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As origens da teoria da argumentação no pensamento de Chaïm Perelman

Sumário:

Introdução. 1. A formação do pensador. 2. O problema da justiça. 3. Platão versus


Aristóteles. 4. A vitória de Descartes? 5. Conclusão. Referências bibliográficas.

Resumo: São analisados os fatores que levaram o filósofo Chaïm Perelman a interessar-
se pela teoria da argumentação. O foco do artigo é a formação do pensamento do
filósofo e não a teoria propriamente dita.

Palavras-chave: Teoria da argumentação, Aristóteles, raciocínio dialético, retórica.

INTRODUÇÃO

O objetivo deste artigo é analisar os fatores que conduziram Chaïm Perelman (1912 –
1984), no decorrer do século XX, à teoria da argumentação. Como se sabe, ele não foi o
único pensador a dedicar-se ao estudo de tal tema, podendo-se destacar ainda: Theodor
Viehweg, Stephen Toulmin, Manuel Atienza, Aulis Aarnio, Robert Alexy, dentre
outros. Porém, o interesse por Perelman justifica-se por ele ter sido um precursor; pela
forte influência da lógica e do direito em suas idéias; e por ter analisado a estrutura da
argumentação, desenvolvendo cada um dos elementos que a compõe, estabelecendo
bases necessárias a todos aqueles que desejam iniciar-se na teoria da argumentação.

Nas palavras de Michel Meyer: "Entre a ontologia, dotada de uma flexibilidade oca,
mas infinita, e a racionalidade apodíctica, matemática ou silogística, mas limitada,
Perelman tomou uma terceira via: a argumentação, que raciocina sem coagir, mas que
também não obriga a renunciar à Razão em proveito do irracional ou do indizível" [01].

É importante apresentar Perelman em seu contexto histórico-social e, principalmente, no


cenário filosófico no qual surgiu, pois com a chave de sua forma de pensar fica muito
mais fácil compreender suas idéias. Enfocar a construção do pensamento de Perelman,
como ele chegou à teoria da argumentação, como a retórica foi por ele resgatada, por
que ela havia sido esquecida pelos demais, é a finalidade do presente trabalho.

Embora existam correntes que neguem a necessidade de se analisar a origem da


formação de uma idéia, parece não haver qualquer sentido estudar determinado filósofo
sem antes situá-lo em um contexto, não só histórico, mas, principalmente, em um
contexto filosófico, no campo das idéias correntes em uma época. Além disso, ainda no
que tange aos primórdios de uma teoria, é crucial compreender as razões que
conduziram o pensador a ela, ou, ao menos, tentar aventá-las, para que haja um sentido
em seu estudo.

Alerte-se que não há qualquer pretensão de se esgotar a matéria, mas, à mercê de certas
insuficiências que o leitor venha a encontrar, espera-se que o trabalho cumpra o seu
objetivo e atenda ao rigor que se exige da filosofia.
1. A formação do pensador

Chaïm Perelman (1912 – 1984) é um pensador europeu, de origem polonesa, mas que
sempre viveu na Bélgica, desde que sua família para lá migrou em 1925. Estudou na
Universidade de Bruxelas, onde se dedicou ao direito e à filosofia [02]. Estes dois
campos marcaram a vida acadêmica de Perelman, embora a filosofia tenha um espaço
maior em sua obra, justamente em virtude dos trabalhos que realizou no campo da
lógica e da retórica. De qualquer forma, como as idéias de Perelman tratam de questões
cruciais para o direito, principalmente no que concerne à sua aplicação prática, não é
possível negar a contribuição de seu pensamento também para este ramo do saber.

Quanto à produção de Perelman, podem-se destacar as seguintes obras:

a) "Sobre a justiça" – 1945.

b) "Retórica e filosofia: por uma teoria da argumentação na filosofia" – 1952 (em


colaboração com Lucie Olbrechts-Tyteca);

c) "Tratado da argumentação: a nova retórica" – 1958 (em colaboração com Lucie


Olbrechts-Tyteca);

d) "O campo da argumentação" – 1970;

e) "Lógica jurídica: nova retórica" – 1976;

f) "Retóricas" – 1989;

g) "Ética e Direito" – 1990.

Sem dúvida alguma, considera-se o "Tratado da argumentação: a nova retórica" a


principal obra de Perelman no campo da filosofia [03]. São vários os comentadores que
chamam a atenção à referida obra e o próprio Perelman reconhece a importância dela.

