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Manual do Aluno

GEOLOGIA
11.o ano de escolaridade

República Democrática de Timor-Leste


Ministério da Educação
Manual do Aluno
GEOLOGIA
11.o ano de escolaridade

Projeto - Reestruturação Curricular do Ensino Secundário Geral em Timor-Leste

Cooperação entre o Ministério da Educação de Timor-Leste, o Instituto Português de Apoio ao


Desenvolvimento, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Universidade de Aveiro
Financiamento do Fundo da Língua Portuguesa
Título
Geologia - Manual do Aluno

Ano de escolaridade
11.o Ano

Autores
Dorinda Rebelo
António Andrade
Jorge Bonito
Luis Marques

Coordenador de disciplina
Luis Marques

Colaboração das equipas técnicas timorenses da disciplina


Este manual foi elaborado com a colaboração de equipas técnicas timorenses da disciplina,
sob a supervisão do Ministério da Educação de Timor-Leste.

Ilustração
Carla Candeias
Joana Santos

Design e Paginação
Esfera Crítica Unipessoal, Lda.
Carla Candeias

Impressão e Acabamento
Digital Printing, Lda.

ISBN
978 - 989 - 8547 - 36 - 1

Tiragem
6000 exemplares
1ª Edição

Conceção e elaboração
Universidade de Aveiro

Coordenação geral do Projeto


Isabel P. Martins
Ângelo Ferreira

Ministério da Educação de Timor-Leste

2013

Este manual do aluno é propriedade do Ministério da Educação da República Democrática de Timor-Leste, estando proibida a sua
utilização para fins comerciais.

Os sítios da Internet referidos ao longo deste livro encontram-se ativos à data de publicação. Considerando a existência de alguma
volatilidade na Internet, o seu conteúdo e acessibilidade poderão sofrer eventuais alterações.
Índice

Unidade Temática

1 O tempo dos geólogos

8
9
1.1 Do tempo histórico ao tempo geológico
O que é o tempo?
13 Que evidências existem que nos possam ajudar a contar a história da
Terra e da vida?
16 1.2 Os tempos em geologia: relativo e absoluto
17 Tempo relativo
24 Tempo absoluto
26 1.3 Tabela Estratigráfica
29 Síntese
30 Questões em aberto
30 Sítios Web úteis
31 Avaliação

Unidade Temática

2 A lição dos fósseis

36
37
2.1 Fóssil: registo da vida passada
O que são fósseis?
42 Por que é que os geólogos estudam os fósseis?
43 2.2 Flora e fauna como memória do tempo geológico
44 O que são microfósseis?
45 Ainda existem trilobites? E corais?
47 Serão os ouriços do mar bons fósseis?
52 Quando surgiram as primeiras plantas?
54 Qual é a idade dos répteis?
55 Também haverá fósseis do homem?
58 2.3 “Fósseis vivos” e evolução
61 Como se relaciona a evolução biológica e a paleontologia?
62 Síntese
63 Questões em aberto
63 Sítios Web úteis
64 Avaliação

3
Unidade Temática

3 As reconstituições do passado

68
69
3.1 Áreas-fonte e sistemas de erosão
Ciclo de erosão
70 Como explicar a morfologia da superfície terrestre?
71 Geomorfologia climática: a importância do clima
74 Geomorfologia litológica: a importância das rochas
78 Geomorfologia estrutural: a importância da tectónica
79 O caso especial do relevo costeiro
83 3.2 Os ambientes de deposição
84 Ambientes de sedimentação e fácies sedimentares
87 A importância das estruturas sedimentares
90 Transgressões e Regressões
94 Estratigrafia e Paleogeografia
95 3.3 Regimes tectónicos
96 Regime de dorsal oceânica
97 Regime de arco insular
98 Síntese
99 Questões em aberto
99 Sítios Web úteis
99 Avaliação

Unidade Temática

4 O passado geológico de Timor-Leste

104
105
4.1 A importância dos mapas
O mapa topográfico
107 O mapa geológico
108 A leitura das cartas geológicas
110 As cartas geológicas de Timor-Leste
112 O mapa de solos
114 4.2 Revisitando as formações rochosas de Timor-Leste
114 O enquadramento geológico de Timor-Leste
116 Timor: uma visão atual
116 Autóctone, Parautóctone e Alóctone
117 Margem Australiana e Terreno de Banda
118 Uma breve história geológica de Timor-Leste
120 Síntese
121 Questões em aberto
121 Sítios Web úteis
122 Avaliação

4
5 Adenda

125 Escala cronostratigráfica

Glossário

126 Glossário de A a Z

5
No estudo da geologia, o conceito do tempo assume, cada vez
mais, uma particular importância. Contribui para a explicação de
fenómenos observados na Natureza, que resultam de processos
que se combinam, ao longo da história da Terra. O tempo é um
dos temas mais difíceis em geologia, principalmente porque não
se mede com um relógio (um “tempo estático”), mas somente
mediante os testemunhos de um “tempo de mudança”. Apenas
as transformações deixam marcas capazes de ajudar a medir o
tempo. A criação de uma medida do tempo geológico universal,
que seja tão bem entendida por todos, como hoje são as horas,
constituiu um enorme desafio da construção do conhecimento
científico. As divisões das escalas estabelecidas são efetuadas com
base em critérios de alterações na quantidade de populações de
organismos do momento e, posteriormente, em datação isotópica,
a partir do decaimento de elementos radioativos. A Tabela
Estratigráfica permite, assim, correlações de acontecimentos
geológicos, particularmente distantes, oferecendo possibilidades
de uma visão global da dinâmica da Terra.
Atenção, vais precisar de algum tempo!...
Unidade Temática 1 | O tempo dos
geólogos

1.1 Do tempo histórico ao tempo geológico


1.2 Os tempos em geologia: relativo e absoluto
1.3 A Tabela Estratigráfica
Unidade Temática 1 | O tempo dos geólogos

1.1 Do tempo histórico ao tempo geológico


“Não tenho tempo”, “tempo sem fim” e “acabou-se o tempo” são
expressões comuns que podemos escutar todos os dias. Mas o que
significam, de facto? O que é o tempo? Será possível medi-lo? Não foi
fácil, até ao século XVIII, medir o tempo correspondente a períodos muito
afastados do tempo de hoje. Só gradualmente, com o contributo de
muitos cientistas, se foi construindo o conhecimento acerca do tempo do
nosso planeta: o tempo geológico.

? Há quanto tempo existe o Universo? E a Terra? E o homem?


E Timor-Leste?

Ao longo deste subtema vais encontrar resposta para estas questões. O trabalho que desenvolveres vai ajudar-
-te a construir conhecimentos e a adquirir competências que te permitirão atingir as metas de aprendizagem
definidas no programa da disciplina.

Conceitos-chave Metas de aprendizagem


• Friso cronológico • Identifica diferentes instrumentos usados na medição do tempo, ao
• Idade da Terra longo da história

• Medição do tempo • Sistematiza informação em formatos diversos (ex.: texto, esquemas)


sobre o conceito de tempo
• Tempo
• Tempo histórico
• Tempo geológico

Curiosidade
Sete…, seis…, cinco, sequência de ignição iniciada, quatro…, três…, dois…,
Os relógios marcavam 10h 32min, um…, zero… Lançamento! É com esta expressão familiar que se precede
naquela manhã de 16 de julho de o lançamento de um foguetão. Um dos períodos de tempo mais críticos,
1969, quando o poderoso foguetão
Saturno 5 se deslocou para conduzir o medidos pelo ser humano. O atraso de um segundo pode fazer com que a
primeiro homem à superfície da Lua.
operação seja cancelada.
Há outras situações, para além do lançamento do foguetão, que dependem
de medições exatas de tempo e de relógios de grande precisão. Por
exemplo, o tempo de voo de um determinado avião, tendo em conta o
combustível existente nos seus depósitos.

8
Já deves ter perdido alguns acontecimentos e faltado a compromissos
importantes, simplesmente porque não programaste bem o teu tempo
ou porque o teu relógio não funcionava bem. Muito do que fazemos na
nossa vida está relacionado com o tempo.
Procura enumerar, mentalmente, as coisas que fazes todos os dias e que
dependem da medição do tempo.
Vivemos, atualmente, numa época em que o tempo e a sua medição são
muito importantes. Muitas coisas têm, ou deixam de ter, valor, em função
do tempo.
O tempo, para cada um de nós, é uma evidência. A experiência comum
parece ser suficiente para que não duvidemos da sua existência. Por um
lado, a experiência do dia a dia recorda-nos que poucas coisas podem
parecer tão evidentes como o tempo. Até o podemos quantificar e,
através dele, efetuar previsões do quotidiano. Também o podemos
organizar em ontem, hoje e amanhã. Mas não corresponderá a contagem
do tempo a um disfarce do próprio tempo, por detrás de uma mobilidade
absolutamente regular?

? O que é o tempo?
Citação
Que é, pois, o tempo? Quando
dele falamos, compreendemos o que

dizemos. Compreendemos também o
que nos dizem quando dele nos falam.
O que é, por conseguinte, o tempo?
De facto, o tempo existe fora do relógio e nós apenas percebemos os seus Se ninguém mo perguntar, eu sei; se
efeitos, as suas obras, as suas metamorfoses, que podem enganar-nos a o quiser explicar a quem me fizer a
pergunta, já não sei. (…) Quem pode
respeito da sua natureza. Tudo se encontra submetido ao tempo e tudo o medir os tempos passados que já não
existem ou os futuros que ainda não
que é tocado pelo tempo acaba por ter fim.
chegaram? Quando está decorrendo
Deverás estar a pensar que esta é uma matéria complexa. E esta o tempo, pode percebê-lo e medi-lo.
Quando, porém, já tiver decorrido,
complexidade reside, principalmente, no facto do cérebro humano apenas não o pode perceber nem medir,
porque esse tempo já não existe.
estar preparado para compreender um tempo que está relacionado com
Santo Agostinho
o período da vida humana. (Confissões, Livro XI, 15, 16).
Todos nós, independentemente da idade, somos capazes de contar
alguma parte da história da nossa vida, recorrendo aos acontecimentos
que mais a marcaram, pela positiva (por exemplo: nascimento de um
irmão) e pela negativa (por exemplo: morte de um familiar ou de um
amigo). Por outro lado, também sabemos que fazem parte da nossa
história outros acontecimentos que saem do contexto familiar, pois são
de âmbito local (por exemplo: início da exploração de petróleo em Timor-
-Leste), regional (por exemplo: ocorrência de cheias) ou mesmo global
(por exemplo: a última cimeira da ONU para a definição de políticas
ambientais que decorreu em 2011, na cidade de Durban em África
do Sul).

Do tempo histórico ao tempo geológico | 9


Podemos conhecer os nossos bisavós ou, quanto muito, os nossos
bisnetos. A noção de olhar o tempo passado, de forma sistemática
pelo sentido comum, é relativamente recente, em especial a partir do
século XVI.
Ao longo da nossa vida, a medição do tempo, por si só, não tem grande
significado. Desde que iniciaste a leitura desta página o tempo está
a decorrer, mas o seu significado principal tem a ver com o que lhe
associamos. Por exemplo, o tempo que o professor atribuiu para resolução
de uma atividade; o tempo que falta para terminar a aula; o tempo em
que vais almoçar; o tempo em que decorre o intervalo da tarde; o tempo
em que…
O conceito de tempo, para o senso comum, é inerente ao ser humano.
Desde que tenhamos saúde, todos somos capazes de reconhecer e
ordenar a ocorrência de acontecimentos, que são percebidos pelos
Santo
Agostinho nossos sentidos e processados no cérebro. Só que às vezes podemos
(354-430) estar enganados.
Nasceu em Tagaste,
na província romana
Em síntese, podemos dizer que o tempo depende do estado de
Souk Ahras (atual cada pessoa, das experiências vividas por cada um e da memória
Argélia). Foi bispo
de Hipona (Argélia), que se tem dos momentos. Sem memória não há tempo. O tempo
escritor, teólogo e é determinado por acontecimentos, mas se nos perguntarem
Doutor da Igreja
Católica. o que é, tal como Santo Agostinho, teremos muita dificuldade
em explica-lo.

Problematizar
Como é medido o tempo?

Atividade 1.1

1. Cobre todos os relógios existentes na sala de aula, de forma a que não vejas o que indicam.
2. Escolhe um colega para ser um “marcador do tempo”. Ele fará uma marca no quadro, no exato momento em que
tu começares a “medir” um período de tempo de 5 minutos. Usa qualquer técnica que julgues conveniente para
determinar a duração dos 5 minutos.
3. Quanto achares que já passaram 5 minutos, faz um sinal para o “marcador do tempo”. Ele fará uma marca no
quadro cada vez que algum aluno lhe fizer sinal.
4. Houve alguns colegas que lhe fizeram sinal ao mesmo tempo?
5. Como é que decidiste que já tinham decorridos 5 minutos? E como é que os teus colegas decidiram?
6. O que indicam as marcas no quadro?
7. Quais são as consequências, acerca do conceito de tempo, que retiras da atividade efetuada?

São as transformações que vão ocorrendo que nos tornam conscientes do tempo e que nos fornecem uma base
para a sua medição. As primeiras aprendizagens das crianças sobre o tempo são os conceitos de ontem, hoje e
amanhã. Pode aparecer algo de novo (como, por exemplo, a construção de uma grande obra, como o Cristo Rei
de Díli), a alteração de alguma coisa preexistente (por exemplo, obras de recuperação no Centro de Congressos

10 | O tempo dos geólogos


de Díli) ou o desaparecimento ou perda de alguma coisa (por exemplo, o
fim do período de ocupação de Timor-Leste pela Indonésia).
Será que consegues dar exemplos de cada um desses casos na natureza?

Problematizar
Que tipo de exemplos existem, na natureza, relativos a aparecimentos
e desaparecimentos de seres vivos?

Atividade 1.2

1. Procura exemplos naturais (ocorridos na Natureza) de situações anteriormente referidas: de aparecimento, de


alteração e de desaparecimento.
2. Se, por hipótese, essas transformações cessassem repentinamente, achas que o tempo continuaria a existir?

A passagem do tempo pode marcar-se, relacionando-o com um conjunto


de acontecimentos. Quais foram os acontecimentos que usaste na
Atividade 1.2?

Para se construir uma história dos acontecimentos passados, temos


de determinar, com melhor eficácia, o tempo que ocorreu entre os
acontecimentos e a duração de cada um deles.

Problematizar
Quais são os principais acontecimentos que enquadram a história da tua vida – I?

Atividade 1.3

1. Enumera, na ordem em que ocorreram, quatro acontecimentos da tua vida.


2. De seguida, acrescenta a essa lista os quatro acontecimentos anotados por cada um dos teus colegas de grupo.
3. Coloca os acontecimentos por ordem em que eles aconteceram.
4. Tiveste dificuldade para decidir se um determinado acontecimento tinha ocorrido antes ou depois de outro?
Porquê?
5. Os acontecimentos escolhidos tiveram a mesma duração?
6. Os intervalos de tempo entre os acontecimentos sucessivos são iguais?

Eixo cronológico
Quando enumeras os acontecimentos na ordem em que aconteceram,
Instrumento para ordenar os
estabeleceste apenas o que ocorreu antes ou depois de alguma coisa, mas acontecimentos e os factos históricos
numa sequência temporal, sobre
não fica esclarecida a duração dos intervalos de tempo decorridos entre uma linha. Quando esta linha é
representada de modo horizontal
eles. Vamos, agora, perceber melhor esses intervalos através de um eixo recebe a designação de friso
cronológico.
cronológico.

Do tempo histórico ao tempo geológico | 11


Problematizar
Quais são os principais acontecimentos que enquadram a história da tua vida – II?

Atividade 1.4

Para te ajudar a contar a história da tua vida, assinala agora num eixo cronológico, semelhante ao que se segue,
acontecimentos que a tenham marcado. No lado esquerdo regista os acontecimentos que tiveram lugar em contexto
familiar e no lado direito os que foram de âmbito local, regional ou global. Os registos devem ser feitos no caderno.

Acontecimentos de contexto familiar Acontecimentos de contexto local, regional ou global


(ex.: o teu nascimento) (ex.: sismos)

1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012

1. Elabora um texto, entre 6 a 10 linhas, em que contes a história da tua vida, utilizando os acontecimentos que
assinalaste no eixo. Faz todos os registos no teu caderno.
2. Discute, com os teus colegas de grupo, as questões que a seguir se colocam.
De que forma a escala de tempo que consta no eixo cronológico foi importante para contares a história da tua
vida? Que outras escalas de tempo existem?
3. Apresenta à turma as ideias principais que resultaram da discussão tida no teu grupo de trabalho relativamente às
questões anteriores.
4. Em outras disciplinas já estudaste alguns referentes temporais. Analisa, atentamente, os referentes que a seguir se
apresentam: Agora – Hoje – Amanhã – Ontem – Futuramente – Antigamente.
4.1. Agrupa os referentes temporais apresentados em três categorias, de acordo com o seu significado temporal.
4.2. Que critério utilizaste, na questão anterior, para a separação dos referentes temporais em três categorias?

Quando contares a tua história de vida e a dos teus antepassados estás a localizar no tempo acontecimentos que
as marcaram. Estás, também, a recorrer a uma escala, da qual fazem parte unidades de tempo como os anos, as
horas, os minutos... Estas unidades de tempo existiam antes do aparecimento do homem ou terá sido ele que
as inventou?

12 | O tempo dos geólogos


Problematizar
Que dados nos permitem contar a história do homem?

Atividade 1.5

Lê com atenção o seguinte texto:


A Pré-História diz respeito ao longo período de tempo para o qual não existem
fontes escritas. A História começa com as sociedades que nos legaram as primeiras
fontes escritas por volta de 3000 a.C. A História é, habitualmente, dividida em
Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. A divisão do
tempo histórico faz-se, ainda, em anos, séculos (períodos de 100 anos) e milénios
(períodos de 1000 anos). O nascimento de Cristo serve de referência a esta divisão
do tempo histórico.
Lagartixa, Pereira e Gomes (2006)

1. Com base nos dados fornecidos na Figura 1.1, indica, em anos, a duração da: Pré-História, Antiguidade, Idade
Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea.
2. Compara a duração de cada uma das divisões/períodos representados no friso cronológico. O que podes concluir?
Quais foram os critérios utilizados para estabelecer a divisão do tempo representada no friso cronológico?
3. Compara a escala de tempo representada no eixo cronológico da Atividade 1.4 com a da Figura 1.1, quanto à
duração das suas divisões. Apresenta uma explicação para as diferenças encontradas.
4. Quais são as dificuldades que pensas que têm os investigadores para contar a história da humanidade?

Figura 1.1. Sequência cronológica: Pré-História e períodos da História.

As unidades de tempo fazem parte da história do homem. Para


compreenderes a forma como o homem as construiu realiza a Atividade
1.6 apresentada na página seguinte.

? Que evidências existem que nos possam ajudar a


contar a história da Terra e da vida?

Todas as culturas procuram responder a este tipo de questões. Nas


culturas e religiões orientais, por exemplo entre os Vedas, o tempo Vedas
Correspondem aos quatro textos
é circular ou, talvez melhor, cíclico: ao longo da eternidade, mundos escritos em sânscrito por volta de 1500
sucessivos e idênticos aparecem e desaparecem, à maneira das estações a.C., que formam a base do sistema de
escrituras do hinduísmo. São a mais
do ano. De acordo com estes textos, o mundo presente existe desde há, antiga literatura de qualquer língua
precisamente, 1 972 449 111 anos (ano de referência: o nosso 2013). indo-europeia.

Do tempo histórico ao tempo geológico | 13


Problematizar
Como se construíram as unidades de tempo da história do homem?

Atividade 1.6

Lê com atenção o seguinte texto:


Desde a Antiguidade que o homem olhou o céu e utilizou os
astros para medir o tempo. A unidade de tempo usada pelo
homem primitivo foi, provavelmente, o intervalo decorrido
entre o nascer e o pôr do sol. A este intervalo corresponde um
período de luz solar seguido de um período de escuridão com
duração variável. Cada um destes períodos foi dividido em 12
partes designadas de horas temporárias. Hiparco (190-125
a.C.) dividiu, então, o conjunto dos dois períodos em 24 horas
iguais que, mais tarde, foram divididas por Ptolomeu (séc. II)
em 60 minutos e estes em 60 segundos. A divisão do tempo
em horas, minutos, segundos... foi seguida pela construção
e utilização de instrumentos que ajudaram a medir estas
unidades, que acompanharam o homem ao longo do tempo e
que evoluíram com o progresso do conhecimento (relógios de
sol, ampulhetas, relógios mecânicos, digitais, atómicos...).
Exposição O que é o Tempo? (MCUL, 2010)

1. Como explicas que o homem tenha utilizado os astros para medir o tempo?
2. Que importância tem a divisão do tempo em dias, horas, minutos e segundos na vida de cada um de nós?
3. Que vantagens tem a utilização de relógios digitais e atómicos para medir o tempo, comparativamente à utilização
dos relógios de Sol?

James Ussher Na cultura judaico-cristã o tempo é linear, com um princípio e um fim.


(1581-1656)
De facto, aprendemos no livro Génesis, o qual, recorda-se, não é um
Arcebispo de
Armagh, Primaz da documento científico, que Deus criou o Céu e a Terra, as plantas, os
Irlanda. Baseando-se
animais e o homem em seis “dias”; o que significa que a Terra e o homem
na Bíblia, e outros
textos sagrados, teriam praticamente a mesma idade.
escreveu o livro The
Annals of the World, Mas que idade? O cálculo mais célebre foi efetuado por James Ussher, em
publicado em 1658, onde defende o valor
de 4004 a.C. para a criação do mundo. meados do século XVII:
No princípio, Deus criou o Céu e a terra (Gen 1,1).
Iluminismo
Princípio esse que, de acordo com a nossa cronologia, teve lugar ao cair
Movimento cultural de elite de
intelectuais do século XVIII na Europa. da noite que precedeu o vigésimo terceiro dia de outubro do ano 710 do
Procurava mobilizar o poder da
período juliano [ = 4004 a.C.].
razão, com o objetivo de reformar a
sociedade e o conhecimento prévio. Esta idade começou a ser posta em questão, já no século XVIII, pelos
naturalistas do Iluminismo. Um dos mais notáveis foi o francês Conde
Conde de
Buffon de Buffon. Seguindo uma ideia do grande físico Isaac Newton, Buffon
(1707-1788)
começou por aquecer ao rubro esferas metálicas de diferentes tamanhos.
Naturalista e escritor
francês, grande E porquê? Porque supunha-se, então, que o nosso planeta era uma
representante do
enorme bola metálica, no início incandescente e hoje recoberta por uma
Iluminismo.
fina crusta rochosa. Depois, Buffon mediu o tempo que aquelas esferas

14 | O tempo dos geólogos


demoravam a arrefecer e extrapolou os resultados para as dimensões da Sir Isaac
Newton
Terra. Obteve o valor de 75 000 anos para a idade da Terra. Este valor (1643-1727)
escandalizou quase toda a gente, pois indicava que antes do curto tempo Cientista inglês, mais
conhecido como
histórico (a idade bíblica do homem) tinha existido um longo tempo físico e matemático.
geológico. Sabemos hoje que estes números estão errados. Mas o Foi, também,
astrónomo,
importante é reconhecer que Buffon preferiu a experimentação à crença alquimista, filósofo
natural e teólogo.
numa qualquer autoridade sendo, precisamente, este o fundamento da
atitude científica.
Tempo histórico
O m.q. ciência dos homens no
tempo. Compreende a estrutura, a

!! Curiosidade
conjuntura e os acontecimentos, que
contribuem para a sua formação.
No Sistema Internacional de Unidades (SI), o tempo
corresponde a uma das sete unidades de base. O seu símbolo é o Tempo geológico
t e a unidade o segundo [s]. O segundo traduz a duração de 9 192 Escala de tempo que representa a
631 770 períodos de radiação correspondente à transição entre linha do tempo desde o presente até
dois níveis hiperfinos do estado fundamental de um átomo à formação da Terra, baseando-se nos
de césio 133. grandes acontecimentos geológicos da
história do planeta.

Do tempo histórico ao tempo geológico | 15


1.2 Os tempos em geologia: relativo e absoluto
Tal como a história, também a geologia necessita de documentos
para descrever os acontecimentos do passado. E esses, temo-los nas
rochas, como os fósseis, ou alguns dos seus minerais contendo isótopos
radioativos. E porque, de facto, quando se descreve o passado estamos a
fazer geoistória. A geologia tem no tempo um dos seus pilares, sob duas
perspetivas: tempo relativo e tempo absoluto. A primeira, corresponde
à ordenação de uma pilha de documentos que tu podes ir construindo
sucessivamente em cima de uma mesa – os que estão na base foram lá
colocados antes dos que aparecem no cimo; na segunda pretende-se
conhecer o tempo que demorou determinado facto a ocorrer.

? Porque será o tempo uma questão central em geologia?


Como determinar a idade relativa com base nas rochas?
Como se faz a datação radiométrica?

Ao longo deste subtema vais encontrar resposta para estas questões. O trabalho que desenvolveres vai ajudar-
-te a construir conhecimentos e a adquirir competências que te permitirão atingir as metas de aprendizagem
definidas no programa da disciplina.

Conceitos-chave Metas de aprendizagem


• Bioestratigrafia • Interpreta sequências estratigráficas, mobilizando princípios de
• Camada raciocínio geológico.

• Coluna litoestratigráfica • Compara a escala de tempo geológico com outras escalas temporais,
identificando as principais diferenças e semelhantes que as
• Cronoestratigrafia caraterizam.
• Discordância • Discute criticamente os resultados obtidos na execução de atividades
laboratoriais sobre o princípio da sobreposição.
• Estratigrafia
• Distingue idade relativa de idade radiométrica.
• Fóssil de idade
• Interpreta dados, em formatos diversos, sobre métodos usados na
• Geocronologia datação absoluta.
• Idade
• Período
• Princípios estratigráficos
• Tempo absoluto
• Tempo relativo

16 | O tempo dos geólogos


Tempo relativo
Dissemos, anteriormente, que o tempo é determinado por acontecimentos.
Quando se enumeram os acontecimentos na ordem em que ocorreram,
estamos a estabelecer, apenas, o que sucedeu antes e depois de alguma
coisa. Mas quais serão os intervalos de tempo decorridos entre eles?
Na Figura 1.2 podes observar uma série de camadas de rochas
sedimentares. Qual será a camada mais antiga? E a mais jovem? Em que
evidências te baseaste para justificar as tuas respostas?
No caso da Figura 1.2, sendo possível enumerar os acontecimentos na
ordem em que ocorreram, temos uma sequência em relação ao tempo ou Figura 1.2 Sequência estratigráfica a
caminho de Baucau.
uma escala de tempo relativo. É uma escala do “antes e depois”. Usando
este tipo de escala, podemos afirmar, apenas, que um evento ocorreu
Tempo relativo
antes ou depois de outro qualquer acontecimento. Duração de um acontecimento em
relação a outro.

Problematizar
O que é a idade relativa?

Atividade 1.7

1. Um amigo do Eusébio perguntou-lhe as idades dos seus amigos e ele respondeu: “a Elvira é mais nova que o
Alexandre e mais velha que eu, que por sua vez sou mais velho que a Evangelina. A Evangelina é mais velha que a
Brígida, que por sua vez é mais nova que o Tomás”.
2. Coloca por ordem crescente de idades dos amigos: Alexandre, Brígida, Elvira, Eusébio, Evangelina e Tomás.
3. Consegues saber a idade exata do Eusébio? Justifica a tua resposta.

Tal como na Figura 1.2, também na Atividade 1.7 não foste capaz de
indicar a idade exata do Eusébio, porque estamos a fazer comparações e
não usamos valores.
Até ao século XX, e apesar das muitas tentativas feitas, não foi possível
descobrir um relógio adequado para medir o tempo geológico. Por isso,
os geólogos só puderam determinar a idade relativa das rochas, isto é, o Estratigrafia
ordenamento em termos de “mais velhas” (ou “mais antigas”) e “mais Ramo da geologia, desde os
princípios do século XIX, que abarca
novas” (ou “mais recentes”). Este ordenamento temporal foi aplicado o estudo das rochas sedimentares e
sobretudo às rochas sedimentares estratificadas, derivando daí o conceito dos acontecimentos geológicos a elas
associado, sempre numa perspetiva
de estratigrafia. E porquê às rochas sedimentares? Por duas razões. Uma geocronológica.
relaciona-se com o facto do seu ordenamento temporal ser mais fácil; e a
Princípios estratigráficos
outra diz respeito a esta classe de rochas ser muito abundante à superfície
Os princípios estratigráficos são
da Terra. fundamentais no estabelecimento
da cronologia relativa, tomando em
O ordenamento temporal das rochas ainda hoje se baseia em algumas consideração as relações espaciais
regras, a que os geólogos chamam princípios estratigráficos. entre os estratos.

Os tempos em Geologia: relativo e absoluto | 17


Problematizar
Como se depositam as rochas sedimentares?

Atividade 1.8

Na coluna da Figura ao lado estão representados os


resultados de uma atividade laboratorial que deves ter
realizado no 10º ano na disciplina de Geologia.
1. Faz um esquema do que observas dentro da coluna.
Como distingues as estruturas representadas?
2. Existem zonas de contacto entre dois estratos distintos.
Consideras que são horizontais ou inclinadas?
3. Quais são os estratos mais recentes? E os mais
antigos? Em que argumentos te fundamentas?

Série estratigráfica Com a atividade anterior, verificaste que à medida que os sedimentos se
O m.q. sequência estratigráfica. depositam uns sobre os outros, aqueles que chegam depois ficam sobre
Designação informal para um conjunto os que já lá estavam. Forma-se uma série estratigráfica.
de estratos, de espessura variável,
acumulados uns sobre os outros. Este fenómeno também ocorre na natureza como, por exemplo, nos
Princípio da sobreposição fundos marinhos. Os geólogos consideram-no essencial para o raciocínio
Considera que numa série normal de em geologia, designando-o de princípio da sobreposição (Figura 1.3).
rochas sedimentares, as mais antigas
estão por baixo das mais recentes. Este A ocorrência de rochas intrusivas pode, também, colocar em causa a
princípio não pode ser considerado em
rochas deformadas ou invertidas, uma
aplicabilidade deste princípio. Assim, uma intrusão magmática (por
vez que a relação espacial original pode exemplo, um filão basáltico) é mais recente que as rochas (Figura 1.4).
ter-se perdido.
O mesmo raciocínio se aplica quando uma falha atravessa o conjunto de
estratos, sendo mais recente que estes. Os geólogos denominam este
princípio da interceção.
Quando uma rocha (ou resto de ser vivo) se encontra incluída noutra
(exemplo: fragmentos de micaxisto num conglomerado), esta é mais
antiga do que aquela. Este princípio conhece-se pelo da inclusão
(Figura 1.5).
Recorda o esquema que fizeste no procedimento 1 da Atividade 1.8.
Verificaste, certamente, que uma camada (ou grupo de camadas)
sedimentar deposita-se, em regra, horizontalmente, ao longo de uma
área (e de um volume) mais ou menos considerável. Esse fenómeno é
Figura 1.3 Princípio da sobreposição. traduzido pelo princípio da horizontalidade (Figura 1.6). O vale de um

18 | O tempo dos geólogos


Problematizar
Será que o princípio da sobreposição é sempre aplicável?

Atividade 1.9

Observa, com atenção, os diferentes esquemas da Figura seguinte:


1 2 3 4 5 6

F
E
D
C
B
A

1. Com base na análise dos diagramas 2 e 5, indica as camadas que se depositaram depois da camada B. Qual a
camada que se depositou em primeiro lugar?
2. Quais são as camadas depositadas após a deformação que se deu no diagrama 3?
3. Ordena os diagramas de acordo com a sucessão dos acontecimentos.

Princípio da interceção
Qualquer corpo geológico ou
estrutura que intersete outro, é mais
recente que o intersetado.

Princípio da inclusão
Qualquer estrato que apresente
outro incluso, é mais recente que os
fragmentos do incluído.

Figura 1.4 Princípio da interceção. Figura 1.5 Princípio da inclusão.


Princípio da horizontalidade
As rochas sedimentares depositam-se
em estratos ou camadas horizontais
rio pode interromper a horizontalidade de uma camada ou mais camadas
e qualquer evento que altere essa
(Figura 1.7). Se hoje as camadas se encontram inclinadas ou dobradas é condição de horizontalidade é
posterior à sua formação.
porque foram mais tarde sujeitas a deformações (Figura 1.8).

Figura 1.6 Princípio da horizontalidade. Figura1.7 Interrupção da continuidade Figura 1.8 Camadas dobradas.
pelo vale do rio.

Os tempos em Geologia: relativo e absoluto | 19


Princípio da identidade Quando camadas diferentes e muito afastadas, entre si, têm as mesmas
paleontológica associações de fósseis, dizem-se contemporâneas, através do princípio
O m.q. princípio da identidade da identidade paleontológica (Figura 1.9). Pela importância que têm, os
fossilífera. Considera que estratos
onde existam as mesmas associações fósseis serão estudados mais adiante, em separado.
de fósseis, ter-se-ão formado na
mesma altura e em locais e ambientes
sedimentares semelhantes.

Litoestratigrafia
Estudo das sequências sedimentares
com base, sobretudo, na natureza
litológica das camadas.

Formação
O m.q. Fm. Unidade litoestratigráfica,
caraterizada por um conjunto de
rochas que se identificam pelas
suas caraterísticas litológicas
(composicionais) e pela posição
estratigráfica que ocupam. É uma
unidade básica da
cartografia geológica.

Membro Figura 1.9 Princípio da identidade paleontológica. Estratos com a mesma idade: B e G; D,
I e N; E, K e P.
Unidade litoestratigráfica abaixo
da Formação geológica. Tem cara-
terísticas geológicas distintas, próprias, Os princípios da sobreposição e da horizontalidade constituem os
que fazem com que se individualize das fundamentos da Litoestratigrafia. Como verás mais adiante, a unidade
rochas envolventes e,
frequentemente, só tem litoestratigráfica fundamental é a Formação. As Formações podem ser
expressão local.
divididas em Membros e Camadas e podem ser associadas em Grupos.
Camada
O princípio da identidade paleontológica é o fundamento da
O m.q. estrato, banco e bancada. Corpo
sedimentar com desenvolvimento Bioestratigrafia. Cedo se verificou que quanto mais recentes eram
tabular e individualizável das camadas
imediatamente acima e abaixo. Pode
as camadas sedimentares mais parecidos eram os fósseis (que elas
ter espessuras variáveis, mas nunca continham) com os animais e as plantas atuais. Ou seja, se era possível
menos de 1 cm.
ordenar temporalmente as rochas, também era possível ordenar os
fósseis. A unidade fundamental em bioestratigrafia é a Zona. Uma zona
corresponde à extensão vertical (temporal) de um fóssil, ou de uma
associação de fósseis, de evolução rápida; são os chamados fósseis
de idade, que estudarás mais adiante. São os fósseis que permitem
identificar as camadas da mesma idade em colunas (empilhamentos)
litoestratigráficas muito afastadas (Figura 1.10).
Como procederam, então, os primeiros geólogos (séculos XVIII e XIX)?
1. Primeiro, começaram por identificar a sucessão local das camadas
sedimentares em diversos pontos de uma região ou de um país; isto é,
começaram por construir a coluna litoestratigráfica local. É o que se faz
ainda hoje (e que tu próprio poderás fazer).
2. Depois de construídas as colunas estratigráficas locais, o estudo dos
Figura 1.10 Coluna litoestratigráfica. fósseis (quando existem) permitiu identificar as camadas da mesma

20 | O tempo dos geólogos


idade em colunas diferentes e espaçadas; a isto chama-se correlacionar Grupo
as camadas ou as colunas. É o que se faz ainda hoje (e que tu próprio Unidade litoestratigráfica, compos-
ta por formações e estas por membros.
poderás tentar).

