Você está na página 1de 13

ÍNDICE

INTRODUÇÃO 2

1. JO 6 NO CONTEXTO DO EVANGELHO SEGUNDO SÃO JOÃO 3


1.1. O LIVRO DOS SINAIS 4
1.2. O LIVRO DA GLÓRIA 4

2. A MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES NO CONTEXTO DO LIVRO DOS SINAIS 5


2.1. OS PRIMEIROS DIAS DA REVELAÇÃO DE JESUS - JO 1,19-2,12 5
2.2. JO 2,13-4,54 : O PRIMEIRO E O SEGUNDO SINAL EM CANÁ 5
2.3. O CAPÍTULO 5 5
2.4 OS CAPÍTULOS 7 A 10 6
2.5. O CAPÍTULO 6 6
2.5.1. A ESTRUTURA DE JO 6,1-15 7

3. UMA APROXIMAÇÃO AOS SINÓPTICOS 9

4. A PERSPECTIVA TEOLÓGICA JOANINA 10

5. A PARTIR DE JO 6,1-15: UM DIA DE RETIRO ESPIRITUAL 10

CONCLUSÃO 12

BIBLIOGRAFIA 13
O Pão da Vida simbolicamente preanunciado em Jo 6, 1-15
________________________________________________________________________________________________

INTRODUÇÃO

Quando nos aproximamos do Evangelho segundo São João percebemos que se trata de uma
obra genuína. Redigido entre os anos 90 e 100 d. C, muitos anos depois dos três Evangelhos
Sinópticos, o estilo peculiar joanino deixa antever uma reflexão cuidada que o autor ou autores do
texto fizeram em relação ao material reunido sobre Jesus e o modo como o distribuíram na
redacção do Evangelho e ajuda a ter em conta aspectos característicos das comunidades
joaninas, às quais se atribui geralmente a sua localização em Éfeso.

O presente trabalho constituiu uma excelente oportunidade para aprofundar o conhecimento


sobre o relato da multiplicação dos pães, narrado pelos quatro Evangelhos, e sobre o Evangelho
segundo São João. O primeiro passo foi proceder a uma breve caracterização do quarto
Evangelho, após a qual foi apresentada uma estrutura de divisão que ajude a contextualizar e
interpretar a memória de Jesus que o autor ou autores deste Evangelho quiseram transmitir às
comunidades a que se dirigiam.

No segundo capítulo aborda-se o relato da multiplicação dos pães no contexto do Livro dos
Sinais, procurando compreender o que o autor quis transmitir com a disposição dos temas nesta
unidade e que relação existe entre o capítulo 6 e os restantes. Com o intuito de descer ao texto e
entender o contexto literário apresenta-se uma estrutura para Jo 6,1-15.

Sem pretender afirmar ou negar dependências de fontes literárias, ou mesmo estabelecer


paralelos, procura-se fazer no capítulo 3 uma aproximação aos relatos Sinópticos a partir do texto
joanino da multiplicação dos pães.

No capítulo quarto expõe-se sucintamente a perspectiva teológica joanina da multiplicação dos


pães, procurando salientar o que o quarto Evangelho possui de característico e que confere um
grau de unidade a todo o capítulo sexto, sob o tema do Pão da Vida.

Por fim, propõe-se uma aplicação pastoral de Jo 6,1-15, numa reflexão muito simples para um
dia de retiro espiritual, na certeza de que o Evangelho foi, é e continuará a ser Palavra de Vida
válida e actual para todos.

2
O Pão da Vida simbolicamente preanunciado em Jo 6, 1-15
________________________________________________________________________________________________

1. JO 6 NO CONTEXTO DO EVANGELHO SEGUNDO SÃO JOÃO

Antes de abordar o texto do capítulo 6, é importante descobrir alguns aspectos característicos


