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Características gerais da subversão

Se, como vimos, subversão significa inversão [renversement],


a palavra teria uma identidade semântica com «revolução». E,
de uma certa maneira, pode atribuir-se aos agentes de de uma e
outra a mesma intenção. Porém, em sentido estrito, a subversão
distingue-se da revolução em três aspectos:
 A revolução é o momento crítico final de um longo
período de injustiças e exacções sofridas. A subversão
pode ser organizada, como vimos, na ausência de
quaisquer condições objectivas conducentes à
revolta popular.
 A revolução implica - na sua imagem comum - a
virtude de uma nova ordem, de um novo sistema sócio-
político destinado a subsitituir a ordem antiga. Tanto se
não verifica na subversão, cujo objectivo é a destruição
pura. Como tal, a subversão é negativa e não contém
nenhum dos esperados elementos positivos da revolução.
 A revolução associa-se - pelo seu próprio anti-
reformismo - à ideia de violência no sentido mais forte de
violências materiais (desordens, combates, manietações
físicas, ferimentos, mortes, destruções diversas,
sofrimentos físicos e morais…), em grande escala (por
exemplo, à de uma nação inteira) e num período
relativamente curto. Tal se não aplica à subversão, que
aproveitará actos de violência limitada e terrorismo,
decerto, e que utilisará, também e sobretudo, a violência
verbal…; mas que é mais «fria» e calculada, estendendo-
se ao longo de vários anos se necessário for, e
desenvolvendo-se de forma insidiosa, ao abrigo do «tempo
de paz».

Se constatamos hoje uma subversão revolucionária (e não há


aqui qualquer pleonasmo), assim é porque a subversão como
conjunto de técnicas se encontra ao serviço de uma guerra
revolucionária, de uma vontade revolucionária.
Assim orientada por esta intenção, a acção subversiva é uma
acção preparatória do momento decisivo da tomada do poder
por uma minoria ínfima. A ser bem sucedida, a tomada de poder
far-se-á sem oposição por um pequeno grupo que estará
preparado para isso.
Trata-se, aqui, do próprio papel da subversão dentro do
voluntarismo revolucionário. Distingamos bem duas fases, das
quais a primeira (fase subversiva) é bastante longa, e a segunda
(fase da tomada do poder) muito curta. A primeira será vã se
não vier a segunda dar-lhe um sentido, concluindo-a. A segunda
impossível, sem a primeira preparando-a. Ao longo da fase
subversiva, as acções violentas dos pequenos grupos
(espontâneas ou suscitadas e animadas pelos agentes
subversivos) fazem parte da subversão na medida em que
fornecem incidentes aproveitáveis. Na fase de tomada do poder,
que se fará sem oposição e sem confrontos violentos com as
forças governamentais ou partidos de oposição porque a
subversão terá, precisamente, cumprido o seu papel, esses
pequenos grupos deixam de ter razão de existência e devem, por
fim, ser reduzidos ao silêncio ou integrados; pois o grupo
minoritário que tome o poder não é necessariamente formado
por aqueles que levem a cabo, efectivamente, as acções
precedentes. Será antes, como é lógico, o grupo daqueles que
organizaram e levaram a cabo a totalidade do processo.
Dado este papel central da subversão no desenrolar do
conjunto, compreende-se que possamos hoje falar de subversão
revolucionária. É desta perspectiva que a subversão se apresenta
com objectivos e meios específicos.

I - A ACÇÃO SOBRE A OPINIÃO PÚBLICA


Os objectivos da subversão são triplos. A sua diferenciação
não pode ser senão didáctica pois, de facto, eles apoiam-se e
reforçam-se mutuamente. São eles:
 Desmoralizar a nação visada e desintegrar os grupos que
a compõem.
 Desacreditar a autoridade; os seus defensores; os seus
funcionários; os seus notáveis.
 Neutralizar as massas para travar qualquer intervenção
geral espontânea a favor da ordem estabelecida, chegado o
momento escolhido para a tomada de poder não-violenta
por uma pequena minoria.

Estes fins são acessíveis apenas através da utilização dos mass


media; sem imprensa, sem rádio, sem televisão, a subversão é
impotente; sem técnicos de psicologia social, como veremos ao
estudar os métodos no capítulo seguinte, ela é incoerente.
Fixemos agora os três objectivos:
Desmoralizar a nação visada e desintegrar os grupos que a compõem

Diz Reguert que (op. cit., p. 129), «o vencedor é aquele que


pode e quer ainda combater quando o adversário deixa de o
querer e o não pode mais». Von de Golz notou igualmente que
«num combate, não se trata tanto de destruir os combatentes
inimigos como de destruir a sua coragem.»
A desmoralização, é a dissolução da coragem, a queda da
“tonificação” [tonus] mental que dá a fé nos valores do grupo
nacional e a confiança no seu futuro.

