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Processo Civil – Litisconsórcio

1. CONCEITO

Litisconsórcio é a reunião de duas ou mais pessoas (e não duas ou mais partes) ou entes
sem personalidade jurídica, mas com capacidade processual, que assumem simultaneamente a
posição de autor ou réu. Caso possuam advogados distintos de diferentes escritórios, seus prazos,
para todas as manifestações, serão contados em dobro (art. 229, CPC).

Art. 229. Os litisconsortes que tiverem diferentes procuradores, de escritórios de


advocacia distintos, terão prazos contados em dobro para todas as suas manifestações,
em qualquer juízo ou tribunal, independentemente de requerimento.

§ 1º Cessa a contagem do prazo em dobro se, havendo apenas 2 (dois) réus, é oferecida
defesa por apenas um deles.

§ 2º Não se aplica o disposto no caput aos processos em autos eletrônicos.

# Na vigência do CPC/73, havia uma interessante questão relativa à possibilidade de os


litisconsortes terem advogados distintos, porém que trabalhassem no mesmo escritório. Em
tal cenário, aplicava-se o prazo em dobro? Sim, mesmo sendo de um único escritório.

Obs.: O candidato pode enriquecer sua resposta rememorando que o Superior Tribunal de
0
Justiça, em algumas oportunidades, afastou a incidência do prazo em dobro para litisconsortes com
advogados distintos quando eles integrassem um mesmo escritório, sustentando que a previsão do
Codex visava alcançar patronos sem vínculo entre si:

PROCESSUAL CIVIL. LITISCONSORTES COM DIFERENTES PROCURADORES.


PRAZO EM DOBRO. ART. 191 DO CPC. INAPLICABILIDADE. CONCEITO QUE NÃO SE
CONFUNDE COM A HIPÓTESE DE PLURALIDADE DE ADVOGADOS CONSTITUÍDOS
PARA A DEFESA COMUM DOS LITISCONSORTES. 1. A tese recursal assenta-se sobre
a equivocada premissa conceitual de que a figura dos "diferentes procuradores" se
caracteriza pela simples existência de pluralidade de advogados funcionando na defesa dos
litigantes. Todavia, "A regra contida no art. 191 do CPC tem razão de ser na dificuldade
maior que os procuradores dos litisconsortes encontram em cumprir os prazos processuais
e, principalmente, em consultar os autos do processo" (AgRg no AREsp 221.032/SP, Rel.
Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, DJe 11/4/2014). 2. Logo, quando o preceito
legal estabelece a figura dos "diferentes procuradores", refere-se às hipóteses em
que os litisconsortes são patrocinados por advogados distintos e sem vinculação
entre si, o que não ocorre no caso concreto, no qual todos os litisconsortes
outorgaram procuração ao mesmo grupo de procuradores integrantes de mesmo
escritório profissional. (...) 4. O caso concreto, portanto, revela apenas a existência de
inúmeros procuradores - constituídos em comum pelos litisconsortes -, e não de
procuradores diversos ou distintos, como estabelece o art. 191 CPC. 5. Agravo Regimental
não provido (STJ, AgRg no AREsp 359.034/RN, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN,
SEGUNDA TURMA, DJe de 25/09/2014)

# E se esses dois procuradores diferentes do mesmo escritório resolvessem


apresentar uma única petição (eles defendem clientes diferentes, mas apresentam as suas
manifestações em uma única petição)? Aplicava-se ou não o art. 191 do CPC/73? Aplicava-se.
Processo Civil – Litisconsórcio

Ficando definido que cada um dos advogados defende um dos litisconsortes, o fato de apresentar
suas alegações em uma única petição não afastava o prazo em dobro.

# E nos processos eletrônicos, à época da vigência do CPC/73, litisconsortes com


advogados distintos gozavam de prazo em dobro? Antes do CPC/15 não havia qualquer restrição
à aplicação do prazo em dobro para processos eletrônicos, o que é compreensível ante o momento
histórico de elaboração do CPC/73. Assim, em respeito ao princípio da legalidade, bem como
ponderando a legítima expectativa gerada pelo art. 191, do CPC/73, o STJ tinha julgado sustentando
a aplicabilidade do prazo em dobro inclusive em processos eletrônicos (REsp 1.488.590/PR – 3ª
Turma – Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva – Julgado em 14/04/2015).

Esta regra não se aplica ao prazo recursal caso apenas um dos litisconsortes tenha
sucumbido, conforme a seguinte súmula:

Súmula 641, STF: “Não se conta em dobro o prazo para recorrer, quando só um dos
litisconsortes haja sucumbido”.

E se, por exemplo, acontece o seguinte: A e B são citados para contestar. De acordo com
o art. 229, o prazo é contado em dobro para litisconsortes com diferentes procuradores. Então, eles 1
são citados para contestar com prazo em dobro. B constitui advogado e este, dentro do prazo de
trinta dias, apresenta, no vigésimo sétimo, a contestação. O A é citado, mas permanece revel.
Pergunto: a contestação apresentada no vigésimo sétimo dia é intempestiva porque ele deveria tê-
la apresentado até o décimo quinto, ou ela é tempestiva porque o prazo era em dobro, mesmo o réu
A sendo revel?

No STJ, você encontra acórdão num e noutro sentido, mas prepondera, é majoritário, o
entendimento de que o réu B não tinha como saber se o A iria contestar. Ele contratou advogado
presumindo que o A fosse apresentar sua contestação, então, se ele apresenta no vigésimo sétimo
dia e, em tese, o seu prazo seria em dobro, trinta dias, seria tempestiva. Só que, a partir daqui, não
se aplica mais o 229 porque não há mais um litisconsórcio com diferentes procuradores, o que há
agora é um réu revel e um réu apenas com patrono para praticar atos no processo. Então, o STJ
entende que, como o B não tinha como saber se o A iria contestar ou não, conta-se em dobro
o prazo para a contestação, mas, uma vez encerrado o prazo para a contestação, todos os
atos processuais são prazos simples; não há mais litisconsórcio com diferentes procuradores.

Além disso, lembrar que a Fazenda Pública tem prazo em dobro para todas as suas
manifestações (art. 183). Se houver litisconsórcio entre Fazendas Públicas diversas ou entre elas e
o particular, haverá prazo em dobro (60 dias)? Negativo.
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Nesse caso não se aplica a regra do art. 229, somente a do art. 183.

São objetivos do litisconsórcio:

a) Economia processual: no litisconsórcio, vários atos são economizados. Se houver um caso


em que vários servidores vão demandar individualmente uma gratificação, se puderem se reunir para
demandar, aqueles vários mandados de citação que seriam expedidos, aquelas várias autuações de
processos, aquelas várias cargas efetivadas, o tempo dos servidores etc., tudo isso será reduzido.

b) Evitar a prolação de decisões contraditórias: através do litisconsórcio, procura-se evitar


decisões contraditórias em causas semelhantes.

2. CLASSIFICAÇÃO

2.1. LITISCONSÓRCIO INICIAL E ULTERIOR

Litisconsórcio inicial ou originário é aquele que se forma contemporaneamente à formação


do processo, quer porque mais de uma pessoa postulou, quer porque a demanda foi proposta em
face de mais de uma pessoa.
2
Litisconsórcio ulterior, posterior, incidental ou superveniente é aquele que surge após o
processo ter se formado. Ele pode surgir por três motivos:

a) Em função de uma intervenção de terceiros;

b) Pela sucessão processual;

c) Por conexão, caso se imponha a reunião das causas para processamento simultâneo;

d) Por determinação do juiz, na hipótese de litisconsórcio passivo necessário não apontado


na inicial, a denominada intervenção iussu iudicis (art. 115, parágrafo único, NCPC).

Quando se fala em litisconsórcio inicial ou originário, isso significa que a pluralidade de


pessoas existe desde o início do processo, em outras palavras, na petição inicial. Na petição inicial,
ou você já tem uma pluralidade de pessoas no polo ativo, ou no polo passivo (já existe uma
pluralidade de autores ou uma pluralidade de réus). Caso na petição inicial não haja nem pluralidade
de autores e nem de réus, o litisconsórcio não é inicial ou originário. Se ele surgir no curso do
processo, o litisconsórcio será ulterior ou superveniente.

