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PSICOLOGIA SOCIAL – Profº Edmilson Manoel Coelho

Título: A multideterminação do humano e a formação de grupos

A partir dessa disciplina, vamos aos estudos da subjetividade humana, especificamente,


a sua construção a partir de sua interação social.
Bom, se o nosso intuito é conhecer o processo de construção do indivíduo a partir de
suas relações sociais, e se o campo de estudo da psicologia social é possibilitar esse
conhecimento, convido todos vocês a iniciar os nossos trabalhos.
Quero propor nessa primeira etapa de estudo resgatar, primeiramente, a
multideterminação do ser humano. Será que nós nascemos prontos ou nos desenvolvemos
ao longo da vida? Vamos buscar essa resposta agora.

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Vamos para nossa Primeira atividade, leiam o artigo a seguir:


RESENHA PSICOLOGIA SOCIAL E PROCESSO GRUPAL: A
OCORRÊNCIA ENTRE PENSAR, FAZER E SENTIR EM SILVIA LANE
Sueli Terezinha Ferreira Martins

http://dissertandopsicologia.blogspot.com.br/2013/08/resenha-psicologia-social-e-
processo.html
O artigo Psicologia Social e Processo Grupal: A coerência entre Fazer, Pensar e Sentir
em Sílvia Lane, elaborado por Sueli Terezinha Ferreira Martins, através da Universidade
Estadual Paulista, São Paulo, Brasil. Nos faz refletir sobre a Psicologia Social e o Processo
Grupal. A união destas duas temáticas abordadas por Sílvia Lane, foi o passo principal para o
início de seus estudos e pesquisas. Portanto, o artigo apresentado nos faz refletir sobre esta
prática.

LANE em seus artigos contempla a concepção histórica e dialética de processo grupal,


utilizando-se de materiais para suas reflexões os pressupostos a respeito do materialismo
dialético considerando assim os aspectos psicossociais, as características grupais, a vivência
subjetiva, e a realidade objetiva e o caráter histórico do grupo.
Segundo o Existencialismo; “O caráter essencial da existência é a subjetividade. Assim
não se pode definir ou conceituar a subjetividade como faz a ciência natural. Só se pode
descrevê-la, apreendê-la e compreendê-la sob a forma de uma história pessoal, dirá
KIERKEGAARD, ou sob a forma de uma temporalidade, dirá Heidegger”.
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Sueli Terezinha enfatiza em seu artigo a produção sobre grupo que foi constituído durante
as décadas dos anos 80 e 90 por Sílvia Lane, relatando assim sobre alguns dos artigos e livros
que serviram como embasamento para a sua produção textual.
Para LANE (1981); “A Psicologia Social não deve ser pensada apenas como uma
“ciência” que estuda o comportamento social do sujeito. Pois, a partir deste ponto surge a
seguinte questão: Quando o comportamento se torna social?”. Devemos lembrar que o sujeito
é singular, pois cada organismo humano tem suas características peculiares. De acordo com
esta afirmativa “caberia à Psicologia Social recuperar o indivíduo na
Intersecção de sua história com a história de sua sociedade – apenas este conhecimento
nos permitiria compreender o homem enquanto produtor da história (p.13). Portanto ficam claras
e evidentes algumas ações da Psicologia quando detêm a sua preocupação para os
comportamentos decorrentes.
LANE quando traz para a vivência o Processo Grupal, ela não está falando em grupo ou
em Dinâmica de Grupo, ao contrário ela enfatiza a discussão a respeito do caráter histórico e
dialético do grupo. Trazendo esta perspectiva para o lado social, sabemos que em alguns
grupos, como por exemplo: os adolescentes, visando sua adolescência, é algo cultural, pois não
são todos os ambientes que exigem este tipo de “cultura”, ou seja, isto ocorre de lugar para
lugar e depende muito de um contexto sociocultural.
Então, o Processo Grupal está além das fronteiras de um grupo, pois ele busca a raiz do
sujeito e toda a sua história, ou seja, toda a sua formação, ou seja, ela social ou cultural.
Segundo LANE (1984b); “Ressaltar o caráter histórico do grupo implica compreender o grupo,
na sua singularidade, expressa múltiplas determinações e as contradições na sociedade
contemporânea”. E assim, seguir algumas premissas que LANE considera para conhecer o
grupo:
1) O significado da experiência e da ação grupal só pode ser encontrado dentro de
uma perspectiva histórica que considere a sua inserção na sociedade, com suas
determinações econômicas, institucionais e ideológicas;
2) O próprio grupo só poderá ser conhecido enquanto um processo histórico, e
neste sentido talvez fosse mais correto falarmos em processo grupal, em vez de grupo.
(LANE, 1984b, p.81)
Portanto, o presente artigo nos mostra em linhas gerais que o principal objetivo de LANE
ao desenvolver seus estudos e pesquisas, que é transmitir de forma dinâmica o real interesse
da Psicologia Social juntamente com os Processos Grupais.
Visando que seu interesse pelo Processo Grupal surgiu a partir de suas experiências com
seus alunos durante a disciplina de Processo Grupa que foi ministrada pela própria, na PUC –
São Paulo.
Deixando bem claro que a Psicologia Social está aberta para outras alternativas, sem
deixar sua verdadeira essência que é estudar o homem que está sempre em movimento, isto é,

está em constante mudança seja Social, Cultural, Histórica e/ou Psicossocial.

ÉRICA SILVA

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Será que as pessoas nascem com qualidades e defeitos? Quando alguém afirma: "você
não tem jeito, nasceu para trair..." explicitamente está dizendo que a pessoa já vem pronta de
fábrica, que suas características são inatas?
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Para entender melhor o indivíduo e suas relações, busca-se trilhar a linha teórica do
materialismo histórico. A linha de pensamento desta teoria diz que o indivíduo não pode ser
concebido como um ser natural, porque ele é um produto histórico, nem pode ser estudado
como ser isolado, porque ele se torna humano em função de ser social.
Resumindo "o homem é um ser sócio-histórico".
O aspecto biológico que o indivíduo carrega quando nasce não é suficiente para garantir
sua vida em sociedade.
É necessário adquirir aptidões, apreender as formas de satisfazer as necessidades,
resumindo, apropriar-se do que a sociedade humana criou no decurso de seu desenvolvimento
histórico.
As aptidões se formarão a partir do contato com o mundo dos objetos e com o fenômeno
da realidade objetiva, resultado da experiência sócio-histórica da humanidade. É o mundo da
ciência, da arte, dos instrumentos, da tecnologia, dos conceitos e ideais. Para se apropriar desse
mundo, o homem desenvolve atividades que reproduzem os traços essenciais da atividade
acumulada e cristalizada nesses produtos da cultura, como por exemplo, a aprendizagem do
manuseio de instrumento e da linguagem.
Assim, a assimilação pelo homem de sua cultura é um processo de reprodução no
indivíduo das propriedades e aptidões historicamente formadas pela espécie humana. A criança
é introduzida no mundo da cultura por outros indivíduos.
Sugestão: Uma dica de filme: "O Curioso Caso de Benjamin Button"

" ...pessoas vêm e vão. Alguma delas não se lembra os nomes, no


entanto, nos conferem experiências que moldam o nosso modo de pensar e
até mesmo a nossa vida..."
As disposições inatas que individualizam cada homem, deixando marcas no seu
desenvolvimento, não interferem no conteúdo ou na qualidade das possibilidades de seu
desenvolvimento, mas apenas em alguns traços particulares da sua atividade.
Essas diferenças entre os indivíduos existem, mas não são elas que justificam as grandes
diferenças que temos em nossa sociedade, pois, essas diferenças biológicas geram apenas
alguns traços particulares na atividade dos indivíduos, ou seja, todos aprendem a fazer, só que
colocam em seu fazer alguns traços particulares, singulares, individuais.

O homem não nasce homem... Aprende a ser homem.

O homem compreende o mundo ao seu redor


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O homem compreende o que ocorre em sua realidade. Quando ele percebe algo, reflete
sobre esse real na forma de imagem- pensamento. Os homens compreendem, relacionam e
conceituam o que está a sua volta.
A consciência reflete o mundo objetivo. É a construção do mundo subjetivo a partir da
realidade objetiva. Sua formação se deve ao trabalho e às relações sociais, surgidas entre os
homens no decorrer da produção dos meios necessários para a vida.
A consciência separa o homem dos outros animais e é o que lhe dá condições de avaliar
o mundo que o cerca e a si mesmo.

O homem apreende o seu mundo de várias formas: pelas emoções, sentimentos e


através do inconsciente.
A consciência, os sentimentos, as emoções e o inconsciente formam a subjetividade, ou
seja, o mundo interno do indivíduo. Nesse sentido, o humano é determinado por todos esses
elementos. Ele é multideterminado.

E a personalidade humana, como é formada?

Título: Personalidade

Quando dizemos "aquela pessoa tem aptidão para cantar", podemos entender que
aptidão são coisas que essa pessoa pode fazer. No entanto, personalidade é o que uma pessoa
é.
Há muitos traços de personalidade descritos em linguagem cotidiana, por exemplo, a
agressividade, sociabilidade e impulsividade.
A maioria das pessoas pode perceber imediatamente diferenças individuais nesses
traços e entender como essas variações poderiam afetar determinadas situações. Podemos
destacar algumas dimensões da personalidade humana:
1. Extroversão (sociável, gregário [vive em bando], decidido, falante,
expressivo);
2. Ajustamento emocional (emocionalmente estável, não deprimido, tranquilo,
satisfeito);
3. Afabilidade- simpatia (cordial, confiante, de boa índole, tolerante,
colaborador, complacente);
4. Senso de responsabilidade (digno de confiança, organizado, perseverante,
íntegro, empreendedor);
5. Interesse (curioso, imaginativo, sensível, aberto, brincalhão)
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Mas vocês devem estar se perguntando como se formam os grupos, como é a sua
dinâmica.

