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Sociologia no direito

A convergência entre a legalidade, a legitimidade e a


ética

Manoel Moacir Costa Macêdo e Levon


Yeganiantz

Sumário
1. Considerações preliminares. 2. O papel
da sociologia do direito. 3. Autonomia e hete-
ronomia. 4. Dilemas entre legalidade e legiti-
midade. 5. Ética do direito, legalidade e legiti-
midade. 6. A convergência entre legalidade e
legitimidade. 7. Observações finais.

É mais fácil legalizar certas coisas do


que legitimá-las – Nicolau Chamfort
(1768-1848) (moralista francês) 1.

1. Considerações preliminares

Este trabalho foi inspirado no Código da


Ética e Disciplina da Ordem dos Advoga-
dos do Brasil que entrou em vigor em 1º de
março de 1995. O seu objetivo é justificar a
necessidade de fortalecer a ética, particular-
mente a ética profissional como instrumen-
to de convergência entre a legalidade e a le-
gitimidade. Ele pretende responder a seguin-
te questão: existe coesão entre legalidade,
legitimidade, eqüidade e ética?
Ética na advocacia não deve ser confun-
dida com ética de direito, uma vez que a éti-
Manoel Moacir Costa Macêdo é Advogado, ca na advocacia tem caráter de um código
PhD em Sociologia pela University of Sussex,
profissional ou um sentido de etiqueta a ser
Inglaterra e Assessor do Gabinete do Senador
Antero Paes de Barros. seguida pelos praticantes da profissão de
Levon Yeganiantz é PhD em Economia, Pós- advogado. A ética do direito é parte da filo-
doutorado em Economia do Meio Ambiente e sofia do direito, da sociologia do direito e
Pesquisador da Embrapa, Brasília, DF. da deontologia (DINIZ, 1998, p. 81).
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Entre as inovações mais significativas no é determinada pelos princípios da legitimi-
código em destaque, vale ressaltar as refe- dade em que mesmo para os ricos existe o
rências expressas quanto ao papel do advo- conceito noblesse oblige.
gado na defesa do Estado Democrático de Como exemplo, no caso do Brasil, RO-
Direito, da cidadania e da moralidade pú- SEN (1998, p. 17) explica que o chamado
blica (art. 2º, caput), à dedicação que deve “jeitinho” brasileiro tem a sua origem na
oferecer à conciliação entre os litigantes, à formação do Estado português, que moldou
abstenção da prática de atos contrários à éti- o sistema jurídico brasileiro. Para ele cinco
ca, à moral, à honestidade e à dignidade da características culturais foram legadas pe-
pessoa humana (ACQUAVIVA, 1995, p. 3). los portugueses: alta tolerância da corrup-
Um destacado problema de nossa civili- ção, falta de responsabilidade cívica, pro-
zação é o desenvolvimento desigual entre funda desigualdade sócio-econômica, sen-
os diferentes ramos do conhecimento. Como timentalismo e disposição de chegar a um
uma conseqüência, o direito progrediu e acordo. O “jeitinho” está profundamente
avançou muito mais do que a filosofia mo- arraigado a todas essas heranças.
ral. Para cada estudioso da ética, existem
centenas de advogados militantes que pra- 2. O papel da sociologia do direito
ticam os princípios da legalidade. Esse de-
sequilíbrio entre os estudiosos da ética e os A sociologia do direito trata o direito
operadores do direito cria uma assimetria como uma realidade objetiva vivida social-
de informações entre legalidade e legitimi- mente, e que tem como objeto o fenômeno
dade e coloca a legalidade como um meca- jurídico identificado como um fato social.
nismo de controle e de domínio da legitimi- Isso quer dizer que o direito legitima-se, no
dade. Essa assimetria aparece com maior seu exercício e nos seus efeitos, como um
nitidez no contexto do ordenamento jurídi- fenômeno social (LÉVY-BRUHL, 1997) e
co positivado. A legitimidade está mais re- desse modo torna-se um terreno privilegia-
lacionada com a ética, a cultura e a realida- do de observação sociológica.
de social. O fundamental no desafio da sociologia
Embora o desafio da humanidade seja do direito segundo FARIA (1988, p. 7) está
criar uma sociedade em que as normas éti- na seguinte questão:
cas tenham a força de lei, essas mesmas nor- “ ... até que ponto será oportuno esti-
mas são desprezadas com mais intensida- mular os estudiosos de direito a dei-
de do que as leis no contexto normativo e xarem sua zona de certeza tradicio-
dogmático do direito positivo. Nesse senti- nal, representada pelas análises ex-
do, o interesse tradicionalmente estabeleci- clusivamente dogmáticas [legalida-
do no campo do direito positivo está sendo de], para integrarem-se em aborda-
substituído ou complementado por discipli- gens sociologicamente mais abran-
nas baseadas na deontologia como a ética gentes da realidade em que atuam?”.
empresarial, jurídica, ambiental e bioética e Os conflitos entre legalidade e legitimi-
principalmente na sociologia do direito. dade, uma vez bem compreendidos, estimu-
Predomina também uma assimetria em lam a renovação de leis, orientam as pes-
termos da eqüidade entre os ricos e pobres, quisas jurídicas, servem como lubrificantes
uma vez que a legalidade envolve o proces- da política econômica e social e facilitam a
so judicial, com os custos financeiros da implementação de novas tecnologias, como
prestação jurisdicional, o que resulta em informática, biotecnologia, engenharia so-
multas e sanções que atingem com maior cial e a democratização da sociedade. Nes-
intensidade os pobres2. Essa assimetria de- se contexto, a sociologia do direito tem de
saparece quando a prestação jurisdicional ser interpretada além do direito escrito, mas