deste texto do Novo Testamento, frequentemente apresentado pelas suas grandes diferenças em
relação aos Sinópticos.
Um dos aspectos peculiares tem a ver com a subtileza e profundidade do estilo joanino que
contrastam com a simplicidade do grego deste Evangelho, característico da Koinè falada e
popular, uma linguagem unitária e comum, que na época do Novo Testamento emergiu na zona
mediterrânica substituindo os diferentes dialectos existentes. O vocabulário utilizado por João, ou
quem quer que fossem os redactores deste texto bíblico, assemelha-se mais ao de uma criança
do que ao de um adulto1, quer pelo escasso número de palavras, como pelo estilo directo e uma
sintaxe elementar. É significativo, por exemplo, que a frase mais extensa seja Jo 13, 1. Apenas
destas características lexicais que o parecem limitar, o quarto evangelho é profundamente unitário
e parece não existir uma distinção evidente entre o estilo linguístico do narrador e o de Jesus,
havendo momentos em que é pertinente que o leitor, diante do texto, se interrogue sobre quem
está a falar – se é Jesus, o narrador ou algum dos personagens2. Mesmo no que concerne ao
universo conceptual, é patente a diversidade de termos que são frequentemente utilizados pelo
autor e que aparecem de modo raro nos Evangelhos sinópticos. É o caso dos termos verdade
(aletheia), mundo (kosmos) e pater (referido a Deus). E o contrário também se verifica. Isto é,
certas palavras características dos Sinópticos aparecem pouco frequentemente (como o termo
Reino) ou simplesmente estão ausentes do quarto Evangelho, como por exemplo, parábola. De
facto, os temas seleccionados pelos autores têm a ver com o motivo central da pregação de
Jesus. Enquanto que nos Sinópticos o tema do reino3 é fundamental, pois é objecto da boa nova
(euangelion) que Jesus proclama, é curioso que João não anuncie o advento do reino. Neste
Evangelho, as comunidades, os homens, são convidados simplesmente a acreditar em Jesus e
não a entrar no reino4. Daí a dificuldade em estabelecer um paralelismo com os outros
Evangelhos.
É igualmente importante situar Jo 6 no conjunto do quarto Evangelho e, de um modo
particular, reflectir sobre a sua colocação na primeira parte do Evangelho e sobre a sua relação
com os capítulos precedentes e os seguintes.
O Evangelho segundo João desenvolve-se como que no interior de um grande parêntesis5,
cujo encerramento, antes da adição do último capítulo, parece desvendar ao leitor a finalidade do
Evangelho: “Estes (sinais) foram escritos para crerdes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e,
crendo, tenhais a vida nele” (Jo 20,31). Através dos sinais narrados comunica-se a revelação de
Jesus como Filho de Deus e é interessante verificar que no Prólogo (Jo 1,1-18) já é possível
antever esta finalidade. No Prólogo, a revelação de Jesus expressa-se em forma de luz que
resplandece nas trevas (Jo 1,5). O Verbo é a luz verdadeira que, ao vir ao mundo, a todo o
homem ilumina (Jo1,9). É rejeitado por uns (Jo 1,11) e acolhido por outros (Jo 1,12) e àqueles que
o acolhem e nele crêem foi-lhes dado o poder de se tornarem filhos de Deus. O início e o fim
1
Cf. TUÑI, Josep-Oriol - ALEGRE, Xavier, Scritti giovannei e lettere cattoliche, Paideia, Editrice Brescia, 1997, p.20.
2
Ibidem, p.21
3
Ib. p. 21. Pela análise em Tuñi, o termo Reino surge em Lucas 46 vezes, em Marcos 20 vezes e em Mateus 57,
enquanto que o Evangelho segundo João refere-o apenas 5 vezes. Mesmo a palavra euangelion é inexistente em João,
enquanto que é mencionada nos Sinópticos.
4
Ib. p. 22
5
Cf. CABA, Jose, Cristo, Pan de vida: Teologia eucarística del IV Evangelio, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid,
1993. p. 28

3
O Pão da Vida simbolicamente preanunciado em Jo 6, 1-15
________________________________________________________________________________________________

deste grande parêntesis iluminam todo o material sobre Jesus e as possíveis atitudes, de fé ou
incredulidade, narrados no seu interior.
Uma hipótese de estrutura do evangelho segundo João6 aponta para dois grandes livros
precedidos pelo Prólogo e culminados no Epílogo:
• Prólogo (Jo 1, 1-18),
• O Livro dos Sinais (Jo 1,19-12,50)
• O Livro da Glória (13,1 – 20,31)
• Epílogo (Jo 21, 1-25)

1.1. O LIVRO DOS SINAIS (JO 1,19-12,50)

A primeira grande unidade do Evangelho segundo João (1,19-12,50) pode ser chamada de
“Livro dos Sinais”. À partida verifica-se uma diferença, que não significa oposição7, no que se
refere aos feitos prodigiosos de Jesus, carregados de uma força significativa, aos quais João
chama sinais e não milagres como sucede nos Sinópticos.
No livro dos Sinais relatam-se os sete Sinais realizados por Jesus ao longo do seu ministério
público, situando-se o primeiro sinal em Caná (Jo 2,1-12) e o último em Betânia, mais
propriamente, pela ressurreição de Lázaro, indicado como o “sinal realizado por Jesus” (Jo 12,18).
Jesus apresenta-se em plena actividade adulta e desloca-se continuamente entre a Galileia e
Jerusalém. Os sete sinais, os gestos (expulsão dos vendilhões do Templo), os diálogos (com
Nicodemos, com a Samaritana, com Marta e Maria), o discurso revelador do Pão da Vida aos
discípulos (Jo 6) e as controvérsias com os Judeus (Jo 5, 7, 8, 10) ao longo deste livro conduzem
o leitor à realidade da fé naquele que realiza os Sinais e que por meio deles revela a sua “glória”,
a glória que se revelará definitivamente na “hora” da elevação na cruz. Àquele que realiza os
Sinais são atribuídos os títulos de “Filho”, “Filho de Deus” e “Filho do Homem”.

