Você está na página 1de 36

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

"JULIO DE MESQUITA FILHO"


FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS

BIANCA DOS SANTOS DEROIDE


1º SS MATUTINO

SÍNTESE DO LIVRO:
O Método 5 – A humanidade da humanidade
A Identidade Humana
Edgar Morin
3ª Edição

FRANCA
2014
O Método 5 – A humanidade da Humanidade será objeto desta análise, em uma síntese
a qual todos os pensamentos abordados terão base na interpretação deste livro.

Introdução ao livro

O Método 5 - A humanidade da humanidade - a identidade humana, é a síntese


de uma vida que rompe com a fragmentação do conhecimento nas ciências humanas e
propõe uma verdadeira reforma do pensamento. O autor convida-nos a pensar a vida na
vida, abordando o destino da identidade humana, em jogo na crise planetária em curso.
Traz a questão: quem é o homem?
O autor trabalha as condições em que a identidade humana é construída; suas
interrelações social, cultural e política, o contexto histórico e planetário. Quem é o
homem na relação com o outro e consigo, a importância da dualidade, e como os
opostos estão presentes de forma intensiva na vida do homem.
Estudar o ser humano com seus jeitos, pensamentos, caráter diversificado e
sentimentos é uma difícil e misteriosa tarefa. Edgar Morin em sua obra, tenta identificar
e formar, de certa maneira, a identidade humana.
Destaca o pensamento como qualidade primordial do ser humano e, através dele,
surgem elementos como a criatividade e a imaginação (tão importante para a
compreensão e o fortalecimento dos sentimentos presentes em todo o mundo).
A teoria da complexidade de Edgar Morin, neste livro, parte do pressuposto que
os homens não conseguem decifrar a si próprios enquanto seres humanos, ainda que
com a complexidade de conhecimento, não são capazes de compreender a humanidade.
Ele observa o quão atual o mistério sobre nós mesmos ainda é, apesar de todos
os progressos cognitivos da humanidade frente a uma imensidade de áreas. Realça a
dificuldade enfrentada da impossibilidade da compreensão universal, principalmente ao
que tange as ciências humanas.
Ainda ressalta que os questionamentos não devem ser fragmentados, uma vez
que fazem parte de um todo, deve-se ter uma visão ampla, abrangente, pensar em tudo
um pouco, sem generalizar nada. Em análises, indo desse todo às partes e das partes ao
todo. Em citação a Descartes, ele lembra que “uma ciência está unida à outra”, além da
necessidade de incorporar sentidos, sentimentos e existencialismo a elas.
“O termo ‘humano’ é rico, contraditório, ambivalente; de fato, é demasiado
complexo para os espíritos formados no culto das idéias claras e distintas.”
(MORIN, Edgar, p.17)
Dá ênfase à reflexão e à articulação e ligação dos saberes adquiridos, que
também são considerados os meios de expressões e ao questionamento frente à
integração “filosofia e ciência”.
Na singularidade do indivíduo devem-se ter influências em se tratando do
conhecimento científico, sendo necessário repensar as verdades perpassadas de “formas
objetivas e subjetivas”. Seu conhecimento deve ser muito mais analisado do que é, suas
reflexões devem ser muito mais apuradas do que são, em sentidos históricos, dialéticos.
Como disse o próprio Morin, todas as variações são significativas, todas as constantes
são fundamentais (p. 18).
Um caso de observância e um norte para compreensão da humanidade é no
próprio eixo da desumanidade.
É proposto então um conhecimento complexo pois devem ser considerados
diversidade, sujeito incluso no objeto, as dimensões da realidade humana, as variações
do homo, verdades exclusas e separadas e dimensões científicas, epistemológicas e
reflexivas.
Morin ainda atribui o fundamento de sua intenção à frase de Rodrigo de Zayas,
que diz que “levar a humanidade ao conhecimento das suas próprias realidades
complexas é realmente possível. Só se pode enfrentar o desconhecido a partir daí.”
Tudo é relacionado ao “destino da humanidade”. Quanto a isso, o autor tem
especial atenção, pois sua principal área de estudo relaciona-se à “condição humana”, a
qual ele mesmo diz tratar dos problemas e de seu destino (p.19).
A dedicação do autor ao tema abordado é explicitada pelo mesmo, em suas
citações das obras anteriores e esta aqui tratada. O tempo levado para o término desta
obra nos mostra a amplitude de bibliografias e pesquisas realizadas para se chegar ao
resultado esperado.
A curiosidade de Morin o levou a abordar desde as ciências humanas até as da
natureza. A cultura adquirida e as referências obtidas foram grandes impulsos para os
volumes anteriores e seus demais livros, os quais ele diz contribuir muito para alimentar
esse trabalho. Com suas palavras, “desde então, nutri-me de novos elementos oriundos
de múltiplas fontes” (p.21), em que estas seriam impossíveis de serem citadas, de tantas
foram as bibliografias.

PRIMEIRA PARTE

A Trindade Humana

1. Do enraizamento cósmico à emergência humana

I – O enraizamento cósmico
Na visão de Morin, a busca do conhecimento sobre a humanidade não o deve
separar do mundo em que ele vive. Pelo contrário, ele deve ser analisado perante o lugar
onde ele se situa. “Estamos, ao mesmo tempo, na natureza e fora dela.” (MORIN,
Edgar, p. 25)
Cada vez mais estaremos sujeitos a novas descobertas, as dimensões hoje
imagináveis serão apenas uma pequena parcela do que se pode existir, desconhecidos
pelo homem. “Quanto mais avançarmos no conhecimento, mais aparecerão mistérios
insondáveis”. (MORIN, p.25)
O mundo é um eterno destruir e construir, nós somos simples partículas perante
a uma imensidade desconhecida, inimaginável. Talvez, essa consciência só exista aqui.
“A origem da aventura cósmica nos é incompreensível; seu futuro, velado; seu
sentido, desconhecido” (MORIN, p.26). A vida nos parece simples, mas ao pensarmos
em todas as propriedades, todas as plenitudes vivenciadas, é inexplicável a nosso ver.
Nossa existência se dá a vários fatores: sol, terra, água. Tudo nos impulsiona, na
amplitude da galáxia, nesta em que somos desprezíveis, simples poeiras terrestres frente
ao universo, o cosmo inalcançável.

Natureza e destino cosmofísico do humano

Homem e natureza: dois complexos, duas vertentes. Nestes são retratados as


matérias, as partes físicas e químicas, partículas, moléculas. Organizações, a
constituição da vida. Dependem de princípios, causas, circunstâncias.
Conforme Morin realiza-se como um ciclo, o qual fundamenta-se em
complementos e antagonismos. Como ele mesmo ilustra na página 27 de seu livro, tudo
interligado: ordem,organização, interação, desordem e desorganização.
Quanto ao surgimento do mundo, ele relata as explosões causadas no cosmo, a
implosão de planetas, esse “universo determinista” com tantos tumultos. Talvez a teoria
do Big Bang melhor o explicasse. Nas palavras do autor, o “nascimento” do planeta
Terra dá-se pelo
“amontoado de detritos cósmicos oriundos de uma explosão solar” que “se
auto-organiza através de desordens e cataclismos, enfrentando não apenas
erupções e terremotos, mas também o choque violento de aerólitos, um dos
quais talvez tenha arrancado a lua, e outro provocado a extinção dos
dinossauros.” (p. 27)
Até mesmo à vida ele atribui esse pensamento, essa que já esteve em perigo de
extinção e que se desenvolvem em várias espécies além dos ecossistemas. O homem
hoje tem um histórico de “desafios ecológicos”, de uma luta incessante desde seus
primórdios pela “lei do mais forte”, todavia, nem sempre foi “sensato e racional”.
Uma relação abordada é a de homem e cosmo, ambos bárbaros, destruidores, de
histórias “esplêndidas”. Uma questão feita é quanto a nossa presença no espaço, se
temos companhias que sejam distantes ou se somos a única forma de vida.
As respostas? Seria um equívoco pensá-las, uma pergunta tão freqüente com
respostas tão distantes, talvez nunca respondida.
Morin ressalta que não devam ser descartadas, logicamente no que se trata de
vidas distantes, até mesmo outras consciências, que podem até serem improváveis, mas
não impossíveis de existirem. Ele diz que mesmo se fossem, “se tratariam de
inteligências emergentes, não de uma inteligência primeira guiando o cosmo da vida...”
(p. 28).
Uma citação que considerei importante tratada no livro, foi a seguinte:
“Há, certo, auto-organização do cosmo a partir de uma desordem
extraordinária e de alguns princípios de ordem; o cosmo se faz destruindo-se,
desfaz-se construindo-se. Mas não consigo acreditar que a aventura cósmica
seja animada por algum desígnio providencial que a guiaria rumo à salvação
final. O universo parece ter nascido na catástrofe e parece rumar para a
dispersão generalizada”.
Isso me remete a refletir quanto à existência enquanto ser humano, de onde
viemos, para onde vamos.
Morin lança possibilidades e nos leva a pensamentos racionais. É isso quando se
trata de vida e morte, esta a quem não se tem como fugir, conseqüência última,
definitiva no mundo físico. O cosmo é a razão de ser. “O cosmo criou-nos à sua
imagem” (p. 28).

II – O enraizamento biológico

Os processos de desenvolvimento terrestre dão-se por uma série de fatores. O


Sol foi uma importante contribuição para a possibilidade de vida. Assim, biosfera, vida,
plantas, animais, e destes, o ser humano.
“Nossa vida é terrestre e nós somos seres vivos” (MORIN, p.29). À partir desse
pressuposto, o autor aborda agora os sistemas celulares dos indivíduos em sua formação
como seres humanos, a capacidade de homens e animais fortalecerem-se quando se
unem e a das plantas quando formam os ecossistemas.
Trata também das questões interiores, mente e alma, sentimentos enfim. Essa
capacidade do homem o remete a aptidões únicas, como organização e criação de novos
espíritos. Sua capacidade de raciocínio é renovadora no âmbito das cognições, cada vez
mais apuradas, desenvolvidas.
Todavia ainda carrega a questão física, que dá limites à mente. Dentre muitos
animais, o animal humano ainda arca com a inferioridade física se relacionados com
animais capazes de voar e sobressair-se em água, porém estes são inferiores quando
comparados às técnicas que não conseguem desenvolver.
Contudo, o homem ainda se designa quando pensa, age, sente. A fraternidade,
ternura, solidariedade, amor e ódio se dão no desenvolver da vida, enquanto crianças e
depois de adultos, em todas as fases da vida. Destaca-se ainda a inteligência, que
equivale-se ao passar dos anos cada vez mais, é como um acúmulo de informações, de
saber, de experiências.
A questão sexual também é relembrada, vista expandida perante idéias e sonhos,
não apenas como fator reprodutivo.
Comparados a chimpanzés, os homens estão a todo tempo querendo provar-nos
semelhanças. Não só o fato da curiosidade, os macacos também têm capacidades de
assemelhar coisas e entender outras. O que nos difere são míseros 2% de gêneses, que
fazem toda a diferença, uma vez que o desenvolvimento da inteligência, os progressos
pelo homem realizados e conseqüentemente os avanços tecnológicos já mostram o
quanto podemos perpassar e superar as insuficiências físicas.

