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Painel Semântico como técnica metodológica

no ensino da prática projetual em design

Claudio Gusmão, Msc.; Professor da Graduação em Design Digital,


Universidade Anhembi Morumbi; cgusmao@anhembimorumbi.edu.br

Resumo

O presente texto procura refletir sobre a utilização de painéis semânticos como


técnica metodológica, não somente para concepção visual de interfaces gráficas, mas,
principalmente como processo de visualização conceitual do projeto. Em sala de aula,
com alunos da graduação em design digital, existe a necessidade de se conduzir as
proposições ao mesmo tempo em que se ensina e se exercita a prática projetual em
design. Assim, discute-se neste texto a relação entre a pesquisa científica e o método
como etapas cruciais para elaboração de conceitos, e os painéis semânticos como um
exercício de tradução visual em processos de criação. É possível perceber que esta
técnica estimula sensivelmente o olhar dos envolvidos (stakeholders) para estabelecer
relações consistentes entre os conceitos abstratos e a forma concreta das propostas de
design em projetos acadêmicos.

PALAVRAS-CHAVE

Design; Metodologia; Painel Semântico.

Design Arte Moda Tecnologia. São Paulo:


Rosari, Universidade Anhembi Morumbi, Puc-Rio e Unesp-Bauru, 2012.
Painel Semântico como técnica metodológica no ensino da prática projetual em design

INTRODUÇÃO
Um dos maiores desafios do designer digital no ciclo de vida de um projeto,
é a passagem entre os conceitos abstratos envolvidos e a materialidade; a forma, o
conteúdo, o projeto de navegação e interação. Quando esta proposição é apresentada
em sala de aula, em especial para alunos que estão iniciando o curso de graduação em
Design Digital1, é preciso articular estes conceitos, que podem ser os mais diversos,
com as demandas de um público alvo, e conformar soluções a partir dos limites e
especificidades do suporte digital. Neste processo, são apresentadas metodologias
projetuais e técnicas que os auxiliam a sistematizar e refletir para efetuarem escolhas
cada vez mais coerentes dentro do ciclo de vida deste projeto.
Neste artigo abordaremos algumas metodologias projetuais em design com o
intuito de contextualizar o projeto acadêmico desenvolvido com os discentes, sem
apresentar os requisitos técnicos necessários para a concepção de interfaces gráficas,
pois nos interessa expor a utilização de uma técnica específica para suporte da tradução
de conceitos abstratos verbais em discursos visuais.
O ensino da prática projetual, por meio dos paineis semânticos, visa organizar
as imagens referenciais coletadas (tomando como base palavras-chave) para então
estabelecer quais características visuais são relevantes e adequados ao projeto.
Embora esta técnica seja cada vez mais difundida entre designers, gostaríamos de
propor uma abordagem que auxilie especificamente os alunos que partem de algumas
premissas acadêmicas para a prática projetual.
Primeiramente abordamos a relação existente entre pesquisa científica e
metodologia projetual em design como etapas cruciais na conceituação do projeto. Em
seguida, discorreremos sobre o conceito de painel semântico, seus desdobramentos e
finalmente apresentamos um breve estudo de caso que reflete o uso desta técnica em
sala de aula.

PESQUISA CIENTÍFICA E MÉTODO NO DESIGN


Embora, este artigo não tenha a intenção de descrever, comparar ou debater
a cerca das metodologias existentes, discorremos aqui sobre a utilização de técnica
específica para conformação da materialidade de um projeto de design digital; assim,
é necessário contextualizar primeiramente as metodologias projetuais para em seguida
apresentar o projeto acadêmico desenvolvido.
Parece unânime, que fazer design2 diz respeito ao ato de projetar, a exercer
escolhas a partir de etapas e técnicas no percurso existente entre um problema
proposto e sua resolução. Para atingir este objetivo, faz-se necessário um método
que norteie o pensamento projetual do designer. Assumimos as reflexões de Cipiniuk
e Portinari (2006), que se apropriam da definição advinda do pensamento científico,
para entender que