1.2. O LIVRO DA GLÓRIA

A segunda grande unidade (Jo 13,1 – 20,31) é constituída pela revelação privada que Jesus
faz aos seus discípulos, aqueles que já integram o círculo da nova comunidade de crentes.
Pode também ser designada como Livro da Hora, pois nesses capítulos fala-se da Paixão,
Morte, Ressurreição e Ascensão de Cristo. Trata da conclusão da obra e do regresso ao Pai, tal
como narra o próprio autor: «Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a
sua hora da passagem deste mundo para o Pai...» (Jo 13,1; cf. também 17,1b).
Esta divisão8 geral do IV Evangelho baseia-se nas duas conclusões que desfecham cada uma
das partes (Jo 12,50 e Jo 20,30-31). Em cada uma das conclusões surge o mesmo tema da
revelação de Jesus através dos sinais (Jo 12,37; Jo 20,30) juntamente com a resposta por parte
6
Existem várias hipóteses de estrutura propostas para o Evangelho segundo João, baseadas nos diferentes enfoques
que os exegetas privilegiam. Cf. GARCIA-MORENO, Antonio, Introducción al misterio: evangelio de San Juan,
Ediciones Eunate, Pamplona, 1997, nota 35, p. 144-145
7
Id Cf p.147. Também em TUÑI, Josep-Oriol - ALEGRE, Xavier, Scritti giovannei e lettere cattoliche, Paideia, Editrice
Brescia, 1997, explica-se que a palavra sinal semeion é utilizada nos evangelhos sinópticos com três significados
distintos: no sentido escatológico, em relação aos sinais dos últimos tempos (Mt 24,3.24.30); como prova apologética a
legitimar as intenções de Jesus (Mt 12,38-39; 16, 1-4; Lc 23,8) qualificado com um sentido negativo; nos Actos dos
Apóstolos a palavra semeion é combinada com o termo teras, formando uma expressão que designa os milagres de
Jesus e dos Apóstolos: sinais e prodígios. Cf. p. 33.
8
Cf. Caba, Jose, Cristo, Pan de vida , p.29

4
O Pão da Vida simbolicamente preanunciado em Jo 6, 1-15
________________________________________________________________________________________________

dos judeus (12,37.42) e dos discípulos (20,30-31) perante os quais Jesus realizou essas
manifestações. A orientação do capítulo 6 enquadra-se perfeitamente neste conjunto da revelação
de Jesus através de sinais e da resposta dos homens. Aliás, Jesus menciona explicitamente à
multidão os sinais: “Vós procurais-me, não por terdes visto sinais miraculosos, mas porque
comestes dos pães e vos saciastes.» (Jo 6,26).

2. A MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES NO CONTEXTO DO LIVRO DOS SINAIS

2.1. OS PRIMEIROS DIAS DA REVELAÇÃO DE JESUS: JO 1,19-2,12

O sentido unitário do capítulo 6 e sua colocação na primeira grande unidade do quarto


Evangelho podem ser clarificados quando analisamos a sua ligação com os capítulos precedentes
e com os que se seguem. Esta subdivisão começa com os primeiros dias da revelação de Jesus
aos seus discípulos, com diferentes títulos (1,19-2,12) e culmina com a conversão da água em
vinho, em Caná, que dá início aos sinais de Jesus. A resposta positiva dos discípulos expressa-se
mediante a fé em Jesus (Jo 2,11).

2.2. JO 2,13-4,54: O PRIMEIRO E O SEGUNDO SINAL EM CANÁ

O capítulo 2 inicia com o primeiro sinal de Jesus, ao manifestar a sua glória em Caná da
Galileia (Jo 2,1-11). Numa primeira actuação em Jerusalém Jesus revela a reedificação de um
novo Templo, o seu próprio corpo (Jo 2,19-21). Em conversa privada com Jesus a luz chega a
Nicodemos durante a noite (Jo 3,1-21) e na Samaria, também em diálogo privado com a
Samaritana, manifesta-se como o Messias que fará surgir novos adoradores do Pai em Espírito e
verdade (Jo 4, 1-42). De novo em Caná, Jesus mostra a força da sua palavra curando o filho do
funcionário real (Jo 4,43-54) e todos os daquela casa acreditaram nas palavras de Jesus (Jo
4,53).