III – A grande decolagem: a hominização

“Na efervescente epopéia evolutiva, um ramo da ordem dos primatas começou,


há seis milhões de anos, uma nova aventura, a hominização, que, se acelerando
há 200 mil anos, produziu a humanidade” (MORIN, Edgar, p.31).
Começando com essas palavras de Morin, agora em se tratando das provas
encontradas em escavações sobre a “evolução da bipedização e dos instrumentos”,
realça o fator que “consolida a hipótese” da “resposta de um desafio ecológico” o qual o
homem sofreu avanços. Isso pode ter acontecido devido ao “recuo da floresta tropical e
nutriente”, à “melhor utilidade das mãos” ou até mesmo pela “contração craniana
devido à impulsos internos”. Quanto a estas hipóteses, o autor questiona se não seria
possível reunir todos esses fatores em resposta ao desenvolvimento humano,
considerando-se que todas essas teses têm fundamentos, mas não extatidão.
“Estamos, mais do que nunca, na noite escura das origens” (MORIN, p.32).
Todos os mistérios que nos cercam continuarão mistérios se não nos aprofundarmos nas
pesquisas. Em uma busca de respostas, o autor verifica, baseado em outras pesquisas,
que a ausência de provas dificulta todo um trabalho, porém essa ausência não denota
uma não-existência de respostas, e sim, que elas possam não ser dadas
comprovadamente, apenas podem ser aproximadas do que realmente houve.
A descoberta e a exatidão das origens quanto ao tempo e como se deu parece-
nos estar muito distante. Morin analisa que ela é
“descontínua pela aparição de novas espécies – habilis, erectus, neandertal,
sapiens – e desaparecimento das anteriores, bem como pela domesticação do
fogo, pelo surgimento da linguagem e da cultura” (p.32).
Isso porque a falta de comprovações emerge dúvidas quanto às etapas e as
gerações perpassadas, assim como o aparecimento da linguagem e dos costumes.
Conforme o homem vai crescendo, aumentando seu cérebro e suas aptidões, vai
crescendo enquanto corpo: criança, jovem, adulto e velho. Porquanto criança irá
aprender as culturas e os costumes ao meio ao qual está inserido. Outrem adulto
conservará essas características. Passados tempos, todos os processos se reunirão em
torno de características adquiridas, possibilitando assim o desenvolvimento, o qual os
costumes habituais serão de tamanha importância, pois permite o aprendizado e assim
as melhores adaptações.
A linguagem é o meio de comunicação ideal para se propagar esses
aprendizados. Então, a hominização só foi possível se levando em consideração a
“elaboração da cultura”, mas a “emergência da cultura foi necessária para continuação
da hominização até o Neandertal e o sapiens” (GEERTZ, Clifford).
E ainda “a aptidão natural para aprender encontrará seu pleno emprego na
cultura, que constitui um capital de elementos adquiridos e métodos de aquisição”
(p.33).
O cérebro humano é capaz de aprender múltiplas funções, que apesar de o corpo
não ser adaptado para certas habilidades, o homem constrói meios para lhe servirem de
apoio, ou mesmo para realizar tarefas que estes seriam incapazes sem tais meios. A
especialização do homem e sua capacidade de organização fazem com que ele seja o
mais forte dentre todos os animais, não em força física, mas em se tratando de
inteligência.
Assim, a humanidade se segue, homem não se reduz a animal, mas não existe sem
sê-lo. O ser humano é além do conceitual, faz parte da “biofísica e do psico-sócio-
cultural”. E assim, sucessivamente.

2. A humanidade da humanidade

Algumas características são propriamente humanas, como as crenças e as culturas.


“Não há cultura sem as aptidões do cérebro humano, mas não haveria palavra nem
pensamento sem cultura” (p.35).
Assim se constitui as evoluções da humanidade, esta que pouco se modifica
fisicamente e muito se modifica através das adaptações técnicas e culturais. Todas as
formas de sociedade e até as grandes cidades foram resultados de inúmeras junções,
como “inovações, absorção do aprendido, reorganizações, técnicas desenvolvidas,
crenças e mitos” (p.35).
Morin ressalta que “no seio das culturas e das sociedades, os indivíduos
evoluirão mental, psicológica e afetivamente” (p.35). No processo de hominização, a
sua essência se dá através da comunicação, que se dão de diferentes formas em cada
local, porém que constituem-se pela mesma necessidade.
Logo o autor enfatiza o que é cultura, e lembra que esta é reproduzida pelas
gerações, “gerando e regenerando a complexidade social” (p.35).
“O primeiro capital humano é a cultura. O ser humano, sem ela, seria um
primata do mais baixo escalão” (p.35). As sociedades que não seguem esses “ritos”,
perigam até mesmo de auto-destruição. Eles permitem uma série de fatores, como o
“preenchimento de vazios” da própria natureza. A cultura citada como fundamental,
perpassa por antagonismos quando se trata da questão da limitação imposta. Isso
porque, ao mesmo tempo que ela gera aprendizados, ela reprime outros além dos por ela
permitido.
O que notamos é a troca e a complementação de complexos, e quando se
tratando do “arcaico”, ela moderniza, o torna novo e o difere dos restantes dos animais.
A humanidade da linguagem

A linguagem utilizada pode ser diferente nos indivíduos, mas a finalidade à que
ela será utilizada vai ser o mesmo. Ela possibilita a comunicação, e as articulações a
difere da comunicação utilizada pelos animais. A forma de registro “para além da
memória individual” surgira nas “civilizações históricas” (p.36).
“A linguagem é uma máquina, no sentido já definido por nós. Funciona fazendo
funcionar outras máquinas que a fazem funcionar” (p.36). Para tal, Morin diz que a
mente faz com que essa máquina opere de acordo com o que a cerca, como as pessoas e
seus costumes, através da língua estabelecida. Esta, que faz com que a humanidade
“funcione”, pois ela é o meio para o todo.
As palavras utilizadas na linguagem remetem a uma série de sentidos, elas
podem dar vida às expressões na maneira como são “lançadas”, além de conterem toda
uma simbologia, podendo ser boas ou ruins. Elas não modificam somente o vocábulo,
mas também as gramáticas.
Antigamente as palavras eram definidas com muita dificuldade, podendo obter
vários significados, normalmente vagas, lógicas e analógicas. Eram as “linguagens
naturais”.
A linguagem nos permite o desenvolvimento dos pensamentos, das idéias. Ela
forma o homem, abre ou fecha sua visão de mundo, modela o pensamento.

A Revolução Mental

“O crescimento e a reorganização do cérebro, iniciados com o erectus e


terminados com o sapiens, testemunham e operam uma revolução mental que
afeta todas as dimensões da trindade humana (indivíduo – sociedade –
espécie)” (p.38).
Agora, o autor vai discernir acerca do cérebro, envolto ao espírito, que por sua
vez, contém a inteligência e suas linguagens, afirmando-se nas relações: cérebro 
linguagem  cultura espírito, que estão sempre em uma espécie de “dependência
mútua”.
Morin explica que o espírito por ele citado refere-se à mente, “com todas as suas
qualidades”.
Está envolta à mentalidade as inteligências, que se compõe por inúmeras
complexidades, que nos põe a um patamar acima de outras espécies, que não possuem
“pensamento consciente”.
“Pelo pensamento, a inteligência humana questiona e problematiza, encontra
soluções, inventa, é capaz de criar” (p.39). Desse pressuposto o autor salienta a questão
da consciência, que a partir dela somos capazes de refletir e desenvolver as aptidões, os
conhecimentos. A própria relação interpessoal e social é afetada pelo espírito, fazendo
com que isso modifique cada vez mais a sociedade. É como se houvesse algum tipo de
“evolução da consciência”.
A autoria adianta que
“a inteligência, nas suas múltiplas formas, o engegno, o pensamento, a
consciência, como veremos, a alma, são formas diversas de uma atividade
polifônica do espírito. Aqui, aparecem separadas, mas não aceitam a
disjunção. A própria sociedade é transformada, pelo surgimento do espírito
humano, pois são as interações entre espíritos individuais que a produzem,
sendo que a linguagem multiplica as comunicações, alimenta a complexidade
das relações entre indivíduos e a complexidade das relações sociais” (p.39).
As associações que são capazes de fazer alma e espírito, que interliga
inteligência, cultura, experiência, consciência, contribuem para a evolução do homem
agora não em um sentido biológico, mas inovadores para o próprio pensamento.

O Eros

“O eros é filho do espírito e do sexo” (p.40). Iniciando com essa frase do Morin,
tomamos partido no que se trata do amor, espírito e gozo. Ele correlaciona a tomada do
corpo pelo prazer e ao mesmo tempo, a sanidade que o repudia.
O eros toma conta de quem quer que seja, e faz parte da “complexidade
humana”. A busca pelo erotismo, o sexo e a alma, todos e tudo, levados pelo sentimento
do amor.

A abertura ao mundo

Quando ele fala da abertura que o espírito dá ao mundo, ele explica que ela se dá
pelas manifestações de curiosidade e vontade de entender. Que o espírito se abre ao
mundo pelos encantamentos e estranhezas ao mundo.

A grande evidência: racionalidade e técnica

Racionalidade e técnica são duas vertentes que Edgar Morin trata como
exclusivas do ser humano. Também, a própria irracionalidade o demarca, quando se
trata de crenças em algo que não pode ser comprovado pela ciência. Duas formas de
desenvolvimento, que cada vez serão mais adaptadas. Diz Morin:
“Desde as suas origens, a técnica procurou remediar as carências humanas. O
ser humano dispõe de mãos hábeis, mas fracas em pressão e batida. Corre,
mas a baixa velocidade. Não sabe voar. Não dispõe da capacidade dos
pássaros para captar informações magnéticas e visuais para os seus
deslocamentos. É também a técnica que realizará artificialmente as ambições
e sonho dele”.
O ser humano cria os mecanismos para possibilitar sua própria superação, vai
além dos seus limites, atravessa fronteiras que para outros animais e principalmente a
ele, seria impossível. Ele transforma matérias-primas para além de sua necessidade. Ele
domina e comanda a natureza, a destrói e destrói a si mesmo.

A evidência velada: o imaginário e o mito


Nem as modernas técnicas nem as aptidões cognitivas foram capazes de eliminar
a necessidade de crenças e mitos. “Os mitos são narrativas recebidas como verdadeiras
que comportam infinitas metamorfoses (...)” (p.42).
Compõem os mitos o politeísmo, a crença em espíritos, dentre outros. No
começo do século XX, esses mitos passaram a ser desfeitos pelos antropólogos
simplistas.nas sociedades arcaicas, que mesmo dentre tantas descobertas, como a
ciência da astronomia e os esplêndidos monumentos gigantescos, acreditavam fielmente
nas mitologias, ideologias e religião.
Diante da razão, ainda assim continua a era credista, fortifica-se nos séculos XIX
e XX, e ainda surgem novas. A razão não extinguiu as crenças, então, uma passa a fazer
parte da outra, sendo as crenças mais diversas, e dando vida à razão, afinal, os
pensamentos nunca deixam de ser associativos.
“O mito nasce de alguma coisa muito profunda no espírito humano. É inflamado
pelo mistério da existência e pelo abismo da morte” (p.43).