Formação e desenvolvimento dos grupos

Atividade: Em sua opinião, o que é um grupo? Cite alguns exemplos.

Pessoal, podemos definir Grupo como um conjunto de duas ou mais pessoas que interagem
entre si, de tal forma que cada uma influência e é influenciada pela(s) outra(s). Ou seja, os
membros de um grupo definem importantes distinções psicológicas entre si e as pessoas que
não participam do grupo. Em geral, elas:

Saiba mais sobre o assunto, acessando o site


http://www.psicologia.com.pt/areas/area.php?cod=d9

Definem a si mesmas como membros; são definidas pelas outras como membros;
identificam-se em interação frequente; participam de um sistema de papéis interdependentes;
compartilham normas comuns; buscam metas comuns, interdependentes; sentem que sua
filiação ao grupo é compensadora; possuem uma percepção coletiva da unidade; unem-se em
todo confronto com outros grupos ou indivíduo.
Mas como se dá o desenvolvimento dos grupos?

Desenvolvimento dos grupos

À medida em que os grupos se desenvolvem, seus membros modificam tarefas


formalmente prescritas, esclarecem papéis pessoais e definem normas. As pesquisas indicam
que esses processos de desenvolvimento tendem a seguir quatro etapas:
Iniciação=> Diferenciação=> Integração=> Maturidade.
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A primeira etapa de desenvolvimento do grupo, a iniciação, é marcada pela incerteza e


ansiedade. Membros novos se concentram em conhecer suas mútuas opiniões e habilidades
pessoais.
Quando o grupo entra na segunda etapa de desenvolvimento, a diferenciação, é
provável que surjam conflitos à medida em que os seus membros tentam alcançar acordo
quanto ao propósito, às metas e aos objetivos do grupo. Diferenças pronunciadas de opinião
também podem surgir à medida em que os membros tendem obter consenso sobre como
exatamente executarão a tarefa prescrita para o grupo.
Tendo amadurecido a etapa de diferenciação, os membros do grupo devem resolver
conflitos acerca de outras questões cruciais na terceira etapa de desenvolvimento do grupo, a
integração. A integração está voltada ao restabelecimento do propósito central do grupo à luz
da estrutura de papéis desenvolvida durante a diferenciação. A tarefa do grupo pode passar a
ser definida em termos informais que modificam o seu propósito formal e refletem na experiência
e as opiniões dos membros do grupo. Alcançar um consenso sobre o propósito do grupo ajuda
a desenvolver um sentido de identidade entre os membros e promove a coesão interna.
Também fornece o fundamento para o desenvolvimento de regras, normas e procedimentos
adicionais para ajudar a coordenar interações entre seus membros e facilitar a busca de metas.

Mas atenção pessoal! O desenvolvimento do grupo é um processo dinâmico e contínuo,


no qual os entendimentos informais sustentam, ou ocasionalmente deslocam, as características
formais do grupo e de suas tarefas.
Nem todo grupo passa de um modo previsível e gradual por todas as quatro etapas
descritas.

Processo grupal
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Você já deve ter percebido que a nossa vida cotidiana é marcada pela vida em grupo.
Estamos o tempo todo nos relacionando com outras pessoas. Mesmo quando ficamos sozinhos,
a referência de nossos pensamentos são os outros: pensamos em nossa família, no namorado,
nos amigos, etc. Encontramos determinantes sociais em qualquer circunstância humana, e
nesse sentido, podemos dizer, portanto, que toda psicologia é social.

Instituições e grupos

A instituição é um valor ou regra social reproduzida no cotidiano com estatuto de verdade,


que serve como guia básico de comportamento e de padrão ético para as pessoas, em geral. A
instituição é o que mais se reproduz e o que menos se percebe nas relações sociais. Perpassa,
de forma invisível, todo tipo de organização social e toda a relação de grupos sociais. Só
recorremos claramente a estas regras quando, por qualquer motivo, são quebradas ou
desobedecidas.
Se a instituição é o corpo de regras e valores, a base concreta da sociedade é a
organização. As organizações, entendidas aqui de forma substantiva, representam o aparato
que reproduz o quadro de instituições no cotidiano da sociedade. A organização pode ser uma
igreja, uma escola, uma creche, uma empresa etc.
As instituições sociais serão mantidas e reproduzidas nas organizações. Portanto, a
organização é a unidade prática das instituições.

O elemento que completa a dinâmica de construção social da realidade é o grupo- o lugar


onde a instituição se realiza. Se a instituição constitui o campo dos valores e das regras, nesse
sentido, um campo abstrato, e se a organização é a forma de materialização destas regras
através da produção social, o grupo, por sua vez, realiza as regras e promove os valores. O
grupo é o sujeito que reproduz e que, em outras oportunidades, reformula tais regras. É também
o responsável pela produção dentro das organizações, ora assumindo uma posição acrítica a
essas regras e valores ora assumindo uma posição transformadora.
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Dinâmica de grupos

Como já foi dito anteriormente, as pessoas vivem, em nossa sociedade, em campos


institucionalizados. Geralmente, moram com suas famílias, vão à escola, ao emprego, à igreja,
ao clube, convive com grupos informais, como o grupo de amigos do jogo de futebol, de um
centro comunitário etc.
Muitas vezes, a institucionalização nos obriga a conviver com pessoas que não
escolhemos. Exemplos: sala de aula, grupo de trabalho, etc.
Vocês perceberam que um grupo apresenta uma dinamicidade e vai muito além do que
a simples soma de pessoas?

Quando um grupo se estabelece (grupo de jovens, trabalho, etc), os fenômenos grupais


anteriormente mencionados passam a atuar sobre as pessoas individualmente e sobre o grupo,
ao que chamamos de processo grupal. A coesão é a forma encontrada pelos grupos para que
seus membros sigam as regras estabelecidas. Quando alguém começa a participar de um novo
grupo, terá seu comportamento avaliado para verificação do grau de adesão. Os membros mais
antigos já não sofrem esse tipo de avaliação e se, eventualmente, quebram alguma regra, não
são cobrados por isso. Ocorre que, no caso dos membros mais antigos, é conhecido o grau de
aderência ao grupo e sabe-se que eles não jogam contra a manutenção do grupo. Esta certeza
da fidelidade dos membros é o que chamamos de coesão grupal. Os grupos, de acordo com
suas características, apresentam maior ou menor coesão grupal.

Outro aspecto que envolve a individualidade é a resposta que o grupo dá às diferenças


individuais. Elas serão admitidas, desde que não interfiram nos objetivos centrais do grupo, na
sua ideia central ou nas suas características básicas.
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Os objetivos do grupo irão sempre prevalecer aos motivos individuais. Quanto mais o
grupo precisar garantir sua coesão, mais ele impedirá manifestações individuais que não
estejam claramente de acordo com seus objetivos.
Para encerrar, quero que vocês pensem a respeito dessa frase:

"Cada pessoa cumpre vários papeis sociais na vida real. Suas características de
personalidade mesclam-se as variáveis externas no desempenho de cada papel dando a
este um colorido ou " marca" absoluta singular"

Referêncial bibliográfico

BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi.
Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 1999. 368
p.
LANE, Silvia T. Maurer; CODO, Wanderley (Org.). Psicologia social: o homem em
movimento. 13. ed. São Paulo: Brasiliense, 1995. 220 p.
Wagner III. John A. Comportamento organizacional, John R. Hollenbeck; Sao Paulo:
Saraiva, 1999.

Título: Ideologia

Para caracterizar a ideologia, recorremos à autora Chauí, que nos preconiza 6 aspectos:

1. A IDEOLOGIA E O GRUPO SOCIAL

A IDEOLOGIA PERTENCE SEMPRE A UM GRANDE GRUPO DE PESSOAS, NUNCA


A UM SUJEITO, SEPARADAMENTE

Todos nós participamos de certos grupos de ideias. São espécies de "bolsões"


ideológicos onde as pessoas têm opiniões muito parecidas com as nossas e dizem coisas nas
quais também acreditamos, coisas pelas quais também lutamos. Ou seja, quando damos
nossas opiniões, quando participamos de algum acontecimento, de alguma manifestação,
temos muito pouco do que é nosso aí; reproduzimos conceitos que já circulam nesses grupos.
Ideologia não é, portanto, um fato individual; não atua inclusive de forma consciente na
maioria dos casos, pois repetimos conceitos e vontades que já existiam anteriormente.

2. O CONTEÚDO SIMBÓLICO
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A IDEOLOGIA VIVE FUNDAMENTALMENTE DE SÍMBOLOS; ELA TRABALHA COM


SÍMBOLOS E É FORMADA POR ESTEREÓTIPOS

Os símbolos

A ideologia não fala diretamente, mas representa os fatos e interesses de forma


simbólica. Ex: Bandeira do Brasil.
Os símbolos têm a função de falar de forma indireta, não-clara, sobre os fatos, e de levar
as pessoas a pensarem de forma não-imediata, não-direta, no assunto, por meio desse
mecanismo inconsciente que é o mecanismo simbólico.