2.3. O CAPÍTULO 5

Vários autores questionam a sequência dos capítulos 4, 5, 6 e 7, propondo uma sucessão


mais lógica e natural. São vários os critérios apontados por José Caba9 para reordenar os
capítulos em 4,6,5 e 7,15-24.1-14, de entre os quais o critério topográfico e o cronológico.
Segundo o critério tipográfico, seria mais natural que ao capítulo 4, da cura do filho do
funcionário real na Galileia, se seguisse o capítulo 6, também na Galileia, onde decorre a
multiplicação dos pães, o caminhar sobre as águas do lago e o discurso de Cafarnaúm. Seguir-se-
ia o capítulo 5, onde já se passa para Jerusalém (Jo 5,1).
O critério cronológico baseia-se na sucessão das festas. Jesus está em Jerusalém numa
primeira vez, por ocasião da festa da Páscoa em Jo 2,13.23 (onde decorreu a expulsão dos
mercadores do Templo) e, de novo, no contexto de um festa não especificada, em Jo 5,1 depois
de ter realizado o seu ministério na Galileia (Jo 4,46-54) e regressa à Galileia por ocasião da
Páscoa seguinte em Jo 6,4. No capítulo 7, Jesus parte novamente para Jerusalém. É, assim,

9
Ibid p. 33-36.

5
O Pão da Vida simbolicamente preanunciado em Jo 6, 1-15
________________________________________________________________________________________________

visível uma alternância – Galileia (4,54), Jerusalém (5,1), Galileia (6,1), Jerusalém (7,10) – que
não é tanto um dado estranho, mas antes um paralelismo próprio do quarto Evangelho10.
Não menosprezando estes pontos de vista, Caba salienta que apesar da ordem cronológica
ou geográfica não se coadunar tanto com o nosso modo de pensar, o importante é deixar o texto
falar por si e ir ao encontro do que o autor quis de facto dizer. Provavelmente, a disposição que
nos pode parecer arbitrária podia não ter qualquer importância para o autor. Além disso, mesmo
que haja uma transição brusca entre o capítulo 5, que relata a cura do paralítico na piscina de
Betzatá (5,1-16) e o discurso sobre o poder vivificador do Filho (5,17-47), e o capítulo 6, este não
fica desligado do capítulo precedente. À semelhança do 5, o Capítulo 6, integra uma actuação de
Jesus (a multiplicação dos pães em Jo 6,1-15) que sustém o discurso seguinte (Jo 6, 26-59),
igualmente orientado a salientar um poder vivificador de Jesus, através do Pão da vida11.

2.4. OS CAPÍTULOS 7 A 10

Os capítulos 7 a 10 têm como pontos de unificação as festas e o lugar onde se celebram, isto
é, em Jerusalém. Uma é a festa dos Tabernáculos (7,2.14.37), na qual Jesus se revela como fonte
de onde brotam rios de água (Jo 7, 37-39) e como luz do mundo (Jo 8,12). Neste ambiente de
festa Jesus revela-se também como porta (Jo 10,7) e bom pastor (Jo 10,11).
Outra festa é a da Dedicação do templo (Jo 10,22) unida, ao nível da redacção, à festa
anterior, embora a sua celebração fosse separada por alguns meses.
São festas que evocam o Antigo Testamento, nomeadamente a permanência no deserto ao
sair do Egipto, fazendo referência a Lev 23,39-40 (Festa dos Tabernáculos) e a memória da
purificação do santuário depois de ter sido profanado por Antíoco Epifanes, evocando 1 Mac 1,54
(Festa da Dedicação)12.
A referência a estas festas parecem afirmar a sua substituição pelo acontecimento da pessoa
de Jesus. Na Festa dos Tabernáculos, a fonte da água viva e a Luz do mundo substituem as
cerimónias da água e da luz (7,1-10,21) e na Festa da Dedicação Jesus é consagrado em lugar
do altar do Templo (10,22-42).

2.5. O CAPÍTULO 6

Todo o capítulo 6 encontra-se estruturado de modo a destacar as palavras de Jesus em


Cafarnaúm (Jo 6, 26-59), pautadas pela expressão “Em verdade, em verdade vos digo” (Jo 6,26).
A forma como inicia o relato “Depois disto” é característico de João. Poderia supor-se que
significaria a passagem de Jerusalém, onde se desenvolve o capítulo 5, ao lago da Galileia. No
entanto, o significado concreto da expressão, que aparece também em Jo 5,1, Jo 7,1 e Jo 21,1, é
o da mudança de um tema a outro. Jesus encontrava-se na Galileia mas a abertura a um outro
tema, leva-o a passar para a outra margem do lago13.

