipos de arte-
sanato, como a ouriversaria, o fabrico de armas e relógios. Para aquele artesanato que
crescia e que passava a constituir o principal setor da economia do município, uma
atividade antes aleatória, tornava-se agora permanente. Antes dispersas em milhares
de choupanas sertanejas, estava agora concentrada. Antes destinada exclusivamente
ao próprio uso de artesãos, visava agora o mercado (SOUSA, 1994, p. 60).

Para Saber Mais 121


E O BARRO GANHA VIDA:
A OFICINA SANTA HELENA

H elena Vieira dos Santos, juazeirense nascida em 1938, desde criança


recolhia matéria-prima para produzir suas primeiras obras às mar-
gens do rio Salgadinho, como boizinhos e panelinhas de argila para brincar.
Ao perceber que suas pequenas construções tinham valor econômico, passou
a vendê-las na feira, cooperando, assim, para o sustento da família.
Dona Helena, como era conhecida, casou cedo, teve nove filhos e adotou
mais uma menina. Inicialmente morava na Rua São José, depois passou a
ocupar o endereço da Rua Santa Cecília, esquina com Conceição, no antigo
traçado urbano a que as ruas obedeciam. A primeira construção do quarteirão Imagem 107
Helena Vieira dos
era a Oficina Santa Helena, que ficava conjugada com sua residência, o número
Santos, Artista Plástica.
25, seguida por outras sete casas de morada até o Grupo Escolar Padre Cícero.
Na dedicação ao seu trabalho, diversos materiais foram sendo utiliza-
dos e experimentados pela artista, que, sem oportunidades para o estudo
formal, foi autodidata no desenvolvimento e produção das obras que cons-
truía. Utilizava argila, gesso, cimento, ferro, concreto, resina e fibra de vidro.
Produzia imagens religiosas e de personalidades políticas. Seu trabalho ficou
conhecido pelo realismo impresso no semblante das imagens. Geralmente
trabalhava a partir de fotografias, dado o longo tempo para a produção da
escultura base que serviria para a confecção da forma. Como exceção dessa
prática, teve a companhia do religioso Frei Damião que, durante alguns dias,
posou para a artista produzir sua escultura, que, nos dias atuais, se encontra
exposta no Centro de Tradições Nordestinas, na cidade de São Paulo, assim
como outras obras, como Padre Cícero, Luiz Gonzaga etc.
Dois dos seus trabalhos mais significativos compõem o acervo pessoal
da família: esculturas em tamanho real da beata Maria de Araújo e do Padre
Murilo de Sá Barreto. Dispunha de grande estima entre personalidades de
notoriedade nacional, como a escritora Raquel de Queiroz, sua amiga pessoal; Imagem 108
José Wilker; Antônio Fagundes; Stênio Garcia; Roberto Carlos, entre outros. Imagem de Frei Damião,
construída por Helena
Falecida em 28 de janeiro de 2007, aos 69 de idade, o veio artístico de Dona Vieira, tendo o próprio Frei
Helena não foi rompido. Seu filho Gilson Vieira, numa descoberta quase que posado para a artista.

122  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Imagem 109
Detalhe das
esculturas da Beata
Maria de Araújo e
do Padre Cícero,
feitas pela artista
Helena Vieira.

instantânea após o falecimento da genitora, se fez artista plástico e, num


caminho ininterrupto, deu prosseguimento ao trabalho da mãe, inclusive con-
cluindo obras inacabadas. Gilson produziu sua primeira escultura, um Divino
Espírito Santo, inspirado numa experiência extrassensorial, e daí não mais
parou. Segue alimentado pelo que considera a maior herança materna, sua
força e resiliência.
Em Juazeiro, várias esculturas levam a assinatura de dona Helena, como
os bustos de Luiz Gonzaga, no Largo do Socorro, e de Floro Bartolomeu, na Av.
Dr. Floro, entre tantas outras. Dona Helena reside, por meio de suas obras,
em centenas de cidades do interior do Nordeste, de São Paulo e várias partes
do Brasil e da Europa, em praças, igrejas e residências. Foi homenageada pelo
programa Gente que Faz, uma iniciativa do Banco Bamerindus. Transformou-
se em poesia pelas mãos de Seu Lunga13. Mulher, mãe, artista, Helena Vieira
escreveu seu nome na história de Juazeiro do Norte.