Magia, rito e sacrifício

A magia possui símbolos e analogias, lida com o empírico e fala-se em


demônios e deuses, faz-se feitiços. Ainda hoje está presente na vida de algumas pessoas.
Muitos ritos de comunicação são praticados por todos nós, como alguns gestos
de cumprimento, que já viraram costume. Porém, os ritos humanos estão ligados à vida
e à morte, onde há gesticulações e a pessoa entra em transe.
Apesar das diferenciações de ritos, todos estabelecem sintonização com o ser e o
meio. “O rito opera assim, uma integração comunitária, religiosa e cósmica” (p.43)
No período paleolítico os sacrifícios em nome de rituais eram comuns, e ainda
acontecem hoje.
“Entre os sacrifícios humanos, o sacrifício do inocente deve trazer a
purificação dos pecados; e o sacrifício do culpado deve trazer a eliminação
do mal pela eliminação do maléfico. Da mesma forma, o sacrifício do
desviante deve eliminar a fonte de perversão. Enfim, o sacrifício de si deve
salvar os outros” (p.44).
Os rituais são oferecidos normalmente por temor aos deuses, em resposta às
angústias, em busca de benevolência, pela fecundidade ou fortalecimento.

A noosfera

A “esfera do pensamento humano”, o saber, presente no cotidiano. Inseparável


da sociedade humana, embutida nas crenças, espiritualidade, mitologia. “A noosfera,
meio condutor e mensageiro do espírito humano, põe-nos em comunicação com o
mundo, ao mesmo tempo em que serve de tela entre nós e o mundo.” (p.44).
Diante das diferentes sociedades, ela as acompanha e diferencia-se junto à ela
das demais. Nas palavras de Morin, ela envolve os seres humanos ao mesmo tempo que
faz parte deles
A noosfera é outra parte do saber, o conhecimento do conhecimento, não como
dogma, mas no espírito, na mente, onde ela produz imagens, cores e formas que te
fazem bem. É a parte do cérebro que produz imagens ficcionais, fantasmagóricas,
míticas, rituais. Como exemplo dessas imagens temos o sonho produzido durante a
noite, que é o modo do cérebro continuar vivendo. Já as danças e as músicas fazem
parte da condição de espécie, e faz bem a esse cérebro. Essas racionalidades simbólicas
devem trabalhar com a razão útil e objetiva, pois as pessoas são capazes de conciliar o
mítico com o verdadeiro, fazendo disso, razão.
Noosfera é a parte mais sutil da mente, capaz de intervir na realidade de forma
contundente. Suas entidades reproduzem-se na organização e educação das sociedades.
As crenças dos humanos em deuses e orixás revelam o tipo de comunidade, em se
tratando de indivíduo, pode o levar ou não a diferentes caminhos, o influencia e
direciona. O pensamento mitológico adquire poder, potencializa os fatos.

A humanidade e a desumanidade da morte


“É na morte que se encontra a maior ruptura entre o espírito humano e o
mundo biológico. Na morte encontram-se, chocam-se, ligam-se o espírito, a
consciência, a racionalidade e o mito” (p.45).
Todos seres vivos têm medo da morte, mas apenas os humanos têm consciência
dela. Os trânsitos de morte causam angustia a eles, que são responsáveis por suas ações,
e ao mesmo tempo que temos a certeza de que morreremos, não temos a certeza do
momento, gerando incertezas. O problema é que quanto mais temos consciência, mais a
morte é trágica.
A morte comporta vários mitos, como o do renascimento. Os rituais têm
reformulações, vários olhares. A morte vai de encontro com a racionalidade e a
irracionalidade, onde o irracional pode ser o mais racional, uma vez que para as mortes
trágicas o ser humano cria explicações para amenizá-la. O imaginário da morte pode ser
considerado contagiosa, que sua idéia afeta as pessoas, e então, devemos nos permitir
chorar, ficar triste. A racionalidade demasiada nos leva á irracionalidade.
Os humanos são seres de religiosidade, e devem acreditar em algo, deve-se ter
um conhecimento de si para não ser massa de manobra. Dependendo da sociedade, o
espírito pode voltar e influenciar os outros, pois o espírito permanece vivo. Entretanto,
essas tribos devem ser atualizadas das humanizações. Alguns crêem que a morte não é
absoluta, há o renascimento, onde o ser traz energias de si e incorpora um pouco nos
outros, todos os dias, alterando-nos.
Ainda assim, causa o que Morim denomina de “contradição”, onde o homem
está fadado ao tudo e ao nada. Ela causa medo, em alguns, pavor. Mas para não temer a
todo o tempo a mente cria novas roupagens, inibindo essa morte, fazendo o homem
acreditar em renascimentos em novos corpos, humanos ou não. É
“o complexo de continuidade e de ruptura com nossos enraizamentos. Pois a
morte é o nosso destino cósmico, físico, biológico, animal. E, ao mesmo
tempo, é a nossa ruptura psicológica, mitológica e metafísica radical com
esse destino” (p.47).
A morte torna-se presente na vida à partir do momento em que ela não se
delimita ao momento da morte, e é a partir dos 6 anos que ela nos mostra, onde antes era
apenas um desaparecimento, agora, é uma destruição da individualidades (Morin).
“A morte trabalha o espírito humano. A incerteza da morte, ligada à
incerteza de sua hora, é uma fonte de angústia para a vida. O encontro entre a
consciência de si e a consciência do tempo determina a consciência do viver
no tempo e deve enfrentar a morte.”
O amor piora essa situação, pois causa dor somente em imaginar o que seria sem
aquela pessoa presente em nossos dias. Os tormentos geram dúvidas, sobre o que ela
realmente é e para onde vamos. A “grandeza da humanidade” talvez nunca irá sobrepor-
se a ela.

Além das raízes

Com a citada morte, Morim exprime que nela fazemos parte de uma tragédia
cósmica, do nascimento, de uma aventura biológica, da existência e do destino, mesmo
os mais rotineiros e banais. Assim, somos sujeitos de consciência e capazes de
desenvolver os pensamentos.
Somos estranhos ao cosmo ao mesmo tempo em que fazemos parte dele, assim
como conhecemos e desconhecemos o mundo físico ao mesmo tempo. “E talvez para
conhecer o universo, seja necessário um monstro cerebral e mental, chamado homo,
suficientemente distanciado e próximo a ele” (p.48).
As mitologias revelam nossa proximidade ao meio e aos animais, percebidos nas
venerações a eles e na inocência infantil, que acredita que animais e plantas têm a
capacidade de conversar conosco. A submissão e manipulação ao homem a que os
animais e plantas sofrem, hoje, com o desenvolvimento da consciência foi amenizado
em se comparado à antiguidade, ou menos, maquiada. Esquecemo-nos, porém, quando
nos achamos os donos do mundo agindo de acordo com nossas vontades não nos
preocupando com a vida dos animais e plantas, que dependemos deles para viver. Até os
recursos naturais estão inclusos nesse processo.
Necessitamos reorganizar as ações da vida, a qual somos produtos e produtores.
“Como um ponto num holograma, carregamos, em nossa singularidade, não
apenas toda a humanidade, toda a vida, mas também quase todo o cosmo,
inclusive seu mistério que jaz no fundo de nossos seres” (p.49).
Pode-se considerar o homem um marginalizado do cosmo, uma vez que é o
único ser vivo dotado de tal capacidade cerebral. Por isso não deve-se deixar a vida ser
privativa, deve-se conceder novas aberturas à ela, permitir-se várias ciências, várias
sensações, vários modos de ser e pensar. “A antropologia que remete a vida à vida
privada é uma antropologia privada de vida” (p.49).
Somos um microcosmo portadores da amplitude da vida. Essa vida singular.
Essa vida múltipla. Não somos somente cosmo, somos física, biologia. Somos
consciência, somos exatidão. Somos criadores e criaturas de mitos e razão. Nos
desenvolvemos para além da vida, “e é nesse além que se dá o desenvolvimento da
humanidade e da desumanidade da humanidade” (p.50).

3. A trindade humana

A autoria demonstra vários exemplos de trindades a qual somos inerentes, que são a
trindade indivíduo/sociedade-espécie; cérebro/cultura-espírito; razão/afetividade/pulsão,
que está contida nas expressões e emergências triunfais.

Indivíduo/sociedade/espécie

Morin ainda trata de uma individualidade que consiste no armazenamento de idéias


como forma de desenvolvimento pessoal, onde cada um tem suas próprias
considerações, o que permite que o indivíduo seja único, com sua própria maneira de
pensar. Porém, não se pode deixar confundir individualidade com o individualismo.
Nota-se então um grande salto à qualidade, onde até as posturas políticas levam em
conta o coletivo em um exercício complexo de atender ao todo e às partes, atendendo o
leque de possibilidades sem individualismos, em forma de uma democracia com
respeito às diversidades.
Assim, indivíduo/espécie/sociedade pode ser fragmentado em três parâmetros, em
que nem as realidades do indivíduo, sociedade ou espécie biológica são diminuídas.
Desses três, o indivíduo é o termo da trindade, em que nenhum deles se separa, mas
mantém uma relação de interdependência, um contém o outro, e então eles se
reproduzem reciprocamente, em forma de processos constantes.
“...a sociedade reprime, inibe o indivíduo; este aspira a emancipar-se do jugo
social. [...] Indivíduo, espécie e sociedade são, assim, antagônicos e
complementares. Imbricados, não estão realmente atrelados; há perplexidade
da morte entre o indivíduo efêmero e a espécie permanente; há o
antagonismo do egocentrismo e do sociocentrismo. Cada um dos termos
dessa trindade é irredutível, ainda que dependa dos outros. Isso constitui a
base da complexidade humana” (p.52).
Morin ainda complementa que uns são os fins dos outros, tornando-se meios, então.
Entretanto, a finalidade do indivíduo não é viver para a sociedade ou para a espécie,
mas para viver intensamente, desenvolvendo assim seus sentimentos e particularidades.

A inseparabilidade

As trindades citadas são inseparáveis, o ser humano é ao mesmo tempo inteiramente


cultural, biológico e autônomo, submetido apenas ao superego social pelo qual é
influenciado. Em citação a Freud, ainda lembra da dialógica entre id, ego e superego,
ditados pelas pulsões. Entre as pulsões, a ordem biológica e a ordem social o indivíduo
se vê em um holograma, onde seu ponto contém o todo.
Os fatores biológicos, como o nascimento, o sexo e a morte estão ligados à cultura,
as atividades biológicas como defecar, acasalar, dormir estão ligadas à tradições; já as
espirituais, estão ligadas ao cérebro; e as estética, como cantar e dançar, ligadas ao
corpo. Sendo todos estes ligados uns aos outros.
Também são lembradas as doenças, as quais podem ser ao mesmo tempo corporais e
psíquicas, as quais sofrem diversos tipos de tratamentos e prevenções, desde chás e
remédios até feitiçarias.
Há ainda intervenções ocorridas entre trindade mente e trindade
cérebro/mente/cultura, gerando outra face conforme as relações complexas, até mesmo
entre animalidade e humanidade, o que pode levar a unir afetividade com inteligência,
que por sua vez, gera conflitos entre a pulsão, o coração e a razão, sem hierarquizar-se.
Essas características biológicas e culturais, conforme o pensamento complexo de
Morin, não são nem justapostas nem superpostas, mas regeneram-se como ciclos
regenerados incessantemente.

