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TCB - 2018/02 Aluna: Elisa Porto Marques

Arquitetura e Urbanismo Noturno Orientador: Prof. Rogério Palhares

A banca de apresentação deste trabalho


será na quinta-feira, dia 13/12, sala 320-C,
com presença dos professores Rogério Palhares,
Rita Velloso e Heloísa Costa.

Esta pesquisa tem como ponto de partida a investigação


sobre a natureza no contexto urbano. Em uma primeira
etapa ensaiei a caracterização de uma paisagem observada
e vivida na metrópole, no que diz respeito às formas em que Segundo as atividades em que os entrevistados se
a natureza e o urbano se apresentam, geralmente tomados engajam em seus cotidianos, foram discutidos contextos
como duas categorias espaciais opostas. Na tentativa de diversos, como as estruturas de gestão e os movimentos
compreender essa cisão, recorri a diferentes perspectivas pela preservação ambiental (com cuidadores de nascentes,
conceituais, procurando aproximações entre os campos de participantes do Projeto Manuelzão-UFMG, membros dos
pensamento sobre o urbano e o meio ambiente. comitês de bacia hidrográfica e lideranças comunitárias); a
água como produto e serviço urbano (com um ex-funcionário
MARX | LEFEBVRE | HARVEY | ACSELRAD | SWINGEDOUW da COPASA e um consultor em águas subterrâneas); a água
foram alguns dos autores abordados. Foram entrevistados 12 moradores de Belo Horizonte, no manejo do território (com um profissional paisagista e um
com interesse no imaginário que as pessoas elaboram analista da Secretaria de Planejamento Urbano da Prefeitura);
No segundo momento, tomei como foco de interesse as em torno da água, na cidade: a água em diferentes lidas domésticas (com uma moradora do
águas urbanas, como uma trilha para as diversas concepções baixo Onça, que viveu a inundação de sua casa pelo Ribeirão,
de cidade e de meio ambiente que povoam o imaginário como se referem à água, como a percebem e a e moradoras antigas do bairro Sagrada Família); a água
dos moradores de Belo Horizonte. Dessa forma, junto à enquanto elemento sagrado (com uma moradora do Quilombo
representam, como se apropriam dela em suas vidas,
incursão teórica, associada às minhas próprias experiências de Mangueiras); entre outros.
como a imaginam e a desejam?
e observações do espaço urbano, busquei o encontro de outros
As falas recolhidas com as entrevistas são como linhas
olhares e vozes, por meio de uma pesquisa de percepção.
que compõem uma variedade de questões e universos tocantes
a cada pessoa. Dentre o emaranhado dessas linhas, busquei a
MERLEAU-PONTY | ILLICH | BACHELARD inspiraram essa identificação de temáticas recorrentes, possíveis associações entre
empreitada em torno das “águas reflexivas”. os pensamentos apresentados, entremeando-as com comentários
e análises, notadamente pela perspectiva do planejamento
“Onde poderíamos pensar melhor do que nessas imagens? urbano. Propus então a separação dessas linhas em 8 novelos ∞
(...) No cristal das fontes, um gesto perturba as imagens, em
repouso as restitui. O mundo refletido é a conquista da calma.
Soberba criação que demanda nada mais do que a inação,
que demanda nada mais do que uma atitude sonhadora,
onde quanto mais imóveis permaneceremos, melhor veremos
o mundo se desenhar.” (Bachelard, Á água e os sonhos, 1942)

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∞ Água atravessada ∞ ∞ Água percebida ∞ ∞ Água lúdica ∞ ∞ Água herdada ∞ ∞ Água compartilhada ∞ ∞ Água material ∞ ∞ Água ameaça(da) ∞ ∞ Água invisível ∞

o papel dos rios relações com a água memórias de responsabilidade pelas bem comum, entre saneamento como natureza ameaça as idealização da
na conformação do mediadas pelo corpo, infância, dimensão da próximas gerações; o público e serviço, água como pessoas; pessoas natureza; relações
território pela experiência brincadeira e do jogo relações o privado produto; relações ameaçam a natureza. sagradas e utopias
sensível na cidade de vizinhança de posse e poder da vulnerabilidade à
convivência