13 Joaquim dos Santos Rodrigues, nasceu em Caririaçu no ano de 1927. Seu Lunga, como ficou conhe-
cido, era poeta e dono de uma sucata na cidade de Juazeiro do Norte. Sua personalidade forte o
deixou com fama de pouco paciente, atribuindo-lhe caráter de personagem folclórico conhecido
em todo o Brasil. Com a popularização das redes sociais, a fama de Seu Lunga se ampliou. Falecido
em 2014, ganhou páginas e comunidades que dispõem de suas famosas frases, além de fotografias
e vídeos. Veja: http://plus.diariodonordeste.com.br/lunga-eterno-poeta-cariri/

Para Saber Mais 123


UM NOVO TERRITÓRIO
Juazeiro do Norte tem um eixo: Padre Cícero Romão Batista, em torno do qual gravitam
as populações sertanejas de todo o Nordeste brasileiro (MALZONI, 1994, p. 115).

D ia de sol escaldante. Milhares de pessoas se deslocam pelo centro da


cidade, perfazendo o tão conhecido Roteiro da Fé. São pessoas simples,
de condição econômica similar e proprietários de uma fé que os conduz de
vários estados brasileiros, sobretudo do Nordeste, para pedir ou agradecer
ao Padre Cícero Romão Batista.
O sacerdócio e a visão empreendedora entrelaçam-se, norteando as
decisões do homem, que como padre acolheu e cuidou, como político en-
frentou batalhas e fez conchavos. Sua história é a própria história da cidade
de Juazeiro do Norte. O Padre que não podia exercer sua função religiosa —
tinha mais influência do que o Bispo, que o proibiu de celebrar.
No centro da cidade, um grande complexo foi construído. À frente da
Capela do Socorro, onde está enterrado o sacerdote, avista-se um largo que
ampara um prédio de arquitetura modernista: o Memorial Padre Cícero.
Na década de 1980, o então prefeito Manoel Salviano Sobrinho foi buscar
inspiração para a construção de um lugar que pudesse abarcar simbolicamen-
te a história do Padre. A ideia era construir um Museu. Na cidade de Brasília,
em setembro de 1981, foi inaugurado o Memorial JK, um projeto assinado pelo
arquiteto Oscar Niemeyer, a pedido de Sara Kubitschek, em homenagem ao
ex-presidente e fundador de Brasília, Juscelino Kubitschek. Eis a referência.
O Prefeito, então, inicia o projeto, que foi assinado pelo arquiteto carioca
Jorge de Souza e levou dezoito meses para ser concluído, com uma área total
de 25 mil m²­. O Memorial Padre Cícero foi inaugurado com grande pompa
no dia 22 de julho de 1988. A cidade acordou com uma alvorada festiva que
anunciava o novo feito. O dia seguiu com muita festividade. Na solenidade
de inauguração, o grande largo estava todo ocupado por um mar de gente. Imagem 110
Prefeitos da região do Cariri e de outras cidades do Ceará estavam presen- Lateral do prédio
da Fundação
tes. Governadores de todos os Estados do Nordeste, além do Presidente da Memorial Padre
República, José Sarney, estavam na cidade. Juazeiro estava em festa. Cícero, em 2018.

124  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


Para Saber Mais 125
Desde a sua inauguração, o Prédio conta com um Museu, Biblioteca,
Auditório e salas administrativas. A Fundação Juazeiro do Norte foi a pri-
meira entidade mantenedora do Memorial, criada por Lei Municipal nº 1.439,
de 9 de maio de 1989. Somente em 20 de março de 1993 é que se tornou
oficialmente Fundação Memorial Padre Cícero.
O Museu conserva um acervo representativo da trajetória do Padre Cícero.
São fotografias, indumentárias, louças, quadros e mobília. A coleção foi
inicialmente formada por doações feitas por várias famílias da cidade e
o acervo particular dos pesquisadores Daniel Walker e Renato Casimiro.
A Biblioteca possui um acervo especializado com 13 mil itens catalogados
atualmente, entre livros, revistas, jornais, fotografias, documentos im-
pressos e manuscritos, com temáticas relacionadas à história do Padre
Cícero, bem como da cidade de Juazeiro do Norte e região do Cariri.
A Fundação já realizou diversas ações de formação e discussão sobre temá-
ticas que abordam diretamente ou que se relacionam com a história do Padre
Cícero e da cidade de Juazeiro do Norte, em parceria com Universidades
e instituições afins, entre as quais se destacam os simpósios internacio-
nais. Já foram realizadas cinco edições do Simpósio Internacional Padre
Cícero. A primeira aconteceu no período de 17 a 20 de abril de 1988, antes
ainda da inauguração oficial do Memorial. Realizado com iniciativa da
Universidade Regional do Cariri, o I Simpósio teve como tema “O Padre
Cícero e os Romeiros de Juazeiro do Norte”, com participação de estudiosos
renomados nacionalmente, outros da região do Cariri, além de um grupo de
pesquisadores da religião da Universidade de Louvain, Bélgica.