A solda epistemológica

Poderia até existir um conversor dos “conceitos da linguagem biológica em


linguagem antropológica”, e assim, sucessivamente. Muitos saíram em busca da
comunicação entre continentes, porém, não sabiam, que um está contido no outro, e o
outro, no um.
“Não há comunicação entre uma biologia privada dos conceitos de auto-
organização, de existência individual, de inteligência, e uma antropologia
sem vida, em que a noção de homem desintegrou-se em disciplinas
separadas” (p.55).
A dificuldade se dá na distância que se encontram ciências humanas e biológicas,
que necessitam de uma “auto-organização”, passando de uma complexidade à outra.

4. O uno múltiplo

Com uma frase de Heráclito, Morin passa a mensagem de quão individuais são os
pensamentos, que mesmo que todos possuam conhecimento, alguns homens agem como
se houvesse apenas o deles.

I – A diversidade infinita

Frente às diversidades encontradas na natureza, notamos a complexidade


biológica das espécies, cada uma diferente da outra, com suas próprias características.
Neste, a espécie humana é considerada “fabulosa e incontável”. Em um parêntese à
geografia, notamos ainda o quão populosa a humanidade se tornou, com diversas etnias
e nações. A linguagem é modificada, adaptada; os jovens a usam à sua própria maneira.
As concepções de mundo, as culturas, a sociedade e as épocas são diferentes. As
técnicas mudam, migram; as crenças também. Diversas tribos são formadas. As funções
do trabalho, o sistema; tudo muda.
“Ricos e pobres, dominantes e dominados, privilegiados e proletários, têm
idéias, concepções, comportamentos que os tornam estranhos uns aos outros,
como se não pertencessem à mesma espécie” (p.57).
As diferenças nos seres humanos notam-se pelas características físicas, como
traços e feições, sendo diferentes personalidades em diferentes corpos, magros, altos,
baixos, entre muitos outros, que se dão conforme as heranças genéticas. O ambiente
também interfere nessas modificações em forma de melhor adaptação, mesmo quando
isolados do restante da população. Em citação às guerras e violências, Morin adverte
quanto aos casos de violência sexual, raptos, adultérios, etc., que favoreceram essas
mesclagens.
“Assim, a diversidade está inscrita numa unidade de vida” (p.59). Esta unidade
referida denota-se pelas proliferações á partir de um uno, para daí, o múltiplo. O uno
seria uma única célula, da qual diversificou-se fervilhando homens, animais, vegetais;
inclusos combinações genéticas e auto-desenvolvimento. Alguns determinantes podem
ser também atos de violência durante a vida ou mesmo atos de carinhos.

A identidade humana comum

A primeira unidade humana é genética, segundo Morin, como sendo fonte


geradora e hereditária. Estas determinam caracteres comuns a todos, mas subjetividades
diferentes a cada um. A organização do cérebro também é algo em comum, mas suas a
maneira como suas competências serão aplicadas será diferente a todos.
Esse cérebro possibilita o surgimento de um espírito que por sua vez possibilita a
formação da consciência, em certo número de traços constantes.
Os sentimentos também são algo em comum, nem todos têm as mesmas
sensações, mas todos têm sentimentos de amor, carinho, raiva, e esses afetos podem ser
compreendidos diferentemente de uma cultura para outra. Mesmo nas sociedades de
direito, a justiça é vista como vingança ou castigo. Há também em todas sociedades
pensamentos racionais, empíricos e o simbólico.

A unidade diante da morte

Morin estabelece “duas formas universais de crença numa vida depois da morte
em diversas sociedades arcaicas: a do duplo como espectro e fantasma; a da morte
renascimento” (p.61).
Mesmo frente à amplitude de religiões existentes, todas vivem a experiência da
morte, sendo ela motivo de angustias aos crentes ou descrentes na vida após a morte,
uma vez que sua aceitação pode ser imposta, mas dificilmente acontecerá.

A unidade cultural e sociológica

Por mais distintas que sejam as culturas, todas têm o mesmo fundamento,
perpetuando-se, reproduzindo-se e regenerando a complexidade social. Todas as
sociedades podem ter costumes diferentes, mas todas têm fatores em comum.
“Ainda que as sociedades sejam extremamente diversas, todos os grandes
sociólogos acreditam na possibilidade de uma sociologia fundamental básica
para todos os tipos e formas de sociedade” (p.62).
A autoria dispõe uma indicação de um “modelo universal de sociedade, mantido
durante milhares de anos através da diáspora planetária” (p.62). Esta que compreende
uma matriz organizadora e comporta princípios de determinativos, como regulação
sexual, proibição de incesto, etc.
As sociedades arcaicas mantinham uma espécie de organização, como Estado,
divisão de trabalho e classes. A sociedade contemporânea contemplou e aperfeiçoou
essas organizações, formando-se assim sistemas e oposições, com aspectos industriais e
tecnológicos em comum.

III. O uno múltiplo: unidade diversidade

Seres humanos apresentam anatomia, genética, fisiologia e cérebro. Os traços


humanos são de total relevância.
“A noção de homem é genérica: constitui um modelo singular, o de uma
espécie que engendra os indivíduos, singulares em relação a esse modelo que
reproduzem e singulares também uns em relação aos outros” (p.62).
Em se tratando de seu espírito, eles podem até defini-lo, porém, de formas
variadas. Cada um com sua imagem, assim como nas inteligências. Há uma ligação,
então, dessas unidades e multiplicidades: cada um dispõe cerebralmente das mesmas
capacidades, mas as determinações culturais são diferentes, e com isso as capacidades
podem ser limitadas ou estimuladas, dependendo do que essa cultura determina. Como
diz Morin,
“Insuficiência de complexidade em demasia e adversidade em demasia
esmagam-na. As carências da inteligência suscitam formas múltiplas de
cegueira e de imbecilidade. Há diversas zonas da cegueira na inteligência,
diversas zonas de inteligência nas cegueiras” (p.63)
Nota-se, contudo, que a outra unidade de multiplicidade está no erro e na ilusão,
que compõem-se de amplas magnitudes. As sensibilidades serão diferentes em cada
indivíduo, cada característica, por melhor ou pior que seja, carregando em si a
desumanidade, são todas as composições da humanidade.
Atos de desumanidades podem ser cometidos devido as pulsões ou interditos
momentâneos, porém esses humanos também sentem amor, carinho, amizade.
“Conforme os indivíduos e as culturas, a prática de vingança é virtual em cada um de
nós, sendo mais fraca a capacidade de perdoar” (p.63).
O ser complexo une traços contraditórios. Cada cultura é inaceitável para outras
culturas, mas sociedade nenhuma vive sem algum de seus tipos, velendo também para
os mitos, diferentes em cada religião, mas que cada uma apresenta seus ritos e magias.
Todas as linguagens têm a mesma estrutura, mas cada uma com suas
especificidades. Nas sociedades diferenciam-se os modos de viver. Sendo assim,
percebemos o quão as unidades estão presentes nas multiplicidades, e vice-versa.

O grande paradoxo

A identidade está contida na multiplicidade. No pensamento moderno, há a


dualidade identidade e alteridade, obtidas nos povos, pessoas e culturas. O eu múltiplo
incorpora esse leque de alteridades. Observando o convívio da humanidade, notamos as
incorporações, não como um modelo fechado, mas constrói-se uma identidade ao longo
da vida, nas fases de desenvolvimento, permanecem e criam-se novas.
O uno múltiplo se dá pelo individual e coletivo. Cada pessoa é ao mesmo tempo
uno e múltiplo. O meio introjeta novos aprendizados, nos modifica a cada dia. Devemos
estar abertos a essas introjeções, não só para uma visão de mundo, mas para uma
consciência, um saber. Nossa identidade é dotada de multiplicidade, sendo os seres
contraditórios, impossível extingui-los.
Essas contradições podem ser separadas, sem violentar suas próprias
diversidades. Os pontos opostos devem dialogar-se. Essas dialéticas não eliminam as
contraditoriedades; sempre que há diferenças, há construção e reconstrução, sem
eliminar o caos. Apresentamos, ao longo do tempo, várias formas de ser, várias
máscaras.
Todo ser humano é ao mesmo tempo sábio e demente. A desumanidade é grande
com alguns humanos, qualquer tipo de opressão tem uma lógica.
A diáspora da humanidade desde a pré-história permite os mesmos caracteres
gerais e ao mesmo tempo a expressão da diversidade em suas variedades, inovando e
criando em todos os campos. “O tesouro da humanidade está na diversidade criadora,
mas a fonte da sua criatividade está na unidade geradora” (p.66).

SEGUNDA PARTE

A identidade individual

O sujeito é ao mesmo tempo uma minúscula partícula frágil de vida e uma


imensidão da realidade vida, que comporta toda essência da existência. Portanto, é parte
do todo e contém o todo, não somente como indivíduo, sociedade ou espécie, que
comporta pensamentos e sentimentos individuais, mas que carrega as condições
humanas todas juntas e suas contradições.
“Carrega-a não como um microcosmo, que seria um puro reflexo do todo,
mas como um ponto singular de holograma, que contém a maioria das
características do todo na sua própria singularidade” (p.73).