O primeiro interesse de Perelman foi pela lógica formal [04], tendo escrito uma tese, em
1938, sobre Gottlob Frege (1848 – 1925). Como se sabe, Frege é considerado o criador
da lógica matemática e um dos principais iniciadores da filosofia analítica, tendo
influenciado pensadores como Russell (1869 – 1937), Carnap (1891 – 1970) e
Wittgenstein (1889 – 1951). Ou seja, pessoas ligadas ao Círculo de Viena, grupo que
pretendia purificar a filosofia, extirpando dela aquilo que entendiam ser conceitos
vazios ou pseudoproblemas. A filosofia não mais deveria ocupar-se com questões
ligadas ao belo, justo, bom etc, conceitos que não poderiam ser obtidos diretamente da
natureza, e que dependeriam de um alto grau de subjetividade do pensador. Com efeito,
a filosofia deveria concentrar-se na lógica e na linguagem, eliminando o juízo de valor.

Enfim, a preocupação inicial de Perelman com a lógica formal e a influência que


recebeu dos filósofos analíticos são fatores importantíssimos para compreender a
evolução de seu pensamento. Trata-se de um referencial relevante para a construção da
teoria da argumentação, pois a insatisfação de Perelman com o alcance da lógica formal
abriu a sua mente. Segundo Perelman:

A lógica teve um brilhante desenvolvimento durante os cem últimos anos, quando,


deixando de repisar velhas fórmulas, propôs-se a analisar os meios de prova
efetivamente utilizados pelos matemáticos. A lógica formal moderna constituiu-se como
o estudo dos meios de demonstração utilizados nas ciências matemáticas. Mas o
resultado foi a limitação de seu campo, pois tudo quanto é ignorado pelos matemáticos é
alheio à lógica formal. Os lógicos devem completar a teoria da demonstração assim
obtida com uma teoria da argumentação. [05]

Ainda nesta fase, Perelman decidiu dedicar-se ao estudo da justiça. Ora, levando-se em
consideração os autores que haviam influenciado sua formação, os analíticos, isso seria
no mínimo contraditório. Porém, como já dito, não se deve esquecer da ligação de
Perelman com o direito. Sem dúvida alguma, foi o direito que o impulsionou ao estudo
da justiça, pois ela sempre foi, e talvez sempre será, um dos principais problemas
ligados ao pensamento jurídico.

Quando a justiça entrou no caminho de Perelman uma nova história começou a ser
traçada, que o levaria à teoria da argumentação.

2. O problema da justiça

Na obra "Sobre a justiça", publicada em 1945, Perelman analisa o problema da justiça,


com o fim de conceituá-la. Também em outros artigos do referido período o filósofo
belga dedica-se a esta questão [06]. Segundo Atienza:

[...] Perelman se dedicou a realizar um trabalho sobre a Justiça (cf. Perelman, 1945;
tradução em espanhol, Perelman, 1964), aplicando a esse campo o método positivista de
Frege, o que supunha eliminar da idéia de justiça todo juízo de valor, pois os juízos de
valor recairiam fora do campo do racional. [07]

Para Perelman, nesta fase de sua vida, como não poderia deixar de ser, considerando
toda a sua formação, o objeto da filosofia seria o estudo sistemático das noções confusas
[08]
. A justiça, obviamente, seria uma das noções mais confusas existentes. Não só isso,
ela seria uma noção com o sentido emotivo muito forte. Este sentido emotivo
atrapalharia a percepção do sentido conceitual, o único realmente importante para a
construção de um conhecimento preciso e filosófico. Assim, seria necessário extirpar
todo o subjetivismo e irracionalismo vinculado à noção de justiça. Trata-se de
pensamento estritamente analítico, como se pode perceber.

Assim, o filósofo belga parte de seis concepções diferentes de justiça para, então, tentar
encontrar algo em comum entre elas, com a intenção de construir uma fórmula pura.
Essas seis concepções são [09]: 1) a cada qual a mesma coisa; 2) a cada qual segundo
seus méritos; 3) a cada qual segundo suas obras; 4) a cada qual segundo suas
necessidades; 5) a cada qual segundo sua posição; 6) a cada qual segundo o que a lei lhe
atribui.
Perelman destaca que a idéia de justiça caminha junto com a idéia de igualdade e que,
na verdade, em todas as referidas concepções está implícito o pensamento de se tratar de
uma forma idêntica seres idênticos. Assim, acaba formulando a noção de justiça nos
seguintes termos: "[...] um princípio de ação segundo o qual os seres de uma mesma
categoria essencial devem ser tratados da mesma forma" [10]. Porém, o próprio Perelman
admite que esta é uma noção formal de justiça, ou seja, abstrata. Segundo o filósofo:

Observe-se imediatamente que acabamos de definir uma noção puramente formal que
deixa intocadas todas as divergências a propósito da justiça concreta. Essa definição não
diz nem quando dois seres fazem parte de uma categoria essencial nem como é preciso
tratá-los [...]