3. Por sua vez, a correlação de numerosas colunas locais permitiu a


Bioestratigrafia
O m.q. estratigrafia baseada nos
construção de colunas compostas e, por isso, maiores e de âmbito mais fósseis. Do gr. bιοs (bios) = vida. Estudo
da idade das camadas sedimentares e
geral. Ao mesmo tempo, verificou-se que: execução de correlações entre estratos,
tendo como base o seu conteúdo
a) as diversas categorias de fósseis (espécies, géneros, famílias, fossilífero.

classes) iam aparecendo e desaparecendo à medida que se subia Zona


nas colunas estratigráficas maiores. Camada ou conjunto de camadas
caraterizadas por uma ou mais
b) os novos fósseis apareciam, mas os antigos já não regressavam. espécies fósseis, que lhe dão o nome,
constituindo a unidade de base da
4. Isto levou os geólogos a dividir as suas colunas estratigráficas em zonação bioestratigráfica.

grandes “fatias” com uma idade caraterística; ou seja, com o mesmo Fóssil de idade
significado temporal em qualquer parte do mundo. São os Sistemas. Por O m.q. fóssil caraterístico. Fóssil de
um organismo que viveu durante um
outras palavras, a associação da Litoestratigrafia com a Bioestratigrafia intervalo de tempo muito curto, o
que faz com que a sua ocorrência seja
conduziu à Cronoestratigrafia, um conceito mais teórico e completo em indicador da idade da rocha.
termos de tempo relativo. Ainda assim, convém distinguir as unidades
Coluna litoestratigráfica
cronoestratigráficas (Sistema, Série, Andar), materiais e concretas, das Coluna estratigráfica baseada apenas
na natureza das rochas sedimentares
correspondentes unidades cronogeológicas (Período, Época, Idade), de uma região.
temporais e abstratas. Um exemplo: um Sistema é um conjunto de
Sistema
camadas depositadas durante um Período; um Período é um intervalo
Subdivisão da Era a que corresponde a
de tempo durante o qual se depositou um Sistema. Outro exemplo: em unidade estratigráfica Período.

Timor-Leste podemos falar em Período Câmbrico, mas não podemos Cronoestratigrafia


falar em Sistema Câmbrico. Porquê? Porque não são conhecidas rochas Estratigrafia baseada no conhecimento
da idade (em milhões de anos) das
daquele Período. divisões estratigráficas (sistemas,
series, andares, etc.).
É importante que fixes, desde já, que o registo sedimentar é muito
incompleto, devido à existência de lacunas e discordâncias. O que são Série
O m.q. série estratigráfica da
lacunas e discordâncias? Época. Unidade estratigráfica
hierarquicamente situada entre o
A três relações que podem existir entre grupos de rochas separados por Sistema e o Período.

um grande hiato de tempo durante o qual teve lugar um episódio erosivo


Andar
importante agrupam-se sob o nome genérico de discordância. Unidade cronoestratigráfica que
abrange o conjunto de Formações
Na sucessão das camadas sedimentares existem muitas vezes sedimentares depositadas durante
o intervalo de tempo designado
descontinuidades devidas a interrupções ou hiatos na sedimentação. por Idade. É definido a partir de um
estratotipo.
Estes hiatos chamam-se lacunas e podem resultar de pausas na
sedimentação ou da erosão de camadas já sedimentadas. É importante Período
que não esqueças isto. Divisão geocronológica
hierarquicamente situada abaixo da Era
e acima da Época. É equivalente, em
termos estratigráficos, ao Sistema.

Os tempos em Geologia: relativo e absoluto | 21


Época As lacunas apresentam-se sob várias formas, com nomes diferentes:
Divisão geocronológica, • Paraconformidade e Desconformidade – Há concordância entre os
hierarquicamente acima da Idade e estratos das duas unidades em contacto; mas a lacuna pode dever-se à
abaixo do Período. Corresponde à
Série, em termos estratigráficos. simples ausência de sedimentação (Paraconformidade – Figura 1.11A)
ou à ocorrência de erosão (Desconformidade – Figura 1.11B).
Idade
• Discordância angular (Figura 1.12A) – A unidade inferior foi dobrada
Unidade de tempo geológico
correspondente ao Andar. e erodida antes da deposição da unidade superior. Uma discordância
angular representa muitas vezes uma grande lacuna (vários milhões de
Lacuna
anos). É a descontinuidade mais espetacular.
O m.q. hiato. Ausência de depósito
correspondente a um certo intervalo • Inconformidade (Figura 1.12B ) – A lacuna é representada por uma
de tempo.
superfície de erosão que separa um corpo magmático das camadas
Discordância sedimentares que o recobrem.
Assentamento de uma sequência
sedimentar sobre uma superfície A B
de erosão, seja ela talhada sobre
uma outra ou não, ou sobre rochas
magmáticas
do soco.

Descontinuidade Figura 1.11 (A) Paraconformidade; (B) Desconformidade.


Interrupção na continuidade do
processo sedimentar, estando A B
representada por uma superfície ou
plano, dito de descontinuidade.

Paraconformidade
Não existe diferença de atitude entre
unidades sobrepostas ainda que, às Figura 1.12 (A) Discordância angular; (B) Inconformidade.
vezes, faltem diversos conjuntos líticos.
Na Figura 1.13 representa-se esse conjunto imaginário.
Desconformidade
As camadas são paralelas de um e de
outro lado da superfície mas esta não é
conforme a estratificação.

Discordância angular
Falta de paralelismo entre uma
sequência estratificada depositada
sobre uma outra, diferentemente
inclinada e arrasada
pela erosão.

Escala Estratigráfica
O m.q. Tabela Estratigráfica. Sequência,
por ordem cronológica, das diversas
unidades estratigráficas adotadas, num
dado período do conhecimento.

Figura 1.13 Conjunto imaginário de unidades rochosas ígneas e sedimentares que


ilustram o princípio das relações discordantes.

Procura, agora, fazer a legenda da Figura 1.13, no teu caderno, correspon-


dendo a cada letra o nome das estruturas anteriormente descritas.

22 | O tempo dos geólogos


Um método estratigráfico recente baseia-se numa sísmica de pormenor Câmbrico
e consiste num tipo de correlação sem fósseis. Uma técnica especializada Corresponde ao mais antigo Sistema
(sísmica de reflexão contínua) permite obter imagens sísmicas de conjuntos da Era Paleozoica, com 542-488 Ma. A
designação deriva de Cambria, nome
de camadas sedimentares limitadas por descontinuidades (sequências latino do País de Gales (Reino Unido).

limitadas por descontinuidades ou SLD). Estas descontinuidades são


Precâmbrico
atribuídas a variações do nível do mar. Por definição, estas variações O m.q. que Antecâmbrico.
são de caráter global e funcionam como as associações de fósseis Corresponde a cerca de 90% do tempo
geológico. Agrupa os Eons Arcaico e
atrás referidas. Proterozoico.

Foi assim possível construir uma Escala Estratigráfica, utilizável por toda a Fanerozoico
comunidade de cientistas e já bastante pormenorizada no final do século O m.q. Tempos fossilíferos. Grande
XIX (Figura 1.14). Pormenorizada sim, mas com uma exceção. É que a divisão estratigráfica (Eon) que se
segue ao Proterozoico. Reúne o
parte inferior da Tabela era representada por rochas, geralmente muito Paleozoico, o Mesozoico e o Cenozoico.

deformadas e metamorfizadas, onde não se encontravam fósseis. Estes


Tempo absoluto
começavam a aparecer no Período Câmbrico. Por isso aquela misteriosa Tempo expresso em anos. Em geologia,
parte inferior passou a ser conhecida por Precâmbrico; e a parte superior a unidade de tempo é, normalmente, o
milhão de anos (Ma).
por Fanerozoico.
Observa, de novo, a Figura 1.2. As camadas sedimentares não foram
invertidas, logo, podemos ter a certeza que a camada do topo é mais
nova que a da base. Mas quantos anos mais nova? Que informação
necessitaríamos para responder a esta pergunta? Se fosse possível
saber, com exatidão, quanto tempo demora cada camada a formar-se,
poderíamos calcular a diferença de idade existente entre as camadas mais
jovens e as mais antigas?
Compara as camadas sedimentares com os acontecimentos que
assinalaste na Atividade 1.4. Como sabias a duração de cada um desses
acontecimentos, não foi muito difícil assinalar sobre o eixo a sua ocorrência.
O tempo relativo não está por definição quantificado. Quando se torna
possível relacionar as épocas passadas com o presente, estabelece-se
uma escala de tempo absoluto. Esta escala informa, numa determinada
unidade, “há quanto tempo” ocorreu um evento.
Usam-se vários tipos de calendários e relógios para relacionar os
acontecimentos ao presente. Assim, acompanhamos o passar dos anos,
meses, dias, horas, minutos e segundos. Duas dessas unidades baseiam-
-se no período de rotação da Terra e no período de translação. As demais
unidades de tempo, estabelecidas pelo ser humano, são arbitrárias. Figura 1.14 Tabela Estratigráfica do final
do século XIX.
Estes relógios e calendários ajudam-nos a atribuir datas específicas a
acontecimentos que estão a ocorrer ou que aconteceram há pouco
Era
tempo. Mas como proceder no caso de acontecimentos que ocorreram
Grande divisão geocronológica,
há 104 ou 109 anos? Conheces algum modo de determinar quanto tempo hierarquicamente abaixo do Eon e
acima do Período.
foi gasto por determinadas transformações terrestes ou há quanto tempo
elas ocorreram?

Os tempos em Geologia: relativo e absoluto | 23


Problematizar
É possível que a variação nas taxas de crescimento dos organismos revele evidências
de transformações estacionais?

Atividade 1.10

A Figura seguinte representa células vistas em ampliação (A), anéis de crescimento em duas árvores distintas (B) e
numa valva de molusco (C) e camadas de rochas sedimentares (D).

A B B C D

1. Observa a parte A da Figura. Que células representam o crescimento na primavera e que células representam o
crescimento no verão?
2. As duas árvores, mostradas na parte B da Figura, foram contemporâneas durante, pelo menos, algum tempo das
suas vidas?
3. Que evidências de mudanças estacionais existem na concha e nas camadas sedimentares apresentadas nas partes
C e D da Figura?
4. Qual poderia ser a causa de cada uma dessas formas apresentadas na Figura?

Já vimos que o dia e o ano são unidades naturais de tempo que decorrem
de movimentos da Terra. Combinados, com a orientação da Terra e
relação ao Sol, provocam estações. Se supusermos que a Terra gira em
torno do Sol desde a formação do sistema solar, podemos admitir, então,
que devem existir evidências das estações do ano nos registos fósseis e
nas rochas. E será que existem, efetivamente, tais evidências?
Na atividade precedente, examinámos materiais de ocorrência natural
que registam mudanças anuais em várias épocas no passado. Porém, o
intervalo de registo é pequeno demais para ser usado na verificação de
acontecimentos terrestres há milhões de anos atrás.

Tempo absoluto
Geocronologia
Estudo dos tempos geológicos, em A quantificação do tempo relativo, ou seja, a medição do chamado tempo
milhões de anos, e dos métodos absoluto (Geocronologia) só foi possível já no século XX. E porquê?
utilizados na respetiva datação.
Porque a descoberta do “relógio geológico” foi uma consequência, da
Radioatividade descoberta da radioatividade, e esta aconteceu em 1896, pelo francês
Fenómeno natural ou artificial, pelo Henry Becquerel. Que relógio é este?
qual algumas substâncias ou elementos
químicos, chamados radioativos, são O princípio do método é fácil de entender. Alguns minerais contêm, na
capazes de emitir radiações, as quais
têm a propriedade de impressionar sua constituição, elementos radioativos (por exemplo U no zircão, Rb nos
placas fotográficas, ionizar gases,
produzir fluorescência ou atravessar feldspatos, K nas micas). Os físicos descobriram os ritmos a que se dão
corpos opacos à luz ordinária. as respetivas desintegrações radioativas. Estes ritmos são medidos pelo

24 | O tempo dos geólogos


tempo que demora um dado número de átomos (ou isótopos) radioativos Semivida
a desintegrar-se para metade (semividas). Então, basta medir a quantidade O m.q. meiavida. A meiavida de
relativa do elemento radioativo e do produto da sua desintegração; um elemento radioativo é o intervalo
de tempo em que uma amostra deste
recorda-te da medição do tempo com os tradicionais relógios de areia ou elemento se reduz à metade.

ampulhetas; só que a velocidade de desintegração é exponencial e não linear


(Figura 1.15 ).
Na prática, este processo complica-se bastante, por várias razões:
1. Um elemento químico pode conter vários isótopos radioativos
(exemplo: U238 e U235) com diferentes semividas. Por outras palavras,
um mineral pode conter vários relógios a funcionar com velocidades
diferentes. O reconhecimento dos isótopos só foi possível com a lenta Figura 1.15 Período de meiavida de um
construção de aparelhos especiais, os espectrómetros de massa elemento radioativo.

(Figura 1.16).
2. O produto final da desintegração pode escapar-se, com maior ou menor
Isótopos
São átomos de um elemento
facilidade, da rede cristalina do mineral. Por exemplo, o Ar40, elemento químico cujos núcleos têm o mesmo
final da desintegração do K40, é um gás que se escapa facilmente da número atómico.

rede das micas; só o que resta pode ser medido, e a idade aparece Espectrómetro de massa
falseada. Aparelho usado para a análise isotópica
de minerais e de rochas.
3. A análise quantitativa dos isótopos exige uma tecnologia cada vez mais
avançada e dispendiosa. Datação radiométrica
4. Antes de procedermos à datação de uma rocha (ou de um mineral), O m.q. datação isotópica e
geocronologia radiométrica. Datação
temos de conhecer bem essa rocha, tanto no campo (modo de jazida dos minerais e das rochas com base no
decaimento dos isótopos radioativos
e relações com as rochas vizinhas) como no laboratório (natureza dos presentes.
seus minerais, composição química, texturas). Nem todas as rochas (e
minerais) se prestam a uma datação radiométrica; verás porquê mais
adiante, ao analisares a geologia de Timor-Leste.

Figura 1.16 Espectrómetro de Massa (TIMS - Thermo Ionisation Mass Spectrometer) no


Laboratório de Geologia Isotópica (LGI) da Universidade de Aveiro (Portugal).

Os tempos em Geologia: relativo e absoluto | 25


1.3 Tabela Estratigráfica
A reconstituição da história da Terra conduziu a uma necessidade: a de caraterizar e posicionar determinadas
sequências estratigráficas, originadas num determinado período de tempo. Surge, assim, a Tabela Estratigráfica,
que permite estabelecer o ordenamento temporal dos acontecimentos geológicos e biológicos e relacioná-los
com outros. E, como tens vindo a estudar, também aqui a principal dimensão é o tempo.

? Qual é o calendário geológico? Permitirá a Tabela Estratigráfica situar uma dada


sequência de rochas no contexto da história da Terra, independentemente do local
estudado e do tipo de litologia que a constitui? Quais são os critérios para construir
a Tabela Estratigráfica?

Ao longo deste subtema vais encontrar resposta para estas questões. O trabalho que desenvolveres vai ajudar-
-te a construir conhecimentos e a adquirir competências que te permitirão atingir as metas de aprendizagem
definidas no programa da disciplina.

Conceitos-chave Metas de aprendizagem


• Tabela Estratigráfica • Explica os critérios usados na construção da Tabela Estratigráfica.
• Localiza, na escala de tempo geológico, acontecimentos que
marcaram a história da Terra e da vida.

26 | O tempo dos geólogos


Existem hoje numerosas datações de rochas e de minerais cuidadosamente selecionados; eles funcionam, na
versão atual da Tabela Estratigráfica, como os marcos quilométricos nas estradas. Mas a situação é diferente para
o Precâmbrico e para o Fanerozoico.
No Fanerozoico, a abundância dos fósseis permite estabelecer, naquela tabela, divisões cada vez mais finas que
as datações radiométricas procuram quantificar (ver coluna estratigráfica geral no final do manual).
Para o Precâmbrico, a carência de fósseis complica muito a datação. As datações radiométricas tornam-se ainda
mais importantes; mas têm de ser acompanhadas pelo difícil estudo de rochas geralmente muito deformadas e
metamorfizadas (ver coluna estratigráfica geral no final do manual).
Uma observação atenta da moderna Tabela Estratigráfica (Figuras 1.17 e 1.18) revela alguns aspetos importantes
em que deves meditar:

Milhões de anos
542 500 435 410 360 300 251 205 135 65,5 24,5 1,65 1,8
Era Paleozoica Era Mesozoica Era Cenozoica

Milhões de anos
4600 4000 3500 3000 2500 2000 1600 1000 542
Precâmbrico
Hadeano Arcaico Proterozoico Fanerozoico
(informal)
Supercontinente UR
(12 a 16% da crusta
atual)

Supercontinente
Formação da Terra

Consoliação das
rochas mais antigas
que se conhecem

Kenorlândia
Estromatólitos

Paleoproterozoico Mesoproterozoico Neoproterozoico


Início da fragmentação
do Supercontinente
Kenorlândia
(Tectónica de Placas)

Supercontinente

Início da fragmentação
do Supercontinente
Columbia

Supercontinente

Supercontinente
Columbia

Pannótia
Rodinia

Figura 1.17 Escala do tempo geológico.

Problematizar
Como se interpetra a Tabela Estratigráfica?

Atividade 1.11

Com base na interpretação da Figura 1.18, responde às questões que se seguem:


1. Indica o período em que se verificou a extinção de maior número de espécies marinhas.
2. Calcula o número de milhões de anos que separam, aproximadamente, o aparecimento dos primeiros anfíbios e o
aparecimento dos primeiros mamíferos.
3. Condensa, agora, os 4600 Ma de idade da Terra num ano (365 dias).
3.1. Determina a quantos milhões de anos corresponde um dia.
3.2. Em que mês e durante quantos dias, existiram os dinossauros?
3.3. Há quanto tempo apareceu o Homo sapiens?
3.4. Procura argumentar favoravelmente e contra a utilização de uma escala como a que fizeste.

Tabela estratigráfica | 27
2 500 000 a.C. 3 000 a.C. 476 1453 1789
Idade Idade
Pré-história Antiguidade Idade Média
Moderna Contemporânea

Milhões de anos
542 488 444 416 359 299 251 200 145 65.5 23 2,6
Era Paleozoica Era Mesozoica Era Cenozoica

Câmbrico Ordovícico Silúrico Devónico Carbónico Pérmico Triásico Jurássico Cretácico Paleogénico Neogénico Quaternário
Diversificalção da vida marinha
aparecimento de trilobites e esponjas.

Aparecimento dos hominídeos.


Diversificação dos mamíferos.
Extinção dos dinossauros e de 50% das
espécies marinhas.
Diversificação das gimnospérmicas
grandes répteis e mamíferos.
Aparecimento de tubarões e dos
vertebrados terrestres (anfíbios).

Aparecimento dos répteis e fetos.

Répteis e trilobites.
Extinção de 30% das famílias de animais,
incluindo peixes primitivos.

Aparecimento dos mamíferos.


Extinção de 50% das famílias de animais,
incluindo 95% das espécies marinhas.
Aparecimento dos peixes, medusas e
corais. Extinção de 50% das famílias
animais, incluindo trilobites.

Aparecimento das aves, amonoides e


grandes répteis.
Extinção de 35% das famílias animais,
incluindo muito répteis.
Aparecimento das plantas terrestres (com
esporos) e peixes com maxilas. Extinção de 25%
das famílias animais, incluindo organismos recifais.

grandes extinções

Figura 1.18 Escala de tempo geológico dos últimos 542 Ma.

1. A geologia, ciência histórica - A Terra é um planeta muito velho, e a


geologia é uma ciência muito histórica. Isto quer dizer que uma rocha
(ex.: calcário, micaxisto…) ou uma estrutura (ex.: dobra, falha…), para
serem compreendidas têm de ser localizadas no espaço e no tempo.
O problema é que as grandes transformações geológicas são muito
lentas. Por isso os geólogos tiveram de arranjar uma nova unidade de
medida: o milhão de anos (Ma).
2. A idade da Terra – As rochas mais antigas, que hoje se conhecem, têm
uma idade radiométrica de 4000 Ma. Algumas, raras, contêm cristais
Zircão de zircão ainda mais velhos, com idades radiométricas que parecem
Mineral de silicato de zircónio, do atingir os 4400 Ma (é preciso algum cuidado com estes números).
sistema tetragonal. A sua fórmula
química é ZrSiO4. Tem fratura Todas estas rochas são metamórficas, logo resultam de rochas mais
conchoidal, dureza 7,5, densidade 4,6 velhas. Por isso, a “formação” da Terra será anterior à idade daqueles
a 4,7 e brilho resinoso a adamantino.
Pode ter cores variadas, desde incolor zircões; mas a idade da Terra só pode ser calculada indiretamente (por
a vermelho e é um mineral acessório
considerações teóricas sobre os isótopos de chumbo e comparações
de algumas rochas plutónicas (granitos
e sienitos, por exemplo) ou de rochas com os meteoritos). A idade hoje aceite é de 4560 Ma (± 70 Ma),
sedimentares (arenitos).
estabelecida em 1953 por Clair Patterson. Mas idade de quê,
exatamente? De um planeta com as dimensões atuais? De um planeta
mais pequeno do que o atual? O que te parece? Ou achas que ainda
não tens conhecimentos suficientes para te pronunciares?
3. A grandeza do Precâmbrico – O Fanerozoico é por excelência o domínio
da geologia clássica. O Precâmbrico foi sempre um “período” bastante

28 | O tempo dos geólogos


misterioso; mas até meados do século XX era por vezes considerado de menor importância. As datações
radiométricas vieram mostrar o contrário: o Precâmbrico representa quase 9/10 da história da Terra. O seu
estudo é difícil, mas promissor.
4. Tempo histórico e tempo geológico – Será que já consegues entender agora a imensidão do tempo geológico?
Talvez sim e talvez não. Aqui vai uma ajuda. Imagina uma barra com 1 km de comprimento. Agora recorda os
numerosos povos e acontecimentos que ficaste a conhecer na disciplina de História. Pois bem, toda a história
que aprendeste caberia nos últimos dois milímetros daquela barra! Se incluires a Pré-história, os últimos
50 cm chegariam! O resto da barra corresponde ao tempo dos geólogos.

Problematizar
Como investigar a escala de tempo geológico?

Atividade 1.12

Examina a relação de acontecimentos, abaixo, e decide como representá-los numa sequência ordenada de tempo. Usa
o rolo de fita de papel, a fim de poderes construir o modelo gráfico.
Idade dos acontecimentos:
1. As mais velhas rochas conhecidas: 4000 Ma
2. Começo do Câmbrico e primeiros fósseis abundantes: 542 Ma
3. Primeiros répteis: 359 Ma
4. Primeiros mamíferos: 251 Ma
5. Primeiras aves: 199 Ma
6. Primeiros hominídeos (Género Homo): 2 Ma
7. Fim da última glaciação: há 10 000 anos.

Síntese
• O tempo para cada um de nós é uma evidência familiar mas não é fácil de definir. Simplesmente, existe!
Apercebemo-nos dos seus efeitos sobre as pessoas e os objetos. Tudo se encontra submetido ao tempo e
acaba por ter fim. O nosso cérebro está preparado apenas para abarcar uma certa dimensão ou medida do
tempo, em consequência da duração média da vida humana. Para que se torne menos complexo, medimos o
tempo. Fazemo-lo com marcas da nossa vida (ex.: acontecimentos) ao longo de um eixo (ou friso) cronológico
ou com instrumentos (ex.: relógios).

• A história da humanidade é, por isso, contada pelo mesmo processo. Não apenas a soma aritmética de anos
sobre anos (divisões temporais), mas descrevendo-a com grandes acontecimentos que marcaram esses
períodos de vida: o aparecimento da escrita (Antiguidade); o fim do Império Romano do Ocidente (Idade
Média); a queda do Império Romano a Oriente (Idade Moderna); e a Revolução Francesa (que assinala o
início da Idade Contemporânea).

• Para acontecimentos muito mais antigos que a própria existência humana (tempo histórico), não existe
memória que nos valha. Existe outro tipo de registos que nos permitem inferir sobre a duração do tempo. A

29
história da Terra (tempo geológico) preocupou, desde cedo, muitas pessoas, quer fossem através de escritos
oficiais ligados à religião (ex.: hindus, cristãos), quer fossem matemáticos e naturalistas (ex.: Conde de Bufon).
Os métodos usados, face às limitações do conhecimento e tecnológicas, não eram os melhores, pelo que os
valores apresentados ficaram longe da realidade atual. Mas o que contou foi a intenção de compreender a
Natureza e de explicá-la.
• Existem dois tipos de datação das rochas: datação relativa e datação absoluta. A datação relativa é realizada
com base na posição relativa das formações geológicas ou na presença de fósseis de idade. A datação
absoluta procura determinar o valor da duração dos acontecimentos; é feita à base dos elementos radioativos
constituintes das rochas.
• Os minerais que constituem as rochas possuem elementos radioativos, cuja desintegração é feita em velocidade
constante. Mediante o conhecimento dessa variável e das quantidades de elementos radioativos presentes
nas rochas, é possível, com processos químicos e tecnológicos complexos, determinar a idade absoluta
das rochas.
• A história do homem marca-se pela ocorrência de acontecimentos que assinalam determinados momentos
(por exemplo, a II Grande Guerra Mundial, o Renascimento, a Revolução Industrial). Do mesmo modo, a
história da vida é marcada pelo aparecimento, transformações, declínio e extinção de numerosos grupos de
animais e de plantas. Na história da vida existe uma sucessão de acontecimentos com expressão ao nível
do planeta, como sejam grandes períodos de extinção, seguidos de renovação significativa da fauna ou da
flora. As causas para estes fenómenos são variadas, mas é precisamente esta sucessão de povoamentos que
nos permite datar as formações geológicas, uma relativamente a outras e estabelecer uma escala de tempo
geológico.
• A Tabela Estratigráfica surge da necessidade de se estabelecer uma sucessão cronológica de certos acon-
tecimentos geológicos e biológicos. É um método de datação bioestratigráfico. A escala de tempo geológico
encontra-se dividida em unidades cronoestratigráficas, integradas num sistema hierárquico, que inclui o
Sistema, Série e Andar. Para cada unidade cronoestratigráfica, define-se uma unidade geocronológica: Era,
Período, Época e Idade.

Questões em Aberto
• Os meteoritos, que contêm isótopos radioativos, têm fornecido evidências de que a Terra é muito antiga.
Como é que a idade dos meteoritos pode ser comparada com a das rochas mais antigas encontradas na crusta
terrestre?
• Existem duas linhas de pensamento nas explicações propostas para a extinção de grandes grupos de fauna
e flora: uma linha catastrofista e outra não catastrofista. Ambas se apoiam em factos e evidências. Será que
coexistem, de facto, estas duas linhas ou as extinções devem-se a outros aspetos não conhecidos?
• Será a Tabela Estratigráfica de 2011, da International Comission on Statigraphy, a versão final que traduz a
verdadeiro calendário geológico?

Sítios Web úteis


http://deeptime.info/
http://e-geo.ineti.pt/edicoes_online/diversos/guiao_fosseis/capitulo4.htm

30 | O tempo dos geólogos


http://fossil.uc.pt/pags/escala.dwt
http://geomaps.wr.usgs.gov/common/geochronology.html
http://metododirecto.pt/geopor/
http://paleobiology.si.edu/geotime/main/
http://www.fossilmuseum.net/GeologicalTimeMachine.htm
http://www.geoiberia.com/geo_iberia/ayuda/tiempo_geolog.htm
http://www.pbs.org/wgbh/evolution/change/deeptime/
http://www.stratigraphy.org/
http://www.youtube.com/watch?v=Ap65_EpIn7Y&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=TigQllcmwA4
http://www.youtube.com/watch?v=uxGvbNbAdGA

Avaliação
1. Os intervalos de tempo tanto podem ser comparados como medidos por intermédio de relógios. Quando
avaliaste um intervalo de tempo na sala de aula (Atividade 1.1), de que modo consideraste o tempo? Como
se denomina esse tipo de tempo?
2. Numa sequência ordenada de acontecimentos, o evento A precedeu o B que, por sua vez, precedeu o C.
O evento D, contudo, precedeu o B mas seguiu-se ao A. Representa estes acontecimentos na ordem de
ocorrência, num friso cronológico.
3. Considera-se a transformação um aspeto dos acontecimentos. Indica alguns acontecimentos que não
envolvam transformação.
4. Observa com atenção a figura que se segue, que representa quatro séries estratigráficas acessíveis em quatro
distintas localidades: A, B, C e D.

A B C D

4.1. É possível relacionar as quatro séries estratigráficas entre si. Desenha no teu caderno as quatro séries,
mantendo a sua posição relativa. Usando um lápis, e com tracejado, representa essa relação entre
as camadas.
4.2. Atribui números a cada camada. Ordena as camadas cronologicamente e indica qual foi a primeira a
depositar-se.
4.3. Que podes concluir quanto à idade absoluta de cada camada?

31
4.4. A terceira camada a depositar-se na localidade D apresenta-se inclinada relativamente aos demais.
Aponta uma causa provável para este fenómeno.
4.5. Qual o nome da superfície de contacto entre os terceiro e quarto estratos da localidade D?
5. A determinação dos tempos geológicos relativo e absoluto será importante para os geocientistas? Fundamenta
a tua resposta.
6. Como podes, agora, definir o tempo?
7. Para além da sequência cronológica, que tipo de informação pode ser obtida através do estudo dos anéis das
árvores?
8. Define o período de semivida. Todos os isótopos radioativos têm a mesma semivida?
9. Analisa o gráfico que se segue. Considera que os dados representados são relativos à desintegração do
isótopo-pai U-235 no isótopo-filho Pb-207.

9.1. Supõe que num cristal de zircão existe 75% de U-235. Determina a percentagem de Pb-207 no cristal.
9.2. Indica a fração de semivida relativa à situação descrita na questão anterior.
9.3. Calcula a idade do referido cristal.
10. Realiza uma pesquisa na Internet, completando os espaços em branco, numa tabela que deves construir no
teu caderno, semelhante à que a seguir se indica.
10.1. Assinala com um X, no quadro que se segue, a idade da Terra determinada em cada momento:
Idade da Terra James Ussher William Thomson Thomas Huxley Atualidade
4004 anos a.C.
Mais de 90 Ma
4 560 Ma

10.2. Faz no teu caderno a correspondência de cada uma das letras - A, B, C, D, E e F - aos respetivos cientistas.

32 | O tempo dos geólogos


A datou a idade da Terra num intervalo entre 20 e 90 Ma. B
negou que a Terra só tivesse 90 Ma. Lord C datou a idade da terra a partir do
tempo que demoraria a arrefecer uma bola como um planeta. O geólogo D
duvidava que a Terra tivesse uma idade inferior a 6000 anos. A radioatividade foi descoberta por
E . F datou a idade da Terra a partir, em grande
parte, da idade dos Patriarcas Judios que aparecem na Bíblia.
11. As camadas de areia de uma praia contêm, algumas vezes, cristais de zircão. Explica se o zircão pode ser
usado, com precisão, para datar as camadas de areia em que se encontra.
12. Observa o gráfico que se segue, que representa a evolução do número de famílias de organismos marinhos
durante os últimos 600 Ma.

12.1. Compara o número de famílias existentes entre o final do Mesozoico e o início do Cenozoico.
12.2. Indica o nome do período de tempo a que corresponde a maior extinção de organismos.
12.3. Determina o número aproximado de famílias extintas durante o período de tempo referido na resposta
anterior.
12.4. Delimita, no tempo, a existência de extinções de menor expressão.
12.5. Durante o Cenozoico, Jurássico, Cretácico, Triásico e Pérmico existiu intensa atividade vulcânica, assim
como testemunhos de impactos meteoríticos.
12.5.1. Explica a relação entre estes factos e as extinções em massa.
12.5.2. Quais são as hipóteses que estes factos pretendem evidenciar no que diz respeito às grandes
mudanças na biodiversidade?
13. Associa as frases-chave da coluna I às afirmações da coluna II.
Coluna I Coluna II
Permite sequenciar cronologicamente as diferentes
(1) Datação relativa (A)
camadas de rochas.
Possibilita a avaliação da rigidez das rochas das diferentes
(2) Datação radiométrica (B)
camadas.
(3) Datações relativa e radiométrica (C) Tem em consideração a sobreposição de camadas.
Baseia-se no decaimento radioativo de certos elementos
(4) Nem datação relativa nem radiométrica (D)
químicos existentes nas rochas.
Permitiu conhecer a idade das rochas mais antigas da
(E)
superfície terrestre.
(F) Contribui para a elaboração de escalas do tempo geológico.

33
Os fósseis são um testemunho importante para a definição das
paisagens geográficas do passado.
Para além deste tipo de informação, os fósseis também ajudam à
reconstrução dos ambientes originais de deposição de uma rocha.
A unidade A LIÇÃO DOS FÓSSEIS constitui-se como um importante
momento para estudares a vida do passado da Terra e o seu
desenvolvimento ao longo do tempo geológico, bem como os
processos de integração da informação biológica no registo
geológico.
Tal como sucede com a biodiversidade, a geodiversidade é o
valor máximo a proteger relativamente à geologia, mais do que o
próprio património geológico.
E tu, enquanto cidadão de Timor-Leste e do Mundo, estás
consciente desta responsabilidade e disposto a assumi-la?
Unidade Temática 2 | A lição dos fósseis

2.1 Fóssil: registo de vida passada


2.2 Flora e fauna como memória do tempo geológico
2.3 Fósseis vivos e evolução
Unidade Temática 2 | A lição dos fósseis

2.1 Fóssil: registo de vida passada


Desde os tempos antigos que muitas pessoas viam em algumas rochas
a presença de objetos que tinham a forma de conchas e de ossos de
animais, ou a de plantas e de sementes. Estas formas criaram muita
curiosidade e estimulavam a imaginação, na procura de uma explicação
para estes achados: artes mágicas, influência das estrelas, ou coisas do
diabo. Mas a verdadeira explicação do seu significado apenas começou
por ser sugerida a partir do século XVI, com muitos estudiosos, dentre os
quais se destaca Leonardo da Vinci (1452-1519).

