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biografia

Santos-Dumont

O primeiro aviador
Em 1906, o inventor mineiro realizou uma proeza
inédita: voar em uma aeronave motorizada
Cronologia
mais pesada que o ar, sem auxílio externo para
1873
a decolagem. Apesar das polêmicas, o feito lhe Alberto Santos-Dumont nasce
garante o título de criador do avião em Minas Gerais

1879
por Rodrigo Moura Visoni Muda-se com a família para a região
de Ribeirão Preto, São Paulo

1892
Fascinado
pelos livros de
Júlio Verne, ele
N o dia 23 de outubro de 1906, espectadores lotavam o campo de Ba-
gatelle, em Paris. Toda a atenção estava voltada para um imponente
aeroplano branco, com asas feitas de pipas-caixas e um crepitante motor
Após a morte do pai, herda imensa
fortuna

se mudou para 1897


a França aos 24 de 50 cavalos-vapor. De pé, em um cesto entre as asas, estava um homem Muda-se para a França
anos, decidido elegantemente vestido, já largamente conhecido de todos por suas pro-
a virar piloto 1901
profissional digiosas façanhas aéreas em balões e dirigíveis. Alberto Santos-Dumont É aclamado inventor do dirigível
(1873-1932) tentava se tornar o primeiro homem do mundo a voar em avião. ao contornar a Torre Eiffel em um
Nos últimos dez anos, diversos inventores haviam tentado voos em apa- balão motorizado
relhos motorizados mais pesados que o ar: Clément Ader, em 1897; Augustus 1903
Moore Herring, em 1898; Gustave Albin Whitehead, em 1901; os irmãos Or- Irmãos Wright fazem o primeiro voo
ville e Wilbur Wright, em 1903, dentre outros. Esses ensaios haviam se dado com uma máquina a motor mais
pesada que o ar, mas com o auxílio
com frequência em regiões isoladas, sem a presença da imprensa ou de um de ventos fortes
grande número de espectadores. Para corroborar suas alegações, os experi-
mentadores costumavam apresentar algumas testemunhas e documentos. 1906
Santos-Dumont realiza o primei-
Na França, porém, desde 1904, exigia-se que, para um voo ser reconhe- ro voo com uma aeronave mais
cido e homologado, este deveria ocorrer na presença de um comitê oficial pesada que o ar, sem auxílio para
a decolagem
(membros de um aeroclube ou de uma sociedade aeronáutica) e ser de,
no mínimo, 25 metros, de modo a não ser confundido com um salto. Era 1910
esse o desafio que Santos-Dumont tentava vencer naquele dia. O inventor mineiro anuncia que
vai parar de voar
Nascido em Minas Gerais, em 20 de julho de 1873, ele se apaixonou
pela aeronáutica ao ler, quando menino, as obras do escritor francês Júlio 1914
Verne, como Cinco semanas em um balão e Robur, o conquistador. Aos 24 Início da Primeira Guerra Mundial.
Desgostoso com o uso militar do
anos, já independente e herdeiro de imensa fortuna, ele partiu para a avião, Santos-Dumont passa a viver
França a fim de se tornar piloto profissional. Em Paris, contratou dois ex- entre o Brasil e a Europa
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perientes balonistas franceses que lhe ensinaram a técnica da pilotagem


reprodução

1932
de balões, Alexis Machuron e Henri Lachambre. Desde então, revelou- Suicida-se na cidade do Guarujá,
se um aeronauta irrefreável, ingressando em competições, quebrando em São Paulo

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O voo pioneiro: recordes e projetando as Desde esse voo histórico, a assim, formas alternativas para
no dia 23 de próprias aeronaves. aerostação progrediu mui- lançar seus aparelhos no ar.
outubro de 1906
uma plateia Em 1898, Santos- to. Georges Juchmès, na No século XIX, inventores já
entusiasmada Dumont surpreendeu França, em 1903, e Ferdi- haviam tentado se jogar de certa al-
viu o Oiseau de o meio aeronáutico ao nand Adolf Heinrich Au- tura agarrados a planadores, descer
Proie II decolar
de primeira e voar no menor dos ba- gust Graf von Zeppelin, na declives a bordo de aeronaves mo-
percorrer 60 lões tripuláveis já cons- Alemanha, em 1904, deram torizadas para ganhar velocidade e
metros pelo céu
truídos, o Brazil, de apenas novas e impressionantes decolar, ou aproveitar ventos fortes
de Paris (acima).
Ao lado, o balão 118 m3, inflado a gás hidrogê- demonstrações de dirigibi- para aumentar a sustentação das
Brazil, que o nio. Em 1899, com outro balão, o lidade aérea em gigantescos máquinas. Mas ninguém fora capaz
brasileiro pilotou
em 1898
Amérique, de 1.700 m3, ele participou balões motorizados. Mas, até de fazer um avião sair do chão sem
de um torneio de distância contra 1906, ninguém havia feito um a ajuda de ventos, rampas, catapul-
cinco concorrentes, ficando em ter- voo público em avião. tas ou outros engenhos.