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na forma do direito pensado, como a ade- damentais e determinam a divisão de
quação das normas à realidade atual (legi- vantagens, provenientes da coopera-
timidade). ção social” (RAWLS, 1997, p. 7).
Como exemplo, tem-se as funções pre- No Brasil, o Estado moderno desenvol-
ventivas do direito com respeito ao apareci- vimentista tornou-se submisso ao patrimo-
mento de crimes virtuais, da exploração in- nialismo e ao clientelismo, gerando em con-
devida da biotecnologia e engenharia gené- seqüência o patrimonialismo corporativo,
tica, das novas relações de trabalho, regula- sempre acompanhado pelo clientelismo e
mentações do comércio, direitos de proprie- pelo cartorialismo. Segundo CAMARGO
dade intelectual, as implicações dos acor- (1999, p. 5), aqui “as leis não pegam, ou de-
dos internacionais, a exemplo dos relacio- vem pegar à fórceps, como a que obriga os
nados com os direitos humanos, com a ex- cartórios a oferecer certidões de graça a re-
ploração de menores e com os problemas de cém-nascidos”. Para SORJ (2000, p. 15), isso
gênero, que podem ser tratados de forma significa o patrimonialismo jurídico, ou seja,
proativa pelo sistema jurídico. “é a capacidade de manipular o sistema
Nesses casos, a ética pode servir como policial, fiscal e judiciário, utilizando me-
um filtro entre a legalidade e a legitimidade. canismos ilegais para assegurar a impuni-
Segundo VASQUEZ (1984, p. 57), as dade face à lei”.
“ ... normas morais que se integraram Isso implica afirmar que, em vez de con-
nos hábitos e costumes chegam a ter viver com princípios éticos e morais, é mais
tal força que sobrevivem até mesmo conveniente conviver com o mundo das leis,
quando, depois de surgir uma nova o que na visão de CAMARGO (1999, p. 5)
estrutura social, domina outra moral: significa “... disfarçar a verdadeira dimen-
a mais adequada às novas condições são do engodo”. Nesta perspectiva, CA-
e necessidades”. MARGO (1999, p. 7) afirma que,
A moral como a legitimidade possui um “ ... a única solução para tudo isto é
caráter social, isso quer dizer que as pesso- desregulamentar a nação sob a tutela
as se submetem a princípios, normas e valo- de um amplo e sufocante aparato le-
res socialmente estabelecidos. Em outros ter- gal que nos persegue desde a Colô-
mos, a moral como a legitimidade regulam nia. Só regulamentar o estritamente
atos e relações que acarretam conseqüências necessário para o bem público. Com
para outros e exigem necessariamente a san- ou sem Constituição, o cartorialismo
ção dos demais no sentido de cumprir a fun- dos colonizadores portugueses ainda
ção social de induzir os indivíduos a acei- manda em todos nós, com a teia do
tarem livre e conscientemente determinados clientelismo”.
princípios, valores ou interesses. O que se observa é que a sociologia no
O que se observa neste final de século Terceiro Mundo (inclusive a sociologia do
em face da globalização é a verdadeira des- direito) muitas vezes foi direcionada para a
truição do aparelho estatal e sua gradual chamada sociologia radical que explora a
perda ou a substituição de legitimidade pela natureza da desigualdade e admite a possi-
legalidade, prejudicando dessa forma tanto bilidade de abolir a desigualdade e descre-
os critérios éticos quanto a justiça no con- ver os instrumentos necessários para imple-
ceito de John Rawls, para quem mentar uma ordem social mais igualitária.
“ ... o objeto primário da justiça é a A busca da eqüidade é somente uma parte
estrutura básica da sociedade, ou do impulso radical e constitui a investiga-
mais exatamente, a maneira pela qual ção da capacidade da sociedade, da manei-
as instituições sociais mais importan- ra como está atualmente organizada, em
tes distribuem direitos e deveres fun- proporcionar eqüidade.