A pergunta é: até que momento é possível o ingresso de um litisconsorte no processo?


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Quando é feita essa pergunta, o que se quer saber é até que momento alguém pode ingressar
em processo alheio como litisconsorte; estão perguntando do litisconsorte facultativo. A matéria era
tratada no art. 264 do CPC/73, que previa expressamente a chamada estabilização subjetiva da lide.
Não há no novo diploma legal regra correspondente nesse sentido. O art. 329 do Novo CPC, que
corresponde ao art. 264 do diploma legal revogado, limita-se a tratar da estabilização objetiva da
demanda.

CPC/73. Art. 264. Feita a citação, é defeso ao autor modificar o pedido ou a causa de pedir,
sem o consentimento do réu, mantendo-se as mesmas partes, salvo as substituições
permitidas por lei. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)

Art. 329. O autor poderá:

I - até a citação, aditar ou alterar o pedido ou a causa de pedir, independentemente de


consentimento do réu;

II - até o saneamento do processo, aditar ou alterar o pedido e a causa de pedir, com


consentimento do réu, assegurado o contraditório mediante a possibilidade de manifestação
deste no prazo mínimo de 15 (quinze) dias, facultado o requerimento de prova suplementar.

Parágrafo único. Aplica-se o disposto neste artigo à reconvenção e à respectiva causa de


pedir.
3
SE O LITISCONSÓRCIO FOR NECESSÁRIO, É OBRIGATÓRIO O INGRESSO DO
LITISCONSORTE AUSENTE SEJA EM QUE MOMENTO FOR, SOB PENA DE EXTINÇÃO DO
PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO.

O momento limite para que alguém ingresse em processo alheio, facultativamente, é a


citação. Feita a citação, é defeso ao autor modificar o pedido ou a causa de pedir sem o
consentimento do réu. Essa possibilidade de se modificar o pedido ou a causa de pedir é a chamada
estabilização objetiva da lide.

O que nós estamos estudando agora é a segunda parte do dispositivo do art. 264 do CPC/73,
“mantendo-se as mesmas partes, salvo as substituições permitidas em lei”, ou seja, a
ESTABILIZAÇÃO SUBJETIVA DO PROCESSO.

Até que momento é possível a modificação da parte autora e da parte ré no processo? Até o
momento da citação, de acordo com o art. 264 do CPC/73. Mesmo diante da omissão legal do
NCPC entende-se que, antes da citação, a demanda não está estabilizada em termos
subjetivos, de forma que a alteração das partes decorre da mera vontade do autor.
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Isso significa que, para o CPC, alguém pode ingressar em processo alheio como litisconsorte
até a citação – mais precisamente, alguém que queira participar como litisconsorte facultativo, até a
citação, pode ingressar.

Digamos que eu sou funcionário da Justiça Federal e determinada lei admite que servidores
da Justiça Federal que trabalhem há mais de cinco anos recebam uma determinada gratificação. Eu
trabalho há mais de cinco anos, mas não recebi gratificação. Vou ajuizar uma demanda cobrando o
pagamento dessa gratificação e, comentando com os meus colegas de Vara, eles também querem
ajuizar a demanda. Eu vou me litisconsorciar com os meus colegas para agilizar essa demanda, cada
um de nós vai defender o seu próprio direito à gratificação.

Imaginemos que eu não quis esperar, ajuizei minha demanda contra a União, caiu na quarta
Vara Federal. Os meus colegas resolvem pedir o ingresso como litisconsorte nessa ação. Pergunto
para você, é possível admitir o ingresso deles como litisconsortes? De acordo com o CPC, é
perfeitamente possível, porque, enquanto não feita a citação, podem ingressar como litisconsorte.
Mas essa é apenas a primeira corrente de pensamento.

Para a segunda corrente de pensamento, que é amplamente dominante na doutrina e na


jurisprudência (Barbosa Moreira, Nelson Nery, Luiz Rodrigues Wambier, Marcelo Abelha), NÃO 4
EXISTE LITISCONSÓRCIO ATIVO FACULTATIVO ULTERIOR, PORQUE, EMBORA A LEI TENHA
POSSIBILITADO QUE, ATÉ A CITAÇÃO, ALGUÉM POSSA INGRESSAR NO PROCESSO COMO
LITISCONSORTE, SE VOCÊ PERMITIR O INGRESSO DESSE LITISCONSORTE FACULTATIVO
ULTERIOR, ELE VAI DEFENDER O INTERESSE DELE (ELE NÃO ENTRA PARA AJUDAR).

Estaria ocorrendo uma burla ao princípio do juiz natural, porque, na verdade, esse
litisconsorte facultativo estaria escolhendo o juízo por onde ele quer ver a sua demanda tramitar.
Então, para essa segunda corrente, não existe litisconsórcio facultativo ulterior.

[...] 2. Inadmissível a formação de litisconsórcio facultativo ativo após a distribuição do feito,


sob pena de violação ao Princípio do Juiz Natural, em face de propiciar ao jurisdicionado a
escolha do juiz. Precedentes do STJ. [...] (STJ-2ª.T - AgRg no REsp 1022615 / RS – Rel.
Herman Benjamin, j. 10.03.2009).

Na lei, não há essa previsão. Pela lei, é possível, até a citação, ter um litisconsórcio ativo
facultativo ulterior. Depois da citação, a pessoa não poderá ingressar como litisconsorte ativo, mas,
caso possua algum interesse jurídico (direto ou indireto), pode ingressar como assistente. Se ela é
cotitular da relação jurídica de direito material, será um assistente litisconsorcial ou, também
chamado, qualificado. Se o interesse jurídico dela não é o mesmo (é um interesse jurídico conexo,
subordinado), ela será assistente simples.
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Assim, ATÉ A CITAÇÃO, PELA LEI, É POSSÍVEL ALGUÉM INGRESSAR COMO


LITISCONSORTE; APÓS A CITAÇÃO, SÓ COMO ASSISTENTE. Pode ingressar no curso do
processo, em primeiro grau, no tribunal de segundo grau, no STJ, no STF. Pode ingressar no
momento em que quer, mas receberá o processo no estado em que se encontra. Ou o
litisconsórcio facultativo já nasce na petição inicial, ou ele não pode ser admitido
posteriormente, porque seria um caso de burla ao princípio do juiz natural9.

LITISCONSÓRCIO NECESSÁRIO INGRESSO DEVE SER PERMITIDO A QUALQUER TEMPO


SOMENTE ATÉ A CITAÇÃO, PERMITINDO-SE APENAS O INGRESSO
LITISCONSÓRCIO FACULTATIVO
NO POLO PASSIVO

2.2. DIFERENÇAS ENTRE LITISCONSÓRCIOS UNITÁRIO, SIMPLES, NECESSÁRIO E


FACULTATIVO

2.2.1. LITISCONSÓRCIO UNITÁRIO

Ocorre quando o provimento judicial tiver que ser igual para todos. A pluralidade de pessoas
é considerada como se fosse uma. Em todo litisconsórcio unitário, a relação jurídica discutida 5
deverá ser indivisível. Porém, não necessariamente há de se falar em solidariedade, já que
nem sempre a obrigação solidária é indivisível. A indivisibilidade é qualidade do objeto
prestacional, seja por sua natureza, por determinação jurídica ou por acordo das partes.

No litisconsórcio unitário, como o próprio nome dá a entender, existe apenas uma única
relação jurídica de direito material. Só que nessa única relação jurídica de direito material,
você tem vários indivíduos que estão a ela vinculados.

A relação jurídica de direito material é una, indivisível e incindível, porém vários indivíduos
estão a ela vinculados no momento do julgamento dessa relação jurídica de direito material. Quando
ela for decidida, seja um julgamento de procedência, de improcedência ou de procedência parcial,
independentemente do teor da decisão, essa decisão, seja de que conteúdo for, atinge a todos os
sujeitos vinculados à relação jurídica da mesma maneira.

