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fNDICE

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1 INTRODUÇÃO À COLEÇÃO Fl'SICA BÁSICA,


INTRODUÇÃO AO VOLUME 1, 23
19

1 INTRODUÇÃO
1

i Capftulo 1
1 GALILEU, OSURGIMENTO DOM~TODOCIENT(FICO

r Introdução, 29

Primeira Parte
O PROBLEMA DA QUEDA DOS GRAVES NO AR
1.1 A Observaçã'o, 32
1.2 O Problema, 32
1.3 A Elaboração do Modelo Físico, 33
1.4 A lmposiçá"o de Leis, Teorias ou Hipóteses de Trabalho ao Modelo Físico. 34
1.5· O Modelo Matemático, 35
1.6 As Previsc5es do Modelo Matemático, 36
1.7 O Teste.Experimental, 37
Segunda Parte
O PROBLEMA DO MOVIMENTO DOS PROJÉTEIS
l 1.8 A Observação, 40
1.9 O Problema, 40
1.1 O A Elaboração do Modelo F lsico, 40
1.11 A Imposição de Leis, Teorias ou Hipóteses de Trabalho ao Modelo Fisico, 40
1.12 O Modelo Matemático, 42
(
1. 13 As Previsões do Modelo, 44
1.14 O Teste Experimental, 45
Conclusão, 45
·~--------------------------------------..................................----~~

4.6.4 Comentários, 110


Questões Conceituais, 47 4.7 Problema Sugerido pela Invariância do Momento Linear de um Sistema Isolado, 112
Problemas. 50 4.7 .1A Pergunta, 112
4.7 .2O Modelo, 113
Capíto1lo 2 4.7 .3A Soluçâ'o do Problema, 114
NEWTON 4.7.4 AConfirmaçãoExperimental, 116
AS LEIS FUNDAMENTAIS DO MOVIMENTO . 4.8 CeJtro de Massa de um Sistema de Duas Partículas, 118
4.9 Referencial do Centro de Massa (RCM). 119
Introdução, 53 Conclusâ'o, 121
2. 1 A Vida e a Obra de Newton, 54 Exercícios, 122
2.2 A Estrutura dos Principia, 56 Questéies Conceituais, 127
2.3 Os Conceitos Newtonianos de Tempo, Espaço e Movimento,. 57 Problemas, 132
2.4 As Leis do Movimento, 59 Problema Experimental, 135
2.5 Critica à Formulação Newtoniana das Leis do Movimento, 61 Complemento 1 · (Trabalho n<? 1),136
Conclusão, 66 Complemento 2 (Trabalho n<? 21. 138
Questões Conceituais, 70
Capitulo 5
FORÇA; 2.ª e 3.ª LEIS DE NEWTON
·AS LEIS FUNDAMENTAIS 1
1ntrcx:luÇá'o, 1 39
Capítulo 3 5.1 Análise Qualitativa do Conceito de Força, 139
OS REFERENCIAIS INERCIAIS E A PRIMEIRA LEI DE NEWTON 5.2 Definição: Força Total, ou Resultante, que Age sobre uma Partícula
(2'! Lei de Newton), 141
Introdução, 73 5.2.1 Primeiro Enunciado, 141
3.1 O Modelo de Partícula, 73 5.2.2 Comentários, 141
3.2 Referenciais, 74 5.2.3 Segundo Enunciado, 143
3.3 Referenciais Possfwi11 e Impossíveis, 75 5.2.4 Cor:nentários, 143
3.4 O Papel Fundamental da Aceleração nos Referenciais Possíveis, 77 5.3 Força Total Média Durante um lntervato 6 t, 144
3.5 O Referencial Sol-Estrelas, 82 5.4 Impulso de uma Força-Relação entre Impulso e Variação do Momento, 145
3.6 A Partícula Isolada, 85 5.5 Importância da 2.a Lei de Newton, 147
3.7 Comportamento da Partícula Isolada no Referencial do Laboratório, 86 5.6 Açil'o e Reaçil'o (3.ª Lei de Newton). 148
3.8 Comportamento da Part lcula Isolada no Referencial Sol-Estrelas, 86 5.6.1 Problema Sugerido pela Interação das Partículas de um Par Isolado, 148
3.9 Definição: o Referencial Inercial (Primeira Lei de Newton), 87 ~ 5.6.2 3.ª Lei, 148
Conclusão: Comentários sobre a Definição do Referencial Inercial, 88 5.6.3 Comentários, 149
Questc!Jes Conceituais, 89 5.7 Forças Individuais de Interação, 151
Problema. 90 r 5.8 C!lmposiçâ'o das Forças, 153
5.8.1 Problema, 153
5.8.2 Teste Experimental, 154
Capítulo 4 5.8.3 Principio de Superposição, 154
MASSA INERCIAL. CONSERVAÇÃO DO MOMENTO LINEAR 5.8.4 Comentários, 154
5.9· As 1nterações Fundamentais, 156
Introdução, 91 5.9 .1 A 1nteração Gravitacional, 156
Trabalho Experimental n.0 1, 92 5.9.2 A Interação Eletromagnlltica. 157
Trabalho Experimental n.º 2, 94 5.9.3 A Interação Forte, 158
4.1 Resumo dos Resultados Experimentais, 95 5.9.4 A Interação Fraca, 158
4.2 Lei das Variações das Velocidades numa Interação, 97 5.9.5 Intensidade· Relativa das Quatro Interações, 159
4.2.1 Enunciado, 97 Conclusão, 159
4.2.2 Comentários, 98 Problemas Resolvidos, 160
4.3 Razão entre as Acelerações. 99 Exercícios, 162
4.4 Massa Inercial, 103 Questl5es Conceituais, 164
4.4.1 Análise de Experiências de lmeração, 103 Problemas, 166
4.4.2 Definição, 105
4.4.3 Comentários, 106 APLICAÇÕES
4.5 Comparação das Massas Inerciais pela Balança, 106
4.6 Conservação do Momento Linear. 108 1· Capitulo 6
4.6.1 Algo que se Conserva Invariante numa.Interação, 108 AS FORÇAS USUAIS EM MECÂNICA DA PARTÍCULA
4.6.2 Momento Linear; Definiçã'o, 109
4.6.3 Enunciado da Lei de Conservação do Momento Linear, 109 Introdução, 171
6.1 Interação entre Duas Partlculas, no Caso em que a Massa de Uma Delas é Muito Maior Capitulo 8
que a da Outra, 171
6.2 O Campo Gravitacional Terrestre, 174 CONSERVAÇÃO DA EN.ERGIA
6.2.1 O Conceito de Campo, 174 1nt redução, 289
6.2.2 O Campo Terrestre Restrito. Peso, 175 8.1 1nterações Elásticas, 289
6.3 Forças de Deformação, 178 8.1.1 Exemplo;, 289

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6.3.1 Problema Sugerido por uma Experiência de Equil 1brio, 178 8.1.2 Variação da Energia Potencial entre Duas Configurações do Sistema, 291
6.3.2 Forças entre Moléculas de um Sólido, 179 8.2 Configurações de Referência para a Energia Potencial, 297
6.3.3 Análise Microscópica do Equil 1brio, 180 8.3 Gráficos e Poços de Potencial, 300
6.4 Vínculos Impostos a um Corpo, 184 8.4 Relação entre Força e Energia Potencial, 305
6.5 Forças de Tração, 185 8.5 Energia Cinética e Energia Potencial na Interação Unidimensional Elástica de Duas Par-
6.6 Tensão de um Fio, 189 tículas de Massas Comparáveis, 307
6.7 Forças de Contacto no Caso de Não Haver Atrito entre as Superfícies em Contacto, 191 8.5.1 Energia Cinética do Sistema em um Instante Dado, 307
6.8 Atrito Sólido, 194 8.5.2 Variação da Energia Potencial de Interação entre Duas Configurações do Sistema, 309
6.8.1 Experiência, 194 Conclusão, 312
6.8.2 Análise Qualitativa do Fenômeno, 195 Problemas Resolvidos, 314
6.8.3 Atrito Estático, 198 Exefcícios, 318
6.8.4 Atrito de Deslizamento, 199 Questões Conceituais, 323
Trabalho Experimental, 199 Problemas, 326
6.9 Atrito Viscoso, 200
6.9.1 Evidência Experimental, 200 APLICAÇÕES 2
6.9.2 Fluidos com Alta Viscosidade, 200
6.9.3 Fluidos com Baixa Viscosidade, 201 Capitulo 9
6.9.4 Velocidade Limite, 201 COLISÕES
6.10 Volta ao Problema do Plano Inclinado, 202
6.10.1 O Modelo, 203 Primeira Parte
6.10.2 Previsões do Modelo, 203 CONSIDERAÇÕES GERAIS
6.10.3 O Teste Experimental, 204
Introdução, 337
Conclusão, 204 9.1 Características Fundamentais de uma Colisão, 338
Problemas Resolvidos, 205 9.1.1 Forças de Interação, 338
Exerclcios, 215 9.1.2 Momento Total do Sistema, 341
Questões Conceituais, 218 9.1 .3 Posições e Velocidades, ~
Problemas, 225 9.1.4 Energia Cindtica Total. Colisões Elásticas e lnelásticas, 343

Segunda Parte
AS LEIS FUNDAMENTAIS 2 COLISÕES ELÁSTICAS
Introdução, 345
Capltulo 7 9.2 As Equações Fundamentais, 346
TRABALHO E ENERGIA 9.3 Colisões.Elásticas Unidimensionais - Solução Analítica, 347
9.4 Colisões Elásticas Unidimensionais -Solução Gráfica, 348
9.4.1 No Referencial do Centro de Massa (RCMI, 348 ·
Introdução, 239 9.42 No Referencial do Laboratório, 350
7.1 Conceito de Energia Cinética, 240 9.5 Colisões Elásticas Bidimensionais ....'.Solução Analítica, 353
72 Conceito de Energia Potencial, 240 9.6 Colisões Elásticas Bidimensionais - Solu~«io pelo L.."' 'Tia das Velocidades, 356
7.3 Como se Transfere, ou se Transforma, a Energia, 242 9.6.1 A Colisão no Referencial do Centro de Massa (RCM), 356
7.4 Trabalho de uma Força. Exemplos, 243 9.6.2 A .Colisão no Referencial do Laboratório, 358
7~ Trabalho de uma Força. Definição, 251 9.7 Relações Notáveis no Espalhamento Elástico, 359
7B Sinal do Trabalho: Interpretação Física. Energia Cinética, 9.7.1 Razão entre as Massas do Projétil e do Alvo, 359
7~ Trabalho das Forças de Atrito, 256 252 Valor Máximo de 6 rio Caso em que k > 1, 360
· 9.7.2
7~ Teorema do Trabalho e da Energia Cinética, 261 9.7.3 Caso em que a Massa do Projétil é Igual à Massa do Alvo, 360
7~ Exemplos, 261 9.7.4 Cálculo das Velocidades Depois da Colisão, 361
7.10 Potência, 267 9.8 Espalhamento Elástico - Diagrama dos Momentos, 363
Problemas Resolvidos, 269
Exercícios, 274 Terceira Parte
.luestões Conceituais, 280 COLISÕES INELÁSTICAS
Problemas, 282
Introdução, 364
9.9 Coeficiente de Restituição, 365
9.10 Colis6es Unidimensionais lnelásticas, 365 AS LEIS FUNDAMENTAIS 3
Problemas Resolvidos, 367
Exercícios, 371 Capitulo 11
Questões Conceituais, 375 MOMENTO ANGULAR
Problemas, 376 1ntrodução, 465
11. 1Momento Angular de uma Partícula em Relação a um Ponto, 466
Capitulo 10 11.1.1 Definição, 466
OSCILADOR HARMÔNICO 11 .1.2Componentes Cartesianas, 467
11 .1.3Expressão do Momento Angular em Coordenadas Polares, 467
10.1 Introdução: Osciladores-'- Osciladores Lineares, 383 11 .2Conservação do Momento Angular de uma Partícula em Relação a um Ponto, 468
10.2 Osciladores Lineares - Princípio de Superposição, 388 112.1 Partícula Isolada, 468
10.3 O Modelo Matemático dos Sistemas Lineares, 394 11.2.2 Partícula Submetida a uma Interação Central, 468 .
10.4 O Oscilador Harmónico, 398 11.3 Conseqüência da Conservação do Momento Angular de uma Partícula: Lei das ·Areas, 471
10.4.1 O Modelo, 398 11.4 Variação do Momento Angular de uma Partícula em Relação a um Ponto - Torque de
10.4.2 As Previsões do Modelo, 399 uma Força, 474 ·
10.4.3 Interpretação das Soluções. Amplitude, Fase, Período, Freqüência, 403 11.5 Relação entre Momento Angular e Velocidade Angular, 481
10.4.4 Energia e Potênçia no Oscilador Harmônico, 411 11.6 Energia Associada a uma Partícula numa Interação Central, 484
10.4.5 Variações da Energia Potencial e da Energia Cinética, 411 11.7 Discussão da Equação da Energia, 486
10.4.6 Valores Médios da Energia Cinl!tica e da Energia Potencial, 413 Conclusão, 492
10.4.7 Potência, 4'13 Problemas Resolvidos, 494
10.4.8 O Teste Experimental, 415 Exercícios, 498
10.5 Osciladores Não Lineares: A Aproximação Harmônica para Amplitudes Pequenas, 419
Questões Conceituais, 502
10.6 Osciladores Anarmõnicos, 424 Problemas, 504
Conclusão, 425
Problema Resalvido, 426
Exercícios, 430 A SINTESE NEWTONIANA
Questões Conceituais, 435
Problemas, 438 Capítulo 12
Complemento 1 A GRAVITAÇÃO UNIVERSAL.
Equações Diferenciais Lineares Homogêneas de 2.a Ordem, 446
Cõmpl_einento 2 A GÊNESE DA TEORIA
O Oscilador Unidimensional Amortecido, 448 Introdução, 513
1 Experiência, 448 12.1 Os Passos Preliminares, 514
2 Estudo Analítico do Movimento, 448 12.2 HipÓtese Fundamental ("Lei da Gravitação Universal"), 516
2.1 A Lei de Força, 448 12.2.1 Enunciado, 516
2.2 Equaçio do Movimento, 449 12.2.2 Comentários, 516
2.3 Solução Oscilatória, 449 12.3 O Campo Gravitacional Terrestre, 517
2.3.1 Variaçio da Amplitude, 451 12.3.1 Intensidade do Campo, 517
2.3.2 Freqüência do Oscilador Amortecido, 451 12.3.2 Energia Potencial de Interação Gravitacional, 518
2.3.3 Energia Absorvida pelo Amortecimento, 452 12.3.3 Ca.mpo Terrestre Restrito, 518
2.3.4 Fator Ode um Oscilador, 453 12.4 Comparação das Massas Gravitacionais pela Balança, 519
2.4 Solução Nio Oscilatória, 454 J2.5 Lei da Proporcionalidade entre Massa 1nercial e Massa Gravitacional, 520
2.4.1 Solução Geral, 454 12.6 Postulado da Identidade entre Massa Inercial e Massa Gravitacional, 520
x
2.4.2 As Condições Iniciais são x 0 =A. 0 =O, 454 12.6.1
12 .6.2
Enunciado, 520
Conseqüências, 520
2.4.3 As Condições Iniciais são x =O; Í< = v 0 , 455
2.4.4 Amortecimento Crítico, 455
Complemento 3 CONSEQÜÊNCIAS DA TEORIA
O Oscilador Forçado, 458 1. A SOLUÇÃO DOS PROBLEMAS SECULARES
3.1 Resultados Experimentais, 458 12.7 O Argumento da Centrifugação, Contra o Movimento Diurno, 521
3.2 O Oscilador Harmônico Forçado, 458 12.8 Aceleráção da Queda da Superfície da Terra, 523
3.2.1 Equação do Movimento, 459. 12.9 O Pêndulo Simples, 524
3.2.2 Solução da Equação do Movimento, 459 12.10 A Sol~ção de Primeira Aproximação para as Órbitas dos Planetas: Órbitas Circulares, 525
3.3 Influência do Amortecimento sobre o Oscilador Forçado, 460 12.11 A Lei das Áreas (2.ª Lei de Kepler), 526 ·
3.3.1 Transiente e Regime Permanente, 460 1:2.12 As Órbitas dos Planetas (1.ª Lei de Kepler), 526
3.3.2 Variação de Amplitude com a F.reqüência, Imposta: Ressonância, 461 12.13 A Terceira Lei de Kepler, 529
3.4 Vantagens e Inconvenientes da Ressonância, 462 12.14 As Marés, 530 ·
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12.16
CCJNS!::QUÊ~~CIAS DA TEORIA
2. AS PREVISÕES DE FATOS NOVOS
Atraçio Gravitacional e Peso, 536
• 5.2
6.3
6.4
6
Velocidade Vetorial Instantânea, 624
Componentes da Velocidade Instantânea, 626
Velocidade no Movimento Circular, 626
Aceleração Vetorial, 628
12...16 Messa dos Planetas, 538 6.1 Odógrafo de um Movimento, 628
12.17 A Descoberta de Novos Planetas, 539 6.2 Aceleração Vetorial Média, 629
12.18 Satelização, 541 6.3 Aceleração Vetorial Instantânea, 630
Concluslo, 549 6.4 Componentes da Aceleração Instantânea, 633
Problemas Resolvidos, 553 7 Posição e Velocidade em Coordenadas Polares, 634
Exerc(cios, 658 7 .1 Sistema de Coordenadas Polares. Posição de urna Part (cuia, 634
Questc5es Conceituais, 560 7 .2 Componente Radial e Componente Transversa da Velocidade, 635
Problemas; 562 8 Componentes Tangencial e Normal da Aceleração, 636
Colllplemento 1 9 Mudanças de Referenciais - Definições e Propriedades, 638
Equação de uma Cônica em Coordenadas Polares, 567 9.1 Posição do Problema: 638
Complemento 2 9.2 Movimento de (S') em (S) - Caso da Translação, 639
Interação de Duas Partículas Não Necessariamente isoladas: 9.3 Propriedades do Movimento de Translação, 640
9.3.1 Trajetória em (S) dos pontos de (S'), 640
Aceleração de uma Partícula em Relação à Outra. 570 9.3.2 Velocidade em (S) dos pontos de (S'), 640
9.3.3 Aceleração em (SI dos pontos de (S'), 641
APÊNDICES
9.4 Escolha da Base (Se'~·) em (S'), 641
Apêndice 1 1O Mudanças de Referenciais - Caso da Translação: Problema da Trajetória, 642
CINEMATICA ESCALAR 11 Mudanças de Referenciais - Caso da Translação: Problema da Velocidade, 645
1 lntroduçfo, ·573 12 Mudanças de Referenciais - Caso da Translação: Problema da Aceleração, 646
2 Objetivo de Cinemática Escalar,. 673 13 Movimento dos Projt!teis, 647
3 Poslçfo ao Longo da Trajetória (Posição Escalar), .674 1
13.1 Posição do Problema, 647
4 Velocidade Escalar, 576 ~ 13.2 Referenciais (S) e (S') - Movimento em (S'I. 647
4.1 Análise Detalhadado Gráfico Posição-Tempo, 575 13.3 Movimento no Referencial Terrestre: Trajetória, El48
4.1.1 Velocidade Escalar Média, 576 13.4 Movimento no Referencial Terrestre: Velocidade, 648
4.1.2 Velocidade Escalar Instantânea, 577 13.5 Tempo de Vôo e Alcance sobre o Plano Horizontal que Passa pela Origem, 649
4.2 Representaçlo Gráfica da Função v (t), 678 13.6 Flecha Acima do Plano Horizontal que Passa pela Origem, 650
4.3 Passagem Inversa do Gráfico (v, ti para o Gráfico (s, t), 580 14 Generalizaçio do Problema do Projt!til, por Considerações de Simetria, 650
5 Aceleração Escalar, 585 14.1 EquaçõesGeraisdoMovimento, 650
6.1 Análise do Gráfico Velocidade-Tempo: Aceleração Escalar Mlldia; Ae1tleraçlo Escalar 14.2 lnverslodo Tempo, 651
lnstant6nea, 585 14.3 Tempo de Vôo, Alcance e Flecha em Relação a Qualquer PI ano que Passa pela Origem, 652
5.2 Representaçlo Gráfica da Função a (t), 586 Problemas Resolvidos, 655
5.3 Passagem 1nversa do Gráfico (a, ti para o Gráfico (v, t), 586 Exercícios, 660
6 · Exemplos de Movimentos, 588 Questões Conceituais, 664
6.1 Movimento Uniforme, 688. Problemas, 668
6.2 Movimento Uniformemente Variado, 588
6.3 Movimento Circular, 591 iNDICE REMISSIVO,. 679
6.3.1 Posiçio, Velocidade e Aceleração Angulares, 591
6.3.2 Movimento Circular Uniforme, 592
6.3.3 Movimento Circular Uniforme·mente Variado, 593 SiMBOLOS UTILIZADOS, 685
· 6.3.4 Exemplos de Movimentos Circulares, 593
Problemas Resolvidos, 594
Exerc(cios, 601
Ouestc5es Conceituais, 609
Problemas, 6l 1
Problema Experimental, 618
Apêr.dic.o 2
CINEMÁTICA VETORIAL E O MOVIMENTO DOS PROJÊTEIS
1 1ntroduçio, 621
2 Objetivo da Cinemática Vetorial, 621
3 Vétorde Posição de uma Partícula, 621
4 Trajetória da Partícula, 622
5 Velocidade Vetorial, 623
5.1 Velocidade Vetorial Média, 623
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INTRODUÇÃO À COLEÇÃO FISICA BASICA

O presente volume é o primeiro de uma série de quatro. A coleção


completa, cujos t(tulos são:

VoliJme 1 MecAnica 1
Volume li MecAnica li e f(sica Térmica
Volume Ili Eletricidade e Magnetismo
~
Volume IV Eletromagnetismo e Otica

constitui um curso de f.ísica Básica destinado aos alunos dos centros têc-
nicos e cient(ficos das nossas Universidades.
O conteúdo do curso, bem como a metodologia escolhida decor-
rem logicamente de seu objetivo: o que entendemos por Física Bêsica
para a Universidade? Em poucas palavras, entendemos que um curso, des·
tinado a integrar-se no ensino fundamental em Úm área tio complexa e
diversificada quanto a que se costuma rotular como Ciência e Tecnologia,
dever,ia, em primeiro lugar, preocupar-se com a formaçã'o intelectual do
estudante, deveria contribuir para o desenvolvimento do raciocínio abs· .
trato (mais especificamente, hipotético-dedutivo), do julgamento cr(tico
e da capacidade criativa, atributos relativamente raros nos alunos que in·
gressam na Universidade.
Nem que seja por razões dé bom senso, não acreditamos que um
curso de Física Básica possa, sozinho, incumbir-se da tarefa proposta,
com alguma chance de sucesso; mas desde que a Universidade nlo perca

19
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tivista e da Física quântica sem antes ter uma compreensão profunda,


tanto em nível conceituai cama operacional, da Física clássica. A assimi-
·de vista o caráter essencialmente humanista da sua ·missão, óeve ser pos· lação desses conceitos requer tempo: achamos preferível evitar a disper-
sível encontrar, entre as disciplinas básicas, consonâné:ias e convergências sã'o representada por incursões em áreas que poderiam tão-somente ser
que permitam, graças à compreensão de todos, atingir o objetivo comum. "cob~rtas" por largas pinceladas, com o risco muito real da incompre·
A contribuição que quisemos oferecer ao esforço coletivo para a ensão ou, pior ainda, de uma pseudocompreensã'o distorcida.
boa formação dos nossos universitários concretiza-se na tentativa de De qualquer maneira, achamos que o contato intelectual CO!fl as
oferécer ao estudante uma sólida cultura geral em Física clássica. grandes correntes do pensamento científico que caracterizam os séculos
Já definimos assim o conteúdo do curso. Em princípio, não ultra· XVII, XVI li e XIX será suficiente para que as novas gerações de enge-
passará os limites da Física iniciada com Galileu e Newton, desenvolvida nheiros, físicos, químicos, matemáticos... formados nas nossas Univer·,
e enriquecida por Huygens e.os Bernovilli, por Lagrange e Laplace, por sidades escapem aos perigos da formação monoliticamente especializada.
. Clausius Gibbs e Helmholtz, por Fourier e Fresnel, por Ampere, Gauss, Esse tipo de formação pode ter sua utilidade como elemento da linha de
Faraday, por Maxwell, por Rayleigh, para citar somente alguns nomes na montagem do complexo científico, técnico ou mesmo social que alimen-
plêiade de físicos e matemáticos que elaboraram, no decorrer de três ta os destinos de uma nação. No entanto, por ser geneticamente pouco
séculos, essa Summa de saber que chamamos de Física clássica. permeável a uma integração horizontal com outros modos de pensar ou
No entanto, todas as vezes que se fizer necessário, assinalaremos os de agir, por se distanciar cada vez mais do tronco comum constituído pe-
limites dessa mesma Física clássica. Em primeiro lugar porque, em certas la herança intelectual cujo paciente acúmulo constitui a nossa cultura, a
oportunidades, a Natureza nega-se obstinadamente a validar os modelos especialização exacerbada tem pequena contribuição a oferecer para a
chamados clássicos, por mai.9r que seja a sofisticação a que possamos che· formação dos líderes, dever precípuo da Universidade e em muitos casos
gar na tentativa de "salvar o fenômeno". Exemplos desses impasses sã'o única justificativa de sua existênc"ia.
bem· conhecidos: são eles que obrigaram a Física a procurar novos cami· Em resumo, quisemos oferecer uma exposição razoave·lmente
nhos, com a Relatividade restrita, depois com a Relatividade geral, um completa da Física clássica em nível introdutório..
pouco mais tarde com a Física quântica. Foram esses sintomas de impo- A metodologia, acreditamos, tem uma certa originalidade. Ao pro-
tência da Física clássica que originaram a profunda mudança iniciada nos curarmos uma viga mestra que possa tornar mais cperente, mais consis·
últimos anos do século passado, mudança essa caracterizada, em particu- tente, mais solidamente estruturada a exposição de tópicos tão diversos
lar, pela tomada de consciência da importância da Física não somente co- quanto a mecânica da partícula e os fenômenos de difração, por exem-
mo instrumento do conhecimento da Natureza, mas também como ele· plo, pensamos que o melhor seria nos escudarmos no tão falado e infeliz·
menta essencial do próprio pensamento filosófico. mente tão pouco conhecido (ou praticado) método científico.
Em segundo lugar, acreditamos que, se quisermos desenvolver o O que· caracteriza o método científico em F (sica é a construção de
senso crítico dos nossos estudantes, não devemos perder a oportunidade
modelos matematizáveis. A insistência explícita, consciente; na elabora·
de expor as falhas de qualquer corpo do conhecimento humano. Deve·
ção de modelos físicos e na sua associação com os modelos matemáticos
mos em particular evitar apresentar esse conhecimento como algo fecha-
correspondentes constitui o leit-motiv do curso; nisto, acreditamos, resi-
do, acabado; devemos insistir sobre o fato de que a prócura da verdade
de a originalidade metodológica a que nos referimos.
(seja qual for o conteúdo subjetivo dessa verdade) não pára nem parará
nunca. E a Física certamente não constitui exceção a essa regra. O nível do curso é o que acreditamos adequado e aconselhável às
No entanto, uma co.isa é abrir janelas, quando a oportunidade se nossas Universidades. Não pretendemos elaborar um curso fácil, ao alcan-
apresentar, sobre campos certamente férteis mas· estranhos à Física clás- ce de qualquer aluno universitário . .. Acreditamos que um domínio ra-
sica. Outrà coisa seria tentar enveredar por esses novos caminhos. Resis- zoável dos conceitos (mais do que do formalismo) da chamada física_ clás-
timos a essa tentação. Este curso não inclui os (já) costumeiros Elemen· sica elementar exige grande esforço e um trabalho prolongado e paciente.
tos de. Relatividade e Introdução à Física Moderna. A razão é que acredi· Acreditamos que os problemas mais árduos irão requerer uma maior per-
tamos ser extremamente difícil, para não dizer impossível, estudar edis- sistência dos alunos. Porém, sabemos que, uma vez resolvidos, teremos
cutir com algum proveit<;> os conceitos altamente abstratos da Física rela- conseguido parte do nosso objetivo: convencer esta juventude de que as

20 21
.. ·,...;=.x=-.~;.;.;..;~.:.•;.::..t+:-~;;:",,..-~.:.--·,_ =,-c--;;:.:@Z""'"<;.O:n;;.>'~.,

INTRODUÇÃO AO VOLUME 1
coisas do espírito, a formação honesta do homem e do cidadão, muda-
ram muito pouco desde o século de Péricles, e que os pequenos esforços,
os "facilitários" intelectuais somente podem preparar futuras falências de
caráter.
Os capítulos terminam com problemas resolvidos e com séries de
exercícios, de questões conceituais e de problemas. Os exercícios são
geralmente aplicações imediatas, ou quase imediatas, da teoria desenvol-
vida no capítulo correspondente. São destinados a firmar os conhecimen-
tos (na terminologia de Bloom). As questões conceituais exigem muito
mais, desde a compreensão dos conceitos até a análise e a avaliação de
certas situações propostas. Aconselhamos o professor a discutir essas
questões em sala de aula. Os problemas requerem tudo o que precede -
pelo menos os mais difíceis - e ao mesmo tempo um domínio razoável
do formalismo matemático. Este não ultrapassa o nível exigido nos
cursos de cálculo e de álgebra linear introdutórios.
A elaboração deste curso d.eve muito a muitos. Em primeiro lugar
a meus colegas do Departamento de Física da PUC, Rio de Janeiro, onde O primeiro volume do curso de Física Básica é uma apresentação
foi iniciado e - em parte - testado. Em segundo lugar a meus colegas do da mecânica da partícula. A mecânica dos sistemas de muitas partículas
Instituto de Física da UNICAMP, Campinas (SP), onde prossegui a elabo- (sólidos, sistemas de massa variável e fluidos) será tratada no volume li.
ração do texto, num período de licença que nos foi concedido pela Os dois primeiros capítulos do livro constituem uma intrbdução. O
PUC/RJ. capítulo 1 resume a contribuição de Galileu para a elaboração de uma
nova Física, realçando a extraordinária itnportância dessa contribuição
Evitamos citar nomes. São muitos e nos arriscaríamos a pecar por
para a epistemologia científica *. O capítulo 2 apresenta a obra monu-
omissão. A todos agradecemos sinceramente, como agradecemos também mental de Newton, os Principia, ponto de partida, fonte de inspiração e
aos estudantes com quem tivemos o prazer de discutir, conceito após referência necessária e obrigatória para a mecânica da partícula.
conc~ito, o conteúdo deste curso e que nos ensinaram, dia após dia, a en- Os nove capítulos seguintes (capítulos 3 a 11) desenvolvem as leis
sinar um pouco melhor. As críticas, as discussões e os incentivos nos fo- fundamentais da Dinâmica, desde as leis·de Newton e a conservação do
ram particularmente preciosos. momento linear (capítulos 3, 4, 5) atéa conservaÇão do momento angular
Agradecemos também o trabálho anônimo dos que contribuíram (capítulo 11), passando por trabalho, energia e sua conservação (capí-
para a boa apresentação dos livros: datilógrafas, desenhistas, diagramado- tulos 7 e-8).
res, compositores, revisores ... Procuramos dar a esse desenvolvimento uma seqüência lógica: é
A Editora Campus emprestou à realização gráfica e à composição importante que o estudante, nesse primeiro contacto com a Física, come-
dos textos sua reconhecida competência. · ce a apreciar a harmoniosa ordenação dos conceitos fundamentais.
A exposição das leis fundamentais é interrompida, duas vezes, por
capítulos de aplicações. O capítulo 6 trata das forças usuais encontradas
nas situações comuns, algumas delas corriqueiras, que se apresentam no.

* O leitor interessado na evolução do pensamento cientifico, desde a Grécia antiga até a revo-
lução cientifica do século XVII, poderá consultar, do mesmo autor: A Glnese do M'tado
Pierre Lucie, fevereiro de 1979 Científico, Ed. Campus, Rio, 1978.

23
22
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!

dia-a-dia na casa, na rua ou no laboratório. O capítulo 9 estuda colisões e eviden_temente tarefa do professor, mas, de novo, a experiência nos mos-
o capítulo 10, o oscilador harmônico. Esses capítulos de aplicações, trou que, cedo, muitos estudantes aprendem a escolher boas questões
claramente destacados na montagem gráfica, poderão ser considerados que eles gostariam de discutir em sala. Por questão de fidelidade à filo-
como pausas necessárias à assimilação e ao entendimento dos conceitos sofia do curso, recomendamos que em cada problema seja claramente
apresentados nos capítulos que os precedem. explicitado o modelo físico, com seus parâmetros relevantes, suas hi-
O estudo dos capítulos 3 a 11 terá assim familiarizado o estudante póteses, etc... e que se realce a correspondência do modelo matemático
com as leis de Newton e as três leis de conserv.ação da mecânica clássica com o modelo físico assim construído. Recomendamos também insistir
(momento linear, energia, e momento angular}. Podemos resumir o con- sobre o fato de que a resposta encontrada (e que pode ou não coincidir
teúdo desses capítulos como uma exposição das regras do jogo, válidas com a resposta indicada no final do enunciado) não é uma solução do
qualquer que seja o "jogo", isto é, qualquer que seja o tipo de interação problema antes de ser testada pela experiência, que tanto pode confirmar
(com as restrições evidentes para o eletromagnetismo e os sistemas quân- como infirmá-la.
ticos). Por razões óbvias, não é possível pedir à experiência a confirmação
A adição a essas regras de uma hipótese (a "lei" da gravitação da validade dos modelos elaborados em todos os problemas propostos.
universal) e de um postulado (identidade da massa inercial e da massa Em certos casos, porém, a montagem experimental é simples, estando ao
gravitacional) permite completar o quadro de uma teoria física: a Teoria alcance dos laboratórios mais pobres. Os problemas correspondentes são
da Gravitação. Essa síntese, que nós devemos a Newton, é o objeto do assinalados como problemas experimentais. Recomenda~os que sejam
capítulo 12. propostos, discutidos e que seja realizado o teste experimental. Mais uma
O livro termina com dois ~pêndices: o primeiro apresenta a Cine- vez, porém, achamos importante que os estudantes tenham consciência.
mática escalar; o segundo, a Cinemática vetorial. A colocação da Cinemá- de que não se trata de problemas "diferentes". O que os diferencia dos
tica num aparente segundo plano é pouco usual em textos de Física outros é tão-somente, repetimos, a facilidade de montagem da expe-
básica. Optamos por essa apresentação em primeiro lugar porque, a rigor, riência de controle.
a Cinemática estaria melhor situada, na nossa opinião, num curso de Um livro como este, na sua primeira edição, não pode ser isento de
cálculo do que num curso de Física. Em segundo lugar, a nossa experiên- erros. Esperamos ter incorrido em poucos erros graves; confiamos tam-
cia de ensino nos convenceu de que iniciar o curso de Física universitária bém na boa vontade dos npssos colegas para-nos comunicar as críticas e
por Cinemática desestimula muitos estudantes. Preferimos optar por uma as sugestões que eles julgarem procedentes. Urnas e outras serão acolhidas
"diluição" da Cinemática ao longo do curso: por ocasião de cada tópico com gratidão.
ensinado, ou de cada ·problema, vamos buscar a ferramenta necessária,
quando preciso for. Essa posição é evidentemente pessoal e conió tal
sujeita a críticas. De qualquer maneira, e qualquer que seja a opção feita.
pelo professor que ministra o curso, a Cinemática está disponível, com
1,.1m nível de trata·mento que presumimos adequado.
Certos capítulos são seguidos de Complementos. Em certos casos
trata-se de indicações, ou conselhos, para montagens experimentais; em
outros estão expostos certos tópicos cuja importância foi considerada
secundária, embora possam interessar estudantes mais avançados; há
finalmente um complemento (no capítulo 10) em que se resume a teoria
das equações diferenciais lineares.
Todos os capítulos, com a exceção parcial dos três primeiros,
oferecem problemas resolvidos e listas razoavelmente extensas de ques-
tões conceituais, de exercícios e de problemas. Para muitos dos proble-
mas, a resposta é indicada a seguir. Aconselhamos a discussão em sala de
aula, com participação ativa do estudante, de certas questões conceituais
e de um número limitado de problemas. A escolha destes e daquelas é Pierre Lucie, fevereiro de 1979

24 25
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Capitulo 1
GALILEU
1 Capítulo 1
GALILEU
O SURGIMENTO DO MeTODO CIENTÍFICO, 29 r O SURGIMENTO DO Mt:TODO CIENTfFICO

Capitulo 2
1
NEWTON
/JiS LEIS FUNDAMENTAIS DO MOVIMENTO, 53 j
~
1

INTRODUÇÃO

As duas obras mestras de Galileu são o Diálogo sobre os dois prin-
}
í
cipais sistemas do mundo, publicado em 1632, e os Discursos sobre duas
novas Ciências, de 1638. *
O Diálogo é o ponto culminame de uma luta de mais de vinte anos
contra o mito aristotélico perpetuado pela Escola medieval e pelo apoio
da Igreja.católica. O desfecho dessa lut.a.deu-se no famoso processo de
1633, que terminou com a condenação de Galileu à residência forçada, e
v!giada, pela Inquisição~
Ao refutar os argumentos contra o copemicanismo, Galileu tinha
sido levado a esboçar algumas premissas mecânicas novas. Embora ainda
imprecisas, as "leis" enumeradas - conservação do movimento horizon-
tal, composição dos movimentos - foram também utilizadas por Galileu
na obra que assinala o início da Física dos tempos modernos, e na qual
se encontra a gênese do método científico: os Discursos sobre duas no-
vas Ciências, escritos no retiro de Arcetri, jã no final da vida.
Nos Discursos, Galileu sistematiza o estudo dos fenômenos natu-
rais: esse estudo deixa de lado, finalmente, as conotações medievais,
para transformar-se numa investigação científica.
Sendo extremamente importante que entendamos o mecanismo
de base dessa investigação, resumiremos os passos sucessivos de Galileu
no estudo dos problemas que escolheu: são os passos que daremos, no
·estudo dos nossos.

,l· *Ver, do mesmo autor: A Glflflse do Mltodo Cientifico, Editora Campus, Rio, 1978. (As refe-
rências a esse texto serão assinaladas pela sigla GMC.)

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Em primeiro lugar, há a observação do fenômeno.


A observação suscita geralmente uma pergunta que caracteriza a
r L-;is-T;o;:a;-Hi~~;;- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - ----1
1 i i i 1
existência de um problema.
Galileu tem a intuição de que tanto a pergunta como a solução do
11
1
MODELO Fl~ilCO ~ 1 MODEÁLO
MATEM TICO
~ SOLUÇÃO PROVISÓRIA
PREVISÕES
1

problema devem ser elaboradas numa linguagem especial: a linguagem


matemática. E precisamente nisto que reside a chamada revolução cien- L----L--~--------L------------ --~---J
tífica do st!culo XVII. PERGUNTA OU
PROBLEMA EXPERl~NCIA
Ora, para que o fenômeno estudado possa ser tratado matematica- concorda
ela solução:
mente, é necessário caracterizá-lo por um conjunto de parâmetros sus- OBSERVAÇÃO DO não concorda: problema
cetíveis de medição: é a chamada construção do modelo físico. FENÔMENO voltar a resolvido
Esse modelo deve obedecer, decide o investigador, a certas leis,
e/ou teorias, e/ou hipóteses.
O conjunto dessas lei°s, teorias e hipóteses imp9stas ao modelo
físico permite escrever certas equações e/ou inequações, que constituem O grande mérito de Galileu foi o de ter entendido, ou pressentido,
o modelo matemático do problema, isomorfo do modelo físico. A solu- que a chave do método científico estava precisamente na passagem
ção dessas equações e/ou inequações fornece, no papel, uma resposta abstrata do real inicial (observação) para o real final (experiência). Essa
provisória ã pergunta inicial, e permite geralmente fazer previsões verifi- ponte está contida no quadro tracejado do esquema anterior.
cáveis quanto ãs respostas a ·outras perguntas porventura surgidas no O que precede está esclarecido, ponto por ponto, no decorrer do
decorrer da investigação. capítulo. Escolhemos dois exemplos:
No entanto; sendo os modelos - -com suas leis, teorias, hipó- a. a queda dos graves no ar
teses ... - construções humanas, resta saber se a natureza concorda com b. o movimento dos projéteis
a resposta encontrada. Há somente um meio de sabê-lo: voltar à expe- Eles foram tratados por Galileu nos Discursos.
riência. Antes de iniciarmos o desenvolvimento, do capítulo, uma obser-
A experiência consiste em reproduzir no laboratório. - quando for vação faz-se necessária. Tentaremos mostrar como a linguagem matemá-
possível - o modelo físico que está sendo testado. Para tanto, o investi- tica deve ser usada no decorrer de uma investigação científica. A lin-
gador deve evitar introduzir, no modelo real, parâmetros que tinham sido guagem utilizada por Galileu (como por Newton mais tarde) era a Geo-
considerados irrelevantes na elaboração do modelo físico. Esse cuidado é metria; ele não possuía os recursos do que chamamos hoje de análise
parte do chamado controle da experiência. Há porém parâmetros que, matemática (algébrica e vetorial), qUe começaria a ser desenvolvida nã
embora indesejáveis, por não pertencerem ao modelo teórico, são inevi- segunda metade do século por Leibnitz e pelo próprio Newton.
táveis. A presença do investigador, com seus instrumentos de medição, é Acontece que a manipulação correta qa" linguagem geométrica é
talvez o exemplo mais comum. O controle correto da experiência con- uma arte quase que totalmente em desuso hoje em dia; por outro lado, a
siste em minimizar a interferência desses parâmetros nos resultados da análise oferece recursos muito mais poderosos e sobretudo muito mais
experiência. No entanto, para poder julgar corretamente quanto ã vali- sistemáticos, o que fornece uma razoável garan.tia de suc·esso na solução
dade dos resultados, é necessário conhecer (pelo menos em ordem de dos problemas.
grandeza) a perturbação introduzida neles pelos parâmetros indesejáveis. Por essa razão, os problemas, a partir de agora, serão tratados na
A determinação dessa perturbação é comumente chamada cálculo de linguagem moderna da análise, com raras exceções.
erros.
--o resultado da experiência, corretamente interpretado, permitirá
decidir da propriedade ou não dos modelos físicos e matemáticos elabo-
rados, bem como das leis, teorias e hipóteses que tinham sido impostas
pelo investigador.
Tentemos esquematizar o que precede:

30
31
v-:.·.---.,·······----------------------------------------------
---~~-/::w1zw~·,~•-.;,,: •.•.

Primeira Parte
1.3 A ELABORAÇÃO DO MODELO FfSICO
O PROBLEMA DA QUEDA DOS GRAVES NO AR Este passo é decisivo para a criação de uma nova atitude em rela·
ção ao estudo dos fenômenos naturais.
O que é um modelo? É uma construção abstrata que substitui ao
fenômeno observado, real, um fenômeno ideal, pensado pelo investi-
gador. Este (o investigador) vai despir o fenômeno real de todos os
atributos que julga não essenciais para a solução do problema.
Dividamos a procura dos atributos essenciais em duas partes: em
primeiro lugar, o que é considerado atributo de um fenômeno, na cons-
trução de um modelo? Em segundo lugar, quais são os atributos essen-
ciais?
Os atributos de um fenômeno são os suscetíveis de tratamento
matemático, conseqüentemente suscetíveis de medição. Assim é que, no
caso da queda dos graves, a "tendência natural a dirigirem-se para baixo,
para voltarem a seu lugar próprio", não é medível e conseqüentemente
deve ser excluída da construção do modelo, bem como todas as quali-
1.1 A OBSERVAÇÃO dades essenciais, substanciais ou ocultas.
Em contrapartida, o peso do corpo, as suas dimensões ... são
Aristóteles afirmava que se um corpo cai (movimento natural), sua grandezas mensuráveis: elas poderão participar da construção do modelo,
velocidade é proporcional ao peso e inversamente proporcional â resistên- se o experimentador julgar necessário.
cia do meio.
Galileu recusa qualquer afirmação a priori e observa a queda de Esses atributos suscetíveis de medição são chamados parâmetros.
corpos. Duas conclusões se impõem: A massa, o diâmetro, a temperatura ... de uma bola que se deixa cair são
a. se dois corpos de pesos diferentes caem em meios de densidades parâmetros que poderão ser incluídos na elaboração do modelo abstrato
decrescentes, a diferença entre as velocidades dos dois corpos diminui na que substituirá a bola real para a solução ao problema proposto a res-
medida em qt,1e a densidade do meio se torna menor. peito da queda. Esse parâmetros dizem respeito ao corpo estudado, ou
No ar, observamos que aqueles dois corpos, quando largados jun- possivelmente aos corpos estudados: mais tarde surgirá a necessidade, no
tos, mantêm-se praticamente juntos, pelo menos enquanto a altura da estudo do mesmo problema, de incluir a Terra no modelo; os parâmetros
queda não se tornar muito grande. Seguindo Galileu, podemos extrapolar correspondentes serão o seu raio, a sua massa, ou então a intensidade do
para o meio de densidade nula: no vácuo, corpos largados juntos perma- campo gravitacional que ela gera, etc....
neceriam sempre juntos, isto é, teriam em cada instante a mesma velo- Outros parâmetros dizem respeito ao meio no qual se desenrola o
cidade. fenômeno; neste caso está, por exemplo, a densidade do ar.
b. a velocidade de um corpo que cai livremente no ar (ou vácuo se Passemos agora à segunda pergunta: "Quais são os parâmetros es-
fosse possível) aumenta no decorrer da queda. senciais ou, como se diz melhor, relevantes no estudo do fenômeno?"
1.2 O PROBLEMA
Essa escolha dos parâmetros relevantes entre os que caracterizam o
fenômeno depende essencialmente da pergunta feita: se o corpo (sufi-
Observando que, no decorrer da queda no ar, a velocidade aumen- cientemente denso) cai de uma pequena altura, a presença do ar é irrele-
ta, Galileu se pergunta: De que maneira varia essa velocidade? vante no estudo da variação da velocidade. Se a altura da queda aumen-
Notemos a mudança de enfoque em relação à escola tradicional. tar, chegará um momento em que teremos que incluir o ar, ou melho.-, a
Para os aristotélicos o importante não era saber como variava a veloci- densidade do ar, entre os parâmetros relevantes.
dade e sim por que variava. Não pretendemos que o porquê não tenha a A escolha dos parâmetros relevantes é até certo ponto subjetiva.
sua importância. O mérito de Galileu foi ter reconhecido que, por o~dem Somente a experiência final permitirá dizer se todos os parâmetros rele-
de prioridade, a resposta ao como devia anteceder a pesquisa do porquê. vantes foram realmente incluídos na elaboração do modelo.
32
33
Depois dessas considerações gerais, vejamos como Galileu cons- que rejeita de saída. A observação mostra que a velocidade do corpo
truiu o seu modelo, no caso da queda dos graves no ar. cresce no decorrer da queda. Galileu procura uma hipótese de trabalho
Galileu está perfeitamente consciente da existência da resistência quanto a esse cresci menta.
do ar. Mas, diz ele, essa resistência é um fenômeno de superfície, e Duas se apresentam:
portanto, se o corpo for suficientemente denso, e se por outro lado a a. em 1597, no De Motu, afirma qu~ a velocidade cresce proporcio-
altura da queda não for muito grande, de modo a não deixar a resistência nal mente ao espaço percorrido.
do ar crescer a ponto de se tornar relevante, então podemos desprezar b. em 1638, nos Discursos, afirma que a velocidade cresce proporcio-
essa resistência. Em outros termos, o parâmetro densidade do ar é irre· nal mente ao tempo decorrido desde o início da queda.
levante, uma vez aceitas as restrições acima. Observe-se que em qualquer caso o que Galileu procura é uma·
Dizer que a resistência do ar é desprezível equivale a dizer que hipótese simples: não há lei de variação mais simples que a proporc"iona-
tudo se passa como se a queda se efetuasse no vácuo. Mas Galileu foi lidade.
levado a concluir, por suas observações preliminares, que todos os corpos A primeira hipótese é insustentável. (Por quê?)
cairiam no vácuo com a mesma velocidade. Portanto, e desde que as Aceitemos então a segunda hipótese galileana:
A velocidade de um corpo em queda livre cresce proporcional-
restrições assinaladas sejam satisfeitas, a massa do corpo (Galileu diz o
peso) é também irrelevante. mente ao tempo.
A maneira de representar, no modelo, a bola de chumbo que cai de O modelo físico é conseqüentemente o de uma part icula que cai
uns poucos metros é então substituí-la por um grão de dimensões despre- livremente, a partir do repouso, e cuja velocidade cresce proporcional-
zíveis: é o que nós chamamos hoje de modelo de partícula. mente ao tempo.
Nesse modelo, todos os parâmetros físicos (dimensões, peso, pre· 1.5 O MODELO MATEMÁTICO
sença do ar ... ) são irrelevantes. Passemos do modelo físico ao modelo matemático, isto é, matema-
tizemos o modelo físico:
1.4 A IMPOSIÇÃO DE LEIS, TEORIAS OU HIPÓTESES DE
TRABALHO AO MODELO Fl°SICO MODELO FfSICO MODELO MATEMÁTICO
Continuemos nosso caminho ao longo da ponte abstrata entre
observação e experiência. Um modelo sozinho seria estéril: é preciso fixar

l • ' o
Partícula ...
o que poderíamos chamar de regras do jogo. origem dos tempos
Quais são as regras? ºT.- e das posições
São as leis ou teorias que, a nosso ver, o modelo deve seguir. j
Notem bem que estamos nos referindo ao modelo e não ao fenômeno ... caindo livremente
real. O modelo obedece, pela abstração e a idealização que levaram à sua (trajetória vertical) ... ~ 1.- trajetória orientada
elaboração, a regras mais simples que o fenômeno.* ·
Acontece às vezes, em particular quando a comunidade científica
positivamente para baixo
-
1
X

1V
(t)
(v = at)
se encontra no limiar de uma nova era - o que ocorreu na época de ... a partir do repouso emt= O
{ Xo =0
~
Galileu -, que não há ainda leis ou teorias. O investigador impõe então Vo: 0
certas hipóteses que permitirão fazer trabalh{Jr o modelo. Está claro que
as hipóteses escolhidas têm também um caráter subjetivo, pelo menos até
serem confirmadas, se for o caso, pela experiência.
No problema da queda dos graves, Galileu não dispõe de nenhuma Parâmetros rele..antes:
X
teoria, de nenhuma lei preexistente, excetuando-se a teoria aristotélica nenhum
Hipótese:
v:at Condições
*Esta é uma das grandes vantagens do modelo. O fato de impor regras mais simples leva mais
velocidade proporcional ~
iniciais:
rapidamente a soluções simples; pode acontecer que essas soluções sejam somente aproximadas, ao tempo
X0 =Q
mas elas dão em geral indicações sobre a evolução do fenômeno.

