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Cultura, Saúde

e Doença
5^ edição

C E C I L G. H E L M A N
MB ChB FRCGP
Dip Soe Anthrop
Professor of Medicai Anthropology, School of Social Sciences
and Law, Brunei University, Middlesex, UK.
Sénior Lecturer, Department ofPrimary Care and Population Sciences,
Royai Free and University CoRege Medicai School, London.
Former Visiting Fellow in Social Medicine and Health Policy,
Harvard Medicai School, USA
Former Visiting Professor, Multicultural Health Programme,
University ofNew South Wales, Sydney, Austrália.

Tradução:
A n e R o s e Boíner
C o n s u l t o r i a , supervisão e revisão técnica d e s t a edição:
Francisco Arsego
Médico de famúia e comunidade.
Mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Professor do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina da UFRGS.
Chefe do Serviço de Atenção Primária à Saúde do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Médico do Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição.

Biblioteca/CIR
ttb.

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Cuidado e cura: o s setores
d e atenção à saúde

N a m a i o r i a das sociedades, as pessoas q u e s o f r e m t e m d o i s a s p e c t o s i n t e r - r e l a c i o n a d o s : u m a s p e c t o cul-


d e d e s c o n f o r t o físico o u e m o c i o n a l têm d i v e r s a s f o r - tural, q u e i n c l u i c e r t o s c o n c e i t o s básicos, t e o r i a s , práti-
mas d e ajudar a si mesmas o u d e procurar ajuda d e c a s n o r m a t i v a s e m o d o s c o m p a r t i l h a d o s d e percepção,
outras pessoas. Elas p o d e m , p o r e x e m p l o , decidir e u m a s p e c t o social, i n c l u i n d o s u a organização e m c e r -
descançar o u t o m a r u m remédio c a s e i r o , p e d i r c o n - t o s papéis e s p e c i f i c a d o s ( c o m o p a c i e n t e e médico) e
selhos a u m amigo, parente o u vizinho, consultar u m r e g r a s q u e r e g e m o s r e l a c i o n a m e n t o s e n t r e esses pa-
pároco l o c a l , c u r a n d e i r o o u " p e s s o a sábia", o u c o n - péis e m situações e s p e c i a i s ( c o m o e m h o s p i t a i s o u c o n -
s u l t a r u m médico, d e s d e q u e h a j a a l g u m disponível. sultórios médicos). N a m a i o r i a d a s s o c i e d a d e s , u m a
Elas p o d e m s e g u i r t o d a s essas etapas o u t a l v e z so- f o r m a d e c u i d a d o s d e saúde, c o m o a m e d i c i n a científi-
m e n t e u m a o u duas delas, p o d e n d o segui-las e m qual- ca n o Ocidente, é elevada acima das outras f o r m a s , e
q u e r o r d e m . Q u a n t o m a i o r e m a i s c o m p l e x a a socie- o s s e u s a s p e c t o s c u l t u r a i s e s o c i a i s são m a n t i d o s p o r
d a d e e m q u e a p e s s o a v i v e , m a i s d e s s a s opções t e r a - l e i . Além d i s s o , n e s s e s i s t e m a o f i c i a l d e c u i d a d o s d e
pêuticas p r o v a v e l m e n t e estarão disponíveis, d e s d e saúde, q u e i n c l u i a s profissões d e m e d i c i n a e d e e n f e r -
q u e o indivíduo p o s s a p a g a r p o r e l a s . A s s i m , a s s o c i e - m a g e m , g e r a l m e n t e há s i s t e m a s a l t e r n a t i v o s m e n o r e s
d a d e s u r b a n i z a d a s m o d e r n a s , o c i d e n t a i s o u não, são como homeopatia, herbalismo ecura espiritual e m m u i -
m a i s p r o p e n s a s a e x i b i r pluralismo nos cuidados de t o s países o c i d e n t a i s , q u e p o d e m s e r c h a m a d o s d e
saúde. D e n t r o d e s s a s s o c i e d a d e s , há m u i t a s p e s s o a s subculturas de cuidados de saúde. C a d a u m a t e m s e u
o u indivíduos o f e r e c e n d o a o p a c i e n t e s e u próprio próprio m o d o d e e x p l i c a r e t r a t a r a má saúde, e o s
m o d o particular d e explicar, diagnosticar e tratar a a g e n t e s d e c u r a e m c a d a g r u p o são o r g a n i z a d o s e m
má saúde. E m b o r a e s s a s f o r m a s terapêuticas c o e x i s - associações p r o f i s s i o n a i s , c o m r e g r a s d e admissão, có-
t a m , elas f r e q u e n t e m e n t e baseiam-se e m premissas digos d e c o n d u t a e m o d o s d e se r e l a c i o n a r c o m os pa-
bastante diferentes e p o d e m m e s m o originar-se d e c i e n t e s . A s s u b c u l t u r a s d e c u i d a d o s d e saúde p o d e m
culturas diferentes, como a medicina ocidental n a ser n a t i v a s d a sociedade o u p o d e m ser i m p o r t a d a s d e
China o u a acupunturachinesa n o m u n d o ocidental o u t r o s locais; e m m u i t o s casos, o s i m i g r a n t e s q u e che-
m o d e r n o . P a r a a p e s s o a d o e n t e , porém, a o r i g e m d e s - g a m a u m a s o c i e d a d e c o m frequência t r a z e m s e u s a g e n -
ses t r a t a m e n t o s é m e n o s i m p o r t a n t e d o q u e s u a e f i - tes d e c u r a p o p u l a r e s tradicionais j i m t o c o m eles p a r a
cácia n o alívio d o s o f r i m e n t o . l i d a r c o m s u a má saúde d e u m a f o r m a c u l t u r a h n e n t e
familiar. N o R e i n o U n i d o , e x e m p l o s desses a g e n t e s d e
c u r a são o s hakims muçulmanos o u vaids h i n d u s , a l g u -
m a s vezes consultados pelos imigrantes d o subconti-
P L U R A L I S M O N O S C U I D A D O S D E SAÚDE: nente i n d i a n o . A o e x a m i n a r o pluralismo dos cuidados
ASPECTOS SOCIAIS E CULTURAIS d e saúde, o n d e q u e r q u e o c o r r a , é i m p o r t a n t e e x a m i -
n a r o s a s p e c t o s c u l t u r a l e s o c i a l d o s tipos d e c u i d a d o s
O s antropólogos têm d e s t a c a d o q u e o s i s t e m a d e d e saúde d i s p o m V e i s p a r a o p a c i e n t e i n d i v i d u a l .
c u i d a d o s d e saúde d e q u a l q u e r s o c i e d a d e não p o d e s e r N e s t e capítulo, o s s i s t e m a s p l u r a h s t a s d e c u i d a -
e s t u d a d o i s o l a d a m e n t e dos o u t r o s aspectos dessa socie- d o s d e saúde d a s s o c i e d a d e s i n d u s t r i a U z a d a s c o m -
d a d e , e m e s p e c i a l s u a organização s o c i a l , r e l i g i o s a , p o - p l e x a s são e x a m i n a d o s a f i m d e i l u s t r a r :
U t i c a e económica. E l e está entrelaçado n e l a s e b a s e i a -
s e n a s m e s m a s presunções, v a l o r e s e visão d e m u n d o . 1 . a v a r i e d a d e d e opções terapêuticas disponíveis
L a n d y ^ o b s e r v a q u e u m s i s t e m a d e c u i d a d o s d e saúde nessas sociedades;
Cecil G. H e i m a n

2 . c o m o e p o r q u e e s c o l h a s são f e i t a s e n t r e a s várias vés d e m u i t a s gerações, d e mãe p a r a filha. N a A m a -


opções. zónia b r a s i l e i r a , p o r e x e m p l o , s o m e n t e a s m u l h e r e s
detêm o c o n h e c i m e n t o e s p e c i a l i z a d o d e t o d a s a s p l a n -
O p l u r a l i s m o d o s c u i d a d o s d e saúde n o R e i n o t a s e e r v a s l o c a i s e s a b e m c o m o usá-las p a r a t r a t a r
U n i d o também é d i s c u t i d o , b e m c o m o s u a s i m p l i c a - s u a s famílias e a s i m e s m a s . ^
ções p a r a a o f e r t a d e assistência à saúde. As pessoas q u e adoecem tipicamente seguem
u m a "hierarquia d e recursos", variando d a autome-
dicação à c o n s u l t a c o m o u t r a s p e s s o a s . O a u t o t r a t a -
m e n t o b a s e i a - s e e m crenças l e i g a s s o b r e e s t r u t u r a e
O S TRÊS S E T O R E S D O S C U I D A D O S D E SAÚDE função d o c o r p o e o r i g e m e n a t u r e z a d a má saúde.
E l e i n c l u i u m a v a r i e d a d e d e substâncias c o m o remé-
Kleinman^ sugeriu que, a o examinar qualquer d i o s c o m e r c i a i s , remédios p o p u l a r e s t r a d i c i o n a i s o u
s o c i e d a d e c o m p l e x a , p o d e - s e i d e n t i f i c a r três s e t o r e s " c o n s e l h o s d e c o m a d r e " , b e m c o m o alterações n a a l i -
s o b r e p o s t o s e i n t e r c o n e c t a d o s d e c u i d a d o s d e saúde: mentação o u n o c o m p o r t a m e n t o . O a l i m e n t o p o d e
o s e t o r informal, o setor popular (folk) e o s e t o r profis- ser usado c o m o u m a f o r m a d e m e d i c a m e n t o ( v e r
sional. C a d a s e t o r t e m s e u s próprios m o d o s d e e x p l i - Capítulo 3 ) n a s doenças p o p u l a r e s : p o r e x e m p l o , e m
c a r e t r a t a r a má saúde, d e f i n i r q u e m é a p e s s o a q u e casos d e "sangue grosso" n os u l d o s Estados U n i d o s ,
c u r a e q u e m é o paciente e especificar c o m o o agente o n d e c e r t o s a l i m e n t o s são u s a d o s p a r a r e d u z i r o v o -
de cura e o paciente d e v e m interagir e m s e u encon- l u m e excessivo d e sangue, q u e s u p o s t a m e n t e causa-
t r o terapêutico. r i a a condição, o u e m p a r t e s d a América L a t i n a e d a
Ásia, o n d e c e r t o s a l i m e n t o s são u s a d o s p a r a c o n t r a -
balançar a s doenças " q u e n t e s " o u " f r i a s " e p a r a r e s -
O s e t o r informai t a u r a r o equilíbrio c o r p o r a l . T a n t o n o R e i n o U n i d o
c o m o n o s Estados Unidos as vitaminas autoprescri-
E s t e é o domínio l e i g o , não-profissional, não- t a s são c o m u m e n t e u s a d a s p a r a r e s t a u r a r a saúde
e s p e c i a l i s t a d a s o c i e d a d e , e m q u e a má saúde é r e c o - q u a n d o a p e s s o a s e " s e n t e p a r a b a i x o " . A s alterações
n h e c i d a pela p r i m e i r a v e z e definida e n o q u a l as a t i - n o comportamento q u e a c o m p a n h a m as diferentes
v i d a d e s d e c u i d a d o s d e saúde são i n i c i a d a s . E l e i n - f o r m a s d e má saúde p o d e m v a r i a r d e r e z a s e s p e c i a i s ,
c l u i t o d a s a s opções terapêuticas q u e a s p e s s o a s u s a m , rituais, confissão, j e j u m , u s o d e talismãs e a m u l e t o s ,
sem qualquer pagamento e s e m consultas a curan- até o r e p o u s o e m u m a c a m a q u e n t e p a r a u m a g r i p e
d e i r o s o u médicos. E n t r e e s s a s opções, estão: o u u m resfriado.
O setor i n f o r m a l geralmente inclui u m conjunto
• a u t o t r a t a m e n t o o u automedicação; d e crenças s o b r e a manutenção da saúde. E s t a s c o s t u -
• conselhos o u tratamento dados p o rparentes, a m i - m a m s e r u m a série d e orientações, específicas p a r a
gos, v i z i n h o s o u colegas d e t r a b a l h o ; cada grupo cultural, sobre o c o m p o r t a m e n t o "corre-
• a t i v i d a d e s d e c u r a e c u i d a d o mútuo e m u m a i g r e - t o " p a r a e v i t a r a má saúde e m s i m e s m o e n o s o u t r o s .
ja, culto o u grupo de auto-ajuda; E l a s i n c l u e m crenças s o b r e o m o d o saudável d e c o -
• consulta c o m o u t r a pessoa leiga q u e possui expe- mer, beber, d o r m i r , vestir-se, trabalhar, rezar e sobre a
riência específica c o m u m distúrbio e m p a r t i c u l a r f o r m a g e r a l d e c o n d u z i r a própria v i d a . E l a s também
o u c o m o t r a t a m e n t o d e u m e s t a d o físico. i n c l u e m crenças s o b r e o f u n c i o n a m e n t o "saudável" d o
c o r p o : c o m q u e frequência s e d e v e d e f e c a r , p o r e x e m -
Nesse setor, a p r i n c i p a l a r e n a d o s cuidados d e p l o , e e m q u e horário.^ E m a l g u m a s s o c i e d a d e s , a saú-
saúde é a famúia; é a q u i q u e m u i t o s d o s c a s o s d e má d e também é m a n t i d a p e l o u s o d e talismãs, a m u l e t o s
saúde são r e c o n h e c i d o s e então t r a t a d o s . E l e é o l o - e m e d a l h a s religiosas p a r a afastar o azar, i n c l u s i v e
c a l r e a l d o s c u i d a d o s primários d e saúde e m q u a l - doenças i n e s p e r a d a s , e p a r a a t r a i r s o r t e e saúde.
q u e r s o c i e d a d e . N a família, c o m o C h r i s m a n ^ s a l i e n - A m a i o r i a d o s c u i d a d o s d e saúde n e s s e s e t o r o c o r -
t a , o s p r i n c i p a i s p r o v e d o r e s d e c u i d a d o s d e saúde são r e e n t r e p e s s o a s já l i g a d a s u m a s às o u t r a s p o r laços d e
a s m u l h e r e s , g e r a l m e n t e a s mães o u avós, q u e d i a g - p a r e n t e s c o , a m i z a d e o u vizinhança, o u p o r s e r e m
n o s t i c a m a s doenças m a i s c o m u n s e a s t r a t a m c o m o s m e m b r o s d e organizações p r o f i s s i o n a i s o u r e l i g i o s a s .
m a t e r i a i s disponíveis. E s t i m a - s e q u e c e r c a d e 7 0 a Isso significa q u e t a n t o o paciente c o m o o agente d e
9 0 % d o s c u i d a d o s d e saúde o c o r r e m n e s s e s e t o r , t a n - c u r a c o m p a r t i l h a m presunções s e m e l h a n t e s s o b r e saú-
t o e m s o c i e d a d e s o c i d e n t a i s q u a n t o não-ocidentais."* d e e doença e q u e incompreensões e n t r e o s d o i s são
N a m a i o r i a d a s s o c i e d a d e s , a s m u l h e r e s são a s c o m p a r a t i v a m e n t e r a r a s . ^ O s e t o r é constituído p o r
guardiãs d e u m a a m p l a v a r i e d a d e d e remédios t r a d i - u m a série d e r e l a c i o n a m e n t o s d e c u r a informais e g r a -
c i o n a i s e f o r m a s d e t r a t a r a má saúde, p a s s a d a s a t r a - t u i t o s , d e duração variável, q u e o c o r r e m d e n t r o d a r e d e
C u l t u r a , saúde e doença 81
s o c i a l d o próprio p a c i e n t e , p a r t i c u l a r m e n t e a família. países i n d u s t r i a l i z a d o s , o s g r u p o s d e a u t o - a j u d a vêm
N e s s e s e n c o n t r o s terapêuticos não há r e g r a s f i x a s r e - tomando-se u m a parte cada vez mais i m p o r t a n t ed o
g e n d o o c o m p o r t a m e n t o o u a situação; p o s t e r i o r m e n t e , s e t o r i n f o r m a l . S u a s raízes s i t u a m - s e o r i g i n a l m e n t e
o s papéis p o d e m s e r i n v e r t i d o s , c o m o p a c i e n t e d e h o j e n o s E s t a d o s U n i d o s , c o m a fundação d o s AlcoóHcos
t o m a n d o - s e a p e s s o a q u e c u r a amanhã. Há c e r t o s i n - Anónimos ( A A ) e m 1 9 3 6 . ^ A t u a l m e n t e , há c e r c a d e
divíduos, porém, q u e t e n d e m a a g i r c o m o f o n t e d e 5 0 0 . 0 0 0 g r u p o s d e a u t o - a j u d a n o s E s t a d o s Uiúdos, e
a c o n s e l h a m e n t o e m saúde m a i s f r e q u e n t e m e n t e d o c e r c a d e 1 8 % d a população n o r t e - a m e r i c a n a já p a r t i -
q u e o u t r o s . E n t r e e l e s estão: c i p o u d e u m d e l e s . ^ N a Alemanha,»entre 2 e 8 % d a
população p e r t e n c e m a u m g r u p o d e a u t o - a j u d a , e n -
1 . A q u e l e s c o m l o n g a experiência e m u m t i p o d e q u a n t o n a Escandinávia e s t e número é m e n o r , e n t r e
doença o u d e t r a t a m e n t o . 0,2 e 0,7%.^ U m dos maiores e m a i s antigos grupos
2 . A q u e l e s c o m l o n g a experiência e m c e r t o s e v e n t o s internacionais d eauto-ajuda é o AA, que possui mais
de v i d a ( c o m o as m u l h e r e s q u e c r i a r a m o u a m a - d e 1 0 0 . 0 0 0 g r u p o s e m 1 5 0 países e m a i s d e 2 m i -
m e n t a r a m d i v e r s a s crianças). lhões d e m e m b r o s . ^
3 . A s p e s s o a s q u e e x e r c e m profissões paramédicas A s experiências d e má saúde e s o f r i m e n t o t a m -
( c o m o e n f e r m e i r o s , farmacêuticos, f i s i o t e r a p e u - bém p o d e m s e r c o m p a r t i l h a d a s d e n t r o d e s e i t a s d e
t a s o u recepcioiústas d e consultórios médicos) q u e cura, igrejas o u o u t r o g r u p o religioso. Por exemplo,
são c o n s u l t a d a s i n f o r m a l m e n t e s o b r e p r o b l e m a s M c G u i r e ' descreveu algims dos grupos d e cura hoje
d e saúde. e n c o n t r a d o s n a c l a s s e média s u b u r b a n a d o s E s t a d o s
4 . O s cônjuges d e médicos, q u e c o m p a r t i l h a m p a r t e Unidos. Estes i n c l u e m m o v i m e n t o s c o m o C h r i s t i a n
d e s u a experiência, q u a n d o não o próprio t r e i n a - S c i e n c e , U n i t y S c h o o l o f C h r i s t i a n i t y , vários o u t r o s
mento. g r u p o s cristãos ( c o m o o s católicos carismáticos e o s
5 . O s indivíduos q u e e x e r c e m profissões c o m o c a b e - protestantes pentecostais), grupos d otipo H u m a n
l e i r e i r o s , v e n d e d o r e s o u m e s m o funcionários d e Potential ( c o m o Cientologia, EST, Progoff Process e
b a n c o s , q u e i n t e r a g e m f r e q i i e n t e m e n t e c o m o pú- C o r n u c o p i a ) , meditação o r i e n t a l e g r u p o s d e i o g a
blico e algumas vezes a g e m c o m o confessores lei- (que baseiam-se n o budismo zen o u tibetano, n o j a i -
gos o u psicoterapeutas. n i s m o o u n o hinduísmo) e o s m u i t o s t i p o s d e i g r e j a s
6. Os organizadores d e grupos d e auto-ajuda. e s p i r i t u a l i s t a s e "círculos d e c i u - a " , q u e p r a t i c a m a
7. O s m e m b r o s o u o f i c i a n t e s de certas seitas d e c u r a cura oculta o u espiritual para seus m e m b r o s . M u i t o s
o u d e igrejas. d e l e s b a s e i a m - s e n o m o v i m e n t o "New Age",^° q u e e n -
fatiza o desenvolvimento pessoal, o autocuidado e
T o d a s essas pessoas p o d e m ser c o n s i d e r a d a s p o r u m a a b o r d a g e m holística a o s c u i d a d o s d e saúde,
seus amigos o u famiHares c o m o fontes de aconselha- a b r a n g e n d o m e n t e , c o r p o e a l m a . Além d i s s o , e m s o -
m e n t o e assistência e m relação a o s a s s u n t o s d e saú- c i e d a d e s não-ocidentais, o s g r u p o s d e a u t o - a j u d a
d e . S u a s c r e d e n c i a i s são p r i n c i p a l m e n t e s u a própria f r e q u e n t e m e n t e têm u m a b a s e r e l i g i o s a . O s c u l t o s d e
experiência, m u i t o m a i s d o q u e s u a educação, s e u "possessão e s p i r i t u a l " , p o r e x e m p l o , são c o m u n s e m
status s o c i a l o u s e u s p o d e r e s o c u l t o s e s p e c i a i s . U m a p a r t e s d a África, s o b r e t u d o e n t r e m u l h e r e s . N e s s a s
m u l h e r q u e p a s s o u p o r d i v e r s a s gestações, p o r e x e m - s e i t a s , a s m u l h e r e s q u e f o r a m "possuídas" e q u e a d o e -
p l o , p o d e d a r conselhos i n f o r m a i s a u m a j o v e m ges- c e r a m p o r c a u s a d e u m espírito e m p a r t i c u l a r f o r m a m
tante, relatando que sintomas esperar e c o m o Udar o que T u r n e r " chama d e "comunidade d e sofrimen-
c o m eles. D a m e s m a f o r m a , u m a pessoa q u e possui to", cujos m e m b r o s diagnosticam e t r a t a m ritualmente
l o n g a experiência c o m d e t e r m i n a d o remédio p o d e outras pessoas n o resto d a sociedade que s o f r e m d e
"emprestá-lo" a u m a m i g o c o m s i n t o m a s p a r e c i d o s . possessão p e l o m e s m o espírito m a h g n o . L e w i s ^ ^ vê
A s experiências d e má saúde d o s indivíduos a l - a l g u n s d e s s e s c u l t o s d e possessão e s p i r i t u a l , c o m o a
g u m a s v e z e s são c o m p a r t i l h a d a s d e n t r o d e u m grupo s e i t a bori d o s H a u s a , n o n o r t e d a Nigéria, e s s e n c i a l -
de auto-ajuda, q u e p o d e a g i r c o m o u m repositório d o m e n t e c o m o m o v i m e n t o s d e p r o t e s t o das m u l h e r e s
c o n h e c i m e n t o s o b r e u m p r o b l e m a o u experiência p a r - c o n t r a s u a s d e s v a n t a g e n s s o c i a i s . A ligação à s e i t a
t i c u l a r , a s e r u s a d o p a r a o benefício t a n t o d e o u t r o s t r a z prestígio, p o d e r d e c u r a e atenção e s p e c i a l p o r
m e m b r o s q u a n t o para o restante d a sociedade. O s p a r t e d o s h o m e n s , q u e as e n c h e m d e p r e s e n t e s p a r a
grupos de a u t o - a j u d a p o d e m trazer m u i t o s o u t r o s be- a p a z i g u a r o s espíritos responsáveis p e l a possessão.
nefícios p a r a o s m e m b r o s , c o m o c o m p a r t i l h a r c o n s e - T o d o s o s a s p e c t o s d o s e t o r i n f o r m a l ( e também
l h o s s o b r e e s t i l o d e v i d a o u estratégias d e m a n e j o , dos o u t r o s dois setores) p o d e m , algumas vezes, ter
o u f u n c i o n a r c o m o u m refúgio p a r a indivíduos i s o l a - e f e i t o s n e g a t i v o s s o b r e a saúde m e n t a l efísicad a s
d o s , e s p e c i a l m e n t e a q u e l e s q u e s o f r e m d e condições p e s s o a s . A família, p o r e x e m p l o , p o d e f a c i l i t a r o u
estigmatizantes c o m o obesidade o u alcoolismo. E m i m p e d i r o s c u i d a d o s d e saúde. E m T a i w a n , d e a c o r d o
Cecil G . H e i m a n

c o m K l e i m n a n , ' ^ a reação n o r m a l d a família a u m m a , b e m c o m o d e t a l h e s s o b r e s u a doença, a n t e s d e


m e m b r o d o e n t e é t e n t a r contê-lo, a s s i m c o m o s u a f a z e r u m diagnóstico.^^
doença e o s p r o b l e m a s s o c i a i s q u e e l a g e r a d e n t r o d o U m exemplo d e u m curandeiro p u r a m e n t e se-
círculo f a m i l i a r , e m v e z d e compartilhá-la c o m alguém c u l a r é o sahi o u t r a b a l h a d o r d a saúde, c o m o d e s c r i -
e x t e r n o a o g r u p o , c o m o u m médico. t o p e l o s U n d e r w o o d s ^ ^ e m R a y m a h , República Árabe
E m geral, as pessoas doentes movem-se livre- d o lêmen. E s s e s c u r a n d e i r o s s u r g i r a m n o lêmen n o s
m e n t e entre o setor i n f o r m a l e os o u t r o s dois setores, últimos a n o s , e s u a prática c o n s i s t e p r i n c i p a l m e n t e
m u i t a s v e z e s u s a n d o t o d o s o s três d e u m a v e z , s o b r e - e m a p h c a r injeções d e várias d r o g a s o c i d e n t a i s . E l e s
tudo quando o t r a t a m e n t o e m u msetor falha e m ali- possuem pouco t r e i n a m e n t o ( e m geral, u m contato
v i a r o d e s c o n f o r t o físico o u e m o c i o n a l . b r e v e c o m u m p r o f i s s i o n a l d e saúde; e m u m c a s o ,
u m mês d e t r a b a l h o c o m o f a x m e i r o d e u m h o s p i t a l )
e habilidade diagnostica limitada. O m e s m o pode ser
O s e t o r popular (/b/Ár) dito d e suas habilidades d e aconselhamento o u psi-
cológicas. P a r a o s h a b i t a n t e s d e R a y m a h , porém, o
N e s t e setor, q u e é p a r t i c u l a r m e n t e g r a n d e e m sahi p r a t i c a o q u e é c o n s i d e r a d o a quintessência d a
s o c i e d a d e s não-industrializadas, c e r t o s indivíduos e s - m e d i c i n a o c i d e n t a l : " o t r a t a m e n t o d a doença p o r i n -
p e c i a l i z a m - s e e m f o r m a s d e c u r a q u e são sagradas jeções". A p o p u l a r i d a d e c r e s c e n t e d a s injeções f o i
o u seculares, o u u m a m i s t u r a d a s d u a s . E s s e s c u r a n - d e s c r i t a e m m u i t o s países d o T e r c e i r o M u n d o , ' ^ ' ^ *
d e i r o s não p e r t e n c e m a o s i s t e m a médico o f i c i a l e o c u - a s s i m c o m o a prohferação d e injeríonistas não-trei-
p a m u m a posição intermediária e n t r e o s s e t o r e s i n - n a d o s (também c o n h e c i d o s c o m o médicos d e i n j e -
f o r m a l e p r o f i s s i o n a l . E x i s t e u m a a m p l a variação n o s ção, h o m e n s d a a g u l h a o u shot givers) c o m o o sahi.
tipos d e curandeiro popular e m qualquer sociedade,
d e e s p e c i a l i s t a s p u r a m e n t e s e c u l a r e s e técnicos, c o m o
quiropráticos, p a r t e i r a s , p e s s o a s q u e e x t r a e m d e n t e s
o u h e r b a l i s t a s , até a q u e l e s q u e r e a l i z a m c u r a s e s p i r i -
t u a i s , c l a r i v i d e n t e s e xamãs. O s c u r a n d e i r o s p o p u l a -
r e s compõem u m g r u p o heterogéneo, c o m m u i t a v a -
riação i n d i v i d u a l e m t e r m o s d e e s t i l o e a s p e c t o , m a s
a l g u m a s v e z e s estão o r g a n i z a d o s e m associações c o m
r e g r a s d e e n t r a d a , códigos d e c o n d u t a e t r o c a d e i n -
formações.
A maioria das comunidades inclui u m a mistura
de curandeiros populares sagrados e seculares. P o r
e x e m p l o , e m s e u e s t u d o n o final d a década d e 1 9 7 0
sobre curandeiros afro-americanos n a s periferias d e
b a i x a r e n d a n o s Estados U n i d o s , Snow^"* descreveu
"médicos d e e r v a s " , "médicos d e r a i z " , e s p i r i t u a l i s t a s ,
m a g o s , houngans o u mambos d e v o d u , s a c e r d o t e s d e
c u r a e c u r a n d e i r o s p e l a fé, p r o f e t a s d a vizinhança,
" a v o z i n h a s " e v e n d e d o r e s d e e r v a s mágicas, raízes e
medicamentos comerciais (Figura 4.1). Os curandei-
ros espirituais, q u eo p e r a m fora d o s templos, das igre-
j a s o u d a s " l o j a s d e v e l a s " , são p a r t i c u l a r m e n t e c o -
m u n s e l i d a m c o m doenças s u p o s t a m e n t e c a u s a d a s
p o r feitiçaria o u punição d i v i n a . A m a i o r i a d a s d o e n -
ças s e c u l a r e s são t r a t a d a s c o m automedicação, o u
p e l a s "avós" o u médicos h e r b a l i s t a s d a vizinhança.
N a prática, porém, há a l g u m a sobreposição e n t r e s u a s
a b o r d a g e n s e técnicas. E m o u t r a c o m u n i d a d e , o s
Z u l u s d a África d o S u l , também há u m a sobreposição
entre os curandeiros sagrados e seculares. E n q u a n t o
a adivinhação s a g r a d a é r e a U z a d a p e l a s m u l h e r e s
isangomas, o t r a t a m e n t o c o m remédios h e r b a i s a f r i -
c a n o s é f e i t o p e l o s h o m e n s inyangas; a m b o s , porém, F i g u r a 4 . 1 Uma loja vendendo muti, ou remédios africanos tradicio-
c o l e t a m informações s o b r e a o r i g e m s o c i a l d a víti- nais, e medicamentos folclóricos, em Joanesburgo, África do Sul.
C u l t u r a , saúde e doença 83
O u t r o s e x e m p l o s d e s s a tendência f o r a m d e s c r i t o s p o r Oxamâ
K i m a n i , " n o Quénia. Lá, o s "médicos d o m a t o " a d -
m i n i s t r a m remédios e injeções, e o s "meninos-médi- O u t r a f o r m a d e a d i v i n h o é o xamã, e n c o n t r a d o
c o s d a s r u c i s e p a r a d a s d e ônibus" r e p a s s a m cápsulas e m d i f e r e n t e s f o r m a s e m m u i t a s c u l t u r a s . O xamã é i m i
d e antibióticos a d q u i r i d a s n o m e r c a d o n e g r o . c u r a n d e i r o q u e f a z a mediação e n t r e o s m u n d o s m a t e -
A maioria dos curandeiros populares compar- rial e espiritual. Lewis^^ define-o c o m o " u m a pessoa d e
t i l h a o s v a l o r e s c u l t u r a i s básicos e a visão d e m u n - q u a l q u e r s e x o q u e d o m i n o u o s espíritos e p o d e i n t r o -
do d a scomunidades e m que v i v e m , inclusive a s d u z i - l o s à v o n t a d e e m s e u próprio c o r p o " ; a a d i v i n h a -
crenças s o b r e o r i g e m , s i g n i f i c a d o e t r a t a m e n t o d a ção o c o r r e e m u m a sessão, n a q u a l o c u r a n d e i r o i n c o r -
má saúde. E m s o c i e d a d e s n a s q u a i s a má saúde e p o r a o s espíritos e , p o r m e i o d e l e s , d i a g n o s t i c a a d o e n -
o u t r a s f o r m a s d e infortúnio são atribuídas às c a u - ça e p r e s c r e v e o t r a t a m e n t o . C o m o o xamã " d o m i n o u "
s a s s o c i a i s (feitiçaria o u " m a u - o l h a d o " ) o u s o b r e - e s s e s espíritos q u e p e n e t r a r a m n e l e , e l e p o d e então usá-
n a t u r a i s ( d e u s e s , espíritos, f a n t a s m a s a n c e s t r a i s o u l o s p a r a a j u d a r a d i a g n o s t i c a r p e s s o a s possuídas p o r e l e s
d e s t i n o ) , o s c u r a n d e i r o s s a g r a d o s são p a r t i c u l a r - o u p o r espíritos m a l e v o l e n t e s p a r e c i d o s . E m a l g u n s c a -
m e n t e c o m u n s . S u a a b o r d a g e m e m g e r a l é holística, s o s , o xamã s o m e n t e e n t r a e m t r a n s e c o m o auxílio d e
h d a n d o c o m todos os a s p e c t o s d a v i d a d o p a c i e n t e , d r o g a s alucinógenas p o d e r o s a s ( v e r Capítulo 8 ) . E s t a e
inclusive o sr e l a c i o n a m e n t o s c o m o u t r a s pessoas, o u t r a s f o r m a s d e adivinhação a l g i m i a s v e z e s o c o r r e m
c o m o a m b i e n t e n a t u r a l e c o m forças s o b r e n a t u - n a presença d e f a m i l i a r e s , a m i g o s e o u t r o s c o n t a t o s s o -
r a i s , b e m c o m o c o m q u a i s q u e r s i n t o m a s físicos o u c i a i s d o p a c i e n t e . N e s t a simação pública, o a d i v i n h o v i s a
e m o c i o n a i s . , E m m u i t a s s o c i e d a d e s não-ocidentais, trazer à t o n a os conflitos d e n t r o de u m a c o m u n i d a d e -
t o d o s e s s e s a s p e c t o s d a v i d a são p a r t e d a definição q u e p o d e m t e r l e v a d o à feitiçaria o u b r u x a r i a e n t r e a s
d e saúde, q u e é v i s t a c o m o u m equilíbrio e n t r e a s p e s s o a s - e t e n t a resolvê-los d e u m m o d o ritual. O s c u -
pessoas e seu ambiente social, natural e sobrenatu- r a n d e i r o s s a g r a d o s também f o r n e c e m explicações e t r a -
r a l . U m distúrbio d e q u a l q u e r u m d e s s e s a s p e c t o s tamentos para sentimentos subjetivos d e culpa, vergo-
(como u m comportamento imoral, conflitos famili- n h a o u raiva, prescrevendo, por exemplo, rezas, peni-
a r e s o u f a l h a e m o b s e r v a r a s práticas r e l i g i o s a s ) tências o u a resolução d e p r o b l e m a s i n t e r p e s s o a i s . E l e s
p o d e r e s u l t a r e m s i n t o m a s físicos o u s o f r i m e n t o também p o d e m p r e s c r e v e r t r a t a m e n t o s fisicos o u r e -
e m o c i o n a l e e x i g e o s serviços d e u m c u r a n d e i r o médios s i m u l t a n e a m e n t e .
sagrado. Os curandeiros desse tipo, q u a n d o confron- A adivinhação e m t r a n s e é c o m u m e m s o c i e d a -
t a d o s c o m a má saúde, f r e q u e n t e m e n t e p e r g u n t a m d e s não-industrializadas, m a s está t o m a n d o - s e c a d a
sobre o comportamento d opaciente antes da doen- v e z m a i s c o m u m n o O c i d e n t e e n t r e o s médiuns, c l a -
ça e s o b r e q u a i s q u e r c o n f l i t o s c o m o u t r a s p e s s o a s . rividentes, " c a n a l i z a d o r e s " , "neoxamãs" e m e m b r o s
E m u m a sociedade d e p e q u e n a escala, o c u r a n d e i - d e c e r t a s i g r e j a s carismáticas d e c u r a . M e s m o n a s r e -
r o também p o d e t e r c o n h e c i m e n t o e m p r i m e i r a mão giões m e n o s d e s e n v o l v i d a s , o s c u r a n d e i r o s xamânicos
d a s d i f i c u l d a d e s d e u m a família p o r m e i o d e f o f o - q u e p r a t i c a m a adivinhação e m t r a n s e e a c u r a são
c a s l o c a i s , o q u e p o d e s e r útil p a r a o diagnóstico. c a d a v e z m a i s e n c o n t r a d o s e m áreas u r b a n a s e m -
Além d e c o l h e r informações s o b r e a história r e c e n - r a i s , c o m o d e s c r i t o n o e s t u d o d e c a s o d a Sibéria.
te d o paciente e sua origehi social, o curandeiro
p o d e e m p r e g a r u m r i t u a l d e adivinhação. E s s e r i t u -
a l t e m m u i t a s f o r m a s e m t o d o o mundo,^° i n c l u i n -
d o o u s o d e cartas, ossos, p a l h a , conchas, gravetos,
p e d r a s e s p e c i a i s e f o l h a s d e chá, c u j o a r r a n j o é c u i - Estudo de caso:
dadosamente examinado pelo curandeiro para evi-
Xamãs u r b a n o s e m Ulan-Ude,
dências d e q u a l q u e r padrão s u b j a c e n t e . Também há
Sibéria, Federação R u s s a
e x a m e s d a s e n t r a n h a s o u d o fi'gado d e c e r t o s a n i -
m a i s o u a v e s , interpretação d e s o n h o s o u visões, o u Humphrey-' estudou o s u r g i m e n t o d e xaim á s urbanos
c o n s u l t a d i r e t a c o m espíritos, o u s e r e s s o b r e n a t u - n a c i d a d e d e U l a n - U d e , n a R e p ú b l i ca B i i r y at d a S i b é r i a ,
r a i s m e d i a n t e t r a n s e . E m c a d a c a s o , a adivinhação d e s d e a q u e d a d o c o m u n i s m o . A a ij t o r a c( e s c r e v e a c i -
d a d e p ó s - s o v i é t i c a , c o m s u a a t m o s te r a i m |o e s s o a l , s e u s
v i s a r e v e l a r a c a u s a s o b r e n a t u r a l d a doença ( c o m o
edifícios de c o n c r e t o d e c a d e n t e s e g r a n d es b l o c o s de
feitiçaria o u retribuição d i v i n a ) p e l o u s o d e técni- a p a r t a m e n t o s a n ó n i m o s , o n d e a ml a i o r i a d a s pessoas
c a s s o b r e n a t u r a i s . A isangoma z u l u , p o r e x e m p l o , é e n c o n t r a - s e v i v e n d o e n t r e e s t r a n h o ;s, l o n gle d o s p a r e n -
consultada pelos parentes d eu m a pessoa doente, tes. A maioria d o s Buryats m u d o u - s;e d o c; a m p o p a r a a