1. O âmago do sujeito

A noção de sujeito é de difícil explicação, algumas filosofias tentaram explicá-la,


porem, sem fundamentações. “Ser sujeito supõe um indivíduo, mas a noção de
indivíduo só ganha sentido ao comportar a noção de sujeito” (p.74).
Inicialmente, esse sujeito é dado como ser biológico como indivíduo vivo que ocupa
o centro de seu mundo, de forma egocêntrica (inclusiva e exclusiva) para assim obter
conhecimento e saber agir. A parte exclusiva denota que mesmo que parecidos, nunca
podem ser iguais, ocupam um mesmo lugar, mas individualmente. O Eu é único e
singular, que partilha as experiências da vida universalmente. Têm sua subjetividade
única, egocêntrica, não em um sentido unicamente egoísta, pois a parte inclusiva denota
o altruísmo, a intersubjetividade dos sentimentos, em reciprocidade, um favorecendo o
outro.
“Portanto, o egocentrismo do sujeito favorece não somente o egoísmo, mas também
o altruísmo, pois somos capazes de dedicar o nosso Eu a um Nós e a um Tu [...]” (p.76).
Pode-se pensar, para tanto, que as duas formas percutem em sacrifícios, que pode ser no
primeiro caso, do outro, ou no segundo, de si.
As relações intersubjetivas de amor e amizade podem representar não apenas a
trindade indivíduo/sociedade/espécie, mas um “tetraprograma”, onde mudam-se as
referências dominantes do ora Eu para oras Tu ou Nós, até oras família ou sociedade.
“O indivíduo vive para si e para o outro dialogicamente; o egocentrismo pode
constranger o altruísmo, este pode superar o egocentrismo” (p.77). Tornando-se assim
duas forças antagônicas que fazem as decisões ser contraditórias.
Homens estão sempre subestimados aos bons ou maus sentimentos, e é a
subjetividade que comporta as afetividades. O sujeito pode ser “fechado sobre si ou
aberto pelas forças de inclusão e exclusão”, o que pode ajudar na compreensão das
mudanças das personalidades, uma vez que os indivíduos são levados por essas gamas
de subjetividades.
“Por maior que seja nossa possibilidade de integração num nós, a equação
subjetiva Ego/Eu é pessoal e inalienável. Pode-se partilhar e viver por
empatia e alegria e a dor do outro, mas a alegria e o sofrimento, ainda que
partilháveis, são intransferíveis” (p.77)

A relação com o outro


O outro é seu semelhante ou dessemelhante. Um pelos traços ou culturas, dois
pela singularidade, ambos comportam diferenças e semelhanças, onde suas qualidades
são percebidas. Quando se fecha ao egocentrismo nos é estranho, quando se abre ao
altruísmo nos é simpático, o qual esse sujeito é naturalmente fechado e aberto. Não
sabemos as reações desses sujeitos, as cortesias são bons meios para não se correr
riscos, mas em casos indesejados, estaremos prontos a revidar ou fugir dessas reações.
Além de, esse outro, ser essencial nas relações sujeito-sujeito. Em sua origem
que é determinado os processos de inclusão, onde integram-se nas intersubjetividades e
em determinado meio. “Assim como o indivíduo não se dissolve na espécie nem na
sociedade, que estão nele como ele está nelas, o sujeito não pode desenvolver-se na
intersubjetividade, que lhe garante a plenitude” (p.78). O Eu, então, irredutível.
“A relação com o outro inscreve-se virtualmente na relação consigo mesmo;
o tema arcaico do duplo, tão profundamente enraizado em nossa psique,
mostra que cada um carrega um alterego (eu mesmo-outro), ao mesmo tempo
diferente e idêntico ao eu” (p.78).
Podemos nos sentir estranhos a nós mesmos, mesmo reconhecendo-nos, aos
dizeres de Morin. Nessa dualidade, onde o eu é ao mesmo tempo outro, integra-se
outros Eu’s ao Eu. Suas relações estão nas origens, onde cada um é essencial e deve
atualizar-se para tornar-se Ele, e o processo de exclusão será necessário, posto que um
sendo o centro, acha-se o outro. O amor do alterego possibilita a compreensão para com
o outro, e assim, a conivência de sua existência.
Isso só ocorre na intersubjetividade, pois a consciência produz as compreensões
e as expressões devido a estas, em uma ressonância psíquica imediata. Mas, o
reconhecimento não se separa da subjetividade, na auto-afirmação; ela permite o
desprezo e mesmo a desumanidade diante do reconhecimento.
Assim, “a necessidade do outro é radical; mostra a incompletude do Ego/Eu sem
reconhecimento, amizade, amor” (p.79). Nota-se, em contrapartida, a concepção do
sujeito, onde reconhece-se o aspecto fundante, as visões de egocentrismo e surgimento e
as relações com o próximo, onde a auto-afirmação as engloba.

A sujeição

Os sujeitos podem ser submetidos independente de sua autonomia, não em um


sentido de dominação, mas “possuído dentro de si mesmo”. Essa sujeição dá-se com a
inclusão, como, por exemplo, quando somos subjugados pela fé, mitos, idéias, que
comandam o superego e determina suas ações ou o impossibilita das mesmas

O objetivo do subjetivo

O sujeito se reconhece como si e como outro, esta pode ser uma objetivação,
uma vez que ele reflete sobre si mesmo e passa a compreender-se.
O Ego diferente do Eu é igual a ele, e
“é essa capacidade do sujeito de ver-se como objeto (Ego) sem deixar de ser
sujeito (Eu) que lhe permite assumir, ao mesmo tempo, seu ser subjetivo e
objetivo, tratar objetivamente o seu problema subjetivo como uma doença”
(p.80)
Possibilita assim que este possa viver a realidade sem deixar de levar em conta
seus desejos. Partindo dessas aptidões o homem pôde assumir-se em auto análises,
tomando consciência de si e de seu “duplo”.
Se um homem apenas considera o objeto do outro, torna-se inumano, uma vez
que só será capaz de notar amo ou ódio, sem ver sua humanidade. Para o conhecimento
do outro, deve-se estudá-lo objetivamente e compreendê-lo subjetivamente, um
avançando paralelamente ao outro.

O sujeito e a morte

Para sua compreensão, se vê na morte não apenas a decomposição do corpo, mas


o “aniquilamento do sujeito” (objetivação), onde esses abrem o sofrimento para quem
nos ama ao mesmo tempo que quebra o mais íntimo (subjetivação). Ambos – objetivo e
subjetivo – unem-se. O ser está, então, fadado ao nada diante da morte.
Ela não é negada, mas sim, superada, de acordo com o “duplo”, e encontra-se
nas diversas formas de mitologias e rituais funéreos.

Sujeito engraçado

O sujeito é o ponto do holograma que contém toda a trindade humana. Em cada


Eu há um cérebro e uma cultura social, e quando esse eu se abre aos outros, há uma
ação de humanidade. O superego, o id e o ego situa o grau humanitário de cada
indivíduo, que é determinado de acordo com seu meio e culturas.
Ele nunca estará sozinho visto que nele residem Nós e Outro, mas ninguém
ocupa seu lugar no egocentro, por isso ele pode considerar-se sozinho e rejeitado no
mundo, ou mais aberto nas necessidades e curiosidades e fechado na singularidade.
“O sujeito humano é complexo por natureza e por definição Sujeito
engraçado, portanto, pois, ao mesmo tempo, apresentar-se como singular e
comum, comunicador e incomunicável. Além disso precisamos incorporá-lo
à trindade humana, situá-lo numa cultura, numa história...” (p.81)

2. A identidade polimorfa

Cada indivíduo é um e vários ao mesmo tempo.

O paradoxo do feminino/masculino:
a dualidade mais e menos profunda
“A espécie humana é uma, mas num sentido, dupla, separada e unida pelo
masculino e o feminino” (p.82). A diferença entre estes se dá na fisiologia, anatomia,
hormonal, cultural, e, se é que pode se dizer, mental. A cultura estabelece as tarefas de
cada um, e acaba por sobrepor-se às diferenças psicológicas.
Antigamente, o sexo masculino era o dominador, porém, atualmente as mulheres
estão conquistando seus espaços, não apenas nos direitos, mas na autonomia como ser
humano sobre si, na liberdade e quebra de tabus.
“Homem e mulher beneficiam-se da plenitude das características humanas”,
mas, não apenas isso, pois o masculino está contido no feminino, e o feminino no
masculino, comportando um ao outro de modo recessivo, quando há homens
afeminados e mulheres masculinizados, além de algumas características biológicas e
anatômicas parecidas e a enorme gama de bissexuais, homossexuais e transexuais.
Talvez isso explique porque alguns homens e mulheres encontram suas almas no sexo
oposto.
Hoje em dia nossa civilização já permite homens mais sentimentais, o que
antigamente era característica considerada feminina, assim como tarefas do lar.
Também permite que mulheres ocupem cargos até então considerados masculinos, o
que não significa a abolição dos sexos, mas sim o reconhecimento de “direitos iguais”.
Na mente todos são iguais, e homens e mulheres carregam uns aos outros dentro
de si, essa dualidade dentro da unidade.

Os paradoxos da idade

Ao longo dos anos, percebemos as mudanças do Eu que ocorrem em nosso


corpo, a morfologia e a fisiologia modificam-se: jovem, adulto, idoso. O contínuo foi
tomando seu espaço para além da mudança das fases, a única fase que é relembrada em
sua passagem é a maioridade civil.
Ao decorrer da idade, adquire-se novas experiências, aprendizados, que
modificam nossa personalidade.
“Contudo, através da multiplicidade sucessiva das idades, cada um, sem
perceber, carrega, presente em todas as idades, todas as idades. A infância e a
adolescência não desaparecem na idade adulta, mas são recessivas [...]”
(p.85).
Com isso, o paradoxo fundamental do sujeito é a não-idade na identidade.

A dualidade interior

O ser humano uno e indivisível produz sua própria dualidade quando afirma sua
unicidade sob as formas que mudaram. Essa experiência universal do duplo revela a
duplicação do si, e o Ego objetivado é a concretização desse si.
Assim, a noção de sujeito que unifica o seu individual comporta uma dualidade
interior, que está para a reflexão do Eu uno, sua auto-objetivação e a dualidade frente a
frente do si e si.

A unidade plural da identidade pessoal

A identidade pessoal define-se de acordo com os ancestrais, os pais e ao meio


que vive, incluindo seus antecedentes e filiações. Então,
“pode-se ver no Ego ‘um anel de uma estranha linhagem de proles, mais do
que uma mistura, um cristal compósito, o resultado do maior número de
correntes e de sangue que se poderia conhecer’” (p.87).
Temos as marcas dos antecedentes e pais, carregamos a presença da
multiplicidade de seres, os comportamentos e hábitos mentais pelo mimetismo, além
dos nossos ascendentes, incluindo-os em nossa identidade.

Multiplicidades e dualidades internas

“Não há somente a alteridade interior do duplo, a inclusão de nossos


ascendentes em nossa identidade, do outro em nosso Nós, mas também
multiplicidades internas e profundas em cada indivíduo” (p.87)
À partir disso, a autoria dita as dualidades do corpo e mente, que cobre a divisão
em nosso espírito consciente e constitui nosso ser biológico.
As forças inconscientes dominam as conscientes, onde uma ignora a outra. O si
não conhece o Ego, nem o Ego o si, cabendo assim a indicância da distância do si para
si. Esse conjunto formado pelas dualidades interna e a pluralidade de inconscientes
permite a auto-enganação. Esse Ego mentiroso consegue enganar si mesmo e a nos
convencer de sua sinceridade.

As duplicações e multipersonalidades

Para entender as mudanças de personalidades devemos diagnosticar as


patologias, que consistem em mudança de voz, jeito, temperamento, linguagem, etc.,
que habita o mesmo indivíduo e o ignora. É como se criasse suas próprias qualidades e
defeitos, a dupla ou múltipla personalidade ocorre como que normalmente quando as
pessoas estão inconscientes, modificando-as.
Essas contradições no complexo cerebral acontecem de acordo com as situações
vividas, alternando processos de exclusão e inclusão. De repente alguém que era
recatado vira libertino, ou vice-versa. Também ocorrem casos de uma personalidade
eliminar a outra, tornando pessoas boas em mórbidas, generosas em assassinas e
odiadas em amadas.

