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FICHA DE COMPREENSÃO DA LEITURA 2

NOME: _____________________________________ N.º: ______ TURMA: _________ DATA: _________

Discurso político

Leia o excerto do discurso político de Manuel da Silva Passos (Passos Manuel) — a convite de quem
Almeida Garrett viajará até Santarém — na Câmara dos Deputados, em 8 de abril de 1837.
Passos Manuel era ministro do Reino, da Fazenda e da Justiça. O que tenta demonstrar, neste discurso, é a
legitimidade das leis promulgadas pelos governos saídos do Setembrismo — movimento liberal que defendia
a substituição da Carta Constitucional de 1826 —, ou seja, governos que haviam legislado em ditadura.

Sr. presidente, disse-se que nós não tínhamos o poder legislativo, senão até ao dia 18, mas que Consti-
tuição há aí sobre a terra, a de 22, a de 26, enfim que Constituição existe, que desse ao Sr. Conde de Lumiares ,
ao Sr. Visconde de Sá, ao Sr. Vieira de Castro, e a mim, homem de Bouças, o direito de legislar? Sr. presidente,
é singular que a ditadura até agora não tivesse oposição; e só quando ela expirou é que nos chamam tiranos
5 e usurpadores! São insultos ditos na face de César, depois de levar vinte punhaladas 1. Onde estava a coragem,
o patriotismo, o amor à liberdade e o respeito à Constituição? Quando Polignac 2 usurpou o poder legislativo,
eu vi os corajosos jornalistas de Paris, cercados de gendarmes3, arremessando sobre armas as suas folhas, para
inflamar os ânimos e admoestar o povo à insurreição e à defesa das leis e o usurpador caiu entre as ruínas
de um trono, e foi pagar a sua audácia ao Castelo de Ham. Mas os nossos censores não desenvolveram o
10 amor ao sistema representativo; porque não provocaram contra nós o povo generoso, que, decerto, nos
teria feito em postas! Sr. presidente, é necessário que eu faça justiça aos meus mais implacáveis inimigos;
o partido que mostrou coragem em combater a ditadura foi o partido da administração transata, partido
corajoso, porque não recuou, nem empalideceu, nem estremeceu diante dos tiranos e foi ele que pugnou
pela não violação duma lei Constitucional. Ora, Sr. presidente, nenhum dos nossos amigos políticos então
15 nos combateu, nem nos disse que, nós, de certa maneira, usurpámos dos poderes do Estado o mais impor-
tante, o poder de legislar! Reservaram-se para tarde! Hoje vêm estes grandes cavalheiros como campeões,
declarar-nos, agora, que nós violámos a Constituição, que de facto foi violada desde setembro. Sr. presidente,
a questão é considerada debaixo de dois pontos de vista: a questão de direito e a questão de facto ou de
conveniência. Sr. presidente, hoje não só se combateram os atos da ditadura, mas até se disse que a ditadura
20 não é senão para fazer calar as leis. Oh! Sr. presidente! Tenho pasmado com o que tenho ouvido! Ouvi que
ditadores só os havia em Roma; a ditadura, Sr. presidente, tem existido há muitos séculos; que era Moisés,
senão um verdadeiro ditador legislativo? Que era o imperador, quando dava a Carta Constitucional a Por-
tugal? Pois não houve ditadores senão em Roma? […]
Agora, Sr. presidente, se quiserem consultar as Constituições e as leis de direito público, para mostrarem
25 que o Sr. Conde de Lumiares, o Sr. Visconde de Sá da Bandeira, o Sr. Vieira de Castro e o homem de Bouças
(riso) não tinham recebido, nem pela Constituição, nem da mão de Deus, o direito de dar leis ao país, concor-
damos exatamente; mas nós não derivamos da vontade do Eterno o direito de legislar. Não fomos mandados
pela Providência! Somos filhos da revolução e a revolução pode destruir trono, altar, leis e Constituição.
O povo, fazendo uma revolução, e encarregando-nos a sua defesa, deu-nos o direito de nos armarmos de
30 um poder discricionário4, e de quantos meios lícitos houvesse para fazermos triunfar e brilhar a causa do
povo, e um poder legislativo. Os que se opuseram contra nós, os homens que nos combateram, quem
eram? Eram os sectários da tirania e os partidários da administração passada.