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3. Autonomia e heteronomia BETIOLI (2000, p. 64), isso “implica a con-
vicção de que se deve respeitá-la porque é
Autonomia origina-se do grego autós = válida em si mesma... as normas morais se
eu e nomos = lei; isso quer dizer a capacidade cumprem através da convicção íntima dos
humana de agir de acordo com a sua pró- indivíduos... ”. Na terminologia do direito
pria vontade por meio de escolhas que es- penal, manifesta-se igualmente a repulsa da
tão ao seu alcance, diante de objetivos por força pela força, diante do perigo apresen-
ela estabelecidos. Com o passar do tempo, a tado pela injusta agressão, atual e iminente,
autonomia se afasta da lei e da legalidade e quando outro meio não se apresenta para
aproxima-se da legitimidade e do compor- evitar o perigo ou a ofensa que dela possa
tamento ético, enquanto a legalidade se resultar. Legal entende-se, a rigor, o que se
aproxima da heteronomia, que quer dizer a faz em conformidade à lei segundo preceito
obediência sem crítica às regras de conduta ou regra instituída em lei. Também se enten-
sugeridas por uma autoridade exterior. de por legal tudo o que se possa fazer ou tudo
Para BETIOLI (2000, p. 57, 64), o direito é o que é autorizado pela jurisprudência.
“heterônomo”e a moral, “autônoma”. Isso
significa dizer que “as normas jurídicas são 4. Dilemas entre legalidade e
impostas, valem objetivamente, independen- legitimidade
temente da opinião do querer dos seus des-
tinatários ... obriga os indivíduos indepen- Legal, pois, em ampla acepção é tudo o
dente de suas vontades”. que não contravém a princípio de Direito,
Autonomia significa a capacidade de seja instituído pela lei, pelo costume ou pela
decidir por si mesmo nas questões que di- jurisprudência. Por vezes, legalidade quer
zem respeito a si próprio, como indivíduo. exprimir as próprias ou principalmente as
Do ponto de vista da ética, significa o modo formalidades legais.
de agir segundo os princípios morais consi- O legítimo na ciência política refere-se
derados como guias básicos para a convi- ao poder que está de acordo com o consenso
vência em sociedade. Nesse sentido, a legi- popular. Na lógica jurídica, legitimidade
timidade tem significado mais ético e cono- quer dizer coerência lógica, o que está de
tação moral particularmente fora do contex- acordo com princípios lógicos ou racio-
to do direito, como definida no Vocabulário nais. É a racionalidade jurídica (DINIZ,
jurídico De Plácido e SILVA (1999, p. 480): 1998, p. 81).
“Nas ciências políticas, a legitimi- Na teoria geral do direito, a legitimidade
dade do ato ou do agente refere-se à técnica refere-se à qualidade da norma ile-
necessária qualidade para tornar vá- gal que, apesar de não ter requisito formal
lida a sua atuação em face dos demais de vigência, é aceita pela comunidade, ten-
cidadãos. Na Constituição Federal de do plena eficácia social por atender os inte-
1988, o artigo 70 atribui ao Tribunal resses da comunidade (DINIZ, 1998, p. 81).
de Contas o poder de perquirir a le- Na linguagem comum, o termo legitimi-
gitimidade das despesas públicas, isto dade possui dois significados, um genérico
é perquirir se o ato atende aos requisi- e outro específico. No seu significado gené-
tos de satisfação do interesse público”. rico, legitimidade tem, aproximadamente, o
Nessa perspectiva, a “legítima defesa”, sentido de justiça ou de racionalidade (fala-
no plano da autonomia, não é do indivíduo, se na legitimidade de uma decisão, de uma
mas da sociedade em sentido amplo, com atitude, entre outros). Entretanto é no senti-
repulsa levada a efeito pela pessoa; nesse do da linguagem política que aparece o sig-
caso, refere-se ao ataque injusto à socieda- nificado específico. Nesse contexto, o Esta-
de, a seu corpo ou seus bens. De acordo com do é o ente a que mais se refere o conceito de

