Você está na página 1de 22

Pós-Graduação em Educação

Módulo Básico

Mídia, Tecnologias e
Aprendizagem

Sônia Cristina Vermelho


FAEL

Diretor Executivo Marcelo Antônio Aguilar

Diretor Acadêmico Francisco Carlos Sardo

Coordenador Pedagógico Francisco Carlos Pierin Mendes

EDITORA FAEL

Autoria Sônia Cristina Vermelho

Coordenador Editorial William Marlos da Costa

Projeto Gráfico e Capa Patrícia Librelato Rodrigues

Revisão Thaisa Socher

Programação Visual e Diagramação Sandro Niemicz

ATENÇÃO: esse texto é de responsabilidade integral do(s) autor(es), não correspondendo, necessariamente, à opinião da Fael.
É expressamente proibida a venda, reprodução ou veiculação parcial ou total do conteúdo desse material, sem autorização prévia da Fael.

EDITORA FAEL
Av. Visconde de Guarapuava, 5.406
Batel | Curitiba | PR | CEP 80240-010

FAEL
Rodovia Deputado Olívio Belich, Km 30 PR 427
Lapa | PR | CEP 83.750-000

Todos os direitos reservados.


2012
Mídia, Tecnologias
e Aprendizagem

Resumo

Neste artigo, serão discutidos aspectos sociológicos da forma de interação do sistema mídia com o sujeito
da mídia e as implicações psicológicas do processo de receptor de seu conteúdo. Além disso, características das
recepção dos seus conteúdos. A mídia utiliza, predominan- principais mídias utilizadas na educação, procurando res-
temente, a imagem como recurso para a construção de saltar as possibilidades para o uso educacional.
seus discursos, assim, aqui serão apresentadas algumas
questões acerca da imagem e da aprendizagem no con- Palavras-chave
texto midiático. No campo da educação, uma das aborda-
gens educacionais para esse fenômeno social é a conhe- Mídia-educação. Imagem e educação. Sistema
cida como mídia-educação. Serão abordados também, midiático. Sociologia da comunicação. Níveis de leitura
aspectos sobre as instâncias do processo de comunicação, da imagem. Audiovisual e aprendizagem. Virtualidade.

Em meio às questões discutidas em torno da mídia,


1. Mídia e vida humana a psicanálise oferece alguns elementos para reflexão. Os
Toda a vida das sociedades nas quais reinam as psicanalistas afirmam que o mal do século é a ansiedade
condições modernas de produção se anuncia e a depressão: ambos os distúrbios psíquicos tem o tédio
como uma imensa acumulação de espetáculos. como um de seus componentes, uma vez que ele se
Tudo o que era diretamente vivido se esvai na
fumaça da representação (DEBORD, 1994).
instaura como uma das manifestações subjetivas de um
espírito coagido, afastado de sua verdadeira existência,
O trecho citado é parte da obra de Guy Debord, ou seja, como uma manifestação das consequências do
sociólogo e filósofo francês. Escrita no auge dos movi- ponto de vista psíquico que esta sociedade midiatizada
mentos contraculturais do final dos anos 60 do século vem produzindo nas pessoas (ADORNO, 1995).
XX, talvez seja uma das obras mais críticas à nossa
sociedade. Ela apresenta uma análise do desenvolvi- Esse processo traz como uma das principais consequên-
mento da sociedade, denunciando a espetacularização, cias a detração da fantasia – como utopia – e seu atro-
entendida como estruturante das relações sociais, que fiamento, pois o sujeito volta sua fantasia para o conteúdo
passou a definir e organizar a sociedade contemporâ- que as mídias lhes oferecem e se identifica num processo
nea. Nesse universo, a mídia, enquanto instituição pro- psíquico de regressão do tipo narcísico, de fantasia ilusória.
motora das relações espetaculares, coloca-se no centro
A perda dessa dimensão na subjetividade humana
de nossa discussão.
cria as condições para que, mesmo tendo tempo livre para
Sem pretender demonizar a mídia ou a tecnologia desfrutá-lo à sua maneira, as pessoas não conseguem
que a suporta, pretende-se trazer alguns elementos para fazer deste um tempo efetivamente livre. Elas acabam
pensar os usos e as implicações do ponto de vista social por buscar uma nova oferta do mercado da diversão para
e psíquico da relação da mídia com a educação, em consumi-la nesse tempo, satisfazendo em alguma medida
particular com a aprendizagem. sua necessidade psíquica de desligamento (ainda que por
poucas horas) do real: um filme no cinema, algumas horas
Quando pensamos sobre a relação da mídia em na internet, outras tantas presas na frente da televisão.
nossa vida, tendemos a sublinhar seus valores culturais
e dar menos atenção a seus valores sociológicos e psi- As mídias, nesse sentido, atuam como elemento de
cológicos. Talvez a palavra certa não seja nem valores, coesão entre o tempo do trabalho e do não trabalho,
e sim implicações, intervenções na natureza humana mantendo o sujeito numa dinâmica de continuidade na
a partir do aparato tecnológico, ou, como também é sua vida estandardizada, relacionando-se a partir de
denominado, Sistema Social da Mídia. uma dinâmica da espetacularização. Com isso, o tédio
da vida cotidiana é ilusoriamente rompido pelo glamour sem sua subjetividade, utilizando-se de desenhos, pintu-
proporcionado pelo conteúdo das mídias, pela vida do ras e esculturas. Por meio disso, compartilham com os
galã, pela ida aos cinemas, pelos encontros furtivos nas outros suas emoções e sentimentos, despertados pela
salas de bate-papo virtual. relação de si próprio com o mundo e com os outros.

Porém, além dessas dimensões de caráter psicos- Com o desenvolvimento tecnológico, o processo
social, alguns autores ainda apontam outros elementos de produção de imagens foi se ampliando e diversifi-
que atuam diretamente sobre os indivíduos. Uma dessas cando. Costa (2005) organiza as imagens em duas
é a relação dos sujeitos com o tempo. Segundo Uhlmann categorias distintas: imagens tradicionais, que são
(2002, p. 6), “A realidade fragmentada, retratada por ima- as “imagens produzidas a partir do uso de técnicas
gens sem tempo, levam as pessoas a reações inadequadas manuais ou gestuais e instrumentos que apenas facili-
tais como a regressão a tempos passados ou digressões tam ou potencializam a expressão do autor” (p. 28); e as
em mundos de fantasias, enfim a viverem em um mundo imagens técnicas, que são realizadas com o “uso de
sem o agora, sem o real, somente o virtual e imagético”. equipamentos que interferem de forma significativa no
seu processo de produção” (p. 29).
A distinção entre espaço e tempo fica desfocada. Essas
questões explicam em alguma medida certos comporta- Segundo a autora, ao falarmos em imagens, deve-
mentos de pessoas que vivem, no sentido lato do termo, a mos identificar, ainda, o processo ou o estágio do pro-
vida de personagens da mídia. Os personagens são cria-
cesso cognitivo ao qual nos referimos, ou seja, podemos
ções, não existem e, portanto, não podem ser analisados
tratar de uma imagem advinda de uma percepção sen-
e sequer tomados dentro do mesmo quadro de referência
sorial da realidade (imagem/visão), de imagens inter-
e de valores com os quais lidamos no nosso convívio. No
nas elaboradas do mundo (imagem/pensamento)
entanto, a narrativa da mídia e a narrativa da vida cotidiana
ou de expressões de nossa subjetividade (imagem/
aparecem para parte da população, sem qualquer distinção.
texto). Nessa última estão as imagens produzidas por
Esse efeito certamente é devastador, pois mostra linguagens tradicionais e as imagens técnicas.
em que medida esses sujeitos estão suscetíveis ao dis-
No campo da educação, a tradição que subme-
curso midiático, sem ou pouca capacidade de discerni-
mento. Com isso, temos que concordar com Uhlmann teu os conhecimentos ao registro escrito obriga quem
(2002, p. 3) de que deseja ter acesso a ele utilizar a leitura, prática esta que
levou à associação entre conhecimento e alfabetização.
O convívio social no mundo ocidental passa a Já a linguagem visual, por ser considerada pouco pre-
ser, de maneira crescente, até mesmo exponen- cisa, ambígua ou excessivamente particular, parecendo
cial com o advento das novas tecnologias gera-
doras de imagens, governado por imagens, de pouco ligada à racionalidade, fez com que a escola não
aparências, do político, do diretor, do homem e utilizasse como base para a aprendizagem as imagens e
da mulher. Imagens que se sobrepõe à pessoa. sua leitura em atividades pedagógicas.

Nesse sentido, a discussão sobre as imagens colo- Na sociedade atual, as imagens nos cercam a todo
ca-se no núcleo deste artigo, pois independente da tecno- o momento, seja a nossa própria imagem refletida no
logia utilizada, as relações sociais na atualidade são media- espelho, sejam as imagens que aparecem no cinema,
das pelas imagens. Segundo Costa (2005), as imagens, na televisão ou nas telas do computador. Essas ima-
além de despertar um movimento intrapsíquico profundo, gens, mesmo que involuntariamente, despertam a emo-
tem grande importância na cultura humana. Para o autor ção, gerando diferentes reações. Diante dessa realidade,
[...] as imagens mentais que obtemos de a retomada da leitura das imagens na escola torna-se
nossa relação com o mundo podem ser arma- urgente e, para Costa (2005, p. 35),
zenadas, constituindo nossa memória, podem
ser analisadas pela nossa reflexão e podem se a opção por uma educação que valoriza a edu-
transformar numa bagagem de conhecimento, cação pela e para a imagem não se faz em
experiência e afetividade (2005, p. 27). nome de uma ação pedagógica menos discipli-
nada ou mais espontaneísta, mas em busca de
Várias técnicas foram desenvolvidas ao longo da um entendimento mais afetivo do mundo e de
uma comunicação mais abrangente e inclusiva.
história humana, permitindo que os indivíduos expres-

