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22/10/2016 A Serpente Cósmica e o DNA

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Vivendo na Suíça, o antropólogo e conservacionista canadense Jeremy Narby deu
recentemente uma contribuição revolucionária para a integração entre a
compreensão cientíᴀ밄ca da ayahuasca e o modo xamanístico deste conhecimento
(Narby, 1998). Na obra The Cosmic Serpent
[http://web.archive.org/web/20150314235013/http://www.amazon.com/The-Cosmic-
Serpent-Origins-Knowledge/dp/0874779642] , o autor narra como suas experiências
com os xamãs da tribo Ashininca  da ᴀ밄oresta amazonica peruana levaram-no a
reexaminar os fundamentos da biologia molecular, até chegar a uma hipótese que
reconcilia os ensinamentos dos ayahuasqueiros com as descobertas da ciência
moderna.  Narby estava ciente do conᴀ밄ito irreconciliável entre a visão de mundo
xamanística, segundo a qual pode-se obter um saber seguro e aplicável para a cura a
partir das visões induzidas pela ingestão de plantas alucinógenas, e a concepção
cientíᴀ밄ca, para a qual as visões da ayahuasca não passam de simples alucinações
causadas pelas toxinas das plantas. Não se dando por satisfeito, ele iniciou uma
jornada visando uma reconciliação destas duas perspectivas aparentemente
contraditórias, e decidiu levar a sério os ayahuasqueiros, movido pela convicção de
que seria possível estabelecer um conhecimento medicinal válido a partir das plantas
mestres. Esta decisão ganhou força por suas próprias experiências com a ayahuasca.
Ele praticou o método do empirismo radical, uma vez que sua própria experiência
tornou-se a base de uma busca pelo conhecimento; até porque ele nunca excluiu a
experiência, temendo que ela pudesse não se encaixar nas teorias prevalecentes.

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De acordo com as descobertas pessoais de Narby, e segundo ainda as narrativas aqui


expostas, as visões das serpentes, algumas vezes gigantescas e outras luminosas, são
extremamente comuns nas experiências com a ayahuasca.

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Os  ayahuasqueiros disseram a Narby que o espírito da serpente é a mãe deste


preparado, além de ser a fonte do saber e da força curativa que dele advém. E por
isso, são encontradas, ao longo dos trabalhos artísticos dos índios, as muitas imagens
de serpentes que dançam ou se movem, em duplas ou múltiplas. Quando Narby
começou a ler a volumosa literatura da biologia molecular, no intuito de encontrar
algumas pistas que esclarecessem como o cérebro é afetado durante os estados
alterados da consciência, ele concluiu que a molécula do DNA, na sua forma de uma
dupla voluta enroscada, talvez pudesse ser a contraparte molecular para as
alucinatórias serpentes da ayahuasca.

O uso das imagens das serpentes não se dá apenas entre os xamãs amazônicos, mas
por quase todo o mundo. Elas são utilizadas na Ásia, no Mediterrâneo e na Austrália
para efetivar a representação da força básica da vida, sobretudo porque a sabedoria
da serpente é tida como a fonte do conhecimento. A imagem da serpente é vista
frequentemente como um elo de ligação entre o céu e a terra; sob esta mesma visão,
encontra-se também a imagem da cobra associada com diferentes ideias de
ascensão. Seguindo o texto de Narby, ele nos diz que “na literatura da biologia
molecular, a forma do DNA não se restringe a ser descrita através de uma analogia
com duas serpentes gêmeas, uma vez que ela, é comparada mais precisamente com
uma corda ou um cipó, ou mesmo com uma escada.” (p. 93).
Sabe-se que o DNA é o código molecular usado para toda a vida deste planeta, quer
seja animal, vegetal, ou humana. Ele está presente em cada uma das células de todos

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os corpos, ou seja, em todas as plantas ou em qualquer animal, fungo, ou ser


humano. A partir daí, Narby propôs a hipótese de que, por meio das visões, talvez os
xamãs estejam tentando conduzir suas próprias consciências à dimensão do
molecular, de maneira que possam ler a informação de como combinar os inibidores-
MAO com os hormônios cerebrais, de como reconhecer as correspondências entre as
plantas curativas e as doenças, e por aí afora.

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Juan Carlos Tamanchi

Sua descrição biológica da molécula do DNA expõe com brilhantismo muitos aspectos
que correspondem aos insights  dos xamãs; mesmo porque, como eles mesmos
dizem, a origem de tais insights está nas suas visões das serpentes e na sua mitologia
das serpentes cósmicas.

Se alguém esticasse o DNA contido no núcleo de uma célula humana, seriam obtidos
somente dez átomos ao largo de 1.80m de ᴀ밄o…

O núcleo de uma célula é, portanto, equivalente em volume a dois milionésimos de


uma cabeça de alᴀ밄nete. E assim 1.80m de do DNA acondiciona com rapidez todo o
seu volume através do gesto de enroscar-se incessantemente sobre si mesmo,
harmonizando assim o comprimento extremo e a pequenez inᴀ밄nitesimal, exatamente
como procedem as serpentes míticas. Segundo as estimativas, o ser humano comum
é composto de muitos bilhões de células. O que signiᴀ밄ca dizer que há mais 201
bilhões de DNA no corpo humano…

O DNA de uma pessoa é tão longo que poderia rodear a Terra cinco milhões de vezes;
isto é análogo ao que se diz a respeito das serpentes que rodeiam o mundo! (pp.
87~88).

Afora isso, o código molecular do DNA tem se mantido inalterado desde o início da
vida deste planeta, pois somente a arrumação das “letras” deste código é que vai
mudando conforme a evolução das diferentes espécies. “Tal como as serpentes
míticas, o DNA se apresenta como o mestre da transformação. Todas as informações
que existem nas células do DNA são feitas do ar que respiramos, da paisagem que
vemos, e da vasta diversidade de seres vivos dos quais fazemos parte.” (p. 92). Narby
chega a dizer que a serpente dupla do DNA é que constitui de fato a fonte do
conhecimento, quer seja adquirido por meio da ayahuasca ou de outras técnicas que

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levem a estados alterados da consciência, tais como a batucada, o jejum, o


isolamento, ou os sonhos. E ainda diz que a tão propalada luminosidade que ocorre
nas visões xamanísticas deveria ser posta em relação ao fato de que a molécula do
DNA emite biofótons, justamente porque a luz molecular só emerge com a redução
da iluminação externa. Enᴀ밄m, mesmo que a hipótese de Narby não ofereça nenhum
dado novo, ou provas substanciais, ela possui implicações revolucionárias que
reconciliam os pontos de vista diametralmente opostos da ciência e do xamanismo.

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