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Joana Costa Lopes

Assistente Convidada

§ Esquema – Providências Cautelares


Direito Processual Civil II

Providências Cautelares
Porque é que elas existem? Regime Jurídico

Procedimentos Cautelares
MTS: A composição final de um litígio é algo que pode de- artigos 362.º a 409.º do CPC;
morar bastante tempo; é sempre necessário deixar as partes
expor as suas razões, é frequentemente necessário investigar os Características:
factos e é quase sempre necessário decidir reclamações e recursos
(...). i) Têm como finalidade evitar o periculum in
mora, nos termos do artigo 365/1.º e 368/1.º
Esta demora na satisfação judicial do interesse protegido cria o do CPC;
risco de um prejuízo ao seu titular (art. 362.º, n.º 1, e 368.º, n.º ii) Traduzem-se numa summaria cognitio, não
1: periculum in mora). só porque basta a mera justificação do direito
ameaçado (art. 365.º, n.º 1, 388.º, n.º 2, 392.º,
Por esta razão, a lei permite que, através de um processo mais n.º 2, e 405.º, n.º 2), mas também porque o
simples e rápido (art. 365.º, n.º 1 e 3: summaria cognitio) – mas, por procedimento cautelar é tramitado como um
incidente da instância (art. 365.º, n.º 3);
isso mesmo, menos seguro –, demonstrada a “probabilidade séria
da existência do direito” ameaçado, nos termos do art. 368.º, n.º iii) Têm como objecto um mero fumus boni
1: fumus boni iuris), o tribunal possa decretar uma tutela provisória iuris, dado que, para o decretamento da
que se destina a acautelar o efeito útil da acção, nos termos do art. providência, basta a verosimilhança forte da
2.º, n.º 2 in fine, isto é, a evitar que a composição definitiva seja existência do direito acautelado (art. 368.º, n.º
1);
inútil.
iv) Provisoriedade da Providência Cautelar:
364/4.º do CPC : porque se a tutela definitiva
Interesse Processual: Como outra forma de tutela judiciária,
não for concedida a tutela cautelar caduca
exigem o interesse processual do requerente. Como pressuposto (artigo 373/1/ al.c)), se a tutela definitiva for
processual da Providência Cautelar – tem de haver uma falta concedida então a tutela cautelar é substituída
de alternativa a essa providência. (caso típico: os alimentos provisórios – 384.º
do CPC passam a alimentos definitivos);

Finalidades

i) Garantia: providência conservatória (artigo 362.º, n.º1 do CPC): ex. arresto e


arrolamento;

ii) De regulação provisória de uma situação: providência conservatória (artigo


362.º, n.º1 do CPC) – restituição provisória da posse (se houver esbulho
violento – 1278/1.º do CC);

iii) Antecipação da tutela definitiva: providência antecipatória (artigo 362.º do


CPC) – o credor de alimentos pode requerer que lhe sejam concedidos
alimentos provisórios (2007/1.ºdo CC);
Modalidades
das Providências Cautelares

Providência Cautelar Comum Providências Cautelares


Especificadas
i) É subsidiária à providência
cautelar especificada – artigo • Restituição Provisória da Posse
376/1.º do CPC; (art. 377.º a 379.º do CPC);
Finalidades de
• A Suspensão de Deliberações
ii) Porque se emprega sempre regulação
Sociais (art. 380.º a 383.º do CPC);
que, verificando-se os provisórias
• O Embargo de Obra Nova (art.
fundamentos que justificam o
397.º a 403.º do CPC)
procedimento cautelar, não
haja nenhum procedimento • Os Alimentos Provisórios (art. Finalidades de
especial que a lei fixe para esse 384.º a 387.º do CPC); antecipação da
caso (artigo 362/1 e 3 do • O Arbitramento de Reparação tutela definitiva
CPC); Provisória (art. 388.º a 390.º);
• O Arresto (art. 391.º a 396.º do Finalidades de
MTS: As providências comuns podem prosseguir CPC); garantia
qualquer das finalidades gerais das providências • O Arrolamento (art. 403.º a 409.º).
cautelares: a de garantia de um direito, a de
regulação provisória e a de antecipação da tutela.

Arresto vs. Arrolamento

Arresto Arrolamento
Quando é que pode ser requerido? Quando o O que é e quando pode ser requerido? Aquele que tenha
credor tenha justo receio de perder a garantia direito a que lhe seja entregue um certo número de bens,
patrimonial do seu crédito por dissipação ou pode requerer, havendo justo receio de extravio ou
ocultação de bens por parte do devedor (art. dissipação deles, a sua descrição, avaliação e depósito: é o que
391.º1/1 do CPC); se chama arrolamento (art. 403.º, n.º 1 do CPC).