MÓDULO BÁSICO

2.
Porém, não podemos deixar de enfatizar que a A terceira categoria, imagem/texto, diz respeito
utilização da linguagem visual na educação exige pla- às imagens processadas em nossa mente, que represen-
nejamento e aprendizado e, principalmente, uma leitura tam os elementos mais importantes que possuímos em
crítica das mesmas justamente pelo caráter emotivo, nossa relação com os outros e com o mundo à nossa
ambíguo e afetivo. volta. Para que essa relação se efetive, foram criadas as
linguagens que colocam os indivíduos em comunicação,
Retomando as categorias comentadas anterior- permitindo que estes expressem a sua visão de mundo.
mente (imagem/visão, imagem/pensamento, imagem/ De acordo com Costa (2005), é possível identificar dois
texto), Costa (2005) sugere aos educadores alguns subgrupos pertencentes ao grupo imagem/texto: textos
trabalhos pedagógicos a partir das capacidades que em linguagens visuais e textos em linguagens
ajudam a desenvolver. A primeira categoria, imagem/ não visuais.
visão, relaciona-se ao uso do olhar e ao desenvolvi-
mento da competência do ver com a prática da obser- O primeiro diz respeito “às imagens que resultam
vação. Segundo a autora (2005, p. 38): do uso predominante das linguagens que se destinam
à percepção visual do observador” (COSTA, 2005,
[...] o olhar não depende apenas da habilidade
p. 46) e que podem ser divididas em imagens de lin-
dos órgãos da percepção, mas também dos
processos mentais, e que ambos necessitam guagens tradicionais (pintura, desenho, gravura, escul-
ajustes, treinamento e experimentação para tura) ou imagens técnicas (fotografia, cinema, vídeo,
seu desenvolvimento. As atividades pedagógi- computadores); o segundo se constitui “em obras que
cas voltadas para essa finalidade dizem res- se destina à percepção coletiva pela sensibilização de
peito à conscientização do ato de ver, de sua
complexidade e parcialidade. Dizem respeito outros órgãos dos sentidos que não a visão, como
também ao aprendizado de uma metodologia audição, olfato ou tato” (COSTA, 2005, p. 46).
de aprimoramento da observação.
Também podem ser divididas em linguagens tradi-
A segunda categoria, imagem/pensamento, cionais (música, por meio de instrumentos musicais) e
refere-se aos estímulos visuais que são organizados para técnicas (música, com o uso de tecnologias avançadas
que o observador identifique ou reconheça aquilo que de produção e reprodução de sons).
vê, ou seja, as imagens são organizadas e processadas.
Nessa categoria também entram as emoções, a memória Sinteticamente, essa categorização está na tabela
e os juízos de valor, que darão origem a visão de mundo. a seguir:

Figura Categorização das imagens.

IMAGEM/ IMAGEM/
CARACTERÍSTICA IMAGEM/TEXTO
VISÃO PENSAMENTO
Cognitivo Percepção sensorial Imagens internas Expressões de nossa subjetividade
da realidade elaboradas do mundo
Produção Olhar Estímulos visuais para Processadas em nossa mente com técnica
reconhecimento
Tecnologia Nenhuma Nenhuma TECNOLOGIA
IMAGENS TRADICIONAIS IMAGENS TÉCNICAS
Uso de técnicas manuais ou Uso de equipamentos
gestuais
Linguagem visual Pintura, desenho, gravura, Fotografia, cinema, vídeo, computadores
escultura
Linguagem não visual Música, por meio de instrumentos Música com o uso de tecnologias avançadas
musicais de produção e reprodução de sons

MÍDIA, TECNOLOGIAS E APRENDIZAGEM

3.
Nesse ponto, voltamos a olhar para as instâncias adquire força na totalidade do sistema, ou seja, ainda
de formação do sujeito. O que está acontecendo com que os meios de comunicação tenham formas diversas
nossa sociedade? Sem entrar em uma situação de de atuarem sobre o indivíduo, o seu poder se amplia em
plena nostalgia, mas, em décadas anteriores, a socie- função do clima que acabam por criar no seu conjunto:
dade tinha confiança em algumas instituições sociais, a televisão, em parceria com as revistas, com o rádio,
essa crença permitia certa estabilidade emocional. A com o cinema, etc., cria um “clima” em torno de um
crença na escola garantia que ao final dos estudos bási- dado conteúdo. Em termos comunicacionais, é a conhe-
cos o sujeito teria um emprego, que o sistema financeiro cida teoria agenda setting ou agendamento temático.
iria manter sob guarda os bens e oferecer bons serviços,
etc. Porém, depois da segunda metade do século XX, A televisão não é a única instância formadora, mas
essas instituições sociais entraram num processo de reforça ainda mais o que os indivíduos já são efetivamente
descrédito perante a sociedade e, como consequência, e amplia as estruturas comunicacionais do sistema social
é perceptível o aumento da instabilidade social, tanto e econômico. Com isso, como coloca Adorno (1971),
individual quanto coletiva de boa parcela da sociedade. a economia psíquica individual tornou-se socializada, ao
criar um mundo de aparência e, dessa forma, atuar muito
Do ponto de vista da mídia, a forma como esta vem mais nos mecanismos psicológicos, contribuindo para
lidando com as questões de interesse público tem gerado que se veja o mundo como ideologia. O autor levanta
uma série de pesquisas e corresultados, levando a críticas dois aspectos característicos da televisão:
e a elogios, situando-a em alguns momentos como res-
x o fato de levar os produtos para dentro das
ponsável e em outros como instigadora da crise social.
casas;
Conforme Fischer (2005, p. 46), atualmente, o x a miniaturização das imagens, que deveria
conteúdo da mídia tem causado certo descaso com as implicar uma percepção estética e não natural.
questões públicas e isso Em particular, o segundo aspecto demonstra como
nossa percepção foi condicionada pelas mídias. Tomar
[...] diminui significativamente o atrativo por
temas que sejam de interesse comum; parece aquelas imagens miniaturizadas como reais é racional-
que reduzimos em nós a capacidade e a pró- mente impossível, pois não seria razoável a identificação
pria vontade de trazer os sofrimentos privados com os heróis, uma vez que se mostra claramente como
para o lugar da discussão de questões públi- algo não real. No entanto, a degeneração de nossa per-
cas: vamos internalizando um modo peculiar
de olhar e tratar “a dor dos outros” [...] cepção estética permite que esses objetos miniaturizados
sejam apreendidos como brinquedos, os quais podem ser
Esses aspectos são centrais para pensarmos a tomados para si, como propriedade, dando a sensação
questão da mídia em termos de sua influência na forma- ao telespectador de superioridade perante esses objetos.
ção das novas gerações e do papel que ela ocupa diante
das outras instituições formadoras: a família e a escola. Segundo Adorno (1995), isso pode levar a uma
duplicidade do mundo criado pela televisão. Esse
Nessa discussão, é importante focar na televisão, aspecto toma relevância porque uma parcela consi-
não por uma razão específica, mas, fundamentalmente, derável de informações sobre nossa sociedade advém
porque ela está presente na maioria dos lares brasileiros dessa mídia. Muitos de nós convivemos num espaço
– segundo IBGE (2009), em mais de 90% – e é uma social bastante reduzido: espaço do trabalho, do lar, em
das mídias que professores e alunos têm acesso dentro geral da cidade onde residimos, porém, sabemos de
e fora da escola. situações que ocorrem nos quatro cantos do mundo.

A forma e o conteúdo do que é veiculado pela tele- O espaço é, assim, comprimido (HARVEY, 1994)
visão encontram-se intimamente ligados, o seu grande cada vez mais, em função do uso crescente dos meios
poder está na forma de recepção que, segundo Adorno de comunicação que nos levam em espectro até os
(1971), impede o controle sobre o eu consciente. lugares mais inóspitos. Assim como a fotografia, a ima-
Em função dessa característica, é difícil dimensionar gem projetada na tela de uma televisão esconde muitas
as implicações sobre a formação do sujeito, uma vez outras imagens, é um recorte, um fragmento do mundo
que, mesmo isolando esses fatores, sabe-se que ele só trazido até nós.

MÓDULO BÁSICO

4.
A relação entre público e privado coloca-se hoje no ao seu ideal de ego trocando-o pelo do grupo, isto por-
centro de muitas discussões sobre a televisão. Em muitos que, segundo Freud (1976), o indivíduo sente necessi-
aspectos, o privado tem sido utilizado como elemento dade de estar em harmonia com os demais membros
nuclear na estruturação de programas para a televisão, do grupo ligando-se a eles por laços libidinais.
como os reality shows, os quais, muito mais do que trazer
para dentro dos lares o que acontece no espaço público, Mais recentemente, numa análise da sociedade da
fazem fantasia e espetáculo do que é privado do outro. segunda metade do século XX, Marcuse (1998) defende
que a repressão exercida pela autoridade, como a exis-
Num interessante estudo realizado entre 1997 a tente nos grupos sociais como a família, igreja, etc.,
2000 sobre o conteúdo dos programas de televisão, vem sendo afrouxada exatamente pela perda da função
Fischer (2001), tentando caracterizar o que denominou paterna. Para ele, vivemos numa sociedade sem pai,
de dispositivo pedagógico da mídia, descreveu as na qual a atrofia do ego observada por Freud na análise
variadas técnicas de exposição dos indivíduos. das massas pode ser amplamente encontrada nos domí-
nios da sociedade atual, e não somente na relação do
Os modos de transformar a vida em espetá- indivíduo com o grupo social. As mídias vêm cumprindo
culo possibilitaram à autora identificar que a partir dos essa função identificada por Freud. Como dizia Marcuse
recursos do zoom, do enquadramento, etc., a televisão
captura aquilo que é mais íntimo do sujeito e expõe ao [...] a atrofia do ego, sua resistência reduzida
público, como se pudesse e devesse penetrar na intimi- aos outros se manifestam na maneira com que
permanentemente fica disponível para solu-
dade daqueles que traz à cena, e também, por conse- ções que lhe são impostas de fora. A antena
guinte, na intimidade de quem observa: um exercício de em cada casa, o rádio em cada praia, a vitrola
voyerismo, um espelho de narciso. em cada bar e restaurante são todos gritos de
desespero para não ficarmos sós, separados
A autora acrescenta ainda que dos grandes, condenados ao vazio, ao ódio ou
aos sonhos do próprio eu (1998, p. 97).
[...] é na exposição dos sujeitos, basicamente
na exposição de todos os medos e insegu- A formação do eu mediado por relações fragilizadas,
ranças, de todas as dúvidas, pecados e trans- carentes de situações de enfrentamento para a formação
gressões que, ao serem publicizados, são
de um ego bem estruturado, acaba por colocar as pes-
tratados no sentido de uma normalização [...]
(FISCHER, 2001, p. 104). soas, e as crianças em particular, diante de um processo
de identificação com o coletivo no qual se sentem ainda
Ou seja, ao agir publicizando o que é privado, mais favoráveis a uma adesão apressada aos ideais do
expondo a intimidade das pessoas, a televisão busca grupo, sem parâmetro valorativo para avaliar suas ações.
uma conformação do comportamento, uma adaptação
à realidade. Numa sociedade como essa, liberada dos vínculos
sentimentais com a autoridade paterna como símbolo
Outro elemento para reflexões seria analisar essa da consciência moral, a tendência é a liberação de uma
questão do ponto de vista da relação entre indivíduo e enorme carga de energia destrutiva. A propagação da
coletividade. No texto “Psicologia das massas e análise agressividade tomaria dimensões gigantescas, podendo
do ego”, Freud (1976) explica que o processo de identi- levar ao colapso do grupo (MARCUSE, 1998). Essas
ficação que ocorre numa coletividade possui traços que previsões parecem estar, em grande medida, se con-
indicam uma regressão do eu, pois, em um grupo, existe firmando, não só pela realidade das grandes cidades,
uma forte tendência da personalidade individual cons- como também pelos conteúdos dos programas de TV,
ciente desaparecer, dando lugar a uma orientação de dos filmes do cinema, e dos conteúdos e usos da inter-
pensamentos e sentimentos ditados pela coletividade, net (CARLSSON; FEILITZEN, 1999; FISCHER, 2001;
bem como uma preponderância da afetividade e da vida ERAUSQUIM, 1983).
psíquica inconsciente.
Com mais de 50 anos de existência, a televisão
Os indivíduos, num coletivo, tendem a executar irre- encontra-se no centro de muitos grupos de pesquisa-
fletidamente ações que surgem no grupo, ele renuncia dores em todo o mundo. Esse fenômeno de ampliação