q u e fica e m c a s a . E l a f a z o diagnóstico e n t r a n d o c i d a d e n a d é c a d a d e 1 9 6 0 . Esta m i gr a ç ã o . a l é m d a p r o -


m o ç ã o e s t a t a l d o a t e í s m o e d a s u p r i; s s à o c l o b u d i s m o e
e m t r a n s e e s e c o m u n i c a n d o c o m o s espíritos, q u e
d a s c r e n ç a s e s p i r i t u a i s t r a d i c i o n a i s , s i g n i f i ic o u q u e m u i -
l h e r e v e l a m a c a u s a e o t r a t a m e n t o d a doença.
Cecil G. H e i m a n

c u i d a d o s primários d e saúde, e s p e c i a l m e n t e a o l i d a r
tas p e s s o a s p e r d e r a m c o n t a t o c o m s u a s raízes rurais e
sua c u l t u r a t r a d i c i o n a l . U m a vez na c i d a d e , a m a i o r i a t e v e
c o m p r o b l e m a s psicossociais. Fabrega e Silver^'' exa-
p o u c a chance de escolher o loca! o n d e viver ou trat)a- m i n a r a m as v a n t a g e n s , p a r a o paciente, de o u t r o t i p o
Ihar, o q u e t a m b é m a j u d o u a f r a g m e n t a r s e u s e n t i d o d e d e c u r a n d e i r o p o p u l a r , o h'ilol d e Z i n a c a n t a n , México,
identidade e c o m u n i d a d e . Os x a m ã s Buryaf que surgi- e m comparação c o m o s médicos o c i d e n t a i s . E m p a r -
r a m n a s c e r a m principalmente na cidade e a t e n d e m so-
b r e t u d o c l i e n t e s i n s t r u í d o s . Eles t e n d e m a e x p l i c a r a d o -
ticular, e x i s t e u m a visão d e m u n d o c o m p a r t i l h a d a ,
ença e o infortúnio c o m o devidos aos espíritos ances- intimidade, calor h u m a n o , informalidade e uso da
trais d o s clientes, das regiões selvagens e das estepes l i n g u a g e m d o d i a - a - d i a n a s c o n s u l t a s , e a família e
a l é m d a c i d a d e . Eles f r e q u e n t e m e n t e p e r g u n t a m a o s cli-
o u t r o s m e m b r o s d a c o m u n i d a d e são e n v o l v i d o s n o
entes s o b r e sua genealogia, de m o d o a identificar o es-
pírito ofensivo, para q u e esse possa então ser exorciza-
t r a t a m e n t o . Além d i s s o , o h'ilol é u m a f i g t u - a c r u c i a l
d o o u a p l a c a d o . Para isso, f r e q u e n t e m e n t e encorajam n a c o m u n i d a d e ; a c r e d i t a - s e q u e e l e a g e e m benefício
os clientes a descobrir mais sobre seus ancestrais e so- d o paciente e da c o m u n i d a d e , b e m c o m o dos deuses.
b r e as á r e a s d e o n d e e l e s p r o v é m . E m a l g u n s c a s o s , o s
E l e p o d e i n f l u e n c i a r a s o c i e d a d e e m u m nível m a i o r ,
x a m ã s e n c o r a j a m os clientes a voltar para tais áreas, para
u m a m o n t a n h a o u árvore particular o n d e o espírito ago-
p a r t i c u l a r m e n t e o sr e l a c i o n a m e n t o s sociais d o pa-
ra r e s i d e , a f i m d e r e a l i z a r u m r i t u a l e s p e c i a l [alban) para ciente, podendo influenciar o seu c o m p o r t a m e n t o f u -
apaziguá-lo. A s s i m , "insistindo nessas ligações c o m o t i u r o , d e s t a c a n d o a influjência d a s ações p a s s a d a s s o -
c a m p o , os xamãs reconceitualizam e s e g m e n t a m a ci-
b r e a s u a doença a t u a l . ^ F i n a l m e n t e , s u a c u r a o c o r r e
d a d e , d e f o r m a q u e ela é a g o r a c o m p o s t a d e i n d i v í d u o s
pertencentes a g r u p o s familiares ou decentes, cujas ori-
e m u m a m b i e n t e f a m i l i a r , c o m o o l a r o u u m santuá-
gens situam-se muito longe". Desse m o d o , "religando rio r e l i g i o s o . U m a v e z q u e o s c u r a n d e i r o s p o p u l a r e s
os indivíduos da cidade - de laços familiares quase es- c o m o o Kúol, a r t i c u l a m e reforçam o s v a l o r e s c u l t u -
quecidos a locais sagrados e assustadores n o c a m p o " ,
r a i s d a s c o m u n i d a d e s o n d e v i v e m , e l e s têm v a n t a -
eles as e s t ã o a j u d a n d o a se a d a p t a r à s u a r e a l i d a d e ur-
bana pós-soviética. A o m e s m o t e m p o , eles as a j u d a m a
g e n s s o b r e o s médicos o c i d e n t a i s , q u e estão f r e q u e n -
se a d a p t a r ao n o v o c o n t e x t o m a i o r e m q u e eles se e n - t e m e n t e separados d eseus pacientes p o r classe so-
c o n t r a m . E m suas sessões, os x a m ã s e v o c a m não ape- c i a l , posição económica, género, educação e s p e -
nas o s espíritos ancestrais d o s clientes, m a s t a m b é m u m a
c i a l i z a d a e, a l g u m a s v e z e s , b a g a g e m c u l t u r a l . E m p a r -
variedade m e n o s paroquial e mais ecléctica de "divin-
dades", c o m o o Arcanjo Gabriel, samurais japoneses e ticular, e s s e s c u r a n d e i r o s são m a i s c a p a z e s d e d e f i n i r
m e s m o "pilotos automobilísticos do c o s m o " . A s s i m , os e t r a t a r a perturbação - i s t o é, a s dimensões s o c i a i s ,
xamãs urbanos Buryat a g e m nào s o m e n t e c o m o psico- psicológicas, m o r a i s e e s p i r i t u a i s a s s o c i a d a s c o m a
terapeutas leigos e conselheiros, mas t a m b é m ligando
má saúde, a s s i m c o m o c o m o u t r a s f o r m a s d e infortú-
o s c l i e n t e s c o m s u a s raízes e, e m u m c o n t e x t o maior,
f a z e n d o t a m b é m c o m q u e eles se s i n t a m m a i s c o n f o r t á - n i o ( v e r Capítulo 5 ) . A o contrário d o m u n d o o c i d e n -
veis n o s n o v o s espaços u r b a n o s a n ó n i m o s o n d e a g o ra t a l , o n d e d i f e r e n t e s tipos d e infortúnio são m a n e j a -
vivem. C o m o H u m p h r e y nota, "a percepção do xamã dos p o r diferentes tipos de agentes de cura - os pro-
acerca d o m a l e d o i n f o r t ú n i o na c i d a d e i m p l i c a uma
b l e m a s físicos p o r médicos, o s p r o b l e m a s psicológi-
consciência dos fluxos relacionais d o poder espiritual
proveniente de fora". cos p o r psiquiatras o u t e r a p e u t a s , os p r o b l e m a s so-
ciais p o r assistentes sociais e os p r o b l e m a s espirituais
p o r m i n i s t r o s r e h g i o s o s - e s t e tipo d e a g e n t e d e c u r a
a b o r d a todas e s s a s dimensões s i m u l t a n e a m e n t e . E
Vantagens e desvantagens da cura popular (Mk) m a i s , e l e s m u i t a s v e z e s a s reúnem e m u m a única e x -
pUcação c a u s a l . E l e s também f o r n e c e m f o r m a s c u l -
Para aqueles que a utilizam, a c u r a p o p u l a r ofe- t u r a l m e n t e famiHares de explicar acausa e o m o m e n -
r e c e d i v e r s a s v a n t a g e n s e m relação à m e d i c i n a c i e n - t o d e ocorrência d o infortúnio e s u a relação c o m o
tífica m o d e r n a . U m a d e l a s é o f i r e q i i e n t e e n v o l v i m e n t o m u n d o social e sobrenatural.
d a família n o diagnóstico e n o t r a t a m e n t o . P o r e x e m - E m d i v e r s o s países h o j e e m d i a , e s s e s c u r a n -
p l o , c o m o M a r t i n ^ d e s t a c o u , p a r a o s índios n o r t e - d e i r o s p o p u l a r e s são m u i t a s v e z e s u s a d o s p a r a l e l a -
a m e r i c a n o s , t a n t o o p a c i e n t e q u a n t o s u a família têm m e n t e a o t r a t a m e n t o médico, m e s m o q u a n d o o s d o i s
a r e s p o n s a b i l i d a d e d e p a r t i c i p a r d o s rituais d e c u r a b a s e i a m - s e e m p r e m i s s a s m u i t o d i f e r e n t e s . N o Mé-
d a doença d e l e . O f o c o d a atenção não é s o m e n t e o x i c o , p o r e x e m p l o , F i n k l e r ^ ^ d e s c r e v e u as d i f e r e n -
p a c i e n t e ( c o m o n a m e d i c i n a o c i d e n t a l ) , m a s também ças e semelhanças e n t r e o s médicos e o s c u r a n d e i -
a reação d a família e d o s o u t r o s à doença. O c u r a n - r o s e s p i r i t u a i s ( q u e c u r a m c o m o auxílio d e espíri-
deiro e m si geralmente é circundado p o r auxiliares, t o s q u e os p o s s u e m ) . A a u t o r a m o s t r a q u e as pes-
q u e t o m a m p a r t e n a cerimónia, dão explicações a o s o a s u s a m o s d o i s s i s t e m a s , porém c o m fins d i f e r e n -
p a c i e n t e e s u a família e r e s p o n d e m p e r g i m t a s . D e t e s . C o m o e m m u i t a s o u t r a s c u l t u r a s , o s médicos
u m a p e r s p e c t i v a m o d e r n a , e s t e tipo d e c u r a n d e i r o t e n d e m a dizer a seus pacientes o que aconteceu,
nativo norte-americano c o m auxiliares,junto c o m a e n q u a n t o os c u r a n d e i r o s d i z e m a eles p o r que acon-
farmlia do paciente, fornece i m i a equipe efetiva d e t e c e u . O s c u r a n d e i r o s e x p l i c a m a má saúde e m t e r -
C u l t u r a , saúde e doença 85
mos culturais mais amplos, mais familiares, envol- e s p e c i a l m e n t e n a q u e l e s c o m tendência a s a n g r a m e n -
v e n d o o s a s p e c t o s s o c i a i s , psicológicos e e s p i r i t u a i s t o , b e m c o m o a infecções l o c a i s o u até s e p t i c e m i a .
d a v i d a d e s e u s p a c i e n t e s , e n q u a n t o o s médicos s e Algumas parteiras tradicionais p o d e m usar instrumen-
c o n c e n t r a m p r i n c i p a l m e n t e n a s doenças físicas e e m t o s não-esterilizados n o s p a r t o s o u a c o n s e l h a r a s mães
s e u s patógenos o u c o m p o r t a m e n t o s c a u s a i s . I s s o a d e s c a r t a r s e u c o l o s t r o o u c o l o c a r pedaços d e
o c o r r e a p e s a r d o f a t o d e o s médicos g a s t a r e m d u a s e x c r e m e n t o s n o c o t o u m b i l i c a l d o bebé após o n a s c i -
vezes mais t e m p o (cerca d e 2 0 m i n u t o s ) nas pri- m e n t o - l e v a n d o a o tétano n e o n a t a l ( v e r Capítulo
m e i r a s c o n s u l t a s e m comparação c o m o s c u r a n d e i - 6 ) . A l g u n s c u r a n d e i r o s p o p u l a r e s também p o d e m u s a r
r o s . Porém, há a l g u m a s semelhanças e n t r e a s d u a s a credulidade e a v u l n e r a b i l i d a d e de seus clientes p a r a
a b o r d a g e n s . A m b a s p o s s u e m u m a visão d u a l i s t a d o explorá-los f i n a n c e i r a , e m o c i o n a l o u m e s m o s e x u a l -
p a c i e n t e , o s médicos u s a n d o u m a a b o r d a g e m d e m e n t e . T o d o s esses e x e m p l o s s i g n i f i c a m q u e o s c u -
m e n t e e c o r p o e o s c u r a n d e i r o s , d e espírito e c o r p o . r a n d e i r o s p o p u l a r e s d e v e m ser vistos de m o d o realis-
A m b o s t e n t a m "olhar" para dentro d ocorpo d o pa- t a , s e m romantizá-los e x a g e r a d a m e n t e . P a r a a s p e s -
c i e n t e , d e m o d o a d i a g n o s t i c a r a má s a i i d e , o s mé- soas que o s c o n s u l t a m , eles c o m certeza p o s s u e m
dicos c o m ajuda da tecnologia e oscurandeiros por m u i t a s v a n t a g e n s e m comparação c o m o s médicos,
m e i o d e espíritos q u e o s p o s s u e m e a u x i l i a m . S e u s m a s também p o d e m t e r d e s v a n t a g e n s e r i s c o s .
cenários terapêuticos, porém, são m u i t o d i f e r e n t e s .
A c u r a d o Espiritualismo o c o r r e e m u m t e m p l o , n a
presença d a família e d e o u t r o s m e m b r o s d a c o m u - Treinamento dos curandeiros populares
n i d a d e , e n q u a n t o a s interações médico-paciente
o c o r r e m n o i s o l a m e n t o estéril d e u m p e q u e n o cubí- E m geral, o scurandeiros populares possuem
c u l o , o c a s i o n a l m e n t e n a presença d e e s t r a n h o s c o m o p o u c o t r e i n a m e n t o f o r m a l e m relação às f a c u l d a d e s
enfermeiros o u estudantes de medicina. Finkler t a m - de medicina ocidentais. A s habilidades geralmente
bém n o t a q u e , a o contrário d o s médicos, o s c u r a n - são a d q u i r i d a s p e l o a p r e n d i z a d o c o m u m c u r a n d e i r o
d e i r o s e s p i r i t u a i s r a r a m e n t e dão a s e u s p a c i e n t e s u m m a i s v e l h o , p e l a experiência c o m c e r t a s técnicas o u
diagnóstico específico; e m v e z d i s s o , f o r n e c e m u m a condições, o u p e l a possessão d e u m p o d e r d e c u r a
tranqiiilização d e q u e o s espíritos s a b e m t u d o s o b r e i n a t o o u adquirido. A s pessoas p o d e m tornar-se cu-
s u a aflição. P a r a m u i t o s p a c i e n t e s , e s s a explicação é randeiros populares d e diversos modos:
satisfatória p o i s , e m a l g u m m v e l , e l a a t e n d e s u a s
próprias e x p e c t a t i v a s e experiência e m o c i o n a l s u b - 1 . Herança - t e r n a s c i d o e m u m a "família d e c u r a n -
j e t i v a d e má saúde. E n q u a n t o o s médicos t e n d e m a d e i r o s " , a l g u m a s v e z e s d e m u i t a s gerações.
c o l o c a r a má saúde d o p a c i e n t e e m u m a m o l d u r a 2 . Posição d e n t r o d a família, c o m o o "sétimo f i l h o
t e m p o r a l l i m i t a d a e localizá-la e m u m a d e t e r m i n a - d e u m sétimo f i l h o " n a I r l a n d a .
d a p a r t e d o c o r p o , o s espíritos o n i s c i e n t e s q u e a u x i - 3 . S i n a i s e presságios n o n a s c i m e n t o , c o m o u m a m a r -
l i a m o curandeiro " t r a n s c e n d e m o t e m p o e o espa- c a d e nascença o u " c h o r a r n o útero" o u t e r n a s c i -
ço, d o m e s m o m o d o q u e a doença d o p a c i e n t e t r a n s - d o c o m a m e m b r a n a amniótica e n v o l v e n d o o r o s -
c e n d e a s dimensões t e m p o r a l e e s p a c i a l " . t o ( o "caul" n a Escócia).
A s s i m c o m o o u t r a s f o r m a s d e c u i d a d o s d e saú- 4 . Revelação - a d e s c o b e r t a d e q u e alguém " t e m o
de, a m e d i c i n a p o p u l a r t e m suas desvantagens e seus d o m " , o q u e p o d e o c o r r e r c o m o u m a experiência
riscos. Por e x e m p l o , os c u r a n d e i r o s p o p u l a r e s p o d e m e m o c i o n a l i n t e n s a d u r a n t e u m a doença, u m s o -
i g n o r a r , f a z e r u m diagnóstico e r r a d o o u t r a t a r m a l o s n h o o u u m transe. E m casos extremos, como
s i n a i s d e u m a doença física g r a v e o u d e u m distúrbio L e v n s ^ ^ d e s t a c a , a vocação p o d e s e r a n u n c i a d a p o r
m e n t a l , c o m o c o n f u n d i r psicose, epilepsia o u t u m o r " u m estado i n i c i a l m e n t e d e s c o n t r o l a d o de posses-
c e r e b r a l c o m u m a "possessão e s p i r i t u a l " . E l e s p o d e m são: u m a experiência traumática a s s o c i a d a a u m
usar formas de t r a t a m e n t o c o m o exorcismos, concoc- c o m p o r t a m e n t o d e êxtase o u d e h i s t e r i a " .
ções h e r b a i s f o r t e s , d i e t a s e s p e c i a i s o u f o r m a s e x t r e - 5 . A p r e n d i z a d o c o m o u t r o c u r a n d e i r o - u m padrão
m a s d e r e z a o u j e j u m q u e p o d e m c a u s a r lesão física c o m u m e m t o d a s as p a r t e s d o m u n d o , e m b o r a o
o u psicológica a s e u s c l i e n t e s . A l g u n s p o d e m u s a r a g u - processo possa durar m u i t o s anos.
l h a s o u i n s t r u m e n t o s não-esterilizados e m c i r c u n c i - 6 . Aquisição d e u m a h a b i l i d a d e esperífíca s e m auxí-
sões, escarificações rituais, a c u p u n t u r a o u o u t r o s t r a - l i o d e o u t r o s , c o m o o sahi d o lêmen, o s médicos
t a m e n t o s , l e v a n d o à disseminação d e infecções c o m d o m a t o {hush doctors) q u e n i a n o s e o u t r o s tipos
o vírus d a imunodeficiência h u m a n a ( H I V ) o u d a h e - de injecionistas. O saspirantes a curandeiros po-
p a t i t e B . T a n t o a circuncisão m a s c u l i n a q u a n t o a f e - pulares m o d e r n o s p o d e m hoje a d q u i r i r seus c o -
m i n i n a , reaUzadas por praticantes populares, algu- n h e c i m e n t o s de cura e m livros, cursos por corres-
m a s vezes p o d e m levar a u m a grande hemorragia. pondência o u m e s m o i n t e r n e t .
CecU G. H e i m a n

N a prática, e s s a s f o r m a s d e c u r a p o p u l a r t e n - ( A I D S ) . A l g u n s d e s e u s remédios à b a s e d e e r v a s f o -
d e m a se s o b r e p o r ; p o r e x e m p l o , alguém n a s c i d o e m r a m r e l a t a d o s c o m o c a u s a d o r e s d e doenças g r a v e s o u
u m a "família d e c u r a n d e i r o s " e c o m c e r t o s s i n a i s e m e s m o morte.^'' A s s i m , é i m p o r t a n t e considerar os c u -
presságios a o n a s c i m e n t o a i n d a p o d e p r e c i s a r r e f i - randeiros populares de m o d o equiUbrado e evitar tan-
nar seu " d o m " por meio d eu m longo aprendizado t o a idealização q u a n t o a crítica e x c e s s i v a . P o r u m l a d o ,
c o m u m c u r a n d e i r o m a i s v e l h o . E m a l g u n s casos, os deve-se evitar o que Lucas e B a r r e t t ^ d e n o m i n a m v i -
c u r a n d e i r o s também p o d e m s e r quahfícados c o m o são arcádica - v e r e s s e s c i u r a n d e i r o s e a s c o m u n i d a d e s
e n f e r m e i r o s o u o u t r o s p r o f i s s i o n a i s d e saúde. U m onde atuam como d ealguma forma "naturais" e
e s t u d o ^ ^ e s t i m o u , p o r e x e m p l o , q u e n a África d o S u l holísticos, v i v e n d o e m h a r m o n i a pacífica c o m a n a t u -
q u a s e 1 % d o s e n f e r m e i r o s a f r i c a n o s também t r a b a - reza e uns c o m osoutros. Todavia, por outro lado,
lha e m meio turno como curandeiro tradicional. considerá-los "bárbaros" - vê-los e a s u a s c o m u n i d a -
E m b o r a am a i o r i a dos curandeiros populares tra- des c o m o de a l g u m m o d o p r i m i t i v o s , degenerados, i n -
b a l h e i n d i v i d u a l m e n t e , e x i s t e m redes i n f o r m a i s o u as- c o m p e t e n t e s e s u b d e s e n v o l v i d o s - também é i m p r e c i -
sociações d e c u r a n d e i r o s , q u e p r o p i c i a m a t r o c a d e so. N a m a i o r i a dos casos de c u r a popular, a v e r d a d e
técnicas e informações e a monitoração d o c o m p o r t a - situa-se e m a l g u m p o n t o entre os dois extremos.
m e n t o d e c a d a indivíduo. U m a d e s s a s r e d e s e n t r e o s
a d i v i n h o s z u l u s o u isangomas é d e s c r i t a p o r N g u b a n e . ^ ^
E l e s s e reúnem r e g u l a r m e n t e p a r a c o m p a r t i l h a r i d e i - "Profíssíonafízação" dos curandeiros populares
a s , experiências e técnicas; c a d a a d i v i n h o t e m a o p o r -
tunidade de encontrar ex-alunos, professores e apren- A relação e n t r e o s s e t o r e s p o p u l a r e p r o f i s s i o n a l
d i z e s e n t r e o s a d i v i n h o s d a vizinhança, b e m c o m o e n - g e r a l m e n t e t e m s i d o m a r c a d a p o r s e n t i m e n t o s mútu-
tre aqueles que a t u a m e m locais m a i s distantes. Esti- o s d e desconfiança e s u s p e i t a . A m a i o r i a d o s médicos
m a - s e q u e , e m u m período d e três a c i n c o a n o s , u m t e n d e a ver, n o s c u r a n d e i r o s p o p u l a r e s , t r a p a c e i r o s ,
adivinho pode fazer contato c o m mais de 4 0 0 colegas charlatães, f e i t i c e i r o s o u f a r s a n t e s , q u e r e p r e s e n t a m
a d i v i n h o s e m t o d o o s u l d a África ( e m b o r a , r e c e n t e - u m p e r i g o p a r a a saúde d o s s e u s p a c i e n t e s .
m e n t e , c o m o m e n c i o n a d o adiante, eles t e n h a m c o m e - C a d a v e z m a i s ( e m u i t a s v e z e s c o m relutância),
çado a f o r m a r s u a s próprias organizações p r o f i s s i o - porém, a s a u t o r i d a d e s médicas têm r e c o n h e c i d o q u e ,
nais, estando sujeitos a m o v i m e n t o s do governo para apesar de seus p r o b l e m a s i n e r e n t e s , os c u r a n d e i r o s
licenciá-los e regulamentá-los). E m o u t r a s situações, p o p u l a r e s p o s s u e m a l g u m a s v a n t a g e n s óbvias p a r a o
c o m o os bairros negros d eb a i x a r e n d a n o s Estados p a c i e n t e e s u a família, s o b r e t u d o a o H d a r c o m p r o -
U n i d o s , diversos c u r a n d e i r o s p o d e m ser m i n i s t r o s de b l e m a s psicológicos. E m m u i t o s países e m d e s e n v o l -
u m a i g r e j a e s p i r i t u a l i s t a , q u e também a t u a c o m o t u n a v i m e n t o , o s c u r a n d e i r o s p o p u l a r e s t r a d i c i o n a i s estão
associação d e c u r a n d e i r o s . N o s círculos d e c u r a s u - s e n d o i n c o r p o r a d o s m a r g i n a l m e n t e a o s i s t e m a mé-
b u r b a n o s descritos p o r M c G u i r e , ' quase todos os par- dico - algumas vezes contra sua vontade. A iniciativa
t i c i p a n t e s têm a c h a n c e d e s e r c u r a n d e i r o s e p a c i e n t e s n e s s e s e n t i d o g e r a l m e n t e p a r t e d a Organização M u n -
e m várias ocasiões; a s s i m , e s s e s g r u p o s sobrepõem o d i a l d e Saúde ( O M S ) o u d e g o v e r n o s n a c i o n a i s , o u
limite entre a cura popular e informal e fornecem u m a l g u m a s v e z e s d o s próprios c u r a n d e i r o s . E m 1 9 7 8 , a
m e i o p a r a a t r o c a d e informações e experiências e n t r e O M S e m i t i u s u a f a m o s a declaração d e A l m a - A t a d e
u m grupo de curandeiros. "Saúde p a r a t o d o s n o a n o 2 0 0 0 " . S u a p r i n c i p a l p r o -
Porém, a p e s a r d e s u a s m u i t a s v a n t a g e n s , é i m - p o s t a e r a a provisão m u n d i a l d e c u i d a d o s primários
p o r t a n t e não t e r u m a visão romântica d e m a i s s o b r e o s a b r a n g e n t e s d e saúde, q u e f o r n e c e r i a m serviços p r e -
curandeiros populares e m geral. C o m o todos os o u - v e n t i v o s , c u r a t i v o s e d e reabilitação a u m c u s t o r a z o -
t r o s p r e s t a d o r e s d e c u i d a d o s d e saúde, i n c l u s i v e mé- ável.^' Porém, c o m r e c u r s o s f i n a n c e i r o s e s c a s s o s , p o -
d i c o s e e n f e r m e i r o s , e x i s t e m a q u e l e s q u e são i n c o m - pulações c r e s c e n t e s e r e c u r s o s médicos l i m i t a d o s , a
petentes, ignorantes, arrogantes o u gananciosos, o u t a r e f a e r a q u a s e impossível e r e c e n t e m e n t e t o r n o u -
q u e p o s s u e m u m a visão m u i t o r e d u c i o n i s t a d a má saú- s e a i n d a m a i s difícil e m função d e n o v a s doenças c o m o
de e de c o m o ela d e v e ser tratada. E m a i s , n e m t o d o s a A I D S . U m resultado disso foi u m o l h a r n o v o para a
o s c u r a n d e i r o s p o p u l a r e s provêm d a c o m u n i d a d e e m medicina tradicional, redefinindo-a como u m aliado
q u e t r a b a l h a m n e m t o d o s estão f a m i l i a r i z a d o s c o m s e u p o t e n c i a l d o s i s t e m a médico, e não c o m o u m i n i m i -
ámcionamento s o c i a l i n t e r n o . A l g u m a s d a s técnicas go. E m 1 9 7 8 , a O M S r e c o m e n d o u q u e a m e d i c i n a
q u e e l e s u s a m também p o d e m s e r m u i t o p e r i g o s a s p a r a tradicional fosse p r o m o v i d a , desenvolvida e integra-
s e u s p a c i e n t e s . O u s o d e a g u l h a s não-esterilizadas p e - d a s e m p r e q u e possível c o m a m e d i c i n a científica
los injecionistas, p o r e x e m p l o , p o d e levar a abscessos moderna,^° m a s d e s t a c o u a n e c e s s i d a d e d e a s s e g u -
cutâneos g r a v e s , b e m c o m o à disseminação d a h e p a t i - r a r r e s p e i t o , r e c o n h e c i m e n t o e colaboração e n t r e o s
t e B o u d a síndrome d a imunodeficiência a d q u i r i d a p r a t i c a n t e s d o s vários s i s t e m a s e n v o l v i d o s . O s r e c u r -
C u l t u r a , saúde e doença 87
SOS h u m a n o s q u e a O M S e s p e r a v a r e c r u t a r incluíam l h a n t e q u e está o c o r r e n d o e n t r e o s c u r a n d e i r o s a l t e r -
h e r b a h s t a s , p r a t i c a n t e s d e m e d i c i n a aiurvédica, unã- nativos e complementares nas sociedades ocidentais
ni o u i o g a , c u r a n d e i r o s t r a d i c i o n a i s c h i n e s e s c o m o o s ( v e r a d i a n t e ) . N o l e s t e d a E u r o p a , d e s d e o século X V I I I ,
a c u p u n t u r i s t a s e vários o u t r o s . Atenção e s p e c i a l f o i o s feldshers r u s s o s também p e r c o r r e r a m u m l o n g o c a -
d e d i c a d a à seleção e a o t r e i n a m e n t o d a s p a r t e i r a s m i n h o , d e curandeiros populares locais (freque-
t r a d i c i o n a i s , ^ ^ ' ^ ^ q u e já f a z e m o p a r t o d e c e r c a d e d o i s n t e m e n t e ex-médicos d o exército) p a r a s e u status m a i s
terços d o s bebés n o m u n d o ( v e r Capítulo 6 ) . r e c e n t e c o m o a u x i l i a r e s d e médicos q u e m u i t a s v e z e s
Last^3 d e s t a c a q u e a g o r a , c o m o r e s u l t a d o d e s s a s t r a b a l h a m n o c u i d a d o primário o u e m obstetrícia, s o -
d u a s declarações, " a profissionalização p o t e n c i a l d o s b r e t u d o e m áreas r u r a i s . ^ ^ E m c o n t r a s t e , s e u s e q u i v a -
p r a t i c a n t e s t r a d i c i o n a i s f i r m o u - s e n a p a u t a d e ações". l e n t e s e m o u t r o s países d o l e s t e e u r o p e u , c o m o o s
O a u t o r o b s e r v a q u e h o u v e u m c r e s c i m e n t o rápido n o cyniliks d a Polónia, e m g r a n d e p a r t e d e s a p a r e c e r a m . ^ ^
número d e organizações d e p r a t i c a n t e s , e s p e c i a l m e n - V e H m i r o v i c ^ ^ vê a i n i c i a t i v a d a O M S q u a n t o à
t e n a África. A l g u m a s organizações ( c o m o o s isan- m e d i c i n a t r a d i c i o n a l c o m o b e m - i n t e n c i o n a d a porém
gomas z u l u s ) o p e r a m p r i n c i p a l m e n t e c o m o r e d e s i n - m a l - o r i e n t a d a . E l e a r g u m e n t a q u e s u a integração n o
formais, e n q u a n t o outras a t u a m c o m o grupos d e pres- s e t o r f o r m a l ( p r o f i s s i o n a l ) d o s c u i d a d o s d e saúde d e s -
são o u i g r e j a s , o u c u l t o s q u e o f e r e c e m c u r a . Já d i v e r - d e 1 9 7 8 "não c o n t r i b u i u v i r t u a l m e n t e e m n a d a p a r a
s a s organizações, c o m o a Z i m b a b w e N a t i o n a l T r a d i c i o - r e s o l v e r o s m o n u m e n t a i s p r o b l e m a s d e saúde d o
nal Healers' Association, f o r a m reconhecidas pelo g o - m u n d o e m desenvolvimento" o u para atingir a meta
v e r n o c o m o corporações p r o f i s s i o n a i s p r o p r i a m e n t e d i - d e "Saúde p a r a t o d o s até o a n o 2 0 0 0 " . I s s o s e d e v e
tas, c o m poderes exclusivos p a r a educar, avaliar, Hcen- e m p a r t e a o f a t o d e , n a p r o p o s t a d a O M S , a definição
c i a r e d i s c i p l i n a r s e u s m e m b r o s . N a África d o S u l , a l e i de medicina tradicional n u n c a ter sido clara o u con-
governamental Tradicional Health Practitioners Bill de s i s t e n t e . N e m s u a presunção acrítica d a eficácia d a
2 0 0 4 criou u m Conselho para supervisionar o licen- m e d i c i n a tradicional foi justificada, pois i g n o r o u suas
c i a m e n t o e a regulamentação d o s c e r c a d e 2 0 0 . 0 0 0 muitas falhas e problemas, c o m o sua incapacidade
c u r a n d e i r o s t r a d i c i o n a i s a f r i c a n o s n o país - q u e são d e c u r a r malária, cólera, f e b r e a m a r e l a e o u t r a s d o e n -
c o n s u l t a d o s p o r c e r c a d e 7 0 % d a população - c o m o ças. E m m u i t o s c a s o s , o s p o n t o s d e v i s t a d o s c u r a n -
o b j e t i v o d e a s s e g u r a r " a eficácia, a segurança e a q u a H - d e i r o s t r a d i c i o n a i s a c e r c a d a doença e s e u s t r a t a m e n -
d a d e d o s serviços t r a d i c i o n a i s d e c u i d a d o s d e saúde"-^ t o s e r a m tão p r e j u d i c i a i s p a r a a saúde q u e e l e s pró-
Para m u i t o s curandeiros populares, o processo prios e r a m parte d oproblema. E mais, e m muitos
d e f o r m a r u m a "profissão" ( v e r a d i a n t e ) f r e q u e n t e - países e m d e s e n v o l v i m e n t o , a m e d i c i n a t r a d i c i o n a l
m e n t e também t e m s i d o u m a r e s p o s t a à competição " f r e q u e n t e m e n t e não é tão b e n q u i s t a e n t r e a s p e s s o -
d e s i g u a l d o s i s t e m a médico. A o c r i a r u m a associação a s q u a n t o o s p l a n e j a d o r e s d e saúde a c r e d i t a m " . C o m
p r o f i s s i o n a l , e l e s e s p e r a m o b t e r avanços e m s e u s i n - a possibilidade d e escolha, m u i t a s pessoas preferem
t e r e s s e s e n o s d e s e u s c U e n t e s , m e l h o r a r o s padrões, c o n s u l t a r médicos d e e s t i l o o c i d e n t a l , e não o s c u -
e l e v a r s e u prestígio, g a n h a r p o d e r e a p o i o o f i c i a l e r a n d e i r o s t r a d i c i o n a i s o u t r a b a l h a d o r e s d e saúde não
d e f i n i r u m a área d e c u i d a d o s d e saúde q u e s o m e n t e t r e i n a d o s d a comuiúdade - m e s m o q u e i s s o e n v o l v a
eles p o d e m fornecer. m u i t a s despesas e longas viagens.
T o d a v i a , i s s ofireqúentementeé problemático. P o r Apesar desse p o n t o d e vista, é i m p o r t a n t e e n -
u m l a d o , há evidências d e q u e , e m m u i t o s países e m f a t i z a r q u e há e x e m p l o s d e colaboração b e m - s u c e d i -
d e s e n v o l v i m e n t o , o número r e a l d e c u r a n d e i r o s t r a d i - d a e n t r e o s c u r a n d e i r o s t r a d i c i o n a i s e o s i s t e m a mé-
c i o n a i s está d e c l i n a n d o , e m p a r t e d e v i d o à educação, d i c o o f i c i a l , e s p e c i a l m e n t e q u a n t o à prevenção d a
à urbanização e à r u p t u r a d a s c o m u n i d a d e s . Além d i s - A I D S , 3 ^ às p a r t e i r a s t r a d i c i o n a i s , ^ ^ a o p l a n e j a m e n t o
so, c o m o Last^^ s a l i e n t a , o s c u r a n d e i r o s t r a d i c i o n a i s familiar,^® à promoção d a t e r a p i a d e reidratação
( e m e s p e c i a l d o tipo s a g r a d o ) são u m g r u p o d e m a s i a - o r a l , ^ ' a o t r a t a m e n t o d a doença m e n t a l ' * " e a o t r a t a -
d o d i s p e r s o e s e u c o n h e c i m e n t o e prática estão m u i t o m e n t o e reabilitação d o s d r o g a d i t o s . ' * ^
enraizados nos contextos locais p a r a s e r e m p a d r o n i -
z a d o s e f e t i v a m e n t e . E l e s também têm noções e s p e d -
ficas d e l e g i t i m i d a d e , q u e d e r i v a m p r i n c i p a l m e n t e d a s Medicina tradicional na China e na índia
tradições d e s u a c o m u n i d a d e e s e u próprio c a r i s m a , e
não d e a l g u m a b u r o c r a c i a g o v e r n a m e n t a l d i s t a n t e . E m países c o m o a índia e a C h i n a , o s f o r t e s s i s t e -
P a r a m u i t o s d e s e u s c l i e n t e s , " a l e g a l i d a d e d e u m a prá- m a s n a t i v o s d e c u r a têm q u a s e a m e s m a l e g i t i m i d a d e e
tica é m e n o s i m p o r t a n t e d o q u e o padrão m o r a l d o popularidade que a medicina ocidental, e atualmente,
praticante o u sua confiabiUdade". c o m a p o i o d o g o v e r n o , o f e r e c e m à população s i s t e m a s
Até c e r t o p o n t o , e s s a profissionalização d o s c u - p a r a l e l o s d e c u i d a d o s d e saúde. D e c e r t a f o r m a , e l e s já
randeiros tradicionais é paralela a u m processo seme- estão " p r o f i s s i o n a l i z a d o s " . N a C h i n a , a p e s a r d e d i v e r -
C e c i l G. H e i m a n