Método é a designação que se atribui a um conjunto de procedimentos


racionais, explícitos e sistemáticos, postos em prática para se
alcançar enunciados e resultados teóricos ou concretos ditos

1 Estudo realizado com alunos de 2º semestre em 2012 do Curso de Design Digital da Universidade Anhembi
Morumbi, na disciplina de orientação para o Projeto Interdisciplinar que reúne competências das disciplinas
correntes.
2 Adotaremos aqui, como definição o conceito de “que podemos deduzir o design como uma idéia, projeto
ou um plano para a solução de um problema determinado. O design consistiria então, na corporificação
desta idéia” (LÖBACH, 2001,p.16).

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verdadeiros, de acordo com algum critério que se estabeleça como


verdade (CIPINIUK e PORTINARI, 2006, p.17).

Abordar o método, inicialmente, sob esta ótica da pesquisa científica aponta


para duas questões; sendo a primeira assumir a pesquisa em design com muitos pontos
comuns em relação à pesquisa científica, e diferenciada pelos métodos de validação
“desta verdade” (FACCA, 2008, p.29). A segunda, é que estamos refletindo sobre o
ensino da prática projetual em um curso de design e os alunos iniciam seus projetos
a partir da pesquisa científica para então, posteriormente, desenvolverem as etapas
de projeto.
É crucial que estas abordagens sejam consideradas pois os alunos em início
de curso tendem a perceber o design exclusivamente pelo caráter estético-visual;
entende-se a dificuldade em reconhecer a importância do método, principalmente
por que a pesquisa e o método são os agentes que propiciam o distanciamento e a
visão ampla necessários para a solução dos problemas de design (MALDONADO apud
CALVERA, 2006; COELHO, 2006).
Nesta perspectiva, Facca (2008) afirma que

Ao somar a sistematização da pesquisa científica com o poder de


transformação do conhecimento numa ação criativa, surge então,
como resultado, a pesquisa aplicada ao design, considerada,
então, como a relação entre teoria e prática, ciência pura e
técnicas aplicadas. […] A pesquisa passou a proporcionar uma maior
segurança e objetividade nas escolhas durante o processo projetual
(FACCA, 2008, p.28-29).

Desta maneira, independentemente dos métodos de projeto adotados ao


longo do percurso projetual, consideramos aqui improvável, para fins pedagógicos, ser
possível dissociar a pesquisa científica da atividade projetual.
A prática projetual, então, é composta por diversas etapas não lineares, que
podem variar conforme as necessidades projetuais e os contextos específicos de cada
projeto. Devemos observar que o produto resultante do ato projetual sendo matérico
ou informacional, de caráter metalinguístico ou não, aponta de acordo com Ambrose
(2010, p.6) para “um processo. Um sistema. Um modo de pensar”.
Assim, é apresentado inicialmente aos alunos o método baseado no binômio
problema-solução proposto Bruno Munari em seu livro Das coisas nascem coisas. Este
modelo apresenta aos alunos um projeto de design primordialmente composto por etapas
subsequentes3, a serem conquistadas, e que seu início é baseado em problematizações
(advindas da pesquisa científica); estas, por sua vez, procuram traduzir necessidades
do ser-humano em relação ao seu ambiente, como afirma Munari (2008)

[…] no nosso ambiente as pessoas sentem a necessidade de ter, por


exemplo, um carro mais econômico ou uma maneira diferente de
dispor em casa o espaço para as crianças, ou o novo recipiente mais
prático para… Estas e muitas outras são necessidades das quais
pode surgir um problema de design (MUNARI, 2008, p.39-40).

3 Sabemos que metodologias contemporâneas não abordam com rigidez etapas projetuais que se sucedem,
porém é necessário lembrar que o estudo de caso refere-se a alunos em início de curso e, portanto, optamos
por algo mais palatável a eles.