MÍDIA, TECNOLOGIAS E APRENDIZAGEM

5.
e massificação, do ponto de vista comunicacional, só mas também com o vilão, pois não há garantia
pode ser comparado com a internet que, em menos que uma criança vá se identificar com o perso-
de 20 anos, avançou para todos os cantos do planeta nagem que tem uma atitude correta.
alterando profundamente práticas e hábitos relacionais. Rivoltela (2002, p. 4) ainda acrescenta que,
A nova geração vive sob a égide de uma nova eco- Estes modelos, todavia, comportam uma lógica
logia comunicacional, sob novos formatos de aprendiza- simplista, frequentemente não traduzem valo-
gem. Isso porque, diferentemente das gerações anterio- res positivos, influenciando negativamente o
modo pelo qual a criança se comporta e valora
res, o acesso à informação é ilimitado e, portanto, pode e
o bem e o mal. Outras vezes apenas se tornam
cabe a cada um estabelecer sua estratégia didática, res- o motivo para frustrações, em razão das dife-
peitando e potencializando suas habilidades cognitivas. renças entre o que acontece de excepcional
nas aventuras dos heróis na TV e a normali-
No entanto, pelo seu curto tempo de vida, ainda dade da experiência cotidiana das crianças.
carecemos de um volume de pesquisas que nos permi-
Existem efeitos de curto prazo, mas que trazem
tam estabelecer um quadro explicativo para o fenômeno
consequências do ponto de vista comporta-
da comunicação por meio da rede digital.
mental. As pesquisas identificaram um comportamento
Com a televisão é possível estabelecer esse qua- de “imitação” em relação a personagens da mídia,
dro. A seguir, um mapeamento das pesquisas realizadas segundo Rivoltela (2002, p. 5) “Entre as razões que
com a televisão, em que procurou-se identificá-las a levam à imitação está a natureza da imagem televisiva,
partir das implicações do uso e do consumo da TV. realidade e fantasia a um só tempo, a verossimilhança
que pode sugerir ser possível o que é irrealizável”.
Segundo Rivoltela (2002) podemos classificar
esses estudos em dois grandes grupos: Esse comportamento tem sido reforçado com
o fenômeno mais atual de integração das mídias. Um
x pesquisas sociológicas – efeitos de curto prazo exemplo bem característico é o da revista Capricho, vol-
e efeitos de longo prazo; tada para o público adolescente feminino, que possui
x pesquisas psicológicas – efeitos psico-cogniti- além do meio impresso todo um suporte na internet.
vos e efeitos comportamentais. As capas sempre são estampadas com os rostos mais
Essa classificação indica que os estudos levaram a cobiçados ou admirados do mundo juvenil, seja por-
resultados distintos. O consumo de televisão em curto que é o astro/estrela da novela, um nome do mundo da
prazo pode trazer os seguintes efeitos do ponto de moda, da música ou do cinema. Entre as reportagens,
vista psíquico e cognitivo: algumas muito instrutivas e realmente educativas, mas a
maioria traz sempre as dicas de como parecer-se com
x acionar os mecanismos projetivos –
o personagem em destaque na capa, reforçando um
algumas pesquisas indicaram que o sujeito
comportamento de imitação, como se, usando a roupa
que consome a mídia pode se projetar neste ou a maquiagem, fosse possível adquirir parte dos atri-
ou naquele personagem de uma novela, filme, butos daquele personagem.
etc. Ainda que seja um mecanismo natural do
sujeito, pode se complicar se a projeção aconte- Após o lançamento nas bancas, a revista disponibi-
cer de forma intensa em personagens virtuais. liza no seu site outras matérias, vídeos e fotos, além dos
x acionar os mecanismos de identifica- links para os blogs, twitter ou orkut das pessoas citadas
ção – a identificação é conhecida como o ato na revista. Isso permite que, além daquele conteúdo do
através do qual o sujeito tende a identificar-se filme ou da TV, o contato com os personagens e seu
com algo que lhe é externo, sejam pessoas ou universo glamoroso possa ser acessado e comparti-
coisas. Nessa situação, a televisão, ao oferecer lhado de forma mais dinâmica e intensa.
modelos de fácil identificação – em virtude de
seus personagens serem, na maioria, estereo- Sobre os efeitos de longo prazo decorrentes
tipados – amplifica a ação do mecanismo de do consumo da mídia, Rivoltela (2002) diz que, um
identificação. Isso pode ocorrer com o herói, deles, é a inibição da criatividade e morte da imagina-

MÓDULO BÁSICO

6.
ção. Segundo o autor, alguns pesquisadores chegaram traços psicológicos e comportamentais característicos,
à conclusão de que uma exposição habitual e prolon- tendem a transformar-se a tal a ponto que correm o
gada à televisão produziria uma redução da capacidade risco de desaparecer” (RIVOLTELA, 2002, p. 12).
lúdica das crianças, podendo ser desde uma tendência
a repetir alguns esquemas estereotipados nos jogos e Uma das questões levantadas pelos autores e sobre
nas brincadeiras com seus colegas, até mesmo o efeito a qual é bastante interessante pensar, diz respeito aos
mais extremo que seria a perda da vontade e capaci- espaços de circulação das crianças na família. Segundo
dade de brincar. Rivoltela (2002, p. 14),

Conforme uma das explicações dadas pelos pes- As transformações no modelo nuclear de famí-
lia, a crise de identidade dos papéis dos pais,
quisadores, a imagem televisiva, ao utilizar os primeiros sobretudo dos homens [...] concorrem para
planos – trazendo um detalhamento maior – causaria transformar a infância. A criança é cada vez
uma saturação de informações, inibindo a ação criativa menos o objeto de atenção educativa e está
de complementar aquilo que é vislumbrado na tela. Essa cada vez mais submetida às confusas expecta-
tivas e projeções compensatórias dos desejos
falta de necessidade de imaginar o que estaria se pas-
dos pais; é cada vez menos o sujeito de um
sando, como ocorre com a leitura de um livro que exige dialogismo comunicativo entre gerações, e
a imaginação para criar as imagens da estória, seria o cada vez mais está reduzida à satisfação das
principal agente inibidor. suas necessidades imediatas e das suas exi-
gências materiais.
Em várias pesquisas, os resultados indicaram que
a reincidência do consumo da televisão pode causar Os efeitos de longo prazo são aqueles adqui-
alterações cerebrais, pois no momento da assistência o ridos por um consumo prolongado da televisão e que
cérebro se encontra em uma “fase alfa”, caracterizada figuram no plano comportamental. Um deles diz
pela passividade e pelo bloqueio da atividade ocular. respeito às mudanças nas relações sociais, pois a
Esse processo ainda produz uma atrofia da atividade do televisão, como um componente de consumo pelos
hemisfério esquerdo do cérebro em relação ao direito. integrantes do núcleo familiar, exige uma nova maneira
Ao estimular o lado direito do cérebro, de negociar o seu uso.

[...] inibiria a conceituação em privilégio da Nesses casos os resultados têm mostrado que esse
associação analógica, permitindo encontrar objeto tanto pode favorecer um processo de negocia-
uma possível causa não somente para aquela ção amigável ou não, ou seja, tanto pode reforçar como
crise da imaginação de que se falava anterior-
mente, mas também justificando as observa- enfraquecer a coesão interna do grupo familiar.
ções de muitos professores quando respon-
sabilizam a exposição das crianças à televisão Além dessa questão, surge também a problemática
pelos sintomas que manifestam seus alunos: envolvendo o conjunto de valores e a capacidade da
verbalização esparsa, incapacidade de con- televisão interferir na definição desse quadro pelo poder
centração e falta de motivação para os estudos
(RIVOLTELA, 2002, p. 10). de fascinação da imagem. Se as pesquisas trazem
resultados significativos, há que se considerar que nesse
Segundo a conclusão de um outro grupo de pes- aspecto, a cultura local, nacional traz consequências
quisas, o consumo continuado da televisão pode atuar sobre os resultados. Pode-se, assim, considerar esse
na formação criando identidades frágeis e, por corolário, aspecto relativizando seus resultados, pois serve como
fazendo desaparecer a infância. alerta aos pais, professores e comunidades.

O fato de imitar, de se identificar ou se projetar em O fato é que essas pesquisas demonstram o


personagens virtuais, poderia causar na criança a for- potencial educacional da estrutura midiática atual e,
mação de uma identidade fragilizada, pelo fato deste nesse sentido, é importante que os agentes de socia-
processo ter sido apoiado em situações não reais. Com lização privilegiados (família e escola) repensem sua
relação à infância, é certamente uma das hipóteses mais ação, levando em consideração a ação dos meios de
difundidas entre os pesquisadores, pois “[...] a infância comunicação no processo formativo das novas gera-
como realidade sociocultural, o universo infantil, seus ções. Entretanto, vivemos um dilema real, pois os pais

MÍDIA, TECNOLOGIAS E APRENDIZAGEM

7.
e professores ensinam valores que contribuem para mídia visual, mídia audiovisual, etc., as quais, por sua
uma formação que privilegia uma convivência pacífica vez, estabelecem uma relação uni, bi ou multidirecional.
e coletiva, enquanto a mídia estimula comportamentos Assim sendo, nos vemos atravessados por uma rede,
contrários a esses valores. enlaçados numa teia, mergulhados num espaço comu-
nicativo espesso e complexo em que o real se constitui
Para atuar nesse contexto, é importante sublinhar quase na sua totalidade em um espaço comunicativo.
as questões inerentes à interface da escola com a
mídia, duas instituições sociais que atuam fortemente No entanto, ainda que nos comuniquemos todo o
na formação das novas gerações. É fundamental que tempo de nossa vida (salvo em situações extremamente
tomemos a mídia como espaço de saber e, uma vez particulares de impedimentos biológicos), quando ten-
que as relações na sociedade atual estão baseadas nas tamos analisar esse fenômeno dito comunicação é
relações imagéticas, é fundamental entendermos e nos como se ele nos “escapasse por entre os dedos”. A
apropriarmos da comunicação como uma prática social facilidade para colocar em ação a comunicação está
emancipadora. diretamente oposta à de compreendê-la.

