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“Do meu arquivo inútil”: uma análise sobre o fundo Arthur Ramos

Diana Dianovsky (UERJ)


Orientador: Valter Sinder (UERJ/ PUC-Rio)
Neste trabalho, estudo o arquivo privado do intelectual Arthur Ramos (1903-1949), custodiado pela Divisão de de 1950. Esta nova aquisição realça ainda mais o que a fragmentação do conjunto já indica: arquivos são fragmentos de
Manuscritos da Biblioteca Nacional. Arquivo é aqui tomado como o conjunto de documentos produzidos e/ou acumulados uma totalidade irrecuperável. Seu arquivo não representa necessariamente a totalidade das obras, papéis e cartas que ele
naturalmente por pessoas ou instituições no decorrer de suas atividades cotidianas. Neste caso, é o acervo que A. Ramos escreveu ou recebeu. Ramos, ele próprio, deve ter rasgado alguns papéis que desconsiderou no cotidiano de suas
reuniu ao longo de sua vida profissional e acadêmica: programas de aula, textos éditos e inéditos, fichas clínicas, recortes atividades; sua esposa talvez tenha selecionado quais documentos eram “pessoais demais” para serem vendidos; os
de jornais, correspondências e outros tipos documentais. avaliadores da Biblioteca Nacional podem ter deixado para trás alguns itens. Ao tomar como fonte um arquivo, o
pesquisador precisar ter cuidado para não tratar os documentos como totalidades, senão corre o risco de postular
imprecisões. Portanto, o arquivo que se encontra na Biblioteca Nacional é apenas a parcela conhecida da documentação
.:. Arthur Ramos: uma trajetória meteórica .:. deste antropólogo.

O alagoano Arthur Ramos iniciou sua carreira como psiquiatra na Bahia durante a década de 1920, onde teve contato .:. As diversas faces do arquivo Arthur Ramos .:.
com os estudos de Nina Rodrigues. Dedicou-se às análises sobre raça e teve uma destacada participação nos debates
sobre a harmonia racial no Brasil. Ao longo dos anos, seu enfoque na psicanálise decaiu e seus trabalhos cada vez mais
se vinculavam à antropologia e ao culturalismo norte-americano. Seu livro O Negro Brasileiro, publicado em 1934 e re- Apesar ter sido incorporada por uma instituição como a Biblioteca Nacional, o conjunto ficou encerrado em caixas por 30
editado em 1940, versava sobre as religiões afrobrasileiras e teve grande impacto nos estudos sobre o negro. anos – diferentemente de outros arquivos privados pessoais que lá se encontram e que foram monumentalizados. Em
Ramos atuou nas recém-formadas universidades lecionando Psicologia Social na Universidade do Distrito Federal e, meados de 1980, iniciou-se o tratamento do conjunto motivado pela efeméride do centenário da abolição da escravidão e
posteriormente, Antropologia e Etnologia na Universidade do Brasil. Participou, assim, do processo de institucionalização daquela pequena doação de novos documentos. Ainda assim, apenas entre 1998 e 1999 o trabalho técnico foi finalizado
das Ciências Sociais nas décadas de 1930 e 1940. Ramos acreditava em uma “antropologia aplicada” e atuou em por uma segunda equipe de técnicos. Mais de 40 anos após a compra, acervo foi franqueado à consulta.
movimentos sociais e de antirracismo, que o levou a sofrer perseguição do governo. Sua expressiva rede de Arquivos são espaços de consagração e que, em contrapartida, se promove o esquecimento daqueles que não possuem
sociabilidade tinha alcance nacional e internacional de forma que, em 1949, aos 46 anos, foi convidado a chefiar o rastros escritos. Mesmo o fundo Arthur Ramos estando em uma grande instituição, o atraso no tratamento e o
Departamento de Ciências Sociais da Unesco. Levou a Paris os primeiros contornos desconhecimento destes documentos tiveram o mesmo resultado de que ele não existisse. Por outro lado, grande
de um projeto para investigação sobre as relações entre as raças, que viria a ser antagonista de Ramos em vida, Gilberto Freyre, teve mais tempo e suporte material para re-elaborar sua inserção no
conhecido como Projeto Unesco no Brasil. Contudo, faleceu na França ainda em cenário acadêmico – como o fez, por exemplo, através dos diferentes prefácios de Casa-Grande & Senzala (SORÁ, 1998).