Os símbolos não atuam de forma isolada. A ideologia reúne uma série de símbolos e os
organiza de maneira coerente. Assim, quando as pessoas imaginam um projeto de vida ou um
certo tipo de sociedade, quando aspiram a determinados bens materiais a serem obtidos num
futuro, elas dão forma à ideologia por meio desse conjunto de símbolos.
O casamento: é um ritual de nossa sociedade e sua vivência representa também uma
"opção ideológica", ou seja, na prática do casamento, as pessoas deixam transparecer,
comunicam sua ideologia.

Hoje em dia, a prática do casamento, com todo seu ritual simbólico, pertence a uma
ideologia tradicional, de cunho religioso...
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Da mesma forma, a moral, os diversos valores e crenças são puras ideias que, por
estarem consagradas na sociedade, funcionam como forma de pressão sobre os outros, bem
como de manutenção de uma certa situação social, injusta ou não, que garante uma relativa
coesão, uma certa unidade entre grupos sociais e da sociedade inteira.

Os Estereótipos e Preconceitos

Estereótipos são ideias, imagens, concepções a respeito de pessoas, objetos, fatos, etc.,
que as pessoas criam, aprendem ou simplesmente repetem, sem avaliar se são ou não
verdadeiras - são vícios de raciocínio.
Imagine estereótipos como cozinheiro, vovó, médico, mecânico. O problema é que essas
figuras não são reais, ou seja, elas representam ideias fixas, imutáveis. O estereótipo vicia nossa
observação e nos faz reconhecer apenas aqueles modelos prontos, "oficiais".
Os estereótipos são os responsáveis pela criação de preconceitos, isto é, racismos,
discriminações, segregações e comportamentos dessa natureza. O preconceito é algo
condenável, porque impõe uma ideia de uma pessoa que está à sua frente sem que a conheça.
O estereótipo ocupou o lugar da pessoa, a ideia, o lugar do ser humano.

Estigma

Refere-se às marcas, atributos sociais que um indivíduo, grupo ou povo carrega, e cujo
valor pode ser negativo ou pejorativo. (presidiário, homossexual, negro, etc...)

Esses são atributos facilmente reconhecíveis como carregados de um valor negativo para
a maioria das pessoas, e determinam, para o indivíduo, um destino de exclusão ou a perspectiva
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de reivindicação social pelo direito de ser bem tratado e ter oportunidades iguais. O estigma
revela que a sociedade tem dificuldade de lidar com o diferente.

Um aspecto bastante importante desse processo é o poder de envolver um indivíduo, um


grupo ou um povo inteiro e acompanhar o indivíduo desde o seu nascimento (uma característica
física, por exemplo) ou ser adquirido ao longo da vida. O atributo negativo pode ser
internalizado pelo indivíduo e constituir aspecto importante de sua autoimagem e autoestima.
= Profecia Auto-realizadora.

3. A IDEOLOGIA COMO UM CONJUNTO DE VALORES

VALOR É ALGUMA COISA QUE O INDIVÍDUO PREZA, ALGO PELO QUAL A


PESSOA TEM UMA GRANDE CONSIDERAÇÃO

Os valores são muito diferentes, diversificados e numerosos. Na prática, as ideologias


reúnem certos valores (assim como fazem os símbolos).

Todas as ideologias estão centradas em valores básicos e gerais.

Exemplos:

A ideologia do Catolicismo, doutrina orientada para a prática de fazer o bem para


alcançar um valor supremo, a salvação.

A ideologia do comunismo: valor supremo à construção de uma sociedade sem


classes. Para isso, é preciso lutar, organizar as massas para que adquiram consciência de que
podem tomar o poder.

Capitalismo: neste, o valor fundamental é a projeção, a possibilidade da pessoa


conseguir se destacar na sociedade e diferenciar-se das demais.
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4. A IDEOLOGIA COMO VISÃO DE MUNDO

IDEOLOGIA É UMA FORMA DE VER O MUNDO

A "visão de mundo" implica uma determinada forma de se relacionar com os objetos, com
as pessoas, com a natureza, mas sempre considerando que se trata de uma forma de tomar
partido. A ideologia significa estar sempre favorecendo uma coisa e não outra, optando por isso
e não por aquilo. Por mais hesitante, por mais indeciso que o sujeito seja - mesmo por mais
indiferente que pretenda parecer - sua ideologia será, de qualquer forma, sempre uma
participação pró ou contra os fatos, os acontecimentos, as opiniões das quais participa.

5. A IDEOLOGIA MOBILIZADORA
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A IDEOLOGIA POSSUI TAMBÉM UMA GRANDE CAPACIDADE DE MOBILIZAR AS


PESSOAS E AS MASSAS

Trata-se de uma energia que torna as pessoas ativas no dia-a-dia. Esse componente de
ação, de atividade dos indivíduos, é o mais importante da ideologia, porque faz com que as
pessoas produzam obras de arte, escrevam, trabalhem por alguma causa, explorem os outros,
cuidem da natureza...

6. A IDEOLOGIA E A AÇÃO

A IDEOLOGIA MOSTRA-SE COMO PROGRESSISTA, AVANÇADA OU


REVOLUCIONÁRIA, NÃO PELAS DECLARAÇÕES, PELA OSTENTAÇÃO, PELO QUE O
SUJEITO FALA. ELA SÓ O É PELA PRÁTICA, PELA AÇÃO DO SUJEITO

Não importa o discurso. O importante é a prática, a correspondência entre o dizer e o


fazer.

Ex: partidos políticos dizem-se democratas e na prática negam totalmente a democracia


e exercem o mais rigoroso autoritarismo.

Ultimamente, está havendo uma ampla tendência de se definir ideologia de acordo com
o proposto por Thompson (1995:76): "Ideologia é o uso das formas simbólicas para criar ou
manter relações de dominação", ou seja, é o sentido a serviço de relações assimétricas,
desiguais.

"Dominação é uma relação que se estabelece entre pessoas e grupos, na qual uns
interferem e se apropriam das capacidades ou habilidades de outros, de maneira assimétrica.
Portanto, existem diversas formas de dominação que podem ser: econômica, de gênero, de
raça, étnica, de idade, religiosa, etc.
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Sobre as formas de dominação de gênero, destacamos a violência contra a mulher.


https://www.youtube.com/watch?v=4tNg-C-WZUM

Se tomarmos ideologia como uso de formas simbólicas para criar ou reproduzir relações
de dominação, podemos concluir que as representações sociais, pelo fato de serem simbólicas,
podem ser ideológicas, mas não podemos deduzir isto a priori.
Para dizer que uma representação social é ideológica, precisamos primeiro mostrar que ela
serve, em determinadas circunstâncias, para criar ou reproduzir relações de dominação.

Uma Representação Social é ideológica se, com o uso de formas simbólicas, em


determinadas circunstâncias, serve para criar ou reproduzir dominação. Convém aqui
fazer uma breve colocação acerca do que sejam essas formas simbólicas e a dominação. As
primeiras estão inseridas nos contextos sociais e correspondem a comportamentos, falas,
imagens, textos, produzidos pelos indivíduos e reconhecidos por eles e pelo grupo. Dominação
é "uma relação que se estabelece entre pessoas ou grupos onde uns interferem e se apropriam
das capacidades ou habilidades de outros, de maneira assimétrica" (Oliveira & Werba, 1998,
p.112)

Atividade: Faça a leitura do texto e dê a sua opinião sobre a representação social do


padrão estético da sociedade contemporânea.

http://www.psicologia.com.pt/artigos/ver_artigo.php?codigo=A0240&area=d9&
subarea=
Ser mulher, Ser feia, Ser excluída

A função da ideologia é nos impedir de pensar nos determinantes de nossas condições


de vida.

A ideologia opera pela inversão (função social feminina), pela produção do imaginário
social (explicações coerentes; prescreve à sociedade o que deve e como deve pensar, falar,
sentir e agir), pelo silêncio.

A função principal da ideologia é ocultar e dissimular as divisões sociais e políticas, dar-


lhes a aparência de indivisão e de diferenças naturais entre os seres humanos.
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Indivisão: apesar da divisão social das classes, somos levados a crer que somos todos
iguais porque participamos da ideia de "humanidade" ou da ideia de "nação" e "pátria" ou de
"raça", etc.

Diferenças naturais: somos levados a crer que as desigualdades sociais, econômicas e


políticas não são produzidas pela divisão social das classes, mas por diferenças individuais dos
talentos e das capacidades, da inteligência, da força de vontade maior ou menor, etc.

A produção ideológica da ilusão social tem como finalidade fazer com que todas as
classes sociais aceitem as condições em que vivem, julgando-as naturais, normais, corretas,
justas, sem pretender transformá-las ou conhecê-las realmente, sem levar em conta que há uma
contradição profunda entre as condições reais em que vivemos e as ideias.

Por exemplo, a ideologia afirma que somos todos cidadãos e, portanto, temos todos os
mesmos direitos sociais, econômicos, políticos e culturais. No entanto, sabemos que isso não
acontece de fato: as crianças de rua não têm direitos; os idosos não têm direitos...

Para resumir, pessoal, ideologia é um conjunto de ideias, de procedimentos, de valores,


de normas, de pensamentos, de concepções religiosas, filosóficas, intelectuais, que possui certa
lógica, certa coerência interna e que orienta o sujeito para determinadas ações, de uma forma
partidária e responsável.

Para concluir, o conceito de ideologia ...

As pessoas quando fazem escolhas, tomam posições, opiniões, elas acabam assumindo
proposições ideológicas.
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Ideologia é tomar partido, é uma posição que o indivíduo assume em seu cotidiano em
relação a tudo que lhe rodeia.

