Você está na página 1de 5

Aula 1 - O fim dá sentido ao presente

Curso de Escatologia
Prof. Leandro Lima

O principal interesse daqueles que estudam escatologia talvez seja curiosidade, e


até um certo temor em relação ao futuro, por causa dos acontecimentos assustadores que
podem estar reservados para este planeta. Não é sem razão que o termo “Apocalipse" ou
“apocalíptico" tem a conotação de tragédia, destruições causadas por fenômenos naturais,
ou por armas de destruição em massa. Para muitos também o interesse em escatologia é
algo semelhante a torcer para um time de futebol ou defender algum partido político.
Muitas pessoas se armam de argumentos e textos bíblicos para defender essa ou aquela
corrente escatológica sobre o milênio, a fim de se sobressair em debates, e parecer mais
inteligente do que os outros debatedores. Nenhum desses dois motivos é digno de um
cristão. Para o cristão, escatologia tem outro significado, pois primordialmente, significa
esperança. Sim, pois fala do tempo que está por vir, quando segundo o que João escreveu
em Apocalipse, "já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas
passaram” (Ap 21.4). Quando toda a perversidade e o sofrimento forem removidos
definitivamente deste mundo, então, os crentes contemplarão a glória de Cristo, e
desfrutarão de uma felicidade tal, que a maior das alegrias do tempo presente, diante
daquela felicidade, parecerá sem graça e vazia. Por isso, escatologia nos fala de
esperança.
Porém, talvez por causa dessa ênfase na esperança futura, não poucos cristãos ao
longo da história entenderam que o conhecimento da certeza do fim devia levá-los a uma
vida de distanciamento do mundo presente, numa atitude de espera inativa, ou apenas
contemplativa. Nesse sentido, escatologia é vista como apenas “o estudo do fim”, ou “das
últimas coisas”, como se fosse uma disciplina da teologia que se preocupa em entender o
que a Bíblia tem a nos dizer sobre os eventos relacionados apenas à segunda vinda de
Cristo. Porém, como já demonstramos, é um equívoco pensar desse modo. Escatologia
não diz respeito apenas às coisas que terão lugar quando ou depois que Cristo retornar.
Escatologia tem tudo a ver com o presente.

I. Eleitos, porém forasteiros e dispersos

Pedro escreveu sua primeira carta no início da década de 60 do século primeiro, e


