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PRINCÍPIOS PROCESSUAIS PENAIS

Inadmissibilidade da prova ilícita (art. 5º., LVI, CRFB/88)

Muito embora vigore, no Processo Penal, a liberdade probatória, a Constituição Federal, no art. 5°, inc. LVI, transformou uma
de suas exceções em garantia fundamental, vez que considera inadmissíveis todas as provas obtidas por meios ilícitos.
Inicialmente, devemos reiterar a distinção entre prova ilegítima e ilícita já antes indicada.
A prova ilegítima é aquela que viola apenas normas de direito processual, como ocorre quando um documento é juntado aos
autos em prazo inferior a três dias antes da sessão de julgamento do júri, ao arrepio do art. 479 do CPP, hipótese que resulta-
rá na posterior declaração de nulidade do julgamento. Já a prova ilícita viola normas de direito material, em especial as inviola-
bilidades constitucionais.
É certo que a redação do art. 157 do CPP não observou a distinção entre provas ilícitas e ilegítimas, indicando como ilícita
toda e qualquer prova "ilegal", portanto, contrária à lei. Contudo, tal distinção é considerada tanto doutrinária quanto jurispru-
dencialmente, motivo pelo qual aconselhamos o leitor a observá-la.
Provas ilícitas acarretam maior violação a direitos, agredindo o ordenamento jurídico de tal forma ao ponto do legislador consti-
tuinte considerá-la imprestável. Assim, dispõe o art. 5o, inciso LVI, da CRFB que "são inadmissíveis, no processo, as provas
obtidas por meios ilícitos".
Não se pode ainda confundir a expressão simplificada “prova ilícita”, normalmente empregada, com o seu real significado:
“prova obtida por meio ilícito”. A prova, em si, não é ilícita: ilícito pode ser o meio através do qual a mesma é obtida. Portanto,
quando verificamos a ilicitude de determinada prova, estamos, em verdade, analisando se o meio pelo qual foi obtido é lícito
ou não.
Doutrina e jurisprudência repelem, também, as chamadas provas ilícitas por derivação, aquelas provas lícitas produzidas a
partir de outra ilicitamente obtida.
As provas ilícitas por derivação foram reconhecidas pela Suprema Corte Norte-Americana, com base na teoria dos “frutos da
árvore envenenada” – fruits of the poisonous tree -, segundo a qual o vício da ‘planta’ se transmite a todos os seus ‘frutos’.
Trata-se da teoria da prova ilícita por derivação.
A referida teoria foi consagrada na reforma do CPP (Lei no. 11.690/08):
Art. 157. São inadmissíveis, devendo ser desentranhadas do processo, as provas ilícitas, assim entendidas as obtidas em
violação a normas constitucionais ou legais.
§ 1o São também inadmissíveis as provas derivadas das ilícitas, salvo quando não evidenciado o nexo de causalidade entre
umas e outras, ou quando as derivadas puderem ser obtidas por uma fonte independente das primeiras.
§ 2o Considera-se fonte independente aquela que por si só, seguindo os trâmites típicos e de praxe, próprios da investigação
ou instrução criminal, seria capaz de conduzir ao fato objeto da prova.
§ 3o Preclusa a decisão de desentranhamento da prova declarada inadmissível, esta será inutilizada por decisão judicial,
facultado às partes acompanhar o incidente.