s a s m u d a n ^ d a política d o g o v e r n o , a m e d i c i n a t r a d i - v a o u complementar (algumas vezes conhecida como


c i o n a l c h i n e s a - i n c l u i n d o a c u p u n t u r a , moxibustão e M A C ) - sobrepõe-se t a n t o a o s e t o r p o p u l a r q u a n t o
fitoterapia - ainda constituiu m sistema complementar a o p r o f i s s i o n a l . S e u s m u i t o s tipos d e c u r a n d e i r o s g e r -
d e c u i d a d o s d e saúde p a r a b o a p a r t e d a população, e s - almente incluem acupunturistas, homeopatas,
p e c i a l m e n t e e m áreas r u r a i s , e x i s t i n d o j u n t o c o m clíni- quiropráticos, o s t e o p a t a s , h e r b a l i s t a s , n a t u r o p a t a s .
c a s biomédicas e o u t r a s instalações. N a índia, há 9 1 curandeiros espirituais, especiahstas e m hipnose,
e s c o l a s médicas r e c o n h e c i d a s aiurvédicas ( h i n d u s ) e 1 0 m a s s o t e r a p e u t a s e e s p e c i a l i s t a s e m meditação. U m a
unãni (muçulmanas), s e n d o q u e a m e d i c i n a aiurvédica das f o r m a s mais populares d e M A C é a a c u p u n t u r a
s e r v e a u m a g r a n d e proporção d a população. O I n d i a n ( q u e a t u a l m e n t e é u s a d a e m , n o mínimo, 7 8 países
Medicine Central C o u n d l A r t de 1 9 7 0 criou u m Conse- e m t o d o o m u n d o ) .'^^
l h o C e n t r a l p a r a a m e d i c i n a aiurvédica, q u e e s t a b e l e -
ceu u m registro d e praticantes qualificados e supervisi-
o n a o treinamento dos novos. O conselho concede o M e d i c i n a não-convencional n a Europa e na Ásia
g r a u d e b a c h a r e l e m M e d i c i n a e C i r u r g i a Aiurvédica
após três a n o s d e e s t u d o , s e g u i d o s p o r u m a pós-gradu- N a E u r o p a , o s e t o r M A C d o s c u i d a d o s d e saúde
ação d e m a i s três a n o s . ' * ^ Porém, n o f i n a l d a década d e está a u m e n t a n d o r a p i d a m e n t e e m p o p u l a r i d a d e . E m
1 9 8 0 , s o m e n t e 1 2 % d o s p r a t i c a n t e s aiurvédicos h a v i - 1 9 8 1 , p o r e x e m p l o , c e r c a d e 6 , 4 % d a população d a
a m o b t i d o o d i p l o m a d e umá instituição d e e n s i n o r e - H o l a n d a h a v i a m c o n s u l t a d o u m t e r a p e u t a o u médi-
c o n h e c i d a , 5 4 % t i n h a m d i p l o m a s d e e s c o l a s não r e c o - c o q u e p r a t i c a v a a m e d i c i n a c o m p l e m e n t a r , número
n h e c i d a s e 3 3 % não t i n h a m n e n h u m a qualificação.'*^ q u e s u b i u p a r a 1 5 , 7 % e m 1 9 9 0 , e 4 7 % d o s médicos
U m processo semelhante ocorreu c o m a h o m e o p a t i a d e família' h o l a n d e s e s a g o r a u s a m u m a t e r a p i a c o m -
( q u e c h e g o u à índia e m 18'30)'*3 e q u e , d e s d e 1 9 7 3 , é p l e m e n t a r . ' * ^ N a A l e m a n h a , m i l h a r e s d e Heilpraktikers
supervisionada p o r u m Conselho Central d e (naturopatas que praticam a"cura pela natureza" ea
H o m e o p a t i a . E s t e recoiúieceu 2 0 0 . 0 0 0 p r a t i c a n t e s d e h i d r o t e r a p i a ) m u i t a s v e z e s também p r a t i c a m a a c u -
homeopatia e supervisiona 1 0 4 faculdades que minis- p i m t u r a , o h e r b a h s m o o u a quiropraxia.'*^ Esses n a t u -
t r a m c u r s o s d e graduação s o b r e o a s s u n t o . O s d i p l o - r o p a t a s são r e c o n h e c i d o s o f i c i a l m e n t e d e s d e 1 9 3 9 e ,
m a s d e pós-graduação são e m i t i d o s p e l o N a t i o n a l d e a c o r d o c o m Wirsing,'*® h a v i a c e r c a d e 7 . 0 0 0 d e l e s
I n s t i t u t e o f H o m e o p a t h y e m Calcutá, e há 1 3 0 a 1 5 0 a t u a n d o n a A l e m a n h a e m 1 9 9 6 . O a u t o r também e s -
h o s p i t a i s homeopáticos e 1 . 5 0 0 dispensários h o m e o - timou q u e h a v i a c e r c a d e 2 . 0 0 0 médicos p r a t i c a n d o
páticos n a índia, t o d o s a p o i a d o s p e l o g o v e r n o . O s a homeopatia e outros 1.000 praticando a medicina
h o m e o p a t a s s u p e r a m o s p r a t i c a n t e s aiurvédicos e m d i - "antroposófica", q u e b a s e i a - s e n o s e n s i n a m e n t o s d e
versos estados, e a h o m e o p a t i a é p a r t i c u l a r m e n t e d i - R u d o l f S t e i n e r . ' * ^ Além d i s s o , 7 7 % d a s clínicas d e d o r
f u n d i d a n o e s t a d o d e W e s t B e n g a l , m a s também e m n a A l e m a n h a u t i l i z a m agora a acupuntura.'** D e acor-
U t t a r Pradesh, Bihar, T a m i l N a d u e Kerala, e t e n d e a ser d o c o m a O M S , 9 0 % d a população alemã u s o u u m
m a i s p r e v a l e n t e e m áreas u r b a n a s d o q u e e m r u r a i s . ' * ^ "remédio n a t u r a l " e m a l g u m estágio d e s u a v i d a e ,
Srinavasan'''* observou, e m1 9 9 5 , que a medici- e n t r e 1 9 9 5 e 2 0 0 0 , o número d e médicos q u e r e c e b e -
n a aiurvédica e s t a v a p e r d e n d o p o p u l a r i d a d e p a r a a r a m t r e i n a m e n t o e s p e c i a l e m m e d i c i n a c o m remédi-
m e d i c i n a o c i d e n t a l (alopática) e m m u i t a s p a r t e s d o os n a t u r a i s quase d o b r o u , s u b i n d o p a r a 10.800.'*^
país. U m a p e s q u i s a e m t o d a a índia m o s t r o u q u e , Há a m p l a s variações e n t r e o s países e u r o p e u s a
e n q u a n t o 8 0 % d o s domitílios e m áreas u r b a n a s u s a - respeito d o r a m o preferido d amedicina alternativa.
v a m a m e d i c i n a alopática e s o m e n t e 4 % u s a v a m a De acordo c o m Fisher e Ward,'** e m b o r a a antroposo-
aiurvédica, n o s domicílios e m z o n a s r u r a i s , 7 5 % u s a - f i a s e j a p o p u l a r e m t o d o s o s países d e língua alemã,
v a m a alopática e 8 % a aiurvédica. I s s o a p l i c a v a - s e à a h o m e o p a t i a é p o p u l a r n a Bélgica ( c o m c e r c a d e
m a i o r i a d a s c l a s s e s s o c i a i s . A o contrário, n o S r i L a n k a , 5 0 % d a população c o n s u l t a n d o h o m e o p a t a s , o q u e
Srinavasan observou que a pohtica d ogoverno enco- aparentemente é am a i o r taxa n a Europa), a reflexolo-
r a j a v a f o r t e m e n t e a m e d i c i n a aiurvédica t r a d i c i o n a l , gia é p a r t i c u l a r m e n t e popular n a D i n a m a r c a ( 3 1 %
h a v e n d o a g o r a 1 3 . 0 0 0 médicos aiurvédicos ( 1 p o r d o s usuários d e M A C ) , a m a s s a g e m é p o p u l a r n a F i n -
1 . 4 0 0 h a b i t a n t e s ) , c o m p a r a d o s a o s 380.000 ( 1 p o r lândia, a c u r a e s p i r i h j a J é p o p u J a r n a H o l a n d a e , n a
2 . 2 0 0 h a b i t a n t e s ) n a índia.''^ França, a f o r m a m a i s p o p u l a r d e t e r a p i a c o m p l e m e n -

Medicina alternativa e complementar * N . d e R . T . N o o r i g i n a l , o t e r m o u t i l i z a d o é general practi-


tioner ( G P ) , q u e c o r r e s p o n d e , n o B r a s i l , p o r s u a formação
N a m a i o r i a d o s países o c i d e n t a i s , t u n a f o r m a e f o r m a d e a t u a r , m a i s a o médico d e família e c o m u n i d a d e
e s p e c i a l d e c u i d a d o s d e saúde - a m e d i c i n a a l t e r n a t i - do que a o "clmico geral".
C u l t u r a , saúde e doença 89
t a r é a h o m e o p a t i a , c u j a utilização s u b i u d e 1 6 % d a n a c i o n a l q u e m o s t r a q u e , d e 1 9 9 0 a 1 9 9 7 , o número
população e m 1 9 8 2 p a r a 3 6 % e m 1 9 9 2 . d e r e s p o n d e n t e s q u e u s o u n o mínimo u m a d a s 1 5
Fora d a E u r o p a , a OMS'*^ estima q u e 6 0 a 7 0 % terapias alternativas representativas durante t u n pe-
d o s médicos n o Japão também p r e s c r e v e m m e d i c i n a ríodo d e 1 2 m e s e s s u b i u d e 3 4 % p a r a 4 2 % . E l e s d e s -
kampo (remédios h e r b a i s t r a d i c i o n a i s ) , q u e 4 6 % d a t a c a m q u e o p l i u r a l i s m o médico n o s E s t a d o s U n i d o s é
população a u s t r a l i a n a já u s o u a l g u m a f o r m a d e M A C a g o r a u m f a t o , e não p o d e m a i s s e r o m i t i d o o u i g n o -
e q u e , n a Malásia, o u s o d a s f o r m a s t r a d i c i o n a i s d e r a d o p e l a profissão médica. Há a g o r a u m diálogo
medicina malaia, chinesa e indiana é c o m u m . D e emergente entre as medicinas convencional e alter-
m o d o geral, estes dados i n d i c a m q u e , m e s m o e m nativa, b e m c o m o u m reconhecimento crescente d a
países d e s e n v o l v i d o s e i n d u s t r i a l i z a d o s , u m a g r a n d e n o v a d i v e r s i d a d e c u l t u r a l , r e U g i o s a e étnica n o país,
proporção d a população p r e f e r e u s a r o u t r a s f o r m a s além d o p o d e r c r e s c e n t e d a e s c o l h a d o c o n s u m i d o r .
d e c u i d a d o s d e saúde - e m v e z d a b i o m e d i c i n a o u E m 1 9 9 1 , o National Institutes o f Health criou u m
além d e l a . Office o f A l t e m a t i v e Medicine ( O A M ) , e cerca d e 7 5
e s c o l a s médicas d o s E s t a d o s Urúdos o f e r e c e m a g o r a
cursos d e medicina a l t e r n a t i v a . K a p t c h u k e
M e d i c i n a nãoconvencional nos Estados Unidos Eisenberg^°'^i também f o r n e c e m u m a t a x o n o m i a útil
d a s práticas d e c u r a a l t e r n a t i v a s ("não-convencio-
Nos Estados Unidos, Eisenberg e colaboradores''' nais") n o sEstados Unidos:
e s t i m a r a m q u e , e m 1 9 9 0 , q u a s e u m a e m c a d a três
p e s s o a s u s o u a l g u m a f o r m a d e m e d i c i n a não-conven- • Sistemas médicos profissionalizados ou distintos,
cional, mais frequentemente para problemas lomba- c o m s u a s próprias t e o r i a s , práticas, instituições e
r e s ( 3 6 % ) , cefaléias ( 2 7 % ) , d o r crónica ( 2 6 % ) e cân- métodos d e t r e i n a m e n t o . E s t e s i n c l u e m o s pratí-
ceres o u t u m o r e s ( 2 4 % ) . O s t r a t a m e n t o s m a i s c o m i m s • cantes d e quiropraxia, acupuntura, homeopatia,
u s a d o s f o r a m a s técnicas d e r e l a x a m e n t o , a q u i r o - natturopatía, m a s s a g e m , b e m c o m o o s médicos d e
p r a x i a e a m a s s a g e m . N a m a i o r i a d o s casos ( 8 9 % ) , formação c o n v e n c i o n a l q u e também p r a t i c a m e s -
eles c o n s u l t a r a m estes praticantes s e m a r e c o m e n d a - ses s i s t e m a s d e c u r a .
ção d e s e u s médicos, e 7 2 % j a m a i s r e l a t a r a m o f a t o a • Práticas alternativas de dieta e estilo de vida ( t a m -
eles. D e m o d o geral, o s a u t o r e s e s t i m a r a m q u e o s bém c o n h e c i d a s c o m o s i s t e m a s d e "Reforma da
n o r t e - a m e r i c a n o s fizeram c e r c a d e 4 2 5 milhões d e Saúde Popular"), q u e i n c l u e m o m o v i m e n t o d e " a l i -
c o n s u l t a s a p r a t i c a n t e s não-convencionais e m 1 9 9 0 , m e n t o s saudáveis", o u s o d e m e g a v i t a m i n a s , s u -
u m d a d o q u e e x c e d e o número t o t a l d e c o n s u l t a s a p l e m e n t o s botânicos e n u t r i c i o n a i s e a q u e l e s q u e
t o d o s o s médicos d e c u i d a d o s primários d o s E s t a d o s s e g u e m u m a d i e t a macrobiótica, d e a l i m e n t o s o r -
U n i d o s ( 3 8 8 milhões). E m a i s , e l e s p a g a r a m " d e s e u gânicos o u v e g e t a r i a n a .
b o l s o " c e r c a d e 1 0 , 3 bilhões d e dólares p a r a e s s a s • Cura New Age ( N o v a E r a ) , u m a v a r i e d a d e díspar
t e r a p i a s , e m comparação c o m 1 2 , 8 bilhões p a g o s a d e crenças e práticas - m u i t a s originárias d e r e l i -
todo o cuidado hospitalar nos Estados Unidos. A m a i - giões o r i e n t a i s o u d o p a g a n i s m o - q u e frequen-
o r i a d o s usuários d e t e r a p i a s não-convencionais t i - t e m e n t e f o c a U z a m a s " e n e r g i a s " esotéricas, v i s a n -
n h a entre 2 5 e 4 9 anos, m a s provinha d etodos o s d o a t i n g i r u m eqtúlíbrio e n t r e e l a s . A q u i estão i n -
g r u p o s sociodemográficos. D e a c o r d o c o m a OMS,^° cluídas a s c o n s u l t a s c o m espíritos o u médiuns e a s
n o a n o 2 0 0 0 , 1 5 8 milhões d e a d u l t o s n o s E s t a d o s formas orientais d e cura como Reiki o u Qi-Dong,
Unidos usaram algum tipo demedicina complemen- além d o u s o d e c r i s t a i s d e c i u r a o u m a g n e t o s .
t a r , e 1 7 bilhões d e dólares f o r a m g a s t o s n e l a . A
• Intervenções psicológicas: a Cura pela Mente e a
acupuntura foi particularmente popular, c o m 12.000
medicina "Mente-Corpo" v a r i a m d a s f o r m a s m a i s
a c u p u n t i u r i s t a s l i c e n c i a d o s ; a prática d a a c u p u n t u r a
convencionais d epsicoterapia a o u s o d e visuali-
e r a l e g a l e m 3 8 e s t a d o s . ' ' ^ A O M S também e s t i m o u
zações o r i e n t a d a s , meditações, afirmações e
que cerca de 7 5 % das pessoas vivendo c o m H I V / A I D S
h i p n o t e r a p i a ; e l a s c o n c e n t r a m - s e n a noção d e q u e
e m S a nFrancisco u s a r a m a l g u m a f o r m a d e terapia
"a mente é a energia mais dominante para restau-
t r a d i c i o n a l o u a l t e r n a t i v a ( u m a proporção s e m e l h a n t e
r a r o b e m - e s t a r e m a n t e r a saúde" e q u e , p o r t a n t o ,
à d e L o n d r e s , I n g l a t e r r a , e à d a África d o Sul).^° A l -
a s emoções n e g a t i v a s p o d e m c a u s a r o u e x a c e r b a r ,
gumas das formas menos ortodoxas d e terapia usa-
doenças fisicas i m p o r t a n t e s .
d a s p a r a H I V / A I D S n o s E s t a d o s U n i d o s são d e s c r i t a s
• O s empreendimentos científicos não-normativos são
n o Capítulo 1 6 .
f o r m a s d e t r a t a m e n t o médico o u medicações, o u
K a p t c h u k e Eisenberg^^-^^ r e v i s a r a m o a u m e n t o f o r m a s d e diagnóstico, q u e não são v a l i d a d a s p e l o
constante d a medicina alternativa n o s Estados U n i - establishment científico, às q u a i s frequentemente r e -
d o s d e 1 8 0 0 até o s d i a s a t u a i s . E l e s c i t a m m n e s t u d o c o r r e m a q u e l e s c o m doenças g r a v e s c o m o o câncer
Cecil G. H e i m a n

t e r m i n a l . I n c l u e m i r i d o l o g i a , t r a t a m e n t o c o m "antí- m a l e p o p u l a r . E m 2 0 0 5 , o relatório World Health


n e o p l a s t o n s " , "análise d o s c a b e l o s " p a r a d e t e c t a r Statistics d a O M S ^ ^ i l u s t r o u a s a m p l a s variações n a
doenças e desequilíbrio d e n u t r i e n t e s e " t e r a p i a d e d i s p o n i b i l i d a d e d e médicos - b e m c o m o d e e n f e r m e i -
quelação" p a r a r e v e r t e r a doença arteriosclerótica. ros e parteiras - e m todo o m u n d o (Tabela 4.1). C o m
• A medicina não-convencional paroquial c o n s i s t e e m b a s e n o s d a d o s d e 1 9 9 7 a 2 0 0 3 , e s s e relatório m o s -
práticas folclóricas e s p e d f i c a s , c o m p r o f u n d a s raízes t r o u u m a variação considerável e n t r e o s países q u a n -
culturais e m certos grupos n o s Estados U n i d o s . E l a t o à d i s p o n i b i l i d a d e d e r e c u r s o s h u m a n o s médicos,
inclui o espiritismo entre osporto-riquenhos, o i n d o d e países c o m o U g a n d a , c o m 0 , 1 médicos p o r
curandeirismo entre osnorte-americanos de origem 1 0 . 0 0 0 h a b i t a n t e s , até países c o m o a índia c o m 5 , 9 ,
mexicana, o vodu entre os haitiano-americanos e China c o m 16,4, Reino U n i d o c o m 21,3, Estados Uni-
várias f o r m a s d e c u r a d o s n a t i v o s n o r t e - a m e r i c a - d o s c o m 2 7 , 9 e Federação R u s s a c o m 4 2 , 5 . U m a c o m -
n o s . Também estão induídas a q u i a m e d i c i n a f o l - paração d a s s e i s p r i n c i p a i s regiões d o m u n d o ( T a b e -
dórica indígena n o r t e - a m e r i c a n a ( a l g u m a s v e z e s d e l a 4 . 2 ) m o s t r a g r a f i c a m e n t e quão v a r i a d a e d e s i g u a l
regiões específicas, c o m o o s u l d o s A p p a l a c h e s ) e é a distribuição d o número d e médicos, e n f e r m e i r o s
muitas formas diferentes de cura espiritual e religi- e l e i t o s h o s p i t a l a r e s disponíveis p a r a a população
osa, c o m o o Christian Science e i m i a variedade d e d e s s a s d i f e r e n t e s regiões.^*
i g r e j a s p e n t e c o s t a i s e carismáticas. E s s e s d a d o s , porém, p r o v a v e l m e n t e s u p e r e s t i -
m a m o número d e médicos d e f a t o e n v o l v i d o s n o
cuidado direto d opaciente, pois m u i t o s deles traba-
O s e t o r profissional l h a m e m p e s q u i s a e administração, e não n a prática
dínica. Além d i s s o , a distribuição d e médicos não é
E s t e c o m p r e e n d e a s profissões d e c u r a o r g a n i - u n i f o r m e ; e m m u i t a s s o d e d a d e s não-industrializadas,
zadas, legalmente sancionadas, c o m o a m e d i c i n a ci- eles t e n d e m a agrupar-se nas cidades, o n d e as insta-
entífica o c i d e n t a l m o d e r n a , também c o n h e d d a c o m o lações são m e l h o r e s e a prática é m a i s l u c r a t i v a , d e i -
alopatia o u biomedicina. E l e i n d u i não s o m e n t e mé- x a n d o b o aparte d o c a m p o p a r a os setores i n f o r m a l e
d i c o s d e vários tipos e e s p e c i a l i d a d e s , m a s também p o p u l a r d e c u i d a d o s . E m Moçambique, e m 1 9 9 4 , p o r
a s profissões paramédicas r e c o n h e c i d a s , c o m o e n f e r - e x e m p l o , 5 2 % d o s médicos d o país e s t a v a m c o n c e n -
meiros, parteiras e fisioterapeutas. Todas as socieda- trados n a capital Maputo, enquanto am a i o r parte d o
d e s têm s u a própria etnomedicina - a q u e l a p a r t e d e restante trabalhava nas outras d d a d e s maiores.^^ E m
seu sistema cultural quetrata especificamente d ado- m u i t o s d e s s e s países, a proporção d e médicos t r a b a -
ença e d a c u r a ^ - e a b i o m e d i c i n a p o d e s e r c o n s i d e - lhando n o setor privado t e m a u m e n t a d o d e m o d o
rada a etnomedicina do m u n d o ocidental industriah- c o n s t a n t e , r e d u z i n d o a s s i m a i n d a m a i s o número d i s -
z a d o . C o m o t a l , e l a não a p e n a s o r i g i n a - s e d e s s a s o - ponível d e s s e s p r o f i s s i o n a i s p a r a f o r n e c e r c u i d a d o s
c i e d a d e , m a s também e x p r e s s a ( e c o n s t a n t e m e n t e d e saúde d e b a i x o c u s t o p e l o e s t a d o . N o Zimbabué,
ajuda a recriar) algumas dassuas premissas culturais e m 1 9 9 3 , p o r e x e m p l o , 6 6 % d o s médicos t r a b a l h a -
básicas, i n c l u s i v e s e u s m o d o s d e v e r o m u n d o , s u a s v a m n o setor privado, enquanto 5 9 %o faziam n a
h i e r a r q u i a s e organização s o d a l , papéis s e x u a i s e a t i - África d o S u l e 2 5 % e m P a p u a N o v a Guiné.^^ A práti-
t u d e s e m relação à doença e a o s o f r i m e n t o . c a médica p a r t i c u l a r a u m e n t o u m m t o e m M a l a w i e
N o último século, e s s a b i o m e d i c i n a o d d e n t a l d i - n a Tanzânia após alterações n a política d o g o v e r n o ,
fundiu-se para cobrir boa parte d o globo, de m o d o q u e enquanto e mUganda, Bennett^^ argumenta q u e o
agora elaé a forma dominante de cura encontrada e m a u m e n t o d e médicos p a r t i c u l a r e s " c r i o u u m a c u l t u r a
t o d o o m u n d o e , n a m a i o r i a d o s países, f o r m a a b a s e d o e m q u e o b o m a t e n d i m e n t o deve estar associado à
s e t o r p r o f i s s i o n a l . Porém, e m c e r t o s países, o s s i s t e m a s d i s p o n i b i l i d a d e d e injeções e o u t r a s d r o g a s , i n d e p e n -
médicos t r a d i c i o n a i s também p o d e m p r o f i s s i o n a l i z a r - dente d e ser clinicamente apropriado".
se e m c e r t a m e d i d a e , a s s i m , s e r e m c a p a z e s d e c o m p e - N a m a i o r i a d o s países, e s p e d a l m e n t e n o m u n -
t i r c o m a b i o m e d i d n a ; e x e m p l o s d i s s o são a s f a c u l d a - d o o d d e n t a l , o s p r a t i c a n t e s d a m e d i d n a científica
d e s d e m e d i c i n a aiurvédica e unãni n a índia, q u e r e - f o r m a m o único g r u p o d e a g e n t e s d e c u r a c u j a s p o s i -
c e b e m a p o i o g o v e r n a m e n t a l , e c u j o s g r a d u a d o s são r e - ções são d e f e n d i d a s p o r l e i . E l e s d e s f r u t a m d e status
g u l a r m e n t e c o n s u l t a d o s p o r milhões d e p e s s o a s . social mais elevado, renda m a i o r e direitos e obriga-
Éimportante compreender que, c o m todo o seu ções m a i s c l a r a m e n t e d e f i n i d o s d o q u e o s o u t r o s ti-
p o d e r e prestígio, a b i o m e d i d n a o c i d e n t a l f o r n e c e p o s d e a g e n t e s d e c u r a . E l e s têm o p o d e r d e i n t e r r o -
a p e n a s u m a p e q u e n a proporção d o s c u i d a d o s d e saú- gar e d e e x a m i n a r seus pacientes, prescrever trata-
de n a m a i o r parte d om u n d o . O srecursos h u m a n o s m e n t o s e medicações p o d e r o s o s e a l g u m a s v e z e s p e -
médicos f r e q u e n t e m e n t e são e s c a s s o s , c o m a m a i o r i a rigosos, b e m c o m o d eprivar certas pessoas d e s u a
d o s c u i d a d o s d e saúde o c o r r e n d o n o s s e t o r e s i n f o r - U b e r d a d e e d e confiná-las a h o s p i t a i s , c a s o s e j a m d i -
C u l t u r a , saúde e doença

Tabela 4.1
Relação de médicos, enfermeiros e parteiras com a população em países selecionados