destinou para vários grupos de cristãos que se espalhavam por uma área relativamente
grande da região que hoje é a Turquia moderna. O tema geral da carta poderia ser exposto
como o seguinte: “como o passado e o futuro alimentam nossa esperança no presente”.
Pedro está o tempo todo, nessa carta, apontando nessas duas direções. Ele aponta para o
passado, pois de lá vem a certeza da obra de Cristo, sua morte em nosso lugar, sua
ressurreição e ascensão, o derramamento do Espírito, e também os efeitos práticos disso
em nossa vida, que resultaram em nossa conversão, na garantia de nossa salvação.
Portanto, o passado nos traz segurança. Porém, é do futuro que vem a certeza da vida
plena, quando toda a dor e sofrimento tiveram passado, quando toda corrupção e mal
tiverem sido extirpados. Essas duas certezas sustentam nossa alegria e testemunho no
tempo presente caótico em que vivemos.
Naquele tempo, toda aquela região para quem Pedro escrevia estava debaixo do
governo romano, era portanto, um mundo de autoritarismo imperial, de selvageria, de
fanatismo religioso, de grande misticismo, de depravação cultural, e de perseguição.
Muitos cristãos olhavam para o mundo com grande desânimo, e começavam até mesmo
a duvidar da volta de Cristo. Provavelmente, os leitores de Pedro não vinham das altas
camadas da sociedade, eram crentes humildes, que tinham pequenos comércios, e alguns
eram inclusive escravos. Pedro os chama de "eleitos que são forasteiros da dispersão”
(1Pe 1.1). Ele combina algumas palavras que não parecem se encaixar. A primeira é
“eleitos" (ἐκλεκτοῖς). Não poderia haver um termo mais extraordinário para descrever o
status dos crentes do que esse. Em meio a todo o mundo decaído, Deus decidiu, por sua
livre graça e amor, salvar um povo. No Antigo Testamento, esse povo era Israel1, mas no
Novo Testamento, trata-se de uma multidão incontável de todas as nações. Privilégio,
graça e misericórdia é o que essa expressão suscita, jamais orgulho, prepotência, mérito
ou presunção. Porém, de qualquer modo, é um termo nobre, apontando para o supremo
privilégio concedido pela graça de Deus, de participar do povo escolhido de Deus. Pedro,
então, usa mais duas palavras para descrever esses eleitos, e essas palavras são paradoxais
em relação ao primeiro termo “eleitos”. Os termos são: Forasteiros ou exilados
(παρεπιδήμοις), da dispersão (διασπορᾶς). Como Israel no Antigo Testamento que sofreu
o exílio babilônico e foi disperso entre as nações, agora os cristãos encontravam-se em
um estado correlato, pois os crentes dessas regiões estavam vivendo dias difíceis, após
terem experimentado a conversão, enfrentavam diversas lutas, como perseguições dos
concidadãos judeus e gentios, enfrentando grande sofrimento decorrente. De certo modo,
com isso, Pedro está querendo mostrar que este mundo não é o lar dos cristãos. Eles são
“estrangeiros” aqui. Eles são “dispersos" aqui, pois nunca poderão encontrar neste mundo
seu verdadeiro lar. Por este motivo, precisam olhar para o mundo vindouro, pois lá
encontrarão um lugar onde não serão mais “forasteiros”, nem “dispersos”.

II. A Trindade a nosso favor

Porém, se por um lado, neste mundo somos apenas forasteiros e dispersos, nunca
devemos nos esquecer de que somos também “eleitos” para fazer parte do mundo
vindouro. Pedro, então, passa a falar do significado dessa eleição, ou melhor, de como
ela funciona. O verso 2 é simplesmente uma das declarações mais extraordinárias da
Escritura: "eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para
a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo”. Ou seja, toda a trindade contribuiu
para garantir que fôssemos “eleitos”.
A pessoa do Pai nos escolheu segundo (κατὰ) seu pré-conhecimento. Isso
certamente não significa que Deus tenha pré-visualizado o futuro dos crentes e visto os
que iam crer e com base nisso os teria escolhido, pois isso não seria uma escolha
verdadeira, seria apenas uma constatação da decisão pessoa. A escolha tem base no “pré-
conhecimento”, ou seja, um conhecimento profundo, Deus “conheceu” alguns de
antemão, e isso precisa apontar para um relacionamento, para um ato de amor e graça,
pois no Antigo Testamento, o termo se tem uma conotação pactual2. A pessoa do Espírito