Sendo assim, podemos afirmar categoricamente Essas questões, por conseguinte, envolvem o campo
que viver em sociedade é, antes de tudo, estabelecer da retórica, das práticas de linguagem em torno dos
algum tipo de vinculação com os outros. A psicologia e discursos que circulam socialmente, bem como da her-
a sociologia buscam, dentro de quadros explicativos dis- menêutica, ou seja, da interpretação, da explicação dos
tintos, alcançar uma maior compreensão dos fenôme- sentidos dos discursos. Se a retórica antiga era a téc-
nos individuais e coletivos na dinâmica espaço-temporal nica política por excelência de linguagem na polis grega,
do processo de comunicação, mas certamente não tem temos hoje a midiatização enquanto prática tecnológica
sido uma tarefa fácil. do discurso, sob a égide do mercado (SODRÉ, 2007).

A complexidade do vínculo inerente ao processo


comunicativo deve-se, entre outras coisas, à multiplici-
2. Mídia e tecnologia
dade quanto aos tipos, meios, lugares, etc. Como des- [...] já não somos homens de pensamento,
creve Baitello Jr. (1999, p. 83), homens cuja vida interior se alimenta nos
textos. Os choques sensoriais conduzem-nos
[...] a distribuição de símbolos e imagens, seja e dominam-nos; a vida moderna assalta-nos
ela feita pelos códigos da visualidade, ou por pelos sentidos, pelos olhos, pelos ouvidos. O
outros códigos, cria grandes complexos de automobilista vai demasiado depressa para ler
vínculos comunicativos – grupos, tribos, seitas, os painéis, e apenas obedece aos sinais ver-
crenças, sociedades, culturas – e, com isso, melhos e verdes. [...] O ocioso que, sentado
cria realidades que não apenas podem inter- num cadeirão, julga repousar, roda o botão e
ferir na vida das pessoas, como de fato deter- fará explodir no silêncio de sua casa a vee-
minam seus destinos, moldam sua percepção, mência sonora do rádio ou, na penumbra, os
impõem-lhes restrições, definem recortes e trepidantes fantasmas da televisão, a menos
janelas para o seu mundo. que tenha ido procurar numa sala obscura os
espasmos visuais e sonoros do cinema [...]
O que se tem atualmente é uma hibridação dis- (HUYGHE, 1986, p. 9-10).
cursiva, técnica e midiática, grandemente facilitada
pela convergência em torno da tecnologia digital, um A questão colocada por Huyghe nos remete a todo
exemplo é o da revista Capricho, citado anteriormente. o sistema mídia. Porém, o que conhecemos hoje é
Ou seja, é possível vislumbrarmos na atualidade uma resultado do desenvolvimento de um sistema de lingua-
produção de conteúdos em que todos os recursos dos gem, desde os tempos mais remotos da vida humana.
diversos meios estão sendo trabalhados de forma muito Na história da humanização, existiu um esforço em
criativa, dinâmica e ilimitada. conquistar a natureza, dominar o desconhecido. Essa
busca fez com que se desenvolvesse um sistema de
O desenvolvimento dos meios em base digital extra- comunicação, de troca, de contato entre os sujeitos e,
pola, rompe com as barreiras em torno da divisão dos posteriormente, serviu para o próprio registro das des-
produtos em seus suportes clássicos: mídia impressa, cobertas, das ideias, das informações.

MÓDULO BÁSICO

8.
Diversas formas foram criadas pelas comunidades meio (rádio, TV, jornal, web, etc.), assim, a emissão e
ao longo da pré-história e da antiguidade, essa varie- a recepção da mensagem acontecem em tempos e
dade de sinais (de diversas naturezas) e códigos que lugares distintos. A comunicação mediada é o modelo
chamamos de linguagem. A linguagem é tão importante de comunicação que impera nos tempos atuais, com o
para as sociedades humanas, que é considerada o dife- crescente avanço tecnológico que coloca à disposição
renciador entre o homem e outros animais. do sujeito uma infinidade de opções, ampliando consi-
deravelmente o potencial comunicativo.
A primeira forma de linguagem, a oral, permitiu,
em primeiro lugar, que os sujeitos se diferenciassem da No caso das inscrições rupestres, a comunicação
natureza e apreendessem o mundo como algo exterior ainda é possível pela nossa capacidade de interpretar
a eles. Permitiu, ainda, criar todos os outros meios de imagens, mas não conseguimos dimensionar o real sig-
comunicação e formas de linguagem. Foi assim que nificado delas, pois o contexto atual é muito diferente
os sujeitos começaram a se diferenciar dos animais e, daquele vivido pelos homens das cavernas.
séculos depois, a compreender-se enquanto indivíduos.
Diariamente, somos “bombardeados” por uma
Além da oralidade, a arqueologia ajudou enor- enorme quantidade de informações escritas, sonoras
memente a desvendar os segredos dos tempos mais e visuais. Em função dessa diversidade, existe um
remotos da civilização. Na base do processo civilizatório esforço enorme para compreender as implicações dos
está a criação de formas de comunicação não orais, vários modelos, formas e tipos de mídia, sobre nossa
sendo que as mais antigas formas conhecidas são as percepção do mundo e sobre o que aprendemos
inscrições rupestres, que são desenhos talhados nas com elas. Esse esforço fez com que a mídia e seus
pedras. Essas imagens foram utilizadas como formas conteúdos fossem classificados. Entre as tantas clas-
de expressão e de comunicação, tanto que alguns sificações, optamos por algumas conceituações, bus-
códigos linguísticos até hoje possuem em sua estru- cando em particular aquelas que colocam em relevo o
tura a imagem, tal como os hieróglifos, outros códigos, aspecto interacional.
como o nosso, utilizam como complemento os símbo-
los, ícones e signos. No aspecto da estrutura tecnológica encontramos
em Harry Pross (apud BAITELLO JUNIOR, 2000) os
Para que a comunicação se efetive é necessário, conceitos de mídias primárias, secundárias e terciá-
portanto, que existam dois sujeitos: um que elabora, rias. Mídia primária é o próprio corpo, engloba todos os
que cria a mensagem (polo emissor) e o outro que a recursos que dispomos para produzir mensagens, para
decodifica, que a interpreta (polo receptor). Para tanto, estabelecermos uma relação com o outro. Como diz
é necessário que ambos os lados do processo comu- Baitello Jr. (2000), são todos os sons, movimentos e
nicativo – emissor e receptor – tenham domínio do odores que criam códigos e regras, que possuem sig-
código linguístico utilizado. Quando essa comunicação nificados. Na mídia primária, o emissor deve dominar
acontece diretamente entre dois sujeitos, dizemos que a gestualidade e a mímica, enquanto o mensageiro
a comunicação é direta, quando existe algum tipo de (transmissor) deve saber correr, cavalgar e dirigir, para
suporte material em que a mensagem é gravada, dize- garantir a transmissão da mensagem. Nesse campo de
mos que a comunicação é mediada. estudos, a teoria das mídias incorpora as contribuições
dos estudos dos códigos hipolinguais (biológicos), lin-
Inerente a comunicação mediada tem-se, de um guais (sociais) e hiperlinguais (universo dos símbolos).
lado, o polo receptor e de outro, o polo emissor. Num Nessa dimensão, os aspectos culturais são os elemen-
sistema de comunicação direta, emissores e recepto- tos centrais no processo comunicativo, pois o que está
res encontram-se juntos no momento da comunicação, em relevo são os hábitos culturais. Na mídia primária, o
como numa conversa pessoal. Numa comunicação corpo é visto também como possuidor de uma memória
mediada, existe entre o emissor e o receptor algum cultural (MENEZES, 2008).

Somos “bombardeados” por uma enorme quantidade


de informações escritas, sonoras e visuais.

MÍDIA, TECNOLOGIAS E APRENDIZAGEM

9.
Com o aparecimento da escrita e com a revolução de consumo do conteúdo estão colocados (como, onde
cultural, social e cognitiva, surgiu o que Pross (apud e com quem), pois estes interferem no processo de
BAITELLO JR, 2000) denominou de mídia secundária. socialização das pessoas, agrupando-as, distancian-
A grande diferença das mídias primária e secundária é do-as e criando formas distintas de socialização.
que esta necessita de um suporte externo ao sujeito para
transportar e manter a mensagem. O papel, por exem- A dimensão da comunicação analisa o que é
plo, possibilita que a imagem e/ou o texto permaneça requerido das habilidades sensoriais do sujeito (audição,
registrado e possa ser acessado em qualquer tempo e visão, etc.) e o que ele precisa dominar em termos de
em qualquer lugar. Na mídia secundária, é necessário um códigos para interpretar suas mensagens. Finalmente,
suporte extracorpóreo somente para produzir a mensa- na dimensão cultura, é analisado o potencial mobiliza-
gem, mas não para recebê-la, ou seja, a produção e dor de aspectos de nossa cultura, aos valores culturais
a emissão necessitam de suporte. Nessa classificação privilegiados, comportamentos, etc.
estão os meios impressos (jornais, revistas, cartazes, etc.)
Porém, para que seja possível compreender melhor
e os auditivos (rádios, aparelhos de som, etc.).
essas questões e, até mesmo, dimensionar as possibili-
Na mídia terciária, os dois lados do processo comu- dades em termos educacionais, é importante saber que
a apreensão dos conteúdos da mídia se dá de forma
nicativo necessitam de um aparato técnico codificador
graduada, ou seja, existem níveis de leitura que levam
e decodificador da mensagem. Ou seja, “[...] nela todos
a um aprofundamento cada vez maior do conteúdo.
os corpos envolvidos no processo comunicativo preci-
Alguns conteúdos são mais propícios a essa leitura
sam de ferramentas” (MENEZES, 2008). Para acessar a
aprofundada, outros nem tanto. Por exemplo, é mais
mensagem é necessário equipamento específico e isso
fácil, do ponto de vista operacional, “ler” uma fotografia
só foi possível com o domínio da eletricidade, da trans-
com mais profundidade do que um filme, em função da
missão de mensagens por meio de ondas, em que o
fotografia ser uma imagem estática e o filme não.
conteúdo pode ser codificado para ser transmitido e/ou
gravado e decodificado para ser recebido. Atualmente, No caso das imagens, para que a leitura seja feita,
contamos com uma infinidade de mídias terciárias em passa-se por três níveis de atenção: instintivo, descritivo
nosso cotidiano, as quais alteraram significativamente e simbólico. No nível instintivo, a leitura se dá de imediato,
nossa relação com o espaço e com o tempo. A con- pois os elementos que intervêm neste nível são aqueles
sequência mais imediata com o surgimento da mídia ligados ao mecanismo da percepção, elementos emoti-
terciária – a aceleração do tempo e das sincroniza- vos tais como as cores (quentes e frias), as formas (alti-
ções sociais (BAITELLO JR., 2000) – é o surgimento tude, latitude, altivez, etc.), as expressões e as evocações
de uma cultura de massa com todos os seus aspectos imediatas. Os olhos correm pela imagem e se prendem
positivos e negativos. aos pontos focais, percebendo os mais expressivos.