País Médicos p o r 10.000 l i a b t t a n t e s E n f e r m e i r o s e p a r t e i r a s p o r 10.000 i i a b i t a n t e s

Malaui 0,1 2,6


Níger 0,3 2,7
Uganda 0,5 0,9
Afeganistão 1,9 2,2
índia 5,9 7,9
Jamaica 8,5 16,5
Filipinas 11,6 61,4
China 16,4 9,6
México 17,1 10,8
Japão 20,1 86,3
Reino Unido 21,3 54,0
Egito 22,2 26,5
Estados Unidos 27,9 97,2
Ucrânia 30,1 82,8
Grécia 33,5 73,0
Federação Russa 42,5 85,1
Organização Mundial de Saúde (2005).^

T a b e l a 4.2
Relação de médicos, enfermeiros e parteiras e leitos hospitalares com a população em diferentes regiões do mundo

Médicos |M>r Enfermeiros e parteiras Leitos hospitalares


Região 10.000 h a b i t a n t e s p o r 10.000 h a b i t a n t e s p o r 10.000 h a b i t a n t e s

África 1,8 8.8 ?*


Sudeste da Ásia 5,0 7,4 17,0
Leste do Mediterrâneo 10,1 13.7 13,0
Oeste do Pacífico 15,8 19.7 34,0
Américas 21,8 403 26,0
Europa 33,1 72,0 67,0
Organização Mundial de Saúde (2005).='^
*0s dados para leitos hospitalares na África não estão incluídos no relatório.

a g n o s t i c a d a s c o m o psicóticas o u c o n t a g i o s a s . N o h o s - s o c i e d a d e , p o i s o sistema médico ( o u s e t o r p r o f i s s i o -


pital, eles p o d e m c o n t r o l a r rigidamente a dieta, o n a l d o s c u i d a d o s d e saúde) não e x i s t e e m u m vácuo
c o m p o r t a m e n t o , padrões d e s o n o e medicações d e s o c i a l o u c u l t i u r a l . A o contrário, e l e é u m a expressão
s e u s p a c i e n t e s , p o d e n d o r e a l i z a r vários t e s t e s , c o m o e, e m c e r t a m e d i d a , u m m o d e l o e m m i n i a t u r a d o s
biópsias, r a i o s X o u punções v e n o s a s . E l e s também valores e d a estrutura social d a sociedade d a qual se
p o d e m rotular seus pacientes (algumas vezes p e r m a - o r i g i n a . A s s i m , d i f e r e n t e s tipos d e s o c i e d a d e p r o d u -
n e n t e m e n t e ) c o m o d o e n t e s , incuráveis, s i m u l a d o r e s , z e m d i f e r e n t e s tipos d e s i s t e m a s médicos e d i f e r e n -
hipocondríacos o u c o m o p l e n a m e n t e r e c u p e r a d o s - t e s a t i t u d e s e m relação à saúde e à doença, d e p e n -
u m rótulo q u e p o d e e n t r a r e m c o n f l i t o c o m a p e r s - d e n d o d e s u aideologia d o m i n a n t e - q u e r seja capi-
p e c t i v a d o p a c i e n t e . T a i s rótulos p o d e m t e r e f e i t o s talista, estatizada, sociaUsta o u c o m u n i s t a . U m a so-
i m p o r t a n t e s , t a n t o sociais ( c o n f i r m a n d o o paciente c i e d a d e p o d e c o n s i d e r a r o s c u i d a d o s d e saúde g r a -
n o p a p e l d e d o e n t e ) q u a n t o económicos ( i n f l u e n c i a n - tuitos ( o u relativamente baratos) como u m direito
d o o s p a g a m e n t o s d e seguro-saúde o u pensão). básico d o cidadão o u c o m o d i r e i t o básico a p e n a s d a s
pessoas pobres, o um u i t o idosas, e n q u a n t o o u t r a pode
v e r o s c u i d a d o s médicos c o m o u m a commodity a s e r
O sistema médico comprada somente p o raqueles que p o d e m pagar por
e l a . N e s t e último c a s o , a b u s c a d e l u c r o s n o s c u i d a -
C o m o já m e n c i o n a d o , o s i s t e m a d o m i n a n t e d e d o s d e saúde v a i e x c l u i r m u i t o s d e s s e s m e m b r o s m a i s
c u i d a d o s d e s a i i d e d e q u a l q u e r s o c i e d a d e não p o d e p o b r e s d a s o c i e d a d e q u e não p o s s u e m o s r e c u r s o s
ser estudado i s o l a d a m e n t e d e o u t r o s aspectos dessa p a r a p a g a r p o r e l e s . Q u a l q u e r q u e s e j a o tipo d e s o c i e -
C e c i l G. H e i m a n

d a d e , o s i s t e m a médico não s o m e n t e r e f l e t e e s s e s v a - d o s v a l o r e s básicos, d a i d e o l o g i a , d a organização


l o r e s e i d e o l o g i a s básicos, m a s , p o r s u a v e z , também política e d o s i s t e m a económico d a s o c i e d a d e d a q u a l
a j u d a a moldá-los e mantê-los.^' ele seorigina. Nesse sentido, o setor profissional dos
C o m o u m e x e m p l o d i s s o , o s críticos d o s s i s t e m a s c u i d a d o s d e saúde, c o m o o s o u t r o s d o i s s e t o r e s , está
médicos n o m u n d o o c i d e n t a l têm a p o n t a d o c o m o a sempre, e m certa medida, 'ligado à cultura".
organização i n t e r n a d o s e t o r p r o f i s s i o n a l r e f l e t e a l g u -
m a s d a s d e s i g u a l d a d e s básicas n e s s a s s o d e d a d e s , e s p e -
d a l m e n t e e m relação a o género, à c l a s s e s o d a l e à o r i - Comparação dos sistemas médicos
g e m étnica. D e n t r o d o s i s t e m a médico, a m a i o r i a d o s
médicos são h o m e n s ( e g e r a l m e n t e b r a n c o s ) e , c o m o P o d e - s e i l u s t r a r e s t e a s p e c t o d e Ugação à c u l t u -
n a sodedade geral, o c u p a m m u i t o mais cargos de pres- r a , n o c a s o d a m e d i c i n a o c i d e n t a l , p e l a comparação
tígio, p o d e r o s o s e m a i s b e m r e m u n e r a d o s d o q u e a s d o s s i s t e m a s médicos d e d i f e r e n t e s países o c i d e n t a i s
médicas m u l h e r e s e e n f e r m e i r a s . Além d i s s o , o p e s s o a l c o m níveis s e m e l h a n t e s d e d e s e n v o l v i m e n t o econó-
d e n t r o desse setor é a r r a n j a d o e mhierarquias seme- m i c o . O b v i a m e n t e , e s s e s países v a r i a m n o q u e d i z
l h a n t e s aos estratos sociais d a sociedade geral. A o l i d a r r e s p e i t o a o caráter p r i v a d o o u público d o s e t o r d o -
c o m a população, o s i s t e m a médico p o d e r e p r o d u z i r m i n a n t e d e a t e n d i m e n t o d e saúde, à distribuição d o s
m u i t o s dos preconceitos subjacentes da sodedade, b e m r e c u r s o s médicos, às características d o seguro-saúde
c o m o presunções c u l t u r a i s s o b r e o q u e c o n s t i t u i o b o m e a s s i m p o r d i a n t e , m a s s e u s s e t o r e s p r o f i s s i o n a i s são
e o m a u comportamento. Por exemplo, sugeriu-se que t o d o s e n r a i z a d o s n a m e s m a tradição d a m e d i c i n a c i -
o preconceito racial desempenha u m papel i m p o r t a n - entífica o c i d e n t a l , h a v e n d o considerável intercâmbio
te n a f o r m a c o m o algims padentes afro-caribenhos n o d e d a d o s médicos e técnicas e n t r e e l e s .
R e i n o U n i d o são dassifícados p e l o s p s i q u i a t r a s c o m o A p e s a r d a alegação d e i m i v e r s a l i d a d e d a m e d i -
' l o u c o s " , m e s m o q u a n d o há evidêndas d o contrário*" d n a o d d e n t a l , vários e s t u d o s têm i l u s t r a d o d i f e r e n -
( v e r Capítulo 1 0 ) . U m p r o c e s s o p a r e d d o o c o r r i a n a ças signifícatívas n o s tipos d e diagnóstico f o r n e c i d o
a n t i g a União Soviética, n a a t i t u d e d a p s i q u i a t r i a e s t a - e n o tratamento prescrito nos diferentes sistemas
t a l e m relação a o s d i s s i d e n t e s políticos.*^ médicos o c i d e n t a i s . P o r e x e m p l o , e m 1 9 8 4 , i m i a c o m -
O u t r a s críticas d o s i s t e m a médico o c i d e n t a l i n - paração d o s padrões d e prescrição d e c i n c o d i f e r e n -
c l u e m aquelas feitas por Illich,*^ q u e alega que a t e s países e u r o p e u s ( R e i n o U n i d o , A l e m a n h a , Itália,
m e d i d n a m o d e r n a d e alta tecnologia tomou-se cada França e E s p a n h a ) * ^ e n c o n t r o u variações m a r c a n t e s
v e z m a i s p e r i g o s a p a r a a saúde d a população a o r e - e n t r e e l e s - e q u e não p o d e r i a m s e r e x p l i c a d a s u n i c a -
d u z i r s u a a u t o n o m i a , tomá-la d e p e n d e n t e d a p r o f i s - m e n t e p e l a s d i s p a r i d a d e s n a saúde d e s u a s p o p u l a -
são médica e l e s a r s u a saúde p e l o s e f e i t o s c o l a t e r a i s ções. O e s t u d o e x a m i n o u a s 2 0 p r i n d p a i s c a t e g o r i a s
d e d r o g a s e intervenções cirúrgicas. Além d i s s o , o s i s - d i a g n o s t i c a s e o s 2 0 p r i n d p a i s tipos d e d r o g a s p r e s -
t e m a médico está e m u m a relação simbiótica c o m o s c r i t a s e m c a d a u m d e s s e s países. N o R e i n o U n i d o ,
f a b r i c a n t e s d o s p r o d u t o s farmacêuticos e e q u i p a m e n - por exemplo, o principal g m p o d e drogas prescrito
t o s médicos, e e s s a relação não n e c e s s a r i a m e n t e a t e n - f o i o d e t r a n q i i i h z a n t e s , hipnóticos e s e d a t i v o s ( 8 , 6 %
de o sinteresses d o paciente. d o número t o t a l d e prescrições), c o m p a r a d o c o m
C o m o U U c h , o u t r o s críticos d o s i s t e m a médico 6 , 8 % n a França, 6 , 0 % n a A l e m a n h a , 3 , 1 % n a Itália e
a l e g a m q u e a m e d i c i n a m o d e r n a , além d e c o n t r o l a r 2 , 0 % n a E s p a n h a . N o R e i n o U n i d o , as neuroses esta-
o s m i c r o r g a n i s m o s , também v i s a c o n t r o l a r o c o m p o r - v a m e n t r e o s diagnósticos m a i s c o m u n s ( 5 , 1 % d o
t a m e n t o d a população, e s p e d a l m e n t e p e l a " m e d i c a - número t o t a l d e diagnósticos f o r n e c i d o s ) , e m c o m -
lização" d o c o m p o r t a m e n t o d e s v i a n t e e d e m u i t o s paração c o m 4 , 1 % n a França, 3 , 2 % n a ItáUa e 1 , 7 %
estágios n o r m a i s d o c i c l o v i t a l h u m a n o . S t a c e y * ^ e n a E s p a n h a . E s s a s discrepâncias p o d e m r e p r e s e n t a r
o u t r o s s u g e r i r a m q u e e s t e fenómeno é p a r t i c u l a r m e n - não a p e n a s diferenças n a m o r b i d a d e e n t r e o s c i n c o
te evidente n o caso das m u l h e r e s , sobretudo d u r a n t e países, m a s também diferenças i m p o r t a n t e s n a n o -
a g r a v i d e z e o p a r t o ( v e r Capítulo 6 ) . E m a i s , b o a m e n c l a t u r a , n o s critérios diagnósticos e e m a t i t u d e s
p a r t e d a má saúde n a s o c i e d a d e o c i d e n t a l q u e p o d e culturais q u a n t o a c e r t o s tipos d e c o m p o r t a m e n t o e à
ser causada p o r o u t r o s fatores c o m o pobreza, desem- f o r m a c o m o eles d e v e r i a m ser m a n e j a d o s . O u t r o s es-
p r e g o , c r i s e s económicas, poluição o u perseguição é t u d o s , a l g u n s d o s q u a i s são d e s c r i t o s p o s t e r i o r m e n t e
f r e q u e n t e m e n t e i g n o r a d a p e l o s i s t e m a médico, p o i s n e s t e l i v r o , m o s t r a r a m diferenças e n t r e o s p s i q u i a -
s e u f o c o p r i n c i p a l está c a d a v e z m a i s v o l t a d o a o p a - tras do R e i n o U n i d o e dos Estados Unidos, b e m como
d e n t e individual ( o u m e s m o a o órgão i n d i v i d u a l ) e e n t r e o s p s i q u i a t r a s d o R e i n o U n i d o e d a França n o s
a o s f a t o r e s d e risco e m s e u próprio e s t i l o d e v i d a . * ' ' critérios q u e e l e s u s a m p a r a d i a g n o s t i c a r e t r a t a r a
A s s i m , p a r a c o m p r e e n d e r q u a l q u e r s i s t e m a mé- e s q u i z o f r e n i a ( v e r Capítulo 1 0 ) ; diferenças e n t r e R e i -
d i c o é i m p o r t a n t e s e m p r e considerá-lo n o contexto n o U n i d o , Canadá e E s t a d o s U n i d o s n a s t a x a s d e vá-
C u l t u r a , saúde e doença 93
r i a s c i r u r g i a s , i n c l u i n d o o s p a r t o s cesáreos ( v e r Capí- próprios v a l o r e s , c o n c e i t o s , t e o r i a s s o b r e doenças e
t u l o 1 5 ) ; e diferenças n o u s o médico d e spas e r e g r a s d e c o m p o r t a m e n t o , b e m c o m o organização e m
h i d r o t e r a p i a (la thermalisme) n a França e n a A l e m a - u m a h i e r a r q u i a d e papéis d e c u r a ; a s s i m , e s s e g r u p o
n h a ( o kur),^ m a s não e m países c o m o o R e i n o U n i - t e m aspectos culturais e sociais. E l e p o d e ser consi-
do o u o sEstados Unidos. derado - assim como osadvogados, arquitetos e en-
U m e x a m e m a i s a t e n t o d e s s a s diferenças n a c i o - g e n h e i r o s - c o m o u m a prq/issão. F o s t e r e A n d e r s o n * ^
n a i s n a percepção, n o diagnóstico, n a denominação e d e f i n e m u m a profissão c o m o s e n d o " u m g r u p o c o m
n o t r a t a m e n t o d a doença p o d e s u g e r i r a l g u n s d o s v a - base o u organizado e m t o m o d eu m corpo d e conhe-
l o r e s c u l t u r a i s s u b j a c e n t e s a t a i s diferenças. P o r e x e m - d m e n t o e s p e c i a l i z a d o ( o conteúdo) não a d q u i r i d o
p l o , P a y e r * ' ' e x a m i n o u o s s i s t e m a s médicos d o s E s t a - f a c i l m e n t e e q u e , n a s mãos d e p r a t i c a n t e s q u a l i f i c a -
d o s U n i d o s , d a França, d a A l e m a n h a e d o R e i n o U n i - d o s , a t e n d e a s n e c e s s i d a d e s d e clientes ( o u l h e p r e s t a
do. A a u t o r a descreveu a l g u m a s das categorias diag- serviços)". E l a também t e m u m a organização
n o s t i c a s q u e não p o s s u e m e q u i v a l e n t e s c l a r o s e m o u - corporativa d e p e s s o a s c o n c e i t u a i m e n t e i g u a i s , q u e
t r o s países, c o m o a crise de foie e a spasmophilia n a e x i s t e p a r a m a n t e r o controle s o b r e s e u c a m p o d e e x -
França, a Herzinsuffizienz e o Kreislaufkollaps n a A l e - periência, p r o m o v e r s e u s i n t e r e s s e s c o m u n s , m a n t e r
m a n h a , o u chilblains o u " p r o b l e m a s i n t e s t i n a i s " n o s e u monopóUo d e c o n h e c i m e n t o , e s t a b e l e c e r a s q u a -
R e i n o U n i d o . Além d i s s o , a o c o m p r e e n d e r e s s a s v a r i a - lificações e x i g i d a s p a r a a admissão ( c o m o a h a b i l i t a -
ções, e l a r e l a c i o n o u c e r t a s crenças e práticas médicas ção d e n o v o s médicos), p r o t e g e r s e u s m e m b r o s c o n -
c o m o s v a l o r e s c u l t u r a i s centrais e m cada l u n a dessas t r a a incursão e a concorrência d e o u t r o s e m o n i t o r a r
s o c i e d a d e s . N o s E s t a d o s U n i d o s , p o r e x e m p l o , e l a vê a competência e a ética d o s próprios m e m b r o s . E m -
u m a relação e n t r e a a l t a t a x a d e c i r u r g i a s d e r e v a s c u - bora seus integrantes sejam conceituaimente iguais,
larização c o r o n a r i a n a e o u t r o s t i p o s d e c i r u r g i a e a c o n - a profissão é a r r a n j a d a e m h i e r a r q u i a s d e c o n h e c i -
cepção n o r t e - a m e r i c a n a d o c o r p o c o m o u m a "máqui- m e n t o e p o d e r , c o m o a s posições d o s p r o f e s s o r e s , c o n -
n a " passível d e c o n s e r t o s , q u e p r e c i s a s e r r e p a r a d a e s u l t o r e s , r e s i d e n t e s sénior e júnior e i n t e r n o s n o R e i -
recalibrada periodicamente. Ela descreve a atitude do- n o U n i d o . A b a i x o d e l e s , estão o s p r o f i s s i o n a i s p a r a -
m i n a n t e d o s médicos d o s E s t a d o s U n i d o s c o m relação médicos: e n f e r m e i r o s , p a r t e i r a s , fisioterapeutas, tera-
a doenças c o m o i m i a a b o r d a g e m a g r e s s i v a e d o tipo p e u t a s o c u p a d o n a i s , a s s i s t e n t e s s o c i a i s médicos, e t c .
"deixa comigo, e u posso resolver", o que faz parte d o C a d a g r u p o paramédico t e m s e u próprio c o r p o d e
l e g a d o d o espírito d e f r o n t e i r a : " O s n o r t e - a m e r i c a n o s c o n h e c i m e n t o , c l i e n t e s , organização c o r p o r a t i v a e
não s o m e n t e q u e r e m fazer a l g o , e l e s q u e r e m fazê-lo c o n t r o l e s o b r e u m a área d e competência, m a s , d e
rápido e , s e não p u d e r e m , f r e q i i e n t e m e n t e f i c a m f r i i s - m o d o geral, t e m menos a u t o n o m i a e poder d o que
t r a d o s " . C o m o r e s u l t a d o , o s médicos d o s E s t a d o s U n i - o s médicos.
d o s f a z e m m a i s e x a m e s diagnósticos e r e a l i z a m m a i s O s próprios médicos estão d i v i d i d o s e m s u b -
c i r u r g i a s e m s e u s p a c i e n t e s d o q u e o s médicos d o s o u - profíssões e s p e c i a l i z a d a s q u e r e p r o d u z e m e m u m a
t r o s três países. D e a c o r d o c o m P a y e r , e l e s freqiiente- e s c a l a m e n o r a e s t r u t u r a d a profissão médica c o m o
m e n t e descartam o t r a t a m e n t o m e d i c a m e n t o s o e m fa- u m t o d o . E x e m p l o s d i s s o são o s cimrgiões, p e d i a t r a s ,
v o r d a c i r u r g i a m a i s agressiva e, se u s a m drogas, t e n - g i n e c o l o g i s t a s e p s i q u i a t r a s . C a d a u m t e m s u a pró-
d e m a e m p r e g a r doses m a i o r e s d o que seus colegas p r i a p e r s p e c t i v a e x c l u s i v a d a má saúde, s u a própria
e u r o p e t i s . E m p s i q u i a t r i a , p o r e x e m p l o , as d o s e s d e a l - área d e c o n h e c i m e n t o e s u a própria h i e r a r q u i a i n t e r -
g u m a s d r o g a s u s a d a s n o s E s t a d o s U n i d o s são até 1 0 n a , q u e v a i d o s e s p e c i a l i s t a s a o s n o v a t o s , hs e s p e c i a -
vezes maiores d o que as usadas e m outros lugares. A s l i d a d e s médicas v a r i a m e m status, d e p e n d e n d o s e l i -
razões p a r a e s t a s a b o r d a g e n s a o s c u i d a d o s médicos são d a m p r i m a r i a m e n t e d e doenças a g u d a s o u crôiúcas e
várias, i n c l u i n d o o s tipos d e p a g a m e n t o q u e o s médicos d a p a r t e d o c o r p o n a q u a l se e s p e c i a l i z a m . E m g e r a l ,
d o s E s t a d o s U n i d o s obtêm p o r s e u s serviços e a ameaça a q u e l e s q u e t r a t a m condições a g u d a s , c o m o c i r u r -
d e p r o c e s s o s p o r má prática c o n t r a e l e s . Porém, a s s i m giões o u i n t e m i s t a s , têm u m status m a i o r d o q u e a q u e -
c o m o o s médicos d o s três países e u r o p e u s , são o s v a l o - l e s q u e t r a t a m d e condições m a i s crónicas, c o m o
r e s ctdturais s u b j a c e n t e s d e s u a s o c i e d a d e q u e d e s e m p e - oncologistas, geriatras, psiquiatras e reumatologistas.
n h a m u m p a p e l n a determinação d a f o r m a c o m o a má I s t o é, o s médicos q u e p o d e m " c u r a r " têm u m status
saúde é d i a g n o s t i c a d a e então t r a t a d a . m a i o r d o que aqueles que p o d e m apenas "cuidar".
E n t r e o s cimrgiões, e x i s t e u m a h i e r a r q u i a d e status
que depende da parte d ocorpo que operam. Devido
A profissão médica a o m a i o r v a l o r simbóUco q u e n o s s a s o c i e d a d e dá a o
cérebro e a o coração, o s neurocimrgiões e dmrgiões
D e n t r o d o s i s t e m a médico, a q u e l e s q u e p r a t i - cardíacos têm u m status m u i t o m a i o r d o q u e , d i g a -
c a m a m e d i d n a f o r m a m u m g r u p o à parte, c o m seus mos, o sproctologistas o u ginecologistas.
C e c i l G. H e i m a n

P f i f f e r l i n g * ' e x a m i n o u a l g i u n a s d a s presimções contrário d o s s e t o r e s i n f o r m a l e p o p u l a r , a p e s s o a


e p r e m i s s a s s u b j a c e n t e s à profissão médica n o s E s t a - d o e n t e é s e p a r a d a d a s u a famíHa, d e s e u s a m i g o s e
d o s U n i d o s , q u e , s e g i m d o o a u t o r , é: d a c o m u n i d a d e e m u m m o m e n t o d e crise pessoal.
N o h o s p i t a l , e l a s o f r e u m ritual padroiúzado d e d e s -
1 . Centrada no médico - o médico, e não o p a c i e n t e , personalização ( v e r Capítulo 9 ) , s e n d o c o n v e r t i d a e m
define a n a t u r e z a e os limites d o p r o b l e m a do paci- u m "caso" n u m e r a d o e mu m a enfermaria cheia d e
e n t e ; o s diagnósticos e a s h a b i l i d a d e s i n t e l e c t u a i s e s t r a n h o s . A ênfase é e m s u a doença física, c o m p o u -
são m a i s v a l o r i z a d o s d o q u e a s h a b i h d a d e s d e c o - c a referência a o s e u a m b i e n t e doméstico, religião, r e -
municação; a s instalações d e c u i d a d o s d e saúde, l a c i o n a m e n t o s s o c i a i s o u status m o r a l , o u a o s i g n i f i -
c o m o o s consultórios médicos, f i - e q u e n t e m e n t e têm c a d o q u e e l a dá à s u a má saúde. A especialização
localização c o n v e n i e n t e p a r a o s médicos, f i c a n d o h o s p i t a l a r g a r a n t e q u e e l a seja classificada e coloca-
l o n g e d a s residências d o s s e u s p a c i e n t e s . d a e m d i f e r e n t e s e n f e r m a r i a s c o m b a s e n a idade ( a d u l -
2 . Orientada por especialistas - o s e s p e c i a l i s t a s , e não t o s , p e d i a t r i a , g e r i a t r i a ) , género ( h o m e n s , m u l h e r e s ) ,
o s g e n e r a l i s t a s , obtêm o m a i o r prestígio e a s m a i - condição (médica, cirúrgica o u o u t r a s ) , órgão ou sis-
ores recompensas. tema e n v o l v i d o ( p o r e x e m p l o , o t o r r i n o l a r i n g o l o g i a ,
3 . Orientada por credenciais - a q u e l e s c o m m a i o r e s o f t a l m o l o g i a , d e r m a t o l o g i a ) o u gravidade ( u n i d a d e
c r e d e n c i a i s p o d e m s u b i r n a h i e r a r q u i a médica e de t r a t a m e n t o i n t e n s i v o , d e p a r t a m e n t o s e salas d e
são t i d o s c o m o d e t e n t o r e s d e m a i o r h a b i l i d a d e emergência). P a c i e n t e s d o m e s m o s e x o , d a m e s m a
clínica e m a i o r c o n h e c i m e n t o . f a i x a etária e c o m doenças s e m e l h a n t e s freqiiente-
4 . Com base na memória - os f e i t o s d a memória ( s o - m e n t e c o m p a r t i l h a m u m a e n f e r m a r i a . T o d o s são d e s -
b r e f a t o s , c a s o s , d r o g a s , d e s c o b e r t a s n a área mé- tituídos d e m u i t a s d a s indicações d a i d e n t i d a d e s o -
d i c a ) são r e c o m p e n s a d o s c o m promoção e r e s p e i - cial e individualidade e uniformizados c o m pijamas,
to dos colegas. camisolas o urobes. Existe u m a perda d o controle
5 . Centrada em um só caso - a s decisões são t o m a d a s s o b r e o próprio c o r p o e s o b r e o próprio espaço, p r i -
vacidade, comportamento, dieta e uso d otempo. O s
e m c a d a c a s o d e l u n a doença, c o m b a s e e m d e s -
p a c i e n t e s são a f a s t a d o s d o a p o i o e m o c i o n a l contínuo
crições c u m u l a t i v a s d o s c a s o s c h m c o s prévios.
d a família e d a c o m u n i d a d e , ficando a o s c u i d a d o s d e
6 . Orientada por processos - a s avaliações d a h a b i l i -
t u n a equipe que eles p o d e m n u n c a ter visto antes.
d a d e clínica d o médico são f e i t a s p e l a m e d i d a d o
E m h o s p i t a i s , a relação d o s p r o f i s s i o n a i s d e saúde -
s e u i m p a c t o e m p r o c e s s o s biológicos quantificáveis
médicos, e n f e r m e i r o s e técnicos - c o m s e u s p a c i e n -
n o paciente ao longo do tempo (como u m a queda
t e s é e m g r a n d e p a r t e c a r a c t e r i z a d a p e l a distância,
n a pressão a r t e r i a l ) .
p e l a f o r m a l i d a d e , p e l a s c o n v e r s a s rápidas e , f r e q u e n -
Poderíamos a d i c i o n a r a e s s a l i s t a a ênfase a u - t e m e n t e , p e l o u s o d e jargão p r o f i s s i o n a l .
m e n t a d a n a tecnologia diagnostica, e m vez de nas ava- O s h o s p i t a i s têm s i d o c o n s i d e r a d o s p e l o s a n t r o -
Hações clínicas, e a influência c r e s c e n t e d o c o r p o r a t i - pólogos c o m o G o f f i n a n ' ' " c o m o " p e q u e n a s s o c i e d a -
v i s m o d e m u i t o s h o s p i t a i s d e t o d o o país e s u a s i m p l i - d e s " , c a d a u m a c o m s u a própria c u l t u r a e x c l u s i v a ,
cações p a r a o s c u i d a d o s d e saúde. M u i t o s d e s t e s p o n - s u a s próprias r e g r a s implícitas e explícitas d e c o m -
t o s estão a g o r a começando a s e a p l i c a r i g u a l m e n t e a o s p o r t a m e n t o , tradição, r i t u a i s , h i e r a r q u i a s e até m e s -
médicos e m países e u r o p e u s , c o m o o R e i n o U n i d o . m o s u a própria l i n g u a g e m . O s p a c i e n t e s e m u m a e n -
E m m u i t o s países i n d u s t r i a l i z a d o s , o s e t o r p r o - fermaria formam u m a "comunidade de sofrimento"
f i s s i o n a l também é c o m p o s t o d e médicos d e família temporária, l i g a d a p o r comiseração, f o f o c a s d a e n -
l o c a i s o u médicos d e família q u e , a o contrário d e m u i - f e r m a r i a e c o n v e r s a s s o b r e a s condições d o s o u t r o s .
t o s médicos q u e a t u a m e m h o s p i t a i s , c o m freqiiência Porém, e s s a c o m u n i d a d e não s e a s s e m e l h a o u s u b s t i -
têm raízes p r o f u n d a s e m u m a c o m u n i d a d e . E x i s t e a l - t u i a s c o m u n i d a d e s e m q u e e l e s v i v e m e , a o contrá-
g u m a semelhança e n t r e e s s e s médicos ( e e n f e r m e i - rio dos m e m b r o s dos grupos d eauto-ajuda, suas afli-
ros) e os c u r a n d e i r o s n o setor popular, p a r t i c u l a r m e n - ções não l h e s dão o d i r e i t o d e c u r a r o s o u t r o s , p e l o
t e , e m s u a f a m d l i a r i d a d e c o m a s condições l o c a i s e m e n o s não d e n t r o d o h o s p i t a l .
c o m o s a s p e c t o s s o c i a i s , f a m i l i a r e s e psicológicos d a O h o s p i t a l , c o m o o r e s t o d o s i s t e m a médico e m
má saúde, m e s m o q u e s u a c u r a t e n h a b a s e e m p r e - s i , não e x i s t e e m u m vácuo. E l e também é f o r t e m e n -
missas bastante diferentes. te i n f l u e n c i a d o pelos fatores c u l t u r a i s , sociais e eco-
nómicos, t a n t o e m nível l o c a l q u a n t o n a c i o n a l . E m -
bora o scomponentes d ohospital possam parecer
O hospital t m i v e r s a i s - médicos, e n f e r m e i r o s , e n f e r m a r i a s , c H -
rúcas, a v e n t a i s b r a n c o s , laboratórios, e q u i p a m e n t o s
N a m a i o r i a d o s países, a p r i n c i p a l e s t r u t u r a d e a l t a t e c n o l o g i a - e l e s são n a v e r d a d e b a s t a n t e d i -
i n s t i t u c i o n a l d a m e d i c i n a científica é o hospital. Ao f e r e n t e s e m países d i f e r e n t e s , e u m a a m p l a v a r i e d a -
C u l t u r a , saúde e doença 95
de d e "culturas d e h o s p i t a l " p o d e ser encontrada p o r administração, b u r o c r a c i a , t r a b a l h a d o r e s , e q u i p e
t o d o o m u n d o 7 ^ P o r e x e m p l o , o s h o s p i t a i s n a Améri- d e segurança, c a p e l a s e l o j a s , t u d o e m c o n j u n t o
ca d o N o r t e e n o n o r t e d a E u r o p a t e n d e m a ser m a i s c o m pacientes que f o r m a m u m a coletividade d e
s o c i a l m e n t e s e p a r a d o s d a s c o m u n i d a d e s às q u a i s e l e s cidadão involuntários e e m c o n s t a n t e mudança.
s e r v e m d o que e m o u t r a s partes d o m u n d o . C o m ex-
ceção d e a l g u m a s e n f e r m a r i a s pediátricas e obstétri- Q u a i s q u e r q u e s e j a m s u a s variações l o c a i s , e a
c a s , o s m e m b r o s d a família o u d a c o m u n i d a d e d o despeito d e c o m o é visto, o hospital permanece a ins-
paciente r a r a m e n t e p o d e m passar a noite c o m a pes- tituição m a i s d e s t a c a d a d a b i o m e d i d n a ( F i g u r a 4 . 2 ) .
s o a d o e n t e , alimentá-la, lavá-la e v e s t i - l a o u c o n t r i - E l e é, n o s t e r m o s d e K o r m e r , ' ' ^ u m " t e m p l o d a dên-
b u i r para seus cuidados d ee n f e r m a g e m . N a m a i o r i a c i a " . Porém, c o m s u a g r a n d e e q u i p e e b u r o c r a c i a e
d o s casos, s o m e n t e é p e r m i t i d o q u e v i s i t e m o p a c i e n - s u a s t e c n o l o g i a s avançadas d e diagnóstico e d e t r a t a -
t e e m horários rigidamente d e t e r m i n a d o s , s o b o o l h a r m e n t o , o s h o s p i t a i s m a i s m o d e m o s têm u m c u s t o
v i g i l a n t e d e e n f e r m e i r o s e médicos. E m oposição a operadonal cada vez mais alto. Nos Estados Unidos,
i s s o , e m m u i t a s p a r t e s d o s u l d a E u r o p a , d a Ásia e d a p o r e x e m p l o , o s h o s p i t a i s são o s m a i o r e s c o n s u m i d o -
África, o s U m i t e s e n t r e o h o s p i t a l e a c o m i m i d a d e são r e s d a v e r b a p a r a c u i d a d o s d e saúde, g a s t a n d o c e r c a
m u i t o m a i s d i f u s o s ; o s m e m b r o s d a família f i - e q i i e n - d e 1 . 0 0 0 dólares p o r n o r t e - a m e r i c a n o e m 1 9 9 0 ; q u a -
temente passam muitas horas e mt o m o d oleito d o s e u m q u a r t o d o orçamento h o s p i t a l a r é c o n s u m i d o
doente, lavando, a l i m e n t a n d o e c u i d a n d o das suas c o m gastos administrativos.^'* E m 1 9 6 0 , n o s Estados
n e c e s s i d a d e s íntimas. E m h o s p i t a i s n o s E s t a d o s U n i - Unidos, havia u m a d m i n i s t r a d o r para cada 3,17 paci-
d o s e n o n o r t e d a E i u r o p a , e s t e s papéis e m g e r a l são e n t e s , m a s , e m 1 9 9 0 , e s s e número h a v i a a u m e n t a d o
desempenhados exclusivamente pelos enfermeiros, p a r a u m paciente p a r a cada 1,43 administradores.^''
q u e f a z e m p a r t e d a quase-família temporária ( e n f e r - N o m u n d o e m d e s e n v o l v i m e n t o , p a r t i c u l a r m e n t e , es-
m e i r a = mãe, médico = p a i , p a c i e n t e = criança) d o s ses c u s t o s c r e s c e n t e s - e o f a t o d e q u e a m a i o r i a d o s
p r o f i s s i o n a i s d e saúde''^ d e s c r i t a n o Capítulo 6 . h o s p i t a i s d e g r a n d e p o r t e e a l t a t e c n o l o g i a estão s i t u -
Há várias f o r m a s d e v e r o h o s p i t a l e o s m u i t o s a d o s n a s d d a d e s , l o n g e d a s áreas r u r a i s o n d e a m a i o -
papéis q u e e l e d e s e m p e n h a e m d i f e r e n t e s países, c u l - ria d a s p e s s o a s v i v e ' ' ^ - l e v a r a m a u m a reavaliação d o
t u r a s e c o m u n i d a d e s . P o r e x e m p l o , além d e s e r u m p a p e l d o h o s p i t a l . U m a tendênda m o d e m a t e m s i d o o
l u g a r o n d e a doença é c u r a d a e o s o f r i m e n t o a l i v i a - d e s e n v o l v i m e n t o d e h o s p i t a i s d i s t r i t a i s m e n o r e s , ser-
d o , e l e também p o d e s e r v i s t o c o m o : v i n d o a u m a comunidade local, frequentemente e m
p a r c e r i a c o m u m a r e d e d e c u i d a d o s primários l o c a i s
1 . U m refúgio - o f e r e c e n d o a s i l o ( c o m o n a I d a d e d e saúde ( v e r Capímlo 1 8 ) , e n q u a n t o u m número
Média) p a r a a q u e l e s i n c a p a z e s d e l i d a r c o m o m e n o r de hospitais maiores, c o m habilidades espeda-
m u n d o e x t e r i o r d e v i d o à má saúde m e n t a l o u fi'si- H z a d a s e a l t a t e c n o l o g i a , são r e s e r v a d o s p a r a a s c o n -
c a o u à i d a d e avançada. dições m a i s g r a v e s . A p e s a r d e s s a mudança, a m a i o r i a
2 . U m a fábrica - u m a instituição i n d u s t r i a l q u e p r o - d o s r e c u r s o s médicos e m m u i t o s países a i n d a está c o n -
d u z pessoas "curadas" a partir d o m a t e r i a l b m t o centrada nos grandes hospitais metropolitanos, q u e
de "pessoas doentes". também são o s p r i n c i p a i s l o c a i s d a t e c n o l o g i a médica.
3 . U m negócio - o r i e n t a d o ( e s p e c i a l m e n t e n o s e t o r E x i s t e u m a a m p l a variação, porém, n o s núme-
privado, corporativo) para obter o maior lucro r o s d e l e i t o s h o s p i t a l a r e s disponíveis e m d i f e r e n t e s
possível a p a r t i r d o f o m e c i m e n t o d e c u i d a d o s d e regiões d o m u n d o , c o m o i l u s t r a d o p e l a publicação
saúde. World Health Statistics d e 2 0 0 5 , ^ 5 e m b o r a e s t a não
4 . U m templo - d e d i c a d o a u m a c o s m o l o g i a r e l i g i o - i n c l u a o s números d e l e i t o s h o s p i t a l a r e s n a África.
s a p a r t i c u l a r ( c o m o a m e d i c i n a aiurvédica) o u t r a - D e m o d o g e r a l , t a i s estatísticas d e l e i t o s h o s p i t a l a r e s
dição d e c u r a , o u a o p o d e r t r a n s c e n d e n t e d a c i - disponíveis p r o v a v e l m e n t e são e n g a n o s a s n o c a s o d e
ência s o b r e a s forças d a doença e d a m o r t e . a l g u n s países m a i s p o b r e s , o n d e a c a p a d d a d e h o s p i -
5 . U m a universidade - d e d i c a d a não s o m e n t e a o t r e i - t a l a r f r e q u e n t e m e n t e é forçada a e x p a n d i r - s e além
n a m e n t o d e médicos e e n f e r m e i r o s , m a s também d o s números d e l e i t o s disponíveis e a a c o m o d a r p a -
à instmção m o r a l d o s p a c i e n t e s , e n s i n a n d o - o s posí c i e n t e s e x t r a n o s c o r r e d o r e s , e m colchões o u c a d e i -
hoc c o m o s u a má saúde f o i o r e s u l t a d o lógico d e r a s , o u até m e s m o n o próprio chão.
u m e s t i l o d e v i d a prévio, e o q u e e l e s p o d e m f a z e r
p a r a e v i t a r q u e i s s o aconteça n o v a m e n t e .
6 . U m a prisão - p r o t e g e n d o a s o c i e d a d e a o c o n f i n a r A ascensão da tecnoh^a médica
aqueles considerados loucos, dissidentes o u m u i -
t o pouco convencionais, c o n t r a a v o n t a d e deles. A t e c n o l o g i a p o d e s e r v i s t a c o m o i m i a extensão
7 . U m a cidade - u m a metrópole e m m i n i a t u r a , c a d a d o s s e n t i d o s h u m a n o s e d e s u a s funções m o t o r a s e
e n f e r m a r i a s e n d o u m " d i s t r i t o " c o m s u a própria sensoriais. A s s i m c o m o M c C l u h a n ^ * descreveu a im'dia
n ^ r a 4 . 2 Com sua ênfase na tecnologia e no tratamento de doenças graves, o hospital é a principal instituição da medicina científica
moderna. (Fonte: EyeWire ® por Getty Images™.)