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legitimidade (BOBBIO et al., 1992, p. 675). que “tudo bem” e as melhorias devem acon-
No Dicionário enciclopédico de teoria e de tecer lentamente e de forma incremental. Ao
sociologia do direito, André - Jean ARNAUD contrário da oposição, que pressupõe “tudo
(1999, p. 456), o seu organizador, define le- mau” e deseja introduzir mudanças subs-
galismo como a “disposição que consiste em tantivas e aceleradas. Assim, o dilema ético
tratar os problemas jurídicos, ou outros, pode ser contextualizado entre a legalidade
aplicando literalmente e em detalhe os mé- exercida pela situação e a legitimidade dese-
todos e os critérios definidos pela lei, à ex- jada pela oposição.
clusão de toda consideração de ordem mais Essa legitimidade normalmente é justifi-
geral”. O mesmo dicionário define legitimi- cada pela problemática da eqüidade apoia-
dade como “qualidade de conformidade ao da na ética, que constitui o conceito de justi-
critério normativo que fixa os parâmetros ça de John RAWLS (1997, p. 11), ou seja, a
de valorização do objeto que ele regula e em “... justiça se define pela atuação de seus
relação ao qual prediz-se, ou não, a legiti- princípios nas atribuições de direitos e de-
midade” (p. 460). veres e na definição da divisão apropriada
Por fim, é necessário separar o fenôme- de vantagens sociais”.
no da legitimação e considerar como legíti- A inveja, o individualismo e o egoísmo
mo, justo, digno de um julgamento positivo podem ser considerados conceitos relacio-
todo poder que tenha conseguido, por qual- nados à manutenção da legalidade, enquan-
quer meio que seja, obter o consentimento e to a cooperação, a solidariedade, o altruís-
a legitimidade. mo e a filantropia estão associados com as-
O principal dilema ético relacionado com pirações de legitimidade. A norma corres-
a dialética ou com a dicotomia da legalida- ponde a uma regra ou critério de juízo, ela
de e legitimidade aparece com o conceito de regula e assim faz parte da legitimação.
legalidade resumido como: “a cada qual A lei é uma regra dotada de força que
segundo o que a lei lhe atribui” indicando garante a sua coercibilidade. A transgres-
as regras estabelecidas, enquanto a legiti- são de uma lei pode causar punição na for-
midade pode ser interpretada de duas for- ma de multas, exclusões e até na detenção e
mas: primeiro “a cada um segundo a sua reclusão dos seus infratores. As normas for-
necessidade” e segundo a “cada um segun- mam códigos de conduta que regulam o
do os seus méritos”. comportamento ético. As leis formam códi-
A legitimidade envolve responsabilidade gos objetivos que penalizam os seus trans-
recíproca, enquanto a legalidade envolve dí- gressores. A “Justiça Rawliana” (RAWLS,
vidas contratualizadas entre as partes com 1997) tenta evitar as “divergências” e con-
possíveis coerções. O direito positivo (lega- duzir às “convergências” entre leis e nor-
lidade) jamais pode conflitar com a justiça mas; e em nível mais avançado entre legali-
formal; o mesmo não se aplica para a legiti- dade e legitimidade.
midade que tem conotação subjetiva (nor- O conflito ético entre legalidade e legiti-
mativa). midade pode ser analisado a partir do con-
ceito de “jeitinho brasileiro”. Nesse caso,
5. Ética do direito, legalidade e tem-se a aplicação particular da lei, objeti-
legitimidade vando atender os interesses particulares de
pessoas e organizações com capacidade de
A cultura brasileira pode ser caracteri- encontrar brechas no sistema jurídico. Par-
zada pelo dilema ético entre “tudo bem” e te-se sempre do pressuposto de que é possí-
“tudo mau”. Assim, normalmente no contex- vel burlar a lei e fazer exceções. Na maioria
to político-partidário, a situação e os seus das vezes, o “jeitinho brasileiro”, além de
aliados partem do pressuposto otimista de estar no campo da legalidade, é também legí-