Nossa definição da justiça é formal porque não determina as categorias que são
essenciais para a aplicação da justiça. Ela permite que surjam divergências no momento
de passar de uma fórmula comum da justiça formal para fórmulas diferentes de justiça
concreta. [11]

Como qualquer pessoa pode perceber, uma noção formal de justiça não permite que, em
um caso concreto, seja possível verificar se foi feito justiça ou não, pois, de qualquer
forma, deverão ser estabelecidos critérios que possam informar, com rigor, como
distribuir cada ser a sua respectiva categoria. Tomando-se a referida fórmula de
Perelman e aplicando-a na história da humanidade, verifica-se que várias situações
injustas não deveriam ser assim consideradas. Por exemplo, por muito tempo os negros
eram vistos como uma sub-espécie de homo sapiens e, justamente por não serem
considerados homens, não tinham todos os direitos a eles inerentes. Ora, aplicando-se a
noção formal de justiça chega-se à conclusão de que este tratamento diferenciado era
justo, pois, afinal, seres de diferentes categorias não poderiam receber o mesmo
tratamento. O mesmo ocorre para o caso da mulher e de todos os outros grupos que já
foram perseguidos ou ultrajados na nossa linda e perfumada história.

Enfim, Perelman tinha total ciência de que a sua noção formal de justiça, embora muito
inteligente e perspicaz, não seria capaz de produzir qualquer utilidade no mundo prático.
Tal formulação era totalmente inócua. O problema da passagem de uma justiça abstrata,
conforme concebida por Perelman, para uma justiça concreta, não fora resolvido pelo
referido filósofo. Porém, ele não poderia simplesmente desistir deste problema, pois era
crucial para o seu pensamento jurídico. Ao contrário de outros juristas, como Hans
Kelsen, que simplesmente negavam a existência de qualquer critério racional para
estabelecer o que é justo, Perelman ainda acreditava que a justiça não era mero
resultado de sentimentos e ressentimentos dos homens. E este era o seu conflito, como
compatibilizar estes pensamentos, pois com o instrumental da filosofia analítica ele
estava simplesmente encurralado. Segundo Atienza:

O problema que surge, então, é que a introdução desses últimos critérios [para
enquadrar os seres em diferentes categorias] implica necessariamente que se assumam
juízos de valor, o que leva Perelman a propor a questão de como se raciocina a
propósito de valores. [12]

Aqui se encontra a virada de pensamento de Perelman, que o direcionou para a teoria da


argumentação, através da qual se destacaria entre os pensadores do século XX. Seu
interesse para descobrir "como se raciocina a propósito de valores", para usar a
expressão de Atienza, fez com que procurasse soluções nos antigos pensadores e, então,
deparasse-se com a retórica.

Importante salientar que nesta época não só Perelman começou a ter tais preocupações.
Os valores, com o fim da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), voltaram à tona e o
pensamento racionalista cartesiano foi sendo bombardeado por várias frentes, seja pelos
integrantes da Escola de Frankfurt, seja por pensadores voltados ao direito, como
Theodor Viehweg (1907 – 1988) e Stephen Toulmin (1922 - ).

Perelman deparou-se com a retórica, mais exatamente com a obra de Aristóteles (384
a.c – 322 a.c.), para tentar resolver a problemática dos valores, daquelas questões que
não poderiam ser matematizadas, mas que deveriam comportar uma abordagem
racional.

3. Platão versus Aristóteles

O filósofo belga primeiramente interessou-se pelo Organon [13] de Aristóteles,


principalmente pelas partes dos "Primeiros analíticos", que expõe uma teoria do
silogismo, dos "Segundos analíticos", que desenvolve uma teoria do silogismo
demonstrativo, e dos "Tópicos", onde se encontra uma teoria dos argumentos dialéticos.
Outra obra importante de Aristóteles, visitada por Perelman, foi a "Retórica". Conforme
ele explica: "Nossa análise concerne às provas que Aristóteles chama de dialéticas,
examinadas por ele nos Tópicos, e cuja utilização mostra na Retórica" [14].