Papéis de vida, vida de teatro, mimese


A multiplicidade de papéis sociais pode estar ligada às multiplicidades de
personalidades, onde esses papéis variam de acordo com o lugar que se está. “Papéis
sociais são personalidades estereotipadas, embaixadoras do Ego junto aos outros, mas
também imagens do Ego junto a si mesmo” (p.91). Alguns desses papéis podem
remodelar as personalidades.
A mimese, como citada por Morin, é um dos fatores mais importantes da vida
animal e humana. Essas aptidões de imitações podem ser grandes incógnitas, pois as
pessoas vistas em peças teatrais, por exemplo, mudam de personagens como trocam de
roupa, modificando a linguagem e o modo de agir. Essas trocas de personalidades se
dão conforme as necessidades, comportamentos como que “exigidos” para determinado
local, manifestando se “tanto no teatro quanto na vida”.
Ela ainda pode estar lado a lado com a possessão, quando, por exemplo, em um
sonho, que as pessoas que nos aparecem nele têm pensamentos e agir próprios, como se
não fizessem parte de um mundo fantasmagórico, ou quando imitamos uma pessoa por
tanto tempo, seu modo de falar e se movimentar, que passamos a agir como ela fora da
imitação. Esta é a projeção de si no outro nas atividades subjetivas profundas, ao
mesmo tempo ocorre a projeção, a identificação, o histérico (simulação – tradução de
um estado psiquico) e a possessão (apropriação e controle da pessoa pelo personagem).
“Nas passagens de uma personalidade à outra, sob o efeito da raiva ou do
amor, vivemos histericamente nossos estados psíquicos, os quais encarnam
uma personalidade particular que se tornam, por algum tempo, nossa pessoa”
(p.92).
Dentro de nós há várias personalidades (boas e ruins), que nem sempre se
mostram ou tomam consistência de nossas vidas.

As cavernas interiores

Em nosso interior habita o “Id inominável e o Nós anônimo”. Nossos demônios


tomam conta de nossas almas. Para lidar com essas angústias, devemos nos deixar
compreender, entrar nessa “caverna interior”, sempre em busca de avanços. Já as
“cavernas exteriores” comunicam-se com as interiores, contemplando as vontades
liberadas das inibições, as quais cometem os erros e conseqüentemente os aprendizados.

O cosmo secreto

Todo ser humano contempla o cosmo em si, e por mais insignificante que seja,
constitui o cosmo. Contém as multipersonalidades e a multiplicidade interior. Contém
inúmeras fantasias, crenças, suas próprias cavernas, impulsos e desejos, ódio e amor,
solidão e pluralidade, em um “cosmo insondável”.

O Eu contínuo e o Ego descontínuo


O indivíduo é central na trindade humana, nem início nem fim. Contém o uno e
o múltiplo. Sua unidade produz dualidade e multiplicidade, comporta alteridade,
identidade e sua união à não-identidade.
O Ego/Eu é simples e complexo. A unidade do eu oculta as várias
personalidades. Não deve ocultar a multiplicidade interna nem a unidade externa.
“Existem vários Ego em uma pessoa, mas eles quase não se frequentam e são ligados
por um Eu único” (p.94).
As personalidades dominantes nem sempre inibem a recessiva, estas podem
atualizar-se e a dominante perder seu posto à segunda ou quinta personalidade, onde a
última cristaliza-se. Outros nos habitam, habitamos outros. Cada um com suas
potencialidades e multiplicidades, permanecendo único.

3. Espírito e consciência

O Ego nasce quando tomamos consciência de sua existência, os fenômenos mentais


comunicam-se com ele, que o fortifica.

I – Poderes e fraquezas do espírito

O erro é humano

A mente-espírito desenvolve-se de acordo com as atividades mentais e culturais.


Seu fechamento permite a abertura, é curioso e insolúvel. O cérebro só comunica-se
com o exterior através dos sentidos, assim sendo, todo conhecimento é tradução e
reconstrução. Esse mesmo cérebro não possui um dispositivo capaz de distinguir
alucinações de percepções, objetivo de subjetivo, que somente é percebida pela razão
mental, que controla e assegura as objetividades do mundo exterior e nossas relações.
Assim, devido ao fator do conhecimento, estamos sujeitos a erros, fatores
permanentes da cognição da mente humana. “A despeito das suas capacidades de
controle e de verificação, o conhecimento humano correu e corre sempre riscos
formidáveis de erro e de ilusão” (p.97).
O conhecimento da verdade não impede que o erro aconteça, as evidências
também podem ser ilusórias, as quais são percebidas apenas pelo outro, algumas vezes.
O espaço que há entre mente e espírito permite esses erros ou ilusões, e elas sempre
estarão presentes nas atividades mentais humanas, e a razão será quem irá lutar contra
esses fatores.

O cérebro e o computador
Quando comparado ao cérebro humano ao computador, percebemos suas
diferenças e semelhanças. Ambas são máquinas: a primeira é operada pela mente (o ser
é dotado de sensibilidades e autoconsciência), a segunda não é dotada de espírito, não se
reconhece e não passa de máquina, onde há a inteligência artificial. Esta que faz
operações específicas e cheias de lógicas, sem probabilidade de erro, porém limitada à
computação, que está contida na mente humana em forma de pensamento.
O cérebro busca informações na memória, combinando precisão e imprecisão,
de um modo muito complexo com “enormes riscos de erro, ilusão e loucura”, mas
também uma maior capacidade de criar e inventar.
Estamos sujeitos a várias transferências analógicas de um domínio para outro. A
racionalidade prática e as analogias sujeitam-se a verificações. Até mesmo o
conhecimento científico submeteu-se às analogias contra sua vontade, e é nos
pensamentos mitológicos e poéticos que essa analogia chega ao ápice.
“O digital separa o que é ligado; o analógico une o separado” (p.100). As
complementações constantes fertilizam o conhecimento. Assim,
“a mente humana, que trata o separável e o não-separável, pode discernir os limites
de um conhecimento consagrado somente ao divisível e ao separável, reconhecer
as incertezas de um conhecimento que só se mobiliza na analogia e tratar a
complexidade, em que o separável e o inseparável são inseparáveis” (p.100).
Há na linguagem duas formas de ligação, uma objetiva baseada na lógica e uma
subjetiva baseada nas afetividades, ambas formam uma só em nosso cotidiano, podendo
traduzir a complexidade racional e afetiva do ser humano. Um assume o empírico, o
lógico, outro assume assonâncias e imagens, sem a perda do controle.
“Uma palavra pode ser apenas signo” (que pode ser friamente a natureza do que
se designa) ou símbolo (presença do que significa).
Comportam, assim, a relação de identidade com o que simboliza, contendo amor
ou rancor. Os mitos alimentam-se desses símbolos, pois contém presença afetiva.

O pensamento uno e plural

“O pensamento complexo comporta e desenvolve diferentes tipos ou modos de


inteligência, mas os supera pela importância de seu componente reflexivo e pela sua
aptidão organizadora e criadora” (p.102). O pensamento e a inteligência resolvem
problemas, mas o primeiro demonstra seus limites. O desenvolvimento os resolve, mas
a problematização os agrava.
Nas atividades mentais o pensamento se desenvolve na utilização da “lógica, da
linguagem, da consciência e da inteligência”. O pensamento cognitivo que as
civilizações desenvolve ocorre em cada sujeito para si, com suas próprias reflexões, ou
já é estabelecido através de normas que a regem, limitando-os. Este pode até
desenvolver-se de sua forma original, mas o infringe e não o deixa de ser.
“O pensamento elabora concepções, ou seja, formas ou configurações
constituindo unidades organizadas” (p.102), estas podem variar de idéias e conceitos até
teoria e prática, com materiais, obras de artes ou criações técnicas. As concepções
podem utilizar ao mesmo tempo recursos da mente/espírito, ferramentas ou a própria
mão. Nas palavras de Morin, a atividade pensante comporta invenção e criação, onde
grandes pensadores são criadores que modificam nossa maneira de ver o mundo.
No pensamento há uma espécie de organização e criação, que possibilita
distinguir falso e verdadeiro, competências complementares e uma fértil gama
imaginária, dialogando o racional, empírico, analógico e mítico. Através destas geram
as angústias, sabido a compreensão de mundo sem podê-la decifrar, o pensamento então
“implica todo nosso ser”.
“Uno, múltiplo, polimorfo, o pensamento concebe e utiliza estratégias
cognitivas ou práticas diversas, de acordo com os problemas encontrados. Há
diversidade de estilo de pensamento assim como estilo cognitivo [...]” (p.102)
Abstratos, concretos, funcionalistas, idealistas, empiristas e racionalistas. Vários
são os estilos de pensamento e cognitivos. Todas as sociedades encontram-se
pensamentos e contra-pensamentos, mas no sistema atual, estão empobrecidos.
O pensamento não pode ser isolado e extremista, ele necessita ser regulado
externa e internamente, ele sempre corre risco de desordem. Há tamanha dificuldade em
“pensar de maneira complexa”, mas o espírito as defronta, complexificando seu
exercício e combinando diferentes qualidades para o acionar.

O pensamento duplo

No exercício de pensamentos racional (ciências, lógica, idéia, cálculo) e mítico


(mito, analogias, símbolos, imaginário) a mente humana se revela. Os dois unem-se
gerando o “pensamento especulativo” desenvolvido na metafísica.
Assim como o “duplo”, o mítico em relação ao ser aumenta-se num universo
duplicado que possui características empíricas e fantásticas, um tecido sobre o outro,
“dando surrealidade à realidade” (p.104).

Unidade, oposição e dialógica dos dois pensamentos

As representações podem duplicar a realidade como forma de imagens,


suscitando rememorações. A racionalidade trabalhará nas informações objetivas dessas
rememoras e o pensamento mitológico trabalhará nas duplicidades desses
representações, partindo as duas de uma mesma origem em comum.
A imagem da realidade e a realidade da imagem ainda são muito confundidas,
pois subjetivo e objetivo não se encontram separados.
“O pensamento racional tomará a imagem da realidade para captar a
realidade na imagem; o pensamento mitológico pega a realidade da imagem
para alimentar o mundo imaginário. Assim os primeiros que governam as
operações mentais são a fonte comum dos dois pensamentos e, a partir dessa
mesma fonte, separam-se e opõe-se” (p.105).
Mesmo o pensamento racional utiliza símbolos, e o pensamento mítico
necessita de um pouco de racionalidade, um agindo sobre o outro. Mesmo com suas
diferenças, estão presentes em nossa linguagem, desenvolvida lógica e analogicamente,
pois se é apenas um, priva-se da concretude e complexidade.
A racionalidade deve ser aberta para compreender necessidades humanas que
alimentam mito e religião, não esquecendo que na razão também há paixão. Deve
reconhecer seus limites e compreender características humanas da magia. Reconhece o
tecido simbólico que tece a realidade, concebendo a realidade humana do mito.
Todavia estes dois pensamentos não podem confundir-se. O racional pode
traduzir sua linguagem no mítico, mas o mítico não pode ser profundamente racional e
crítico.