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Após a definição do problema, seguem etapas responsáveis por identificar os


componentes deste problema, separá-los por categorias, pesquisas, coleta e análise
de dados, para somente então adentrar à etapa da criação. Munari (2008) procura
alertar que o reconhecimento do problema com clareza não resulta automaticamente
em uma solução intuitiva e que deve haver uma etapa de geração de idéias, baseada
em métodos claros para se chegar a soluções aplicáveis.
Posteriormente iniciam-se, então, as fases de experimentação, de verificação
e criação de modelo construtivo, protótipos ou, no caso das interfaces gráficas, os
layouts. Neste momento projetual, o conteúdo abstrato relacionado ao projeto passa
a ser traduzido em forma, promove-se a elaboração de uma identidade visual a partir
dos conceitos abordados (MUNARI, 2008).
Nesta fase do processo, os painéis semânticos tendem a ser bastante efetivos
pois promovem a passagem entre o verbal e o visual, contribuindo sobremaneira para
a conceituação dos aspectos formais do projeto.

PAINEL SEMÂNTICO OU MOOD BOARD


Semântica é o ramo da linguística que estuda o significado das palavras. Assim,
o que buscamos por meio de imagens é a visualização dos significados evocados pelas
palavras-chave e verbalizados em determinadas fases do projeto.
O painel semântico ou mood board é uma técnica que busca traduzir a linguagem
verbal em signos visuais. Durante o projeto, o designer articula conceitos abstratos ou
metafóricos em imagens, evocando significação destes conceitos.
A visualização das imagens pode dirimir dúvidas sobre o significado das palavras
como afirma Bürdek (2005), e a utilização dos painéis semânticos no âmbito projetual
apresenta-se como agente de criação e de mediação.

Trabalhar com métodos visuais está gradualmente se tornando


uma necessidade no desenvolvimento de produtos de design. As
descrições verbais dos objetivos, conceitos e soluções não são mais
suficientes, especialmente nos projetos desenvolvidos para um
mercado global. As diferenças semânticas entre conceitos resultam
em entendimentos equívocados, mesmo entre designers, técnicos
e diretores de marketing da mesma equipe de desenvolvimento
(BÜRDEK, 2005, p. 265).

O autor nos mostra que em uma equipe multidisciplinar é possível haver


diferenças importantes nas atribuições de sentido entre os envolvidos, e as imagens
contribuem para um discurso menos divergente.
Podemos perceber que não há regras rígidas ou pré-estabelecidas sobre como
conduzir esta técnica projetual, e sim algumas premissas que devem norteá-la a fim
de torná-la mais objetiva, e com aplicação em outras etapas projetuais que exijam
esclarecer conceitos complexos. Esta técnica proporciona um modo visual capaz de
estimular e inspirar o processo de desenvolvimento de projetos, “que devem ser
consideradas por serem mais lógicas e empáticas para o contexto do design que a
abordagem tradicional centrada no código verbal” (DENTON e McDONAGH, 2005, p.3).
Do ponto de vista prático, a técnica consiste em coletar e reunir imagens
referenciais sobre os diversos aspectos relativos ao projeto, especificamente três
grupos principais: objetos, pessoas e ambientes e organizá-las visualmente em um
painel para que todos os envolvidos no processo possam, através de diversos pontos
de vista, observar, refletir e articular as características citadas nestas referências.
Pode-se extrair do painel semântico referências como cor, forma, texturas, tipografia

