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SANTO AGOSTINHO E A

EUCARISTIA
SANTO AGOSTINHO E A EUCARISTIA
1 Cor 12, 12-30
1. Introdução
Santo Agostinho foi um grande enamorado da Eucaristia. O Bispo de
Hipona estava plenamente consciente da Presença real e substancial de
Cristo no Sacramento e sabia que todo cristão é peregrino da cidade de
Deus e que, nesse caminho para a pátria eterna, necessita do alimento do
Corpo e do Sangue de Cristo para poder chegar à meta.
Sabemos ainda que, no tempo de Santo Agostinho, em muitas dioceses,
não era costume celebrar a Missa todos os dias, mas só duas ou três
vezes por semana, entretanto sabemos também que, em Hipona,
celebrava-se todos os dias. Santo Agostinho demonstra com isso ter um
grande amor pelo Sacramento e plena consciência da necessidade que
seus fiéis tinham da participação cotidiana na mesa do Senhor:
“O quarto pedido é: O pão nosso de cada dia nos dai hoje. O pão de cada
dia pode significar aqui diversas coisas: todas as coisas necessárias para o
sustento da vida presente (...) ou então significa o sacramento do Corpo
de Cristo, que recebemos todos os dias, e ainda a refeição espiritual”.
2. Vós sois o Corpo de Cristo
A comunidade é o Corpo de Cristo. Este elemento é ressaltado por Santo
Agostinho de maneira particular em seus sermões da manhã de Páscoa..
Um dos elementos que neles quase sempre aparece é a explicação do
paralelo que existe entre a comunidade e a Eucaristia. Ambos são Corpo
de Cristo. Daí provém uma das frases mais contundentes de Santo
Agostinho, em referência ao texto de 1 Cor 12:
“Quod accipitis vos estis, gratia qua redempti estis – Vós sois o que
recebeis, pela graça com que fostes redimidos”.
Os fiéis são o próprio Corpo de Cristo. Quem é membro do Corpo de Cristo
deve viver em santidade, como o próprio Cristo é santo.
“Estote quod videtis, et accipite quod estis - Sede o que vedes (sobre o
altar), e recebei o que sois”.
É uma Igreja mesclada, ecclesia permixta - ele dirá. É como a rede de que
nos fala o Evangelho, na qual havia peixes bons e maus (Mt 13, 47-50), é
como o campo de Deus, em que há trigo e joio (Mt 13, 24-30). Esta
mescla terminará quando vier o final dos tempos e os bons forem
separados dos maus.
Enquanto durar a peregrinação, Santo Agostinho convida os bons à
paciência com os que ainda não o são, e convida os que não são bons a
que se convertam, antes que chegue o momento da separação final: Se
os maus não podem separar-se dos bons agora, devem ser tolerados
temporariamente:
“os maus podem achar-se conosco na eira, mas não no celeiro”.
“(Quem quiser viver) não tenha receio da união dos membros: não seja
um membro podre, que mereça ser cortado; nem um membro disforme,
de que se tenha vergonha; seja belo, adaptado, sadio; esteja unido ao
corpo e viva de Deus, para Deus; trabalhe agora na terra, para reinar,
depois, no céu”.
“Quem na vida não está, não está em Cristo; e quem não está em Cristo,
não é cristão: eis as profundezas da vossa submersão”.
Santo Agostinho não propõe, contudo, uma comunhão intimista, em que o
cristão se desentende de seus irmãos, mas trata de uma comunhão plena,
em que a comunhão com Deus há de levar-nos a uma comunhão com os
irmãos.
“Não poderei dizer que amo Cristo Cabeça, se não amar Cristo Corpo”.
Não é possível separar a Cabeça do Corpo. Quem não vive em plena
comunhão com o Corpo, não pode dizer que vive em plena comunhão com
a Cabeça:
Santo Agostinho possui textos muito duros, indicando que quem não vive
em comunhão com o Corpo de
Cristo, que é a Igreja e que são os membros da própria comunidade, não
pode aproximar-se a receber o sacramento da Eucaristia.
“Assim o Cristo Senhor significou-nos também e quis que pertencêssemos
a Ele: consagrou em sua mesa o mistério da nossa paz e unidade. Quem
recebe o mistério da unidade e não tem o vínculo da paz, não recebe o
mistério em proveito de si próprio, mas em testemunho contra si. ''
Em tais palavras, subjazem certamente dois textos bíblicos lidos e
interpretados por Agostinho em chave comunitária. O primeiro é o texto
evangélico que trata das condições requeridas para se apresentar uma
oferta diante do altar de Deus e de como é preciso, antes de oferecer um
sacrifício a Deus, estar reconciliado e em paz com os irmãos {Mt 5, 23). O
segundo é um texto paulino (1 Cor 11 , 29) que nos diz que "aquele que
come e bebe sem distinguir o Corpo do Senhor, come e bebe a sua
própria condenação".