A análise (hoje em dia muito adiantada pela psicoanálise


social) dos factores do «moral», permite conhecer os factores da
desmoralização. Citemos em particular:

 a destruição dos valores pelos quais combate o inimigo; a


“injecção” da dúvida;
 a intoxicação acerca do valor de cada combatente inimigo,
a “injecção” da dúvida dele próprio, a acompanhar a
dúvida das suas crenças;
 a culpabilização. «É necessário fazer», diz Ellul a
propósito da propaganda (op. cit., p. 210) - e isto é
aplicável à subversão - «com que o inimigo perca
confiança na justiça da sua própria causa, na da sua pátria,
do seu exército, do seu grupo. O homem que se sente
culpado perde simultaneamente a sua eficácia e o sentido
do seu combate. Convencer o homem que, senão ele, pelo
menos aqueles que estão a seu lado cometem actos
imorais, injustos, é levar a desintegração ao grupo ao
qual pertence»;
 a impressão dada ao inimigo da sua solidão e da
reprovação sentida pela opinião pública a seu respeito, a
fortiori da reprovação da opinião pública mundial;
 o ridículo, o ilogismo, o derisório1;
 a dissolução da confiança do adversário nos seus meios de
ataque e defesa;
 a impressão da eternização do combate;
 a certeza de enfrentar um inimigo duro e seguro de vencer,
decidido a tudo;
 a impressão da inutilidade da luta.
Aplicando-se aos adversários por técnicas subtis, a subversão
procura assim desmoralizá-los. Procura também dissociá-los,
desintegrá-los. Dessa perspectiva, é uma arte da discórdia.
Aqui, mais uma vez, a análise psicológica dos factores coesão e
unidade dos grupos, permite deduzir os factores de dissociação
e de discórdia, de forma a os injectar na nação ou nos grupos
a destruir.
Desacreditar a autoridade, os seus defensores, e os seus notáveis da nação ou do grupo a destruir

A autoridade do Estado é esquematicamente fundada em parte


sobre o consenso da nação que aquele encarna (ou pelo menos o
da maioria), e em parte sobre um sistema de direitos que lhe são
delegados pela Constituição e pelas leis (especialmente o direito
de decisão), apoiados nas forças de manutenção da ordem (ou
de repressão das desordens) e num sistema de sanções (código),
em certas instituições-chave de onde sairão os futuros quadros
da nação; enfim, sobre a respeitabilidade dos «notáveis» que
assegurarão de uma ou outra forma o funcionamento da
sociedade. A subversão atacará todas estas junturas
[charnières].
A subversão, ao desconsiderar o poder aos olhos da opinião
pública, isto é, da massa dos cidadãos, procura um abatimento
da autoridade moral do Estado. Este abatimento de autoridade é
por sua vez utilisado como prova da incapacidade dos
governantes e como incitamento à desobediência cívica. Uma
rede [filet] fina e densa, de desrespeito e desconfiança, paralisa
ao mesmo tempo o poder central e a opinião pública.
Neutralizar as massas para travar qualquer intervenção geral espontânea a favor da
ordem estabelecida

Eis-nos aqui perante o o efeito mais insólito e mais original da


subversão. Muito se tem falado, e fala-se ainda, da «maioria
silenciosa», ou seja, da muito grande maioria dos cidadãos
«trabalhados» pela subversão, e espantamo-nos com a sua
passividade. Ela [a maioria] é a esperança mítica dos governos
submetidos aos ataques subversivos.