? O que é um fóssil? Quais são os processos que conduzem à


sua formação? Que informação podemos retirar dos fósseis?

Ao longo deste subtema vais encontrar resposta para estas questões. O trabalho que desenvolveres vai ajudar-
-te a construir conhecimentos e a adquirir competências que te permitirão atingir as metas de aprendizagem
definidas no programa da disciplina.

Conceitos-chave Metas de aprendizagem


• Fósseis de idade • Explica os principais processos de fossilização (marcas, impressões,
• Fósseis de fácies mineralizações, incrustações e mumificação).

• Fóssil • Planifica e realiza atividade laboratorial, teoricamente enquadrada,


para simular a formação de fósseis, e analisa criticamente os
• Paleontologia procedimentos e resultados obtidos.
• Processos de fossilização • Relaciona a formação de fósseis com as condições físicas, químicas e
biológicas dos ambientes em que se formaram.
• Distingue fósseis de idade de fósseis de fácies.
• Ordena acontecimentos relativos a processos de fossilização, de
acordo com a sequência em que estes ocorreram na natureza.

36
Problematizar
O que seriam, de facto, os objetos “estranhos” no interior das rochas observados
no passado?

Atividade 2.1

Realiza a atividade que se segue, que te ajudará a dares a resposta à questão anterior.
Materiais: argila para modelar (também designada, vulgarmente, por barro).
1. Modela em argila, com as tuas mãos, uma rodela larga e alta, como se tratasse de uma
grande bolacha.
2. Pede a um colega da sala que faça uma marca com a sua mão no barro e observa o
resultado.
3. Faz um desenho da mão que o teu colega usou para fazer a marca na argila e um outro do
que observaste. Compara os dois desenhos.
4. Os desenhos são muito diferentes ou são muito semelhantes? Em que diferem?

Na atividade anterior observaste que a forma produzida na argila pelo teu


colega tem grandes semelhanças com a mão que ele usou para a definir.
Consegues explicar porquê? De facto, trata-se de uma reprodução do Fabio Colonna
objeto e daí as afinidades na forma. (1567-1640)
Filho de um filólogo
As formas de animais e plantas que os antigos observaram nas rochas, e antiquário
e sobre as quais especularam, eram também impressões ou marcas de italiano, que se
interessou pelos
seres vivos, testemunhando a sua existência no passado. São fósseis. autores antigos de
medicina, botânica
e história natural.

? O que são fósseis?


Nicolau Steno
(1638-1686)
Anatomista
dinamarquês. É
considerado um
Fóssil dos fundadores da
estratigrafia.
No século XVII publicaram-se importantes trabalhos, onde se comparavam
as formas fósseis com os organismos análogos viventes. Em Itália, Fabio
Colonna, no período entre 1606 e 1616, estudou as formas de animais
em rochas, encontrando evidências das suas origens orgânicas. No
mesmo país, outros estudiosos, dentre os quais se destaca Nicolau Steno,
identificaram corretamente objetos, supostamente mágicos, designando-
-os de glossopetrae (ou “ línguas de pedra”), correspondendo a dentes de
tubarão (Figura 2.1). Figura 2.1 Fóssil de dente de tubarão
(Carcharodon magalodon) (Neogénico).
Este conhecimento permitiu aos estudiosos da época definir o conceito
de fóssil, como sendo qualquer resto ou vestígio de vida em tempos
Fóssil
geológicos passados. Pode ser uma pegada de dinossauro (Figura 2.2),
Resto ou vestígio de seres vivos
uma concha de braquiópode (Figura 2.3) ou o tronco de uma árvore do passado, conservado nas rochas de
que foram contemporâneos.
(Figura 2.4).

Fóssil: registo de vida passada | 37


B

Figura 2.3 Fóssil de Spirifer piritizada.


(Devónico).
A

Figura 2.2 (A) Pegada de dinossauro. (B) Trilho de dinossauro. Figura 2.4 Fóssil vegetal.

Paleontologia A ciência que se ocupa dos estudo dos fósseis designa-se de Paleontologia
Ciência complementar da e os cientistas que os estudam de Paleontólogos.
geologia que se ocupa dos seres do
passado através dos fósseis.

Paleontólogo
O m.q. paleontologista. Cientista que
se ocupa da paleontologia.

Problematizar
Como se terão formado os fósseis?

Atividade 2.2

Lê, com atenção, o texto que se segue, escrito por Leonardo da Vinci:
Nas planícies italianas onde hoje os pássaros voam em bandos, os peixes vagueavam outrora, em
grandes cardumes; para nós é suficiente o testemunho de formas próprias de águas marinhas que,
atualmente, se encontram nas altas montanhas longe do mar.
Citado em H. Read (1976)
1. Que tipo de método utilizou Leonardo da Vinci nas suas observações?
2. Da Vinci tinha-se familiarizado com os processos em curso no leito dos rios e ao longo do litoral marinho. Qual terá
sido a importância desta experiência para a compreensão da formação dos fósseis?

38 | A lição dos fósseis


Problematizar
Que tipo de marcas fossilizadas podem surgir e como se formam?

Atividade 2.3

Reúne os seguintes materiais: argila (ou plasticina);


uma concha (ou um osso ou ramo de árvore);
substância gordurosa (azeite ou vaselina); gesso;
pincel (ou espátula); vareta de vidro; copo de
reação (ou um copo de plástico vazio); água; pincel.
1. Amassa o bloco de argila para elaborar um
molde com 1-2 cm de espessura e com uma
superfície ligeiramente maior que o objeto que
vais usar.
2. Unta com azeite a parte externa do objeto. Pressiona o molde de argila com o objeto até que
fique suficientemente introduzido nela. Retira, de seguida, o objeto com cuidado.
3. O que observaste depois de teres retirado o objeto?
4. Explica como se formaram as impressões registadas na argila.
5. Procura, agora, explicar como ocorrerá este processo na Natureza. Que condições serão necessárias?
6. No copo coloca cerca de 2 cm de altura de água e
prepara um pouco de gesso. Mexe lentamente com a
vareta e não deixes que solidifique. Procura obter uma
pasta semelhante a um creme com a consistência do
iogurte original.
7. Unta com azeite a marca impressa no molde de
argila. Verte, em seguida, o gesso fluido até que cubra
totalmente a impressão. Espera que seque durante 20
minutos. Desenforma o gesso.
8. Compara o molde de gesso com aquele impresso na argila. Regista as diferenças e semelhanças entre si.
9. Será que na Natureza se formarão estes moldes? Em que condições?
Obs.: podes realizar a atividade usando folhas de árvores, por exemplo, de eucalipto ou tamarindo. Muitos dos
“fósseis” expostos em museus (por exemplo, de dinossauros, hominídeos) são, também, moldes. Em casa
podes colorir com aguarela as tuas réplicas de fósseis.

Leonardo da Vinci foi um dos estudiosos, como se disse, que inspecionou Leonardo da
numerosas escavações em rochas fossilíferas e observou os processos Vinci (1452-1519)
Uma das
em curso na Natureza no seu tempo. Todas as informações que recolheu personalidades mais
conduziram-no ao conceito do que atualmente se designa por processo importantes do
Renascimento.
de fossilização.

Com os resultados da Atividade 2.3, podemos inferior alguns dos vários


processos de formação dos fósseis:
Fossilização
1. umas vezes por conservação das partes duras do esqueleto (raramente Processo em que os compostos
orgânicos que constituem o organismo
por conservação das partes moles): morto são substituídos por outros mais
estáveis nas novas condições. Estes
a) esqueleto externo (por exemplo, conchas) É uma situação compostos podem ser calcite, sílica,
caraterística dos invertebrados (Figura 2.5); pirite, carbono, entre outros.

Fóssil: registo de vida passada | 39


Conservação
Uma das modalidades de
fossilização. Os casos de conservação
total dos organismos, mantendo
também as partes moles, são raros,
mas acontecem, por exemplo, com
penas de aves e com os gusanos. Um
tipo particular de conservação total é
o caso dos mamutes incluídos dentro
de gelos siberianos e o dos insetos
Figura 2.5 Fóssil de bivalve, género
englobados em âmbar.
Radiolites. Cretácico.

Esqueleto externo b) esqueleto interno (por exemplo, ossos, dentes). É uma situação
O m.q. exoesqueleto. caraterística dos vertebrados;

Esqueleto interno 2. outras vezes por substituição: as águas de infiltração, ricas em sais,
O m.q. endosqueleto. substituem a matéria orgânica, molécula a molécula (exemplo: madeira
silicificada) (Figura 2.6);
Substituição
3. outras vezes por moldagem. Também aqui intervêm as águas de
Modalidade de fossilização que
consiste na substituição completa da infiltração, mas que não substituem nada; contudo:
substância original que constitui o
organismo por uma outra substância a) o material que constitui o fóssil original é dissolvido e o espaço
mineral contida no sedimento onde o
organismo estava.
vazio é preenchido por novos materiais (calcite, sílica, pirite…).
Assim se originam moldes internos (Figura 2.7), moldes externos
Molde interno e contramoldes.
Molde de superfícies ou de cavidades
interiores de estruturas somáticas ou
de vestígios de atividade orgânica.

Molde externo
Molde de superfícies ou de cavidades
exteriores de estruturas somáticas
ou de vestígios de atividade orgânica.
Os moldes externos são constituídos
pelo material que cobre a superfície
externa de uma qualquer estrutura,
reproduzindo (em negativo) a sua
forma e os seus relevos (a sua
ornamentação).

Contramolde
O preenchimento de um molde
(interno ou externo), dá origem a uma
réplica do elemento original, mas Figura 2.6 Secção de madeira fossilizada, Figura 2.7 Molde interno de concha de
constituída por material distinto do silicificada. Triásico. gastrópode, género Turritella.
inicial: um contramolde.
b) o material original é reforçado pela precipitação de novos minerais
nos poros e interstícios. Podemos falar aqui de conservação?
4. outras vezes ainda por impressão deixada nos sedimentos. Exemplos:
folhas de plantas, pegadas de animais. Estas impressões podem ser

40 | A lição dos fósseis


simples rastos deixados pela marcha dos animais. Designam-se de Icnofóssil
icnofósseis. O m.q. icnito fóssil. Vestígio ou
impressão da existência, presente ou
passada, de um animal, com destaque
para pegadas, ovos, excrementos e
gastrólitos.

A B

Figura 2.8 Dois tipos diferentes de icnofósseis de vertebrados: (A) pegadas de um


dinossauro terópode; (B) pistas senoidais produzidas pelas barbatanas de um peixe
actinopterígeo.
Existem dois conceitos que convém que não esqueças:
1. Como a sedimentação provoca o enterramento dos seres mortos –
protegendo-os da alteração meteórica – a grande maioria dos fósseis
ocorre nas rochas sedimentares (sobretudo marinhas, de grão fino e
de sedimentação rápida, Figura 2.9). Por outro lado, o metamorfismo
(sobretudo médio a forte) e as deformações são desfavoráveis à
preservação dos fósseis. O mesmo sucede com o vulcanismo.

A B C

D E F

Figura 2.9 Fases de fossilização. (A) Uma parte dura de um ser vivo, aqui representado
por um osso de um animal, resiste à meteorização e à deterioração.
(B) Esta porção de osso é limpa num rio e as partículas sedimentares, areia, silte ou argila
depositam-se e cobrem-no. (C) Com o decorrer do tempo, mais material sedimentar é
sucessivamente depositado no topo. As camadas e a referida porção são comprimidas
pelo aumento de peso a que ficam sujeitas. (D) Os minerais da porção inicial são
dissolvidos e retirados, deixando um espaço vazio, isto é uma parte oca - molde. (E) O
espaço é a seguir preenchido por minerais que vêm de rochas vizinhas por percolação.
(F) Movimentos tectónicos, erosão e outros processos vão removendo as camadas
superiores e o fóssil pode vir a aparecer à superfície.

2. O registo fóssil tem duas grandes limitações:


a) é muito incompleto: só uma pequeníssima parte dos seres vivos
consegue fossilizar e, além disso, não ser depois destruída (recorda
as lacunas e as discordâncias);

Fóssil: registo de vida passada | 41


b) é muito desequilibrado: as partes moles, por exemplo, dificilmente
fossilizam.

? Por que é que os geólogos estudam os fósseis?

Para além do prazer de colecionar objetos interessantes, existem duas


razões principais para que os cientistas da Terra estudem os fósseis:
1. alguns fósseis ajudam a datar (e correlacionar) as rochas sedimentares,
mesmo quando fracamente metamorfizadas. São os chamados fósseis
de idade. Um fóssil de idade precisa de ter duas qualidades:
a) ocorrer num intervalo temporal muito curto;
b) ocorrer numa área muito extensa, mesmo que em rochas de
diferente natureza;
2. alguns fósseis ajudam a reconstituir os ambientes do passado. São
Fósseis de fácies os chamados fósseis de fácies. Se forem ao mesmo tempo fósseis de
Fóssil que indica o tipo de idade, tanto melhor; mas não é necessário que o sejam. Apenas temos
ambiente sedimentar da rocha em que
de aceitar que os processos geológicos que hoje atuam produzem os
ficou conservado.
mesmos efeitos que no passado. Por exemplo, os corais modernos
preferem águas quentes e pouco profundas; assim sendo, um coral
fóssil indica-nos que a rocha sedimentar onde se encontra depositou-
-se em águas quentes e pouco profundas. Mas atenção que, por razões
ainda desconhecidas, há hoje corais que vivem em ambientes frios!

42 | A lição dos fósseis


2.2 Flora e fauna como memória do tempo geológico
A documentação paleontológica encontra-se na base da
origem de uma parte das grandes categorias taxonómicas.
Entre os Vertebrados, por exemplo, foi possível
documentar as afinidades de parentesco existentes
entre Répteis e Aves, entre Répteis e Mamíferos, e entre
peixes Crossopterígeos e os primitivos tetrápodes. Se
conseguirmos conhecer as etapas fundamentais da
evolução de muitos tipos de animais e de vegetais, nos
casos em que se deixaram abundantes testemunhos nas rochas, também será possível estabelecer com maior
detalhe os processos evolutivos de categorias sistemáticas inferiores, como a espécie.

? Quais são os principais grupos de fósseis? Em que época


geológica viveram? Que informação nos podem fornecer as
colunas bioestratigráficas?

Ao longo deste subtema vais encontrar resposta para estas questões. O trabalho que desenvolveres vai ajudar-
-te a construir conhecimentos e a adquirir competências que te permitirão atingir as metas de aprendizagem
definidas no programa da disciplina.

Conceitos-chave Metas de aprendizagem


• Amonites • Graptólitos • Identifica grandes grupos de fósseis.
• Belemnites • Hominídeos • Carateriza a evolução dos principais grupos de flora e fauna ao longo
• Braquiópodes do tempo geológico.
• Lamelibrânquios
• Corais • Interpreta colunas bioestratigráficas, mobilizando conceitos de
• Microfósseis estratigrafia e paleontologia.
• Crinoides • Micropaleontologia
• Dinossauros • Pteridófitas
• Equinídeos • Radiolários
• Foraminíferos • Radiolaritos
• Gastrópodes • Trilobites
• Gimnospérmicas

Flora e fauna como memória do tempo geológico | 43


Os fósseis podem dividir-se em macrofósseis e microfósseis. As Figuras
2.10 e 2.11 mostram exemplares colhidos em Timor-Leste.

O que são microfósseis?


São fósseis minúsculos, na sua maioria microscópicos. Podem incluir
fragmentos de organismos maiores. O estudo dos microfósseis
(foraminíferos, radiolários, diatomáceas, esporos, polens…), constitui a
Micropaleontologia Micropaleontologia, que é uma disciplina muito especializada.
Ramo da paleontologia que estuda
os microfósseis animais e vegetais. Foraminíferos
São protozoários, na maioria das vezes microscópicos, reconhecidos
Testa
desde o Ordovícico até à atualidade. Possuem geralmente uma testa. A
O m.q. concha. Os foraminíferos
constroem uma testa extracelular
classificação dos foraminíferos é muito complicada ao nível da espécie.
de material orgânico, compactando Os foraminíferos são fósseis com géneros relativamente abundantes
partículas minerais e carbonato de
cálcio secretado na matriz orgânica. As no Paleozoico (por exemplo, Fusulina no Permo-Carbónico, da qual
testas calcárias são muito importantes a Figura 2.13 representa uma Teca), abundantes no Mesozoico (por
quando são bem preservadas para
obter-se o registo fóssil, além de serem exemplo: Globotruncana no Cretácico – Figura 2.14) e muito abundantes
mais comuns do que se imagina: cerca no Cenozoico (por exemplo: Nummulites, Alveolina – Figura 2.12,
de 40 000 das 45 000 espécies descritas
atualmente de foraminíferos são Globigerina). São muito importantes para o conhecimento geológico de
espécies fósseis. Timor-Leste.
Alguns calcários são formados por restos de testas de foraminíferos: é o
caso das célebres pirâmides do Egito (calcários com Nummulites – Figura
2.15). Nem todos os foraminíferos são microscópicos; os Nummulites, por
exemplo, com a sua forma típica de moeda, podem atingir os 5-6 cm de

Figura 2.10 Formação de Cribas Figura 2.11 Formação de Maubisse


(Pérmico). (Pérmico).

secção transversal secção meridiana


Figura 2.12 Esquema de Alvelina ovoidea Figura 2.13 Fusulina (Pérmico). Esquema Figura 2.14 Esquema de Globotruncana
(Eocénico). da teca, enrolamento plano espiralado sp. (Cretácico Superior).
fusiforme.

44 | A lição dos fósseis


Figura 2.15 Estrutura da carapaça de um
Nummulites.

diâmetro. A sua abundância é tal no Paleogénico que este período é por


vezes designado por Numulítico.
Os foraminíferos são muito utilizados pelos geólogos do petróleo como
fósseis de idade para o Mesozoico (por exemplo: Globotruncana) e
para o Cenozoico (por exemplo: Globigerina). E porquê? Porque, sendo Radiolários
muito úteis na datação e na correlação das camadas sedimentares, são Protozoários marinhos, pelágicos
(região oceânica onde vivem
suficientemente pequenos (e abundantes) para serem recolhidos nos normalmente seres vivos que não
tubos de sondagem. dependem dos fundos marinhos), de
esqueleto silicioso (opala).
Radiolários
Radiolarito
Tal como os Foraminíferos, os Radiolários (Figuras 2.16) são protozoários
O m.q. cherte radiolarítico. Rocha
pertencentes à Classe Sarcodina. A sua testa, complexa e siliciosa, tem siliciosa biogénica, coesa, dura, de
geralmente espículas. A sílica é insolúvel na água do mar; por isso, os granulado muito fino e coloração
variável (branco, vermelho, verde,
esqueletos dos Radiolários podem acumular-se a profundidades onde preto). É essencialmente formada por
as conchas calcárias são dissolvidas. Algumas rochas sedimentares são acumulação de restos esqueléticos
(opala) de radiolários, fonte de sílica
praticamente constituídas por restos de Radiolários: são os radiolaritos que, no decurso da diagénese, toma a
(frequentes, por exemplo, no Cretácico de Timor-Leste). forma de quartzo microcristalino.

Thalassosphaera (A)
Cenosphaera (B) Actinomma (B)
Carposphaera (B)

Cenellipsis (D)
Ellispsoxiphus (C) Staurosphaera (D) Heliodiscus (A)
Rhopalodictyum (C)
Figura 2.16 Radiolários Spumellarios. (A) atual; (B) Miocénico; (C) Jurássico;
(D) Carbónico.

? Ainda existem trilobites? E corais?

Flora e fauna como memória do tempo geológico | 45


Trilobites Trilobites e Graptólitos
Grupo de artrópodes marinhos As Trilobites são um grupo extinto de invertebrados marinhos pertencentes
fósseis do Paleozoico, com interesse na
estratigrafia desta Era. ao mesmo Filo dos insetos, das centopeias e dos caranguejos. O corpo é
Filo segmentado em três partes (cefalão, tórax e pigídio), e daí o seu nome
É um táxon usado na classificação (Figuras 2.17 e 2.18).
científica dos seres vivos,
hierarquicamente abaixo do Reino e O grupo das Trilobites dominou os mares paleozoicos; mas começou a
acima da Classe.
rarear a partir do Devónico e extinguiu-se no final do Pérmico. Os diversos
Cefalão
géneros e espécies são excelentes fósseis de idade.
Constituía a zona anterior da carapaça
das trilobites, incluía os olhos e peças
bucais, mas também boa parte do A B
tubo digestivo, e era inteiriço, não
articulado.

Tórax
Zona intermédia, articulada,
constituída por um número variável
(de dois a mais de 20) de segmentos
idênticos.

Pigídio
O m.q. escudo caudal das trilobites.
Corresponde à zona posterior da
carapaça, que inclui, em algumas
espécies, espinhos e ornamentação Figura 2.17 Trilobite (Ordovícico). Figura 2.18 Segmentos de uma trilobite
variada. O pigídio era, também, uma em vista dorsal.
peça única.
Os Graptólitos (Figuras 2.19 e 2.20) são, igualmente, um grupo extinto de
Graptólitos
animais marinhos. Mas não são fáceis de integrar em nenhum dos grupos
Grupo de invertebrados marinhos,
pelágicos, com grande interesse na taxonómicos conhecidos; há mesmo quem lhes reconheça afinidades com
estratigrafia do Ordovícico e
do Silúrico. os Vertebrados. Cada graptólito é formada por um ou vários rabdossomas;
Rabdossoma estes contêm numerosas estruturas em forma de cálice, chamadas tecas.
Esqueleto colonial escleroproteínico, Os graptólitos são importantes fósseis de idade sobretudo para o
composto por várias cápsulas
denominadas tecas que albergavam os Ordovícico e o Silúrico.
organismos individuais.

Tecas
O m.q. hidrotecas. Estruturas tubulares
que se originavam a partir da sícula
e que no seu interior continham
um zoóide individual. As tecas eram
compostas de colagénio e uniam-se
umas às outras através do nema que
suportava a estrutura.

Corais
O maior recife de coral do mundo é a
Grande Barreira de Recife Australiana,
local de vida marinha muito rica e Figura 2.19 Graptólitos. Figura 2.20 Esquemas de Graptólitos.
diversa, faunística e floristicamente.

Colónias Corais
Nome dado a uma relação ecológica Pertencem ao Filo Cnidaria, que inclui, por exemplo, as anémonas do
harmónica intraespecífica, em que
um grupo de organismos da mesma mar. São basicamente um saco protegido por um exosqueleto cónico ou
espécie formam uma entidade
diferente dos organismos individuais e tubular (Figuras 2.21 e 2.22). Alguns corais vivem em colónias e constroem
todos retiram vantagem.
grandes massas conhecidas por recifes; outros corais são solitários e
Recife de Coral
podem viver em águas mais frias e profundas do que os corais de recifes.
Zona de plataforma carbonatada
construída pela atividade de corais Os corais coloniais (de recife) são bons fósseis de fácies. Alguns corais
em águas quentes e límpidas, pouco
profundas. solitários também são bons fósseis de idade.

46 | A lição dos fósseis


E

A
C D

B
Figura 2.21 Fóssil de coral. Figura 2.22 (A) Porites furcatus; (B) Madrepora verrucosa; (C) Blastotrochus nutrix; (D)
Dendrophyllia ramea; (E) (F) Gorgonia verrucosa.

Problematizar
E se desaparecessem os corais?

Atividade 2.4

Lê com atenção o texto que se segue:


Os recifes de corais formam um ecossistema natural único, com caraterísticas geológicas, ecológicas
e processos biológicos e geoquímicos que lhes asseguram um grande valor científico, ambiental,
económico e educacional. Estes ambientes constituem os ecossistemas marinhos mais produtivos
e de maior biodiversidade, abrigando ¼ de todas as espécies marinhas, constituindo a principal fonte
de alimento e financiamento para muitas populações costeiras de regiões tropicais. Desempenham
um papel fundamental no balanço químico global dos oceanos através da fixação do CO2 atmosférico,
sendo sumidouros através da deposição de carbonatos. As duas grandes ameaças globais aos recifes de
corais, decorrentes das mudanças climáticas, são a elevação da temperatura da água e a acidificação
dos oceanos. Ambos os fatores poderão afetar negativamente as taxas de calcificação dos corais neste
século, e tais reduções já foram observados no Pacífico e no Atlântico nos últimos 25 anos. O aumento
da temperatura da água superficial do mar também causa branqueamento de corais, na ordem de 50% a
80%. O branqueamento tem levado à mortalidade em massa de corais em várias regiões do mundo.
Zelina Leão e Ruy Kikuchi (2011)
1. Quais serão as consequências da morte de corais?
2. Achas que se pode contrariar as grandes ameaças globais aos recifes de corais? Como?

?
Crinoides
Serão os ouriços do mar bons fósseis? O m.q. lírios do mar e comatu-
lídeos. É uma classe de equinodermes.
São animais exclusivamente marinhos
que ocupam todas as profundezas até
aos 6000 metros. Atualmente, a classe
conta com apenas algumas centenas
de espécies mas o registo geológico
Crinoides e Equinídeos mostra uma biodiversidade muito
maior dentro do grupo.
Os Crinoides são Equinodermes com aspeto de flores; desenvolvem-se
Equinodermes
em colónias no fundo do mar. A maior parte das formas fósseis estava
São animais marinhos, de vida livre,
fixada por uma espécie de caule ou pedúnculo formado por discos ou exceto por alguns crinoides que
vivem fixos a um substrato rochoso
artículos. Por cima do caule havia um cálice de onde saíam cinco braços (sésseis) e de simetria radial que
também apresentam sua exceção,
que se podiam subdividir (Figura 2.23). os comatulídeos, que se locomovem
utilizando os braços. Este Filo surgiu no
Os Equinídeos (Figura 2.24) são Equinodermes com uma forma globosa. Câmbrico recente e contém cerca de
7 000 espécies viventes e 13 000
O seu exosqueleto é formado por pequenas placas calcárias, muitas extintas.

Flora e fauna como memória do tempo geológico | 47


Equinídeos
O m.q. equinoides ou ouriços do
mar. Possuem concha rígida globosa,
formada por placas calcárias, coberta
por espinhos. Existem desde o
Ordovícico até à atualidade.

Pedúnculo
Pé flexível de fixação dos crinoides,
circular ou pentagonal, formado por
numerosas peças – entroques.

Cálice
O m.q. teca. Surge no topo do
A B
pedúnculo, provido de braços que
filtram os alimentos da água. Figura 2.23 (A) Abrotocrinus unicus. Crinoide; (B) Aspeto exterior de um crinoide.

A B

Figura 2.24 (A) Eupatagus antillarum. Equinídeo do Eocénico; (B) Estrutura geral dos
equinídeos.

vezes com simetria pentarradial. Nele se distinguem cinco zonas


ambulacrárias, separadas por cinco zonas interambulacrárias. Os
Braquiópodes Equinídeos dividem-se em regulares e irregulares; tanto uns como os
São invertebrados marinhos, outros são bons fósseis de idade para o Cretácico.
bênticos e com duas valvas diferentes:
a valva peduncular (ou ventral) e a Braquiópodes e Lamelibrânquios
valva braquial (ou dorsal) - a mais
pequena. Geralmente fixam-se a um Tanto os Braquiópodes como os Lamelibrânquios são invertebrados
substrato através de um pé carnudo - o
pedúnculo - que sai pela parte dorsal marinhos de concha bivalve; mas as valvas são desiguais nos
da valva peduncular. Lamelibrânquios, contrariamente ao que sucede nos Braquiópodes. Isto
permite distinguir de imediato os dois grupos.
Os Braquiópodes são dos fósseis mais abundantes no Paleozoico, onde
têm interesse como fósseis caraterísticos. Exemplos: Orthis (Ordovícico),
Eospirifer (Silúrico Médio a Devónico Inferior) (Figura 2.25). A Figura 2.26
mostra um esquema referente ao grupo dos Braquiópodos.
A importância dos Braquiópodes diminui a partir do Paleozoico. Ainda
assim, alguns têm certo interesse como fósseis de idade. Exemplos:
Figura 2.25 Eospirifer. Terebratula (Figura 2.27) e Rynchonella (Figura 2.28) para o Jurássico.

48 | A lição dos fósseis


valva peduncular orifício

valva braquial
Figura 2.26 Esquema de um Braquiópode. Figura 2.27 Terebratula (Jurássico).

Figura 2.28 Rhynchonella (Jurássico). Figura 2.29 Exogyra (Cretácico).

Contrariamente aos Braquiópodes, a importância dos Lamelibrânquios Lamelibrânquios


aumenta a partir do Paleozoico, sobretudo como fósseis de fácies. Mas Classe de moluscos de conchas
calcárias bivalves, de cabeça
alguns géneros têm interesse como fósseis de idade. Exemplos: Exogyra rudimentar e brânquias formadas de
lâminas cobertas de cílios vibráteis.
(Figura 2.29) e Hippurites para o Cretácico; Pleriomorphia (Figura 2.30),
Unio, Pecten (Figura 2.31) para o Cenozoico.

Amonites e Belemnites (Cefalópodes)


As Amonites (Figuras 2.32 e 2.33) são os fósseis mais importantes para Amonite
o estudo do Mesozoico (sobretudo Jurássico e Cretácico); são excelentes Cefalópode fóssil surgido no
Triásico e extinto no final do
fósseis de idade. Pertencem, juntamente com as Goniatites do Carbónico Cretácico. Tem grande importância no
estabelecimento da estratigrafia
Superior e as Ceratites do Triásico, ao subgrupo dos Amonoides (moluscos do Mesozoico.
cefalópodes), cuja representação esquemática é apresentada na Figura
Amonoides
2.34. Extinguiram-se no final do Mesozoico.
Grupo de cefalópodes fósseis
A Figura 2.35 mostra uma secção de um Amonoide ainda frequente no com representantes no Devónico
(climenídeos), no Carbónico-Pérmico
final do Mesozoico em Inglaterra. É bastante evidente a sua organiza- (goniatites), no Triásico (ceratites) e no
Mesozoico (amonites).
ção interna.

A reconstituição dos Amonoides é feita por comparação com o moderno


Nautilus (Figura 2.36). O animal crescia acrescentando à concha uma
câmara maior, onde passava a viver; ao mesmo tempo, ia selando (ou
suturando) a câmara anteriormente habitada, por meio de um septo.

Flora e fauna como memória do tempo geológico | 49


Figura 2.30 Pteriomorphia (Cretácico). Figura 2.31 Pecten Gén. (Miocénico).

Figura 2.32 Amonite (Jurássico). Figura 2.33 Ammonitida. Amonite


(Jurássico Médio).

câmaras
linhas de
sutura

abertura
Figura 2.34 Representação esquemática Figura 2.35 Secção de um Amonoide.
de um amonoide.

Figura 2.36 (A) Nautillus. (B) Secção sagital do Nautilus.

50 | A lição dos fósseis


A identificação dos Amonoides baseia-se largamente na forma das suturas Suturas
septais (Figura 2.34): as mais simples ocorrem nas Goniatites, as mais As Goniatites diferem das
complexas nas Amonites. Amonites pelas suas suturas não
rendilhadas e pela posição do canal
As Belemnites (Figuras 2.37 e 2.38) não possuem uma concha externa que liga as câmaras.

como os outros cefalópodes. Pelo contrário, possuem um esqueleto


interno alongado (rostro) em forma de bala. São fósseis bastante comuns
no Jurássico.

Figura 2.37 Belemnites do Carbónico-


-Eocénico.

Strombus
Figura 2.38 Cefalópodes coleóides (Belemnites). A espécie Strombus bubonius,
por exemplo, é um fóssil de idade para
o Tirreniano (Pleistocénico Superior, há
Gastrópodes 100 000 anos).

São moluscos que, no registo fóssil, ocorrem desde o Câmbrico. Alguns


são terrestres, mas a maioria é aquática, quer de água marinha quer de
água doce. Possuem, talvez, mais interesse como fósseis de fácies do que
como fósseis de idade. Mas o seu grande desenvolvimento no Cenozoico
permite que alguns géneros (Conus, Natica, Strombus…) sejam utilizados
como fósseis de idade (Figuras 2.39 a 2.41). A Figura 2.42 mostra vários
tipos de conchas de Gastrópodes.

Figura 2.39 Ruccinoideas. Sedimentos


miocénicos.

Figura 2.40 Natica Gén. (Ordovícico-Quaternário).

2.41 Conoidea (Pliocénico).

Flora e fauna como memória do tempo geológico | 51


Figura 2.42 Vários tipos de conchas de Gastrópodes.

? Quando surgiram as primeiras plantas?

Paleobotânica Tanto quanto hoje sabemos, as plantas terrestres apareceram no


Ramo da paleontologia que estuda Devónico. O estudo dos fósseis vegetais, ou Paleobotânica, é um ramo
os fósseis vegetais, ou seja, os restos de especializado da Paleontologia. Os conhecimentos básicos aprendem-
plantas fossilizadas.
-se na Universidade; mas vale a pena fixar alguns nomes. É que alguns
Pteridófitas géneros adquirem um grande interesse no Carbónico e no Pérmico, por
Grupo de vegetais vasculares sem
estarem na origem de importantes jazidas de carvão (como verás no
sementes.
12º ano).
Gimnospérmicas
São plantas vasculares com frutos não Pteridófitas e Gimnospérmicas
carnosos (frutos sem polpa) e cujas
sementes não se encerram num fruto. As Pteridófitas incluem grandes árvores, tais como Calamites (Figuras
2.43 e 2.44), de tronco anelado, até 12 m de altura; Sigillaria (Figuras 2.45
Gondwana
e 2.46) e Lepidodendron, de tronco não anelado, até 30 m de altura.
O m.q. Gonduana. Significa “terra dos
Gonds, na Índia”. Supercontinente As Gimnospérmicas incluem, entre outros, os géneros Callipteridium
centrado no pólo sul que terá
agrupado, até ao Triásico, os atuais (Figura 2.47) e Glossopteris (Figuras 2.48), este último um fóssil típico
continentes.
do hemisfério sul (ou melhor, do supercontinente Gondwana) e cuja
repartição geográfica foi um dos argumentos utilizados por Wegener na
sua teoria da Deriva Continental.

Figura 2.43 Calamites Gén. Sphenophyta. Figura 2.44 Calamites do Carbónico.

52 | A lição dos fósseis


Figura 2.45 Sigillaria canelada Figura 2.46 Esquema da Sigillaria.
(Carbónico).

Figura 2.47 Callipteridium gigas Figura 2.48 Glossopteris.


