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UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO

DEPARTAMENTO DE AGRONOMIA – ÁREA DE FITOSSANIDADE


FITOPATOLOGIA I

CONTROLE FÍSICO DE DOENÇAS DE PLANTAS

Prof. Sami J. Michereff

1. INTRODUÇÃO ao patógeno, no menor tempo, resultando em um


tratamento uniforme e com menor gasto de
Embora o início do uso do controle físico de energia. O mecanismo de ação da temperatura,
doenças de plantas, como a termoterapia, tenha tanto no controle de patógenos quanto na injúria
sido contemporâneo à descoberta da calda do hospedeiro, é complexo, sendo que um ou
bordalesa, nota-se que os métodos químicos vários fatores podem estar envolvidos, como
tiveram um desenvolvimento expressivo quando desnaturação de proteínas, liberação de lipídeos,
comparados aos modestos avanços conseguidos destruição de hormônios, asfixia de tecidos,
com os métodos físicos. A acentuada evolução dos destruição de reservas e injúria metabólica com ou
fungicidas, entre outros fatores, deve-se sem acúmulo de intermediários tóxicos.
principalmente ao fato do controle químico estar O tratamento pelo calor pode ser feito,
baseado num produto que pode ser comercializado, basicamente, de duas formas: através de uma
despertando interesses econômicos. intensa e curta exposição, geralmente usada para
Atualmente, porém, com o interesse crescente erradicação de microrganismos, ou através de uma
na redução dos impactos negativos da agricultura pouco intensa e longa exposição ao calor, utilizada
ao meio ambiente, grande ênfase vem sendo dada a para reduzir a concentração do patógeno na planta
outros métodos de controle de doenças de plantas, e, geralmente, associada à cultura de meristemas.
além dos métodos químicos. Nesta modalidade de Para tanto, o material de propagação pode ser
controle são utilizados vários agentes físicos para tratado com água quente, ar quente ou vapor. De
reduzir o inóculo ou o desenvolvimento das modo geral, o tratamento com água quente é feito
doenças. Os principais são a temperatura, a com maiores temperaturas do que o método com ar
radiação, a ventilação e a luz. quente. Uma variação do método é a inativação
térmica localizada de vírus de plantas em
borbulhas ou garfos enxertados em cavalos
2. TERMOTERAPIA DE ÓRGÃOS DE imunes, por meio de mini-câmaras. A aplicação do
PROPAGAÇÃO calor é localizada na parte do porta-enxerto na
qual foi enxertada a borbulha ou o garfo
O uso da termoterapia no controle de doenças infectados, ficando o restante da planta fora da
de plantas teve início de uma forma empírica, no câmara, sob condições de casa de vegetação.
século passado, na Escócia, através do tratamento
de bulbos de plantas ornamentais com água
quente, antes do plantio. O principal objetivo da 3. TRATAMENTO TÉRMICO DO SOLO
termoterapia é a obtenção de material de
propagação vegetal livre de patógenos. Com tal
propósito, a termoterapia é um método efìcìente, 3.1. Vapor
que consegue eliminar os patógenos, tanto interna
quanto externamente, dos tecidos do hospedeiro. A desinfestação do solo pelo tratamento
O princípio básico da termoterapia reside no térmico em casa de vegetação ou em canteiro
fato de que o patógeno é eliminado por tratamentos geralmente é feita através do uso de vapor. O solo é
em determinadas relações tempo-temperatura que coberto com uma lona e o vapor produzido por
produzem poucos efeitos deletérios no material uma caldeira, é injetado sob a cobertura.
vegetal. Neste caso, quanto maior for a diferença Substratos também podem ser desinfestados em
entre a sensibilidade térmica do hospedeiro e do câmaras especiais, onde o vapor é injetado sob
patógeno, maiores serão as chances de sucesso da pressão, como no caso de autoclaves.
termoterapia. Uma das vantagens do método é ausência de
Vários fatores podem afetar a sensibilidade resíduos tóxicos, como pode ocorrer com o
térmica, como o teor de umidade do material tratamento químico, embora possa haver o
vegetal; o nível de dormência; a idade e o vigor acúmulo, em nível tóxico, de certos nutrientes,
especialmente das sementes; a condição das como o manganês, por exemplo. A elevação da
camadas externas do material devido ao efeito de temperatura durante a desinfestação pode causar
diversas variáveis, a relação tempo-temperatura diversas reações químicas no solo. A decomposição
não pode ser reduzida a uma fórmula geral da matéria orgânica é acelerada, causando a
aplicável a todos os casos. Ela deve ser liberação de amônia, dióxido de carbono e
determinada experimentalmente, sendo que, de produtos orgânicos. Os materiais inorgânicos são
modo geral, é escolhida a menor temperatura letal degradados ou alterados; os nitratos e nitritos são
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reduzidos a amônia e a solubilidade ou A elevação da temperatura do solo pela