Entretanto, temos que ressalvar que o CPP foi claro (art. 157, §§ 1o. e 2o.) ao excluir das provas ilícitas aquelas obtidas por
meio absolutamente independente, ou seja, aquelas que poderiam ser obtidas por outros meios, legais ou lícitos. Assim, para
que seja aplicada a teoria da prova ilícita por derivação, é preciso que estabeleça o vínculo entre a prova originariamente obti-
da por meio ilícito e aquelas que se seguiram.1

1 Neste sentido: "A ação persecutória do Estado, qualquer que seja a instância de poder perante a qual se instaure, para revestir-se de legitimidade, não
pode apoiar-se em elementos probatórios ilicitamente obtidos, sob pena de ofensa à garantia constitucional do due process of law, que tem, no dogma da
inadmissibilidade das provas ilícitas, uma de suas mais expressivas projeções concretizadoras no plano do nosso sistema de direito positivo. (...) A CR, em
norma revestida de conteúdo vedatório (CF, art. 5º, LVI), desautoriza, por incompatível com os postulados que regem uma sociedade fundada em bases
democráticas (CF, art. 1º), qualquer prova cuja obtenção, pelo Poder Público, derive de transgressão a cláusulas de ordem constitucional, repelindo, por
isso mesmo, quaisquer elementos probatórios que resultem de violação do direito material (ou, até mesmo, do direito processual), não prevalecendo, em
consequência, no ordenamento normativo brasileiro, em matéria de atividade probatória, a fórmula autoritária do male captum, bene retentum. (...) A cir-
cunstância de a administração estatal achar-se investida de poderes excepcionais que lhe permitem exercer a fiscalização em sede tributária não a exone-
ra do dever de observar, para efeito do legítimo desempenho de tais prerrogativas, os limites impostos pela Constituição e pelas leis da República, sob
pena de os órgãos governamentais incidirem em frontal desrespeito às garantias constitucionalmente asseguradas aos cidadãos em geral e aos contribuin-
tes em particular. (...) Ninguém pode ser investigado, denunciado ou condenado com base, unicamente, em provas ilícitas, quer se trate de ilicitude originá-

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Assim, devemos nos lembrar de que são inadmissíveis as provas obtidas por meios ilícitos e as delas derivadas, entendendo-
se por prova ilícita por derivação aquela cuja produção é necessariamente dependente da prova ilicitamente obtida, com efeti-
vo nexo causal. Havendo, nos autos, outros elementos de prova, lícitos, que pudessem levar àquele mesmo resultado, não
haverá dependência ou derivação, devendo estas outras provas serem utilizadas.
Da mesma forma, ressaltamos que não foi acolhida em nossos tribunais superiores a ideia de proporcionalidade a justificar a
prevalência de direitos sociais sobre direitos individuais. Não há, portanto, que se falar no critério de razoabilidade do direito
norte-americano, ao qual corresponderia o princípio da proporcionalidade do direito germânico, em tema de prova ilícita.
A prova ilícita é inadmissível sempre que a ilicitude consista na violação de uma norma constitucional, sendo irrelevante inda-
gar se o ilícito foi cometido por agente público ou por particulares, uma vez que obtida com infringência aos princípios constitu-
cionais que garantem os direitos da personalidade. Da mesma forma, não importa o momento em que a ilicitude se caracteri-
zou (antes e fora do processo ou no curso do mesmo, ou se o ato ilícito foi cumprido contra a parte ou contra terceiro. Sempre
que importe em violação a direitos fundamentais, ainda que a sugestão pareça atraente, não é aceitável o critério de ‘proporci-
onalidade’ a justificar, ainda que sendo redundante, que "os fins justifiquem os meios". Portanto, questões como a gravidade
ou hediondez do delito não são justificativas para a utilização de provas ilícitas, da mesma forma que não o é a ideia de que o
direito social deve prevalecer sobre o individual. Ainda que contra a vontade de alguns, as provas ilícitas são inadmissíveis,
bem como as ilícitas por derivação.
É certo, entretanto, que muitas vezes, na análise da prova ilícita, os tribunais superiores adotam critérios de proporcionalidade.
Mas sempre que o fazem partes da análise de princípios e garantias de mesma categoria, uma vez que nenhuma garantia é
no todo absoluta. Direitos individuais podem ser ponderados com direitos também individuais. Daí admitirem nossos tribunais,
por exemplo, as gravações entre intelocutores.
Assim, como transcreveu o Min. Celso de Mello em voto proferido no HC 97567, "a mitigação do rigor da admissibilidade das
provas ilícitas deve ser feita através da análise da própria norma material violada: (...) sempre que a violação se der com rela-
ção aos direitos fundamentais e a suas garantias, não haverá como invocar-se o princípio da proporcionalidade”.
Contudo, devemos ainda nos lembrar que ninguém pode ser prejudicado por uma garantia que possui, daí a presunção quanto
à inadmissibilidade das provas ilícitas não apresentar qualquer efetividade quando tal prova for benéfica ao acusado. Assim, a
inadmissibilidade das provas ilícitas não absoluta, uma vez que a prova ilícita em favor do réu é admitida.