10
Ibid p. 35
11
Ibid p. 35
12
Ibid p. 37, nota 16
13
A alusão à Galileia é interpretada por Caba e outros autores, como sendo uma segunda parte que completaria o sinal
realizado em Cana (Jo 2,1). A confirmar esta tese fazem a correspondência entre a abundância do vinho em Cana da
Galileia e a abundância do pão na Galileia. Cf p. 86

6
O Pão da Vida simbolicamente preanunciado em Jo 6, 1-15
________________________________________________________________________________________________

2.5.1. A ESTRUTURA DE JO 6,1-15

Uma possível estrutura14 do texto de Jo 6,1-15 ajuda a compreendê-lo melhor:

v.1
A Depois disto, Jesus foi para a outra margem do lago da Galileia, ou de Tiberíades.
v.2 B Seguia-o uma grande multidão,
C porque presenciavam os sinais miraculosos que realizava em favor dos doentes.
v.3 D Jesus subiu ao monte e sentou-se ali com os seus discípulos.
v.4 E Estava a aproximar-se a Páscoa, a festa dos judeus.
v.5 F Erguendo o olhar e reparando que uma grande multidão viera ter
com Ele,
G Jesus disse então a Filipe: «onde havemos de comprar pão
para esta gente comer?»

v.6 H Dizia isto para o pôr à prova,


I pois Ele bem sabia o que ia fazer.
v.7 H’ Filipe respondeu-lhe: «Duzentos denários de pão não
chegam para cada um comer um bocadinho.»
v.8 G’ Disse-lhe um dos seus discípulos, André, irmão de Simão
v.9 Pedro: «Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e
v.10 dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?»
F’ Jesus disse: «Fazei sentar estas pessoas.»
E’ Ora, havia muita erva no local.
D’ Os homens sentaram-se, pois, em número de uns cinco mil.
v.11 C’ Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os pelos que estavam
v.12 sentados, tal como os peixes, e eles comeram quanto quiseram. Quando se saciaram,
disse aos seus discípulos: «Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se
v.13
perca». Recolheram-nos, então, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães
de cevada que sobejaram aos que tinham estado a comer.
v.14 Aquela gente, ao ver o sinal milagroso que Jesus tinha feito,
B’ dizia: «Este é realmente o Profeta que devia vir ao mundo!»
v.15 A’ Por isso, Jesus, sabendo que viriam arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se de novo, sozinho,
para o monte.

A multiplicação dos pães (Jo 6, 1-15) forma um todo assinalado pelo nome de Jesus no início
– (A: v.1) Jesus foi para a outra margem do lago da Galileia – e no fim – (A’: v.15) Jesus, retirou-
se de novo, sozinho, para o monte. Também o local, o monte, reforça o carácter unitário deste
tema: subiu ao monte logo no início Jesus e, no final, retirou-se de novo para o monte. O monte
no relato segundo João reveste-se de grande solenidade. É um lugar sagrado, lugar de grandes
sucessos de salvação, com destaque especial no encontro entre Deus e Moisés (Ex 3,1). Antecipa
já o discurso de Cafarnaúm no qual se fará um paralelo entre Jesus e Moisés.

14
Ibid. p.87

7
O Pão da Vida simbolicamente preanunciado em Jo 6, 1-15
________________________________________________________________________________________________

No centro está Jesus, com pleno conhecimento do que ia fazer (I: v. 6b).
O evangelista apresenta a multidão dizendo que ela seguia Jesus (B: v.2a) enquanto que no
final é a multidão a dizer que Jesus é verdadeiramente o Profeta (B’: v.14b)
De entre os sinais que Jesus realizava (C: v. 2b) e a multidão contemplava, está a
multiplicação dos pães, que deixou a multidão saciada e esta viu o sinal que Jesus tinha feito (C’:
vv. 11-14a).
Por isso, mesmo que seja Jesus a aparecer no início sentado no monte, a sós com os
discípulos (D: v.3), depois é a multidão que aparece sentada como convidados de Jesus para um
banquete (D’: v.10c).
Jesus, sentado, ergueu os olhos e contemplou a multidão que vinha ter com Ele (F: v.5a). A
todos aqueles que começaram a acreditar nele Jesus acolhe-os com um convite: Fazei sentar
estas pessoas (F’: v.10a).
A menção sobre a aproximação da Páscoa, a festa dos judeus (E: v.4) tem uma
correspondência com a alusão à abundância da erva naquele local, que acontecia na época da
Páscoa (E’: v.10b).
Sobre a pergunta «onde havemos de comprar pão para esta gente comer?» (G: v.5b), dirigida
por Jesus a Filipe, não são dadas razões da mesma nem se diz que a multidão tinha fome. A
resposta dada por André, novamente apresentado como irmão de Simão Pedro 15, focaliza o tema
do pão, respondendo ao de onde da pergunta de Jesus com a presença de um rapazito que tem
cinco pães de cevada e dois peixes. (G’: vv. 8-9). André continua e mostra a insuficiência deste
alimento: «Mas que é isso para tanta gente?». Trata-se de dados que remetem para o Antigo
Testamento, para a multiplicação dos pães pelo profeta Eliseu, por ordem de quem se distribuíram
vinte pães a cem pessoas:

«Como – tinha dito o criado do Profeta – poderei dar de comer a cem pessoas com isto?» Insistiu
Eliseu: dá-os a esses homens para que comam. Pois isto diz o Senhor:”Comerão e ainda sobrará”. E
colocou os pães diante deles. Todos comeram e ainda sobejou, como o Senhor tinha dito.» (2Re 4,42-44)

Esta alusão aos pães de cevada prepara a reacção da multidão que dizia: «Este é realmente o
Profeta que devia vir ao mundo!» (Jo 6,14).
Neste relato joanino, os discípulos realçam a acção de Jesus. Filipe responde a Jesus que o
tenta pôr à prova (H: v.6a) sobre a possibilidade de comprar pães para dar de comer à multidão.
O tema da provação surge ao longo do discurso do Pão da vida e culminará no final quando os
discípulos tiverem de optar (Jo 6, 60-71). A simplicidade de Filipe leva-o a responder com a
consciência da insuficiência: «Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um
bocadinho.» (H’: v7). “Tudo converge para o conhecimento que Jesus tem de quanto fará, como
síntese da realidade e significado do sinal.”16 Entre todos os elementos expostos antes – a
menção a Jesus, à multidão, aos discípulos, aos pães, aos peixes – é na figura de Jesus que se
centra toda a atenção.

3. UMA APROXIMAÇÃO AOS SINÓPTICOS


15
Cf. Jo 1,40
16
CABA, Jose, Cristo, Pan de vida, p. 89

8
O Pão da Vida simbolicamente preanunciado em Jo 6, 1-15
________________________________________________________________________________________________

Três dos sinais de Jesus no Evangelho segundo João também se encontram nos Sinópticos: a
cura do filho do funcionário real (Lc 7,1-10; Mt 8,5-13 e Jo 4,46-54); a Multiplicação dos pães, com
dois relatos e Marcos e em Mateus (Mc 6, 30-44; Mc 8,1-10; Lc 9, 10-17; Mt 14, 13-21; Mt 15,32-
39 e Jo 6,1-15), e Jesus que caminha sobre as águas ( Mc 6,45-52; Mt 14,22-23 e Jo 6,16-21).
A situação inicial em Jo 6,1-15, de um lugar afastado, aproxima-se dos relatos sinópticos de
Mc 6,32; Mt 14,13 e Lc 9,10. O autor joanino não menciona que o local era deserto, como sucede
nos relatos sinópticos. Enquadra o relato no monte, tal como em Mt 15,29 (o segundo relato) mas
aproxima-se mais do relato em Mc 6, 39 no pormenor das pessoas se sentarem na relva, facto
que evoca a proximidade da festa da Páscoa. Mas podem apontar-se outros aspectos
semelhantes:
• Os números no relato joanino indicam uma semelhança com os primeiros relatos de
Marcos e Mateus: duzentos denários de pão, cinco pães, dois peixes, cinco mil homens
e doze cestos com os restos que sobejaram.
• A seguir ao milagre, Jesus retira-se do monte, depois de despedir a multidão (Mc 6,45;
Mt14,23) ou fugindo dela (Jo 6, 15).
• Por fim, o relato de Jesus a caminhar sobre as águas segue-se à multiplicação dos
pães quer em Jo 6,16-21 à semelhança de Mc 6,45-52 e de Mt 14,22-33.

Apesar das semelhanças, há bastantes aspectos nos Sinópticos que não se encontram no
relato joanino, assim como há aspectos singulares do Evangelho segundo João e que têm a ver
com a orientação teológica deste evangelista:
• A multidão segue Jesus pelos sinais que ele realizava (Jo 6,2);
• Já desde o início, Jesus sobe ao monte (Jo 6,3);
• João refere a proximidade da Páscoa, enquanto que os sinópticos fazem referência à
hora do dia (Mc 6,35; Mt 14, 15; Lc 9,12);
• A iniciativa é de Jesus (Jo 6,5), mas sem indicar a motivação do sinal. Nem se diz que
a multidão tinha fome, ao contrário dos relatos sinópticos (Mc 6,35; Mt 14,15; Lc 9,12);
• A presença do rapazito (Jo 6,9);
• A abundância da erva (Jo 9,10);
• A distribuição do pão é feita pelo próprio Jesus (Jo 6,11), enquanto que nos sinópticos
ele entrega-o aos discípulos para que estes o distribuam pela multidão (Mc 6, 41;
Mt14,19 e Lc 9,16).