1
O termo eleito é uma comum designação para Israel como povo de Deus (Thomas R.
Schreiner. 1, 2 Peter, Jude. The New American Commentary. Nashville: Broadman & Holman
Publishers, 2003, 37:53).
2
Schreiner diz: “Devemos começar por observar as dimensões pactuais da palavra. A palavra
"conhecer" em hebraico, muitas vezes refere-se ao amor da aliança que Deus concedeu a seu
povo (cf. Gen 18:19; Jer 1: 5; Amos 3: 2). As ricas associações desse termo continuam no Novo
participa santificando esses escolhidos (ἐν ἁγιασμῷ). O sentido mais provável da
construção da frase por causa da preposição “em" é que o ato da trindade de escolher para
salvação se dá em três etapas, sendo a primeira a “presciência" ou o pré-conhecimento
divino. O segundo ato é a nomeação do Espírito para ser aquele que deve “santificar" ou
seja, separar e purificar esses “pré-conhecidos”. E a pessoa do Filho também participa da
eleição, e agora Pedro usa outra preposição “para" (εἰς), e atribui duas palavras em relação
à Cristo e aos eleitos: “obediência" e “aspersão do sangue”. Não se trata, no meu
entendimento da obediência dos crentes, como a Tradução Revista e Atualizada
estabelece (é evidente que fomos eleitos para sermos filhos obedientes), mas o ponto aqui
parece ser aquilo que a Trindade faz por nós, e não aquilo que nós fazemos na salvação.
Sendo assim, no ato trinitário da eleição, o Filho é designado como aquele que deve
“obedecer" e “derramar” (sentido de aspergir) seu sangue para salvar esses eleitos.
Uma realidade extraordinária e paradoxal é essa que Pedro descreve a respeito da
identidade dos verdadeiros cristãos. São eleitos, porém forasteiros. Eles têm tudo, e não
têm nada. São de outro lugar, lá são príncipes, mas aqui, escória. Lá sentam-se em tronos,
aqui, precisam se esconder e viver a fé como fugitivos. O mundo pode estar contra os
crentes, com todo o seu poderio, com suas prisões, com suas armas de fogo, com todo o
engano da depravação que os persegue e atormenta. Sim, todo mundo está contra os
crentes. Mas eles têm a Trindade a seu favor. Um pai que se decidiu “conhecê-los de
antemão”, os amou, e decidiu que fossem salvos. Um Espírito Santo que decidiu ser
aquele que os limparia de todo o mundanismo, que os faria verdadeiros crentes. Um Cristo
que decidiu obedecer no lugar deles, decidiu morrer, verter seu sangue, para que as
maldições de seu povo fossem canceladas e a grande e impagável dívida fosse sanada.

III. Fundamentados na alegria

Após estabelecer a identidade dos cristãos de forma paradoxal, como um povo


eleito, porém forasteiro, Pedro avança na descrição sobre o fundamento da alegria do
crente, que é uma alegria escatológica. No verso 6, ele diz "nisso exultais, embora, no
presente…”. Ou seja, há um contraste aqui. Ele está falando de uma exultação em algo,
mesmo que no presente, a situação não esteja boa. Esse “nisso”, que é o fundamento da
exultação, o fundamento da alegria do crente, diz respeito a tudo o que ele falou entre os
versos 3-5:

"Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita
misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus
Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível,
reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a
fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo”.

A primeira expressão é uma declaração de que o Deus e pai de Jesus é bendito


(Εὐλογητὸς). De fato, Pedro disse que esse Deus nos pré-conheceu, e portanto, nos
escolheu, colocando toda a trindade envolvida nesse ato de escolha. Esse Deus, Pedro
diz, “segundo sua imensa (numerosa) misericórdia”, nos “regenerou” (ἀναγεννήσας).
Essa palavra é a responsável por estabelecer o paradoxo que será desenvolvido a seguir

Testamento” (Thomas R. Schreiner. 1, 2 Peter, Jude. The New American Commentary.