Para Aristóteles existiriam duas formas de raciocinar: a analítica e a dialética. Com


efeito, o raciocínio analítico estaria ligado à idéia de demonstração. Apresentando-se as
premissas, respeitando-se as regras de inferência, chegar-se-ia a uma conclusão
necessária. Ou seja, existe uma verdade a ser almejada e alcançada. Ao mesmo tempo,
existe a figura do erro. Para um determinado problema existe apenas uma única resposta
correta e pensar de forma diversa significa estar enganado. Aplica-se integralmente os
três princípios da lógica clássica, a saber, o princípio da identidade, da não-contradição
e do terceiro excluído. Trata-se da forma de pensar do matemático ou do cientista. Eles
não podem admitir a coexistência de duas explicações diferentes para um mesmo
fenômeno. Alguma estará, inevitavelmente, errada. Quando duas pessoas estão
defendendo teorias diversas neste campo há uma diferença qualitativa entre cada uma
delas, a atribuir a característica de certa ou errada. Segundo Perelman:

O raciocínio more geometrico era o modelo proposto aos filósofos desejosos de


construir um sistema de pensamento que pudesse alcançar a dignidade de uma ciência.
De fato, uma ciência racional não pode contentar-se com opiniões mais ou menos
verossímeis, mas elabora um sistema de proposições necessárias, que se impõe a todos
os seres racionais e sobre as quais o acordo é inevitável. Daí resulta que o desacordo é
sinal de erro. [15]

Por outro lado, o raciocínio dialético opera com o verossímil [16]. Não está ligado à idéia
de explicação, mas sim com a de justificação [17]. Neste raciocínio também há
premissas, regras de inferência e conclusão, porém, a dinâmica é outra. O princípio da
não-contradição não encontra espaço. É possível o convívio de dois enunciados, sem
que um esteja, necessariamente, equivocado. Não se busca qual a solução do problema,
mas sim qual a melhor solução. Há, assim, uma diferença quantitativa entre as posições
divergentes. Segundo Perelman: "Enquanto os raciocínios demonstrativos, as
inferências formais são corretos ou incorretos, os argumentos, as razões fornecidas pró
ou contra uma tese têm maior ou menor força e fazem variar a intensidade da adesão de
um auditório" [18]. Esta espécie de raciocínio é fundamental para quem lida com valores,
por ser necessária a sua coexistência.

Os políticos, filósofos, juristas, por exemplo, trabalham com o raciocínio dialético.


Nenhum deles tem a pretensão de dar uma resposta definitiva aos questionamentos
postos, mas sim aquela mais convincente para determinado momento. Observe-se que
há uma enorme diferença entre ter a solução verdadeira e ter a solução mais
convincente. Diferentemente do raciocínio analítico, o raciocínio dialético tem uma
ligação direta com a ação, com a tomada de decisão e formação de uma opinião. Por
exemplo, qual a melhor forma de prestar serviços educacionais? O correto é deixar tudo
a cargo do Poder Público, ou permitir a intervenção de entidades particulares? De uma
forma prevalece o valor igualdade, pois todos estarão recebendo o mesmo tratamento, a
mesma educação, da outra, prevalece o valor liberdade, pois não seria necessário seguir
um único modelo de educação estabelecido previamente pelo Estado. Trata-se de um
problema que não pode ser resolvido analiticamente, embora muitos tentem fazê-lo.
Então, como resolvê-lo? Com o raciocínio dialético. Trazendo argumentos que
justifiquem a tomada de uma posição, convincente dentro de um contexto.

Para Perelman a retórica, filha do raciocínio dialético, convence através do discurso [19].
Não é a evidência, não é a experiência, nem a inspiração divina, que fazem uma tese ser
aceita no campo da argumentação, mas sim a força do discurso. Há uma ligação direta
com a linguagem, elemento fundamental para a argumentação. Ao mesmo tempo, a
retórica não trabalha com provas demonstrativas, que são a base da metodologia
científica, nem com o conceito de verdade, como o faz a ciência.

Enfim, foi justamente a distinção entre raciocínios analíticos e dialéticos que chamou a
atenção de Perelman para a obra de Aristóteles. Segundo Atienza: "Perelman parte –
como já indiquei – da distinção básica de origem aristotélica entre raciocínios analíticos
ou lógico-formais, por um lado, e raciocínios dialéticos ou retóricos, por outro, e situa
sua teoria da argumentação nesse segundo item" [20].

É importante destacar que, para Aristóteles, inexistiria qualquer relação hierárquica


entre essas espécies de pensar. Ou seja, quando ele segmenta o raciocínio, em momento
algum coloca o raciocínio dialético em um patamar inferior ao analítico, deixando
sempre bem claro, que os campos de cada um são distintos [21], não cabendo equipará-
los. Porém, conquanto esta fosse a posição de Aristóteles, muitos outros acreditavam
que o raciocínio dialético, a retórica, seria algo inferior. E aqui é necessário
compreender as figuras de Platão (428/27 a.c – 347 a.c.) e a dos sofistas.

Como se sabe, na Grécia clássica, os sofistas eram mestres que ensinavam seus
discípulos mediante retribuição pecuniária e que se destacavam por ter uma visão
relativista da verdade. Ou seja, para os sofistas o verdadeiro dependeria do consenso dos
homens. Desta forma, a verdade estaria vinculada unicamente à capacidade de
convencimento do interlocutor e à adesão dos ouvintes. Por outro lado, nesta mesma
época, havia aqueles que defendiam uma visão absoluta de verdade, como era o caso de
Platão.