No século XIX, algumas máquinas motorizadas O 14-bis Meses antes, no mesmo


campo de Bagatelle onde agora
já haviam planado, mas nenhuma fora se apresentava, o próprio Santos-
Dumont havia se valido de recurso
capaz de decolar sem ajuda externa semelhante: experimentara uma
máquina mista, o 14-bis, um avião
ceiro lugar, após um voo de 22 horas A decolagem era o maior obs- unido a um balão de hidrogênio.
e 325 km. E em 1901, aos 28 anos, táculo: sabia-se que, para manter O balão facilitava a decolagem,
foi aclamado o inventor do dirigível em voo uma máquina mais pesada empinando a parte dianteira do
ao contornar a Torre Eiffel em um que o ar, bastava a sustentação aeroplano e reduzindo seu peso
balão motorizado – o dirigível No 6 – ser igual ao peso, mas para de- efetivo. Com esse híbrido, o inventor
e ganhar o Prêmio Deutsch, de 100 colar era preciso gerar uma força pretendia disputar dois prêmios: o
mil francos (US$ 20 mil), destinado ascensional maior que o peso, o Archdeacon, para quem voasse 25
ao aeronauta que cumprisse, em que requeria certa potência. O metros, e o do Aeroclube da França
qualquer tipo de aparelho aéreo, um desenvolvimento de motores le- (100 metros). Ambos deixavam em
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trajeto preestabelecido de 11 km em ves, contudo, ainda estava sendo aberto a questão da decolagem e
meia hora. O No 6 foi considerado a equacionado pela indústria. Os permitiam alto grau de desnivela-
primeira máquina voadora eficiente. partidários da aviação buscavam, mento do solo. Aeroplanos sem mo-

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motor mais potente. A aeronave Também retirou a roda traseira, que
recebeu da imprensa o nome de percebeu atrapalhar a decolagem. Foi
Oiseau de Proie (Ave de Rapina). com essa nova versão do avião, o Oise-
Mas agora outro forte candidato au de Proie II, que ele voltou a Bagatelle.
estava na disputa: o romeno Traian
Vuia (1872-1950). Espanto e euforia Durante a

Museu Aeroespacial (foto principal) / Reprodução (balão)


Em agosto de 1906, com um manhã daquele dia 23 de outubro,
monoplano dotado de um motor Santos-Dumont limitou-se a rodar
de 20 cv, ele havia conseguido subir com o aeroplano pela relva. Num
a 2,5 metros de altura e avançado dos ensaios, o eixo da hélice se
no ar por 24 metros. Houvesse Vuia quebrou e só à tarde foi consertado,
percorrido apenas mais 1 metro, o quando o experimentador subiu no
salto teria se transformado em voo. aparelho para uma tentativa oficial.
Vuia estava perigosamente pró- O motor foi ligado e aquecido.
ximo de ganhar o Prêmio Archdea- Uma multidão estava presente. Às
con, e Santos-Dumont sabia disso. 16h45min, o Oiseau de Proie II pôs-se
O brasileiro não perdeu tempo. No em marcha, ganhando velocidade
dia 13 de setembro, em Bagatelle, rapidamente. Para espanto de todos,
tor, como planadores e ornitópteros tentou o prêmio duas vezes: na após correr cerca de 100 metros,
movidos a força muscular, também primeira não decolou e na segunda o biplano decolou de primeira. O
podiam concorrer. saltou somente 8 metros. grande pássaro mecânico progrediu
Assim, uma vitória nesses prê- No mês seguinte, o inventor man- suavemente na atmosfera, subiu
mios não equivaleria, necessa- dou envernizar a seda que entelava a 3 metros de altura, percorreu 60
riamente, à invenção do avião. as asas para diminuir a porosidade metros no ar e voltou ao solo. Os
Havia ainda o prêmio Deutsch- do tecido e aumentar a sustentação. espectadores, em delírio, invadiram
Archdeacon, para quem fizesse um o terreno e ergueram nos ombros
Santos-Dumont
voo ida e volta de 1.000 metros, o aviador que nascia. Eles haviam contorna a
mas este não admitia balão para a acabado de contemplar o primeiro Torre Eiffel
sustentação. As únicas exigências voo completo da aviação. a bordo do
dirigível No 6,
comuns aos três prêmios eram que Infelizmente, os juízes, também em 1901. O feito
a máquina fosse mais pesada que o emocionados com a cena, se es- lhe rendeu o
ar e que o voo ocorresse na França, queceram de cronometrar e acom- prêmio Deutsch
diante de uma comissão julgadora. panhar o voo, e devido à falha o
Sendo um veículo ligeiramente recorde não pôde ser homologado.
mais pesado que o ar, o 14-bis es- Todas as medidas (altura, distância,
tava qualificado para ingressar nas tempo) tiveram de ser estimadas,
competições, exceto no prêmio mas a comissão, certa de que a
Deutsch-Archdeacon, por utilizar distância mínima de 25 metros fora
Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo/MP-USP