Livre convencimento motivado ou Persuasão racional (artigos 5o., LX, e 93, IX, da CRFB/88)

O juiz deve fundamentar as decisões por ele proferidas, conforme determina o artigo 93, X, da CRFB/88.
Conforme verificamos acima, todas as provas no Processo Penal têm valor relativo. O juiz deve analisar as provas existentes
verificando qual o conjunto de provas o convence em detrimento de outras, fundamentando sua decisão naquelas que o con-
venceram. A isso se dá o nome de persuasão racional.
Art. 155. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo funda-
mentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares,
não repetíveis e antecipadas.
Parágrafo único. Somente quanto ao estado das pessoas serão observadas as restrições estabelecidas na lei civil.

ria, quer se cuide de ilicitude por derivação. Qualquer novo dado probatório, ainda que produzido, de modo válido, em momento subsequente, não pode
apoiar-se, não pode ter fundamento causal nem derivar de prova comprometida pela mácula da ilicitude originária. A exclusão da prova originariamente
ilícita -- ou daquela afetada pelo vício da ilicitude por derivação -- representa um dos meios mais expressivos destinados a conferir efetividade à garantia
do due process of law a tornar mais intensa, pelo banimento da prova ilicitamente obtida, a tutela constitucional que preserva os direitos e prerrogativas
que assistem a qualquer acusado em sede processual penal. (...) A doutrina da ilicitude por derivação (teoria dos 'frutos da árvore envenenada') repudia,
por constitucionalmente inadmissíveis, os meios probatórios, que, não obstante produzidos, validamente, em momento ulterior, acham-se afetados, no
entanto, pelo vício (gravíssimo) da ilicitude originária, que a eles se transmite, contaminando-os, por efeito de repercussão causal. Hipótese em que os
novos dados probatórios somente foram conhecidos, pelo Poder Público, em razão de anterior transgressão praticada, originariamente, pelos agentes
estatais, que desrespeitaram a garantia constitucional da inviolabilidade domiciliar. Revelam-se inadmissíveis, desse modo, em decorrência da ilicitude por
derivação, os elementos probatórios a que os órgãos estatais somente tiveram acesso em razão da prova originariamente ilícita, obtida como resultado da
transgressão, por agentes públicos, de direitos e garantias constitucionais e legais, cuja eficácia condicionante, no plano do ordenamento positivo brasilei-
ro, traduz significativa limitação de ordem jurídica ao poder do Estado em face dos cidadãos. Se, no entanto, o órgão da persecução penal demonstrar que
obteve, legitimamente, novos elementos de informação a partir de uma fonte autônoma de prova -- que não guarde qualquer relação de dependência nem
decorra da prova originariamente ilícita, com esta não mantendo vinculação causal --, tais dados probatórios revelar-se-ão plenamente admissíveis, porque
não contaminados pela mácula da ilicitude originária." (STF, HC 93.050, de 10/6/2008, DJE 1º/8/2008.)

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O livre convencimento motivado ou persuasão racional possui, no direito brasileiro, uma exceção. Trata-se do Tribunal do Júri,
onde os jurados que compõem o conselho de sentença julgam com íntima convicção, depositando na urna voto sigiloso sem
qualquer tipo de fundamentação.