1949, antes mesmo do projeto ser aprovado. (BARROS, 2005) Assim, Arthur Ramos e seu legado intelectual só retornaram ao debate no final dos anos de 1990, quando seu arquivo
veio à tona e, efetivamente, se monumentalizou o fundo Arthur Ramos.
Finalmente, quando os pesquisadores tiveram acesso ao arquivo, o que se apresentou foi uma massa de
.:. Esquecimento e memória .:. correspondências em sua maior parte. No inventário analítico do fundo (FBN, 2004), o início consiste em verbetes de
correspondências entre Arthur Ramos e diversos intelectuais brasileiros e estrangeiros e eles se estendem por mais da
metade das páginas do livro. A forma como inventários são elaborados resulta na falsa impressão de totalidade, de uma
Apesar de sua influência em vida, Arthur Ramos foi progressivamente esquecido coerência e coesão, que se originam nas atividades dos técnicos dentro das instituições de guarda. No inventário do fundo
pela história das Ciências Sociais. Os intelectuais formados nas universidades e os
Arthur Ramos, as correspondências são identificadas e descritas unidade por unidade, enquanto outros tipos de
resultados do Projeto Unesco no Brasil – ambas empreitadas que Ramos ajudou a Carteira de identificação das documentos foram descritos sumariamente em um dossiê numeroso; como, por exemplo, os nove dossiês sobre o Serviço
construir – criticaram fortemente os esquemas explicativos em que as teorias de Nações Unidas.
de Ortofrenia e Higiene Mental que descrevem mais de 900 itens. Sem falar no número elevado de recortes de jornal
Ramos se inseriam, e já na década de 1950 sua imagem se esmaecia. Vários (Fundação Biblioteca Nacional)
agrupados: em doze dossiês são descritos 1.091 recortes (FBN, 2004, p. 426-427).
intelectuais contemporâneos a Ramos, como Gilberto Freyre, foram revisitados a partir do início da década de 1980 com
O fato de certos documentos, como os recortes, terem sido guardados nos últimos
o auxílio das teorias sobre construções de narrativas. Arthur Ramos, porém, apenas seria objeto de pesquisas no final da
arcazes também indica a seleção de prioridades na identificação do acervo que os
década de 1990 – mesma época da conclusão do inventário analítico de seu arquivo e da disponibilização para consulta.
antigos técnicos fizeram. Os relatórios de atividades da Biblioteca Nacional corroboram
Acredito que, entre os motivos para a manutenção de seu esquecimento, estava a dificuldade de acesso a estes minha inferência de que as correspondências foram valorizadas pelos antigos técnicos.
documentos. Considerando o fundo Arthur Ramos dentro das perspectivas simbólicas e políticas de disputa pelo No relatório referente ao ano de 1983, é apontado o início das atividades de inventário
estabelecimento e produção social de memórias (POLLAK, 1989), a precariedade de acesso e o desconhecimento sobre da “Coleção Artur Ramos (correspondência), com 110 cartas inventariadas”; o relevo
a existência do arquivo não afetaram o destino da imagem deste antropólogo apenas pela ausência de fontes de dado às cartas prossegue nos relatório até 1988. Em fins de 1980 o trabalho é
pesquisa. A principal ausência talvez tenha sido a do registro, a do rastro de uma memória no qual se elaboram os pontos paralisado e quando os novos técnicos retomam as atividades quase 10 anos depois,
de referência sobre um passado. Afinal, arquivos são “lugares de memória”: espaços materiais, funcionais e simbólicos com outros preceitos teóricos, possivelmente montaram dossiês numerosos devido à
construídos a partir de um esforço coletivo e social para que sirvam de testemunhos de um momento que não existe mais grande quantidade de documentos a ser identificado em curto espaço de tempo. Assim,
(NORA, 1993). se manteve o destaque dados as correspondências.
