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O Estado Burguês1

Andrea Reves

Dirce Aguiar

Nidiane Aguiar Tamboreno

Rogério Mangini

Mariana Michelin

Bruna Marafiga

Gabriel Abelin

Humberto Ravizon2

Sumário: 1 – Estado Burguês, 2 – Estado Socialista , 3 Comunismo e polêmica com


os anarquistas, 4 – Experiências socialistas.

1 – Estado Burguês: Diferentemente de Hegel, que via no Estado as razões de


existência da sociedade civil (o Estado como "a imagem e a realidade da
Razão”), Marx, ao contrário, vê na sociedade civil, ou seja, no estudo da
sociedade as razões para a existência e funções desempenhadas pelo o
Estado. Segundo Lenin, em “O Estado e a Revolução”:

“O Estado é o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes. O Estado


aparece onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser
conciliados. E, reciprocamente, a existência do Estado prova que as contradições de classes
são inconciliável das classes. O Estado aparece onde e na medida em que os antagonismos
de classes não podem objetivamente ser conciliados. E, reciprocamente, a existência do
Estado prova que as contradições de classe são inconciliáveis. Para Marx, o Estado é um
órgão de dominação de classe, um órgão de submisso de uma classe por outra; é a criação de
uma "ordem" que legalize e consolide essa submissão, amortecendo a colisão das classes.
Para os políticos da pequena burguesia, ao contrário, a ordem é precisamente a conciliação
das classes e não a submissão de uma classe por outra; atenuar a colisão significa conciliar, e
não arrancar às classes oprimidas os meios e processos de luta contra os opressores a cuja
derrocada elas aspiram”.

Engels, em “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” alega


que:

"O Estado não é, de forma alguma, uma força imposta, do exterior, à sociedade. Não é,
tampouco, "a realidade da Idéia moral", "a imagem e a realidade da Razão como pretende

1
Seminário a ser apresentado dia 21/11/11 como parte da avaliação bimestral da disciplina de TGE.

2
Acadêmicos da Faculdade de Direito de Santa Maria – FADISMA.
Hegel. É um produto da sociedade numa certa fase do seu desenvolvimento. É a confissão de
que essa sociedade se embaraçou numa insolúvel contradição interna, se dividiu em
antagonismos inconciliáveis de que não pode desvencilhar-se. Mas, para que essas classes
antagônicas, com interesses econômicos contrários, não se entre devorassem e não
devorassem a sociedade numa luta estéril, sentiu-se a necessidade de uma força que se
colocasse aparentemente acima da sociedade, com o fim de atenuar o conflito nos limites da
"ordem". Essa força, que sai da sociedade, ficando, porém, por cima dela e dela se afastando
cada vez mais, é o Estado".

A pedra de toque desenvolvida por Marx para atingir tais conclusões chama-se
“luta de classes”. No Manifesto do Partido Comunista, Marx afirmou que:

"A história de toda humanidade até esse momento é a história da luta de classes. Homem livre
e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, burgueses de corporação e oficial, em suma,
opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta
ininterrupta, ora oculta ora aberta, uma luta que de cada vez acabou por uma reconfiguração
revolucionária de toda a sociedade ou pelo declínio comum das classes em luta”.

Porém, a sociedade original não possuía divisões sociais, hierarquização, pois


o nível das forças produtivas era ridículo, não havia excedente. Segundo o
historiador marxista britânico Eric Hobsbawn:

“Uma das primeiras formas de hierarquização dos membros foi a divisão homem/mulher,
quando os homens começaram a explorar as mulheres. A luta de classes origina-se, então, no
momento em que a sociedade passa a ser composta de diferentes castas. Essa divisão dos
membros em classes foi possibilitada quando as forças produtivas atingiram um certo nível de
produtividade, onde o excedente já promovia maior segurança à sociedade em relação às suas
necessidades. Mas, apesar de garantir uma proteção em tempos escassos, por exemplo, o
excedente abriu a possibilidade do jogo político. O controle sobre o excedente se desenvolve
em conjunto com a formação de uma minoria que ganha assim poder sobre todos outros
membros da sociedade. Dessa maneira origina-se uma diferenciação quanto à tarefa social de
cada membro. Entre as diversas classes que podem se formar, estão sempre presente as
classes dos senhores (não-trabalhadores) e a classe trabalhadora.”