(Carbónico).

A Figura 2.49 representa a distribuição estratigráfica de sete grupos de invertebrados fósseis.

Figura 2.49 Distribuição estratigráfica de sete grupos de invertebrados fósseis.

Flora e fauna como memória do tempo geológico | 53


Problematizar
Qual é a distinção dos principais grupos de fósseis ao longo dos tempos?

Atividade 2.5

Observa a Figura 2.49 e responde às perguntas que se seguem.


1. Indica a Era geológica em que surgiram os primeiros Graptólitos.
2. Indica o momento em que começaram a desenvolver-se os Ostracodos.
3. Analisa o período de vida dos Rudistas e dos Ostreídeos. Diz qual deles surgiu primeiro e qual desapareceu mais
tarde.
4. Dos grupos assinalados, refere os que ainda existem atualmente.

Dinossauros
? Qual é a idade dos Répteis?

O m.q. dinossáurio. Grupo variado


de animais membros do clado e da
Superordem Arcossauros. Tornaram-se, Vertebrados
durante 135 Ma, a espécie dominante
do planeta. Durante a primeira Dinossauros
metade do século XX, a maior parte
da comunidade científica acreditava São talvez os mais célebres de todos os fósseis, pelo menos para a
que os dinossauros eram lentos,
generalidade das pessoas. Pertencem ao grupo dos Répteis (o qual
sem inteligência e com sangue-frio.
No entanto, a maioria das pesquisas surgiu no final do Carbónico) e viveram apenas durante o Mesozoico.
realizadas desde a década de 1970
indicaram que estes animais eram Compreendem diversos tipos de animais terrestres:
ativos, com elevado metabolismo e
• Estegossauros (Figura 2.50): couraçados e herbívoros.
com numerosas adaptações para a
interação social. Além disso, muitos
grupos (especialmente os carnívoros)
estavam entre os organismos mais
inteligentes do seu tempo.

Braquiossauros
Dinossauros de grandes dimensões
e herbivoros.

Estegossauros
Dinossauro de tamanho médio,
caraterizado pela presença de um
crânio bastante pequeno.
Figura 2.50 Estegossauro (Jurássico
Superior).
Tiranossauros
• Braquiossauros (Figura 2.51) e Brontossauros: gigantes e igualmente
Os famosos Tyrannosaurus rex eram
carnívoros de grandes dimensões e vegetarianos.
predadores de dinossauros herbívoros.
• Tiranossauros (Figura 2.52): carnívoros.

54 | A lição dos fósseis


Figura 2.51 Brachiosaurus Gén. Dinossauro herbívoro com um pescoço de
cerca de 10m de comprimento.

O Mesozoico é muitas vezes chamado “Idade dos Répteis”. De facto, para


Figura 2.52 Tyrannosaurus Rex (Cretácico
além dos Dinossauros, existiam outros grupos de répteis adaptados à vida Superior).
marinha (Ichthyosaurus – Figura 2.53 e Plesiosaurus – Figura 2.54) e à
vida aérea (Pterossauros). Idade dos Répteis
Expressão por vezes usada como
sinónima de Mesozoico.

Ictiossauro
Réptil marinho de forma hidrodinâmica.

Crocodilo
O crocodilo é um exemplo do grupo dos
réteis.

Figura 2.53 Ichthyosaurus Gén. (Jurássico Figura 2.54 Plesiosaurus. Réptil marinho
Superior). de grandes dimensões (Jurássico
Superior).

? Também haverá fósseis do homem?

Hominídeos
São os maiores primatas. Têm o
Hominídeos polegar e o hallux (o dedo grande do
pé) oponível aos outros dedos (exceto
Todos nós fazemos parte da espécie Homo sapiens. Esta espécie apareceu no género humano) e todos os dedos
têm unhas achatadas.
há cerca de 300 000 anos com o nosso irmão mais velho, o Homo sapiens
neanderthalensis (ou Neandertal). Os Neandertais extinguiram-se algo ADN mitocondrial
misteriosamente há cerca de 30 000 anos, mais ou menos na mesma É um ADN que não se localiza
no núcleo da célula, mas sim na
altura em que surgiram os Cro-Magnons, ou seja os percursores do mitocôndria (organito celular). O ADN
mitocondrial tem sido estudado com
homem moderno (Homo sapiens sapiens). o intuito de investigar linhagens muito
antigas.
A história dos hominídeos (Figura 2.55) baseia-se tanto nos fósseis
(marcha bípede, capacidade craniana, dentição) como na genética (ADN Genoma
mitocondrial e genoma). Ela começa, tanto quanto hoje se sabe, em Corresponde a toda a informação
hereditária de um organismo que está
África, com o género Ardipithecus, no limiar do Pliocénico há 4,4 Ma; este codificada em seu ADN.

Flora e fauna como memória do tempo geológico | 55


Figura 2.55 Hominídeos: uma longa evolução, que se iniciou há cerca de 1 milhão
de anos.

dá lugar, durante o Pliocénico, ao género Australopithecus (Figura 2.56) e este, já no limiar do Quaternário, ao
género Homo: primeiro o Homo habilis, depois o Homo (Pitecanthropus) erectus e finalmente o Homo sapiens
(Figuras 2.57 - 2.59). Um novo fóssil de pé de hominídeo foi encontrado em 2009, na região de Afar, no centro
da Etiópia, vindo revelar que existia uma outra linhagem de hominídeos contemporâneos do Australopithecus
afarensis (a que pertence a famosa Lucy), há cerca de 3,4 Ma. Estes novos elementos reforçam, no entanto, o
que a Ardi já tinha mostrado: o antepassado de chimpanzés, gorilas e humanos (e tudo o que existiu entre estas
espécies), um ser mais antigo que Ardi, viveu há cerca de 10 Ma e não teria o aspeto parecido com os primatas
de hoje, como se pensou durante décadas.

Figura 2.56 Representação de Figura 2.57 Fóssil de Homo habilis.


Australopitecus.

Figura 2.58 Fóssil de Homo erectus. Figura 2.59 Fóssil de Homo sapiens.

56 | A lição dos fósseis


Mas, para melhor se perceber a nossa evolução, os cientistas necessitam de encontrar mais fósseis de esqueletos
de hominídeos É por isso que os números referidos na Figura 2.55 são ainda objeto de discussão entre os
especialistas. O registo geológico, também neste caso, ajuda a compreender alguns aspetos do local há 3,4 Ma,
onde foi encontrado o novo fóssil em 2009: um ambiente aquático, os rios desaguavam numa massa de água
perene, havia floresta à beira da água; o que é consistente com o registo fóssil de uma criatura antepassada que
trepava às àrvores.
Recorda que os hominídeos são vertebrados. A sua conservação é difícil: ossos, quase sempre em fragmentos
soltos e raros. A sua história, apesar de geologicamente recente, é ainda mal conhecida em pormenor.

Problematizar
Como podes encontrar fósseis perto de onde estás?

Atividade 2.6

Vamos ver se consegues encontrar fósseis na região próximo de onde vives. Procura informar-te junto da tua família,
amigos e vizinhas, acerca de locais próximos da tua escola ou da tua casa, onde possam existir afloramentos rochosos
com fósseis. Apresenta a informação que recolheste ao teu professor e juntos poderão programar melhor uma
atividade no campo. Estuda bem o percurso para não te perderes.
Leva contigo roupas e sapatos resistentes, óculos de proteção, água, martelo de geólogo, escopros, bloco de notas,
lápis, lenços ou pedaços de papel e algodão para envolveres os fósseis, sacos de plástico ou de pano com vários
tamanhos.
Procedimentos no campo
• Procura ir acompanhado por um adulto para estares mais seguro.
• Não te esqueças de pedir autorização aos proprietários de locais
vedados.
• Cuidado com as falésias e com a forma como colocas os pés! Podes cair
acidentalmente ou soltarem-se rochas e aleijarem alguém que esteja em
baixo.
• Levanta sempre as rochas com o teu martelo. Podem existir cobras ou
outros animais recolhidos nesses locais, que poderão magoar-te.
• Quanto encontrares um fóssil, retira-o da rocha utilizando um martelo e
um escopro. Procura partir a rocha longe do fóssil para evitares danificá-
-lo.
• Embrulha o fóssil num guardanapo de papel (ou em algodão, conforme
a sua fragilidade) e anota num papel o local (e o tipo de rocha) onde o
encontraste. Coloca tudo dentro de um saco.
Atenção: Procura não destruir os afloramentos e tem presente que também Paleontólogo no estudo dos fósseis
és responsável pela preservação do ambiente. (Cabo Verde)
Procedimentos em casa ou na escola
• Em tua casa, ou no laboratório da escola, podes iniciar o processo de limpeza. Desbasta as extremidades da rocha
que envolvem o fóssil com uma agulha forte. Cuidado para não te ferires!
• Escova os restos da rocha com uma escova de aço e, finalmente, lava o teu fóssil com água e sabão. Enxuga-o com
um pano seco e macio para que fiquem reluzentes.
• No caso de teres fósseis incluindo material argiloso, coloca as rochas num alguidar com água oxigenada (20
volumes). Mexe os sedimentos com um pau para não te queimares. Ao fim de dois dias, retira-os do alguidar e,
usando um passador, lava-os bem em água corrente. Deixa secar tudo de seguida.
• Observa à lupa, com atenção e demoradamente, os teus fósseis.
• Faz um desenho do fóssil observado a olho nu ou à lupa. Usando um guia de fósseis, procura identificar o teu.
Escreve ao lado do desenho que fizeste as caraterísticas descritas no guia.
• Arranja uma caixa de plástico ou de madeira que seja fechada, à medida do fóssil e coloca-o no seu interior. Não te
esqueças de fazer uma etiqueta com a sua identificação.

Flora e fauna como memória do tempo geológico | 57


2.3 “Fósseis vivos” e evolução
Os fósseis constituem a melhor prova do processo de
evolução ao qual estão submetidos os organismos vivos.
Ainda que a documentação paleontológica sobre a vida
em tempos passados esteja muito incompleta, ela é suficiente para demonstrar
que as espécies vivas não são fixas nem imutáveis, mas antes o contrário: são o
resultado de uma longa série de mudanças cuja história é possível ser traçada
por intermédio dos fósseis, reconstruindo com detalhe todo o passado.

? O que é um “fóssil vivo”? Como se relacionam os “fósseis


vivos” com a Teoria da Evolução? Quais são os exemplos de
“fósseis vivos”?

Ao longo deste subtema vais encontrar resposta para estas questões. O trabalho que desenvolveres vai ajudar-
-te a construir conhecimentos e a adquirir competências que te permitirão atingir as metas de aprendizagem
definidas no programa da disciplina.

Conceitos-chave Metas de aprendizagem


• Allonautilos • Distingue fóssil de “fóssil vivo”, dando exemplos.
• Evolução biológica • Relaciona os fósseis vivos com a Teoria da Evolução.
• “Fóssil vivo”
• Ginkgo biloba
• Latimeria chalumnae
• Latimeria menadoensis
• Nautilus

58 | A lição dos fósseis


Problematizar
O que é um fóssil vivo?

Atividade 2.7

Em Dezembro de 1938, pescadores entregues à sua faina, no Oceano Índico, ao largo da costa da África do Sul,
apanharam um peixe estranho que, ao ser içado para bordo, ainda vivo, pouco faltou para que lhes mordesse a mão.
Tinha cor azul-metálica, com quase 1,80 m de comprimento e 80 kg de peso. Revestiam-lhe o corpo escamas grandes
e espessas e barbatanas fortes e carnudas, que usava provavelmente para se deslocar ao longo do fundo do mar.
Notaram um facto curioso: a barbatana caudal tinha dois lóbulos iguais. Tudo isto se passou na foz do rio Chalumna,
um rio que nasce entre Stutterheim e Keiskammahoek (África do Sul) com foz na cidade de Hamburgo, no Oceano
Índico. O peixe foi transportado num navio a vapor para o porto de East London em África do Sul. A diretora do Museu
Nacional desta cidade – Marjorie Courtenay-Latimer – foi de imediato avisada.
Após análise do animal, a diretora do museu formulou uma hipótese, que viria a ser confirmada por um grande
especialista de peixes em África, o Prof. J. L. B. Smith. O peixe pertencia a um grupo que se considerava extinto, o dos
Crossopterígeos. Os registos fósseis mais antigos deste peixe datam entre os 400-360 Ma, enquanto as rochas com os
mais recentes têm cerca de 65-70 Ma. Foi atribuído ao peixe o nome de Latimeria chalumnae.
1. Indica se a Latimeria é um peixe de profundidade, ou de superfície, justificando a resposta.
2. Assinala a data mais recente relativamente ao fóssil Latimeria. Formula uma hipótese para o facto de, desde
então, não se terem encontrado mais fósseis desse peixe.
3. Quais te parecem ter sido os critérios usados para atribuir o nome ao peixe encontrado?

Na atividade anterior ficaste a conhecer algo estranho: a captura de


um peixe que tem formas pertencentes ao género Eusthenopteron,
considerado uma forma ancestral dos vertebrados terrestes, cujo
conhecimento é dado apenas pelo registo fóssil. Trata-se de uma relíquia
de um grupo biológico que floresceu em época geológica passada,
designada de “fóssil vivo”. “Fóssil vivo”
A expressão fóssil vivo tem origem na secção Circunstâncias favoráveis à O m.q. fóssil persistente.
Organismos atuais pertencentes a
seleção natural, incluída na obra de Charles Darwin, na qual ele escreve: grupos biológicos que, no passado
geológico, foram muito mais
É em ambientes de água doce que encontramos sete géneros de peixes ganóides,
abundantes e diversificados que na
relíquias de uma ordem em tempos predominante. E é nesses ambientes que atualidade. São morfologicamente
encontramos alguns dos organismos mais anómalos conhecidos no mundo, tais muito similares a organismos dos
como o Ornithorhynchus e o Lepidosiren, que, tal como os fósseis, estabelecem, quais há, apenas, conhecimento do
registo fóssil. Até há bem pouco tempo,
de algum modo, a ligação entre grupos biológicos agora muito afastados na um outro termo era adotado entre
escala natural. Estas formas anómalas podem ser apelidadas de fósseis vivos, pois a comunidade científica: “formas-
resistiram até à atualidade, devido ao facto de terem habitado áreas confinadas e relíquia”.
por, consequentemente, terem sido sujeitos a uma seleção menos intensa.

A questão da existência de “fósseis vivos”, assim como de “formas de


transição”, na altura quando a Teoria da Evolução de Darwin estava
ainda a dar os primeiros passos, e o conhecimento do mundo biológico e
paleontológico era muito fragmentário, era fundamental para a discussão
e a compreensão dos processos evolutivos. No caso da Latimeria, por
exemplo, o seu estudo proporcionou importantíssimos dados sobre a
anatomia dos Crossopterígeos, que se consideram antecessores de todos
os vertebrados tetrápodes.

“Fósseis vivos” e evolução | 59


A Um dos exemplos mais conhecidos de “fósseis vivos” é, como viste, a
Latimeria chalumnae, que pertence ao grupo dos peixes celecantos (Figuras
2.60A e B). Em 1997, no entanto, a Latimeria foi capturada na Indonésia,
a cerca de 6 000 quilómetros a leste das Ilhas Comores (onde eram
apenas conhecidos os celecantos). Enquanto as amostras da Indonésia
B
se assemelham às do Oceano Índico, as análises de ADN comparativas
mostraram que existe uma diferenciação genética significativa, sugerindo
vários milhões de anos de separação evolutiva. A espécie indonésia foi
nomeada de Latimeria menadoensis.
O Nautilus (Figura 2.36) e o Allonautilos são dois géneros de cefalópodes.
Figura 2.60 (A) Fóssil e (B) reconstrução Pertencem ao grupo dos nautiloides (anteriormente estudados), que se
do celecanto Caridosuctor populosum.
encontram representados na atualidade apenas por dois géneros. Este
grupo foi um elemento muito importante dos ecossistemas marinhos, no
Paleozoico Inferior, havendo um registo fóssil abundante e diversificado.
São também “relíquias”, entre os vertebrados, as Lampreas, os Dipnoos, o
lagarto Sphenodon e os Monotremas.
Entre as plantas, merecem destaque as cicadáceas, de grande interesse
teórico para a filogenia mesozoica, as gnetáceas, pelos seus carateres
intermédios entre as gimnospérmicas e as angiospérmicas, e a Ginkgo
biloba (Figura 2.61), cuja variabilidade da morfologia das folhas é tida em
conta na classificação das que se encontram isoladas em estado fóssil.
O género Ginkgo é conhecido a partir do Jurássico Médio e alcançou o
seu máximo desenvolvimento no Cretácico e no Cenozoico. Atualmente,
sobrevive apenas uma única espécie, conhecida no estado selvagem na
China, tendo sido introduzida na Europa em meados do século XVIII.

Figura 2.61 Folhas atuais de Ginkgo biloba.

Embora as espécies da atualidade possam estar, também, representadas


no registo fóssil recente, os indivíduos atuais (“fósseis vivos”), apesar
de morfologicamente muito similares aos seus parentes conhecidos do
registo fóssil remoto (do Cretácico, no final do Mesozoico, por exemplo, no
caso dos celacantos), não pertencem, exatamente, às mesmas espécies.
Não são, por isso, a mesma entidade biológica.

60 | A lição dos fósseis


Mas, verdadeiramente “fósseis vivos” são as bactérias vivas, encontradas
em estado de vida latente nos sedimentos salinos de Bad Nauheim,
na Alemanha.

? Como se relaciona a evolução biológica e a


paleontologia?

Neste momento, é adequado que recordes algumas aprendizagens da


disciplina de Biologia. Lamarck, no princípio do século XIX, seguindo as Jean- Baptiste
ideias do naturalista francês Geoffroy Saint-Hilaire (1779-1844), propôs Lamarck
(1744-1829)
pela primeira vez, de maneira científica e metódica, em 1808, a teoria da
Naturalista francês
evolução dos seres vivos, na qual o meio ambiente e o uso e desuso dos que desenvolveu
a teoria dos
órgãos assumiam um papel fundamental; mas os argumentos de Cuvier, carateres adquiridos.
cuja autoridade científica era, então, inquestionável, deixou tais ideias Personificou
as ideias pré-
ficarem esquecidas. Estes paleontólogos foram inimigos irreconciliáveis -darwinistas sobre a
evolução. Introduziu
e foi, precisamente, devido ao fervor de cada um em apresentar mais o termo “biologia”.
argumentos que o outro, a favor da sua própria formulação teórica, que
Georges Cuvier
se notabilizou o estudo dos fósseis. Mas nesta época, os fósseis eram
(1769-1832)
considerados evidências contra a ideia da evolução biológica.
Foi um dos mais
Por esta razão, Darwin, ao apresentar a sua teoria alguns anos mais tarde, importantes
naturalistas da
colocou especial cuidado em rebater as anteriores ideias. primeira metade
do século XIX,
Atualmente, a evolução dos seres vivos é fundamentada pela Teoria tendo desenvolvido
métodos e
da Evolução. Considera-se a evolução biológica como o conjunto de programas de
transformações ocorridas através do tempo, que têm originado a pesquisas para várias
áreas da História
diversidade de formas de vida. Estas formas, que hoje existem sobre a Natural.

Terra, desenvolveram-se a partir de antepassados comuns. Charles Darwin


(1809-1882)
Mas a evolução biológica não pode ser submetida, na sua integridade, ao
Naturalista britânico
controlo rigoroso da experimentação, porque intervém um fator decisivo. que alcançou fama
Qual será? Isso mesmo… de novo o tempo. Mas nunca o poderemos ao convencer
a comunidade
aplicar com a mesma amplitude com que atuou no decurso dos tempos científica da
ocorrência da
geológicos. Além disso, a evolução é um processo irreversível e único, evolução e propor
que se realizou uma única vez, sem repetição. Ou seja, não é possível uma teoria para
explicar como ela
reproduzir o processo em condições experimentais nem presencia-lo se dá por meio da
seleção natural e
na atualidade, salvo numa escala muito reduzida. É por isso que assume sexual.
especial interesse os resultados obtidos com o estudo dos seres que
Evolução biológica
viveram em épocas geológicas passadas, durante milhões de anos.
Transformação dos seres vivis ao
Desta forma, a Paleontologia permite-nos assistir como que a um filme, longo do templo, a partir de
antepassados comuns.
o da evolução que ocorreu no mundo orgânico desde os tempos mais
remotos até aos mais recentes. Mas, como já percebeste, existem cortes

“Fósseis vivos” e evolução | 61


nesse filme, pedaços perdidos, que, mesmo assim, nos permitem ter uma boa visão do que sucedeu em todo
esse tempo.

Problematizar
Como investigar a variação e a evolução?

Atividade 2.8

Observa os esquemas de dois modelos de fósseis


representados na Figura que se segue. Correspondem
a duas populações e representam uma tendência
evolutiva. Nesta atividade terás oportunidade de
determinar, por ti mesmo, que tendências evolutivas
podem ter ocorrido, tal como fez Charles Darwin e Alfred
Wallace.
1. Examina os modelos e decide como poderias descrever os fósseis, de modo a definir as suas semelhanças e
diferenças. Discute com os colegas as caraterísticas que podem ser usadas.
2. Faz uma lista das dimensões de cada um dos indivíduos e representa-as num histograma.
3. Descreve as variações entre os indivíduos de cada população. Indica semelhanças evidentes e diferenças.

Síntese
• Os fósseis são restos de seres vivos (dentes, ossos, conchas, …) que, com tamanhos muito variados, povoaram
a Terra num passado geológico. Recebem também essa designação as marcas da sua atividade (ovos,
pegadas, ...). Encontram-se, essencialmente, no interior de rochas sedimentares. A fossilização corresponde
ao processo em que os compostos orgânicos que constituem o organismo morto são substituídos por outros
mais estáveis nas novas condições. O estudo dos fósseis é realizado pelos paleontólogos, construindo a
ciência que se denomina de Paleontologia.
• As partes moles de um ser vivo raramente se conservam. Pelo contrário, as partes duras sofrem um processo
que se passa no interior dos estratos geológicos, conduzindo à fossilização.
• Dentro dos processos de fossilização, distinguem-se: a conservação, a substituição, a moldagem e a impressão
(icnofósseis).
• Um fóssil com grande distribuição geográfica e pequena longevidade é um bom indicador cronoestratigráfico,
dizendo-se fóssil de idade. Os fósseis que ajudam a reconstituir os ambientes do passado são os chamados
fósseis de fácies. Os principais microfósseis são: foraminíferos e radiolários. Outros grupos de fósseis
incluem: trilobites e graptólitos, corais, crinoides e equinídeos, braquiópodes e lamelibrânquios, amonites e
belemnites e gastrópodes. Existem, também, fósseis de plantas (por exemplo, pteridófitas e gimnospérmicas)
e de animais vertebrados (por exemplo, dinossauros e hominídeos).
• O estudo dos fósseis permite perceber que as espécies, animais e vegetais, evoluíram ao longo dos tempos.
Porém, algumas espécies fósseis mantêm-se quase imutáveis ao longo do tempo, sendo os fósseis idênticos
às formas vivas atuais.
• Os “fósseis vivos” correspondem a grupos biológicos que floresceram em épocas geológicas passadas, cujo
estudo proporciona ao paleontólogo dados muito importantes para a interpretação dos fósseis.

62 | A lição dos fósseis


• O estudo dos fósseis permite fazer reconstruções de ambientes originais de sedimentação, partindo-se do
princípio que os fenómenos que ocorrem na Natureza atual são os mesmos que se manifestarem no passado
– princípio das causas atuais.
• A reconstrução das paisagens geográficas do passado, incluindo a definição dos limites dos mares e das terras,
é objeto de estudo da Paleogeografia e recebe um contributo muito importante na Paleontologia.
• O processo de evolução biológica realizou-se paralelamente com a evolução do meio ambiente e, em certo
grau, é consequência imediata desta. A Paleontologia permite fazer a leitura da evolução que ocorreu no mundo
orgânico, desde os tempos mais remotos em que encontramos os fósseis mais antigos, proporcionando-nos
documentos fidedignos, que se constituem como marcos no processo de reconstrução da história da vida
na Terra.
• Apenas algumas regiões apresentam formações com caraterísticas fossilíferas. Quando encontramos fósseis
devemos atuar com cuidado, respeitando a Natureza e procurando que a recolha do fóssil seja bem feita, sem
destruição e com a completa identificação do local.

Questões em aberto
• As circunstâncias (por ex. caraterísticas da atmosfera) e o tempo em que apareceram as primeiras formas de
vida na Terra continuam difíceis de conhecer com certeza. Procura justificações para esta situação.
• Quando, onde e como os diferentes grupos de animais terão desenvolvido as suas partes duras?
• Os paleontólogos verificaram que existiram periodicamente extinções em massa. Como explicar este
fenómeno?
• Como se faz a ligação entre os hominídeos e os primatas?

Sítios Web úteis


http://alfmuseum.org/
http://australianmuseum.net.au/Australian-Museum-Palaeontology-Collection
http://fossil.uc.pt/index.htm
http://museo-paleo.unizar.es/
http://paleo.cc/kpaleo/museums.htm
http://search.eb.com/dinosaurs/dinosaurs/index2.html
http://webpages.fc.ul.pt/~cmsilva/Aulas/Aulaspag/Geofcul2.htm
http://www.educarm.es/paleontologia/intropaleo.htm
http://www.guadalajara.gob.mx/dependencias/museopaleontologia/
http://www.mef.org.ar/
http://www.mnhnc.ul.pt/portal/page?_pageid=418,1&_dad=portal&_schema=PORTAL
http://www.museulourinha.org/pt/paleontologia.htm
http://www.paleontology.lsa.umich.edu/
http://www.paleoportal.org/
http://www.spain.info/pt/conoce/museo/guadalajara/museo_paleontologico_de_san_bartolome.html
http://www.tyrrellmuseum.com/
http://www.ucmp.berkeley.edu/

63
Avaliação
1. Define o conceito de fóssil e explica se podem existir fósseis em rochas magmáticas.
2. O que entendes por fossilização? Dá dois exemplos.
3. Observa a Figura ao lado que corresponde a um fóssil da Turritela.
3.1. Que tipo de processo terá ocorrido na formação deste fóssil? Justifica.
3.2. Define contramolde e icnofóssil.
4 . Quais são as limitações do registo fóssil?
5. Observa a Figura que se segue:
5.1. Ordena os processos represen-
tados em A, B e C de acordo
com a sequência em que estes
ocorreram na Natureza.
5.2. Descreve, sumariamente, cada
processo representado.

A B C

6. O que são fósseis de idade? Dá um exemplo. E de fácies? Apresenta também um exemplo.


7. Charles Darwin estudou muitos fósseis. Observou fósseis coletados de rochas de diferentes idades, que
mostravam mudanças graduais, das mais antigas para as mais recentes.
7.1. Consideras que é possível que os fósseis encontrados nas rochas mais antigas fossem ancestrais dos
encontrados nas mais recentes? Porquê?
7.2. Indica dois argumentos que validem a importância dos fósseis no estudo da evolução da vida na
Terra.
8. Considera as seguintes informações:
Inf. 1 – Um fóssil X teve um período de duração de vida curto, com uma dispersão geográfica muito reduzida.
Apareceu sempre localizado em camadas atribuídas à mesma idade.
Inf. 2 – Um fóssil Z teve um duração longa. Apareceu fossilizado em rochas muito antigas e também nas mais
recentes.
Inf. 3 – Um fóssil W teve uma duração curta. Surge apenas em estratos de determinada idade. Este fóssil foi
identificado em muitas localidades, algumas significativamente distantes das outras.
8.1. Refere quais destes três fósseis (X, Z e W) podem ser considerados fósseis estratigráficos. Justifica a
resposta.
8.2. Indica o nome de um fóssil que seja caraterístico da Era Paleozoica. Poderemos afirmar que esse é
um bom fóssil de idade?
8.3. Como se distingue um fóssil de idade de um “fóssil vivo”?

64 | A lição dos fósseis


9. Constrói uma tabela com as Eras geológicas e associa a cada uma os grupos de fósseis que estudaste.
10. Explica como é que alguns organismos podem contribuir para a reconstrução do ambiente original de
deposição de uma rocha e, até, das condições de temperatura e salinidade das águas. Apresenta um
exemplo.
11. Realiza uma pesquisa na Internet e procura justificar a seguinte afirmação: “as trilobites são excelentes
fósseis de idade”.
12. Dá exemplo de um fóssil do grupo dos gastrópodes, do grupo dos cefalópodes e do grupo dos braquiópodes.
13. Faz corresponder a cada Idade a Era geológica respetiva numa tabela semelhante à indicada a seguir a
qual deves copiar para o teu caderno.
Era Idade dos
Reptéis
Mamíferos

14. A evolução das Trilobites e das Amonites ao longo dos tempos encontra-se representada nos dois gráficos
que se seguem. Analisa-os e responde às questões colocadas.
14.1. Refere o momento em que se
deu o apogeu das Trilobites e
das Amonites.
14.2. Comenta a seguinte afirma-
ção: “os dois grupos não po-
dem ser incluídos na mesma
Era geológica”.

14.3. Indica o grupo onde ocorreu maior variabilidade de formas.


14.4. Consideras que ambos os grupos ainda existem? Porquê?
15. Apesar de muito popular, o termo “fóssil vivo” é informal, estando desprovido de qualquer rigor científico,
pois um “fóssil vivo” não tem qualquer relação direta com fósseis.
15.1. Elabora um texto (no mínimo com 15 linhas) que defenda a utilização do conceito de “fóssil vivo”
como útil/não útil no âmbito da investigação científica (Paleontologia e estudos de evolução
biológica) e da educação (ensinos básico e secundário).
16. Faz uma pesquisa na Internet, em grupos de três alunos e orientada pelo professor, e procura responder
às questões que se seguem:
16.1. Quais serão os fatores responsáveis pela extinção de grupos biológicos?
16.2. Como se explica que o equilíbrio da biosfera tenha existido sempre, reajustando-se ao compasso da
evolução dos grupos biológicos e do meio ambiente?
16.3. Como se poderão relacionar grupos sistemáticos atuais que apresentam ente si diferenças
morfológicas tão notáveis e quase impossíveis de serem associadas?

65
Os conteúdos estudados nesta Unidade Temática vão ajudar-te a
compreender os recursos e procedimentos usados pelos geólogos
na reconstituição do passado da Terra. Para começar, vais ficar a
conhecer quais as principais áreas onde se formam os sedimentos
e as áreas onde estes se depositam, bem como os fatores que
condicionam o ciclo de erosão e os ambientes de sedimentação,
nomeadamente o clima, a litologia e as estruturas geológicas.
Vais ainda estudar as bacias sedimentares, tendo em conta a sua
classificação espacial e evolução temporal; as estruturas, fácies e
sequências sedimentares, com particular destaque para o exemplo
fluvial, o litoral marinho e o turbidítico. Por último, vais estudar
alguns regimes tectónicos, como a dorsal oceânica e o arco insular
Unidade Temática 3 | As reconstituições
do passado

3.1 Áreas-fonte e sistemas de erosão


3.2 Os ambientes de deposição
3.3 Os regimes tectónicos
Unidade Temática 3 | As reconstituições do passado

3.1 Áreas-fonte e sistemas de erosão

À superfície da Terra, podemos distinguir esquematicamente áreas


de erosão e áreas de sedimentação ou de deposição. As áreas
de erosão são as áreas-fonte dos sedimentos; são muitas vezes
regiões montanhosas. Neste subtema vais conhecer melhor as
áreas da superfície terrestre onde se formam os sedimentos, os
processos envolvidos na sua formação e o reflexo dos sistemas de
erosão na modelação da paisagem.

? De onde vêm os sedimentos?


Que efeitos a erosão pode ter na modelação da paisagem?

Estas questões vão orientar o teu trabalho ao longo deste subtema. Os conhecimentos que construíres e as
competências que adquirires vão ajudar-te a alcançar as metas de aprendizagem que se apresentam em seguida.

Conceitos-chave Metas de aprendizagem


• Área-fonte ou de erosão • Interpreta (ex.: em esquemas) informação relativa a sistemas de
• Ciclo de erosão erosão.

• Corrosão • Relaciona as caraterísticas dos sedimentos com as rochas e processos


que lhes deram origem.
• Deflação
• Explica, com exemplos, o conceito de área-fonte.
• Estruturas tabular, dobrada e falhada
• Sistematiza informação sobre áreas-fonte e sistemas de erosão (ex.:
• Geomorfologia climática, mapa de conceitos, esquema, tabela, texto).
litológica e estrutural
• Glaciares de montanha e de sopé
• Peneplanície
• Períodos glaciário e interglaciário
• Rede fluvial
• Região árida e subárida
• Relevo (ex.: cársico, costeiro)
• Sistema eólico
• Sistema fluvial
• Sistema glaciar

68
Como já sabes do 10º ano, a origem dos sedimentos provém
Relevo
essencialmente da erosão das terras emersas. Apenas essencialmente, Conjunto de elevações e depres-
porque há algumas exceções; a principal é o vulcanismo submarino. No sões da superfície da Terra.

10º ano não te preocupaste com o relevo das áreas fonte; é chegada a Geomorfologia
altura de o fazeres. Disciplina que se ocupa do estudo das
formas e da evolução do relevo da
A superfície das terras emersas apresenta um relevo muito diversificado, Terra.
desde as mais altas montanhas até às mais baixas planícies; Timor-Leste
Geomorfologia climática
é um excelente exemplo. Mas estas formas de relevo evoluem. Por
Estuda as formas e evolução do relevo
um lado, a tectónica e o vulcanismo tendem a criar irregularidades na em função do clima.
superfície terrestre. Por outro lado, a erosão e a sedimentação tendem
Geomorfologia litológica
a nivelar aquelas irregularidades. Há uma disciplina científica que estuda
Estuda as formas de relevo em função
a evolução das formas de relevo: é a Geomorfologia. Podemos encarar a dos diferentes tipos de rochas.
Geomorfologia sob três perspetivas, consoante a importância relativa do
Geomorfologia estrutural
clima (Geomorfologia climática), das rochas (Geomorfologia litológica)
Estuda as formas de relevo em função
ou da tectónica (Geomorfologia estrutural). Um conceito importante é o dos aspetos estruturais (ex.: dobras,
falhas) dos corpos geológicos.
de ciclo de erosão.
Ciclo de erosão
Ciclo de erosão
O m.q. Ciclo de Davis. Conceito criado
A erosão tende a transportar o material meteorizado dos sítios mais por William M. Davis para regiões
de climas temperados. Descreve o
altos para os sítios mais baixos. A longo prazo, todo o relevo tende a ser processo geodinâmico externo que
destruído e as terras aplanadas. O ciclo de erosão proposto por Davis é conduz teoricamente ao arrasamento
do relevo.
um conceito teórico e atraente; tal conceito significa um levantamento
tectónico que cria relevos, os quais a erosão vai progressivamente William M.
desgastando. O resultado final será uma vasta região aplanada: a Davis (1850-1934)
Geomorfólogo
peneplanície. Um novo levantamento tectónico vai reiniciar o processo. norte-americano
À maneira do que acontece connosco, o relevo de uma região passa por
três fases: juventude, maturidade e velhice (Figura 3.1). Uma fase de
juventude, marcada por um vigoroso encaixe dos cursos de água (Figura
3.1, esquema A); uma fase de maturidade, caraterizada por um estado
Peneplanície
intermédio (Figura 3.1, esquema B); e uma fase de velhice, que termina Superficie incompletamente
com a quase aplanação (Figura 3.1, esquema C). O conceito de ciclo de aplanada, correspondente ao final de
um ciclo de erosão, segundo William
erosão é útil, principalmente sob climas húmidos; mas deve ser utilizado M. Davis.
com muita cautela, pois admite bastantes exceções.