Realizando uma análise da mídia terciária em ter- O nível descritivo, que acontece num momento pos-
mos relacionais, ou seja, uma análise sobre os conteú- terior à leitura descritiva, é aquele em que nosso olhar
dos e o impacto destes sobre o receptor, é possível começa a se prender nos elementos que compõem a
obter, pelo menos, quatro categorias de conteúdo e da imagem. Nesse nível, começa-se a observar as linhas
problemática em torno dele: da dimensão mercadoria, que dão a noção de perspectiva, os planos que surgem
da dimensão sociabilidade, da dimensão comunicação e (geral, médio, close) pelos campos, pelo volume dos
da dimensão cultura. objetos, luzes e sombras que compõe o todo. No nível
descritivo, nosso cérebro recebe um conjunto maior de
Na dimensão mercadoria, o que se analisa é o que informações: a descrição dos objetos, do ambiente e a
é consumido pelo sujeito (rádio, programas de TV, tipos identificação do “sujeito” da imagem.
de filme, etc.). Cada conteúdo carrega um conjunto de
elementos qualificadores: popular, clássico, moderno, No nível simbólico, nossa percepção sobre a ima-
informativo, entretenimento. O sistema midiático “vende” gem assume uma dimensão simbólica, ou seja, nesta
seus produtos e nós “compramos” alguns e rejeitamos fase a leitura se pauta pelos conhecimentos que temos
outros. Na dimensão da sociabilidade, o local e a forma sobre o assunto, sobre os objetos, o ambiente, etc. Nessa

MÓDULO BÁSICO

10.
fase, trabalha-se com os aspectos polissêmicos das ima- Isso nos leva a uma questão fundamental na dis-
gens. Sua interpretação e leitura dependerão do arsenal cussão em torno da mídia e seu potencial educativo. Os
de conhecimentos e da sensibilidade do observador. signos foram construídos socialmente e os significados
são criados na relação que o sujeito estabelece com o
Essas características assumidas pela imagem e o objeto. O sentido conotativo de casa, por exemplo, foi
modo de apreender o conteúdo, permitiram o entendi- construído a partir da relação do sujeito com o objeto.
mento de que lidamos sempre com dois níveis fundamen- Nos tempos atuais, em que o sistema mídia atua no
tais em torno do conteúdo de uma imagem/mensagem: a processo de socialização e, portanto, de formação e de
denotação e a conotação. O nível denotativo refere-se aprendizagem, a (re) significação dos objetos igualmente
à enumeração e descrição dos objetos num determinado passa a sofrer interferências do meio. Ou seja, a mídia
contexto e espaço. O nível conotativo refere-se à aná- também tem o potencial de (re) significar os objetos, de
lise das mensagens ocultas numa imagem e na forma construir ou desconstruir os seus significados.
como a informação aparece escondida ou reforçada. Para
Umberto Eco (1993), a conotação é a soma de todas as Todo conteúdo de mídia possui um conjunto de
unidades culturais que o significante pode evocar institu- elementos que o constitui: um texto, uma imagem,
cionalmente na mente do destinatário. Nessa discussão é um som, etc., os quais são produzidos com técnica
necessário compreender o conceito de signo. num suporte tecnológico. É importante analisar esses
[...] signo é a relação entre o conceito (que conteúdos e o processo subjetivo em torno da apren-
denominaremos, mais adiante, significado) e a dizagem possível.
imagem acústica (significante). Em outros ter-
mos, quando utilizamos a palavra mesa, esta- No caso da imagem, em particular a fotográfica, o
mos combinando um conceito de mesa com ato de produzir e/ou apreciar uma fotografia é um pro-
os fonemas me-sa (ECO, 1993, p. 58).
cesso que envolve o observar, o selecionar, o escolher
Assim, é possível entender o aspecto linguístico que uma visão e um ponto de vista. Do ponto de vista da
organiza nossa capacidade de comunicação e da comu- psicologia, a fotografia tem sido associada aos proces-
nicação por meio de conceitos. Toda língua, como um sos que ocorrem no nosso aparelho psíquico. Dubois
sistema organizado de conceitos e de signos, tem um (1993) encontra na fotografia, apoiado em Freud, ele-
aspecto que é o significante – o objeto e sua forma – e mentos para relacionar processos psíquicos aos proces-
um som associado a ele. Por exemplo, enquanto conceito, sos de produção da fotografia. Parte da noção de aura
o objeto casa possui características que nos permitem para defender que no ato de tomada de um instante
visualizar sua imagem ao lermos ou escutarmos o nome do real (tirar a foto), ocorre uma cisão daquela imagem
casa. No entanto, associada a essa imagem criada em do seu mundo, como diz Dubois, procede-se um corte
nossa mente, também evocamos o que ela representa e definitivo do cordão umbilical que vinculava aquela ima-
significa para nós culturalmente. Com isso, a expressão: gem ao mundo. O tempo de espera entre a abertura do
casa (significante = objeto) + casa (significado = cultura) diafragma e a visualização da imagem – seu consumo
= casa (significação = lugar de abrigo). –, situa-se entre um real que já não existe mais, levado
pelo tempo, e uma imagem concretizada no suporte,
A partir dessa definição, o termo denotação é com- imagem latente, que nos proporciona a revelação de um
preendido como o sinal, como a indicação objetiva. Já tempo e lugar longínquos, “por mais próximos que este-
a conotação é compreendida como sendo o sentido jam” (DUBOIS, 1993).
translato, subjetivo, propriedade que tem um termo de
designar um ou mais seres. No exemplo anterior, casa A fotografia é a memória que se concretiza num
pode ser entendida no seu sentido denotativo como suporte material. Essa relação indefinível, entre essas
local de abrigo, e no sentido conotativo como acon- temporalidades – o presente e o passado – nas imagens
chego, segurança. registradas no passado que são trazidas ao presente,

A mídia tem o potencial de (re) significar os objetos.

MÍDIA, TECNOLOGIAS E APRENDIZAGEM

11.
ilustra de maneira complementar o funcionamento do Esse aspecto é interessante se analisarmos no inte-
aparelho psíquico (DUBOIS, 1993). Segundo ele, rior da própria história da fotografia. Segundo Dubois
(1993), o primeiro estágio do discurso fotográfico
Os traços mnésicos escondidos em nosso
esteve ligado à ideia da mimese, a imagem fotográfica
inconsciente estão ao mesmo tempo sempre
todos ali, e sempre inteiros. Só sua ascensão como mimese do real, fortemente atribuída em função
à superfície é seletiva. Todas as virtualidades são da semelhança existente entre a foto e o seu referente.
registradas, mas as atualizações na consciência,
as revelações são feitas pontualmente, de Recoberta pelas noções de similaridade e realidade,
acordo com mil procedimentos, que são como
a fotografia ligava-se à verdade, documento que garantia
tantos filtros [...] (DUBOIS, 1993, p. 321).
autenticidade ao objeto. Concebida como espelho do
Segundo o autor, uma fotografia sempre esconde mil mundo, a imagem construída por meio de processos
imagens atrás dela, sob ela ou à sua volta. É um recorte mecânicos e físico-químicos ganhava estatuto da imitação
idealizado e realizado pelo enquadramento dado, que mais perfeita da realidade. Ainda hoje, a ação de uma ima-
imprime e esconde imagens do real. No entanto, a relação gem fotográfica sobre a subjetividade humana permanece
amorosa que temos com a fotografia emerge em grande carregada do indício de veracidade, pois, como coloca
medida desde sua origem, devido à vontade, ao desejo Dubois (1993, p. 26), ao nos depararmos com uma foto,
humano de conservar traços de uma presença que irá subsiste, apesar de tudo, “[...] um sentimento de realidade
desaparecer com o tempo, é o “[...] trabalho sobre a tem- incontornável do qual não conseguimos nos livrar apesar
poralidade e o jogo complexo entre a duração e o instante, da consciência de todos os códigos que estão em jogo
a presença marcada, numa das versões, do autorretrato, nela e que se combinaram para a sua elaboração”. Ou,
com suas impossibilidades e seus paradoxos enunciativos como dizia Barthes (1984, p. 132), “[...] na fotografia, de
[...]” (DUBOIS, 1993, p. 139), que vai estar presente no um ponto de vista fenomenológico, o poder de autentica-
ato de olhar para uma foto e que marca profundamente ção sobrepõe-se ao poder de representação”.
nossa relação com a imagem fotográfica.
Por conta dessas características, uma fotografia
Roland Barthes, ao analisar a fotografia, afirma que assume funções distintas, alcançando, atualmente, uma
as imagens possuem estatuto próprio na ação sobre categorização que tem como base a intenção com que
nosso imaginário. Barthes justifica que a imagem foto- foi produzida, e também, a partir de quais elementos.
gráfica não pode ser aprofundada “[...] por causa de sua
força de evidência”. Isso em função de que Uma foto pode assumir ou ser feita com uma fun-
ção histórica ou documental. Por exemplo, as fotos anti-
[...] na imagem, o objeto se entrega em bloco gas de cidades, casas e pessoas, atualmente podem ser
e a vista está certa disso – ao contrário do
texto ou de outras percepções que me dão utilizadas para analisar o contexto arquitetônico de um
o objeto de uma maneira vaga, discutível, e determinado período e região. Muitas pesquisas antro-
assim me incitam a desconfiar do que julgo ver pológicas utilizam-se de imagens para discutir determi-
(BARTHES, 1984, p. 157). nadas temáticas.
Com isso, podemos pensar que a imagem nos apre- Conforme nos coloca Alegre (1998, p. 76),
senta como uma totalidade em si. Ela não abarca a totali-
dade do real, mas no processo de sua leitura a apreende- [...] o estudo da imagem é fundamental para
mos na sua totalidade, ao contrário da mensagem escrita o entendimento dos múltiplos pontos de vista
que difere da fotografia pela sequencialidade com que que os homens constroem a respeito de si
mesmos e dos outros, de seus comportamen-
apreendemos seu conteúdo. Sendo assim, a fotografia tos, seus pensamentos, seus sentimentos e
age univocamente, invocando-nos a participar da mensa- suas emoções em diferentes experiências de
gem-imagem com apelos que transcendem o consciente tempo e espaço.
lido e racionalizado, pois traz à tona elementos registrados
no nosso inconsciente que emergem como fragmentos, Entretanto, a autora adverte que a imagem, pelo seu
como ruínas de um tempo perdido. Ela superdimensiona caráter polissêmico, exige uma análise não só na sua
a dimensão conotativa do objeto, de sua representação dimensão histórica e sociológica, mas também semioló-
no contexto cultural e afetivo do sujeito. gica, ou seja, na dimensão cognitiva da imagem.