Ao realizar qualquer ação, estamos agindo ideologicamente. As pessoas possuem idéias,


valores, visão de mundo, construídos a partir de suas vivências em sociedade. Ninguém
consegue se despir de tudo isso quando emite uma opinião ou desenvolve uma ação.

Título: Alienação

Nesta terceira webaula do campo de estudo da psicologia social, abordaremos o conceito


de Alienação.

Para reconhecer que o modo de ser e conviver do indivíduo são permeados por
ideologias e identificar a possibilidade da existência de estados de alienação, vamos realizar a
leitura dos seguintes textos: "O Operário João"; "A professora Teresa" e o pintor Luís".

Reflitam sobre cada personagem quanto aos aspectos relacionados ao trabalho, aos
sonhos, ideais. Levantem possíveis questões ideológicas relacionadas aos estilos de vida
apresentados. Observe o grau de consciência de cada personagem em relação aos estilos de
vida pessoais e sociais traçados.

"O OPERÁRIO JOÃO"

É trabalhador da construção civil, jovem, solteiro, de aproximadamente 20 anos de idade,


que veio do Nordeste há pouco tentar a vida no Sul. Embora tenha começado nesse tipo de
emprego como operário da indústria de construção e viva de uma maneira simples na periferia
da cidade, João aspira a uma outra vida.

Ele tem vários amigos em São Paulo e, através deles, passou a conhecer um pouco mais
do modo de vida daqueles que ganham melhor e vivem com mais conforto. Por isso, nosso
jovem João não é um operário típico de obras. Ainda que precise trabalhar muito, levantar cedo,
terminar o dia "morto de cansaço", pegar ônibus cheio e em casa só ter vontade de dormir, João
sonha com uma outra vida. Às vezes, imagina-se numa bela casa, tendo tempo de sobra para
descansar, passear, ver televisão ou ir à praia. Além disso, João tem também outro desejo: ele
gostaria de se casar com Maria.
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Maria é namorada de João. João conseguiu, a duras penas, comprar um anel para dar
de presente a Maria no seu aniversário. Os sonhos de João incluem Maria. Com ela pretende
ter uma vida, uma residência, um lar decente. João imagina uma casa grande, bonita, cheia de
móveis como os que viu na loja perto de onde trabalha. A casa deverá ser para João a prova de
que ele "conseguiu vencer". Lá estarão, além dos móveis, enfeites e peças de decoração, que
confirmarão que João não foi mais um dos nordestinos que veio e nada conseguiu aqui. Mais
ainda, João imagina, daqui a alguns anos, quando estiver um pouco melhor na vida, ter um
negócio próprio. Talvez uma firma de material de construção.

Fundamentalmente, João quer ter coisas. Ele sabe que usando coisas, podendo mostrá-
las aos outros, ele se sentirá melhor. Um dia, quando voltar à sua terra, se ele puder ir com um
carro, uma roupa boa e objetos de qualidade, ele poderá demonstrar aos demais que "subiu na
vida". Para isso, é preciso dinheiro. João acredita - não só ele, como também os demais colegas
- que o dinheiro fará de fato que ele possa realizar seus sonhos. O importante é poder mostrar
essas coisas aos outros, mostrar que pôde comprar tudo isso.

O que João não entende muito bem é que, para subir na vida, para passar para uma
camada social melhor, para ganhar mais dinheiro, não basta apenas trabalhar. É preciso, às
vezes, conhecer como as pessoas agem para isso e entender que a sociedade não facilita muito
às pessoas para que subam na vida. Ele sabe de alguns exemplos de pessoas que se fizeram
por si mesmas, e esses exemplos marcam muito claramente a imaginação de João, que acha
que também um dia poderá, como os outros que se fizeram por si mesmos, tornar-se uma
pessoa muito rica, muito poderosa. Ele não sabe exatamente como isso se dá. Alguns, ele sabe,
chegaram a isso por meio da sorte, por meio de uma loteria ou então, porque souberam aliar-
se a pessoas ricas ou de influência. Os caminhos para chegar a uma posição alta são
desconhecidos, mas João sonha com isso.

Enquanto trabalha na construção, enquanto pensa no seu futuro, em Maria, na sua casa,
na sua vida, João imagina que isto seja uma coisa bastante possível a todos e que basta um
pouco de investimento, um pouco de trabalho. Pelo fato de trabalhar bastante e de viver
conforme a ordem na sociedade, João acredita ser esta a única maneira de melhorar na vida e
acredita também que quem regula tudo isso é a própria sociedade em que vive. Ele pretende
progredir dentro das regras, da ordem, dos critérios que já estão definidos pela sociedade e
dedica muito respeito às pessoas que já estão numa posição melhor. Não apenas um respeito,
mas uma veneração.

A descrição desta primeira personagem apresenta de forma bastante sintética,


simplificada, certo tipo ideológico.
PSICOLOGIA SOCIAL – Profº Edmilson Manoel Coelho
19

"A PROFESSORA TERESA"

O segundo tipo ideológico é uma professora chamada Teresa, que dá aulas noturnas de
História para o Ensino Médio e de manhã estuda na universidade. Ela tem uma vida bastante
agitada. É uma pessoa que, como João, espera melhorar um pouco de vida e o faz através do
estudo. No local onde estuda, ela desenvolve uma pesquisa dentro do tema "História e
Sociedade".

Teresa está preocupada com um recente problema social brasileiro - se os Sindicatos


são capazes de conduzir a luta dos trabalhadores. Esta questão surgiu na cabeça de Teresa
logo que ela começou a participar mais ativamente das lutas sindicais. Por ter amigos operários,
ela pôde vivenciar mais de perto os movimentos de reivindicação (por aumento de salários,
melhores condições e menor jornada de trabalho, mais benefícios sociais, mais ajuda hospitalar)
e sentir que alguma coisa estava dificultando as conquistas dos trabalhadores. Segundo ela, os
operários agiam corretamente, mas o sindicato, seu órgão de representação e defesa, estaria
atrasando essas realizações.

Esse estudo que Teresa faz na universidade é um estudo que lhe interessa
pessoalmente. Ela gosta desse assunto e procura conhecer o tema de forma um pouco mais
profunda. Ela imagina que a pesquisa poderá ser feita diretamente com os trabalhadores, indo
ao seu local de trabalho e conversando com eles para saber como é a sua relação com o
sindicato. O final da pesquisa a professora pretende que seja uma confirmação de alguma coisa
que ela já imagina: o problema dos trabalhadores é o próprio sindicato.

"O PINTOR LUÍS"


PSICOLOGIA SOCIAL – Profº Edmilson Manoel Coelho
20

Por fim, temos um rapaz chamado Luís, que tem o dom de pintar. Luís é adolescente,
vive num bairro de classe média urbana e desde pequeno tem demonstrado muito jeito para a
pintura. Na escola, desenhava muito bem. Depois, iniciou um tipo de pintura em aquarela,
evoluindo mais tarde e frequentando durante um certo tempo uma escola de pintura. É muito
idealista, no sentido de acreditar que a pintura pode comunicar muito às pessoas, que ela pode,
enquanto imagem, não somente reproduzir o mundo, mas também passar uma mensagem além
da pura cópia da natureza ou dos objetos. Ou seja, a pintura, segundo ele, seria capaz de fazer
com que as pessoas sentissem emoções diferentes das que sentem, simplesmente vendo os
fatos e a natureza.

Luís participou de uma exposição para principiantes em uma cidade do interior e nesse
encontro foi muito feliz. A comissão julgadora gostou muito de seus trabalhos e lhe deu o
primeiro lugar. Depois de ter ganho essa distinção, Luís conheceu um homem, chamado
Henrique - um intermediário na comercialização de quadros - que se interessou muito pelos
seus trabalhos. Ele tinha muitos contatos e poderia vender as telas de Luís para uma série de
compradores: bancos, firmas, etc. Luís gostou da ideia e entregou-lhe suas obras para serem
vendidas.

O senhor Henrique, por ser negociante, via a pintura de uma perspectiva diferente da de
Luís. Ele conseguiu que Luís encarasse seus quadros como algo que poderia ser comprado e
vendido, como um objeto que se coloca no mercado. Isso entusiasmou o jovem, mas ao mesmo
tempo fez com que ele começasse a sentir o tipo de transformação que acontecia com seu
"produto". A partir do momento em que seus quadros passaram a ser vendidos, procurados e
expostos nos lugares públicos, Luís começou a perceber algo estranho - os quadros "soltavam-
se" dele. Aquilo que ele havia criado, feito com bastante amor, aquelas obras, nas quais ele
havia investido grande emoção e das quais gostava muito, de repente começaram a circular por
outros locais, ambientes, regiões e passaram a viver sem Luís: "Parecia que os quadros viviam."
Aí ele sentiu algo estranho - o que ele tinha criado já não era mais dele, era do mundo.

Compreendendo os três personagens.

Esses três personagens nos possibilitarão entender que todos nós somos portadores de
certas ideologias. Mas como a ideologia se forma, se materializa e transparece?

Começamos pelo personagem João:

A ideologia capitalista: João tem o desejo de subir na vida, ter propriedades, vestir-se
bem. Mas como essa ideologia se desenvolve? Na consciência de João, por meio de contato
com amigos a partir de seu trabalho.

A alienação:

Poucos indivíduos se realizam, sentem prazer com o trabalho. O trabalho de João é um


processo de criação de produtos que, uma vez no mercado, torna-se mercadoria. A atuação é
pouco significativa, mecânica, o produto não altera seu cotidiano. A alienação ocorre porque há
a separação entre a produção (o ato de fabricar) e a consciência de sua utilização (a finalidade
do produto)¿ perda do caráter de satisfação social, permanecendo apenas a noção do dever
cumprido ao final do dia.