Nashville: Broadman & Holman Publishers, 2003, 37:53).
entre “alegria e sofrimento”. É por causa dela que nós experimentaremos essas duas
coisas conjuntamente. Porém, antes devemos entender melhor essa questão da
regeneração. Pedro diz que fomos regenerados e menciona três aspectos da regeneração:
Para uma viva esperança (εἰς ἐλπίδα ζῶσαν). Através da ressurreição de Cristo (δἰ
ἀναστάσεως Ἰησοῦ Χριστοῦ). Para uma herança (εἰς κληρονομίαν). Portanto, passado e
futuro alimentam a alegria do crente no presente. No passado está a ressurreição de Cristo,
como garantia de nossa própria ressurreição. No futuro está a herança.
Então, Pedro passa a falar da herança escatológica. Evidentemente, a figura é
inspirada na menção prévia ao fato de que os crentes nasceram de novo, ou foram
regenerados, pois “crianças têm o status de herdeiros”3. Ele descreve três características
dessa herança: Imortal ou incorruptível (ἄφθαρτον). Incontaminável (ἀμίαντον).
Inapagável (ἀμάραντον), que nunca perde o brilho ou o esplendor. São palavras
impressionantes que definem o tesouro precioso que Cristo conquistou para nós através
de sua ressurreição, é o prêmio que a graça divina reservou para nós.
Na sequência, ele menciona mais uma característica que se aplica tanto à herança,
quanto a nós que fomos regenerados: é a palavra “reservado”, ou “guardado”. Ele usa o
mesmo verbo (voz passiva) para descrever esse estado, tanto para a herança, quanto para
nós mesmos. A herança está guardada (τετηρημένην) nos céus para nós (ninguém pode
mexer com ela). E nós estamos sendo guardados (φρουρουμένους) para ela. Mais três
expressões completam o sentido desse “guardados" em relação a nós: no poder Deus (ἐν),
através da fé (διὰ), para a salvação (εἰς) que está preparada para se revelar no último dia.
A somatória de tudo isso é: segurança. Não há a mínima chance de perdermos essa
herança, pois é o poder de Deus que a guarda, e que nos guarda para ela, através da fé,
que é também um dom de Deus para nós. Portanto, essa herança é “o pleno cumprimento
da salvação, pela ressurreição física em um novo cosmos criado"4.
Então, Pedro diz: “nisso exultais, embora no presente, por breve tempo, se
necessário, sejais contristados por várias provações” (1Pe 1.6). Ou seja, o fundamento
dessa exultação é o Deus que nos regenerou e reservou uma herança para nós no céu, a
qual está perfeitamente guardada, enquanto nós mesmos estamos sendo guardados para
ela. O fundamento escatológico da alegria é sólido. Não decorre de algum prazer
momentâneo, ou de algum benefício temporal. Porém, veja novamente, o contraste. Veja
como ele retorna “do último tempo” para o presente. O futuro sustentando a alegria no
presente. Pois o tempo presente é mau. Apesar de Pedro falar em curtos períodos de
tribulação, é preciso lembrar que isso, talvez, seja uma comparação com a eternidade.
Diante da eternidade, por mais longos que sejam, sempre serão curtos. Paulo chamava
isso de “leve e momentânea tribulação”, justamente porque não se podia compará-la com
a glória da eternidade (2Co 4.17).
O que Pedro está dizendo é que pessoas que têm consciência de que são “eleitos
e forasteiros” neste mundo, devem encarar as provações com alegria, por causa de duas
coisas bem específicas que o sofrimento do teste produz: “para que, uma vez confirmado
o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por
fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” (1Pe 1.7). Ou seja,
os testes e o sofrimento têm o poder de purificar a fé tornando-a mais preciosa, e
redundam em glória e louvor a Cristo, quando ele se revelar. A revelação de Jesus Cristo
nada mais é do que o anúncio de sua segunda vinda. Então, na segunda vinda, Cristo

3
J. N. D. Kelly. The Epistles of Peter and of Jude. Black’s New Testament Commentary.
London: Continuum, 1969, p. 50.
4
G. K. Beale. A New Testament Biblical Theology: The Unfolding of the Old Testament in the
New. Grand Rapids: Baker Academic, 2011, p. 325
receberá glória, honra e louvor pelas vidas dos crentes que suportaram as provações, sem
abandonar a fidelidade a Cristo.
Porém, há algo ainda mais extraordinário que Pedro diz aqui: "a quem, não
havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria
indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8). Ele está falando de Jesus. Está dizendo que o
sofrimento nos aproxima do próprio Cristo, nos identificando com ele, nos fazendo amá-
lo pela fé. Só há uma razão pela qual o sofrimento pode fortalecer a alegria: por causa da
nossa identificação com Cristo. A verdade é que só entendemos o sofrimento dele quando
nós mesmos sofremos como ele. Ele foi submetido a testes durante toda a sua vida, mas
jamais pecou: esse é nosso alvo. O sofrimento pode nos fazer “ver” a Cristo pela fé de
uma forma única e intensa.
Portanto, escatologia é o futuro alimentando a alegria do crente no presente. Por
isso, ela é tão importante.