Para Platão a verdade é única. A obtenção do conhecimento conduz a um mesmo lugar e


qualquer desvio significa uma deturpação, um equívoco. Assim, tomando-se a
classificação de Aristóteles, percebe-se que para Platão apenas o pensar analítico
poderia ser considerado rigoroso e racional. Daí as fortes críticas que formulou aos
sofistas, dizendo que eram manipuladores de opiniões e criadores de ilusões.

A influência de Platão na sociedade ocidental foi enorme, tanto que até hoje vinculamos
a palavra sofista a um aspecto negativo, ligado à idéia de falso. Para verificar a aversão
de Platão aos sofistas, ver a obra "O Sofista", ou então, "Górgias". Enfim, como os
sofistas dedicavam-se à retórica e à oratória, o que ficou para as gerações futuras é que a
retórica estaria ligada ao aparente, ao falso.

Aqui se começa a compreender porque a retórica e o pensamento dialético foram aos


poucos sendo deixados de lado, até encontrar o seu declínio na modernidade. Para
Platão havia apenas uma verdade e ela deveria ser encontrada em todos os campos,
inclusive, na política, na ética, no direito e na filosofia. Conforme explica Perelman:

Diante da multiplicidade dos caracteres humanos, da pluralidade das opiniões, o papel


tradicional dos filósofos era, estabelecendo uma hierarquia entre esses caracteres,
ensinando o verdadeiro sentido das palavras, fornecer a resposta válida, objetivamente
fundada, que haveria de se impor a todos os seres dotados de razão. [22]

Essa visão absoluta não se coaduna com o pensamento argumentativo e, diga-se ainda,
com a própria sociedade ocidental contemporânea, que cada vez mais relativiza as suas
verdades e valores.

Além do pensamento platônico, o que também contribuiu para o declínio da retórica foi
a forma de sua utilização. Segundo Perelman:

Se, entre os antigos, a retórica se apresentava como o estudo de uma técnica para o uso
do vulgo, impaciente por chegar rapidamente a conclusões, por formar uma opinião para
si, sem se dar ao trabalho prévio de uma investigação séria, quanto a nós, não queremos
limitar o estudo da argumentação àquela que é adaptada a um público de ignorantes. É
este aspecto da retórica que explica ter ela sido ferozmente combatida por Platão em seu
Górgias e foi ele que favoreceu seu declínio na opinião filosófica. [23]

Importante dizer que o fato de Aristóteles ter admitido os raciocínios dialéticos não
significa que ele concordasse com os abusos cometidos pelos retóricos. Muito menos
significa que tenha apoiado os sofistas, pelo contrário, Aristóteles é outro grande crítico
deles. Porém, diferentemente de Platão, Aristóteles admitiu uma segmentação da forma
de pensar, reconhecendo que certos problemas deveriam ser abordados com foco na
verdade e outros voltados para o verossímil. E nisso se opõe frontalmente o pensamento
de Platão e de Aristóteles.

É certo que a retórica continuou a ser estudada na idade média, tendo inclusive feito
parte do currículo das universidades daquela época, integrando o trivium, juntamente
com a gramática e a dialética [24]. No entanto, foi relegada a um segundo plano,
justamente por prevalecer no pensamento filosófico a posição de Platão, de que existiria
uma única verdade e que a missão dos filósofos seria justamente buscá-la, eliminando
as falsas concepções espalhadas na mente dos homens.

De qualquer forma, embora já se tenha iniciado a análise das razões pelas quais os
filósofos teriam desprezado a retórica, é crucial deixar claro que é em Aristóteles que
Perelman encontra a base para a formação de sua teoria da argumentação,
principalmente nos "Tópicos" do Organon e na "Retórica".

4. A vitória de Descartes?

Pois bem, como já dito, a visão platônica não se coaduna com a idéia de raciocínio
dialético aristotélico, pois depende da idéia de verdade. Porém, mesmo assim, a retórica
não perdeu seu espaço durante a idade média e continuou a ser estudada nas
universidades. O grande golpe, que a fez cambalear durante três séculos, veio com a
modernidade, mais especificamente, com o pensamento de René Descartes (1596 –
1650). De acordo com Perelman:

Ora, a concepção claramente expressa por Descartes, na primeira parte do ‘Discurso do


método’, era a de considerar ‘quase como falso tudo quanto era apenas verossímil’. Foi
ele que, fazendo da evidência a marca da razão, não quis considerar racionais senão as
demonstrações que, a partir de idéias claras e distintas, estendiam, mercê de provas
apodícticas, a evidência dos axiomas a todos os teoremas. [25]