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e também conceitos subjetivos, figuras de linguagem, a metáfora, o símbolo, assim


como o estilo de vida ou emoções que dizem respeito especificamente ao público-alvo
(FACCA, 2012).
Pode-se criar um painel semântico fisicamente (colagem de elementos de outros
suportes impressos, ou ilustrações) e/ou digitalmente. O painel semântico físico é
concebido a partir de imagens coletadas através da mídia impressa (quando coletadas
digitalmente devem ser igualmente impressas) e coladas em um grande painel e fixado,
preferencialmente em uma parede. Desta maneira, a equipe a qualquer momento
pode visualizá-lo em seu ambiente estimulando a empatização acerca do tema. No
formato digital, o painel pode ser construído utilizando softwares gráficos ou mesmo
aplicativos que possibilitem a reunião e organização de imagens no ambiente online
como o MoodStream4 , MoodShare5 e até mesmo o Pinterest6, gratuito e passível de
compartilhar imagens entre usuários. Deve ser realizado preferencialmente em grupo
para que evoque múltiplos pontos de vista.
Como mencionamos antes a criação do painel semântico necessita ser orientada
por etapas para garantir a efetividade da técnica. De acordo com Jacques e Santos
(2009) podem ser adotadas cinco fases:

1º) compreensão exaustiva do problema projetual, o que pode ser


alcançado através de dinâmicas ou valendo-se de técnicas como o
brainstorming;
2º) transformação do entendimento verbal do problema projetual
em linguagem escrita – brainwriting;
3º) transformação da linguagem escrita em visual, ou seja, a busca
por imagens que realmente identifiquem ou traduzam a palavra ou
o termo listado, ou as necessidades que se procura atender a partir
dos objetivos de projeto que se quer alcançar;
4º) montagem da ambiência visual, construída pela composição do
painel;
5º) definição de cartela de cores, formas e texturas a serem
utilizadas no produto, pode-se ainda descrever o painel através
de um pequeno texto para auxiliar sua compreensão (JACQUES e
SANTOS, 2009, p.532).

Figura 1: Diagrama contendo as etapas de processo do painel semântico.


Fonte: (EDWARDS et al., 2009, p.6)

4 http://moodstream.gettyimages.com/
5 http://www.moodshare.co/
6 http://pinterest.com/

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Este processo tem o caráter iterativo (Figura 1), onde após as definições
geradas pelo brainstorming, vem a coleta de imagens, seleção, organização visual no
painel e reflexão. Este processo cíclico promove refinamento e esclarecimento das
proposições das características do projeto.
É inegável as diferenças entre os envolvidos no painel semântico diante das
experiências pessoais, formações culturais e educacionais, e de acordo com com
Edwards, et al. (2009) este pode ser um ponto negativo da técnica pois,

A experiência pessoal e a inspiração do criador do painel semântico


levanta uma questão relacionada a abstração extrema, o que poderia
afetar a eficácia dos painéis semânticos. Além disso, nas equipes de
projeto, os indivíduos envolvidos carregam diversas experiências e
culturas distintas, o que pode não fornecer uma linguagem visual
global e compartilhado por meio das imagens abstratas. Um painel
semântico automatizado, neste caso, pode ser uma solução sem os
fatores humanos que afetam a composição dos painéis semânticos
(EDWARDS, FADZLI e SETCHI, 2009, p.6).

Dentro da sala de aula, embora tenhamos equipes mais homogêneas este fato
pode também ocorrer, porém, cabe ao facilitador (neste caso o professor orientador)
conduzir este processo, que é iterativo, estimulando a reflexão sobre as imagens e
com isso procurando mediar as diferenças dentro da equipe, para que as mesmas
enriqueçam e complexifiquem o processo.
Descrevemos neste tópico a maneira mais difundida de conceber os painéis
semânticos, e no próximo item pretende-se discorrer sobre como este processo é
conduzido em sala de aula, juntamente com nossos alunos, a fim de suprir necessidades
pedagógicas específicas e tornando mais acessível o aprendizado da prática projetual
em sala de aula.