Então, para Marx, a partir da divisão do trabalho ocorrida nas sociedades


antigas, instauram-se também as primeiras formas de hierarquização e de
sociedade de castas e, por conseguinte, os antagonismos de classes. Marx foi
o primeiro cientista a falar de três tipos de sociedades de classes e a relacioná-
las com seus respectivos modos de produção, que foram: a escravista, a feudal
e a atual capitalista. Marx dizia que a luta de classes sempre foi inerente a
todas as sociedades. Essa luta seria o motor que movimenta a História.

“As relações sociais estão intimamente ligadas às força produtivas. Ao adquirir


novas forças produtivas, os homens alteram os modos de produção, a maneira
de ganhar a vida e todas as relações sociais”.

O Estado, então, nasceu da necessidade de refrear os antagonismos de


classes. No próprio conflito dessas classes, resulta, em princípio, que o Estado
é sempre o Estado da classe mais poderosa, da classe economicamente
dominante que, também graças a ele, se toma a classe politicamente
dominante e adquire, assim, novos meios de oprimir e explorar a classe
dominada.
Não só o Estado antigo e o Estado feudal eram órgãos de exploração dos
escravos e dos servos, como também:

“O Estado representativo moderno é um instrumento de exploração do trabalho assalariado


pelo capital. Há, no entanto, períodos excepcionais em que as classes em luta atingem tal
equilíbrio de forças, que o poder público adquire momentaneamente certa independência em
relação às mesmas e se torna uma espécie de árbitro entre elas.”

A burguesia foi a classe revolucionária que depôs a nobreza e o clero. Com


sua ascensão, a exploração teria perdido o seu caráter velado e adquirido
formas mais explícitas. Além das relações sociais, a burguesia teria
revolucionado também os instrumentos e as relações de produção do período
anterior, criando forças produtivas incrivelmente mais intensas e substituindo
todos os aspectos feudais que se colocavam como entrave para a expansão
capitalista. Com isso, produziu-se a livre concorrência e uma organização
social e política compatível com os interesses capitalistas.

“A burguesia, lá onde chegou à dominação, destruiu todas as relações feudais, patriarcais,


idílicas. Rasgou sem misericórdia todos os variegados laços feudais que prendiam o homem
aos seus superiores naturais e não deixou outro laço entre homem e homem que não o do
interesse nu, o do insensível "pagamento a pronto". Afogou o frêmito sagrado da exaltação pia,
do entusiasmo cavalheiresco, da melancolia pequeno-burguesa, na água gelada do cálculo
egoísta. Resolveu a dignidade pessoal no valor de troca, e no lugar das inúmeras liberdades
bem adquiridas e certificadas pôs a liberdade única, sem escrúpulos, de comércio. Numa
palavra, no lugar da exploração encoberta com ilusões políticas e religiosas, pôs a exploração
seca, direta, despudorada, aberta.”

Nesse sentido, o Estado é apresentado por Marx como “um comitê que
gerencia os negócios da burguesia, sem nenhuma autonomia em relação à
classe dominante”. Na sociedade capitalista moderna, não basta apenas
controlas os meios de produção; é preciso deter o monopólio, ou, como
desenvolveu posteriormente Antonio Gramsci, a “hegemonia”, da difusão dos
valores culturais, do poder político e dos meios de informação. Em A Ideologia
Alemã, Marx e Engels já haviam salientado isso ao afirmar que: “As idéias
dominantes de uma época são as idéias da classe dominante desta época. A
classe que dispõe dos meios de produção material dispõe também dos meios
de produção intelectual” O Direito, por exemplo, é produzido pela classe
dominante. Mas não só o Direito produzido pela classe dominante: também a
Filosofia, a Educação, a Cultura, a Religião, e todos os fenômenos de
superestrutura. A superestrutura como um todo seguirá as relações de base,
ou seja, as relações materiais de produção. SEMPRE! Toda forma de produção
possui uma superestrutura, com suas características e peculiaridades próprias.
Assim como havia um Direito medieval, e antes escravista (Roma), e hoje um
Direito capitalista.

Em suma, o Estado Burguês é um instrumento de dominação da burguesia,


classe economicamente e politicamente dominante que explora a classe
trabalhadora, o proletariado, utilizando o Estado para a validação dessa
exploração do trabalho e para a manutenção do status quo.