35
34
Duas observações: 1.7 O TESTE EXPERIMENTAL
Para simplificar fizemos coincidir a origem das posições com o A solução provisória prevista pelo modelo deve ser testada expe-
ponto de largada da partícula. rimentalmente: somente a natureza pode se pronunciar quanto à validade
2 A condição v0 = O está implicitamente contida na hipótese v = at; do próprio modelo, bem como das leis, teorias ou hipóteses que 1he
por essa razão não foi incluída entre as condições iniciais, no modelo ~ foram impostas.
matemático. 1
Para o caso da queda dos graves, a dificuldade encontrada por
Galileu era medir com suficiente precisão pequenos intervalos de tempo:
1.6 AS PREVISÕES DO MODELO MATEMÁTICO para cair de 3 metros, por l?Xemplo, uma pedra leva menos de 1 segundo.
A maneira de testar a validade da hipótese sobre a velocidade da Ele contornou a dificuldade graças à sua extraordinária intuição
queda parece óbvia à primeira vista: basta medir as velocidades do corpo física: ao procurar um meio de "diluir" a gravidade para que os tempos
em vários instantes sucessivos e verificar se essas velocidades crescem ou de queda fossem maiores, recorreu ao plano inclinado.
não proporcionalmente ao tempo.
Porém medir velocidades instantâneas é extremamente difícil, mes- A
mo hoje em dia*, quanto mais na época de Galileu. .1
O processo seguido por Galileu para contornar a dificuldade é
particularmente instrutivo, porque nos mostra uma das características
mais férteis do moãelo: o poder de predição.
Com efeito, o que Galileu faz é substituir a lei hipotética sobre as
velocidades, invertificável diretamente, por outra lei, que deve nece"'ssaria-
mente ser verdadeira se a hipótese primitiva o for, e que pode, esta, ser
verificada pela experiência.
Voltemos à hipótese:
Plano

V =: ~~ = at (1)
E D e
Horizontal

Essa relação é na realidade uma equação diferencial que pede uma Fig. 1 Galileu afirma, embora sem poder demonstrá-lo, que um objeto caindo de A ao longo
solução. A integração da equação é' imediata: dos planos AC AD AE ••• chegará sobre o plano horizontál com a mesma.velocidade: a que ele
teria em B se caísse em queda livre, seguindo a vertical.
t
x(t) - x o = f at dt
o
O que fornece, com x 0 = O: Dizia ele (fig. 1 ): se considerarmos planos de várias inclinações,
AC AD AE ... , um objeto caindo a partir do mesmo ponto A ao longo
x(t) = - 1 - at 2 (2) desses planós atravessará qualquer plano horizontal (por exemplo EDC
2 na figur'a) com a mesma velocidade e essa velocidade é igual à que ele
ou seja: se a velocidade crescer proporcionalmente ao tempo, ou ainda, se teria no ponto B do mesmo plano se caísse livremente de A ao longo da
o movimento do corpo for uniformemente acelerado, o espaço •percor- vertical AB: Obviamente, supõe-se que todos os atritos são desprezíveis.
rido deve crescer proporcionalmente ao quadrado do tempo. Galileu não podia demonstrar essa proposição*; ela é verdadeira,
Observe-se como a condição inverificável sobre a velocidade foi mas o que importa observar é que na realidade tratava-se de um segundo
substituída por outra que decorre necessariamente (isto é, matematica- modelo: o modelo de uma partícula descendo com atrito desprezível ao
mente) da primeira, mas que pode ser verificada experimentalmente, longo de um plano inclinado ideal (perfeitamente polido, perfeitamente
como veremos na próxima seção. rígido ... ). Esse segundo modelo estava sendo criado para a finalidade
•Na realidade não se mede nunca uma velocidade instantânea e sim um t:.x/t:.t; por menor que
seja M, ele não é infinitamente pequeno; * Huygens farâ essa demonstração, alguns anos mais tarde.

36 37
exclusiva de verificar experimentalmente uma lei prevista por um outro
modelo: o da partícula em queda livre. Aceitaremos a previsão galileana quanto ao plano inclinado e
submeteremos agora o nosso modelo ao teste experimental.
Em resumo, Galileu acreditava que os dois modelos seguem ames-
ma hipótese fundamental: a da proporcionalidade da velocidade em rela-
ção ao tempo de queda. A vantagem do plano inclinado é que a cons-
TESTE EXPERIMENTAL
tante de proporcionalidade a na expressão v = at, é menor no caso do
plano inclinado do que no caso da queda livre, e conseqüentemente os
tempos de queda serão maiores. Voltando à fig. 1, Galileu estava conven- Considere-se um objeto (carrinho, bola de aço) deslizando ao
cido de que a velocidade da partícula em BCDE era sempre a mesma longo de um plano inclinado, com atrito desprezível.
(desde que a queda se iniciasse sempre em A e que os atritos fossem O espaço percorrido pelo móvel a partir do repouso será propor-
desprezíveis); no entanto, para alcançar o plano horizontal, a partícula cional ao quadrado do tempo?
levará um tempo tanto maior quanto menor for a inclinação do plano em
relação à horizontal. OBSERVAÇÃO
O modelo que substitui o precedente, para fins de verificação ex- O problema experimental n.o 39 do Apêndice 1(pág.618) podesubs-
perimental, é o seguinte:
titu ir este teste. Com efeito, verificamos naquele problema que tal movimen-
MODELO FfSICO
to é uniformemente acelerado. Portanto, a expressão da posição em função
MODELO MATEMÁTICO
do tempo, com as condições iniciais x 0 = O e Vo = O, é a seguinte:
Partícula ...
~- X=+ 2. at
..• caindo ao longo 1 Se for aconselhável fazer o teste, uma nova série de dados experi-
de um plano inclinado
--+. mentais será necessária, cuidando-se agora de tomar como origem das

l
posições (xo~ a posição em que o móvel é largado com velocidade nula.
Caso não se disponha de trilho de ar com centelhador, uma bola de
1 ,,;,.m do'1ompo•
e das posições O
,
1
aço rolando sem deslizar ao longo de uma calha de alumínio (por exem-
plo) é uma solução satisfatória. Aconselha-se largar a bola sempre da

°';'"~"'. ~
.•. com atrito desprezível )( (t) mesma posição, medindo-se com um cronômetro os tempos para a bola
2 '."JMÕ•O percorrer os primeiros 1O cm, os primeiros 20 cm, os primeiros 30 cm,
pos1t1vamente para baixo etc....
••• a partir do repouso
--+ em t = O
{x
0 :0
_ 0
- X
Qual é a precaução necessária quanto à inclinação da calha, para
que a bola role realmente sem deslizar?
v. - Qual é o método aconselhável para testar se o espaço percorrido é
• v=at
Parâmetros rei eva ntes:
nenhum
realmente proporcional ao quadrado do tempo?
Fornecemos a seguir uma série de dados correspondentes ao movi-
mento de um carrinho sobre um trilho de ar. Esses dados poderão ser
Hipótese: utilizados, se for julgado aconselhável, para suplementar a análise do
velocidade proporcional movimento da bola ao longo da calha.
ao tempo
--+ v= at 1 Condições iniciais:
Xo =0
Inclinação do trilho: 5. 10- 3 rad.
Observe-se que a única coisa que mudou em relação ao modelo Freqüência do centelhador: 4,0 Hertz.
precedente foi a direção do eixo. Assim, a previsão do modelo continua a
mesma, ou seja,há proporcionalidade do espaço em relação ao quadrado Posição: Xo Xi X2 X3 X4 Xs x6 X7 Xa X9 X10 X11
do tempo.
(cm) O 0,2 0,5 1,3 2,1 3,5 5,1 6,8 9,1 11,5 14,2 17,3
38
39
Segunda Parte Ele supõe que o movimento de um projétil lançado horizontal-
mente é a resultante da composição de dois movimentos:
O PROBLEMA DO MOVIMENTO DOS PROJÉTEIS a. um movimento horizontal, retilíneo e uniforme;
b~ um movimento vertical análogo ao da queda livre. Havia verificado
experimentalmente que esse movimento é uniformemente acelerado (ve-
locidade proporcional ao tempo ou espaço proporcional ao quadrado do
tempo).
Examinemos essas hipóteses.

1.8 A OBSERVAÇÃO
3
Ao arremessar uma pedra ou a flecha de um-arco, observa-se que a
trajetória é uma curva côncava para baixo. Em particular, se o arremesso
for feito horizontamente, a trajetória da pedra ou da flecha é defletida
para baixo logo após o projéti'I perder o contato com o agente motor
(mão ou arco).

e 4
1.9 O PROBLEMA
Galileu pergunta: Qual é a curva descrita pelo projétil? Fig. 2 A composição galileana de movimentos: uma velocidade vertical de 3 unidades comp8e-
Implicitamente, aceita sem discussão que todos os projéteis têm se com uma velocidade horizontal de 4 unidades, fornecendo uma velocidade "diagonal" de 5
trajetórias semelhantes. Isto equivale a reconhecer a existência de uma unidades.
unidade subjacente a toda uma classe de fenômenos: é o prenúncio da lei
física.
Em primeiro lugar, o que Galileu entende por "composição de
movimentos"?
Salviati o explica no 4.0 dia dos Discursos: se, diz ele, o corpo ao
1.10 A ELABORACÃO DO MODELO FfSICO
descre~!!r sua trajetória tem, em determinado instante, uma velocidade
As restrições são as mesmas que as observadas no caso da queda
dos graves: corpo süticientemente compacto e denso, pequenas "dimen- vertiçal de 3 unidades, representada pelo segmento AB (fig. 2) e ao mes-
sões" do. tiro (altura e alcance), resistência do ar desprezível. O modelo é mo tempo. uma velocidade horizontal de 4 unidades (segmento BC), sua
o de ·partícula~ velocidade real será a diagonal AC do retângulo construído sobre AB e
Não há parâmetro físico relevante. BC: terá a direçâ'o dessa diagonal e será de 5 unidades. Essas 5 unidades
são, diz Salviati, "a soma em potência de 3 e 4".
O que Galileu está enunciando é o que chamamos hoje de compo-
1.11 A IMPOSIÇÃO DE LEIS, TEORIAS OU HIPÓTESES DE sição vetorial das velocidades-.
TRABALHO AO MODELO FfSICO Mas o que são essas velocidades?
Como no caso da quedá dos graves, não há leis ou teorias preexis- A velocidade horizontal é ·a velocidade com que o corpo foi lan-
tentes. Quais são então as hipóteses de trabalho que Galileu impõe ao çado, e que conservaria indefinidamente se um plano horizontal que
modelo? passasse pelo ponto de lançamento o impedisse de cair.
40 41
A velocidade vertical é, para Galileu, a velocidade que teria o x
A posição rH pode ser representada por (v 0 t) em que v 0 é o
corpo se não fosse projetado, isto é, se ele tivesse o movimento simples módulo da velocidade inieial e x é o unitário horizontal no sentido do
de queda livre que tinha estudado ahtes.
Plano horizontal?, pergunta Simpl ício, que se lembra da conser-
vação do movimento segundo Galileu, mas que aprendeu que se trata
1 lançamento.
A posição rv pode ser representada por ( 1/2at2 )9 em que 1/2 at 2 é
a distância percorrida por um grave em queda livre durante o tempo t
também, segundo o próprio Galileu, de um movimento circular em torno
do centro da Terra.*
;t1 com aceleração a e y o unitário vertical para baixo.
As hipóteses galileanas resumem-se agora na igualdade vetorial
Salviati explica então que sendo o alcance do tiro, por hipótese,
r = (v 0 t) _x + (1/2 at 2 ) 9
muito pequeno em comparação com o raio terrestre, o plano esférico em
que se conservaria, a rigor, o movimento, pode ser sem inconveniente 1 Resumamos o modelô:
substituído pelo plano tangente à superfície terrestre, isto é, por um
plano horizontal.
Observemos que, ao aceitar a composição vetorial das velocidades,
Galileu considera que os dois movimentos elementares, o movimento de
queda livre vertical e o movimento uniforme horizontal, são indepen-
MODELO FfSICO

Partícula ...

... atirada horizontalmente


___. .
MODELO MATEMÁTICO


dentes, não interferem entre si. v,

.r· .r
com velocidade v 0 ___. x
1.12 O MODELO MATEMÁTICO
Em conseqüência, e traduzindo-se em lingoagem moderna, Galileu
afirma que se por seu movimento horizontal uniforme, o projétil tivesse
em determinado instante a posição rH (fig._ 3) e se por seu movimento
vertical de queda 1ivre tivesse no mesmo instante a posição rv, sua posi- Parâmetros relevantes:
nenhum 'H
ção real seriar, soma vetorial de rH e ry.
Hipóteses:
o rH
1 O movimento horizontal
'
é retilíneo uniforme
com velocidade v0 ____. 'H
Posição da projeção M
da partícula sobre
o eixo x no instante t: O: posição inicial
M: posição no instante t

1l rH=lv 0 tl x
rv 1
"'r i
!
2 O movimento vertical
é o da quéda livre Condições iniciais:
rom velocidade inicial nula.____.


Posição da projeção
da part í cuia sobre o
em t= O
r =O
V= v0
(horizontal)

eixo y no instante t:
1

---~-------------------~ 'v = .!.2 at' V


Fig. 3 A composição vetorial das posições, conseqüência necessária do conceito galileano da
composição dos movimentos. 3 Esses dois movimentos
superpõem-se --+ r=rH+ 'v
(*) GMC, cap. 7, seção 7.8.

42 43
1.13 AS PREVISÕES DO MODELO Essa trajetória (semiparábola) é pois uma conseqüência necessária
A hip~tese imposta: das hipóteses iniciais impostas ao modelo.
r=(voi)x+(~at 2 )y (3)
equivale ao sistema que se obtém pela projeção da igualdade sobre os 1.14 O TESTE EXPERIMENTAL
eixos orientados respectivamente por e y: x · A previsão do modelo quanto à forma da trajetória deve ser
X= v0 t (4) submetida ao teste experimental.
A fig. 5 resume o método experimental sugerido para testar o
y = _1_ at2 (5) modelo. Se a trajetória for uma semiparábola, as distâncias verticais OM
2
devem ser proporcionais aos termos da seqüência (0) 2 (1 )2 (2) 2 (3) 2 •••
em que x e y representam as componentes algébricas do vetor de posição
Posiçâ'o de largada da bola
no instante t, ou ainda as coordenadas da partícula no instante t, relativa-
mente aos eixos cartesianos (Ox, Oy) da fig. 4. Observemos que x e y são
necessariamente positivos. o 2 3 4 5
1
1
o X

1
J
1
1
ly
1
1
1
1
1
-------------------
X

Fig. 5 Esquema da montagem experimental para o movimento do projétil. A bola é largada


sempre da mesma posição. Ela bate numa prancheta vertical (com papel carbono) colocada nas
posições sucessivas eqüidistantes O 1 2 3 etc ...

PERGUNTAS
y 1 Mostrar - referindo-se à fig. 5 - que se a trajetória for uma semiparábola devemos ter,
por exemplo:
Fig .. 4 A trajetória da partícula, prevista pelo modelo, é uma semiparábola com o eixo vertical. (0Ml 4 = 4 (0M) 2
2 Em cada posição da prancheta é aconselhável obter três ou quatro batidas da bola le não
A trajetória obtém-se pela eliminação do tempo t entre as duas uma só), largando-se sempre a bola do mesmo ponto da rampa.
relações (4) e (5). Essa eliminação, que é imediatà, fornece: Por quê?

v= ª
2Vo2 x
2 (x e Y>O). (6) CONCLUSÃO
O que há de mais importante na obra científica de Galileu é a
elaboração do método científico. Esse método gira em torno da estrutu-
Ela representa uma semiparábola cujo eixo é a vertical Oy, que ração de modelos teóricos, abstratos, sugeridos por uma pergunta que o
tem concavidade dirigida para baixo e que tangencia a horizontal Ox no investigador da Natureza faz a respeito de um fenômeno.
ponto de lançamento O. O modelo permite, por meio de deduções exclusivamente matemá·
44
45
ticas, a descoberta de conseqüências necessárias das leis, ou teorias, ou QUESTÕES CONCEITUAIS
hipóteses que foram impostas ao modelo.
No entanto a elaboração do modelo, com a escolha dos seus parâ- 1 No Primeiro Dia dos Discursos, Galileu analisa da seguinte maneira o fenômeno da
metros relevantes, bem como a decisão de impor certas leis ou certas resistência do ar:
hipóteses ao modelo, são opções humanas e conseqüentemente fal (veis. . .. um corpo pesado possui uma tendência inata a mover-se com um movimento constan·
te e uniformemente acelerado em direção ao centro comum de gravidade, ou seja, ao centro da
Por isso o cientista deverá sempre procurar na experiência o vere- nossa Terra, de maneira que, em intervalos de tempos iguais, sofre acréscimos iguais, de momento
dicto da Natureza a respeito da validade do modelo, do acerto na rele- e de velocidade. Mas isso é válido apenas no caso de todos os impedimentos ex ternos e acidentais
terem sido removidos,: no entanto, um desses impedimentos não pode nunca ser removido: é o
vância dos parâmetros e da validade das leis e das hipóteses impostas. meio, que deve ser penetrado e jogado para o lado pelo corpo que cai. Como já disse, esse corpo é
Foi precisamente por ter entendido que a exploração da natureza por sua natureza continuamente acelerado, o que faz com que encontre uma resistência do meio
exige, como disse Alexandre Koyré, "que se raciocine sobre o impossível cada vez maior, com a conseqüente diminuição da taxa de aumento da sua velocidade até que,
finalmente, a velocidade atinja um valor tal, ao mesmo tempo que a resiStência do meio se torne
(o modelo abstrato) para se tirarem conclusões quanto ao real", que tão grande que, um equilibrando o outro, os dois efeitos impedem qualquer aceleração futura. O
Galileu foi o grande artesão da libertação da ciência das essências aristo- movimentá do corpo se torna então uniforme e daí em diante cônservará um valor constante.
télicas, da magia medieval e das qualidades ocultas, que por mais de dois a. Faça, a respeito do trecho acima transcrito qualquer comentário ou crítica que julgar
conveniente.
mil anos haviam impedido o seu desenvolvimento. b. Galileu afirma a existência de uma velocidade limite, para um corpo que cai. Esse fato
pode ser comprovado por observação experimental? De que maneira?

2 No Primeiro Dia dos Discursos, Galileu explica que a resistência do ar sobre um corpo
que cai é devida aos choques do meio (ar) contra as asperezas e rugosidades existentes na
superfície do corpo. Explica a seguir que, na medida em que um corpo diminui de tamanho, a
superfície se torna cada vez mais importante, relativamente ao peso; conseqüentemente, a resis·
tência do ar tem mais influência sobre o movimento de, um corpo pequeno, que sobre o movi·
mento de um corpo maior, porém feito da mesma substâ·ncia.
a. Convença-se do efeito de superfície, quando se muda de escala. Considere por exemplo
uma bola de aço de raio 2R, e outra de raio R. Qual é a razão entre os pesos das duas bolas? Qual
é a razão entre as superfícies?
b. Deixe cair, de uma altura de uns poucos metros, um punhado de poeira ou de areia bem
seca. O que aconteceria se a queda se produzisse no vácuo? O que acontece na realidade?
Explique as diferenças.

3 Seguindo Galileu, diremos que um corpo que cai em um meio fluido atinge uma veloci·
dade limite, se a altura da queda for suficiente. Quais são os parâmetros relevantes na determi·
nação dessa velocidade? Sugira um procedimento ex'perimental que permita descobrir de que
maneira a velocidade limite depende desses-parâmetros.

4 No De Motu, de" 1597, Galileu supunha que a velocidade de queda era proporcional ao
espaço percorrido. No Terceiro Dia dos Discursos, afirma que essa hipótese estava errada. Seu
argumento é reproduzido a seguir: ·
. . . se a velocidade com que um corpo cai, ao percorrer uma distância de oito pés,
fosse o dobro da velocidade com que ele percorre os primeiros quatro pé~, os intervalos de tempo
necessários para percorrer essas duas distâncias seriam iguais. Mas uma queda de quatro ,,és e de
oito pés no mesmo intervalo de tempo somente seria possível no caso de movimento instan.tâneo;
a observação no entanto nos mostra que o movimento de um corpo que cai consome tempo, e
consome menos tempo numa queda de quatro pés do que numa queda de oito pés; conseqüen·
temente, não é 119rdadeiro que a velocidade aumenta proporcionalmente ao espaço.
O argumento de Galileu é falho. Mostre por quê.

5 Galileu demonstra a proporcionalidade do espaço em relação ao quadrado do tempo da


seguinte maneira:
a Mostra em primeiro lugar que se a velocidade cresce proporcionalmente ao tempo, o
espaço percorrido em determinado jntervalo de tempo é igual ao que seria percorrido em movi·
menta uniforme com velocidade igual à metade da velocidade final atingid~ no movimento

47
46
acelerado. Na fig. 1, se AB representa o tempo total da queda, Galileu representa e velocidade am Pela proposição precedente, pode-se escrever
instantes sucessivos por segmentos perpendiculares a AB. As extremidades desses segmentos
distribuem-se sobre a reta AC, jé que ele supõe que a velocidade é proporcionei ao tempo. A
!::!.!:.. - Tempo AD
X (1/2)DO (1)
HM - Tempo AE x (1/2IEP
velocidade finei é representada por BC, e a metade dessa velocidade_. por BD.
E A Mas nos triângulos semelhantes ADO e AEP, ~~=~~·de modo que a relação (1) se
escreve:
HL =AD x AD_ AD 2
HM AEXAE-ÃE'
o que demonstra a proporcionalidade dos espaços percorridos em relação aos quadrados dos
tempos.
Comente criticamente a solução de Galileu.

Fig. 1
c D B
Se um corpo se movimentasse uniformemente com velocidade BD, durante o mesmo
intervalo de tempo AB, os segmentos de comprimento constante, que representariam a velocl·
dade em instantes sucessivos, teriam suas extremidades sobre ED, paralelo a AB.
A seguir, Galileu afirma que a soma de todas as velocidades no movimento eceleredo é
igual à soma de todas as velocidades no movimento uniforme, pois a primeira soma representa e
área do triângulo ABC enquanto a segunda representa a área do retângulo AEBD, sendo õbvlo
que essas áreas são iguais. Conclui-se, continua Galileu, que o espaço percorrido pelo mõvel em
movimento acelerado, durante o intervalo AB, é igual ao espaço percorrido pelo mõvel em
movimento unifor"1e, durante o mesmo intervalo.
b. Galileu esté agora capacitado a deduzir a lei da queda. Com referência à fig. 2, DO
representa a velocidade do mõvel ao chegar em L, caindo de H, e EP representa e velocidade ao
chegar em M.
A H

" 1.D

• E M
l,

B
Fig. 2

48 49
·mlms:uauB rtIMi ou Rm !l llfr'1!11
0:1_ •. _ ... ___ - , .. ,. -
""-"""'~"·----·~~·---=-"'''" -- -
d. considerando-se dois planos inclinados com comprimentos diferentes e inclinaçé5es dife-
PROBLEMAS
rentes (fig. 4):
Admitindo-se que a velocidade de queda ao longo de um plano de qualquer inclinação (e tAB = AB. AE
isto inclui a vertical) é proporcional ao tempo, mostre que: tAC AC AD
a. os tempos de queda ao longo do plano inclinado AC e da vertical AB, estão entre si como
AC está para AB (fig. 1 ): A
tAC AB
tAB = AB

<" I 'ID

Fig. 1

(Essa proposição constitui o Teorema 111 do 3.º Dia dos Discursos.)


b. considerando-se vários planos inclinados com a mesma altura (fig. 2)

tAC _ tAD -~- •.•


AC - AD - AE -
A
Fig.4 C E

(Teorema V do 3. o Dia dos Discursos)

Fig. 2
t'f e. considerando-se dois planos inclinados AB e AC, cujas extremidades B e C se encontram
sobre uma circunferência de diâmetro vertical AF (fig. 5):
t tAB = IAC = tAF
t
}'
'l
1ii:
(Generalizaça-o da proposição precedente.)
c. considerando-se dois planos inclinados com o mesmo comprimento (AB =AC), mas com li
inclinações diferentes (fig. 3): li
tAB AE A
tAC =AD.

B D
Fig. 3

---------E (Teorema VI do 3. 0 dia dos Discursos)


ci.ualquer uma das propos;Ções (fig. 1, fig. 2 ... fig. 5) é uma conseqüência n1ct11111lrla da
hipótese inicial (velocidade proporcional ao tempo), válida, tambdm por hipótele, tanto para a
(Teorema IV do 3.0 Dia dos Discursos) queda livra como para a queda sem atrito ao longo de um plano Inclinado.

50 61
1
Em outros termos, para o teste experimental daquela hipótese, a conseqüência necessária
da proporcionalidade do espaço em relação ao quadrado do tempo poderia ser substitu fda por
"j'
·~
Capítulo 2
qualquer das conseqüências necessárias acima. c,1 NEWTON
$
Pede-se escolher uma (ou várias) dessas proposições e descrever um processo experimen·
1 AS LEIS FUNDAMENTAIS DO MOVIMENTO
tal que permita testá-las. i;-

2 Neste problema, enunciado e resolvido por Galileu, acha-se outra conseqüência necessária ~
das hipóteses feitas sobre o movimento dos projéteis.
~
·.:·1
A

r~,

::.1
INTRODUÇÃO
Galileu morreu em 1642. Naquele mesmo ano, no dia de Natal,
j-:1
nascia Newton.
Com Newton, a chamada revolução científica do século XV 11 atin·
a. Representando-se por h = 08 a altura do vértice da· parábola (ponto de lançamento) ge o seu apogeu. Em menos de 50 anos o gênio de um homem vai
acima do plano horizontal, calcule o alcance b =BC do projétil em função de h, da velocidade conseguir o que dois mil anos de pacientes· esforços tinham preparado,
inicial v 0 e da aceleração a do movimento vertical. porém não alcançado: a formulaçãÓ de urn<1 teoria cientlfica.
E bem verdade que sem os "gigantes nos ombros dos quais se
b. Determine a posição do ponto A de onde deveria cair uma partícula, em queda livre, para
que ela atinja o ponto O precisamente oom a Velocidade v0 • A distância AO= s foi chamada por apoiou", segundo sua própria expressão, Newton talvez não tivesse tido a
Galileu sublimidade da trl!jetória. extraordinária fertilidade que demonstrou. Havia a precedê-lo um Copér-
nico e um Kepler. H~vi'a sobretudo um Galileu que tinha mostrado o
c.. Mostre que a metade do alcance é média proporcional entre a altura h e a sublimidades: caminho do método científico.
(b/2) 2 = hs. (Proposi(:ão V do 4.º Dia dos Discursos)
Mas o método científico, sem teoria para sustentá-lo e nutri-lo, era
~v
2
Vo
RESPOSTA: a. b = 0; b. s = - - um esqueleto sem substância. Cada um dos modelos construidos por
a 2a
Galileu exigia uma hipótese de trabalho para ser capaz de prever conse-
qüências necessárias e verificáveis experimentalmente.
Galileu não teve tempo de se interrogar quanto às hipóteses rela-
tivas aos movimentos na superfície da Terra (queda livre, movimento dos
projéteis): teria talvez descoberto o papel único da aceleração nesses
vários tipos de movimento.
Essa descoberta seria feita por Newton. Pela primeira vez, vamos
encontrar leis que não somente traduzem a regularidade do comporta-
mento da Natureza em classes isoladas de fenômenos*, mas que, des-

• A lei da queda dos corpos de Galileu (proporcionalidade do espaço ao quadrado dos tempos) e
o movimento dos projéteis (trajetória parabólica) são exemplos de leis naturais que poderíamos
qualificar de isoladas,

52 53
cendo a um nível de. compreensão mais profundo, vão revelar essa regu- Em 1667, Newton voltou ao Trinity College. No ano seguinte,
laridade em todos os movimentos, quaisquer que sejam as causas ou as 1668, sucedia a seu mestre Barrow, como Professor Lucasiano de Ma-
origens. temática*. ·
A 2.ª lei nos dirá por exemplo que qualquer que seja a força F que Continuando os seus estudos de Ótica, inventa o telescópio
age sobre uma partícula de massa ma aceleração a resultante será igual a refletor em que a lente até então utilizada (telescópio refrator) foi substi-
tuída por um espelho, o que tinha a vantagem de eliminar as aberrações
F cromáticas da refração.
m Comunica os resultados dos seus trabalhos à Royal Society, o que
lhe vale ser aceito como membro da Sociedade em 1672, mas provoca, ao
Neste capítulo, depois de uma breve biografia de Newton, apre- mesmo tempo, o início de uma polêmica com Robert Hooke (Secretário
sentaremos a formulação das leis do movimento como Newton as expôs da Sociedade) e com Huygens.
nos Princípios. Hooke e Huygens tinham, paralelamente, desenvolvido uma teoria
Veremos que essa formulação não é isenta de criticas: peca por ondulatória da luz. Newton refutava essa teoria, contrapondo-lhe a sua
certas incoerências internas. Newton estava, pela primeira vez na história teoria corpuscular pois, segundo ele, se a luz tivesse caráter ondulatório,
da ciência, falando uma linguagem nova, propondo novos conceitos, os seria difratada pelos obstáculos, como· o som. Newton estava ~rrado:
de força e de massa por exemplo, e conseqüentemente as hesitações na ló- aparentemente, nunca tinha imaginado que o comprimento de onda da
gica da sua formulação são compreensíveis. luz pudesse ser tão pequeno a ponto dos efeitos macroscópicos de difra-
Nos capítulos seguintes, tentaremos apreserJtar uma versão coeren- ção escaparem a uma observação superficial.
te das leis do movimento e voltaremos a Newton no capítulo final deste As descobertas de Newton a respeito do comportamento da luz e
voíume, com a gravitação universal. ;1 seus estudos .dos fenômenos óticos constituem no entanto uma obra
notável. Podem ser encontrados em várias comunicações à Royal So-
ciety** e em cartas a diversos correspondentes. Foram reunidos mais tarde
2.1 A VIDA E A OBRA DE NEWTON em um tratado, o Opticks publicado em 1704.
· Isaac Newton nasceu a 25 de dezembro de 1642 em Woolsthorpe, Os trabalhos de Newton sobre Mecânica constituem uma obra gi-
perto da Grantham, no condado de Lincolnshire; na Inglaterra daqueles gantesca e são o fundamento da Mecânica hoje chamada "clássica"***. No
dias o reinado de Carlos 1 estava no seu crepúsculo e Cromwell se prepa- entanto as descobertas relativas ao movimento dos corpos e às suas leis
rava para assumir o poder. foram publ.icadas tardiamente e, no início, foram os trabalhos de Ma-
O jovem Newton, que a tradição familiar destinava às atividades temática e Ótica que tornaram Newton conhecido nos meios científicos
rurais, revelou poucos pendores para a agricultura. A sagacidade de um europeus.
tio orientou-o para a Universidade: em 1661 entrava para o Trinity A Mecânica, e em particular a Mecânica celeste, eram objeto de
College, em Cambridge. Nunca mais afastar-se-ia da sua Alma Mater. estudos e de especulações desde as descobertas de Kepler e de Galileu; na
Lá obteve, em 1665, o grau de Bachelor of Arts; naquele mesmo Royal Society recém-fundada (1660), estu~tosos como Robert Hooke,
ano a Grande Peste assolava o sul da Inglaterra, fechava a Universidade e Christopher Wren e Edmund Halley**** se interrogavam sobre as causas
obrigava Newton a refugiar-se na sua terra natal de Woolsthorpe. do movimento dos planetas.
Segundo suas próprias palavras, os dois anos passados em Wo-
• Um ex-professor de Trinity College, Lucas, tinha fundado em 1660 a cátedra de Matemática,
olsthorpe foram os mais fecundos de sua vida. Foi aí que desenvolveu os cujo titular era chamado "Lucasian Professor of Mathematics". O primeiro titular foi Barrow;
primeiros elementos do cálculo diferencial e integral, que chamou "cál- o segundo, Newton.
culo das fluxões". Foi também naquela époc:a que iniciou seus trabalhos
**Uma das mais importantes 6 A Set of Queries propounded by Mr. Newton to be determined
de ótica, ao analisar a luz solar e mostrar que ela é composta de radia- by E·xperimenrs, positive/y end direct/y concluding his new Doctrine of Light and Colours:
ções monocromáticas. Philosophical Transactions, 85, 5003 (1672).
Foi também em Woolsthorpe que Newton iniciou os estudos sobre •••Em contraposição à Mecânica Relativista e à Mecância Quântica.
o movimento dos corpos e começou a desenvolver a sua teoria da gravi- 1 •

tação universal. ••u Lembrado hoje pelo cometa que traz o seu nome.

54 55
A lei do inverso do quadrado da distância "estava no ar", por puderam apresentar os Principia como a obra que põe em evidência o
analogia com a propagação isotrópica de "fluidos" indestrutíveis, cõmo a mecanismo matemático do Sistema do Mundo.
luz, por exemplo. No ent'anto nem Halley nem seus amigos foram ca- As demonstrações de Newton são geométricas. Há no entanto
pazes de deduzir a trajetória de um pláneta, supondo-se uma lei de atra- razões para pensar que pelo menos algumas delas foram inicial mente
ção Sol-planeta da forma 1/r2 • conduzidas com o cálculo das fluxões que Newton tinha inventado e que
Foi assim que num belo dia de agosto de 1684, Halley foi visitar foram posteriormente transpostas para a forma geométrica, mais larga-
Newton em Cambridge e lhe fez a pergunta seguinte: mente conhecida na época.
Supondo-se que o Sol atrai um planeta com uma força inversa- Os Principia são divididos em três livros que passamos a analisar
mente proporcional ao quadrado da distância, qual seria a trajetória do rapidamente.
planeta? Os dois primeiros livros referem-se ao movimento dos corpos. O
Para grande espanto de Halley, Newton respondeu imediatamente: Livro 1 começa com as Definições e as Leis que estudaremos em detalhe
Há muito tempo que resolvi o problema: a trajetória é uma elipse. na Seção 2.4, e trata a seguir de aplicar essas leis a vários tipos de
Halley pediu a Newton que lhe fizesse a demonstração. Newton movimentos. Dois problemas genéricos são tratados: dada a lei de força,
infelizmente não foi capaz de achar, nos seus arquivos, esta dem.ons- achar a trajetória, e dada a trajetória e certas hipóteses complementares,
tração feita havia já muito tempo, mas prometeu enviá-la a Halley em achar a lei de força. É nesse livro que Newton resolve o problema de
Londres. Kepler, ou seja, o de achar a lei de força conhecendo-se as três leis dos
Efetivamente, em outubro de 1684, Newton mandava a Halley um movimentos planetários, e o problema inverso, ou seja, o de a.char a
opúsculo ·intitulado De Motu Corporum, resumo de suas aulas no Trinity trajetória correspondente a uma lei de atração em razão inversa do qúa-
College, e que continha não somente a demonstraçãO pedida, como tam- drado da distância, dadas as condições iniciais. O livro termina· com o
bém uma primeira versão das leis do movimento. estudo da ação gravitacional entre corpos extensos.
Constatando o adiantamento extraordinário do pensamento new- O Livro 11 continua no mesmo estilo, puramente dedutivo. New-
toniano, Halley pediu então a Newton que escrevesse um tratado formal ton estuda agora o movimento de corpos (partículas) em meios resis-
onde fossem reunidos todos os resultados descobertos e acumulados por tentes, com especial atenção para o movimento dos projéteis, e termina
ele no decorrer de vinte anos de trabalho. com problemas de fluidos em movimento.*
Newton acedeu ao pedido de Halley e iniciou a composição da sua O conteúdo do Livro 111 é completamente diferente; Newton faz
obra-mestra, cuja primeira edição foi publicada em 1687. Intitulava-se: agora a aplicação dos resultados obtidos no primeiro livro ao caso con-
Philosophiae Natura/is Principia Mathematica, ou seja: Princlpios Ma- creto do sistema solar e por essa razão o título do livro é Do Sistema do
temá,ticos da Filosofia Natural. Mundo. O livro começa por enunciar as regras que devem ser segui das no
Os Principia tiveram uma segunda edição em 1713 e uma terceira estudo dos fenômenos naturais; veremos quais são essas regras na ·con-
em 1726. clusão deste capítulo. A seguir, aplica as leis do movimento e a lei da
Um ano depois, em 1727, Newton morria. Foi sepultado na gravitação a vários problemas astronômicos: movimento da Lua e per-
Abadia de Westminster, o Panteão dos heróis ingleses. turbações desse movimento pelo Sol; satélites de Júpiter e Saturno; pro-
blema das marés; órbitas dos cometas, etc ....
Antes de apresentar as leis do movimento, na formulação dos Prin-
2.2 A ESTRUTURA DOS PRINCIPIA cipia, convém precisar os conceitos newtonianos de tempo e espaço.
Os Principia foram escritos em latim. Constituem o primeiro tra-
tado de Física Matemática da história da ciência.
2.3 OS CONCEITOS NEWTONIANOS DE TEMPO, ESPAÇO E
Partindo de umas poucas definições e das três leis do movimento, MOVIMENTO
Newton demonstra rigorosamente (i.e.,matematicamente}, uma quanti-
dade supreendentemente extensa de propriedades relativas aos movi- Estranhamente, Newton apresenta os seus conceitos de tempo,
mentos de partículas submetidas a várias Jeis de força. Dentro desses
• Newton estava assim refutando a teoria 'Cartesiana, embora sem declará-lo abertamente, segundo
movimentos estão em primeiro lugar os movimentos planetários, de a qual o movimento dos planetas era provocado por vórtices do éter. Newton demonstra que esses
maneira que alguns comentadores (o próprio Halley, por exemplo) supostos vórtices nunca poderiam conduzir aos movimentos conhecidos dos corpos celestes.

56 57
espaço e movimento no Escólio que segue a Definição VI 11 sobre força 2.4 AS LEIS DO MOVIMENTO
Os Axiomata sive leges Mõtus são as famosas três leis do movi·
centrípeta (ver a seção seguinte), no iní.cio do Livro 1. Separa, naqueles
mento, que Newton apresenta no início do Livro 1 dos Principia. Porém,
conceitos, um sentido absoluto e um sentido relativo.
as leis são precedidas por oito definições que são necessárias para a
Traduzimos diretamente do texto em latim da terceira edição:
compreensão das leis. ·
1 O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, em si e por sua Apresentaremos, na mesma ordem que nos Principia, as definições
natureza sem relação alguma com nada externo, flui uniforme- e as leis do movimento.
mente e se chama duração. O tempo relativo, aparente e vulgar é
aquela medida sensível e externa de uma parcela de duração, DEFINIÇÃO 1
medida essa que se obtém pelo movimento e que se costuma uti- A quantidade de matéria se mede pela densidade e o volume
lizar em lugar do tempo verdadeiro; por exemplo a hora, o dia, o tomados conjuntamente*.
mês, o ano.
DEFINIÇÃO 2
2 O espaço absoluto, sem relação, por sua natureza, com as coisas A quantidade de movimento se mede pela velocidade .e a quanti-
externas, permanece sempre igual a ele mesmo e imóvel. O espaço dade de matéria tomadas conjunta mer:ite. · ·
relativo é a medida ou dimensão móvel do espaço absoluto que é
defini<Ja por nossos sentidos por sua posição ·em refação a determi- DEFINIÇÃO 3
nados corpos e que o vulgo confunde com o espaço imóvel. Por A força que reside na matéria (vis insita em Latim)** é sua
exemplo, um espaço sub(errâneo, ou no céu, é definido por sua propriedade de resistir, graças à qual qualquer corpo, no que depende
posição em relação à Terra. dele, permanece no seu estado de repouso ou de movimento retilíneo
uniforme.
3 O movimento absoluto é a translação dos corpos de um lugar
absoluto para outro lugar absoluto, e o movimento relativo é a DEFINIÇÃ04
translação de um lugar relativo para outro lugar relativo. Uma força impressa é uma ação exercida sobre o corpo, que tende
4 Assim t! que, em um navio movido pelo vento, o lugar relativo de a alterar o seu estado de repouso ou de movimento retilíneo uniforme.
um corpo é a parte do navio em que se encontra o corpo, ou
ainda, o espaço ocupado pelo corpo no bojo do navio; esse espaço DEFINIÇÃO 5
move-se junto com o navio e o repouso relativo do corpo significa A for\:él centrípeta é aquela ·que faz tender os corpos para algum
sua permanência na mesma parte do bojo do navio. ponto, como se fosse um centro, sendo os corpos empurrados ou
puxados ou impelidos de qualquer forma (para o centro).
No entanto, o repouso verdadeiro do corpo é sua permanência na
parte do espaço imóvel onde se supõe que o navio e tudo o que ele DEFINIÇÃO 6
contém esteja se movendo. A quantidade absoluta da força centrípeta é a medida da mesma,
Assim é que, se a Terra estivesse em repouso (absoluto), o corpo · maior ou menor conforme a eficiência da causa que a propaga a partir do
que está em repouso relativamente áo navio teria um movimento ver- centro, pelas regiões do espaço que o circundam.
dadeiro e absoluto, cuja velocidade seria igual à que arrasta o navio na
superfície da Terra. Porém, já que a Terra se move no espaço, o movi- . DEFINIÇÃO 7
mento ·verdadeiro e absoluto do corpo é composto do movimento verda- A quantidade aceleradora da força centrípeta é a medida da mes-
deiro da Terra no espaço imóvel e do movimento relativo do navio sobre.
a superfície da Terra; e se o corpo tivesse um movimento em relação ao • Na terminologia newtoniana, "tomados conjuntamente" significa "fazendo-se o produto" (das
navio, seu movimento verdadeiro e absoluto seria composto do seu mo- grandezas enunciadas).
vime(Jto relativamente ao navio, do movimento do navio em refação à .. Diríamos hoje: "'inércia'".
Terra e do movimento verdadeiro da Terra no espaço absoluto.
59
58
A--~~~~~~~~~~-.
ma, proporcional à velocidade que ela gera em determinado intervalo de
tempo.

DEFINIÇÃO 8
A quantidade motora da força centrípeta é a medida da mesma,
proporcional ao movimento que ela gera em determinado intervalo de
tempo.

. '-~~~~~~~~~~~o

1
Passemos agora às leis do movimento:
2.5 CRfTICA À FORMULAÇÃO NEWTONIANA DAS LEIS DO
MOVIMENTO

~J
LEI 1
Tentemos entender e diferenciar o que, na formulação new-
Qualquer corpo permanece no seu estado de repouso ot.:1 de mo-
toniana, é definição e o que é lei natural, isto é, a descrição de como a
vimento retilíneo uniforme, a não ser que forças impressas o obriguem a
Natureza se comporta em determinadas circunstâncias.
mudar aquele estado.
Mostraremos que, a rigor, somente a lei 3 é uma lei natural, na
formulação de Newton.
LEI 2
A definição 1 parece dar quantitativamente.o conceito de massa.
A variação do movimento é proporcional à força motora e se
Em termos modernos escreveríamos:
produz na direção em que age essa força.

LEI 3 11 m= Vµ (1)
A qualquer ação se opõe uma reação igual: ou ainda, as ações
em quem éa massa do corpo, V o seu volume eµ sua massa específica.
mútuas de dois corpos são sempre iguais e se exercem em sentidos opos-
tos.· Porém Newton não fornece nenhuma definição prévia de massa
específica (densidade), de modo que tomando-se essa definição ao.pé da
Nos Principia, as leis do movimento são seguidas por seis corolários letra, caímos num círculo vicioso.
l 1 Há, no entanto, nos comentários de Newton, uma possível porta
e um escólio. Transcreveremos apenas os dois primeiros corolários, que
dizem respeito à composição e à decomposição de forças.
·,
de saída. Depois de assinalar que "quantidàde de matéria" é sinônimo de
n "corpo" ou "massa", Newton acrescenta:
;!
.! Essa qualidade (massa) se conhece pelo peso dos corpos, pois achei
COROLÁRIO 1
r\ . por meio de experiências precisas com pêndulos que os pesos dos corpos
Submetido à ação conjunta de duas forças, um corpo descreverá a f J:'.1 são proporcionais às suas massas.
diagonal de um paralelogramo no mesmo intervalo de tempo em que os !l Newton refere-se a um tipo de experiências que tinham sido feitas
lados seriam percorridos pelo corpo sob a ação de cada uma das forças .por Galileu e que ele mesmo, Newton, repetiu: ao observar que pêndulos
separada mente. de vários materiais (vidro, madeira, lã ... ) e de pesos diferentes, mas de
mesmo comprimento, oscilavam com o mesmo período, Newton con-

COROLÁRIO 2
'1 cluiu que na superfície da Terra todos os corpos caem com a mesma
aceleração.
(do que precede) fica evidente a composição de uma força direta No entanto tal observação não tem, a priori, nenhuma relação com
AD a partir das forças oblíquas quaisquer, AB e BD, e reciprocamente, a a definição da massa. Para que as massas possam se comparar pelos pesos,
resolução de uma força direta qualquer AD em forças oblíquas quais- é necessário aceitar em primeiro lugar que a aceleração da queda é pro-
quer, AB e BD. Essa composição e essa resolução (das forças) se acham duzida pelo peso, reconhecer no peso uma força e aceitar desde já a
relação entre força e aceleração, isto é, a 2.ª lei na sua forma F =ma,
amplamente confirmadas pela mecânica.
1
60 61
que escreveríamos P = mg, em que Pé o peso do corpo, m, sua massa e g, variação) é proporcional à força impressa", e nesse caso a expressão
a aceleração da queda. · analítica da lei seria:
Essa atitude, no entanto, nos compromete definitivamente, desde
o início, a definir qualquer força como o produto da massa pela acelera- t.p = kF: (3)
ção. Ora, existem na natureza outras forças além da força gravitacional e t.t
seria certamente conveniente ter mais argumentos experimentais antes de
se chegar a esta conclusão*. em que agora k é uma constante adimensional (um número puro);
Concluímos que a definição 1 não é uma definição satisfatória b. seja, "a variação do momento é proporcional ao impulso da força
para massa. Qual seria então a definição aceitável? impressa (em. vez de, simplesmente, à força impressa)",. e nesse caso
Séria uma definição baseada unicamente em medidas cinemáticas teríamos:
lVelocidades, acelerações, por exemplo). Veremos logo adiante e mais
tarde no capítulo 4, que é possível definir cinematicamente a massa de b.p = kF t. t (4)
um corpo, ou melhor, a razão entre as massas de dois corpos.
Admitamos, porém, que uma definição satisfatória de massa tenha ou se a força for variável com o tempo:

f
sido dada.
Nesse caso, a definição 1 dos Principia passa a ser uma definição r0 + {',.t

correta de massa específica. Por outro lado, tendo-se definido massa, a t.p = k F dt (5)
definição 2 seria uma definição correta do momento linear. o
Deixando de lado as definições 3 a 8, passemos às leis do mo-
vimento. · em que a variação llp do momento é definida no intervalo de tempo (t0 ,
Observamos de início que a lei 1 é redundante, no sentido que se t 0 + ll t).
refere a um caso particular da lei 2: se não houver força impressa não há Os especialistas em História da Ciência ainda hoje não estão de
variação do momento (lei 2) e conseqüentemente o corpo permanece em acordo sobre qual dessas duas formas Newton tinha em mente quando
movimento retilíneo uniforme. enunciou a lei 2. As duas formas são evidentemente equivalentes. r:
Na lei 2, movimento deve obviamente ser entendido no sentido da possível que a definição 8, em que a força centrípeta Fe é expressa por
definição 2: é o que chamamos hoje de momento linear. Essa lei diz
então que a variação do momento linear é proporcional à força impressa (6)
Fc = k' 6p
e tem· lugar na direção (e no sentido) dessa força. · 6t
Newton não menciona o elemento tempo no enunciado da lei. A
rigor ele diz: em que k' é outra constante de proporcionalidade, seja um argumento a
favór da primeira forma proposta (expressão 3 acima). ·
t.p =k F (2) Observemos aliás que a definição 8 e a lei 2 têm muito em comum,
embora a lei seja mais geral que a definição. e introduza.o· caráter vetorial
em que t.p representa a variação do momento, F a força impressa, e k da força. No entanto, entende-se dificilmente que uma seja definição e
uma constante de proporcionalidade. Ora, a forma acima é obviamente outra, lei.
inaceitável a não ser que k fosse dimensionalmente um tempo. Mas Voltemos à análise da lei 2. A introdução de uma constante de
parece não menos óbvio que Newton tinha outra coisa em mente: proporcionalidade na formµlação de Newton não é particularmente signi-
a. seja "a taxa de variação do momento (em vez de, simplesmente, a ficativa. Em termos modernos poderíamos argumentar: que, uma vez de-
finido o conceito de massa, a lei 2 fornece uma definição quantitativa da
força e que a constante de proporcionalidade dependerá do sistema de
unidades adotado.
*Além do que a comparação entre os pesos de dois corpos é na realidade uma comparaçâ'o entre No entanto, vimos que não há definição de massa, e a lei 2 não
stias màssas gravitacionais, como veremos no capitulo 12, enquanto que a 2.ª lei .se refere à
massa inercial do corpo. · pode definir ao mesmo tempo os dois conceitos: força e massa. Mas,

63
62
admitindo-se outra vez que exista tal definição para massa, então a lei 2 em que os m e os v representam respectivamente a massa e a velocidade
enunciaria uma constância e uma universalidade de comportamento nos dos corpos.
fenômenos naturais (todas as vezes que uma força age sobre um corpo, a Dividamos a relação (9) pelo intervalo de tempo M considerado:
taxa de variação do momento linear é proporcional à força), e teríamos
então uma lei natural.
m1 6v1 =-mi b.v2 (1 O)
Vamos agora à lei 3: o fato de que, quando dois corpos interagem
t.t b.t
(como diríamos hoje), as forças mútuas de interação são iguais e opostas,
não é a priori evidente: se tal fato ocorre (como todas as experiências de
Mecânica* provaram até hoje) então temos realmente, pelo menos em Cinematicamente, a razão t.v/6t é a aceleração* do corpo.
aparência, outra lei natural. Temos então:
Vimos, porém, que até agora não temos uma definição satisfatória
(11)
para massa, nem por conseqüência para força. No entanto, analisando em m1 ª1 = - m2 ª2
maiores detalhes a lei 3, no próprio quadro newtoniano, podemos mos-
trar que essa lei é verdadeiramente uma lei da natureza, a única, a rigor, e finalmente, passando aos módulos:
que Newton propõe naquelas definições e leis do começo da obra.
A segunda parte da lei 3 será suficiente:" As ações mútuas de dois
corpos são sempre iguais e se exercem em sentidos opostos". A definição m1 ª1 = m2 ª2 ~~ = m2 (12)
ª2 m1
4 diz que ação é força impressa. De modo que a lei 3 pode escrever-se:
"As forças entre dois corpos são sempre iguais e se exercem em
sentidos opostos" As relações (11) e (12) permitem agora que cheguemos ao enuncia-
Mas a lei 2, na sua primeira forma discutida acima diz que:" ... a do final da lei 3, modificado evidentemente, mas sem que tenhamos
taxa de variação do. momento linear é proporcional à força impressa." saído do quadro da própria formulação newtoniana:
Observando-se que numa interação entre dois corpos, o tempo que "Quando dois corpos interagem:
dura a interação e conseqüentemente o tempo durante o qual se exercem a. as acelerações têm em cada instante direções opostas (relação 11 );
as forças mútuas é o mesmo para os dois corpos, a formulação da lei 3 b. a razão entre os módulos dessas acelerações é constante (relação
pode de novo evoluir para: 12);
"Quando dois corpos interagem, as variações dos momentos linea- c. essa razão é igual à razão inversa entre as massas dos dois corpos
res dos dois corpos são sempre iguais e têm sentidos· opostos". (relação 12).
Para facilitar a compreensão, escrevamos isto analiticamente: Observamos que os itens (a) e (b) da lei 3 assim enunciada são
expressões de leis naturais, enquanto que a parte (c) fornece (agora) uma
6p1 = - t:.p2 (7) definição satisfatória da massa. ·
Com efeito, introduzimos dessa maneira um conceito (dinâmico)
em que 6p 1 e 6p 2 são respectivamente as variações de momento de cada novo a partir de uma relação puramente cinemática.
um dos corpos, durante um determinado intervalo de tempo. Foi pois a lei 3 que nos forneceu a chave que permite vencer o
Mas, pela definição 2: círculo vicioso iniciado com a definição 1.
Podemos agora voltar atrás. Tendo-se definido a massa, a lei 2
p = mv ~ t:.p = m t.v. (8) passa a ser uma definição quantitativa correta de força**, ao mesmo
tempo que, revelando uma uniformidade de comportamento físico, eia se
A relação (7) se escreve então: erige em lei natural.

m 1 6v 1 = -m 2t:.v2 (9) * ~ a aceleração média, mas a passagem ao limite, para t;t-+ O é evidente, de modo que a relação
é verdadeira também para as acelerações instantâneas.
• No sentido clássico, isto é, excetuando-se os fenômenos eletromagnéticos e, de um modo mais
geral, relativistas. •• Para simplificar, fazemos k = 1 na relação (3).