Tendo em vista as dimensões sociológicas e antropológicas ainda pouco exploradas nos Atividades de descrição e processamento constroem representações e por mais que os
arquivos, investigo o fundo Arthur Ramos como um espaço social em que os documentos técnicos recorram aos paradigmas teóricos para organizar os conjuntos, seus trabalhos
são fatos construídos e em construção. Assim, busco averiguar: são marcados por suas subjetividades. As atividades das instituições de guarda e suas
+ como as atividades nas instituições de guarda interferem (ou não) na elaboração da seleções intelectuais acabam resultando elevação de alguns documentos como de “valor
Carta de Roger Bastide.
memória de Arthur Ramos e de seu patrimônio documental; histórico” e no rebaixamento de outros – indicados no cuidado descritivo que merecem (Fundação Biblioteca Nacional)
+ como as múltiplas intervenções, seleções e descartes que um arquivo sofre, desde o (HEYMANN, 1997). Vejo que a forma com que o acervo de Arthur Ramos foi processado
início da sua acumulação até a custódia definitiva, podem colaborar para a produção elevou as correspondências em detrimento de outros tipos documentais. De fato, as cartas são uma parte abundante de
social de fontes – inclusive, na eleição de quais contêm “valor histórico”; seu acervo, mas existem outros documentos também volumosos, como recortes de jornais e fichas médicas, que foram
+ e como estas ações podem afetar a percepção do pesquisador que se baseia nestes relegados ao segundo plano. Acredito que o perfil da instituição de guarda construiu também um perfil para a personagem,
documentos. pois, como indiquei, arquivos são produções sociais. As trocas sociais que estão implicadas e que supõe a circulação dos
documentos afetam a leitura que os pesquisadores fazem do conjunto documental. Com isso grande parte das pesquisas
Para dar conta disto, analiso: 1) o instrumento de pesquisa elaborado sobre o
feitas neste acervo se reporta às correspondências.
arquivo, 2) os documentos relativos ao processo de compra/ doação do fundo Arthur
Ramos e 3) os relatórios de atividades da Biblioteca Nacional. Foram também colhidas
informações sobre o trabalho com os antigos técnicos e pessoas envolvidas no processo
Alguns dos primeiros textos de compra/ doação
.:. Produção social e os “vários autores” dos documentos .:.
escritos por Arthur Ramos.
(Fundação Biblioteca Nacional)
As seleções, os descartes e as intervenções não são meramente atividades mecânicas ou intelectuais que recortam e
reagrupam os arquivos. Poderia dizer que são também produzidas e orientadas a partir de um modelo consciente à Lévi-
.:. A trajetória da “Biblioteca Arthur Ramos” .:. Strauss: as pessoas envolvidas nos trabalhos arquivísticos interveem no acesso aos documentos de forma a destacarem o
quê dessa “cultura” desejam que apareça. Em nossa sociedade, cada vez mais os indivíduos, as identidades, o particular,
o evento são destacados, como George Simmel aponta na faceta qualitativa do individualismo neo-romântico, o da
O fundo de Arthur Ramos foi oferecido à venda pela viúva Luisa Ramos para o Ministério da Educação em 1954, cinco singularidade (SIMMEL, 1971). Correspondências, assim como outros textos mais pessoais e biográficos, têm sido alvo de
anos após a morte de Ramos. O processo de compra tramitou entre ministérios, a presidência da República e a Biblioteca grande procura e valorização, em especial, no fim do século XX. O mesmo destaque acontece, neste conjunto documental,
Nacional. Em todas as instâncias se tratava da compra com urgência e se afirmava a importância da aquisição do através das práticas de tratamento do acervo.
“gabinete de estudos” de A. Ramos, que consistia em sua biblioteca, arquivo, discoteca e “coleção etnográfica”. Todavia,
A valorização das correspondências não se deve às idiossincrasias dos técnicos; ela se comunica com este processo
entraves financeiros fizeram com que se postergasse a compra.