2 - O Estado Socialista: Primeiro é importante perguntar: o que visa o Estado


Socialista? Diz o Manifesto do Partido Comunista que os comunistas podem
resumir a sua teoria numa única expressão: supressão da propriedade privada.
A partir do ponto que o marxismo defende a supressão da propriedade privada,
ele se identifica com os interesses da classe chamada de proletariado, ou seja,
a classe cujo o único meio de sustento é a venda de sua força de trabalho e
por isso são explorados pelos burgueses detentores dos meios de produção.
Considera-se que é do interesse do proletariado, que não possui nada, a
socialização dos meios de produção e o uso de seus rendimentos para a
sociedade (e não pela burguesia). Outra consigna do marxismo é a abolição da
sociedade de classes e a abolição do próprio Estado, o que aconteceria
durante o comunismo (comunismo vem do latim communis, "comum", que
pertence a todos), fase superior e definitiva do socialismo, onde os homens
produziriam de acordo com suas habilidades e receberiam de acordo com suas
necessidades. Essa fase de transição é conhecida como ditadura do
proletariado, a ditadura da classe trabalhadora sobre a burguesia. Ditadura do
proletariado é ditadura para a burguesia e democracia para o proletariado, ao
contrário da democracia burguesa, que é democracia para a burguesia e
ditadura para o proletariado. Para Lenin a ditadura do proleriado não exige
necessariamente proletários na direção, mas uma direção com consciência de
classe proletária (o próprio Lenin era de origem pequeno-burguesa, bem como
Fidel Castrou ou Che Guevara). O movimento histórico das classes envolve
frações mais organizadas e menos organizadas, politizadas e menos
politizadas, modernas e arcaicas, consciente e menos conscientes. Aos
intelectuais e militantes cabe ensinar, orientar e organizar o processo.

É importante ressaltar, contudo, que a idéia de um Estado operário, ou de


sociedade de operários, é algo que também será superado historicamente,
segundo a teoria marxista Na medida em que não existirão mais classes
sociais, não faz sentido falar em Estado de uma classe, seria uma sociedade
de iguais, de camaradas, de cidadãos plenamente emancipados, sem
senhores, realizando plenamente o projeto iluminista da modernidade do qual
Marx se reivindicava um herdeiro. Superada da divisão social do trabalho, ou
seja, o controle privado sobre os meios de produção, mantida apenas a divisão
técnica de funções. A ditadura do proletariado seria uma uma organização
temporária, uma transição de um modo de produção para outro, no qual a
estrutura de classes seria desfeita, a exploração do homem pelo homem e a
alienação ideológica também, pondo fim à chamada pré-história do homem, na
qual ele não fazia a história como desejava mas sim submetido às demandas
da sociedade capitalista, a sociedade da guerra de todos contra todos, da
competição desenfreada, do egoísmo e do individualismo excludentes.
Literalmente, a palavra ditadura significa supressão da democracia. Mas
acontece que, tomada à letra, esta palavra significa igualmente poder pessoal
de um só indivíduo que não está preso por nenhuma lei. Poder pessoal que
difere do despotismo no fato de não ser entendido como uma instituição de
Estado permanente, mas como uma medida extrema de transição.
.A expressão “ditadura do proletariado”, por conseqüência não de um só
indivíduo, mas de uma única classe, prova que Marx não pensava aqui em
ditadura no sentido literal da palavra. Fala não de uma forma de governo,
mas do estado de coisas, que deve necessariamente produzir-se por toda a
parte onde o proletariado conquistou o poder político.

Lenin em O Estado e a Revolução esclarece que “essa “força especial de


repressão” do proletariado pela burguesia, de milhões de trabalhadores por um
punhado de ricos”, deve ser substituída por uma “força especial de
repressão” da burguesia pelo proletariado. É nisso que consiste a “abolição do
Estado como Estado”. É nisso que consiste o “ato” de posse dos meios de
produção em nome da sociedade. Nesse sentido, podemos constatar que em
1875 na Crítica ao Programa de Gotha, Marx diz o seguinte:

“Entre a sociedade capitalista e a comunista fica o período da transformação revolucionária de


uma na outra. Ao qual corresponde também um período político de transição cujo Estado não
pode ser senão a ditadura revolucionária do proletariado. Ora, o programa nem se ocupa do
último nem do futuro sistema de Estado da sociedade comunista.”