Ora, a maioria silenciosa é uma criação da subversão. Um


dos objectivos subversivos é, de facto, a sideração e inibição
das massas. Se o leitor tem acompanhado até agora as
concepções dos revolucionários voluntaristas, não pode não
deduzir a «lógica» da neutralização da imensa maioria de
cidadãos pela subversão: em oposição à concepção materialista
e realista da revolução, a concepção voluntarista, como vimos,
não necessita da revolta geral nem da participação activa do
«povo». A revolução voluntarista, aquela que utiliza a
subversão como apodrecimento da Autoridade, desconsideração
do poder estabelecido, decomposição das forças de manutenção
da sociedade a abater, não é, de todo, fundada sobre a
mobilização das massas.
«Esperar que a população participe, por ela própria, na luta
de libertação, é um mito que conduz ao “atentismo” mais
estéril». (Paul Limoyne - pseudónimo - in La cognée, nº49,
Montréal, Dezembro de 1965)
Esta nova empresa revolucionária não tem sequer
necessidade, como tem a guerrilha tradicional, da
simpatia popular:
«A força dos terroristas não reside na cumplicidade da
população» (Paul Desbiens, in La Presse, Québec, Editorial
d’Octobre 1970).
«O povo» a que os agentes subversivos subversivos fazem
sempre referência, não passa de um mito que eles utilizam, um
“justificativo” puramente verbal , um argumento de
manipulação da opinião pública. A estratégia fundamental da
subversão é obter a apatia popular, a inibição, a não-
intervenção, o silêncio da grande maioria. É este o fenómeno
que se produz diante dos nossos olhos e a que se chama, com
razão, a maioria silenciosa. Espantamo-nos pelo seu silêncio e
as almas ingénuas imaginam que poderá, um dia, recuperar vida
e voz. Alguns apelam-lhe como quem exorta um paralítico a
caminhar e a correr [vem-nos um certo marechal à
memória n.t.]. Tais pessoas não se apercebem que a maioria
silenciosa é uma conquista da subversão e que há uma relação
directa entre o terrorismo e a maioria silenciosa. A tomada de
poder será obra de um pequeno grupo, de uma ínfima minoria: a
que sabe, justamente, o que quer e o que faz (e que é, desde
logo, a única a sabê-lo). O importante é, assim, que ao momento
da tomada do poder, não haja nenhuma intervenção contrária. A
acção subversiva implica, consequentemente, a imposição do
silêncio à maioria, silêncio que exprime a apatia e não a
reprovação dos desordeiros (como se crê comummente).
Clarividentes homens políticos assim o notaram:

Tchakhotine escreve (op. cit. p. 411) a propósito da opinião


pública alemã em Julho de 1932, na véspera do golpe de força
de Hitler:
«O que se via agora por todo o lado depois do 20 de Julho era
assaz lamentável: a depressão alastrava pelas organizações
proletárias, toda a gente parecia paralisada (…). A depressão
manifestava-se de forma tão intensa que se lhe observavam os
efeitos psico-fisiológicos imediatos: as manifestações não
passavam de uma sombra menor da força que ainda
recentemente triunfava por todo o lado (…). O caos e o pânico
reinavam em todas as organizações centrais (…), cada um
procurava fazer por si (…), não mais se falava em projectos de
acção, contentávamo-nos com trocar notícias,
opiniões, hipóteses.»

Em 1971, certos governantes, menos iludidos que os outros


sobre a maioria silenciosa, constatávam-no: Émilio Colombo,
presidente do Conselho da República italiana, dizia, num
discurso proferido no Capitólio de Roma por ocasião do 26º
aniversário da “Libertação de Itália” (26 de Abril de 1971):
«Atravessamos hoje um momento que não é fácil (…). O perigo
é que, perante as nossas dificuldades, surja a indiferença ou a
aversão à liberdade (…). A indiferença e a aversão à liberdade
podem nascer face a uma opinião que é insensível às realidades
sociais como face à que é insensível às exigências de uma
ordem (…). Uma democracia que transverta o conservadorismo
num falso progressismo, assim como uma democracia que
transverta a desordem chamando-lhe progresso, é uma
democracia que prepara o seu fim (…). Há uma fadiga incerta e
confusa da democracia (…). Esta fatiga acabará por se exprimir
numa apatia geral que convida aos jogos do aventureirismo.»

De que será feito este estado de espírito maioritário? Quais


serão os traços constitutivos de uma opinião pública «madura»
para os organizadores da subversão? A lista destas
características assinala ao mesmo tempo os diversos objectivos
convergentes da acção subversiva:
Sentimento de isolamento e de impotência dos partidos políticos capazes de se oporem ao golpe
de Estado

Ao acentuar os desentendimentos dos partidos que constituem


a maioria política, lucrando com a divergência das respectivas
tomadas de posição ou da incoerência dessas tomadas de
posição sucessivas, ao opô-los uns aos outros e ao mesmo
tempo acusando-os de conluio com o poder estabelecido, a
subversão explora a fundo o descrédito dos partido políticos
tradicionais, minados, desde logo, do ponto de vista interno,
pelas acções de dissociação levadas a cabo pelos agentes
subversivos camuflados ou por bem-pensantes [belles âmes]
mobilizados ao redor de certas teses de «cobertura» produzidas
pela subversão.
Privatização e individualização dos cidadãos

Cada pessoa, sentido-se isolada e havendo perdido toda a


confiança no Estado, nos seus meios, nos seus defensores, não
se preocupa senão com os seus interesses pessoais
[privés],(«privatização»). Isto leva-a a recusar envolver-se,
expor-se, assim como, por um receio “retroactivo”, à negação
dos seus envolvimentos anteriores, ao desejo de se redimir e de
se acautelar através de uma «não-intervenção futura».