64 65
A lei 2 se escreve agora, indiferentemente: ton descreve detalhadamente como procedeu para verificar experimen-
talmente a validade da lei 3. Utilizou pêndulos de várias massas e feitos
F = .6.p ou F = ma, (13) de materiais diversos, continuando assim, conforme ele mesmo rec.o-.
.6.t nhece, as experiências iniciadas por Wallis, Wren e Huygens. Mas não há
nenhuma indicação quanto à gênese das leis 1 e 2.
com os símbolos já definidos. Nossa tarefa agora consistirá em construir uma formulação lógica,
A relação (11) passa assim a se escrever: 1 e tanto quanto possível rigorosa, do aparelho newtoniano. Constante·
mente faremos uso do método.científico, e da elaboração de modelos. As
F1 = - F2 verificações experimentais servirão de base para (prudentes) generali·
zações, conforme os próprios mandamentos newtonianos, que se encon-
e finalmente podemos voltar a um dos nossos primeiros enunciados da tram por um lado nas "Regras a seguir para o estudo da Filosofia Na-
lei 3: tural", no início do Livro Ili, e por outro lado no Escólio Geral que
LE13 termina a obra.
Quando dois corpos interagem, as forças mútuas de interação são
iguais e se exercem em sentidos opostos.
1 Transcreveremos, na íntegra, o texto das Regras* , e a seguir tre-
chos do Escólio Geral. Este capítulo terminará assim com as palavras do
Conseguimos assim analisar em profundidade o pensamento new- próprio Newton.
toniano, distinguindo o que, na formulação de Newton, é definição do
que é lei. Essa análise nos servirá de guia em muitos dos raciocínios que
serão desenvolvidos nos capítulos seguintes.
1 REGRAS A SEGUIR PARA O ESTUDO DA FILOSOFIA
NATURAL

CONCLUSÃO REGRA 1
Embora a formulação newtoniana seja· às vezes imprecisa, o seu Não se devem admitir outras causas dos fenômenos naturais além
sucesso é o melhor testemunho da profundidade e da clarividência do das verdadeiras e suficientes para explicar os fenômenos.
pensamento do seu autor. • Como .dizem os filósofos, a natureza nada faz em vão e seria agir
Basta assinalar que essa formulação serviu de base para o desen- em vão admitir muitas (causas) para o que 'pode ser feito com poucas. A
volvimento analítico da Mecânica, que culminou com a obra de Lagrange Natureza. é simples e não se dá ao luxo de se utilizar de causas supérfluas.
no final do século XVII 1, e para a elaboração da Mecânica celeste que
atingiu seu apogeu com Laplace no início do século XIX. REGRA 2
Essa mesma formulação é também, hoje em dia, a base operaciorrd: Os efeitos de mesma natureza devem ser sempre atribuídos à
de todos os trabalhos de Engenharia, desde a construção de pontes até os mesma causa, no que possível for.
problemas das órbitas dos vôos espaciais. Assim (é) a respiração dos animais e a dos homens; a queda de uma
Será necessário chegar ao século XX para se enconfrar, com Eins- pedra na Europa e nas .Américas; a luz do fogo que cozinha (os alimen-
tein e outros, os limites do modelo newtoniano, no caso de partículas tos) e a do Sol; a reflexão da luz pela Terra e pelos planetas.
cujas velocidades se aproximam da velocidade da luz. 'A Mecânica newto-
niana não será, no entanto, abalada por essas novas descobertas: per- REGRA 3
ceber-se-á que é simplesmente o caso limite, o caso da escala humana, As qualidades dos corpos, que são suscetíveis de acréscimo ou
numa formulação sensivelmente mais complexa. decréscimo e que pertencem a todos os corpos com os quais é possível
Newton dá, nos Principia, poucas indicações de como conseguiu experimentar, devem ser consideradas como perténcen,tes a todos 0s cor-
chegar aos resultados que enunciou. pos em geral.
No Escólio, que termina a parte introdutória dos Principia*, New-
• Isto. é, a parte reservada às definições e às leis. • O que se segue, inclusive os comentários que acompanham as Regras, foi diretamente tra-
duzido da 3.ª edição dos Principia.

66
67
As qualidades dos corpos só se podem conhecer pela experiência, planetas pe~m mutuamente uns sobre os outros e que os cometas pesam
também sobre o Sol, podemos concluir de acordo com esta (terceira)
de modo que se devem considerar como qualidades gerais as que se
regra, que todos os corpos gravitam mutuamente uns em relação aos
encontram em todos os corpos e que não podem sofrer diminuições, pois
é impossível despir os corpos de qualidades que não podem ser diminuí- outros.
Esse raciocínio em favor da gravitação universal dos corpos, ex-
das. Não se podem opor sonhos às experiências e não se deve abandonar
traído dos fenômenos, é mais evidente do que o que nos levou a concluir
a analogia da Natureza, que é sempre simples e semelhante a si m.esma.
a sua impenetrabilidade. Com efeito, nenhuma experiência, nenhuma
A extensão dos corpos só se conhece pelos sentidos: mas como a observação nos assegura de que os corpos celestes sejam impenetráveis.
extensão pertence a todos os (corpos) que são percebidos por nossos No entanto não afirmo que a gravidade seja (uma qualidade) essen-
sentidos, afirmamos que ela pertence a todos os corpos em geral. cial dos corpos; entendo que somente a inércia é uma força inata: é
Achamos que muitos corpos são duros: ora, a dureza do todo imutável, enquanto que a gravidade diminui quando (o corpo) se afasta da
provém da dureza das partes; por isso admitimos essa qualidade não
somente nos corpos em que nossos sentidos comprovam a sua existência, Terra.
mas inferimos com razão que as partículas indivisíveis de todos os corpos
devem ser duras.
ESCÓLIO GERAL
Concluímos da mesma maneira que todos os corpos são impene- Essa ordenação admirável do Sol, dos planetas e dos cometas só
trávefs. Sendo todos os que tocamos impenetráveis, consideramos a impe-
pode ser a obra de um Ser todo-poderoso e inteligente ...
netrabilidade como propriedade que pertençe a todos os corpos.
Esse Ser infinito governa tudo, não como a alma do mundo, mas
Todos os corpos que conhecemos são móveis e dotados de certa
força (que chamamos força de inércia), pela qual permanecem no (mes- como Senhor de todas as coisas . .. A dominaçã_o de um Ser espiritual é
obra de Deus. . . e fala-se que Ele se alegra, se encoleriza, ama, odeia,
mo estado de) movimento ou repouso; concluímos que todos os corpos
em geral possuem essa propriedade. deseja, constrói, fabrica, aceita, dá, porque tudo o que se diz de Deus
A exten'são, a dureza, a impenetrabilidade, a mobilidade e a inércia procede da comparação com as coisas humanas ...
do todo provêm pois da extensão, da dureza, da impenetrabilidade, da t isso o que eu tinha a dizer de Deus e suas obras constituem o
mobilidade e da inércia das partes; daí concluímos que todas as pequenas objeto do estudo da Filosofia natural . ..
partes de todos os corpos são extensas, duras, impenetráveis, móveis e Não consegui ainda deduzir dos fenômenos a razão das proprie-
dotadas da força de inércia. E. nisto está o fundamento da Filosofia dades da gravitação e não finjo hipóteses. Pois tudo o que não se deduz
(natural). dos fenômenos é uma hipótese: e as hipóteses, sejam elas metafísicas, ou
Sabemos também, pelos fenômenos, que as partes contínuas dos físicas, ou mecânicas, ou de qualidades ocultas, não têm lugar na Fito·
corpós podem separar-se .e os matemáticos mostram que o espírito pode sofia experimental. Nessa Filosofia, as proposições são deduzidas dos
distinguir uma das outras as menores partes indivisas. Ignora-se ainda se fenômenos e a seguir generalizadas por indução.
essas partes distintas e indivisas poderiam ser separadas pelas forças da
Natureza; mas se uma só experiência mostrasse que uma dessas partes,
consideradas indivisas, sofre alguma divisão pela quepra de qualquer
corpo duro, concluirí.amos de acordo com esta 1:terceira) regra, não somen-
te que as partes divididas são separáveis como também que as que são in-
divisas podem separar-se ao infinito.
Finalmente, sendo evidente, pelas experiências e pelas observações
astronômicas, que todos os corpos situados próximos da superfície da
Terra pesam sobre a Terra* de acordo com a quantidade de matéria
(desses corpos); que a Lua pesa sobre a Terra1 segundo a sua quantidade
~e matéria, que nosso mar pesa por sua vez sobre a Lua, que todos os

• ... Corpora omnia ... gravia esse in terram.

69
68
QUESTÕES CONCEITUAIS

1 Compare o conceito newtoniano de composição dos movimentos com o problema da


mudança de referenciais, no caso mais simples de referenciais eni translação relativa retillnea e
uniforme.

2 O trecho traduzido a seguir é parte das considerações que Newton tece a respeito do
movimento absoluto e do movimento relativo, e seguHe a parte traduzida na seção 2.3, § 4:
"As causas pelas quais se pode distinguir o movimento v11rdad11iro do movimento 19l11ti110 l
são as forças imprBSSBs nos corpos para comunicar-lh11s o movim11nto. Com 11fllito, o movim11nto.
Vt1rdad11iro d11 um corpo s6 pod11 Stlr produzido ou alt11rado por forças aplicadai a 1111111 corpo. Ao
ii
contrário, S8U movimento relativo pod11 ser g11;ado ti alttlrado sem qu11 haja foTÇllS aplicadas ao ~
carpo: basta qUB haja forças qUB SB 11x11rçam ioblfl os corpos 11m miação aos quais sa considllra (o
movim11nto mlativo), pois 11ntâo 11sses corpos Stlndo movidos, mudam a lfllação qu11 camctBriza o f.
lflpouso ou o movimento r11lativo.
O movimtnto verdadeiro é St1mpr11 alterado p11las forçai aplicadas ao corpo 11m movim11nto,
enquanto qu11 o movimento relatira não é 1111Cessariam11nt11 altt1rado por BISBS forças. Com 11f11ito,
basta que as mesmas ft;1rças Stljam aplicadas também aos corpos (11m relação ao1 quais w consid11ra
o movimento relativo) d11 man11ira 11 consarvar inaltt1rado o lugar relativo; (nBSSB's condiç&ls} 111
mlaç&ls qU,, dtlfin11m o movim11nto r11lativo st1'6o const1rvadu".
Comente criticamente as afirmações precedantês.

3 No cornentdrio que segua a defini~ 5, ancomramos:


AS LEIS FUNDAMENTAIS 1
"Suponhamos que uma bala de canhilo seja atirada horizontalmente do alto da uma mon-
tBnha, com uma velocidade suficiante para qua percorra uma distlncia de duas léguas anttls de
cair na Terra,: com uma VB/ocidade dupla, 16 cairia depois d11 °percorrer quatro /'9JJas aproximada-
r
~
$
ment11; càm Dma velocidade dez vezes maior, iria d11z v11zes mais lontp1 (desde qu11 nlo 1t1 consi·
der11 a rt1sistlncia do ar). Aumentando·ltl a velocidade do corpo, aumentar/amos à 110ntad11 o
caminho qu11 ele percorreria antes de e11ir na Terra, diminuindo-se ao mesmo t11mpo a curvatura
l!
d11 sua traj11t6rla, de modo qu11 poderia cair à distlncia d11 10, de 30 ou de 90 graus, ou mflsmo
poderia circular em volta (da Terra} sem nunca cair nela; poderia até afastar-sa 11m linha reta ao ~'
t.,
infinito, no céu."
Comente criticamente o trecho acima. '
4 Nos comentários que seguem a definição 8, Newton explica a diferença entre a força
aceleradora e a força motora (centrípeta 1:
" ••• a força centrlpeta aceleradora estll para. a força cantrlpeta motora como a Vtllocidade
BStll para (a quantidade de} movimento. Com efeito, da mflsma forma que a quantidade de
movimento é o produto da malSB pela l(&locidade, a quantidade de força cantrfpeta motora é o
produto da força centrfpeta aceleradora pela massa."
Como se traduziriam em termos modernos e com os símbolo& convencionais (massa m,
velocidade v, etc. ... )os conceitos acima?

70
Capltulo-3 Capítulo 3
OS REFERENCIAIS INERCIAIS E A OS REFERENCIAIS INERCIAIS
PRIMEIRA LEI DE NEWTON, 73 E A PRIMEIRA LEI DE NEWTON
Capitulo 4
MASSA INERCIAL ~
CONSERVAÇÃO DO MOMENTO LINEAR, 91 ~
1
~
Capitulo 5
FORÇA
!~

2.a e 3. 8 LEIS DE NEWTON, 139

1NTRODUÇ.Ã.0
:
~
.·1
Este câpítulo inicia uma tentativa de estruturação lógica das l,eis
do movimento .
ii Começaremos por definir o que se entende por referencial. A se-
~j
guir, mostraremos o papel fu~damental da aceleração no estudo físico do
movimento, isto é, no estudo do movimento em relação às suas causas
j
1 naturais.
~
\•J Para simplificar, seremos levados a procurar um referencial em que
i as acelerações tenham a forma mais simples: chegaremos assim aos refe-
j renciais inerciais.
l A primeira lei definirá formalmente esses referenciais.

1
1
3.1 O MODELO DE PARTfCULA
l Na elaboraçção da estrutura básica da Mecânica newtoniana,
faremos uso exclusivo do modelo de partícula: as dimensões dos corpos
em estudo são desprezíveis em comparação com as dimensões envolvidas
nas situações físicas consideradas (por exemplo: distâncias percorridas,
distâncias mútuas entre corpos, etc .... ).
Outra maneira de expressar o que precede é dizer que desprezamos
a estrutura interna dos corpos, por não considerá-la relevante.
No decorrer das nossas experiências, poderemos encontrar difi-
cu Idades a esse respeito: será às vezes criticável identificarmos um car-
rinho a um ponto material. É que, nesses casos, a estrutura interna do

73
3.3 REFERENCIAISPOSS(VE/S E IMPOSS(VEJS
corpo em estudo será um parâmetro relevante da experiência. Veremos A experiência comum mostra que, desde que escolhamos certos
oportunamente como tratar esses problemas. referenciais, experiências iniciadas em condições análogas procedem de
maneira análoga.
3.2 REFERENCIAIS EXEMPLO 1
O movimento de uma partícula é caracterizado cinematicamente Suponhamos que um eletroímã fixado no teto da sala em A (figu-
por três grandezas: posição, velocidade e aceleração. ra 2) sustente uma pequena bola de aço. 1nterrompendo-se a corrente no
Aprendemos em Cinemática que a posição de uma partícula é eletroímã, a bola cai e atinge o solo no ponto B, pé da perpendicular
definida em relação a um determinado sólido de referência ou conjunto baixada de A sobre o chão da sala.
indeformável de sólidos (por exemplo, as paredes, o chão e o teto de uma
sala), conjunto esse que é dotado de um sistema de eixos coordenados A
mutuamente ortogonais, orientados por seus respectivos vetores unitários
(figura 1 ).

z
r
a

Fig. 2 Uma bola de aço cai de determinado ponto do teto de uma sala.·Ela atingirá o chão sem-
y pre no mesmo lugar.

Se recomeçarmos a experiência duas ... dez ... ou mil vezes, a


bola largada do mesmo ponto A atingirá sempre o chão no mesmo ponto
B. A aceleração da bola pode ser determinada experimentalmente: ela
Fig. 1 A posição (ri, a velocidade (v 1 e a aceleração (a) de uma partícula, em determinado tem sempre o mesmo valor.
instante, são definidas em relação a um sistema de eixos coordenados "amarrado" ao sólido de
referência escolhido. EXEMPLO 2
Se recomeçarmos as experiências em um veículo em movimento
No exemplo da sala tomada como sólido de referência, os três retilíneo e uniforme em relação à Terra, observaremos que a bola, largada
eixos podem ser materializados por três arestas (junções de duas paredes, do mesmo ponto do teto do veículo, atingirá outra vez o chão«:tQveículo
ou de uma parede com o chão) que concorrem em um dos cantos. sempre no mesmo ponto, no pé da perpendicular baixada de A'Sobre o
O sólido.de referência com o seu sistema de eixos coordenados só chão. A aceleração terá o mesmo valor que na queda efetuada Qª sala.
permite definir a posição da partícula.
Para definir velocidade e aceleração precisaremos também medir EXEMPLO 3
intervalos de tempos. De modo que, junto ao nosso sólido de referência, Se as experiências forem feitas em um veículo em moyimento
deverá existir um relógio. retilíneo uniformemente acelerado em relação à Terra (figurà 3), a bola
O conjunto do sólido de referência (com os seus eixos) e do re- atingirá o chão do veículo sempre no mesmo ponto B, embora esse ponto
lógio será chamado simplesmente r_eferencial. agora não seja mais o pé da perpendicular baixada do ponto A sobre o
A aceitação sem discussão do caráter euclidiano do espaço e do chão, como nos exemplos anteriores.
· caráter absoluto do tempo é implícita na expressão "referencial".
75

:,q
A b. Todos os referenciais em rotação uniforme em um plano hori-
zontal, em relação à Terra.
Esses são os referenciais possíveis que traduzem o título desta
/ seção e sempre no quadro por enquanto limitado das nossas experiências.
I a Em contrapartida, imaginemos que estamos dentro de um veículo
/ cujo movimento é completamente desordenado. Acelera, freia, vira à
/ esquerda, vira à direita, pára de repente, anda de novo, etc...
Se repetirmos dentro de tal veículo a experiência da bola largada
do teto, perceberemos rapidamente que o resultado da experiência é cada
vez diferente e, conseqüentemente, somos incapazes de prever o que vai
acontecer, quando a bola for largada.
Nesse tipo de referencial, não há obviamente nenhuma possibili-
Fig. 3 Em um veículo com aceleração constante a em relação a Terra, a bola largada de A atin-
ge ainda.o chão sempre no mesmo ponto B. dade de construirmos uma Física, pois qualquer generalização, qualquer
indução nos é proibida, devido à nossa incapacidade absoluta deprever.
Verificaremos também que a aceleração tem um valor constante Esses referenciais são os referenciais impossíveis.*
em todas as experiências, embora esse valor seja diferente do encontrado A nossa próxima tarefa será de limitar ainda mais a escolha entre
nas duas situações anteriores. os referenciais possíveis. Mas para tanto precisamos entender o papel
singular da aceleração nos fenômenos naturais.
EXEMPLO 4
Experimentaremos agora em um veículo que percorre uniforme- 3.4 O PAPEL FUNDAMENTAL DA ACELERAÇÃO NOS REFE-
mente uma pista circular horizontal: observamos de novo que a bola RENCIAIS POSS(VEIS
atinge o chão do v'eículo no mesn:io ponto, embora diferente dos pre- EXEMPLO 1
cedentes. Uma bola de aço rola sobre uma mesa horizontal. O atrito é des-
Esses exemplos e outros que podemos facilmente imaginar mos- prezível. A aceleração da bola é nula (figura 4).
tram que experiências conduzidas em certos referenciais se repetem, e Ao atingir a borda da mesa, a bola cai,. Nesse instante a aceleração,
isto permite prever o que acontecerá em determinadas condições expe- que era nula, passa a ter, de repente, o valor 9,8 m/s 2 , sendo dirigida para
rimentais sempre iguais, uma vez observado o que aconteceu em um baixo.
número reduzido de experiências preliminares. Houve descontinuidade no valor da aceleração. Observamos que
· A possibilidade de repetição das experiências, nesses referenciais, é não houve descontinuidade na posição nem na velocidade da bola. '
responsável por nossa fé na causalidade que preside a todos os fenômenos Qual é a razão da descontinuidade da aceleração?
naturais. Acreditamos, talvez instintivamente, que "as mesmas causas É que, de repente, o universo com que a bola estava "conversan-
produzem os mesmos efeitos". Graças a essa possibilidade de repetição do" mudou de configuração. Enquanto a bola estava rolando sobre a
qualquer ciência pode desenvólver-se, e a "generalização por indução", mesa, ela se "entendia" com a mesa e com a Terra (não considera-
recomendada por Newton, torna-se possível. · mos a presença do ar, irrelevante nessa experiência). No ponto assin_a-
Quais são os referenciais em que as experiências se repetem?
No quadro limitado da nossa experiência é, em primeiro lugar, a
Terra e tudo o que é fixado na Terra, como a sala da nossa primeira • É necessário explicitar claramente nossas hipóteses, para evitar possíveis erros de interpretação.
experiência. Costuma-se dizer em Física que qualquer referencial é "passivei", Mas o que se quer dizer por isso
é que, conhecendo-se a lei do movimento de um dos nossos referenciais "impossíveis" em relação
· São também: a um "possível" (a Terra por exemplo), poderemos prever o resultado de qualquer experiência
a. Todos os referenciais em translação - não necessariamente reti- conduzida no referencial "impossível", Isto é verdade: trata-se de um problema de mudança de
referencial. Mas ·não é o caso que temos em mente aqui. Estamos supondo que o experimentador
1í nea - mas com aceleração constante em relação à Terra.
no interior do veículo que freia, acelera, , • _ não conhece a lei do movimento do veículo em rela-
Essa categoria inclui evidentemente os referenciais .em translação ção à Terra. Em principio pode até desconhecer a existência de qualquer outro referencial. Ove-
retilínea uniforme (caso do exemplo 2). ículo, para ele, será realmente um referencial "impossível".

76 ·77
i ,,,,, .... ---- ----- -- ........
·----------- -·- , ,, ... ...

:~
1 I '
.....
.....
'' \ '\1
I
I

' ' ...


... ..... _________ , , '"' ,, I

Fig. 4 Uma bola da aço rola sobre uma mesa horizontal cóm atrito desprezível. AD cair da mesa
lsetal há descontinuidede
na velocidade.
"ªaceleraçlo da bola, embora não haja descontinuidada na posição e
(a)

lado pela seta da. figura 4, amesa desapareceu (para a bola de açoJ,
----------- -- .......
ficando somente a Terra. ,,.,,,....
,.-" '
I
.1 ' \
EXEMPLO 2
Uma bola amarrada na extremidade de um fio está em movimento
1
\ ~ \
\/
'' V
circular uniforme sobre uma mesa horizontal (figura 5). A aceleração da
bola é a, dirigida para o centro da trajetória.
Suponhamos que o fio se
parta. A bola continua na tangente em
' ,, -., ..... _
----------- .,,,., _,J'.I
/I

movimento uniforme: de repente a aceleração anulou-se.


Porquê?
Outra vez, no instante em que o fio se partiu, o universo em que se
movia i:! partícula sofreu uma mudança brusca. Antes do rompimento, a·
bOla "conhecia" o fio, a mesa e a Terra. Depois, o fio desapareceu do (b)
universo da bola, ficando somente a mesa e a Terra. Observemos de
novo que nem a posição nem a velocidade da bola sofreram desconti- Fig. 5 Em (a) o mollimento 6 circular uniforme. A acitleraçlo da bole 6 centrfpeta. Em lbl o
nuidades, ao contrário da aceleração. fio que mantinha a boia na sua trajetória quebrou. A aceleraçlo 6 nula.
Os exemplos precedentes mostram que nos referenciaisposs/veis, a
única grandeza cinemática capaz de assinalar sem ambigüidade uma menor será a influência que uma mudança das posições relativas do corpo
modificação repentina do universo em que se movimenta a partícula é a e da partícula terá na·aceleração desta. .
aceleração. Se a partícula está infinitamente longe de um corpo, ela ignora
Não concluamos, porém, que qualquer mudança na estrutura desse simplesmente a existência desse corpo. ·
universo, na posição dos corpos que o compõem, modificará a aceleração Mostremos agora que a aceleração é também, nos referenciais pos-
da partícula. síveis, a única grandeza cinemática suscetível de caracterizar ·a estrutura
Por exemplo, a aceleração da Lua no seu movimento é sensível às do universo da partícula,, em determinado instante.
posições da Terra e do Sol, muito pouco sensível à~ posições de Júpiter e.
de Satúrno e absolutamente insensível (pelo menos na faixa de precisão EXEMPLO 3
das nossas medidas) às posições de Urano, de Netuno, de Plutão e das Suspendamos uma bola de aço na extremidade de uma mola espi·
estrelas. . ral fixa no laboratório e façamos oscilar o sistema (figura 6).
De um modo geral a experiência confirma que quanto maior for o Observamos que todas as vezes que a bola passa pela mesma posi-
. afastamento entre a partícula estudada e um· outro corpo do universo, ção (x p~r exemplo, na figura 6), sua acele~ação tem o mesmo valor.

t
79
78
~ X~
~
máquina
fotogrêfica
giratória

i'
Fig. 6 A aceleração da particula suspensa à mola depende exclusivamente da posição da bola no
Laboratório.
r----,----=-o._, (((O- bola de aço

Dependendo das condições iniciais impostas ao sistema (posição e


velocidade iniciais), a bola passará por aquela posição com velocidades
diferentes. Poderá ir para cima, para baixo. Poderá inclusive estar, instan-
taneamente, com velocidade nula.
Porém, em todos os casos, a aceleração terá o mesmo valor e o
mesmo sentido. ·
No entanto, nem sempre as coisas são tão simples, mesmo nos Fig. 7 Estudo do movlmento de uma bola em um referencial em rotação.
referenciais posslveis:

EXEMPL04.
Uma bola de aço move-se com atrito desprezível sobre uma mesa
horizontal fixa no laboratório (figura 7).
Uma máquina fotográfica cuja objetiva permaneça aberta, registra
a trajetória da bola*. ,.
' Se a máquina fotográfica for fixa, o movimento visto por ela é um
movimento retilíneo: é o movimento estudado no referencial do labora-
p
tório.
Suponhamos agora que a máquina gire com movimento uniforme
em torno de seu eixo ótico. Y1
O filme mostrará o movimento da bola em um referencial em
rotação uniforme. A figura 8 mostra uma trajetória possível.

•Supõe-se que a experiência foi feita numa sala escura, com a bola iluminada por flashes com
freqüência constante. Essa técnica, chamada estrobosc6pica, registra as posições sucessivas do Fig. 8 Um movimento retilíneo e uniforme (no Laboratório) é visto em um referencial em rota·
móvel (aqui a bola) a intervalos de tempo iguais. Podamos assim construir a trajetória e deter· ção uniforme. Em P a partícula passa duas vezes, com valocidades diferentes: as acelerações slo
.minar a velocidade e a aceleração em qualquer instante. também diferentes.

80 81
Considere o ponto P. A partícula passa duas vezes por esse ponto; que v é a velocidade e R o raio da órbita. Como, obviamente, v = 211' RIT,
na primeira vez tem velocidade v1 , na segunda--vez tem velocidade v2 . em que T é o período, segue-se que a aceleração a é dada pela expres-
Quando, em P, a partícula tem velocidade v1 , sua aceleração é a 1 ; são:
quando tem velocidade V2, a aceleração é a2, diferente de a 1 •
Pode-se mostrar que a aceleração da partícula, no referencial em a= 411 2 R!P ( 1)
rotação, depende somente de sua posição e da sua velocidade. TABELA 3.1
Os exemplos precedentes mostram que, nos referenciais passiveis,
a aceleração de uma partícula depende da sua posição em refação aos 1Planeta 1 Raio médio da órbita (m) 1Perfod~W--J ,11.-;;;ie~m/;•r=J
corpos que constituem o universo em que se move, como também, em
Mercúrio 5,76 • 1010 7,60 • 106 3,85 • 10-•
certos casos pelo menos, de sua velocidade no referencial considerado.
Vênus 1,08 • 10 11 1,94·10 7 1,11 • 10- 2
Resumamos agora o que aprendemos nesta seção.
Terra 1,50 • 10 11 3,15°10 7 5,86 • 10-•
Nos referenciais posst'veís, a aceleração de uma partícula em mo-
vimento: Marte 2,28 . 10 11 5,94 • 10 7 2,50 10-•

Júpiter 7,75 • 10 1 _' 3,74 • 10 8 2,15 10-•
•.
a. é a única grandeza cinemática suscetível de assinalar, por suas
Saturno 1.42 • 1012 9,30 • 10 1 6,37 -10- 5
descontinuidades, as mudanças repentinas do universo em que se move a
partícula;
Construamos a seguir o gráfico da aceleração em função do raio,
b. é a única grandeza cinemática em correspondência unívoca com o
binômio posição-velocidade. fstQ significa que admitindo-se que a estru- em papel log-log.
tura do universo da partícula se conserve invariante durante a ~xperiên­
O gráfico é uma reta (figura 9) cujo coeficiente angular é-2.
cia, todas as vezes que a part ícufa passar pela mesma posição com a Ora, em papel log-log, as ordenadas representam os logaritmos das
mesma velocidade, terá a mesma aceleração; acelerações e as abscissas representam os logaritmos dos raios.
c. é insensível às posições ou às mudanças de posições de corpos Deduzimo$ então que entre as acelerações a dos planetas e suas
extremamente afastados e que por essa razão não são considerados como distâncias R ao sol existe uma relação da forma:
pertencentes ao universo da partícula. Log a = - 2Log R + Ki (2)
São essas propriedades que fazem da aceleração a grandeza cine-
mática fundamental quando queremos utilizar o movimento de uma par- em que K~ é uma constante.
tícula para obtermos informações quanto à estrutura do universo. A relação (2) é equivalente a:
· Tendo-se entendido que a aceleração de uma partícula.é, das três a = Kr 2 , ou a = Klr,, (3)
grandezas cinemáticas, a única fisicamente relevante, é lógico que, dentro
dos referenciais posst'veis, procuremos aqueles em que a aceleração da em que K é outra constante.
partícula tenha a sua expressão mais simples possível. Descobrimos assim que as acelerações dos planetas dependem
exclusivamente das suas distâncias ao sol.
Em que referencial foram medidas essas acelerações?
3.5 O REFERENCIAL SOL-ESTRELAS Em um referencial definido pelo Sol e as estrelas fixas, já que o
Voltemos a Copérnico e às suas órbitas ·planetárias circulares em período indicado na Tabela 3.1 é o período sideral dos planetas.
torno do Sol. Concluímos que, naquele referencial, as acelerações dos planetas
A tabela 3.1 fornece três dados relativos aos seis primeiros pia- não dependem das suas velocidades*, dependendo ~omente das suas
netas: posições. .
a. o raio médio da órbita, em metros; Não existe referencial em que a aceleração de um planeta tenha
b. o período, em segundos; expressão mais simples que (3):
c. a aceleração em m/s 2. K-
Essa aceleração é a de um movimento circular uniforme. Apren- a=- ,2
demos em Cinemática que ela é centrípeta e vale, em módulo, v2 /R em • Como acontece, por exemplo, no sistema ptolomaico, no referencial ligado à Terra.

82 83
11C»lereÇio
naquele referencial Sol-estrelas que a aceleração de todo e qualquer mo-
(m/1 2 )
vimento se expressa mais simplesmente*.
Por exemplo, voltemos à experiência clássica da pedra que cai
livremente no laboratório. Medimos a aceleração no referencial do pró-
~
Mer :(ri prio laboratório, isto é, em um referencial amarrado à Terra e achamos
que essa aceleração pode ·ser representada por um vetor vertical, dirigido
\
' " para baixo, cujo módulo vale aproximadamente 9,8 m/s 2 •
~ Achamos também, seguindo nisto Galileu e Newton, que todos os
1\ corpos caem no laboratório com a mesma aceleração, desde que a resis-
tência do ar seja irrelevante nas nossas experiências.
1\ Não se pode negar que a expressão da aceleração da queda livre, na
I'\ Vênus
10 ' superfície da Terra, tenha uma forma extremamente simples.
'' Essa expressão, aliás, seria a mesma para o movimento de um
\
\ projétil.
'~ 1u 1 Ora, durante os poucos instantes em que cai uma pedra ou se
\ -
movimenta um projétil, o movimento da Terra no referencial Sol-estrelas
' pode ser considerado como de translação retilínea uniforme.
Aprendemos por outro lado em Cinemática que a passagem de um
\M< rte referencial (aqui o referencial Sol-estrelas) para outro referencial (aqui o
referencial terrestre) em translação retilínea· e uniforme em relação ao
\ primeiro, muda as posições e as velocidades, mas não altera as acele-
;

10" 1 \' rações.


Em conseqüência, a aceleração da pedra que cai, ou a do projétil é
a mesma no referencial Sol-estrelas que no referencial laboratório: ela
- 1\
\
tem, como os planetas, a sua forma mais simples naquele referencial.
I Algumas experiências mostrarão uma propriedade fundamental do
~ referencial Sol-estrelas ou, em primeira aproximação, do referencial ter-
restre.
1\
1

I' .ú~r- 3.6 A PARTfCULA ISOLADA


A rigor, uma partícula isolada seria uma partícula infinitamente
' Í"I afastada de qualquer outra.
Obviamente, tal partícula não existe. Mas podemos, no labora-
10·••
/

1\ tório, simular uma partícula isolada com razoável aproximação .


10' 0 10 11
Raio dá órbita (m)
1 12-\----- A melhor maneira de simular uma partícula isolada, no laborató-
- \
\:>aturno rio, é por meio de carrinhos que flutuam sobre colchões de ar, ao longo
de trilhos, para os movimentos unidimensionais; para os movimentos
bidimensionais o trilho é substituído por uma mesa e os carrinhos por
Fig•. 9 Aceleração dos planetas em função do raio da órbita. O coeficiente angular da reta obti- discos.**
~ é~ . .
*Para ser exato, deveria se substituir o Sol pelo centro de massa do sistema solar. A diferença
No entanto, o que é verdadeiro para os movimentos planetários no entanto é irrelevante.
poderia não sê-lo para outros movimentos. Mas acontece que as leis ••Trilhos e mesas apresentam orifícios pequenos, regularmente espaçados, por onde escapa o ar
comprimido. !Ô esse ar que sustenta os carrinhos e os discos.
naturais, que iremos descobrindo aos poucos, são tais que é realmente
85
s4
Se o trilho ou a mesa forem cuidadosamente nivelados em posição tão, o planeta mais afastado do Sol; o raio da sua órbita é 4,5 1012 m. *
horizontal, o peso do carrinho ou do disco é equilibrado pela força Calculernos a sua aceleração, como fizemos na tabela 3.1 para os
exercida pelo ar, de modo que a força resultante que age sobre o objeto seis primeiros planetas: achamos 6,6 10-6 m/s 2 , ou seja,. em números
(disco ou carrinho) é nula.* · 1 redondos, sete milésimos de milímetros por segundo, por segundo. É
Em vez. de .dizer que a força resultante sobre o objeto é nula, evidente que a curvatura da órbita de Netuno é muito pequena. De fato,
diremos que a partícula (modelo do carrinho ou do disco) representa para observações da ordem de grandeza de um mês, o movimento de
uma partícula isolada. Netuno é, para todos os efeitos, um movimento retilíneo uniforme.
· Ao afirmarrT)OS que o. carrinho que desliza sobre o trilho representa Passemos agora à definição do referencial inercial.
Uma· partícula isolâda, estamos acreditando que o carrinho se comporta
como se estivesse infinitamente longe de qualquer outro objeto.
Qbservemos que essa afirmação tem uma base lógica extrema- 3.9 DEFl~~IÇAO: O REFERENCl/\L INERCIAL (Pf'~IMEIRA LEI
mente _fraca: nada com efeito permite afirmar, a rigor, que as outras DE l\JE NTON)
1 .
coisas, como as pessoas presentes no laboratório não influenciem o movi- As leis da Mecânica clássica, que serão elaboradas no decorrer dos
mento do carrinho. próximos capítulos, serão válidas somente quando' os movimentos dos
Por essa razão**, os resultados das experiências que serão des- corpos envolvidos nas nossas ex11eriências forem estudados em um refe-
critas· agora não· poderão servir de base para o enunciado de uma lei rencial inercial, que simbolizaremos geralmente por (S).
natural;'constiturrão, no entanto, um suporte experimental plausível para DEFINIÇÃO
'uma definição (a do referencial inercial). O referencial inercial (S) é definido como sendo aquele em que
uma partícula isolada está em repouso ou em movimento retilíneo uni-
li
fç;rme.
3.7 COMPORTAMENTO DA "PARTÍCULA ISOLADA""' NO REFE-
RENCIA.L DO LABORATÓRIO COf\JCLUSAO: COMENTÁRIOS SOBRE A DEFINIÇAO DO
Se observarmos um carrinho sobre o trilho de ar, ou um disco REFERENCIAL INERCIAL
sobre a mesa de ar, notaremos que, na ausência de qualquer ação externa Comentemos rapidamente· essa definição:
(isto é, se nada empurra, ou puxa, ou se choca com o carrinho ou o 1 . Equivale em seu conteúdo à definição 3 e à lei 1 da formulação
disco), a partícula pela qual, no ~osso modelo, representamos o carrinho newtoniana. Por essa razão e para nos atermos à tradição, continuaremos
ou o disco, permanece em repouso ou em movimento retilíneo uniforme. a considerar a definição do referencial inercial e o fato de que em tal
.Eni outros termos, a partícu~a isolada, nó laboratório, tem acelera- referencial uma partícula isolada. tem aceleração nula, como sendo a 1.a
ção nula. · lei de Newton.
Vejamos agora o que acontece a orna partícula praticamente iso- 2 Qual é o referencial inercial?
lada no referencial Sol-estrelas. É o referencial Sol-estrelàs. Em primeira e excelente aproximação
é também o referencial terrestre, que chamaremos geralmente de labo-
ratório.
3.8 COMPORTAMENTO DA PARTfCULA ISOLADA NO REFE- É. mais geralmente qualquer referencial em translação retilínea e
RENCIAL SOL-ESTRELAS uniforme em relação ao referencia/ Sol-estrelas (Ou em primeira aproxi-
Tomemos o exemplo do planeta Netuno: é, com exceção de Plu- mação em relação ao referencial terrestre). Com efeito, sendo nula a
aceleração de tal referencial em relação ao referencial Sol-estrelas, a ace-
* Estamos nos utilizando aqui dos conceitos intuitivos de força.~ de equil 1brio. leração da partícula será nula neste referencial, se for nula naquele.
3 Insistimos no caráter até certo ponto arbitrário da definição do
** A ela devemos acrescentar que: 1.0 a Terra não tem Um movimento retilíneo. uniforme em
relaÇão ao referencial Sol-estrelas, a não ser em intervalos de tempo suficientemente curtos; referencial inereial. É conveniente resumir os argumentos que a tornam
2.º estamos nos u.tilizando de conceitos (força, equilíbrio) ainda não formalmente definidos. possível e plausível: · ·
**•As aspas traduzem as restrições feitas no final da seção precedente quanto. à possibilidade de * Escolhemos Net~no em vez de Plutão porque a órbita de Plutão é francamente elíptica, en-
isolamento de um objeto. · quanto que a de Netuno é quase que perfeitamente circular.

86 87
a. acreditamos que se um objeto estiver infinitamente afastado de QUESTÕES CONCEITUAIS
uma partícula, essa partícula não pode detectar a presença daquele
o~jeto e cons~üentemente não nos pode transmitir nenhuma infqrma- Imagine e descreva situações experimentais em que a aceleração de uma partícula medida
çao a seu respeito; em um referencial possível sofre descontinuidades devidas a alterações repentinas do universo em
b. a evidência experimental nos mostrou que, das três grandezas cine- que ela está se movendo.
máticas - posição, velocidade e aceleração-, ;;omente a aceleração pode
2 Mostre por um exemplo simples que a velocidade (por exemplo) não está em relação
transmitir-nos informações a respeito do universo no qual se move a unívoca com o binômio posição-aceleração. Isto é, mostre que uma partícula pode ter a mesma
partícula; posição e a mesma aceleração com velocidades diferentes.
c. é conseqüentemente lógico que procuremos um referencia! em que
a aceleração de uma partícula isolada seja nula; neste caso a informação 3 Foi dito na seção 3-5 que o referencial com que medimos a aceleração dos planetas é o
referencial definido pelo Sol e pelas estrelas fixas. Isto supõe que as distâncias respectivas entre o
fornecida pela partícula será nula, já que o universo no qual se move está Sol e as estrelas são inilariãveis.
vazio; Comente criticamente essa hipótese.
d. o caso precedente (universo vazio) é evidentemente irrealizável: é o
limite do modelo da partícula isolada; 4 Na seção 3-5, achamos ·que as acelerações dos planetas, no referencial Sol-estrelas, são da
e. o exemplo de Netuno no entanto mostra que o referencial Sol-es- forma K!r' em que K e uma constante e r o raio da órbita. Fazendo-se tender r para o infinito, a
razão K!r' se torna nu la.
trelas, no qual foram feitos os cálculos, é um referencial conveniente: Por que não recorrermos·ª essa extrapolação (em vez de dar o exemplo de Netuno) para
nele uma partícula isolada (ou praticamente isolada) tem uma aceleração mostrar que no referencial Sol-estrelas a aceleração de uma partícula rigorosamente isolada
nula {ou praticamente nula). Daí a razão de se escolher aquele referencial (r =~)é rigorosamente nula?
inercial como padrão. ·
4 Todo e qualquer referencial em translação retilínea em relação ao J 5 (S) e (S') são dois referenciais inerciais. A aceleração de uma partícula em (SI, em
determinado instante, é 5,0 ·m/s'. Os dados fornecidos são suficientes para que se possa deter-
referencial Sol:estrelas é também um referencial inerciat. minar a aceleração da partícula em (S') naquele mesmo instante?
É o caso do laboratório para as experiências que realizaremos.
5 Do que precede, segue-se que se uma partícula tiver aceleração a 6 (S) é um referencial inercial. Em determinado instante uma partícula tem a mesma
aceleração de 5,0 m/s 2 tanto em (S) como em outro referencial (S'). Pode-se afirmar que (S') é
em um referencial inercial, terá a mesma aceleração em qualquer outro inercial?
referencial inercial. Essa propriedade faz com que a partícula nos forneça
as mesmas informações qualquer que seja o referencial inercial em que 7 (S) é um referencial inercial e (S') um referencial em translação em (S). Em determinado
estudamos o seu movimento; isto era, obviamente, fisicamente necessário. instante a velocidade de uma partícula é vem (S) e v' em (S'). Observa-se experimentalmente que
v e v' estão sempre ligados pela relação:
v=v'+V
em que V é a velocidade de translação de (S') em (S) no instante considerado.
Pode-se afirmar que (S'I é inercial?

8 (S) é um referencial inercial. (S') é um referencial em translação em (SI. Em qualquer


instante a ac11leração de uma partícula em (S) é igual a sua aceleração em (S').
Pode-se afirmar que (S')' é inercial?

88 89
Capítulo 4
PROBLEMA
MASSA INERCIAL
CONSERVAÇÃO DO MOMENTO LINEAR
1 Mostre que, na pior das hipóteses, a aceleração de um ponto da Terra, no ref:rencial
Sol-estrelas, é da ·ordem de 4 cm/s 2 • (Deve-se compor o movimento orbital, cuja aceleração se
encontra na tabela 3-1, com o movimento diurno. Para este último, tomar 6,4. 106 m como raio
da Terra e 8,6 • 104 s como período.)

INTRODUÇÃO
Iniciaremos este capítulo com dois trabalhos experimentais.
Estudaremos primeiro a interação unidimensional de duas par-
tículas e verificaremos a existência de uma regularidade no comporta-
mento das partículas nesse tipo de interação.
Passaremos a seguir ao estudo de uma interação em duas dimen-
sões, em que encontraremos a mesma propriedade.
Generalizando por indução a qualquer interação entre partículas
de qualquer par, definiremos por um lado a massa inercial de uma par-
tícula e enunciaremos por outro lado uma lei de importância fundamen-
tal em Física: a lei de conservação do momento linear.
Isto nos levará à descoberta de um referencial inercial particu-
larmente interessante: o referencial do centro de massa.

90 91
TRABALHO EXPERIMENTAL N.o 1 A velocidade de um pêndulo antes Ç>U depois do choque é propor-
cional à distância d da figura 2, desde que o afastamento angular máximo
OBJETIVO do pêndulo seja pequeno. Essa propriedade está demonstrada no Comple-
Comparar as variações de velocidade de duas partículas, no decor- mento 1, no final ~o capítulo.
rer de uma interação unidimensional.

REFERENCIAL MODELO
Laboratório. Tanto os carrinhos como os pêndulos serão tratados como par-
tículas.
MÉTODO Existe alguma limitação óbvia para a validade deste modelo?
Doi.s métodos são possíveis, conforme as disponibilidades em ma-
terial.
a. O primeiro método, que deve ser preferido se as circunstâncias o
permitirem, consiste em provocar colisões entre carrinhos sobre um tri-
lho (de ar se possível). Medem-se as velocidades dos carrinhos antes e 1-À
depois da interação. Vários tipos de interação devem ser estudados (por a\
intermédio de molas, de blocos de espuma de borracha, de massa de \
modelar, etc.). \
b. Se não for possível experii:nentar com carrinhos em condições de \
razoável precisão, a experiência pode ser feita por colisões de dois pên- \
dulos de mesmo compri menta, mas de materiais e pesos diferentes,* \
(figura 1 ).

11 o
1_d_J
Fig. 2 O pêndulo ·1 foi afastado da sua posição de equillbrio para provocar uma colisão com o
pêndulo 2. Se o ângulo °' for pequeno, a velocidade imediatamente antes do choque é proporcio-
nal à distância horizontal d.

Fig. 1

No instante da colisão, os dois pêndulos representam razoavel-


mente bem partículas isoladas (por quê?).

• Newton, e antes dele, Wren, Wallis e Huygeí!s utilizaram esse processo.