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timo, dentro do contexto da cultura e das peração” (LUCAS, 1985, p. 58). Essa é a es-
tradições históricas da sociedade brasileira sência dos dilemas éticos nas sociedades
(ROSEN, 1998). que elaboram normas, códigos e leis morais
A ética moderna tem sido considerada para regular e solucionar tais dilemas.
uma ética legal. Um extenso debate no cam- Kant distingue a moralidade da legali-
po teórico tem envolvido os filósofos anti- dade. Para ele, legalidade é a conformação
gos como Kant e os modernos como MacIn- exterior e objetiva de uma conduta a uma
tyre. Os comunitaristas modernos como dada lei moral; a moralidade é a conforma-
John Rawls argumentam que o único modo ção interior e subjetiva, ou seja, traduz um
de compreender o comportamento huma- cumprimento da lei por convicção pessoal e
no é referir os indivíduos ao seu contexto por reconhecimento interior do valor objeti-
social, cultural e histórico. vo da lei (BIROU, 1982, p. 227).
A moral republicana era uma moral do Legalidade significa qualidade do que
dever, do esforço, do mérito, para que cada se conforma à lei. Considera-se legal tudo o
criança pudesse se elevar ao nível das nor- que não vá contra uma lei estabelecida, tudo
mas comuns, à humanidade, superior aos o que não constitua uma infração à legisla-
indivíduos considerados isoladamente. Ela ção. A noção de legalidade refere-se ao di-
está sendo atacada por uma ética da auten- reito positivo.
ticidade segundo a qual cada indivíduo é No contexto neoliberal, a liberdade in-
para si mesmo sua própria norma. Do direi- clui o descompromisso em relação aos de-
to à diferença, à diferença dos direitos é só mais membros da sociedade. Isso quer di-
um passo (CHANGEUX, 1999, p. 31). zer a aceitação das atitudes egoístas, a li-
Em outras palavras, isso quer dizer que berdade de concentrar-se nos interesses in-
existe um ethos que é anterior ao indivíduo e dividuais, inclusive a acumulação ilimita-
que determina suas escolhas. Nesses ter- da de riqueza pessoal na esfera da legalida-
mos, a ética do direito é reduzida à justifica- de. Mas o que vem a ser responsabilidade
ção de regras e esquece-se das condições da social, o “economicamente correto”, o “lu-
boa vida, ou ainda separam-se os proble- cro com ética”? Decisões empresariais in-
mas de justificação da moralidade dos pro- formadas pelo balanço dos interesses dos
blemas da ética aplicada, da bioética, e da stakeholders e consubstanciadas no chama-
ética ecológica. do “balanço social” das empresas. Na fren-
Na sociedade tradicional, havia uma te interna das empresas, equacionam-se os
“moral de grupo” que controlava as rela- investimentos dos proprietários (detentores
ções intragrupais, as quais se baseavam no do capital) e as necessidades dos gestores e
companheirismo e até mesmo na solidarie- dos trabalhadores. Na frente externa, são
dade. Havia ainda outra moral referente aos levadas em consideração as expectativas
estranhos baseada no “afã pelo lucro”, a dos clientes, fornecedores, prestadores de
qual não considerava os dilemas éticos. serviços, fontes de financiamentos (bancos,
Assim, na base dos problemas éticos está a credores), comunidade local, concorren-
crença de que não é possível uma convivên- tes, sindicato de trabalhadores, autorida-
cia social sem o mínimo de solidariedade des governamentais, associações volun-
com os outros. tárias e demais entidades da sociedade
Nessa perspectiva, a sobrevivência de civil (SROUR, 2000, p. 195).
um indivíduo depende da sobrevivência do A preocupação mundial com as questões
grupo ao qual ele pertence, uma vez que os morais nos anos 60 movimentou três seto-
impulsos egoístas são freqüentemente mais res essenciais: a ética dos negócios, a éti-
fortes do que os altruístas. “Ação comunitá- ca ambiental e a bioética (GARRAFA,
ria é fundamentalmente uma forma de coo- 1999, p. 13). Segundo JONAS, citado por