A B C
Figura 3.1 Fases de um ciclo de erosão: A – juventude; B – maturidade; e C - velhice.

Áreas-fonte e sistemas de erosão | 69


Alguns dos temas e conceitos que vais encontrar a seguir poderão ser já teus conhecidos; é uma oportunidade
para os recordares.
Para compreenderes melhor o ciclo de erosão responde às questões que constam na Atividade 3.1.

Problematizar
Como é que a tectónica explica a existência de ciclos de erosão?

Atividade 3.1

Antes de responderes às questões que se seguem, observa com atenção os esquemas da Figura 3.1. e recorda os
processos envolvidos na formação de rochas sedimentares.
1. Explica a formação da peneplanície representada na Figura 3.1
(Esquema C), referindo os processos geológicos envolvidos.
2. Supõe, agora, que a zona representada pelo esquema C da Figura
3.1 foi afetada por uma falha (assinalada por F-F’), em que o
bloco Y subiu em relação ao X (Figura ao lado). O que prevês que
aconteça ao relevo desta região?

? Como explicar a morfologia da superfície terrestre?

São vários os fatores que explicam a morfologia da superfície terrestre. O clima, as rochas e a tectónica são
alguns desses fatores. Na Figura 3.2 estão representadas as principais zonas climáticas do globo terrestre.

Figura 3.2 Zonas climáticas do globo terrestre.

70 | As reconstituições do passado
Geomorfologia climática: a importância do clima Período glaciário
À escala do globo, o clima (Figura 3.2) é determinante na meteorização Período caraterizado pelo
arrefecimento do planeta, com uma
das rochas. A questão das alterações climáticas está hoje na ordem do dia; grande extensão das massas de gelo
mas os climas variaram sempre, e muito, ao longo da história da Terra. e consequente abaixamento do nível
geral das águas nos oceanos.
No que diz respeito ao Quaternário, há duas coisas que deves fixar:
Período interglaciário
1. ocorreram grandes variações climáticas, com períodos glaciários Período entre duas glaciações
separados por períodos interglaciários. consecutivas, caraterizado pelo recuo
das massas de gelo e subida do nível
2. é cada vez maior a importância das atividades humanas na das águas nos oceanos.

transformação da superfície da Terra. O Homo sapiens é hoje um Sistema glaciar


agente geológico fundamental. Sistema de erosão em que o agente
principal é o gelo.
Vamos considerar apenas três exemplos em geomorfologia climática, os
quais serão suficientes para entenderes o assunto. Glaciar
Acumulação de gelo permanente
A – Clima frio e seco: o sistema glaciar caraterística das calotes polares e das
altas montanhas. Neste último caso, o
Os glaciares são grandes massas de gelo que, no seu conjunto, cobrem gelo da periferia “escorre” lentamente
em vales, sob a forma de línguas
hoje uma parte apreciável da superfície terrestre (cerca de 15 milhões glaciárias.
de km2). Simplificando ao máximo, podemos distinguir duas classes de
Glaciar de latitude
glaciares: de latitude e de altitude.
O m.q. inlandsis. Grandes calotes
Nos glaciares de latitude (Figura 3.3), o frio é devido à proximidade glaciares polares.

dos polos. Apresentam-se como calotes polares; a sua espessura média Glaciar de altitude
ultrapassa os 2000 metros. A frente do glaciar é muitas vezes realçada por O m.q. glaciar de montanha. Glaciar
localizado na parte superior de uma
icebergs.
parte da montanha.
Nos glaciares de altitude, o frio é devido à altitude. São mais pequenos
Iceberg
que os de latitude. Ocupam lugares caraterísticos nas montanhas:
Grande bloco de gelo à deriva nos
pequenas calotes no cimo, circos nas encostas, vales em U (Figura 3.4). oceanos. Por razões de densidade, só
uma pequena parte está fora de água.
Nestes vales, o gelo transporta blocos com dimensões por vezes enormes,
depositando-os nas margens (moreia lateral) e no meio (moreia mediana), Moreia
quando se juntam dois glaciares. São as moreias (Figura 3.4). Em todas Acumulação de blocos, de todas
as dimensões, transportados pelos
estas situações, o atrito do gelo origina, nas rochas subjacentes, estrias glaciares.
e polimento.

Figura 3.4 Representação esquemática


de um glaciar e das suas moreias lateral
Figura 3.3 Glaciar de latitude na Patagónia (Argentina). e mediana.

Áreas-fonte e sistemas de erosão | 71


Os glaciares de sopé ocorrem sempre que as línguas de gelo são
Glaciar de sopé
Glaciar em que as línguas de gelo suficientemente longas para atingir o sopé das montanhas. A temperatura
atingem o sopé da montanha.
é aqui mais elevada e tende a fundir o gelo; assim se originam depósitos
Depósito fluvio-glaciário detríticos fluvio-glaciários, de aspeto mais ou menos caótico. Fixa este
Conjunto de materiais arrancados ao termo: caótico. Voltarás a encontrá-lo.
substrato rochoso, transportados até
ao sopé da montanha e depositados
por cursos de água após a fusão do B – Clima quente e seco: o sistema eólico
gelo.
A ausência, total ou quase, de cobertura vegetal carateriza as regiões
Sistema eólico
áridas; em consequência, os solos são do tipo dito esquelético. Nas regiões
Sistema de erosão em que o agente
principal é o vento. subáridas, a cobertura vegetal é fraca e dispersa; os solos aparecem

Região árida frequentemente sob a forma de crostas calcárias.


Território onde o clima ou sistema A erosão é tipicamente mecânica; as águas de escorrência atuam por
climático é caraterizado pela secura,
por vezes, extrema, onde a precipitação enxurradas. O vento é, porém, o agente dominante; tanto é agente de
é inferior a 500 mm/ano.
erosão como agente de acumulação.
Região subárida
A erosão eólica atua por deflação dos materiais mais finos não consolidados
Território caraterizado por ter uma
estação seca e quente bem marcada, e por corrosão das rochas mais duras. Na deflação, só os materiais mais
fazendo a transição entre os climas
tropicais húmidos e os temperados. grosseiros permanecem no local; a paisagem resultante é uma espécie
Exemplo: Savana.
de manto de calhaus. Na corrosão, o vento ataca as rochas por ação da
Crosta calcária areia que transporta; deste modo, umas vezes corrói grande parte da
O m.q. couraça calcária. Crosta de
origem pedológica, mais ou menos rocha (Figura 3.6), outras vezes realça os planos de estratificação ou de
endurecida, essencialmente formada xistosidade, outras vezes ainda talha nos calhaus três faces levemente
por carbonato de cálcio.
côncavas e caraterísticas - Dreikanter (Figura 3.7).
Erosão eólica
A acumulação eólica origina uma grande variedade morfológica de dunas
Erosão causada direta ou
indiretamente pelo vento. (Figura 3.8); estas reconhecem-se no registo geológico pelas estruturas
sedimentares e pelo aspeto dos grãos de quartzo.
Deflação
Tipo de erosão eólica que consiste na C – Clima quente e húmido: o sistema fluvial
remoção e transporte de detritos do
calibre das areias ou inferior (silte e Os rios e as ribeiras são os agentes de erosão
argila) soprados ou varridos pelo vento.
mais importantes à escala do globo; e não
Corrosão esqueças que a erosão fluvial atua sob climas
Processo de desgaste físico das rochas
através, principalmente, do impacto e/
frios, temperados e quentes. No 10º ano,
ou atrito de partículas transportadas tomaste conhecimento do papel dos rios como
pelo vento (eólica), pela água (fluvial,
de marés, correntes) ou pelo gelo (de transportadores de sedimentos. No 12º ano,
geleira). Figura 3.5 Dispositivo
ficarás a conhecer o papel dos rios como fatores laboratorial.
Acumulação eólica de risco (cheias e inundações). Vais apreciar
Acumulação mais ou menos espessa de agora o papel dos rios como formadores da paisagem.
sedimentos transportados pelo vento.
Vais começar por entender a escavação de um vale. A Figura 3.5 mostra
Sistema fluvial como, em laboratório, podes simular a formação de um vale. Caso o
Sistema de erosão em que o agente desejes fazer solicita a ajuda do teu professor.
principal é a água.

72 | As reconstituições do passado
Figura 3.6 Bloco pedunculado (Egito). Figura 3.7 Dreikanter. Figura 3.8 Dunas localizadas no deserto
do Saara no norte de África.

Não deves esquecer que um rio não “trabalha” sozinho; pelo contrário,
Rede fluvial
atua com todos os seus afluentes - rede fluvial (Figura 3.9), numa área
Conjunto dos vários canais naturais
mais ou menos extensa conhecida por bacia de drenagem. (rios, ribeiras, entre outros),
permanentes ou temporários; todos
eles acabam por convergir num canal
principal que desagua no mar, ou por
A B
vezes, num lago.

Bacia de drenagem
Área drenada por um rio ou pelo
conjunto dos seus afluentes.

Figura 3.9 Redes fluviais com diferentes níveis de hierarquização; A - Hierarquização


fraca; B - Hierarquização forte.

Clima equatorial de floresta virgem – A estação húmida é permanente.


Os solos são de argilas vermelhas, cauliníticas, muito espessas e pastosas.
Estes solos revestem superfícies onduladas de rocha alterada; é uma
paisagem monótona.
Clima tropical de savana (e floresta reduzida) – Alternam duas estações,
a seca e a húmida. Mais do que argilas de alteração, podem abundar as
couraças ferruginosas, mais ou menos ricas em alumínio. Estas couraças
ocupam vastas regiões aplanadas.

O contexto timorense
Para compreenderes melhor a importância do clima na modelação da
paisagem timorense presta agora atenção à informação contida nas
Figuras 3.10 e 3.11 relativas, respetivamente, à variação da pluviometria
e temperatura anual em algumas cidades timorenses e à rede hidrográfica
de Timor-Leste. Mas não deves esquecer desde já que a paisagem
timorense tem a ver não apenas com o clima mas também com a litologia
e tectónica.

Áreas-fonte e sistemas de erosão | 73


Figura 3.10 Variação da temperatura média e da pluviometria anual em algumas cidades
timorenses.

Figura 3.11 Rede hidrográfica de Timor-Leste, com a rede hidrográfica da ribeira de Lacló
em destaque.

A realização da Atividade 3.2, na página seguinte, vai ajudar-te a


compreender melhor a importância do clima e da rede hidrográfica de
Timor-Leste na modelação do seu relevo.

Geomorfologia litológica: a importância das rochas


Para entenderes o assunto, basta examinares apenas três exemplos: argi-
las, calcários e basaltos.

A - Argilas
Como já sabes, as argilas são sedimentos (e rochas sedimentares) porosas
mas praticamente impermeáveis. As paisagens argilosas são caraterizadas

74 | As reconstituições do passado
Problematizar
Como explicar o relevo timorense com base na rede hidrográfica?

Atividade 3.2

1. Analisa, em grupo, as Figuras 3.10 e 3.11 e responde às questões que se seguem. A


1.1. Indica o nome da cidade de Timor-Leste onde chove mais e da cidade onde
chove menos.
1.2. A ribeira de Lacló é a mais extensa de Timor-Leste, com 80 km. Nasce na lagoa
Bericute, a sul de Díli, corre para nordeste e tem a foz no mar entre a ponta de
Subaio e a baía de Lanessana, em Manatuto. Na época seca esta ribeira é um
simples veio de água, entre cavados sulcos. Na época das chuvas a ribeira tem
um caudal impetuoso.
1.2.1. Decalca para o teu caderno a rede hidrográfica associada à ribeira de B
Lacló e em seguida delimita a sua bacia de drenagem.
1.2.2. Explica a variação de caudal da ribeira de Lacló entre a época seca e a
época das chuvas.
1.2.3. Na Figura ao lado estão representados dois perfis transversais da ribeira.
Indica o perfil que poderá corresponder à zona do leito da ribeira de
Lacló na estação seca. Fundamenta a tua resposta.
2. Discute, na turma, as respostas dadas pelo teu grupo às questões anteriores.

por uma rede complexa de linhas de água que originam numerosas Fendas de dessecação
e pequenas ondulações do terreno (colinas); podes observá-las, por O m.q. fendas de retração. Fissuras
exemplo, entre Manatuto e Baucau. Em zonas planas (exemplo: leitos de espaçamento milimétrico a
centimétrico, abertas em solos e
de rios e ribeiras), a argila, quando seca, abre fissuras caraterísticas ou sedimentos, no geral silto-argilosos,
por contração destes, devido à perda
fendas de dessecação (Figura 3.12); estas desaparecem normalmente
da água que os impregna.
após fortes chuvadas.
A
As margas, ou argilas calcárias, comportam-se em grande parte como as
argilas, sobretudo quando a percentagem de calcário não é elevada.
A Atividade 3.3 (página seguinte) vai ajudar-te a compreender os processos
envolvidos na formação das fendas de dessecação e a importância do
estudo deste tipo de estruturas para o conhecimento de ambientes do
passado da Terra. B

B – Calcários
São rochas que, quando bastante “puras” e espessas, se desgastam
por dissolução; isto produz formas de relevo caraterísticas, chamadas
cársicas (Figuras 3.13 a 3.15). O relevo cársico afeta também outras
Figura 3.12 Fendas de dessecação atuais
rochas “solúveis” como o gesso e o salgema; mas estas são rochas muito (A) e fossilizadas (B).
mais raras do que os calcários. Por outro lado, as dolomias são menos
solúveis do que os calcários; as formas de relevo que originam são mais Relevo cársico
O m.q. carso ou “karst”. Paisagem
propriamente “ruiniformes” do que propriamente “cársicas”. sobre terrenos constituídos por rochas
carbonatadas (calcário, dolomitos
Mas o que são as formas cársicas? Tudo tem a ver com a reação à água.
ou mármores) modelada por erosão
Esta não circula aqui (ou só muito raramente) à superfície; pelo contrário, cársica.

Áreas-fonte e sistemas de erosão | 75


Problematizar
Como podemos explicar a formação de fendas de dessecação em laboratório?

Atividade 3.3

Tendo em conta o que já sabes sobre fendas de dessecação, realiza a proposta de


trabalho que se segue.
1. Dispõe uma mistura de areia e argila num recipiente semelhante ao representado
na Figura.
2. Cobre lentamente a mistura (areia + argila) com água.
3. Coloca o dispositivo ao sol sobre um balcão ou junto a uma janela do laboratório
ou da sala de aula. Em alternativa, e caso seja possível, podes colocar o dispositivo no exterior, numa área
desprovida de vegetação.
4. Após alguns dias, regista no teu caderno o que observas.
5. Interpreta os resultados obtidos.
6. Discute a importância da preservação das fendas de dessecação fossilizadas.

penetra no calcário, dissolve-o no interior e vai circular em profundidade.


A dissolução do calcário deixa frequentemente um resíduo detrítico de
Terra rossa cor vermelha conhecido por terra rossa.
Depósito residual, de cor vermelha, Vale a pena fixares alguns termos próprios do relevo cársico (que é uma
após dissolução do calcário.
coisa algo frequente em Timor-Leste) tais como: canhão (vale de paredes
abruptas); lapiás (superfície cinzelada de um maciço calcário); algar (poço
vertical); gruta (galeria horizontal ou quase, que pode dilatar-se em salões);
dolina (depressão circular ou oval de fundo chato); uvala (depressão
formada por várias dolinas coalescentes); poljé (planície fechada, espécie
de enorme dolina alongada); vale seco (linha de água sem água).
As Figuras 3.13 a 3.15 ilustram algumas das estruturas referidas
anteriormente.
A circulação das águas no interior do carso tem aspetos originais e levanta
problemas de abastecimento, como verás no 12º ano.

Figura 3.13 Esquemas representativos de


alguns acidentes cársicos: A – algar; D –
dolinas; G – galerias; L – lapiás; U – uvala;
S – sumidouro; P – poljé.

Figura 3.14 Um canhão (A) e um canhão


em formação (B). Figura 3.15 Grutas em Timor-Leste.

76 | As reconstituições do passado
C - Basaltos
Todas as rochas que afloram à superfície da Terra originam formas de
relevo devido à erosão. Todas, ou quase todas. As rochas vulcânicas
constituem um caso especial: é que a própria atividade vulcânica cria
diretamente relevos (Figura 3.16), que a erosão pode, é claro, mais tarde
destruir, como é o caso de Ataúro.
Os vulcões da Figura 3.16 não estão representados à mesma escala. Para
teres uma noção da sua dimensão relativa realiza a Atividade 3.4.

Figura 3.16 Os quatro tipos de erupção vulcânica segundo Lacroix (A – tipo havaiano; B –
tipo estromboliano; C – tipo vulcaniano; e D – tipo peleano).

Problematizar
Como podemos representar os vulcões da Figura 3.16 à escala?

Atividade 3.4

1. Faz, no teu caderno, um esquema dos vulcões da Figura 3.16, utilizando a escala usada no esquema D.
2. Partilha com o professor e colegas os esquemas que realizares.

Criação de relevos vulcânicos


Os cones vulcânicos são o relevo mais visível; recordarás, a propósito,
o que aprendeste no 10º ano. As lavas subaéreas podem ser rugosas
(aa) ou não (pahoehoe) (Figuras 3.17 e 3.18). As lavas submarinas são
Figura 3.17 Lava aa.
tipicamente globosas, um pouco como as almofadas (pillow-lavas). Os
lahars são derrames de lama molhada (piroclastos ensopados em água),
que descem as encostas do vulcão por gravidade, à maneira de enxurrada.

Erosão de relevos vulcânicos


Os domos, as chaminés e os diques são as formas de relevo mais
evidentes. Os domos são típicos de magmas mais viscosos (traquitos, Figura 3.18 Lava pahoehoe.

Áreas-fonte e sistemas de erosão | 77


riolitos). Todas estas formas de relevo indicam uma resistência maior
Estrutura tabular
Estrutura geológica com estrati- à erosão.
ficação horizontal ou quase.
Geomorfologia estrutural: a importância da tectónica
Mesa
Relevo tabular, mais ou menos extenso, O papel das rochas na formação dos relevos não tem a ver apenas com
encimado por uma camada horizontal,
sedimentar ou de basalto. As áreas a composição e a textura, mas também com a sua geometria (estrutura
mais pequenas e localizadas deste
tipo de relevo são denominadas de tectónica). As estruturas podem ser tabulares, dobradas e falhadas
testemunhos ou cabeços.
(de falha).
Cuesta A – Estruturas tabulares – Se as camadas são horizontais e com diferente
Forma de relevo esculpida em terreno resistência à erosão, a erosão dá origem a mesas, mais extensas, e a
estratificado, monoclinal, mostrando
uma superfície suavemente inclinada, testemunhos ou cabeços, mais pequenos e localizados. Se as camadas são
paralela aos estratos, oposta a um
escarpado que corta os planos de
estratificação. inclinadas, como no caso das estruturas monoclinais, desenvolve-se um
relevo caraterístico, dito relevo de cuesta (Figura 3.19).
B – Estruturas dobradas – Como te recordas do 10º ano, o dobramento
pode ser desde bastante simples até bastante complexo.
No caso do dobramento simples (anticlinais e sinclinais verticais ou quase),
basta examinares com atenção a Figura 3.20. Ela mostra, da esquerda para
a direita, a evolução teórica do relevo ao longo do tempo. O esquema é
teórico, porque admite que a tectónica permanece estável (o que nem
Figura 3.19 Atitude de uma cuesta
quando as camadas são pouco inclinadas sempre é verdade) enquanto a erosão vai desgastando o relevo primitivo.
(A) e quando elas são muito
inclinadas (B). No caso do dobramento complexo - carreamentos (Figuras 3.21 e 3.22),
as formas de relevo não são, em princípio, muito diferentes das que
Estrutura dobrada caraterizam o dobramento simples. No entanto, a sua interpretação em
Estrutura em que as rochas termos tectónicos pode ser muito difícil.
estratificadas sofreram deformação
por encurvamento, na sequência
de esforços tectónicos tangenciais e C - Estruturas falhadas.
compressivos
ou de escorregamentos.
Já conheces, do 10º ano, os principais tipos de falhas. Que relevos é que
Estrutura falhada elas originam?
Estrutura em que as rochas
estratificadas sofreram falhas. Se um bloco se levanta ao longo de uma falha (escarpa de falha), a
erosão tende a desgastá-lo. Pelo contrário, sobre o bloco descido, os
Depósito correlativo
materiais erodidos vão-se acumulando e formam os chamados depósitos
Sedimentos depositados na vizinhança
de um relevo de onde foram erodidos. correlativos. O estudo destes depósitos permite aos especialistas
Bio-rexistasia reconstituir a história da falha correspondente e também a própria
Teoria que liga o tipo de erosão na história tectónica da região. Recorda, do 10º ano, a Bio-rexistasia.
área-fonte com o tipo de deposição na
bacia sedimentar contemporânea.

Figura 3.20 Evolução de um relevo Figura 3.21 Dobramento complexo Figura 3.22 Erosão de uma zona de
dobrado, dito “apalachiano”. (carreamento e cavalgamento). carreamento.

78 | As reconstituições do passado
Os relevos de falha conservam-se mais facilmente em climas áridos do
que em climas húmidos.
Mesmo nos casos em que os relevos de falha foram nivelados pela erosão,
o esmagamento das rochas nas caixas de falha tende a criar depressões
alinhadas, onde se instalam rios e ribeiras. Um extenso vale retilíneo
traduz muitas vezes uma falha.
Para compreenderes melhor de que modo a litologia e as estruturas
geológicas podem condicionar a morfologia de uma determinada região,
realiza a Atividade 3.5.

Problematizar
Como é que a litologia e as estruturas geológicas podem ajudar a interpretar o relevo
de uma região?

Atividade 3.5

1. Os algares e as dolinas são formas de relevo típicas da paisagem cársica. Apresenta uma explicação para a sua
formação.
2. Os domos, os diques e as chaminés são relevos vulcânicos. Apresenta uma explicação para a formação de cada um
deles.
3. Indica formas de relevo que possam estar associadas a falhas e a dobras.
4. Discute a importância do estudo de diferentes formas de relevo e da sua evolução para o conhecimento do
passado da Terra.

O caso especial do relevo costeiro Zona costeira


O contacto entre a terra e o mar constitui a linha de costa, ou mais Faixa do terreno geralmente
compreendida entre a baixa-mar e a
propriamente a zona costeira (ou simplesmente costa). E muitas vezes preia-mar. Mas é costume acrescentar
considera-se zona costeira como sinónimo de zona litoral (ou simplesmente a faixa acima da preia-mar e mesmo
abaixo da baixa-mar.
litoral). No 12º ano tratarás da zona costeira numa perspetiva de Riscos e
Recursos. Para já, convém que fiques a conhecer alguns elementos básicos
do relevo costeiro. O relevo costeiro inclui formas de erosão e formas de
acumulação; ambas estão muito ligadas entre si.
Os agentes de erosão são fundamentalmente as ondas e as correntes, Figura 3.23 Movimento das partículas ao
muitas vezes associadas ao vento. longo da onda.

• As ondas resultam, como o próprio nome indica, de um movimento


ondulatório das partículas da água do mar, por ação do vento.
Este movimento é oscilatório ao largo (Figura 3.23), mas passa a
direcional junto à costa, à medida que a profundidade da água diminui
(Figura 3.24). Figura 3.24 Corrente de detritos; uma
ilustração sobre uma praia da deriva
litoral.

Áreas-fonte e sistemas de erosão | 79


Correntes • As correntes são de vários tipos; interessam-nos aqui apenas as
de deriva litoral correntes de deriva litoral (ao longo da costa ou longitudinais) e as
O m.q. corrente litoral. Correntes ao correntes de maré (transversais à linha de costa).
longo da linha de costa, em resultado
do vaivém da vaga em rebentação, As formas de relevo interessam-nos de modo especial; é possível que já
quando esta incide obliquamente ao
tenhas ouvido falar delas no pré-secundário.
litoral.
• Praias e Falésias – Em termos gerais, a erosão constrói as falésias,
Corrente de maré
a sedimentação constrói as praias. Recordarás que a praia é a faixa
Corrente marinha resultante da subida
e descida das marés. limitada pelo nível da maré alta e o nível da maré baixa. Praia e
falésia podem existir juntas; mas há falésias praticamente sem praias
Praia associadas (Figura 3.25), e há muitas praias sem falésias, apenas com
Litoral de areia ou de seixos com um
domínio de subaéreo e um outro
dunas de areia (Figura 3.26).
submerso.

Falésia
O m.q. arriba. Escarpado abrupto,
litoral, talhado na vertical ou quase,
pela ação erosiva do mar.

Figura 3.25 Falésia em Cliffs of Moher (Irlanda).

Figura 3.26 Praia de Timor-Leste.

80 | As reconstituições do passado
• Deltas e Estuários – Muitos rios terminam num estuário, que é um
Delta
troço mais ou menos alargado e sujeito a correntes de maré. Outros Forma de acumulação detrítica,
rios terminam em delta, emerso ou não, onde a sedimentação domina construída na foz de um rio, no mar
ou num lago, sempre que correntes ali
sobre a erosão. em ação não dispersem os respetivos
materiais. Tem muitas vezes forma
• Rias e Fiordes – Ambas as formas de relevo representam vales triangular.
inundados pela água do mar. A diferença é a seguinte: no caso das
Estuário
rias os vales inundados são vales fluviais, no caso dos fiordes os vales
Troço alargado na parte final de um
inundados são vales glaciários (Figura 3.27). rio, na sua passagem ao mar, sujeita
a oscilações das marés e, portanto,
com correntes de avanço e de recuo
e correspondentes variações de
salinidade.

Ria
Vale fluvial encaixado invadido pelo
mar, quer na sequência de uma subida
do nível das águas, quer por um
afundamento do continente.

Fiorde
Vale glaciário invadido pelas águas do
mar.

Figura 3.27 Fiorde da Noruega.

• Recifes de corais – São os principais relevos litorais construídos pela


ação de organismos, neste caso corais. É uma situação frequente em
Timor-Leste. As suas formas são variadas, desde os recifes-barreira, o
mais conhecido é o Grande Recife do leste da Austrália (Figura 3.28)
até aos atóis (Figura 3.29), edifícios anelares tipicamente constituídos
por uma lagoa interior envolvida por uma coroa de corais.

Figura 3.28 Grande Recife de coral do leste da Austrália.

Os ambientes de deposição | 81
Figura 3.29 Um atol das ilhas de Gilbert (Oceano Pacífico) e perfil transversal
do atol (A-B).

Para compreenderes melhor a evolução de algumas formas de relevo costeiro realiza a Atividade 3.6.

Problematizar
Como explicar a evolução do relevo costeiro escarpado?

Atividade 3.6

1. Observa com atenção os esquemas que se seguem.

1.1. Ordena os esquemas (A a E) de modo a que estes traduzam a evolução da morfologia da costa.
1.2. Indica o(s) principal(ais) agentes erosivos que atuaram.
2. Indica o tipo de relevo costeiro que se pode encontrar em Timor-leste.

82 | As reconstituições do passado
3.2 Os ambientes de deposição

As áreas de sedimentação ou deposição são


áreas deprimidas onde os sedimentos se
vão depositando e acumulando; assim se
formam as bacias sedimentares. Nesta secção
vais conhecer melhor as áreas da superfície
terrestre onde se depositam os sedimentos e
as condições que permitem que tal aconteça.

? O que podemos aprender sobre o passado da Terra a partir


da observação das estruturas, das fácies e das sequências
sedimentares?

Ao longo deste subtema vais encontrar respostas para esta e outras questões. O trabalho que desenvolveres
vai ajudar-te a construir conhecimento e a adquirir competências, para que possas alcançar as metas de
aprendizagem que se apresentam em seguida.

Conceitos-chave Metas de aprendizagem


• Ciclo transgressão-regressão • Interpreta (ex.: em esquemas) informação relativa ao ciclo
• Domínios continental, transicional e marinho transgressão-regressão.

• Estrutura sedimentar • Sistematiza informação sobre ambientes de deposição (ex.: mapa de


conceitos, esquema, tabela, texto).
• Fácies
• Interpreta informação sobre estruturas e rochas sedimentares.
• Plataforma continental
• Regime de fluxo
• Sequência de Bouma
• Sequência positiva e sequência negativa
• Sistema siliciclástico (curto e longo)
• Sistema carbonatado

Os ambientes de deposição | 83
As áreas de sedimentação podem ser divididas de três maneiras diferentes:
a) a primeira é, de acordo com a repartição geográfica, em domínio
continental, domínio transicional e domínio marinho (Figuras 3.30,
Figura 3.30 Bloco diagrama com os
diferentes ambientes marinhos (Zl – zona 3.31 e 3.33).
litoral; Zn – zona nerítica; Zb – zona batial;
Za – zona abissal). b) a segunda é, de acordo com a natureza dos sedimentos predominantes,
em sistemas siliciclásticos e sistemas carbonatados (Figuras 3.33 e
Sistema siliciclástico 3.38).
O m.q. modelo silisiclástico. c) a terceira área de sedimentação é, de acordo com os processos
Sucessão de ambientes associados à
deposição de sedimentos de natureza envolvidos, em ambientes de sedimentação. Ela faz de certo modo a
detrítica de diferentes dimensões.
síntese das outras duas.
Sistema carbonatado
Sucessão de ambientes associados à
deposição de carbonato de cálcio e/ou
de magnésio.

Domínio continental
Domínio relacionado com os
continentes (ex.: ambiente desértico,
glaciar, fluvial).
Figura 3.31 Divisões morfológicas submarinas e zonas de sedimentação

Domínio transicional
Ambientes de sedimentação e fácies sedimentares
Domínio associado a zonas de transição
entre os ambientes terrestre e marinho Um ambiente deposicional ou de sedimentação é uma porção da superfície
(ex.: ambiente deltaico, de estuário)
terrestre caraterizada por uma combinação única de processos físicos,
Domínio marinho químicos e biológicos ligados à sedimentação. Cada um dos diferentes
Domínio associado a zonas cobertas ambientes deposicionais imprime caraterísticas únicas nos sedimentos
por mares e oceanos, deste a
plataforma continental à planície que aí se acumulam. A estas caraterísticas chamam os geólogos fácies.
abissal.
Fácies é um conceito importante, que irás entender mais adiante, mas
Fácies que convém definir desde já.
Conjunto de caraterísticas O termo fácies refere-se a coisas por vezes muito diferentes. Por exemplo,
mineralógicas, texturais,
paleontológicas, entre outras, de em geologia metamórfica, fácies é o conjunto de rochas (pelíticas,
uma rocha, em função do respetivo
ambiente de deposição. carbonatadas, basálticas…) metamorfizadas sob condições idênticas
de pressão e temperatura. Em geologia sedimentar, o conceito é mais
confuso: fala-se de fácies bréchica, fácies de praia, fácies marinha, fácies
recifal, fácies carbonatada, fácies bentónica.
Idealmente, o termo fácies refere-se ao aspeto global (físico, químico e
biológico) de uma rocha sedimentar em função do respetivo ambiente
de deposição; isto qualquer que seja a época em que a rocha se formou.
Mas também se diz, por exemplo, que o sedimento ou rocha sedimentar
A é uma fácies lateral do sedimento ou rocha sedimentar B depositado
ao mesmo tempo. Esta segunda definição de fácies é fácil de entender,
pois uma areia de praia, uns seixos de rio e uma argila de bacia podem

84 | As reconstituições do passado
depositar-se ao mesmo tempo em ambientes muito diversos; dizemos
Variação lateral de fácies
que representam variações laterais de fácies (Figura 3.32) da mesma Variação de fácies sedimentar no
unidade cronostratigráfica. espaço, de lugar para lugar, para uma
determinada época.

Unidade cronoestratigráfica
Subdivisão da escala estratigráfica.

Figura 3.32 Variações lateral e vertical de fácies.

As fácies podem ser representadas em mapas: são os mapas de fácies. Mapa de fácies
Os ambientes deposicionais não se distribuem ao acaso. Pelo contrário, Mapa que mostra a variação, numa
determinada área, de uma unidade
ocorrem em sítios específicos por razões específicas; e passam uns aos estratigráfica em termos de fácies.
outros numa sucessão lógica, articulada e previsível. Merecem o nome de
Sistema siliciclástico longo
sistema. É uma designação sugestiva. Mas não é a única.
Sequência completa de ambientes
Vais fixar rapidamente três situações ideais, que até podes observar na siliciclásticos da montanha até à bacia
oceânica.
atualidade: o sistema siliciclástico longo, o sistema siliciclástico curto e o
sistema carbonatado. Sistema siliciclástico curto
Sequência de ambientes siliciclásticos
Sistema siliciclástico longo em que a fonte dos detritos está
próxima da bacia oceânica
O sistema siliciclástico longo (Figura 3.33) é uma sequência completa (e
ideal) dos ambientes, desde a montanha até à bacia oceânica. Mesmo
que falte um ou outro ambiente individual, o sentido geral mantém-se.
Entretanto, podes associar a cada ambiente um depósito caraterístico.
Sistema curto

Planície aluvial Leque


aluvial
Leque aluvial Leque
submarino
ngo

Rio me Plataforma
andrifo
a lo

rme Delta Bacia


Rio continental Talude
em

entrançado continental
Sist

Lago
Praia
Laguna Leque
Ilha barreira submarino

Bacia
Rifte Figura 3.34 Esquema de uma torrente
(1 – bacia de receção; 2 – canal de
escoamento; 3 – cone de dejeção).
Figura 3.33 Sistema siliciclástico: sistema longo e sistema curto.

Vamos considerar os seguintes ambientes de deposição: leque aluvial;


rios entrançados; rios meandriformes; planície aluvial; praia; plataforma Leque aluvial
Troço terminal de uma torrente, onde
continental; talude continental; e bacia profunda. se acumulam materiais detríticos mais
grosseiros, por perda da capacidade
O leque aluvial ou cone de dejeção (Figura 3.34) é caraterizado por das águas que os transportam ao longo
depósitos grosseiros e mal calibrados de brechas arcósicas. Estas são do canal de escoamento.