9De acordo com a Lei do MS (Lei nº 12.016):


Art. 10 [...]
§ 2o O ingresso de litisconsorte ativo não será admitido após o despacho da petição inicial.
Há quem aplique interpretação restritiva em relação ao dispositivo (porque pode representar a burla ao juízo
natural da CF), e outros aplicam este dispositivo.
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No litisconsórcio NECESSÁRIO, há uma ênfase na proteção ao contraditório e à ampla


defesa. No UNITÁRIO, a ênfase é em saber como a decisão atingirá todos aqueles que estão
vinculados à relação jurídica de direito material.

Exemplo corrente de litisconsórcio unitário na Justiça Federal é a citação dos mutuários


financiados com recursos do SFH pela CEF. Imagine que a CEF cite somente um dos mutuários,
pedindo a imissão na posse do imóvel. Ora, não há como tal imissão se realizar se o cônjuge mutuário
não citado permanecer no imóvel. Ademais, esse cônjuge não pode ser legitimamente “despejado”,
já que não teve a oportunidade de se defender. Logo, vê-se que o provimento necessariamente
atingirá sua esfera jurídica, de forma exatamente igual ao de seu consorte. Logo, NÃO BASTA,
PARA SER UNITÁRIO, QUE SUA ESFERA JURÍDICA SEJA AFETADA. ELA HÁ DE SER
AFETADA DE IGUAL MODO.

A não citação de um litisconsorte unitário acarreta nulidade processual absoluta, já que


ninguém poderá ter sua esfera jurídica atingida por relação processual da qual não participou. Como
o provimento judicial não é cindível, afetando necessariamente o litisconsorte unitário não citado,
caberá ação rescisória e, até mesmo, ação transrescisória.

AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. ILEGITIMIDADE 6


DE PARTE. MATÉRIA DE ORDEM PÚBLICA. REFORMATIO IN PEJUS.
INOCORRÊNCIA. EFEITO EXPANSIVO SUBJETIVO. ART. 509 DO CPC.
LITISCONSÓRCIO SIMPLES. INAPLICABILIDADE. 1. As questões de ordem pública, no
caso a ilegitimidade das partes, podem ser alegadas em qualquer tempo e grau de
jurisdição ordinária, podendo ser, até mesmo, conhecidas de ofício pelo juiz, o que afasta
as teses de julgamento ultra petita e reformatio in pejus, levantadas pelos recorrentes. 2. O
entendimento que firmemente prevalece nesta Corte é o de que o recurso produz efeitos
somente ao litisconsorte que recorre, ressalvados os casos de litisconsórcio unitário,
que não é o caso dos autos. 3. Agravo regimental a que se nega provimento.(STJ, AgRg
no REsp 770.326/BA, Rel. Ministro CELSO LIMONGI (DESEMBARGADOR CONVOCADO
DO TJ/SP), SEXTA TURMA, julgado em 02/09/2010, DJe 27/09/2010)

PROCESSO CIVIL. AÇÃO DECLARATÓRIA. QUERELA NULLITATIS. CABIMENTO.


LITISCONSÓRCIO UNITÁRIO. AUSÊNCIA DE CITAÇÃO DE TODOS OS RÉUS. É cabível
ação declaratória de nulidade (querela nullitatis), para se combater sentença
proferida sem a citação de todos os réus que, por se tratar, no caso, de litisconsórcio
unitário, deveriam ter sido citados.(STJ, REsp 194.029/SP, Rel. Ministra MARIA
THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 01/03/2007, DJ 02/04/2007, p.
310)

Importante salientar que, diferentemente do que ocorre no litisconsórcio necessário, no


litisconsórcio unitário, havendo nulidade por falta de um dos litisconsortes, o processo será anulado
para todos, e não somente em relação ao que dele não participou (para ele, nem mesmo haverá
legítimos efeitos jurídicos a serem produzidos).
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Já no litisconsórcio necessário, a sentença GERALMENTE continuará válida para os


litisconsortes, apenas não produzindo nenhum efeito para o não citado.

2.2.2. LITISCONSÓRCIO SIMPLES OU COMUM

Ocorre quando a decisão judicial PUDER ser diferente para os litisconsortes; cada um deles
atuará como se parte autônoma fosse. Nesse tipo de litisconsórcio, cada autor ou réu poderia ser
parte isoladamente em processos autônomos.

No litisconsórcio simples, está-se diante de uma situação litisconsorcial em que cada um dos
litisconsortes defende a sua própria relação jurídica de direito material. Em outras palavras, existe
um litisconsórcio, mas cada um dos litisconsortes possui a sua própria relação jurídica de direito
material sendo apresentada ao juiz. Não existe uma indivisibilidade de relação jurídica de direito
material, divididas entre os vários litisconsortes.

É caso, por exemplo, de servidores públicos A, B, C, D e E que resolvem exigir uma


gratificação que a lei concedeu para quem trabalha na União há mais de cinco anos. Eles ajuízam
uma demanda em conjunto para diminuir os gastos, mas cada direito será analisado em separado,
conforme forem preenchidos os requisitos por cada um dos autores. 7
2.2.3. LITISCONSÓRCIO NECESSÁRIO (ART. 114)

Art. 114. O litisconsórcio será necessário por disposição de lei ou quando, pela natureza
da relação jurídica controvertida, a eficácia da sentença depender da citação de todos que
devam ser litisconsortes.

Ocorre pela própria natureza da relação jurídica discutida ou por imperativo legal10, quando
hão de ser citadas várias pessoas, como ocorre na usucapião. Uma sentença que repercutirá na
esfera alheia impõe, necessariamente, a formação do litisconsórcio, devendo o juiz determinar o
saneamento desse defeito (não citação) para evitar nulidade processual.

Art. 115. A sentença de mérito, quando proferida sem a integração do contraditório, será:

I - nula, se a decisão deveria ser uniforme em relação a todos que deveriam ter integrado o
processo;

II - ineficaz, nos outros casos, apenas para os que não foram citados.

Parágrafo único. Nos casos de litisconsórcio passivo necessário, o juiz determinará ao


autor que requeira a citação de todos que devam ser litisconsortes, dentro do prazo que
assinar, sob pena de extinção do processo.

10 Por exemplo, oposição, ação possessória.


Processo Civil – Litisconsórcio

No litisconsórcio necessário, deve-se ter como ponto de vista o direito ao contraditório


e ampla defesa de todos os que estão vinculados à relação jurídica de direito material. A
necessidade de citação daqueles que venham a ser diretamente afetados pela ordem judicial não
pode ser aferida pelo resultado final do julgamento, uma vez que decorre justamente da
possibilidade de os litisconsortes influenciarem na formação do convencimento do julgador.
A solidariedade obrigacional não importa em exigibilidade da obrigação em litisconsórcio
necessário (art. 114 do CPC), mas antes na eleição do devedor pelo credor, cabendo àquele,
facultativamente, o chamamento ao processo (art. 130, do CPC). Lembrar que solidariedade
passiva é uma garantia do credor. Este poderá escolher de quem receber seu crédito e a quem
processar.

A ausência de litisconsórcio necessário pode ser alegada em apelação? Perfeitamente


possível a alegação em apelação. Lembrem-se: É UMA QUESTÃO DE ORDEM PÚBLICA; É
GRAVÍSSIMO O VÍCIO; ESTÁ FALTANDO O LITISCONSORTE NECESSÁRIO; ELE TEM QUE
ESTAR PRESENTE, SOB PENA DE INEFICÁCIA DA SENTENÇA. Então, esse vício pode ser
alegado em apelação.

Pode ser alegado em recurso especial ou recurso extraordinário? Voltamos à divergência: 8


para a corrente clássica, só poderia ser objeto de alegação se fosse anteriormente objeto de pré-
questionamento; mesmo sendo questão de ordem pública, há necessidade de pré-questionamento
para que seja possível sua alegação no recurso especial ou extraordinário.

E uma segunda corrente, mais moderna, preconiza que não há necessidade de pré-
questionamento. Pode, inclusive, ser objeto de exame de ofício no STJ e no STF, desde que o
recurso especial ou o extraordinário tenha sido admitido por outro motivo.