(rádio, televisão) c o m o "extensões" d o s i s t e m a n e r - de d o m i n a r e controlar o corpo, seus processos n a t u -


v o s o c e n t r a l e s u a s funções (audição, visão), b o a p a r t e r a i s e s u a s várias doenças. Porém, e m o u t r a s p a r t e s
d a t e c n o l o g i a médica também f o r n e c e m o d o s m a i s do m u n d o , am e s m a tecnologia o u equipamento pode
eficientes d e o l h a r e o u v i r o corpo h u m a n o e seus t e r significados m u i t o d i f e r e n t e s p a r a as pessoas q u e
processos internos. a u s a m , dependendo d ocontexto social e cultural.
E m t o d a s a s épocas e e m t o d a s a s s o c i e d a d e s , E m m u i t a s s o d e d a d e s não-industriaUzadas, p o r e x e m -
o s a g e n t e s d e c u r a s e m p r e fizeram u s o d e a l g u m a p l o , até m e s m o u m a s i m p l e s s e r i n g a é v i s t a p e l o
f o r m a de e q u i p a m e n t o - facas, talas, bisturis, sondas, "injecionista" e p o r seus cUentes (ver acima) c o m o
espátulas o u i t e n s m a i s mágicos, u s a d o s e m r i t u a i s . s e n d o , d e a l g u m m o d o , a própria corporificação d a
Porém, a m e d i c i n a o d d e n t a l m o d e m a d e s t a c a - s e p e l o ciênda médica o c i d e n t a l m o d e m a .
p a p e l prático e simbóUco c a d a v e z m a i s i m p o r t a n t e F o u c a u l t ' ^ d e s c r e v e u q u e , n a m e d i c i n a etu-opéia,
d e s e m p e n h a d o p e l a t e c n o l o g i a t a n t o n o diagnóstico o " o l h a r médico" d o fim d o século X V I I I começou a
quanto n o tratamento. Apesar do custo e da comple- c o n c e n t r a r - s e c a d a v e z m a i s e m e v e n t o s e alterações
x i d a d e c r e s c e n t e s d e s s a s máquinas, e s t e " i m p e r a t i v o dentro d o c o r p o d o p a c i e n t e . O médico c o n c e n t r a v a -
tecnológico" a i u n e n t a a c a d a a n o q u e p a s s a . s e m e n o s n o s s i n t o m a s s u b j e t i v o s e n o s s i n a i s visíveis
A s t e c n o l o g i a s médicas, c o m o s i s t e m a s c o m p l e - d o p a c i e n t e , " t e n d o começado a p e r c e b e r o q u e e s t a -
x o s d e design e ámção, não são a p e n a s o b j e t o s fi'sicos v a i m e d i a t a m e n t e atrás d a superfíde visível... e a
u s a d o s p a r a u m fim p a r t i c u l a r . E l a s também são p r o - m a p e a r a doença n a s p r o f u n d e z a s s e c r e t a s d o c o r p o " .
dutos culturais, que nos d i z e m algo sobre os valores I n d u b i t a v e l m e n t e , e s s a mudança f o i a u x i l i a d a a l g u -
s o c i a i s , económicos e históricos q u e o s p r o d u z i r a m m a s décadas d e p o i s p e l a invenção d e n o v o s e q u i p a -
e m u m d a d o m o m e n t o e e m u m d a d o l o c a l . E l a s têm m e n t o s diagnósticos. T e n n e r ^ * d e s c r e v e u c o m o e s t e
diversos significados para aqueles que asu s a m pro- p r o c e s s o - d o h u m i l d e estetoscópio d e L a e n n e c , e m
fissionalmente e p a r a o spacientes que p a s s a m a de- 1816, à descoberta do raio X por Roentgen, e m 1895,
p e n d e r delas. E mu mc o n t e x t o o c i d e n t a l , essa e à invenção d o e l e t r o c a r d i o g r a m a p o r H e r r i c k , e m
tecnologia expressa o desejo d a medicina m o d e m a 1 9 1 8 - l e v o u a u m a c a p a c i d a d e m a i o r d e localizar os
C u l t u r a , saúde e doença 97
p r o c e s s o s d e doença d e n t r o d o c o r p o . O s l o c a i s d e s a g e m à g e s t a n t e d e q u e s e u próprio c o r p o é m e r a -
patologia p a s s a r i a m a ser indicados c o m m a i o r acu- m e n t e u m a máquina d e f e i t u o s a - q u e p r e c i s a s e r c o n -
rácia d o q u e j a m a i s f o r a possível. E m b o r a d e g r a n d e t r o l a d a e d i r i g i d a p e l o s técnicos (médicos), e não p o r
b e n e f i c i o t a n t o p a r a o s p a c i e n t e s q u a n t o p a r a o s médi- ela m e s m a . Isso, p o r s u a v e z , p o d e t e r i m p o r t a n t e s
c o s , e s s e p r o c e s s o também c o n t r i b u i u p a r a u m e s t r e i - conseqiiências e m o c i o n a i s p a r a e l a . A p e s a r d e s s e p r o -
t a m e n t o d a visão médica - p a r a o r e d u c i o n i s m o , o cesso, B r o v m e r * ^ o b s e r v a q u e m u i t a s m u l h e r e s n o r -
d u a l i s m o m e n t e - c o r p o e a objetificação d o c o r p o , tão te-americanas continuam ambivalentes quanto a o
característicos d a p e r s p e c t i v a a t u a l s o b r e doença. v a l o r d a t e c n o l o g i a e m s u a s próprias gestações e p a r -
Também d e o u t r a s m a n e i r a s , a t e c n o l o g i a mé- t o s ( v e r Capítulo 6 ) .
dica a l t e r o u radicalmente nosso sentido d o corpo h u - E m termos d e tempo, algumas tecnologias p o -
m a n o . E l a teve i m p o r t a n t e s efeitos e m nossas per- d e m ampUar o intervalo entre o nascimento e a mor-
cepções d o c o r p o n o espaço e n o t e m p o . P o r e x e m - t e s o c i a i s e biológicos ( v e r Capítulo 9 ) . P o r e x e m p l o ,
p l o , u m r e s u l t a d o d a s t e c n o l o g i a s d e diagnóstico e o d e s e n v o l v i m e n t o d o u l t r a - s o m p a r a o diagnóstico
de suporte d e v i d a é c o n f u n d i r o s l i m i t e s d o corpo, pré-natal p o d e a j u d a r a c r i a r u m a i d e n t i d a d e s o c i a l
d i s s o l v e n d o a p e l e c o m o o v e r d a d e i r o l i m i t e d o self p a r a o f e t o - a o s o l h o s d e s e u s p a i s e médicos - m u i -
i n d i v i d u a l . ^ ' O r a i o X , a ressonância magnética ( R M ) , tos meses antes de seu parto real. Assim, o nascimen-
o ultra-som, a tomografia computadorizada (TC) e t o s o c i a l p o d e p r e c e d e r o n a s c i m e n t o biológico, r e -
d i s p o s i t i v o s d e f i b r a óptica avançados t o r n a r a m o vertendo a o r d e m n o r m a l dos eventos, o que, por sua
c o r p o m a i s " t r a n s p a r e n t e " . S e u i n t e r i o r ficou m a i s v i - v e z , t e m u m e f e i t o n o d e b a t e s o b r e o a b o r t o . Já n o
sível e , d e c e r t a f o r m a , e x t e r i o r . P o d e m o s a g o r a e x a - c u i d a d o a o s q u e estão m o r r e n d o , o s s i s t e m a s d e s u -
m i n a r nossa e s t r u t u r a i n t e r n a s e m q u a l q u e r necessi- porte d evida p o d e m estender o intervalo entre a
d a d e d e c o r t a r a p e l e . Além d i s s o , o u s o c r e s c e n t e d e m o r t e biológica ( c a d a v e z m a i s d e f i n i d a c o m o m o r t e
s i s t e m a s d e s u p o r t e d e v i d a , máquinas d e diáUse, e q u i - c e r e b r a l ) e a m o r t e s o c i a l ( a m o r t e final d a p e r s o n a -
p a m e n t o s d e monitoração e i n c u b a d o r a s - b e m c o m o l i d a d e ) . N e s t e e s t a d o c o m a t o s o , e até q u e o s i s t e m a
a s n o v a s t e c n o l o g i a s r e p r o d u t i v a s ( v e r Capítulo 6 ) - de s u p o r t e d e v i d a seja desUgado, o corpo p o d e ser
também p o d e m c o n t r i b u i r p a r a b o r r a r o s l i m i t e s e n - m a n t i d o p o r m e s e s o u m e s m o a n o s . Konner®^ a r g u -
t r e o self e o não-seZf. U n i d a s a o c o r p o , e s s a s máqui- m e n t a que, n o caso dos m u i t o idosos, isso p o d e criar
n a s p o d e m a j u d a r a c r i a r ciborgues temporários o u u m d i l e m a ético: e s t e n d e r a quantidade d e v i d a , m a s
p e r m a n e n t e s , t o m a n d o - s e , c o m e f e i t o , órgãos e x t e r - fireqúentemente a p e n a s às c u s t a s d a q u a U d a d e .
n o s (pulmões, coração, rins, e t c . ) e s t e n d e n d o o c o r - A s s i m , a t e c n o l o g i a médica m o d e m a t e m i m -
p o além d o s U m i t e s d a p e l e . C o m u m e n t e , e s s e p r o - p o r t a n t e s c u s t o s s o c i a i s e económicos p a r a a q u e l e s
c e s s o está U g a d o à metáfora m o d e m a d o c o r p o c o m o q u e a u t i U z a m . Além d i s s o , é c a d a v e z m a i s c a r o c o m -
u m a máquina, m a n t i d o saudável p e l a s c i m r g i a s d e prar, operar, m a n t e r e consertar o s aparelhos. E l a re-
reposição d e peças.''' O s e f e i t o s d e s t a dependência q u e r t r a b a l h o i n t e n s i v o e e x i g e técnicos e s p e c i a l m e n t e
d a máquina, e p a r t i c u l a r m e n t e d e s u a violação d o s t r e i n a d o s , funcionários d e manutenção, r e p a r a d o r e s
limites n o r m a i s d o corpo, f o r a m descritos d e f o r m a e supervisores, b e m c o mo u m suprimento constante
c o m o v e n t e p o r Kirmayer,^° n o c a s o d e u m p a c i e n t e d e e l e t r i c i d a d e e u m a f o n t e confiável d e peças d e r e -
d e hemodiáUse. A q u i , o p a c i e n t e t e m d e v e r s e u pró- posição. À m e d i d a q u e e s s a s máquinas t o m a m - s e m a i s
p r i o s a n g u e s a i n d o d e s e u c o r p o , v i a j a n d o através d e c o m p l e x a s e avançadas, a p o s s i b i U d a d e d e s e u m a u
t u b o s plásticos n a s p r o f u n d e z a s d a máquina. D e a l - f u n c i o n a m e n t o também a u m e n t a p r o p o r c i o n a l m e n -
g i m i m o d o , n e s t e s e r eletrônico, e l e é m i s t e r i o s a m e n t e t e . ^ E m a m b i e n t e s h o s p i t a l a r e s , essas t e c n o l o g i a s
"transformado", antes d e serdevolvido à privacida- c o m p l e x a s t o m a m o s p r o f i s s i o n a i s d e saúde c a d a v e z
de d o corpo. E m u m sentido, o corpo é virado d o mais dependentes d e pessoas d e fora, n o t a d a m e n t e a
a v e s s o ; a q u i l o q u e n o r m a l m e n t e está d e n t r o é a g o r a c o m u n i d a d e m u i t o b e m r e m u n e r a d a d e especiaUstas
c o l o c a d o p a r a f o r a . U m p r o c e s s o fisiológico p r i v a d o e e n g e n h e i r o s q u e a s c o n s e r t a m , mantêm e r e p a r a m .
e o c u l t o - a circulação d o s a n g u e - está a g o r a c o m - Q u a n d o i n t r o d u z i d a s e m q u a l q u e r a m b i e n t e clínico,
p l e t a m e n t e à m o s t r a p a r a a visão púbUca. O s U m i t e s a s máquinas f r e q u e n t e m e n t e d e m a n d a m g r a n d e s
e n t r e o selfe o não-seZ/não são m a i s tão c l a r o s c o m o ajustes n o c o m p o r t a m e n t o d a s pessoas e e m c o m o
e r a m antes. elas se r e l a c i o n a m u m a s c o m as o u t r a s . Por e x e m p l o ,
E m obstetrícia, D a v i s - F l o y d ^ * também n o t o u o s B a r l e y ^ ' * d e s c r e v e u a introdução d e máquinas d e
efeitos negativos desse processo. A a u t o r a a r g u m e n - t o m o g r a f i a c o m p u t a d o r i z a d a (TC) e m dois hospitais
t a q u e o s h o s p i t a i s d e obstetrícia n o s E s t a d o s U n i d o s de Massachusetts, Estados Unidos, e osproblemas que
t o m a r a m - s e fábricas d e a l t a t e c n o l o g i a , d e d i c a d a s à i s s o c a u s o u a o s r a d i o l o g i s t a s , técnicos e p a c i e n t e s .
produção e m m a s s a d e bebés p e r f e i t o s . N e s t e a m b i - A s p a n e s e a s f a l h a s técnicas e x i g i r a m n u m e r o s a s m u -
ente, o uso excessivo d atecnologia envia u m a m e n - danças s o c i a i s , c o m p o r t a m e n t a i s e psicológicas, i n -
C e c i l G. H e i m a n

c l u i n d o n o v o s r i t u a i s , superstições e m o d e l o s e x p l i - d i a g n o s t i c a v a m a doença c o m b a s e n o q u e o p a c i e n -
c a t i v o s p a r a a s p a n e s , d e m o d o a integrá-las n a v i d a t e l h e s c o n t a v a s o b r e o s s e u s s i n t o m a s ( a história) e
diária d o h o s p i t a l . n o s a c h a d o s d o e x a m e fisico, b e m c o m o n o s r e s u l t a -
N o s países m a i s p o b r e s , e m d e s e n v o l v i m e n t o , a dos d e certos testes q u e eles r e a l i z a v a m . P a r a fazer
aquisição d e s s a s t e c n o l o g i a s c a r a s p o d e t e r g r a n d e s u m diagnóstico c o m p l e t o , e l e s f r e q u e n t e m e n t e t a m -
i m p a c t o s n a política d e saúde púbUca. E l a p o d e f o r - bém a d i c i o n a v a m informações q u e h a v i a m c o l h i d o
çar u m r e d i r e c i o n a m e n t o d o s r e c u r s o s e s c a s s o s , i n i - s o b r e o e s t i l o d e v i d a d o p a c i e n t e , s u a famíUa e o r i -
cialmente alocados para a medicina preventiva d e g e m s o c i a l . N a m e d i c i n a contemporânea, porém, o
l o n g o p r a z o e promoção d a saúde, p a r a soluções d e p r o c e s s o d o diagnóstico c a d a v e z m a i s t e m s i d o d e s -
a l t a t e c n o l o g i a p a r a o s p r o b l e m a s s o c i a i s e d e saúde; v i a d o d e s s a coleção d e informações s u b j e t i v a s o u clíni-
de u m a a b o r d a g e m q u e baseia-se n a c o m u n i d a d e e cas ( c o l h i d a s a o o u v i r , o l h a r , t o c a r e s e n t i r ) e m d i r e -
u m s i s t e m a d e h o s p i t a i s d i s t r i t a i s ( v e r Capítulo 1 8 ) , ção a o u s o d e informações objetívas o u "paraclínicas"
utilizando tecnologias mais "apropriadas" e e m m e - ( c o l h i d a s p e l a s máquinas d e t e c n o l o g i a d i a g n o s t i c a ) .
n o r escala, p a r a u m foco n o c u i d a d o agudo, e m u m A s a n o r m a h d a d e s p o d e m agora ser detectadas p o r
h o s p i t a l m e t r o p o l i t a n o c a r o . A s s i m , e m países q u e e s s a s máquinas e m nível c e l u l a r , bioquímico o u até
não c o n s e g u e m f a z e r a manutenção e o s c o n s e r t o s m o l e c u l a r , m e s m o q u a n d o o s p a d e n t e s não têm n e -
d o s e q u i p a m e n t o s , essas t e c n o l o g i a s p o d e m ser c o m - n h u m s i n t o m a a n o r m a l n e m u m a sensação s u b j e t i v a
p l e t a m e n t e inapropriadas, m u i t a s vezes c r i a n d o de- de q u e possa h a v e r algo d e e r r a d o c o m eles. Isso le-
pendência d e g r a n d e s e m p r e s a s e s t r a n g e i r a s q u e p r o - v o u a u m a ampliação d a distânda ( e m a i o r e s p o s s i -
d u z e m o s a p a r e l h o s e o f e r e c e m serviços d e m a n u - b i l i d a d e s d e c o n f l i t o ) e n t r e a s definições médicas d e
tenção e reposição d e s u a s peças. p a t o l o g i a (disease} e a s definições s u b j e t i v a s d e p e r -
A t e c n o l o g i a d i a g n o s t i c a também l e v o u à c r i a - turbação (íHness) d o pacieme - u m p r o c e s s o d e s c r i t o
ção d e u m n o v o g r u p o d e " p a c i e n t e s " . São o s p r o d u - n o Capítulo 5 . E m a i s , o s médicos t r e i n a d o s p r i n c i -
tos d a t e c n o l o g i a , c o m o as fitas de p a p e l de e l e t r o c a r - p a l m e n t e p a r a d e t e c t a r a doença paraclínica p o d e m
diograma (ECG), os filmes d eraio X o u os impressos ser m e n o s c o m p e t e n t e s a o i n t e r p r e t a r e m as a p r e s e n -
d e e x a m e s d e s a n g u e . A l g u m a s v e z e s , e l e s são o f o c o tações clínicas c o m p l e x a s e mutáveis e n c o n t r a d a s n o s
d e m a i s atenção médica d o q u e o s p a c i e n t e s e m s i . pacientes d e verdade, n a vida real.^*Essa complexi-
P a r a a l g u n s p r o f i s s i o n a i s d e saúde, e s s e s " p a c i e n t e s d a d e é e m p a r t e d e v i d a a o f a t o d e q u e a mesma d o -
d e p a p e l " são tão i n t e r e s s a n t e s - o u m e s m o mais i n - ença paraclínica r e v e l a d a p e l a t e c n o l o g i a ( c o m o A I D S ,
t e r e s s a n t e s - d o q u e o s p a c i e n t e s e m s i . E l e s são m a i s câncer o u hipertensão) p o d e m a n i f e s t a r - s e p o r m e i o
fáceis d e i n t e r p r e t a r , c o n t r o l a r , q u a n t i f i c a r e m o n i t o r a r d e u m a série d e f o r m a s dínicas diferentes ( c o m o fra-
a o l o n g o d o t e m p o , não h a v e n d o risco d e q u e s e j a m q u e z a , d o r , e d e m a , cefaléia o u p e r d a d e a p e t i t e ) . Além
p o u c o c o o p e r a t i v o s . E l e s também estão l i v r e s d o s d i s s o , d i f e r e n t e s doenças p a r a c U n i c a s ( c o m o hérnia
a s p e c t o s ambíguos e imprevisíveis d a doença, c o m o d e h i a t o e doença a r t e r i a l c o r o n a r i a n a ) p o d e m a p r e -
a s crenças d e saúde c u l t u r a i s o u r e l i g i o s a s . E m m u i - s e n t a r - s e c o m q u a d r o s c h m c o s q u a s e idênticos ( c o m o
tos casos, n o e n t a n t o , o u s o excessivo crescente d a d o r torádca r e t r o e s t e m a l ) . A s s i m , p o r t o d a s e s s a s r a -
t e c n o l o g i a e m saúde t e m s i d o forçado a o s médicos, zões, o c o n h e c i m e n t o d e c o m o i n t e r p r e t a r t a n t o o s
e s p e c i a l m e n t e p e l o m e d o d e s e r e m a c u s a d o s d e má d a d o s clínicos quanto os paraclínicos é e s s e n d a l p a r a
prática médica. o diagnóstico b e m - s u c e d i d o , e m b o r a a ênfase e x c e s s i -
Hoje e m dia, e m m u i t o s hospitais-escola, a apre- v a n o s l i l t i m o s possa p r e j u d i c a r esse processo.
sentação e a discussão d e s s e s " p a c i e n t e s d e p a p e l " - P o r t a n t o , as m u i t a s t e c n o l o g i a s n o v a s d a m e d i -
o u d e s e u s e q u i v a l e n t e s eletrônicos - t o m a r a m - s e o c i n a têm a p r e s e n t a d o g r a n d e s i m p a c t o s , t a n t o p o s i t i -
método d e e n s i n o m a i s c o m u m p a r a e s t u d a n t e s d e vos quanto negativos, n a m a n e i r a como ela é pratica-
m e d i c i n a ( e de e n f e r m a g e m ) . Cada vez mais, os gran- d a . E l a s têm i n f l u e n d a d o a f o r m a c o m o o s médicos
d e s rounds, a s apresentações d e c a s o e a s sessões d e d i a g n o s t i c a m e t r a t a m a má saúde e a f o r m a c o m o
e n s i n o c o n c e n t r a m - s e e m slides, vídeos, f o t o g r a f i a s e l e s s e r e l a d o n a m c o m s e u s p a d e n t e s . E l a s também
o u gráficos f e i t o s n o c o m p u t a d o r s o b r e a condição p o d e m t e r contribuído, d e a l g u m m o d o , p a r a o
do paciente - e m vez d e e x a m i n a r o u questionar o d i s t a n d a m e n t o entre o s pacientes e os profissionais
próprio p a c i e n t e . ^ ^ d e saúde. E m 1 9 8 3 , u m e d i t o r i a l ^ n o Journal of the
U m e f e i t o final e p a r a d o x a l d a t e c n o l o g i a d i a g - American Medicai Association f o r m u l o u a s e g u i n t e
nostica é que, e m a l g i m s casos, ela p o d e t o m a r o d i - questão: "Será q u e a máquina t o m o u - s e o médico?"
agnóstico, o t r a t a m e n t o e a comunicação c o m o s p a - S u g e r i u - s e - e m u i t o s d e s d e então p a s s a r a m a c o n -
c i e n t e s mais difíceis.^* I s s o r e s u l t a d a mudança, n o - cordar - q u e isso estava, d e fato, acontecendo a o s
t a d a p o r F e i n s t e i n , ^ ' ^ n a f o r m a c o m o o s médicos f a - poucos (especialmente nos Estados Unidos) e q u e
z e m u m diagnóstico médico. N o p a s s a d o , o s médicos estava tendo u m efeito emocional i m p o r t a n t e sobre
C u l t u r a , saúde e doença

os pacientes. A m e n s a g e m q u e o paciente estava re- n o a u m e n t o d a e x p e c t a t i v a d e v i d a . N o s últimos a n o s ,


c e b e n d o a g o r a e r a a d e u m " s i s t e m a (médico) i m p e s - u m a insatisfação pública c r e s c e n t e s e r e f l e t i u e m u m
soal, d o m i n a d o pela tecnologia". E mais: " O fato d e a u m e n t o d a s q u e i x a s c o n t r a médicos, e m htígios e
q u e o s c u i d a d o s d e saúde f o r n e c i d o s p e l o s i s t e m a c a m p a n h a s d a mídia c o n t r a a c l a s s e médica e n a m a i o r
p o d e m ser m e l h o r a d o s c o m o r e s u l t a d o d a tecnologia p o p u l a r i d a d e d o s c u r a n d e i r o s não-médicos e a l t e r -
não t e m t a n t o i m p a c t o q u a n t o a m e n s a g e m s u t i l e nativos.
o c u l t a d e q u e a máquina t o m o u - s e o médico: o c o n - Há d i v e r s a s razões p a r a i s s o . P a r a d o x a l m e n t e ,
s e l h e i r o d e f i n i t i v o . O médico e s p e c i a l i s t a está s e a l g u m a s r e s u l t a m d o próprio s u c e s s o d a m e d i c i n a e m
metamorfoseando e m u m tecnocrata e h o m e m d e s i . N o último século, a m e d i c i n a e m g r a n d e p a r t e
negócios. O médico r e c u a p a r a trás d a máquina e s e e r r a d i c o u a s p r i n c i p a i s doenças i n f e c c i o s a s c a u s a d o -
t o m a u m a extensão d a máquina".^ r a s d e m o r t e n a m a i o r i a d o s países o c i d e n t a i s , c o m o
P o r t a n t o , n a b i o m e d i c i n a m o d e m a , a máquina varíola, d i f t e r i a , p o l i o m i e l i t e , tétano, s a r a m p o e m u i -
é a g o r a u m a p a r t e intrínseca d e q u a s e t o d a interação t a s infecções b a c t e r i a n a s . A m o r t a l i d a d e i n f a n t i l e
médico-paciente. A relação p r o f i s s i o n a l e n t r e médi- materna caiu, e a expectativa d evida a u m e n t o u .
co e paciente p o d e h o j e ser descrita c o m o : C o m o resultado, m a i s pessoas v i v e m agora p o r t e m -
p o s u f i c i e n t e p a r a s o f r e r d e doenças crónicas - u m a
Médico situação q u e T e n n e r ' ' ^ c h a m o u d e "vingança d o cró-
Paciente Máquina n i c o " . E s s a s doenças i n c l u e m d i a b e t e s , hipertensão,
a r t r i t e e doença d e P a r k i n s o n , b e m c o m o o u t r a s c o n -
Q u e r a máquina s e j a u s a d a p a r a diagnóstico ( T C , dições q u e , c o m o o câncer, são doenças d a v e l h i c e .
r a i o X ) , t r a t a m e n t o (máquinas d e diáUse o u a n e s t e s i a ) N a m a i o r i a d o s c a s o s , u m a c u r a rápida p a r a e s s a s
o u comunicação ( c o m p u t a d o r e s , t e l e f o n e s ) , e l a t o r - condições s i m p l e s m e n t e não é possível. A o contrá-
n o u - s e o símbolo p r o f i s s i o n a l c h a v e d a m e d i c i n a o c i - rio, e l a s e x i g e m u m m o d e l o d e cuidado p o r períodos
d e n t a l . Porém, e s s e p r o c e s s o p o d e t e r d o i s e f e i t o s prolongados. Isso, p o r sua vez, d e m a n d a u m a abor-
n e g a t i v o s s o b r e a relação médico-paciente: o d a g e m m a i s c o o p e r a t i v a a o s c u i d a d o s d e saúde, m u i -
o b s c u r e c i m e n t o d o s l i m i t e s e n t r e o médico e a má- t o d i f e r e n t e d a p e r s p e c t i v a a t u a l b a s t a n t e autoritária
q u i n a ( c o m o o JAMA s u g e r e ) e d a q u e l e s e n t r e o p a c i - d a " p a t o l o g i a " . N a s doenças crónicas c o m o o d i a b e -
e n t e e a máquina. N o último c a s o , o c o r p o d o p a c i e n - t e s , o s p a c i e n t e s d e v e m t o m a r - s e agentes de cura au-
te p o d e v i r a ser considerado cada vez m a i s e m ter- xiliares, m o n i t o r a n d o s u a própria condição e t r a t a n d o
m o s mecânicos, c o m o m e r a m e n t e u m t i p o d e "má- a s i m e s m o s e m i m i a b a s e diária, e m colaboração c o m
q u i n a m o l e " ( v e r Capítulo 2 ) , e a máquina e m s i c o m o o s p r o f i s s i o n a i s d e saúde.'^ I s s o a u m e n t a a n e c e s s i -
u m tipo de "paciente". Atualmente, e m algumas en- d a d e d e m a i o r educação d o p a c i e n t e ' ^ e d e u m m a i o r
f e r m a r i a s h o s p i t a l a r e s , o s p a c i e n t e s têm d e c o m p e t i r e n t e n d i m e n t o d a s s u a s n e c e s s i d a d e s , d e s u a s crenças
p e l a atenção c o m a s máquinas d e monitoração à b e i - s o b r e saúde e d a s r e a l i d a d e s d a s u a v i d a diária.
r a d o s e u l e i t o , e o s s e u s médicos p o d e m d a r m a i s A o m e s m o t e m p o , o s c u s t o s d o s c u i d a d o s médi-
atenção a e s s a s máquinas e a o q u e estão " d i z e n d o " c o s estão c r e s c e n d o d e v i d o a o s c u s t o s c a d a v e z m a i o -
d o q u e a o p a c i e n t e n o l e i t o à s u a íirente. D e t o d a s a s r e s d e h o s p i t a i s , t e c n o l o g i a , d r o g a s , b u r o c r a c i a s mé-
máquinas u s a d a s e m m e d i c i n a , porém, a m a i s p e r v a - d i c a s , salários d a s e q u i p e s , t r e i n a m e n t o , litígios e s e -
siva é indubitavelmente o computador - u m a situa- g u r o c o n t r a e r r o médico. F o i e s t i m a d o q u e , e m 2 0 0 2 ,
ção d e s c r i t a e m m a i s d e t a l h e s n o Capítulo 1 3 . o s g a s t o s e m saúde n o s E s t a d o s U n i d o s a u m e n t a r a m
A p e s a r d a s d e s v a n t a g e n s d e s t a n o v a situação, 9 , 3 % , a t i n g i n d o a e n o r m e c i f r a d e 1 , 6 trilhões d e
porém, o q u e K o e n i g ^ ' c h a m a d e " i m p e r a t i v o t e c n o - dólares.'^ N a m a i o r i a d a s s o c i e d a d e s , e s s e s c u s t o s
lógico" d a m e d i c i n a m o d e m a s o b r e v i v e , e s p e c i a l m e n - c r e s c e n t e s a g r a v a m o e f e i t o d a distribuição já d e s i -
te nas sociedades ocidentais. D e certa maneira, e l e g u a l d o s r e c u r s o s p a r a a saúde n a população, d i v i -
também p o d e t e r contribuído p a r a a c r i s e d a m e d i c i - dindo-a ainda mais entre aqueles que p o d e m pagar
n a contemporânea. p o r c u i d a d o s médicos p l e n o s e a q u e l e s q u e não p o -
d e m . ' " Além d i s s o , a ênfase e m p r o c e d i m e n t o s c u r a -
tivos m a i s caros, d ealto perfil - c o m o os transplantes
A "crise"na medicina ocidental d e coração - e não e m c a m p a n h a s d e promoção à
saúde m a i s b a r a t a s e p o r períodos m a i s l o n g o s p a r a
E m b o r a a b i o m e d i c i n a seja a ideologia d e c u r a p r e v e n i r a doença cardíaca e m p r i m e i r o l u g a r , e l e v a
d o m i n a n t e n o m i m d o , m u i t o s a c r e d i t a m q u e e l a está o s c u s t o s g e r a i s d o s i s t e m a médico.
e m crise - a o m e n o s n o m u n d o oddental.''^'^^''" Isso O s e f e i t o s iatrogênicos d a b i o m e d i c i n a são a g o r a
s e dá a p e s a r d e s e u s m u i t o s s u c e s s o s n a prevenção e a m p l a m e n t e c o n h e c i d o s p e l o público através d a mídia.
n o t r a t a m e n t o d e doenças, n o alívio d o s o f r i m e n t o e Além d a tragédia d a t a l i d o m i d a , m u i t o s o u t r o s e f e i t o s
Cecil G. H e i m a n