Os ambientes de deposição | 85
rochas clásticas de origem sedimentar, constituídas por clastos rochosos,
angulosos, de dimensões superiores às das areias grosseiras e com 10 a
15% de feldspato.
Rios entrançados Os rios entrançados (Figura 3.35) são caraterizados pela presença
Rede de canais fluviais que se bifur- de depósitos de conglomerados e arenitos arcósicos, já com alguma
cam e recombinam em vários pontos.
estratificação. Por sua vez, aos rios meandriformes (Figura 3.36) estão
Rios meandriformes associados depósitos de arenitos subarcósicos.
Rio cujo curso apresenta uma A planície aluvial está associada a depósitos de sedimentos mais finos e
sinuosidade bastante acentuada.
bem estratificados, tais como: siltitos gresosos e argilitos gresosos. Pode
incluir as planícies fluviais (Figura 3.37).
A praia é um ambiente de sedimentação associada a depósitos de arenitos
quartzosos, eventualmente com alguns feldspatos; as “impurezas” mais
finas (silte e argila) são levadas para o largo.
No caso da plataforma continental os depósitos caraterísticos, da costa

Figura 3.35 Rio entrançado. para o largo, são uma sequência de arenitos, argilitos e calcários.

Planície aluvial
Superfície aplanada até à linha
de costa, formada por depósito
sedimentar terrígeno.

Plataforma continental
Continuação submersa da superfície
litoral, caraterizada por um declive Figura 3.36 Algumas fases do Figura 3.37 Planície fluvial entre Aileu e
médio da ordem de 0,1%, até uma desenvolvimento e modificação do Maubisse (Timor-Leste).
profundidade de cerca de 200 metros. traçado dos meandros.

Talude continental O talude continental é caraterizado por quartzovaques e grauvaques


Parte do fundo marinho que separa o turbidíticos. Por sua vez, a bacia profunda está associada a depósitos de
bordo da plataforma continental dos
grandes fundos oceânicos. argilas laminadas.

Bacia profunda Sistema siliciclástico curto


O m.q. bacia oceânica. Domínio O sistema siliciclástico curto (ver Figura 3.33) é uma versão abreviada
oceânico entre continentes, limitado
pelas respetivas margens (ex.: talude da sequência longa ideal; deve-se ao facto de a fonte siliciclástica,
continental).
montanhosa, estar próxima da bacia oceânica. O sistema curto mais
caraterístico é o leque deltaico; compreende a sucessão leque aluvial e/
ou rio entrançado, praia de cascalho, leque submarino e bacia.

Sistema carbonatado
O sistema carbonatado (Figura 3.38) é uma sequência que se desenvolve, a
partir da linha de costa, quando a área-fonte é baixa e aplanada, ou então
longínqua; as águas são pouco profundas; o clima é tropical a subtropical.

86 | As reconstituições do passado
Inter-
Superficial Submareal Plataforma pouco profunda
mareal

Recife
Megarriples oolíticos
Barras
de maré

Supra- Inter-
mareal mareal Turbiditos
Submareal Bioclasto
Recife de Resto esquelético, de origem
Planície mareal Laguna Plataforma profunda
barreira animal ou vegetal, frequentemente
Bacia fragmentado, muito comum em rochas
sedimentares biogénicas.
Figura 3.38 Sistema carbonatado, onde se nota a ausência do domínio continental.
Peloide
Nestas condições, florescem algas calcárias que geram micritos, enquanto
Componente carbonatada, com
que esqueletos de invertebrados se acumulam como bioclastos; granulometria equivalenete à das
localmente podem formar-se ainda oólitos, peloides e intraclastos. areias finas e do silte, com forma
esferoidal ou irregular microcristalina.
Como te apercebeste da leitura que acabaste de fazer, os diferentes
Intraclastos
ambientes sedimentares dão origem a depósitos caraterísticos. Para uma
Fragmento de rocha carbonatada
melhor articulação entre os ambientes de deposição e as rochas a que contemporânea do sedimento no qual
se encontra.
dão origem, realiza a Atividade 3.7.

Problematizar
Como articular os diferentes ambientes sedimentares com as rochas que lhes estão
associadas?

Atividade 3.7

1. Constrói, em grupo, um mapa de conceitos que integre os diferentes ambientes de deposição estudados e as
rochas a que dão origem. Para isso segue a seguinte metodologia:
1.1. lista os conceitos que consideres importantes para a elaboração do mapa;
1.2. ordena os conceitos selecionados, tendo em conta o seu grau de complexidade;
1.3. organiza os conceitos atendendo à sua hierarquia;
1.4. articula os diferentes conceitos através de proposições verdadeiras.
2. Partilha o mapa de conceitos elaborado pelo teu grupo com a turma e professor.

A importância das estruturas sedimentares Estrutura sedimentar


Os ambientes atuais de deposição são fáceis de identificar: todos sabemos Conjunto de arranjos e marcas de
origem mecânica e/ou biológica
o que é um rio e conhecemos os seus sedimentos. Mas como poderemos deixados nos sedimentos, muitos dos
reconhecer a origem fluvial de uma rocha sedimentar antiga? A solução, quais se mantêm após a litificação.

nem sempre fácil, consiste em analisar três conjuntos de caraterísticas


da rocha.

Os ambientes de deposição | 87
1. Os minerais e as texturas. Como te recordas, a informação básica foi
obtida no 10º ano.
2. Os fósseis de fácies (quando existem). A informação básica foi obtida
na unidade temática anterior.
3. As estruturas sedimentares e suas articulações (sequências) verticais.
Vais obter de seguida a informação básica.
As estruturas sedimentares são padrões (ou aspetos) geométricos, em
regra macroscópicos, que os sedimentos adquirem à medida que se
depositam e consolidam. Aqueles padrões refletem a energia do meio de
Regime de fluxo transporte, ou seja, o regime de fluxo.
Energia do meio que transporta os
Os especialistas distinguem mais de 400 estruturas sedimentares,
sedimentos.
incluindo pós-deposicionais; contudo conhecer cinco ou seis é suficiente
Estruturas pós-deposicionais para as necessidades ao nível do 11º ano (Figursa 3.39 e 3.40).
O m.q. estruturas diagenéticas.

Figura 3.39 Estruturas sedimentares comuns: A – laminação entrecruzada planar


(marcas de ondulação com espessuras milimétricas e centimétricas); B – estratificação
entrecruzada encurvada (feixes com espessuras decimétricas a métricas).

A B C
Figura 3.40 Outras estruturas sedimentares comuns: (A) estrutura de carga (vista
lateral); (B) marcas de ondulação simétricas; (C) seixos imbricados (vista lateral de seixos
orientados atuais).

Sempre que a deposição ocorre devido ao efeito de uma corrente, em


ambientes fluvial, marinho ou eólico, em que o agente varia de intensidade
e/ou de direção, deixa essas mudanças impressas na arquitetura
interna da camada. Essas impressões surgem sob a forma de camadas
ou lâminas (quando as camadas são muitíssimo finos), igualmente
Estratificação
inclinadas relativamente à superfície de deposição, ou seja, relativamente
Disposição das rochas em estratos
ou camadas sobrepostas. à estratificação.
Por estratificação entrecruzada entende-se uma estrutura sedimentar
Estratificação entrecruzada
constituída por conjuntos de camadas ou lâminas igualmente inclinadas
Estrutura das rochas sedimentares
detríticas médias e finas marcada pela em relação ao plano geral de sedimentação.
existência de lâminas de deposição
oblíquas ao plano de sedimentação Na Figura 3.39 estão representadas estruturas sedimentares comuns em
horizontal
regime de fluxo (esquemas A e B).

88 | As reconstituições do passado
Quando as correntes são oscilatórias, ou seja, de sentido alternante, como
acontece com as correntes de maré num estuário ou num canal, formam-
-se marcas de ondulação simétricas (Figura 3.40, esquema B). Caso a Marcas de ondulação
corrente seja unidirecional, esta pode, ainda, orientar os sedimentos (ex.: simétricas
Ondulações produzidas num
da dimensão dos seixos) segundo uma direção preferencial (Figura 3.40, sedimento, em geral arenoso, pelos
esquema C). movimentos de um fluído que pode ser
a água ou o vento.
Por vezes, quando uma camada arenosa se sobrepõe a uma camada limo-
argilosa, formam-se bolsadas irregulares de areia que mergulham no corpo
pelitico (limo-argiloso). Estas estruturas sedimentares são denominadas
estruturas de carga, também conhecidas por figuras de carga (Figura 3.40, Estrutura de carga
esquema A). Bolsadas de areia, provenientes
de uma camada arenosa não
As estruturas sedimentares ajudam muitas vezes a caraterizar uma consolidada que mergulha numa
camada pelítica não consolidada.
camada. Mas o reconhecimento de um ambiente deposicional exige
a análise de uma sequência vertical de camadas. As sequências de
estruturas sedimentares são sucessões verticais articuladas que refletem
as variações temporais do regime de fluxo.
Um exemplo didático é a chamada sequência de Bouma. Corresponde ao Sequência de Bouma
produto de uma corrente de turbidez. Quando esta se inicia, a energia do Sequência teórica aceite para
os turbiditos siliciclásticos. Esta
meio é elevada; mas vai diminuindo progressivamente, o que se reflete na compreende, de baixo para cima, cinco
termos: 1 – seixos e areia grossa; 2 –
maneira como se sucedem os sedimentos (ou as rochas) e as estruturas
areia média a fina; 3 – areia fina e silte;
sedimentares. 4 – silte a argila; 5 – argila.

As estruturas sedimentares e a sua articulação vertical são de extrema Corrente de turbidez


importância no reconhecimento dos antigos ambientes de sedimentação. Massa de água do mar em movimento,
carregada de detritos em suspensão,
A Figura 3.41 mostra duas sequências frequentes. É suficiente para vindos sobretudo da vertente
entenderes o assunto. continental.

Figura 3.41 Duas sequências sedimentares comuns.

Os ambientes de deposição | 89
Repara nas palavras colocadas no topo da coluna da Figura 3.41. Elas indicam-nos o tamanho das partículas
a crescer da esquerda para a direita. Mas atenção, os sedimentos químicos (ex.: o calcário) situam-se, por
convenção, à esquerda dos detríticos mais finos. Não tem necessariamente a ver com a dureza das camadas.
Para compreenderes melhor a importância das estruturas sedimentares e da sua articulação vertical,
para o conhecimento dos ambientes de deposição em que se formaram e sua evolução temporal, realiza a
Atividade 3.8.

Problematizar
Qual a importância das estruturas sedimentares para o conhecimento do ambiente
de deposição onde que se formaram?

Atividade 3.8

1. Observa com atenção as Figuras A (perto de Baucau) e B A B


(Figueira da Foz, Portugal).
1.1. Com base na informação contida nos esquemas da Figura
3.40, identifica as estruturas sedimentares presentes nas
Figuras A e B.
1.2. Apresenta uma explicação para a formação dessas
estruturas.
2. Na Figura C está representado um dispositivo experimental C
usado para simular a formação de estruturas sedimentares,
fazendo deslizar para a direita e para a esquerda o recipiente.
2.1. Indica a estrutura sedimentar representada na Figura 3.40
que pode ser simulada através deste dispositivo.
2.2. Fundamenta a tua resposta.
3 As escalas verticais usadas nas duas sequências representadas
na Figura 3.41 são diferentes.
3.1. Representa as duas sequências usando uma mesma escala vertical.
3.2. Compara os resultados obtidos com os esquemas representados na Figura 3.41.
4. Discute com os teus colegas a importância das estruturas sedimentares e da sua articulação vertical no
reconhecimento dos antigos ambientes de sedimentação.

Nas proximidades da tua escola podes encontrar alguns ambientes de


deposição. Para conheceres melhor um desses ambientes (ex.: fluvial,
litoral marinho, continental), propomos-te que realizes uma atividade de
campo num local perto da escola. As orientações para a realização dessa
Análise de fácies
saída de campo bem como as tarefas que deves desenvolver encontram-
Metodologia comum à estratigrafia
e à sedimentologia, vocacionada para se na Atividade 3.9.
o estudo de fácies sedimentares.
Transgressões e Regressões
Ciclo transgressão-regressão Muitos geólogos, sobretudo ligados ao petróleo, são especialistas em
Período e conjunto de processos
compreendidos entre o inicio de uma
análise de fácies. Este é um assunto importante, mas demasiado complexo
transgressão (avanço do mar) e o final para o 11º ano. Por isso vai ser aqui muito simplificado.
da regressão (recuo do mar) que lhe
sucede. Termina num regresso ao tipo Um bom exemplo de análise de fácies é o ciclo transgressão-regressão. À
de sedimentação inicial.
luz da Tectónica de Placas, este ciclo pode ser ilustrado (Figura 3.42) por

90 | As reconstituições do passado
Problematizar
Que ambiente(s) de deposição podes encontrar nas proximidades da escola?
Como o(s) pode(s) caraterizar?

Atividade 3.9

1. Tendo em conta o que já conheces sobre ambientes de deposição e a localização da tua escola, partilha com o
professor e colegas de turma locais perto da escola que identifiques como ambiente de deposição.
2. Discute na turma o local que poderá ser mais adequado para a realização da saída, tendo em conta aspetos como,
por exemplo, os seguintes:
2.1. tempo necessário para te deslocares da escola até ao local;
2.2. acessibilidade à área de estudo;
2.3. espaço disponível para se trabalhar.
3. Discute com o professor aspetos relacionados com a organização da saída (ex.: hora de partida e hora de chegada;
material necessário à saída).
4. Durante a saída deves realizar, em grupo, as seguintes tarefas:
4.1. caraterizar os depósitos que encontrares, quanto:
- ao tamanho do sedimento e grau de calibragem;
- às estruturas sedimentares presentes.
4.2. fazer uma representação esquemática dos depósitos observados e respetiva legenda. Se necessário solicita a
ajuda do teu professor.
4.3. concluir em relação à variação da energia do meio em que os materiais se depositaram, com base na
caraterização dos depósitos e registos efetuados.
4.4. inferir o tipo de ambiente de sedimentação onde se terão formado os depósitos observados.
4.5. registar dúvidas/questões que as observações efetuadas te tenham suscitado
4.6. partilhar com o professor e colegas o trabalho realizado pelo teu grupo. Durante a partilha deves confrontar
os registos efetuados pelo teu grupo com os dos outros grupos e, se necessário, completá-los.
5. Após a saída deves organizar a informação recolhida (ex.: mapa de conceitos, tabela, relatório) e disponibilizá-la ao
teu professor, para que ele possa avaliar o teu desempenho nesta atividade.

uma margem continental passiva (exemplo: a margem australiana) que acaba por colidir com um arco insular
(exemplo: arco de Banda).

A B

Figura 3.42 Limites de placas (A) divergente com formação de nova crusta oceânica e (B) convergente com formação de cadeias
montanhosas/ arcos insulares.

A história será contada, a seguir, muito esquematicamente e à maneira de banda desenhada (Figura 3.43). É
suficiente para as tuas necessidades. E ajudar-te-á, mais tarde, a entender a complexa geologia de Timor-Leste.
Para isso deves interpretar os esquemas que se seguem e o texto correspondente.

Os ambientes de deposição | 91
Tempo 1
O mar começa a transgredir sobre a margem continental. Só a parte
esquerda do mapa de fácies (Plataforma clástica proximal) está debaixo
de água. A sedimentação passa de arenosa na praia a silto-argilosa para
o largo. Trata-se de uma variação lateral de fácies. Deves analisar, em
baixo, o perfil correspondente a cada mapa de fácies.

Tempo 2
O mar inunda progressivamente a margem continental. A zona de praia
desloca-se para o interior. Para o largo (esquerda do mapa), tem início a
sedimentação carbonatada.

Tempo 3
Os três ambientes deposicionais vão-se deslocando para terra dentro. O
que era terra (área-fonte) passa a ser mar (área deposicional).

Tempo 4
As condições mudam radicalmente. A nossa margem continental
divergente chega a uma zona de subducção/colisão. Uma bacia profunda
(à direita) coexiste com um leque submarino (à esquerda) - sequência
de Bouma - mais perto da área-fonte montanhosa (recorda o sistema
curto).

Figura 3.43 Mapas de fácies correspondentes a um ciclo de transgressão-regressão.

92 | As reconstituições do passado
Tempo 5

Leque submarino
Plataforma
Vai aparecendo, à esquerda, uma fácies de plataforma, à medida que a
bacia se vai enchendo de sedimentos.

Leque submarino
Tempo 6

Plataforma
A plataforma alarga-se, avançando para o interior da bacia. O processo
chama-se progradação. O resultado é uma regressão da linha de costa.

tempo 6
tempo 5

tempo 4

Tempo 7
Planície aluvial

Plataforma
O ambiente de fácies de planície aluvial começa a aparecer à esquerda
no mapa. No perfil, ele sobrepõe-se ao ambiente/fácies de plataforma.

Tempo 8
Planície aluvial

Plataforma

O ambiente de planície aluvial continua a progredir (para a direita) sobre


o ambiente de plataforma, até encher completamente a bacia. O que
era mar passou de novo a terra. Assim termina um ciclo transgressão -
regressão. tempo 8

tempo 7

tempo 6

Figura 3.43 Mapas de fácies correspondentes a um ciclo de transgressão-regressão (continuação).

Os ambientes de deposição | 93
Numa coluna litológica sintética, a granulometria dos sedimentos diminui
Sequência positiva
Sequência de fácies correspon-
ao longo dos tempos 1 a 3 (sequência positiva) e aumenta para cima ao
dente a uma transgressão. longo dos tempos 4 a 7 (sequência negativa), como está evidenciado na

Sequência negativa Figura 3.43.

Sequência de fácies correspondente a A informação contida na Figura 3.43 ajudou-te, certamente, a compreender
uma regressão.
melhor o ciclo de transgressão-regressão. A realização da Atividade 3.10
vai contribuir para clarificar os aspetos que ainda não estejam bem
compreendidos em relação a essa sequência cíclica.

Problematizar
Qual a importância das fácies e das sequências de fácies para a reconstituição do
passado da terra?

Atividade 3.10

1. Analisa a informação contida na Figura ao lado.


1.1. Identifica, na Figura, a sequência negativa. A D
1.2. Representa, no teu caderno, uma sequência cíclica de
trangressão-regressão, usando a simbologia representada na
Figura. B C
1.3. Elabora um texto que explique a formação da sequência que
representaste. Nele deves fazer referência à variação da energia C B
do meio e do tamanho dos sedimentos.
2. Partilha o texto que escreveste com a turma e professor.
D A
3. Discute, na turma, a relevância das fácies e da sequência de fácies para
a reconstituição de ambientes do passado da Terra.

Estratigrafia e Paleogeografia
A análise de uma coluna estratigráfica em termos de fácies permite, entre
Paleogeografia outras coisas, a reconstituição das geografias antigas (Paleogeografia). A
Reconstrução histórica do padrão da tarefa não é fácil e poderás vir um dia a exercitá-lo se vieres na Universidade
superfície terrestre ou de uma dada
área num determinado tempo do a escolher o curso de Geologia. A Paleogeografia não pretende apenas dar
passado geológico.
a conhecer a distribuição, numa dada região (ex.: Timor), das terras e dos
mares; pretende também conhecer a distribuição dos vários ambientes
sedimentares antigos, como por exemplo desertos, lagos, vales fluviais,
deltas, plataforma continental, entre outros.

94 | As reconstituições do passado
3.3 Regimes tectónicos

Os regimes tectónicos são padrões caraterísticos da crusta terrestre em


termos de Tectónica de Placas. Estes padrões associam ambientes de
erosão e ambientes de deposição. Nesta subtema vais estudar o regime
de dorsal oceânica e o de arco insular.

nova

? Como é que os regimes tectónicos condicionam as


caraterísticas dos sedimentos e as rochas a que estes dão
origem?

Neste subtema vais encontrar respostas para questões como esta e para outras questões que venham a surgir
durante o processo de aprendizagem. O trabalho que desenvolveres vai ajudar-te a construir conhecimento e a
adquirir competências, visando alcançar as metas de aprendizagem que se apresentam em seguida.

Conceitos-chave Metas de aprendizagem


• Regime tectónico • Relaciona as caraterísticas dos sedimentos e das rochas sedimentares
• Dorsal oceânica com os regimes tectónicos que lhes deram origem.

• Arco insular • Identifica, em esquema, regimes tectónicos divergentes, conver-


gentes e transformantes.
• Ofiolito

Um regime tectónico é um padrão caraterístico de uma subdivisão da Regime tectónico


crusta terrestre em termos de Tectónica de Placas. É um padrão que Conjunto de caraterísticas que definem
a estrutura tectónica de uma dada
associa ambientes de erosão e ambientes de sedimentação. Exemplos: um região da crusta terrestre.
arco insular, ou uma margem continental passiva, ou uma margem ativa.
Dorsal oceânica
Os especialistas identificam diversos regimes tectónicos. Para entenderes
Grande alinhamento de relevos
o assunto, não precisas de tantos. Bastam dois. Consideram-se aqui o de vulcânicos submarinos à escala do
planeta. Coincide com a suposta faixa
dorsal oceânica e o de arco insular. de alastramento e afastamento de duas
placas oceânicas.

Os registos tectónicos | 95
Arco insular Regime de dorsal oceânica
Rosário de ilhas, muitas vezes A formação de uma crusta oceânica é um processo complexo; ela ocorre
vulcânicas, dispostas numa cadeia
arqueada. Caraterísticos das margens
sobretudo no rifte central de uma dorsal oceânica. As rochas caraterísticas
do oceano Pacífico e das Caraíbas, os da crusta oceânica constituem os chamados ofiolitos. O termo ofiolito
arcos insulares são associados a zonas
de subducção de crusta oceânica sob não designa uma rocha, mas sim uma associação vertical de rochas. Já
crosta geralmente oceânica, de que
resulta intensa atividade vulcânica e ouviste falar em ofiolitos no 10ºano.
sísmica de foco profundo.
No caso de um ofiolito considerado completo, esta associação compreende
Ofiolito quatro “camadas”, numeradas de 1 a 4 de cima para baixo (Figura 3.44).
Associação de rochas ígneas básicas
e ultrabásicas (gabros, basaltos,
peridotitos) mais ou menos
serpentinizados. Os ofiolitos são
interpretados como porções de
crusta oceânica e de manto superior,
na sequência de importantes
deformações orogénicas.

Figura 3.44 Representação esquemática de um ofiolito.

Camada 1 – É formada por sedimentos, geralmente lamas siliciosas com


radiolários ou carbonatadas com foraminíferos. A sua espessura é fraca a
nula ao nível dos riftes oceânicos; mas vai aumentando para um e outro
lado.
Camada 2 – É formada por lavas basálticas submarinas (pillow-lavas),
derramadas sobre o fundo oceânico e, muitas vezes, recobertas por
sedimentos da camada 1. Como te recordas do 10º ano, a maioria dos
especialistas supõe que estas lavas vão sendo “empurradas” para um
e outro lado dos riftes: é o alastramento dos fundos oceânicos. Elas
apresentam muitas vezes um metamorfismo que modifica os minerais
mas não as texturas: é o metamorfismo hidrotermal.
Camada 3 – Corresponde à parte mais baixa da crusta oceânica e está
separada do manto pela descontinuidade Moho. É constituída por duas
“subcamadas”:
• A subcamada superior é formada por numerosos diques ou filões
doleríticos paralelos ao rifte central. Estes diques cortam por vezes

96 | As reconstituições do passado
gabros de aspeto maciço e podem servir de canais para a subida do magma que alimenta as lavas da
camada 2.
• A subcamada inferior é formada por gabros de aspeto estratificado; estes gabros podem associar-se, na base,
a peridotitos igualmente estratificados.
Camada 4 – É já parte do manto superior; por isso, um ofiolito não representa, em rigor, a crusta oceânica, mas
sim a litosfera oceânica.

Regime de arco insular


Se a formação da crusta oceânica, nas zonas de acreção, é um processo complexo, a destruição da crusta
oceânica, nas zonas de subducção, é ainda mais complexo. Não te esqueças de que a subducção é um processo
indispensável na teoria da Tectónica de Placas. E porquê? Porque a Tectónica de Placas pressupõe que o volume
da Terra se tem mantido constante ao longo do tempo geológico; o que é provável mas não é certo.
Numa zona de subducção intraoceânica, desenvolve-se um arco insular. Mas o que é exatamente um arco insular?
Sob a designação de arco insular juntam-se três coisas distintas: a frente vulcânica (ou arco insular propriamente
dito), o antearco e o retroarco. O antearco situa-se do lado do fosso oceânico, e o retroarco do lado oposto. Tudo
isto já deves saber do 10º ano, embora de um modo não articulado: primeiro com o magmatismo, depois com a
sedimentação, depois com o metamorfismo, depois com a tectónica. Vais agora ligar tudo.
A Figura 3.45 mostra os processos e produtos típicos de uma zona de subducção intraoceânica. A história é
muito complexa no pormenor; mas não é difícil de entender nas suas linhas gerais. Um bom exercício consiste
em descrever e explicar aquela figura à luz dos conhecimentos que adquiriste até agora. Procura agora explicar
a Figura 3.45. à luz dos conhecimentos que adquiriste desde o 10º ano.

Figura 3.45 Arco insular típico de orogenia de subducção.

Os registos tectónicos | 97
Para facilitar a realização dessa tarefa tem em conta as sugestões apresentadas na Atividade 3.11.

Problematizar
Como explicar a dinâmica de uma zona de subducção intraoceânica?

Atividade 3.11

1. A Figura 3.45 mostra os processos e os produtos associados a zonas de subducção. Explica a Figura relacionando:
1.1. o magmatismo com a Tectónica de Placas;
1.2. o metamorfismo com a Tectónica de Placas.

Síntese
• A superfície da Terra apresenta um relevo muito diversificado, que evolui ao longo do tempo. O relevo tende
a passar por diferentes fases: juventude; maturidade e velhice.
• A erosão das áreas emersas é a principal fonte de sedimentos.
• A erosão e a sedimentação tendem a aplanar a superfície terrestre.
• A tectónica e o vulcanismo são fenómenos que tendem a criar irregularidades na superfície da Terra,
conduzindo ao aparecimento de diferentes formas de relevo.
• O clima, a litologia e as estruturas geológicas são fatores que condicionam a modelação e evolução do relevo
terrestre.
• As áreas de sedimentação podem ser denominadas atendendo à natureza dos sedimentos (sistema siliciclástico
e sistema carbonatado), à sua distribuição geográfica (domínios continental, transicional e marinho) e aos
processos envolvidos nos ambientes de sedimentação.
• Aos diferentes ambientes de deposição correspondem depósitos caraterísticos, pelo que o seu estudo ajuda
a conhecer os ambientes em que se formaram.
• As rochas sedimentares são as mais abundantes à superfície da Terra. São também as que nos dão mais
informações sobre os ambientes antigos, tanto subaéreos como subaquáticos, através das estruturas
sedimentares e das sequências de estruturas sedimentares.
• As informações contidas nas rochas sedimentares dizem respeito às caraterísticas dos estratos e dos
sedimentos e ao registo fóssil que contêm.
• A composição mineralógica das rochas sedimentares dá-nos indicações sobre a natureza geológica das áreas
fonte.
• A fácies das rochas diz respeito às caraterísticas que permitem definir o ambiente em que foram geradas e
reconstituir paleoambientes.
• A dorsal oceânica e o arco insular são regimes tectónicos que nos ajudam a compreender a formação e
destruição da crusta oceânica.

98 | As reconstituições do passado
• Aos diferentes regimes tectónicos estão associadas rochas com caraterísticas específicas (ex.: mineralogia,
textura). Estas rochas (ex.: arenitos) dão-nos informação sobre a sua história (ex.: meio de transporte dos
sedimentos, ambiente de sedimentação, diagénese).

Questões em aberto
• Fala-se hoje em responsabilidade antrópica quando se abordam as questões do risco de desaparecimento
de algumas das espécies vivas. Conhecem-se, contudo, ao longo da história da Terra, diferentes momentos
de extinções em massa de organismos vivos. O que pensar do verdadeiro grau de responsabilidade da
Humanidade na situação atual?
• Numa sequência estratigráfica podem encontrar-se lacunas. A que correspondem? A ausência de
sedimentação? À erosão de material antes depositado? Como respondes a estas questões de forma a melhor
compreender o passado geológico?

Sítios Web úteis


http://e-geo.ineti.pt/bds/lexico_geologico/default.aspx?letra=F
http://www.drm.rj.gov.br/index.php/projetos-e-atividades/pedagogico/100-pedagogicoteoria
http://geoescola.org/dossiers/publicacoes/Variabilidade_climatica_dinamica_geomorf_ABrumFerreira.pdf
http://www.geografia.fflch.usp.br/publicacoes/RDG/RDG_19/11-O_papel.pdf
http://vsites.unb.br/ig/glossario/

Avaliação
1. Na Figura está representado o percurso de um rio e perfis transversais
de diferentes partes do seu percurso.
1.1. Indica o estado de evolução em que se encontra o rio.
1.2. Estabelece a correspondência entre os perfis X, Y e Z e os
segmentos do rio A-A’, B-B’ e C-C’.
1.3. Apresenta uma explicação para a formação da estrutura assinalada
pela letra W.

2. Na Figura seguinte estão representadas estruturas sedimentares comuns, a estratificação paralela (1) e a
estratificação entrecruzada (2).
1 2

99
2.1. Apresenta uma explicação para a formação de estratificação paralela.

2.2. Indica as condições do meio (ex.: agente de transporte) em que se terá formado a estratificação
entrecruzada.
3. Na Figura estão representadas sequências de camadas rochosas que traduzem variações do nível das águas
do mar.

3.1. Indica o tipo de sequência representada na Figura. Fundamenta a resposta.


3.2. Refere a importância das sequências representadas para a reconstituição de ambientes do passado.
4. Na Figura estão representadas formas de relevo caraterísticas de uma paisagem que podemos encontrar em
Timor-Leste.

4.1. Das afirmações que se seguem, indica as que são verdadeiras.


A – A área representada está desenvolvida sobre uma estrutura rochosa granítica, que facilita o
desenvolvimento de um relevo plano.

100 | As reconstituições do passado


B – Na paisagem não há indícios de fenómenos tectónicos que acarretaram ruturas da massa rochosa.
C – Na paisagem podemos observar formas típicas, conhecidas por dolinas.
D – As paisagens geomorfológicas observadas são típicas de rochas carbonatadas, que evoluem devido à
ação química, sobretudo da água e do dióxido de carbono.
5. Elabora um mapa conceitos em que relaciones os ambientes estudados nesta Unidade Temática (UT3) com as
estruturas e rochas sedimentares que originam.

101
Os conteúdos desta Unidade Temática pretendem fornecer
uma visão geral do passado geológico de Timor-Leste,
contextualizando-o na história geológica da região e do próprio
planeta Terra. A carta topográfica, a carta geológica e a carta
de solos serão exploradas como representações da superfície
terrestre, pelo que serão um recurso a usar na abordagem dos
conteúdos desta unidade. São também abordados aspetos como
a formação e a fragmentação da Pangea e a colisão “alpina”, sendo
relevados os registos timorenses.
Para facilitar a tua aprendizagem a Unidade Temática O PASSADO
GEOLÓGICO DE TIMOR-LESTE está dividida em dois subtemas:
• A importância dos mapas;
• Revisitando as formações rochosas de Timor-Leste.
Unidade Temática 4 | O passado
geológico de Timor-Leste

4.1. A importância dos mapas


4.2. Revisitando as formações rochosas
de Timor-Leste
Unidade Temática 4 | O passado geológico de Timor-Leste

4.1. A importância dos mapas


Todos, certamente, já ouviram falar em mapas topográficos, mapas
geológicos e mapas de solos como representações da superfície
terrestre. Mas se calhar nem todos conhecem e compreendem
o significado dos elementos que os constituem. O estudo dos
diferentes tipos de mapas vai ajudar-te a distingui-los e a reconhecer
a importância de cada um deles para o conhecimento da superfície
terrestre.

? Qual a importância dos mapas topográfico, geológico e de


solos para conhecer melhor Timor-Leste?

Ao longo deste subtema vais encontrar resposta para esta e outras questões. O trabalho que desenvolveres vai
ajudar-te a construir conhecimento e a adquirir competências visando alcançar as metas de aprendizagem que
se apresentam em seguida.

Conceitos-chave Metas de aprendizagem


• Mapa topográfica/Carta topográfica • Carateriza o relevo de uma região com base em cartas topográficas.
• Curva de nível • Traça um perfil topográfico a partir da informação contida numa carta
• Perfil topográfico topográfica.

• Mapa geológico/Carta geológica • Determina a distância real entre dois pontos, a partir da informação
fornecida numa carta topográfica.
• Coluna estratigráfica
• Elabora um relatório sobre uma saída de campo, de acordo com os
• Corte geológico/Perfil geológico objetivos definidos.
• Mapa de solos/ Carta pedológica • Carateriza uma região do ponto de vista geológico (ex.: litologia,
idade das rochas, estruturas geológicas presentes), tendo em conta a
• Cambissolo informação contida numa carta geológica.
• Vertissolo • Traça um perfil geológico a partir da informação contida numa carta
• Fluvissolo geológica.
• Textura de solos • Relaciona famílias de solos com as rochas que lhes deram origem.

A geologia de Timor-Leste é de uma complexidade extrema, mesmo para especialistas. Talvez por isso, o mais
importante, ao nível do 11º ano, seja apenas entender o porquê dessa complexidade. Verás com satisfação que
tudo o que aprendeste até agora te vai facilitar muito aquele entendimento. Mas será que aprendeste mesmo
o suficiente? Não. Falta-te conhecer alguns documentos importantes que são representações da superfície
terrestre: o mapa topográfico, o mapa geológico e o mapa de solos.

104
O mapa topográfico
Os mapas topográficos ou cartas topográficas são a base de suporte de Carta Topográfica
outras cartas como, por exemplo, a carta geológica (Figura 4.2). Contêm O m.q. mapa topográfico. É o
documento que representa, em plano,
dois tipos de informação: o relevo da superfície terrestre de uma
dada região por meio de projeções
• o traçado dos cursos de água e das estradas e caminhos, a localização cartográficas.
dos bosques, edifícios, entre outros;
• o traçado do relevo.
É o relevo que as distingue dos mapas de estradas e lhes confere a
denominação de carta ou mapa topográfico. O relevo é normalmente
representado por curvas de nível, cujas cotas têm como referência o nível Curva de nível
médio do mar. Linha imaginária sobre o terreno
que une todos os pontos de igual
Estas cartas têm uma finalidade essencialmente prática. Devem permitir altitude de uma região representada.

uma leitura clara e rápida de todos os elementos visíveis na paisagem e


possibilitar a medição precisa de distâncias, desnivelamentos e superfícies.
Para determinarmos as distâncias ou as superfícies representadas nas
cartas topográficas temos de recorrer à escala utilizada. Por escala Escala
entende-se a relação entre a distância medida na carta e a distância real Quociente entre uma distância na
Carta e a correspondente distância
medida no terreno. horizontal medida no terreno.