Digamos que ninguém alegou nada e formou-se coisa julgada (formal e material): é possível
alegar esse vício depois do trânsito em julgado da sentença? É possível alegá-la em ação rescisória?
Perfeitamente possível. Você pode alegar esse vício em ação rescisória, alegando violação
manifesta da norma jurídica, nos termos do art. 966, V do CPC. Violação manifesta de qual norma
jurídica? O art. 114 do CPC.

Art. 966. A decisão de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando:

[...]

V - violar manifestamente norma jurídica;


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Digamos que você perdeu o prazo da rescisória ou que você é adepto daquela doutrina
paulista segundo a qual não se pode rescindir o que não existe. É possível alegar esse vício, depois
do prazo da rescisória, de alguma maneira? Sim, através da querela nullitatis, também chamada de
ação declaratória de inexistência de relação jurídica ou ação declaratória de nulidade. Isso porque
faltou a citação do litisconsorte necessário.

2.2.4. LITISCONSÓRCIO FACULTATIVO

No litisconsórcio facultativo, o legislador viabilizou que determinadas pessoas, com interesses


jurídicos conexos, pudessem se litisconsociar para demandar em conjunto ou para que o autor
pudesse demandar várias pessoas conjuntamente. Ele poderá ser formado, ou não, a critério dos
litigantes. Está previsto nas hipóteses do art. 113 do CPC.

Art. 113. Duas ou mais pessoas podem litigar, no mesmo processo, em conjunto, ativa ou
passivamente, quando:

I - entre elas houver comunhão de direitos11 ou de obrigações relativamente à lide;

Litisconsórcio II - entre as causas houver conexão pelo pedido ou pela causa de pedir;
Facultativo por
Conexão IV - ocorrer afinidade de questões por ponto comum de fato ou de direito. 9
§ 1º O juiz poderá limitar o litisconsórcio facultativo quanto ao número de litigantes
na fase de conhecimento, na liquidação de sentença ou na execução, quando este
comprometer a rápida solução do litígio ou dificultar a defesa ou o cumprimento da
sentença. 12

§ 2º O requerimento de limitação interrompe o prazo para manifestação ou resposta, que


recomeçará da intimação da decisão que o solucionar.

2.3. CONJUGAÇÕES ENTRE AS VÁRIAS TIPOLOGIAS DE LITISCONSÓRCIOS

2.3.1. LITISCONSÓRCIO NECESSÁRIO ATIVO

11Quando se fala em comunhão de direitos e obrigações, é necessário visualizar, no caso concreto, se essa
obrigação é divisível ou indivisível. Se o direito ou a obrigação for divisível, então tudo bem, o litisconsórcio é
facultativo. Mas se a obrigação for indivisível, cuidado, pois pode ser caso de litisconsórcio necessário.
12Algumas Corregedorias-Gerais dos TRFs tem estabelecido a limitação por dez autores , v.g., o Provimento

nº 19/95 da Corregedoria Geral da Justiça Federal do TRF3.


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Não existe litisconsórcio necessário ativo1314. Isso porque, de acordo com a doutrina, não
se pode impedir o direito de qualquer pessoa postular em juízo em função da inércia de outra. Essa
é a posição do STJ.

De acordo com Fredie Didier, sempre que o litisconsórcio for unitário, será também
necessário. Daniel Assumpção discorda disso, afirmando ser plenamente possível o litisconsórcio
unitário facultativo. Ele cita exemplo das hipóteses em que a lei permite a legitimidade extraordinária
concorrente, como ocorre nas ações civis públicas. Tem razão.

Porém, importante ter em mente que se o litisconsórcio for ativo, unitário e facultativo, a
decisão afetará o direito material também daquelas pessoas que deixaram de atuar no processo.
Não consigo pensar, entretanto, em qualquer hipótese de legitimação ordinária que permita o
litisconsórcio unitário e facultativo (mentira: o MP pode pedir alimentos para o menor e perder. O
menor ficará sujeito à coisa julgada, ainda que seja ele o legitimado ordinário).

Porém, nem sempre que ele for necessário será unitário, já que a lei pode determinar o
litisconsórcio somente para harmonizar os julgados, sem igualdade de conteúdo para os
litisconsortes.
10
2.3.2. LITISCONSÓRCIO FACULTATIVO ATIVO SIMPLES E UNITÁRIO

O litisconsórcio ativo será sempre facultativo (vide controvérsias no rodapé da página


anterior), já que não se pode obrigar alguém a postular, nem impedir que alguém exerça o direito de
ação em face da inércia de outrem. Essa é a posição de Fredie Didier.

Sobre o litisconsórcio ativo facultativo:

13 No TRF1, entretanto, há entendimento diferente (não concordo com a decisão):


SFH. CONTRATO DE MÚTUO. CÔNJUGES CONTRATANTES. LITISCONSÓRCIO ATIVO. ANULAÇÃO DA
SENTENÇA.
1. Se o mútuo foi assinado pelo casal, não pode apenas um dos cônjuges patrocinar a ação revisional deste
contrato, pois a hipótese é de litisconsórcio ativo unitário. Necessário se torna oportunizar ao cônjuge não
autor figurar no polo ativo da demanda. Precedentes.
2. Apelação da CEF parcialmente provida para anular a sentença, a fim de que seja oportunizada ao cônjuge
varão, também signatário do contrato de mútuo questionado na presente ação, compor o polo ativo da
demanda.
3. Apelação da parte autora prejudicada.(TRF1, AC 0003186-67.1999.4.01.3600/MT, Rel. Desembargadora
Federal Selene Maria De Almeida, Conv. Juiz Federal Alexandre Jorge Fontes Laranjeira (em Substituição),
Quinta Turma,e-DJF1 p.93 de 09/07/2010)
14 Mas há quem pense de forma diferente, como Nelson Nery: segundo ele, que tem um pensamento bastante

difundido, há litisconsórcio necessário ativo. Há situações que uma pessoa só pode ir a juízo se outra for, mas
se um não quiser o outro pode ir sozinho, propondo ação contra aquele que ele proporia e contra o potencial
litisconsorte que não quis demandar. No final da explicação ele menciona que não tem muita relevância saber
se é no polo ativo ou passivo, o que importa é que tem que estar os dois em juízo. Juiz do Trabalho no RJ
cobrou posição de Nelson Nery.
Processo Civil – Litisconsórcio

CONSTITUCIONAL, ADMINISTRATIVO, CIVIL E PROCESSUAL CIVIL - FUNCIONÁRIO


PÚBLICO - REAJUSTE DE VENCIMENTOS, EM JANEIRO DE 1993 (28,86%) - LEIS Nº
8.622/93 E 8.627/93 - JUROS DE MORA – TERMO INICIAL - ART. 1.536, § 2º, DO
CÓDIGO CIVIL - LITISCONSÓRCIO ATIVO FACULTATIVO - RECURSO INTERPOSTO
SÓ POR UM AUTOR - ART. 48 DO CPC - INAPLICABILIDADE DO ART. 509 DO CPC. I -
Tratando-se de litisconsórcio ativo facultativo, os litisconsortes são considerados,
em suas relações com a parte adversa, como litigantes distintos, pelo que os atos e
omissões de um não prejudicarão nem beneficiarão os outros, tal como dispõe o art.
48 do CPC. II - Interposto recurso especial apenas por um dos autores, o provimento do
apelo não aproveita aos demais, que não recorreram, de vez que a extensão prevista no
art. 509 do CPC aplica-se apenas à hipótese de litisconsórcio unitário (RE nº 149.787-4-ES,
Rel. Min. Sepúlveda Pertence; REsp nº 84.079-SP, Rel. Min. Sálvio de Figueiredo).
[...](TRF1, AC 1998.01.00.087496-0/DF, Rel. Desembargadora Federal Assusete
Magalhães, Segunda Turma,DJ p.38 de 30/04/2001)

Existem outros posicionamentos:

“A” e “B” mantém uma relação jurídica de direito material com “C”. Há um contrato que vincula
“A” e “B” de um lado e “C” de outro. Um dia, “A” decide rescindir o contrato. “C” não concorda com a
rescisão. Assim, “A” vai ser o autor da demanda, enquanto “C” será o réu. E “B”? Não se sabe ainda.
Só se sabe que ele não quer propor a demanda judicial. Ressalte-se que “B” tem que estar no
processo porque o litisconsórcio é necessário.