colaterais d edrogas f o r a m recentemente relatados, c i n a não p o d e m a i s s e r aceitável. P o r e s s a s razões, a


b e m c o m o u m a dependência c r e s c e n t e d e psicotrópi- m e d i c i n a d e v e t o m a r - s e u m a ciênda s o c i a l a p l i c a d a
c o s c o m prescrição médica e d e o u t r o s m e d i c a m e n - além d e s e r i m i a dênda médica a p U c a d a .
t o s . E m a m b i e n t e s h o s p i t a l a r e s , a s operações e o s p r o -
c e d i m e n t o s diagnósticos m a i s c o m p l e x o s a u m e n t a m
a g o r a o r i s c o d e compUcações e e f e i t o s c o l a t e r a i s i n - Alterações no p a p e l médico
desejáveis.^® E s t e s i n c l u e m a s infecções p o r bactérias
r e s i s t e n t e s a o s antibióticos ( q u e i n f e c t a m c e r c a d e 6 % O s médicos n o s s i s t e m a s d e m e d i c i n a o c i d e n t a l
de todos os pacientes hospitalizados n o s Estados U n i - estão p a s s a n d o p o r g r a n d e s mudanças e m t e r m o s d o s
dos)''® e m u i t o s o u t r o s e v e n t o s a d v e r s o s . U m e s t u d o s e u s papéis t r a d i c i o n a i s e d o q u e s e e s p e r a d e l e s .
detalhado''*''^ d e m a i s d e 3 0 . 0 0 0 registros hospitala- C o m o o u t r o s p r o f i s s i o n a i s d e saúde, e s p e r a - s e q u e
res e m N o v a York, e m 1 9 8 0 , m o s t r o u q u e , e m 3 , 7 % eles s e j a m competentes e m u m a a m p l a variedade d e
deles, o c o r r e r a m eventos adversos. Eles f o r a m causa- papéis, t a i s c o m o d e a d m i n i s t r a d o r , e d u c a d o r , e s p e -
d o s p r i n d p a k n e n t e p o r compHcações d e d r o g a s ( 1 9 % ) , d ^ s t a e m computadores, burocrata, empregado d o
infecções d e f e r i d a s ( 1 4 % ) e complicações técnicas g o v e m o ( o u d e u m a c o m p a n h i a d e s e g u r o médico),
( 1 3 % ) . Desses eventos adversos, 7 0 , 5 % d e r a m o r i g e m tecnólogo, e s c r i t o r , e s p e c i a l i s t a e m finanças, h o m e m
a u m a i n c a p a d d a d e d u r a n d o m e n o s d e seis meses, d e negócios, j u i z , e s p e c i a l i s t a e m ética, d e f e n s o r d o s
2 , 6 % ai m i a incapaddade permanente e 1 3 , 6 % à mor- p a c i e n t e s , a m i g o d a família e c o n f i d e n t e , além d o
te. O estudo e s t i m o u que, e n t r e o s 2 . 6 7 1 . 8 6 3 p a d e n - papel d ecurador. M u i t o s sentem que s u aa u t o n o m i a
tes q u e r e c e b e r a m a l t a d o s hospitais d e N o v a Y o r k e m clínica t e m s i d o r e d u z i d a p e l a s pressões c r e s c e n t e s
1 9 8 4 , d i u B n t e o período d o e s t u d o , h o u v e 9 8 . 6 0 9 e f e i - de burocracias govemamentais, companhias d e se-
t o s a d v e r s o s , 2 7 . 1 7 9 d e l e s e n v o l v e n d o negligência. g u r o , h o s p i t a i s , e s c o l a s d e m e d i c i n a e organizações
d e manutenção d a saúde ( H e a l t h M a i n t e n a n c e
O r g a n i z a t i o n s - H M O s ) . * * O s s u c e s s o s históricos d a
Doenças crónicas e r e s i s t e n t e s ciência médica, j u n t o c o m o d e c U n i o n a religião o r g a -
n i z a d a , também l e v a r a m a e x p e c t a t i v a s e x a g e r a d a s
E m t e r m o s d e t r a t a m e n t o , u m número c a d a v e z e m relação a o s médicos. M u i t a s v e z e s , e s p e r a - s e q u e
m a i o r d e doenças i n f e c c i o s a s não p o d e s e r c u r a d o eles sec o m p o r t e m c o m o "padres" seculares, e m seus
p e l a m e d i c i n a e p o r s u a s " b a l a s mágicas". E n t r e e l a s próprios " t e m p l o s d a dência",''^ m e s m o q u a n d o e l e s
estão a s doenças virais, c o m o H I V / A I D S , h e p a t i t e B e não p o s s u e m n e n h u m t r e i n a m e n t o p a s t o r a l p a r a fazê-
C , doença d e C r e u t z f e l d - J a c o b ( D C J ) e a l g i m i i a s f o r - l o . O u t r o a s p e c t o s o b r e a profissão médica é o d a
m a s d e i n f l u e n z a , a s doenças parasitárias, c o m o n o - sobrecarga de informações. D e a c o r d o c o m H a y n e s , ' ^
v a s c e p a s d e malária r e s i s t e n t e às d r o g a s e às d o e n - há a t u a l m e n t e m a i s d e 2 0 . 0 0 0 periódicos médicos e m
ças bacterianas, c o m o a t u b e r c u l o s e multírresistente, todo o m u n d o , os quais publicam u m total d e dois
r e s u l t a n d o d o u s o e x c e s s i v o d e antibióticos n o p a s s a - milhões d e a r t i g o s p o r a n o . ( S e e m p i l h a d o s u m s o b r e
d o , e o u t r a s bactérias r e s i s t e n t e s às d r o g a s . A difusão o outro, apilha teria 5 0 0 metros de altura.) Ele estima
rápida d o s a g e n t e s i n f e c c i o s o s o u s e u s v e t o r e s e m q u e l u n médico t e r i a d e d i g e r i r 1 9 a r t i g o s o r i g i n a i s
função d o t r a n s p o r t e aéreo e d o t u r i s m o d e m a s s a por dia d e m o d o a s e m a n t e r a t u a h z a d o e m s u a área.
também v e m p i o r a n d o e s s a situação. T o d o s e s s e s f a t o r e s s e s o m a m às g r a n d e s m u d a n -
N o p r e s e n t e , o c o n t r o l e d e doenças c o m o H I V / ças n o s i s t e m a médico contemporâneo, e m c o m o e l e é
A I D S e malária s o m e n t e p o d e s e r b e m - s u c e d i d o p e l a percebido e n opapel q u e eledesempenha e m qual-
alteração d o s padrões d o c o m p o r t a m e n t o h u m a n o q u e r situação d e p l u r a l i s m o e m c u i d a d o s d e saúde. S e
( v e r Capítulos 1 6 e 1 7 ) , e não p o r v a c i n a s o u d r o g a s o s críticos d a b i o m e d i c i n a estão c o r r e t o s e o s i s t e m a
a n t i m i c r o b i a n a s . Isso é e s p e d a l m e n t e relevante por- está e m c r i s e , então t u n p a r a d i g m a m u i t o d i f e r e n t e
q u e , n a m a i o r i a d a s s o c i e d a d e s i n d u s t r i a l i z a d a s , há p a r a a prática d a m e d i d n a será e x i g i d o n o f u t i u r o .
a g o r a u m a população d e p a c i e n t e s c a d a v e z m a i s
d i v e r s i f i c a d a , s o b r e t u d o e m áreas u r b a n a s . E s s a p o -
pulação i n c l u i t u r i s t a s , i m i g r a n t e s , e s t u d a n t e s e s t r a n -
geiros, trabalhadores expatriados e refugiados, b e m R E D E S TERAPÊUTICAS
c o m o o s s e g u i d o r e s d e d i f e r e n t e s c u l t o s , religiões e
estilos d e vida. Cada u m desses grupos frequente- E m qualquer sociedade, as pessoas q u e adoe-
m e n t e t e m s u a própria visão específica s o b r e saúde e c e m e q u e não m e l h o r a m c o m o a u t o t r a t a m e n t o f a -
doença e s o b r e c o m o e l a d e v e s e r t r a t a d a . A s s i m , e m z e m escolhas sobre q u e m consultar n o s setores i n -
s o d e d a d e s s o c i a l e c u l t u r a l m e n t e m i s t a s , u m único formal, popular o u profissional para obter mais aju-
m o d e l o inflexível d e educação e m saúde e b i o m e d i - d a . E s s a s e s c o l h a s são i n f l u e n c i a d a s p e l o c o n t e x t o e m
C u l t u r a , saúde e doença 101
q u e são f e i t a s , i n c l u s i v e p e l o s t i p o s d e auxílio r e a l - A s p e s s o a s d o e n t e s estão n o c e n t r o d e redes t e -
m e n t e disponível, p e l a n e c e s s i d a d e d e p a g a r p o r e s - rapêuticas, q u e estão c o n e c t a d a s a t o d o s o s três s e t o -
s e s serviços, p e l a s condições q u e o p a c i e n t e t e m p a r a r e s d o s i s t e m a d e c u i d a d o s d e saúde. O s c o n s e l h o s e
a r c a r c o m e s s a s d e s p e s a s e p e l o " M o d e l o Explanató- t r a t a m e n t o s p a s s a m a o l o n g o d a s ligações d e s s a r e d e ,
r i o " que a pessoa doente u s a para explicar a o r i g e m começando c o m o s c o n s e l h o s d e f a m i l i a r e s , a m i g o s ,
d a má saúde. E s s e m o d e l o , d e s c r i t o c o m p l e t a m e n t e v i z i n h o s e a m i g o s d e a m i g o s , m o v e n d o - s e então p a r a
n o Capítulo 5 , f o r n e c e explicações d a e t i o l o g i a , d o s os curandeiros populares sagrados o u seculares, o u
s i n t o m a s , d a s alterações fisiológicas, d a história n a - p a r a o s médicos. M e s m o após u m c o n s e l h o t e r s i d o
t u r a l e d o t r a t a m e n t o d a doença. N e s t a b a s e , o s p a c i - dado, ele p o d e ser discutido e avaliado pelas o u t r a s
e n t e s e s u a s famílias e s c o l h e m o q u e p a r e c e s e r a p a r t e s d a r e d e d o p a c i e n t e , à l u z d e s e u próprio c o -
fonte apropriada d econselhos e t r a t a m e n t o para a n h e c i m e n t o o u experiência. C o m o Stimson^°° n o t o u ,
condição. Doenças c o m o r e s f r i a d o s são t r a t a d a s p e - o t r a t a m e n t o d o médico fireqúentemente é a v a l i a d o
l o s p a r e n t e s , doenças s o b r e n a t u r a i s ( c o m o a " p o s - "à l u z d e s e u d e s e m p e n h o prévio, d a experiência q u e
sessão e s p i r i t u a l " ) , p e l o s c u r a n d e i r o s p o p u l a r e s s a - o u t r a s p e s s o a s tiveram c o m e l e e c o m p a r a d o c o m o
g r a d o s , e doenças n a t u r a i s , p e l o s médicos, e s p e c i a l - q u e a p e s s o a e s p e r a v a q u e o médico fizesse". D e s s e
m e n t e s e f o r e m m u i t o g r a v e s . S e , p o r e x e m p l o , a má m o d o , a s p e s s o a s d o e n t e s f a z e m e s c o l h a s , não s o -
saúde é atribuída à punição d i v i n a p o r i r n i a t r a n s - m e n t e e n t r e d i f e r e n t e s tipos d e a g e n t e d e c u r a ( p o -
gressão m o r a l , então, c o m o S n o w ^ ' * d e s t a c a , " r e z a e p u l a r , p r o f i s s i o n a l o u p o p u l a r ) , m a s também e n t r e
a r r e p e n d i m e n t o , não p e n i c i l i n a , c u r a m o p e c a d o " , diagnósticos e c o n s e l h o s q u e fazem sentido o u não
e m b o r a a m b o s p o s s a m ser u s a d o s s i m u l t a n e a m e n t e : p a r a e l e s . N o último c a s o , o r e s u l t a d o p o d e s e r a não-
u m médico p a r a t r a t a r o s s i n t o m a s fisicos e u m p a - adesão a o t r a t a m e n t o o u a p a s s a g e m p a r a o u t r o s e g -
dre o u curandeiro para tratar a causa. m e n t o d a r e d e terapêutica.
D e s s e m o d o , a s p e s s o a s d o e n t e s fireqúentemente
u s a m tipos diferentes d e a g e n t e s d e c u r a e p r o c e s s o s
d e c i u - a a o m e s m o t e m p o o u e m sequência. I s s o p o d e PLURALISMO NOS CUIDADOS
ser f e i t o c o m base n o p r a g m a t i s n o d e q u e " d u a s ( o u
m a i s ) cabeças p e n s a m m e l h o r d o q u e uma". P o r e x e m -
DE SAÚDE NO R E I N O UNIDO
p l o , Scott'® d e s c r e v e o c a s o d e u m a m u l h e r a f r o - a m e -
N o Reino Unido, como e m outras sodedades in-
ricana d a Carolina d oSul e que vivia e m M i a m i ,
d u s t r i a i s c o m p l e x a s , há u m a a m p l a v a r i e d a d e d e o p -
Flórida. A c r e d i t a n d o t e r s i d o enfeitiçada, e l a s e t r a -
ções terapêuticas disponíveis p a r a o alívio e a p r e -
t o u c o m óleo d e o l i v a e g o t a s d e t e r e b i n t i n a s o b r e
venção d o d e s c o n f o r t o fisico o u e m o d o n a l , s e n d o
c u b o s d e açúcar. A o v e r q u e i s s o não a l i v i a v a s e u s i n -
possível i d e n t i f i c a r o s s e t o r e s i n f o r m a l , p o p u l a r e p r o -
t o m a ( d o r a b d o m i n a l ) , e l a c o n s u l t o u d o i s "médicos
fissional d o s c u i d a d o s d e saúde. E s t a seção c o n c e n -
d e raízes" ( q u e l h e r e c e i t a r a m pós mágicos e v e l a s
tra-se p r i n d p a l m e n t e nos setores i n f o r m a l e popular.
p a r a a c e n d e r e fizeram r e z a s s o b r e e l a ) , u m a " m u -
O s e t o r p r o f i s s i o n a l já f o i e x a m i n a d o e m d e t a l h e s p o r
lher santificada" (que a massageou e r e z o u p o r ela) e
sociólogos médicos c o m o S t a c e y ^ " ^ e L e v i t t . ^ " ^ U m
dois hospitais locais para raios X e exames gastrin-
r e s u m o d o s três s e t o r e s d e c u i d a d o s d e saúde n o R e i -
t e s t i n a i s a f i m d e " d e s c o b r i r o q u e é q u e tinha lá e m -
n o U n i d o U u s t r a a a m p l a g a m a d e opções disponíveis
b a i x o " . E m i m i estágio, e l a e s t a v a s e g u i n d o o s c o n s e -
p a r a o m a n e j o d o infortúnio, i n c l u i n d o a má saúde.
l h o s d e t o d o s o s três c u r a n d e i r o s p o p u l a r e s s i m u l t a -
n e a m e n t e . C o m o Scott destaca, seus contatos c o m os
médicos não tinham propósitos c m r a t i v o s , m a s s i m
O s e t o r informal
d e " v e r i f i c a r a efetívidade d a t e r a p i a p o p u l a r " e m c a d a
estágio. C a d a u m d e s s e s a g e n t e s d e c u r a p o d e Os dois estudos por ElUott-Binns,^"^!'^ d e 1 9 7 0
r e d e f i n i r o p r o b l e m a d o p a c i e n t e e m s e u próprio i d i - e 1 9 8 5 , c i t a d o s a s e g u i r , estão e n t r e o s p o u c o s q u e
o m a , c o m o "úlcera péptica" o u "feitiçaria". E s t e u s o a b o r d a m e m d e t a l h e , a s r e d e s terapêuticas l e i g a s n o
simultâneo d e múltiplas f o r m a s d e t e r a p i a está t o r - R e i n o U n i d o . O u t r o s estudos c o n c e n t r a r a m - s e n o fe-
nando-se cada vez m a i s c o m u m nas sociedades mais nómeno d a automedicação. P o r e x e m p l o , n o g r a n d e
c o m p l e x a s , e s p e c i a l m e n t e n a presença d e doenças estudo d e Dunnell e Cartwright,!"^g m 1972, o uso
g r a v e s . M u i t a s p e s s o a s d i a g n o s t i c a d a s c o m câncer, p o r d a medicação a u t o p r e s c r i t a f o i d u a s v e z e s m a i s c o -
exemplo, t e n d e m a m u d a r seu c o m p o r t a m e n t o e suas m u m d o q u e o u s o d e remédios p r e s c r i t o s . A a u t o m e -
dietas, a u m e n t a r sua ingesta de vitaminas, rezar mais, dicação f o i m a i s c o m u m e n t e i n g e r i d a p o r f e b r e ,
unir-se a l u n grupo d e auto-ajuda e consultar curan- cefaléia, indigestão e d o r d e g a r g a n t a . E s s e s e o u t r o s
d e i r o s a l t e r n a t i v o s o u t r a d i c i o n a i s , ' ' além d o s e u t r a - sintomas foram comuns na amostra mas, embora 9 1 %
t a m e n t o biomédico. dos adultos t e n h a m relatado u m o umais sintomas
Cecil G. H e i m a n

a n o r m a i s n a s d u a s s e m a n a s prévias, s o m e n t e 1 6 % senvolvimento importante é descrito e mmais deta-


h a v i a m c o n s u l t a d o u m médico p o r e s s e m o t i v o . A l h e s n o Capítulo 1 3 .
automedicação f o i u s a d a f r e q u e n t e m e n t e c o m o u m a P o u c o s e s t u d o s s o b r e a eficácia r e a l d o s c u i d a -
a l t e r n a t i v a à c o n s u l t a c o m o médico, q u e e s p e r a v a m d o s i n f o r m a i s d e saúde f o r a m f e i t o s n o R e i n o Uiúdo.
q u e t r a t a s s e d e condições m a i s g r a v e s . A i d e i a d e u s a r Blaxter e P a t e r s o n , " " e mseu estudo d e 1 9 8 0 sobre
u m dado medicamento comercial autoprescrito veio mães d a c l a s s e operária e m A b e r d e e n , Escócia, c o n -
d e d i v e r s a s f o n t e s , i n c l u i n d o cônjuges ( 7 % ) , p a i s e cluíram q u e a s doenças i n f a n t i s c o m i m s ( c o m o i n f e c -
avós ( 1 8 % ) , o u t r o s p a r e n t e s ( 5 % ) , a m i g o s ( 1 3 % ) e ções n o o u v i d o ) e r a m frequentemente ignoradas se
médico ( 1 0 % ) . C i n q i i e n t a e s e t e p o r c e n t o d a a m o s - não i n t e r f e r i s s e m c o m o í^incionamento diário. P o -
t r a a c h a v a m o farmacêutico l o c a l u m a b o a f o n t e d e rém, e m o u t r o e s t u d o p o r P a t t i s o n e c o l a b o r a d o r e s ,
a c o n s e l h a m e n t o s d e saúde p a r a m u i t a s condições. os achados f o r a m b e m diferentes, m o s t r a n d o q u e a s
I s s o f o i c o n f i r m a d o p e l o e s t u d o d e Sharpe,^°* e m mães e r a m c a p a z e s d e r e c o n h e c e r a s doenças d o s s e u s
1 9 7 9 , d e u m a farmácia l o n d r i n a n a q u a l , e m u m p e - bebés e b u s c a r a j u d a médica, m e s m o c o m s e u p r i -
ríodo d e 1 0 d i a s , 7 2 p e d i d o s d e c o n s e l h o s f o r a m r e - meiro filho.
cebidos, especialmente p a r a p r o b l e m a s d epele, i n - N o R e i n o U n i d o , u m i m p o r t a n t e g r u p o d e indiví-
fecções respiratórias, p r o b l e m a s dentários, vómitos d u o s q u e f o r n e c e m c o n s e l h o s e c u i d a d o s d e saúde são
e diarreia. E m u m estudo anterior d e Jefferys e cola- a q u e l e s q u e s e p o d e r i a d e n o m i n a r trabalhadores vo-
b o r a d o r e s ^ " ' ' e m u m condomínio d a c l a s s e t r a b a l h a - luntários - frequentemente trabalhando para grupos
d o r a , d o i s terços d a s p e s s o a s e n t r e v i s t a d a s e s t a v a m d e a u t o - a j u d a ( v e r a d i a n t e ) o u p a r a várias o r g a n i z a -
t o m a n d o a l g u m a medicação a u t o p r e s c r i t a , m u i t a s ções d e c a r i d a d e ( c o m o o S t J o h n ' s A m b u l a n c e S e r v i c e ,
vezes e m conjunto c o m u m a droga prescrita. O s la- a Cruz Vermelha, osSamaritanos o u o Age Concem).
xantes e aspirinas e r a m o smais c o m u m e n t e prescri- N a m a i o r i a d o s c a s o s , e s t e s indivíduos r e c e b e m a l g u m
t o s . A a s p i r i n a e o u t r o s analgésicos e r a m u s a d o s p a r a t r e i n a m e n t o d a s organizações c o m a s q u a i s t r a b a l h a m .
muitos sintomas, incluindo "artrite e anemia, bron- Incluídos a q u i estão o número m u i t o g r a n d e d e conse-
q u i t e e d o r l o m b a r , distúrbios m e n s t r u a i s e s i n t o m a s lheiros a g o r a disponíveis - u m número q u e t e m a u -
d a m e n o p a u s a , crises d e n e r v o s e n e u r i t e , gripe e i n - m e n t a d o d e f o r m a c o n s t a n t e d e s d e a década d e 1 9 9 0 .
sónia, r e s f r i a d o e c a t a r r o e , é c l a r o , p a r a d o r e s d e D e a c o r d o c o m Ámason,"^ c e r c a d e 2 , 5 milhões d e
cabeça e r e u m a t i s m o " . pessoas n o R e i n o U n i d o u t i l i z a m agora as habilidades
O acúmulo e a t r o c a d e medicações, t a n t o d e de aconselhamento n o sentido mais a m p l o d a pala-
venda livre q u a n t o prescritas, é c o m u m n o Reino v r a , o q u e i n c l u i cerca d e 3 0 0 . 0 0 0 pessoas que t r a b a -
U n i d o . A spessoas q u e adoeceram algumas vezes l h a m c o m o c o n s e l h e i r o s voluntários ( m a i s 8 . 0 0 0 q u e
a g e m c o m o o q u e Hindmarch^"® c h a m o u d e "médi- r e c e b e m u m salário p e l o a c o n s e l h a m e n t o ) .
c o s p o r trás d o m u r o " , c o m p a r t i l h a n d o s u a s d r o g a s
prescritas c o m amigos, parentes o u vizinhos c o m sin-
tomas parecidos. W a r b u r t o n ^ " ' constatou q u e 6 8 % Grupos de auto-ajuda
dos adultos jovens e mseu estudo e mReading a d m i -
tiram t e r r e c e b i d o d r o g a s psicotrópicas d e a m i g o s o u U m componente i m p o r t a n t e d o setor i n f o r m a l
parentes. E m seu estudo d e 1 9 8 1 e m Leeds, H i n d - é a a m p l a v a r i e d a d e d e grupos de auto-ajuda q u e
m a r c h também v e r i f i c o u q u e u m a média d e 2 5 , 9 c o m - surgiram n oReino U n i d o desde a Segunda Guerra
p r i m i d o s o u cápsulas p r e s c r i t o s por pessoa e r a m g u a r - M u n d i a l . C o m o e moutras partes d osetor i n f o r m a l ,
dados pelas pessoas que v i v i a m e m u m a r u a selecio- a experiência d o s m e m b r o s , e não a educação, é i m -
n a d a . A s decisões d e t o m a r o u não a s d r o g a s p r e s c r i - p o r t a n t e , e s p e c i a l m e n t e a experiência c o m u m i n -
t a s também são p a r t e d a c u l t u r a d e saúde p o p u l a r , e fortúnio específico. O número t o t a l d e m e m b r o s
a avahação l e i g a d a d r o g a c o m o " f a z e n d o s e n t i d o " d e s s e s g r u p o s não é c o n h e c i d o , e m b o r a s e j a m m i -
o u não p o d e , c o m o S t u n s o n ^ " " s u g e r e , i n f l u e n c i a r a l h a r e s . U m website, Self Help UíC,"^ l i s t a m a i s d e
não-adesão. A t a x a d e s t e fenómeno f o i e s t i m a d a p o r 1.000 grupos denominados genericamente como d e
ele e m 3 0 % o u mais. "auto-ajuda" n oReino U n i d o o uIrlanda, e n q u a n t o
O segundo e s t u d o d e Elliot-Binns, e m 1985,1°^ o u t r o , Patient L / X , " ' ' l i s t a 1 . 9 6 8 g r u p o s d e a u t o - a j u -
m o s t r o u u m uso crescente d efontes impessoais d e d a o u d e a p o i o a o paciente. D e m o d o geral, esses
c o n s e l h o s e informações d e saúde ( l i v r o s , r e v i s t a s e g r u p o s p o d e m s e r c l a s s i f i c a d o s c o m b a s e n a razão
mídia). D e s d e então, porém, o u t r a f o n t e i m p e s s o a l p e l a q u a l aspessoas se u n e m a eles:
d e c o n s e l h o s médicos - a internet - t e m d e s e m p e -
n h a d o u m papel cada v e z m a i o r n a vida das pessoas 1 . Problemas físicos ( M i g r a i n e T r u s t , N a t i o n a l B a c k
e n a f o r m a c o m o elas c o m p r e e n d e m e l i d a m c o m sua P a i n A s s o c i a t i o n , Guillain-Barré S 5 m d r o m e S u -
própria doença/saúde e a d e s u a s famílias. E s t e d e - pport Group).
C u l t u r a , saúde e doença 103
2 . Problemas emocionais ( N a t i o n a l P h o b i c s S o c i e t y , enquanto oito e r a m compostos principalmente por
Schizophrenia Association o fGreat Britain). familiares desses doentes. A l g u n s g m p o s se sobrepu-
3 . Parentes d e p e s s o a s c o m p r o b l e m a s físicos, e m o - n h a m a o setor profissional, c o m o a Psoriasis Society;
c i o n a i s o u d e dependência ( A s s o c i a t i o n o f P a r e n t s seus 4 . 0 0 0 m e m b r o s i n c l u e m pacientes e seus f a m i -
of Vaccine D a m a g e d Children, A l - A n o n , N a t i o n a l H a r e s , médicos, e n f e r m e i r o s e c o m p a n h i a s cosméti-
Council for Carers a n d their Elderly Parents, c a s e farmacêuticas."'' O u t r o s g m p o s são h o s t i s à m e -
Families A n o n y m o u s ) . d i c i n a o r t o d o x a e p o s s u e m u m caráter antíburocrático
4 . Problemas de família ( F a m i l y W e l f a r e A s s o c i a t i o n , e antiprofissional.
Parentline Plus). R o b i n s o n e Henry"® c i t a m várias razões p a r a o
5 . Problemas de dependência (Alcoólicos Anónimos, crescimento desses g m p o s n o setor i n f o r m a l , i n c l u i n -
J o g a d o r e s Anónimos, S e x a h o l i c s A n o n y m o u s " ) . d o a f a l h a p e r c e b i d a d o s serviços médicos e s o c i a i s
6 . Problemas sociais, i n c l u i n d o : existentes e m atender as necessidades das pessoas, o
a ) Não-conformidade sexual ( L e s b i a n a n d G a y r e c o n h e c i m e n t o p e l o s m e m b r o s d o v a l o r d a a j u d a mú-
Foundation, Lesbian Line, G a y Switchboards); t u a e o p a p e l d a mídia e m t o m a r pública a dimensão
b ) Famílias de pais solteiros ( F a m i l i e s N e e d F a t h e r s , dos p r o b l e m a s c o m p a r t i l h a d o s n a c o m u n i d a d e . O u -
Gingerbread, Single Parent Action N e t w o r k ) ; t r a s razões p o d e m s e r a n o s t a l g i a d a c o m u n i d a d e ( e s -
c^ Mudanças de vida ( P r e - r e t i r e m e n t A s s o c i a t i o n , p e c i a l m e n t e a c o m u n i d a d e d e c u i d a d o s d a famíUa
National Association o f Widows); estendida) e m u m m u n d o impessoal e industriaUza-
d ) Isolamento social ( M e e t - a - M u m A s s o c i a t i o n , d o , c o m o u m m e c a n i s m o p a r a l i d a r c o m condições
Carers U K ) . e s t i g m a t i z a d a s o u um status s o c i a l m a r g i n a l e c o m o
7 . Grupos de mulheres ( W o m a n ' s H e a l t h C o n c e m , m n m o d o d e e x p U c a r e l i d a r c o m o infortúnio d e u m
g m p o s d e a m p a r o a casos d e estupro o u R a p e modo mais personaUzado."'
Crisis, M o t h e f s U n i o n ) .
8 . M i n o r i a s étnicas ( E t h i o p i a n H e a l t h S u p p o r t
N e t w o r k , Cypriot Advisory Service, A s i a n People's O s e t o r popular
Disability Alliance, Organization o fBlind African
Caribbeans). N o R e i n o U n i d o , c o m o e m outras sociedades oci-
dentais, este setor é r e l a t i v a m e n t e p e q u e n o e p o u c o
A maioria dos grupos d e auto-ajuda tem, como defiiúdo. E m b o r a a i n d a e x i s t a m c u r a n d e i r o s p e l a fé,
observa Levy,"^ u m o u mais d o s seguintes objetivos c i g a n o s q u e lêem a s o r t e , c l a r i v i d e n t e s , médiuns,
o u atividades: h e r b a l i s t a s e " m u U i e r e s sábias" l o c a i s e m m u i t a s áre-
a s r u r a i s , a s f o r m a s d e diagnóstico e c u r a caracterís-
• informações e e n c a m i n h a m e n t o ; t i c a s d o s e t o r p o p u l a r são m a i s p r o v a v e l m e n t e e n -
• aconselhamento; c o n t r a d a s n a s áreas u r b a n a s , s o b r e m d o n a m e d i c i n a
• educação púbUca e p r o f i s s i o n a l ; a l t e m a t i v a o ucomplementar. Todas as estimativas d o
• a t i v i d a d e política e s o c i a l ; número t o t a l d e c o n s u l t a s p o r a n o c o m p r a t i c a n t e s
• l e v a n t a m e n t o d e f u n d o s p a r a p e s q u i s a o u serviços; d e M A C c o n c o r d a m q u e o número está s u b i n d o d e
• provisão d e serviços terapêuticos, s o b orientação modo c o n s t a n t e . U m esmdo, e m 1981, estimou
profissional; e s s a s c o n s u l t a s e m 1 1 , 7 a 1 5 , 4 milhões p o r a n o , c a l -
• a t i v i d a d e s d e s u p o r t e mútuo e m g m p o s p e q u e n o s . c u l a n d o q u e c e r c a d e 1 , 5 milhões d e p e s s o a s ( 2 , 5 %
d a população t o t a l d o R e i n o U n i d o ) r e c e b e r a m a l g u -
M u i t o s g m p o s são " c o m u n i d a d e s d o s o f r i m e n - m a f o r m a d e t e r a p i a não-convencional d u r a n t e o c u r -
t o " , e m q u e a experiência d e u m t i p o d e p r o b l e m a s o d e u m a n o , e m comparação c o m o s 7 2 % d a p o p u -
e m o c i o n a l d e infortúnio é a c r e d e n c i a l p a r a o i n g r e s - lação q u e c o n s u l t a r a m s e u médico d e família d u r a n t e
s o n o g r u p o . P o r e x e m p l o , o website d a National u m ano.^^° D a s p e s s o a s q u e c o n s u l t a r a m c o m p r a t i -
Phobics Society d e c l a r a : " A c r e d i t a m o s q u e a q u e l e s q u e c a n t e s d e M A C , 3 3 % a o m e s m o t e m p o também e s t a -
s o f r e r a m distúrbios d e a n s i e d a d e estão m a i s b e m v a m r e c e b e n d o t r a t a m e n t o d e s e u s médicos.^^" C o m o
posicionados p a r a f o m e c e r apoio para o u t r o s sofre- n a s s o c i e d a d e s não-ocidentais, m u i t o s p r a t i c a n t e s d e
d o r e s , p o i s são c a p a z e s d e c o m p r e e n d e r v e r d a d e i r a - M A C o b j e t i v a m u m a visão holística d o p a c i e n t e , q u e
m e n t e o i m p a c t o q u e e s s a s condições têm n a s v i d a s i n c l u i a s dimensões psicológicas, s o c i a i s , m o r a i s e fi'-
das pessoas"."* N o estudo d e Levy,"^ e m 1 9 8 2 , d e s i c a s , b e m c o m o u m a ênfase n a saúde c o m o equilí-
7 1 g m p o s d e a u t o - a j u d a , 4 1 t i n h a m inscrições r e s e r - brio. Por exemplo, u mpanfleto d o National Institute
v a d a s a p e s s o a s q u e s o f r i a m d e u m a d a d a condição. of M e d i c a i Herbalists^^^ m e n c i o n a : " O praticante
h e r b a l c o n s i d e r a a doença c o m o u m distúrbio d o e q u i -
' N . d e R.T. E q u i v a l e n t e a o s g r u p o s d e dependentes sexuais. líbrio fisiológico e m e n t a l / e m o c i o n a l q u e c o r r e s p o n d e
104 C e c i l G. H e i m a n