Buscando diretamente as palavras de Descartes:

Há muito tempo eu notara que, quanto aos costumes, por vezes é necessário seguir,
como se fossem indubitáveis, opiniões que sabemos serem muito incertas, como já foi
dito acima; mas, como então desejava ocupar-me somente da procura da verdade, pensei
que precisava fazer exatamente o contrário, e rejeitar como absolutamente falso tudo em
que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se depois disso não restaria em
minha crença alguma coisa que fosse inteiramente indubitável. [26]

Perelman afirma que:

Descartes e os racionalistas puderam deixar de lado a retórica na medida em que a


verdade das premissas era garantida pela evidência, resultante do fato de se referirem a
idéias claras e distintas, a respeito das quais nenhuma discussão era possível.
Pressupondo a evidência do ponto de partida, os racionalistas desinteressaram-se de
todos os problemas levantados pelo manejo de uma linguagem. [27]

Enfim, é nítida a relevância que Perelman concede ao pensamento cartesiano como


causa do declínio da retórica. Afinal, Descartes reduziu o alcance da razão. Assim,
todos os problemas e questões que não se adequavam ao seu método simplesmente
foram excluídos do campo do racional. Trata-se de característica também dos
empiristas, conforme reconhece Perelman:
Para os partidários das ciência experimentais e indutivas, o que conta é menos a
necessidade das proposições do que a sua verdade, sua conformidade com os fatos. O
empirista considera como prova não ‘a força à qual o espírito cede e vê-se obrigado a
ceder, mas aquela à qual ele deveria ceder, aquela que, impondo-se a ele, tornaria a sua
crença conforme ao fato’. Embora a evidência por ele reconhecida não seja a da intuição
racional, mas a da intuição sensível, embora o método por ele preconizado não seja o
das ciências dedutivas, mas o das ciências experimentais, ainda assim está convencido
de que as únicas provas válidas são as provas reconhecidas pelas ciências naturais. [28]

Em síntese, racionalistas ou empiristas, consolidados pela epistemologia da


modernidade, ambos desconsideraram a retórica. Ela era relacionada ao aparente, ao
efêmero, ao falso. O método científico implantou-se na mentalidade de todos e o
paradigma científico apoderou-se da razão. E, desta forma, todo o campo valorativo
acabou sendo deixado de lado. Para Perelman, na modernidade:

Somente os juízos de realidade seriam a expressão de um conhecimento objetivo,


empírica e racionalmente fundado, sendo os juízos de valor, por definição, irracionais,
subjetivos, dependentes das emoções, interesses e decisões arbitrárias de indivíduos e
grupos de toda espécie. [29]

A evidência cartesiana não deixou espaço para qualquer discussão. Aliás, segundo
Perelman: "Uma evidência imediata resolve o problema da passagem da verdade para a
crença ou da crença para a verdade" [30]. Há apenas uma tese correta e quem não lhe
aderir estará equivocado. E se, por acaso, o problema não era calculável, então não seria
resolvido com a razão, mas sim com base em outros fatores (emoção, vontade, sorte).
Embora nem todos concordassem com Descartes, cite-se, por exemplo, o pensamento de
Giambattista Vico (1668 - 1744), não há dúvida alguma de que por um determinado
período, ele restou vitorioso. Também não há como negar que sem o rigor defendido
por Descartes a ciência não teria alcançado os patamares que hoje se conhece.

Cabe lembrar, conforme salientado pelo próprio Perelman, que o declínio da retórica
também foi resultado de uma postura interna da própria retórica, um certo movimento
autofágico, em virtude do enfoque dado a ela, concentrado em aspectos técnicos, e
questões muito mais ligadas à oratória [31] e a erística [32]. Estes dois campos sempre
estiveram contidos na retórica. O grande problema foi quando eles se engrandeceram e
passaram a ocupar muito espaço na referida disciplina. Aliás, sobre a erística, deve-se
destacar a obra de Arthur Schopenhauer (1788- 1860) chamada "Dialética Erística",
através da qual o referido filósofo expõe inúmeras formas de se ganhar uma discussão
sem ter qualquer razão. Este tipo de trabalho, em virtude das indevidas interpretações,
acabavam por contribuir à deturpação da imagem da retórica e ao distanciamento
endêmico dos filósofos em relação a ela.