Publicidade (artigos 5º., LX, e 93, IX, da CRFB/88)

A garantia da publicidade dos atos processuais está prevista na Constituição da República, em seus artigos 5º, LX e 93, IX,
que estabelecem, respectivamente: “a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimida-
de ou o interesse social o exigirem” e “todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas
todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus
advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não preju-
dique o interesse público à informação”.
Contudo, devemos nos lembrar que há casos, também no processo penal, de publicidade restrita, sendo certo que correm em
segredo de justiça os processos nos quais há ou houve quebra de sigilo (bancário, fiscal ou telefônico), interceptação telefôni-
ca, e ainda os processos de crimes contra a Dignidade Sexual (artigo 213 e seguintes do CP ).

Identidade física do juiz

Com a reforma implementada pela Lei no. 11.719/08, foi introduzido no direito processual penal brasileiro o princípio da identi-
dade física do juiz (artigo 399,§ 2º, do CPP), decorrente da previsão legal de uma audiência única de instrução e julgamento.
Contudo, o direito processual penal nunca esteve habituado a tal exigibilidade, motivo pelo qual acaba indo buscar as premis-
sas da identidade física do juiz no Código de Processo Civil. Assim, devemos conjugar os arts. 399, § 2º., do CPP e o artigo
132 do CPC:
CPP Art. 399.
§ 2o O juiz que presidiu a instrução deverá proferir a sentença.

CPC Art. 132. O juiz, titular ou substituto, que concluir a audiência julgará a lide, salvo se estiver convocado, licenciado, afas-
tado por qualquer motivo, promovido ou aposentado, casos em que passará os autos ao seu sucessor.
Parágrafo único. Em qualquer hipótese, o juiz que proferir a sentença, se entender necessário, poderá mandar repetir as pro-
vas já produzidas.

Duração Razoável do Processo

Trata-se de um direito fundamental consagrado na Constituição Federal em seu artigo 5°, inc. LXXVIII, intimamente relaciona-
do ao princípio do devido processo legal. Decorre do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, o qual foi ratificado no
Brasil em 1992 (Decreto n° 592, de 24 de janeiro de 1992). Entretanto, é um conceito vago e indeterminado, cabendo ao Po-
der Judiciário dar efetividade ao mandamento constitucional através da interpretação do referido princípio. O Brasil, embora
tenha consagrado como preceito constitucional a duração razoável do processo, adota a teoria do não prazo.
A doutrina e a jurisprudência tem fixado o entendimento de que, em regra, quando o réu se encontra preso, a instrução crimi-
nal deve estar encerrada em 81 dias. Muito embora não esteja tal questão diretamente vinculada ao princípio, é evidente que
alguma relação com ele possui.
Importante frisar, entretanto, que a duração razoável do processo não versa simplesmente sobre descumprimento de prazos
processuais, e sim do processo como um todo, tendo como marco final o trânsito em julgado da decisão.

Dignidade da Pessoa Humana

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Definir dignidade da pessoa humana é uma tarefa das mais complexas. Como a banca pode exigir a cobrança desse princí-
pio? Primeiro, a dignidade da pessoa humana é, na verdade, a base estrutural de todo o sistema de garantias fundamentais.
Então, todas as garantias surgem exatamente em razão da dignidade da pessoa humana. E dai a relevância para o processo
penal. Só que a dignidade da pessoa humana não deve ser observada apenas durante o processo. Ela atinge toda a fase de
persecução penal, incluindo a investigação criminal, e é exatamente aí que entra a importância de cobrança do princípio numa
prova para delegado de polícia.
Vale recordar, conforme abordamos em aula, que a 11ª Súmula Vinculante consolida jurisprudência da Corte no sentido de
que o uso de algemas somente é lícito em casos excepcionais e prevendo a aplicação de penalidades pelo abuso nesta forma
de constrangimento físico e moral do preso.
É a seguinte a íntegra do texto aprovado: "Só é lícito o uso de algemas em caso de resistência e de fundado receio de fuga ou
de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito,
sob pena de responsabilidade disciplinar civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual
a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado". (grifos nossos)