Assim, a indiferença e a apatia aparentes escondem uma


decisão bem vincada de não-envolvimento. Esta atitude é
reforçada e fixada pelo que se chama, desde Baschwitz, pânico
mudo [panique muette], produto directo do terrorismo impune,
metodicamente organizado pelos grupos de acção violenta.

Baschwitz criou em 1945 o conceito de «pânico mudo» para


caracterizar a forma de medo colectivo gerada pelo terrorismo,
em que os cidadãos não têm nenhuma esperança e não esperam
nenhum socorro das autoridades estabelecidas.
Não se conhecia até aí, em psicologia social, senão o pânico:
desencadeamento do instinto individual de conservação pelo
medo colectivo, contagioso e mobilizador; realização de actos
absurdos (destruição dos obstáculos na fuga, assassinato dos
mais fracos, autodestruição cega) pela multidão tomada pela
ansiedade causada pela percepção de morte iminente. Este
«quadro» habitual do pânico exprimindo-se em cegas violências
colectivas faz crer aos observadores da «maioria silenciosa» que
esta, pela sua calma aparente, se encontra nos antípodas do
pânico. Ora esta calma aparente esconde a inibição e a paralisia
que caracterizam uma outra forma de pânico. O pânico
mudo não tem expressão colectiva mobilizadora. É a expressão
colectiva da justaposição compartimentada [cloisonnée] das
inseguranças individuais. Efectivamente, este pânico isola as
pessoas, fenómeno excepcional e completamente característico.
A conduta individual, que mantém as aparências da rotina, do
sangue-frio e até da consciência reflectida e adaptada, é, na
realidade, inteiramente dominada pelo evitar de qualquer
manifestação pessoal e de toda a iniciativa, por medo a ser
notado. «Neste estado», diz Tchakhotine em 1951, «podemos
ver comissões ou assembleias tomarem decisões
estupidificantes ou ignóbeis por pouco que sejam sugeridas por
qualquer personagem aliada aos terroristas.» São da mesma
ordem: a recusa de testemunhar, de apresentar queixa, de
designar os seus agressores quando se é vítima, o abandono à
sua sorte do amigo tratado ignominiosamente pelos
terroristas…, o «fingir que nada vê» quando se passa por um
grupo de terroristas “tratando” de uma vítima, mesmo se o
grupo for pouco numeroso e forem cem a passar por ele. Todos
estes comportamentos de pânico mudo são objecto de auto-
justificações e racionalizações secundárias: diz-se «querer
manter-se acima da briga», «não estar suficientemente
informado para julgar», «que há bem e mal nestas coisas» e que
«estes terroristas não têm todos intenção de fazer mal»… ou
ainda «não vale a pena dramatizar»…
Assim, a maioria silenciosa, muda ou amuada, mantém-se e
manter-se-á silenciosa porque é o resultado da neutralização
activa do público, do povo real (por oposição ao «povo» mítico
que reclamam os conspiradores), neutralização produzida pelos
efeitos combinados do descrédito das autoridades e do pânico
mudo criado e mantido pela violência dos pequenos grupos
terroristas2.
Não podemos, então, senão sorrir quando ouvimos os
dirigentes elaborar sobre a maioria silenciosa, ou melhor ainda,
quando os ingénuos fundam associações do tipo «Apelo à
maioria silenciosa»3.

E os agentes subversivos não se enganam sobre o valor real


desta grande mudez, o que lhe dá o ar descontraído, nascido da
certeza de impunidade. «Quando se sequestra um executivo»,
escrevia Jean-Paul Sartre num jornal esquerdista em 1971, «é
uma galhofa.»