De qualquer forma, à margem deste fator interno, o paradigma científico foi crucial para
que os estudiosos perdessem o interesse pela retórica. Assim, para que ela voltasse à
cena, era necessário que o referido paradigma fosse abalado e isto aconteceu de forma
difusa no decorrer do século XIX, graças a discussões ligadas às ciências humanas, e
durante todo o século XX, quando a própria ciência natural começou a ser questionada,
principalmente depois do advento da mecânica quântica e das teorias de Albert Einstein
(1879 - 1955). Para Perelman:
Se, como demonstrou Thomas S. Kuhn, em sua obra consagrada às revoluções
científicas, cada busca científica insere-se em uma visão do mundo e em uma
metodologia, que não podem dispensar juízos de valor, apreciações preliminares a
qualquer teoria e a qualquer classificação, a qualquer elaboração de uma terminologia
apropriada, relegar tais juízos de valor ao arbitrário e ao irracional retira todo
fundamento científico do edifício da ciência, o qual garante os juízos de realidade cuja
objetividade parecia a mais segura. [33]

Que fique claro, a teoria da argumentação está ligada a uma ruptura do paradigma
cientificista, à constatação de sua insuficiência. Perelman não acredita que ela tenha
vindo para suplantar a teoria científica, mas sim para complementá-la: "Os lógicos
devem completar a teoria da demonstração assim obtida com uma teoria da
argumentação" [34].

Em termos estritos, é a própria lógica formal que está em xeque quando se questiona o
paradigma científico, pois ela está em sua base. Os cientistas não podem viver sem os
princípios da identidade, não-contradição e do terceiro excluído. Para eles o que importa
são as regras de inferência, já que todas as premissas estão pressupostas. Como se sabe,
quando o paradigma está consolidado, as premissas tornam-se axiomas, ou seja,
proposições evidentes em si mesmas e indemonstráveis, não cabendo qualquer
discussão em relação a elas. Portanto, o cientista não tem que se preocupar com a força
dos argumentos, mas simplesmente com o respeito às regras de inferência, pois isto o
leva a uma conclusão correta. O grande problema é que alguns campos da vida humana
não se encaixam nesta estrutura, como é o caso da filosofia e do direito.

A lógica formal e os princípios da identidade, não-contradição e terceiro excluído


integram a base do pensamento cientificista, seja de um racionalista, que se valerá da
dedução, seja de um empirista, com sua indução. Porém, apenas com este instrumental
não se consegue trabalhar com valores. Segundo Atienza:

[...] a lógica dedutiva só nos oferece critérios de correção formais, mas não se ocupa das
questões materiais ou de conteúdo que, claramente, são relevantes quando se argumenta
em contextos que não sejam os das ciências formais (lógica e matemática) [...] é
possível que a lógica (lógica dedutiva) não permita nem sequer estabelecer requisitos
necessários com relação ao que deve ser um bom argumento; como veremos, um
argumento não lógico – no sentido de não dedutivo – pode ser, contudo, um bom
argumento. [35]

O grande pecado do cientificismo e da lógica formal é não dar conta de questões


valorativas. E aqui vem o grande questionamento de Perelman:

Deveríamos, então, tirar dessa evolução da lógica e dos incontestáveis progressos por
ela realizados a conclusão de que a razão é totalmente incompetente nos campos que
escapam ao cálculo e de que, onde nem a experiência, nem a dedução lógica podem
fornecer-nos a solução de um problema, só nos resta abandonarmo-nos às forças
irracionais, aos nossos instintos, à sugestão ou à violência? [36]

Perelman nega-se a acreditar que os valores tenham sido abandonados pela razão.
Porém, acredita que, quando se está diante de valores, outra é a forma de raciocinar. Daí
a importância da retórica. Para o filósofo belga:
Percebemos nesse ponto uma nítida diferença entre o discurso sobre o real e o discurso
sobre os valores. De fato, aquilo que se opõe ao verdadeiro só pode ser falso, e o que é
verdadeiro ou falso para alguns deve sê-lo para todos: não se tem de escolher entre o
verdadeiro e o falso. Mas aquilo que se opõe a um valor não deixa de ser um valor,
mesmo que a importância que lhe concedamos, o apego que lhe testemunhamos não
impeçam de sacrificá-lo eventualmente para salvaguardar o primeiro. [37]

Assim, como em um ciclo que se fecha, retorna-se ao momento que Perelman decidiu
estudar a justiça, conforme exposto nos item anteriores deste trabalho. A lógica formal e
o pensamento positivista não lhe deram as ferramentas para solucionar os problemas
que o perturbavam, então teve que ampliar os seus horizontes, romper as amarras que
prendiam a razão e partir para a teoria da argumentação. Perelman percebeu que:

Com o desmoronamento da filosofia prática, com a negação do valor de todo raciocínio


prático, todos os valores práticos, tais como a justiça, a eqüidade, o bem comum, o
razoável, passam a ser simples palavras vazias que cada um poderá encher de um
sentido conforme a seus interesses. [38]

Enfim, foi para não deixar os valores no campo do arbítrio, da violência, do irracional,
que Chaïm Perelman partiu em busca da argumentação, de uma teoria que explicasse
como no conflito de idéias uma prevalece e a outra sucumbe pela força do discurso.