O objetivo era contribuir válida e seriamente, para as reflexões e os estudos sobre o


taumaturgo do Nordeste, sobre as manifestações salvíficas dos romeiros, suas reci-
tações cúlticas, sua visão de mundo e, principalmente, suas implicações existenciais
com a realidade total, com a realidade vivida; tudo isso centrado na pessoa daquele
que crê (SOARES, 1999, p. 9).

Em 1989, acontece o II Simpósio “Juazeiro do Padre Cícero e a Beata Maria


de Araújo: um contexto de milagre”. Além da URCA, houve a participação do

126  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias


recém-criado Instituto José Marrocos de Pesquisa e Estudos Sócioculturais
(IPESC), ligado à Reitoria da mesma Universidade. O III Simpósio “Padre
Cícero do Juazeiro: E... Quem é Ele?” aconteceu em 2004 e trouxe mais uma
importante parceria, a Diocese do Crato, o que representava mais um avan-
ço para a compreensão integral do fenômeno que o Padre representa nos
aspectos social e religioso. O IV Simpósio “Padre Cícero e... Onde Está Ele?”
trouxe uma proposta de discussão do sacerdote além da dimensão da pes-
quisa, adentrando a dimensão sacramental, da gratidão e da confiança dos
devotos. Em 2015, acontece a reconciliação da Igreja Católica com o patriarca
do Juazeiro e o último Simpósio realizado, a quinta edição, que aconteceu no
período de 20 a 24 de março de 2017, sob o tema “Reconciliação... E Agora?”.
Outra realização que merece destaque é o Seminário 150 anos de Padre
Cícero. A iniciativa foi da Universidade Federal do Cariri, por meio do Centro
de Humanidades, em parceria com a Fundação Waldemar de Alcântara,
Secretaria de Desporto do Estado do Ceará, Prefeitura Municipal de Juazeiro
do Norte, IPESC, Instituto Cultural do Vale Caririense e a Casa Amarela
Eusélio Oliveira. Aconteceu em dois momentos: nos dias 6, 7 e 8 de junho
de 1994, na cidade de Fortaleza, e nos dias 9, 10 e 11 do mesmo mês, no au-
ditório do Memorial, em Juazeiro. A ideia central era trabalhar temas da
cultura nordestina a partir da figura do Padre Cícero, além de revisitar es-
tudos sobre a vida e obra do religioso, que revelaram importantes aspectos
de sua personalidade.
Em quase trinta anos de existência, a Fundação Memorial Padre Cícero
já teve em seu quadro diretor os seguintes Presidentes: Abraão Batista, José
Bendimar de Lima, Geraldo Menezes Barbosa, João Batista Barbosa, Maria
do Carmo Costa, Renato Casimiro, Altamiro Júnior, Ricardo Lima, Marcelo
Fraga, Antônio Chessman, Solange Cruz e, atualmente, Cristina Holanda.
Para uns, o Memorial é um espaço-referência da memória de um homem,
de um período, de um povo. Para outros é um espaço sagrado que guarda as
relíquias de um santo. O lugar acolhe estudiosos e pesquisadores. Bandas ca-
baçais e suas sonoras reverências. O turista e o peregrino. Assim, o Memorial
Padre Cícero tornou-se um amplo território que agrega símbolos e valores
de patrimônio, memória e fé.

