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SUJEITO

MORFOSSINTAXE II
PROFESSORA: DRA. LUCIMAR DANTAS
A fluidez do conceito
• Segundo Castilho (2010), as dificuldades na conceituação de
sujeito derivam da natureza tríplice de tudo que é conhecido
como sujeito: o sujeito sintático, o sujeito discursivo e o sujeito
semântico.
Propriedades sintáticas do sujeito
• Do ponto de vista sintático, o sujeito é o termo que apresenta
as seguintes propriedades:
(i) É expresso por um SN;
(ii) Figura habitualmente antes do verbo;
(iii) Determina a concordância do verbo;
(iv) É pronominalizável por ele;
(v) Pode ser elidido.
Exemplos
a) ) Alckmin voltou a descartar a necessidade de racionamento
de água.
b) Os pré-candidatos ao governo do Estado, Alexandre
Padilha (PT) e Paulo Skaf (PMDB), têm criticado o tucano
paulista.
c) Eles acusam o governo paulista por falhas na gestão dos
recursos hídricos.
d) Se não chover, é possível que o racionamento seja a única
saída.
e) ∅ Estou perplexa com esses boatos.
Algumas generalizações sobre o PB
• No PB, o sujeito pode ser preenchido por diferentes classes
gramaticais: substantivo, pronome, toda uma sentença
substantiva, categoria vazia, também denominada anáfora-zero;
• Sujeitos preenchidos podem vir antes ou depois do verbo –
quando vem antes, diz-se que a sentença está na ordem direta e
quando vem depois, na ordem inversa;
• Em uma pesquisa feita com base em dados do NURC/SP,
Castilho et al. (1986) encontraram os seguintes resultados:
a) 25% dos sujeitos elípticos x 75% de sujeitos preenchidos;
b) 60% dos sujeitos preenchidos por pronomes x 40% por
substantivos;
c) 60% dos sujeitos na ordem direta (SV) e 40% na ordem inversa
(VS)
Algumas características do sujeito posposto
• Os pesquisadores encontraram as seguintes regularidades para
a posposição do sujeito (VS):
a) Nas sentenças reduzidas de infinitivo, gerúndio e particípio
• Feitas as malas e saindo os convidados eles deixariam a
mansão
• Conversarem as meninas com estranhos não é bom.
b)Nas orações intercaladas, construídas com verbos do tipo
“dizer, sugerir, perguntar, responder” e sinônimos, que
arrematam enunciados em discurso direto:
• Que grande asneira, ponderou o príncipe.
• Você não vem jantar, perguntou a mãe.
• Nós não vamos tolerar vandalismo, afirmou o Secretário,
Algumas características do sujeito posposto
c) Nas sentenças interrogativas, exclamativas, imperativas e
optativas:
• Que veio ele fazer aqui?
• Falar-me ele desse jeito, que desaforo!
• Venha a nora, fique a sogra de fora!
d) Nas orações condicionais em que se tenha omitido o se:
• Quisesse ele, tudo estaria arranjado.
Obs: Castilho (2010, p. 292) cita a pesquisa de Berlinck (1989)
cujos dados apontam para uma diminuição da ordem vs: “42%
de ocorrência no século XVIII; 31% no século XIX, e apenas
21% no século XX”.
Sujeito e categoria vazia
• Castilho (1987) observou que a agentividade do sujeito
favorece seu apagamento, enquanto a não-agentividade
favorece a sua retenção, numa proporção 63% para 37%,
respectivamente.
• Sobre sujeito e categoria vazia, Castilho cita uma pesquisa
feita por Duarte (1992). Segundo a autora, quando o referente
é esperado tem-se o sujeito nulo; do contrário, preenche-se a
posição sujeito. Os sujeitos omissíveis resistem nas seguintes
situações:
Ocorrências de sujeitos nulos
a) Na 1ª pessoa do singular, em orações independentes com
verbos simples no presente ou no passado, quase sempre
precedidos por uma negação ou por uma locução verbal:
Ex. ∅ Não posso mais ficar aqui a tarde toda.
Não, ∅ tirei quatro notas vermelhas!
∅ Preciso dar um jeito na minha vida.
b) Na mesma pessoa em orações subordinadas
Ex. Eu não se se ∅ vou passar de ano.
Eu quero ∅ ser o primeiro da fila.
c) Na 2ª pessoas, nas interrogativas
Ex. ∅ Já se esqueceu?
∅ Falou com ele?
Propriedades discursivas do sujeito
• Na perspectiva discursiva, o sujeito é aquele ou aquilo de que
se declara algo. Ele é o ponto de partida da predicação, é o seu
tema. Essa percepção é bastante frequente na Gramatica
Tradicional e foi elaborada por linguistas da Escola de Praga.
• Essa abordagem ficou conhecida como a teoria da articulação
tema-rema (HALLIDAY, 1985). O tema pode ser entendido
como aquilo que vem primeiro, como o ponto de partida da
mensagem.
• Nessa perspectiva, Castilho mostra um dado interessante, ou
seja, um rema propriamente dito pode ser retomado na
sentença seguinte, e recategorizado como tema-sujeito,
especialmente na língua falada:
• Ex> (M) = Matriz (R)= Repetição (dados do NURC/SP)
• M – o trabalhador recebe aquilo
• R – aquilo a que ele tem direito
• M – a gente não enxerga por bloqueio
• R – e esse bloqueio tem de acabar
• M – só depende da temperatura
• R – mas a temperatura muda