PAINÉIS SEMÂNTICOS E A PRÁTICA PROJETUAL EM


SALA DE AULA
A partir do tema “Design e Hipermídia: Memória gráfica, sonora e étnico-social
da Música Popular Brasileira” os grupos de alunos tem como objetivo de projeto a
produção de um website autoral, que apresente conteúdo informacional baseado em
elementos iconográficos – como textos, imagens, vídeos e audios oriundos da pesquisa
teórica referencial.
Artistas previamente selecionados da música popular brasileira como Noel Rosa,
Adoniran Barbosa e Chiquinha Gonzaga, são opções de escolha para os alunos. Após
escolher o artista, inicia-se o processo de pesquisa, buscando a delimitação do objeto
de estudo, já que a história destes artistas propciam as mais diversas abordagens.
Após a etapa de problematização da pesquisa e consequente pesquisa
referencial, os alunos já possuem dados suficientes para iniciar o processo de geração
de ideias. Vale lembrar que embora haja a preocupação projetual sobre os diversos
aspectos inerentes à construção de um website, como o design de informação,
interação e navegação, neste momento abordaremos a criação do discurso visual e
a tradução dos conceitos abstratos fomentando a elaboração da interface gráfica. Os
alunos devem então identificar os principais conceitos que envolvem seu objeto de
estudo, como por exemplo o sofrimento do sertanejo provocado pela seca, a esperança
de chuva e a consequente felicidade trazida por ela, etc. Estes conceitos nortearão o
processo de criação, tornando o processo criativo mais consistente do ponto de vista
projetual.

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O trabalho discente que tomaremos como exemplo, abordou o sub-tema Luiz


Gonzaga e como objeto de estudo a influência do cantor na popularização da cultura
nordestina para o proprio Brasil; as canções utilizadas descrevem as mazelas do sertão
nordestino enquanto buscam pela fé do sertanejo. A tristeza e a falta de perspectiva
de uma vida melhor é cantada e refletida na música “Asa Branca”, já a alegria, a
esperança e a fé, na música “A volta da Asa Branca”. O grupo optou por explorar
a segunda música, menos popular que a primeira, ampliando o caráter de certo
ineditismo no conteúdo a ser disponibilizado no website. Dessa maneira o conceito de
esperança foi priorizado pelos alunos, que passaram à produção do painel semântico.
Entendemos aqui que há duas vertentes de imagens referenciais neste projeto;
a primeira está relacionada à biografia do cantor refletida por fotos de família, locais,
vestuário ou mesmo capas de disco. A segunda, relacionada ao conceito estabelecido,
neste caso a esperança. Os alunos selecionam imagens relativas ao conceito, e outras
que podem não estar diretamente relacionadas ao objeto de estudo mas que refletem
as mais diferentes perspectivas a cerca do conceito estabelecido.
Os alunos são estimulados a evitarem imagens genéricas pois, o painel
semântico deve apresentar conteúdos visuais (inclusive biográficos) que traduzem o
textual. Dessa maneira, um registro sobre a emoção proporcionada pela chuva trazida
pela asa branca significa o projeto mais que uma foto do cantor.
Uma terceira vertente de imagens, consideradas também significativas ao longo
do processo, são as de criação autoral. Após a seleção das referencias os alunos são
estimulados a produzirem individualmente, sem dimensões definidas ou foco específico
nas interfaces, pois se tratam de exercícios de experimentação de linguagem. Embora
imagens autorais não sejam comumente inseridas em painéis semânticos, propomos
aqui que estas façam parte do processo a fim de que os membros do grupo possam
visualizar as diversas opções de discursos visuais; pretende-se neste processo
estabelecer uma proposição mais homogênea a cerca dos conceitos e, obviamente,
das imagens que serão produzidas.
Assim, após a coleta e consequente organização das imagens em um painel
semântico com imagens biográficas, conceituais e autorais (Figura 2), entende-se que
o confronto de conteúdos será importante para evocar reflexões a cerca do objeto de
estudo e apontar escolhas projetuais.

Figura 2 - Diagrama de composição e organização das imagens do painel semântico.