Diante dessa situação, há quatro possíveis soluções: 11


a) Dinamarco entende que se só “A” propuser a demanda, será considerado parte ilegítima,
porque ninguém pode ser obrigado a propor demanda. Portanto, sem concordância de todos em
propor a demanda, não há direito de ação. Essa ideia de Dinamarco sacrifica o direito de ação de
“A”.

b) Cássio Scarpinella Bueno (PUC/SP) entende que “B” entra no processo como um sujeito
atípico. Isso porque, por ora, quando a demanda começa, ele não é autor e nem réu. Como sujeito
atípico, ele será citado por meio de uma citação atípica (porque só o réu é citado). Essa citação terá
por função integrar o sujeito à relação jurídica de direito processual. No entanto, quando da citação
de “B”, ele pode optar por 3 caminhos distintos: a) assumir o polo ativo, sendo litisconsorte do autor;
b) assumir o polo passivo; c) ficar inerte, de modo a não suportar os ônus das verbas sucumbenciais.

c) Nelson Nery Jr. entende que “A” será autor, “C” será réu e “B” também será réu, que será
citado, podendo continuar no polo passivo, assumindo a condição de réu, ou pode passar para o
polo ativo, assumindo a condição de autor. Isso já ocorre na Ação de Improbidade Administrativa e
na Ação Popular.

d) Bedaque entende que “A” será autor e “B” e “C” serão réus, uma vez que o processo é
baseado na lide, pois “A” quer um bem da vida e encontrou resistência por parte de “C” e “B”. Assim,
Processo Civil – Litisconsórcio

verifica-se que os dois estão resistindo à pretensão do autor. Ressalte-se que o autor tem que
certificar que a parte está resistindo, para poder figurar no polo passivo (para mim, essa é a posição
mais correta. Entretanto, também tem coerência a posição do Nelson Nery Jr., já que ao citar
B e deixar ele escolher o que fazer, estar-se-á dando caráter democrático ao processo e
ajudando a por termo na lide de uma forma mais pacificadora do ponto de vista social, sem
imposição unilateral do Estado).

2.3.3. LITISCONSÓRCIO FACULTATIVO UNITÁRIO

Ainda que raro, o litisconsórcio facultativo poderá ser unitário, caso em que é reconhecida a
legitimação ordinária individual para a propositura da ação.

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL – AGRAVO REGIMENTAL – AÇÃO POPULAR


– INGRESSO DE ASSISTENTES LITISCONSORCIAIS – POSSIBILIDADE. 1. O art. 6º, §
5º, da Lei n. 4.717/65 estabelece que: "É facultado a qualquer cidadão habilitar-se como
litisconsorte ou assistente do autor da ação popular". 2. É possível o ingresso dos
assistentes litisconsorciais na ação popular a qualquer tempo, desde que comprovado o
requisito da cidadania, mediante cópia dos títulos de eleitor exigida pelo art. 1º, § 3º, da
mencionada lei, o que, in casu, ocorreu. 3. Na hipótese dos autos, a assistência é
qualificada ou litisconsorcial, porquanto o assistente atua com poderes equivalentes ao do
litisconsorte, uma vez que a quaestio iuris em litígio também é do assistente, o que lhe
confere a legitimidade para discutí-la individualmente ou em litisconsórcio com o assistido.
4. A assistência litisconsorcial se assemelha "a uma espécie de litisconsórcio facultativo
12
ulterior, ou seja, o assistente litisconsorcial é todo aquele que, desde o início do processo,
poderia ter sido litisconsorte facultativo-unitário da parte assistida" (CPC Comentado por
Nélson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery, 9ª Edição, Editora RT, p. 235,
comentários ao art. 54 do CPC). 5. O simples fato dos assistentes litisconsorciais
ostentarem a condição de cidadãos já pressupõe a existência de interesse jurídico na
causa, representado pela pretensão de ter um governo probo e eficaz. Agravo regimental
improvido.(STJ, AgRg no REsp 916.010/SP, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS,
SEGUNDA TURMA, julgado em 19/08/2010, DJe 03/09/2010)

Por exemplo, o art. 1.314 do CC prevê a hipótese que existe um condomínio entre vários
sujeitos. O condomínio é formado pelos sujeitos A, B e C, só que o art. 1.314 autoriza que um dos
condôminos, sozinho, individualmente, possa reivindicar a coisa comum de terceiro.

Então, pelo art. 1.314 do CC, um dos condôminos titular da relação jurídica de direito material
pode, sozinho, ajuizar uma ação reivindicatória em face de um terceiro.

Caiu essa questão na prova do MP do RJ: o A não está com boas relações com B e C. B e C
viajaram, eles não estão se falando. A não está nem aí para B e C. A resolve, sozinho, ajuizar a ação
reivindicatória, pleiteando para quem o imóvel? Para ele ou para todos do condomínio? Quando ele
ajuíza a ação reivindicatória, ele ajuíza para ele ou para todos? Para todos, pois ele quer que o imóvel
volte ao condomínio, e não para ele. A lei autoriza que ele ajuíze essa demanda sozinho e
individualmente e, então, assim ele o faz.
Processo Civil – Litisconsórcio

Se B tomar conhecimento de que A ajuizou essa demanda, até que momento ele e C podem
adentrar ao processo? Na condição de parte, será até a citação, com o litisconsórcio facultativo
unitário, porque a relação jurídica de direito material que A está defendendo é a mesma relação
jurídica de direito material que B e C possuem; em outras palavras, eles são cotitulares da mesma
relação jurídica de direito material. A relação jurídica de direito material, discutida nesse processo, é
não somente de A, mas de A, B e C.

Então, até a citação, eles podem ingressar como litisconsortes. Digamos que eles não
ingressaram... eles podem ingressar posteriormente à citação? Podem ingressar como
assistente litisconsorcial, porque eles são titulares da mesma relação jurídica de direito
material que o autor da demanda. Eles poderiam ter sido litisconsortes até a demanda; depois da
demanda, eles podem ser assistentes litisconsorciais em qualquer momento e em qualquer grau de
jurisdição; podem ingressar como assistentes até no STF, não tem problema algum.

Mas, se eles poderiam ter sido litisconsortes até a citação e depois da citação eles só podem
ser assistentes litisconsorciais, eu pergunto: qual é a diferença entre uma coisa e outra? A
DIFERENÇA É QUE O LITISCONSORTE PODE FAZER PEDIDO, E O ASSISTENTE NUNCA
PODE FAZER PEDIDO. Logo, o litisconsorte pode tornar objetivamente mais complexa a
13
relação processual, o assistente litisconsorcial não.

Então, quando o litisconsorte é aceito no processo, ele pode formular pedidos de indenização,
de perdas e danos etc. Ele pode fazer o pedido que ele quiser no processo. O assistente
litisconsorcial não faz pedido, ele ingressa no processo para auxiliar uma das partes, ele apenas vai
auxiliar o que já foi objeto de pedido anteriormente. Assistente nunca faz pedido.

Digamos que você não ingressou nem como litisconsorte e nem como assistente
litisconsorcial, e a sentença foi proferida e transitou em julgado. Aí vem a pergunta: com o
trânsito em julgado, a coisa julgada formal e material, formada nesse caso, atinge A, B e C ou
não? Posição amplamente majoritária é de que atinge A, B e C (é a posição do Barbosa
Moreira, José Rogério Cruz e Tutti, Fredie Didier, Daniel Assumpção).

Por que ela atinge? Porque, se o litisconsórcio é facultativo e unitário e a relação


jurídica de direito material foi julgada, pouco importa se B e C participaram ou não, a coisa
julgada vai atingi-los.

É uma exceção ao art. 506 do CPC. Ele afirma que a coisa julgada não beneficia e nem
prejudica terceiros, mas, aqui, é uma exceção, porque o sistema tem que evitar que essa
Processo Civil – Litisconsórcio

relação jurídica volte a ser discutida em outro processo. Ela é una, indivisível, pode ser
decidida uma única vez. A decisão tem que atingir a todos a ela vinculados.

Art. 506. A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não prejudicando
terceiros.