• Isso é uma evidência de que “um termo sentencial migra para a


função de sujeito uma vez que seu referente se tenha fixado na
consciência do interlocutor” (CASTILHO, 2010, p. 296)
Propriedades semânticas do sujeito
• A propriedade semântica mais comumente identificada no
sujeito é sua agentividade (CASTILHO, 2010, p. 296).
• O sujeito é agente quando ele é responsável pela ação expressa
pelo verbo.
• Esse conceito pode gerar ambiguidades:
• Exemplos:
a) O João arrancou um dente hoje
(João é dentista e arrancou o dente de alguém ou João é o
paciente e um dentista arrancou seu dente)
b) Ana fez uma escova.
(Ana é uma escovista e fez uma escola em alguém ou ela está
com seus cabelos escovados).
Propriedades semânticas do sujeito
• Outra questão é que nem sempre um constituinte/agente pode
ser codificado como um sujeito – o que aponta para outra falta
de correspondência entre o sistema semântico e o sintático.
• Na voz passiva o termo agentivo figura como complemento
Exemplos:
a) O assassino foi preso pelo guarda.
b) Este filme não agradou ao Pedro.

• Animacidade x não animacidade na caracterização


semântica do sujeito (a referencialidade)
• Exemplo:
a) O menino provocou seus colegas.
b) Ele apanhou muito no colégio.
Propriedades semânticas do sujeito
• Determinação x indeterminação
• A propriedade mais explorada na GT é a da indeterminação do
sujeito (CASTILHO, 2010, p. 297).
• Segundo DuBois (1980), o traço de definitude é definido no
texto, por isso, nenhuma classe passível de figurar como
sujeito será intrinsecamente determinada ou indeterminada.
Nos exemplos abaixo, as representações do sujeito
indeterminado teriam de ser validadas no texto:
Exemplos:
a) Normalmente, quando você não sabe o que fazer, é melhor
não fazer nada. (No contexto, esse “você” não remete à 2ª
pessoa)
b) Depois da crise econômica, eles deram de dizer que as
centrais de atendimento não podem passar de um minuto
para te atender. (“eles” = autoridades não identificadas no
contexto)
c) Falou-se muito numa solução para o caso (sujeito expresso
pelo pronome “se”)
d) Ø Pediram agasalhos para os flagelados. (sujeito elíptico
com o verbo na 3ª pessoa do plural)
Referências
• BERLINCK, Rosane de Andrade. A construção V SN no
português brasileiro: uma visão diacrônica do fenômeno da
ordem. In: TARALO, Fernando. Fotografias sociolinguísticas.
Campinas: Pontes, 1989.
• CASTILHO, Ataliba T. de. Gramática do português brasileiro.
São Paulo: Contexto, 2010.
• _______ et al. O sujeito nominal no português culto.
Campinas: Instituto Nacional de estudos da Linguagem,
inédito.
• DUARTE, Maria Eugênia Lamoglia. A perda da ordem
V(erbo) S(ujeito) em interrogativas qu- no português do Brasil.
DELTA 8 (número especial), 1992, p. 37-52