93
92
Segundo Galileu (cap. 1 - seção 1-11 ), a velocidade horizontal da
TRABALHO EXPERIMENTAL N.o 2 bola se conserva, de modo que o caminho OA percorrido pela projeção
OBJETIVO horizontal da bola é proporcional àqueia velocidade (velocidade da bola
(1 ) antes da colisão).
No trabalho experimental n.o 1, verificamos que, qualquer que No entanto a colisão com a bola (2) faz com que a trajetória
seja o tipo de interação unidimensional ~mtre duas partfçulas, as variações projetada da bola (1) não seja OA, e sim 08. Como a bola cai sempre da
de velocidade das duas partícufas durante a interação satisfazem a rela-
ção:
mesma altura, o
tempo de queda é sempre o mesmo, de modo que 08
representa (com o mesmo coeficiente de proporcionalidade que OA) a
Av 1 = -kAV2 velocidade da bola ( 1) depois da colisão. O vetor AB pode então repre-
sentar 6v 1 •
em que a constante k caracteriza o par de partículas que interagem. Por sua vez, depois da colisão, a projeção horizontal da bola (2)
Nosso objetivo agora é verificar se existe a mesma relação entre as aescreve a trajetória O'C; o tempo de queda é o mesmo que para a bola
variações vetoriais das velocidades, numa interação bidimensional. (1 ), de modo que O'C é proporcional à velocidade da bola (2) logo
depois da colisão. Em conseqüência o vetor O'C pode representar 6v2 •
REFERENCIAL Devemos comparar t:,.v 1 e 6v2 •
Laboratório.
MODELO
MÉTODO a. Modelo de partículas para as bolas.
Utilizaremos o dispositivo representado na figura 3. b. A resistência do ar não é relevante. ·
Uma· bola (1 ), ao sair de uma rampa de lançamento, tem uma c. Impomos ao modelo as leis dos projéteis descobertas por Galileu,
velocidade inicial horizontal e colide imediatamente com a bola (2) em estudadas no capítulo 1 e verificadas experimentalmente no teste expe-
repouso. Se não existisse a bola (2), a bola (1) encontraria em A um rimental da seção 1-14.*
plano horizontal (mesa) situado abaixo da rampa.

4.1 RESUMO DOS RESULTADOS EXPERIMENTAIS


1 Nas interações unidimensionais verificamos que, qualquer que seja
o tipo de interação entre os carrinhos ou as bolas dos pêndulos:
6V1 = -k 6V2 ( 1)
em que 6V1 e 6V2 representam respectivamente as variações das veloci-
dades escalares das partículas, sendo k uma constante. característica do
par de partículas que interagem.
Dois gráficos v vs t típicos são representados na figura 4, no caso
e de dois carrinhos interagindo por meio de molas, e na figura 5 no caso
dos dois mesmos carrinhos ficarem presos um ao outro (por massa de
modelar por exemplo), depois da interação.
Nesses exemplos, temos 6v 1 = - 26v2 , qualquer que· seja o tipo
de interação, desde que experimentemos sempre com os mesmos carri-
nhos.
Com um par diferente· de carrinhos, poderemos ter l'.1v 1 =-1,5Av2
por exemplo, ou AV1 = -36v2 etc. . . . . .

* Ver no Complemento 2, no final do capítulo, a montagem experimental sugerida.


Fig. 3 Interação bidimensional de duas part !cuias.

94 95
'iil•un•~iih"p
;d~,r;!~il!f1!_i,.·rw1 Q'
r n1~er·~1 PiÜ
ui ·u niJ
rr urr•s
A11.a..

8tbi1oteci Central
V
antes da 1
1. 1
1nteraçâ'o !
intervalo da
interação
1 1
1
1
1
1
1
depois da
interaçã'o
V
antes da
Interação
Intervalo da
'nteraçâ'o
1

1 depois da
1

1 interação
1
1
o
~......
\\
l:iv2

' ......,
.
1 1 1
1
:...------ v,
1
Ui•
2 1
1 \ '-,u1
2 1
1 T: v1\ '- '-
:J
Ui

T! ' ' ......,


ÁVi:

.
.1'1-= 1+2v1
Lwil
sul Jbmz ....
\
1 Vi
\\
li .T
't.v, 2
v,

:r ~A

"·~--Jl
1
1 t.v 1
1 1
1 1 1
1
1 u, ---~ Fig. 6 Resultado típico da experiência da interação bidimensional. A velocidade do projétil
1
1
1 variou de tiv, a do alvo, de tiv,
(o alvo estava inicialmente em repouso). Temos, nesta experi-
1 1
1
1 ência: tiv 1 =- 1,3 t.v,
1 1 1
o o
Fig. 4 Gráficos v vs t da interaçã'o de dois Fig. 5 Gráficos v vs t da interação dos mes-
carrinhos, por meio de molas tiv, =-2tiv2 . mos carrinhos que na Fig. 4. Agora os carri·
No caso representado na figura 6, tínhamos por exemplo:
nhos permanecem juntos depois da interação; l:.V1 = -1,3t.v2 •
temos.t.v1 =-2tiv 2
A. semelhança do caso unidimensional, se as duas bolas são idên-
Se os carrinhos forem idênticos achamos sempre t.v 1 = - t.v2 ; essa ticas, achamos sempre t.v 1 = -t.v 2 , o que também era evidente pelas
conclusão era a priori evidente, por razões de simetria. mesmas razões de simetria.
Concluímos que cada par de partículas que interagem unidimen- Generalizaremos por indução esses resultados de algumas poucas
sionalmente, em um referencial inercial, é caracterizado por um coefi-
ciente k, definido pela relação (1 ):
1 experiências, .erigindo em lei da natureza essa regularidade de compor-
tamento nas interações de duas partículas de um mesmo par.
t.v 1 = -kt.v2 • ( 1)

Passemos agora às interações bidimensionais. 4.2 LEI DAS VARIAÇÕES DAS VELOCIDADES NUMA
INTERAÇÃO
O trabalho experimental n.o 2 mostrou que o resultado prece-
dente é ainda válido sob forma vetorial. Durante a interação das duas 4.2.1 ENUNCIADO
bolas, as variações de velocidade t.v 1 e l:!.v2 são tais que: · LEI
Em qualquer interação de duas partículas, considerando-se o sis-
a. os vetores l:!.v 1 e l:!.v 2 são sempre paralelos e de sentidos contrários tema isolado, e as grandezas cinemáticas medidas em um referencial iner-
(fig. 6); cial:
b. enquanto o mesmo par de bolas for utilizado, com a bola (1) a. As_ variações vetoriais das velocidades das duas partículas, num
servindc;i de projétil e a bola (2) de alvo, pouco importa qual seja a mesmo intervalo de tempo, são paralelas e de sentidos opostos.
velocidade do projétil antes do choque ou a posição relativa das duas b. A razão entre os módulos dessas variações é constante; essa cons-
bolas no instante do choque. Teremos sempre a mesma razão entre os tante caracteriza o par de partículas que interagem; verifica-se conse-
módulos de l:!.v 1 e de 6v2 , o que permite generalizar o resuitado obtido qüentemente a relação:
nas interações unidimensionais, escrevendo-se:
1 t.v, 1 = Cte (3)
. l:.V1 = -kl:.V2. (2) l:.V2

96 97
\
...
----~·-------------....,_- ------------~-------~~-~

1 !

4.2;2 COMENTARIOS interação, não vemos como isso seria possível se 6.v 1 e 6.v2 não estives-
1 No infcio do enunciado da lei, sistema isolado se refere ao pàr de -l,
sem na mesma razão em qualquer intervªlo de tempo tomado durante a
partfeulas e significa que as partículas interagem somente entre si. Su- interação. Essa propriedade será utilizada na seção seguinte.
põe-se que ambas estão infinitamente (extremamente) afastadas de qual- 3 A relação (3) é uma conseqüência imediata da relação (2) obtida
quer outro.corpo~ experimental mente.
2 No item (a) do enunciado da lei, dissemos: "as variações ... das
velocidades ... num mesmo intervalo de tempo".
Nas experiências que fizemos, medimos· as velocidades das paltf·
cuias antes. e depois da colisão (verificar de novo, em particular, os grá- 4.3 RAZÃO ENTRE AS ACELERAÇÕES
ficos· das figuras 4 e 5). Como a colisão tem a mesma duração para as A lei das variações das velocidades pode enunciar-se de outra for-
duas partículas, as variações das velocidades observadas correspondiam ma, roveitando-se o que foi exposto no comentário (2) acima.
i.
ao mesmo intervalo de tempo. Jimos que, durante uma interação, as variações 6.v 1 e 6.v2 das
No. entanto podemos e devemos nos perguntar como se compara· velocidades das partículas de determinado par satisfazem sempre à rela-
ria!'l1 os 6.v em um int.ervalo de tempo menor escolhido arbitrariamente ção (2):
dentro do intervalo total da interação. A figura 7 esclarece o que pre-
cede. Ó.Vi = -k6.V2
Experiências mais sofisticadas, em que os gráficos V vs t seriam qualquer que seja o intervalo de tempo M considerado.
obtidos durante a interação, podttm fornecer a resposta. Porém não pre- Dividamos a relação acima por M: obteremos a relação entre as
. cisamos reeorrer à experiência, e sim ao raciocínio. acelerações médias das partículas, no intervalo At:
Do momento que a razão entre Av1 e Av2 é sempre a mesma para -~
<a 1 > = -k<a2>
.
o mesmo par. de partlculas qualquer que ~ia o tipo e a duraçlo da
V. Essa relação deve verificar-se qualquer que seja o valor de M;
(4)

antés da depois da verifica-se portanto no limite em que M tende a zero. Obtemos assim,
1
_____ _
1
i~teração 1 interação para as acelerações instantâneas das duas partículas:
1 1

,_
1
1
.._
1 1 V1 a1 = -ka2 (5)
2 l . 1 ;i
'I

............ Ti
u2· '
1
1
\J A lei pode então se enunciar da maneira seguinte:
1 LB .
I'
1 intefllÇão A..
LWzl
1 Em qualquer interação de duas partículas, considerando-se o sis-
tlllv1 J. I V2 1 tema isolado e as grandezas cinemáticas medidas em um referencial
f 2 ;j inercial:
1 ·a. As acelerações das duas partículas, em qualquer instante, são pa-
1 '!;
·1 ralelas e de sentidos opostos.
~
U1 ----~
1 . 1 1 . 1
~
,1
li!1
b. A razão entre os módulos dessas acelerações é constante; essa cons-
tante caracteriza o par de partículas que interagem; verifica~se conse-
1 !-..--At1--. 1 qüentemente a relação:
o 11 At .t
1 a1I =Cte (6)
. Fig. 7 G~ficos v vs t cie 11me lnteraçlo unidimensional. A interaçici durou ll.t e as varlaçc'Jes cor-
resiJondentes dás veloCÍdades foram /J.V1· e /J.v1 COf'!'l IJ.V 1 = -2/J.V1 • Como se comparam ll.v, e llv, 1a2I
no intervalo •rbitrério ll.t1 7
A utilização da lei no seu primeiro ou no seu segundo enunciado é
uma questão de conveniência.
98
1 99
Temos portanto:
EXEMPLO 1
t>v, 21,5
No trabalho experimental 4-1, com pêndulos, um grupo achou os -=---=-060
t>v, 36 '
seguintes dados experimentais para as distâncias d (as notações são as do
b. A razão entra as acelerações médias é igual à razão entre os t>v:
Complemento 1, 1-8):
<a,>
d1 = 30 cm ; d~ = 8,5 cm ; d; = 36 cm --=-0,60
<a,>
a. Qual é a razão entre os b.v das duas bolas, durante a interação?
b. Qual é a razão entre as acelerações médias?
Na fig. 8, qual é a interpretação gráfica da razão precedente?
SOLUÇÃO
a. Os dados foram lançados no gráfico (vtl da fig. 8.

V
EXEMPLO 2
(.u.a Uma interàção entre dois carrinhos sobre um trilho de ar (trabalho
4 experimental 41) forneceu os seguintes dados:
velocidade antes da interação: ui = 42 cm/s
3 carrinho 1 velocidade depois da interação: Vi = 17 cm/s
. h 2 velocidade antes da interação: u 2 = O
carnn o . ve1oc1"d ad e d epo1s
. da .1nteraçao:
- v2 = 50 cm / s·.
3
Duração da interação: 0,50 s.
25 Durante a interação, o centelhador do carrinho 2 falhou. A fita do
carrinho 1 forneceu as seguintes velocidades (t = O no início da inte-
20 ração):
t = 0,20s v = 35,5 cm/s;
15 t = 0,30 s v = 28 cm/s;
t = 0,40 s v = 19,5 cm/s
10 Pede-se:
a. Determinar a velocidade do carrinho 2 em cada um dos instantes
5 indicados acima;
b. Construir o gráfico (v, t) da interação;
c. Determinar graficamente a razão entre as acelerações dos dois car-
o rinhos em t = 0,40 s (por exemplo) e comparar o valor achado com o
t
*unidade arbitrária valor que pode ser previsto a partir dos dados iniciais (velocidades antes e
Fig. 8 Gráficos (v vs t) para a interação de um par de carrinhos. depois da interação).

Lê-se diretamente: SOLUÇÃO:


a. Durente a interação [intervalo (0 0,50 s)]:
ó.Vi = - 21,5 u.a;
b.v2 = 36 u.a. Av, 17-42
-=--=-0,50
Av 1 50-0
Essa razão deve ter o mesmo valor qualquer que seja o intervalo considerado.
Justifique o sinal "menos" para Av,. Em conseqüência:

101
100
- sendo v;- a velocidade do carrinho 2_no instante t = 0,20 s: t:. Medem-se as inclinações das tangentes aos gráficos (v, ti nos pontos A e B corresponden-
Av, 1 35;5-42
=
tes ao instante t IJ,40 s.
-Av,
1 no. intervalo (0 0,20)
- =--=-050 As medidas fornecem:
v; ""'" O ' '
de modo que: ª•a, == - 54cm/s•
1,1.1o•cm/s'
} _
em t - 0.40 s,
v; = 13cm/s. a a
de modo que+= - 0.49. O valor previsto a partir dos dados iniciais era -0,50, já que - 1
t:,v
=_.!•
De modo análogo, acha-se: • a2 6v2
- em t = 0,30 s, v;
= 28 cm/s: nesse instante os dois -carrinhos tinham a mesma veloci.
dade; A discrepância entre o valor obtido graficamente e o valor previsto é significativa 7
- em t = 0,40 s, v~ = 45cm/s.
b. O gráfico (v ti está representado na fig; 9. 4.4 MASSA INERCIAL
r---
1 1 - 1 1
- 4.4.1 ANALISE DE EXPERl_ÊNCIAS DE INTERAÇÃO
Voltemos aos gráficos v vs t das interações unidimensionais entre
1 •
I -r--- dois pares de partículas (carrinhos):
V
(cm1fsl
I a. o par (1) (2)·por um lado.
r- - -~ r-- - b. o par (1) (3) por outro lado.
1 Experimentalmente, verificamos que em qualquer interação do par
@.
sjr
(1) (2):
50 ,--- - - ÂV1 = -2 ÂV2.
45 1
•, - Da mesma forma, verificamos que, em qualquer interação do par
Q) (1) (3):
40
~

~
-
.l-- ..... ' ÂV1 = -3 ÂV3.
As figuras 1O e 11 representam gráficos típicos dessas intera_ções.
35
1
I'\ ; j
- -.-- V
antas da depois da

30)
1
'\ l'\ !,_' 1
1
interaçio
1
__
1 interação

..__CD
1

.
25 ' I'\: \ 1

- - u 1 @ 1
1 V1

20) J í'\ - T
I A1"-.. Ó.V2

15

10 ' J
-

j_
1•1

1
" I" 0
-
-

Ó.V1 L @ .,
1 '
--
J I'
5

o1 0
o
- V
../1
1
-

1
2
Fig. 9 Gráficos (v vs ti durante a intaraçio de dois carrinhos.
l
3
1 4
J
5
l 1 l-.-J
-

t(1o- 1sl
u.
o
-m-J
Fig. 10 Gráfico lv vs ti para a interaçio do par (1,2).
t

102 103
antes da 1 : depois da Façamos interagir as partículas (carrinhos) (2) e (3).
V . 1
interação 1 1 interação
1 1 antes d~ 1 depois da

.__ __
1 1 V interaçao 1 interação
1 Q)v
T'
1 1
1

U3I---~~- --,l
1 U3
@ _J . ~1~-
T! -----. @ V2

T ~.
1
1 .6.v3 1
1
1
1
1
1 L____ _
@
li---
1 V3
1
l .6.v, .6.v2

ffi_j 1
1 1@
1
1
u, 1
1
0 1
1 1
1 .1
U2I AC 1 1
o T o t
Fig. 11 Gráficos (v vs r) para a interação do par (1,3).
Analisemos fisicamente esses resultados: Fig. 12 Gráficos (vvs ti para a interação do par (2,3).
No decorrer das experiências com o par ( 1) (2), a partícula ( 1)
A figura 12 representa um gráfico típico de uma interação.
acelera sempre, em média, duas vezes mais, em módulo, que a partícula
Achamos que:
(2). Mas a lei da seção 4.3 nos diz que a relação entre as acelerações
médias se verifica também para as acelerações instantâneas. Em conse- i Ó.V2 = - (3/2).6.V3
qüência, em qualquer instante da interação do par (1) (2), a aceleração \ ou ainda que, de modo mais geral:
da partícula (1) é duas vezes maior, em módulo, que a aceleração da
partícula (2). a2 = - (3/2) a3,
. Diremos, para explicar essa constância do comportamento do par
o que mostra que, efetivamente, a partícula (3) é uma vez e meio mais
(1) (2), que a partícula (2) é duas vezes mais inerte que a partícula (1).
Demos o nome de massa inercial à medida da inércia de uma inerte que a partícula (2).
Resultados análogos seriam obtidos em interações bi ou tridimen-
partícula. 1 sionais, como por exemplo as que fizemos no trabalho experimental n.o
Segue-se que a massa inercial da partícula (2) é duas vezes maior
que a massa inercial da partícula (1 ). 4.2
O que precede mostra que a constante k das relações:
Por outro lado, os resultados experimentais das interações entre as
(1) : ÓV1 = - k.6.v2
partículas (1) e (3) mostram que a massa inercial da partícula (3) é três
(2) : ÓV1 = - k.6.V2
vezes maior que a massa inercial da partícula (1 ).
(3) : a1 = - ka2
Agora é possível fazermos um teste experimental da coerência das
definições que precedem. pode ser definida como representando a razão inversa das massas inerciais
Com efeito, se a massa inercial da partícula (2) é duas vezes maior das partículas que interagem.
que a da partícula· (1 ), por um lado; e se a massa inercial da partícula (3) Demos agora a definição formal.
é três vezes maior que a da partícula (1 ), por outro lado, a massa inercial
da partícula (3) deve ser uma vez e meio (3/2) maior que a da partícula 4.4.2 DEFINIÇÃO
(2). a. Toda e qualquer partícula é caracterizada pela propriedade de

104 105
resistir a uma tentativa de mudança da sua velocidade. A essa proprie- 12, sabemos que os pesos de dois objetos se comparam pela balança,
dade dá-se o nome de inércia. cujo modelo mais simples é a balança de braços iguais.
b. A inércia de uma partícula mede-se por sua massa inercial. Ora, se compararmos por om lado os pesos de dois objetos pela
c. A razão entre as massas inerciais de duas partículas que intera- balança e por outro lado as massas inerciais por uma interação entre os
gem é igual à razão inversa dos módulos das acelerações das partículas, dois objetos, acharemos a mesma razão. Representando-se por P1 e P2 os
em qualquer instante da interação: pesos dos objetos e por m 1 e m 2 suas massas inerciais, a experiência
m1 ª2
mostra que, sempre:
(11)
m2 =a; m1 =.!J. . (12)
em que m 1 e m 2 representam as massas inerciais das partículas (1) e (2)
m2 Pi
respectivamente. A Mecânica Clássica nã'o fornece explicação para essa "coincidên-
Fica entendido que velocidades e acelerações são medidas em um cia". Ela se limita a constatá-la, aceitando a evidência experimental.
referencial inercial. Voltaremos ao assunto no capítulo 12.
Por enquanto, utilizaremos operacionalmente (e não conceitual-
mente) a relação (12) para medir mais comodamente as massas iner-
4.4.3 COMENTÁRIOS ciais. A definição conceituai continua sendo a da seção 4.4.2.
A experiência não pode fornecer o valor da massa inercial de uma O padrão de massa inercial passa assim a ser o cilindro de platina
partícula. Fornece tão somente a razão entre as massas inerciais de duas a
conservado em Sêvres, perto de Paris; unidade é o quilo~rama (kg).
partículas. A massa inercial de qualquer objeto poderá ser conhecida com-
A razão física desse fato é que a massa inercial é uma grandeza que parando-se o seu peso, por meio de uma balança, com o peso do quilo-
somente se manifesta quando da interação entre duas (ou mais) partí- grama padrão ou de uma de suas réplicas.
culas. A observação de uma partícula isolada não poderia nunca levar ao Se acharmos que o peso de um objeto vale, digamos, 3,0 vezes o
conceito de inércia. do quilograma padrão, escreveremos que a massa do objeto é:
No entanto, a partir do momento em que podemos comparar,
podemos medir. m = 3,0 kg.
Basta que escolhamos uma partícula (por exemplo: um carrinho) e
que decidamos que a massa inercial dessa partícula será a unidade. Fazeo-
do-se então interagir uma outra partícula qualquer com a partícula pa- EXEMPL04
drão, poderemos achar o valor da massa inercial daquela partícula. No exemplo 1 achamos que:

EXEMPLO 3 ~=060
Suponhamos que o carrinho (1) das experiências descritas no
f<a;51 '
início desta seção, seja tomado como padrão de massa inercial. em que <a 1 > e <a 2 > representam as acelerações médias das bolas dos
Teremos então para o carrinho (2): dois pêndulos durante a colisão.
m2 = 2 unidades de massa inercial, A balança mostrou que o peso da bola (1) era igual ao peso de
e para o carrinho (3): 95 g, enquanto que o peso da bola (2) era igual ao peso de 57 g. Escre-
m 3 = 3 unidades de massa inercial. vemos portanto:
Vamos ver no entanto que existe um meio muito mais simples que
uma interação para comparar as massas inerciais de dois objetos. m1 = 95 g m2 = 57 g,
e verificamos que, efetivamente:

4.5 COMPARAÇÃO DAS MASSAS INERCIAIS PELA BALANÇA


1m2·1-1<a
m1 - <a >>I 1
2 = 0,60 •
Embora o assunto seja tratado formalmente somente no capítulo

106 107
EXEMPLO 5 o que se escreve ainda:
No exemplo 2, a balança mostrou que a massa do carrinho (1) era m 1 v, +m2 V2 = m, U1 +m 2 u 2 (18)
de 320 g. Vimos que em qualquer instante da interação entre os carrinhos
as acelerações a, ea 2 eram tais que: A relação acima é válida, qualquer que seja o intervalo de tempo
M, pequeno ou grande.
O que diz essa relação?
1::1=0,50· O primeiro membro é a soma dos produtos (massa) x (velocidade)
para as duas partículas, no final do intervalo M.
Concluímos que:
O segundo membro é a soma dos mesmos produtos no in·ício do
intervalo.
m2 = 0,50,
m, A relação (18) diz que essa soma tem o mesmo valor no final que
no início do intervalo M.
e que, em conseqüência, a massa do carrinho (2) era de 160 g. Ora, sabemos que podemos dar a ll to valor que quisermos.
4.6 CONSERVAÇÃO DO MOMENTO LINEAR
Concluímos então, necessariamente, que a soma considerada se
4.6r1 ALGO QUE SE CONSERVA INVARIANTE NUMA
conserva constante, ou ainda, é invariante no decorrer da interação.
INTERAÇÃO Descobrimos assim, como conseqüência necessária da lei de varia-
Juntemos a lei das variações de velocidades numa interação na sua ções de velocidades e da definição da massa inercial, que a natureza
forma: comporta-se de tal maneira que, em qualquer interação entre as partí-
culas de um par isolado, algo se conserva invariante.
t:J.v, = - kl:lv 2 , (13) Daremos agora um nome a essa grandeza.
com a definição da razão entre massas inerciais que nos dá:
m2 4.6.2 MOMENTO LINEAR; DEFINIÇÃO
k=--
m, O produto mv, da massa pela velocidade de uma partícula é· cha-
mado momento linear da partícula no instante em que sua velocidade
em que os Símbolos têm seus sentidos usuais. (14)
tem o valor v. ·
Obtemos imediatamente:
O momento linear representa-se geralmente pelo símbolo p. Assim:
mi ti.vi = - mi l:lv2,
p= mv (19)
ou seja:
O momento linear é uma grandeza vetorial; o seu módulo mede-se
mi l:lv1 + m2 b.v2 =O· (15) em kg. m/s.
O momento linear total de um sistema de partículas é por defini-
Ora:
ção a soma dos momentos das partículas do sistema.
l:lV1 = Y1 -Ui, (16) Assim é que para um par de partículas (1) e (2) definimos:
em que Y1 e U1 são respectivamente as velocidades da partícula· (1) no Ptotal = P1 + P2 = mi V1 +m2 V2, (20)
final e no início do intervalo de tempo 6t considerado, no decorrer da no instante em que as partículas têm velocidades respectivas v1 e v2 •
interação.
Podemos agora enunciar formalmente a lei de conservação.
Da mesma forma, para a partícula (2):
f:lV2 = Y2-U2 • (17)
4.6.3 ENUNCIADO DA LEI DE CONSERVAÇÃO DO MOMENTO
Substituamos na relação ( 15):
LINEAR
m, (V1 -u, )+m2 (V2 -U2) =o O momento linear total de um par isolado de partículas con-
108 ------ 109
serva-se invariante no decorrer de qualquer interação entre as partfculas,
desde que as velocidades sejam medidas em um referencial inercial * relação objeto-imagem em um espelho plano.
Qualquer que seja o intervalo de tempo considerado, temos:
6.P1 = -ÃP2
4.6.4 COMENTARIOS
1 Durante a interação entre as partículas de um par isolado, os mo- PcRGUNTA:

mentos individuais não se conservam constantes. No entanto, em qual- Os gráficos v vs t (fig. 91 se encontram em t =3,0 s. No entanto, os gráficosp vs t {fig.
131 se encontram em t = 3,8 s.
quer intervalo de tempo M, as variações dos momentos das duas partí- Por que a diferença?
culas são iguais em módulo e de sentidos opostos:
ÃP1 = - ÃP2 (V b.t) (21)
EXEMPLO 7
Voltemos ao trabalho experimental n.o 4.2. Se construirmos as
EXEMPLOS variações dos momentos do projétil e do alvo, respectivamente, (fig. 14),
Voltemos a uma das interações unidimensionais do trabalho expe- verificamos que, no decorrer da colisão:
rimental n.o 4.1. Construamos os gráficosp vs t (momento em função do
tempo) para os dois carrinhos do exemplo 2. ÃPproj, = - Llp alvo •
Os gráficos estão representados na figura 13. Verificamos que os e
dois gráficos são simétricos em relação a uma certa reta (!\): estão na
p( 10· 2 kg.m/s)
o

141--~+--~+--~+-~+-~-+-~-+-~~

121 1 ,....... 1 1 1 1 1
"O
'C

10,....._---....___,~__,----........~--<~---+~--< ª·....
:;·
!!!.
81 1 1 1 1>,.,. 1 ~

61----+~-t-~-+-~-+---~~+----i
+-
41--~1--~1--~-t----'f--~-+-~-+-~~ B \
Fig. 14 Variaç6es de momentos numa Interação bidimensional:
6.pproj. = - 6 Pa1vo
2 • O alvo estava inicialmente em repouso
Em resumo, podemos dizer que uma interação gera momento 1i-
º~' 1 1 1 1 1 1 near para cada partícula, mas as quantidades geradas (os 6.p) são sempre
o
i
·1 2 3 4 5 t(10" 1 s) iguais em módulo e de sentidos opostos, de modo que a quantidade total
Fig. 13 Gráficos Cp vs ti correspondentes aos gráficos lv vs ti da fig. 9. gerada durante a interação é nula.
2 Se um par de partículas for isolado, ·o momento total mantém-se
• Veremos mais tarda que a lei de conseNação é válida para um sistema isolado contendo um constante.
nÍlmaro qualquer da partlculas. As ações internas (que brevemente chamaremos forças internas)
não podem conseqüentemente mudar o momento do sistema.
110
111
Somente as ações externas (forças externas) são capazes de mudar De maneira que se decidirmos procurar algo no sistema, que con-
esse momento total, como veremos mais tarde, no estudo dos sistemas de serva sempre a mesma velocidade, esse algo só pode ser um ponto ligado
várias partículas. geometricamente ao .sistema.
Por exemplo, e mais uma vez no quadro do trabalho experimental Existe um ponto ligado geometricamente e univocamente ao par
n.o 4.2, o momento total do sistema das duas bolas imediatamente antes de partículas e que conserva uma velocidade constante durante a intera-
e depois do choque é o mesmo. O choque com efeito é extremamente ção entre as partículas?
breve e a ação da gravidade, por exemplo, que atua sempre, é irrelevante
em comparação com as ações internas, durante o intervalo de tempo
muito pequeno da colisão. (Voltaremos ao assunto no capítulo 9.) 4.7.2 O MODELO
· No entanto, depois da colisão, o momento total varia (basta obser- Construiremos paralelamente o modelo físico e o modelo matemá-
var que as velocidades individuais desviam-se para baixo e aumentam em tico associado, observando-se preliminarmente que a determinação uní-
módulo), pois o sistema das duas bolas está interagindo com uma terceira voca do ponto procurado restringe a sua posição (no caso dele existir) à
"partícula", que é a Terra.· reta definida pelas posições das duas partículas.
3 A invariância do momento linear total de um sistema isolado é
uma lei da natureza, e como tal devemos aceitá-la; isto não significa que PERGUNTA
o seu sentido seja evidente. Se imaginarmos a interação (choque) de dois Por que o ponto procurado, se existir, deve pertencer àquela reta?
discos que se movimentam sobre uma mesa de ar, por exemplo, o fato de
que existe uma grandeza vetorial definida por:
Sugestão
p= m1 v1 + m2 V2, Um universo em que somente ex1st1ssem duas partículas apresenta uma simetria cilín-
drica; suponha-l;e que se opere uma rotação qualquer em torno da reta definida pelas partículas.
que se conserva invariante antes, durante e depois da interação, não deixa Algo se modifica? Se o ponto procurado estivesse fora da reta, ele seria único?
de ser algo estranho.
Gostaríamos de entender melhor essa invariância. Entender, isto é,
integrar essa invariância num quadro mais familiar.
A 1.a lei de .Newton, por exemplo, traduz uma regularidade no MODELO FÍSICO MODELO MATEMÁTICO
comportamento cinemático da partícula isolada: se a partícula for iso- Duas partículas constituindo um par
lada, sua velocidade é constante ou, se preferirmos, sua aceleração é nula. isolado interagem.
A G B

~'W?'
~
Será que a invariância do momento linear de um sistema não A interação é estudada em um referen-
traduziria também uma regularidade no comportamento cinemático do cial inercial.
sistema?
É o que vamos pesquisar a seguir. O ponto procurado, seja G, pertence /
à reta AB. -+ AG = À AB, em que À é um
coeficiente adimensional.
4.7 PROBLEMA SUGERIDO PELA INVARIÂNCIA DO MOMENTO
LINEAR DE UM, SISTEMA ISOLADO PARÂMETROS RELEVANTES:
4.7.1 A PERGUNTA Massas das partículas -+ m1 m2
Antes de fazermos a pergunta relativa a uma possível regularidade
no comportamento cinemático do sistema, observemos que o momento Distância entre as partlculas no ins-
total p, invariante, é o produto de uma massa por uma velocidade. tante t -+ AB
Se realmente existir uma regularidade cinemática, o mais simples
portanto é pensar numa possível velocidade constante. Mas velocidade de LEIS IMPOSTAS AO MODELO:
quê? Obviamente não das partículas, cujas velocidades variam durante a Conservação do momento total -+ p = m 1 v, + m, v2 (= ctel
interação.

112 113
4.7.3 A SOLUÇÃO DO PROBLEMA Observe-se que:
Em função dos vetores de posição, a condição A posição e a velocidade de G são respectivamente as médias pon-
deradas das posições e das velocidades das partículas; os coeficientes de
AG =X AB ponderação são as rriassas dessas partículas.
escreve-se: 2 A velocidade de G é efetivamente invariante, já que o numerador
do segundo membro da expressão (27) representa o momento total
r* = (1-X) ri +À r2 (22) do sistema, ele mesmo invariante.
Procuraremos agora definir a posição do ponto G em termos geo-
Derivando-se a relação precedente em relação ao tempo, expres~ métricos facilmente interpretáveis.
samos a velocidade de G em função das velocidades das partículas e do B
coeficiente X:
v* = (1-X)v 1 + Xv2 (23)

O problema é saber se existe 1.1.m valor de X (e portanto um ponto


G) que torna v* invariante.
Ora, sabemos que a expressão: m1

p= m 1 Vi + m, v2 (24) Fig. 15 O vetor deposição G, tomando-se A como origem.

é invariante. A comparação de (23) com (24) sugere que se escolhe Para tanto escolhamos a posição A da partícula (1) como origem
para (1-À) e À valores respectivamente proporcionais m1 em,. a das posições (fig. 15), de modo que, na expressão (26), substituímos
r* por AG, r 1 por zero e r 2 por AB:
PERGUl'.llTA
Por que não podemos escolher diretamente:
'1 ·' AG =m2 AB • (28) .
1-;\ = m, ; "- = m,? m 1 +m 2
Escolhamos então: A expressão precedente mostra qUe o ponto G é interior ao seg-
mi mento AB.
1 - ÀM
= - ., À= m, (25)
M
EXER6CIO
em que M representa uma massa (ainda indeterminada), garantindo-se Prove éi aflrrnação precedente
assim que À seja adimensional.
As equações (25) fornecem imediatamente: Escolhendo-se o ponto B (posição da partícula (2)) como origem,
teríamos de modo análogo:
1-À = m, m2
M = m 1 + m2 , À=
m1 +m2 , BG = mi Bt.\ (29)
m1 +m2
A substituição em (22) fornece a pos~ão do ponto G procurado:
A comparação das expressões (28) e (29) fornece:
r* m1r1 +m2r2
= --=--;;..._--=-=- (26)
m 1 +m 2 GA m2
A substituição em (23) fornece sua velocidade. GB =---;;;-' (30)

. V* =. m1 Y1 + m2 V2 (27) de modo que o ponto G é o ponto que divide internamente o segménto


m1 +m2 definido pelas posições das partículas na razão inversa das suas massas.

114 115
=======~--·---~-------

EXEMPLOS O eixo pontilhado representa as imagens sucessivas dos flashes de


Se a massa de uma partícula for o dobro da massa da outra (fig. um estroboscópio situado logo atrás do trilho. Esse eixo pode portanto
16), a posição do ponto G obtém-se da seguinte maneira: divide-se o ser tomado como eixo dos tempos, graduado em unidades arbitrári~s.
segmento AB em três (2 + 1) partes iguais, escolhendo-se a seguir o ponto Um eixo qualquer perpendicular ao eixo dos tempos representará
de divisão que dista uma parte da partícula de massa m 1 • o eixo das posições, e também pode ser graduado em unidades arbi-
trárias.
m2 Tendo-se os dois eixos com as suas graduações, podem-se medir as
velocidades de cada carrinho respectivamente antes e depois da interação;
a seguir, obtém-se os Lw. A comparação dos t.v fornece a razão entre as
massas dos carrinhos. (É conveniente copiar a figura sobre uma folha de
papel transparente, para facilitar construções e medidas.)
A
Fig. l6 Posiç€o de G no caso em quem, =2 m =AG =+ AB.
1 PERGUNTA
Pode-se justificar, agora, o fato de se poderem escolher unidades arbitrárias sobre cada
Generalizando-se, se um dos eixos dos gráficos?

m1 = _E_ Conhecendo-se a razão entre as massas, pode-se construir a posição


m2 q do ponto G em cada um dos instantes sucessivos. O conjunto dos pontos
divide-se o segmento AB em p f q partes iguais. O ponto G dista q dessas obtidos constitui o gráfico (s vs t) do movimento desse ponto.
partes iguais, da partícula de massa m 1 • No exemplo proposto, p = 2 e O qüe se conclui quanto a esse movimento?
q = 1.
Não nos esqueçamos no entanto de que a solução encontrada
2 INTERAÇÕES BIDIMENSIONAIS.
(existência de um ponto G cuja velocidade permanece invariante durante
l\ fig. 18 reproduz a fotografia estroboscópica dos movimentos de
a interação) deve ser submetida ao teste experimental.
dois discos que se chocam sobre uma mesa de ar. A seta indica o sentido
no qual os discos foram inicialmente lançados.
4.7.4 CONFIRMAÇÃQ EXPERIMENTAL
.1 INTERAÇÕES UNIDIMENSIONAIS. o
A fig. 17 é a reprodução dos gráficos posição-tempo (s vs t) de dois o
o
carrinhos que interagem sobre um trilho de ar. Os gráficos foram obtidos ()

diretamente fotografando-se a interação com uma máquina cujo filme se o


o
desloca uniformemente em sentido contrário do da seta. o o
o o
ººººººº o
o
o
o
o
o
o
o
/ o
o
o
o

Fig. 17 Gráficos posiçio·tempo da interaç€o de dois carrinhos. Fig. 18 1nteração bidimensional de dois discos sobre uma mesa de ar.

116 117
i
Tomando-se uma unidade arbitrária de tempo (por exemplo qua- Em outros termos, é equivalente verificar diretamente a conser-
tro intervalos sucessivos entre flashes) pode-se construir as velocida· vação da momento total ou a movimento retilíneo e uniforme do centro
des vetoriais dos discos antes e depois do choque e, a seguir, as variações de massa.
vetoriais das velocidades durante o choque, isto é, os ÃV. (Será outra vez 2 Se imaginarmos uma partícula (fictícia) cuja massa fosse igual à
conveniente copiar a figura sobre uma folha de papel transparente para soma das mélssas das partículas, e que coincidisse sempre com o centro de
efetuar comodamente as construções.) massa, o momento dessa partícula (fictícia) seria invariante e igual ao
Tendo-se os t:,v, determina-se a razão entre as massas dos discos. A momento total do sistema.
seguir, constróem·se as sucessivas posições do ponto G. Isso decorre imediatamente da relação (32), que pode-se escrever:
Obtém-se assim a trajetória do ponto G e, sobre essa trajetória, as (m 1 tm 2 )v* = m 1 v1 +m 2 v2
posições de G em intervalos de tempo consecutivos iguais. momento da momento (33)
O que se conclui quanto ao movimento de G? part rcu la total do
fictícia sistema.

4.8 CENTRO DE MASSA DE UM SISTEMA DE DUAS PARTf-


4.9 REFERENCIAL DO CENTRO DE MASSA (RCM)
CULAS
Estudamos experimentalmente, durante uma interação entre as Seja (AB) um par isolado, cuja interação é estudada no referencial
inercial (S) (fig. 19).
partículas de um par isolado, o comportamento do ponto G cujo vetor
de posfção r* é definido por: (RCM)
m1
r*= m1r1 +m2r2 A
m1 + m2 (31)

em que os m e os r são respectivamente as massas e os vetores de posição


das partículàs no instante genérico t.
Verificamos, dentro dos limites de precisão de nossas medidas, que
a velocidade do ponto G é constante: ela se mantém invariante durante a (SI
interação. Essa velocidade v* é dada pela expressão:
m 1v1 +m2v 2
-(32)
º..-----'- B
v*=
m1 +m2
Fig. 19. O referencial do centro de massa.
em que os v representam as velocidades das partíi:ulas no instante t.
Conseguimos assim associar a invariância do momento total da
sistema a uma regularidade no comportamento cinemático do sistema. Vimos que, em (S), o centro de massa G tem velocidade constante
V*
O ponto G definido pela relação (31) é chamado centro de massa
do sistema de partículas. Podemos então considerar G como a origem de um novo referen-
O que descobrimos? cial em translação retilínea é uniforme em (S) com velocidade v*.
1 O centro de massa de um sistema isolado de partículas* tem um Esse referencial é chamado referencial do centro de massa (RCM).
movimento retilíneo e uniforme em um referencial inercial. Na figura 19 os eixos associados ao (RCM) são representados paralelos
aos de (S), para simplificar. · ·
Essa afirmação pode ser considerada como outra forma da lei da
conservação do momento linear. Sendo (S) um referencial inercial e estando o ( RCM) em translação
retilínea e uniforme em (S), segue-se que o (RCM) é também um refe-
rencial inercial.
• A rigor, trata-se de um sistema de duas partículas. Mas a propriedade é verdadeira para um HaveréÍ alguma vantagem em escolher o RCM como referencial
sistema isolado com um número qualquer de partículas. inercial, para estudar a interação de duas partículas?

118 119
Vejamos como se apresenta o momento linear total, no (RCM). A CONCLUSÃO
resposta é simples: estando no (RCM), viajamos juntos com a partícula Este capítulo nos levou a um conceito fundamental: o de massa
fictícia da qual falamos na seção anterior, partícula essa cujo momento é inercial de uma partícula; e a uma lei natural não menos fundamental: a
igual ao momento total do sistema. da conservação do momento linear, para um sistema isolado. Vimos que
Ora, se viajamos juntos com a partícula, ela tem, para nós, velo- existe um referencial inercial privilegiado, o (RCM), no qual o momento
cidade nula, e conseqüentemente momento nulo. linear total se conserva nulo.
Concluímos que: no (RCM), o momento linear total de um par
isolado de partículas é nulo*. Para concluir, teçamos mais algumas considerações a respeito da
Conseqüentemente, no (RCM), os vetores momentos lineares das conservação do momento. Não adianta muito repetir que essa lei é uma
duas partículas são sempre paralelos, de sentidos contrários e de m.esino das !eis fundamentais da Física; somente a prática nos convencerá disto.
módulo (figura 20). Representando-se os momentos respectivos, no Mas há um aspecto que deve suscitar um certo interesse mesmo nos
(RCM), por P1 e P2 temos sempre: principiantes e é desse aspecto que vamos falar, em poucas linhas.

P1=-P2.

©
.- P1-
..
(a)
.... P2 •@
(34) Existem três leis de conservação em Física clássica:
a. a lei de conservação do momento linear;
b. a lei da conservação do momento angular, que estudaremos no
capítulo 11.
c. a lei de conservação da energia, cujo sentido geral entenderemos
muito mais tarde, embora seja tratada em sentido restrito no capítulo 8.


Ora, na Natureza essas três leis de conservação traduzem proprie-
dades fundamentais de simetria das leis naturais em relação ao espaço e
ao tempo.

©
;/ (b)
2 A conservação do momento linear traduz a propriedade seguinte:
as leis da Natureza são invariantes em relação a uma translação geo-
métrica do sistema estudado.
Se, por exemplo, estudarmos a queda de um objeto no laboratório,
encontraremos certas relações entre posição, velocidade, aceleração,
Fig. 20 Ç)s momentos lineares das partículas de um par isolado, no (RCM). (a): interação unidi- etc ... (A lei galileana da proporcionalidade entre espaço e quadrado do
mensional; (b): interação bidimensional. tempo é um exemplo dessas relações.)
Se agora, por um toque de mágica, o laboratório junto com a Terra
Não nos esqueçamos de que, se os momentos são opostos, as velo-
e todo o sistema solar, fossem transportados em outro lugar do espaço,
cidades são também paralelas e de sentidos contrários, embora tenham,
em geral, módulos diferentes. acreditamos que a experiência repetida com o mesmo objeto forneceria
Uma conseqüência interessante da relação (34) é que a razão as mesmas relações. ·
entre as massas das duas partículas é igual à razão inversa dos módulos Essa afirmação não é tão trivial como pode parecer. E: dificilmente
das velocidades das partículas no (RCM). testável, evidentemente; mas é uma conseqüência matematicamente
necessária do modelo geral da Física clássica. Infelizmente, nossos conhe-
EXERCICIO: cimentos da linguagem (isto é, da Matemática) são ainda insuficientes
Prove a afirmação precedente.
para que possamos provar agora o que afirmamos acima.
Nos çapítulos 8 e 11, respectivamente, assinalaremos as simetrias
• A generalização para mais de duas partículas será feita mais tarde; a propriedade é sempre
traduzidas pela lei da conservação da energia e pela lei da conservação do
verdadeira. · momento angular. ·

120 121
EXERCfCIOS o
Numa interação unidimensional do par isolado (1 2) acha-se: o
o
1<a,>I o
- - =18
1<a.>I . o
ót.
em que <a,> e <a,> representam as acelerações médias ein determinado intervalo

Fazendo-se interagir o par (1 3), acha·se:


~
ºººººº
1 <a,>I = o,3
1 <a,>1
o o
Qual é a ra1:ão entre as massas das partículas (2) e (1 )? (3) e (1 )? (2) e (3)? _. o o o
2 Dois discos se chocam sobre uma mesa de.ar. A massa do disco (1) é duas vezes maior o o o
que a do disco (2).
o
o
o
6. Mesmo exercfcio com a fotografia reproduzida na figura:

o
o oo
A figura representa a velocidade (constante) v, do disco (1) antes do choque e a velo- o o
cidade (constante) v, do mesmo disco depois do choque. o o
Çonstrua na mesma escala a variação vetorial do disco (2) durante o choque. o o
_.. o o
3 Dois carrinhos A e B interagem sobre um trilho de ar. As velocidades dos dois carrinhos
o

....
antes e depois· da interação são dadas a seguir:
antes da interação depois da interação
A 1,2 m/s 0,58 m/s
B 0,38 m/s 1,3 m/s
Qual é a razão das massas dos dois carrinhos?

o
o ºººººººº
4 Dois carrinhos A e B interagem sobre um trilho de ar; os carrinhos estão amarrados nas
o
extremidades de uma mola. Em determinado instante as velocidades dos dois carrinhos são
respectivamente: VA = 0,70 m/s, vs = - 0,30 m/s. Num instante posterior essas velocidades são: o
VA =O, vfi = 0,70 m/s. o
Qual é a razão entre as massas dos dois carrinhos?

7 A figura representa o grãfico v vs t de uma das partículas c!e um par isolado. A parte do
5 A figura reproduz a fotografia estrobosc6pica dos movimentos de dois discos que se
grãfico correspondente ao intervalo da interação foi esquématizado e representado por um seg-
chocam sobre uma mesa de ar. ·
mento de reta para simplificar.
Determine a razão entre as massas dos_!!~!s discos.

. 122
123
v(m/s) 9 A figura representa o !11'áfico posição-tempo de uma partícula.
m, = 50 g Construa o gráfico momento-tempo (p vs ti correspondente.
m2 = 30 g
(v 2 )i = zero s

:!
(ml
t
1
1
1 3
1
4+ 1

2.J.
--------r---- 1
1
2

1
1
1 1 1
o1 1 2 3 4 5 6 '(si

São também fornecidas as massas das duas partículas, bem como a velocidade inicial (isto o 2 t(s)
é, antes da interação) da outra partícula do par.
Pede-se construir o grá.fico v vs t dessa segunda partícula. _,
8 Mesmo exercício para cada um dos três gráficos representados nas figuras:
-2

m 1 =0,40 kg
m, =0.40 kg
v(m/sl m 2 = 0,20 kg 1 v(m/s) m 2 =0.20.kg
1O Várias experiências de interação são feitas com dois carrinhos A e B cujas massas respec·
(v2 li= -2,0 m/s
(v2 li= -2,0 m/s 4 tivas são: mA = 0,300 kg, e ms = 0,200 kg. O quadro abaixo reproduz resultados parciais dessa~
experiências quanto iis velocidades dos carrinhos antes e depois das interações respectivas.
3
2 Pede-se completar o quadro, assinalando-se os valores das velocidades que faltam.
2

Q 2 3 4 5 6 7 t(s) o Experiência n.D velocidades iniciais velocidades fina is


-1 2 3 4 5 6 tlsi
-1
'-2
-2

m, = 10 g
1
{: 5.0 m/s
o
?
2,0 m/s

v(m/sl
m 2 =20 g
(v2 li= 3,0 m/s
2
{: ?
- 3,0 m/s
- 1,0
2.0
m/s
mls

5
4
3
{: 0,50 mfs
?
- 1,5
1,0
mls
mfs
1.:º o
3.J...___J
2
4
{: mfs
- 2,0 mfs ?
?
5
{: 3,0 mls
- 2,0 mfs 2,5 mls

o 2 3 5 6 t(s)
11 Em cada uma das quatro figuras seguintes, tem-se o gráfico momento-tempo (p vs ti de
uma das partículas de um par isolado, que interage unidimensionalmente no laboratório. For-
nece-se também, em cada caso, o valor do momento da outra partlcula em determinado instante.
Pede-se construir o gráfico (p vs ti da outra partícula.

124 125
p 1 (kg m/sl em t =1,0 s p (kg.m/s)
em t: O, p 2 ~ O
P2 = 1,0 kg.m/s 1
5
4 0----------- 4
1
1
1
1
30 a ~
''
3 -----r--, 1

20 .
1 1
2
1
1
1
1
1 1
1 1
1 1
1 1
1 1
oi 1 2 3 4 5 6 t (si ~ 4 5 t (s)

12 Dois discos se chocam sobre uma mesa de ar, no laboratório. A figura representa os
em t =4,0 s momentos dos dois discos antes do choque, bem como o momento do disco (1) depois do
p (kg m/sl choque.
P2'= 3,0 kg.m/s
aoo---... Qual é o momento do disco (2) depois do choque?

o
-·1

-2
4 5 6 t (s)
antes do
choque
/\ 2

depois do
?

'
choque

p (kg m/sl em t = 5,0 s o2


só---.. P .i =3,0 kg.m/s
1 13 Sobre um trilho de ar, dois carrinhos estão amarrados nas extremidades de uma mola. O
4 1
1 conjunto se &esloca sobre o trilho ao mesmo tempo que os carrinhos vão oscilando.
1 A velocidade do carrinho (1 ), cuja massa é 0,30 kg, se expressa em função do tempo por:
----~-----·~--------
3
• 1
v 1 =0,20+0,10cos10t (m/s; s).
2 1 Sabendo-se que o momento total do sistema é 9,0 • 10- 2 kg.m/s, qual é a expressão, em
1 função do tempo, do momento do carrinho (2)?
1
1
1 14 Estuda-se a interação unidimensional de dois carrinl)os sobre um trilho de ar no referen-
1 cial do centro de massa (RCMI do sistema. .
o 2 3 4 5 Em determinado instante o momento do carrinho ( 1) é p 1 = 6,0 • 1o-> kg.m/s.
t lsl Qual é, no mesmo.in_stante, o_ momento do carrinho (2)?