Segundo Norberto Bobbio:

“Para Marx, o Estado é o reino não da razão mas da força. Não é o reino do bem comum, mas
do interesse de uma parte. Não tem por fim o bem viver de todos, mas o bem viver daqueles
que detêm o poder. Não é a saída do estado de natureza, mas a sua continuação sob outra
forma. Aliás, a saída do estado de natureza coincidirá com o fim do Estado. Daí a tendência a
considerar todo Estado uma ditadura e a considerar relevante apenas o problema de quem
governa (a burguesia ou o proletariado) e não como governa.”
.
A ditadura do proletariado, como eu já disse diversas vezes, a despeito de
parecer um termo paradoxal, objetiva duas principais realizações históricas, a
saber, combater o poder residual da antiga ordem, da classe superada
historicamente, e edificar a ordem social futura, a sociedade sem classes,
regida pela propriedade coletiva dos meios de produção. É um estágio
transitório.
Resumindo: Segundo Marx, a ditadura do proletariado seria um estágio
intermediário entre o Estado liberal burguês que ruiu, o Estado capitalista
superado, e o Estado comunista em construção. Nos termos de Lenin, a
ditadura do proletariado teria dois objetivos, o primeiro era conter a reação
violenta da antiga ordem, e o segundo era construir as instituições do Estado
socialista, lembrando que no longo prazo o marxismo contempla o fenecimento
do Estado, porque este é entendido como um aparato de coerção para a
manutenção da ordem capitalista, ou o regime de propriedade privada.
Segundo Marx somente no socialismo reinaria uma autêntica democracia e o
homem poderia escrever a sua história, superando a alienação dos anteriores
modos de produção.
Infelizmente no socialismo real, o aparato estatal agigantou se nos termos
militares principalmente, e, ao contrário de fenecer, se prolongou
enormemente, comprometendo o desenvolvimento das atividades econômicas.

3 - Comunismo e polêmica com os anarquistas: Na seção 4 do primeiro livro


d’O Capital, Marx diz que:

Dum modo geral, o reflexo religioso do mundo real só poderá desaparecer quando as
condições do trabalho e da vida prática apresentarem ao homem relações transparentes e
racionais com os seus semelhantes e com a natureza. A vida social cuja base é formada pela
produção material e pelas relações que ela implica só se libertará da nuvem mística que a
envolve no momento em que ela se apresente como o produto de homens livremente
associados, agindo conscientemente, segundo um plano, e senhores do seu próprio
movimento social. Mas isto exige um conjunto de condições de existência material, uma base
material da sociedade, que por sua vez só pode ser produto espontâneo de um longo e penoso
desenvolvimento.

Podemos constatar então que o comunismo, para Marx, significa livre


associação e uma produção planificada, porém essa livre associação, sem
intermediários, ou seja, sem a figura do Estado regulador, exigiria um conjunto
de condições econômicas objetivas para sua realização, um desenvolvimento
pleno e cabal das forças produtivas que levaria gerações para ser conquistado.
O Estado não “definha” da noite para o dia. Pode-se afirmar de forma bastante
simplista que, enquanto houver resistência e cerco das potências capitalistas,
haverá a necessidade da figura do Estado no socialismo. Eis a grande
polêmica entre marxistas e anarquistas.

Segundo Lenin:

“A distinção entre os marxistas e os anarquistas consiste nisto: 1.º) os marxistas, embora


propondo-se a destruição completa do Estado, não a julgam realizável senão depois da
destruição das classes pela revolução socialista, como resultado do advento do socialismo,
terminando na extinção do Estado; os anarquistas querem a supressão completa do Estado, de
um dia para o outro, sem compreender as condições que a tornam possível; 2.º) os marxistas
proclamam a necessidade de o proletariado se apoderar do poder político, destruir totalmente a
velha máquina do Estado e substitui-la por uma nova, consistindo na organização dos
operários armados, segundo o tipo da Comuna; os anarquistas, reclamando a destruição da
máquina do Estado, não sabem claramente por que o proletariado a substituirá nem que uso
fará do poder revolucionário, pois repudiam mesmo qualquer uso do poder político pelo
proletariado revolucionário e negam a ditadura revolucionária do proletariado; 3.º) os marxistas
querem preparar o proletariado para a revolução, utilizando-se do Estado moderno; os
anarquistas repelem essa maneira de agir”.