O trabalho como crítica à vida cotidiana:


PSICOLOGIA SOCIAL – Profº Edmilson Manoel Coelho
21

Há uma insatisfação com o trabalho devido à remuneração injusta - o proprietário do


trabalho ganha mais.

Primeiramente, o trabalho é um meio para sobreviver, e segundo, é um meio para


melhorar de vida. Aí desponta a ideologia: eu trabalho não apenas para comer, mas sim, para
ter no futuro uma vida mais cômoda. A ideologia surge a partir do processo de trabalho como
algo que faz parte da vida e da consciência das pessoas, as quais, através desse processo,
almejam provocar mudanças. João incorporou a ideologia "burguesa".

A ostentação: João se vê numa situação contraditória: acredita que trabalhando vai


mudar de vida e vê várias pessoas trabalhando e não conseguindo mudar (paralelamente,
acredita em saídas mágicas: loterias, etc).

O problema não é querer melhorar, mas a forma como se busca isso, ou seja, quando
isso se dá desvinculado de qualquer princípio, como um jogo de vale tudo.

Subir na vida não é só para estar melhor, mas também para se diferenciar dos demais
(pensamento burguês): ideologia que defende a diferenciação. Ex: João vai voltar para sua
cidade e se exibir por meio de objetos ideológicos (símbolos).

Ele não pensa em subir na vida para aplicar esse sucesso em objetos que incluam o bem-
estar dos amigos e parentes. Isso aparece em sua consciência como uma necessidade
"ostentatória". A ideologia aparece como troca de relação entre indivíduos afetivamente
próximos, por uma relação entre objetos (relação simbólica). A sua imagem, e não ele por si
próprio, deverá ter efeito sobre os outros.

Os princípios: sua afirmação social está na realização desse sonho de ascensão. Como
isso vai acontecer ele não sabe bem, só sabe que pelos caminhos tradicionais é difícil. Mesmo
assim, ele luta por meio deles. Entretanto, no tipo ideológico em que ele está em parte
incorporado, os fins justificam os meios. Não importa como você vai chegar lá, o importante é
que você chegue.

Ele tem a ilusão de que uma vez possuidor daquelas coisas, terá autonomia, será livre e
feliz, porque é ilusão, porque há a mística do dinheiro.

A fala dos objetos e dos comportamentos: João quer casar com Maria e, para
conquistá-la, a presenteia com um anel, mercadoria comprada com esforço. Ele se diferencia
das outras pessoas, sendo que o objeto fala o que pretende ser.

Além dos objetos, os corpos e a postura também falam.

Vejamos outros exemplos:

A fala da moda: uso de roupas específicas que mostram tendências à ideologia


conservadora...ou fashion.
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A fala dos ambientes: João, através do carro imaginário, vai falar aos outros que está
bem. Maria, com o seu anel, vai dizer que arrumou um bom partido para se casar. Assim como
os objetos, algumas instalações ou decorações falam e atuam em geral com uma linguagem
que expressa poder. Há ambientes que se impõem a nós, nos oprime (prisão, quartel, uma casa
fortemente vigiada).

Objetos, consumo, prestígio: Anel - um bem de ostentação. Os bens de ostentação na


sociedade não são apenas para uso, mas para uma satisfação. Ex: sapato. Os significados da
mercadoria são: a) uso; b) ostentação; c) símbolo de afeto; d) lucro (para o revendedor). Cada
significado do anel representa um valor para o indivíduo que o porta. A ideologia se expressa
no tipo de valor que o portador do bem associa a ele. A ideologia que João incorpora é a
diferenciação-prestígio.

O fetiche do dinheiro: nesta ideologia que João incorpora, o dinheiro tem ação central. Ele
significa alguma coisa que tem "poderes mágicos". Costuma-se dizer que o dinheiro, neste caso,
é um fetiche. O que é fetiche? No passado, na antiguidade, eram certas imagens, certas figuras
humanas ou animais que, embora fossem meros objetos, exerciam um grande fascínio sobre
as pessoas e pareciam dotadas de poderes especiais. Ex: bezerro de ouro (deus). Quando há
200 anos implantou-se a sociedade industrial capitalista (a nossa), todas essas formas
religiosas, místicas, de fetiche, deram lugar a outro tipo de fetiche: o dinheiro. O dinheiro, se não
realiza tudo, realiza quase tudo. O capitalismo vive de fetiches. As pessoas idolatram certos
objetos (carro, casa, joias, marcas). É o fetiche das mercadorias. Nesta sociedade, o que o
indivíduo é dá lugar ao que o indivíduo tem. O ser é secundário (caráter, sentimentos,
sensibilidade, consciência).
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O dinheiro é o maior fetiche porque dá a ilusão da possibilidade de conseguir coisas


fabulosas. No fundo, ele só realiza uma coisa: a compra de mercadorias. As pessoas compram
mercadorias na ilusão de que estão realizando seus desejos na sociedade (nesse caso, a
mercadoria funciona como símbolo e substitui relações individuais e sociais).

É correto atribuir ao dinheiro a capacidade de fazer as pessoas felizes? Parece que não.
A nossa cultura (literatura, biografias, políticas) está cheia de coisas que mostram isso. As
imensidões de bens materiais não servem para preencher o vazio do mundo das mercadorias.

A ideologia como prática cotidiana: através do exemplo do trabalhador João,


abordaram-se alguns elementos claros do tipo de ideologia majoritária, isto é, a ideologia que a
maioria dos indivíduos compartilha. Isto não significa que ela seja uma ideologia que satisfaça
os indivíduos. Eles a compartilham porque imaginam que dessa maneira encontrarão a
felicidade: possuir objetos. A realização íntima fica em segundo plano.

Os componentes do pensamento de João são comuns na nossa cultura e exemplificam


que a ideologia não é alguma coisa que está apenas na cabeça das pessoas. Não se trata de
um amontoado de ideias, mas de um tipo de vida. Vive-se segundo uma ideologia. Ela não é
algo imposto, faz parte da vida cotidiana. São práticas que circulam entre as pessoas que
convivem com elas, conforme os seus interesses. São elementos que estão no dia-a-dia das
pessoas, algo alimentado diariamente.

A ação dos meios de comunicação e de certas instituições (escola, igreja, clube) é


reforçar continuamente essa ideologia. O contato e a conversa com os amigos atuam também
da mesma maneira.

A professora Teresa

Pesquisa e verdade científica

A pesquisa é um tipo de atividade chamada científica, caracterizada por investigar e


poder afirmar coisas com mais autoridade; ela goza de grande prestígio na sociedade porque
se trata de estudo objetivo, e não opinativo.

A ciência SE CONSTRÓI POR MEIO DE PESQUISA.

O CAMINHO É CORRETO e PARTE DE UMA SUPOSIÇÃO, IMPRESSÃO SOBRE OS


FATOS. Teresa acha que o sindicato fica enrolando os operários e não leva à frente as
reivindicações deles aos seus patrões. Para chegar a esta suposição, ela refletiu sobre o
problema dos operários. Fez-se pesquisa.

O levantamento da questão é a definição do problema. O próximo passo é arriscar uma


resposta, elaborar uma hipótese que deverá ser testada.

Considera-se que o conceito de ciência na sociedade é o meio de deter o conhecimento,


sendo que os resultados não dependem do indivíduo, mas do objeto. Esse conhecimento é
aceito por todos, é uma idéia que ultrapassa o senso comum.
PSICOLOGIA SOCIAL – Profº Edmilson Manoel Coelho
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A questão polêmica dá-se porque a pesquisa é feita por indivíduos (estes escolhem
critérios de mensuração, definem objeto, se inserem em certas proposições ideológicas, sendo
que ideologia é tomar partido).

A mística da pesquisa

Problema=> hipótese=> estudo de campo (entrevista, coleta de dados)=> análise de


dados=> resultado - a pesquisa é apresentada como um dado sólido fundamentado. Esta é a
mística da pesquisa: com ela eu posso falar, não por mim, mas "pelos fatos". Minha palavra será
mais respeitada porque será a "verdade dos fatos".

O vício iluminista

a) Todo o procedimento da pesquisa foi direcionado. Teresa conduziu a pesquisa por


onde poderia obter bons resultados;

b) são seres humanos que fazem pesquisa. Esses possuem ideias, valores, visão de
mundo, e ninguém pode se despir de tudo isso na pesquisa. Pesquisando ou não, estão agindo
ideologicamente.

c) a postura iluminista se inspira no séc. passado, quando os intelectuais se achavam


"iluminados" pela razão, com mais saber que os demais. O iluminismo intelectual pode ser
incorporado por intelectuais, como Teresa, que quer "conscientizar" a população, trazendo-lhes
a " verdade".

Objetividade da ciência

Procurar pelo "saber real", imaginando como real aquilo produzido pela classe dominante
(que segundo Teresa, agia corretamente), e desconsiderar que este saber também é ideológico,
parcial, não a totalidade.

O que ocorre é que uma pesquisa é mais precisa que as outras em razão dos meios,
métodos que utilizam. É só isso que pode pretender a ciência: ser mais objetiva do que a outra,
mas nunca ser a verdade, o "saber real".

Ideologia como seleção

Quando a professora Teresa investiga os trabalhadores, conhece um lado da história,


como também o lado do sindicato e o do patrão. Cada lado tem sua postura, que é ideológica.
PSICOLOGIA SOCIAL – Profº Edmilson Manoel Coelho
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Portanto, podemos dizer que ideologia é uma perspectiva que parte do indivíduo, do grupo ou
de toda uma classe. É sempre subjetiva e sempre uma das posições do jogo.