126 127
15 Dois discos amarrados nas extremidades de uma mola interagem sobre uma mesa de ar no QUESTÕES CONCEITUAIS
laboratório.

t+2At Afirmou-se no texto que se duas partículas idênticas interagem, tem·se evidentemente
t+ót Av, = - Av2 • Discuta criticamente essa pretensa evidência.
® ®
2 Comente criticamente as afirmações seguintes;
t Dois discos cujas massas respectivas são m, = 0,20 kg e m 2 =O, 10 kg se chocam sobre a
@ mesa de ar no laboratório.

Ge

o
t o No decorrer do choque as variações vetoriais dos momentos dos dois discos são os
t +Ar· vetores Ap 1 e Ap2 da figura.

3 Comente criticamente as afirmações seguintes;


A figura representa;
a. as p(>sições de um dos discos nos instantes sucessivos t, t + At, t + 2ót; Dois carrinhos cuja razão das massas é m, = 3 interagem sobre um trilho de ar -no
b. as posições do outro disco nos instantes te t+At; laboratório. m1
c. a posição do centro de massa G no instante t.
Pede-se construir a posição do segundo disco no instante t + 2At.
V

16 Dois carrinhos A e B (mA = 0,60 kg; ms = 0,40 kg) podem deslizar livremente sobre um
trilho de ar horizontal. São· mun.idos de ferrolhos de modo que, ao colidirem, permanecem junto.s. 2
Lança-se o carrinho B com velocidade de 3,0 m/s. Com que velocidade e em que sentido deve-se
lançar o carrinho A para que, depois da colisão, o conjunto permaneça em repouso no labora·
tório?
2

Os gráficos velocidade-tempo dos movimentos dos carrinhos estão representados (esque-


matizados) na fig11ra.

4 Dois carrinhos que podem interagir sobre um trilho de ar são munidos de ferrolhos: ao
colidirem permanecem juntos. Uma experiência mostra que, sendo v, e v2 respectivamente as
velocidades dos c•rrinhos antes da colisão, a velocidade do conjunto depois da colisão é v.
a. Supondo-se que as massas dos carrinhos foram triplicadas, sem que se modificassem as
velocidades v1 e v2 , qual seria a velocidade do conjunto depois da colisão.
b. Supondo·se que as massas dos carrinhos foram triplicadas, bem como as velocidades v, e
v2 , qual seria a velocidade do conjunto depois da colisão?

128 129
(1),
5 Comente criticamente as afirmações seguintes: A figura representa, em escala, as órbitas de Sirius e de seu companheiro e as velocidades
Duas parti cuias formando um par isolado interagem. A figura mostra os vetores-momen- das duas estrelas em determinado instante, no ( ACM) do si<tP.ma.
tos das partículas, em dois instantes quaisquer t 1 e t 2 ; o referencial é inercial.
11 A figura representa três posições de um par de partículas que interagem, no referencial
do laboratório.
O par é isolado?
(1lQ ...

(2)~ (2) 0--- ~ @


@

t1 t2 @

6 Um foguete interplanetário extremamente afastado de qualquer corpo celeste e com os o


motores desligados tem movimento retilíneo uniforme (em um referencial inercial). Ao chegar em· t,
A, o foguete explode partindo-se em duas partes. Uma das partes segue a trajetória AB. Repre- o o
sente uma trajetória.possível para a outra parte. t,
t,
B

A
foguete

7 Uma pj!rtícula em repouso no laboratório de desintegra em dois fragmentos. Qual é a


velocidade do centro de massa do sistema depois da desintegração?
8 Se duas partículas têm velocidades respectivamente iguais a 3,0 m/s e 4,0 m/s, o centro
de massa do sistema pode ter velocidade igual a 5,0 m/s?
9 Comente criticamente as afirmações seguintes:
Dois carrinhos interagem sobre um trilho de ar horizontal. A interação é estudada no
(RCM) do sistema. Observa-se que a velocidade de um dos carrinhos anula-se em determinado
instante; a velocidade do outro se anula 0,30 segundos depois.
1O Comente criticamente as afirmações seguintes:
A estrela Sirius e o seu chamado companheiro escuro constituem um sistema binário:
cada uma dessas estrelas descreve uma órbita circular em torno do centro de massa G do sistema.

130
131
4 Mostre formalmente que o momento total no (RCM) é nulo: tome G como origem; sejam
PROBLEMAS A, e A2 os vetores de posição das duas partículas. Por definição da posição do centro de massa:

1 A figura representa o gráfico s vs t de uma interação unidimensional entre dois carrinhos m, R 1 +m 2 R 2


sobre um trilho de ar. Um eixo pontilhado representa uma base de tempo; o intervalo entre dois GG= o.
m 1 +m 2
pontos consecutivos corresponde a uma unidade arbitrária de tempo e a seta indica o sentido
positivo do eixo. pr_ossiga e conclua.

5 A figura representa as posições sucessivas, a intervalos de tempos iguais, de um disco


em rnovi11111nto sobre urna mesa de ar e que se choca com outro disco cuja massa é a meta-
de da massa do primeiro.

. . . .__...
... o
o
~ o
a. Descreva qualitativamente, em primeiro lugar, o que aconteceu antes, durante e depois
o o o o o o o
da interação.
b. Determine a razão entre as massas dos carrinhos, especificando qual dos dois tem a maior Copie a figura sobre um papel transparente e construa as posições sucessivas, nos mesmos
massa. instantes, do outro disco, supondo-se que a interação é estudada no (RCMJ do sistema. (Há urna
e. Determine, com a maior precisão passivei, o instante em que a distância entre os carri- infinidade de soluções; construa uma delas e indique como as outras estão relacionadas com
nhos passou pelo seu valor mínimo. Indique também a margem aproximada de erro sobre a aquela.)
resposta dada.
d. Ao instante determinado na pergunta anterior corresponde um ponto sobre o gráficos vs 6 Dois discos cujas massas respectivas são O, 150 kg e 0,300 kg são rigidamente ligados por
t de cada um dos carrinhos. uma haste de 30cm de comprimento e de massa desprezível. O sistema está em repouso sobre
1magine que as tangentes aos gráficos nesses dois pontos foram traçadas. Qual é a par· uma mesa de ar horizontal no laboratõrio.
ticularidade que essas tangentes devem apresentar?
Trace agora as tangentes e verifique se a sua previsão estava certa. 0,300 kg
e. Esboce o gráfico v vs t correspondente.

2 Uma experiência de interação unidimensional com dois carrinhos sobre um trilho de ar


º'(/;kg ~

~
forneceu os seguintes dados:

t (unidades arbitrárias) O
s, (cm)
1 2
O 10,0 19,5
3 4 5
29,0 38,4 47,0 53,0
6 7 - 8 9
57,6 62,0 66,8
30<m _.j
s 2 (cm) 45,0 48,3 52,4 56,0 59,8 67,0 76,6 87,0 97,0 108
Em determinado instante, um choque comunica ao disco de maior massa uma velocidade
horizontal de 15 cm/s cuja direção é perpendicular à direção da haste.
a. Construa os gráficos posição-tempo (s vs t) para os dois carrinhos. Náquele rriesmo instante, qual é a velocidade do outro disco, no (RCM) do sistema?
b. Determine a razão entre as massas dos carrinhos. Resposta: 1O cm/s
Resposta: mJm 2 = 1,4
7 A figura representa os gráficos v vs t da interação unidimensional de dois carrinllos, sobre
um trilho de ar, no referencial do laboratório. Os dois gráficos encontram-se no ponto 1.
3 Até agora não talamos em interações tridimensionais. São interações em que as veloci-
dades das partículas mio estio em um mesmo plano. Este problema mostra que uma interaçio a. O que aconteceu, fisicamente, no instante correspondente ao ponto I? (Essa pergunta
tridimensional pode sempre reduziÍ·se a uma interação bidimensional, por uma mudança conve- já foi feita no problema 1.)
niente de referencial. b. A ordenada do ponto 1, nos gráficos, representa uma veloci_dade. Qual é essa velocidade?
Método: considere as partículas A e B, e suponha que as velocidades v1 e v2 no instan'I\ t c. Qual é a operaçã-o gráfica que se deve fazer para que a figura passe a representar os gráfi-
não são coplanares. Sejam M e N as extremidades dos vetores v, e v3 • Escolha P qualquer sol cos velocidade-ternpo dá- interação no RCM?
reta AB. Trace por P uma reta paralela a MN e tome sobre essa reta, em qualquer p~ - d. Tendo-se os gráficos velocidade-tempo no RCM, considere um intervalo de tempo l!:.t
- M'N' = MN. Sendo MNM'N' um paralelogramo, MM' = NN' ••.

133
132
··::• !~' •h'·lH:'.·:; rº~ªf'tl'1
t(l'd?íiP
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•w••
G.hhr.ta.,.~ rE.ri+~I
qualquer. Mostre graficamente que as distâncias respectivas percorridas pelos carrinhos, no RCM, PROBLEMA EXPERIMENTAL
durante o intervalo l:J.t, estão entre si na razão inversa das massas.
e. Demonstre analiticamente a propriedade precedente.
8 Este problema consiste ·na verificação experimental da propriedade demonstrada nos
itens (d) e (e) do. problema 7.
Dois carrinhos .interagem unidimensional mente. (Se for passivei utilizar um trilho de ar,
tanto melho[; no entanto o problema pode ser resolvido com carrinhos de rodas sobre trilhos de
V metal.)
a. Como.a interação deve ser estudada no RCM do sistema, é necessário garantir que o
RCM coincida com o laboratório. Que tipo de interação (simples) garante essa coincidência?
b. Uma vez respondida a pergunta anterior, o pro\llema consiste' agora eni medir as dis-
tâncias percorridas pelos carrinhos durante um intervaro de tempo !J.t qualquer e comparar a
razão entre essas distâncias com a razão das massas dos carrinhos.
2
Deve-se construir o modelo físico e o modelo matemâtii:o associado, especificando-se:
a. os parâmetros relevantes;
b. o referencial;
c. as hipóteses feitas;
d. as leis.impostas ao modelo.
No caso de discrepância entre o resultado experimental e as previsões do modelo, os
parâmetros relevantes e as hipóteses feitas deverão ser cuidadosamente reexaminados e criticados.

O'

134 135
1.B SUGESTÕES PARA A·~ONTAGEM EXPERIMENTAL
Complemento 1 (TRABALHO N'! 4.11 Sugere-se utilizarem-se pêndulos bifilares (isto é, suspensos por dois fios, como· mostra a
1.A VELOCIDADES DAS BOLAS DOS PÊNDULOS ANTES E DEPOIS DAS COLISÕES. fig. 21 a fim de evitar oscilações de lado indesejáveis. A perfeit!I simetria do conjunto e o ajuste
Mostremos que, se a bola de um pêndulo for largada a partir de uma posiÇão angular a dos comprimentos dos fios, que devem ser idênticos, podem ser realizados por meio de disposi-
pequena (a<< 1 radl, ela passa pela posição de equilíbrio com uma veloi:idade proporcional à tivos simples e fáceis de imaginar, nos pontos de su~pensão ABCD.
distância horizontal percorrida (CB =d na fig. 1 ) .
c
o

li

·d

a. Admitamos que a bola do pêndulo, ao descrever o arco AB, chega e B com a masma
velocidade que teria ao chegar a C se fosse largada da A e caísse verticalmente em queda livre.
Essa propriedade ~ uma conseqüência da consaNação da energia mecãnica · (cap. 81. A veloci· Fig. 2
dade em C seria v = ..j']g (AC): é pois a velocidade da bola ab atingir a posição B.

b. Calculemos AC em função de CB= d e do comprimento li do pêndulo. Os triângulos ODB O comprimento deve ser da ordem de 2 m. A placa de suspensão pode ser fixada no teto
e ABC são semelhantes, de modo que: do laboratbrio. ·
Para as bolas, podem-se utilizar bolas de sinuca, cuja massa é da ordem de cem gramas.
AC BC AB Um furo de dois a três centímetros de diâmetro, praticado ao longo de um diâmetro, diminui
DB = oD=·oe • sensivelmente a massa e ·permite estudar colisões com bofas de massas diferentes. Recomenda-se
mandar fazer o futo no torno, numa oficina mecânica.
ou ainda: Três distâncias horizontais devem ser medidas em cada colisão: a distância d 1 de onde o
2AC d AB pêndulo ( 11 é largado e as distâncias d; e d; percorridas por cada uma das bolas depois da
=-e-· colisão. Sendo os pêndulos iqênticos e já que somente nos interessa comparar velocidades, não é
AB 00

As relações precedentes fornécem AC = __li_ d 2 , válida qualquer que seja a.


2(00) 2 .
necessário conhecer o ~alor do coeficiente 4" As prbprias distâncias d 1 , d;, d; podem ser
consideradas como medidas das velocidades das bolas respectivamente antes e depois da colisão.
Se a for pequeno, 00 difere muito pouco de 2,de modo que então: Os estudantes poderão trabalhar em grupos de dois ou três. O grupo descobri rã certa·
d. mente um método conveniente para medir a distância d.
AC==--•
2l2

Substituindo-se no valor de v temos:

V =J: d.

Se se desejasse o valor de v, o coeficiente .Jf-· teria que ser computado. A melhor


maneira de fazê-lo é medir o período T do pêntulo. Sendo T = 2w -Jf- ,como veremos no
capítulo 1O -.p;_
• e
211'
= --
T

136 137
Complemento 2 !TRABALHO N'? 4.2)
Capítulo 5
FORÇA
Sugestão para o Procedimento Experimental 2.a e 3.a LEIS DE NEWTON
A fig. 1 sugere um método possível de se colocar a bola-alvo, de modo a poder variar o
ângulo de incidência cf.o ·projétil e conseqüentemente o ângulo de espalhamento do alvo. A bola
repousa sobre a extremidade chanfrada de um parafuso de regulagem. Esse parafuso atravessa
uma lingüeta presa na extremidade da rampa de lançamento. Um rasgo praticado na lingüeta
permite ajustar a orientação e a distância do alvo.

, extremidade horizontal da
"

'-projétil INTRODUÇÃO
/ O conceito de força é um conceito primário, intuitivo e como tal
alvo carece de definição.
Cada um de nós desde criança sabe que é preciso fazer força para
nimpa de lançamento deformar uma bola cheia de ar, para suspender uma sacola de compras,
para empurrar um carro enguiçado na estrada, etc ...
c:-.=.J O conceito de força em Física é, basicamente, idêntico ao concei-
/' 1 ; 1 to do leigo: uma força deforma ou muda o estado de movimento de um
lingüeta ~ 1 l X 1-contra-porca corpo: na maioria dos casos, faz as duas coisas ao mesmo tempo.
O objetivo do presente capítulo é apresentar um método operacio-
/ nal de medir forças de interação a partir das definições e leis q:.ie foram
parafuso de ajuste da
altura da bola-alvo
desenvolvidas nos dois capítulos precedentes.
parafuso de fixaçfo da lingüeta A própria definição da medida da força (equivalente à 2.a lei de
em orientaçio e distância Newton) nos levará à conclusão de que as forças de interação entre as
Fig. 1 partículas de um par isolado têm mesmo módulo e se exercem em senti-
dos contrários (3.a lei de Newton).
Duas precauções fundamentais devem ser observadas: em primeiro lugar, o projétil deve
a
ter deixado rampa no instante da colisão, sem o que introduzir-se-ia urna interação perturbado- Depois de apresentarmos a lei de composição de forças, term inare-
ra com a rampa; em segundo lugar, os centros das duas bolas devem-se encontrar no mesmo pla- mos o capítulo com uma visão de conjunto das forças de interação
no horizontal, no instante do choque, de modo que também as velocidades sejam horizontais ime- conhecidas na Natureza.
diatamente depois .. A altura do alvo é regulada por meio do parafuso-suporte.
As bolas poderão ser bolas de rolamentos. 3/4". é um diâmetro razoável para o projétil.
Recomenda-se estudar colisões com alvos de massas diferentes, podendo-se escolher, por el(em-
plo, bolas de 3/4" (alvo e projétil idênticos) e de 1 /2".
A determinação dos pontos O e O' da fig. 3 do texto (pág. 94) deve ser criteriosa e será
deil<ada aos cuidados do grupo. · 5.1 ANÁLISE QUALITATIVA DO CONCEITO DE FORÇA
A maneira mais simples de determinar os pontos de impacto (A, B, C na fig. 3) é dispor
.papel carbono sobre uma folha de papel branco colocada sobre a mesa de experiência. 1maginemos ou executemos se possível algumas experiências .

139
138
EXEMPLO 1 segundo: a força necessária para conseguir essa desaceleração brusca é tão
Duas bolas de mesmo diâmetro caem da mesma altura em cima de grande que o mergulhador não. resistirá aos efeitos de deformação que lhe
uma mesa: uma das bolas é de cortiça, a outra, de chumbo. serão impostos.
Caindo da mesma altura chegam à mesa com a mesma velocidade~ No entanto, ao mergulhar na piscina com água, o atrito da água,
Numa fração de segundo essa velocidade vai anular-se através da somado ao empuxo hidrostático, vai anular uma velocidade comparável
ação da força exercida pela mesa sobre as bolas. · em um intervalb de tempo muito maior. A força exercida sobre o mergu-
Se alguém quiser colocar a mão sobre a mesa, debaixo das bolas, lhador é muito menor, não trazendo conseqüências desagradáveis.
que bola escolheria? Esse exemplo e outros semelhantes mostram que a força necessária
Evidentemente a bola de cortiça. Todo o nosso aoervo experimen- para provocar, num mesmo corpo, a mesma variação de velocidade, varià
tal, acumulado em experiências diárias, nos diz que é preciso fazer menos inversamente com o tempo durante o qual se produz aquela variação:
força para parar a bola de cortiça que a bola de chumbo*. quanto maior o tempo, menor será a força necessária.
Esse exemplo, bem como outros facilmente encontrados (por ' Estamos agora preparados para definir operacionalmente a medida
de uma força.
exemple>: é mais fácil pôr em movimento um carrinho de feira que um
vagão de estrada de ferro), mostram que a força necessár!:i para provocar
uma mesma mudança de velocidade num mesmo intervalo de tempo
aumenta com a inércia (massa) do corpo. 5.2 DEFINIÇÃO: FORÇA TOTAL, OU RESULTANTE, QUE AGE
SOBRE UMA PARTrCULA (2.ª LEI DE NEWTON)
EXEMPLO 2 As grandezas cinemáticas que intervirão nas definições que se se-
Experimentemos agora com uma bola de chumbo de quatro ou guem são medidas em um referencial inercial (S).
cinco centímetros de diâmetro.
Numa primeira experiência, deixemos cair a bola de uns poucos
centímetros acima da mesa. 5.2.1 PRIMEIRO ENUNCIADO
Na interação mesa-bola, que vai imobilizar a bola, a mesa ficará
apenas deformada. z (S) F=ma
Numa segunda experiência, deixemos cair a bola de alguns metros.
E possível, senão provável, que a mesa não resista às forças de interação,
na tentativa de imobilizar a bola, e que se quebre.
Qual é a razão da diferença? x
·i: que se trata agora de anular velocidades diferentes de um mesmo
corpo, em intervalos de tempé> comparáveis.
Essa experiência e outras tantas fáceis de imaginar, mostram que a
força de interação é tanto maior quanto maior for a variação de velocida-
de provocada, desde que os outros parâmetros (massa, tempo de intera- Fig. 1 Se, em determinado instante t, a aceleração da partícula de massa m for a (medida em
ção) permaneçam os mesmos. S), a força total, ou resultante se mede por definição pelo produto ma.

EXEMPLO 3
Seja a a aceleração no instante t, de uma partícula de massa m (fig. 1).
Imaginemos finalmente uma situação extrema: é preferível mergu-
Por definição, a força total; ou resultante, que age sobre a partícu-
lhar numa pisei ria com água que sem água. Por quê? la nesse instante, se mede por:
Ao atingir o fundo da piscina (sem água), no final da queda do
trampolim, o mergulhador vai anular sua velocidade numa fração de F=ma (1)

• Em conseqüência a mão será menus deformada pela interação com a bola e a dor possivelmente
5.2.2 COMENTÁRIOS
sentida será muito menor. 1 O módulo da força total, ou resultante, se mede em newtons (N).

140 141
O newton é a força que comunica à massa unidade ( 1 kg), a aceleração Podemos definir a força de uma forma diferente (equivalente,
unidade ( 1 m/s 2 ): obviamente, à definição precedente).

(2)
5.2.3 SEGUNDO ENUNCIADO
1 N = ( 1 kg) • ( 1 m/s 2 ).
z
Para que se tenha uma idéia do que representa essa unidade de
força, basta assinalar que um litro de água pesa aproximadamente dez y
newtons.
2 A definição (1) está de acordo com nossa análise do conceito
intuitivo de força: a força (módulo) é proporcional ã massa e à aceleração
x F=dp
p dt
que ela provoca, isto é, à taxa de variação da velocidade.
3 Observe-se que a força é uma grandeza vetorial c.uja direção e cujo
sentido são sempre os da aceleração. (Ver, no entanto, as seções 5.7 e 5.8.)

EXEMPLO 4
Força que age sobre uma partícula em movimento circular uni- Fig. 3 No instante t. a taxa de variação do momento p da partícula, é dp/dt. Por definição,
forme. essa taxa de variação do momento dá a medida da força total F.

Seja po momento linear, no instante t, de uma partícula de massa


?'1 (fig. 3) e seja ~~a taxa de variação daquele momento, no mesmo
mstante.
Por definição, a força total, ou resultante, que age sobre a partícu-
la nesse instante, se mede por:
r - dp

~
F - dt (3)

5.2.4 COMENTARIOS
1 A equivalência das formas ( 1) e (3) se mostra imediatamente: com
efeito, sendo constante a massa de uma partícula (*)
dv d(mv) dp
ma=m-=--=-
dt dt dt
2 Observe-se que a força se manifesta não no sentido do momento e
sim no sentido da variação desse momento: é praticamente a formulação
da lei li dos Principit;J (cap. 2)
Fig. 2 No movime.nto circular uniforme, a força é centrípeta; seu módulo é inv 2 Ir (ou mw' rl. Por essa razão, a definição ( 1) ou (3) será chamada "2.a lei de
Newton".
Se uma partícula de massa m descreve uma circunferência de raio r
com velocidade (escalar) constante v (fig. 2), aprendemos em Cinemática EXERC(CIO
que a aceleração. a é centrípeta, sendo seu módulo igual a v2 ;;., Descreva uma situação experimental em que a força e o momento têm a mesma direção.
Em conseqüência, a força total que age sobre a partícula é também ·• O grifo chama a atenção para o fato de que se a massa de um sistema (e não mais de uma par·
centrípeta, e seu módulo é mv2 Ir (ou mw 2 r, em que w representa a tícula) não for constante, a definição (3) é geralmente incorreta. Veremos exemplos dessa
. velocidade angular do movimento). situação no Vai. 2 deste curso (exemplo: problema do foguete) .

142 143
5.3 FORÇA TOTAL MÉDIA DURANTE UM INTERVALO 6t Podemos também calcular diretamente a variação do momento do automóvel no inter-
valo (0 1O)s, pois de:

. /4p(t) F- .':,p
-t;t·

7 obtemos:

p(t+8~
lip = F ôt • ôp = 3,0.10 2 • 10 = 3,0.10' N.s

Sendo nulo o momento inicial, o valor acima representa o momento final (que podemos
agora expressar em kg·m/s):

mv = 3,0.10 kg·m/s v = 3,0.10 = 3,0 m/s


1,0.10
Fig. 4 A força média <f >tem a direção e o sentido da variação ô p do momento, durante o
intervalo ôt. EXERCl"clO
1 Mostre que, dimensional mente, a unidade N.s é equivalente à unidade kg m/s.
2 Convença·se de que as duas maneiras de resolver o exercício não são fundamentalmente
diferentes.
Representemos por tip (fig. 4) a variação do momento p de uma
partícula, durante um intervalo de tempo qualquer 6t.
5.4 IMPULSO DE UMA FORÇA-RELAÇÃO ENTRE IMPULSO E
A força total média< F > que age sobre a partícula durante o VARIAÇÃO DO MOMENTO
intervalo b.t é medida por: O exercício precedente mostra que é pelo tempo durante o qual
ela age que a força total transfere momento à partícula sobre a qual ela
< F > = b.t
4' I (4) age.
Isto é urna conseqüência imediata da 2.a lei: se a força constante F
isto é, pela taxa média de variação do momento durante o intervalo agir durante o intervalo de tempo 6t sobre uma partícula, o momento
considerado. desta variará de:
Quando 6t tende para zero, a força média tende obviamente para a
força no instante t da expressão (3). 6p = FM. (5)

EXEMPLO 5
Se durante o intervalo 6t conhecermos a força média total < F >,
a variação de momento será:
Uma força total constante, de módulo 3,0.1 O 2 N. age durante 1Os
sobre um automóvel de massa 1,0.10 3 kg., inicialmente em repouso. 6p = <F>M. (6)
Qual é a velocidade do automóvel no fim dos 1Os?
Finalmente,·se a força total F variar com o tempo segundo uma lei
SOLUÇÃO
conhecida, a variação do momento da partícula, no intervalo (t,t + M) se
expressará por:
Uma primeira maneira de resolver o exerc-fcio consiste em:
a. Observar que,.sendo constante a força, o movimento do automóvel é uniformemente ace- _[_t+!it
lerado, com velocidade inicial nula. Em conseqüência a velocidade terá, em qualquer instante do t:.p =.JFdt (7)
intervalo de tempo considerado, a direção e o sentido da aceleração e portanto da força. Essa obser- t
vação permite tratar o problema escalarmente, já que a trajetória é retil fnea.
b. Calcular a aceleração do movimento, pela 2.ª lei na forma F =ma: Costuma-se chamar ao segundo membro das relações (5), (6) e (7)
de impulso da força considerada durante o intervalo de tempo 6.t.
- 3,0.1 o• = 0,30 m/s 2 • O impulso costuma se representar pelo símbolo J. A unidade é o
a-1,0.10• Newton. segundo (N.s).
As citadas relações expressam as.sim o fato de que a. variação do
c. Calcular finalmente a velocidade:
momento de uma partlcula é devida à ação de uma força e se mede pelo
v =at--+ v =0,30 · 1O = 3,0 m/s. impulso da força durante o intervalo de tempo em que ela se exerce.

144 145
F
EXEMPLO 6
102 N
Uma pedra de massa m = 0,50 kg é lançada com velocidade
v0 = 20m/s sob um ângulo a = 60° acima do chão horizontal. Podemos 8
admitir que, enquanto está no ar, a força total F que age sobre a pedra é
vertical, dirigida para baixo e tem módulo de 5,0 N.
6
Qual é a velocidade da pedra 2,0 s após o lançamento?
4

SOLUÇÃO
Escrevemos a velocidade inicial na forma: 2

v0 = lOi-17,JY. (m/s).

(Qual foi a base (i, y) escolhida? 1


-01 1 2 3 4 r (s)
O momento inicial é entio:

P0 =5,0 i - 8,7 9. (kg.m/sl

O impulso da força F = 5,0 y (N) durante o intervalo de 2,0s é:


SOLUÇÃO
(5,0 y) (2,01=10 y (N.sl.
Como no exQmplo 5, podemos tratar o problema escalarmente. O impulso da força total,
representado por
Esse impulso mede a variaçio do momento da pedra durante os 2,0 primeiros segundos
do seu movimento, seja t:.p.
O momento final da pedra será portanto:

P 0 + t:.p = 5,0 i - 8,7 y + 10 y = 5,0 i + 1,3 y (kg.m/sl.


!F dt 3

é proporcional à área sombreada do gráfico. Acha-se facilmente que essa área representa 1,78. 10 3
A velocidade final obtém-se dividindo-se o momento pela massa da pedra: N.s. A velocidade do carro em t =3,0s é portanto:

v =1O i + 2, 7 9 (m/sl.
1,78•10' = 2 2 m/s
8,0·10 2 •

O m6dulo dessa velocidade é 10,4 m/s.


5.5 IMPORTÃNCIA DA 2.ª LEI DE NEWTON

EXt:Rc1'c10 Suponhamos que conhecemos a força que age sobre uma partícula
1 Determine d ri1'ecJo dd 1,'p!:Jcid;1Je_ N:_1 insL·1il!t' cunsidP.:·arJ1_;_ ~~ pedr,_1 j,1 tcr'-1 ulti~lpd:-;·;..:d·J em determinadas circunstâncias. A 2.a lei de Newton permite então, em
o ponto mais alto d.J trajet6ri3? Justifique princípio, prever qual será o movimento da partícula submetida a essa
2 Observa se que a cornponente h~Hízontill d~: ped~~-i const-::r·... ~-·u o n1e:::.nic.J v<.dü' E,... p!ique
fisicamente por q :..ie.
força.
Com efeito as relações ( 1) ou (3) equivalem a um sistema de três
EXEMPLO 7 equações diferenciais, obtidas por projeção sobre os seixos associados ao
referencial.
A força total que age sobre um automóvel de massa 8,0.10 kg é
.constante em direção e sentido. O seu módulo varia em função do tempo
como mostra o gráfico da fig. q.
ma= F • l mJl = Fx
m y = Fy
m:t = Fz
(8)

Sabendo-se que a velocidade do automóvel era nula em t = O, qual As equações (8) constituem as equações do movimento da par-
é o módulo dessa velocidade em t = 3,0s? tícula.

146 147
Mas, pela 2.ª lei de Newton, dp 1 /dt e dp 2 /dt representam respec-
Se soubermos integrar essas equações teremos a posição da par-
tivamer:ite as forças que se exercem sobre as partículas do par, no
tícula em função do tempo.
instante t. Sejam F, e F2 essas forças.
Reciprocamente, a experiência pode fornecer a posição, em função
A conseqüênci.a necessária de (.10) é pois:
do tempo, de uma partícula submetida a uma lei de força desconhecida.
Se soubermos descobrir uma relação entre a aceleração da par- F1+F2 =0 (11)
tícula e as outras grandezas cinemáticas como posição, velocidade, tem-
po, então conheceremos a lei da força que rege o movimento da par- ou seja:
tícula. F1 = -F2. (12)
Por exemplo, a partir das duas primeiras leis de Kepler, Newton
deduziu a lei da atração gravitacional na razão inversa do quadrado da F, é a força exercida no instante t, pela partícula (2) sobre a
distância. partícula (1 ).
Finalmente, não é menos importante observar que a definição da F2 é a força exercida, no instante t, pela partícula (1) sobre íJ
força pela 2.a lei de Newton leva necessariamente à 3.a lei, como vere- partícula (2).
mos agora. O conjunto (F, F 2 ) é geralmente chamado par ação-reação (fig. 5).

5.6 AÇÃO E REAÇÃO (3.a LEI DE NEWTON)


5.6.1 PROBLEMA SUGERIDO PELA ÍNTERAÇÃO DAS PAR- ( 1)
I~
TÍCULAS DE UM PAR ISOLADO

~
Imaginemos um par isolado de partículas que interagem. O sistema
é estudado em um referendai inercial. Podemos supor que se trata das
estrelas de um sistema duplo: Sírius e o seu companheiro escuro; por
exemplo*. F1
Durante a interação, os momentos das duas partículas variam, por
causa das forças respectivamente exercidas sobre essas partículas. Fig. 5 O par açã'a-reação: F 1 = - F 2
Como se comparam essas forças?

5.6.2 3.a LEI Enunciemos:


· A resposta é imediata, sendo uma conseqüência necessária da con- As forças de· interação que agem sobre as partículas de um par
servação do momento linear (cap. 4) e da 2.a lei de Newton. isolado têm mesmo·módulo e se exercem em sentidos opostos.
Com efeito, sendo j:> 1 e p2 os momentos lineares das duas par-
tículas no instante t, a conservação do momento total do sistema exige
que: 5.6.3 COMENTÁRIOS
1 E de fundamental importância observar que as forças de um par
p1 + p2 = Cte. (9) ação-reação se exercem sobre partfcu/as diferentes: F 1 se exerce sobre a
Derivemos em relação ao tempo:· partícula (1), F2 se exerce sobre a partícula (2).
2 A dedução analítica que nos levou à 3.a lei nos permitiu afirmar
dp1 + dp2 =o. (1 O) que F 1 = -F2, isto é, que as forças de interação tem mesmo módulo e
dt dt agem em sentidos opostos.
Ora, vejamos a situação da fig.6; aí estão duas partículas subme-
* O companheiro .escuro de Sfrius é uma estrela muito menos brilhante que Sfrius e com 1/3 de tidas respectivamente às forças F1 e F2 que satisfazem à condição
sua massa. As duas estrelas interagem gravitacionalmente, girando em torno do centro de massa F1 = "-F 2 sem que, no entanto, as linhas de ação das forças coincidam.
com um período de 50 alias. A distância média entre as duas estrelas é da ordem· do raio da órbita
de Urano. Será que essa situação é possível?

148 149
neamerite a posição de Sírius, que se encontra a quase nove anos-luz de
nós*.
.,........- A Mecânica relativista corrige essa falha conceituai; confirma que,
.,........- efetivamente, a transmissão instantânea de qualquer informação (em par-
_... ....... ticular da informação relativa à posição de um corpo) é impossível. De
...- ....... ...- acordo com essa Mecânica, a 3.a lei de Newton não é válida e conseqüen-

....... - temente a conservação do momento total de um sistema tem uma forma


diferente da considerada pela Mecânica newtoniana .
Não convém insistir sobre esse assunto. Tratando-se de problemas
em nossa escala e com a precisão por eles requerida, a Mecanica newto-
Fig. 6 As forças F 1 e F 2 satisfazem a condição F 1 = - F2 sem terem no entanto a mesma linha
niana, com sua 3.a lei, é perfeitamente válida.
de ação. Essa situação é impossível em Mecânica newtoniana. Passemos então, no quadro dessa Mecânica, a um problema de
importância imediata.
A resposta é não, desde que, por um lado, o par seja um par
isolado (isto é, desde que não haja forças externas ao sistema) e que, por
outro lado, se façam certas restrições. Quais são essas restrições? 5.7 FORÇAS INDIVIDUAIS DE INTERAÇÃO
Estamos supondo, como é de regra em Mecânica clássica (ou
A 2.a lei de Newton nos diz como medir a força total que age
newtoniana), que cada uma das partículas do par sabe instantaneamente
onde se encontra a outra. sobre uma partícula em determinado instante.
A 3.a lei de Newton nos diz que nas interações entre duas par-
Em outros termos, estamos supondo· que as ações se transmitem tículas, as forças de interação são sempre iguais em módulo e direta-
instantaneamente a distância.
mente opostas.
Nessas condições, em cada instante, o universo do par de par- Mas suponhamos que uma partícula esteja interagindo simulta-
tículas é unidimensional: por simetria, elas somente podem conhecer neamente com várias outras.
(isto é, determinar sem ambigüidade) a reta AB que as une. Conseqüente- A Terra por exemplo está interagindo simultaneamente com o Sol
mente as forças F1 e F 2 de interação têm necessariamente o mesmo. e com a Lua**. A Lua está interagindo simultaneamente com o Sol e
suporte ou a mesma linha de ação: a reta AB (fig. 8) determinada pelas com a Terra.
posições das partículas no instante considerado. Um objeto pousado sobre uma mesa está interagindo simulta-
neamente com a Terra e com a mesa.
F2 A bola de um pêndulo que oscila está interagindo simultaneamente
com a Terra, com o ar e com o fio de suspensão.
Um automóvel que anda na estrada está interagindo simulta-
neamente com a Terra (gravitacionalmente), outra vez com a Terra (por
contacto) e finalmente com o ar, etc ...
Em cada um dos exemplos citados, a força total exercida sobre a
partícula é determinada pela massa do objeto e por sua aceleração medi-
Fig. 7 Supondo-se que cada uma das partículas "sabe" instantaneamente onde encontra a se da em um referendai inercial (2.a lei).
outra, o universo do par é, a cada instante, unidimensional, o que impõe a mesma linha de ação No entanto, se quisermos conhecer a força individua/ exercida
para F 1 eF 2 •
sobre a partícula por cada uma das interações, que faremos?
O que precede pressupõe que se aceite a premissa (newtoniana) de Em princípio, isto é, conceitualmente, não há dificuldades: basta
transmissão instantânea das ações a distância. imaginarmos que no instante t todas as interações menos uma deixam
Será que essa premissa é aceitável?
A rigor, não é. Primeiro porque fere o senso comum. Achamos • Basta se perguntar: de que maneira conhecemos a posição de Sírius?
difícil aceitarmos, por exemplo, que a Terra ou o Sol conheçam instanta- ••A interação com os outros planetas é geralmente desprezível.

150 151
simultaneamente de existir: a aceleração no mesmo instante da partícula, em que F 1 representa, por exemplo, a interação gravitacional, e f 2 a
submetida agora a uma e somente a uma interação, fornecerá a força força de contacto com a mesa.
exercida individualmente por essa interação. O inconveniente é que, até agora, nada nos garante que possamos
O que precede fornece o meio conceitualmente correto de definir escrever:
a força individual que cada interação exerce sobre uma partícula, subme- F = F1 + F2 (14)
tida a várias interações. No entanto essa definição pode, em certos casos, to ta 1
ser operacionalmente inexeqü ível. Em outros termos, nada nos garante que a força total definida pe-
Voltemos por exemplo ao caso do livro pousado sobre uma mesa. la 2.a lei (isto é, o produto ma) seja igual à soma vetorial das forças indi-
Uma coisa é dizer que a força exercida pela mesa sobre o livro é medida vidúais de interação. O ponto pode parecer trivial: merece porém um pou-
pelo produto da massa do livro por sua aceleração no instante t, supon- co de atenção.
do-se que naquele mesmo instante t, a interação gravitacional do livro
com a Terra cessasse de existir; outra coisa é realizar a experiência. Todos
nós sabemos que a interação gravitacional não pode ser "desligada". 5.8 COMPOSIÇÃO DAS FORÇAS
De modo que a determinação experimental direta dessa força é 5.8.1 PROBLEMA
impossível. Suponhamos que uma partícula esteja submetida às forças indi-
Resta portanto, como solução, a determinação indireta. viduais F 1 F2 F 3 (fig. 9 ).
Força da interação
gravitacional
F2

Ir

l
Força da interação F1
com a mesa

Fig. 8 Ántes de podermos afirmar que a força exercida pela mesa sobre o livro. é igual em mó-
dulo, é diretamente oposta ao peso do livro, devemos pesquisar a maneira pela qual as forças indi-
viduais se "combinam" para fornecer a força total.

Vejamos a fig. 8. Representa o livro e as duas forças de intera-


ção: a força de interação gravitacional (peso) e a força de interação
por contacto com a mesa. Fig. 9 Uma partícula está submetida às três forças F 1 F 2 F 3 • Qual é a força total que age
Estando o livro em repouso, sua aceleração é nula, e conseqüente- sobre a partícula?
mente, de acordo com a 2.a lei, a força total que se exerce sobre ele é
nula.
A conclusão parece então evidente. Já que: O problema é: A força total definida pela 2.ª lei de Newton é
realmente a soma vetorial das forças F 1 f 2 F 3 ? Em termos mais gerais,
F total
= F 1 + F2 =O (13) representando-se por F a força total e por F; uma força individual genéri-
então ca, verifica-se a relação:
F2 = -F1 F = ~F;? (15)

152 153
A força total exercida sobre uma partícula é igual à soma vetorial
5.8.2 TESTE EXPERIMENTAL das forças individuais de interação exercidas sobre a partícula.
TRABALHO EXPERIMENTAL Nq 3
OBJETIVO
F·total = ~F
1
(16)
Verificar se a força total exercida sobre uma partícula á a soma vetorial das
forças de interações individuais exercidas sobre a partícula. No caso de duas forças temos a conhecida regra do paralelogramo
MODELO
(fig. 11).
Modelo de partícula para o objeto {argola) submetido às forças.

M~TODO
5.8.4 COMENTÁRIOS
Uma argola metálica em equilíbrio é submetida a três forças, exercidas por fios que Na seção 5.5 comentamos a importância da 2.a lei de Newton
sustentam massas m 1 , m 2 , m 3 (ver figural. como instrumento de previsão do movimento de uma partícula, desde
que se conheça a força total que atua sobre a partícula.
Vimos agora que a força total é igual à soma vetorial das forças de
interações individuais que se exercem sobre a partícula.
Concluímos assim que é de fundamental importância saber identi·
ficar todas essas forças individuais para se· chegar ao conhecimento da
força total.
Inversamente, a medida da aceleração de uma partícula, em deter-
minado instante, permite conhecer a força total, pela 2.a lei. Se, nesse
instante, conhecermos todas as forças de interações individuais menos
m, uma, o princípio de superposição permitirá deduzir o valor dessa força
a. Explicite o referencial, as leis impostas ao modelo, as suas hipóteses de trabalho (urna desconhecida.
dessas hipóteses, praticamente evidente, antecipará o tratamento formal das seções 6.5 e 6.'6.
b. Verifique se a força total é igual à soma vetorial das forças exercidas pelos fios. FI peso

5.8.3 PRINCfPIO DE SUPERPOSIÇÃO


O teste experimental copfirmou que a força total exercida sobre a
argola (no caso essa força total é nula) é efetivamente igual à soma
vetorial das três forças exercidas pelos fios.
Generalizemos por indução*, enunciando: F 1 força de
F total 2 contato
I
I Fig. 12 A força de contato equilibra o peso: F 2 = - F,
I
I
I
I Voltemos ao exemplo do livro pousado sobre uma mesa horizontal
I (fig. 12). O livro estando em equilíbrio (a = 0) podemos afirmar que:
I
I
I F total =O (17)
I
I
Mas sabemos agora que:
Fz F = F, + F2 (18)
total .
Fig. 11 A regra do paralelogramo para a composição de duas forças.
em que f 1 e F2 representam respectivamente o peso do livro (força de
* Reconhecemos que, essa generalização é criticável. A superposição {soma vetorial) foi testada interação gravitacional com a Terra) e a força de interação por con-
experimentalmente em um caso particular de forças em equilíbrio. É no entanto aplicável em tacto com a mesa.
to.dos os casos.
155
154
m1
Essa força F 2 não poderia ser determinada diretamente. No entan- F1 F2 m2
to, as relações ( 17) e (18) nos permitem agora afirmar que:
F2 = -F1
A identificação correta das forças que atuam sobre uma partícula,
em determinadas circunstâncias, exigiria em princípio que se conheces- r
sem todos os tipos de interações que podem ocorrer na Natureza.
Felizmente, essas interações fundamentais são muito poucas; Fig. 13 A interação gravitacional é atrativa. O módulo das forças de interação é: Gm,m 2 /r2
apenas quatro. Dessas quatro, somente duas nos concernem diretamente,
por enquanto.
A interação gravitacional é conseqüentemente uma interação do
5.9 AS INTERAÇÕES FUNDAMENTAIS tipo "inverso do quadrado da distância" ou, mais simplesmente, uma
interação "em 1 / r 2 ".
Todas as interações observadas e estudadas até hoje podem
classificar-se em quatro e somente quatro categorias. Há possivelmente Em conseqüência, se a distância entre dois corpos que interagem
somente quatro interações fundamentais na Natureza:* gravitacionalmente for reduzida à metade, por exemplo, o módulo das
forças quadruplica.
a. a interação gravitacional
b. a interação eletromagnética 3 Devido ao valor extremamente pequeno da constante G ("cons-
c. a interação forte. tante universal da gravitação"), as forças de interações gravitacionais
d. a interação fraca. somente serão sensíveis* se pelo menos uma das partículas tiver uma
massa muito grande. Por exemplo a força de atração gravitacional entre a
Terra e qualquer um de nós é sensível porque a massa da Terra é da
5.9.1 A INTERAÇÃO GRAVITACIONAL ordem de 1025 kg.
Ela divide com a interação eletromagnética, da qual falaremos a 4 E a interação gravitacional que mantém os planetas em órbita em
seguir, o privilégio de ser a mais, familiar de todas. torno do Sol, a Lua em órbita em torno da Terra e todos nós ligados ao
A razão é que, por um lado, tanto a interação gravitacional como nosso planeta.
a interação eletromagnética são interações de longo alcance (ao c ontrá-
rio das duas outras, que são de curto alcance); por outro lado, são as
únicas interações que se manifestam na nossa escala, na nossa vida diária. 5.9.2 A INTERAÇÃO ELETROMAGNE:TICA
A interação gravitacional se exerce entre quaisquer partículas. Será
+ +
estudada mais detalhadamente nos capítulos 6 e 12. Por enquanto anota-
remos que: .. @ ~ .
1 E uma interação atrativa. F1 F2
2 O módulo das forças de interação gravitacionais entre dois corpos (a)
de massas m 1 e m 2 • (fig. 13) é:
Gm 1 m 2 +
1 F 1 1 =I F 2 1= - -.. (19) e?4 ... .. @
r F1 F2
em que r é a distância entre as massas e G uma constante universal cujo
valor é: (b)

G = 6,67 • 10- 11 N · m 2 /kg 2 • Fig. 14 A interação coulombiana entre cargas de mesmo sinal é repulsiva (a). Ela é atrativa entre
cargas de sinais contrários (b). ~ também uma interação em 1/ r•.
* Um dos objetivos fundamentais da Física teórica é a possível unificação dessas interações. Atual·
mente (1979), a unificação da interação eletromagnética e da interação fraca parece confirmada. * Quando comparadas com as outras forças geralmente presentes.

156 157
A interação fundamental desta classe é a interação coulombiana, 5.9.4 A INTERAÇÃO FRACA
que se exerce somente entre partículas carregadas. Menos cónhecida que. as três outras, a interação fraca tem um
Ao contrário da interação gravitaciç>nal que é somente atrativa, a alcance ainda muito menor que a interação forte (da ordem de 10...,. 7 m),
interação coulombiana pode ser atrativa (entre cargas de sinais contrá- e aparentemente.se manifesta somente em certos processos de decaimen-
rios) ou repulsiva (entre cargas de mesmo sinal) (fig. 14). to de partículas. O exemplo mais conhecido é o decaimento do nêutron
(fora do núcleo);
O módulo das forças de interação é:
n•p+e+il
1F 1 1=1 F 2 1 = k q q
1 2 (20) (n: nêutron;p: próton; e: elétron;ii: antineutrino).
r2 Embora de intensidade e de alcance muito pequenos, a interação
em que q 1 e q 2 representam as cargas das partículas (em Coulomb), r a fraca é· no entanto de importância fundamental para a nossa sobrevi-
distância entre partículas (em metro) e k uma constante de proporciona- vência. Com efeito, ela integra o início da cadeia de reações que levam à
lidade cujo valor é: ;I fusão nuclear, através da qual o Sol nos alimenta de energia.
k = 9,0. 109 N-m 2 /(Coulomb)2 1
5.9.5 INTENSIDADE RELATIVA DAS QUATRO INTERAÇÕES.
Essa interação, bem como outras que pertencem à mesma classe e A interação nuclear é a mais forte das quatro interações fundamen-
que são devidas à velocidade relativa de cargas em movimento, será estu- tais, vindo a seguir, por ordem decrescente, a interação eletr9magnética,
dada no vol. 3 deste curso. a interação fraca e finalmente a interação gravitacional. O quadro seguin-
Anotemos por enquanto qu.e: te fornece as intensidades relativas dessas interações:
1 A interação coulombiana é responsável pelas chamadas forças de Interação nuclear 10º
contacto que se manifestam todas as vezes que dois corpos são comprimi- 1nteração eletromagnética 10-2
dos um contra o outro (Exemplo: força de contacto no caso do livro Interação fraca 10-14
pousado sobre a mesa). Interação gravitacional 10-J.7
2 Ela é também responsável pelas chamadas forças de tração que se CONCLUSÃO
exercem por meio de fios, cordas, cabos, correntes, etc ... Este capítulo nos deu um método operacional de medir a força
3 De um modo geral, a interação eletromagnética entre elétrons e total que se e>t-erce sobre uma partícula (2.a lei de Newton) e nos levou a
núcleos atômicos explica as propriedades físicas e químicas dos sólidos, uma terceira lei da Natureza (J.a lei de Newton); no nosso universo as
1íquidos e gases, pelo menos nas condições usuais em que eles se apresen- forças se apresentam aos pares: a cada torça individual que se exerce
tam .. sobre uma partícula, corresponde sempre uma outra força, diretamente
oposta à primeira e que se exerce sobre outra partícula.
5.9.3 A INTERAÇÃO FORTE O princípio de superposição nos ensina que as forças que se exer-
A interação forte se exerce entre as partículas conhecidas como cem so~re uma mesma partícula se somam vetorialmente·para fornecer a
hadrons, e que incluem o grupo dos mésons por um lado (exemplos: pion força. total ou resultante, que age sobre a pàrtfcula.
(11), kaon (K) ... ) e por outro lado o grupo dos barions, entre os quais Finalmente, aprendemos que. ape5ar de sua aparente complexida-
encontramos os nossos conhecidos próton e nêutron. de, a Natureza é parcimoniosa quanto às interações fundamentais: exis-
A interação forte é atrativa; é responsável pela coesão do núcleo tem apenas quatro çlessas interações (pelo que sabemos até hoje).
atômico, ameaçada pelas forças coulombianas repulsivas entre os prótons Esse capítulo, de importância fundamental na formulação da
que se encontram no núcleo. Mecânica newtoniana, é no entanto pouco operacional. Por exemplo, o
A interação forte tem um alcance muito reduzido: 10- 15 m ou seja, conhecimento conceituai da existência e da forma da interação gravita-
a ordem de grandeza do que convém se chamar de diâmetro do núcleo cional e da interação eletromagnética - para nos limitar às duas que nos
atômico. concernem explicitamente - adianta pouco para a formulaçijo e a conse-
É por causa desse curto alcance que as manifestações de interação qüente resolução de problemas de interesse imediato.
forte escapam à nossa observação, nos fenômenos a nossa escala. O capítulo seguinte preencherá essa lacuna~

158 159
PROBLEMAS RESOLVIDOS F = (6t- 1li+2'9 - (2t + 311 IN,ml.