disponibilidade dos nutrientes é modificada. solarização tem um efeito inibitório ou letal aos
Alterações nas propriedades físicas do solo organismos. Parte da população de patógenos é
podem ocorrer com relação às capacidades de morta pela exposição a altas temperaturas, que
absorção e capilaridade, à estrutura à cor e ao geralmente ocorrem nas camadas superficiais do
odor Após o tratamento térmico, o equilíbrio da solo solarizado. A sensibilidade ao calor
população microbiana, construído após longa apresentada por diversos patógenos de plantas
interação dos vários componentes, é destruído ou pode indicar a possibilidade de controle através da
profundamente modificado. De modo geral, as solarização (Figura 1). Porém, apesar da exposição
altas temperaturas atingidas tornam o tratamento do patógeno ao calor ser um importante fator, não
não seletivo, resultando na erradicação dos é o único mecanismo envolvido no método. Os
microrganismos, criando espaços estéreis, processos microbianos induzidos pela solarização
denominados vácuos biológicos. A recolonização do podem contribuir para o controle da doença, já que
solo é feita, basicamente, através dos o aquecimento do solo também atua sobre
microrganismos termotolerantes sobreviventes, dos organismos não alvo. Os propágulos dos
microrganismos do solo adjacente não tratado, do patógenos, enfraquecidos pelo aquecimento
ar da água ou daqueles introduzidos com material subletal, dão condições e estimulam a atuação de
vegetal. A forma como é realizada a recolonização antagonistas.
do solo tratado é de grande importância para a Devido ao fato das temperaturas atingidas pelo
ocorrência de doenças de Plantas: a redução da solo durante a solarização serem relativamente
população de antagonistas como resultado do baixas, quando comparadas com o controle através
tratamento térmico geralmente significa uma de aquecimento artificial, os seus efeitos nos
rápida disseminação do patógeno reintroduzido. componentes bióticos do solo são menos drásticos.
Assim, todos os cuidados devem ser tomados para De modo geral, os microrganismos saprófitas,
evitar a reintrodução do patógeno no solo tratado. dentre eles inúmeros antagonistas, são mais
tolerantes ao calor do que os patógenos de plantas
(Figura 1). Enquanto populações de muitos
3.2. Solarização do Solo microrganismos são reduzidas imediatamente após
a solarização, diversos actinomicetos, fungos
A solarização é um método de desinfestação do termófilos e termotolerantes e Bacillus spp. são
solo, desenvolvido em Israel, para o controle de menos afetados ou até mesmo estimulados. Não há
patógenos, pragas e plantas daninhas através do a eliminação de todos os microrganismos durante
uso da energia solar. O método consiste na a solarização, como ocorre no tratamento com
cobertura do solo com filme plástico transparente, vapor ou com fumigantes, não sendo criado,
antes do plantio, preferencialmente durante o portanto, o chamado vácuo biológico. A
período de maior incidência de radiação solar. O sobrevivência de tais microrganismos dificulta a
aumento do teor de umidade do solo antes da reinfestação do solo, promovendo um efeito a longo
cobertura, quer seja através de irrigação ou chuva, prazo do tratamento.
ajuda o processo, visto que em solo úmido as A solarização do solo não pode ser considerada
estruturas de resistência dos patógenos geralmente um método ideal de controle, visto que diversas
são mais sensíveis ao calor, a condutividade limitações restringem o seu uso, como a
térmica do solo é aumentada, assim como a necessidade de máquinas para sua aplicação em
atividade biológica, fatores que podem acelerar o extensas áreas; o custo do tratamento; a
controle dos patógenos. necessidade do terreno permanecer sem ser