As pessoas têm uma quantidade de escolhas a fazer quando fazem ciência, sendo que
tal escolha é conduzida por seus interesses.

Quando alguém está fixado na busca de alguma coisa, orienta sua atenção para
encontrar aquilo. Quando o pesquisador vai analisar, ele seleciona, separa apenas alguns
aspectos que para ele são fundamentais. A ideologia na ciência, portanto, também é a escolha
de elementos principais, segundo a opinião do pesquisador.

Na ciência humana e social, não se pode chegar a uma concepção objetiva porque
pesquisador e pesquisados são pessoas que partilham certas ideologias.

Pintor Luís

Em sua ocupação, o trabalhador se desenvolve por absoluto prazer. Uma condição


oposta a João. Na pintura, existe uma identidade entre pintor e a obra. Porém, quando Luis
Pinta, ele também está reproduzindo ideologia. A arte inclui necessariamente uma mensagem
que vai além de pura manipulação de técnicas. E ao incluir uma mensagem, ele reproduz
necessariamente o mundo e a visão de mundo do pintor. Quando fazemos arte, de fato,
expressamos ideologias, pois na medida em que colocamos alguns temas nos quadros,
estamos lhes dando um destaque, uma projeção, estamos valorizando, favorecendo, tomando
partido. Onde está o trabalhador e a sua criatividade? Aí está a produção e a reprodução da
ideologia.

Arte e mercadoria

Luis descobriu que a pintura não é só objeto, uma criação sua. Ela também é mercadoria.
Pode ser comprada e vendida, característica das sociedades capitalistas-=> transformar os
objetos em mercadorias.

Isto é uma série de apontamentos necessários e não um desestímulo, pois com a


pesquisa científica, chega-se a um resultado mais objetivo do que aqueles que se baseiam no
senso comum. É apenas um ponto de vista.
PSICOLOGIA SOCIAL – Profº Edmilson Manoel Coelho
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Os objetos que os indivíduos possuem comunicam aos demais o que eu sou ou o que
pretendo ser. Os objetos acabam sendo portadores de ideologias.

Existem outras formas também de transmissão de informação, além da posse dos


objetos. Outras coisas também falam, como o próprio corpo do indivíduo, a sua postura, o seu
jeito de ser. Tudo isso é transmissão de informação. Podemos exemplificar os grupos e seus
vestuários com os góticos, os skatistas, os grupos que usam roupas de marca, etc.

Os ambientes também expressam, transmitem uma ideia que pode ser a riqueza, o poder,
a busca do prestígio.

SER MULHER, SER FEIA, SER EXCLUÍDA

Joana de Vilhena Novaes

Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-Rio


Pesquisadora e psicóloga responsável pelo Núcleo de Doenças da Beleza do CIAP
(Centro de Investigação e Atendimento Psicológico) da PUC-Rio

Correspondência
para: Rua Tenente Mário Pinto 183.
Gávea Rio de janeiro, RJ, Brasil,
22451-290 Email:
joananovaes@terra.com.br

INTRODUÇÃO
O que significa, para uma mulher, ser feia nos tempos atuais? Qual o preço pago, os sacrifícios
impostos e os sofrimentos vividos? A quais práticas se submetem para escapar do “intolerável da feiúra?”
“A gordura acabou com a minha vida” estampava a manchete do Jornal da Família, suplemento
dominical do jornal O GLOBO, de 19/01/2003.

Sabemos que, historicamente, a imagem de mulher se justapõe com a de beleza e, como segundo
corolário, à de saúde (fertilidade) e juventude. A contemporaneidade, contudo, parece ter levado ao
paroxismo tais representações, como veremos no decorrer de nosso trabalho. As imagens refletem corpos
super trabalhados, sexuados, respondendo sempre ao desejo do outro ou corpos medicalizados, lutando
contra o cansaço, contra o envelhecimento ou mesmo contra a constipação.
Implícita está a dinâmica perfeição/imperfeição, buscando atender aos mais antigos desejos do ser
PSICOLOGIA SOCIAL – Profº Edmilson Manoel Coelho
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humano, conforme narram os mitos, os elixires e fontes de eterna juventude.


Beleza exterior e saúde, aparência desagradável e doença, cada vez mais se associam como
sinônimos, no tocante às representações do corpo feminino. A questão tradicional, aceitar ou não o corpo
recebido parece transformar-se em – como mudar o corpo e até que ponto?

O corpo nos dizia Levi Strauss, é a melhor ferramenta para aferir a vida social de um povo. Ao
corpo cabe algo muito além de ocupar um espaço no tempo. Cabe a ele uma linguagem que se institui
antes daquilo que denominamos “falar”, que se exprime, evoca e suscita uma gama de marcas e falas
implícitas.
O corpo fala e as marcas nele feitas também. A questão estética se impõe como forma e fôrma e o
que é belo pode vir a ser feio. Da mesma maneira, o belo pode instituir um padrão de feiúra. No fundo,
vivemos no fio de uma navalha, fio este que tenuamente separa feiúra e beleza.

O presente trabalho tem como objetivo investigar qual a relação existente entre a mulher e a beleza
na contemporaneidade e qual o preço pago para “ser bela”. A feiúra, conforme demonstraremos a seguir,
é uma das mais penosas formas de exclusão social na atualidade. Mas quais são as insígnias da feiúra?
Acreditamos que significa não ter o corpo e a estética aceitos socialmente, ou seja: ser jovem, ser magro
e ser saudável.
Buscamos também apontar como a imagem da mulher e do feminino continua associada à da
beleza, havendo cada vez menos tolerância para os desvios nos padrões estéticos socialmente
estabelecidos. Neste sentido, tomamos a gordura como o paradigma da feiúra e apontamos para os
processos de exclusão vividos por aqueles que nela se enquadram. As falas que ilustram o trabalho, e que
utilizaremos como epígrafes, referem-se à uma pesquisa realizada em 2001, sobre a qual falaremos mais
adiante.

ESTÉTICA E EXPECTATIVAS SOCIAIS : O DEVER MORAL DE SER BELA

“Acho que a cultura atual preconiza que estejamos bem para poder expor ao máximo o corpo. Hoje
em dia vale muito mais um braço sarado do que roupas caríssimas, e olha que eu posso dizer, pois
já fui estilista.”

Courtine (1995) evidencia, através de alguns exemplos históricos, o fascínio e o estado de


corpolatria característico da sociedade em que vivemos. Segundo o autor esse processo remete- nos ao
fato de que, em outros momentos históricos, a apreciação estética do corpo, se dava de uma forma menos
fragmentada, na qual não estavam em jogo pedaços/recortes da anatomia humana, sendo valorizado um
todo harmônico.

“A atração que Charles Atlas exercia sobre o público dos anos 20 centrava-se na visão do conjunto
de uma pujança corporal harmoniosa; o sucesso de Jhonny Weismuller, nas salas de cinema dos
anos 40, decorria da elegância “natural” de sua musculatura(...) A fascinação que o corpo de
PSICOLOGIA SOCIAL – Profº Edmilson Manoel Coelho
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Schwarzenegger provoca sobre o grande público da telinha é de outra natureza: congelado numa
luz crua, quase cirúrgica, o body-builder faz sobressair os mínimos detalhes de sua massa corporal.
Estrias das fibras musculares, ramificações da rede vascular, palpitações de um tórax estufado: a
imagem ideal do corpo que o body-builder de hoje configura é aquela dos corpos destinados aos
estudos anatômicos”. (p.103)

É também preciso ressaltar que o controle exercido através da fiscalização de um olhar


minucioso sobre a aparência e com o aval da ciência, contribui para regulamentar diferenças e
determinar padrões estéticos em termos daquilo que é próprio e impróprio, adequado ou inadequado,
normal ou anormal. Como bem sugere Durif, “o corpo torna-se álibi de sua própria imagem.” (apud
Daniels1999:29).
Esse controle da aparência traduz-se não somente na atribuição de características estéticas, como
investem-nas de julgamentos morais e significados sociais.

“Um professor disse que se eu emagrecesse me tratariam diferente. É claro que os caras não vão
olhar para uma banhuda e sim para a saradona, mas as pessoas acham que se emagrecessem passariam
a fumar Marlboro, andariam de BMW e os cabelos cresceriam louros.” (SIC)

É interessante notar como os discursos que normatizam o corpo, sejam eles científico, tecnológico,
publicitário, médico, estético, etc., vão, pouco à pouco, tomando conta da vida simbólica/subjetiva do
sujeito. Nas palavras de Daniels, (1999):

“As instâncias que normatizam o corpo invadem as dimensões expressivas e simbólicas da


corporeidade, fornecendo imagens e informações que reconfiguram o próprio âmbito do vivido
corporal. O leitor é sempre aquele que possui um conhecimento muito limitado e confuso de seu
corpo”. (1999:50)

Com efeito, os cuidados físicos revelam-se, invariavelmente, como uma forma de estar preparado
para enfrentar os julgamentos e expectativas sociais. Da mesma forma, todo o investimento destinado aos
cuidados pessoais com a estética vincula-se à visibilidade social que o sujeito deseja atingir – evitar o
olhar do outro ou à ele se expor está diretamente relacionado as qualidades estéticas do próprio corpo!
Segundo Malysse (1997), esforçamo-nos o ano todo com exercícios massacrantes para no verão
termos a recompensa de poder ir à praia expor nosso corpo sem vergonha. Disciplinamos o corpo à
freqüentar uma academia de ginástica a fim de que, as custas de muito suor e calorias perdidas,
consigamos reconhecimento social e aprovação.