Para Saber Mais 127


128  Memorial Padre Cícero e Outras Histórias
Relação dos Ítala Magalhães. Servidora da Odorina Reginaldo Tenório. Acervos
Fundação Memorial Padre Cícero, Moradora do entorno do
Entrevistados à época da inauguração. Data da Memorial. Data da entrevista: Consultados
entrevista 22/09/2017. 02/10/2017. Biblioteca do Memorial
Abraão Batista. Primeiro
Presidente da Fundação João Bezerra de Oliveira. Ricardo Lima. Presidente da Padre Cícero.
Memorial Padre Cícero. Data da Arrendatário do Clube Asa Fundação Memorial Padre
Acervo documental e
entrevista: 25/08/2017. Branca. Data da entrevista: Cícero na gestão municipal de
iconográfico do Tiro de
14/09/2017. Dr. Santana. Data da entrevista:
Amanda Tavares. Servidora 5/10/2017. Guerra 10005.
da Fundação Memorial Padre José Bezerra Rodrigues. Capitão
Rosângela Maria Reginaldo Acervos particulares: Casa Santa
Cícero, de 1988 a 2017. Data da do Exército, Chefe de Instrução
Tenório. Moradora do entorno Helena, Daniel Walker e Renato
entrevista: 29/09/2017. do Tiro de Guerra 210, na Praça
do Memorial. Data da entrevista: Casimiro, Eliana Oliveira, Família
do Cinquentenário. Data da
Ana Lúcia Pinheiro. Moradora entrevista: 19/09/2017. 14/12/2017. Menezes Barbosa, Raimundo
do entorno do Memorial, Araújo, Tenísia Coimbra.
Rosalva Oliveira. Moradora do
desde 1952. Data da entrevista: José Carlos Pimentel.
entorno e antiga funcionária do Acervo virtual: Biblioteca
26/10/2017. Memorialista e genro da artista
Posto de Puericultura, esposa Nacional Digital, Memória
plástica Helena Vieira. Data da
Eliana Oliveira. Moradora do de Chico Romeiro. Data da
entrevista: 03/10/2017. Fotográfica de Juazeiro de Norte.
entorno, filha de Francisco entrevista: 12/09/2017.
José dos Santos, conhecido por João Martins. Ex-morador
Sidália Maria Quezado Alencar.
Chico Romeiro, Diretor do Treze do entorno do Memorial e
Coordenação de Patrimônio Periódicos
Atlético Juazeirense. Data da proprietário da Banda J. Martins
da SEAFIN. Data da entrevista: Jornal Correio de Juazeiro.
Show, grupo que animava as
entrevista: 12/09/2017. 19/09/2017.
serestas no Treze Atlético Semanário (1949).
Estêvão Rodrigues. Servidor Juazeirense. Data da entrevista: Tenente Gledson Uchoa. Chefe
público e editor de jornais 27/09/2017. de Instrução do Tiro de Guerra
que circulavam na cidade na 10005, atualmente. Data da Sites
Lurdes Marques. Moradora do Entrevista: 13/09/2017.
década de 1980 a 1990. Data da colunadeneuma.blogspot.com.br
entorno do Memorial. Data da
entrevista: 13/09/2017. Tenísia Maria Coimbra Bezerra. colunaderenato.blogspot.com.br
entrevista: 23/08/2017.
Filha de Antônio Fernandes
Francisco Amorim. Servidor da Maria Marlene Balbino. www.facebook.com/groups/
Coimbra, o Mascote, um dos
Secretaria de Cultura de Juazeiro Moradora do entorno do memoriafotojn
fundadores do Treze Atlético
do Norte. Data da entrevista: Memorial. Data da entrevista: historiadejuazeiro.blogspot.com
Juazeirense. Data da entrevista:
22/08/2017. 1/09/2017. 28/09/2017. juazeiroanos60.blogspot.com.br
Gilson Vieira. Filho de D. Manoel Salviano Sobrinho. www.portaldejuazeiro.com
Helena, artista plástica e Idealizador do Memorial Padre
www.sitededanielwalker.com
proprietária da Oficina Santa Cícero e Prefeito de Juazeiro do
Helena. Data da entrevista: Norte de 1983 a 1989/1993 a 1996. www.urca.br/ivsimposiopecicero/
19/10/2017. Data da entrevista: 5/9/2017. historico.php

Para Saber Mais 129


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Para Saber Mais 131


Este livro foi composto nas fontes Karmina,
Karmina Sans, Abril Titling e Abril Fatface,
desenvolvidas por José Scaglione e Veronika Burian
e distribuídas por TypeTogether.

Impresso por Halley S.A. Gráfica e Editora.

Publicado em Juazeiro do Norte, Ceará,


em julho de 2018.
Muito Antes… era o Quadro Grande, a Feira do Capim.
A Capela do Socorro veio ocupando as terras que estavam
destinadas ao Cemitério Novo, a partir de uma promessa
de Hermínia Gouveia, em intenção à saúde do Padim.
Outras edificações foram surgindo nos terrenos por onde
o Joaseiro crescia. Os Vicentinos, a saúde, as primeiras
letras e o artesanato foram erguendo seus espaços.
Em 1988, foi fundado o Memorial Padre Cícero, como
um lugar representativo do patrimônio de Juazeiro do
Norte. São essas e outras histórias que esta publicação
apresenta, como integrantes do Projeto Ponto de Memória
Institucional, uma ação da Prefeitura Municipal de
Juazeiro do Norte, por meio de sua Secretaria de Cultura.

DO