Às vezes, é necessário observar detalhadamente a variação do relevo


Perfil topográfico
de um determinado terreno. Para isso, deve-se construir um perfil
Representação do corte de uma
topográfico. superfície topográfica por um plano
vertical.
A Figura 4.1 representa parte de uma carta topográfica que integra a região
de Díli. As altitudes representadas estão expressas numa unidade usada Pé
Unidade de comprimento do sistema
preferencialmente por autores da língua inglesa (pé) que corresponde a anglo-saxónico, equivalente no sistema
cerca de 31 cm. métrico decimal a 30,48 cm.

Figura 4.1 Carta topográfica da região de Díli (Escala 1:1 000 000).

A importância dos mapas | 105


Problematizar
Como se traçam as curvas de nível?
Como é que a partir das curvas de nível se constrói um perfil topográfico?

Atividade 4.1

Na carta da Figura 4.1 estão representadas algumas curvas de nível. A tarefa que se segue vai ajudar-te a compreender
o traçado de curvas de nível.
1. Solicita ao teu professor o seguinte material: papel milimétrico; canetas de acetato de ponta fina de várias cores;
modelo de relevo semelhante ao da Figura A (poderá ser uma amostra de rocha); tina de vidro; água; corante não
tóxico; régua; placa de vidro, e fita-cola.
2. Agora executa, em grupo, os seguintes procedimentos (ver Figuras A e B).
2.1. Corta uma tira de papel milimétrico com 1 cm de largura e 15 cm de comprimento.
2.2. Marca na tira intervalos de 8 mm.
2.3. Convenciona que cada intervalo corresponde a 10 m e inicia a contagem a partir do zero.
2.4. Coloca a tira de papel milimétrico a toda a altura da tina, do lado de fora.
2.5. Coloca o modelo de relevo dentro da tina.
2.6. Coloca a placa de vidro sobre a tina, de modo a deixar uma abertura para introduzir água corada.
2.7. Coloca água corada na tina até que o seu nível atinja a primeira divisão da escala que colocaste no exterior da
tina.
2.8. Olhando por cima, traça na placa de vidro, com auxílio de uma caneta de acetato, os contornos
correspondentes à interceção da superfície da água com os limites do modelo. Com uma caneta de outra cor
marca a curva correspondente aos 10 m.
2.9. Repete as operações anteriores até atingir o ponto mais alto do modelo.
3. Elabora, agora, um perfil topográfico a partir das curvas de nível traçadas. Para isso segue os seguintes procedi-
mentos. A Figura C e o esquema, podem ser úteis para a elaboração do perfil (caso sintas dificuldades pede ajuda
ao teu professor).
3.1. Com a régua traça uma linha que intersete o conjunto das curvas de nível obtidas e nela marca dois pontos.
3.2. Utilizando o papel milimétrico restante marca na vertical a mesma escala usada no exterior da tina.
3.3. Retirando a placa de vidro, faz coincidir o primeiro ponto de interseção do segmento de reta traçado com a
origem da escala e traça a linha correspondente, na horizontal.
3.4. Volta a colocar a placa de vidro sobre o papel e traça os restantes pontos de interseção, indicando a cota a que
corresponde cada um deles.
3.5. Traça agora o perfil que obterias se cortasses o modelo segundo aquele segmento de reta.
4. Discute os resultados obtidos, com os colegas de grupo, tendo em conta as seguintes questões.
• Como se apresentam as curvas de nível junto a uma escarpa?
• E num declive suave?
5. Partilha com a turma e
professor as conclusões
a que o teu grupo chegou.

A B C

Acabaste de construir uma “carta topográfica” a partir de dados recolhidos


no laboratório. Por vezes, a ida ao campo ajuda a compreender os
elementos estruturais que integram uma carta topográfica (ex. linhas de
Linha de altura
altura, linhas de água).
Sucessão de cumes de cadeias
montanhosas que separam as Para te familiarizares com os elementos estruturais que caraterizam
respetivas vertentes.
uma determinada área e que podem constar numa carta topográfica,

106 | O passado geológico de Timor-Leste


propomos-te que realizes uma saída de campo, nas proximidades da
escola. Durante a saída deves seguir a proposta de trabalho apresentada
na Atividade 4.2.

Problematizar
Que elementos caraterizam a geologia da área em estudo?

Atividade 4.2

Na saída que vais realizar nas proximidades da escola deves seguir as orientações do teu professor e ter em conta os
aspetos que se apresentam em seguida.
1. Antes da saída deves:
• solicitar ao professor uma carta topográfica da região que vais visitar;
• preparar o material necessário à realização das tarefas proposta para o campo (ex.: bússola, martelo, bloco de
notas, máquina fotográfica, material de escrita, sacos de plástico, marcadores).
2. Durante a saída sugere-se a realização de tarefas como, por exemplo:
• localização das várias paragens;
• identificação de linhas de água e de linhas de altura;
• medição da inclinação das camadas;
• identificação das rochas que encontrares;
• realização de registos escritos e fotográficos;
• recolha de amostras de rochas para mais tarde serem estudadas;
• articulação da informação recolhida com a que está presente na carta.
3. Depois da saída sugere-se a realização de tarefas como, por exemplo:
• discussão da informação recolhida no campo e esclarecimento de dúvidas;
• elaboração de um relatório sobre a visita realizada.

O mapa geológico
Os mapas ou cartas geológicas mostram, como o próprio nome indica, Carta geológica
aspetos geológicos visíveis à superfície: rochas, formações, dobras, falhas, O m.q. mapa geológico. É uma
representação da geologia de uma
entre outros. dada região, nos seus múltiplos aspetos
(litológicos, estruturais, estratigráficos,
Os mapas geológicos representam rochas ou associações de rochas, mineiros, entre outros) sobre fundo
topográfico.
consolidadas ou não, meteorizadas ou não. Mas não representam solos;
estes são representados nas cartas pedológicas (mais à frente vais ficar a Carta pedológica
conhecer melhor este tipo de cartas). Pelo contrário, os mapas geológicos O m.q. carta de solos ou mapa
pedológico. Mapa que representa os
são representações do subsolo. solos de uma determinada região
ou país.
Um mapa é uma representação, não uma fotografia. Os diversos elementos
geológicos (rochas, falhas…) são representados simbolicamente por meio
de cores, tramas, linhas especiais, entre outros.
Deve reconhecer-se que uma coisa é construir uma carta geológica e
outra, bem diferente, é interpretar (ou ler) uma carta geológica.

A importância dos mapas | 107


A construção das cartas geológicas
A construção (ou levantamento) de uma carta geológica é uma tarefa em
regra morosa e complexa, que muito depende da capacidade e experiência
do seu autor. Exatamente por isso deveremos deixar o assunto de lado
ao nível do 11º ano. Se vieres a ser um profissional de geologia vais
certamente realizar essa tarefa.

A leitura das cartas geológicas


A leitura de uma carta geológica é mais fácil do que a sua construção;
ainda assim exige conhecimentos que ultrapassam os que adquiriste
até agora.
Uma carta geológica possui três componentes essenciais:
1. o mapa geológico propriamente dito e a respetiva legenda.
A legenda é a peça fundamental e a primeira a ser analisada. Ela inclui
diferentes símbolos (coloridos ou não) que correspondem a unidades
litológicas e estratigráficas cartografadas; falhas, dobras, estratificação,
xistosidade, por exemplo.
A legenda dá-nos imediatamente uma ideia precisa da quantidade e
qualidade da informação. Quanto ao mapa geológico propriamente
dito, este é, na maioria dos casos, um mapa topográfico (ou geográfico)
a que se sobrepõe a informação geológica;
Coluna estratigráfica 2. a coluna estratigráfica.
Desenho esquemático que repre- Uma boa carta deve incluir uma ou mais colunas estratigráficas, onde
senta uma dada sequência de
estratos. estejam localizadas as diversas unidades representadas no mapa.
Muitas vezes a legenda confunde-se com a coluna estratigráfica;
Corte geológico
3. os cortes ou perfis geológicos
O m.q. perfil geológico. Representação
esquemática da constituição Os perfis geológicos fornecem ao mapa a terceira dimensão
geológica de um troço do terreno, em
profundidade. (profundidade). Dado que os cortes são, em grande parte, interpre-
tativos, diferentes geólogos podem elaborar, para a mesma região,
cortes por vezes bastante diferentes. Como é fácil de compreender,
a existência de sondagens ajuda imenso; mas estas são dispendiosas,
pelo que só existem em trabalhos de Geologia Aplicada: prospeção
mineira e petrolífera, pesquisa de águas subterrâneas, grandes obras
de engenharia, entre outros.
Poderás entender melhor a ajuda que nos dão os cortes na leitura do
mapa realizando alguns exercícios na sala de aula.
A carta geológica é, quase sempre, acompanhada de uma notícia
explicativa. Esta é um complemento indispensável da carta geológica,
onde os diversos utilizadores, geógrafos, engenheiros, hidrogeólogos…,
podem e devem encontrar as informações detalhadas de que necessitam.

106 | O passado geológico de Timor-Leste


As notícias explicativas contêm normalmente uma linguagem técnica
que pode não ser facilmente compreendida por leitores que não estejam
preparados. É um problema real, que não pode ser ignorado.
Nas Figuras 4.2 e 4.3 estão representadas caraterísticas geológicas de uma
região em mapa e em bloco diagrama, e respetiva legenda.

Figura 4.2 Mapa geológico. Figura 4.3 Bloco diagrama


correspondente à área representada na
Para compreenderes melhor o conceito de corte geológico e aprenderes Figura 4.2.
a desenhar este tipo de corte, realiza a Atividade 4.3. No 12º ano terás
oportunidade de aprofundar a importância económico-social que advém
destes registos.

Problematizar
Como fazer um corte geológico?

Atividade 4.3

1. Identifica na Legenda da Figura 4.2 informação


que associes às cartas topográficas. Com
base nessa informação descreve a região
representada.
2. Realiza, no teu caderno, o corte geológico X-Y
a partir das curvas de nível do mapa da Figura
4.2. Se necessário recorre à informação contida
no bloco diagrama da Figura 4.3.
3. Pinta os materiais rochosos do corte geológico
que realizaste, usando as cores e simbologia
que constam no mapa.
4. Sobre que tipo de rochas foram construídas a
maior parte das casas da povoação de Santa
Clara? E a ponte assinalada no mapa?

A importância dos mapas | 109


5. Passa para o caderno o esquema que se encontra na página anterior e completa-o, recorrendo à informação
fornecida pelas Figuras 4.2 e 4.3.
6. Discute, no teu grupo de trabalho, a importância socioeconómica e política da informação contida numa carta
geológica.
7. Partilha com a turma e professor os registos que efetuaste.

As cartas geológicas de Timor-Leste


A mais conhecida das três cartas geológicas de Timor-Leste é a do inglês Audley-Charles. É a carta clássica (Figura
4.4). Foi publicada em 1968, mas elaborada no início da década de 60. Ela faz parte da tese de doutoramento
do autor; o texto que acompanha a carta é uma verdadeira e detalhada notícia explicativa, sobretudo para as
rochas sedimentares.
No mesmo ano de 1968 foi publicada uma outra carta geológica, do português Azeredo Leme, também elaborada
no início da década. Esta abrange todo o território de Timor-Leste (Figura 4.5). O autor baseou-se na cartografia,
então inédita, de Freytag e de Audley-Charles, mas também nas suas investigações pessoais. O texto salienta
os aspetos estratigráficos e é um pouco mais simples do que o de Audley-Charles. Isso não é de admirar, dado
tratar-se de um texto de divulgação. Por outro lado, é um mapa muito completo, pois inclui a ilha de Ataúro e o
território de Oecussi.
Antes disso, em 1959, os franceses Gageonnet e Lemoine haviam apresentado a primeira carta geológica de
Timor-Leste (Figura 4.6). É de facto um bom exemplo de carta: mapa simples e esquemático, cortes interpretativos
e audaciosos.
Comparar estas três cartas é um excelente exercício didático que poderás fazer na sala de aula. Repara na escala
e sobretudo na legenda; e procura acompanhar a evolução dos conhecimentos geológicos que elas ilustram. Não
te esqueças que a Tectónica de Placas ainda não era conhecida. Achas que ela é mesmo indispensável a estas
escalas?
Para conheceres melhor as cartas de Timor-Leste anteriormente referidas, realiza as tarefas propostas na
Atividade 4.4

Problematizar
Quais as principais diferenças entre as três cartas geológicas de Timor-Leste de
Gageonnet e Lemoine, Azeredo Leme e Audley-Charles?

Atividade 4.4

1. Observa com atenção as cartas geológicas de Timor-Leste (Figuras 4.4, 4.5 e 4.6) e realiza, em grupo, as tarefas que
se seguem.
1.1. Indica o tipo de informação geológica que está contida nessas cartas geológicas.
1.2. Refere a carta que apresenta uma maior área de Timor-Leste cartografada. Fundamenta a resposta.
1.3. No corte A-A’ da Figura 4.4, está representado o anticlinal de Cribas. Fundamenta esta designação com base
em dados fornecidos pela carta geológica representada na Figura 4.4.
2. Partilha com a turma e professor as conclusões a que o teu grupo chegou.

106 | O passado geológico de Timor-Leste


Figura 4.4 A carta geológica clássica de
Timor-Leste (adaptado de
Audley-Charles).

Figura 4.5 Carta geológica de todo o


território de Timor-Leste (adaptado de
Azeredo Leme).

A importância dos mapas | 111


Figura 4.6 A primeira carta geológica de
Timor-Leste (adaptado de Gageonnet &
Lemoine)

O mapa de solos
Mapa de solos O mapa de solos representa os solos de uma determinada região ou país.
O m.q. carta de solos. Deves recordar o que no 10º ano estudaste sobre a origem de um solo. Na
Figura 4.7 estão representados os principais tipos de solo de Timor-Leste e
Textura de solos
sua localização. Trata-se de uma carta de solos de Timor-Leste.
Está relacionada com a dimensão
e organização das partículas que o O território timorense apresenta essencialmente três tipos de solo:
constituem. Podem ser arenosos e
leves ou mais argilosos e pesados. cambissolos, vertissolos e fluvissolos (ver Figura 4.7). Estes apresentam
texturas próprias (texturas de solos).
Cambissolo
Os cambissolos são constituídos por materiais de textura fina derivada de
Solo de textura fina, resultante de
intensa alteração da rocha-mãe. uma grande diversidade de rochas, principalmente em zonas coluviais e
aluviais ou de depósitos eólicos. Estes solos encontram-se principalmente
Vertissolo
nos distritos das zonas montanhosas: Aileu, Ainaro, Ermera, Manatuto,
Solo mineral rico em argilas
expansivas, comum em climas Manufahi e Viqueque. Os cambissolos suportam uma grande variedade
marcados por uma alternância de
de usos agrícolas, mas em terras íngremes são utilizados principalmente
secura e humidade.
para pasto, café e floresta.
Horizonte
Os vertissolos são solos de textura pesada (com 30% ou mais de argila
Espessura de solo aproximadamente
paralela à superfície do terreno e que montmorilonítica em todos os horizontes, até pelo menos 50 cm de
difere das que lhe estão próximas profundidade), sendo deficientes em drenagem natural. Os vertissolos
pela propriedades físicas, químicas e
biológicas. encontram-se nas zonas de média montanha: Ainaro, Baucau, Bobonaro,
Lautem e Viqueque. Estes solos são encontrados em depressões e zonas
ligeiramente ondulantes.

106 | O passado geológico de Timor-Leste


Os fluvissolos são desenvolvidos em depósitos aluviais recentes, Fluvissolo
nomeadamente fluviais, lacustres ou depósitos marinhos. São encontrados Termo abrangente que designa os
em áreas periodicamente alagadas das planícies aluviais, nas margens aluviossolos e os coluviossolos.

dos rios, vales e pântanos, em todos os continentes e em todas as zonas


climáticas. Em Timor-Leste os fluvissolos são encontrados nas regiões de
baixa altitude ou planície a Sul de Ainaro, Covalima, Manufahi, Viqueque
e Vale de Maliana na Costa Norte e ao longo da linha da água da ribeira de
Loes. Os fluvissolos também se encontram em todas as linhas de água e
nos pântanos ao longo da costa Sul.

Figura 4.7 Principais tipos de solo de Timor-Leste e sua localização.

O estudo das caraterísticas naturais dos solos permite associá-los às rochas que lhes deram origem. Por exemplo,
os cambissolos e os fluvissolos podem ter, ou não, calcário.
Para ficares a conhecer as caraterísticas dos solos timorenses e sua distribuição realiza a Atividade 4.5.

Problematizar
Como é que os solos timorenses se relacionam com as rochas que lhes
deram origem?

Atividade 4.5

Analisa a informação disponível no manual e responde, em grupo, às questões que se seguem.


1. Distingue cambissolos de vertissolos, quanto à textura e localização.
2. Refere regiões timorenses onde se podem encontrar fluvissolos com calcário. Se necessário consulta a carta
geológica de Timor-Leste (Figuras 4.4, 4.5 ou 4.6).
3. Relaciona o tipo de solo com as caraterísticas das rochas que lhes deram origem.
4. Partilha com a turma e professor o trabalho realizado pelo teu grupo.

A importância dos mapas | 113


4.2 Revisitando as formações rochosas de Timor-Leste

Neste subtema vais conhecer melhor a geologia de Timor-Leste,


revisitando episódios da sua história a nível regional e global. A tectónica
e a paleogeografia vão ser importantes para compreenderes a história
geológica do teu país.

? Como é que a tectónica e a paleogeografia ajudam a


compreender o passado geológico de Timor-Leste?

Ao longo deste subtema vais encontrar respostas para esta e outras questões. No trabalho que vais desenvolver
terás necessidade de mobilizar conhecimentos adquiridos no ano anterior (10º ano), os quais te vão ajudar a
construir novos conhecimentos e a adquirir competências que te permitam alcançar as metas de aprendizagem
que a seguir se apresentam.

Conceitos-chave Metas de aprendizagem


• Unidades autóctone, • Interpreta esquemas relativos à formação e evolução da ilha de
parautóctone e alóctone Timor.
• Paleogeografia • Elabora um texto que traduza a evolução geológica de Timor-Leste.
• Olistostroma sedimentar
• Mélange tectónica

O enquadramento geológico de Timor-Leste


Recordas-te dos dois mapas geológicos simplificados que observaste no início do 10º ano? Como te não deves
lembrar, vais agora reapreciá-los. Mas como já tens outros conhecimentos, aqueles mapas são um pouco mais
complexos.

Escala global
Timor-Leste fica no cruzamento de duas grandes faixas orogénicas geologicamente recentes (Cenozoico); elas
apresentam-se como duas faixas que dão a volta ao globo terrestre. Uma delas é a cadeia “alpina”, assim chamada
por incluir os Alpes, na Europa (inclui também os Himalaias, na India). Ela distribui-se numa direção este-oeste e
acompanha de perto a linha equatorial, ou quase (Figura 4.8).

106 | O passado geológico de Timor-Leste


Figura 4.8 Grandes cadeias orogénicas.

Em termos de Tectónica de Placas (Figura 4.9), ela engloba zonas de colisão (Himalaias), de subducção (Samatra,
Java) e de obducção (Nova Guiné).

Placa Norte Placa


Placa Euroasiática Placa Norte
Americana Americana

Placa Juan Alpes


de Fuca

Placa Himalaias
Arábica
Placa Placa Placa das Fossa das
Placa Caribeana Placa Indiana Filipinas Marianas
Placa do de Cocos Africana Placa do

Placa de Placa Sul


Nasca Americana Placa
Australiana Tonga-
Kermadec

Placa

Figura 4.9 Mapa com as placas tectónicas.

A outra é a cordilheira circum-pacífica; tem uma disposição norte-sul, meridiana ou quase (Figura 4.8). Em
termos de Tectónica de Placas (Figura 4.9), engloba zonas de subducção continental (Andes) e oceânica (Japão,
Filipinas).
A faixa orogénica meridiana parece ter sido deslocada pela faixa orogénica equatorial. E porquê? Repara que
a fossa submarina de Tonga-Kermadec prolonga-se, para norte, pela fossa das Marianas depois de ter sido
desligada para oeste por alturas de Timor. Prolonga este desligamento para ocidente, até à América Central; não
te parece que a América do Norte está igualmente deslocada para oeste relativamente à América do Sul?

Revisitando as formações rochosas de Timor-Leste | 115


Escala regional
Viste no 10º ano que a ilha de Timor pertence maioritariamente à placa
Australiana (a ilha de Ataúro, por exemplo, ainda está na placa Eurasiática).
Verás mais adiante que esta localização é bastante complexa no
pormenor. Para já, e à escala regional, uma das coisas que mais preocupa
os especialistas é a origem do Arco de Banda. Sabe-se, por exemplo, que
a geologia da ilha de Timor é em tudo idêntica à da ilha de Seram. Mas
as relações paleogeográficas do Arco de Banda com o bloco continental
Austrália – Nova Guiné permanecem pouco claras (Figura 4.12).

Timor: uma visão atual


São muitas as unidades geológicas (Formações, Sistemas, Séries)
representadas nas cartas geológicas de Timor-Leste (Figuras 4.5 e 4.6).
É conveniente agrupá-las em poucas “super-unidades”. Vais aprender
duas. A primeira é muito baseada na tectónica: Autóctone, Parautóctone
e Alóctne. A segunda é muito baseada na paleogeografia: Margem
Paleogeografia Australiana, Terreno de Banda, entre outras.
Reconstrução histórica do padrão
da superfície terrestre ou de uma dada Autóctone, Parautóctone e Alóctone
área num determinado tempo do
passado geológico. Autóctone – É constituído pelas unidades mais recentes, que vais
encontrar nos sítios onde se formaram se descontarmos os movimentos
Autóctone de emersão, na vertical. Exemplo: Calcários de Baucau.
Terreno não deslocado
tectonicamente, ou uma rocha gerada Parautóctone – É constituído por numerosas unidades, com dobras
no próprio local onde se encontra.
isópacas e falhas geralmente inversas, que se encontram hoje um pouco
Parautóctone deslocadas, na horizontal, do local onde se formaram. Exemplo: Formação
Terreno pouco deslocado de Wai Luli, Calcários de Dartolu.
tectonicamente da sua posição
original. Alóctone – É constituído por algumas unidades mais antigas, carreadas
sobre todas as outras. São as mais misteriosas. Exemplo: Formação de
Alóctone Aileu.
Terreno deslocado horizontalmente
(carreado) por ação tectónica. A principal vantagem desta divisão é que nos dá uma ideia imediata da
disposição atual, em 3 dimensões, das grandes associações rochosas
de Timor-Leste. Tenta desenhar um corte geológico esquemático, com
direção NNW-SSE, passando por Díli. O desenho será muito diferente
do que faria um geólogo experimentado. Não deixa de ser um excelente
exercício didático.
Na Figura 4.10 está representada uma síntese da estratigrafia autóctone,
parautóctone e alóctone de Timor. Repara que há duas unidades difíceis
de enquadrar: Bobonaro e Lolotoi.

106 | O passado geológico de Timor-Leste


Figura 4.10 Síntese da estratigrafia autóctone, parautóctone e alóctone de Timor.

Margem Australiana e Terreno de Banda


As numerosas unidades geológicas de Timor-Leste podem ser também
arrumadas de maneira a realçar as suas afinidades paleogeográficas. Isto
tem vantagens e desvantagens. Vantagens, porque ajudam a ver melhor
a história geológica de Timor-Leste. Desvantagens, porque o grau de
interpretação (e por isso a subjetividade) aumenta. Uma interpretação
mais rigorosa de todas estas unidades será facilitada quando existir uma
cartografia geológica sistemática do país, à escala 1/50 000.
A Figura 4.11 mostra um mapa geológico de Timor; é muito simplificado,
mas muito moderno. A legenda está igualmente muito simplificada.
Convém detalhá-la: é o que mostra a Figura 4.10. Deves examinar esta
Figura com atenção e sem pressa. Diversos termos (sequência gondwânica
- sequência 1, sequência pós-rifte - sequência 2, manto Aileu-Maubisse,
etc.) são para ti desconhecidos. Vais conhecê-los com a ajuda do corte
interpretativo representado na Figura 4.11. Podes notar que os conceitos
de autóctone, parautóctone e alóctone não perdem a sua utilidade.
Geologicamente falando, Timor-Leste é quase todo ele uma parte da
margem continental australiana; a principal exceção é a ilha de Ataúro.
As rochas mais antigas, fundamentalmente sedimentares,
constituem a sequência 1 (ou Gondwânica), que vai do Pérmico
Inferior ao fim do Jurássico Médio. Esta sequência depositou-
-se numa bacia cratónica do supercontinente Gondwana; é a mais Bacia cratónica
interessante do ponto de vista petrolífero, como verás no 12º ano. Bacia localizada num escudo ou
cratão continental.

Revisitando as formações rochosas de Timor-Leste | 117


A

Sequência 3

Afinidade Asiática Terreno de Banda


Sequência 2
Afinidade Australiana Sequência 1
C. Aileu
B 50 km

A B

20 km
Sequência 3
20 km Terreno de Banda Sequência 2
Aileu-Maubisse Sequência 1

Figura 4.11 Geologia da ilha de Timor: uma versão recente.

Após uma fase de riftingue no Jurássico Superior (há cerca de 155 Ma)
depositou-se a sequência 2 (conhecida por vários nomes, consoante os
autores), no bordo do que é hoje a plataforma continental do norte da
Austrália; ela contém rochas que vão do Cretácico até ao Mio-Pliocénico.
Uma unidade especial, e ainda um tanto misteriosa, é o Complexo
Argiloso de Bobonaro ou Argilas de Bobonaro. Trata-se de argilas que
englobam blocos rochosos de diferente natureza e de todos os tamanhos;
Mélange tectónica há quem as interprete como uma mélange tectónica e há quem as faça
Depósitos caóticos e cisalhados, corresponder a um olistostroma sedimentar.
considerados típicos de zonas de
subducção. O Quaternário corresponde ao autóctone; podemos chamar-lhe
igualmente a sequência 3. Esta sequência inclui os calcários recifais de
Olistostroma sedimentar
Baucau, que testemunham uma rápida elevação da ilha nos tempos
Formação brechóide (de brecha),
caótica, resultante do deslizamento recentes.
intraformacional submarino.
Em posição estrutural elevada (Nível Estrutural Superior: ver 10º ano,
Intraformacional UT4) encontram-se unidades alóctones (Aileu-Maubisse, Lolotoi), em
Diz-se de uma entidade (brecha, regra metamórficas e carreadas sobre o Parautóctone. Ainda não há
conglomerado) ou de um
acontecimento gerados durante a acordo entre os especialistas quanto à proveniência destes mantos de
deposição de uma camada sedimentar carreamento: Mar de Banda ou Margem Australiana?
com elementos dela retirados.
Uma breve história geológica de Timor-Leste
Não se conhecem rochas precâmbricas em Timor-Leste. Isto não quer
dizer que não existam; apenas que não se conhecem.
A situação é diferente no que diz respeito ao Paleozoico. No final desta
Era, os continentes estavam reunidos num único supercontinente
(Pangeia), ou quando muito em dois supercontinentes (Laurásia a norte e
Gondwana a sul).

106 | O passado geológico de Timor-Leste


Vamos aceitar, até prova em contrário, que Timor-Leste (ou melhor, aquilo que muito mais tarde viria a ser a
ilha de Timor) já se encontrava geologicamente ligada à Austrália; que ambas faziam parte do supercontinente
Gondwana; e que ambas se encontravam mais perto do pólo sul do que se encontram hoje.
Mas foi durante o Cenozoico que a margem continental australiana entrou em colisão com o grande arco insular
da Indonésia; as unidades de Aileu-Maubisse e de Lolotoi terão sido carreadas sobre o Mesozoico; a ilha de
Timor emergiu e ainda hoje continua a levantar-se; forma-se a ilha de Ataúro (Figura 4.13).

A 0 M.a.
(atualidade)

B 5 M.a. C 30 M.a.

Figura 4.12 Representação, em mapa, da evolução tectónica de Timor-Leste (Cenozoico). A - Situação atual; B - Colisão da margem
continental australiana com a zona de subducção e formação da proto-ilha de Timor; C - Início da colisão entre a margem continental
australiana e a zona de subducção euroasiática-pacífico (adaptado de Charlton - B e C.; Hamilton - A).

Os processos envolvidos nesta história são extraordinariamente complexos, mesmo para os especialistas. Repara
que Timor-Leste está envolvido na movimentação relativa de três placas (Figura 4.9): Australiana, Euroasiática e
Pacífica. E a placa das Filipinas não fica longe!
Vais reter uma interpretação possível, mas não única, e atraente, à luz da Tectónica de Placas. Para isso analisa
os esquemas das Figuras 4.12. e 4.13.
Agora que já sabes mais sobre a geologia de Timor-Leste é importante que sistematizes a informação recolhida
para contares a história geológica do teu país. Para isso realiza a Atividade 4.6.
A Figura 4.13 representa uma secção vertical que te permite, à luz da Teoria da Tectónica de Placas interpretar
o que anteriormente foi referido.

Revisitando as formações rochosas de Timor-Leste | 119


Figura 4.13 Representação, em corte, da evolução tectónica de Timor-Leste, desde os 5 Ma até à atualidade (adaptado de
Audley-Charles, 2001).

Problematizar
Como é que a tectónica e a paleogeografia ajudam a compreender o passado
geológico de Timor-Leste?

Atividade 4.6

1. Depois de leres com atenção a informação relativa a Timor-Leste que se encontra na secção 4.2 do teu manual,
sistematiza essa informação numa tabela semelhante à que se apresenta em seguida (no teu caderno acrescenta
as linhas que forem necessárias).

Litologia Caraterísticas do meio onde se terão


Idade Unidades estratigráficas
(Tipo de rochas, exemplos de rochas) formado

2. Constrói um texto, até 30 linhas, em que contes a história geológica de Timor-Leste.


3. Partilha com a turma e professor o trabalho que desenvolveste.

Síntese
• A carta topográfica é uma representação da superfície terrestre num plano. Este tipo de carta é importante
para caraterizar o relevo de uma região.
• O relevo é representado nas cartas topográficas através de curvas de nível. Estas são linhas imaginárias que
unem os pontos de igual altitude da região representada.
• O perfil topográfico representa, num plano vertical, o corte de uma superfície topográfica. Pode ser construído
a partir de uma carta topográfica.
• A carta geológica fornece-nos informação sobre a geologia de uma região (ex.: litológica, estrutural,
estratigráfica, mineira, entre outra). Para a interpretação dessa informação é importante o mapa geológico
e respetiva legenda, incluindo a escala; a coluna estratigráfica; os cortes geológicos e, caso exista, a noticia
explicativa.

106 | O passado geológico de Timor-Leste


• O corte ou perfil geológico é uma representação esquemática da constituição geológica de um troço do
terreno, em profundidade (alguns metros). Pode ser construído a partir da informação contida na carta
geológica.
• A coluna estratigráfica é um desenho esquemático que representa uma dada sequência de estratos ou
quaisquer unidades estratigráficas.
• A evolução tectónica de Timor-Leste ajuda-nos a compreender a sua geologia.
• As rochas de Timor-Leste, entre outros fatores (ex. humidade, relevo, atividade humana) condicionam as
caraterísticas dos seus solos.
• O território timorense é constituído predominantemente por três tipos de solos: cambissolos, vertissolos e
fluvissolos.
• As unidades geológicas representadas nas cartas geológicas de Timor-Leste podem ser agrupadas em
três “super-unidades”com base na tectónica, a saber: autóctone (ex.: calcários de Baucau); parautóctone
(formação de Wai Luli e Calcários de Dartolu) e alóctone (ex.: Formação de Aileu).
• As unidades geológicas do Paleozoico, Mesozoico e Cenozoico de Timor-Leste fornecem informação sobre o
passado do território timorense, o que nos ajuda a contar a sua história geológica.

Questões em aberto
• Foram referidas diversas cartas geológicas gerais de Timor-Leste. O que pensas da sua utilidade para o
entendidmento dos recursos minerais do País?
• O cruzamento da informação retirada das cartas topográficas, geológicas e de solos é muito útil para ajudar a
tomar decisões. Basta pensar em situações que interessam a toda a população como, por exemplo, o traçado
de estradas. Como pode todo este trabalho aprofundado ainda pelo desenvolvimento tecnológico, contribuir
para uma melhor sustentabilidade de Timor-Leste?

Sítios Web úteis


http://www.timorcrocodilovoador.com.br/geologia-kaul.htm
http://repositorio.lneg.pt/bitstream/10400.9/938/1/Carvalho_28627CD_F17.pdf...
http://www.earthsci.unimelb.edu.au/~kwalsh/Gill%20Hamsons%20lit%20survey.pdf
http://homepage.mac.com/tatsukix/pdf/GR11(2007)218-33.pdf

121
Avaliação
1. A Figura representa uma carta topográfica de uma região.

Escala 1:50 000

1.1. Das afirmações que se seguem assinala as que são verdadeiras.


(a) Segundo o perfil X-Y, e caminhado de X para Y, vai-se da região norte para a sul.
(b) As menores altitudes estão no extremo norte da carta.
(c) O rio, destacado pela letra R, segue da maior para a menor altitude, de nordeste para sudoeste.
(d) A zona de maior altitude situa-se na parte nordeste da carta.

2. A Figura que se segue ajuda-nos a compreender a evolução de Timor-Leste à luz da Tectónica de Placas.

2.1. Identifica o tipo de limite de placa representado na Figura.


2.2. Apresenta uma explicação para a evolução geológica de Timor-Leste, com base
na Figura.

106 | O passado geológico de Timor-Leste


3. Na figura que se segue está representado um corte geológico (adaptado de Azeredo Leme) que atravessa o
território timorense, de Dili para sul.
N S

Dili

3.1. Refere como varia a litologia, ao longo do corte geológico referido, de norte para sul (ver corte 1 da Figura
4.5).
3.2. Como sabes, os calcários formam-se em bacias de sedimentação. Como explicas a presença de calcários
no Monte Cablac?

123
Adenda

Tabela cronostratigráfica
Glossário
Escala cronostratigráfica

fonte: www.stratigraphy.org

125
Glossário

A Acumulação eólica Acumulação mais ou menos espessa de sedimentos transportados pelo vento.

ADN mitocondrial É um ADN que não se localiza no núcleo da célula, mas sim na mitocôndria (organito celular). O ADN
mitocondrial tem sido estudado com o intuito de investigar linhagens muito antigas.

Alóctone Terreno deslocado horizontalmente (carreado) por ação tectónica.

Amonite Cefalópode fóssil surgido no Triásico e extinto no final do Cretácico. Tem grande importância no estabelecimento
da estratigrafia do Mesozoico.