Após a cobertura, as camadas superficiais do cultivado durante o período; a difícil drenagem de
solo apresentam temperaturas superiores às do grandes áreas com acentuado declive durante a
solo descoberto, sendo que o aquecimento é menor solarização, além de possíveis limitações
quanto maior for a profundidade. Por este motivo, climáticas. Entretanto, devido à facilidade e
a cobertura deve permanecer durante um período segurança de aplicação, tanto para o agricultor
suficiente (geralmente um mês ou mais) para quanto para o ambiente, a solarização pode ser
ocorrer o controle dos patógenos nas camadas considerada como uma das alternativas para o
mais profundas do solo. controle de patógenos habitantes do solo dentro de
um sistema de manejo integrado.
adequada para ser utilizada é aquela que mantém
as qualidades dos frutos e das hortaliças, sendo
4. REFRIGERAÇÃO geralmente apropriada para reduzir os danos em
pós-colheita causados por doenças. Muitas vezes,
O método físico mais conhecido e largamente as baixas temperaturas isoladamente são
utilizado para controlar doenças de produtos insuficientes para um controle adequado das
frescos é a refrigeração. Entretanto, apesar de ser doenças, havendo necessidade do emprego de
comum e de fácil utilização, muitas vezes é mal métodos suplementares.
empregado. As baixas temperaturas não destroem
os patógenos que estão dentro ou fora dos tecidos
dos vegetais frescos. Elas apenas retardam ou 5. ATMOSFERA CONTROLADA OU
inibem o crescimento e as atividades dos MODIFICADA
patógenos. Dessa forma, há redução do
desenvolvimento das infecções existentes e evita-se Esta técnica é utilizada para aumentar a
o início de novas infecções. A temperatura conservação dos alimentos após a colheita por
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supressão da taxa de respiração e/ou de doenças, limitações quanto ao máximo de energia para
através da alteração da composição de gases feixes de elétrons e raios X, foram selecionadas, em
durante o armazenamento ou transporte. A parte, por não produzirem radioatividade residual
alteração na concentração de C02 e 02 nas mensurável nos alimentos.
condições de armazenamento pode inibir o Doses elevadas de energia ionizante matam
desenvolvimento de patógenos diretamente, através todos os organismos, desde as formas mais
da supressão do crescimento e, indiretamente, simples até as mais complexas, sendo a
através da manutenção da resistência do danificação do DNA a causa principal da morte das
hospedeiro, retardando os processos de maturação células. Determinada dose pode ser fatal para
e senescência. Os efeitos benéficos da baixa certas células enquanto somente causa injúria em
concentração de oxigênio nos frutos só se tornam outras similares, que sob certas condições são
evidentes em atmosferas com menos que 5% de O2. reparadas.
Os benefícios são aumentados com a redução no O potencial de uso da energia ionizante para o
nível de oxigênio. Para C02, há necessidade de controle de doenças de pós-colheita depende da
elevar sua concentração acima de 5% para haver sensibilidade do microrganismo e da relativa
efeito sobre as doenças de pós-colheita. Assim, capacidade do produto para suportar a dose
devido às dificuldades de obter baixas requerida. A eficácia da energia ionizante no
concentrações de O2 (< 1%) e altas de CO2 (15- controle de microrganismos depende da
20%), é recomendada a utilização do efeito especificidade do organismo, do seu estádio de
combinado de baixo O2 e alto CO2, pois seus efeitos crescimento e do número de células viáveis no
são aditivos. Dessa forma, são normalmente tecido. Geralmente, a dose mínima requerida para
utilizadas atmosferas com a concentração de O2 na inibição efetiva de fungos em pós-colheita é de 175