Abuso
A súmula consolida entendimento do STF sobre o cumprimento de legislação que já trata do assunto. É o caso, entre outros,
do inciso III do artigo 1º da Constituição Federal (CF); de vários incisos do artigo 5º da (CF), que dispõem sobre o respeito à
dignidade da pessoa humana e os seus direitos fundamentais, bem como dos artigos 284 e 292 do Código de Processo Pe-
nal (CPP) que tratam do uso restrito da força quando da realização da prisão de uma pessoa.
Além disso, o artigo 474 do Código de Processo Penal, alterado pela Lei 11.689 /08, dispõe, em seu parágrafo 3º: "Não se
permitirá o uso de algemas no acusado durante o período em que permanecer no plenário do Júri, salvo se absolutamente
necessário à ordem dos trabalhos, à segurança das testemunhas ou à garantia da integridade física dos presentes".
Dessa forma, o minucioso e atento exame de todo o ordenamento jurídico vigente até então, aliado aos princípios do direito,
era possível extrair regras para o bom e moderado uso das algemas. Contudo, abusos foram cometidos, principalmente no
que diz respeito a violação do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana e de outros direitos como o da presun-
ção da inocência.
Assim, a súmula vinculante número 11 nasce não só para regulamentar o uso das algemas, como também para por fim ao
sensacionalismo feito pela mídia quando uma prisão ou outro ato processual é realizado.
Da redação da nova súmula vinculante extraímos os seguintes requisitos para o lícito uso das algemas: caso excepcional;
resistência; fundado receio de fuga; perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros; justificativa
da necessidade por escrito.
E ainda, dispõe a súmula sobre a possibilidade de aplicação de penalidades civis e penais pelo abuso nesta forma de cons-
trangimento físico e moral do preso, bem como anulação da prisão ou o ato processual praticado.
Ressalte-se que, a súmula prevê a responsabilidade civil do Estado em casos do uso ilegal das algemas, afinal o uso indevido
das algemas constitui abuso de autoridade, nos termos da Lei 4.898 /65 a seguir:
Art. 3º. Constitui abuso de autoridade qualquer atentado:
i) à incolumidade física do indivíduo;
Art. 4º Constitui também abuso de autoridade:
b) submeter pessoa sob sua guarda ou custódia a vexame ou a constrangimento não autorizado em lei;
Por fim, a intenção da súmula vinculante também consiste em impedir recursos contra decisões com fundamento não só na
presente súmula vinculante como nas demais.

Mas como explicar a dignidade da pessoa humana? A gente acaba buscando no direito estrangeiro algumas respostas, e a
banca provavelmente vai cobrar algo como a dignidade da pessoa humana na posição de Canotilho através da teoria dos
cinco componentes. Então, você precisa ter em mente quais são esses cinco componentes que consagram o princípio da
dignidade da pessoa humana.

Canotilho

Teoria dos cinco componentes:


Arts. 1° a 16 da CF/1988

1. Afirmação da integridade física e espiritual do homem como aspectos irrenunciáveis de sua individualidade;
2. Garantia da identidade e integridade da pessoa através do desenvolvimento de sua personalidade;

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3. Libertação da angústia da existência da pessoa, libertação essa através de mecanismos sociais de providências que garan-
tam possibilidade de condições mínimas existenciais;
4. Consagração da autonomia individual através da limitação dos poderes públicos relativamente aos conteúdos, formas e
procedimentos do estado de Direito;
5. Dignidade social, ou na igualdade de tratamento normativo, ou seja, igualdade perante a Lei.