PRADO D’AZEVEDO (ed.), Discursos de Manuel da Silva Passos, Porto, Escrptorio da Empreza («Bibliotheca
Modelos de Eloquência»), 1879. Disponível em http://www.arqnet.pt/portal/discursos/abril04.html,
consultado em 22 de dezembro de 2015 (com adaptações).

(1) depois de levar vinte punhaladas: referência ao assassinato de Júlio César, chefe militar e ditador romano, em
pleno senado, em março de 44 a. C.
(2) Polignac: político francês (século XIX).
(3) gendarmes: polícias, força pública.
(4) discricionário: livre de condições, ilimitado.

ENTRE NÓS E AS PALAVRAS • Português • 11.º ano • Material fotocopiável • © Santillana


1. Para responder a cada um dos itens, de 1.1 a 1.10, selecione a opção correta. Escreva, na folha de
respostas, o número de cada item e a letra que identifica a opção escolhida.

1.1. A expressão «homem de Bouças» (linha 3)


(A) explicita a origem do Sr. Vieira de Castro.
(B) permite corroborar a legitimidade do governo de que o orador faz parte.
(C) designa o próprio orador.
(D) permite interpelar o destinatário das palavras do orador.
1.2. Com a referência a César (linha 8), o orador
(A) defende a existência das ditaduras militares.
(B) admite que a argumentação dos seus adversários é, em parte, válida.
(C) transmite a ideia de que o seu governo é alvo de acusações injustas.
(D) pretende impressionar o auditório com o seu conhecimento histórico.
1.3. O vocábulo «admoestar» (linha 8) significa
(A) «incentivar». (B) «criticar». (C) «desencorajar». (D) «opor».
1.4. Tendo em conta que o governo defendido por Passos Manuel era apologista da soberania popular,
a afirmação «não provocaram contra nós o povo generoso, que, decerto, nos teria feito em
postas!» (linhas 10-11) contém
(A) uma ironia. (B) uma anáfora. (C) um hipérbato. (D) uma apóstrofe.

1.5. Relativamente à violação da Constituição, o orador


(A) assume-a, mas não aceita os ataques dos adversários.
(B) assume-a e compreende os ataques dos adversários.
(C) afirma que ela não existiu, contradizendo os seus adversários.
(D) afirma que ela não existiu, mas compreende os ataques dos adversários.
1.6. A afirmação «mas nós não derivamos da vontade do Eterno o direito de legislar» (linha 27)
sublinha a ideia de que o governo apoiado pelo orador
(A) acredita na legitimação divina do poder.
(B) defende a existência de um poder despótico e absolutista.
(C) considera que o poder legislativo é independente de uma vontade divina.
(D) considera que a vontade divina e o poder político não são realidades independentes.
1.7. A expressão «filhos da revolução» (linha 28) descreve
(A) o grupo dos que, segundo o orador, defendem a tirania.
(B) o governo do qual o orador faz parte.
(C) os adversários do governo de que o orador faz parte.
(D) o povo.
1.8. Com a enumeração presente na linha 28 — «trono, altar, leis e Constituição» —, o orador
(A) nega a soberania popular, apesar de reconhecer a importância da vontade do povo.
(B) enfatiza o papel do povo numa revolução, valorizando a soberania popular.
(C) enfatiza a importância das revoluções, apesar de considerar que não podem justificar
transformações políticas.
(D) enfatiza o poder das revoluções e legitima as transformações políticas que delas decorrem.
1.9. A repetição de exclamações e interrogações, ao longo do texto,
(A) sublinha os argumentos do orador e imprime vivacidade ao seu discurso.
(B) permite ao orador explicar alguns dos seus argumentos.
(C) mostra que estamos perante um discurso profundamente racional, do qual está ausente a
emotividade.
(D) imprime vivacidade ao discurso, sendo irrelevante na corroboração dos argumentos.
1.10. Segundo os três últimos períodos do texto, as ações do orador e do governo de que ele faz parte
(A) carecem de legitimidade política, mas são justas.
(B) são justas, mas independentes da vontade popular.
(C) são legítimas porque têm na sua origem a vontade popular.
(D) pautaram-se, em todas as circunstâncias, pelo exercício de um poder limitado.

ENTRE NÓS E AS PALAVRAS • Português • 11.º ano • Material fotocopiável • © Santillana