faixa de 23% e de CO2 na de 5-7%, para reduzir a krad, sendo que muitos produtos frescos toleram
respiração dos frutos. até, aproximadamente, 225 krad, sem sofrer sérios
danos. O uso combinado de radiação ionizante
com água quente é benéfico devido ao efeito
6. ELIMINAÇÃO DE DETERMINADOS sinergístico. Na África do Sul, é utilizada
COMPRIMENTOS DE ONDA comercialmente a combinação água quente (55°C
por 5 min) com radiação (75 krad) para o
Filmes plásticos com capacidade de absorver tratamento de mangas, sendo relatada a ação
luz ultravioleta vêm sendo utilizados para reduzir a sinergística para o controle da antracnose
incidência de doenças fúngicas de plantas (Colletotrichum gloeosporioides) e da podridão mole
cultivadas em casa-de-vegetação. Filtros que (Hendersonia creberüma).
limitam a passagem dos comprimentos de ondas Apesar dos resultados positivos, especialistas
menores que 390 nm têm sido eficientes no estão convencidos de que, até hoje, um emprego
controle da brusone (Pyricularia oryzae) em mais intenso das radiações não ocorreu devido ao
plântulas de arroz, do mofo cinzento (Botrytis preconceito generalizado contra qualquer tipo de
cinerea) do tomateiro, da podridão do caule técnica nuclear. Entretanto, alimentos submetidos
(Sclerotinia sclerotiorum) do pepino e da berinjela, a essas radiações não apresentam contaminação,
da queima das folhas (Alternaria dauci) da sendo mais seguros do que o emprego de muitos
cenoura, da queima das pontas das folhas pesticidas.
(Alternaria porri) da cebola e da mancha foliar de
estenfílio (Stemphylium botryosum) em aspargo.
Outra opção que vem sendo testada é a 8. CONSIDERAÇÕES GERAIS
utilização de plásticos que absorvem os raios
infravermelhos. Nesse caso, a não transmissão de Num momento em que se discute a
raios infravermelhos emitidos pela terra e pelas sustentabilidade da agricultura, tendo em vista a
plantas durante a noite permite a manutenção da crescente preocupação com os aspectos
temperatura interna da casa-de-vegetação, ambientais, os métodos físicos tomam importância
evitando que as plantas sofram com a queda e voltam a ser estudados. A importância pode ser
brusca da temperatura. Além deste efeito, a notada com o considerável aumento do uso de
manutenção da temperatura noturna reduz a métodos físicos, como é o caso da solarização em
umidade relativa e, consequentemente, não diversos países. Muitos trabalhos de pesquisa,
favorece doenças foliares. porém, ainda são necessários para o pleno
desenvolvimento de métodos físicos de controle de
fitopatógenos.
7. RADIAÇÃO

Em proçessamento de alimentos, a energia 9. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


ionizante é utilizada, principalmente, para eliminar
ou reduzir a população de microrganismos e de AGRIOS, G.N. Control of plant diseases. In: AGRIOS,
insetos, para inibir a germinação de bulbos e G.N. Plant pathology. 4th ed. San Diego: Academic
Press, 1997. p.171-221.
tubérculos e para retardar a maturação e
senescência das frutas. O cobalto60 e o césio137, GHINI, R.; BETTIOL W. Controle físico. In: BERGAMIN
geradores de feixes de elétrons e de raio X, são as FILHO, A.; KIMATI, H.; AMORIM, L. (Eds.). Manual
fontes de energia ionizante aprovadas para uso em de fitopatologia: princípios e conceitos. 3. ed. São
processamento de alimentos. O Co60 e o Ce137 Paulo: Agronômica Ceres, 1995. v.1, p.786-803.
emitem raios gama. Essas fontes, com certas
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GHINI, R.; BETTIOL W. Controle físico de patógenos Universidade Federal Rural de Pernambuco, 2000.
radiculares. In: MICHEREFF, S.J.; MENEZES, M. (no prelo).
Patógenos radiculares em solos tropicais. Recife:

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