5. CONCLUSÃO

Em síntese, este trabalho, com o alcance e profundidade que se espera de um artigo,


apresentou a origem do pensamento de Chaïm Perelman (1912 – 1984) no campo da
teoria da argumentação.

Conclui-se que, inicialmente, o filósofo belga teve uma forte influência dos filósofos
analíticos, que o fez pensar em um mundo sem juízos de valor. Desta forma, aventou
uma noção formal de justiça ("os seres de uma mesma categoria essencial devem ser
tratados da mesma forma") que, não obstante seu rigor e precisão, não seria aplicável a
casos concretos. Foi aí que Perelman teve o seu momento epifânico e decidiu verificar
como raciocinar a respeito de valores.

Tornou-se um grande crítico de René Descartes e de toda a concepção racionalista


cientificista que pretendia tratar as ciências humanas (v. g. a filosofia e o direito) nos
mesmos moldes das ciências ligadas à natureza. Nesta nova busca, Perelman deparou-se
com a obra de Aristóteles (Organon e Retórica), especificamente com os chamados
raciocínios dialéticos, o que acabou inspirando-o a desenvolver sua teoria da
argumentação, por ele nomeada como "nova retórica".

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARISTÓTELES. Órganon. Bauru: EDIPRO, 2005.


ATIENZA, Manuel. As razões do direito: teorias da argumentação jurídica. São
Paulo: Landy, 2002.

COPI, Irving Marmer. Introdução à lógica. São Paulo: Mestre Jou, 1978.

DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

PERELMAN, Chaïm. Ética e Direito. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

PERELMAN, Chaïm. Lógica jurídica: nova retórica. São Paulo: Martins Fontes,
1998.

PERELMAN, Chaïm. Retóricas. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

PERELMAN, Chaïm, OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da argumentação.


São Paulo: Martins Fontes, 1996.

Notas
1. PERELMAN, Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da argumentação: a nova retórica, p. XXI.
2. ATIENZA, Manuel. As Razões do Direito, p. 81.
3. ATIENZA, Manuel. Op. cit., p. 82.
4. Idem, p. 81.
5. PERELMAN, Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie.

Op. cit., p. 11.

6. Muitos deles estão na coletânea "Ética e Direito", traduzida pela Editora Martins Fontes, utilizada neste trabalho.
7. ATIENZA, Manuel. Op. cit., p. 81.
8. PERELMAN, Chaïm. Ética e Direito, p. 6.
9. Idem, p. 9.
10. Ibidem, p. 19.
11. PERELMAN, Chaïm. Ética e Direito, p. 19.
12. ATIENZA, Manuel. Op. cit., p. 82.
13. Embora muitos se refiram ao Organon como uma obra de Aristóteles, na verdade, ela consiste em um conjunto de suas obras
relacionadas à lógica, que foram organizadas por Andronico de Rodes, no século I a.c.
14. PERELMAN, Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Op. cit., p. 5.
15. Idem, p. 2.
16. Ibidem, p. 3.
17. ATIENZA, Manuel. Op. cit., p. 21.
18. PERELMAN, Chaïm. Lógica jurídica: nova retórica, p. 147.
19. Idem, p. 141.
20. ATIENZA, Manuel. Op. cit., p. 83.
21. Idem.
22. PERELMAN, Chaïm. Lógica jurídica: nova retórica, p. 152.
23. PERELMAN, Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Op. cit., p. 7.
24. ATIENZA, Manuel. Op. cit., p. 65.
25. PERELMAN, Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Op. cit., p. 1.
26. DESCARTES, René. Discurso do método, p. 37.
27. PERELMAN, Chaïm. Lógica jurídica: nova retórica, p. 142.
28. PERELMAN, Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Op. cit., p. 2.
29. PERELMAN, Chaïm. Lógica jurídica: nova retórica, p. 153.
30. PERELMAN, Chaïm. Retóricas, p. 100.
31. Oratória: arte de falar em público.
32. Erística: arte de ganhar um debate, independentemente da consistência de seus argumentos.
33. PERELMAN, Chaïm. Lógica jurídica: nova retórica, p. 153.
34. PERELMAN, Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Op. cit., p. 11.
35. ATIENZA, Manuel. Op. cit., p. 33.
36. PERELMAN, Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Op. cit., p. 3.
37. PERELMAN, Chaïm. Lógica jurídica: nova retórica, p. 146.
38. PERELMAN, Chaïm. Lógica jurídica: nova retórica, p. 152.