Fonte: Desenvolvido pelo autor

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Neste processo de escolhas, um movimento de intersecção dos conteúdos visuais


agrupa centralmente as imagens que melhor traduzem o objeto de estudo, enquanto
afasta para as laterais do painel aquelas que se revelam mais descontextualizadas
(Figura 3). Importa enfatizar, na pesquisa realizada pelos alunos sobre o nordeste, a
planta conhecida como dente-de-leão traduz o significado de esperança e estabelece
uma relação direta com o projeto, portanto, foi escolhida como elemento gráfico
simbólico das relações viscerais entre o artista e o sertão.

Figura 3 - Painel Semântico criado pelos alunos. Fonte: Arquivo

Pudemos perceber que após este processo a interface gráfica construída


se mostra mais consistente nos aspectos concernentes à linguagem não verbal. Os
elementos simbólicos tomam lugar de destaque reforçando o conteúdo verbal proposto.
É possível identificar os elementos revelados a partir do painel semântico e que foram
incorporados no processo de criação autoral da interface gráfica do projeto (Figura 4).

Figura 4 - Interface gráfica do website resultante do processo

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
No ensino da prática projetual em design se faz crucial que os alunos percebam,
reflitam e incorporem as técnicas metodológicas utilizadas a fim de que, mais que
etapas a serem cumpridas, e sim que haja uma reflexão em cada uma delas para que
não haja uma automatização destes processos e com isso a atitude projetual se torne
apenas um check-list de tarefas.
Tenta-se evitar uma leitura literal das referencias visuais por parte dos alunos
pois estas podem induzí-los ao erro. Ao estabelecer relações diretas, pontuando a
obviedade formal das imagens corre-se o risco, por exemplo, de propor que a interface
gráfica seja monocromática ou sépia pois as imagens referenciais são antigas e
desgastadas pelo tempo, abandonando o conteúdo presente nas mesmas. Assim, o foco
estaria equivocadamente nas questões formais e não nas conceituais ou contextuais,
que julga-se mais fundamentais neste processo. O uso de painéis semânticos com base
em palavras-chave, que descrevem características formais em vez de conceitos, não
propiciam a abrangência e consistencia necessárias para a criação autoral.
Sabemos que as técnicas metodológicas podem gerar resultados variados
dependendo de alguns fatores como a composição da equipe de trabalho e as
características do objeto de estudo. Também, não propomos que haja um único
método ou uma única técnica metodológica ao longo da prática projetual. Desejamos
sim, refletir sobre a relevancia da construção dos painéis semânticos para garantir
projetual mais consistente.

ReferÊncias
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BÜRDEK, Bernhard E. Design: The History, Theory and Practice of Product Design.
Basel: Birkhäuser, 2005.
CALVERA, Anna. Treinando pesquisadores para o design: algumas considerações e
muitas preocupações acadêmicas. Revista Design em Foco, Salvador, v. III, nº1, p.97-
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COELHO, Luiz A. L. (org.) Design Método. Rio de Janeiro: Ed. Puc-Rio; Teresópolis:
Novas Idéias, 2006. 182p.
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Production Machines and Systems (I*PROMS’09), Cardiff, UK, 2009.
FACCA, Cláudia A. O designer como pesquisador: uma abordagem metodológica
da pesquisa aplicada ao design de produtos. Dissertação (Mestrado em Design) –
Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, 2008.
_________________. Como criar um Painel Semântico ou “Mood Board”?. Disponível
em: <http://chocoladesign.com/como-criar-um-painel-semantico-ou-mood-board>.
Acesso em: 20 abril 2013.

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JACQUES, Jocelise J.; SANTOS, Ronise F. dos. O Painel Semântico como Ferramenta
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MCDONAGH, D.; DENTON, H. Exploring the degree to which individual students share
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learning and team-based design. Design Studies, 26(1), p. 35-53, Elsevier, 2005.
MUNARI, Bruno. Das coisas nascem coisas. Tradução de José Manuel de Vasconcelos.
São Paulo: Martins Fontes, 2008.

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