“Logo, ao nos lembrarmos de ter cometido alguma ofensa contra nosso
irmão, é preciso ir ao encontro da reconciliação e tomar a iniciativa, não
com o movimento de nossos pés, mas com o impulso de nosso coração”.
“Onde está a caridade, aí também reina a paz; e onde há humildade, lá se
manifesta a caridade - ubi autem
caritas, ibi pax; et ubi humilitas, ibi caritas”.
A Eucaristia é, um sacramento, sobretudo, de comunhão, pois vincula os
fiéis a Cristo e também os une entre si. Isto seria verdadeiramente viver
uma espiritualidade de comunhão, a saber: viver intimamente unidos a
Cristo Cabeça e, ao mesmo tempo, unidos ao Corpo de Cristo, ou seja, à
própria comunidade, reconhecendo, em cada irmão da comunidade, um
membro do Corpo de Cristo. Faz falta, certamente, muita fé para poder
ver na pessoa concreta com quem partilho a minha vida a presença de
Cristo, mas a Eucaristia deve-se converter num compromisso de amor
fraterno, pois cada irmão é membro do Corpo de Cristo. Daí a necessidade
da paciência, da compreensão, da oração pelos irmãos. Tudo, sem dúvida,
a partir do amor:
“A Cabeça está no céu, mas tem membros na terra”. Dê um membro de
Cristo a outro membro de Cristo: quem tem dê ao necessitado. Membro
de Cristo és tu, que tens o que dar; membro de Cristo é o outro e
necessita que lhe dês. Caminhais ambos, por um mesmo caminho, ambos
sois companheiros de viagem”.
3. Alimento para os peregrinos
Santo Agostinho reconhece na Eucaristia o alimento que os peregrinos da
cidade de Deus devem tomar em sua jornada para a casa do Pai. A
Eucaristia tem de recordar aos membros de uma comunidade que estes
estão de passagem, que são peregrinos, que não existem realidades
definitivas neste mundo, mas tudo deve ser caminho e peregrinação em
direção a Deus:
“Somos todos peregrinos. Cristão é aquele que, tanto em sua própria casa
como em sua própria pátria, se reconhece peregrino. Nossa pátria está no
alto, lá não seremos hóspedes, pois cada um de nós aqui, mesmo em sua
casa, é hóspede”.
A Eucaristia tem, portanto, esse sentido, uma dimensão tanto de
recordação, como de sacramento, ou seja, de dar alento aos que
caminham para Deus e de robustecê-los em suas necessidades. É o que
comenta Santo Agostinho:
“O que será ali a flor do trigo a não ser aquele pão que desceu do céu até
nós? Como nos saciará na própria pátria Aquele que tanto nos alimentou
na peregrinação”!
4. A unidade
Outro elemento muito presente nos sermões pascais de Santo Agostinho
com relação à Eucaristia é a unidade. Santo Agostinho viveu numa Igreja
que se encontrava dividida, principalmente por causa do cisma donatista.
Ele será, por isso, um grande amante da unidade e da paz da Igreja e
usará, diversas vezes, da imagem do Pão e do Vinho eucarísticos para
falar da unidade. Como o pão não se formou de um grão só, nem o vinho
de um único racimo de uva, assim também, em cada comunidade, há
muitas pessoas. Para que haja a unidade entre elas, contudo, é preciso
que morra o próprio 'eu', para que possa nascer o 'nós'.
Santo Agostinho usa da imagem do moinho para ilustrar as penitências,
que levam os fiéis a "moer-se" para morrer a si mesmos e unir-se aos
demais, exatamente como ocorre com os grãos de trigo no moinho, e para
entrar em condições de unir-se pela ação do Espírito Santo, pois o Espírito
é água e é fogo. Como o pão se amassa com água e é assado ao fogo,
assim também os fiéis, já dispostos pela penitência quaresmal, e pelas
penitências do dia a dia, são levados pela ação do Espírito a unir-se a seus
irmãos:
O Apóstolo diz, com efeito:
“há um só pão e nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo.
Assim explicou o sacramento da mesa do Senhor: somos muitos, mas
somos um único pão, um único corpo. Neste pão, manifestai-vos como
deveis amar a unidade. Porventura aquele pão foi feito de um único grão?
Não eram muitos os grãos de trigo? Mas, antes que chegassem a ser pão,
estavam separados. Por meio da água é que foram unidos, depois de
certa moagem: porque, se o trigo não for moído e amassado com água,
não chega à forma que se chama pão. Assim vós também, dias atrás, pela
humilhação do jejum e pelo mistério do exorcismo, éreis como que
moídos. Veio o Batismo e, pela água, fostes banhados para poderdes
receber a forma de pão, mas ainda não há pão se não se passa pelo
fogo”.
O que significa o fogo?
“Trata-se da unção do óleo. O fogo que nutre é o sacramento do Espírito
Santo. Prestai atenção nos Atos dos
Apóstolos, ( ... ) vem, pois, o Espírito Santo: depois da água, o fogo e sois
convertidos em pão, que é o Corpo de Cristo”.