um balão. Os testes a que procedeu coberta, declarou Santos-Dumont o


ao ar livre no dia 19 de julho de ganhador do prêmio Archdeacon.
1906 foram, no entanto, criticados Embora para o prêmio não fosse
por um dos mais ilustres membros obrigatório o aparelho decolar por
do Aeroclube da França, o capitão meios próprios, o fato não passou
Ferdinand Ferber, que considerava despercebido. O jornal Figaro, de
o híbrido uma máquina impura. 24 de outubro de 1906, destacou:
“A aviação deve ser resolvida pela “Santos Dumont é, com efeito, o pri-
aviação!”, declarou. meiro que, devidamente fiscalizado,
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Santos-Dumont ouviu a crítica. conseguiu, com os únicos recursos


Retirou o balão e compensou o de seu aeroplano, deixar o solo e
aumento de peso instalando um voar”. A revista La Nature, de 3 de no-

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vembro, endossou: “Santos-Dumont empinava e parte da tração passava seus experimentos em plena luz
demonstrou de forma indiscutível a contribuir para a sustentação. Era do dia, como Santos-Dumont e
que é possível se elevar do solo pelos graças a essa força que o aparelho Farman, diante de controladores
próprios meios e se manter no ar”. deixava o solo. Devido a essa ob- oficiais, cercados por milhares de
No dia 12 de novembro, o bra- servação, no ano seguinte, vários espectadores”.
sileiro voltou a Bagatelle, para con- pilotos deslancharam seus primeiros Poucos meses depois, Wilbur
correr ao Prêmio do Aeroclube da voos: Gabriel Voisin, Louis Blériot e Wright decidiu apresentar-se na
França. Havia inserido entre as asas Henri Farman, que voou 771 metros. França. Explicava que não o fizera
do Oiseau de Proie II duas superfícies A aviação progredia, com voos antes porque estava aguardando a
octogonais conectadas por cabos mais longos, mais altos e mais concessão, pelos Estados Unidos, da
às costas do seu paletó. Com isso, velozes. Enquanto isso, os irmãos patente da sua invenção, expedida
em 1906, e também porque só re-
Aos irmãos Orville e Wilbur Wright cabe centemente havia fechado um con-
trato com um empresário francês
a invenção do motoplanador; a Santos- para a venda dos seus aparelhos. En-
quanto isso, Orville ficara nos Estados
Dumont cabe a invenção do avião Unidos para fazer demonstrações
perante o exército do seu país.
inclinando o corpo, podia regular o Wright reclamavam ter sido os A demonstração na França foi
equilíbrio da aeronave, transforma- primeiros a voar. Em 7 de novem- marcada para 8 de agosto de 1908,
da agora no Oiseau de Proie III. bro de 1907, em uma sessão do no Hipódromo de Hunaudières, em
Santos-Dumont fez seis voos Aeroclube da França motivada pelo Le Mans. Na data prevista, arma-
públicos nesse dia, os cinco pri- voo de Farman, Ernest Archdeacon ram-se sobre o solo um monotrilho
meiros cobrindo distâncias entre proferiu um discurso irônico: “Os fa- de 24 metros de comprimento e,
40 e 83 metros: às 16h45min, com mosos irmãos Wright podem, hoje, em uma das extremidades, um
o dia já terminando, partiu contra reivindicar tudo o que quiserem. Se pilão de 6 metros de altura, no
o vento. Favorecido por uma é verdade (do que eu duvido mais qual foram içados discos de bronze
ligeira inclinação, o avião alçou e mais) que eles foram os primeiros com uma massa total de cerca de
voo quase imediatamente. Para nos ares, não terão a glória desse 700 kg. Esses pesos foram ligados
evitar atingir a multidão, Santos feito perante a história. Eles tinham por um cabo a um carrinho dispos-
Dumont subiu mais, alcançando apenas de abandonar os seus mis- to sobre o trilho, em cima do qual
6 metros de altura. Com enorme térios incompreensíveis e fazer os repousava o aeroplano.
sangue-frio e habilidade, esboçou
Avião de guerra
em 1914. uma curva para a direita, cortou a
Desiludido por ignição e foi ao solo. A asa direita
ver sua criação tocou o chão antes das rodas e
transformada
em máquina de sofreu pequenas avarias, mas nin-
matar, o pai do guém, incluído o piloto, se feriu. O
14-bis entrou percurso aéreo, medido com exa-
em depressão
tidão, foi de 220 metros em 21,2
segundos. O Prêmio do Aeroclube
da França estava ganho. Esses
Biblioteca do Congresso, Washington, D.C.