Objetivo: garantir o pagamento de dívidas – MTS: o arrolamento pode recair sobre documentos (art.
relação entre credor e devedor (≠ arrolamento); 403.º, n.º 1). Este arrolamento cumpre uma função paralela
à da realização antecipada da prova (cf. art. 419.º e 420.º),
Requisitos: Probabilidade da existência do distinguindo-se essas providências entre si pela circunstância
crédito + existência de justo receio de perda da de o arrolamento recair sobre provas pré-constituídas e de
garantia patrimonial; a antecipação da prova incidir sobre provas constituendas.

Objetivo: Descrição, avaliação e depósito dos bens – artigo


Não há contraditório: artigo 393.º do CPC – 406.º do CPC – o arrolamento não quer saber de dívidas, só
exceção do artigo 3/1 e 2 do CPC; ratio – o se quer preocupar com a conservação de determinados bens,
diferimento do contraditório é justificado pela devido ao risco de perda ou desaparecimento dos mesmos.
necessidade de assegurar que o requerido não
tem conhecimento prévio do requerimento da Requisitos: justo receio de extravio, ocultação ou dissipação
providência; de bens, móveis ou imóveis + pode ser requerido por
qualquer pessoa que tenha interesse na conservação dos bens
O que é o arresto? Apreensão de bens que (não se exige a relação entre credor-devedor);
sejam penhoráveis para satisfazer as dívidas Jurisprudência Recente: Ac. Do Tribunal da Relação de
dos credores (artigo 391/2.º + 393/2.º do Coimbra de 27-fev.-2018 (Relator Vítor Amaral):
CPC).
“É adequado a prevenir o risco de dissipação ou ocultação de bens –
O arresto interrompe a prescrição do crédito no caso, depósitos em conta bancária – e acautelar o efeito útil do
acautelado – 323/1.º do CC processo de inventário para partilha o arrolamento e não o arresto.”
Inversão do Contencioso

Enquadramento: Regime:
As providências cautelares têm como finalidade a prevenção do periculum
in mora, já que visam obviar a que a decisão proferida na acção principal se Segundo o disposto no art. 369.º, n.º 1 do CPC, em certos casos e
verificadas certas condições, o requerente é dispensado do ónus de
torne inútil. E as providências cautelares não podem também assumir uma
propositura da acção principal, sendo atribuído ao requerido que
outra função: a de se substituírem à própria tutela definitiva, ou seja, pretenda evitar a consolidação da providência decretada o ónus de
a de consumirem a necessidade da propositura de uma acção principal propor uma acção de impugnação.
destinada a confirmar a tutela provisória obtida através de uma dessas
providências.
O autor (requerente) da providência cautelar à se o juiz atingir um
grau de certeza à se estivermos a falar de providências
Requisitos: antecipatórias à se o autor/requerente pedir isso (p. dispositivo) =
Artigo 369.º, n.º 1 do CPC: pode haver inversão do contencioso.
1. Mediante Requerimento (p. do dispositivo) por parte do
requerente da providência/autor da providência; Em que consiste a Inversão? que não é nada mais nada menos do
que o nosso autor/requerente da providência cautelar ficar réu na
2. O juiz tem de formar convicção segura da existência do ação principal e o réu/requerido da providência cautelar fica o autor
direito acautelado: ou seja não basta a mera justificação (395.º, da ação principal porque ele vai contrariar, intentando a ação principal
388.º/2, 392.º/2 e 405/1.º do CPC) para haver inversão do aquilo que o autor/requerente disse na providência cautelar;
contencioso. Tem de haver prova stricto sensu;
Assim o autor/requerente da tutela cautelar deixa de ter o ónus
3. A providência decretada tem de poder substituir-se em tutela de propor a ação principal (lembre-se da instrumentalidade da
definitiva se o réu/requerido da providência omitir o seu ónus tutela cautelar) .
de propor a ação principal.
E se o requerido/réu da tutela cautelar não intentar a ação
principal quando é decretada a inversão do contencioso
(omissão do réu)? Então aí as providências consolidam-se como
Assim a inversão do contencioso só é admissível se a tutela cautelar tutela definitiva.
puder substituir a tutela definitiva que, se não tivesse havido inversão
do contencioso, o requerente teria o ónus de requerer na subsequente Finalidade da Inversão: evitar uma duplicação de alegações e de
acção principal. provas no procedimento cautelar e na subsequente ação principal.
MTS – é uma expressão da economia processual;
MTS: Por exemplo, não tem sentido admitir a inversão do contencioso quanto à
providência cautelar de arresto, pois que a garantia da garantia patrimonial que o credor
obtém através dessa providência não resolve o litígio entre ele e o seu devedor (que respeita,
não à garantia do crédito, mas ao próprio crédito). Fundamento legal: 376/4.º
CPC.