LEMBRAR QUE A SITUAÇÃO PROPOSTA SOMENTE OCORRE EM FUNÇÃO DE


EXPRESSA PREVISÃO LEGAL QUE AUTORIZA A PARTE A AJUIZAR A AÇÃO
ISOLADAMENTE, estendendo o efeito da coisa julgada a todos os demais titulares da relação
jurídica de direito material.

É óbvio que, na doutrina, há quem defenda que deveria ser aplicado o art. 506. É
entendimento clássico, por exemplo, da Ada Pellegrini Grinover. Ela entende que, se o B e o C não
participaram do processo, a coisa julgada não pode atingi-los. É pura e simples a aplicação do art.
506. Então, para ela, eles podem ajuizar a mesma demanda, com mesmo pedido e mesma causa de
pedir. Mas, para a maioria da doutrina, nesse caso, haveria, sim, coisa julgada.

Então o litisconsórcio é facultativo porque a lei autoriza que um dos litisconsortes possa
ajuizar a demanda sozinho, mas ele é unitário, porque, uma vez decidida a relação jurídica de direito
material, essa decisão atinge a todos aqueles que estiverem a ela vinculados. 14

Cuidado: não é a única hipótese de litisconsórcio facultativo unitário. Outra hipótese é


a ação de deserdação, prevista no art. 1.961 do CC. Um dos herdeiros pratica um ato qualquer
que caracteriza uma hipótese de deserdação. Quem possui legitimidade para ajuizar essa
ação de deserdação? Qualquer um dos outros beneficiários da herança.

Pode-se tirar algumas conclusões:

a) Todo litisconsórcio necessário em virtude da incindibilidade do objeto do processo será


também unitário;

b) Todo litisconsórcio facultativo em que exista legitimação ordinária ou extraordinária15


concorrente (vários legitimados) e disjuntiva (não é necessário que os vários legitimados estejam
presentes) será unitário;

c) Em regra, o litisconsórcio necessário em virtude de expressa previsão em lei será simples


(v.g., usucapião).

15 Pluralidade de titulares do direito, sendo que a lei permite que somente um deles litigue em juízo.
Processo Civil – Litisconsórcio

2.3.4. LITISCONSÓRCIO NECESSÁRIO UNITÁRIO

Se o litisconsórcio é necessário unitário, significa que ele é obrigatório em sua


formação e, além disso, existe uma relação jurídica indivisível. Ele só pode ser um litisconsórcio
necessário com base na relação jurídica de direito material indivisível. Por isso que é necessário e
unitário. Exemplo seria o do MP propondo uma anulação de casamento em face do marido e da
mulher. Ora, se a relação jurídica que une marido e mulher é una, das duas uma: se o pedido for
julgado procedente, o casamento está anulado; se o pedido for julgado improcedente, marido e
mulher permanecem casados. A relação jurídica de direito material é una e, assim, só é possível uma
decisão: ou o casamento será anulado para todos ou não será anulado para ninguém.

Outros exemplos:

Primeira hipótese: investigação de paternidade. Eu ajuizando uma investigação de


paternidade “post mortem” em face dos herdeiros do meu suposto pai Eduardo, chamados Pedro,
Maria, José.

Ou eu sou filho do Eduardo e irmão de Pedro, Maria e José ou eu não sou filho de Eduardo
e não sou irmão de Pedro, Maria e José. A relação jurídica de direito material é una. 15
Segunda hipótese muito comum: exoneração de fiança.

Fiador quer se exonerar de fiança prestada. Ele vai colocar no polo passivo, em
litisconsórcio unitário, o afiançado e o beneficiário da fiança.

Vejam, eu sou o fiador, não quero mais que essa fiança exista, quero me exonerar da fiança.
Eu tenho que colocar no polo passivo quem eu afiancei e aquela pessoa que está garantida pela
fiança, porque, se eu obtiver a exoneração da fiança, nenhum deles tem mais fiança nenhuma. A
relação jurídica de direito material é una. Ou eu estou exonerado da fiança, ou eu permaneço fiador.
Eu não posso continuar fiador para o afiançado e não continuar para o beneficiário. Ou eu sou fiador,
ou não.

Outra hipótese: dissolução de sociedade. O sócio A ajuíza uma demanda de dissolução


de sociedade em face dos sócios B, C e D. Digamos que há uma sociedade entre esses quatro
sócios. O sócio A descobre que o sócio D está desviando recursos da sociedade e, por conta
disso, quer dissolver a sociedade. O sócio A manifesta o seu desejo aos sócios B e C, mas
esses não dão muita importância ao fato, por serem amigos próximos de D.
Processo Civil – Litisconsórcio

Ocorre que, no momento em que A pede a dissolução da sociedade, isso significa que ou a
sociedade será dissolvida para todos os sócios, ou, se o pedido for julgado improcedente, ela
permanece intacta. Logo, todos os sócios devem constar do polo passivo.

Outra hipótese é a anulação de registro. Na anulação de registro, você tem que ajuizar a
demanda contra todos aqueles que constam no registro como sendo os proprietários.

Perceba que, no litisconsórcio necessário unitário, as hipóteses são sempre no polo


passivo.

2.3.5. LITISCONSÓRCIO NECESSÁRIO SIMPLES

Quando é que o litisconsórcio é obrigatório, no entanto, a decisão que vier a ser proferida
pode ser diferente em relação aos diversos litisconsortes? Em que hipótese o litisconsorte é
obrigatório, mas a decisão de mérito pode ser diferente em relação a cada um dos litisconsortes? É
aquela hipótese em que a relação jurídica de direito material não é indivisível, porque, se ela
fosse indivisível, o litisconsórcio teria que ser unitário.

Então, se o litisconsórcio é obrigatório, mas não é por força da indivisibilidade da relação


jurídica de direito material, SÓ PODE SER PORQUE O LITISCONSÓRCIO É DETERMINADO POR
16
EXPRESSA DISPOSIÇÃO LEGAL. É aquela primeira hipótese de litisconsórcio necessário, para a
garantia do contraditório.

Então, por exemplo, na oposição você tem o A ajuizando uma demanda em face de B exigindo
a entrega de um carro. Só que um terceiro, considerando-se o titular do carro, ingressa nessa relação
processual, através da oposição, exigindo para ele a entrega do carro. Então, na verdade, ele cria
uma segunda demanda, a demanda dele, em face do autor e do réu da demanda originária. É o que
dispõe o art. 682 do CPC.

Art. 682. Quem pretender, no todo ou em parte, a coisa ou o direito sobre que controvertem
autor e réu, poderá, até ser proferida a sentença, oferecer oposição contra ambos.

Então, a oposição é oferecida contra ambos, o autor e o réu da demanda originária. Só que
pode acontecer de as provas e argumentos do autor da oposição serem ótimos em relação ao A,
mas não conseguirem afastar o direito do B.

Então, em relação ao A o pedido é procedente, mas em relação ao B é improcedente. A


decisão pode ser diferente em relação aos litisconsortes; é um litisconsórcio necessário por
imposição legal, mas a decisão de mérito pode ser diferente para os litisconsortes, sendo, pois, um
litisconsórcio simples.
Processo Civil – Litisconsórcio

2.3.6. LITISCONSÓRCIO FACULTATIVO SIMPLES

No litisconsórcio facultativo simples, o litisconsórcio não é obrigatório. Então, os interessados


se reúnem porque eles querem. a lei outorga uma faculdade para que os litisconsortes demandem
em conjunto.

Tem que estar relacionada a alguma das hipóteses do art. 113 do CPC: comunhão de
direitos ou obrigações, objeto divisível, conexão ou afinidade de questões. Vejamos.

Art. 113. Duas ou mais pessoas podem litigar, no mesmo processo, em conjunto, ativa ou
passivamente, quando:

I - entre elas houver comunhão de direitos ou de obrigações relativamente à lide;

II - entre as causas houver conexão pelo pedido ou pela causa de pedir;

III - ocorrer afinidade de questões por ponto comum de fato ou de direito.

§ 1º O juiz poderá limitar o litisconsórcio facultativo quanto ao número de litigantes na fase


de conhecimento, na liquidação de sentença ou na execução, quando este comprometer a
rápida solução do litígio ou dificultar a defesa ou o cumprimento da sentença.