Marx considerava o infantilismo anarquista uma variante da ideologia


burguesa. Classificava-os como utópicos, oportunistas irresponsáveis,
idealistas anti-científicos e individualistas descompromissados. Combateu
duramente ideólogos como Proudhon e Bakunin, incluindo aí o frisson que os
mesmos provocavam dentro da Associação Internacional dos Trabalhores,
presidida por Marx, aquela que mais tarde tornar-se-ia conhecida como I
Internacional. Há trechos na correspondência de Marx onde essa descrença e
indignação perante os anarquistas ficam bastante explícitas, como nesse
excerto de uma carta de 9 de outubro de 1966 endereçada a Ludwig
Kugelmann:

“Os senhores de Paris tinham as cabeças cheias das frases mais vazias de Proudhon.
Tagarelam de ciência e não sabem nada. Eles desdenham de toda a ação revolucionária que
nasce da própria luta de classes, de todo o movimento social, concentrado, e, portanto,
também executável por meios políticos (como, por exemplo., o encurtamento legal do dia de
trabalho); sob o pretexto da liberdade e do antigovernamentalismo ou individualismo
antiautoridade — estes senhores, que desde há 16 anos suportaram e suportam tão
tranquilamente o mais miserável despotismo! — pregam, de fato, a economia burguesa
ordinária, só que proudhonianamente idealizada! Proudhon causou um mal enorme. A sua
pseudocrítica e a sua pseudo-oposição aos utopistas (ele próprio é apenas um utopista
pequeno-burguês, enquanto nas utopias de um Fourier, de um Owen, etc, há o pressentimento
e a expressão fantástica de um mundo novo), agarrou e corrompeu, primeiro os estudantes, e,
depois, os operários, em particular, os de Paris que, como operários do luxo, sem o saberem,
estão “muito” ligados ao lixo velho. Ignorantes, vaidosos, arrogantes, maníacos da tagarelice,
enfaticamente inchados, estiveram a ponto de estragar tudo, uma vez que se precipitaram para
o congresso num número que não tem absolutamente nenhuma proporção com o número dos
seus membros. No relatório, por baixo de mão, hei-de dar-lhes nas mãos.”

O comunismo pretende preservar e superar todo progresso tecnológico,


conquistado através do capitalismo (a despeito de alguns imbecis que
nunca leram um livro marxista sequer na vida e vivem disparando
excrescências verbais, querendo associar comunismo a atraso tecnológico
etc), mediante um sistema de planejamento geral, no qual as múltiplas
decisões, tomadas de acordo com o mecanismo de mercado no capitalismo,
sejam adotadas de forma deliberada segundo critérios que permitam maximizar
a satisfação das necessidades de toda a sociedade. Como afirma Lenin: “Não
há a menor parcela de utopismo em Marx. Ele não inventa, não imagina, já
prontinha, uma sociedade “nova”. Não, ele estuda, como um processo de
história natural, a gênese da nova sociedade saída da antiga, as formas
intermediárias entre uma e outra”. Marx é considerado o criador do Socialismo
Científico que, na verdade, é um sistema e um conjunto de teorias que
explicam a cientificidade da substituição de um sistema econômico por outro, a
partir do desenvolvimento das forças produtivas, das novas descobertas
técnico-científicas e das contradições inerentes a cada sistema.