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GARRAFA (1999, p. 14), “nos dias atuais, prejudicaria o desenvolvimento científico e
freqüentemente sentimos que o progresso tecnológico (YEGANIANTZ, 1998).
intelectual (científico e tecnológico) avança Os princípios éticos estão entre os prin-
mais rapidamente que o progresso moral cipais instrumentos que definem as relações
(ético)”. O mesmo autor, estudando os pro- econômicas, sociais e políticas nos sistemas
blemas e contradições existentes, afirma que de trocas, nas relações internacionais, nas
a humanidade encontra-se obrigada a ad- relações de trabalho e nos conteúdos cultu-
mitir que a racionalidade ética não cami- rais e interpessoais. Problemas de política
nha com a mesma velocidade do progresso agrícola como as questões de eqüidade en-
científico e tecnológico (1999, p. 15). tre o setor rural e o urbano, de reforma agrá-
Nessa perspectiva, a propriedade inte- ria, de abastecimento e segurança alimen-
lectual apresenta-se como causadora de tar, de crédito subsidiado e dos juros e taxa-
muitos dilemas éticos. Existe de um lado um ções podem ser considerados como dilemas
dilema entre a criação e difusão de novas éticos e morais. Espera-se que as organiza-
tecnologias com impactos sociais relevan- ções responsáveis pela política agrícola e
tes e do outro os interesses particulares ambiental possam superar a fase limitada
do inventor e dos incentivos à sua pró- da acumulação linear dos lucros, para in-
pria criatividade. gressar numa etapa em que a ética estabele-
Para MERTON (1968), no contexto de ça os princípios da responsabilidade social,
uma visão funcionalista, os cientistas no como uma estratégia da gestão empresarial
processo de geração do conhecimento cien- e do sucesso competitivo dos negócios.
tífico seguem os princípios identificados Adam SMITH, em 1776, reconheceu que
como: universalismo, comunismo, desinte- “não se pode organizar e viver num grupo
resse e ceticismo organizado. Entre eles, des- social, onde há uma divisão de trabalho e
taca-se o comunismo na ciência, identifica- os indivíduos necessitam de ajuda de ou-
do como o senso de propriedade comum do tros, baseado somente no egoísmo, na defe-
conhecimento científico. Os cientistas ofe- sa do interesse próprio”. Em outras pala-
recem as suas descobertas para a sociedade vras, freqüentemente a sobrevivência de um
buscando o retorno em forma de reconheci- indivíduo depende em parte da sobrevivên-
mento pela comunidade científica. Convém cia do grupo em que ele deve colaborar com
destacar o ceticismo organizado, o qual in- os outros.
dica a independência dos cientistas em re- É importante salientar a preocupação do
lação à política, à religião e aos dogmas eco- grande pensador da sociologia jurídica da
nômicos. atualidade, Professor Boaventura de Souza
Outra dimensão desse dilema ético é que SANTOS (2000, p. 72), que, em seu livro
as patentes incentivam, além do próprio in- “Para um novo senso comum: a ciência, o
ventor, os proprietários dos meios de pro- direito e a política na transição paradigmá-
dução a investir no desenvolvimento de tica”, em seu primeiro volume “A crítica da
novas tecnologias, assim como pressionam razão indolente: contra o desperdício da
os governos para atender os seus interesses experiência”, expressa que “o declínio da
no contexto da geração tecnológica. Dile- hegemonia da legalidade é concomitante do
mas éticos também surgem do fato de que as declínio da hegemonia da casualidade”. O
patentes resultam em publicações de pro- mesmo Professor SANTOS (2000, p. 379)
gressos científicos, as quais colocam à dis- declara que “[...] a nossa sensibilidade ética
posição da comunidade científica conheci- limitada não é uma prova da hipocrisia
mentos e processos inventivos que sem a humana; é sobretudo, um produto do conhe-
possibilidade de patenteamentos seriam cimento limitado que temos da situação
guardados como segredos comerciais, o que humana”.