§ 2º O requerimento de limitação interrompe o prazo para manifestação ou resposta, que 17


recomeçará da intimação da decisão que o solucionar.

Além de ele ser facultativo, a decisão de mérito pode ser diferente para os inúmeros
litisconsortes. Nós estamos, aqui, diante do caso dos servidores que querem cobrar uma gratificação.
Cada um deles poderia ajuizar a sua própria demanda cobrando o pagamento da gratificação. Só
que a lei possibilita, com base na conexão, que eles se reúnam e, em conjunto, apresentem uma
única demanda cobrando o pagamento da gratificação. A decisão pode ser diferente em relação a
todos eles, afinal, cada um defende a sua própria relação jurídica de direito material. Cada um dos
litisconsortes defende a sua própria relação jurídica de direito material.

2.4. LITISCONSÓRCIO EVENTUAL, ALTERNATIVO E SUCESSIVO

a) Litisconsórcio eventual: ocorre quando se coloca em juízo duas demandas dirigidas a


pessoas diferentes. Uma somente será provida se a outra não o for. A procedência de um pedido
contra um dos litisconsortes implicará a improcedência do pedido em relação ao outro. É caso
de litisconsórcio sem consórcio, pois os litisconsortes serão adversários. Tem-se o cúmulo
eventual, quando uma ação é proposta para o evento de que outra seja rejeitada. O autor formula
duas demandas, tendo preferência pela primeira, mas pedindo ao juiz que conheça e acolha a
segunda (que por isso mesmo se considera subsidiária) no caso de não poder a primeira ser
Processo Civil – Litisconsórcio

atendida. É o caso da ação de alimentos proposta contra parente de primeiro e segundo grau. Este
somente poderá ser condenado a pagar se aquele não puder suportar todo o valor devido.

b) Litisconsórcio alternativo: caso em que o autor formula pedidos contra os litisconsortes


para que um deles seja provido. Diferencia-se do eventual, pois neste o autor possui uma preferência,
o outro pedido feito é subsidiário. No litisconsórcio alternativo, tanto faz de quem será obtida a
prestação. É o que ocorre, por exemplo, quando o autor propõe ação contra dois réus com
responsabilidade solidária. Exemplo fático pode ser dado quando a Fazenda Nacional executa
devedores constantes da CDA. Tanto faz quem irá pagar, o que importa é o recebimento do crédito
constante do título.

c) Litisconsórcio sucessivo: ocorre quando os pedidos realizados somente puderem ser


concedidos quando o for o primeiro da ordem, em face de um litisconsorte. Por exemplo, contratei
com A de comprar com ele um apartamento, e com B de reformá-lo. A não me entrega o apartamento
e B já anuncia que não pretende dar cumprimento ao contrato. Ajuízo a ação em face dos dois, para
que A, em primeiro lugar, me entregue o imóvel, e B, sucessivamente, faça a reforma. Impossível
será que o pedido em face de B seja analisado se o em relação a A for julgado improcedente. Julgado
improcedente o primeiro pedido, o segundo fica automaticamente excluído. 18
Esses dois últimos não estão expressamente previstos no direito positivo; entretanto,
são aceitos pela doutrina e jurisprudência.

2.5. LITISCONSÓRCIO FACULTATIVO IMPRÓPRIO, RECUSÁVEL E MULTITUDINÁRIO

a) Litisconsórcio facultativo impróprio: é o previsto no art. 113, III, que ocorre por afinidade
de questões por ponto comum de fato ou de direito. Ele jamais será unitário, sendo sempre
facultativo e ativo.

b) Litisconsórcio recusável: o CPC de 39 previa que o réu poderia recusar o litisconsórcio


facultativo impróprio, desmotivadamente. Tal possibilidade foi retirada do ordenamento jurídico,
somente podendo efetuar a recusa incidentemente, de forma motivada, a qual será decidida pelo juiz
em decisão interlocutória.

c) Litisconsórcio multitudinário: nos casos em que a quantidade de litisconsortes for suficiente


para atrapalhar o andamento processual, o juiz poderá desmembrá-lo, DE OFÍCIO OU A PEDIDO.
Esse desmembramento, entretanto, não será permitido no litisconsórcio necessário. De acordo com
o art. 113, § 2º, se a parte fizer um pedido de limitação do litisconsórcio facultativo, esse pedido
Processo Civil – Litisconsórcio

interromperá o prazo de resposta, que recomeçará da intimação da decisão. Todavia, esse


pedido de limitação deverá ser feito antes de decorrido o prazo para a defesa, sob pena de preclusão.

PROCESSUAL CIVIL. LITISCONSÓRCIO FACULTATIVO MULTITUDINÁRIO. RECUSA


DO RÉU. MOMENTO. REQUERIMENTO FORMULADO A DESTEMPO. PRECLUSÃO.
PRECEDENTE. 1. A teor do que dispõe o parágrafo único do art. 46 do Código de Processo
Civil, pode a parte recusar a litisconsórcio multitudinário, interrompendo-se o prazo para o
oferecimento da resposta. Todavia, esse pedido de limitação deverá ser feito antes de
decorrido o prazo para a sua defesa, sob pena de preclusão. 2. Recurso especial
desprovido.(STJ, REsp 402447/ES, Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado
em 04/04/2006, DJ 08/05/2006, p. 267)

Consequência da limitação do litisconsórcio facultativo: o juiz deverá determinar o


desmembramento da relação jurídica processual, criando-se novos processos com os sujeitos
excedentes (posição de Didier e Dinamarco). Ovídio Batista entende que o juiz deve excluir os
litisconsortes excedentes. Caberá ao patrono do autor escolher os autores que ficarão na
demanda originária e aqueles que criarão novas demandas, que SERÃO DISTRIBUÍDAS POR
DEPENDÊNCIA PARA O MESMO JUÍZO, em respeito ao juiz natural.

Enunciado nº 386, FPPC: A limitação do litisconsórcio facultativo multitudinário acarreta o


desmembramento do processo.

Enunciado nº 387, FPPC: A limitação do litisconsórcio multitudinário não é causa de


19
extinção do processo.

O STJ entende que o litisconsórcio multitudinário pode ser conhecido de ofício pelo juiz, não
obstante essa matéria ser passível de preclusão. Se há preclusão, percebe-se que não é matéria de
ordem pública. O JUIZ PODERÁ CONHECER DO LITISCONSÓRCIO MULTITUDINÁRIO ATÉ A
CITAÇÃO. Após a citação, o réu, no prazo de resposta poderá alegar essa espécie de litisconsórcio.

Enunciado nº 116, FPPC: Quando a formação do litisconsórcio multitudinário for prejudicial


à defesa, o juiz poderá substituir a sua limitação pela ampliação de prazos, sem prejuízo da
possibilidade de desmembramento na fase de cumprimento de sentença.

Enunciado nº 10, FPPC: Em caso de desmembramento do litisconsórcio multitudinário, a


interrupção da prescrição retroagirá à data de propositura da demanda original.

3. CONSEQUÊNCIA DA NÃO FORMAÇÃO DO LITISCONSÓRCIO NECESSÁRIO

Art. 115. A sentença de mérito, quando proferida sem a integração do contraditório, será:

I - nula, se a decisão deveria ser uniforme em relação a todos que deveriam ter integrado
o processo;

II - ineficaz, nos outros casos, apenas para os que não foram citados.
Processo Civil – Litisconsórcio

Parágrafo único. Nos casos de litisconsórcio passivo necessário, o juiz determinará ao


autor que requeira a citação de todos que devam ser litisconsortes, dentro do prazo que
assinar, sob pena de extinção do processo.

De acordo com o art. 115, II, do CPC, será ineficaz a sentença proferida no processo no qual
se verificar a ausência de litisconsórcio necessário. Porém, na verdade, o vício variará de acordo
com o motivo pelo qual o litisconsórcio é necessário.

Se o litisconsórcio necessário decorrer de disposição legal e for simples ou comum quanto ao


resultado, haverá nulidade da sentença, que restará sanada com o trânsito em julgado. O
litisconsorte preterido não suportará a imutabilidade da decisão (conforme Dinamarco, Litisconsórcio,
7ª edição, página 308).