As diferenças existentes alertam para não fazer depender os relatos literariamente. Por outro
lado, as semelhanças existentes podem dever-se à utilização, por parte do evangelista joanino, de
uma tradição, oral ou escrita, que já tivesse estado em contacto com os Sinópticos17.

4. A PERSPECTIVA TEOLÓGICA JOANINA

17
Cf. CABA, Jose, Cristo, Pan de vida, p. 446.

9
O Pão da Vida simbolicamente preanunciado em Jo 6, 1-15
________________________________________________________________________________________________

A multiplicação dos pães encontra-se inserida no Livro dos Sinais, que prepara o Livro da
Hora. Os sinais são narrados em vista da hora de Jesus, ou seja, a hora da paixão, que é também
a glorificação, ou a hora em que se revelará plenamente (cf. Jo2,4; 4,23; 5.25.28; 7,30; 8,20;
12,23.27; 13,1; 16,4.25.32; 17,1; 19,14).
O relato da multiplicação dos pães no quarto Evangelho possui algo de característico que
confere um grau de unidade a todo o capítulo 6, sob o tema do Pão da Vida.
Na perspectiva joanina, Jesus surge em linha de continuidade com algumas figuras do Antigo
Testamento – Moisés (o profeta prometido por Deus em Dt 18,15-18), e Eliseu (que fez a
multiplicação dos pães a cem pessoas em 2Re 4,42-44). No entanto, o poder de Jesus supera-os.
Jesus acolhe a multidão que dele se aproxima, fazendo-os sentar sobre a erva abundante, na
proximidade com a nova Páscoa, para a comida que Ele mesmo vai oferecer. Jesus apresenta-se
como Pão da Vida, tanto na perspectiva cristológica como eucarística. A multiplicação dos pães
não se confina a salientar o poder de Jesus. O Sinal joanino remete para um sentido ulterior, que
revela uma faceta de Jesus: é o símbolo inicial do Pão da vida. A multiplicação dos pães, como
sinal, evoca a dimensão cristológica de Jesus como Profeta, inclusive como Pão da vida. Além
disso, na dimensão eucarística, o que sucede como sinal e símbolo antecipa já outro Pão da vida
que se promete para o futuro18. Jesus é, ele mesmo, o Pão verdadeiro que dá a vida ao mundo.

5. A PARTIR DE JO 6,1-15: UM DIA DE RETIRO ESPIRITUAL

O relato da multiplicação dos pães pode ser de


enorme utilidade num actual contexto social e
eclesial em que os homens mais do que nunca
necessitam do verdadeiro Pão vivo, mesmo sem o
dizerem explicitamente. Diante da multidão que
quer aproximar-se de Jesus e dos discípulos, a
pergunta de Jesus pode ser dirigida a cada cristão
que se reconhece, em Igreja, chamado a viver o
mandamento novo19: «onde havemos de comprar
pão para esta gente comer?» (Jo 6,5). Quando
reconhecemos a incapacidade humana de saciar
tantas pessoas, Jesus toma a iniciativa com
soberana gratuidade: fazei com que essas
pessoas sejam acolhidas, deixai que se sentem.

Depois profere as palavras que constituem a evocação do gesto eucarístico e todos ficam
saciados. Então, a multidão reconhece Jesus como Profeta e quer coroá-lo rei. Mas eis que
18
Ibid. p. 560-561
19
Cf Jo 13,34

10
O Pão da Vida simbolicamente preanunciado em Jo 6, 1-15
________________________________________________________________________________________________

Jesus, que tinha acolhido a multidão, percebe que o seu gesto não tinha suscitado a fé na sua
pessoa. Ao contrário, apenas tinha servido para nutrir expectativas demasiadamente terrenas e,
por isso, retira-se de novo para o monte.
Ele sabia o que fazia. Esta sua reacção até podia desiludir as expectativas que muitos tinham
sobre ele, mas Jesus não veio para conquistar o poder nem procurar reconhecimentos humanos.
Ele não multiplicou os pães para realizar um milagre mas para dar um sinal (cf. Jo 6,26). O
importante não é fixar a nossa atenção sobre as tantas multiplicações de pães que Ele continua a
realizar na nossa vida, mas sim sobre Jesus, porque é Ele o Pão da Vida (Jo 6,35), capaz de dar
a vida eterna (Jo 6,51). Ele é o Senhor que se oferece em alimento e se coloca confiadamente em
nossas mãos quando comungamos. Nutridos desse alimento, só podemos partilhar os dons que
temos, em nome d’Aquele em quem dizemos acreditar.
Jesus conhece o que há dentro de cada homem (Jo 2,25) e, por isso, não se ilude nem ilude
as pessoas que com Ele se encontram. Quantas vezes, na realidade eclesial, as intenções e
acções parecem apenas orientar-se a organizar consensos, a procurar impressionar espectadores
e de colocar loucamente a segurança pessoal nas multidões facilmente sugestionáveis!
Não! Jesus ensina-nos que os cristãos reinam unicamente quando servem os irmãos, quando
gastam a sua vida pelo próximo, amando-os gratuitamente até ao fim (cf. Jo 13,1). Só assim
poderemos ser autênticos discípulos de Jesus Cristo, o “Pão que desceu do Céu para dar a vida
ao mundo” (Jo 6,33).