“Se retirares a palavra, não há senão pão e vinho: acrescenta a palavra, e
já há outra coisa. E essa outra coisa, o que é? O Corpo de Cristo e o
Sangue de Cristo”.
Fazendo um belo jogo de palavras, Santo Agostinho explica que os que
bebem juntos do cálice vivem juntos em concórdia.
Nobiscum hoc estis: simul enim hoc sumimus, simul bibimus, quia simul
vivimus - Sois isto conosco: pois juntamente o consumimos, juntamente
bebemos, porque vivemos juntos.
Por isso, Santo Agostinho fala da Eucaristia como o sacrifício de Deus e
nosso. A Eucaristia é o sacrifício de Cristo oferecido ao Pai, a que cada fiel
cristão se une por meio de Cristo e se oferece também ao Pai como uma
oblação viva, santa e pura.
5. Unidade e não uniformidade
Para Agostinho, a unidade não implica uniformidade, ou seja, que se faça
tabula rasa de todos os dons e carismas recebidos. Trata-se de
estabelecer uma igualdade verdadeiramente comunitária, que
redimensiona a pessoa e a faz consciente da riqueza que a unidade lhe
oferece, ajudando-a a libertar-se de elementos secundários que podem
converter-se em ídolos (raça, língua, família, país etc.), elementos que
corremos o risco de querer adorar em lugar de Deus. Caindo, nos assim
chamados "fundamentalismos.
Libertados desses elementos secundários capazes de escravizar a pessoa,
o que procuramos é a unidade comunitária, na qual cada um pode e deve
contribuir com sua própria particularidade, com o dom que recebeu de
Deus, uma vez que todo dom se recebe sempre em vista de um serviço
que se pode prestar a uma determinada comunidade. Uma comunidade é,
portanto, como um tecido multicolorido, em que a unidade da trama não é
quebrada pela variedade das cores.
Diz Santo Agostinho:
“Como a variedade de cores, num bordado, é tal que não se vê
perturbada a graça da unidade, assim também, entre os irmãos, os
diversos dons sejam tais que não se lhes adira qualquer discrepância de
inveja”.
“Assim, tua alma não é própria, mas de todos os irmãos, cujas almas são
tuas; ou melhor, cujas almas juntamente com a tua não são almas, mas
uma única alma, a única de Cristo” ...
6. Viver da Eucaristia
Santo Agostinho indica com força a dimensão de graça que o Sacramento
da Eucaristia possui. Quem quiser viver, já tem onde viver e de que viver:
do Corpo e Sangue de Cristo. Para que o Sacramento seja fonte de vida,
porém, é preciso aceitar as três condições que Santo Agostinho coloca
como sinônimos da Eucaristia, numa das mais famosas frases
agostinianas sobre ela:
Oh, sacramento de piedade! Oh, sinal de unidade!
Oh, vínculo de caridade! Quem quiser viver, tem onde viver, tem de que
viver.
Aproxime-se, creia, para que faça parte deste Corpo, para que seja
vivificado.
É preciso, portanto, viver o sacramento de piedade. Trata-se, por um
lado, da manifestação da misericórdia de Deus aos homens (Sua
condescendência), mas é, por outro lado, convite a que os seres humanos
modelem sua vida piedosamente e saibam sempre se dar a Deus, com
fidelidade (colocar Deus sempre no centro da própria vida, do próprio
coração).
A Eucaristia é ainda sinal de unidade, isto é, é penhor e exigência de
unidade ao mesmo tempo. Recebe-se a unidade e a comunhão com Cristo
Cabeça, como dizíamos antes, mas isso é também uma exigência de viver
a comunhão com todos os membros do Corpo de Cristo.
Finalmente, a Eucaristia é vínculo de caridade. Recebe-se a caridade e
cria-se um forte vínculo de amor ao se receber a Eucaristia. Quando isso é
verdade, a vida do fiel está cheia da vitalidade de Deus, de Seu próprio
amor, de Sua graça, e os demais elementos humanos passam todos ao
segundo plano, pois o amor, a caridade, é a raiz da qual não podem
brotar senão bons frutos:
“Ama e faze o que quiseres. Se te calas, cala-te movido pelo amor; se
falas em tom alto, fala por amor; se corriges, corrige com amor; se
perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor:
dessa raiz não pode sair senão o bem”!
Quem, portanto, quiser viver, tem de aproximar-se da fonte da vida, que
é a Eucaristia; mas, como dissemos, deve estar disposto a cumprir as três
condições estipuladas por Santo Agostinho. É só assim que a
reestruturação
levará, de fato, a uma revitalização:
Oh, sacramento de piedade! Oh, sinal de unidade! Oh, vínculo de
caridade! Quem quiser viver, tem onde viver, tem de que viver.
Aproxime-se, creia, para que faça parte deste Corpo, para que sejas
vivificado.