Tratando-se, por outro lado, de litisconsórcio necessário legal, cuja relação jurídica seja
incindível (artigo 73, parágrafo 1º, inciso I, do Código de Processo Civil), ou, em especial, de
litisconsórcio necessário unitário, o julgamento é, em princípio, ineficaz, ou seja, na clássica acepção
de Chiovenda, inutiliter datus para todos, inclusive para aqueles que figuraram no processo. Por
exemplo: não é possível conceber que a sentença anulatória do casamento desconstitua o vínculo
em relação ao cônjuge que participou do processo e mantenha o matrimônio em relação ao outro
que deixou de ser validamente citado.
20

4. REGIME DE TRATAMENTO DOS LITISCONSORTES

A regra do litisconsórcio é que os litigantes sejam considerados, em suas relações com a


parte contrária, como litigantes distintos (art. 117), salvo disposição em contrário.

Art. 117. Os litisconsortes serão considerados, em suas relações com a parte adversa,
como litigantes distintos, exceto no litisconsórcio unitário, caso em que os atos e as
omissões de um não prejudicarão os outros, mas os poderão beneficiar.

Se o litisconsórcio for unitário, o tratamento dos litisconsortes deverá ser uniforme. Se


simples, seus atos serão considerados isoladamente, não beneficiando e nem prejudicando ao outro.

Necessário é que se entenda os seguintes conceitos, desenvolvidos no Brasil por Barbosa


Moreira:

a) Conduta determinante: é a conduta da parte que a leva a uma situação desfavorável, como
v.g., a revelia, a desistência, a renúncia etc.

b) Conduta alternativa: é aquela pela qual a parte visa a uma melhora de sua situação
processual, ainda que não a obtenha efetivamente. É aquela praticada com o objetivo de alcançar
um resultado favorável aos litisconsortes. Então, se a parte requer a juntada de um documento, a
Processo Civil – Litisconsórcio

oitiva do perito ou quer recorrer, todas essas condutas voltadas para o resultado favorável, resultado
positivo, são chamadas de condutas alternativas. Diante dessas condutas, o ato praticado por um
dos litisconsortes produz efeitos para todos, independentemente de qualquer manifestação de
vontade.

Assim, vejamos as regras.

4.1. REGRAS

A conduta determinante de um litisconsorte não pode prejudicar o outro. O ato praticado por
um dos litisconsortes somente produz efeitos se todos concordarem. Isso significa que, se
um dos litisconsortes não concordar com a manifestação de vontade, o ato não produz
nenhum efeito.

Exemplo: digamos que há um litisconsórcio passivo necessário unitário, dez


litisconsortes; o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, o sexto, o sétimo, o oitavo
e o nono, nove dos litisconsortes passivos unitários, reconhecem a procedência do pedido
do autor, mas um deles não concorda com o reconhecimento da procedência do pedido. O
reconhecimento jurídico do pedido produz efeitos? Não, para ninguém. Na conduta 21
determinante, o ato só produz efeitos se todos os litisconsortes concordam; se um deles não
concordar, o ato não produz qualquer efeito.

Mas lembre-se, é sempre na conduta determinante prejudicial, porque, se for uma


conduta benéfica, produz efeitos automaticamente, independentemente de qualquer
indagação.

No litisconsórcio simples, a conduta alternativa de um litisconsorte não aproveita aos


demais. Porém, nesse caso, a prova produzida por um dos litisconsortes aproveitará aos
demais, CASO O FATO QUE SE QUEIRA PROVAR SEJA COMUM, em função do princípio da
comunhão das provas.

CONSTITUCIONAL, ADMINISTRATIVO, CIVIL E PROCESSUAL CIVIL - FUNCIONÁRIO


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CÓDIGO CIVIL - LITISCONSÓRCIO ATIVO FACULTATIVO - RECURSO INTERPOSTO
SÓ POR UM AUTOR - ART. 48 DO CPCINAPLICABILIDADE DO ART. 509 DO CPC. I -
Tratando-se de litisconsórcio ativo facultativo, os litisconsortes são considerados, em suas
relações com a parte adversa,como litigantes distintos, pelo que os atos e omissões de um
não prejudicarão nem beneficiarão os outros, tal como dispõe o art. 48 do CPC. II -
Interposto recurso especial apenas por um dos autores, o provimento do apelo não
aproveita aos demais, que não recorreram, de vez que a extensão prevista no art. 509
do CPC aplica-se apenas à hipótese de litisconsórcio unitário (RE nº 149.787-4-ES,
Rel. Min. Sepúlveda Pertence; REsp nº 84.079-SP, Rel. Min. Sálvio de Figueiredo).
Processo Civil – Litisconsórcio

[...](TRF1, AC 1998.01.00.087496-0/DF, Rel. Desembargadora Federal Assusete


Magalhães, Segunda Turma,DJ p.38 de 30/04/2001)

No litisconsórcio unitário, a contestação/interposição de recursos por um aproveita a todos os


litisconsortes.

Art. 1.005. O recurso interposto por um dos litisconsortes a todos aproveita, salvo se
distintos ou opostos os seus interesses.

Parágrafo único. Havendo solidariedade passiva, o recurso interposto por um devedor


aproveitará aos outros, quando as defesas opostas ao credor Ihes forem comuns.

Na verdade, todas as condutas alternativas estendem os efeitos aos demais no


litisconsórcio unitário. Entretanto, não pode o litisconsorte confessar ou desistir; tal ato será nulo
sem a ratificação dos demais. Isso de acordo com Fredie Didier.

Daniel Assumpção esclarece que essa interpretação do art. 391 do CPC é errada. Isso porque
a confissão é um meio de prova. Se um dos litisconsortes confessa um fato que diga respeito a todos,
convencendo-se o juiz da veracidade do que foi dito, todos os sujeitos sofrerão os efeitos disso, não
sendo lógico que o juiz, num mesmo processo, considere um fato existente para uma das partes e o
mesmo fato inexistente para as outras. 22
Esse entendimento se aplicará pouco importando qual a espécie de litisconsórcio; sendo
unitário ou simples, o fato será sempre um só, de forma que, sendo a confissão eficaz, vinculará a
todos, sendo ineficaz, não vinculará a ninguém.

CONDUTA DETERMINANTE CONDUTA ALTERNATIVA


LITISCONSÓRCIO UNITÁRIO Não gera efeitos em relação Beneficia aos demais,
aos demais, salvo se ratificada independentemente de
por todos. manifestação.
LITISCONSÓRCIO SIMPLES Somente prejudica quem Não favorece aos demais
manifestar a vontade. litisconsortes, salvo se tratar-
se de juntada de provas.

5. INTERVENÇÃO IUSSU IUDICIS (ART. 115, P. ÚNICO)

Nada mais é do que o ingresso de terceiros no processo pendente por ordem do juiz. O CPC
prevê que somente pode ocorrer em relação ao litisconsorte necessário não citado no polo passivo.

O juiz determinará ao autor a citação de todos os litisconsortes necessários no prazo que


assinar, sob pena de extinção do processo.
Processo Civil – Litisconsórcio

Então, se o autor não incluir, o processo será extinto sem resolução do mérito. Mas com base
em quê?

Duas posições:

1. Para Luiz Fux, a hipótese é de falta de requisito processual de validade, com


fundamento no art.485, IV do CPC. Recomenda-se adotar a posição do Fux, já que ele é Ministro do
STF.

2. Para Alexandre Câmara, o processo é extinto sem resolução do mérito por falta de
legitimidade passiva ad causam, com fulcro no art. 485, VI do CPC.

Fredie Didier defende interpretação extensiva para que também se adote tal postura para o
litisconsorte unitário facultativo não citado, já que este também será atingido pela coisa julgada.

Porém, NÃO DEVE O JUIZ DETERMINAR DIRETAMENTE A CITAÇÃO DO


LITISCONSORTE FALTANTE, JÁ QUE É O AUTOR QUEM ARCARÁ COM AS CUSTAS
PROCESSUAIS DE FAZÊ-LO E, TAMBÉM, COM O ÔNUS DE NÃO FAZÊ-LO.

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