1.R Üm objeto de massa m = 2,0 kg desliza sobre um plano horizontal. A força de atrito Cel_cule o linpuls0 dessa forçeentrer::::: O e ti::: 101.
=
exercida pelo plano é de 10 N. Sendo v0 10m/s a velocidade inicial do objeto, quanto tempo
SOLUÇÃO
leva eh! atê parar?
_(.••
J !St -1 ldt =
.

SOLUÇÃO Jx 290 N.t


A força resultante é a força de atrito.
A aceleraçlo é: r.10
Jy J 02r dt = 100 N.s
a=- 2,0
.l ,O =-0,50 m/s•

(Por que negativa?) Jz J_f.10


0
(2t + 3ldt_ = 130 N.s
(Faça agora o gráfico (v,tl do movimento)
A velocidade anula-se depois de um tempo Finalmente:
Vo
At=.--• At= --=201.
10 J =290 i v
+ 100 + 130 l IN.sl
1• 1 0,50
2.R A força que age sobre uma partícula é ,F = 6,0i-8,0y (N, m).
Sendo a massa da part(cula Igual a 2.0~.qual é a aceleraçlo da partlcula7

SOLUÇÃO
Imediatamente:

e =il;F e= 3,0 l - 4,0 t (m/s~)

3.R Uma
partlcula <f1! masu m tem uma tra)etõrla plana de equaçlo y =• sen (x/x 0 )
A componente x da velocidade da partlcula é constante, sendo Igual a v 0 • Qual é a força
que age sobre a partlcula7 O referencial escolhido é um referencial inercial.

SOLUÇÃO
O.vetor de pollçlo da partlcula 6:

r:i:::xl+asen Ú!/.111) t
A velocidade 6:

V = Ji + ..!_ ·'OJI
Xo.·\
..JL),K V
Xo .
Substituamos it pala constante v0 :

""• (:"co1-
v=v.0 i +--
"•
.
"•
"') t
A aletaÇlo 1:

8Vo ~,.,,__
e=O--· X ) x, v
x: Xo

ou seja, substit~~™!°t-se de ;o)lio li por v 0•

•=- ~ iln- t
Xo Xo
Aforça6

11111 ll'o2- 2 ( sen -·X) t


F=---
.rco . Xo
4.R A for~ de interação que age sobre uma partlcule de massa 0,20kg varia em fUnçlo do
tampo segundo a 1,i:

160
161
F1 (N)
EXERCfCIOS
Atira-se um livro, cuja massa é 1,0 kg, sobre uma mesa horizontal. A força de atrito
exercida pela mesa sobre o livro é constante e vale 1,0 N. Observa-se que o livro pára depois de
percorrer 1,0 m. Qual era a velocidade inicial do livro? Quanto tempo levou até parar?

2 A figura representa o gráfico (p,t) de uma partícula em movimento retilíneo, no rafe·


rencial do laboratório.
0,1 o 0,20 t(s)

p(kg.m/s) 5 A lei de força de uma interação é representada no gráfico. Qual foi o impulso total da
força durante a interação?

10
FI (N)
9 4,0

8
"' \. •3,0
"
7
' ".., 2,0
6
l
5 \ 1,0

4
'\ 1
0,1 O 0,20 0,30 0,40 0,50 t(s)
3
\
.., 6 Em determinado instante (tomado como origem), o momento de uma partícula é:
2
\
p =20 lê+ 40 9 (kg · m/s)
'
o
"' I"""
t (s A força que age sobre essa partícula é: F = 2,0 tlê - 3,09 (N). Qual será o momento da
partlcula em t= 3,0 s?
0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 10
7 O momento de uma partlcula isolada é: p = 3,0 lê-8,0 y kg· mÍs. Em determinado ins-
tante, ela sofre a ação de uma força e o momento passa a ser:
a. Qual foi a força média exercida sobre a partlcula no intervalo (0,2s 0,8117 p =33 lê+ 32 9 kg · m/s.
b. Qual era a força exercida no instante t = 4,0s7
Admitindo-se que a interação durou 1,0 · 11T.. s, qual foi o valor médio da força
c. Qual foi o módulo da força máxima exercida sobre a partlcula7
d. Imagine uma si_tuação real que possa levar a um gráfico semelhante ao gráfico acima. aplicada?

3 Umâ partlcuia de massa m = 2,0kg pode deslizar sem atrito sobre um plano horizontal.
Submete-sa a partícula a uma força
F (t) = 5,0t- 1,0f (N,s)
Supondo-se que, em t =O, v =O, qual á a velocidade da partícula em t = 5,0s?

4 Uma força de interação varia como mostra o gráfico. O impulso total é de 200 N.s.
Qual é o valor da força média durante a interaçio7

163
_162
QUESTOES CONCEITUAIS Segundo a seção 5.6, se quisermos conhecer a força de interação do livro com a mesa,
temos que supor que, em determinado instante, a interação gravitacional desaparece. O livro
estaria entio, nesse instante, submetido exclusivamente às forças de deformação próprias e da
mesa.
·a. O que aconteceria?
1 Nei exemplo 1. da seçijo 5.1, dissamoi que urÍ'ill bola da. cortiça e outl'.ll. de chuml!!), b. Mostre que a definição dada é conceitualmente diferente da "definição" seguinte: "A força
caindo da mesma altura em cima da uina mesa, chegam à m-corri a niasma velocidada. Critique exercida pela mesa sobre o livro é igual à força total exercida, se a Terra não existisse".
essaafirmilçio.. . . Critique essa l'.ll~ima definiçio.

2 ·Imagine e descreva situaçl5ei ou experiências que mostrem que as forças da interaçlo 1O Considere duas molas amartadas 11m siri• corno na fjgure. As molas são esticada• (l.e., ·
vilriemeorno os lávi provocados pela força (maior o IC.YI maiOr a forçai, supondiHe que a massa e o daformadasl e suas extremidades livres amarradas a suP<>rtes fixos no laboratório.
tempó de interação saiam sempre oi' mesmo&. ·
.
3 Imagine e descri!ia situaçais ou experiências que- mostrem que as forçai da interaçlo
. 2
~

variam em· sentido contrârio do tempo neC9SSl!rio para provocar uma mesma variação .da veloci-
dade em Corpos de mesma massa.

4. Atira-se contra urna pared~ duas tiolas eia mesma massa. A primeira ti uma bola de tinis; e
~..9.Q9..DJJJ~ÓÓÓÚÚÓ6l
outra é uma bOla de massa de vidraceiro. . .
Cuai das duas bolas exerce a maior força sobre a parede? . (explique as suas razões). d. d,
5 Uma bola caindo verticalmente tem aceleração de 9,8 mls2 , am módulo. Se a mesma bo·
la estives.e em movimento circular com uma força total da inesmo módulo que no caso da queda,
qual seria o módulo da aceleração? a. Mostre que são forças igua~ (em módulo) que deformem as molas.
b. Conclua que, todas as vezes que e mole 111 tiver o comprimento d 1 , e a mola 121, o
6 A força F comt11nt11 se exerce sobre o conjunto dos dois carrinhos. O atrito entre os comprimento di, eles exercerão forças Iguais (em módulo). ·
carrinhos e o plano horizontal é desprezlvel. Em determinado instante rompe-se o fio de ligação c. A conclusão precedente exige que uma certa hipó_. seja verificada. Qual ti essa hipóte-
entre os dois carrinhos. (A força F continua agi~o.) . . se? (Pense em cl'eformaç!les permanentes .•. ) Acha'raz._I aceitar a sua validade?

11 Aprendemos que se um livro estil pousado sobre uma mesa horizontal, a força de con·
2
tacto que a mesa exerce. sobre o livro é Igual em módulo e diretamente oposta ao peso.
1 m 1 1 m ~ :
Suponlla agora que se Incline 11 mesa e que o livro continue em equilfbrio.
Qual éa força de contacto?
CJ CJ . C:LCJ
~~
Construir o grâfico lv,tl de elida um dos.carrinhos.

7 Um falso paradoxo muitas vezes proposto aos principiantes em Ffsica consiste em dizer
mais ou menos o seguinte: ·
"Se um cavalo puxa 1,1rna carroça para frente, a carroça puxa o cavalo para triis com uma
força igual e diretamente oposta, conforme a 3.ª lei de Newton. Como é que se explica então que
cavalo e carroça consigam efetivamente andar? "

8 No comentário à 3.ª lei, dissemos que se aceitarmos a premissa newtoniana de transmis-


são instantânea das ações à distância, as forças de intilraçio F 1 e F2 entre as partlculas de um par
isolado, devem ter necessariamente, por si11111tria, o mesmo suporte.
Comente criticamente essa afirmação,

9 Essa questão refere-se à definição da força individual da interação, da seção 5.6.


Imaginemos o exemplo de 1,1ro livro pouúdo sobre a mesa.
O . livro interage gravitacionalmente com a Terra, ~~ um lado, e i:om a mesa (por
contactol por outro lado. Essa interação de contacto deforma o livro (e a mesal embora essas
deformações sejam microscopicamente imperceptíveis.

164 186
PROBLEMAS 9 Na interação repulsiva de dois carrinhos A e e, as velocidades dos dois carros sio medidas
em função do tempo, fornecendo a seguinte tabela:

1 t (s) f VA (m/s) u ] Ve Cm/s,--~ 1


1 Apanhe uma pedra e projete-a horizontalmente. Avalie os valores dos parâmetros relevan·
tes e dê uma ordem de grandeza. da força média exercida por sua mão sobre a pedra, no ato do o 2;50. 0,50
lançamento. 0,50
0,20 2,50
0,40 2,48 0,60
2 Avalie a força média exercida pelo asfalto sobre as rodas de um automóvel, andando a
0,60 2,44 0,75
grande velocidade, e freando bruscamente à vista de um obstáculo que surge repentinamente à sua "'
frente. o.ao 2,34 1,08
1,0 2,20 1,45
3 Avalie a força exercida sobre um carro que anda em alta velocidade e bate contra um
poste. 1,2 2,06 1,91
1,4 1,91 2,38
4 Avalie a forÇa média exercida pel.o asfalto sobre os pneus de UrTl carro, ao fazer uma 1,6 1,75 2,75
curva.
1,8 1,68 3,08
5 Um avião voa horizontalmente em linha reta e com velocidade constante. Reboca três 2,0 1,58 3,34
planadores idênticos. Supondo-se que a tensão do cabo que liga o avião ao primeiro planador seja 2,2 1,53 3,45
igual a 1,0 • 10 3 N, determine a tensão do cabo que liga o primeiro planador ao segundo e o se-
gundo ao terceiro. 2.4 1,50 3,52
Enuncie claramente a(s) hipótese(s) que você estâ fazendo. 2,6 1,50 3,52

6 Um objeto de massa m ~ 2,0 kg repousa sobre uma superfície horizontal. Exerce-se a. Construir o gráfico (v,t) da interaçio
sobre o corpo uma força horizontal cujo valor inicial é 10 N e que decresce linearmente com o b. Qual é a razão entre as massas dos carrinhos?
tempo até atingir, depois de 5,0 s, o valor de 1,0 N, que é o justo necessário para manter, a partir e. Observa-se que, durante a interaçio, a distância mínima entre os carrinhos é de 10 cm.1
daquele instante, uma velocidade constante. Construa o gráfico (vtl e calcule o espaço percorrido
pelo corpo durante os cinco primeiros segundos do movimento. Qual é a distância entre os carrinhos no início da interação? No fim da interação?
Resposta: 38 m. .d. Observa-se que as curvas (v,t) apresentam um ponto de inflexão. O que significa fisica·
mente esse ponto? O que acontece ês forças de interação no instante correspondente?
7 Um objeto de massa m = 1,0 kg repousa sobre uma superfície horizontal. Exerce-se
sobre o corpo uma força horizontal cujo valor inicial é 10 N, e que decresce linearmente com o 1.0 O gráfico (a) representa a curva (p,t) do movimento de uma partícula antes e depois de
espaço percorrido até atingir, depois de percorrer 1,0 m, o valor de 1,0 N, que é o justo necessário uma interação. O gráfico (b) representa a lei de força.
para manter a velocidade constante.
Qual é a velocidade final do corpo? F 1 (N)
Resposta: 3,0 m/s.
P~ (kg.m/s) 600
8 Inicialmente, o carro B está parado e o carro A movimenta-se para a direita com veloci- 10
dade de 0,50 m/s. Depois da interação, o carro A volta para a esquerda com velocidade de 1

0,10 m/s, enquanto que o carro B vai para a direita com velocidade de 0,4 m/s. Numa segunda 400

(A) 200 J 1 1 (B)

c;J·. ~ 0,10 0,20 t(s) º1 0,10 1 10.20 t(sl

-200--- - - - -
experiência, põe-se uma sobrecarga de 1,0 kg sobre o carro A. Inicialmente, o carro B está parado
e o carro A movimentacse para a direita com velocidade de 0,50 m/s. Depois da interação, o carro a. Complete cuidadosamente o gráfico (a),
e
A está parado o carro B vai para a direita, com velocidade de 0,50 m/s. Qual é a ma~sa de cada b. Qual foi a força média que agiu sobre a partícula durante a interação?
carros? Qual foi o impulso (módulo) da força de interação, em cada ca~o? Resposta: 2,0 · 10 2 N.

166 167
11 Duas partículas interagem unidimensionalmente. A lei de força sobre uma das partículas
6 mostrada no gráfico. Entre os instantes 0, 17 e 0, 18 s, há uma interação perturbadora da
partícula considerada com urna terceira. Esta interação caracteriza-se por uma força constante de
5,0.102 N durante.o intervalo de tempo que dura a perturbação (1,0 • 10-• s ).

F.I (NI

20

t(s)
o 0,05 0,10 0,15 0,20

a. Faça o gráfico completo (F,t) incluindo-se a força perturbadora.


b. Durante o intervalo entre 0, 17 e 0, 18 s,. compare a variação do momento da partícula
devida à interação normal com a variação de momento provocada pela perturbação. O que se
conclui? APLICAÇÕES 1
c. Construa o gráfico (p,r) da interação, sabendo-se que até 0, 1Os a partícula estava em
repouso no referencial da experiência.

168
Capítulo 6 Capítulo 6
AS FORÇAS USUAIS EM MECÂNICA DA PARTÍCULA, 171
AS FORÇAS USUAIS
EM MECÂNICA DA PARTfCULA

INTRODUÇÃO
Como vimos no capítulo precedente, conhecemos quatro intera-
ções fundamentais: a interação gravitacional, a interação eletromagnética,
a interação forte e a interação fraca.
O objetivo deste capítulo é duplo:
a. em primeiro lugar, mostraremos que nos problemas de Mecânica
que surgem a propósito de fenômenos ou situações usuais, somente as
duas primeiras interações se manifestam macroscopicamente: a interação
gravitacion·a1, responsável pelo peso dos corpos; e a interação eletro-
magnética que fornece as forças de deformações usuais, as chamadas
forças de compressão ou de tração; é responsável também pelas forças de
atrito.
b. em segundo lugar, aprenderemos a identificar as forças que atuam
sobre um corpo (no modelo de partícula), em determinadas condições
experimentais. ·
No final do capítulo, deveremos estar em condições de analisar e
resolver corretamente um problema sugerido por uma situação simples,
testando-se a seguir, experimentalmente, a solução obtida a partir do
modelo constru fdo.

6.1 INTERAÇÃO ENTRE DUAS PARTfCULAS, NO CASO EM QUE


A MASSA DE UMA DELAS É MUITO MAIOR QUE A DA
OUTRA
Praticamente todos os problemas de Engenharia Civil e de Enge-

_J Hl
em que O representa o tentro da Terra, P a pedra em e Msão as massas
nharia Mecânica são estudados e resolvidos no referencial terrestre. O respectivas da pedra e da Terra. Sendo a massa da Terra 1025 vezes
primeiro problema de Física resolvido racionalmente (por Galileu), o da maior, em ordem de grandeza, que a massa da pedra, a distância OG vale
queda dos corpos, foi também estudado e resolvido no referenci.il ter- aproximadamente a fração 10-25 do raio terrestre: o ponto G dista
restre. Continuamos hoje em dia a utilizar esse mesmo referencial, não · 10- 1ªm do centro da Terra. Isto é, fisicamente, o centro de massa do
iomente· para o estudo da queda dos corpos e do movi menta de projéteis,, sistema pedra·Terra coincide com o centro da Terra.
como também para estudar muitos outros fenômenos, incluindo-se 11a Por outro lado, existe entre as acelerações da Terra e da pedra, no
lista o movimento dos satélites artificiais. RCM, a mesma razão inversa das massas: Isso decorre da própria defini-
Nossa primeira tarefa, neste capítulo, ierá portanto a justificativa ção da massa inercial. Sendo ªr e ap as acelerações respectivas da Terra e
dessa escolha. Essà justificativa procede de um argumento muito simples:
todas as vezes que duas pardculas interagem; se a massa de uma delas for da pedra, em um instante qualquer da interação teremos:
várias ordens de grandeza maior que a massa da outra, um referencial ªT
~-=--
m (2)
ligado àquela partícula (a de maior massa) tem, no RCM das duas par- ªP M
tíeulas, uma aceleração desprezível e conseqüentemente constitui-se num
referencial praticamente inercial.* de modo que, de novo.ar" 10~ 25 ªp·
Em resumo: ·
Pedra eP

1
1
1
- L a. o centro da Terra coincide praticamente com o centro de massa do
sistema Terra·pedra.
b. o centro da Terra tem, no RCM do sistema, uma aceleração pra·
ticamente nula.
Segue-se que, em qualquer interação de um corpo "a nossa escala",
1 com a Terra, o referencial terrestre (o laboratório por exemplo) poderá
1
1 ser escolhido como referencial inercial, para o estudo de qualquer pro·
G~ blema ligado àquela interação.
1
•o ) 1.T Ou melhor, para o estudo de qualquer problema menos um.
Qual é o·problema proibido?
É o da conservação do momento linear do sistema.
Observemos o movimento da pedra: no início o seu momento é
Terra nulo; no decorre~ da queda o seu momento cresce (para baixo). No
.... entanto, o momento... da Terra medido no laboratório é e permanece nulo
pela razão que o laboratório está rigidamente ligado à Terra. De modo
Fig. 1 O caso da padra que cal, O centro de mmsa do sistema padra·Terra coincide praticamente que, no referencial terrestre, o momento linear total do sistema Terra-
com o centro O da Terra. No RCM, sendo Me m as .massas respectivas da Terra e da pedra, temos: . pedra (que se supõe isolado) não se conserva.
e.ria, = mlM. de modo que 8T <3CK a,.
PERGUNTA
Por raia~ de clareza, a figura esd gro•iramentt fora de 11e1la. O momento da Terra, medido no.laboratório, é matematicamente nulo, ou experimen-
talmente nulo?
Voltemos, como exemplo, ao caso da pedra que cai (figura 1-).
Aprendemos que o centro de massa do sistema, em qualquer instante, Qual seria a situação no RCM?
divide o segmento OP na razio inversa das massas dos dois corpos: O momento total seria conservado. Um cálculo rápido vai mos-
GO m trar-nos de que maneira.
GP" = --;.r (1) Suponhamos que em determinado instance a velocidade da pedra
seja 101 m/s. Sendo sua massa da ordem de 10° kg, seu momento na-
"" No que precede, 1up89.M o 1l1tarna das duas pardculas Isolado, da modo que o RCM • l111rclal.
173
172
quele instante é .de 10º · 101 = 101 kg.m/s. e dirigido para o centro de Se a partícula não tiver nenhuma "ligação" com a Terra*, a útii·ca
massa. força que a Terra exerce sobre a partícula é a força de atração gravita-
No mesmo instante a Terra, cuja massa é da ordem de 1025 kg, cional, que será discutida em maior profundidade no capítulo 12.
tem uma velocidade da ordem de 10-24 m/s. Seu momento é pois Veremos que essa força varia com a distância da partícula ao cen-
1025 • 10-24 = 101 kg./ms, dirigido também para o centro de massa. tro da Terra. O importante por enquanto não é saber como ela varia; o
Observamos assim que os dois momentos são iguais em niódulo, e que importa é saber que existe uma regra simples (que aprenderemos, no
diretamente opostos, dandó uma soma nula*. caso geral, no capítulo 12, e em um caso particular logo a seguir), regra
A conservação do momento no RCM é possível porque a velo- essa que permite prever qual é a força que a Terra exerce sobre determi-
cidade da Terra nesse referencial, embora insignificante (10-24 m/s), é nada partícula em determinado ponto do espaço.
multiplicada por uma massa multo grande (10 25 kg). 1. Em conseqüência, quando quisermos estudar o comportamento de
O conceito de campo gravitacional terrestre permite aplicar ime- uma partícula no referencial terrestre, a força de interação gravitacional
diatamente o que acabamos de aprender. será encontrada operacionalmente, nos nossos modelos, pela seqüência:
1

~G:J~
1
i massa + poMção força de interação
6.2 O CAMPO GRAVITACIONAL TERRESTRE da µarticula gravitacional
6.2.1 O CONCEITO DE CAMPO
Suponhamos que queremos estudar o movimento de uma partícula Essa correspo11.dê,neia unívoca, que consiste em associar uma gran-
na vizinhança da Terra (figura 2), escolhendo-se a própria Terra como deza física (no caso, \Jma força) a cada ponto do espaço mediante uma
referencial. · determinada "regra do jogo", caracteriza o conceito de campo**.
Graças ao conceito de campo, a força de interação gravitacional

,/.
,""
será facilmente representada, nos nossos modelos.
Dentro dos objetivos deste capi'tulo, comecemos pelo caso mais
simples, o da partícula na vizinhança da superfície terrestre.

6.2.2 O CAMPO TERRESTRE RESTRITO. PESO


," . O nosso enfoque, agora, é exclusivamente operacional. Isto signi-
," fica o seguinte: a experiência diária nos impõe a força de interação gravi-
,, " tacional, que chamamos comumente peso dos corpos; em conseqüência,
,," aceitaremos essa força pela sua evidência experimental, sem procurar

o • enquadrá-la numa teoria mais geral, o que será feito no capítulo 12***. O
que importa por enquanto é aprendermos a expressar simplesmente essa
força, no caso de corpos situados na proximidade da superfície terrestre.
Ora, a seção 5.6 do capítulo 5, em que definimos o conceito de
força individual de interação sobre uma partícula, resolve nosso pro-
Terra blema.
Aprendemos naquela seção que, para evidenciar a força corres-
* Um exemplo de partícula com "ligação" seria o livro pousado sobre uma superfl"cia (ligação
por contato), ou uma bola suspensa (ligação por fio). Vera seção6-4.
Fig. 2 O campo gravitacional terrestre: se estudarmos o movimento da part1"c.ula P no referen· .. Este é o nível mais elementar do conceito de campo: o ·nível puramente operacional. Aos
ciel terrestre, e Terra é representada pela força de atração gravitacional F, que ela exerce sobre a poucos, esse conceito sará enriquecido; sem perder o seu caráter operacional ele irá adquirir um
partícula. contaCado físico.
... Veremos em particular que o peso de um corpo difere conceitualmente da força de atração
•Não hã nada de novo nisto: os cãlculos foram feitos tomando-se como ponto de partida que o wavitaclonal. No entanto a diferença operacional é desprez(vel em todos os problemas que serio
momento total de um sistema isolado, no RCM, é nulo. tratados nesse curso. •

H4 175
pondente a determinada interação, basta suprimir instantaneamente
todas as outras interações em que participa a partícula, medir a acelera-
ção desta no instante da supressão e aplicar a 2.a lei de Newton. Como

l· l· 1. l·
vimos, nem sempre essa supressão em bloco de interações é "fácil, ou
mesmo possível. Felizmente, no caso que nos ocupa agora, é extrema-
mente fácil.
Com efeito, se abandonarmos um corpo no vácuo, ou se as condi- rg
ções experimentais forem controladas de modo a tornar a resistência do 777717//ll7/ll7/1777lll7/117/7///////$/////////ff//////,
ar desprezível, o corpo estará exclusivamente sujeito à interação gravi- ·f · Superf (cie
tacional terrestre. Nessas condições sabemos desde Galileu que o corpo, terrestre
qualquer que seja a sua massa, tem uma aceleração constante. Fig. 3 O campo terrestre restrito é um campo uniforme: sua intensidade g é a mesma em todos
Essa aceleração é vertical, dirigida para baixo (isto é, para a Terra) os pontos.
e vale 9,Bm/s2 em módulo.
Tradicionalmente essa aceleração, chamada aceleração da gra- Tendo-se caracterizado a ação gravitacional da Terra, na vizinhança
vidade, é representada pelo símbolo g. da superfície, pelo campo restrito, diremos que uma partícula de massa
Resumamos o que precede, especificando ao mesmo tempo os m interage com o campo.
limites de validade das nossas afirmações. Qual é a regra para se achar a força de interação, ou o peso, da
Dentro de limites espaciais razoavelmente amplos na vizinhança da partícula em um pon\O?
superfície terrestre (alguns quilômetros tanto horizontal, como vertical- Basta multiplicar a massa m da partícula pela intensidade g do
mente para cima), e desde que a resistência do ar possa ser desprezada, campo (figura 4).
todos os corpos em queda livre têm uma aceleração constante g. (No-
temos que, a partir de agora, a expressão "queda livre" se refere a um
corpo exclusivamente sujeito à interação gravitacional).
Apliquemos a 2.a lei de Newton: a força de interação gravitacional
que atua sobre o corpo é: .,
F= mg.
Essa força tem a direção e o sentido da aceleração da gravidade: é
o peso do corpo*.
Vamos agora traduzir o que precede "em linguagem de campo".
(3)

l· m

A relação (3) nos diz que a força de interação gravitacional se WJ/-////////////1&


obtém multiplicando-se a massa do corpo por uma grandeza vetorial: a Fig. 4 O peso mg da partícula obtém-se fazendo o produto da massa m da partícula pela inten-
aceleração da gravidade no lugar em que se encontra o corpo. sidade g do campo restrito.
Podemos então dizer: na vizinhança da superfície terrestre, e den-
Sendo o campo uniforme, o peso é constante dentro dos limites do
tro dos limites espaciais já especificados, a ação gravitacional da Terra é
campo restrito. Escreveremos, representando-se a força de interação indi-
caracterizada por um vetor g constante (com a direção, o sentido e o
módulo já definidos). ferentemente pelos símbolos F ou P:
Chamaremos esse vetor g de intensidade do campo terrestre res- F = P= mg (4)
trito. Sendo g constante no espaço (como aliás no tempo), o campo
terrestre restrito é dito uniforme (figura 3). Na relação acima, e sempre em "linguagem de campo", g não se
expressa mais por m/s2 , e sim por uma unidade tal que o seu produto por
quilogramas dê Newtons: g se expressa pois em Newton/quilograma
• De novo, com as restrições conceituais jâ assinaladas, (N/kg).

176 177
EXEMPLO 1: portamente em relação ao livro. A figura 6 traduz o problema, no mo~
O peso de uma partícula de massa 3,0 kg é: delo extremamente simplificado que estamos utilizando.
(3,0 kg) · (9,8 N(kg) = 29 N
Observemos para terminar o duplo aspecto operacional da gran-
deza: é a aceleração Ideal da gravidade, mas é também a intensidade do
campo gravitacional restrito. O cap ftulo 12 mostrará que essa dualidade
...o
-~
0000 12)

está ligada à identidade entre massa inercial e massa gravitacional.