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6. A convergência entre tos sociais, culturais e políticos pode ser en-
legalidade e legitimidade tendida por meio da interdisciplinaridade:
“uma atitude mental [...] fruto de uma
A aproximação e a convergência entre formação contínua, de flexibilização
legalidade e legitimidade está sendo silen- das estruturas e cada dia mais será a
ciosamente desenvolvida no Brasil. O reco- condição de uma verdadeira investi-
nhecimento constitucional de que as obri- gação científica ... [própria para] for-
gações com a saúde, educação e segurança mular e executar ações para transfor-
são de responsabilidade do Estado e um di- mar uma realidade como a nossa ...
reito do cidadão é um caso exemplar; assim são processos interdisciplinares e
como o crime identificado como roubo fa- multiprofissionais que têm verdadei-
mélico, que justifica o roubo em função das ro impacto na modificação das deteri-
necessidades básicas de sobrevivência. Ou oradas condições de vida da popula-
ainda, o princípio de proteção dos desiguais, ção” (SANTOS, 1998, p. 56).
que implica proteger “desigualmente as de- Em outras palavras, quando o social que
sigualdades” favorecendo os mais fracos, envolve a legitimidade for considerado no
tem os seus impactos nas decisões judiciais. mesmo nível que o econômico que envolve a
Por exemplo, o Superior Tribunal de Justiça legalidade, essas aproximações resultarão
(ACORDA Brasil, 2000) decidiu que o “imó- em relações simbióticas entre legitimidade
vel em construção destinado a residência e legalidade e eliminação das contradições
da família não pode ser penhorado”. entre eles.
Similar julgamento foi efetuado em deci-
são unânime pela Primeira Turma do Supe- 7. Observações finais
rior Tribunal de Justiça (ACORDA Brasil,
2000) que sentenciou que o “fornecimento O importante neste trabalho foi identifi-
de água não pode ser interrompido por car os meios de convergência entre legali-
inadimplência”. Na mesma direção, a Se- dade e legitimidade e buscar a factibilidade
gunda Seção do Superior Tribunal de Justi- e desejabilidade dessa união. O problema é
ça (ACORDA Brasil, 2000) entendeu por que o conceito de legitimidade no direito
unanimidade que “o Juízo da Infância e da ainda acompanha a legalidade, embora nas
Juventude... deve ser o responsável pelos ciências sociais, a exemplo da sociologia e
processos movidos contra as escolas parti- da ciência política, o conceito de legitimida-
culares que recusarem a emitir os documen- de assuma uma conotação independente e
tos necessários à transferência de alunos às vezes contrária ao sentido dialético em
com as mensalidades atrasadas”. relação à legalidade.
Esses julgamentos demonstram como os A base da legitimidade está na ficção ju-
conflitos entre legalidade e legitimidade são rídica da ideologia democrática segundo a
decididos a favor da legitimidade, ou seja, qual o povo é o somatório abstrato de indi-
em função da ética e da eqüidade e contrários víduos, cada qual participando diretamen-
à legalidade. Isso demonstra que tais deci- te com igual fatia de poder no controle do
sões estão contrárias às tendências do pas- Governo e no processo de elaboração das de-
sado de aplicar e favorecer a legalidade cisões políticas (BOBBIO et al., 1992, p. 678).
embora ilegítima e amoral. Isso de certa for- A crescente preocupação com a ética e a
ma rejeita a impunidade preponderante nos moral promove a convergência da legalida-
segmentos sociais dominantes e abastados de com a legitimidade. Ao mesmo tempo, a
em relação aos fracos e desfavorecidos. dominação e a preponderância da teoria
A convergência entre legalidade (direito econômica consubstancia com maior rele-
positivo) e legitimidade que envolve aspec- vância a legalidade por meio da racionali-