a o e s t a d o d e b o a saúde e , c o n h e c e n d o a s forças d e primeira vez n a A l e m a n h a , por S a m u e l H a h n e m a n n ,


cura dentro do corpo, dirige o t r a t a m e n t o para res- e m 1 7 9 6 , e o p r i m e i r o h o s p i t a l homeopático n o R e i -
t a u r a r e s s e equilíbrio". D a m e s m a f o r m a , d e a c o r d o n o U n i d o f o i f u n d a d o e m L o n d r e s e m 1 8 4 9 . Há u m a
com a Community Health Foundation: " A saúde é l o n g a associação e n t r e a f a n u l i a r e a l britânica e a
m a i s d o q u e a p e n a s a ausência d e d o r o u d e s c o n f o r - homeopatia; e m 1937, Sir J o h n Weir foi nomeado
t o . A b o a saúde é u m a relação dinâmica e n t r e o i n d i - médico h o m e o p a t a d o r e i G e o r g e V I , e e s s a Ugação
víduo, a m i g o s , família e o a m b i e n t e d e n t r o d o q u a l c o m a r e a l e z a p e r m a n e c e até h o j e . E m 1 9 4 8 , o s h o s -
vivemos e trabalhamos". p i t a i s homeopáticos f o r a m i n c o r p o r a d o s a o N a t i o n a l
O h e r b a l i s m o , a c u r a p e l a fé e o u s o d e p a r t e i - H e a l t h S e r v i c e . E x i s t e m a g o r a h o s p i t a i s homeopáti-
r a s p r o v a v e l m e n t e têm raízes m a i s p r o f u n d a s n o R e i - cos d o N a t i o n a l H e a l t h Service ( N H S ) e m L o n d r e s ,
n o U n i d o . A p r i m e i r a descrição d e remédios h e r b a i s L i v e r p o o l , B r i s t o l , Túnbridge W e U s e G l a s g o w . ' ' * ' ^ ^ ' D e
d a t a d e 1 2 6 0 , s e n d o q u e vários o u t r o s "herbários" a c o r d o c o m as e s t i m a t i v a s , e m 1 9 7 1 , h a v i a cerca d e
f o r a m p u b U c a d o s n o s últimos 4 0 0 a n o s . E m 1 6 3 6 , 3 8 3 l e i t o s disponíveis e m h o s p i t a i s homeopáticos e
p o r e x e m p l o , u m herbário c o m p i l a d o p o r J o h n 5 1 . 0 3 7 c o n s u l t a s a dínicas a m b u l a t o r i a i s h o m e o -
Parkinson continha detalhes d ouso medicinal d e páticas.^^" E s s e s h o s p i t a i s são a t e n d i d o s p o r médicos
3.800 plantas.^^ As parteiras, outra f o r m a tradicio- qualificados n a m e d i d n a ortodoxa que realizam trei-
n a l d e c u i d a d o s d e saúde, f o r a m a b s o r v i d a s p e l o s e - n a m e n t o d e pós-graduação e m h o m e o p a t i a . Além
tor profissional, especialmente desde o seu registro d i s s o , e m 1 9 9 6 , h a v i a d u a s associações p r o f i s s i o n a i s
compulsório n a l e i d a s p a r t e i r a s d e 1 9 0 2 . O u t r o s p a r a h o m e o p a t a s não-quaUfícados e m m e d i d n a e 2 1
métodos d e c u r a f o r a m i m p o r t a d o s d o e x t e r i o r , c o m o escolas de treinamento.^^' E m b o r a t e n h a base e m pre-
acupuntura, homeopatia e osteopatia. missas diferentes das d a medicina ortodoxa, a h o -
O setor popular inclui curandeiros sagrados e meopatia n o Reino U n i d o desfruta d em a i o r legiti-
seculares. U m e x e m p l o dos p r i m e i r o s é a N a t i o n a l m i d a d e d o q u e as o u t r a s f o r m a s de c u r a a l t e r n a t i v a .
Federation o f Spiritual Healers ( N F S H ) , que define a C o m o as o u t r a s f o r m a s d e M A C , e l a a b r a n g e t a n t o o
c u r a e s p i r i t u a l c o m o " t o d a s as f o r m a s d e c u r a r o d o - setor popular quanto profissional dos cuidados d e
e n t e e m t e r m o s d e c o r p o , m e n t e e espírito p o r m e i o saúde.
d a imposição d a s mãos o u m e d i a n t e p r e c e s o u m e d i - Há u m a influênda recíproca e n t r e e s s e s d o i s s e -
tação, n a presença o u não d o p a c i e n t e " . ^ ^ ' * D e s d e t o r e s . M u i t o s médicos o r t o d o x o s , p o r e x e m p l o , p r a -
1 9 6 5 , sob t u n acordo c o m m a i s de 1.500 hospitais do ticam u m a o u mais formas de cura altemativa. Eles
N a t i o n a l H e a l t h Service, os m e m b r o s d o N F S H po- estão o r g a n i z a d o s e m c o l e g i a d o s c o m o o U K H o m e o -
d e m atender os padentes hospitalizados que s o h d - pathic Medicai Association, a British Medicai Acu-
t a r e m o s s e u s serviços. Além d i s s o , há u m a série d e puncture Society e a British Society o f Medicai a n d
i g r e j a s e s p i r i t u a l i s t a s e círculos d e c u r a n o R e i n o D e n t a l H y p n o s i s . " ^ D a m e s m a f o r m a , os curadores
U n i d o que p r a t i c a m acura espiritual por m e i o de reza a l t e r n a t i v o s f o r a m i n f l u e n d a d o s , e m g r a u variável,
o u imposição d a s mãos; e s t a s i n c l u e m a s i g r e j a s p e l o t r e i n a m e n t o , p e l a organização, p o r técnicas, c r e -
C h r i s t i a n S d e n c e e algtunas igrejas pentecostais afro- d e n d a i s e auto-apresentação d o s médicos o r t o d o x o s
c a r i b e n h a s . A c u r a cristã é e n c o r a j a d a p e l a C h r i s t i a n e estão s e " p r o f i s s i o n a l i z a n d o " c a d a v e z m a i s - f o r -
Fellovíship o f H e a l i n g , p e l o C h u r c h e s ' C o u n c i l o f m a n d o organizações p r o f i s s i o n a i s c o m u m a e s t m t u -
H e a l t h a n d H e a l i n g e p e l o G u i l d o f St Raphael.^^s r a e d u c a d o n a l e r e g i s t r o s d e m e m b r o s filiados. A l -
m o d o g e r a l , núlhares d e p e s s o a s p r a t i c a m a c u r a e s - g u m a s estão o r g a n i z a d a s e m c o l e g i a d o s , c o m o o u -
p i r i t u a l e "impõem a s mãos" n o R e i n o U n i d o . A s d u a s t r a s profissões britânicas, p o r e x e m p l o , o B r i t i s h
m a i o r e s organizações d e c u r a são o N F S H , f u n d a d o College o fA c u p u n c t u r e , o N a t i o n a l I n s t i t u t e o f
e m 1954, com 6.000 membros no Reino Unido e ou- Medicai Herbalists, a S o d e t y o f H o m e o p a t h s e o Ge-
t r o s n o exterior,^^* e a Spiritualists' N a t i o n a l U n i o n , n e r a l C o u n d l a n d Register o f Osteopaths.^^^ E m 1 9 7 9 ,
c o m 3 6 8 igrejas espiritualistas filiadas e m a i s d e a British Acupuncture Assodation ofereceu u m curso
1 6 . 0 0 0 membros.127 de t r e i n a m e n t o de dois anos para u m a Ucenciatura e
E m c o n t r a s t e , u m número d e s c o n h e c i d o d e g r u - mais u m ano d eestudo para u m bacharelado e m
pos o u assembleias de magia M e c a o u m a g i a branca acupuntura. Ela contou com 100 alunos no Reino
p r a t i c a m a c u r a mágica; e s c r e v e n d o p a r a a r e v i s t a U n i d o , t e n d o e n t r e o s s e u s m e m b r o s 3 3 médicos f o r -
Doctor d e 1 9 8 1 , d e Jonge^^® a l e g o u q u e h a v i a 7 . 0 0 0 m a d o s e m m e d i c i n a e 4 2 0 s e m c r e d e n d a m e n t o mé-
" a s s e m b l e i a s d e b r u x a s " n a Grã-Bretanha, c o m u m dico. N a última década, a s pressões p a r a a p r o f i s -
número t o t a l d e m e m b r o s d e 9 1 . 0 0 0 . sionalização v i e r a m não s o m e n t e d o s a g e n t e s d e c u r a
C o m o u m a f o r m a d e c u r a a l t e r n a t i v a , a ho- e m s i , m a s também d o g o v e m o d o R e i n o U n i d o , d a
meopatia t e m i m i a posição e s p e c i a l n o R e i n o U n i d o . Urúão E u r o p e i a , d a profissão médica e d o s próprios
Os prindpios da homeopatia f o r a m enundados pela consumidores.^^^'^^'* O s a g e n t e s de c u r a r e s p o n d e r a m
C i J t u r a , saúde e doença 105
d e várias m a n e i r a s , d e s d e a criação d e s e u s próprios n h o s . O s j o r n a i s d e d i c a d o s às c o m u n i d a d e s sul-asiátí-
g r u p o s p r o f i s s i o n a i s c o m auto-regulamentação v o l u n - c a s , c a r i b e n h a s e a f r i c a n a s , c o m o Eastern Eye,
tária c o m o o s recém-listados até a b u s c a d e status Caribbean Times e The Voice, p u b l i c a m anúncios d e
l e g a l e regulamentação estatutária p e l o g o v e r n o . " ^ diversos curandeiros espirituais e conselheiros que h -
N a o u t r a e x t r e m i d a d e d o e s p e c t r o estão a s f o r - d a m c o m u m a v a r i e d a d e d e p r o b l e m a s pessoais, d e
m a s m a i s i n d i v i d u a i s d e c u r a popular, i n c l u i n d o cla- r e l a c i o n a m e n t o s , saúde e preocupações financeiras até
rividentes, astrólogos, c u r a n d e i r o s psíquicos, s e n s i t i - a z a r e feitiçaria. Miútos d e l e s a t r i b u e m s e u s p o d e r e s
v o s , q u i r o m a n t e s , médiuns c e l t a s , tarólogos, c i g a n o s d e c u r a a o f a t o d e s e r e m o r i u n d o s d e l u n a "família d e
l e i t o r e s d a s o r t e e v i d e n t e s i r l a n d e s e s , c u j o s anúnci- c u r a n d e i r o s " , fireqúentemente d e várias gerações.
os a p a r e c e m n a i m p r e n s a p o p u l a r , e m r e v i s t a s , a l m a - U m grupo bastante novo d e agentes d e cura -
n a q u e s e publicações c o m o Prediction, Horoscope e n o s e n t i d o m a i s a m p l o d a p a l a v r a - são a q u e l e s e n -
Old Moore's Almanack. M u i t o s d e l e s a g e m c o m o c o n - v o l v i d o s p r i m a r i a m e n t e e m m e l h o r a r o a s p e c t o fi'si-
s e l h e i r o s l e i g o s o u p s i c o t e r a p e u t a s : "Você t e m u m a c o d e s e u c l i e n t e , e a s s i m , s e u e s t a d o psicológico. E m
preocupação d e saúde e não c o n s e g u e a j u d a ? Você t o d o o R e i n o U n i d o , há u m a proliferação d e "clíiúcas
t e m u m a preocupação p e s s o a l o u f a m i l i a r e p r e c i s a de beleza", cuja equipe é c o m p o s t a de "terapeutas d e
d e c o n s e l h o s ? Então t a l v e z e u p o s s a ajudá-lo. S o u o b e l e z a " . T a n t o a s instalações q u a n t o a a t m o s f e r a d e s -
sétimo f i l h o d e u m sétimo filho", e t c . ^ ^ * A m a i o r p a r - s a s clínicas são q u a s e médicas, c o m c o n s u l t a s , a v e n -
t e d e s t e g r u p o u s a a l g u m a f o r m a d e adivinhação, c o m t a i s b r a n c o s , fileiras d e f r a s c o s , máquinas c o m p l e x a s
m o e d a s , d a d o s , f o l h a s d e chá, b o l a s d e c r i s t a l , c a r t a s e d i p l o m a s i m p r e s s i o n a n t e s n a p a r e d e . E l a s são p a r -
d e t a r o o u l e i t u r a d a s mãos p a r a d e c i f r a r a influência t e d e u m fenómeno m u i t o m a i s a m p l o , a " m e d i c a l i z a -
s o b r e n a t u r a l e cósmica s o b r e o indivíduo e r e v e l a r a s ção" g r a d u a l d e t o d o s o s a s p e c t o s d o c o r p o h u m a n o ,
c a u s a s d a i n f e U c i d a d e , d a má saúde o u d e o u t r o i n - i n c l u i n d o s u a aparência.
fortúnio. D o p o n t o d e v i s t a d o p a c i e n t e , e s t a a b o r d a -
g e m pode ter a v a n t a g e m d e colocar a responsabiU-
d a d e p e l o p r o b l e m a f o r a d o c o n t r o l e d o indivíduo, Organizações profissionais
d e m o d o q u e d e s t i n o , a z a r , m a r c a s d e nascença, o u de agentes de cura alternativos
m e s m o a malevolência d e o u t r a p e s s o a , e não o c o m -
p o r t a m e n t o d o próprio p a c i e n t e , são a s c a u s a s d o i n - A t u a l m e n t e há m u i t a s corporações p r o f i s s i o n a i s
fortúnio. A l g u n s d e s s e s a g e n t e s d e c u r a também e s - diferentes n o Reino U n i d o que praticam e p r o m o v e m
tão s e proíissionaUzando. P o r e x e m p l o , d e s d e q u e f o i formas d eterapia "alternativas", "complementares"
fundada e m 1976, a British Astrological a n d Psychic o u "holísticas". U m a d a s m a i o r e s é a F e d e r a t i o n o f
S o c i e t y t e m p r o m o v i d o u m a série d e e n s i n a m e n t o s Holistic Therapists, que representa mais d e 20.000
Ugados a o esoterismo, espiritualismo e à N o v a Era, e terapeutas profissionais, i n c l u i n d o praticantes d e te-
seus m e m b r o s oferecem u m a a m p l a variedade d e r a p i a estética, eletrólise, a r o m a t e r a p i a , r e f l e x o l o g i a
" a r t e s i n t e r p r e t a t i v a s e adivinhatórias"."^ A s f o r m a s e o u t r a s f o r m a s d e t e r a p i a . E l a p u b h c a o periódico
d e adivinhação q u e e l e s o f e r e c e m i n c l u e m a s t r o l o - International Therapist}^^
gia, q u i r o m a n c i a , n u m e r o l o g i a , leitura d e a u r a , N o s últimos a n o s , a s s i m c o m o t e m h a v i d o c r i t i -
g r a f o l o g i a , médiuns e m t r a n s e , I C h i n g , t a r o , c l a r i v i - cas crescentes à m e d i c i n a c o n v e n c i o n a l e m a l g u n s
dência, clariaudiência, sensitívidade e a r t e psíquica. d i s t r i t o s o f i c i a i s , também t e m h a v i d o u m a u m e n t o
E l a p u b l i c a u m National Register ofConsultants, d e f i - p a r a l e l o e m t o d a s as f o r m a s de m e d i c i n a c o m p l e m e n -
n e critérios p a r a e n t r a d a , t e m u m Código d e Ética e tar e altemativa, e l u n florescimento das organiza-
C o n d u t a e oferece cursos e certificados e m diferen- ções c o n e c t a d a s a e l a . M u i t a s d e l a s v i s a m c o n t e r o
t e s f o r m a s d e adivinhação. S e u s p a n f l e t o s d i z e m q u e cetícismo d o establishment médico a u m e n t a n d o s u a s
s e u s " c o n s u l t o r e s são c o m p e t e n t e s e m d i v e r s a s d i s c i - atividades d e pesquisa sobre tais formas d e terapia.
plinas e p o d e m t r a n s i t a rentre elas d em o d o a preen- Por exemplo, o Research Council for Complementary
c h e r a s n e c e s s i d a d e s específicas d e c a d a c U e n t e " . " ' ' Medicine foi fundado e m 1983, "para desenvolver e
M u i t a s m i n o r i a s étnicas e i m i g r a n t e s n a Grã- a m p l i a r a b a s e d e evidências d a m e d i c i n a c o m p l e -
B r e t a n h a c o n t i n u a m a c o n s u l t a r s e u s próprios c u r a n - mentar, d e m o d o a f o m e c e r aos praticantes e seus
d e i r o s t r a d i c i o n a i s , a o m e n o s e m c e r t a s circunstânci- p a c i e n t e s informações s o b r e a e f e t i v i d a d e d a s t e r a p i a s
a s . E s t e s i n c l u e m o s hakims muçulmanos e o s vaids i n d i v i d u a i s e o t r a t a m e n t o d e condições específi-
h i n d u s d o s u b c o n t i n e n t e i n d i a n o ( e s t i m a - s e q u e há cas".^''" O I n s t i t u t e f o r C o m p l e m e n t a r y M e d i c i n e f o i
c e r c a d e 3 0 0 d e l e s n o R e i n o Unido),'^® o s p r a t i c a n t e s f u n d a d o e m 1 9 8 2 , " p a r a f o m e c e r a o público i n f o r -
da medicina tradicional chinesa (MTC) (incluindo mações s o b r e a m e d i d n a c o m p l e m e n t a r " . E l e i n i c i o u
fitoterapia, a c u p u n t u r a e moxibustão), o s marabouts esmdos "para desenvolver formas d econtrolar, regu-
e obeah a f r i c a n o s e o s c u r a n d e i r o s e s p i r i t u a i s c a r i b e - l a r e p e s q u i s a r t o d a s a s d i f e r e n t e s d i s d p l i n a s e técni-
106 C e c i l G. H e i m a n

cas d e m o d o a p r o t e g e r os p r a t i c a n t e s q u a l i f i c a d o s e m e r o t o t a l d e médicos d e famíha). E l e s i n c M a m 3 . 0 3 9


a s s e g u r a r a segurança d o público g e r a l " , e admiiús- osteopatas, 3.000 acupimturistas, 1.200 homeopatas,
tra o British Register o f C o m p l e m e n t a r y Practitioners 9 0 0 quiropráticos, 7 5 0 n a t u r o p a t a s , 6 0 0 h e r b a l i s t a s
(BRCP), que lista ospraticantes complementares re- e 2 1 9 p r a t i c a n t e s d e radiônica. W a l k e r e B u d d ^ ^ ^ r e -
c o n h e c i d o s e p o s s u i 1 8 divisões autónomas.^''^ A l a t a r a m que u m a das terapias c o m p l e m e n t a r e s d e
British Holistic Medicai Association, fundada e m c r e s c i m e n t o m a i s rápido n o R e i n o U n i d o é a a r o m a -
1 9 8 3 , v i s a " e d u c a r médicos, e s t u d a n t e s d e m e d i c i n a , t e r a p i a e q u e o número d e t e r a p e u t a s r e g i s t r a d o s
p r o f i s s i o n a i s d e saúde a l i a d o s e m e m b r o s d o público subiu de2.500 e m 1991 para 6.000 e m 2000.
g e r a l s o b r e o s princípios e a prática d a m e d i c i n a h o - A s e s c o l a s d e t r e i n a m e n t o e associações p r o f i s -
lística"."^ E l a t e m m e m b r o s médicos e l e i g o s , e p u - s i o n a i s p a r a a g e n t e s d e c u r a não-qualifícados e m m e -
b l i c a o Journal of Holistic Healthcare. O B r i t i s h G e n e - dicina c o n t i n u a m aproliferar. Por exemplo, e m 1996,
ral Council o f C o m p l e m e n t a r y Medicine existe "para o s h o m e o p a t a s (não-médicos) t i n h a m d u a s a s s o c i a -
d e s e n v o l v e r a educação s o b r e e a ciência e prática d a ções p r o f i s s i o n a i s e 2 1 e s c o l a s d e t r e i n a m e n t o , e n -
m e d i c i n a c o m p l e m e n t a r p a r a o benefício d o p o v o " . ^ ' ' ^ q u a n t o o s r e f l e x o l o g i s t a s tinham 1 3 organizações p r o -
Não há d e t a l h e s p r e c i s o s s o b r e o número t o t a l fissionais e m a i s d e 1 0 0 escolas.^^^
d e a g e n t e s d e c u r a não-ortodoxos n o R e i n o U n i d o E m 1993, a British Medicai Association pubh-
n e m s o b r e o número t o t a l d e c o n s u l t a s c o m e l e s . N o cou u m relato detalhado sobre a medicina altemati-
início d a década d e 1 9 8 0 , u m g r a n d e e s t u d o , e n c o - v a n o R e i n o U n i d o , ' ' * * e s u a s conclusões f o r a m c a u t e -
mendado d e forma privada pela Threshold Founda- l o s a m e n t e p o s i t i v a s : "Está c l a r o q u e há m u i t a s i n i c i a -
t i o n , ^ ' * ' ' e s t i m o u q u e , n o período d e 1 9 8 0 a 1 9 8 1 , tivas encorajadoras ocorrendo atualmente n o campo
havia 7.800 praticantes alternativos profissionais e m d a t e r a p i a não-convencional, e é d e s e e s p e r a r q u e a
t e m p o p a r c i a l e i n t e g r a l n a Grã-Bretanha e c e r c a d e b o a prática p o s s a s e r e x t r a p o l a d a p a r a o u s o g e r a l " .
20.000 homens e mulheres que praticavam a cura Porém, e l e s r e c o m e n d a r a m q u e , a n t e s d e f a z e r u s o
e s p i r i t u a l e r e l i g i o s a . Também h a v i a 2 . 0 7 5 médicos dela, o scHentes potenciais d e v e m investigar:
que praticavam u m a o umais terapias alternativas
e m b o r a , c o m exceção d a h o m e o p a t i a , s e u t r e i n a m e n - 1. Se o terapeuta é registrado j t m t o a u m a organiza-
t o f o s s e "mínimo". O s a g e n t e s d e c u r a a l t e r n a t i v o s ção p r o f i s s i o n a l .
(médicos e l e i g o s ) incluíam 7 5 8 a c u p u n t u r i s t a s , 5 4 0 2 . S e a q u e l a organização p o s s u i u m r e g i s t r o público
quiropráticos, 3 0 3 h e r b a l i s t a s , 3 6 0 h o m e o p a t a s , 6 3 0 d e m e m b r o s , u m código d e prática, p r o c e d i m e n -
h i p n o t e r a p e u t a s e 8 0 0 o s t e o p a t a s . E l e também e s t i - t o s e sanções d i s c i p l i n a r e s e f e t i v o s e u m m e c a n i s -
m o u que o spraticantes alternativos passavam, e m m o para queixas.
média, o i t o v e z e s m a i s t e m p o c o m s e u s p a c i e n t e s d o 3 . O tipo d e qualificações q u e o t e r a p e u t a p o s s u i e
q u e o s médicos o r t o d o x o s . ( A s p r i m e i r a s c o n s u l t a s onde as obteve.
n a a c u p u n t u r a tradicional e h o m e o p a t i a p o d e m le- 4 . O t e m p o d e prática.
v a r até d u a s h o r a s c a d a . ) M u i t o s d e l e s p r a t i c a v a m 5 . S e o t e r a p e u t a está c o b e r t o p o r q u a l q u e r f o r m a
mais d eu m a forma d eterapia. E m u m estudo e m d e s e g u r o c o n t r a má prática.
1 9 8 4 feito c o m 4 1 1 praticantes, 5 1 %praticavam u m a
s e g t m d a t e r a p i a e 2 5 % u m a terceira.^'''' E m virtude d alei dos osteopatas d e 2 0 0 0 e d a
E m 1989, o Institute for Complementary Medi- l e i d o s quiropráticos d e 2 0 0 1 , a o s t e o p a t i a e a q u i r o -
cinei''^ e s t i m o u que h a v i a cerca d e 1 5 . 0 0 0 p r a t i c a n - p r a x i a finalmente t o m a r a m - s e c u i d a d o s d e saúde r e -
tes alternativos n o R e i n o U n i d o a t u a n d o profissio- c o n h e c i d o s e profissões paramédicas p e l a p r i m e i r a
nalmente. U m "praticante" profissional foi definido v e z , " ^ a s s i m c o m o o s farmacêuticos h a v i a m f e i t o e m
n e s s e c a s o c o m o u m indivíduo q u e " e x e r c e a t i v i d a d e 1 8 5 2 e 1 8 6 8 , o s d e n t i s t a s e m 1 8 7 8 e as p a r t e i r a s e m
e m tempo integral, que é m e m b r o d etima organiza- 1902. E m 1993, o parlamento d oReino Unido criou
ção p r o f i s s i o n a l c o m códigos d e ética e prática, c o n - o General Osteopathic Council para regular a profis-
t a n d o c o m u m comité d i s c i p l i n a r p a r a c u m p r i - l o s , e são, b e m c o m o u m r e g i s t r o único d e p r a t i c a n t e s , e n -
que é coberto por seguro pessoal e seguro para ter- quanto o General Chiropractic Coimcil foi criado e m
c e i r o s " . N e s t a b a s e , s e u s d a d o s incluíram 7 . 0 0 0 c u - 1994. "5
randeiros espirituais, 1.500 osteopatas, 1.500 a c u p u n - Porém, n e m t o d o s o s a g e n t e s d e c u r a a l t e m a t i -
turistas, 1.000 massagistas, 5 0 0 hipnoterapeutas, 3 5 0 vos desejam t o m a r - s e "profissionais" sob o controle
n u t r i c i o n i s t a s , 3 5 0 quiropráticos, 3 0 0 r e f l e x o l o g i s t a s d i r e t o o u i n d i r e t o d o g o v e m o o u d o s i s t e m a médico.
e 250 aromaterapeutas. M u i t o s s e opõem i d e o l o g i c a m e n t e a t o d o s o s a s p e c t o s
Mais recentemente, e m 1995, Fulder^^' estimou d o m o d e l o médico e a o q u e e l e s vêem c o m o s u a s l i m i -
que havia cerca d e 5 0 . 0 0 0 praticantes alternativos tações e riscos; a s s i m , e l e s c o n s i d e r a m a s i m e s m o s
n o R e i n o U n i d o ( c e r c a d e 6 0 % a m a i s d o q u e o nú- c o m o v e r d a d e i r a m e n t e alternativos, e não c o m p l e -
C u l t u r a , saúde e doença 1
m e n t a r e s , a ele. E n t r e t a n t o , m i u t a s f o r m a s d e m e d i c i - c o m o 2 3 . 6 7 4 médicos d e família ( g e n e r a l p r a c -
n a a l t e m a t i v a n o R e i n o U n i d o além d a o s t e o p a t i a e t i t i o n e r s - G P s ) , 3 1 . 4 2 1 médicos h o s p i t a l a r e s ,
quiropraxia - especialmente o herbalismo, a acupun- 301.081 enfermeiros hospitalares, 17.375 parteiras
t u r a e a a r o m a t e r a p i a - estão p a s s a n d o a o s p o u c o s atuando e m hospitais, 32.990 enfermeiros c o m u n i -
p e l o m e s m o p r o c e s s o d e profissionalização q u e está tários e 2 . 9 4 9 p a r t e i r a s comunitárias. E m 1 9 8 1 , o s
acontecendo c o m os ciurandeiros populares tradicio- e n f e r m e i r o s comunitários incluíram 9 . 2 4 4 v i s i t a d o r e s
nais e m partes d o m u n d o e mdesenvolvimento.^^- " i - " " * d e saúde.i'*® Porém, e m 2 0 0 5 , o número t o t a l d e e n -
fermeiros havia subido para 672.897 (incluindo
3 3 . 0 0 0 a t u a n d o como parteiras),i"*' mais d e 5 0 % d o
Consultas com praticantes de MAC número t o t a l d e e m p r e g a d o s d o N H S . ^ ^ " D e s s e s e n -
f e r m e i r o s , s o m e n t e 1 0 , 7 3 % e r a m h o m e n s . " ' Além
Consideradas e mperspectiva, as consultas c o m
d i s s o , há u m g r a n d e número d e q u i r o p o d i s t a s , fi-
praticantes d e M A Cn oReino Unido freqiientemente
s i o t e r a p e u t a s , técnicos e m r a d i o l o g i a , t e r a p e u t a s
p o s s u e m c e r t a s características e m c o m u m q u a n d o
o c u p a c i o n a i s , farmacêuticos e técnicos h o s p i t a l a r e s .
c o m p a r a d a s às c o n s i d t a s a p r e s s a d a s c o m u m médico
Cada u m a dessas categorias oferece a l g u m a f o r m a
d o N H S . M u i t a s d e s s a s características ( e m b o r a n e m
d e c u i d a d o p r o f i s s i o n a l defirúdo, m a s também p o -
t o d a s ) a n t i g a m e n t e f a z i a m p a r t e d a prática médica
d e m serchamadas para conselhos informais sobre as
e m " e s t i l o a n t i g o " , s o b r e t u d o n a s áreas m r a i s . E l a s
doenças c o m o p a r t e d o s e t o r i n f o r m a l .
incluem o seguinte:
A p e s a r d e s e u g r a n d e t a m a n h o , estima-se^^^ q u e
c e r c a d e 7 5 % d o s s i n t o m a s a n o r m a i s são t r a t a d o s ^ r a
• A s c o n s u l t a s g e r a l m e n t e são m a i s l o n g a s , d a n d o
d o s e t o r p r o f i s s i o n a l - q u e vê s o m e n t e a p o n t a d o
aos clientes m a i s t e m p o p a r a explorar s e u "des-
" i c e b e r g d a doença" - c o m o r e s t a n t e s e n d o a t e n d i d o
c o n f o r t o " e s u a "doença".
n o s s e t o r e s i n f o r m a l e p o p u l a r d o s c u i d a d o s d e saúde.
• A s c o n s u l t a s f i r e q i i e n t e m e n t e são m a i s táteis, a l -
N o R e i n o U n i d o , há d u a s f o r m a s c o m p l e m e n t a -
gumas vezes envolvendo massagem o u manipula-
r e s d e c u i d a d o s médicos p r o f i s s i o n a i s , o N a t i o n a l
ção física.
H e a l t h S e r v i c e e o s c u i d a d o s médicos p r i v a d o s , e m -
• A s c o n s u l t a s e m g e r a l são m a i s "holísticas", n o s e n -
b o r a h a j a u m a sobreposição d e p e s s o a l e n t r e o s d o i s .
t i d o d e c o l o c a r o s o f r i m e n t o d o indivíduo n o c o n -
t e x t o s o c i a l , psicológico o u e s p i r i t u a l m a i s a m p l o
de sua vida.
O National HealOi Service
• A s consultas freqiientemente possuem l u n elemen-
t o " r e l i g i o s o " o u místico ( a l g u m a s v e z e s t o m a d o
Desde 1 9 4 8 , o N H S t e m oferecido acesso gra-
e m p r e s t a d o d e rehgiões o r i e n t a i s ) e não s e c o n -
t u i t o e i r r e s t r i t o a o s c u i d a d o s d e saúde n o R e i n o U n i -
c e n t r a m a p e n a s n a s a n o r m a l i d a d e s físicas.
d o , t a n t o e m clínicas q u a n t o e m h o s p i t a i s . E s s a s d u a s
• O s t r a t a m e n t o s e m g e r a l não p e n e t r a m o s l i m i t e s
f o r m a s d e c u i d a d o s médicos p o s s u e m g e n e a l o g i a s e
d o c o r p o , c o m exceção d a a c u p u n t u r a ( a c r e s c e n -
p e r s p e c t i v a s d i f e r e n t e s s o b r e a má saúde. O s p r e c u r -
te aceitabilidade d a a c u p u n t u r a p o d e b e mserde-
s o r e s d o s médicos d e f a n u l i a e r a m c o m e r c i a n t e s e s -
v i d a à f a m i U a r i d a d e c o m a s injeções c o m o t u n a
p e c i a l i z a d o s d e n o m i n a d o s boticários. A p a r t i r d e
forma comum de tratamento).
1 6 1 7 , eles f o r a m licenciados p a r a v e n d e r apenas d r o -
• A s c o n s u l t a s e o s t r a t a m e n t o s são p a g o s p e l a p e s s o a , g a s p r e s c r i t a s p e l o s médicos. E m 1 7 0 3 , p e r m i t i u - s e
pois a m a i o r parte d aM A C n o Reino U n i d o pertence que eles a t e n d e s s e m pacientes e prescrevessem m e -
a o s e t o r p r i v a d o , não s e n d o c o b e r t a p e l o N H S . I s s o d i c a m e n t o s . E l e s t o m a r a m - s e o s médicos d e família
p o d e d a ra o s clientes u mm a i o r s e n t i m e n t o d e con- d o s p o b r e s e d a c l a s s e média. O s médicos i n i c i a l m e n -
trole sobre a consulta e a escolha d o praticante. t e tinham u m status m a i o r d o q u e o s cimrgiões o u
boticários e , d u r a n t e séculos, f o r a m o s úrúcos médi-
c o s " v e r d a d e i r o s " . T a n t o o s médicos c o m o o s c i m r -
giões f o r t a l e c e r a m s u a posição d u r a n t e o d e s e n v o l v i -
O s e t o r profissional m e n t o d o setor hospitalar, q u e teve im'cio p o r v o l t a
E s t e i n c l u i a a m p l a v a r i e d a d e d e profíssionais d e 1 7 0 0 . D e c e r t a f o r m a , a divisão e a diferença n o
médicos e paramédicos, c a d a u m c o m s u a s próprias status e n t r e a prática g e n e r a l i s t a e a h o s p i t a l a r a i n d a
percepções s o b r e má saúde, f o r m a s d e t r a t a m e n t o , p e r s i s t e m , r e f l e t i n d o - s e n a alocação d e r e c u r s o s . N a
áreas d e f i n i d a s d e competência, h i e r a r q u i a i n t e m a , I n g l a t e r r a e n o País d e G a l e s , e m 1 9 7 2 , p o r e x e m p l o ,
jargão técnico e organizações p r o f i s s i o n a i s . E m 1 9 8 0 , m a i s d a m e t a d e d o orçamento d o N H S f o i g a s t o n o
o O f f i c e o f H e a l t h E c o n o m i c s ^ " * ^ e s t i m o u o s números setor hospitalar, embora somente 2 , 3 % dos pacien-
d e t o d o s o s p r o f i s s i o n a i s d a saúde d e n t r o d o N H S tes t e n h a m sido r e a l m e n t e hospitalizados.^^^ ON H S
108 Cecil G. H e i m a n

contínua s e n d o u m d o s m a i o r e s e m p r e g a d o r e s n o país e n o País d e G a l e s , s o m e n t e 1 3 . 6 6 5 ( 2 , 8 % ) e r a m " l e i -


