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“Estados Unidos sempre procurou separar o Brasil da Argentina”

Por Santiago Gómez*


O ministro Paulo Guedes afirmou que o Brasil não precisa da Argentina para crescer. Isso é real?

Celso Amorim: Claro que precisamos da Argentina, não só para crescer, mas para ter paz na região,
para ter solidariedade na região. Tivemos momentos nos que Argentina cresceu, o Brasil cresceu,
mas hoje nossas economias já estão muito ligadas, há uma importância muito grande, Argentina é o
maior mercado para manufatura brasileiras. É o terceiro mercado no conjunto geral, abaixo da
China e dos Estados Unidos, acima de qualquer país europeu, o qualquer outro país, e é o principal
importador de produtos manufaturados. Só por aí você vê que o que ele está dizendo é uma
bobagem. Na minha opinião, desconhecimento.

Além disso revela uma total falta de percepção sobre o processo de integração Brasil Argentina que
é garantir a paz e a democracia na nossa região. A integração entre o Brasil e Argentina começa
com os governos Sarney e Alfonsín, e com acordo na área nuclear, uma porção de coisas. A
integração econômica é apenas um aspecto dessa aproximação que é vital para que os nosso países
possam ter tranquilidade, ter paz, os povos prosperarem. Agora, provavelmente essa aí é a agenda
dos Estados Unidos. Estados Unidos sempre procurou separar o Brasil da Argentina. Pode não ter
sido a agenda do Obama, até do Bush, pessoalmente, não creio, porque nós estivemos com ele
várias vezes, mas é uma agenda tal vez do que costumam chamar Estado profundo. Muita gente nos
Estados Unidos procurou nos separar.

Isso aliás desde o início do governo Sarney. Eu me lembro quando a gente tinha aproximações na
área de tecnologia e outras, o embaixador americano vinha dizer “mas vocês não querem incluir
outros países”. O objetivo não era incluir outros países, era separar Brasil da Argentina.

Uma coisa que chamou a atenção, foi o presidente do Brasil se envolver na política interna
argentina, afirmando que caso Fernández ganhar Argentina virará uma Venezuela. Considera que os
Estados Unidos estão por trás disso?

CA: Isso eu não sei. Bolsonaro deu uma pequena recuada, disse que vai dialogar de qualquer
maneira. A maneira como Bolsonaro falou, é o estilo dele. Mas como política geral de afastar o
Brasil da Argentina sim é uma agenda dessas extremistas de direita que estão no governo do Trump,
tipo Bolton, o Pompeio, sem falar do Steve Bannon que não está no governo, mas que continua
agindo nessas alianças de extrema direita que estão sendo feitas.

Guedes declarou à imprensa que caso a Cristina voltasse no governo, e Argentina fechasse sua
economia, o Brasil sairá do Mercosul. Não acha muito leve fazer uma afirmação desse tipo?

CA: Ele não teria uma visão da política, Guedes foi assessor, trabalho, no governo Pinochet. Então
para ele, o fato de ser ditadura, é indiferente. Eu acho que mesmo do ponto de vista econômico é
uma besteira, eu não sei que futuro terá o acordo Mercosul União Europeia, nem estou defendendo
o acordo, nessecariamente da maneira que foi feita, mas os funcionários do ministro Guedes todos
tem sido muito elogiosos e defendido muito a negociação desse acordo preliminar. O Mercosul só
atraiu essa atenção porque era Mercosul, se fosse o Brasil individualmente as condições seriam
muito mais difíceis, porque há uma atração do fato de tratar com a região como um todo. Acho que
é uma bobagem econômica, é uma ignorancia até das estatísticas comerciais do Brasil com
Argentina e sobretudo é uma grande leviandade e insensbilidade política para a importância da
integração Brasil Argentina que é o eixo básico da integração da América do Sul. O ministro
Guedes não está interessado nisso, ele só está interessado em privatizar em acabar com tudo que é
economia autenticamente nacional.

Qual é a interpretação que o senhor faz do triunfo de Fernández nas eleições Primárias Abertas
Simultáneas e Obrigatórias?

CA: Acho para nós é uma esperança de haver uma reversão dessa onda de extrema direita que tem
na região. Acho que é uma grande bobagem que foi falada a comparação entre o governo que pode
vir a fazer Alberto Fernández e a Venezuela, são situações totalmente diferente, as pressões, as
tentativas de golpe, os golpes efetivos que foram dados na Venezuela, que acabaram lhe criando
uma situação muito mais complexa, que não é o caso da Argentina.
Os níveis de desenvolvimento são outros, Argentina é uma economia complexa, uma sociedade
civil muito atuante, que é muito diferente do que era a oligarquia venezuelana. Não estou dizendo
que não acha elementos reacionários também na Argentina, há como há em toda parte, mas não era
um país dominado por uma pequena oligarquia dependente do petróleo, como era o caso da
Venezuela. Então não tem comparação possível.
Além disso, Alberto Fernández é um homem moderado, um homem de diálogo, é um homem
voltado para a justiça social. Eu tive a oportunidade de estar com ele inúmeras vezes, quando ele era
ministro, mas também agora, até mais proximamente, visitamos o Papa juntos. Nós estamos todos
no mesmo barco, América do Sul tá todo no mesmo barco, sobretudo nós os países do Mercosul e
temos que lidar e tratar com carinho a democracia dos outros países porque isso também se reverte
para nós. Aliás, nos sabemos que históricamente o primeiro a se redemocratizar na América do Sul
foi Argentina, então vemos com muita satisfação esse triunfo, que já é praticamente garantido. Não
sei se vão tentar alguma coisa, os mercados financeiros conspiratoriamente, mas acredito que isso
não terá exito. Vamos tratar o Alberto Fernández como o próximo presidente da Argentina, ter
como companheira a Cristina é muito bom.
Todo o que eu pude ver e ouvir dele, não só quando era ministro, mas agora nas conversas com o
Papa Francisco, denotam uma grande consciência política, social e também uma percepção da
importância da integração sul-americana.

* Publicado na Agencia Paco Urondo www.agenciapacourondo.com.ar