11
O Pão da Vida simbolicamente preanunciado em Jo 6, 1-15
________________________________________________________________________________________________

CONCLUSÃO

João qualifica os milagres de Jesus como sinais, relacionando-os com a resposta de fé em


Jesus por parte dos homens. Jesus é o grande sinal do Pai.
O evangelista prepara a realização do sinal em Jo 6,1-15 através dos personagens que
apresenta anteriormente: a multidão que vem ter com Jesus, os discípulos que se mostram
incapazes e Jesus consciente do que vai acontecer. Tudo está orientado para salientar a figura de
Jesus.
No relato joanino, ao contrário do que sucede nos Sinópticos, Jesus toma a iniciativa fazendo
uma pergunta a Filipe e colocando-o à prova. Através desta provação olha-se de novo para o
acontecimento veterotestamentário do Êxodo, quando o povo era conduzido por Moisés e onde o
próprio Iahweh pôs o povo à prova (Ex 15,25; 16,4; 20,20). No judaísmo esperava-se, de facto,
que o Messias fosse um novo Moisés que repetisse o milagre do deserto, o dom do maná, ou o
pão do céu. Neste novo êxodo, Jesus, o novo Moisés, conduz o povo e alimenta-o com um novo
pão e, neste relato, a provação refere-se à verdadeira tentação pela qual passará a fé dos
discípulos no final do discurso sobre o Pão da vida (Jo 6,66-71).
A acção de dar o Pão acontece em todos os relatos da multiplicação dos pães, mas em João é
o próprio Jesus que faz a distribuição à multidão, superando a acção cumprida no Antigo
Testamento pelo profeta Eliseu. Jesus centra a sua atenção na distribuição dos pães e marca a
diferença relativamente à distribuição dos peixes. O evangelista mostra, assim, que se interessa
sobretudo pelos pães como alimento fundamental, que é precisamente a ideia central do discurso
que seguirá em Cafarnaúm.
O efeito do sinal realizado por Jesus é o entusiasmo da multidão que o proclama como Profeta
e o quer declarar Rei. No entanto, esta multidão não chegou a uma fé autêntica na pessoa e nas
palavras de Jesus. No final do relato não é ainda clara a diferença de perspectivas entre Jesus e a
multidão, pois apenas se mostram as reacções opostas. Jesus retira-se, de novo, para o monte,
escapando à multidão. Mas o motivo da divergência surge quando Jesus se encontra com a
multidão em Cafarnaúm e a repreende: “em verdade, em verdade vos digo: vós procurais-me, não
por terdes visto sinais miraculosos, mas porque comestes dos pães e vos saciastes” (Jo 6,26). A
multidão não descobriu o verdadeiro sentido do sinal. No relato da multiplicação dos pães, e no
discurso que se segue, Jesus revela que é Ele o verdadeiro Pão vivo que desceu do Céu e o Pão
eucarístico (a sua carne e o seu sangue) que dá a vida eterna a quem o recebe. Tal como o
próprio autor escreve, todos estes sinais foram escritos para crerdes que Jesus é o Messias, e,
crendo, tenhais a vida nele (Cf Jo 20,31).

12
O Pão da Vida simbolicamente preanunciado em Jo 6, 1-15
________________________________________________________________________________________________

BIBLIOGRAFIA

CABA, Jose, Cristo, Pan de vida: Teologia eucarística del IV Evangelio, Biblioteca de
Autores Cristianos, Madrid, 1993.

GARCIA-MORENO, Antonio, Introducción al misterio: evangelio de San Juan,


Ediciones Eunate, Pamplona, 1997.

JAUBERT, Annie, Para ler o Evangelho segundo S. João, Cadernos Bíblicos, nº 11,
Difusora Bíblica, Lisboa, 21994.

TUÑI, Josep-Oriol - ALEGRE, Xavier, Scritti giovannei e lettere cattoliche, Paideia,


Editrice Brescia, 1997.

As citações da BÍBLIA SAGRADA foram transcritas da Nova Bíblia dos Capuchinhos,


Difusora Bíblica, Lisboa/Fátima, 1999.

13

Você também pode gostar