O prazer é, irreversivelmente, associado ao esforço, o sucesso à determinação, e a intensidade do


esforço é claramente proporcional à angústia provocada pelo olhar do outro. Nada aqui é gratuito – tudo
é obtido num sistema de regulação de trocas, seja ele dentro da lógica capitalista ou inserido no
pensamento do sacrifício cristão.

Em um artigo intitulado “Os Stakhanovistas do Narcisismo”, Courtine (1995) discute o caráter


PSICOLOGIA SOCIAL – Profº Edmilson Manoel Coelho
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hedonista, que muitos apontam na chamada cultura do corpo. Retraça a origem aos Estados Unidos, país
onde as práticas sociais, sobretudo aquelas ligadas ao corpo, são mais evidentes e aponta para o caráter
prescritivo das disciplinas corporais, herança do puritanismo e da cultura do “faça o melhor de si mesmo”.
Para Courtine, “a pastoral do suor”, de inspiração puritana, foi uma as molas mestras do body building,
com a crença de que a moralidade não é apenas uma questão só de piedade religiosa, mas também de
forma e disciplina muscular.

De acordo com Durif, (1990) a imagem que as revistas oferecem para os leitores à respeito de
seus próprios corpos, investe neste jogo de espelhos produzido entre o corpo e o olhar do outro,
operando na construção da auto-estima e da auto-imagem, sendo: “tanto um eixo de construção como
lugar de contradições inibidoras devido ao poder de coação social voltado para suas dimensões mentais,
afetivas e sociais”. (1990:309)

Para Roland Barthes, (1982) a imagem corporal deve ser compreendida como uma resultante da
influência que o ambiente exerce sobre o sujeito, num processo em que as representações corporais
estão em constante transformação. Assim, nas palavras de Barthes: “meu corpo é para mim mesmo a
imagem que eu creio que o outro tem deste corpo”. (1982:645)

Contudo, sua maior contribuição foi destacar que inúmeras táticas de sedução e intimidação são
elaboradas como um reflexo da fragilidade e vulnerabilidade existentes na construção da própria imagem
corporal. Tais estratégias são articuladas para darem conta da expectativa que supomos os outros terem
sobre o nosso corpo. E é este aspecto tirânico das relações humanas com referência ao corpo, que justifica
a constelação de atitudes negativas face à feiúra.

Aparentemente tratada como banal, a modelagem da boa aparência na verdade é investida de


grande carga ideológica, fazendo com que a lógica do consumo permeie todos os investimentos estéticos.
Em recente pesquisa (Novaes 2001a,b) sobre as academias de ginástica da zona sul carioca
observou-se, na fala das entrevistadas, o terror que a gordura provoca:

“Na cultura e na moda atual, infelizmente, conjugamos: roupas ínfimas com corpos secos,
destituídos de qualquer gordura, para meu desespero, gordinhas não são apreciadas.” (sic)

“..conforme já disse, quando venho malhar e mantenho o meu peso ideal tá tudo azul, saio, me
divirto, levo uma vida normal, quando não - é depressão na certa, não me relaciono nem com os meus
filhos. Namorado então, nessas épocas, nem pensar!” (sic)

Como podemos observar, a ordem é cooptar tudo que desvie do padrão. E nada, na atualidade, é
mais divergente do padrão do que a gordura – a exemplo do movimento negro, talvez fosse o caso de
criarmos uma ação afirmativa para os gordos!
PSICOLOGIA SOCIAL – Profº Edmilson Manoel Coelho
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O DIFÍCIL PESO DA GORDURA:A DOR DA FEIÚRA

“...se não saio para malhar, fico ociosa comendo em casa, conseqüentemente engordo e por fim
deprimo. Nessas fases, nem acendo a luz porque não suporto a minha imagem horrorosa, caída,
toda flácida no espelho.”

Em um interessante artigo que trata a obesidade como um fenômeno social com diversas
representações, Fischler, (apud Sant’Anna,1995) tenta construir uma classificação dos estereótipos morais
ligados aos obesos.
Uma das primeiras coisas assinaladas pelo autor é o caráter de ambigüidade que as representações
sociais sobre a gordura assumem no imaginário atual. Damos aos obesos um tratamento contraditório e
nele, reside um paradoxo importante a ser destacado: aos gordos, associamos estereótipos como simpatia
e amabilidade, por outro lado, sua imagem inspira a lipofobia como um sintoma social. E é neste horror à
gordura, que uma série de técnicas de emagrecimento são forjadas - avalizadas pelos discursos construídos
nas malhas da cultura do fitness e do bodybuilding.

Na contemporaneidade, a obesidade assume a forma mais representativa de alijamento social. Com


relação ao julgamento social sobre a gordura, chamamos a atenção para a mais interessante contribuição
que o texto de Fischler (1995) nos oferece: a criação de dois tipos fundamentais de estereótipos morais
referentes à obesidade.
Nesta classificação, o autor divide os obesos em dois grupos que variam de acordo com
determinados padrões de comportamento e cujas denominações são as seguintes: obesos benignos e
obesos malignos. No primeiro grupo, o autor enquadra o indivíduo de comportamento expansivo,
extrovertido, brincalhão – o típico gordinho “boa praça”, que parece querer desculpar- se pela inadequação
física compensando, tal fato, através da convivência agradável. Já no segundo, figuram as pessoas que se
negam a efetuar qualquer tipo de transação simbólica com vistas a serem socialmente aceitas. Frases do
tipo: gordo tem obrigação de ser simpático, ilustram bem o que autor tenta demonstrar em seu argumento.

Ao que parece, as pessoas bonitas têm prerrogativas. Ao vermos uma pessoa muito bonita
parecemos desculpar todo e qualquer tipo de defeito de caráter. Inversamente proporcionais aos
comentários depreciativos em relação as pessoas gordas, são aqueles associados aos indivíduos de bela de
aparência. Aos belos, tudo é desculpado e permitido, pois a beleza, em si, é a moeda de troca.
Não havendo qualquer tipo de restituição simbólica que possa despertar a piedade alheia, os gordos
pertencentes ao últipo grupo são mantidos excluídos, feito párias sociais, pois já não participam das regras
do jogo social.

Não à toa, na sociedade contemporânea, os obesos são denominados “malignos” ou “malditos” –


como no jocoso termo empregado por Fischler. Possuem também, um comportamento visto como
depressivo e por isso, desprovido da obstinação necessária para a contenção de suas medidas corporais.
PSICOLOGIA SOCIAL – Profº Edmilson Manoel Coelho
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Enfim, sua imagem demonstra um certo desânimo perante a vida e traduz fracasso no agenciamento do
próprio corpo e dos seus limites.
Numa sociedade como a nossa, na qual o máximo da valoração social não reside na realização das
ideologias/utopias, mas na realização dos projetos individuais – nada, então, mais antipático e que desperte
menos solidariedade do que um indivíduo incapaz de empenhar-se no projeto pessoal da boa aparência.
Se, historicamente, as mulheres preocupavam-se com a sua beleza, hoje elas são responsáveis por
ela. De dever social (se conseguir, melhor), a beleza tornou-se um dever moral (se quiser eu consigo). O
fracasso, não se deve mais a uma impossibilidade mais ampla, mas a uma incapacidade individual.
Enquanto nos séculos passados podíamos culpar a natureza, na contemporaneidade, a negligência
é a responsável e a culpa é individual. Segundo Baudrillard (1970) o que hoje podemos observar é a
"moralização do corpo feminino", o que indica a passagem de uma estética para uma ética do corpo
feminino.
Partindo, então, da premissa de que os imperativos estéticos são, simultaneamente, produzidos e
reforçados por expectativas socialmente instituídas, é possível concluir-se que é a relação com a
alteridade, ou seja, com o olhar do outro, que atribui uma avaliação demasiadamente depreciativa a
respeito da imagem corporal que o sujeito constrói sobre si. Nota- se, contudo, que ao descrever a própria
imagem, o indivíduo tende em querer desvencilhar-se dos adjetivos mais depreciativos, fazendo uso de
eufemismos e diminutivos para mascarar sua real aparência.
É interessante notar a maneira peculiar e afetuosa, parecendo muitas vezes negar a realidade, como
a maioria das mães de crianças obesas descrevem seus filhos – referem-se aos mesmos como gordinhos,
cheinhos ou gulosos, enquanto na escola seus colegas utilizam-se de adjetivos agressivos e que denotam
uma evidente depreciação moral: (balofo, hipopótamo, paquiderme, rolha de poço...) Usando este tipo de
denominação, as mães parecem desculpar seus filhos perante a sociedade, que os encara como glutões e
inadequados. É também através da adjetivação carregada de afeto que fornecem a valoração não
encontrada socialmente.
Fischler (op.cit) sublinha, ainda, um outro tipo de julgamento moral que surge de forma recorrente
no imaginário social. Nele, indagamo-nos se os gordos são vítimas do seu metabolismo e da sua carga
genética ou, culpados por um comportamento transgressor com relação à comida.

De acordo com a enquête feita pela autor, um número expressivo de pessoas atribuem aos obesos
a responsabilidade por sua condição, ou seja, são considerados, simultaneamente, descontrolados e com
uma voracidade desmedida. Embora, socialmente, compreendidos possuidores de uma espécie de
compulsão, no caso da glutoneria, o sentimento moral de culpa e responsabilidade não lhes é aliviado.