MÓDULO BÁSICO

12.
Uma foto também pode assumir uma função de real, uma escolha entre o que ficará dentro do quadro
registro do cotidiano – aquelas produzidas sobre fatos da imagem e o que ficará fora. Um exemplo de falta de
sociais, ambientais –, para servir como suporte às enquadramento é quando tiramos uma foto em que a
matérias jornalísticas. Essas imagens são chamadas cabeça ou os pés são cortados. É importante analisar
de fotojornalísticas e, normalmente, são produzidas os objetos que serão fotografados pelo visor ou lente da
por fotógrafos especializados, que adquirem um olhar máquina para que se consiga um bom enquadramento.
sobre a realidade que lhes permite registrar os fatos no
instante em que ocorrem. São pessoas que trabalham Além do enquadramento, a composição também
para os jornais, revistas e que são contratados para define o recorte a ser dado. Nos exemplos a seguir, é
fazerem coberturas fotográficas dos fatos e eventos possível analisar melhor.
sociais, políticos, artísticos e esportivos. Depois, as fotos
farão parte das matérias publicadas por esses veículos 2.1 Composição diagonal
de comunicação.
Na composição diagonal, propositalmente cria-se
As fotografias podem ser também do tipo artísti- no leitor uma sensação de desequilíbrio, pois a impres-
cas, cuja função é a de apreciação artística. A fotografia são é de que o objeto vai cair. Esse tipo de enquadra-
artística se consolidou, atualmente, como um ramo da mento deve ser bem dosado, para não dar a impressão
fotografia, com alguns fotógrafos que são artistas da de que a foto foi mal tirada.
imagem. Uma foto-arte possui o mesmo status que uma
pintura ou escultura, existem exposições de fotografias
em galerias de arte produzidas por fotógrafos que se
especializaram nessa modalidade.

Um exemplo de fotógrafo que possui sua obra


divulgada em vários países é Sebastião Salgado. Seu
estilo fotográfico é reconhecidamente forte, em função
do apelo emocional e crítico que possuem suas ima-
gens – são fortes.

Outro tipo é a foto cuja função é a publicidade,


aquela produzida em estúdios fotográficos, ou mesmo
externamente, mas com todo cuidado técnico para dar Acervo da autora.

publicidade a algum produto. As fotos de moda também


se encontram nessa categoria. 2.2 Composição central
Independente da função e do tipo da fotografia, Na composição central, o objeto ocupa todo o cen-
existem cuidados para que se obtenha uma boa foto. tro da foto. Nessa foto, pode-se ver que o objeto ocupa
A técnica para produção de uma imagem prende-se, toda a imagem, portanto o enquadramento centralizado
basicamente, em três itens: enquadramento, plano e é o mais indicado.
ângulo. Claro que outros elementos também são con-
siderados, por exemplo, uma imagem com a fusão de
fundo é desagradável e pode roubar a atenção do cen-
tro de interesse. Fusões de fundo são objetos ou linhas
que estão excessivamente juntas ao assunto principal. O
ideal é simplificar as fotos e reforçar o centro de inte-
resse selecionando fundos simples, evitando assuntos
não relacionados com o assunto principal.

Toda fotografia é um recorte da realidade definido


Acervo da autora.
pelo enquadramento, que é o recorte que será dado ao

MÍDIA, TECNOLOGIAS E APRENDIZAGEM

13.
do objeto para o registro ou b) utilizando os recursos de
2.3 Composição horizontal
zoom da máquina, que permite que os objetos sejam
Nessa foto, todos os objetos possuem uma direção fotografados com planos distintos.
mais horizontalizada: as pedras, o barco e a própria linha
Plano aproximado
do horizonte que é marcada na imagem. Portanto, para
essa imagem, a composição mais indicada é a horizon-
tal, com a máquina deitada nessa posição.

Acervo da autora.

Plano médio
Acervo da autora.

2.4 Composição vertical


Um exemplo de composição vertical é o de fotos
de pessoas. O sentido de um corpo humano é vertical,
ao tirar uma foto no sentido horizontal, a pessoa fica
“achatada” e aparenta ser mais baixa do que realmente
é. Por isso o segredo é tirar a foto no sentido vertical.

Na foto a seguir, o objeto possui linhas que “puxam” a


imagem para cima, fazendo com que predomine uma ima-
gem mais verticalizada. Nesse caso, a única possibilidade é
enquadrar, para que a foto fique numa posição vertical.

Acervo da autora.

O plano de conjunto, plano geral ou panorâmica


permite registrar o máximo de espaço possível que o
equipamento ou que a posição do fotógrafo permite. Na
fotografia a seguir, foi possível mostrar desde objetos bem
próximos ao observador, até os que estão bem distantes.

Acervo da autora.

O plano também compõe a técnica fotográfica. O


plano é definido como a distância entre o observador e o
objeto fotografado. Pode-se utilizar o plano de duas for-
mas: a) aproximando-se ou distanciando-se fisicamente Acervo da autora.

MÓDULO BÁSICO

14.
Porém, para que uma imagem possua um forte lizada desde a antiguidade. Os chineses desenvolveram
apelo emotivo e visual, é importante respeitar a “regra a arte das sombras chinesas, projetando a silhueta de
dos terços”. Essa regra diz que quando se quer dar rele- pequenas figuras de madeira ou couro e representando
vância a certos objetos numa imagem, deve-se colo- pequenas histórias. No século XVII foram desenvolvidos
cá-lo ocupando a região compreendida entre os dois os primeiros projetores dotados de lentes, as lanternas
terços inferiores direito ou esquerdo da imagem, nunca mágicas. Imagens eram pintadas sobre vidro e projeta-
na parte superior e menos ainda na parte central. Assim, das em paredes ou em tecidos. Esses sistemas foram os
a leitura respeitará as zonas de atenção que ficam entre precursores dos atuais projetores de slides.
os dois terços abaixo e à direita da imagem.
O invento dos irmãos Auguste e Louis Lumière, o
“cinematógrafo”, foi o que impulsionou o cinema. Ele
1 2 3 logo se desenvolveu e se popularizou, tornando-se
diversão e sendo utilizado para muitos fins: documen-
tários, estudos científicos, etc. O produto do cinema, o
1 filme, tem uma história curta, mas recheada de conteúdo
que permite uma classificação, chamada de gênero. O
gênero nada mais é do que um conjunto de elementos
que permite a identificação de um filme logo nas pri-
meiras cenas: o cenário, os personagens, a iluminação,
2
tudo isso já vai dizendo qual o gênero do filme. Alguns
tipos mais conhecidos são: documentário, ficção, comé-
dia, western, terror, policial, entre tantos outros tipos que
vem se consolidando no mercado cinematográfico.
3
Do ponto de vista social e econômico, o mercado
Acervo da autora.
cinematográfico representa um setor industrial e econô-
mico importante – de grande faturamento – em alguns
países geradores de emprego. Mas o que possibilitou
esse desenvolvimento econômico foi um sistema criado
nos EUA conhecido como star system. Esse sistema sur-
giu com a criação dos grandes estúdios e consistia em
fabricar estrelas para encantar as plateias. O star system
é o responsável pela produção das grandes estrelas de
cinema. Atrizes famosas como Sophia Loren, Elizabeth
Taylor, Gary Cooper, James Dean e mais recentemente:
Roger Moore, Leonardo Di Caprio, Julia Roberts, etc., são
alguns que a indústria cinematográfica colocou no mer-
cado para serem consumidos.

Além dessa estratégia mercadológica, a indústria


cinematográfica ocidental produz filmes que se encaixam
Acervo da autora.
literalmente em uma fórmula de sucesso, chamada de
“cinema clássico narrativo”. A maioria absoluta dos filmes
A imagem fixa é uma das formas de produção de
hollywoodianos são clássicos narrativos – que é a forma de
conteúdo utilizadas por algumas mídias. O audiovisual,
estrutura narrativa que o público de cinema, em geral, está
que surgiu com o cinema no século XIX, foi resultado de
acostumado a ver. O público foi educado, nos últimos 100
uma série de pequenos avanços técnicos. Primeiramente
anos da história do cinema, a assimilar facilmente esse tipo
surgiu a fotografia, depois com fotos numa sequência
de filme. O espectador médio possui total compreensão
mostrada em uma sucessão rápida produziu a sensação
desses filmes estruturados sob a narrativa clássica porque
de movimento. Historicamente, essa atividade já era rea-
seu cérebro está programado para assistir a eles.