As aventuras do espírito

As curiosidades animais tornaram-se paixões humanas. Os demônios do


conhecimento dominaram seus espíritos, assim como os do imaginário. Estas aventuras
desenvolvem-se por tudo, as do mito iniciam juntamente à origem do homo sapiens,
perdeu seus hábitos tradicionais e inseriu-se na sociedade laica; as do conhecimento
desenvolvem-se à partir do séc. XVII, depois dos princípios da ciência moderna.
Nos séculos XIX e XX os grandes mitos foram a “Razão, a Ciência e o
Progresso”, onde suas leis prometiam a salvação da humanidade. Contudo, o mito não
foi expulso pela ciência nem seu último refúgio é o reino da morte. “A morte é, com
certeza, um buraco negro para a razão e um sol radiante no mito” (p.106), e o real é
mais insondável na morte, como se fossem encontradas razões para a morte sem ser
encontradas a razão de ser. O mito surge justamente neste abismo: existência e morte.
Sendo assim, o mito/religião e a razão sempre estiveram e estarão presente em todas as
sociedades.

O espírito criador

A criatividade, por mais que negada, não pode simplesmente ser banida da
sociedade. A criatividade humana é a técnica intelectual e social, onde real e imaginário
participam. Se reconhecido o papel do inconsciente na criação, será aceito seu mistério
nas noções de possessão e inspiração diante do ato do criador.
“Entre os grandes mistérios do espírito está, de fato, o da criatividade” (p.107).
O imaginário está para a produção do real. Nossa mente ignora as dimensões deste
espírito, pois
“o espírito humano não é apenas uma superestrutura, mas uma emergência de
extraordinária conjunção organizadora entre o cérebro humano e a cultura;
essa emergência não faz somente eclodir as mais ricas qualidades humanas,
mas manifesta surpreendentes poderes através dos xamãs e dos
desenvolvimentos inusitados das técnicas” (p.108).
Conforme os poderes de criação, o espírito promove destruição, com piores
conseqüências caso haja falta de consciência.
A alma

“O espírito é um complexo que comporta o psiquismo” (p.108), revelando sua


subjetividade afetiva, surgindo a partir das sensibilidades. A alma não é passível de
definição, porém ela não se limita, não há término, é instável, luta pela sobrevivência.
Para os olhares funcionalistas ela é algo fútil, age através de emoções e exprime-se em
palavras poéticas e musicais.
A alma pode ser algo cômodo e incômodo. Enquanto espírito é “organização do
pensamento e energia da vontade”, a alma pressente, intui e dói moralmente, conhece o
êxtase, alegra-se. Com ela podemos ser generosos e sensíveis, abertos ao mundo.
Alma e espírito emergem de virtudes complexas, de fenômenos de totalidade,
não sobrevivem à morte pois desintegra-se de tudo e dispersa de seus elementos.

II – Poderes e fraqueza da consciência

Na consciência há dois sentidos do termo, um é o análogo – refletor em refletido


e o outro é o retorno do espírito em si – a linguagem. Portanto, ela é ao mesmo tempo
uma e dupla. Reúne o refletor e o refletido, estabelecendo unidade e dualidade da
consciência da consciência, sendo evidente e misteriosa ao mesmo tempo.
Dois ramos a denominam: o referente às práticas cognitivas e o ramo da
consciência de si, presentes uma na outra. “A consciência de si nasce da experiência
reflexiva em que a unidade do Eu duplica-se objetivamente num Ego e reunifica-se
identificando esses dois termos num ‘eu-sou-eu’” (p.110). É um fenômeno da vida
espiritual, é frágil e ao mesmo tempo qualitativo global oriunda do cérebro.
A retroação da consciência por vezes é fraca ou transformadora, mas é o mais
rico produto humano, ela nada sabe sobre o funcionamento cerebral de onde origina
nossas profundezas psíquicas. “Uma enorme parte de nossa atividade intelectual é
inconsciente e as mais belas emergências de consciência são inseparáveis de um
trabalho inconsciente” (p.111). As duas são misteriosas, assim como sua relação, onde
unem o máximo de objetividade e subjetividade.
As reflexões produzidas pela consciência permitem refletir sobre todas as coisas
que cercam o sujeito e sobre ele próprio, um pensamento do pensamento que o
possibilita intervir no pensamento e nas ações, superando e fazendo parte das atividades
cognitivas. Esta consciência que pode ser dupla (consciência da consciência) onde a
tomada de consciência pelo espírito permite a vigilância crítica e a mediação.
“A fragilidade da consciência, porém, a torna sujeita a todos os erros possíveis do
conhecimento humano, os quais podem até mesmo ser agravados, pois a consciência
crê achar nela mesma a prova da verdade e conhece-se de boa fé” (p.112).
Por isso as falsas e cretinas boas consciências geradas no espírito do homem. As
falsas são pior que a consciência, pois se convence de ser verdadeira, as cretinas boas
são as piores falsas. O inimigo delas não encontra-se apenas na sujeição, mas no interior
espiritual, como a memória seletiva e a mentira para si mesmo.
O pensamento aciona a inteligência e se auto-avalia na consciência, Esta
controla pensamento e inteligência, mas deveria ser controlada por eles, daí surgem as
várias dificuldades para a lúcida consciência. Ela pode ocorrer ou não, o que a torna
frágil e incerta, mesmo porque o homem continua sapiens-demens.

4. O complexo de Adão
Sapiens-demens

Na antiguidade a loucura humana era evidente; nem Adão nem Eva mostravam-
se sensatos. Aparece-nos não apenas nas ideologias humanistas em que o homem
decidia o destino do universo, mas na ciência e na filosofia.
“O ser humano tem, doravante, o selo homo sapiens e faber”, um animal dotado
de razão que aperfeiçoa técnicas. No séc. XVIII foi inventada a noção de homo
economicus, onde lhe acrescenta utilidade e interesse; todos comportando apenas um: o
ser humano.
“A racionalidade é uma disposição mental que suscita um conhecimento
objetivo do mundo exterior, elabora estratégias eficazes, realiza análises
críticas e opõe um princípio de desejo. Os avanços da técnica e da economia
confirmam a eficácia da racionalidades humana” (p.116).
O psiquismo humano mantém racionalidade, afetividade e impulsos. A
especificação (homo sapiens), portanto, é insuficiente, porque ele não pode ignorar
loucura, afeto, imaginário, mitologia, lucidez, estética e religião. Precisamos
complementar e corrigir essa denominação.
Homo demens

Loucura é não lembrar o componente delirante do ser humano. O homo sapiens


provavelmente aniquilou os Neandertais, que poderiam ter a mesma consciência de
morte e mesma capacidade técnica. Também, mais tarde, praticaram ritos de sacrifício,
cometeram massacres, logo exterminaram índios e escravizaram seus semelhantes. Com
a conquista científica, lançaram-se no planta em busca de conquistas, vezes mortais.
Mesmo assim existem resquícios de “bondade e misericórdia no coração desta espécie
criminosa”, marcada pela agressividade.
“A loucura assassina explode nos conflitos entre religiões, nações, ideologias.
[...] Por toda a parte onde o homo continua a pretender-se sapiens, onde
imperam o homo faber e o homo economicus, a barbárie está pronta para
ressurgir” (p.117).
A loucura se dá quando o imaginário é considerado real, “desmedidas dementes
(hubris)”. As sociedades proíbem as pulsões destrutivas da hubris através das leis, que
também são trabalhadas desde a infância no espírito dos indivíduos pela educação.
Porém humilhações e palavras agressivas despertam a hubris, assim como a
transformação do amor no ódio pelos desapontamentos, os desejos rompem controles.
Desprezo e rejeição empurram o desprezado à subumanidade, o ódio faz
acreditar na idéia da razão pelo castigo pela eliminação de um malfeitor, alegra-se com
o sofrimento alheio, a tortura e a morte. Na natureza animal só se mata para alimentar-
se, mas a violência assassina vai além da necessidade, desencadeando estupidez e
desumanidade, em traços puramente humanos.
Piores barbáries ainda podem surgir ao unir razão doutrinária e forças pulsionais
dementes. O que pode diferenciar os indivíduos são maior ou menor controle do hubris,
a transformação da própria insanidade. O desconhecimento dos limites da lógica
também pode nos levar à exacerbada coerência, forma fria de loucura, sendo a
racionalização a forma de delírio oposta à incoerência. “Assim, homo demasiado
sapiens torna-se ipso facto, homo demens”.
São os desvios psíquicos que manifestam-se em estados de fúria e demente que
causam a perda do controle, a raiva. Não há nenhum dispositivo na mente que distinga
alucinação e percepção, subjetivo e objetivo. Assim, a racionalidade pode ser submetida
aos impulsos, e a agressividade demente ser substituída pela lógica. Nos espamos de
êxtase, podemos ter extremo controle ou descontrole de inibição, que ligam-se também
a complexidade do cérebro humano, uma vez que este é sua força e sua fragilidade,
dando chances de descobertas e invenções assim como ilusão e loucura, sendo a
consciência a mais forte e a mais fraca “camisa de força”.

A afetividade, encruzilhada

Não há inteligência sem afetividade, ela é a ligação entre homo sapiens e


demens. A fonte das capacidades irracionais pode ser o enfraquecimento de agir
emocionalmente, e algumas zonas específicas do cérebro são capazes de condicionar ao
mesmo tempo processos de raciocínio, decisão, expressão e percepção das emoções. A
afetividade intervém no desenvolvimento da inteligência e anima ou extravia o
pensamento, obscurece ou estimula a consciência.
Já as paixões podem levar à luz ou a perdição, assim como o amor pode cegar-
nos ou direcionar-nos, complementando-se à razão. Afetividade e as manifestações
sapiens-demens se invadem. O amor materno desenvolve o psíquico e o físico, e o amor
sexual “mobiliza as profundezas biológicas do ser – animalidade da animalidade – e as
suas profundezas psíquicas – humanidade da humanidade” (p.122). as erupções psico-
afetivas estão ligadas ao hubris, leva ao apego, ao ciúme; amor e ódio, que alimentam-
se de símbolos e analogias, exacerba-se em angústias e horror, fonte da demência.

A trindade psíquica

A afetividade tanto invade quanto é invadida pelas várias instâncias da trindade.


As pulsões transformam-se em libido as quais sublimam-se nas criações do espírito. Há
também a intrusão do psíquico no sexo, em que se submete as inibições impondo
delírios. A racionalidade, então, constitui um dos termos da trindade, que jamais é
isolada, poucas vezes hegemônica ou mesmo manipulada, sendo assim, onipresente.
A dialógica racionalidade, afetividade e mito

Com o passar do tempo os indivíduos desenvolvem conhecimentos empíricos e


técnicos necessários ao egocentrismo humano, o qual também é responsável por nossas
ilusões. O homem é submetido a vários conflitos do real e do subjetivo, e com isso os
mitos irão negar a realidade, mas “tecer uma realidade suportável”.
“A morte é o lugar do grande encontro da racionalidade, da afetividade e do
mito” (p.124). As características totalizadas pelos homo sapiens-demens-imbecillis são
mobilizadas por ela, e a racionalidade abre espaço à consciência da mesma. Ela nos
revela como “coexistência de uma consciência lúcida”, um mito que a nega e um rito
que garante a passagem de uma vida à outra.
Contudo o mito faz parte da realidade humana, pois o ser humano não consegue
suportar cargas imensas de lucidez, ele necessita de algum “consolo ou promessa de
salvação”, sem anular o horror e a rejeição que há na consciência da morte.