Como bem aponta o autor, as categorias que representam a gordura, a magreza e a obesidade
mantém-se, relativamente, estáveis ao longo dos séculos. Contudo, é preciso que estejamos atentos,
pois são os critérios que determinam o limiar entre uma e outra, que sofrem grandes variações. Nas
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palavras do autor: ”era preciso sem dúvida, no passado, ser mais gordo do que hoje para ser julgado
obeso e bem menos magro para ser considerado magro” (1995:79)

Em última análise, nota-se que na atualidade a tolerância para com a gordura diminuiu
drasticamente, chegando, até mesmo, a ser enquadrada na forma de uma categoria de exclusão. Carregada
de estereótipos depreciativos, a gordura dá lugar a magreza, que é, então, positivada e exaltada.
Assim, a mesma cultura que elege o corpo como lócus privilegiado dos investimentos individuais
produz, simultaneamente, sujeitos lipofóbicos e o atual estado de corpolatria do qual somos todos
testemunhas.

CONCLUSÃO
“Para mim é assim, acho que a gente não tem que conviver com aquilo que a gente
não gosta, eu, por exemplo: não gostava do meu nariz - fiz plástica; achava que tinha uma bola
nos quadris - lipoaspirei o culote; achava que tinha seios pequenos demais - virei Barbie, taquei
silicone, não queria esperar o meu cabelo crescer - coloquei um Mega hair.”

Iniciamos nosso trabalho dizendo que o discurso do corpo fala das relações internas à sociedade.
Palco privilegiado dos paradoxos e dos conflitos, o corpo como obra de arte é o corpo teatralizado, palco
onde as palavras são encenadas. Tal qual nas cidades povoadas pelos murais e outdoors, uma nova forma
de escritura se estabelece. O tamponamento do real, o horror da imperfeição e da finitude, nas palavras de
Augras:

"A distância entre o modelo da revista e o reflexo no espelho também contribui para a dificuldade
de integração. Não se trata apenas de conciliar senso de realidade e aspirações narcisistas. O que
propõem as fotografias são corpos imaginários, abstratos e inatingíveis e, por assim dizer, eternos.
Não são submetidos à dor, nem ao envelhecimento, ainda menos à morte..." (Augras,1996:44-45/
grifo nosso)

É numa sociedade globalizada, dividida entre ganhadores e perdedores e sem ideais, que os sujeitos
entregam-se às compulsões. Nessa urgência, como aponta Mendlowicz (2000), qualquer espera equivale
ao desespero, causado por uma enorme intolerância com aquilo que o atrapalhe em sua busca pela
perfeição.
E nada mais distante da perfeição, na sociedade atual, do que a feiúra.
PSICOLOGIA SOCIAL – Profº Edmilson Manoel Coelho
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“O que não suporto é gente se lamuriando insatisfeito com o próprio corpo, mas que não faz
nada a respeito. No meu caso, por exemplo, quando começar a sentir que tem algum excesso
eu vou me cortar”. (sic)

As falas das entrevistadas, no estudo anteriormente mencionado, apontam claramente para os


recursos, cada vez mais utilizados, em busca do corpo ideal.
Se todas as culturas, de uma forma ou de outra, praticaram a modificação corporal, as práticas
atuais, segundo Rodrigues (1986b), adquirem um caráter muito mais individualista e violento, no seu afã
de questionar as relações natureza/cultura, homem/máquina.

Um bom exemplo, é o estatuto que a feiúra passou a ocupar na contemporaneidade, bem como
suas novas representações. A feiúra, freqüentemente associada à gordura, sofre uma das maiores formas
de discriminação nas sociedades que cultuam o corpo. Para eliminá-la, mitigá-la ou disfarçá-la, todos os
esforços e sacrifícios serão dispendidos. Discriminação ostensiva, manifesta e sem culpa, ao contrário dos
negros, pobres, gays ou qualquer outra minoria - discriminamos os feios e/ou gordos sem nenhum pudor
ou vergonha.

Mas o que significa ser belo ou feio? Fosse este um trabalho sobre estética, certamente teríamos
de nos alongar mais em nossas definições. Não é o caso. Longe de naturalizar a relação gordura/feiúra,
buscamos, justamente, apontar como o desvio do padrão estético “da moda” remete o sujeito, sobretudo
as mulheres, para o limbo da exclusão e para as exaustivas práticas do culto ao corpo.

Para finalizar gostaríamos de retornar à indagação que Freud faz em 1930 acerca da beleza. Em
“O Mal Estar na Civilização”, o autor mostra-se intrigado acerca da valorização da beleza pela civilização,
ainda que esta não lhe proporcione nenhuma utilidade. No mesmo texto, o autor caracteriza a fruição da
beleza como uma estratégia para buscar a felicidade. A esta fruição, Freud dá o caráter de um “sentimento
tenuamente intoxicante” referindo-se ao sexo feminino como o “Belo Sexo”.

Qual seria o significado desta coisa inútil sem a qual não podemos passar? Reza o ditado popular
que uma imagem vale mais do que mil palavras! Em uma cultura, com cada vez mais telas e menos
páginas, as imagens passam a constituir, por si só, a realidade ao invés de retratá- la, reproduzi-la e
representá-la. A imagem toma o lugar do sujeito e, sem perspectiva de si mesmo, haverá identidade
possível?

Para ilustrar recorreremos a Perrot (1984) e seu conceito de ortopedia mental. Interrogando- se a
respeito do ideal feminino de emancipação, analisa, historicamente, as conquistas femininas e sugere, de
forma irônica, mas categórica, que estamos vivendo uma ditadura bem mais severa do que todas até então
vivenciadas pelas mulheres.
O autor considera os diversos procedimentos de produção e manutenção do bom aspecto do corpo
feminino, entraves bem maiores na vida das mulheres do que os fardos que deflagraram a queima de
soutiens em praça pública ou mesmo o discurso médico atestando o mal que os espartilhos causavam.
Segundo Perrot, (op.cit) com a maior exposição do corpo as atenções sobre a pele intensificam-se,
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assim como a rotina de cuidados com a aparência física. Para designar essa tentativa frenética de
reformatação e adequação das formas, Perrot cunhou o termo ortopedia mental. O termo descreve com
uma precisão jocosa, uma ordem ainda mais tirânica que as já conhecidas formas que levaram à
subserviência feminina.

Nada mais cruel do que lutar com um inimigo implacável e inexorável. Contra a ação do tempo as
mulheres lutam, tentando manter-se sempre jovens e belas. Frenéticas e enlouquecidas, consumindo
compulsivamente toda sorte de produtos que prometam retardar o seu envelhecimento e manter sua beleza,
essas mulheres lutam contra si, perdendo-se no espelho à procura de si mesmas. Se antes as roupas as
aprisionava, agora se aprisionam no corpo - na justeza das próprias medidas.

Contudo, mais uma vez é necessário cautela. Não há como pensar que todas as mulheres vivem
essas transformações de forma passiva e acrítica. Neste sentido, nunca é demais relembrar que o discurso
do corpo fala das relações internas à sociedade e também nele vai se expressar a busca da felicidade plena.
Como todo culto, como toda moda, o impacto da moda do culto ao corpo sobre a sociedade, só
pode ser detectado a partir da compreensão da maneira como seus ditames são interpretados pelos
indivíduos que, no interior de diferentes grupos sociais, lhes emprestam significados próprios. Como
aponta Strozemberg (1986) o receptor nunca recebe passivamente uma mensagem, mas sempre,
necessariamente, a interpreta e reelabora, na medida em que toda a decodificação é uma leitura. A
experiência do corpo é sempre modificada pela experiência da Cultura.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Psicodiagnóstico, Petrópolis, Ed. Vozes.
BARTHES, Roland(1982) Encore le corps. Paris. Critique, n.423-424, pp.645-654.
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COURTINE, Jean.J.(1995) Os Stakanovistas do narcisismo. In: Sant’Anna, D.B. (org)
Políticas do Corpo: Elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo. Ed.
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DANIELS, M.C (1999) Traços físicos, imagens sociais: representações da feiúra.
Dissertação de Mestrado. São Paulo. Unicamp.
DURIF, Charles. (1990) Perceptions et representations du poids et des formes
corporelles: une approche psychoethnologique. Paris. Informations sur les sciences
sociales, vol 29, p. 14-28.
FISCHLER, Claude. (1995) Obeso benigno, obeso maligno. In: Sant‘ Anna, D.B (org.)
Políticas do Corpo: Elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo. Ed.
Estação liberdade.
FREUD, Sigmund [1930] O Mal-estar da civilização. In: Obras Completas. Edição
Eletrônica. Rio de Janeiro, Imago. 2000
MALYSSE,Stephane. (1997) A la recherche du corps ideal:culte féminin du corps dans
la zone balnéaire de Rio de Janeiro. In: Cahiers du Brésil Contemporain, Paris,
n.31,pp157-174
MENDLOWICZ, Eliane (2000) A dor da depressão. (cópia mimeo)
NOVAES, Joana.V. (2001a) Perdidas no Espelho? Sobre o culto ao corpo na sociedade de
consumo. Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro, Puc-rio.
------------------- (2001b) Mulher e beleza: em busca do corpo perfeito. Práticas
corporais e regulação social. In: Tempo Psicanalítico, n.33. Rio de Janeiro, SPID.
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PERROT, Philipe. (1984) Le corps feminin: le travail des apparences, XVIII – XIX siècle.
Paris. Editions du Seuil.
SANT’ANNA, Denise .B (1995) Cuidados de si e embelezamento feminino:Fragmentos
para uma história do corpo no brasil. In: Sant’Anna, D.B (org) Políticas do corpo:
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STROZEMBERG, Ilana. (1986) De Corpo e Alma. RJ, Ed. Contemporânea.