MÍDIA, TECNOLOGIAS E APRENDIZAGEM

15.
Existem regras e fórmulas para se fazer um filme O rádio comercial, nas primeiras décadas do século
clássico narrativo e o que acontece é que, em geral, XX, foi resultante do crescente processo de consumo
se essas regras e fórmulas são obedecidas, o filme é dessa mídia, em particular após a aprovação do Decreto
um sucesso. O público geralmente rejeita os filmes que n. 21.111 de 01/03/1932, que autorizou que 10% da
fogem a esse tipo de estruturação narrativa, porque fil- programação de uma emissora pudesse ser composta
mes não clássicos narrativos não se encaixam no padrão por comerciais pagos. Nessa mesma época, começou a
ao qual os nossos cérebros estão acostumados. contratação de artistas e de produtores para manter um
padrão de qualidade na programação veiculada. Nos anos
Essas regras são, basicamente: 40 do século XX, época de ouro do rádio, a programação
x é absolutamente necessário que o filme tenha tornou-se ainda mais popular e aumentou significativa-
início, meio e fim bem definidos; mente os índices de audiência. Em 1942, foi transmitida a
x todo filme clássico narrativo parte da premissa primeira radionovela (Em busca da felicidade). Começaram
de uma situação estável sendo abalada por um também os programas de esporte, o radiojornalismo e os
acontecimento chave (que desestabiliza o nor- noticiários, em particular o famoso programa O repórter
mal) e a posterior busca pela volta à estabilidade; Esso, que posteriormente foi levado para a televisão.
x o espectador deve, obrigatoriamente, se iden-
tificar com os personagens, que devem ser A vinculação do rádio com a política veio nessa
escritos e interpretados a fim de causar essa época. Esse processo esteve ligado diretamente ao con-
identificação. Além disso, o espectador busca texto anterior à Segunda Guerra Mundial e se intensificou
no filme uma espécie de catarse para os seus durante o conflito. Segundo Chaia (2001, p. 210),
próprios problemas e sentimentos, portanto, o
embora existissem algumas especulações em
final feliz é quase uma obrigação; torno das potencialidades do meio, os nazistas
x todo filme clássico narrativo possui pelo foram os primeiros a perceber e posterior-
menos dois plot points muito bem definidos: o mente a desenvolver o uso do rádio como
primeiro é o acontecimento chave que deses- meio de propaganda nacional e internacional.
tabiliza a situação normal e o segundo é um
No Brasil, o rádio também foi utilizado com pro-
outro acontecimento chave que é o clímax do
pósitos políticos, com mais intensidade durante o
filme – e que aponta para o final dele.
governo de Getúlio Vargas (1930-45 e 1950-54) que,
Quanto aos elementos técnicos do audiovisual, consciente de seu potencial comunicacional, utilizou
além dos fotográficos, ainda podem ser utilizados os essa mídia para promover a integração nacional em
recursos de iluminação, os cenários e a trilha sonora. torno do seu projeto político. Getúlio foi quem criou,
Esses recursos são específicos e ajudam a compor uma em 1935, o programa Hora do Brasil “[...] que tinha
verdadeira gramática para a linguagem audiovisual. como objetivo promover a integração nacional, criar
uma identidade política e divulgar suas ideias políticas”
No entanto, socialmente falando, as três mídias (CHAIA, 2001, p. 218). Posteriormente, Eurico Gaspar
que possuem atualmente maior impacto e penetração Dutra alterou o nome do programa para Voz do Brasil,
na sociedade são o rádio, a televisão (pelo número de o qual permanece até os dias atuais. O rádio é uma
aparelhos presentes nos espaços brasileiros) e a mídia
mídia que sempre esteve muito atrelada às questões
digital, particularmente a internet, pela sua densidade e
políticas (CHAIA, 2001).
flexibilidade.
Outro ponto interessante do rádio é a sua forma de
No Brasil, a figura de maior destaque no desen-
consumo. Como diz Chaia, uma das
volvimento da tecnologia do rádio é o padre-cientista
Landell de Moura, que obteve do Governo brasileiro, em [...] características que diferencia o rádio dos
1900, a carta patente sobre seu invento. No Brasil, a outros meios de comunicação é o aspecto de
primeira transmissão oficial foi no dia 7 de setembro de que as mensagens são transmitidas apenas
oralmente, através do som, e o receptor pode
1922, em comemoração ao centenário da independên- executar outras atividades, concomitantemente
cia do Brasil, com o discurso do então presidente da à sua escuta. O rádio pode, portanto, estar pre-
República Epitácio Pessoa. sente em muitos lugares, possibilitando várias

MÓDULO BÁSICO

16.
ações simultâneas e conquistando espaços A questão envolvendo o avanço das mídias de
que a televisão e o jornal impresso não podem massa há muito vem revestida de posições, indicando,
preencher (2001, p. 202).
segundo Umberto Eco (1993), a classificação das pes-
Essa característica inaugurou, certamente, um soas entre os apocalípticos e os integrados. Os apo-
fenômeno social em que um conteúdo poderia ser calípticos seriam aquelas pessoas que veriam no fenô-
consumido em praticamente qualquer lugar, por qual- meno do crescimento dos meios de comunicação de
quer pessoa, pois o rádio não requer que para seu con- massa, ou das mídias de massa, como a televisão, o
sumo sejam adquiridas habilidades específicas, além da rádio, o cinema, uma ameaça de crise para a cultura e
capacidade de ouvir. Outro aspecto que também tornou para a democracia. Os integrados são aqueles que se
rejubilam com a democratização do acesso de milhões
o rádio uma mídia atrativa, do ponto de vista do pro-
de pessoas a essa cultura do lazer.
dutor, é a sua estrutura tecnológica e o processo de
produção. O seu dinamismo e flexibilidade permitem
No entanto, como adverte Umberto Eco (1993),
que os conteúdos possam ser alterados, atualizados e
as atitudes extremistas acabam levando a resultados
produzidos com grande facilidade e com baixo custo,
semelhantes. A atitude mais adequada é ter uma posi-
em comparação, por exemplo, com os custos de pro-
ção crítica, o equilíbrio entre o otimismo ingênuo e o
dução para a televisão, cinema ou jornal. O custo de
catastrofismo estéril, um equilíbrio que assume a ambi-
transmissão da voz é bem menor do que o custo de valência do meio, as suas possibilidades e limitações, as
transmissão da imagem. suas contradições internas.
Muitos acreditavam que, com o surgimento da No Brasil, é possível afirmar que é forte a penetra-
televisão, o rádio iria desaparecer. Porém, o efeito foi ção da televisão nos espaços urbanos, confirmando que
contrário. O rádio encontrou sua própria linguagem e se trata de uma prática relacionada ao universo cultural
conquistou seu público, funcionando em complementa- da modernidade. Entre as classes sociais – sabendo
ridade em relação às demais mídias. que a pirâmide socioeconômica brasileira é bastante
distorcida, com concentração de renda numa parcela
Devido às suas características, o rádio explora cer-
pequena da população – existe um número significativo
tos potenciais humanos (a voz e a audição), se carac-
de famílias com baixo poder aquisitivo, mas que possui
terizando como a mídia da oralidade. Como tal, um
televisão de canal aberto, na sua grande maioria, e que
texto narrado deve ser interpretado como um texto de
tem, neste meio, uma das poucas formas de acesso
teatro. A mensagem deve ser elaborada e interpretada
aos produtos culturais: filmes, novelas, shows, notícias,
segundo padrões técnicos, mas também estéticos. Essa
documentários, etc.
questão torna-se um fator central nas produções para o
rádio, pois na oralidade lidamos com a problemática da Em termos numéricos, a televisão atinge mais de
interpretação da mensagem. 90% dos lares brasileiros (PNAD/IBGE, 2009). Com
isso, do ponto de vista cultural, a população brasileira
No caso da televisão, dentro da programação da TV
tem, hoje, um veículo que atinge praticamente a tota-
brasileira, a telenovela desponta como fenômeno nacio-
lidade da população, ou seja, o que está em jogo é a
nal. Esse gênero cresceu a passos largos e rapidamente
estruturação de nossa relação com o mundo.
ganhou o coração do grande público. Detentor de altos
índices de audiência, o gênero tornou-se alvo de inúme- As mídias digitais representam um avanço,
ras pesquisas tanto no Brasil como na América Latina. tornando-se uma ferramenta de democratização do
acesso à informação. Mas são interessantes algu-
Segundo Elias (1998, p. 38),
mas informações sobre a gênese dessa tecnologia.
O sucesso da telenovela, tal qual a conhece- A criação da internet coincide com as mudanças na
mos hoje, pode ser atribuído ao fato de ela economia e na política no final dos anos 50 do século
possibilitar ao telespectador uma identificação XX, em plena Guerra Fria, na disputa pela liderança
com o seu cotidiano, funciona como um espe-
tecnológica. O EUA criou uma Agência de Desenvol-
lho da realidade. A telenovela parece colocar
um pouco de fantasia na vida real e um pouco vimento de Projetos Avançados, a Arpa, subordinada
de realidade na fantasia. ao Ministério de Defesa e, em 1962, com a junção

MÍDIA, TECNOLOGIAS E APRENDIZAGEM

17.
de outro invento da AT&T, o modem, se tornou viável Segundo Pierre Lévy, os chamados blocos de tex-
a comunicação de dados entre dois computadores tos são como nós e os links são as conexões. Para ele,
com a transmissão de pacotes de dados. Essa tec- o chamado hipertexto
nologia começou a receber a atenção do governo
[...] é um conjunto de nós ligados por conexões.
americano porque apresentava a possibilidade de
Os nós podem ser palavras, páginas, imagens,
distribuir as informações estratégicas em vários gráficos ou partes de gráficos, sequências
pontos, impedindo que informações valiosas fossem sonoras, documentos complexos que podem
destruídas, em caso de ataque, fragilizando a defesa eles mesmos ser hipertextos. Os itens de infor-
mação não são ligados linearmente, como em
do país, disso surgiu a Arpanet.
uma corda com nós, mas cada um deles, ou
a maioria, estende suas conexões em estrela,
Desse uso estratégico-militar, a rede de computa- de modo reticular. Navegar em um hipertexto
dores sofreu um novo impulso quando, ainda nos anos significa, portanto, desenhar um percurso em
70 do século XX, os economistas estadunidenses pres- uma rede que pode ser tão complicada quanto
possível (1993, p. 33).
sentiram que para os próximos períodos a informação
teria um peso significativo na economia. Em 1977,
Essa capacidade aliada à de incorporar conteúdos
encomendaram um relatório para avaliar esse aspecto de vários formatos, de ser multimídia, torna a internet
e identificaram que, desde 1966, a informação repre- a mais poderosa mídia de comunicação já desenvol-
sentava 47% da força de trabalho e do produto interno vida pela humanidade. Multimídia é um termo que pode
bruto daquele país. O desenvolvimento das tecnologias definir a conjugação de textos, sons, imagens e movi-
da informação e da comunicação faz parte de uma mentos. E, mais recentemente, baseando-se nesses
estratégia dos países mais ricos para se manterem na avanços, tem-se os Ambientes Virtuais de Aprendiza-
liderança econômica. gem (AVA), considerada a tecnologia mais avançada
para a educação.
Esse fenômeno fez surgir uma questão social: a
alfabetização digital. Atualmente, dominar os códigos Alguns elementos em torno da problemática
da rede eletrônica é tão importante como tem sido até sobre a penetração da mídia na sociedade a tornam
agora saber ler e escrever. A proliferação das novas tec- uma instância formativa de grande importância e
nologias e a enorme quantidade de informações que a relevância educacional. Além disso, o sistema mídia
internet oferece às pessoas coloca em xeque a necessi- interfere também no processo social como um todo,
dade de repensar alguns papéis na educação. Como diz pois atua intensamente nas relações sociais, ou seja,
o pedagogo Seymour Papert, do Massachutts Institute a construção da cidadania passa pelo intercâmbio
of Technology (MIT), “se a escola não fizer uma revolu- com a mídia, em geral. Os meios de comunicação
ção, as crianças vão fazê-la”. são espaços do saber e a população tem confiança
nos seus relatos (conteúdos). Com isso, a sociedade
Essa mídia trouxe, ainda, a incorporação de ocidental moderna acabou por construir um mundo
uma infinidade de termos e conceitos: cyberspace, com base nas relações imagéticas com a mídia,
web site, homepage, e-mail, link, hacker, browser, criando uma realidade editada. Por isso, é fundamen-
interface, etc. No entanto, o conceito mais difundido e tal entender a comunicação como prática social e,
importante é o de hipertexto. Lucia Leão, no seu livro como tal, deve-se ter uma atuação crítica frente ao
O labirinto da hipermídia (1999), explica de maneira sistema mídia, pensar criticamente seus conteúdos,
simples o que é um hipertexto: “um documento digital saber selecionar informações.
composto por diferentes blocos de informações inter-
conectadas” (p. 15), através de vínculos eletrônicos Segundo alguns pesquisadores do tema, o sis-
ou links, que permitem ao usuário avançar na leitura tema mídia estrutura os atos comunicativos, criando
na ordem desejada. uma rede comunicativa espessa e ampla. Isso pode