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dade econômica e da subordinação “do so- pre ser complementares entre si e toda a lega-
cial” ao econômico. Assim, para unir os dois lidade deve ser parte da legitimidade.
preceitos, é necessário que a economia seja
ligada à ética e o chamado social seja valo-
rizado tanto quanto o econômico.
Notas
As possibilidades técnico-científicas pro-
duzem no mundo atual determinadas ações 1
Citado por Lucboyer ROMAIN (1993, p. 149).
2
e omissões humanas, a ponto de não ser mais SANTOS (1988) em pesquisa realizada em fa-
vela do Rio de Janeiro, mostra que os pobres procu-
possível contentar-se com normas morais
ram com menor intensidade a estrutura operacional
que regulamentem a convivência humana dos sistemas jurídicos estatais contemporâneos.
em pequenos grupos e confiem as relações
entre os grupos à luta pela sobrevivência.
Para APEL (1994),
“...a pressuposição da validade de nor- Bibliografia
mas morais é condição paradigmática
de possibilidade do jogo de linguagem ACORDA Brasil. Coordenação de Farouk Nagib
Husseini e Maria Marta Guerra Husseini. Disponí-
pertencente à justificação de normas e vel em: <http://www.acordabrasil.com.br>. Aces-
de que a objetividade da ciência não- so em: 3 nov. 2000.
valorativa ainda pressupõe a validez
ACQUAVIVA, M. C. Novo código de ética e disciplina
intersubjetiva de normas morais ... a do advogado. São Paulo: Jurídica Brasileira, 1995.
lógica e com ela todas as ciências e tec- 123 p.
nologias pressupõe uma ética como
ARNAUD, A. Dicionário enciclopédico teoria e sociolo-
sua condição de possibilidade”. gia do direito. Tradução de Vicente Paulo Barretto.
No cerne de todo agir ético está o reco- Rio de Janeiro: Renovar, 1999. 954 p.
nhecimento e a fixação de limites. A ética
APEL, K. Estudos de moral moderna. Petrópolis: Vo-
circunscreve e delimita o exercício de pode- zes, 1994.
res. A perspectiva ética é, assim, eminente-
BETIOLI, A. B. Introdução ao direito: lições de pro-
mente relacional e vincula-se às noções de
pedêutica jurídica. São Paulo: Letras & Letras, 2000.
alteridade e de vulnerabilidade, ou seja, a 509 p.
ética nasce nas relações entre o mesmo e o
BIROU, A. Dicionário das ciências sociais. Lisboa:
diverso e reconhece que essas relações po-
Publicações Dom Quixote, 1982. 454 p.
dem ser ameaçadas de destruição.
Finalmente, o principal desafio no orde- BOBBIO, N.; MATTEUCCI, N.; PASQUINO, G.
Dicionário de política. Brasília: Universidade de Bra-
namento jurídico brasileiro é criar a solida- sília, 1992. v. 2, 1318 p.
riedade entre legalidade e legitimidade. Sob
esse enfoque, a solidariedade é um termo de CAMARGO, A. O culto do clientelismo. Rumos, ano
1, n. 3, mai./jun. 1999.
origem jurídica que indica a conexão recí-
proca ou a interdependência. A assistência CAMARGO, J. M. Reforma da legislação trabalhis-
recíproca entre os membros do mesmo gru- ta. Inteligência, ano II, n. 9, mai./jun. 2000. (Edição
especial).
po também é chamada solidariedade. As-
sim, fala-se de solidarismo para indicar a CHNAGEUX, J. Uma ética para quantos? Bauru:
EDUSC, 1999. 159 p.
doutrina moral e jurídica que adota como a
sua idéia fundamental a solidariedade. DINIZ, M. H. Dicionário jurídico. São Paulo: Sarai-
A solidariedade não pode ser fortalecida va, 1998. v. 3.
quando existe divergência entre legitimida- FARIA, J. E. (Org.). A crise do direito numa sociedade
de e legalidade. Em outros termos, isso signi- em mudança. Brasília: UnB, 1988. 121 p.
fica que legitimidade e legalidade não podem GARRAFA, V. Reflexões bioéticas sobre ciência,
ser independentes, ao contrário, devem sem- saúde e cidadania. Bioética, v. 7, n. 1, 1999.

Brasília a. 40 n. 158 abr./jun. 2003 307


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308 Revista de Informação Legislativa

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