Então se o Estado faz do homem um mero objeto do seu agir, o que você tem é violação ao princípio da dignidade da pessoa
humana. Então vamos guardar a fórmula-objeto de Durog: é a coisificação da pessoa humana. Então no processo penal, a
dignidade da pessoa humana é a raiz de todas as garantias constitucionais, que, obviamente, regem a atividade jurisdicional
do Estado.
Dentre as incidências do princípio da dignidade da pessoa humana no processo penal, estão a vedação a certos meios de
prova, o tratamento a ser conferido ao acusado que deve ser respeitado enquanto pessoa, e, ainda, funciona como diretriz
quando o juiz deve ponderar interesses.
Então na teoria da ponderação, o juiz deve sempre optar por aquele interesse que melhor protege a dignidade da pessoa
humana.

Fórmula-objeto de Durig:
- A dignidade humana é agredida sempre que o homem é reificado, ou seja, reduzido a um objeto
- A dignidade humana é atingida quando a pessoa humana se torna um mero objeto do agir estatal
- Veda toda e qualquer coisificação ou instrumentalização do ser humano

Importante na orientação do processo penal, já que é a raiz das garantias constitucionais que devem inspirar a atividade juris-
dicional do Estado.

As dimensões expostas relativas à individualidade, à autonomia frente ao poder público e à igualdade de tratamento
normativo:
a) A dignidade humana reporta-se a todas e cada uma das pessoas e é a dignidade da pessoa individual e concreta;
b) A dignidade da pessoa humana refere-se à pessoa desde a concepção, e não só desde o nascimento;
c) A dignidade é da pessoa enquanto homem e enquanto mulher;
d) Cada pessoa vive em relação comunitária, o que implica o reconhecimento por cada pessoa da igual dignidade das
demais pessoas;
e) Cada pessoa vive em relação comunitária, mas a dignidade que possui é dela mesma, e não da situação em si;
f) O primado da pessoa é o do ser, não o do ter; a liberdade prevalece sobre a propriedade;
g) Só a dignidade justifica a procura da qualidade de vida;
h) A proteção da dignidade das pessoas está para além da cidadania portuguesa e postula uma visão universalista da
atribuição dos direitos;
i) A dignidade pressupõe a autonomia vital da pessoa, a sua autodeterminação relativamente ao Estado, às demais en-
tidades públicas e às outras pessoas.

Incidências da dignidade humana no processo penal:


- vedação de certos meios de prova;
- tratamento devido ao acusado, que não perde sua condição de pessoa humana por estar frente ao Estado-Juiz (o Estado
deve respeitá-lo como pessoa e tutelar tal condição);
- a necessidade de que o Juiz, diante da colisão de interesses, opte sempre por aquele que melhor protege, que melhor
realiza, que melhor efetiva, no caso concreto, a dignidade da pessoa humana;
- dentre outros.

Manual de Processo Penal


André Nicolitti

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Fundamento:
art. 1°da CF/1988
Base estrutural de todas as garantias fundamentais (art. 5°da CF/1988)

Jorge Miranda
Fonte ética, fazendo da pessoa fundamento e fim da sociedade e do Estado.

QUESTÕES DE PROVAS SOBRE PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA:

(Ano: 2017 - Banca: IBADE - Órgão: PC-AC - Prova: Delegado de Polícia Civil) Sobre princípio de processo penal,
assinale a alternativa correta.
a) Não se inclui na garantia da ampla defesa, como consectário desta o direito à inviolabilidade da pessoa, dos documentos e
do local de trabalho do defensor técnico.
b) O contraditório é a organização dialética do processo através de tese e antítese legitimadoras da síntese, é a afirmação e
negação. Ou seja, os atos processuais se desenvolvem de forma unilateral, o que se chama unilateralidade dos atos proces-
suais.
c) No processo penal brasileiro, apesar de inúmeros princípios que lhe emprestam um caráter democrático, não vigora o prin-
cípio da identidade física do juiz.
d) A teoria dos cinco componentes, ao proteger a integridade física e espiritual do homem, bem como a Fórmula Objeto de
Dürig, ao dizer que a dignidade humana é violada sempre que o homem for coisificado, são importantes contribuições teóricas
para a compreensão das dimensões da dignidade e sua repercussão sobre o processo penal, notadamente no que diz respeito
às provas.
e) Para a teoria do não prazo, a duração razoável do processo deve ser definida pelo legislador, inclusive em atenção ao prin-
cípio da legalidade. Esta inclusive é a orientação do Tribunal Europeu de Direitos Humanos e da Corte Interamericana de Di-
reitos Humanos.