“A minha convivência com “Cada dia o rio tá de uma Márcia - Nós tomávamos “O meu relacionamento “Se falta água na rua, O controle da água “Época de chuva eu não “É triste porque é bonito
o Ribeirão Onça era muito cor. Um dia tá verde, um banho nessa lagoinha, com os rios começou no eu tiro água da cisterna. é realmente muito consigo dormir direito na foto, mas na realidade
grande. Não tinha nada no dia tá vermelho, outro tá fazia brinquedo de argila, dia em que eu podei uma Tem vez que vem gente estratégico, é um lugar de não. Toda hora tenho a população sofre.”
bairro São Gabriel, era um amarelo. Tem dia que tá chegava da aula, pegava árvore e mandei meus de longe pegar água poder. (As multinacionais que subir lá pra ver o rio,
bairro muito novo. E eu meio roxo! Cada dia uma piaba. europeias, americanas, com medo dele encher. – José Américo de Souza
meninos levarem o carrinho, aqui. Pessoal da rua usa
estudava, ia para a igreja, água diferente. Tem dia Telma - A gente fazia era com a poda toda, 100 muito a nossa água com chinesas, principalmente, Se a gente tá dormindo,
tudo da minha vida, desde que está espumando, dá bagunça naquela água. Ali metros abaixo, e jogar no a mangueira. Nunca nego estão de olho na nossa os vizinhos começam a
os 3 anos de idade, era no aquela espumeira. Isso é água, na nossa energia, gritar avisando um para o “A água tem a
era o ponto turístico das córrego. Tudo era jogado para ninguém. É uma água
bairro Aarão Reis. Então fora da época de chuva. no nosso petróleo. outro, “cuidado, o rio tá ancestralidade dela. Já
crianças. Enchia o balde lá. Aí meu filho voltou, com saudável.”
eu tinha que atravessar o Quando é época de chuva, Jogam politicamente pela enchendo”. tem 25 anos que eu
de piaba, depois jogava o carrinho cheio, e disse
Onça todo dia. Eu morava ele lava. A água fica mais – Telma Gonzaga privatização das empresas, acredito cegamente que
dentro d’água de volta. “mãe, o Omar mandou
bem acima, no São Gabriel, limpa e mais amarelada. muitas vezes incentivando – Maria Soares a água resolve nossos
falar que ele cuidou da
onde não ia a enchente, Ele fica bem mais bonito.” Márcia - Piaba pequena, a má gestão, para que problemas. Ela nos tira de
parte dele lá, então lá
mas para chegar na escola piaba média, piaba grande. elas se tornem inviáveis “BH era muito mais um estado e nos deixa em
não é lugar de jogar lixo
e na igreja eu tinha que – Maria Soares Dava aquela sensação e sejam comercializadas arborizada do que hoje, outro estado, de equilíbrio
não”. Simplesmente. E por Valor de uso versus
passar pelas enchentes. boa... a preços inferiores. Elas mas as árvores ocupam total.”
isso que eu trabalho com valor de troca; função
O rio tinha uma ponte de Telma – “Olha essa tá certamente vão gerir bem, espaço. Aí, entendendo que
a água hoje, com o rio. social ou proteção – Ione de Oliveira
balanço de um lado para barriguda, essa vai ganhar o que significa faturar com tem rede telefônica, elétrica,
Porque eu também achava da propriedade privada
Fenomenologia - internet, eles acham que
o outro e, quando chovia, neném”. que o rio era para tudo. isso.
a água passava por cima
questionamento da isso é mais importante do
E não importava com meu
dessa ponte.” fragmentação do – Marcia Trindade e vizinho lá embaixo. E hoje
– Daniel Pimenta que preservar uma árvore.”
conhecimento científico Telma Gonzaga eu me importo”. – Ione de Oliveira Cidade como morada;
– Majô Zeferino
– Majô Zeferino
espaço heterogêneo
versus homogêneo
Apropriação do Saneamento Ambiental;
Bacias hidrográficas espaço público; Metabolismo Urbano Estratégias de
como unidade de Direito à cidade Desenvolvimento
convivência, Water
planejamento Sustentável; Justiça
Sensitive Urban Design,
- Lei das Águas - Ambiental
Infraestrutura verde
Sistema Nacional
de Rercusos Hídricos