Passemos agora ao estudo- das outras forças comumente encon-
tradas em situações experimentais simples.
0000 111

~~~­
6.3 FORÇAS DE DEFORMAÇÃO
6.3.1 PROBLEMA SUGERIDO POR UMA EXPERIÊNCIA DE
EQUILfBRIO

~~····
Voltemos ao exemplo simples do livro pousado sobre uma mesa
horizontal, no laboratório (figura 5).
p

N
••••
Fig. 6 Somente são representadas duas camadas de moléculas do livro, e três para a mesa. De
que maneira a mesa pode tomar conhecimento da camada (2) das moléculas do livro?

Representando-se somente as duas primeiras camadas de moléculas


~ do livro, entendemos a rigor que a mesa possa tomar conhecimento das
moléculas da primeira camada. Mas qual é o mecanismo que faz com que
Fig. 5 O livro está em equilíbrio. A força N exercida pela mesa sobre o livro é diretamente
oposta no peso P _ e
ela interaja também com a segunda, com as camadas superiores, a vários
centímetros de distância?*
A análise macroscópica do fenômeno, já feita no capítulo 5, mos-
tra que a força N exercida pela mesa sobre o livro é diretamente oposta
ao peso p do livro (mesma direção, mesmo módulo, sentidos opostos). 6.3.2 FORÇAS ENTRE MOLÉCULAS DE UM SÓLIDO
Tentemos entender como é produzida essa força N. Para tanto As forças de interação entre duas molécuias (ou dois átomos) de
construamos um modelo microscópico qualitativo. um sólido são de origem eletrostática. Elas têm geralmente um compor-
O livro e a mesa são constituídos por átomos e moléculas, mais ou tamento semelhante ao representado no gráfico da figura 7.
menos "arrumados" em camadas sucessivas, porém com uma certa dis- Na mesma figura está representado um modelo da estrutura mo-
tância entre as camadas. · lecular do sólido. As moléculas distam normalmente entre si da distân-
Já que a mesa exerce sobre o livro uma força diretamente oposta cia r0 • Nessa distância as forças resultantes de interação são nulas e as
ao peso deste, o problema é determinar de que maneira a mesa pode moléculas estão em equil fbi"io.
tomar conhecimento das _camadas superiores das moléculas do livro, de
modo a incluir também o peso dessas camadas superiores no seu com- • Ou, no caso de um edifício, a várias dezenas de metros de altura.

178 179
-- ---l
d6
o o....
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~ -----=================t-ds
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,-..!.-------------~---,------=---
. compressão ex1ensao ~

+E 3
\ ~
-ED·
----- :
3 E
°!;~

~ 0~-----1 ----------------------
Fi!l. 7 Forças de interação entre moléculas de um sólido. À direita, modelo da estrutura do só-
lido. A distância de equilíbrio entre moléculas é r0 • Quando se tenta reduzir essa distância (com- • .

pressão) as forças de interação são repulsivas. Quando s·e tenta aumentar a distância (extensão)
as forças de interação se tornam atrativas.
2 d2 -------
-o·::
:: ..
2 1-
A distância r0 é da ordem de alguns Angstrom 110- 1 0 m). ··.· ..

Tentemos aumentar a distância entre as moléculas, pondo-se o


sólido em extensão: as forças de interação começam a se manifestar, e
são atrativas; no gráfico o módulo dessas forças é representado, em fun-
o- .
---------- -------------- . I - ~---
-----rd -o·
:...: : :

ção da distância entre as moléculas, na região abaixo do eixo das distân-


cias. Observemos que essas forças atrativas tendem a fazer voltar a dis-
tância intermolecular ao seu valor de equilíbrio, r0 , e que o seu módulo
vai aumentando no início, passa por um valor máximo, tornando-se a
o (_)----------centro da Terra ---------------0 o
seguir cada vez menor à medida que a distância aumenta. gravidade "ligada"
Se pelo contrário tentamos reduzir a distância intermolecular, gravidade "desligada"
pondo-se o sólido em compressão, as forças de interàção que se manifes- Fig. 8 No campo terrestre (restrito) as distâncias intermoleculares diminuem para que as for-
tam são repulsivas; no gráfico o módulo dessas forças é representado, em ças de interação (eletrostáticas) possam equilibrar o peso das "moléculas".
função da distância entre moléculas, na região acima do. eixo das dis-
tâncias. Observemos que, de novo, essas forças tendem a fazer voltar a As "moléculas" (5) e (6) são as "moléculas" do livro.
distânciá intermolecular ao seu valor de equilíbrio r0 e que o seu módulo Suponhamos que, por um toque de mágica, possamos "desligar" a
aumenta muito rapidamente quando a distância diminui. interação gravitacional. Todas as moléculas distariam entre si de ro. ·
rs6 = r4s = r34 = ........ = ro1 = ro (*)
6.3.3 ANÁLISE MICROSCÓPICA DO EQUILfBRIO Se agora "ligamos" a gravidade, todas as moléculas vão cair (com
A figura 8 propõe mais uma vez um modelo grosseiro do conjunto
exceção da que está no centro da Terra).
Terra-mesa-1 ivro.
As "moléculas" (O) ( 1) (2) (3) (4) são as "moléculas" do conjunto • Na realidade, o r 0 das moléculas da Terra é diferente do r 0 das moléculas da mesa, e do r0 das
Terra-mesa. moléculas do livro. Mas isto é um detalhe irrelevante para nosso propbsito.

180 181
A "molécula" (6) cai de d 6 ; a "molécula" (5) cai de d 5 etc ... Temos p = -f
Essas distâncias de queda são tais que na nova configuração (parte da Passemos à "molécula" (5). Ela está submetida a seu peso p e às
direita da figura 8) um novo estado de equil1brio seja atingido. forças de interação com as "moléculas" (6) e (4). ·
Fixemos nossa atenção sobre as "moléculas" (4) (5) e (6) (figura A força interação com· a "molécula" (6) deve formar um par ação-
9). reação com a força f exercida pela "molécula" (5) sobre a "molécula"
(6). É pois - f( = p como vimos acima). A_força de interação com a
"molécula" (4) deve equilibrar o peso p e a força - f = p: é pois uma
força 2f, dirigida para cima. Observemos que 2f = - 2p.
(6) Vamos finalmente à "molécula" (4), a primeira "molécula" da
mesa. Ela está submetida:
a. ao próprio peso p;
b. à força de interação com a "motécula" (5): essa força forma um
par ação-reação com a força 2f exercida pela "molécula" (4) sobre a
2f "molécula" (5); é pois -2f (= 2p);
c. à força de interação exercida pela "molécula" (3), não represen-
tada na figura; essa última força, devendo equilibrar a soma -2f + p(=3p),
soma essa dirigida PªÍ'!il baixo, é igual à 3f (= -3p) e é dirigida para cima.
O que importa é que, por causa da rearrumação das "moléculas"
(5) oo campo gravitacional terrestre, a primeira ."molécula" da mesa ("mo-
lécula"(4)) sofre, por parte da primeira "moréCúla" do livro ("molécula"
(5)) uma força .de interação da natureza eletrostática igual ao peso de


todas as "moléculas" do livro situadas acima dela.
No modelo dá figura 9 essa força é igual a 2p, pois há somente
duas "moléculas" do livro acima da superfície da mesa.
Observamos, voltando para a figura 8, que a ação conjunta da
gravidade· e do livro tem como resultado de deformar a superfície da
mesa: ela desceu da distância d; reciprocamente, a ação conjunta da
gravidade e da mesa tem como resultado de deformar o livro: sua espes-
sura diminuiu.
(4)

'(///////~//////////,/1/1,

-2f=2p' p= - f


Fig. 9 As forças exercidas sobre as'"moléculas" (4) (5) e (6), quando o livro está em equilíbrio.

A "molécula" (6) está agora submetida a seu peso p e à força de


repulsão f. Essa força f é exercida pela "molécula" (5) sobre a "molé-
cula" (6), sendo devida à diminuição da distância inicial r 56 , na rearruma- Fig. 10 A deformação de uma mola pode ser utilizada para medir pesos, e mais geralmente,
. ção que se seguiu, ao ser "ligado" o campo gravitacional. forças.

182 183
EXEMPL04:
Tanto a deformação da mesa, como a do livro, são funções do peso
do livro: medindo-se d, por exemplo, poderíamos deduzir o valor desse Se uma bola rola numa calha, apoiada nas duas bordas, os vínculos
peso. impostos por essas bordas obrigam o movimento da bola a ser unidimen-
Mas na realidade d é muito pequeno, muito difícil de se medir. sional, enquanto ela estiver em contato com a calha (figura 13).
Se quiséssemos medir o peso do livro, escolheríamos algo que se
deforma mais facilmente que uma mesa: uma mola por exemplo (figura
10). Uma mola helicoidal calibrada pode ser utilizada para medir pesos
de corpos e, de um modo geral, forças.

6.4 vrNCULOS IMPOSTOS A UM CORPO


Impor um vínculo a um corpo significa restringir a sua liberdade
de mover-se em qualquer direção no espaço.
EXEMPLO 2:
Se colocarmos uma bola sobre uma mesa horizontal, a mesa obriga
o movimento da bola a ser bidimensional, enquanto a bola estiver em Fig. 13 Bola rolando numa ;;:.lha: os vínculos impostos pelas bordas da calha obrigam o movi-
contato com a mesa (figura 11 ). mento da bola a ser unidimensional.
Obs: Galileu realizou as suas experiências de plano inclinado utilizando bolas rolando em

®"
7/T&//11/////lll/////lll/17.17717//,7////,7;7/////////&;7/;1,
calhas deste tipo.

A presença de um vínculo traduz-se sempre pela existência de uma


força. Os únicos vínculos encontrados em Mecânica são vínculos de sus-
Fig. 11 O vínculo imposto a essa bola (presença da mesa) restringe o seu movimento a um plano. pensão, traduzindo-se por forças de tração, e vínculos de apoio, tradu-
zindo-se por forças de contacto (com ou sem atrito).
EXEMPLO 3:
Se amarrarmos uma bola na extremidade de um fio supostamente 6.5 FORÇAS DE TRAÇÃO
inextensível, o vínculo imposto pelo fio impõe ao movimento da bola de São exercidas por fios, cordas, etc. . . . lim fardo que se arrasta
processar-se sobre uma superfície esférica, enquanto o fio estiver esticado por meio de uma corda é submetido a uma força de tração. O víncul-0
(figu r.a 12). associado se traduz pelo fato de que, enquanto a tração existir, isto é,
enquanto a corda estiver esticàda, a distância entre o fardo e o agente
que o puxa permanece (macroscopicamente) constante .

• T

Fig. 12 O vínculo imposto a essa bola (presença do fio de suspensão) obriga a bola a mover-se Fig. 14 A tração exercida pelo fio de um pêndulo. Observem que não é a única força exercida
·sobre uma superfície esférica. sobre a bola. Há também o peso, não· representado aqui.

184 185
A tração exercida por um fio é a resposta do fio a uma tentativa de ~
alongá-lo, como vimos na seção 6.3.2.
A tração age na direção do fio, e é sempre atrativa. A figura 14
mostra a força de atração exercida pelo fio sobre a bola de um pêndulo.
O valor do módulo da força de tração que corresponde a um
vínculo ajusta-se automaticamente ao valor apropriado para manter esse
vínculo. 1 AT
EXEMPLO 5:
Se uma bola está suspensa por um fio a um suporte fixo no labo-
ratório, o módulo da força de tração deve ser igual ao módulo do peso: o
alongamento do fio é justo o necessário para satisfazer a essa igualdade
(figura 15).

IJ
(((•b-: '
\ , P==mg
Fig. 16 Quando a bola de um pêndulo passa pela vertical com velocidade v, a tração deve superar
o p95o, em módulo, para fornecer a força centrípeta correspondente àmassa da bola, a sua velo-
cidade, e ao comprimento do fio.

ou em módulos:
T- mg = mv 2 /r; (5)

' -
deduzimos daí:
1

1 T =- m (g + v2 Ir). (6)
Mais uma vez, o alongamento do fio é justo o necessário para que
o módulo dél tração tenha o valor acima, o que permite à bola do pên-
dulo descrever o arco de raio r com velocidade v na vizinhança imediata
Fig. 15 A força de tração exercida sobre um corpo suspenso, em equilíbrio no laboratório, tem
da vertical.
um módulo igual ao do peso.
EXEMPLO 7:
EXEMPLOS: Este exemplo se refere a um caso muito mais complexo que os
Consideremos agora o instante em que a bola de um pêndulo, de precedentes, embora o sistema estudado seja aparentemente muito sim-
massa m, passa pela vertical, e suponhamos que a bola tenha nesse ins- ples: dois corpos de massas respectivas m 1 e m 2 estão suspensos a um fiO
tante velocidade v. inextensível (macroscopicamente), que passa por cima de uma polia fixa
A figura 16 mostra as duas forças que atuam sobre a bola: o seu no laboratório (figura 17).
peso p =- mg e a tração T do fio. Esse sistema se chama tradicionalmente "máquina de Atwood".
A aceleração da bola, nessa posição, é dirigida para cima (para o Que tipo de vínculo exerce o fio?
centro do movimento) e seu módulo é v2 Ir em quer é o comprimento do Ele mantém os dois corpos a uma distância invariável um do outro,
pêndulo. medindo-se essa distância ao longo do fio*.
A 2.a lei de Newton nos diz então que o módulo da tração T deve Em conseqüência, os dois corpos têm, em cada instante, a mesma
exceder o peso mg, e que a diferença deve ser igual ao produto da massa velocidade, em módulo (uma para cima e a outra para baixo). Têm
da bola pela aceleração. também acelerações iguais em módulos e de sentidos contrários.
T-mg=ma • Ver também o problema resolvido J.R.

186 187
e a satisfazer ao mesmo tempo as condições acessórias introduzidas pelo
movimento do próprio fio e a interação com a polia.
Existe um caso particular do problema, para o qual a solução é
imediata: é o caso em que tanto a massa cfo fio como a massa da polia são
desprezíveis em comparação com as massas m 1 e m 2 , supondo-se por
outro lado que os atritos são também desprezíveis.
T1 T2
Neste caso as duas trações têm o mesmo módulo. Por quê? Porque
a força total necessária para acelerar um corpo de ma~ nula é neces-
sariamente nula pela 2.a lei de Newton.
As equações (7) em que T 1 = T2 = T, se resolvem imediatamente,
fornecendo os valores de a e T.

m,g EXERC(CIO:
1 Resolva o sistema fo~ado pelas equações (7); quais são os valores de a e n
m2g 2 Se a massa do fio não fosse desprezível, como seriam modificados qualirativamente os
valores de a e T?

Anotemos então que se um fio ligado a dois corpos tiver massa


Fig. 17 A "máquina de Atwood". desprezível, as trações que o fio exercerá sobre cada um dos dois corpos
terão sempre o mesmo módulo, desde que sejam também desprezíveis os
Apliquemos a 2.a lei de Newton (em módulos) a cada um dos dois atritos que poderiam impedir a livre movimentação do fio.
corpos, supondo-se que a aceleração a de m 2 seja dirigida para baixo:
Anotemos também que é somente o reeurso- final à experiência
T1 - in 1 g = m 1 a que poderá validar as simplificações feitas a esse respeito.
{
. m2g - T2 =m2a• 7
( ) Ao conceito de força de tração, está intimamente ligado o con-
ceito de tensão, que passamos agora a definir.
Nestas condições, T1 representa o módulo da tração exercida pelo
fio sobre o corpo de massa m 1 ; ·r2 representa o módulo da tração exer·
cida pelo fio sobre o corpo de massa m 2 •
As duas equações (7) contêm três incógnitas: T1 T2 a. 6.6 TENSÃO DE UM FIO
Falta uma equação: ela pode ser fornecida pela aplicação da 2.a lei Voltemos ao exemplo simples da bola suspensa por um fio a um
de Newton ao fio. É exatamente neste ponto que as dificuldades co· suporte fixo no laboratório (figura 1_8).
meçam. Observemos com efeito que, no decorrer do movimento, o com· Sendo Ta traçâo exercida pelo fio sobre a bola, a força que a bola
primento do ramo da esquerda diminui, enquanto que .o comprimento do. exerce sobre o fio é: F 1 =:: -T (3.a lei de Newton).
ramo da direita aumenta: o peso efetivo do fio (diferença entre os pesos
dos dois ramos) varia com o tempo. Por sua vez, o suporte exerce, sobre o fio, para cima, a força F2 •
Por outro lado o fio interage por atrito com a polia: a força de As forças F 1 e F2 mantêm o fio em estado de tensão.
interação é uma quarta incógnita, que vai requerer uma quarta equação. A tensão do fio na extremidade inferior B se mede pelo módulo da
O movimento da polia fornecerá essa equação suplementar. · força F 1 , ou seja, pelo módulo do p~so P da bola, já que F 1 = T =.P.
Não podemos insistir: por enquanto, esse problema é complexo
demais para nós. · Da mesma forma, a tensão do fio na extremidade superior A se
Podemos adiantar simplesmente que, de qualquer maneira, as tra- mede pelo módulo da força F2 • Observamos que F 2 = F 1 + p, em que p,
,ções T1 e T2 se ajustam de modo a manter o vínculo entre os dois corpos representa o peso do fio.

1J19
188
F2 Para tanto, imaginemos o fio cortado em M e representemos por F
e - F o par ação-reação formado pelas forças que cada uma das partes do
Wl////////11/; A fio de cada lado do corte M exerce sobre a outra parte.
Por definição 9 tensão do fio em M se mede pelo módulo F das
forças do par.
Anotemos o caráter não vetorial da tensão de um fio.
Anotemos também que, se a massa de um fio for desprezível, a sua
tensão é a mesma em todos os pontos.*

' B
PERGUNTA
Você estica com as duas mãos um fio de massa desprezível, exercendo em cada extre-
midade, e em sentidos contrários, forças de mesmo módulo F.
Qual é o valor da tensão do fio? F ou 2F?

Ao conceito de tensão, assoéia-se naturalmente o de tensão


máxima: o estado de\tensão máxima, em um ponto, é provocado pelas
F1 =-T forças de tração (figura 19) de módulo máximo, que um fio pode agüen-
·tar sem se partir nesse ppnto. ·
Se o fio for homogêneo, a tensão máxima é a mesma em todos os
Fig. 18 As forças F 1 e F, exercidas sobre o fio pela bola e pelo suporte mantêm o fio em estado pontos.
de tensão.
EXEMPLO 8:
De um modo geral, definamos a tensão de um fio em um ponto A tensão máxima de um fio de aço é d~ ordem de 103 N/mm 2 •
qualquer M (figura 19). Isto significa que a tração máxima que um fio de aço dê 1 mm 2 de seção
poderá exercer, é da ordem de 103 N.
1 Depois das forças de tração, estudemos as forças de apoio.
1
1
-F
6.7 FORÇAS DE CONTACTO NO CASO DE NÃO HAVER ATRITO
M
----------Mtl ------ M ENTRE AS StJPERFrCIES EM CONTACTO
O problema discutido na seção 6.3, permite afirmar que se dois
corpos, no laboratório (e conseqüentemente no campo terrestre restrito)
estão em contacto, cada um exerce sobre o outro uma força repulsiva,
' F devida à deformação por compressão de cada um dos corpos.
O problema é determinar tanto a direção, como o módulo dessa
força.
Há dois casos a considerar: existe atrito, ou não existe atrito, entre
as duas superfícies em contacto.
Comecemos pelo caso em que não há atrito.
É um caso ideal, um caso limite, em que se supõem as superfícies
em contacto perfeitamente polidas.
• De novo, desde que nada Impeça sua livre movimentação. Se por exemplo um fio de massa des-
prezível passa por uma polia cujo eixo sofre um atrito não desprezível, a tensão nos dois ramo•
Fig. 19 Definição da tensão de um fio em um ponto M. do fio deixa de ser a rr.esma.

190 191
Podemos construir modelos simples, que evidenciam as simetrias EXEMPLO 10:
das forças de interação entre as "moléculas" das duas superfícies em Voltemos agora ao caso do corpo sobre o plano inclinado.
contacto. A figura 21 mostra as forças que atuam sobre o corpo: o peso P e a
No caso simples de um corpo sobre um plano inclinado, a fig. 20 força de contacto N perpendicular ao plano.
mostra como se pode entender que as forças de contacto são perpen-
diculares às superfícies em contacto.

~ 9

Um corpo desce ao longo de um plano in-


clinado; ...
+
'~

. .. Sugere que a força resultante de V incuto
(de contato) exercida pelo plano sobre o
/
~
corpo seja normal ã superfície do corpo; ... Fig. 21 As forças que atuam sobre o corpo são o peso P e a força de contato N.
-- -
~,------
/'

... ~:....../ \\
+ O vínculo imposto obriga o corpo a mover-se sobre o plano incli-
--~\ nado.
"' 1 '
'\r __ _
~
Traduziremos analiticamente esse vínculo, escrevendo que a ace-
... Na situação ideal em que as superfícies leração do corpo é paralela ao plano, ou ainda, que é perpendicular ao
seriam perfeitamente polidas podemos ima- -N unitário y da figura 21. De que maneira essa condição pode envolver a
ginar um modelo análogo a este para a in- força N? Pela 2.a lei de Newton, que agora impomos ao nosso modelo.
teração das "moléculas" superficiais do pla- Reciprocamente a força de contato
no com uma "molécula" qualquer da su- exercida pelo corpo sobre o plano é normal A força total que age sobre o corpo (partícula) de massa m é P +N.
perfície do corpo em contato com o plano. ao plano, formando com a precedente um A 2.a lei escreve-se portanto:
A simetria da situação ... par "ação-reação".
P +N =ma (8)
Fig. 20 em que a representa a aceleração do corpo.
Traduziremos analiticamente .a condição que o vínculo impõe à
O valor do módulo dessas forças se ajusta automaticamente para aceleração, qual seja, a de ser paralela ao plano, ou ainda perpendicular a
que o vínculo imposto ao corpo seja respeitado. y multiplicando-se escalarmente a relação (8) por y, e escrevendo-se que
Dois exempíos simples ajudarão a entender isso. o produto é nulo* -
(P + N) • y= (ma) • y = O (9)
EXEMPL09:
Voltemos mais uma vez ao caso do livro pousado sobre a mesa Sendo <Ir'. o ângulo do plano inclinado com.a horizontal, a relação
(figura 5). Neste caso não sabemos se as superfícies em contacto são ou precedente conduz a:
não perfeitamente polidas; no entanto sabêmos que a força resultante do Pcos01.-N=O
contacto é necessariamente vertical e dirigida para cima, já que deve
eqyilibrar o peso do livro. É portanto perpendicular às superfícies em ou seja:
contacto. Seu módulo é igual ao módulo do peso do livro: fisicamente, a N=PcosOI.. (10)
superfície da mesa deformou-se justo o necessário para manter o vínculo
imposto ao livro, qual seja, permanecer em repouso sobre a superfície da x.
* 1) Es5a. operação projeta a relação (8) sobre o eixo orientado 21 Poderíamos também escre-
mesa. x.
ver que a aceleração é paralela ao plano, anulando-se o produto vetorial de a com o unitário ~
o que será feito no problema resolvido 4-R •

. 192
193
Mais uma vez, a deformação da superfície do plano foi justo o 6.8.2 ANÁLISE QUALITATIVA DO FENÔMENO
netessário para manter o vínculo imposto. Enquanto o tijolo permanece em repouso sobre a tábua, a força de
Passemos agora ao caso do atrito. contacto F exercida pela tábua sobre o tijolo é diretamente oposta ao
peso do tijolo (figura 23): a força F deixa pois de ser normal às super-
6.8 ATRITO SÓLIDO
6.8.1 EXPERIÊNCIA
Coloquemos um tijolo sobre uma tábua horizontal. O tijolo está
em equilíbrio. A força em contacto exercida pela tábua é diretamente
oposta ao peso do tijolo (figura 22-a).

.------
~,dd 1 (a)

~
Fig. 23 Enquanto o tijolo permanece em repouso sobre a tábua, a força de contato F é direta-
mente oposta ao peso.
(b)
fícies em contacto. Um modelo simples permite entender a razão desse
fato. '

~,,,
~ (d)

(e)

Fig. 22 O tijolo permanece em repouso até que o ângulo da tábua com a horizontal atinja o valor Fig. 24 Um modelo (qualitativo) possível.
limite "'máx·
A figura 24 reproduz um corte "microscópico" de uma pequena
Inclinemos a tábua: o tijolo permanece em repouso (figura 22-b). porção da rEgião de contacto entre tijolo e tábua. Devido às irregulari-
Aumentemos a inclinação: o tijolo continua em repouso (fi- dades das superfícies, as zonas de interação real são extremamente re-
gura 22-c) até que a inclinação atinja um valor <Y-max (figura 22-d) além du;zidas; a figura mostra duas dessas zonas. Em cada uma delas, exer-
do qual o tijolo põe-se em movimento (figura 22-e). cem-se forças como f 1 e f 2 • Com um pouco de atenção entendemos que
O fato de o tijolo não entrar em movimento assim que se inclina a no caso de um plano inclinado, como no nosso exemplo, as direções
tábua,. e por menor que seja essa inclinação, indica a presença de atrito dessas forças se distribuem aleatoriamente entre a normal ao plano e a
sólido* entre o tijolo e a tábua. paralela ao plano e são dirigidas para cima. A figura 25 explicará melhor
o que precede.
• Por opo_sição ·a atrito viscoso que se manifestaria, por exemolo, se as superfícies em contacto Voltando agora ao enfoque macroscópico, continuemos nossa aná-
fossem lubrificadas. O atrito viscoso será estudado na seção 6-9 .. lise do equilíbrio das forças P (peso) e F (força de contacto).

194 . 195
I
I J-- abaixo: é a componente de aceleração (é a componente que tende a
1
I acelerar o tijolo).
I
I Por sua vez, fy é a componente da força de contacto que, opon-
I do-se a Py, mantém o tijolo sobre o plano: é a componente de vínculo.
I
I
I Finalmente, fx traduz a presença das asperezas das superfícies em
I
I contacto: é a componente de atrito.
Enquanto o tijolo se mantém em repouso sobre a tábua, a com-
ponente de vínculo equilibra a componente de pressão e a componente
de atrito equilibra a cQmponente de aceleração, de modo que:
Fy = Py = P cos o: (11)
Fx = Px = P seno:. \
Aumentemos a inclinação da tábua: é fácil ver que a componente
de pressão diminui, mas que a componente de aceleração aumenta.
Fig. 25 As direç6es das forças de contato se distribuem aleatoriamente dentro do ângulo xOy.
O que acontece às componentes da força de contacto?
A componente de vínculo diminui em módulo, continuando a
Na figura 26 essas duas forças foram decompostas em compo- ajustar-se ao módulo da componente de pressão; mantém o tijolo vin-
nentes respectivamente paralelas e perpendiculares à tábua. (Substi- culado à tábua.
tuímos também o tijolo pelo modelo da partícula). A componente de atrito, no entanto, deve aumentar seu módulo,
se o tijolo permanece em repouso, pois deve continuar a equilibrar a
lp compoaente de aceleração.
1
1 Ora, se não há problema em diminuir o módulo da componente de
1
1 vínculo, pode haver dificuldade em aumentar o módulo da componente
1 de atrito: em última análise essa componente é também produzida por
1
1 deformações locais das superfícies das facetas que limitam as asperezas
1
1 da tábua.
Podemos entender que, ao aumentar a inclinação da tábua, chegue
+ um momento em que o módulo da componente de atrito não possa mais
crescer, seja porque se produzem rupturas locais nas zonas de interação,
seja porque ocorrem deslizamentos das facetas em contacto.

Fx
,._força de
Fig. 26 Decomposição do peso e da força de contato. atrito estãtiéo

Observamos as duas componentes do peso: Py, perpendicular ao Qmáx

plano, comprime a tábua; podemos chamar essa componente de com-


ponente de pressão. Fig. 27 No caso limite de deslizamento iminente a componente de atrito passa a chamar-se
Px paralela ao plano, tende a pôr o tijolo em movimento plano "força de atrito estático".

196

~
Esse fenômeno ocorre quando a inclinação da tábua atinge o valor Qual é, no caso presente, o ângulo que corresponde ao ângulo ªmáx. da figura 277
b. tentar estabelecer uma relação entre força de atrito e componente de vínculo.
CXmáx· A razão entre os módulos correspondentes é chamada coeficiente de atrito estático.
Para esse valor da inclinação, a componente de atrito tem o seu
µe""' Fx!Fy
módulo má:>eimo. Por convenção ela passa a chamar-se força de atrito
com as notações da figura 27 para as forças .
.estático (figura 27). · · De que parâmetros (massa do bloco, área da base, natureza dos materiais ... 1depende
Concluímos que, para que o tijolo possa permanecer em repouso, J.Le?
o módulo da componente de aceleração não deve ultrapassar o valor do
módulo da força de atrito estático. 6.8.4· ATRITO DE DESLIZAMENTO
Se essa componente aumentar, o que acontecerá se aumentarmos a Vimos no trabalho experimental precedente que o coeficiente de
inclinação da tábua além do valor Oínáx·· o tijolo entrará em movimento. atrito estático µ.e depende some11te da natureza das superfícies em
O problema que agora surge é o seguinte: contacto, numa primeira aproximação.
a. de que fatores, ou parâmetros, depende a força de atrito estático? Vimos também que se l\Umentarmos o módulo da componente de
b. há possibilidade de se prever o valor da força de atrito estático, em aceleração além do limite fixado pelo módulo da força de atrito.estático,
determinada situação experimental? o corpo põe-se em movimento.
A análise qualitativa que fizemos nesta seção mostra que uma Ora, o movimento não suprime as asperezas das superfícies, em-
teoria quantitativa do atrito sólido deve ser muito difícil, se não impos- bora tenhamos consciência que talvez possa modificá-las. De modo que
sível. De fato, não existe tal teoria. continua havendo atrito· entre as superfícies em contacto, em movimento
Só nos resta o recurso a experiência. É o que vamos fazer agora. relativo: é o chamado atrito de deslizamento.
Surge então um novo problema:
6.8.3 ATRITO ESTÁTICO Há alguma relação entre o atrito de deslizamento e o atrito está-
TRABALHO EXPERIMENTAL N'? 4 tico?
OBJETIVO:
Estudar o fenômeno de atrito estático; especificamente, determinar os parâmetros de que
De novo, somente a experiência poderá, possivelmente, fornecer a
depende a força de atrito estático. resposta.
Tentar expressar analiticamente essa força, em função daqueles parâmetros.
MODELO:
Explicitar o referencial, bem como as leis e hipóteses inclu idas no modelo. TRABALHO EXPERIMENTAL N'? 5
MÉTODO: OBJETIVO:
Um bloco de determinado material e de massa m, conhecida, repousa sobre uma super· Tentar definir um coeficiente de atrito de deslizamento, #Jú, e procurar compará-lo com
fície horizontal feita do mesmo, ou de outro material. o coeficiente de atrito estático, J.Le·
MODELO:
Explicitar o referencial, bem como as leis e hipóteses incluídas no modelo.
Sugestão: Definir, como hipótese de trabalho, uma força de atrito de deslizamento
média, por Fx =µd Fy, em que J.Ld é o coeficiente médio de atrito de deslizamento, e Fy o
m1 módulo da componente de vínculo.
MÉTODO:
A massa m 2 é agora suficiente para acelerar o bloco de massa m 1 • Depois de cair deh, a
massa m 2 é imobilizada pelo piso do laboratório; o bloco move-se ainda da distância d.
,....h-,-d
1 1
1

m,

A massa m 2 é aumentada até o movimento do bloco tomar-se iminente.


m2
a. Convencer-se de que a situação presente é análoga à situação do tijolo sobre a tábua
inclinada, descrita na seção precedente. Identificar as componentes de pressão, de aceleração, de
h
,vínculo, de atrito.

198 .199
Construir o modelo matemático correspondente. 6.9.3 FLUIDOS COM BAIXA VISCOSIDADE
Os valores dos parâmetrosm 1 , m 2 , d permitem calcular li-d.
Discutir a validade da hipótese feita a respeito da força de atrito.
O exemplo extremo é representado por um gás, geralmente o ar.
Comparar /J.d com !Je (desde que a comparação seja significativamente possível). A não ser para velocidades muito pequenas (inferiores a alguns
Hã pelo menos uma pergunta necessâria a respeito de /J.d· Qual é essa pergunta 7 centímetros por segundo), a força de atrito, geralmente chamada resis-
tência do fluido (ar), é proporcional ao quadrado da velocidade relativa.
A presença do atrito é inelutável. Pode ser útil, como também O coeficiente de proporcionalidade depende da forma do corpo
pode ser incômodo. Nos casos em que há interesse em diminuir a força
de atrito entre duas superfícies, interpõe-se um lubrificante entre elas. O em movimento em relação .ao fluido; ele é da forma~ CAp, em que C é
atrito deixa então de ser "sólido" para tornar-se "viscoso". um coeficiente adimensional de forma (esfera, cilindro, etc.... ), A é a
área da projeção do corpo sobre um plano perpendicular à velocidade
6.9 ATRITO VISCOSO relativa e pé a massa específica do fluido.
6.9.1 EVIDÊNCIA EXPERIMENTAL \
Todo objeto que tem uma velocidade em relação a um fluido sofre PERGUNTA:
da parte desse fluido uma força de resistência, dirigida em sentido con- Uma bola de isopor de raio R cai no ar. Oual é o valor de A?
trário ao da velocidade do corpo em relação ao fluido, e chamada força
de atrito viscoso. 6.9.4 VELOCIDADE LIMITE
No volume 2 deste curso, construiremos modelos que permitirão Vimos 'que, nos casos simples qüe estudamos, todas as forças de
prever com razoável precisão as leis que descrevem o comportamento atrito viscoso:
dessas forças, pelo menos em certas situações simples. a. são dirigidas em sentido contrário da velocidade do corpo em re-
Por enquanto, é aconselhável adotarmos .uma atitude puramente lação ao fluido,·
fenomenológica, semelhante à da seção .4.2.2 em relação ao peso dos b. têm um módulo proporcional ao rrládulo dessa velocidade ou ao
corpos: aceitamos a evidência experimental que mostra a existência das seu quadrado.
forças de atrito viscoso, aguardando outra oportunidade para tentar A existência de uma velocidade limite está ligada ao fato de a força
enquadrá-las numa teoria geral (Mecânica dos fluidos). de atrito visco59 crescer com a velocidade.

-
As forças de atrito viscoso são fortemente dependentes da velo-
p V
cidade do corpo em relação ao fluido*. Os exemplos da mão que colo-
camos fora de um carro em movimento, ou da mão que deslocamos
dentro de água mostram que as forças de atrito viscoso crescem, em T
1-------~
módulo, com a velocidade relativa.
A relação funcional entre o módulo da força de atrito viscoso, e a
velocidade relativa, depende da viscosidade do fluido. Fx
fy
6.9.2 FLUIDOS COM ALTA VISCOSIDADE
Para os casos que trataremos e os que se apresentam mais comu- Fig. 28 Forças aplicadas a um bloco que desliza sobre uma superfície lubrificada, arrastado por
uma força T. ·
mente, incluímos nessa categoria os óleos lubrificantes em geral e certos
outros líquidos, tais que glicerina, glicol, etc ... O caso mais simples de entender é o caso em que a resultante das
Deixando de lado os casos "patológicos", a resistência exercida outras forças aplicadas (outras que as forças de vínculo e de atrito) é
·1
pelo fluido é geralmente proporcional à velocidade relativa e sempre de 1 constante.
sentido oposto. 1
Consideremos por exemplo o caso simples da figura 28: um bloco
O coeficiente de proporcionalidade deve ser determinado expe- está sendo arraStado sobre uma superfície horizontal lubrificada.
ri mentalmente. As forças que agem sobre o corpo são:
a. a força de tração T, que se supõe constante;
* Ao contrario da força de atrito de deslizamento, razoavelmente independente da velocidade. b. o peso P.

200 . 201
c. a força de contacto com a superfície; essa força foi decomposta na
6.10.1 O MODELO
sua componente de vínculo fy e na componente de atrito viscoso fx. O
bloco está se movendo para a direita com velocidade v. Observa-se que MODELO FÍSICO MODELO MATEMÃTICO
F x tem sentido oposto ao de v.
Analisemos o que acontece: sendo a aceleração do bloco páralela à
superfície horizontal, a força de vínculo e o peso são iguais em módulos;
Partícula sobre um plano lncllnedo do
ângulo a ___. rx~
a soma dessas duas forças é sempre nula. Restam portanto Te fx.

J p~
Ora, T é por hipótese uma força constante e Fx, oposta a T, tem Hipóteses:
um módulo que vai crescendo a partir de zero (início do movimento),
proporcional mente à velocidade 1v1. Atritos desprezíveis __. -------- ---
N ------
Em conseqüência, chega necessariamente um instante em que o
/
(Isolamento da pa rtf cul
módulo de fx se torna igual ao de T: a soma T + Fx se anula. Parlmetros relevantes: \
A partir desse instante, a força total aplicada ao bloco é e per-
manece nula. A velocidade do bloco é constante. Diz-se que o bloco Massa da partr cuia __. m
Intensidade do campo grayltaclonal __. g
atingiu a velocidade limite.
O valor dessa velocidade obtém-se igualando os módulos da força posição inicial nula __. x 0 =O
velocidade inicial nula,
T e o da força Fx = -kv, em que devemos substituir a velocidade v pela __. Vº =O
velocidade limite v1• Lei Imposta ao modelo:
kv1 = T-+ v1 = T/k. 2.ª lei de Newto'n ,P +N=ma

O peso, as forças Ele contacto e de vínculo (apoio e tração) e as 6.10.2 PREVISÕES DO MODELO
forças de atrito são as forças usualmente encontradas em mecânica da Na 2.a lei de Newton:
partícula.
P + N =ma,
Ao construir-se o modelo !JUe permite a resolução teórica de um
problema proposto, é essencial, de início, explicitar todas as forças que substituamos P por mg e dividamos por m:
atuam sobre o corpo !riartfcula) e que achamos relevantes para a per-
g + - 1- N = a, (12)
gunta feita. rn
Esse trabalho preliminar, que consiste em caracterizar a interação em que a representa a aceleração da partícula.
com ó campo gravitacional, as interações de contacto, etc ... , pelas for- Devido ao vínculo imposto pelo plano, a aceleração da partícula é
ças correspondentes, é chamado: isolar o corpo* paralela ao plano, ou seja, a x,
sendo portanto perpendicular a y.
Um exemplo concreto mostrará como se deve proceder. Em conseqüência, o produto escalar da relação (12) por deve dar x
a (módulo da aceleração) no segundo membro, enquanto que o produto
escalar por y deve ser nulo. Façamos esses produtos:
6.10 VOLTA AO PROBLEMA DO PLANO INCLINADO
No capítulo 1, vimos como Galileu utilizou o plano inclinado para
"diluir a gravidade" e poder assim verificar mais facilmente a lei de queda i + - m1- N · x = a • x
dos corpos. Todavia, Galileu não tinha conseguido mostrar que a lei de
queda ao longo do plano era necessariamente semelhante à lei da queda
1ivre, desprezando-se os atritos.
Voltemos então ao problema e perguntemos: "Qual é a lei x = x
\:
ou seja:
y + - m1- N · y= a • y= O
(13)

(t) do movimento do corpo ao longo do plano inclinado?


g senC\'. + O= a
{ (14)
* Não se deve confundir com partícula isolada, no sentido de extremamente afastada de qual-
0quer outra partfcula. g COSQ'. - - 1- N
m
=o

202
'203
/
PROBLEMAS RESOLVIDOS
A primeira equação do sistema (14) fornece o valor da aceleração
da partícula:
1. R Suspende-se um objeto cuja massa é 10 kg, por meio de uma corda cuja tensão é
a= g sena. (15) constante. Observa-se que, partindo-se do repouso, o objeto atinge a altura de 1O m em 2,0 s.
Qual é a tensão da corda?
A segunda equação fornece o módulo da força de vínculo: SOLUÇÃO:
Orientando-se a trajetória positivamente para cima, a força resultante é
N = mg cosa. (16) F=T-mg
Pela expressão (15) da aceleração, o nosso modelo prevê um mo- em que T representa a tensão da corda.
vimento uniformemente acelerado, com aceleração g sena. A lei do A aceleração do corpo é
movimento seria portanto, com as condições iniciais impostas: F T
a= - - -+a= - - - g (=Cte).

x = + (g sen a) t 2 • (17)
m m
Se a distância d é percorrida no

d =- 1- a t• -+ a = 2d
i~ervalo de tempo t temos:
2 t2
6.10.3 O TESTE EXPERIMENTAL
ou
Esse teste foi feito no Trabalho Experimental n.o 1 (capítulo 1 ).
T 2d
Vimos então que, no movimento de uma bola ao longo de um plano ~ -g= ;i- -+ T=mg+ 2md.
t•
inclinado, os espaços percorridos são efetivamente proporcionais aos qua·
drados dos tempos. Todavia, naquela oportunidade, nada permitia prever A substituição numérica, comg.:::. 10 m/s•. fornece
que a aceleração do movimento tivesse que ser igual a g sen a. · T= 1,5 • 10 2 N·
Deverá se voltar agora aos dados do Trabalho Experimental n.o 1 e
verificar se a aceleração da queda da bola de aço, ao longo do plano 2. R Querendo-se suspender uma pedra de massa m até uma altura d, amarra-se a pedra a uma
corda de massa desprazível e puxa-se verticalmente pela extremidade livre.
inclinado, era ou não igual a g sen oc Sabendo-se que a tensão máxima que a corda pode agüentar sem se partir é T, qual éo
No caso de discrepância, deverá se voltar ao modelo e procurar as tempo mínimo que será gasto para suspender a pedra de d? (Na posição final, a velocidade da
falhas eventuais responsáveis pelo desacordo entre as previsões do mo- pedra deve ser nula.)
SOLUÇÃO:
delo e os dados experimentais. A aceleração máxima para cima que se pode comunicar à pedra é:
T-mg.
m
CONCLUSÃO A desaceleração máxima que a pedra pode ter é evidentemente igual a g (para baixo).
Este capítulo deu a oportunidade de se aplicar, a situações reais, os Nesse casó, a tensão da corda é nula.
conceitos e as leis desenvolvidas logicamente no decorrer dos três ca- O gráfico ~ vs t do movimento da pedra para que o tempo gasto sejam fnimo é represen-
tado na figura. O trecho OA é retilíneo e corresponde à primeira fase do movimento: movimento
pítulos anteriores. Como vimos o seu enfoque é predominantemente uniformemente acelerado com aceleração máxima (positiva) igual a:
operacional.
No capítulo seguinte voltaremos à elaboração da estrutura básica T-mg.
da Mecânica da partícula, com o conceito de energia. m
O trecho AB é também retilíneo e corresponde à segunda fase do movimento: movi-
mento uniformemente retardado com a desaceleração máxima (negativa) - g.
A área do triângulo OAB é igual a d.
As seguintes relações são imediatas:
!!..___ = T-mg
(1)
t.t, m

h
-=g (2)
t.t,

205
204
SOLUÇÃO:
V Este, problema tem como objetivo prlnciP&I mostrar como se traduzam, no modelo
A matemétlco, as condiç6as de vínculos impostos pelo sistema físico.
Aproveitaremos a oportunidada para elaborar cuidadosamente o modelo físico a o mo-
delo matemético associado.

MODELO FÍSICO MODELO MATEMÃTICO


Modelo da partículas para as três Vertical descendente orientada po-
massas suspensas. sitivamente para baixo.
lnextensibilil;lada do fio m,PO:
o:1----- ;
At, ----'""'"-Ata _ _.
j B
REFERENCIAL:
Laborat6rio
z 1 +z0 =Cte (11
Inextensibilidade do .fio m 2 0 m 3 :
1 1 - 1
HIPÔTESES: z 2 -z0 +z 3 -z0 =Cte. (2)
Poiiall dÍ massa desprazlwl. \ Da (1)e (2):
Fios inextensi\1811 a de massa d•

..
(3)
h At = 2d prezl\181. 2z 1 +z 2 +z 1 = Cte.
(4) Isto significa ql,!e o comprimento
At 1 +Ata = At. :: do fio que sustenta a masa m 1 a a.polia O,
1
por um Ilido, e o comprimento do fio que
Substitui-se em (1) e (2) o valor de h tirado de (3); calcula-se At 1 e At2 em função da At, sustenta a massas m 2 a m 1 , por outro lado, -----1---r-·r··-T
a substitui-se em (4). Obtém-se: lio constantes. 1
1
1
1
1
1
1 1 1
1 1 1
At = ( 2 Td ) li.o PARÃMETROS RELEVANTES: f
__ .,._..,_* :,z. !
;
1 Zo 1
1 1 1
g (T- mg) Masas dos corpos suspensos; inten-
sidada do climpo gravitacional. 1 Z2

3.R No sistema representado na figura, polias e fios são muito leves; as polias giram livnt- ___ .;i !: ! Z3
mente em torno da seus eixos. 1
1
Pede-se determinar a aceleração de cada uma das massas. 1
·-----.:t

m,
Derivando-18 duas v.ez111 .em ralllÇâo
ao tempo obtemos a equação ri• 11/m:ufo.
que relaciona a acelerações das três -m:
Lll lmpom ., modelo: 29,+.,+e, =O. (3)
2.ª lei de Newton
Isolamos em primeiro lugar a po-
lia O:
T

m1
o
..!..T·L +..!..T
2 .. 2
Tendo e polia, por hipótese. massa
dasprezl\181, e força total deve ser nula, qual·
quer que seja o valor da aceleração. Condul-
-18 Imediatamente que e tanlio do fio
m,PC) ·é o do_bro da tensão do fio m20_m 3
ma (ili que os atrit0s sio supost_osdasprazíveis). ·

. '2!J7
206
iYU\'els:naor. renern1 no P.m 6. atllll
n:L.1:_. __ ,,.. f' ........ 1
A aagúir, isolando-• as três mauaa: _ 4m 2 m 3 + m 1 (m 3 -3m 2 I
ª• - 4m 1 m 3 +m, lm, +m 3 1 g.
T
Está claro que essas previsões deveriam ser testadas experimentalmente, depois de subs·
tituir os valores numéricos correspondentes ao sistema particular estudado.
m, m 1 g-T= m1 a, 141
4. R No sistema representado na figura, o bioco de massa m desliza livremente ao longo da
faca superior da cunha. Por sua vez a cunha de massa M desliza livremente sobre o plano
horizontal. Ped&sedeterminar as acelerações respectivas do bloco e da cunha.
m1 1

m, t1,
-;r

m2 1
1
m 2 11-- T=m 2 a 2
2
151

t
SOLUÇÃO:
..!..r Encontraremos neste problema outro tipo de equação de vinculo: a que expressa o
2 deslizamento do bloco sobre a cunha.
1
m, m 1 11-2 T=m 1 a 1 • 161 MODELO FISICO MODELO MATEMÃTICO
REFERENCIAL:
Laboratório a: acel. do bloco no laboratório
m 1 11 HIPÓTESE:
A : acel. da cunha no laboratório
Atrito despraz lvel entre o bloco e
a cunha por um lado, entre a cunha e o
Observa-se que o conjunto de eqúações 141, (5), (61, qua traduzem a.2.a lei da Newton p'lano horizontal por outro lado. Em con' •r: acel. relativa
aplicada às três massas, rião á suficiente para resolver o problema: são três !IQUições çom quatro seqÜêl\cia as forças de contacto reduzir-sa- •r =a - A
incógnitas. A razão f laica desse fato á que essas equações seriam as mesmas~ mesmo sé 'as forças T
fo-às componentes de vlnculo, normais às
e ~ T . fossem quaisquer (por exemplo, interações das part l~las com outras part lculasl. S ne- superflcies.
Escrevendo que •11' li paralelo ao unitário
ü, ou seja:

r-
cessário "informar" o modelo matemático do fato de que assas forças precitamente nlo são
quaisquer: sã'o forças de vinculo. Soque faz a equação de vínculo (31. VÍNCULO DE CONTACTO: i
O bloco está sempre em contacto
com a face hipotenusa da cunha.
PREVISÕES DO MODELO: Podemos traduzir este fato escre·

l
O conjunto (3), (4), 151, (61 fornece, depois de eliminar To sistema:· vendo que a aceleração relativa do bloco
2a 1 + a,+ a 1 =0 em relação à cunha, • paralela àquela.
m 1 a 1 + m, ª•
-m, a 1 = (m 1 -m-, -m, lg
m, a, -m, ª• = lm 2• -m, 111 PARÂMETROS RELEVANTES
Massas do bloco e dª cunha; in·
As soluções são: tensidade do campo gravitacional.
4m 2 m 3 - m, + m3 I
(m 2
ª• = 4m 2 m 1 + m, + m 1 I 11;
(m 2
4m 2 m 1 + m, (m 2 -.3m,J
ª• = 4m m + m, (m + m I li;
2 1 2 1

208 209
As s0luções do sistema são:
(a-A)xÜ=O
iê y i
ªx = k +- cotg °' g
cotg 0< + 1
1
2
ªx+Aayo l=O
cosa sena O k cotga
A= .. g.
k + 1 k + cotg 2 a + 1
A equação de vínculo é pois: a = g
Y k + çotg2 a +1
•x sena - ay cosa + A sena = O, (11
ou ainda: A partir das expressões para •x e ay encontra-se para a aceleração do bloco no labo·
ratório:
Bx - (cotg0<) ay +A =O
a•= cotg1 0<+ (k+ 1) 2 g2.
LEI IMPOSTA AO MODELO: Isolamento do bloco:
2~ lei de Newton. (k + cotg2 0< + 1) 2

_ _}m' .

O leitor verificará que no caso ~ que k =O (cunha fixa no laboratório) o valor de 116

~r
igual g sen0< (particula sobre um'plano inclinado).
De novo, as previsões do modelo deveriam ser testadas experimentalme.nte.

5. R Um bloco de madeira, largado a partir do repouso sobre um plano inclinado de a = 450


leva determinado intervalo de tempo para percorrer a distância d ao longo do plano (figura 1 ).
Um pedaço de gelo seco (C0 2 sólido) largado a partir do repouso sobre um plano
...... ... inclinado da fJ = 3QO leva o mesmo intervalo de tempo para percorrer a mesma distância d •
Qual é o valor do coeficiente de atrito entre o bloco I! o plano da primeira experiência?
N ',,
........
Em projeção sobre Ox
Nsen0< =hlax (2)


Em projeção sobre Oy:
-N cosa + mg =may (3)

Isolamento da cunha:

SOLUÇÃO:

mg MODELO FÍSICO: MODELO MATEMi\TICO


1.a EXPEAl~NCl.A:
Em projeção sobre Ox: Modelo de partícula
-Nsen0< =-MA (4)
HIPÔTESES:
O coeficiente da atrito µ. entre o
PREVISÕES DO MODELO: bloco e o plano é CtJnstante sobre a distância
Depois de eliminar N, o conjunto de equações (1 ), (2), (3), (4), fornece o sistema: d, e conseqüentemente a força de atrito é
Bx- (cotgcvlay+A =O
constante.
{ kax -A= O lk=: ) LEI IMPOSTA AO MODELO
(cotgcv )ax + ay =g 2.a lei de Newton

2_11
210
Isolamento do bloco Numericamente acha-se:

~
mg

("'
µ. = 0,3
O teste dos modelos poderia consistir numa medida (fácil) do coeficiente de atrito.
v ',
.- -~:_
estático, (ver trabalho experimental n.º 64 pág. 198), cujo valor difere em geral pouco do. coe-
ficiente de atrit<» de deslizamento.

.......

Em projeção sobre Ox:


mg sen0< - µ.N =ma, (1)
Em projeção sobre Oy:
mgcoSO<-N=O (2)
Observa-se que a equação (1) em
que se escreveu que a aceleração a, é pa-
ralela ao plano, caracteriza também o vín·
cuia lo bloco desliza sobre o plano), além de
.traduzir a 2ª lei de Newton em projeção
sobre Ox.

2ª EXPERl~NCIA:
Modelo de partícula
HIPÓTESE:
O gelo seco produz um "colchão"
de gás carbônico sobre o qual ele desliza.
Em conseqüência, admitiremos que o atrito
é desprezível.
LEI IMPOSTA AO MODELO A aceleração é:
2ª lei de Newton a 2 =gsen/3
(resultado conhecido).

PREVISÕES DOS MODELOS


As equações (1) e (2), na 1.ª experiência, fornecem:
a,= (sen0< - µ.coSO<) g'.-
Os dois movimentos são uniformemente acelerados com velocidade inicial nula. Por
outro lado, sendo iguais os tempos necessários para percorrer a mesma distância, nas duas expe-
riências, as acelerações .devem ser iguais entre si:
(sen0< - µ.coSO<) g = g sen JI
de modo que:
µ. = sen0< - sen/j
COSO<

212 213
-.~,.-\~""'"'--"v~.- ''--.~,,,,_..,,

J
-.-----·

EXERCfCIOS
EXERCICIOSPRELIMINARES ISOLAMENTO DE CORPOS

Nos sistemas representados nas fig. 1 a 1O, isolar cada um dos corpos. Quanto ao estado 1 Mostre, no exemplo da pedra que cai, que a velocidade da Terra no.RCM é efetivamente
de movimento (acelerado ou não) ou de repouso dos.sistemas, qualquer hipótese podera ser feita,
da ordem de 10-••m/s, se a velocidade da pedra for da ordem de 10 1 m/s.
desde que coerente com os dados e os vínculos representados.
2 Mostre que m/s' e N/kg são dimensionalmente equivalentes.

3 A massa total de um foguete Saturno V, na plataforma de lançamento, é 2,9 · 1o• kg. A


força total exercida pelos cinco motores do primeiro estágio é 3,3 · 10' N. Qual é.a aceleração do
foguete ao deixar a plataforma?
2
F
4 Avalie a ordem de grandeza da força que sua mão exerce sobre'uma pedra que você
arremessa verticalmente para cima.

5 Suponha qn você pule de um muro de 2,0 m de altura. Avalie o valor da força média
que o chão exerce &-Obre seus pés, ao aterrissar.

4 6 Arrasta-se um caixote de 30 kg sobre um chão horizontal por meio de uma corda incli-
nada de 300 acima da horizontal. Qual é a força que é preciso exare!"" para manter o caixote com
3 ~~ velocidade constante, sabendo-se que o coeficiente de.atrito entre o caixote e o chão é 0,4?

~~ 7 Em relação ao exercício precedente, qual deveria ser o ângulo da corda com a horizontal
para que se possa arrastar o caixote com a menor força possível? Quanto vale o módulo dessa
força?

8 Uma bola de sinuca tem massa de 0,20 kg. Uma tacada comunica à bola uma velocidade

f " de 3,0 m/s. Sopondo-se que a força média exercida pelo taco sobre a bola tenha o valor de 60 N,
quanto tempo durou o contacto entre a bola e o taco?

5 ~
~
6 9 A velocidade de determinado objeto que se movimenta em linha reta em um meio

'
viscoso é da forma:
,;.:; t
v = v0 (1 - exp - - - )
to
Sendo m a massa do objeto, ache a expressão da força total F = Fltl que age sobre ele.

~ ·~
~
10 O disco de massa M pode deslizar sobre a mesa com· atrito desprezível. Qual deve ser o
valor da massa suspensa m para que o disco tenha um movimento circular uniforme com raio r e
7
velocidade v7 ·

"• . . "7,

~M
"1......~ 1

~=«< =~~
9 1

~ff~ m
"
215
214
11 Um caixote se encontra sobre a plataforma de um caminhão que anda a 60 km/h. O 21 A velocidade limite atingida por um paraquedista em queda livre (antes de abrir o
coeficiente de atrito é 0,40. Qual é a menor distância em que o motorista poderá parar o paraquedas) é da ordem de 1,2 • 102 km/h. Avalie o valor da resistência do ar, nessa velocidade.
caminhão sem que o caixote deslize?
22 Um fio homogêneo de comprimento li e massa m está suspenso por um suporte fixo no
12 Uma bola de massa m = 1,0 • 1o-• kg está caindo livremente. Êm determinado instante, =
laboratório. Expressar a tensão T T(x) do fio, em função da distância x ao suporte.
a velocidade da bola é 20 m/s: Determine a torÇa vertical necessária par11 que a bola pare:
a. em 2,0 s;. 23 Qual é a força com que você deve puxar para cima um barbante ao qual está presa uma
b. em 2,0 m. pedra de 1,0 kg para que a aceleração da pedra seja igual a 9,8 m/s 2 7 (~ = 9,8 m/s2 _).

13 Achar a aceleração do sistema representado na figura, supondo·se desprazíveis todos os 24 Você anda no seu automóvel a 40 km/h. Vendo um obstáculo à sua frente, voCê freia.
atritos (g"'" 1O m/s2 ). AdlTlli:a que o coeficiente de atrito dos pneus com a estrada seja 0,6. Qual é a distância percorrida
i>elo carro até parar? ·

25 Você está em pé sobre uma balança de banheiro, em um elevador. Qual é a inclinação da


balança quando o elevador:
a. sobe com velocidade constante de 2,0 m/s?
m 2 = 0,30 kg b. desce mm velocidade constante de 2,0 m/s7
e. sobre com movimento uniformemente acelerado la = 1,b m/s2 )?
d. sobe com movimento uniformemente retardado (a = -1,0 m/s2 )7
=
e. desce mm movimento uniformemente acelerado (a 1,0 m/s2 )?
f. desce mm movimento uniformemente retardado (a= -1,0 m/s2 )7

26 Em qual dos dispositivos representados será maior a aceleração da massa m 1 7


Qual é a maior aceleração que pode ser obtida em cada caso? (os atritos e as massas das
14 A cabine de um elevador de carga tem massa M. A carga transportada tem massa m. Qual roldanas são desprazíveis)
é a aceleração máxima. do elevador, sabendo-se que a tensãc:i máxima permitida para o cabo de
suspendo é seis vezes o peso total do elevador?

15 O passageiro de um aviio pendurou seu guarda-chuva ao encosto da poltrona da frente.


Q.iando o avião. está decolando, observa que o guarda-chuva estâ deslocado para trás em relação à
vertical e avalia em 300 o ângulo do desvio. Qual é, aproxi1111Ídamente, a aceleraçio do aviio?
m2 m2
16 O P&ssageiro de um trem. ao almoçar no vagão-restaurante, avalia em 0,3 o coeficiente de a b e m2
atrito do prato com a mesa. O trem pára numa estação, e durante o período da parada, o prato
não deslizou sobre a mesa. O que se pode dizer do valor da aceleração do trem, ~ parar?

17 Uma moeda largada sobre um plano inclinado de 300, com velocidade Inicial nula, 27 No p4ndulo cônico (ver figura) a bola do pêndulo descreve uma circunferência horizon-
percorre 1,0 m sobre o plano antes de atingir um plano horizontal feito do mesmo material que o tal com movimento circular uniforme. Expresse a velocidade angular w em função deg, ll e 9. A
plano i ncll nado. que condição deve satisfazer w para que o sistema possa realmente se comportar como pêndulo
- • A moecia percorre 0,50 m sobre o plano horizontal, até parar. cônico?
Q.ial é o coeficiente de atrito entre a moeda e os planos? (g = 9,8 m/s 2 ).

18 ·um trem percorre urna curva horizontal de 3,0 • 102 m de raio. A mala de um passageiro
se encontra sobre o chão de um vagão. com um coeficiente de atrito de 0,30. Qual 6 a velocidade•
máxima que tinha· o trem ao fazer a curva, sabendo-se que a mala não deslizou sobre o chio do
vagão?

19 O maquinista de um trem começa sempre a frear a coll)posição 5,0 • 102 m antes da


estação em que vai parar.
Antes de ontem a massa da composição era 5,0 • 10 5 kg e andava a 60 km/h.
Ontem a massa era 1,0 • 106 kg e o trem andava a 30 km/h. Como se comparam as forças
médias exercidas pelos trilhos sobre o· trem nos dois casos?

20 Avalie a tensão da corda à qual você amarrou uma pedra, e que você faz girar por cima de
sua cabeça.

216 217
·~
QUESTÕES CONCEITUAIS

1 Mesmo se fosse possível colocar-se no (RCM) do sistema Terra·pedra, você acha que seria
8
possível se verificar experimentalmente que o momento linear total do sistema é nulo, nesse '//í//////////////////////////////////llff/ll/l/l//l/l//l/1.
referencial?

2 No. capítulo 3, dissemos que a Terra constitu la um referencial razoavelmente inercial F


por ser muito pequena a sua aceleraÇão em relação ao referencial Sol-estrelas. Na seção 6. 1 deste

"""'"""~-------~-
capítulo, dissemos que o referencial terrestre pode ser escolhido para estudar o movimento dé
uma partícula que interage com a Terra, desde que ignoremos os problemas relativos à conser-
vação do momento linear. ------
Nx

Estabeleça claramente e detalhadamente as analogias a as diferenças entre as duas afir· Ny


mações sagu.intes: · ·

a.a Terra pode ser tomada como referencial inercial para estudarmos a interação de duas
partlculas (por exemplo dois carrinhos sobre um trilho da ar); 1 O Numa prova, a seguinte pergunta foi proposta:
"um automóvel descreva uma pista circular horizontal com velocidada (escalar) cons-
tante, no sentido da seta (figura 1 ). O automóvel sofre· a ação da resistência do ar. Qual é a
b. a Terra pode ser tomada como referencial inercial para estudarmos a interação de uma resultante de todas as outras forças? "
partícula com a Terra (por exemplo movimentá de um projétil). Entre todas as opções propostas, a mais "votada" foi a da figura 2.
Critique a. !15C<>lha. Se estiver errada, proponha a solução que você ~~har certa.
3 A partir do modelo e do gráfico da figura 7, explique como se consegue quebrar um
sólido.

4 No exemplo 2 da seção 6.4.dissemos: "se amarrarmos uma bola na extremidade de um


fio que se supõe inextensível ... ". Comente criticamente essa suposta inextenSibilidade.