GABARITO: D

(Ano: 2016 - Banca: FUNCAB - Órgão: PC-PA - Prova: Delegado de Polícia) Leia as afirmativas a seguir.
I. o nemo tenetur se detegere traduz-se na vedação da autoincriminação coercitiva. A jurisprudência do STF tem extraído des-
te princípio inúmeras limitações em matéria de produção de prova, como por exemplo, a garantia de ninguém ser obrigado a
fornecer padrões grafotécnicos para perícia.
II. As intervenções corporais coercitivas no processo penal, quando invasivas, violam a dignidade humana, destacadamente
quando se pensa na fórmula-objeto de Dürig. Já as leves ou não invasivas, mesmo quando coercitivas, em razão da insignifi-
cância das mesmas, são toleradas e admissíveis, pois não há nada no ordenamento que justifique sua inadmissão.
III. Dos cinco componentes da dignidade humana indicados pela doutrina alemã, a integridade física e espiritual tem especial
relevância para o processo penal, em razão das limitações que impõe a colheita de provas, vedando, por exemplo, não só a
tortura, como também a utilização de meios como soro da verdade e hipnose.
IV. A busca da verdade real é princípio inquestionável e fundamental no processo penal. Sendo assim, eventualmente é possí-
vel admitir uma prova ilícita desde que haja uma ponderação e observância da razoabilidade, sendo a segurança pública ele-
mento justificador da utilização da prova produzida ilicitamente quando esta for necessária para combater, por exemplo, o
tráfico de drogas e o crime organizado.
Está correto apenas o que se afirma em:
A) I e II
B) l, ll e lll.
C) I e III
D) III e IV.
E) l, ll e lV.

GABARITO C

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(Ano: 2012 - Banca: FUNCAB - Órgão: PC-RJ - Prova: Delegado de Polícia) Leia as assertivas a seguir e marque a al-
ternativa correta.
I. A fórmula-objeto de Günther Dürig é uma das construções teóricas mais convincentes para a compreensão do princípio
constitucional da dignidade humana. Segundo ela, tal princípio é violado, sempre que o ser humano é reificado. Essa concep-
ção tem influenciado a jurisprudência do STF, como se extrai concretamente da Súmula Vinculante número 11.
II. A Súmula Vinculante número 11 do STF traz como requisitos para o uso da algema: (I) a resistência; (II) o fundado receio de
fuga ou (III) o perigo à integridade física própria ou alheia. Seu emprego pode ser no preso ou em terceiros.
III. O uso de algema, apesar de não ser tido como excepcional, deve ser justificado por escrito, isto é, trata-se de decisão
administrativa ou judicial, discricionária e motivada.
IV. Um dos efeitos da violação da Súmula Vinculante n°11 do STF é a nulidade da prisão. No entanto, esta consequência deve
ser vista com cautela. Não gera ilegalidade da prisão em flagrante o fato de o condutor aplicar abusivamente a algema, res-
tando ao caso as responsabilidades civil, penal e administrativa. Não obstante, a nulidade da prisão pode advir, por exemplo,
do emprego abusivo de algema pelo Delegado de Polícia, durante o reconhecimento.
a) Apenas I e III estão corretas.
b) Apenas II e III estão corretas.
c) Apenas III e IV estão corretas.
d) Apenas I, II e IV estão corretas.
e) Apenas II, III e IV estão corretas.

GABARITO: D

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