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RESENHA
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Educar meninas e meninos: relações de gênero na escola.

Roberta Gaio 1

AUAD, D. Educar meninas e meninos: relações de gênero na escola. São Paulo:


Contexto, 2006.

Espera-se que uma resenha forneça subsídios suficientes para que


as pessoas possam decidir pela leitura ou não da obra analisada. Assim, antes
de apresentar o trabalho de Daniela Auad quero, antecipadamente, indicar o
livro Educar Meninos e Meninas: relações de gênero na escola, como leitura
obrigatória para os e as docentes que se preocupam com uma educação
voltada para emancipação intelectual, que se propõe ser inclusiva, a partir do
entendimento das diferenças e do direito à igualdade de oportunidades.
Auad divide sua obra em dez capítulos temáticos, além de
apresentar sugestões de leitura e referências bibliográficas e contar com a
apresentação de Guacira Lopes Louro, uma grande pesquisadora sobre gênero.
No primeiro capítulo intitulado - Qual educação queremos para
meninos e meninas? - a autora aborda igualdade e diferença versus
desigualdade, nos mostrando que os seres humanos devem ser educados e
não adestrados, sendo assim a escola pode ser um espaço de “aprendizado da
separação” ou “importante instância de emancipação e mudança”, dependendo
somente de como os professores e professoras lidam com as diferenças, ao

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Graduada em Educação Física, Mestre em Educação Motora, Doutora em Educação, professora e
pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de Campinas é autora dos livros Para além do corpo
deficiente: histórias de vida e Ginástica Rítmica Popular: uma proposta educacional, ambos da Editora
Fontoura/Jundiaí e organizadora das obras Caminhos Pedagógicos da Educação Especial da Editora
Vozes/Petrópolis e A ginástica em questão: corpo e movimento da Editora Tecmedd/Ribeirão Pires
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mesmo tempo em que valorizam a relevância de oportunidades iguais para


meninos e meninas.
Já no segundo capítulo – Os óculos que uso para olhar a
realidade – a autora nos coloca o gênero como categoria de análise,
contemplando os leitores e leitoras com uma discussão sobre o conceito de
gênero, ressaltando que as relações de gênero devem ser entendidas como
socialmente construídas, quebrando paradigmas quanto às posições
historicamente definidas para homens e mulheres na sociedade, como natural.
Utiliza-se vários autores e autoras especializadas nesse assunto, entre eles a
francesa Christine Delphy que “afirma ser o gênero um produto social que
constrói o sexo.”
O terceiro capítulo – No meio do caminho tinha uma escola.
Tinha uma escola no meio do caminho – Auad nos apresenta, de forma
clara e gostosa, o universo da pesquisa, isto é, uma escola pública da cidade
de São Paulo, onde ela esteve durante quatro anos, especificamente
investigando “relações de gênero e educação escolar”, junto as segunda,
terceira e quarta séries do ensino fundamental.
No quarto capítulo – Quem vai sentar na fileira dos
quietinhos? – a autora nos fala de disciplina e rendimento na sala de aula e
como estereótipos construídos pela sociedade estão presentes na escola e
provocam separação, submissão e poder, colocando os meninos,
conseqüentemente os homens sempre como rebeldes e as meninas, também
as mulheres, na posição de inseguras e frágeis. Não devemos criar padrões
para meninos, meninas, jovens, homens, mulheres, idosos, idosas, sejam
esses deficientes ou não. A autora bem lembra nesse capítulo que “são as
diferenças entre as pessoas que fazem do mundo um lugar cada vez mais
divertido para se viver”.
Nos dois próximos capítulos que se seguem – Até as meninas
estão matracas hoje! e E Ela é a menina que brinca com a gente – a
autora, a partir de observações do cotidiano da Escola do Caminho, nos fala do
uso da fala por parte de meninos e meninas e as possíveis interações com a
professora, além do aprendizado da separação nas brincadeiras e jogos no

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pátio, mostrando que as ações de grupos de meninas e de meninos são


condicionadas aos arranjos de gêneros socialmente construídos e que,
continuam sendo desiguais nessas segregadas realidades. Ela nos contempla
com relatos de diversas atividades, sendo algumas exclusivas das meninas,
outras exclusivas de meninos, algumas mistas sem predominância de reforço
de desigualdade entre o masculino e feminino e outras mistas com
predominância de reforço de desigualdade entre o masculino e feminino.
Nos últimos capítulos (Misturar é o bastante para mudar? -
Será que sempre foi assim? - E agora? Juntos ou separados? e Da
escola mista à co-educação) a autora nos transporta a um momento de
reflexão sobre a origem do debate e da prática da escola mista no aspecto
internacional e nacional e nos estimula a pensar para além dela, que somente
coloca meninos e meninas no mesmo espaço, sem alterar as relações de
gênero, mantendo a hegemonia masculina quanto a dominação e o poder,
enquanto o feminino fica às margens das relações e da apropriação dos
grandes espaços na Escola. Chama atenção de professores e professoras
compromissados com a transformação social, que a co-educação é o caminho
para efetivamente garantir o direito à igualdade respeitando as diferenças. Nas
palavras da autora “trata-se de uma política educacional, que prevê um
conjunto de medidas e ações a serem implementadas nos sistemas de ensino,
nas unidades escolares, nos afazeres das salas de aula e nos jogos e nas
brincadeiras dos pátios”.
Daniela Auad nos presenteia com uma obra atual, relevante e
necessária para uma prática pedagógica em todos os níveis de ensino, pois
pode nos auxiliar a minimizar a desigualdade, a partir do momento que
aprendemos a entender e atender as diferenças, em especial as relações de
gênero.
É só ler, conferir e se sentir desafiadas e desafiados a construir
uma nova sociedade, mais humana, justa e digna de receber a todos, com o
direito de serem o que são e não o que deveriam ser!

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Referência

AUAD, D. Educar meninas e meninos: relações de gênero na escola. São


Paulo: Contexto, 2006.

Data de recebimento: 03 /10/08


Data de aceite: 15/11/08

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