social mais abrangente de primazia da particularidade e individualidade. Este tipo documental, as cartas, é o que mais
Em 1956, o processo é reaberto. O valor total do conjunto foi estimado em Cr$
induz à tentação de se pensar os papéis como pontes diretas para a memória e subjetividade dos indivíduos que os
1.000.000,00, o que somava mais de 65% de toda a verba que a Biblioteca
escrevem. Assim, a valorização das correspondências é de fato a valorização dos indivíduos representados nos nomes
Nacional possuía para aquisição de novas obras naquele ano. O fundo foi, então,
assinados ao pé da carta. De certa forma, o que discuto é também uma esfera em que se apresenta o paradoxo
comprado pela Biblioteca em parceria com a Universidade do Brasil, dividindo a
dumontiano para o qual a sociedade ocidental moderna concede prevalência ideológica ao individual sobre o social
despesa. Interessante que, em meados de 1950, a imagem de Arthur Ramos já
(DUMONT, 1985). Todavia, até o caráter de cartas como reflexo direto das subjetividades é contestável. Michel Foucault
começava a se esmaecer no cenário acadêmico, mas ainda desfrutava de bastante
(1992) destaca que a carta, enquanto “escrita de si”, comporta várias operações em que o indivíduo é autor e editor do
prestígio. Tanto que as mesmas instâncias que pressionaram Arthur Ramos por
texto que escreve tendo em visto a relação com o outro, o leitor. Acrescento às várias camadas do próprio autor, os outros
sua atuação política se empenharam fortemente para que seu acervo fosse
autores dos documentos: os parentes, os avaliadores do acervo, os documentalistas e os pesquisadores que através das
preservado.
seleções re-escrevem e ressignificam os documentos do fundo Arthur Ramos. Desta forma, os cacos esparsos e
Outro destaque é que o conjunto foi depositado na Biblioteca Nacional, órgão que Arthur Ramos em seu gabinete.
(Fundação Biblioteca Nacional) fragmentados que compõem a massa documental agregam também outras camadas memoriais e subjetivas. Em última
tem como missão ser a depositária do patrimônio e memória escritos da nação. instância, todas ecoam na produção científica que é baseada neste arquivo. É através desta polissemia que se re-estrutura
Considerando que as instituições são o locus para avaliação do capital simbólico do acervo no mercado de bens culturais e a figura de Arthur Ramos.
que os conjuntos depositados em instituições de guarda podem sofrer um processo de monumentalização, é deveras
Bibliografia:
Bibliografia
significativo o caso do fundo Arthur Ramos.
BARROS, Luitgarde O. C. Arthur Ramos e as dinâmicas sociais de seu tempo. 2. ed. Alagoas: Ed. UFAL, 2005.
O fundo Arthur Ramos era então bastante vasto, mas uma vez dentro da Biblioteca Nacional é possível identificar várias DUMONT, Louis. O individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.
dispersões. O item mais valorizado durante todo o processo de compra, os livros, foram incorporados na Divisão de Obras FOUCAULT, Michel. A escrita de si. In: O que é um autor?. Lisboa: Vega, 1992.
Gerais sem nenhum registro de que pertenceram a Arthur Ramos. Não há rastros também da localização dos discos, que FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL (Brasil). Arquivo Arthur Ramos: inventário analítico. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2004.
deduzo se encontrarem na Divisão de Música e Arquivo Sonoro. Alguns livros e a coleção etnográfica – que consiste em HEYMANN, Luciana Quillet. Indivíduo, memória e resíduo histórico: uma reflexão sobre arquivos pessoais e o caso Filinto Muller. Estudos Históricos, Rio de
Janeiro, n. 19, p. 41-67, 1997.
peças museológicas sobre a escravidão e rendas bilros – foram comprados pela Universidade Federal do Ceará e lá se
NORA, Pierre. Entre memória e História: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7-28, 1993.
encontram até hoje. O arquivo de Arthur Ramos deu entrada na Divisão de Manuscritos em 1957, que é a maior parcela POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.
conhecida do acervo de Ramos e atualmente é o grande objeto de pesquisas sobre Arthur Ramos. SIMMEL, George. Freedom and the individual. In: On Individuality and social forms. Chicago: The University of Chicago Press, 1971.
Em 1985, o sobrinho de Ramos doou à Biblioteca Nacional alguns documentos que não haviam sido comprados na década SORÁ, Gustavo. A construção sociológica de uma posição regionalista: reflexões sobre a edição e recepção de Casa-grande & Senzala de Gilberto Freyre.
Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 13, n. 36, 1998.

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