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PROCEDIMENTOS DE CARÁTER COLETIVO – FABRÍCIO PELOIA

O objetivo da matéria é o estudo dos Interesses Transindividuais, ou seja, ultrapassa o interesse


meramente individual (não será colocado como interesse público, porque não necessariamente
representa os interesses da coletividade).

EVOLUÇÃO HISTÓRICA DE TUTELA COLETIVA

Fontes Roma  ação popular – rei sacrae, rei publicae  (instrumento colocado para
o cidadão romano)
Prática jurídica anglo-saxã (aproximadamente 800 anos)

EVOLUÇÃO HISTÓRICA NÃO LINEAR

Século XVI – forte influência do liberalismo – método cartesiano.


- Direito ao processo coletivo é exclusivo do titular do direito material.
- Estado e indivíduo como únicos pontos de referência do direito.
└ Divisão Direito Público X Direito Privado
- Divisão ineficiente para justificar interesses compartilhados por grupos, classes ou categorias
de indivíduos.

BRASIL
- Ordenações do Reino de Portugal – previam a ação popular.
Objetivo da ação popular nos dias de hoje: Desconstituir atos praticados contra o interesse
coletivo.
- CC/1916 – art. 76 (regra heterotópica, pois apenas o indivíduo poderia defender o interesse
da sua família)
- CF/1934 – menção à ação popular
- L. 4.717/65 – L.A.P.
- Final da década de 70 – ambiente de redemocratização e fortalecimento do MP.
- Lei 7.347/85 – L.A.C.P. (é a partir daqui que o processo coletivo ganha corpo no Brasil)
- CF/88 – art. 5º - Título II “DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS”, Capítulo
I “DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS” (obs: art. 5º, XXXV: a lei
não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito)
- L. 8.078/90 – C.D.C. (obs: Título III “DA DEFESA DO CONSUMIDOR EM JUÍZO”)
└ alterou substantivamente/significativamente a LACP e unificou o sistema. Vide arts. 110
e seguintes CDC.
 O microssistema processual coletivo – v. art. 21 LACP (incluído pelo CDC). Houve a
inserção de um dispositivo para ordenar que a Lei observe o disposto no Título II do
CDC, unificando o sistema. Assim, as regras processuais não somente se aplicam as
relações consumeristas, mas também se prestam para quaisquer grupos de indivíduos.
Dessa maneira, não posso mais olhar a Lei de Ação Civil Pública sem olhar as regras
processuais do CDC. Veja que não é utilizado o CPC subsidiariamente, pois o que está
em questão é o interesse público e não privado, ou seja, este seria aplicado de última
escolha, prevalecendo os diplomas/microssistemas que possuem princípios comuns, que
dialogam entre si sobre o processo de caráter público.

INTERESSES TRANSINDIVIDUAIS (ou coletivo)


Interesse  qualquer desejo situação no plano fático (situação dinâmica e não estática)
 inclinação à satisfação de uma necessidade (necessidade é um estado de carência)
- Direito subjetivo ou interesse? As normas jurídicas não tutelam todos os interesses, ou seja,
direitos são juridicamente tutelados, já os interesses nem todos.
- Estado e indivíduo como fontes de referência do direito  interesse público e privado (esses
que levam em conta o interesse imediato tutelado, por isso essa classificação)
- Divisão ineficiente para justificar interesses compartilhados por grupos, classes ou categorias
de indivíduos
Divisibilidade (A decisão Sujeitos (titulares)
Art. 81, § Origem (O que os
há de ser uniforme a todos (Quem são os
único CDC colocou no grupo?)
os integrantes do grupo?) sujeitos?)
Não há divisibilidade (é
Difusos Situação de fato Indeterminados
uniforme)
Relação jurídica prévia Não há divisibilidade (é Determinados ou
Coletivos
(base) uniforme) determináveis
Individuais Situação de fato ou Determinados ou
Sim
homogêneos relação jurídica prévia determináveis

Art. 81. A defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das vítimas
poderá ser exercida em juízo individualmente, ou a título coletivo.
Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se tratar de:
I - interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste código,
os transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas
indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato;
II - interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste
código, os transindividuais, de natureza indivisível de que seja titular grupo,
categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por
uma relação jurídica base;
III - interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os
decorrentes de origem comum.
Exemplo interesse difuso: Direito do consumidor – publicidade enganosa, produto que promete
rejuvenescer em cinco dias – todos os que possam ser alcançados no veículo de informação,
ou seja, grupo indeterminado de pessoas.
Exemplo interesse coletivo: Direito do trabalho – empregador que não fornece EPI aos
empregados – empregados que participam de um mesmo sindicato – estes possuem tanto a
relação jurídica com o empregador (contrato de trabalho), como a do sindicato.
Exemplo interesse individual homogêneo: Queda de aeronave – move-se a ação com objetivo
de reparar o dano que as famílias eventualmente possam ter – percebe-se que cada um tem um
valor a ser indenizado, ou seja, isso caracteriza a divisibilidade.

INTERESSE E LEGITIMAÇÃO NA TUTELA COLETIVA


CPC – art. 17
Interesse de agir (demonstração que a tutela judicial é necessária)
└ decorre da necessidade da tutela jurisdicional adequada
Interesse material e interesse processual
Preferência pela tutela coletiva em detrimento da tutela individual  necessidade de tutelar
interesses socialmente relevantes (quando há a admissão da tutela coletiva, existe a ampliação
do acesso à justiça, a economia processual, além de não haver o problema da possibilidade de
decisões diferentes)
Legitimidade
└ pertinência subjetiva da ação
Tem legitimidade aquele a quem a lei atribui o poder de agir
Regra geral: legitimação ordinária – titular do direito material é quem pode defendê-lo em juízo
Problema: falta de relação entre o titular da pretensão e aquele quem a deduz em juízo (ou seja,
quem estará em juízo será um sujeito indeterminável/indeterminado, aquele que não é titular do
direito material)
Exceção: legitimação extraordinária  alguém, nome próprio, defende em juízo direito alheio

Substituição processual ≠ representação (que é alguém, em nome alheio, defende em


juízo direito alheio)
- Identificação do substituído nem sempre é possível em se tratando de direitos difusos
 Legitimação autônoma: mecanismo que existe doutrinariamente para “resolver” esse
problema da identificação do substituído (dá autonomia aos designados independentemente da
identificação do juízo para a proposição da ação; a lei outorga direito para alguém sem relação
nenhuma com a propositura inicial, pois o efeito produzido erga omnes será posterior)