5 Se você atrita com a mão uma bola de borracha (daquelas coloridas que sobem quando se
largam), você consegua fazê-la "cantar". J
l;xplique (qualitativamente) o que está acontecendo.
0
6 Comente a afirmação seguinte: "sem atrito, a vida seria impos~ível".

7 Uma esfera de aço cai dentro de um líquido viscoso (61eo lubrificante por exemplo), com
velocidade inicial nula.

'
Qual. é o gráfico v \IS t do movimento (Somente se pedem os aspectos qualitativos do
gráfico).

8 Uma esfera de aço é projetada para baixo, dentro de um líquido viscoso (61eo lubri-
ficante por exemplo), com uma velocidade inicial maior que a velocidade limite de queda da
0
esfera no 1íquido.
Qual é o gráfico v vs t do movimento (Somente se pedem os aspectos qualitativos do
gráfico).
11 Na mesma prova, propunha-se determinar as forças que agem sobre o tijolo do meio de
uma pilha de três tijolos, quando se exerce urna força de tração sobre aquele tijolo intermediário;
9 Para empurrar um caixote sobre um piso horizontal, exerce-se uma força F, como mostra sabe-se que o conjunto se desloca em bloco para a direita, com velocidade constante (figura 1 ).
a figura 1. Na hora de identificar as forças que agem sobre o caixote, um aluno propôs a solução Uma das soluções propostas foi a da figura 2.
da figura 2. Critique essa solução. Critique, corrigindo-a se for necessário.

218 219
T

0
2

T
15 ·o.iim:l8 cair duas cail(as da fósforos empilhadas uma sobre a outra. Supondo-se deipre-
zlvel a rasistêncie do ar, qual é o valor da_ força de contacto entre as duas caixas?

16 Arrastando uma .cadeira sobre um chio horizontal por ma.ia de uma força constante,
® você observa que a velocidada da cadeira é constante. Comentando situaç6as análogas, Aristóteles
dizia que uma força constante aplicada a um corpo produz uma velocidada constante.
Comenta criticamente.
12 o objetei representado nas duas figuras é um caixote Sobra um piso horizontal.
Quais slo as perguntas que você acharia relevantas ou intar-ntas, a respeito das situa-
ç681 experimentais asquamatizadas nas figuras? 17 Queima-se o fio de suspensão do sistema. Qual é, imtNliatamente depois da queimar o fio,
Falta uma, ou várias dessas perguntas, resolva o problema, isto é, responda às perguntas. a acelaraçio da ~a uma das bolas?
A determinação ou a avaliação das grandezas r.alevantas é da sue r11ponsabilidada.
0;

13 ,Situaçio experimental propoita: um caixote 18 encontra sobrit e plataforma da um


caminhão. O caminhão arranca (a estrada é reta a horizontal).
apanhando-a de nOllO na descida.
'm
18 Você lançm verticalmente para cima uma pedra que 18 ancontralia na palma da sua iM"o,

Faça paio menos uma pergunta relevanta. Rasponda e ma pergunta. Você deverá avaliar Construa um gnlfico qualitativo da força total que aga sobre a pedra, em funçio cio tam-
os valoras dos parimatros rel8"8ntas. po, entre o instante em que 18 inicia o movimento da mio, na fase da lançamento, atê o instante
em que a pedra ~ imobilizou da·now na sua mio.
(Força para cima positiva; para baixo '!911ativa.)

1Ei voei est11 em pé sabre uma balança de mola !tipo balança de banheirol segurando uma
mala por cima da sua cabeça (fig. 11.
Voei estica os braços, suspendendo a mlla o mais que midar, mantendo-a imobilizada
nessa posição (fig. 21.
· Construa um grdfico qualitativo de leitura da balança em função do tempo •

220
14 Comenta criticamente a afirmaçio seguinte:
"se nio houver !!trito entra o bloco 111 e a m111, a acelaraçio do conjunto ~ igual a g". .. I Fig. 2

221
20 Suponha que a Lua tivesse uma atmosfera semelhante à nossa e que uma colônia da Ter- 24 Voêê está andando normalmente sobre um piso horizontal. Na fig. (a), o pé da ·perna da
ra tenha se estabelecido lá. O valor do cal"(lpo gravitacional lunar 6 somente 1 /6 do valor do campo frente está entrando em contacto com solo. 'Alguns instantes mais tarde, a mesma perna terá
terrestre. passado a ser a perna de trás e a fig. (b) representa o pé no instante em que ele vai perder o
Supunha tamb6m que voei faz parte da primeira leva de "colonizadores". contacto com o· solo..Represente as forças que o chão eitá exercendo sobre o pé em ambos os
Sià citados a 19guir alguns fatoi, incidentes, situações da vida diária. Comente as posslveísseine- casos.
lhanças ou diferenças que voei riotaria e respeito desses fatos, fenômenos • • • na Terra e11a Lue:
a. Voei se pesa todos os dias na balança do benliei~o.
b •.Voce joga futebol.
c. Voei esbarra num caixote de areia.
d. Voei quer tirar o éaixote do caminho, pera não esbarrar nele.
e. Numa aula de Física, você quer comunicar a um carrinho sobre um trilho de ar uma ace-
leração de .2~ rri/s• plixarido-o por uma inola.
finalmente, um antropólogo faz algumas previsões de como evoluirá o "homem lunar",
prevendo as modificações que poderiam ser notadas dentro de dez ou vinte gerações.
25 Dois "tifolos" de madeira estão sobre uma mesa· horizontal. Você puxa o conjunto pelo
21 Três "tijolos" de madeira, de mesma massa, estão empilhados sobre uma masa horizontal ~istemefio-polia; como mostra a figura. Qual dos dojJl.blocos entra.primeiro em movimento?

.
de madeira. ·
Pode-se puxar qualquer um dos três blocos, horizontalmente, com um fio amarrado a um
gancho. vista de cima

~
wa---()
Suponha então que se exerce uma tração crescente sobre um bloco, até que algo acon-
teçà (isto é, até que o sistema deixe de estar em equil !brio astático). O que vai acontecer? Os três
blocos vão entrar em movimento juntos; ou somente dois; ou somente um? Estude os três casos
eosslveis. .

~~. El--+
W/ff///////7////7/////~
vista de lado

26 Um çonhecido seu está tentando empurrar um caixote sobre um piso razoavelmente liso.
Ele empurra horizontalmente e·vocit observa que começa a deslizar (para trás) antes do caixote
começar a andar (para frente>. Qual é o conselho que você daria para que consiga movimentar o
caixote (en:1JUrrando-o) sem que ele próprio deslize?
22 A figura representa uma mesa e uma toalha com um prato por cima. Daiido-se entio uin
puxão violento à toalha, é possível tirá-la de baixo do prato sem que este caia.
Ouio violento deve ser o puxio?

XI Uma bola de pingue-porlgue é lançada para cima com velocidade de algumas dezenas de
23 Coloque um maço de cigarros, ou uma caixa de fósforos, no meio de uma folha de papel metros por Segundo. Nessas circunstâncias, a resistência do ar é rl!levante para o movimento da
(pelo menos tamanho ofício) situada sobre uma mesa horizontal. Dê um puxio rápido e curto à bola?
folha de papel. · Construa um gráfico velocidad~tempo do movimento. Embora se peça um gráfico qua·
Observe e descreva em detalhes o que acontece ao maço de cigarros. Explique. litatiilO, você deverá assinalar os aspectos quantitBtivos possíveis.

222 223
28 Na posição indicada (plataforma e corpo. A com velocidade v 0 I o bloco suspenso cai PROBLEMAS:
sabre a plataforma. O atrito entre a plataforma e a mesa é desprezível.
Construa o gráfico velocidade-tempo da plataforma, a partir do instante em que o bloc;o
cai, nos três casos seguintes:
a. O atrito entre o bloco e a plataforma é desprez fvel.
b. O atrito entre o bloco e a plataforma é relevante porém insuficiente para que o bloco A massa de um trem é 4,0 • 102 toneladas. As rodas motoras sustentam uma fração de
chegue a imo.bilizar·se em relação a plataforma. · massa da locomotiva equivalente a 30 toneladas e o coeficiente de atrito com os trilhos é 0,20.
c. O atrito entre o bloco e a plataforma é suficiente para que o bloco se imobilize em O trem parte do repouso sobre um trecho horizontal. ·
relação a plataforma. · Mostre que, 1,0 min. depois da partida, a velocidade do trem será certamente inferior a
um valor que se pede determinar. (g ~ 10 m/s 2 ).
Resposta: v < 9,0 m/s.

-- ~
2 Um automóvel parte do.repouso, debreado, sobre uma estrada retil fnea em descida, com
v •. uma inclinação de 1,0_%. ·
A velocidade limite atingida pelo carro é de 72 km/h. Supondo-se que a resistência ao
m movimento é proporcional ao quadrado da velocidade, qual foi a distância percorrida pelo carro
· até a sua velocidade atingir 36 km/h? (g ~ 1 O m/s 2 ).
Resposta: 5,8 • 102 m.

3 .Um bloco de madeira é lançado para cima, com velocidad& de 10 m/s, ao longo de um
m plano inclinado a 450.
O coeficiente de atrito entre o bloco e o plano é 0,40.
A Com que velocidade'o bloco volta ao ponto de lançamento?
Resposta: 6,5 m/s.

4 TRABALHO EXPÉRIMENTAL
Procure uma mola espiral de boa qualidade e calibre-a, isto é, meça o alonf!Bmen~o da
mola em função do peso suspenso, levando-se para um gráfico os resultados obtidos. O melhor
procedimento e><perimental consiste em ir aumentando gradativamente o peso suspenso, ano·
tendo-se os alongamentos correspondentes, até um mbimo que você mesmo deverá escolher;
diminuir a seguir o .P8SO suspenso de modo a passar pelos mesmos valores, mas agora em sentido
contrário e anotando-se sempre os alongamentos correspondentes.
Interprete o gráfico obtido.
Coniente criticamente os pontos seguintes:
a. é possível que o gráfico "de ida" (isto é, aumentando-se o peso) difira do gráfico "de
volta" listo é, diminuindo-se o peso). Qual é o significado disso?
b. A mola tem massa própria. Qual é a influência dessa massa quando se utiliza a mola
calibrada para medir outras forças, que não sejam necessariàmente pesos susP.nsos?

5 Para velocidades malores que alguns cm/s, a resistê.ncia do ar ao movimento de uma.


esfera tem módulo igual a (1 /21 C ir r' p v' em que o coeficiente C vale 0,45 para as velocidades
que consideraremos aqui;. r é o raio da esfera, p a massa especifica do âr (1,3 kg/m 3 ) e v a
velocidade da esfera em relação ao ar. ·
a. Avalie a velocidade limite de queda de uma bola de pinguit-pongue.
b. Avalie a velocidade limite de quilda de uma gota de chuva.
Explicita as suas hipóteses de trabalho e as aproximações feitas, se for o caso.
Resposta: a. 3.101 m/s; b. ·10 1 m/s

6 Um bloco de madeira está em equil fbrio sobre uina mesa horizontal, ligado a quatro
elásticos qué exercem sobre ele as forças mostradas na figura.
a. Qual é a componente de atrito estático exercida pela mesa sobre o bloco 7
b. O elástico da esquerda se parte. Você acha provável que o bloco entre em movimento?

224 225
Finalmente, sugerimos algumas perguntas que você poderá achar relevantes, convi-'
dando-o a achar outras.
a. Se os freios do carro da frente são piores que os seus, a sua tabela é alterada?
b. A tabela que você construiu confirma a regra empírica enunciada no início (um com-
primento de carro para cada 15 km/h)?
5,0 N
11 Neste problema, pede-se que você analise dados experimentais fornecidos.
Você está seritado numa sala fechada que gira em torno de um eixo vertical.
3,0 N Na sua frente está uma "mesa de. ar" horizontal sobre a qual flutua um disco de massa
1,0 kg, com atrito desprezível.
Você realiza três experiências com o disco.
a. Colocando-se ;:i disco em A, você deve exercer uma força de 0,50 N dirigida para B, para
mantê-lo em repouso em relação à mesa. (A força é medida por uma mola calibrada amarrada ao
Resposta: a. 7,1 Na 45° da força de 3,0 N, entra essa força e a de 5,0 N; .disco).
b. a componente de atrito conserva o mesmo mbdulo, mudando a direção. b. Colocando-se o disco em B, você deve exercer uma força de 0,25 N,dirigida para A,.para
mantê-lo em rep~uso em relação à mesa.
c. Você coloca o disco a 40 cm de A, entre A e 8, comunicando-! he a seguir uma pequena
7 Lê-se num folheto destinado a aconselhar os motoristas: velocidade inicial em direção a A: você observa que o disco, em vez de se dirigir para A, desvia-se
"Nenhum veículo pára instantaneamente. Se um carro anda, por exemplo, a 30 m/s, ele' para a direita.
necessita pelo menos de 80 m para parar. Dessês, os primeiros 20 m correspondem ao "tempo de Quais sio as informações que você pode deduzir dos dados acima, quanto ao movimento
decisão". Os restantes 60 m representam a distância efetiva da freada". de rotação da sala?
Quais são as informações que você pode extrair do trecho acima? Explicite claramente
as hipóteses, simplificações, etc .•. que você faz para chegar às suas conclusões.

8 Diz·se muitas vezes gue "a trajetória de uma bola de golfe é determinada muito mais pela
resistência do ar que pela gravidade".
Discuta essa afirmação.
Alguns dados:
B
a. a massa de uma bola de golfe é de 4Éi g; A
·---- o' SOm. ...
b. medidas efetuadas por meio de radar mostraram que, em vôo praticamente horizontal, a
velocidade de uma bola de golfe decresce de 40 m/s pará 20 m/s em 3,0 s. .

9 Um pedestre foi atropelado por um carro que deslizou 50 m, rodas bloqueadas, ao longo
de uma rampa de 5% (e para baixo). A velocidade limite, na zona, é de 40 km/h. O motorista
Resposta: centro de rotação a 40 cm de A; w = .1.1 rad/s; rota?o positiva.
afirma que ele não estava andando acima do limite.
Você é chamado pela polícia rodoviária para ajudar a decidir se o motorista tem ou não 12 Avalie a força média exercida por metro quadrado de um telhado horizontal, durante
tem culpa. uma violenta pa~cada, de verão. Qual é a influência do "fator inclinação" no caso do telhado ser
O que você vai fazer? inclinado?
Observação: Como seria modificada a .resposta precedente se a chuva fosse uma chuva de granizo?
Numa rampa de 5% desce-se de ·5,0 m verticalmente, ao andar 100 m ao ao longo da Avalie (em ordem de grandeza) a força retardadora que essa chuva exerceria sobre um
rampa. carro em movimento.

1 O Uma das regras empíricas para se garantir uma certa segurança nas estradas, ií que, ao 13 Você CtJla as extremidades de um palito nos centros de duas moedas de 20 centavos com
andar-se de automóvel, deve-se conservar uma distância do carro que anda à frente igual a um um pouco de araldite. A seguir, você dispõe o conjunto, radialmente, sobre o prato de um
comprimento de carro para.cada 15 km/h de velocidade. (Se, por exemplo, se anda a 60 km/h, a toca-disoos, de modo a que a distância do centro à moeda mais próxima seja igual ao com-
distância mínima que se deve conservar é de quatro comprimentos d!l càrro.) primento do palito (7,0 cm). O coeficiente de atrito entre as moedas e o prato é igual a 0,5.
'Avalie a desaceleração máxima que se pode impor a um carro, freando-o mas conser- Qual é a velocidade angular máxima que se pode dar ao prato para que o sistema não
vando absoluto controle sobre o carro. deslize?
Avalie o seu "tempo de decisão", isto é, o intervalo de tempo que separa o instante em, 1 1
·que você vê acenderem-se as lânternas traseiras do carro que vai à frente, indicando que o !"*---- 7,0 cm----~
.motorista freoú e o instante em qÚe você piSa no freio do seu carro. ,. • 1
A seguir, utilize as avaliações feitas para construir uma tabela indicando a distância:
mínima que você deve observar, em função da velocidade. t.r/.//.////À VZZ/J7777J

226 227
Qual é o coeficiente de atrito mínimo que evitará a derrapagem?
1 (v2 -v 0 2 l sena cosa

t+~om
Resposta:
~ cos 2 a + v sen 2 a

18 Num carrossel de parque de diversões (ver dimensões relevantes na figura), qual é o valor
l ~,Ocm do ângulo a para uma freqüência de - 1-
6
RPS7

3,0m

Resposta: 'V 1 RPS

14 Você lança uma bola ve.rticalmente para cima com uma velocidade suficiente para que a
resistência do ar seja relevante. Essa resistência é proporcional ao quadrado da velocidade da bola.
Estude CO!"O varia â força total exercida sobre a bola em função da posição (altura) entre o
lançamento e a volta aó ponto de.partida.

15 Quando um peão quer segurar um novilho que laçou, enrola o laço em torno de um
mourão; basta agora uma força pequena para segurar o animal. Há inúmeros exemplos análogos ~
·que você conhece. O problema é: supondo-se conhecido o coeficiente de atritoµ entre uma corda
.e um cilindro fixo e sendo a o arco de contacto entre a corda e o cilindro, determine a menor' Resposta: a ·~ 25º
força f que, aplicada nuína extremidade da corda, equilibra a força P exercida na outra extre-
midade.
19 Dois chumbos de pesca de mesma massa são amarrados a um fio de náilon e faz-se girar o
Resposta: f = F exp (-µa)
conjunto err1 torno do eixo vertical passando por
O (OA = AB =li); de maneira que OA e AB
permaneçam no mesmo plano vertical. Seja w a freqüência angular de rotação. Dois modos são.
possíveis: (a) e (b) nas figuras.
16 Uma Corrente fleic fvel de comprimento li é largada na posição representada na figura. O
coefici11nte de atrito entre a corrente e a mesa horizontal é µ. Qual é a velocidade ela corrente
quando o último elo sai da mesa? (Sugestã'o: "estique" a corrente horizontalmente e aplique nas
extremidades forças varidveis com a posiçã'o. Quais são essas forças?)
ª1
li-d 1
1
1
,-
----1-----,
1 1
d , ____ J__.,._,,
PI I

.,---
1
_,- ---1---------
1
1
',
':
,_J __\ B

Resposta: v2 = (g/11)_((1-µ)2 + (1+µ)dllll-d) ªl' 11


,/ •' 1
'----1-"'
,

',, ,.--- -- 1
--------1--- 1
17 A curva de uma pista de corridas é compensada (ânguio a com a horizontal) de modo 1 1
que a derrapagem lateral seja impossível para uma certa velocidade v0 • Um carro entra ria curva. b
"com velo.cidade v > v0 • a

228 229
a. mostre que 22 Lança-se uma pedra de massa m verticalmente para cima, com velocidade 110 • A resis·
tência do ar é proporcional ao quadrado da velocidade, sendo da forma f = -kv 2 •
tga =k (sena+ +_seni;l)
Com que velocidade a pedra retorna ao ponto de lançamento?
Resposta: v 0 (1 +kv 0 2 /mg) -%
t~ = k (sena+ senjJ),

w' Q :.
em que k =-.--·· 23 As massas m 1 = 0,20 kg e m, = 0,10 kg estão ligadas entre si por uma haste rígida de
g
massa muito pequena .. Sendo 0,35 e 0,25 respectivamente os valores dos coeficientes de atrito das
b. Estude o caso em que os ângulos a e i:i são pequenos. Mostre que nesse caso, somente o
duas massas com ·o plano, qual é valor da aceleração do c<:mjunto e o valor da tensão (ou da
dois valores de w são possíveis. Faça a experiência e compare os valores experimentais de w com compressão) da haste?' (g = 9,8 m/s2 ).
os valores previstos pelo seu modelo. Resposta: 2,2 m/s 2 ; cÓmpressão de 5,7 • 10-2 N
20 Um brinquedo consiste em uma haste vertical AB (AB =li) nas extremidades da qual está
,amarrada uma corda fina de eomprimento 2Q. Uma bola furada pode deslizar livremente ao longo
da corda. Segurando-se a haste pelo cabo, pode-se imprimir um movimento de rotação rápidoº ao
'fio, cujas extremidades rodam li'(remente em A e B.
A bola descreve então uma circunferência em um plano horizontal.
Determina a distância y entre esse plano e a extremidade superior da haste.

<: . .--------
y i l

24 No si5tema representado na figura, a polia tem massa desprazível.


', ___ _
.... 1
1

A partir da posição indicada (massas em repouso sobre o plano horizontal; fio esticado 1
exerce-se a força constante vertical F sobre a polia. Quais são as acelerações das massas m 1 e
m, 7 (m 1 < m,).

cabo
Resposta:
1 4 g 8g
y=--Q+
w2
(w2 >-l
2 3 32
21 No sistema representado na figura, a polia tem massa desprezível, pode girar livremente
em torno de seu eixo, e está sendo acelerada para cima com aceleração a. Sendo
71 1 = 1,0 • ·10-• kgem 2 = 2,0. 10-i kg, observa-seque a massam 1 permanece parada no labo-
ratório. Qual é o valor da aceleração a? (g = 9,8 m/s2 )
m. m,

Resposta:
a. F < 2 m 1 g: aceleração nula.
b. .2m 1 g <F < 2m 2 g: a, = (F/2 m, )-g; a 2 =O:
c. F > 2m 2 g; a 1 = (F/2m 1 )-g; a 2 .. (F/2m 2 )-g

m, 25 Supondo-se que;, pistão P, de massa m, se move livremente dentro do cilindro (C) qual é
a componente horizontal (ao io·ngo de 08) da força que a biela AB, de comprimento '11, exerce
m, sobre o pistão? A manivela OA, de raio r, gira com ve.locidade angular constante w em torno do
Resposta: 4,9 m/s' eixo fixo O.

230 231
--....... y
(c)

-õ+------~
1 ,
º
---
X

Qual é a expressão dessa força se _r_ << 17


S!
Resposta: x =r 0 exp ( ~ )
Resposta: se r/2 << 1, Fx ""-mw 2 rcoswt V

29 Sendo desprezíveis os atritos entre o bloco (massa 1,0 kg) e a cunha (massa 2,0 kg) por
um lado, e entre a cunha e o plano inclinado por outro lado, qual é a aceleração do bloco?
26· Um recipiente tem forma de um parabolóide de revolução, com eixo vertical. Sua seção (g=9,8 m/s2 ).
meridiana, em relação ao eixo (Oy) e a uma tangente horizontal no fundo do parabolóide (Oxl
tem equação y = 0,82 x• (m). Com ·que velocidade anqular deve o reéipiente girar em torno
de seu eixo para que uma bolinha de aço permaneça em .equil lbrio em relação ao recipiente em
qualquer ponto de sua superfície interna? (g = 9,8 m/s'l.·
Resposta: 4,0 rad/s.

~
'27 O sistema de controle de uma máquina consiste no dispositivo representado na figura.
Um bloco pequeno desliza com atrito desprezível ao longo da face hipotenusa de uma
, cunha mantida fixa sobre um plano horizontal. Assim que o bloco se imobiliza ao atingir a
lingüeta de retenção L, comunica-se à cunha uma aceleração horizontal a que faz com que o
bloco suba ·agora ao longo da mesma face e atinja o topo no mesmo intervalo de tempo que ele
levou para .descer. Qual é o valor de a?.

45°'

Resposta: 5,9 m/s 2 , vertical

30 Este prol>l9ma estuda novamente a situação experimental da questão conceituai n. 0 28.


Sejaµ o coeficiente de atrito entre o bloco (massa m 1 ) e a plataforma (massa m 2 ). O
a atrito entre a plataforma e a mesa é desprezível.

'/

Resposta: 2g tga

m,
28 Com os eixos indicados na figura, qual deveria ser o perfil de uma pista circular de
corridas de bicicletas para que não haja risco de derrapagem quando os ciclistas estão girando com
determinada velocidade v?

232
233
a. qual é a condição para que, logo após o bloco cair sobre a plataforma, o movimento
desta seja desacelerado?
b. Supondo-se satisfeita esta condição, a velocidade da plataforma pode chegar a anular-se? 34 O coeficiente de atrito entre a cunha e o bloco de massa m éµ.. Qual é o valor da maior
Resposta: .a. _m 3 <um,: b. nãci aceleração horizontal a que se deveria comunicar à cunha para que o bloco esteja na iminência de
entrar em movimento ao longo da face da cunha, para cima? Dados numéricos: a·= 30°; µ 0,60;=
31 No sistema representado na figura, m, = 2,0 kg; m 2 = 0,20 kg; m, = 1,0 kg. =
.lg 9,8 m/s 2 ).
A:; polias têm massas desprezíveis e giram livremente ·em torno dos seus eixos. (Resposta: 18 m/s 2 ).
Oual das três massas tem aceleração (para baixo) maior que g7
Qual é o valor da aceleração da massa m 3 ? (g = 9,8 m/s2 ).

m2, 35 As duas, experiências representadas nas figuras foram realizadas com os mesmos blocos
(1) e (2). e a mesma mesa horizontal. m, = 1,2 kg; m 2 = 2,4 kg. Na experiência (a), o sistema
estava na iminência de entrar em movimento com a massa suspensa m 3 = 1,2 kg. Na experiência
(b). o sistema estava na iminência de entrar em movimento com a massa suspensa m 4 = 1,5 kg.
Qual é o valor do coeficiente de atrito entre os blocos (1) e (2)? Entre o bloco (2) e a
Resposta: a. m_, ; b. 5, 7 m/s2 mesa?

32 Um trem de 5,0. 102 toneladas anda com velocidade constante sobre trilhos horizon-
tais e retilíneos.
Em dado momento, os três últimos vagões, cuja massa total é 1,0 • 102 toneladas, (a)
desamarram-se do trem por ruptura de um acoplamento.
O maquinista percebe que os vagões se soltaram e corta o vapor, mas não freia (a partir
desse instante, portanto-, a locomotiva não exerce mais ·tração sobre o trem). Entre o instante em
que os vagões se soltaram e o instante em que o vapor· foi cortado, o trem andou 2,4 • 102 m.
A que distância do trem se encontrarão os vagões soltos, quando o trem parar?
Resposta: 3,0 • 10 2 m.
3

33 Seguem-5(1 alguns dados relativos ao Boeing 707:


a. massa na decolagem: 1, 1 • 10 5 kg; (b)
b. empuxo de cada uma das quatro turbinas: 7,7 • 104 N;
c. velocidade de decolagem: 72 m/s (= 2,6 • 102 km/h).
A partir desses dados, avalie o tempo de pista e a distância necessária para que o avião
decole.
(O tempo medido é da ordem de 35 s; se o tempo calculado diferir significativamente
deste, qual será, possivelmente, a razão da discrepância? l 3

234 235
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Capítulo 7 Capítulo 7
TRABALHO E ENERGIA, 289 TRABALHO E ENERGIA
Capftulo 8
CONSERVAÇÃO DA ENERGIA. 239

INTRODUÇÃO
Energia é o que permite executar tarefas: subir pela escada, cozi-
nhar alimentos, tornear peças, rodar os motores de uma oficina, escavar
terra, construir prédios, viver ... todas essas tarefas requerem energia.
Essa energia é produzida pela queima de algum combustível: car-
vão, gasolina, alimentos, combustível nuclear, etc ...
A energia manifesta-se sob várias formas: mecânica (a energia de
uma locomotiva em movimento, ou de uma mola comprimida), elétrica
(a que se consome nas lâmpadas e nos motores), química (a da gasolina,
nos motores jos automóveis) etc ...
A energia pode transformar-se de uma forma para outra: o atrito
transforma energia mecânica em energia interna,* um campo magnético
pode transformar energia mecânica em energia elétrica, etc ...
No entanto, acredita-se que a soma de toda a energia disponível no
Universo permanece constante; toda a evidência experimE1ntal acumulada
até hoje leva à conclusão de que a energia pode mudar de forma, mas que
ela se conserva.
Neste capítulo investigaremos os mecanismos de transformação ou
de transferência da energia mecânica e aprenderemos a medir a quanti-
dade de energia transformada ou transferid~.

*Por razões que serão expostas no vai. 2 desta série,' preferimos utilizar a expressão "e11ergia in·
terna" em vez da mais freqüentemente encontrada "energia térmica".

239
7.1 CONCEITO DE ENERGIA CINÉTICA cinética: podemos imaginar um processo extremamente lento, em que a
EXEMPLO 1 energia cinética do tijolo seja sempre muito pequena, mas que acabará
Cravar as estacas para as fundações de um edifício pode certa- colocando o tijolo no seu lugar, em cima da parede.
mente ser considerado como uma tarefa. Realiza-se essa tarefa pela queda Observamos entretanto que a posição do tijolo mudou. Ele agora
de um objeto de massa considerável (o bate-estacas): ao cair sobre a está mais alto. Qual é a diferença que isso faz quanto à capacidade de
estaca, o bate-estaca está em movimento; uma fração de segundo mais realizar tarefas? ·
tarde ele estará em repouso sobre a estaca, mas esta terá penetrado alguns Em primeiro lugar, podemos empurrar o tijolo: ele cai. Na queda
centímetros no solo. Parte da tarefa foi assim realizada. vai adquirindo energia cinética. Ao chegar ao solo ele é capaz de realizar
EXEMPLO 2 tarefas (nem que seja a tarefa de quebrar-se).
Reduzamos a escala do problema precedente. A estaca é um prego; Quanto maior a altura inicial do tijolo, maior será a energia ciné-
o bate-estaca é o martelo. O martelo em movimento é capai de realizar a tica que ele terá ao chegar ao solo: maior será sua capacidade de realizar
tarefa "pregar o prego na tábua". tarefas. Podemos também imaginar um dispositivo semelhante ao da fig.
EXEMPLO 3 1: ao cair, o tijolo realiza a tarefa que consiste em suspender outro corpo
Passar por cima de uma vara na prova de salto em altura constitui ~
uma tarefa. O atleta consegue realizá-la graças (em parte) à velocidade
-
que adquiriu antes de dar o salto.
EXEMPL04
Derrubar um edifício é também uma tarefa. Uma maneira comum
de realizá-la é bater nas paredes do prédio com a bola pesadíssima de um
gigantesco pêndulo.
Esses poucos exemplos e muitos outros facilmente encontráveis
mostram que um corpo em movimento tem a capacidade de realizar
tarefas. Diz~mos que esse corpo possui energia cinética (ou energia de
movimento).
É somente na seção 8 deste capítulo que aprenderemos a medir
a energia cinética. No entanto, o bom senso já nos diz que a energia
cinética de um corpo é tanto maior quanto maiores forem sua massa por
um lado, e sua velocidade por outro.
· Assim é que se escolhe uma bola de aço pára derrubar prédios. Fig. 1 Ao cair, o tijolo pode suspender a pedra até certa altura.
Ninguém pensaria em utilizar uma bola de isopor. Como também nin-
guém se assustaria muito em ser alvo de um tiro de revólver em que a até uma certa altura. De novo: quanto maior a altura inicial do tijolo,
velocidade da bala fosse somente de alguns centímetros por segundo. maior será a altura a que suspenderá o corpo; maior portanto será a
tarefa realizada. Concluímos que a posição de i.Jm corpo no campo gra-
7.2 CONCEITO DE ENERGIA POTENCIAL vitacional terrestre confere ao corpo uma certa capacidade de realizar
EXEMPLO 5 tarefas, ou ainda, uma certa energia. Enquanto a posição do corpo não
Um monte de tijolos está no chão. Um pedreiro, que está cons- variar, ele não realizará tarefa nenhuma; consideramos assim essa energia
truindo uma parede, apanha os tijolos um por um, e suspende esses de posição como sendo uma energia armazenada, disponível, e lhe damos
tijolos até a altura atual da parede; para suspender os tijolos, o pedreiro o nome de energia potencial (de posição no campo gravitacional).
"trabalha"; ele deve dispor de uma certa energia para realizar a tarefa . EXEMPLO 6
"suspender os tijolos": é o que poderíamos chamar, por enquanto, de Quando um menino estica o elástico da sua atiradeira, gasta uma
"energia alimento". . certa quantidade de "energia alimento" para realizar essa tarefa. Essa
Admitamos a conservação da energia no sentido amplo: em que se energia (ou pelo menos parte dela) está disponível no elástico defor-
transformou a "energia alimento" do pedreiro? Não foi em energia mado. Para convencer-se disso, ele larga o couro em que a pedra estava

240 241
presa: o elástico volta ao seu estado normal (não deformado) projetando ver que, na subida do tijolo, a força F retira energia do pedreiro, entre-
a pedra para longe, isto é, comunicando-lhe energia cinética. gando-a ao tijolo. O que faz a força P durante a subida? A resposta é
Dizemos que qualquer corpo ou elemento elástico deformado simples. Observamos primeiro que, se a força F agisse sozinha, a energia
(molas, elástico, ar comprimido ... ) possui energia devido a seu estado cinética do tijolo aumentaria, da mesma forma que se a força P ·agisse
de deformação. A essa energia chamamos de energia potencial de defor- sozinha o tijolo cairia, aumentando a sua energia cinética. O papel da
mação elástica. força Pé portanto de retirar do tijolo a energia entregue pela força F; essa
7.3 COMO SE TRANSFERE, OU SE TRANSFORMA, A ENERGIA energia está sendo retirada (por j>) com a mesma rapidez com que ela está
Todas as vezes que há transferência de energia de uma fonte para sendo entregue (por F) já que a velocidade do tijolo se mantém cons-
um receptor, ou todas as vezes que há transformação de energia de uma tante. Onde vai então essa energia que somente "atravessa" o tijolo?
forma para outra (cinética para potencial ou inversamente), a observação Observamos que durante a subida, a distância tijolo-Terra aumenta. A
mostra que a transferência ou a transformação se opera por meio de uma energia potencial do sistema tijolo-Terra aumenta. Dizemos que a 'energia
força que desloca o seu ponto de aplicação (a partícula ou o objeto sobre retirada do tijolo pelo peso P está sendo "despejada" no campo gravita-
o qual ela se exerce). cional Terra-tijolo.
No e~emplo do pedreiro, a "energia alimento" do pedreiro é trans- Quando se empurra o tijolo que se encontrava em cima da parede,
ferida para o tijolo por meio da força F que o pedreiro exerce sobre o ele cai. Durante a queda (de pouca altura) a resistência do ar é despre-
tijolo. Supondo-se que o tijolo está sendo suspenso com velocidade cons- zível de modo que uma única força age sobre o tijolo. Essa força entrega
tante, essa força Fé igual em módulo ao peso do tijolo e de sentido energia cinética ao tijolo: essa energia é retirada do campo gravitacional
contrário (fig. 2). Terra-tijolo. A interação gravitacional Terrll-tijolo se manifesta (sobre o
tijolo) pela força P da fig. 2. Quando o tijolo está em equilíbrio essa
força não transforma nem transfere energia nenhuma. Quando o tijolo
cai em queda livre, essa força transforma energia potencial de interação
gravitacional em energia cinética do tijolo.

h PERGUNTA
Quando se lança o tijolo para cima, que transferência ou transformação de energia opera
F o peso do tijolo?

Observamos finalmente que, para que haja transferência ou trans-


formação de energia, a força que age sobre o objeto ou sobre a partícula
deve ter uma componente na direção da velocidade.
Assim é que, para pôr em movimento um automóvel parado numa
estrada horizontal, não basta sentar nele. É preciso empurrá-lo. ---.
p
7.4 TRABALHO DE UMA FORÇA
Fig._ 2 O pedreiro exerce a força F para suspender o tijolo. EXEMPLOS
No entanto, se o pedreiro mantém o tijolo estático, em equilíbrio, Já aprendemos que dois "ingredientes" são necessários para que a
não há energia nenhuma transferida do pedreiro para o tijÓlo. Para que energia possa se transferir de um sistema (fonte) para outro (receptor) ou
haja transferência de energia são necessários força e deslocamento dessa de uma forma (cinética por exemplo) para outra (potencial no caso).
força.• A fig. 2 mostra ~ue sobre o tijolo agem duas forças. Acabamos de Agora nosso propósito é encontrar uma combinação desses dois
"ingredientes" que permita medir a quantidade de energia transferida ou
•Isto mio significa que para manter o tijolo em equillbrio o pedreiro não se canse li.e, não gaste transformada. Essa combinação será chamada trabalho.
energia). Da mesma forma, nós gastamos "energia alimento" para nos mantermos em pé, sem que
haja nenhuma transferência de energia entre nós e ·o meio ambiente: a razão é que é preciso Como não temos até agora nenhuma definição quantitativa d.e
e11ergia para manter os músculos retesados. energia, a medição daquelas transferênci~~ bu-transformações nãó, pode

242 243
deixar de ter uma certa componente arbitrária. Requeremos simples- 1 O trabalho de uma força constante F que atua sobre uma partícula
mente que a definição que pretendemos propor não fira o bom senso e em movimento retilíneo, na direção do movimento, ao longo de uma
seja coerente. Para tanto tentaremos "extrair" essa definição de vários distância d, é Fd.
exemplos e situações físicas simples. 2 O trabalho da força F mede a energia transferida entre o agente'
que exerce a força e a partícula. Testemos· a coerência dessa definição
EXEMPLO 7 com algumas situações simples encontradas até agora.
Voltemos ao exemplo do pedreiro que constrói a parede. Suponha-
No caso do tijolo e do pedreiro, o trabalho da força F da fig. 2 é
mos que a parede já te_nha 1,0 m de altura. Há alguns tijolos no chão e o
Fh se a altura da parede for h.
pedreiro os apanha, um por um, para colocá-los em cima da parede. Cada
tijolo pesa 1O N. No caso, F tem o sentido do deslocamento. Em princípio o pro·
duto Fh deveria ser positivo, o que imporia a regra (provisória): "traba-
A força que o pedreiro deve exercer sobre cada tijolo é igual, em lho positivo ~ energia transferida da fonte ou agente (quê exerce força)
média, a 1O N.
para a partícula (sobre a.qual se exerce a força)".
Tomamos a operação "suspender um tijolo a 1,0 m de altura"
como "tarefa-unidade". . Mas, sempre no mesmo exemplo, a força P (exercida pelo campo
gravitacional) tem sentido contrário ao deslocamento e o seu trabalho
Para realizar essa tarefa-unidade, o pedreiro transfere uma certa
deveria ser negativo, o que imporia, para salvaguardar a coerência com o
quantidade de energia para o sistema Terra-tijolo.* Tomemos essa quan-
tidàde de energia como unidade. que foi dito adma: "trabalho negativo~ energia transferida da partícula
(sobre a qual se exerce a força) para a fonte ou o agente (que exerce a
Suponhamos que o pedreiro suspenda dois tijolos juntos até em
força)".
cima da .parede. Duas tarefas-unidades terão sido realizadas: o pedreiro
Ora isso é exatamente o que acontece: a força f (trabalho posi-
transferiu duas unidades de energia. Observamos que ele teve que exercer
tivo) transfere energia do pedreiro para a partícula. A força p (trabalho
uma força de 20 N sobre o conjunto dos dois tijolos, ou seja, uma força
duas vezes maior. negativo) transfere energia da partícula para o campo.
Contihuando-se o raciocínio com três, quatro ... tijolos, ccm- Tem mais: já que o tijolo está subindo com velocidade constante (e
cluímos que a energia transferida é proporcional à força que o pedreiro pequena) a força F e o peso P têm mesmo módulo. De modo que os
exerce. produtos Fh e Ph têm mesmo módulo e sinais contrários. De novo o
Depois do fator força investiguemos o fator distância. nosso modelo matemático (provisório) prevê corretamente a evidência
A parede tem agora 2,0 m de altura. física: durante a subida, ou melhor, durante qualquer intervalo da subida,
a força Pretira do tijolo (para o campo) a mesma quantidade de energia
O pedreiro apanha um tijolo no chão, suspende esse tijolo até
1,0 m de altura, e a seguir até 2,0 m ou seja, 1,0 m mais alto. que a força F entrega ao tijolo (tirando-a do pedreiro).
As duas operações sucessivas requerem duas tarefas-unidades. No exemplo da .Pedra que cai livremente, o trabalho do peso (po-
Multiplicando-se mentalmente a altura da parede por dois, três, sitivo) entrega à pedra uma quantidade de energia retirada do campo
quatro ... concluímos que a energia transferida é proporcional à dis- gravitacional. .
tância ao longo da qual o pedreiro exerce a força sobre o tijolo. Quando se lança essa mesma pedra para cima, o trabalho do peso
(negativo) retira da pedra energia cinética, para entregá-la ao campo gra-
Sendo proporcional à força F e à distância (altura) h, a energia
transferida pelo pedreiro para o sistema Terra-tijolo é proporcional ao vitacional.
produto Fh (= Ph, em que Pé o peso do tijolo). EXEMPLO 8
O mais simples é escolher um como coeficiente de proporciona- Prossigamos com os test~s de coerência da definição provisória do
·lidade. Tentemos então dar uma definição provisória do trabalho de uma exemplo 7.
força. O pedreiro poderia colocar os tijolos em cima da parede por meio
do dispositivo representado ·na fig. 3 (não se trata obviamente de discutir
os méritos relativos dos vários métodos propostos).
*Como foi explicado na seção anterior, essa transferência não é "imediata". Ela se faz em duas Ele empurraria o tijolo sobre um plano horizontal perfeitamente
~apas: pedreiro-+ tijolo (pela força_ F da fig: 2}, e tijolo-+ campo gravitacional (pela força P). liso, exercendo uma força f (constante para simplificar) ao longo da

244 245
T
Aprendemos no exemplo 7 que o produto Ph representa a energia
transferida ao tijolo de peso P para levá-lo à altura h.
No caso presente, aprendemos que essa quantidade de energia
pode ser transferida de modo diferente do proposto naquele exemplo:
h em vez de exercer sobre o tijolo a força F diretamente oposta ao peso P,
sobre a dis~ância vertical h, o pedreiro pode exercer sobre o tijolo uma

l
força horizontal f, ao longo de uma distância d, desde que o produto fd
seja igual a Ph..
Isso oferece mais liberdade de ação. Suponhamos que o peso do
tijolo seja 1ON e que a altura h seja 3,0 m. Há necessidade de 3 unidades
de .energia. Essa quantidade de energia pode ser transmitida pelo pedreiro
ao tijolo:
Fig. 3 Outra maneira de colocar tijolos am cima 'da parede. a. Por uma força de 10 N agindo sobre a ·distância horizontal de
3,0 m;
distância d. O tijolo sairia em O com velocidade v0 vertical, devido ao b. ou por uma força de 30 N agindo sobre a distância horizontal de
arco circular com que termina o plano de lançamento. Esse arco.supõe-se 1,0 m;
ser suficientemente pequeno para que o seu único efeito seja mudar a c. ou por uma força de 150 N agindo sobre a distância horizontal de
direção da velocidade do tijolo. 0,20 m, etc....
A velocidade v 0 é ajustada· (veremos como, logo adiante) de modo De qualquer maneira, a definição proposta no Exemplo 7 continua
que o tijolo chegue à altura h da parede com velocidade nula. passando nos testes de coerência.
O pedreiro terá assim realizado h tarefas-unidades, levando um EXEMPLOS
tijolo ah metros de altura. Portanto ele deve ter transferido para o tijolo Nos exemplos precedentes, a força exercida tinha sempre a mesma
h unidades de energia, direção que o deslocamento. Estudaremos agora exemplos em que a
Mostremos que essa quantidade de energia ainda· se mede pelo força não tem a direção do deslocamento. Isso nos levará a modificar um
produto fd. 1. pouco a definição provisória do trabalho, de modo que finalmente possa
Qual é a velocidade inicial v0 necessária para que o tijolo chegue servir em qualquer situação.
em cima da parede com velocidade nula? Essa velocidade se mede pela O pedreiro agora utiliza um plano inclinado para suspender os
relaç~o: tijolos em cima da parede. Como estamos tentando definir uma nova
grandeza física (trabalho de uma força), podemos, ~em inconveniente,
V~ =2gh. (1)
Por outro lado, qual é a velocidade v0 que terá o tijolo, empurrado F

pela força f sobre a distância d? A açeleração do tijolo terá sido a = .1. ·


A velocidade v0 será então dada pela expressão: m
v!. = 2.1.
m d. (2)

A comparação das relações (1 ) e (2) fornece:


2.1..
m d= 2g.h,
ou ainda:
fd=mgh=Ph, (3)
em que P representa o peso do tijolo.
Fig. 4 Utilizaçio de um plano inclinado para suspender os tijolos.

246 247
imaginar situações ideais, o que simplificará o raciocínio. Suporemos A diferença com a situação do exemplo 8 é que, naquele exemplo, a
então que o tijolo pode deslizar sobre o plano com atrito desprezível. transferência não era simultânea: primeiro, o pedreiro comunicava ao
A fig. 4 mostra a situação: a força que o pedreiro exerce para tijolo a quantidade de energia Ph, ao empurrar o tijolo sobre a rampa
suspender o tijolo ao longo do plano. com velocidade constante é 'f:. A horizontal de lançamento. A seguir o tijolo entregava ao campo a mesma
direção da força faz o ângulo constante e com a direção do plano: a quantidade de energia, durante a subida (livre) até a altura h.
condição para que a velocidade do tijolo seja constante é que a compo- Até agora, portanto, nossa definição (provisória) do trabalho está
nente Fx, paralela ao plano, da força F, seja igual em módulo à componen- resistindo aos testes de coerência, desde que se modifique um pouco a
te Px, paralela ao plano, do peso p. primeira parte da definição de modo a incluir o caso do trabàlho de uma
Já sabemos que forças perpendiculares à direção do deslocamento força (constante) cuja direção não coincida com a do deslocamento.
não transferem nem transformam energia. Portanto somente nos interes- Diremos:
sam os trabalhos das forças Fx e Px. 1 O trabalho de uma força constante F que atua sobre uma partícula
Para sermos coerentes com a definição provisória do exemplo 7, em movimento retilíneo é igual ao produto do deslocamento pela com-
deveremos dizer que, enquanto o pedreiro puxa o tijolo ao longo do ponente da força na direção do deslocamento.
plano de A até B: A segunda parte da definição não é modificada.
a. a força Fx realiza um trabalho positivo Fx (AB); esse trabalho EXEMPLO 10
mede a energia transferida do pedreiro para o tijolo. O tijolo desliza agora (sem atrito) ao longo de um perfil qualquer
b. a força Px realiza um trabalho negativo - Px (AB); esse trabalho (fig. 5). A única condição imposta à força f, exercida pelo pedreiro, é
mede a energia transferida do tijolo para o campo gravitacional. que ela mantenha o tijolo em movimento uniforme ao longo do perfil.
Há porém uma condição suplementar para que nossa teoria seja
consistente: na tarefa que consiste em colocar um tijolo do chão sobre a
parede, a força que o campo exerce sobre o tijolo deve retirar do tijolo, e
entregar ao campo, sempre a mesma quantidade de energia. Caso contrá-
rio, bastaria escolher o caminho "mais econômico" para subir e o "mais
energético" para descer, e aí teríamos uma máquina que nos daria mais
energia do que ela consome. Ora, pragmaticamente, concordamos ser isto h
impossível.
Portanto, o trabalho da força Fx ao longo do plano da fig. 4 deve
ser igual ao trabalho da força F da fig. 2, em que se suspendia o tijolo
verticalmente. De modo que o produto Fx (AB) deveria ser igual aPh. É
efetivamente o caso. De fato sabemos que:
1 Fxl = 1 Px 1 "' P sen OI.,
!)
de modo que Fx (AB) = Psen01. (AB) = P (AB) sen.OI. e a fig. 4 mostra que
(AB) sen01. = h. Portanto Fx(AB) = Ph. Fig. 5 Suspende-se o tijolo fazendo-o deslizar ao longo de um perfil de forma qualquer.
Em resumo, ao suspender o tijolo ao longo do plano suposto sem
atrito: Isto significa que, em cada instante, a componente tangencial fx deve ser
a. o pedreiro entrega ao tijolo,. por meio da componente Fx da força igual em módulo à componente tangencial do peso Px- Nenhuma restri-
F, a energia Ph. ção é imposta quanto ao módulo da força ou ao ângulo e que ela faz com
b. o campo retira do tijolo, por meio da componente Px.da força P, a a direção da velocidade instantânea do tijolo.
mesma quantidade Ph de energia. Em torno do ponto M, posição atual do tijolo, podemos considerar
Finalmente, como no caso em que o pedreiro suspendia o tijolo o perfil como sendo um minúsculo plano inclinado de comprimento dr.
verticalmente (exemplo 7), houve transferência (mediata) da energia Ph Ao subir ao longo desse "plano elementar" podemos considerar que
.do pedreiro para o campo. tanto o módulo como a direção da força F permanecem constantes. De

248 249
modo que o trabalho elementar da força F ao longo do "plano elemen- B
tar" é dado por nossa definição modificada. Para facilitar nossa tarefa, de
aqui em diante representaremos o trabalho de uma força pelo símbolo W.
O trabalho elementar ao longo do "plano elementar" será pois:
dW=Fx(dr)

Vê-se imediatamente que a expressão precedente se escreve melhor


em notação vetorial:
d W= F ·dr (4)

em que dr é o deslocamento vetorial elementar.


Observa-se que a expressão (4) fornece corretamente o sinal do
trabalho, tal como a análise física do fenômeno nos mostrou.

O trabalho da força F entre a posição inicial A e a posição final B Fig. 6 Mostra que P.A.B =Ph.
obter-se-ia por integração da relação (4) ao longo do perfil AB entre A e
B: A fig. 6 mostra que:

WA•B= fa
A+B
·dr
(5) -P • AB = -P · (AC+ CB) = -P · CB = Ph,
como nos casos anteriores.

No entanto, antes de aceitarmos a expressão acima para o trabalho 7.5 TRABALHO DE UMA FORCA
de uma força no caso geral, deveremos aplicar-lhe o nosso teste de coe-
rência. Será que, de novo, ao suspender o tijolo de A até B ao longo do DEFINIÇÃO:
perfil qualquer AB (sem atrito) o pedreiro entrega ao tijolo, por inter- Podemos agora definir formalmente o trabalho de uma força qual-
médio da força F, a energia Ph, energia essa que é retirada do tijolo, quer aplicada a uma partícula que descreve uma trajetória qualquer entre
sendo entregue ao campo gravitacional por intermédio da força P? uma posição inicial r 1 e uma posição final r2 :
· Sinteticamente, a resposta é obviamente afirmativa, já que essa DEFINIÇÃO
transferência (mediata) se opera ao longo de cada um dos "planos ele- O trabalho da força F é:
mentares" em que decompomos o perfil AB. O exemplo anterior provou
isso.

No entanto, a prova formal é também muito simples. Basta obser-


W1.. 2 = /,F· dr
1+2
(7)

var que F · dr = - P · dr de modo que: A integral acima deve ser caléulada ao longo do arco considerado
WA•B = ft ·dr = - ~ • dr
1:.9 (6)
da trajetória.•

• Essa integral pertence à classe chamada "integrais de linha". Ela se calcula, em princípio, escre-
vendo-se:
A vantagem da substituição é que agora a força Pé constante, de
modo que: W= ! 1
2
(Fxdx + F y:Jvl = f
X1
x,
F xdx + ;·
Y1
Y2
F y:JY. desde que se saiba expressar F Jc" em fun-

WA+B = - P jdr
:C.•B
= - P • AB
ção de x (somente) e Fy em função de y (somente).

250 251
·l !.
2 O trabalho da força F mede a quantidade de energia entregue à
partícula (se W >O) ou cedida pela partícula (se W <O) pelo (ou ao)
agente que exerce a força F.

COMENTÁRIOS
a. o trabalho, e conseqüentemente a energia, são grandezas escalares.
b. a unidade de trabalho e de energia, é o Newton metro (N • m) ou
Joule (J). ~~
c. a expressão (7) permite calcular a energia transferida ou transfor-
mada numa interação desde que se conheça a força e a trajetória. Há no Fig. 8 Pedra lançada para cima. O trabalho do peso é negativo: a energia cinética da pedra
entanto certas situações em que essa força não é "acessível". Por exem- diminui.
plo, acreditamos que a energia interna se transfere de um corpo quente
para um corpo frio por interações moleculares ou atômicas ... e conse-
qüentemente por forças que deslocam seus pontos de aplicação. No en-
tanto essas forças não são macroscopicamente observáveis. Nesse caso, e

~
em outros semelhantes, as transferências de energia deverão ser contabi-
lizadas por outros meios que não sejam o trabalho. Será por exemplo o
calor.
F
7.6 SINAL DO TRABALHO: INTERPRETAÇAO FÍSICA. ENERGIA
CINE:TICA
Consideremos por enquanto os casos em que não há forças de
atrito (sólido ou viscoso).
Nesses casos, se uma única força atua sobre uma partícula, e se o Fig. 9 Projétil. Na parte ascendente da Fig. 10 Pedra lançada pela atiradeira. A
trabalho dessa força for positivo, a velocidade da partícula aumenta e trajetória o trabalho do peso é negativo: a forçá F exercida pela atiradeira realiza um
energia cinética diminui. Na parte descen- trabalho positivo: a energia cinética da
conseqüentemente sua energia cinética (i.e, a capacidade de realizar tare- dente o trabalh<> do peso é positivo: a pedra aumenta (O peso foi desprezado em
fas pelo fato de estar em movimento) também aumenta. energia cinética a~menta. comparação com F).
Se pelo contrário o trabalho da força (única) for negativo, a velo-
cidade da partícula diminui e conseqüentemente a sua energia cinética
também diminui.

-
Voltemos rapidamente a dar alguns exemplos, ilustrados nas fig. 7

~
a 11.

./~~/$/?'#j,M-y/~
·l T. li'-
~~>< .J,,.,,,,,,,,,,,,,, ••

~
Fig. 11 Assim que o carro entra em contacto com.a mola, a força F exercida por esta realiza um
Fig. 7 Pedra que cai. O trabalho do peso é positivo: a energia cinética da pedra aumenta. trabalho negativo; a energia do carro diminui.

252 253
lil'"·"ri~~ io f~ílo
·. !lr;:.,uull1, ~i ("
11J1t,f u: 6
•.il J ~"a.."'
JU µ;U 1ur lll$1>
'"'- _......-.,
Suponhamos agora que várias forças (excluindo-se sempre, por Formalizemos isso.
enquanto, forças de atrito) atuem sobre a partícula. Sejam F1, F2 ... Fi ... F nas forças exercidas sobre a partícula, e
Entre a posição inicial e a posição final da partícula sobre sua F= ~ Fia força total, ou resultante, daquelas forÇas.
trajetória, algumas dessas forças poderão realizar trabalhos positivos: Entre as posições r 1 e r 2 , a soma dos trabalhos é:
esses trabalhos medirão quantidades de energia retiradas das fontes ou
agentes que exercem as forças, e entregues à partícula onde se manifes-
tarão sob forma de energia cinética. Outras forças poderão realizar tra- W1• 2 = fir,
r,
F 1 ·dr+ F2 • dr+ ... + Fn ·dr
balhos negativos, caracterizando-se a retirada de parte da energia cinética
da partícula e a entrega dessa energia às fontes ou agentes que exercem as ou ainda:
forças.
Por exemplo; um ginasta cai sobre uma cama elástica. Um modelo·
C· (,,
W1• 2 = jl'L Fi) ·dr= J.F · dr
simples consiste em representar o ginasta por uma bola e a cama por uma r r1
mola espiral (fig. 12). 1

Mas, sendo v a velocidade da partícula na posição genérica r:


@j F = m
dt
~(2.a lei de Newton),
de modo que:

ª
~
9 w,.2-- f m-
dt-
r'
r, dv
dr= m /
r,
r,
dv.
dr
dt = m f
v,
v,
v · dv. (8)

*p
Por outro lado:
t +
~1---@
v · dv = d(v · v) = d(v 2 ).
Substituindo-se em (8):
- lF
Fig. 12 Objeto caindo sobre uma mola.
w,. =+mf~(v2 ) ~ m [<vi
2 = )-(vi )}
Duas forças; ambas verticais, atuam sobre o ginasta, ou sobre a ou seja:
bola do modelo: o peso P e a força F exercida pela cama (mola). En- 1 2 1 2
(9)
w,.2=2mv2 -72"mv1
quanto o ginasta está descendo, o trabalho do peso P é positivo: esse
trabalho mede a transferência de energia do campo gravitacional para o
ginasta, onde essa energia se manifesta sob forma de acréscimo da energia Descobrimos assim que o trabalho da força total que atua sobre a
cinética. Por outro lado o trabalho da força F é negativo: esse trabalho partícula, entre as posições r 1 e r2 , é igual à variação da quantidade
mede a energia cinética retirada do ginasta e entregue à cama (mola).
Resumindo-se tudo o que precede diremos que, quando várias for- 21 m v2 .
entre essas • -
mesmas pos1çoes.
ças (excluindo-se forças de atrito) agem sobre uma partícula, a soma dos
trabalhos das forças, que pelo princípio da superposição é igual ao traba- Recordemos que a análise física do fenômeno tinha-nos levado a
lho da força total, deve medir a variação da energia cinética da partícula. concluir qUe W1 • 2 deve medir a variação da energia cinética da parti-

254 255
cuia. Representando-se essa energia cinética pelo símbolo Ec, a Física

- ["
diz que:
w1•2 =6(Ec). (10) V

O modelo matemático prevê por sua vez que: 1 I_!_


=///ff,@'!,ffeff§ff&'///.ó.
W1 .. 2 = 6 ( ~ mv2 ). ( 11)

A comparação das expressões (10) e (11) nos levà a definir a


energia cinética de uma partícula por:
Fig. 13 Livro deslizando sobre uma mesa, com atrito.

Ec =~ mv 2• (12) Qual é o trabalho da força f?


Para responder a essa questão precisamos saber de quanto a
Em função do momentop = mv, a energia cinética se expressa
força f desloca o seu ponto de aplicação. Somos tentados a responder:
por: p2
a força f desloca o seu ponto aplicação da distância d percorrida pelo
Ec = - - (13)
2m livro e conseqüentemente o seu trabalho é - fd (= - µmgd). Esse tra-
Essas expressões confirma.m o que o bom senso nos tinha levado balho negativo mede a perda da energia cinética do livro, ou seja
a afirmar na seção 1: a energia cinética deve ser tanto maior quanto - ~ mv; 2 • Embora esteja perfeitamente certo que o produto fd seja igual
maiores forem a massa e a velocidade da partícula.
Porém, antes de aceitarmos as expressões (10) (11) (12) e (13) a ~ mv12 , este produto não representa o trabalho da força f. Esta é a
como regras universais, temos que investigar os casos em que intervêm
forças de atrito. Veremos que aquelas expressões continuam válidas, dificuldade conceituai assinalada. Tentemos entender por que.
embora algumas dificuldades conceituais devam ser· contornadas. A Podemos considerar o fenômeno de atrito como consistindo basi-
principal é que não é possível determinar o trabalho da força de atrito camente em deformações irreversíveis das camadas moleculares, atô-
que age sobre um corpo, embora a soma dos trabalhos das forças que micas, iônicas . . . dos corpos em contacto. Acontece que na grande
caracterizam o atrito nos corpos em contacto tenha uma expressão maioria dos casos encontrados nos fenômenos rotineiros que estudamos,
extremamente simples. a massa das camadas deformadas, isto é, a massa das partículas que
participam efetivamente do fenômeno de atrito em cada um dos corpos
em contacto, é desprezível em comparação com a massa do corpo.
7.7 TRABALHO DAS FORÇAS DE ATRITO Podemos então construir um modelo físico que, embora grossei-
Limitaremos o estudo ao caso do atrito sólido; os resultados são ramente simplificado, nos permitirá entender o essencial do fenômeno.
válidos, mutatis mutandis, para o atrito viscoso. Voltando ao exemplo do livro sobre a mesa, substituiremos o livro
por um bloco (ou uma partícula) que desliza sem atrito sobre a mesa,
Imaginemos a situação extremamente simples em que um livro,
bloco esse munido de um "pára-choque" de massa desprezível e feito de
inicialmente em repouso sobre uma mesa horizontal, é empurrado,
material irreversivelmente deformável: uma espiral de fio muito fino de
recebendo assim uma certa quantidade de energia cinética ~ ·mv/, Por estanho por exemplo (fig. 14 a). O modelo separa assim o bloco, que na
sua quase totalidade não participa do atrito, do "material de atri