- e n o m u n d o - c o m u m a força d e t r a b a l h o t o t a l , e m t o s d e m e d i c i n a d e famíha", e 5 . 4 0 6 d e l e s e r a m l e i -
2 0 0 4 , d e 1 , 3 milhões, i n c l u i n d o 1 1 7 . 0 3 6 médicos."" t o s obstétricos."* E m 1 9 7 8 , n a I n g l a t e r r a e n o País
de Gales, h a v i a apenas 3 5 0 pequenos hospitais a d -
m i n i s t r a d o s p o r médicos d e família, c o m u m a média
O setor hospitalar d e 2 0 a 4 0 l e i t o s c a d a . " ' ' E m b o r a o s médicos d e f a -
mília p o s s a m v i s i t a r a s e n f e r m a r i a s e d i s c u t i r o m a -
M u i t o s d o s aspectos organizacionais e culturais
n e j o d e s e u s p a c i e n t e s c o m a e q u i p e médica h o s p i t a -
d o s h o s p i t a i s já f o r a m d e s c r i t o s , s o b r e t u d o o s d a e s -
lar, a m a i o r p a r t e d a r e s p o n s a b i l i d a d e pelos c u i d a -
peciahzação. E m 1 9 7 4 , d e a c o r d o c o m L e v i t t , ^ ^ ^ h a -
d o s médicos fica a c a r g o d o h o s p i t a l .
v i a 4 2 e s p e c i a l i d a d e s clínicas r e c o n h e c i d a s d e n t r o d o
E n q u a n t o e m 1 9 7 6 c a d a médico d e família ti-
serviço h o s p i t a l a r d o N H S , e m b o r a o número t e n h a
n h a , d e a c o r d o c o m L e v i t t , ' ^ t u n a média d e 2 . 3 4 7
a u m e n t a d o c o n s i d e r a v e l m e n t e d e s d e então, c o m a
p a d e n t e s e m s u a h s t a , e s t e número c a i u h o j e p a r a c e r -
adição d e várias s u b e s p e c i a l i d a d e s . Também há n u -
ca d e 1 . 7 0 0 . " ' E m 2 0 0 4 , h a v i a u m t o t a l d e 4 1 . 5 7 4
merosos hospitais especializados, c o m o hospitais de
médicos d e f a n u l i a n o R e i n o Urúdo, i m a a u m e n t o d e
o l h o s , o u v i d o s , n a r i z e g a r g a n t a , coração o u m a t e r -
1 4 , 6 % d e s d e 1 9 9 7 . " ' N e m t o d o s e s s e s médicos d e
nidades. O hospital é o lugar onde nascem 9 9 % das
família t r a b a l h a m e m t e m p o i n t e g r a l , e o e q u i v a l e n t e
pessoas n o R e i n o U n i d o , e também o n d e a m a i o r i a
e m t e m p o i n t e g r a l d e s t e número é 3 3 . 9 1 5 médicos d e
m o r r e . E n t r e esses d o i s p o n t o s , m u i t a s pessoas o as-
família. A proporção d e m u l h e r e s médicos d e família
s o c i a m c o m a s f o r m a s m a i s g r a v e s d e má saúde q u e
n o R e i n o U n i d o também a u m e n t o u d e m o d o c o n s t a n -
não p o d e m s e r t r a t a d a s p e l o s médicos d e família o u
te, d e 3 0 , 3 5 % e m 1 9 9 7 para 3 6 , 6 7 % e m 2 0 0 4 . " '
pelos setores i n f o r m a l o u popular. C o m o e m outras
A prática d a m e d i d n a d e f a n u l i a b a s e i a - s e n o
s o c i e d a d e s o c i d e n t a i s , a ênfase r e c a i s o b r e o p a c i e n t e
l a r e n a c o m u n i d a d e , e o s f a t o r e s s o c i a i s , psicológi-
individual c o m o u m caso o u p r o b l e m a a ser resolvi-
c o s e f a m i U a r e s são c o n s i d e r a d o s r e l e v a n t e s n a r e a l i -
d o o m a i s b r e v e m e n t e possível e c o m máxima eficiên-
zação d o diagnóstico. D e a c o r d o c o m H a r r i s , " t o -
cia. E m grande m e d i d a , os aspectos s o d a l , famiUar,
d o s o s diagnósticos têm u m c o m p o n e n t e s o c i a l , q u e r
r e l i g i o s o e económico d a v i d a d o p a c i e n t e são invisí-
e x i s t a m p r o b l e m a s s o d a i s o u não" e , " n a prática g e -
veis para a equipe hospitalar, e m b o r a os assistentes
r a l , é fádl p e r c e b e r c o m o a doença d o p a d e n t e e a s
s o c i a i s t e n t e m r e i m i r t a i s informações. A ênfase m a i o r
circunstândas s o c i a i s estão r e l a c i o n a d a s , p o i s a s d r -
está n a identificação e n o t r a t a m e n t o d a doença física,
cunstândas s o d a i s são visíveis". D a m e s m a f o r m a ,
a i n d a q u e isso seja m e n o s v e r d a d e i r o n o s hospitais
H u n t i * ^ a c r e d i t a q u e o s médicos d e família d e v e m
psiquiátricos. E x a m i n a d o e m p e r s p e c t i v a , o serviço
"cuidar d a m e n t e d o padente antes de tratar o seu
h o s p i t a l a r U d a e s p e c i a l m e n t e c o m episódios d e má
c o r p o " , e " a consdênda d o médico d e família d o q u e
saúde a g u d o s , g r a v e s o u , a l g u m a s v e z e s , c o m risco
o s p a c i e n t e s p e n s a m e s e n t e m é d e v i t a l importânda
para avida, b e m como c o m o nascimento o u a mor-
p a r a o s e u t r a b a l h o c o m o u m t o d o " . A o contrário d a
te. E l eé m e n o s orientado para h d a r c o m os significa-
m a i o r i a d o s médicos h o s p i t a l a r e s , o médico d e famí-
d o s s u b j e t i v o s a s s o c i a d o s à doença, q u e g e r a l m e n t e
l i a britânico frequentemente é u m a figura f a m i h a r
são t r a t a d o s p e l o s s e t o r e s i n f o r m a l o u p o p u l a r o u p o r
n a c o m u n i d a d e . A m a i o r i a r e s i d e n a própria c o m u n i -
religiosos. D e m o d o geral, n o periodo de 1 9 9 7 a 1 9 9 8 ,
dade o n d e t r a b a l h a , t o m a parte nas atividades locais,
u m total d e 5 2 % das despesas d o N H S f o r a m gastos
veste-se e m trajes "civis" e u s a a l i n g u a g e m c o t i d i a n a
e m serviços h o s p i t a l a r e s , e n q u a n t o s o m e n t e 1 0 % f o -
e m s u a s c o n s u l t a s ( F i g u r a 4 . 3 ) . Além d e c u i d a r d e
r a m g a s t o s e m serviços d e saúde d a c o m u n i d a d e e
d o e n t e s , e l e s estão a s s o c i a d o s a m u i t o s d o s m a r c o s
8 % e m serviços d e m e d i c i n a d e f a i m l i a . ^ ^ ^
n a t u r a i s d a v i d a : f a z e m e x a m e s pré-natais e pós-na-
t a i s , r e a l i z a m check-ups e m bebés, o r i e n t a m s o b r e
imunizações e métodos c o n t r a c e p t i v o s , r e a l i z a m e s -
O serviço d e m e d i c i n a de família
fregaços c e r v i c a i s , l i d a m c o m p r o b l e m a s m a r i t a i s e
(general p r a c t i t i o n e r service)*
e s c o l a r e s e dão a p o i o às famílias e n l u t a d a s . D i f e r e n -
A o contrário d o s E s t a d o s U n i d o s , e s t a área d e t e m e n t e d o s médicos h o s p i t a l a r e s ( e d a m a i o r i a d o s
c u i d a d o s d e saúde e n c o n t r a - s e e m g r a n d e p a r t e s e - c u r a n d e i r o s p o p u l a r e s ) , eles f a z e m visitas domiciUa-
p a r a d a d a m e d i c i n a h o s p i t a l a r , situação q u e e x i s t e r e s e a t e n d e m m a i s d e u m a geração n a m e s m a famí-
há a l g u m t e m p o . P o r e x e m p l o , e m 1 9 7 6 , d o s 4 8 2 . 7 8 2 H a . A o contrário d o s e t o r h o s p i t a l a r , a s doenças q u e
l e i t o s h o s p i t a l a r e s a l o c a d o s n a I n g l a t e r r a , n a Escócia eles t r a t a m t e n d e m a ser r e l a t i v a m e n t e leves; e m u m
estudo de 1 9 7 1 sobre a morbidade de 2.500 paden-
t e s e m u m a prática d e f a i m l i a d o N H S e m u m a n o ,
* N . d e R . T . V e r n o t a n a página 8 8 . 1 . 3 6 5 tiveram doenças l e v e s , 5 8 8 doenças crónicas e
C u l t u r a , saúde e doença 109
s o m e n t e 2 8 8 doenças g r a v e s . ^ ^ ^ E m b o r a a s c o n s u l t a s mensões s o d a i s , psicológicas e m o r a i s d a má saúde -
c o m médicos d e família c o s t u m e m s e r b a s t a n t e b r e - e dos marcos n o r m a i s da vida himaana. De 2 0 0 0 e m
v e s ( u m e s t u d o i n d i c o u 5 a 6 m i n u t o s , e m média), d i a n t e , o s médicos d e família, e n f e r m e i r o s , d e n t i s t a s ,
os p a d e n t e s p o d e m ser c h a m a d o s de v o l t a p a r a recon- hospitais, centros ambulatoriais e o u t r o s aspectos dos
s u l t a s o u a c o m p a n h a m e n t o s , c o n f o r m e necessário. c u i d a d o s primários d e saúde f o r a m i n c o r p o r a d o s a
N a década d e 1 9 7 0 , d e a c o r d o c o m L e v i t t , ^ * ^ o g r a n d e s c e n t r o s r e g i o n a i s d e c u i d a d o s primários, i s t o
médico d e família e r a o p r i m e i r o p o n t o d e c o n t a t o p a r a é, organizações responsáveis p e l o p l a n e j a m e n t o e
c e r c a d e 9 0 % d a q u e l e s q u e b u s c a v a m a j u d a médica c o m i s s i o n a m e n t o d e serviços d e atenção à saúde p a r a
p r o f i s s i o n a l n o N H S . C o n t u d o , d e s d e então, e m b o r a o s u a população l o c a l - v a r i a n d o d e 5 0 . 0 0 0 a 2 5 0 . 0 0 0 -
médico d e família d o N H S c o n t i n u e s e n d o o p r i m e i r o e p e l a integração d o c u i d a d o médico e s o d a l .
p o n t o de c o n t a t o p a r a os p a d e n t e s , cada vez m a i s pa-
d e n t e s o estão u l t r a p a s s a n d o e i n d o d i r e t a m e n t e a o s
d e p a r t a m e n t o s d e t r a i u n a s e emergêndas d e s e u h o s - O serviço d e e n f e r m a g e m
pital local, telefonando à U n h a direta do N H S (ver Ca-
pítulo 1 8 ) , o b t e n d o informações d e saúde n a i n t e r n e t Os enfermeiros e parteiros f o r m a m o maior gru-
o u c o m outras pessoas, o u p a g a n d o pelo t r a t a m e n t o po profissional dentro do NHS. C o m o apontado ante-
de praticantes "alternativos" c o m o osteopatas, quiro- riormente, e m 1 9 9 0 , eles c o m p r e e n d i a m m a i s de 5 0 %
práticos, m a s s o t e r a p e u t a s o u p s i c o t e r a p e u t a s . de sua equipe total.^^ A m a i o r parte dos profissionais
D e m o d o c r e s c e n t e , m a i s médicos d e família d o de enfermagem é composta por mulheres, enquanto a
N H S t r a b a l h a m a g o r a c o m o p a r t e d a s "eqiúpes d e c u i - m a i o r i a d o s médicos são h o m e n s . Porém, c e r c a d e 1 0 %
d a d o s primários d e saúde"; e s t a s c o s t u m a m i n d u i r d o p e s s o a l d e e n f e r m a g e m n o s h o s p i t a i s d o N H S são
r e c e p d o n i s t a s , e n f e r m e i r o s e vários tipos d e t e r a p e u t a s agora h o m e n s (a porcentagem é ainda m a i o r e m hos-
e m p r e g a d o s d i r e t a m e n t e p e l o médico d e f a i m l i a , b e m p i t a i s psiquiátricos), porém m u i t o p o u c o s e n f e r m e i -
c o m o v i s i t a d o r e s d e saúde, e n f e r m e i r o s d i s t r i t a i s , e n - ros h o m e n s t r a b a l h a m n a comimidade.'** E m 2 0 0 5 ,
f e r m e i r o s psiquiátricos comunitários, p a r t e i r a s d a c o - do total de 6 7 2 . 8 9 7 enfermeiros registrados n o Reino
m u n i d a d e e assistentes sodais e m p r e g a d o s pelo N H S . Unido, 1 0 , 7 % e r a m homens, e a porcentagem de ho-
O s médicos d e família, e m assodação c o m s u a e q u i p e m e n s n a e n f e r m a g e m não s u b i u m u i t o n a última dé-
d e c u i d a d o s primários d e saúde, c o m p a r t i l h a m a l g u n s cada.i'*' A vasta m a i o r i a dos parteiros é c o m p o s t a p o r
d o s a t r i b u t o s d o s e t o r p o p u l a r , p a r t i c u l a r m e n t e a ên- m u l h e r e s e, e m 2 0 0 3 , d e u m t o t a l d e 3 3 . 0 0 0 p a r t e i r o s ,
f a s e n a perturbação ( v e r Capítulo 5 ) - i s t o é, a s d i - somente 1 0 2 e r a m h o m e n s . A m a i o r i a dos enfer-

F i ^ r a 4 . 3 Um médico de família do National Health Service e sua paciente, em Londres, Reino Unido.
(Fonte; © S. Ran(<in. Reproduzida com permissão.)
110 Cecil G. H e i m a n

meiros trabalha n o setor hospitalar, e o restante, n a hospitalares e a u m e n t a r a m as listas d e espera p a r a


comimidade. Dentro dos hospitais, o s enfermeiros cimrgias e consultas ambulatoriais ( e m 1990, havia
passam muito mais horas n o cuidado direto d o pa- 7 1 0 . 3 0 0 p e s s o a s , o u 1 % d a população d o R e i n o U n i -
c i e n t e d o q u e q u a l q u e r m e m b r o d a h i e r a r q u i a médi- d o , e m U s t a s d e e s p e r a p a r a intemações e m h o s p i t a i s
c a e , n o e n t a n t o , têm u m a remuneração m a i s b a n c a e d o NHS).'^° Porém, p a r a a s p e s s o a s m a i s p o b r e s , o s
m e n o s prestígio q u e o s médicos. c u i d a d o s p r i v a d o s d e saúde têm s i d o há m u i t o t e m -
A s s i m c o m o a e q u i p e médica, o s e n f e r m e i r o s p o u m l u x o impossível d e p a g a r : n a I n g l a t e r r a , e m
são o r g a n i z a d o s e m s u a s próprias h i e r a r q u i a s p r o f i s - 1987, p o r exemplo, 2 7 % daqueles e m grupos
sionais. E m m u i t o s hospitais d oR e i n o U n i d o , esta o c u p a c i o n a i s profíssionais e s o m e n t e 1 % d o s t r a b a -
h i e r a r q u i a v a r i a d e d i r e t o r d e e n f e r m a g e m , até p a s - l h a d o r e s m a n u a i s não-qualificados e s t a v a m c o b e r t o s
s a r p e l o s vários g r a u s d e e n f e r m e i r o a d m i n i s t r a d o r p o r s e g u r o médico privado.'*®
sénior, e n f e r m e i r o e s p e c i a l i s t a clínico, c h e f e d e e n - H o j e e m d i a , há u m a sobreposição considerável
fermaria/administrador de enfermaria, enfermeiro de e m t e r m o s d o s p r o f i s s i o n a i s d e saúde q u e t r a b a l h a m
equipe, enfermeiro hstado e enfermeiro auxiliar/as- n o s c u i d a d o s médicos públicos e p a r t i c u l a r e s , e m b o r a
s i s t e n t e d e c u i d a d o s d e saúde. M u i t o s e n f e r m e i r o s a l g u n s médicos exerçam s o m e n t e a m e d i c i n a p a r t i c u -
h o s p i t a l a r e s e s p e c i a l i z a m - s e e m d i f e r e n t e s áreas d e l a r . Há d i v e r s o s h o s p i t a i s e clínicas p a r t i c u l a r e s e u m a
cuidado, como oftalmologia, ortopedia, trauma e série d e g r a n d e s f u n d o s d e saúde. Além d i s s o , c o m
emergência, c u i d a d o c o r o n a r i a n o o u i n t e n s i v o , p o s - exceção d a h o m e o p a t i a e , o c a s i o n a b n e n t e , d a a c u -
s u i n d o qualificações e x t r a além d o s e u t r e i n a m e n t o p u n t u r a , todas as formas de cura a l t e m a t i v a o u p o p u -
básico. Vários e n f e r m e i r o s e s p e c i a l i s t a s - e n f e r m e i r o lar pertencem a o setor privado. D a perspectiva d e
e s p e c i a l i s t a clínico - a s s u m e m u m p a p e l d e hgação alguns pacientes, a medicina particular oferece m a i s
entre o hospital e a comunidade; p o rexemplo, aque- controle sobre o t e m p o e a escolha d o t r a t a m e n t o
les q u e a t u a m n o s c u i d a d o s p a h a t i v o s o u c o m p a - q u a n d o e l e s estão d o e n t e s . A duração d a s c o n s u l t a s
c i e n t e s diabéticos o u o s t o m i z a d o s , o u n o a c o n s e l h a - é m a i o r n o s e t o r p r i v a d o , o q u e dá m a i s t e m p o p a r a
m e n t o de pacientes incontinentes. D e n t r o d a c o m u - explicações s o b r e diagnóstico, e t i o l o g i a , prognóstico
n i d a d e , a l g u n s e n f e r m e i r o s , também c o m q u a l i f i c a - e t r a t a m e n t o d a condição q u e o s a f U g e . Também há
ções e x t r a , t r a b a l h a m c o m o e n f e r m e i r o s d i s t r i t a i s , listas d e espera m a i s curtas p a r a consultas c o m espe-
o u t r o s c o m o p a r t e i r a s comunitárias, v i s i t a d o r e s d e c i a U s t a s o u p a r a p r o c e d i m e n t o s cirúrgicos, e o p a c i e n -
saúde, e n f e r m e i r o s d e e s c o l a s , e n f e r m e i r o s práticos t e t e m u m a opção d e e s p e c i a U s t a s e d e h o s p i t a i s . O
( a t u a n d o d e n t r o d e u m consultório d e m e d i d n a d e c o n t r o l e s o b r e o t e m p o e a opção d e e s c o l h a q u a n d o
família) o u e n f e r m e i r o s psiquiátricos comunitários s e está d o e n t e são privilégios d a q u e l e s q u e têm r e n d a
U g a d o s a h o s p i t a i s . A o contrário d o s E s t a d o s U n i d o s , s u f i d e n t e p a r a p a g a r o seguro-saúde p a r t i c u l a r o u
o papel crescente e i m p o r t a n t e d o s enfermeiros pra- d a q u e l e s q u e t r a b a U i a m p a r a g r a n d e s organizações
t i c a n t e s a i n d a não f o i f o r m a l m e n t e r e c o n h e c i d o e m q u e f o m e c e m c o b e r t u r a d e saúde a s e u s e m p r e g a d o s .
t e r m o s d e t u n a quaUficação específica. A p e s a r d i s s o , O N H S e o s s e t o r e s p r i v a d o s não são i s o l a d o s ;
e l e s t r a b a l h a m a t u a l m e n t e e m u m a série d e c o n t e x - c o m o e m o u t r a s áreas d o s i s t e m a d e c u i d a d o s d e saú-
tos, e m alguns casos realizando tarefas antes reaUza- d e , há u m fluxo considerável d e d o e n t e s e n t r e e l e s , e
d a s p e l o s médicos. m u i t o s médicos t r a b a l h a m e m a m b o s o s s i s t e m a s .
A l g u m a s d a s características d a profissão d e e n f e r -
m a g e m são d e s c r i t a s e m m a i s d e t a l h e s n o Capítulo 6 .
O sistema de cuidados
de saúde no Reino Unido
Cuidados médicos privados
P a r a pôr e m p e r s p e c t i v a o s i s t e m a d e c u i d a d o s
E s t a f o r m a d e c u i d a d o s d e saúde p r e c e d e u o d e saúde d o R e i n o U n i d o , a m a i o r i a d a s f o n t e s d i s p o -
N H S e hoje coexiste c o m ele.E l a cresceu r a p i d a m e n - níveis d e c u i d a d o s d e saúde o u a c o n s e l h a m e n t o são
t e d o final d a década d e 1 9 7 0 a o início d a década d e listadas n a Tabela 4.3.
1 9 9 0 , e n c o r a j a d a p e l o g o v e m o d a época. E m 1 9 7 1 , 'Agente d e cura", n a Tabela 4.3, refere-se a t o -
s o m e n t e 2 , 1 milhões d e p e s s o a s n o R e i n o U n i d o ti- dos aqueles que, f o r m a l o u i n f o r m a l m e n t e , oferecem
n h a m c o b e r m r a p o r seguro-saúde p r i v a d o ; e m 1 9 9 0 , conselhos e cuidado aos q u e sofi-em desconforto fisi-
e s s e número h a v i a t r i p l i c a d o , p a r a 6 , 7 milhões ( q u a - c o e / o u s o f t i m e n t o psicológico, o u a t o d o s q u e p r e s -
s e 1 2 % d a população d o R e i n o U n i d o ) m a s , e m t a m a c o n s e l h a m e n t o s o b r e c o m o m a n t e r a saúde e
1 9 9 9 , ele estabUizou-se e m cerca d e 1 1 % d a popula- u m s e n t i m e n t o d e bem-estar. Essa lista, assim, abrange
ção t o t a l . ' * ' O a u m e n t o i n i c i a l r e s u l t o u p a r c i a l m e n t e t o d o s o s três s e t o r e s d e c u i d a d o s d e saúde n a Grã-
d e c o r t e s n o N H S , q u e r e d u z i r a m o número d e l e i t o s Bretanha: informal, popular e profissional.
C u l t u r a , saúde e doença 111

T a b e l a 4.3
Agentes de cura profissionais, populares e informais no Reino Unido,

Médicos fiospitalares (NHS) Acupunturistas chineses e herbalistas


Médicos de família (NHS) Igrejas de cura das índias Ocidentais
Médicos particulares (hospitalares ou médicos de família) MaratMuts e obeah africanos
Enfermeiros (hospitalares, generalistas, escolares ou comuni- Igrejas e cultos de cura
tários) Congregações de cura cristã
Parteiras Igrejas e curandeiros espiritualistas
Visitadores de saúde Serviços de aconselhamento das igrejas
Assistentes sociais Capelães de hospitais e outros
Fisioterapeutas Oficiais de justiça encarregados do cumprimento de penas em
Terapeutas ocupacionais liberdade condicional
Farmacêuticos Repartições de aconselhamento ao cidadão
Nutricionistas Curandeiros complementares e alternativos
Optometristas (leigos e médicos)
Dentistas Acupuntura
Técnicos hospitalares Homeopatia
Auxiliares de enfermagem Osteopatia
Recepcionistas médicos Quiropraxia
Clínicas de saúde locais Radiônica
Psicólogos clínicos e psicanalistas Herbalismo
Conselheiros (de casais, crianças, gravidez, contracepção) Cura espiritual
Psicoterapeutas alternativos (Gestalt, bioenergética, terapia Hipnoterapia
do grito primai, etc.) Naturopatia
Terapeutas de grupo Massagem, etc.
Samaritanos e outros prestadores de aconselhamento por Adivinhos
telefone Astrólogos
Grupos de auto-ajuda Leitores de cartas de taro
Grupos de ioga e meditação Clarividentes
Vendedores de lojas de alimentos naturais Clariaudientes
Esteticistas Médiuns
Curandeiros da mídia (conselheiros em colunas de jornais e Consultores psíquicos
revistas, médicos da TV e do rádio) Quiromantes
Linha direta do NHS (para aconselhamento por telefone) Leitores da sorte, etc.
Curandeiros de minorias étnicas Conselheiros leigos de saúde (familiares, amigos, vizinhos,
Hakims muçulmanos conhecidos, trabalhadores voluntários ou de caridade,
Vaids hindus vendedores, cabeleireiros, etc.)

NHS, National Health Service.

ges, 4 6 6 ; parentes, 3 8 7 ; revistas o u livros, 162; f a r m a -


r Estudo d e caso: cêuticos, 108; e n f e r m e i r o s o f e r e c e n d o c o n s e l h o s infor-
mais, 102; e e n f e r m e i r o s f o r n e c e n d o conselhos profis-
F o n t e s d e a c o n s e l h a m e n t o s l e i g o s d e saúde e m sionais, 52. Entre os parentes e a m i g o s , o conselho das
esposas foi avaliado c o m o estando entre os melhores, e
Northampton, Reino Unido
o das m à e s e sogras, c o m o o pior. Os parentes h o m e n s
geralmente diziam "vá ao médico", s e m oferecer conse-
Elliott-Binns,-'' e m 1 9 7 0 , e s t u d o u 1.000 p a c i e n t e s que
lhos práticos, e raras vezes d a v a m c o n s e l h o s a o u t r o s
consultaram e m u m a clinica de medicina d e família eni
h o m e n s . O s c o n s e l h o s d e f o n t e s i m p e s s o a i s , c o m o re-
N o r t h a m p t o n , no Reino Unido. Perguntou-se aos pacien-
vistas f e m i n i n a s , livros d e m e d i c i n a caseira, jornais e te-
tes se eles h a v i a m r e c e b i d o p r e v i a m e n t e q u a l q u e r c o n -
levisão f o r a m avaliados c o m o os m e n o s confiáveis. Os
selho o u tratamento para seus sintomas, A fonte, o tipo
farmacêuticos, consultados por 1 1 % da amostra, forne-
e a confiabilidade do conselho f o r a m registrados, b e m
ceram os conselhos mais confiáveis. Quinze por cento
c o m o se o p a c i e n t e o h a v i a a c e i t a d o . O s r e s u l t a d o s re-
velaram que 9 6 % dos pacientes haviam recebido algum d o s a c o n s e l h a m e n t o s e r a m s o b r e r e m é d i o s caseiros, re-

conselho ou tratamento antes de consultar seu m é d i c o c o m e n d a d o s especialmente por amigos, parentes e pais.

d e f a m í l i a . C a d a p a c i e n t e t e v e u m a m é d i a d e 2,3 f o n t e s De m o d o geral, o s m e l h o r e s c o n s e l h o s d a d o s f o r a m
d e c o n s e l h o s , o u 1,8 e x c l u i n d o o a u t o t r a t a m e n t o ; i s t o é, para queixas respiratórias, e os piores, para d o e n ç a s psi-
2 . 2 8 5 f o n t e s , d a s q u a i s 1.764 e r a m f o n t e s e x t e r n a s e 5 2 1 quiátricas, t j m e x e m p l o da amostra de pacientes foi u m a
auto-aconselhamentos. Trinta e cinco pacientes recebe- comerciante que vivia e m u m vilarejo e que tinha uma
ram conselhos de cinco ou mais fontes; u m menino c o m t o s s e p e r s i s t e n t e . Ela r e c e b e u c o n s e l h o s d e s e u m a r i d o ,
a c n e f o i a c o n s e l h a d o p o r 11 f o n t e s . A s f o n t e s e x t e r n a s de u m a ex-funcionária de hospital, da recepcionista de
de c o n s e l h o s para a a m o s t r a f o r a m a m i g o s , 499; c ô n j u - u m m é d i c o e de cinco clientes: três deles r e c o m e n d a -
112 Cecil G. H e i m a n

81 D a v i s - F l o y d , R . E . ( 1 9 9 2 ) . B i r t h as a n A m e r i c a n R i t e o f P a s -
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s u l t o u o m é d i c o q u e i x a n d o - s e d e d o r l o m b a r . Ele n ã o h i s t o r y o f p s e u d o a n g i n a . I n : P h y s i c i a n s of W e s t e r n M e d i c i n e
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e m saúde, c o m o os livros de inedicina caseira e a televi-
são, e u m declínio n o u s o d o s r e m é d i o s caseiros tradici-
o n a i s ( e m b o r a eies ainda r e s p o n d e s s e m p o r 1 1 , 2 % d o s
conselhos de saúde). A l é m disso, o uso de conselhos de
farmacêuticos a u m e n t o u de 10,8% e m 1970 para 1 6 , 4 %
LEITURA RECOMENDADA
e m 1985, De m o d o geral, o e s t u d o s u g e r i u q u o , n o Rei-
no Unido, o autocuidado continua sendo a principal f o n - Sectors o f health care
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saúde populares no Remo Unido foram o maior recurso Press.
d o p ú b l i c o a f o n t e s impessoais de conselhos e informa-
ções e m saúde, incluindo a telemedicina ( c o m o a linha
F o l k a n d p o p u l a r sectors
direta d o NHS) para conselhos m é d i c o s e a internet para
informações médicas. Tanto a telemedicina c o m o a E i s e n b e r g , D .e t al. (1993). U n c o n v e n t i o n a l m e d i c i n e i n t h e
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