Há muitos críticos do marxismo que referem uma certa aversão de Karl Marx e
seus correligionários futuros pelo “indivíduo”, como se os marxistas tratassem
de desumanizar ou anular as características internas do indivíduo, buscando
uma espécie de "igualdade de natureza" entre as pessoas, ou seja, o fim de
diferenças pessoais. Sempre vemos esse tipo de argumento ser utilizado
contra o socialismo por liberais e acefalia ltda. É muito fácil falar em "natureza"
humana, não é? Uma criança tem um brinquedo e quer dois; tem dois e quer
quatro. Essa é a natureza humana, certo? Agora, quando essa sociedade
passa a agir dessa forma de maneira monopolizante excluindo e oprimindo os
menos afortunados, disseminando massivamente valores como o egoísmo, o
individualismo, a competição ferrenha, a concorrência de todos contra todos, o
consumismo desenfreado, permitindo que a lógica irracional do Capital tomem
conta se fazendo sentir de maneira decisiva na vida, formação e
desenvolvimento da consciência das pessoas em forma de reificação (a
transformação do que outrora era objeto, dinheiro, em sujeito; o que era sujeito,
homem, em objeto desse sujeito abstrato), na maneira em como elas interagem
com seu semelhante e enxergam a realidade ao seu redor etc., essa é a
natureza humana?! Como afirmou Antonio Gramsci: "A natureza do homem é
a história que o rodeia”.

O comunismo é uma realidade social – onde seja impossível que ela independa
dos indivíduos –, em que eles controlem os processos sociais de modo a
realizar suas potencialidades. Marx está longe, bem longe, de ser hostil ao
indivíduo. O caminho é este: o do fim da alienação (alheamento). O homem
não seria mais um joguete de forças materiais externas, mas um artífice do
mundo. Não viveria mais em uma "gaiola invisível" onde as suas oportunidades
muitas vezes são definidas por forças que ele simplesmente não pode ver,
imaginar ou determinar; em suma, não estaria mais em contradição com o
mundo, mas seria parte dele, "sentir-se-ia em casa". De qualquer forma, o
comunismo não prega a igualdade absoluta, seu discurso sobre a igualdade se
limita a igualdade em relação aos meios de produção (fim das classes). O
marxismo fez uma dura crítica a igualdade como postulado. Comunismo é
socialização e não igualitarismo. O capitalismo não está orientado à satisfação
das necessidades humanas imediatas – aquelas que historicamente sempre
mediaram a relação entre homem e natureza, guiando o aproveitamento do
primeiro sobre a segunda –, o que Marx chamava valor de uso. O capitalismo
privilegia a trocabilidade, o trabalho abstrato, o valor de troca, a maneira de
produzir e multiplicar lucro, ininterrupta e ciclicamente. O quantitativo se
sobrepõe e degrada o qualitativo Ao invés da necessidade, a acumulação, que
visa produzir tudo quanto se possa vender – e não tudo quanto seja necessário
– e tanto quanto se possa vender – e não tanto quanto seja necessário.
Inexoravelmente tendente, portanto, ao máximo da exploração do trabalho
humano e da natureza – pois quanto mais exploração, mais multiplicação do
capital, isto é, mais lucro.

Na obra Elementos fundamentais para a crítica da economia política, mais


conhecida como Grundrisse, Karl Marx aponta não só o caráter contraditório e
irracional do desenvolvimento do capitalismo, sobretudo no seu caráter
autodestrutivo, incluindo a destruição do seu ambiente, da vida das pessoas; a
destruição das suas próprias bases de reprodução e sua tendência inevitável
de produzir crises devido à superprodução. Esse é conhecido como o chamado
lado “profético” de Marx. Dos muitos trechos que poderíamos selecionar para
exemplificarmos esse ponto, este d’O Capital torna-se absurdamente atual, se
formos paralelizá-lo com a crise de 2008: "Os donos do capital vão estimular a
classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os
dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará
os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado".
Lembremos que isso foi escrito em 1867, há mais de 150 anos atrás!
Certamente Marx não era nenhum vidente, apenas um grande cientista, um
grande estudioso e investigador. Como afirmou Engels no seu discurso durante
o enterro de Marx, no Highgate Cemitery, em Londres, no dia 17 de março de
1883: “Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza
orgânica, descobriu Marx a lei do desenvolvimento da história humana”. As
contradições do capitalismo são insolúveis dentro desse próprio sistema,
apesar das constantes mudanças no metabolismo do mesmo elas
permanecem as mesmas, assim sendo, a única saída para a superação dessas
contradições está na sociedade comunista. Finalmente, ao definir o comunismo
em A Ideologia Alemã, Marx e Engels escreveram que: “O comunismo não é,
para nós (comunistas), um estado estável a ser estabelecido, um ideal ao qual
a realidade deverá ajustar-se. Denominamos comunismo ao movimento
real para abolir o presente estado das coisas.”