Amonoides Grupo de cefalópodes fósseis com representantes no Devónico (climenídeos), no Carbónico-Pérmico (goniati-
tes), no Triásico (ceratites) e no Mesozoico (amonites).

Análise de fácies Metodologia comum à estratigrafia e à sedimentologia, vocacionada para o estudo de fácies sedimentares.

Andar Unidade cronoestratigráfica que abrange o conjunto de formações sedimentares depositadas durante o intervalo de
tempo designado por idade. É definido a partir de um estratotipo.

Arco insular Rosário de ilhas, muitas vezes vulcânicas, dispostas numa cadeia arqueada. Característicos das margens do
oceano Pacífico e das Caraíbas, os arcos insulares são associados a zonas de subducção de crusta oceânica sob crusta
geralmente ceânica, de que resulta intensa atividade vulcânica e sísmica de foco profundo.

Autóctone Terreno não deslocado tectonicamente, ou uma rocha gerada no próprio local onde se encontra.

B Bacia cratónica Bacia localizada num escudo ou cratão continental.

Bacia de drenagem Área drenada por um rio ou pelo conjunto dos seus afluentes.

Bacia profunda O m.q. bacia oceânica. Domínio oceânico entre continentes, limitado pelas respetivas margens (exemplo:
talude continental).

Bioclasto Resto esquelético, de origem animal ou vegetal, frequentemente fragmentado, muito comum em rochas sedi-
mentares biogénicas.

Bioestratigrafia O m.q. estratigrafia baseada nos fósseis. Do gr. Βιοs (bios) = vida. Estudo da idade das camadas sedimenta-
res e execução de correlações entre estratos, tendo como base o seu conteúdo fossilífero.

Bio-rexistasia Teoria que liga o tipo de erosão na área-fonte com o tipo de deposição na bacia sedimentar contemporânea.

Braquiópodes São invertebrados marinhos, bênticos e com duas valvas diferentes: a valva peduncular (ou ventral) e a valva
braquial (ou dorsal) – a mais pequena. Geralmente fixam-se a um substrato através de um pé carnudo - o pedúnculo -
que sai pela parte dorsal da valva peduncular.

Braquiossauros Dinossauros de grandes dimensões e herbívoros.

C Cálice O m.q. teca. Surge no topo do pedúnculo, provido de braços que filtram os alimentos da água.

Camada O m.q. estrato, banco e bancada. Corpo sedimentar com desenvolvimento tabular e individualizável das camadas
imediatamente acima e abaixo. Pode ter espessuras variáveis, mas nunca menos de 1 cm.

Cambissolo Solo de textura fina, resultante de intensa alteração da rocha-mãe.

Câmbrico Corresponde ao mais antigo Sistema da Era Paleozoica, com 542-488 Ma. A designação deriva de Cambria, nome
latino do País de Gales (Reino Unido).

Carta geológica O m.q. mapa geológico. É uma representação da geologia de uma dada região, nos seus múltiplos aspetos
(litológicos, estruturais, estratigráficos, mineiros, entre outros) sobre fundo topográfico.

Carta pedológica O m.q. carta de solos ou mapa pedológico. Mapa que representa os solos de uma determinada região ou
país.

Carta topográfica O m.q. mapa topográfico. É o documento que representa, de forma sistemática, o relevo da superfície
terrestre de uma dada região por meio de projeções cartográficas

Cefalão Constituía a zona anterior da carapaça das trilobites, incluía os olhos e peças bucais, mas também boa parte do tubo
digestivo, e era inteiriço, não articulado.

Charles Darwin (1809-1882) Naturalista britânico que alcançou fama ao convencer a comunidade científica da ocorrência
da evolução e propor uma teoria para explicar como ela se dá por meio da seleção natural e sexual.

126
Ciclo de erosão O m.q. ciclo de Davis. Conceito criado pelo geomorfólogo norte-americano W. M. Davis para regiões de
climas temperados. Descreve o processo geodinâmico externo que conduz teoricamente ao arrasamento de um
relevo forte.

Ciclo de transgressão-regressão Período e conjunto de processos compreendidos entre o início de uma transgressão (avan-
ço do mar) e o final da regressão (recuo do mar) que lhe sucede. Termina num regresso ao tipo de sedimentação inicial.

Colónias Nome dado a uma relação ecológica harmónica intraespecífica, em que um grupo de organismos da mesma espé-
cie formam uma entidade diferente dos organismos individuais e todos retiram vantagem.

Coluna estratigráfica Desenho esquemático que representa uma dada sequência de estratos.

Coluna litostratigráfica Coluna estratigráfica baseada apenas na natureza das rochas sedimentares de uma região.

Conde de Buffon (1707-1788) Naturalista e escritor francês, grande representante do Iluminismo.

Conservação Uma das modalidades de fossilização. Os casos de conservação total dos organismos, mantendo também as
partes moles, são raros, mas acontecem, por exemplo, com penas de aves e com os gusanos. Um tipo particular de
conservação total é o caso dos mamutes incluídos dentro de gelos siberianos e o dos insetos englobados em âmbar.

Contramolde O preenchimento de um molde (interno ou externo) dá origem a uma réplica do elemento original mas cons-
tituída por material distinto do inicial: um contramolde.

Corais O maior recife de coral do mundo é a Grande Barreira de Recife Australiana, local de vida marinha muito rica e
diversa, faunística e floristicamente.

Corrente de maré Corrente marinha resultante da subida e descidadas marés.

Corrente de turbidez Massa de água do mar em movimento, carregada de detritos em suspensão, vindos sobretudo da
vertente continental.

Correntes de deriva litoral O m.q. corrente litoral. Correntes ao longo da linha de costa, em resultado do vaivém da vaga em
rebentação, quando esta incide obliquamente ao litoral.

Corrosão Processo de desgaste físico das rochas através, principalmente, do impacto e/ou atrito de partículas transportadas
pelo vento (eólica), pela água (fluvial, de marés, correntes) ou pelo gelo (de geleira).

Corte geológico O m.q. perfil geológico. Representação esquemática da constituição geológica de um troço do terreno, em
profundidade.

Cronoestratigrafia Estratigrafia baseada no conhecimento da idade (em milhões de anos) das divisões estratigráficas (siste-
mas, series, andares, etc.).

Crinoides O m.q. lírios do mar e comatulídeos. É uma classe de equinodermos. São animais exclusivamente marinhos que
ocupam todas as profundezas até aos 6000 metros. Atualmente, a classe conta com apenas algumas centenas de espé-
cies mas o registo geológico mostra uma biodiversidade muito maior dentro do grupo.

Crosta calcária O m.q. couraça calcária. Crosta de origem pedológca, mais ou menos endurecida, essencialmente formada
por carbonato de cálcio.

Cuesta Forma de relevo esculpida em terreno estratificado, monoclinal, mostrando uma superfície suavemente inclinada,
paralela aos estratos, oposta a um escarpado que corta os planos de estratificação.

Curva de nível Linha imaginária sobre o terreno que une todos os pontos de igual altitude de uma região representada.

D Datação radiométrica O m.q. datação isotópica e geocronologia radiométrica. Datação dos minerais e das rochas com base
no decaimento dos isótopos radioativos presentes.

Deflação Tipo de erosão eólica que consiste na remoção e transporte de detritos do calibre das areias ou inferior (silte e
argila) soprados ou varridos pelo vento.

Delta Forma de acumulação detrítica, construída na foz de um rio, no mar ou num lago, sempre que correntes ali em ação
não dispersem os respetivos materiais. Tem muitas vezes forma triangular.

Depósito correlativo Sedimentos depositados na vizinhança de um relevo de onde foram erodidos.

Depósito fluvio-glaciário Conjunto de materiais arrancados ao substrato rochoso, transportados até ao sopé da montanha
e depositados por cursos de água após a fusão do gelo.

Desconformidade As camadas são paralelas de um e de outro lado da superfície mas esta não é conforme com a estratifi-
cação.

Glossário | 127
Descontinuidade Interrupção na continuidade do processo sedimentar, estando representada por uma superfície ou plano,
ditos de descontinuidade.

Dinossauros O m.q. dinossáurio. Grupo variado de animais membros do clado e da superordem Arcossauros. Tornaram-se,
durante 135 Ma, a espécie dominante do planeta. Durante a primeira metade do século XX, a maior parte da comuni-
dade científica acreditava que os dinossauros eram lentos, sem inteligência e com sangue-frio. No entanto, a maioria
das pesquisas realizadas desde a década de 1970 indicaram que estes animais eram ativos, com elevado metabolismo e
com numerosas adaptações para a interação social. Além disso, muitos grupos (especialmente os carnívoros) estavam
entre os organismos mais inteligentes do seu tempo.

Discordância angular Falta de paralelismo entre uma sequência estratificada depositada sobre uma outra, diferentemente
inclinada e arrasada pela erosão.

Discordância Assentamento de uma sequência sedimentar sobre uma superfície de erosão, seja ela talhada sobre uma
outra ou não, ou sobre rochas magmáticas do soco.

Domínio continental Domínio relacionado com os continentes (exemplo: ambiente desértico, glaciar, fluvial).

Domínio marinho Domínio associado a zonas cobertas por mares e oceanos, deste a plataforma continental à planície
abissal.

Domínio transicional Domínio associado a zonas de transição entre os ambientes terrestre e marinho (exemplo: ambiente
deltaico, de estuário).

Dorsal oceânica Grande alinhamento de relevos vulcânicos submarinos à escala do planeta. Coincide com a suposta faixa de
alastramento e afastamento de duas placas oceânicas.

E Eixo cronológico Instrumento para ordenar os acontecimentos e os factos históricos numa sequência temporal, sobre uma
linha. Quando esta linha é representada de modo horizontal recebe a designação de friso cronológico.

Eon Divisão geocronológica mais longa. Abrange várias eras.

Época Divisão geocronológica, hierarquicamente acima da Idade e abaixo do Período. Corresponde à Série, em termos
estratigráficos.

Equinídeos O m.q. equinoides ou ouriços do mar. Possuem concha rígida globosa, formada por placas calcárias, coberta por
espinhos. Existem desde o Ordovícico até à atualidade.

Equinodermes São animais marinhos, de vida livre, exceto por alguns crinoides que vivem fixos a um subs-
trato rochoso (sésseis) e de simetria radial que também apresentam sua exceção, os comatulíde-
os, que se locomovem utilizando os braços. Este filo surgiu no Câmbrico recente e contém cerca de
7 000 espécies viventes e 13 000 extintas.

Era Grande divisão geocronológica, hierarquicamente abaixo do Eon e acima do Período.

Erosão eólica Erosão causada direta ou indiretamente pelo vento.

Escala Quociente entre uma distância na Carta e a correspondente distância horizontal medida no terrono.

Escala Estratigráfica O m.q. Tabela Estratigráfica. Sequência, por ordem cronológica, das diversas unidades estratigráficas
adotadas, num dado período do conhecimento.

Espectrómetro de massa Aparelho usado para a análise isotópica de minerais e de rochas.

Esqueleto externo O m.q. exoesqueleto.

Esqueleto interno O m.q. endosqueleto.

Estegossauros Dinossauro de tamanho médio caracterizado pela presença de um crânio bastante pequeno.

Estratificação Disposição das rochas em estratos ou camadas sobrepostas.

Estratificação entrecruzada Estrutura das rochas sedimentares detríticas médias e finas marcada pela existência de lâminas
de deposição oblíquas ao plano de sedimentação horizontal

Estratigrafia Ramo da geologia, desde os princípios do século XIX, que abarca o estudo das rochas sedimentares e dos acon-
tecimentos geológicos a elas associado, sempre numa perspetiva geocronológica.

Estratotipo Sequência de rochas sedimentares usada em estratigrafia como referência de um andar.

Estrutura de carga Bolsadas de areia, proveniente de uma camada arenosa não consolidada que mergulha numa camada
pelítica não consolidada.

128 | Adenda
Estrutura dobrada Estrutura em que as rochas estratificadas sofreram deformação por encurvamento, na sequência de
esforços tectónicos tangenciais e compressivos ou de escorregamentos.

Estrutura falhada Estrutura em que as rochas estratificadas sofreram falhas.

Estrutura pós-deposicional O m.q. estrutura diagénica.

Estrutura sedimentar Conjunto de arranjos e marcas de origem mecânica e/ou biológica deixados nos sedimentos, muitos
dos quais se mantêm após a litificação.

Estrutura tabular Estrutura geológica com estratificação horizontal ou quase.

Estuário Troço alargado na parte final de um rio, na sua passagem ao mar, sujeita a oscilações das marés e, portanto, com
correntes de avanço e de recuo e correspondentes variações de salinidade.

Evolução biológica Transformação dos seres vivos ao longo do tempo, a partir de antepassados comuns.

F Fabio Colonna (1567-1640) Filho de um filólogo e antiquário italiano, que se interessou pelos autores antigos de medicina,
botânica e história natural.

Fácies Conjunto de características mineralógicas, texturais, paleontológicas, entre outras, de uma rocha, em função do
respetivo ambiente de deposição.

Falésia O m.q. arriba. Escarpado abrupto, litoral, talhado na vertical ou quase, pela ação erosiva do mar.

Fanerozoico O m.q. Tempos fossilíferos. Grande divisão estratigráfica (Eon) que se segue ao Proterozoico. Reúne o Paleozoi-
co, o Mesozoico e o Cenozoico.

Fendas de dessecação O m.q. fendas de retração. Fissuras de espaçamento milimétrico a centimétrico, abertas em solos e
sedimentos, no geral silto-argilosos, por contração destes, devido à perda da água que os impregna.

Filo É um táxon usado na classificação científica dos seres vivos, hierarquicamente abaixo do Reino e acima da Classe.

Fiorde Vale glaciário invadido pelas águas do mar.

Fluvissolo Termo abrangente que designa os aluviossolos e os coluviossolos.

Formação O m.q. Fm. Unidade litoestratigráfica, caracterizada por um conjunto de rochas que se identificam pelas suas ca-
racterísticas litológicas (composicionais) e pela posição estratigráfica que ocupam. É uma unidade básica da cartografia
geológica.

Fósseis de fácies Fóssil que indica o tipo de ambiente sedimentar da rocha em que ficou conservado.

Fóssil de idade O m.q. fóssil característico. Fóssil de um organismo que viveu durante um intervalo de tempo muito curto,
o que faz com que a sua ocorrência seja indicador da idade da rocha.

Fóssil Resto ou vestígio de seres vivos do passado, conservando nas rochas de que foram contemporâneos.

Fóssil vivo O m.q. fóssil persistente. Organismos atuais pertencentes a grupos biológicos que, no passado geológico, foram
muito mais abundantes e diversificados que na atualidade. São morfologicamente muito similares a organismos dos
quais há, apenas, conhecimento do registo fóssil. Até há bem pouco tempo, um outro termo era adotado entre a co-
munidade científica: “formas-relíquia”.

Fossilização Processo em que os compostos orgânicos que constituem o organismo morto são substituídos por outros mais
estáveis nas novas condições. Estes compostos podem ser calcite, sílica, pirite, carbono, entre outros.

G Genoma Corresponde a toda a informação hereditária de um organismo que está codificada em seu ADN.

Geocronologia Estudo dos tempos geológicos, em milhões de anos, e dos métodos utilizados na respetiva datação.

Geomorfologia Disciplina que se ocupa do estudo das formas e da evolução do relevo da Terra.

Geomorfologia climática Estuda as formas e evolução do relevo em função do clima.

Geomorfologia estrutural Estuda as formas de relevo em função dos aspetos estruturais (exemplos: dobras, falhas) dos
corpos geológicos.

Geomorfologia litológica Estuda as formas de relevo em função dos diferentes tipos de rochas.

Georges Cuvier (1769-1832) Foi um dos mais importantes naturalistas da primeira metade do século XIX, tendo desenvolvi-
do métodos e programas de pesquisas para várias áreas da História Natural.

Glossário | 127
Gimnospérmicas São plantas vasculares com frutos não carnosos (frutos sem polpa) e cujas sementes não se encerram
num fruto.

Glaciar Acumulação de gelo permanente característica das calotes polares e das altas montanhas. Neste último caso, o gelo
da periferia “escorre” lentamente em vales, sob a forma de línguas glaciárias.

Glaciar de altitude O m.q. Glaciar de montanha. Glaciar localizado na parte superior de uma parte da montanha.

Glaciar de latitude O m.q. inlandsis. Grandes calotes glaciares polares.

Glaciar de sopé Glaciar em que as línguas de gelo atingem o sopé da montanha.

Gondwana O m.q. Gonduana. Significa “terra dos Gonds, na Índia”. Supercontinente centrado no pólo sul que terá agrupa-
do, até ao Triásico, os atuais continentes.

Graptólitos Grupo de invertebrados marinhos, pelágicos, com grande interesse na estratigrafia do Ordovícico e do Silúrico.

Grupo Unidade litoestratigráfica, composta por Formações e estas por Membros.

H Hominídeos São os maiores primatas. Têm o polegar e o hallux (o dedo grande do pé) oponível aos outros dedos (exceto no
género humano) e todos os dedos têm unhas achatadas.

Horizonte Espessura de solo aproximadamente paralela à superfície do terreno e que difere das que lhe estão próximas pela
propriedades físicas, químicas e biológicas.

I Iceberg Grande bloco de gelo à deriva nos oceanos. Por razões de densidade, só uma pequena parte está fora de água.

Icnofóssil O m.q. icnito fóssil. Vestígio ou impressão da existência, presente ou passada, de um animal, com destaque para
pegadas, ovos, excrementos e gastrólitos.

Ictiossauro Réptil marinho de forma hidrodinâmica.

Idade dos Répteis Expressão por vezes usada como sinónima de Mesozoico.

Idade Unidade de tempo geológico correspondente ao Andar.

Iluminismo Movimento cultural de elite de intelectuais do século XVIII na Europa. Procurava mobilizar o poder da razão,
com o objetivo de reformar a sociedade e o conhecimento prévio.

Intraclastos Fragmento de rocha carbonatada contemporânea do sedimento no qual se encontra.

Intraformacional Diz-se de uma entidade (brecha, conglomerado) ou de um acontecimento gerados durante a deposição de
uma camada sedimentar com elementos dela retirada.

Isótopos São átomos de um elemento químico cujos núcleos têm o mesmo número atómico.

J Jean- Baptiste Lamarck (1744-1829) Naturalista francês que desenvolveu a teoria dos caracteres adquiridos. Personificou as
ideias pré-darwinistas sobre a evolução. Introduziu o termo “biologia”.

James Ussher (1581-1656) Arcebispo de Armagh, Primaz da Irlanda. Baseando-se na Bíblia, e outros textos sagrados, escre-
veu o livro The Annals of the World, publicado em 1658, onde defende o valor de 4004 a.C. para a criação do mundo.

L Lacuna O m.q. hiato. Ausência de depósito correspondente a um certo intervalo de tempo.

Lamelibrânquios Classe de moluscos de conchas calcárias bivalves, de cabeça rudimentar e brânquias formadas de lâminas
cobertas de cílios vibráteis.

Leonardo da Vinci (1452-1519) Uma das personalidades mais importantes do Renascimento.

Leque aluvial Troço terminal de uma torrente, onde se acumulam materiais detríticos mais grosseiros, por perda da capaci-
dade das águas que os transportam ao longo do canal de escoamento.

Linha de altura Sucessão de cumes de cadeias montanhosas que separam as respetivas vertentes.

Litoestratigrafia Estudo das sequências sedimentares com base, sobretudo, na natureza litológica das camadas.

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M Mapa de fácies Mapa que mostra a variação, numa determinada área, de uma unidade estratigráfica em termos de fácies.

Marcas de ondulação simétricas Ondulações prodizidas num sedimento, em geral arenoso, pelos movimentos de um fluído
que pode ser a água ou o vento.

Mélange tectónica Depósitos caóticos e cisalhados, considerados típicos de zonas de subducção.

Membro Unidade litoestratigráfica abaixo da Formação geológica. Tem características geológicas distintas, próprias, que
fazem com que se individualize das rochas envolventes e, frequentemente, só tem expressão local.

Mesa Relevo tabular, mais ou menos extenso, encimado por uma camada horizontal, sedimentar ou de basalto. As áreas
mais pequenas e localizadas deste tipo de relevo são denominadas de testemunhos ou cabeços.

Micropaleontologia Ramo da paleontologia que estuda os microfósseis animais e vegetais.

Molde externo Molde de superfícies ou de cavidades exteriores de estruturas somáticas ou de vestígios de atividade or-
gânica. Os moldes externos são constituídos pelo material que cobre a superfície externa de uma qualquer estrutura,
reproduzindo (em negativo) a sua forma e os seus relevos (a sua ornamentação).

Molde interno Molde de superfícies ou de cavidades interiores de estruturas somáticas ou de vestígios de atividade orgâ-
nica.

Montmorilonite Mineral argiloso. É um silicato hidratado de alumínio com magnésio e, por vezes, sódio e/ou potássio.

Moreia Acumulação de blocos, de todas as dimensões, transportados pelos glaciares.

N Nicolau Steno (1638-1686) Anatomista dinamarquês. É considerado um dos fundadores da estratigrafia.

O Ofiolito Associação de rochas ígneas básicas e ultrabásicas (gabros, basaltos, peridotitos) mais ou menos serpentinizadas.
Os ofiolitos são interpretados como porções de crusta oceânica e de manto superior, na sequência de importantes
deformações orogénicas.

Olistostroma sedimentar Formação brechóide (de brecha), caótica, resultante do deslizamento intraformacional
submarino.

P Paleobotânica Ramo da paleontologia que estuda os fósseis vegetais, ou seja, os restos de plantas fossilizadas.

Paleogeografia Reconstrução histórica do padrão da superfície terrestre ou de uma dada área num determinado tempo do
passado geológico.

Paleontologia Ciência complementar da geologia que se ocupa dos seres do passado através dos fósseis.

Paleontólogo O m.q. paleontologista. Cientista que se ocupa da paleontologia.

Paraconformidade Não existe diferença de atitude entre unidades sobrepostas ainda que, às vezes, faltem diversos con-
juntos líticos.

Parautóctone Terreno pouco deslocado tectonicamente da sua posição original.

Pé Unidade de comprimento do sistema anglo-saxónico, equivalente no sistema métrico decimal a 30,48 cm.

Pedúnculo Pé flexível de fixação dos crinoides, circular ou pentagonal, formado por numerosas peças – entroques.

Peloide Componente carbonatada, com granulometria equivalenete à das areias finas e do silte, com forma esferoidal ou
irregular microcristalina.

Peneplanície Superficie incompletamente aplanada, correspondente ao final de um ciclo de erosão segundo William M.
Davis.

Perfil topográfico Representação do corte de uma superfície topográfica por um plano vertical.

Período Divisão geocronológica hierarquicamente situada abaixo da Era e acima da Época. É equivalente, em termos estra-
tigráficos, ao Sistema.

Glossário | 127
Período glaciário Período caracterizado pelo arrefecimento do planeta, com uma grande extensão das massas de gelo e
consequente abaixamento do nível geral das águas nos oceanos.

Período interglaciário Período entre duas glaciações consecutivas, caracterizado pelo recuo das massas de gelo e subida do
nível das águas nos oceanos.

Pigídio O m.q. escudo caudal das trilobites. Corresponde à zona posterior da carapaça, que inclui, em algumas espécies,
espinhos e ornamentação variada. O pigídio era, também, uma peça única.

Planície aluvial Superfície aplanada até à linha de costa, formada por depósito sedimentar terrígeno.

Plataforma continental Continuação submersa da superfície litoral, caracterizada por um declive médio da ordem de 0,1%,
até uma profundidade de cerca de 200 metros.

Praia Litoral de areia ou de seixos com um domínio de subaéreo e um outro submerso.

Precâmbrico O m.q. que Antecâmbrico. Corresponde a cerca de 90% do tempo geológico. Agrupa os Eons Arcaico e
Proterozoico.

Princípio da horizontalidade As rochas sedimentares depositam-se em estratos ou camadas horizontais e qualquer evento
que altere essa condição de horizontalidade é posterior à sua formação.

Princípio da identidade paleontológica O m.q. princípio da identidade fossilífera. Considera que estratos onde exis-
tam as mesmas associações de fósseis, ter-se-ão formado na mesma altura e em locais e ambientes sedimentares
semelhantes.

Princípio da inclusão Qualquer estrato que apresente outro incluso é mais recente que os fragmentos do incluído.

Princípio da interceção Qualquer corpo geológico ou estrutura que intersete outro é mais recente que o intersetado.

Princípio da sobreposição Considera que numa série normal de rochas sedimentares, as mais antigas estão por baixo das
mais recentes. Este princípio não pode ser considerado em rochas deformadas ou invertidas, uma vez que a relação
espacial original pode ter-se perdido.

Princípios estratigráficos Os princípios estratigráficos são fundamentais no estabelecimento da cronologia relativa, toman-
do em consideração as relações espaciais entre os estratos.

Pteridófitas Grupo de vegetais vasculares sem sementes.

R Rabdossoma Esqueleto colonial escleroproteínico, composto por várias cápsulas denominadas tecas que albergavam os
organismos individuais.

Radioatividade Fenómeno natural ou artificial, pelo qual algumas substâncias ou elementos químicos, chamados radioa-
tivos, são capazes de emitir radiações, as quais têm a propriedade de impressionar placas fotográficas, ionizar gases,
produzir fluorescência ou atravessar corpos opacos à luz ordinária.

Radiolários Protozoários marinhos, pelágicos (região oceânica onde vivem normalmente seres vivos que não dependem
dos fundos marinhos), de esqueleto silicioso (opala).

Radiolarito O m.q. cherte radiolarítico. Rocha siliciosa biogénica, coesa, dura, de granulado muito fino e coloração variável
(branco, vermelho, verde, preto). É essencialmente formada por acumulação de restos esqueléticos (opala) de radiolá-
rios, fonte de sílica que, no decurso da diagénese, toma a forma de quartzo microcristalino.

Recife de coral Zona de plataforma carbonatada construída pela atividade de corais em águas quentes e límpidas, pouco
profundas.

Rede fluvial Conjunto dos vários canais naturais (rios, ribeiras, entre outros), permanentes ou temporários; todos eles aca-
bam por convergir num canal principal que desagua no mar ou por vezes num lago.

Região árida Território onde o clima ou sistema climático é caraterizado pela secura, por vezes, extrema, onde a precipita-
ção é inferior a 500 mm/ano.

Região subárida Território caraterizado por ter uma estação seca e quente bem marcada, fazendo a transição entre os cli-
mas tropicais húmidos e os temperados. Exemplo: savana.

Regime de fluxo Energia do meio que transporta os sedimentos.

Regime tectónico Conjunto de características que definem a estrutura tectónica de uma dada região da crusta terrestre.
Exemplo: arco insular.

128 | Adenda
Relevo cársico O m.q. carso ou “karst”. Paisagem sobre terrenos constituídos por rochas carbonatadas (calcário, dolomitos
ou mármores) modelado por erosão cársica.

Relevo Conjunto de elevações e depressões da superfície da Terra.

Ria Vale fluvial encaixado invadido pelo mar, quer na sequência de uma subida do nível das águas, quer por um afunda-
mento do continente.

Rios entrançados Rede de canais fluviais que se bifurcam e recombinam em vários pontos.

Rios meandriformes Rios cujos cursos apresentam uma sinuosidade bastante acentuada.

S Santo Agostinho (354-430) Nasceu em Tagaste, na província romana Souk Ahras (atual Argélia). Foi bispo de Hipona (Argé-
lia), escritor, teólogo e Doutor da Igreja Católica.

Semivida O m.q. meiavida. A meiavida de um elemento radioativo é o intervalo de tempo em que uma amostra deste ele-
mento se reduz à metade.

Sequência de Bouma Sequência teórica aceite para os turbiditos siliciclásticos. Esta compreende, de baixo para cima, cinco
termos: 1 – seixos e areia grossa; 2 – areia média a fina; 3 – areia fina e silte; 4 – silte a argila; 5 – argila.

Sequência negativa Sequência de fácies correspondente a uma regressão.

Sequência positiva Sequência de fácies correspondente a uma transgressão.

Série estratigráfica O m.q. sequência estratigráfica. Designação informal para um conjunto de estratos, de espessura variá-
vel, acumulados uns sobre os outros.

Série O m.q. Série estratigráfica da época. Unidade estratigráfica hierarquicamente situada entre o Sistema e o Período.

Sir Isaac Newton (1643-1727) Cientista inglês, mais conhecido como físico e matemático. Foi, também, astrónomo, alqui-
mista, filósofo natural e teólogo.

Sistema carbonatado Sucessão de ambientes associados à deposição de carbonato de cálcio e/ou de magnésio.

Sistema siliciclástico curto Sequência de ambientes siliciclásticos em que a fonte dos detritos está próxima da bacia oceâ-
nica.

Sistema siliciclástico longo Sequência completa de ambientes siliciclásticos da montanha até à bacia oceânica.

Sistema siliciclástico O m.q. modelo silisiclástico. Sucessão de ambientes associados à deposição de sedimentos de nature-
za detrítica de diferentes dimensões.

Sistema eólico Sistema de erosão em que o agente principal é o vento.

Sistema fluvial Sistema de erosão em que o agente principal é a água.

Sistema glaciar Sistema de erosão em que o agente principal é o gelo.

Sistema Subdivisão da Era a que corresponde a unidade estratigráfica Período.

Sistemática Inventariação, ordenamento e designação de objetos naturais, nomeadamente de seres vivos e fósseis.

Strombus A espécie Strombus bubonius, por exemplo, é um fóssil de idade para o Tirreniano (Pleistocénico Superior, há
100 000 anos).

Substituição Modalidade de fossilização que consiste na substituição completa da substância original que constitui o orga-
nismo por um outra substância mineral contida no sedimento onde o organismo estava.

Suturas As Goniatites diferem das amonites pelas suas suturas não rendilhadas e pela posição do canal que liga as câmaras.

T Talude continental Parte do fundo marinho que separa o bordo da plataforma continental dos grandes fundos oceânicos.

Tecas O m.q. hidrotecas. Estruturas tubulares que se originavam a partir da sícula e que no seu interior continham um
zoóide individual. As tecas eram compostas de colagénio e uniam-se umas às outras através do nema que suportava a
estrutura.

Tempo absoluto Tempo expresso em anos. Em geologia, a unidade de tempo é, normalmente, o milhão de anos (Ma).

Tempo geológico Escala de tempo que representa a linha do tempo desde o presente até à formação da Terra, baseando-se
nos grandes acontecimentos geológicos da história do planeta.

Glossário | 127
Tempo histórico O m.q. ciência dos homens no tempo. Compreende a estrutura, a conjuntura e os acontecimentos, que
contribuem para a sua formação.

Tempo relativo Duração de um acontecimento em relação a outro.

Terra rossa Depósito residual, de cor vermelha, após dissolução do calcário.

Testa O m.q. concha. Os foraminíferos constroem uma testa extracelular de material orgânico, compactando partículas mi-
nerais e carbonato de cálcio secretado na matriz orgânica. As testas calcárias são muito importantes quando são bem
preservadas para obter-se o registo fóssil, além de serem mais comuns do que sem imagina: cerca de 40 000 das 45 000
espécies descritas atualmente de foraminíferos são espécies fósseis.

Textura de solos Está relacionada com a dimensão e organização das partículas que o constituem. Podem ser arenosos e
leves ou mais argilosos e pesados.

Tiranossauros Os famosos Tyrannosaurus rex eram carnívoros de grandes dimensões e predadores de dinossauros
herbívoros.

Tórax Zona intermédia, articulada, constituída por um número variável (de dois a mais de 20) de segmentos idênticos.

Trilobites Grupo de artrópodes marinhos fósseis do Paleozoico, com interesse na estratigrafia desta Era.

U Unidade cronoestratigráfica Subdivisão da escala estratigráfica.

V Variação lateral de fácies Variação de fácies sedimentar no espaço, de lugar para lugar, para uma determinada época.

Vedas Correspondem aos quatro textos escritos em sânscrito por volta de 1500 a.C., que formam a base do sistema de
escrituras do hinduísmo. São a mais antiga literatura de qualquer língua indo-europeia.

Vertissolo Solo mineral rico em argilas expansivas, comum em climas marcados por uma alternância de secura e humidade.

W William M. Davis (1850-1934) Geomorfólogo norte-americano.

Z Zircão Mineral de silicato de zircónio, do sistema tetragonal. A sua fórmula química é ZrSiO4. Tem fratura conchoidal, dureza
7,5, densidade 4,6 a 4,7 e brilho resinoso a adamantino. Pode ter cores variadas, desde incolor a vermelho e é um mi-
neral acessório de algumas rochas plutónicas (granitos e sienitos, por exemplo) ou de rochas sedimentares (arenitos).

Zona Camada ou conjunto de camadas caracterizadas por uma ou mais espécies fósseis, que lhe dão o nome, constituindo
a unidade de base da zonação bioestratigráfica.

Zona costeira Faixa do terreno geralmente compreendida entre a baixamar e a preiamar. Mas é costume acrescentar a faixa
acima da preiamar e mesmo abaixo da baixamar.

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Créditos das Imagens

Amu Borges (p. 17, Fig. 1.2; p. 76, Fig. 3.15; p. 102; p. 114)
Ângelo Ferreira (p. 19, Fig. 1.6)
António Andrade (p. 41, Fig. 2.9; p. 90, Fig. A da Ativ. 3.8; p. 111, Fig. 4.4 e 4.5; p. 112, Fig. 4.6; p. 118, Fig. 4.11)
Carla Candeias (p. 38, Fig. 2.3; p. 40, Fig. 2.5; p. 47, Fig. 2.21; p.48, Fig. 2.23 e 2.24; p. 49, Fig. 2.27, 2.28 e 2.29; p.50,
Fig. 2.30, 2.31 e 2.33; p. 51, Fig. 2.37, 2.39, 2.40 e 2.41; p. 52, Fig. 2.44; p. 53, Fig. 2.45 e 2.47) - Coleção de fósseis do
Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro
Dorinda Rebelo (p. 18, Fig. Ativ. 1.8; p. 38, Fig. 2.2 A, Fig. 2.4; p.50, Fig. 2.32; p. 75, Fig. 3.12; p. 76, Fig. Ativ. 3.3; p. 80,
Fig. 3.26; p. 83; p. 86, Fig. 3.37; p. 90, Fig. B e C Ativ. 3.8; p. 95; p. 106, Fig. A, B e C)
Lino Borges (p. 72)
Jorge Bonito (p. 57, Fig. Ativ. 2.6; p. 55, Fig. 2.52)
Rui Dias (p. 36; p. 44, Fig. 2.13 e 2.14)
Rui Soares (p.46, Fig. 2.17)
Cooperação entre o Ministério da Educação de Timor-Leste, o Instituto Português de
Apoio ao Desenvolvimento, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Universidade de Aveiro