Plano ortogonal de Aarão


Reis, Cidade Jardim, avenidas
sanitárias, retificação
e encobrimento de rios, corte
dos Fícus da Avenida Afonso
Pena, Boulevard Arrudas, Praia
da Estação, Parque do Onça,
revitalização de nascentes,
Projeto Drenurbs, enchentes
do Rio Arrudas, declarações
dos Prefeitos Márcio Lacerda e
Alexandre Kalil em contextos
de tragédias ligadas à chuva –
alguns eventos ligados ao desejo
e à produção da natureza na
história de Belo Horizonte..

O que é natureza? | O que é cidade? “Pois é, acho que são os quintais. Quintal é um O quintal como natureza vivida
grande reduto... o espaço residual da natureza, onde
Quando perguntadas sobre a definição de natureza e a O que há nos quintais que os torna um lugar privilegiado
alguém, com um olhar sensível, impregnou o espaço
possibilidade de sua presença na cidade, as pessoas entrevistadas para a existência urbana da natureza? As pessoas.
com alguma coisa ligada ao seu afeto. Então eu acho
geralmente se referiram a uma dentre as três seguintes situações: Ou melhor, a apropriação pelas pessoas, o que quer dizer o
que são de fato os quintais que vão nos trazer ainda
(1) deslocamento espacial – a natureza geralmente está em afeto, a atenção, o manejo – que faltam nas ruas. A imagem de
alguma coisa de natureza urbana.”
lugares distantes, fora da cidade, e, quando na cidade, está um quintal compartilhado, com fortes laços comunitários, de
– Thiers Matos
separada do fluxo urbano, em parques, reservas, ambientes troca e reciprocidade, parece uma boa referência para o lugar
descritos como pouco modificados pelo homem, resquícios “Todo mundo aqui convivia nos quintais, nós tínhamos de uma natureza comum na cidade. À natureza comum seriam
de uma “natureza pura”; (2) deslocamento temporal ou de só cerca, cortava caminho pela casa um do outro. dedicados os gestos de cuidado geralmente restritos à relação
ritmo – a natureza está em pequenos detalhes e, para que estes Seu Abílio atravessava pelo meu quintal para pegar o do indivíduo com a propriedade privada, promovendo uma Intervenção em sticker em viaduto recém construído na Av. José Cândido
sejam percebidos na cidade, deve-se fazer uma interrupção, ônibus. Se eu quisesse ir na dona Eunice eu passava diluição também da dicotomia entre as dimensões doméstica da Silveira, bairro Santa Inês. O sticker, como o pixo, o grafite e o stêncil
uma pausa, e se assumir uma postura concentrada. São as pelo fundo, lá tinha pé de jambo, a gente ia lá colher. e pública que configuram nossas práticas cotidianas e relações são linguagens da comunicação urbana que usam a superfície da cidade
aves, as flores, o vento, a sombra, uma bica d’água. Elementos Tinha muito pé de inhame. Quando a gente fazia festa sociais, pela forma do individualismo. Por essa imagem, como meio de reivindicação da apropriação do espaço. O manifesto
que parecem pequenos tesouros, acessados apenas por aqueles junina, a gente entrava nos quintais uns dos outros podemos ver um universo doméstico estendido à cidade como “Meu Lugar” denuncia o viaduto, que cria não-lugares, que é símbolo do
que sejam capazes de uma percepção apurada e sensível; para pegar bananeira, bambu, para fazer enfeite. Todo uma situação propícia para uma natureza vivida. rodoviarismo, cujas vias cobrem rios. Que a disputa seja com o papel,
(3) os quintais – muitas pessoas se referem a seus próprios mundo era muito amigo. Pessoal da Volta Grande era com a palavra, com a imagem, com a performance, com o corpo. E que
quintais como um ambiente que parece combinar espacialidade muito unido.” seja cada vez mais com o corpo vivo, vivo de água; que a água infiltre e
e temporalidade favoráveis à convivência com a natureza. – Telma Gonzaga encharque cada vez mais o corpo da cidade.

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