foram os primeiros voos de avião


registrados por uma companhia
cinematográfica, a Pathé.
Os outros inventores que acom-
panharam as provas perceberam
história viva

que, com o acionamento do leme


profundor durante a corrida de
decolagem, o Oiseau de Proie III

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Orville Wright
faz uma
exibição
pública com
sua máquina
voadora em
1909
biblioteca do congresso, washington, d.c.

Wilbur ligou o motor. Em segui- A desilusão Nos Estados Unidos, colar (ventos contrários, catapultas
da, acionou o sistema que provoca- Orville também causava sensação: ou declives). Cabe a eles a inven-
va a queda dos discos. O carrinho em 11 de setembro de 1908 ele ção do motoplanador. Santos-
com o aeroplano foi rapidamente estabeleceu um recorde de perma- -Dumont, em 1906, foi o primeiro
puxado para a frente, conferindo à nência no ar de 1h10min24s. E, na a fazer voos sem nenhum auxílio
máquina, em poucos segundos, a França, outras notáveis exibições externo em um aparelho mais
velocidade necessária para decolar. de Wilbur se seguiram, estabele- pesado com motor. Cabe a ele a
Cerca de 100 pessoas estavam cendo recordes mundiais. Ficou invenção do avião.
presentes. Um dos espectadores evidente que os Wright eram pi- Em 1914 teve início a Primeira
era o francês François Peyrey, autor lotos experientes e que já deviam Guerra Mundial, e Santos-Dumont,
do livro Les oiseaux artificiels, de estar praticando o voo motorizado desgostoso por ver o avião transfor-
1909, no qual escreveu: “O aero- havia anos. Quando forneceram mado em hedionda arma mortífera,
plano nem sequer atingiu a extre- à imprensa fotografias dos voos se retirou definitivamente do cam-
midade do trilho e pôs-se em voo. feitos por eles em anos anteriores e po de provas. Também ficava cada
Imediatamente descreveu uma relatórios pormenorizados das suas vez mais magoado com a aceitação
meia-volta, atingindo 10 metros de experiências, suas reivindicações geral dos irmãos Orville e Wilbur
altura. O espetáculo era prodigioso foram enfim aceitas e eles, conside- Wright como os legítimos pioneiros
e charmoso. Nas tribunas, onde es- rados os inventores do avião. da aviação. Era o início de uma gra-
tavam as testemunhas da proeza, Os irmãos Wright, desde 1903 ve depressão que mudaria profun-
uma aclamação imensa ressoou, e até 1905, foram os primeiros a damente o caráter desse aviador
após 1min45s de evoluções, Wilbur fazer voos em máquinas mais pe- excepcional e o assombraria pelo
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Wright voltou ao solo com uma sadas que o ar com motor movido resto de sua existência.
destreza inconcebível. Todas as a gasolina, embora se valessem RODRIGO MOURA VISONI é segundo-tenente ar-
mãos o aplaudiram”. sempre de algum artifício para de- quivista do Quadro Complementar da Aeronáutica.

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