O gênio e o crime

A ilusão encontra-se ao lado do cientificismo quando se trata de grandes gênios,


uma verdade que se apresenta de variadas formas. As grandes descobertas cognitivas
vêm pela arte e pelo pensamento. A possibilidade de gênio vem do fato que o homem
não vive somente no real, ele surge na brecha do incontrolável onde ronda a loucura.
Os pensamentos fantasmagóricos são fonte de criações, e seu encontro com a
racionalidade e a afetividade é criador de novas idéias. A imaginação e o psico-afeto
nutrem a consciência, assim, a possibilidade de gênio pode também ser a de loucura,
uma vez que a intensidade das potências afetivas podem romper normas e levar ao
crime, em que
“a aptidão ao gênio e à criação, como ao delírio e à destruição, saem da
dialógica circular racionalidade–afetividade–imaginário–real–demência-
neurose-criatividade. Escapam às normas, cada um do seu jeito, o criminoso,
o louco, o gênio, o santo, o profeta, o inovador” (p.126).
A liberdade aumenta as possibilidades de crime e, ao mesmo tempo, de civilização.

O circuito sapiens – demens

Idéias simplistas de que vivemos em um mundo normal imperam, apenas saem


desse âmbito quando guerreamos, odiamos, sofremos, amamos. As interrelações a que
somos induzidos opõe-se e complementa-se aos mitos, racionalidade, afetividade, onde
torna-se um circuito bipolar: sapiens e demens.
“A dialógica sapiens-demens foi criada, mesmo sendo destruidora. Razão e
loucura não se excluem. Demens inibiu, com freqüência, mas também favoreceu
sapiens” (p.127). O circuito bipolar sempre está presente nas criações humanas. O ser
humano é capaz de afetividades intensas e de conhecer objetivamente.
Com o desenvolvimento das sociedade históricas, o sapiens-demens tomou um
ritmo desenfreado, destruindo sociedades reguladas por si arcaicas, atualizando a
hubris. A demência não destruiu a humanidade, mas destruiu culturas e saberes. Porém,
produziu ciência, dominou a Terra, sendo a loucura humana mais mortal do que nunca.
O desenvolvimento exacerbado da racionalidade pode levar a humanidade à extinção.
A loucura não é apenas doença, ela é o principal problema na vida do homem, e
o progresso da complexidade fez-se por causa dela, apesar de seus aspectos horríveis.

5. Além da razão e da loucura

Homo consumans

O homem move-se pelos princípios de economia e despesas, onde se vive não


apenas para sobreviver, mas para viver intensamente, com um vago terreno entre homo
demens e consumans. Ao mesmo tempo em que se preza a autodestrição, preza a
regeneração.

Homo ludens

Nas sociedades há fortes tendência aos jogos, mais forte em alguns indivíduos
que nos outros. É como se o homo ludens quisesse “rasgar a máscara” do homo sapiens.
“O jogo, cuja finalidade não é ‘séria’, comporta a sua própria seriedade no respeito às
regras, na aplicação, concentração e estratégia” (p.130).
O universo lúdico comporta competições, mas dentro do jogo, que desperta
prazeres e angústias. Ele leva ao transe, e o maior de todos é o da vida, “no qual se
arrisca tudo para viver intensamente” (p.131).

A realidade do imaginário

“A concepção de homo-faber-economicus só vê um ser realista, diretamente às


voltas com a materialidade do mundo exterior. Oculta a enorme parte do imaginário
humano” (p.131). Hoje o sonho não mais faz parte da realidade, mas fazia no período
arcaico. Nossos sonhos podem ser diurnos ou noturnos, através da imaginação, e podem
interferir na vida, pois os projetamos na realidade, sem que demos conta disso.Assim a
importância do imaginário abre caminhos aos delírios do homo demens. A realidade
necessita de afetividade assim como de imaginação para se ter consistência.

O estado estético
O estético será tratado como sentido de “sentir” por Morin, sendo um estado de
emoção, gozo, felicidade. Sensação de beleza e admiração tanto de música quanto
pessoas e objetos.
“A estética e o lúdico têm em comum o fato de serem a sua própria finalidade”;
“a estética e a despesa têm em comum o fato de levar a um transe”; a estética e o
imaginário têm em comum o fato de ambos alimentarem-se; e “a estética e a poesia têm
em comum o encantamento que podem provocar” (p.133).
Os seres humanos admiram as cores, a natureza, a beleza da vida. Porém
algumas concepções utilitaristas tendem a enfraquecer essas admirações, mas a estética
humana possui uma raiz que antecede o próprio ser humano, que antigamente adoravam
extravagâncias da estética universal originária da vida, não podendo isolar sua dimensão
ao estado puro na história humana, nem tampouco eliminá-la.
O mitológico e o mágico pode nos dar a emoção da estética quando cremos
neles. A estética autônoma é também uma espécie de cultura moderna que afasta-se das
finalidades mágicas. As imagens são reflexos da realidade, com um “charme”
propriamente estético; tudo que é mitológico é salvaguardado na estética, sem a crença.
No mundo atual a estética serviu para nutrir nossas almas, indo do mundo
imaginário dos filmes até nosso cotidiano. Em uma dupla consciência, a estética nos faz
encantar até mesmo com as tragédias, penetrando nossa alma.
Estética e lúdico nos retiram do utilitarismo e racionalismo para nos colocar em
transe, num estado de graça, em que também pode ser denominado de “estado poético”.

Estado poético

A linguagem comporta a possibilidade de nos exprimir em dois estados de


existência, o poético e o prosaico. Na linguagem poética as palavras são encantatórias e
na prosa são de definição.
O primeiro estado é um estado de emoção, afetividade, prazer carnal e espiritual,
podendo ser alcançado por diversos caminhos: “a vida real da poesia é o amor”. Quando
esse amor se acaba, inicia-se a prosa. O amor nos faz suportar o destino, é uma unidade
de loucura e sabedoria, é “a grande poesia no mundo prosaico moderno e alimenta-se de
uma imensa poesia imaginária” (p.137). Até a ciência tem sua própria poesia.
Homens habitam poética e prosaicamente a Terra, vive contemplando músicas,
sorrisos, poesia. Esse estado ainda nos dá impressão de superação de limites,
transfigurar o real; estado de entusiasmo, possessão, ápice do êxtase de superação de si
e realização de si. Os dois estados, perpassam, estão no mesmo ser.
Prosa e poesia: antagônicas e complementares, alternam-se. A prosa está para o
primado econômico, desabilita grandes esperanças poéticas de mudar de vida,
estimulando assim as necessidades de aventurar-se, pois “quanto mais a prosa invade a
vida, mais a poesia reage” (p.139). Poesia não como divertimento, mas como sabor da
vida verdadeira, acessos ao gozo de viver.
O amor vive de símbolos, e é a emergência suprema da poesia. Tudo está
interligado: estética, imaginário, jogo, despesa, poesia. Esta poesia também traz riscos,
no amor como a ilusão e a mentira, podendo ter um trágico final. O jogo também se
torna mania fatal, exaltações comunitárias podem transformar-se em demência.
No mundo contemporâneo, a utilidade foi invadida pela estética, o sério pelo
jogo. Ações revolucionárias transformadas em grandes jogos, onde se aposta a vida.

Homo complexus

O homem sente-se por vezes sozinho na Terra, a realidade o é cruel.está


submetido a morte, não escapa às perdas. A maldade é sua ordem, mais forte quando em
sã consciência e sensibilidade. As emoções os tornam vulneráveis à sorte, felicidade
está proporcionalmente ligada à infelicidade. Os desejos dão choques de realidade.
Cercado de demônios, medos humanos ou não, faz parte da crueldade do mundo.
Assim, necessita de mitos para proteção de sua alma, conforto sobrenatural, imaginário.
Necessita da estética e da poesia para viver a realidade a fio, superando seus horrores.

O compromisso “neurótico”

“Um compromisso com o real ganha um caráter neurótico, no sentido de que


toda neurose é um compromisso entre o espírito e o real, que suscita condutas
e ritos para atenuar ou conjurar a sua crueldade” (p.143).
Falta de amor e explosões de crueldade são compensadas pelo ser humano nos
mitos, que o fortalece e mascara a falta de compreensão do destino e o vazio da morte.
A religião então pode ser a neurose obsessiva da humanidade
Mitologia, religião e magia muitas vezes sufocam a autonomia dos seres
humanos, criando obstáculos para os indivíduos. Criam excessos de homo demens,
apesar de trazerem segurança, consolo, diminui angustias, tempera tragédias, entretanto,
não acalma todos os desesperos. Todavia estabelece compromissos neuróticos com a
insuportável realidade.

O pacto sur-realista

Há cooperação entre sapiens e demens no mesmo instante que há compromisso


entre espírito e realidade, assim como há cooperação entre sabedoria e loucura que
supera a agressão.
Os pactos sur-realistas transfiguram o real sem negá-lo, assim como na estética e
na poesia, a religião e a magia não apenas pode nos ajudar apenas ver a beleza da
existência e as alegrias, mas ajuda a suportar a carga insuportável da realidade e a
enfrentar a crueldade do mundo, em mensagens embutidas a fundo estimulando as
potências inconscientes dos seres humanos.
A cooperação realista

“Desde as origens do sapiens, formou-se uma cooperação entre a mentalidade


racional e a analógica” (p.148). Em todas as sociedades as crenças contribuem com os
fatores técno-econômicos. As duas mentalidades confundem-se, inovam-se.
Apesar de o pensamento analógico (simbólico, mitológico) parecer um
retrocesso continua soberana. As sociedades mais científicas são as mais religiosas, e
seu maior livro é a Bíblia. As nações modernas chegam a ter suas próprias religiões,
constituindo no real fontes de proteção, amor que age contra a crueldade.
A laicização da sociedade levou ao desenvolvimento de uma religião do amor
que acompanha o desenvolvimento da individualidade moderna. Mas suas
complementaridades não mascaram seus antagonismos: dúvida e fé, razão e religião
opõem-se mas são vitais um para o outro.
A vida dos seres humanos necessita de unir esses dois pensamentos, ambos
complementam-se vitalmente seus antagonismos para um compromisso de cooperação.
O antagonismo não foi menos vital para o desenvolvimento da alma humana.

As duas vontades de domínio

Sempre haverá vontade de dominar a realidade para torná-la mais suportável,


seja pela ciência, técnica ou magia.
“Só podemos dominar local, provisória e imperfeitamente a realidade para
fazê-la obedecer aos nossos desejos; e o excesso de controle volta-se contra
nós. Somos remetidos, ainda aqui, aos compromissos, seja neuróticos, seja
cooperativos, com o real e, entre eles, os mais ricos e belos são os estéticos e
poéticos” (p.153).

Oásis?

Nos humanos as angústias são ocasionadas pelos jogos, amor ou mitos, e


enfrentadas pela poesia, mas não desaparece. Não escapamos da dialógica sapiens-
demens. Assumimos os jogos da afetividade, racionalidade, prosa e poesia. E, se um dia
conseguirmos reduzir as crueldades, desenvolver bondade e compreensão, gerando oásis
de felicidade na realidade insuportável, então, segundo Morin, estaremos progredindo.

Você também pode gostar