Atualmente, dominar os códigos da rede eletrônica é tão


importante como tem sido até agora saber ler e escrever.

MÓDULO BÁSICO

18.
levar a uma hipotrofia dos nossos sentidos (sensorium de apoio, mas estabelece contextos complexos para a
humano), a uma hipertrofia dos sentidos de proximi- relação ensino-aprendizagem, pois o que acontece são
dade (tato, olfato, paladar) e a uma hipotrofia dos sen- entrecruzamentos de discursos: professor(a) e mídia,
tidos de distância (audição e visão). Essas mudanças uma intertextualidade que inaugura um contexto com-
podem, ainda, contribuir para desenvolver algumas plexo e preocupante.
patologias da comunicação, as quais são geradoras da
violência, que seria a perda da propriorecepção (sen- Para lidar com essas questões, há algumas déca-
tido do próprio corpo). das surgiu a área da mídia-educação, cujo objetivo é
lidar com a mídia numa perspectiva social, entender o
O que está em jogo nesse processo é o grau de lugar que a mídia ocupa na sociedade atual e analisar
adesão que o sujeito estabelece com o discurso da o impacto social historicamente, as implicações para
mídia, quanto mais aderente for o discurso em relação as relações sociais e para a organização da sociedade.
às expectativas do sujeito, maior será a interferência da Numa perspectiva educacional, o que a área defende é
mensagem na vida da pessoa. Com o crescimento e que o profissional da educação deve dominar as lingua-
diversificação das mídias na sociedade, esse processo gens das mídias, pois isso significa dominar novos códi-
tende a acirrar-se, levando ao conceito de midiatização. gos de acesso ao conhecimento, visando proporcionar
Nesse conceito, a questão não está no processo de vei- uma formação crítica do aluno, em que ele aprenda a
culação de acontecimentos por intermédio dos meios, selecionar, criticar a fonte das informações. Numa pers-
mas no “[...] funcionamento articulado das tradicionais pectiva individual, a mídia-educação se propõe a atuar
instituições sociais com a mídia”, o que nos permite na produção de arte com a criação/autoria, o que atua
“[...] sustentar a hipótese de uma mutação sociocultu- diretamente sobre a autoestima dos alunos, mas também
ral centrada no funcionamento atual das tecnologias da cria um novo modo de percepção estética do real.
comunicação” (SODRÉ, 2007, p. 19).
A noção de educação para as mídias abrange
Com isso, temos que concordar com Baitello Jr.: todas as maneiras de estudar, de aprender e de ensinar
em todos os níveis
[...] a distribuição de símbolos e imagens, seja
ela feita pelos códigos da visualidade, ou por [...] e em todas as circunstâncias, a história, a
outros códigos, cria grandes complexos de criação, a utilização e a avaliação das mídias
vínculos comunicativos – grupos, tribos, seitas, enquanto artes plásticas e técnicas, bem como
crenças, sociedades, culturas – e, com isso, o lugar que elas ocupam na sociedade, seu
cria realidades que não apenas podem inter- impacto social, suas implicações da comuni-
ferir na vida das pessoas, como de fato deter- cação mediatizada, a participação e a modifi-
minam seus destinos, moldam sua percepção, cação do modo de percepção que elas engen-
impõem-lhes restrições, definem recortes e dram, o papel do trabalho criador e o acesso
janelas para o seu mundo (1999, p. 82). às mídias (UNESCO, 1984).

Por isso, pensamos que o desafio é para a socie- Isso porque, numa análise social, vivemos um
dade e para a educação porque processo de desordenamento cultural (MARTÍN-BAR-
BERO; REY, 2001), numa convivência com uma opu-
[...] comunicar é a ação de sempre, infinita- lência em termos comunicacionais, com uma debili-
mente, instaurar o comum da comunidade, não dade de público, com uma maior disponibilidade de
como um ente [...], mas como uma vincula-
informação, com um empobrecimento/deterioração da
ção, portanto, como um nada constitutivo, pois
o vínculo é sem substância física ou institucio- educação formal, num contexto em que existe uma
nal, é pura abertura na linguagem (SODRÉ, multiplicação de signos, numa sociedade que padece
2007, p. 20). de maior déficit simbólico.

Temos que considerar que lidamos com linguagem, O que se coloca nesse contexto é que a mídia-edu-
com a construção do discurso que permite a formação cação ou educação para as mídias é condição sine
de sujeitos (subjetividade) e a produção do real (con- qua non para a educação e para a cidadania, portanto,
creticidade). Portanto, a relação da mídia com a educa- para a construção de uma sociedade democrática e
ção vai muito além de um uso como recurso didático, humanista.

MÍDIA, TECNOLOGIAS E APRENDIZAGEM

19.
Referências
______. Uma análise foucaltiana da TV: das estratégias
ADORNO, T. W. Teoria da pseudocultura. In: HORKHEIMER,
de subjetivação na cultura. In: Reunião Anual da ANPED,
M.; ADORNO, T. W. Sociológica. Madrid: Taurus, 1971.
n. 24, 2001, Caxambu. Anais do Grupo de Traba-
______. Palavras e sinais: modelos críticos 2. lho Educação e Comunicação – GT16. Caxambu,
Petrópolis: Vozes, 1995. 2001. p. 97-115.
ALEGRE, M. S. P. Reflexões sobre iconografia etnográfica: FREUD, S. Obras psicológicas completas de
por uma hermenêutica visual. In: FELDMAN-BIANCO, B.; Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976. (v. 18,
LEITE, M. L. M. (Org.). Desafios da imagem: fotogra- 1920-1922.)
fia, iconografia e vídeo nas ciências sociais. Campinas:
Papirus, 1998. HARVEY, D. Condição pós-moderna: uma pesquisa
sobre as origens da mudança cultural. 4. ed. São Paulo:
BAITELLO JR., N. Imagem e violência: a perda do pre-
Edições Loyola, 1994.
sente. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 13,
n. 3, p. 81-84, jul./set. 1999. HUYGHE, R. O poder da imagem. São Paulo: Martins
Fontes, 1986. (Arte & Comunicação.)
______. O tempo lento e o espaço nulo. Mídia pri-
mária, secundária e terciária. In: IX encontro anual da IBGE. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>. Acesso
Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em: 09 out. 2009.
em Comunicação – COMPÓS. Porto Alegre, 2000. LEÃO, L. O labirinto da hipermídia – arquitetura
BARTHES, R. A câmara clara: notas sobre a fotogra- e navegação no ciberespaço. São Paulo: Iluminuras,
fia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. 1999.
CARLSSON, U.; FEILITZEN, C. V. (Org.). A criança e LÉVY, P. As tecnologias da inteligência: o futuro
a violência na mídia. São Paulo: Cortez; Brasília: do pensamento na era da informática. São Paulo: Edi-
Unesco, 1999. tora 34, 1993.
CHAIA, V. O troféu “Cara de Pau” da Rádio Eldorado. Opi- MARCUSE, H. Cultura e sociedade. Rio de Janeiro:
nião Pública, Campinas, v. 7, n. 2, p. 202-220, 2001. Paz e Terra, 1998. v. 2.
COSTA, C. Educação, imagem e mídias. São Paulo: MARTÍN-BARBERO, J.; REY, G. Os exercícios do ver:
Cortez, 2005. (Coleção aprender a ensinar com textos, hegemonia audiovisual e ficção televisiva. São Paulo:
v. 12.) Senac, 2001.
DEBORD, G. A sociedade do espetáculo (1931-1994). MENEZES, J. E. de O. Processo de mediação: da mídia
Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/soc primária à mídia terciária. Communicare, v. 4, n. 1,
espetaculo.html#1>. Acesso em: 9 out. 2009. 2004. Disponível em: <http://www.facasper.com.br/
DUBOIS, P. O ato fotográfico e outros ensaios. cip/communicare/4_1/pdf/joseeugenio.pdf>. Acesso
Campinas: Papirus, 1993. (Ofício de Arte e Forma). em: 18 fev. 2008.
ECO, U. Apocalípticos e integrados. 5. ed. São RIVOLTELLA, P. C. Convidada, intrusa, ou o quê?
Paulo: Perspectiva, 1993. Os efeitos da televisão na infância: entre a realidade e os
ELIAS, M. de F. F. O adolescente diante da telenovela. discursos sociais. 2002. (mimeo)
Comunicação & educação, São Paulo, n. 11, SODRÉ, M. Sobre a episteme comunicacional. Matri-
p. 35-47, jan./abr. 1998. zes, São Paulo, n. 1, p. 15-26, out. 2007.
ERAUSQUIM, M. A. et. al. Os teledependentes. São UNESCO. L’Education aux Médias. Paris: Unesco,
Paulo: Summus, 1983. 1984.
FISCHER, R. M. B. Mídia e juventude: experiências do UHLMANN, G. W. A mortificação da mídia primá-
público e do privado na cultura. Cadernos Cedes, ria pelas imagens. São Paulo: COS/PUCSP, 2002.
Campinas, vol. 25, n. 65, p. 43-58, jan./abr. 2005. (mimeo)

MÓDULO BÁSICO

20.