II - SITUAÇÃO DOS AGENTES SUBVERSIVOS


O agente subversivo encontra-se numa posição confortável
porque não vemos para quem «trabalharia». É um caso diferente
do político profissional cuidadoso com as suas alianças, com o
futuro, com os eventuais ataques contra a sua pessoa, com a
opinião dos do seu partido. O agente subversivo está fora da
propaganda política habitual na medida em que não procura
especialmente recrutar ou converter a qualquer ideologia
positiva. Não possui «clientela eleitoral» à qual se adaptar
maquiavelicamente. Não é sequer comparável ao agitador tal
qual o definiu Lenine, pois não tem qualquer relação com o
propagandista encarregado de organizar a integração, ou seja, a
unanimidade popular futura em torno das teorias e do programa
de um novo Estado.
É uma espécie de agitador no estado puro, inquietando a
opinião pública de maneira aparentemente desinteressada
porquanto não desenvolve nenhuma ideia positiva.
Desta forma, o agente subversivo não pode tornar-se
suspeito. Tem toda a aparência de boa fé e recolhe-se na sua
dignidade ultrajada quando, por acaso, é acusado de ser um
agente subversivo. Não é fácil desmascará-lo. Usa o seu direito
de crítica contra o que estima serem injustiças e torpezas (e
tantas há!) e aquele que lhe denunciar a manobra encontra-se
automaticamente no campo da injustiça e da torpeza.
As violências dos grupos que estão encarregados de algumas
acções directas são apresentadas como actos «desesperados» de
pessoas «que não podem mais» e que não fazem, finalmente,
senão devolver a violência que tanto tempo sobre eles se
abateu… pessoas em estado de «legítima defesa», de
qualquer forma.

As injustiças que o agente subversivo denuncia, as pressões


que declara intoleráveis, os decretos que contesta, as
trivialidades que transforma em assuntos de Estado, são
colocadas no pelourinho do opróbrio público em nome da boa
consciência e dos direitos universais da pessoa humana. E é
isto que fornece tanto o conforto da sua situação como a
eficácia da sua empresa.
Exploração dos direitos universais da pessoa humana e dos ideais da consciência
moral comum

Habituámo-nos, desde há um século e meio, a considerar a


«exploração do homem pelo homem» como a tara original do
capitalismo. Não só entram em transe pré-revolucionário os
livres-pensadores do século XXquando ouvem estas palavras,
como cada vez mais grupos que se sentem «explorados», ou
melhor ainda «alienados pelo sistema», são tentados pela
manipulação desta fórmula mágica.
Apesar disto, existe outra forma exploração do homem pelo
homem, mais subtil e desprezível: a exploração dos ideais e
valores humanos universais, para a pura manipulação
das pessoas.

Os agentes subversivos encontram os remoques[accents] mais


contagiosos da indignação permanente para denunciar,
desmascarar e desacreditar, apresentando-se como defensores
da justiça, da paz, da liberdade e dos direitos sagrados da pessoa
humana. A subversão partilha este aspecto com a
propaganda política.
Mostrei noutra obra4 que são de três ordens as motivações
manipuladas por toda a propaganda política:
1) os interesses e reivindicações de um pequeno grupo bem
definido, sempre que se trata de fazer cair esse grupo ou os seus
chefes na rede do manipulador, ou de mobilizar o grupo com
vista a uma acção determinada; 2) os mitos e aspirações
colectivas de um grande grupo sempre que o objectivo é
“trabalhar” as grandes massas como por exemplo os grupos
étnicos ou religiosos; 3) os ideais comuns a toda a humanidade
e os valores universais quando se trata de atingir
indiscriminadamente o maior número de pessoas, sendo a
utilização destas motivações morais indispensável sempre que
se “trabalha” a opinião pública mundial5.
A subversão manipula estes três géneros de motivações
segundo o lugar e o momento da sua acção, mas sobretudo
manipula a terceira na medida em que, como vimos, esta
é panfletária.

Se o guia do perfeito publicitário é a lista das necessidades e


desejos que constituem o «nível de motivações» de uma
clientela bem determinada à partida (exemplo: as empregadas
domésticas, os pedreiros, as mães jovens, os “snobs”), o guia do
perfeito agente subversivos deve, pelo contrário, admitir a lista
das aspirações humanas universais, porquanto são também
motivações (e, por definição, as mais gerais). Assim sendo,
este guia parece-me dever ser a Declaração universal dos
direitos do Homem, assinada a 10 de Dezembro de 1948 por
todos os Estados membros da O.N.U. A prova da
universalidade destes valores (na História e à superfície da
terra) foi feita recentemente pela publicação, sob os auspícios
da UNESCO6, de uma recolha de textos de todas as épocas (do
3º milénio A.C. aos nossos dias) e de todos os países,
mostrando de forma impressionante o parentesco das aspirações
e valores supremos dos seres humanos. De forma que
os direitos fundamentais, fundados sobre a reivindicação da
dignidade da pessoa humana, e os valores sócio-morais
universais (a segurança e a paz; a vida, o direito à vida, a
melhores condições de existência, à felicidade; a liberdade; a
justiça; a humanidade e o primado dos valores humanos contra
todas as formas de desumanidade), serão as motivações
invocadas pelos agentes subversivos e constituirão os pontos de
vista permanentes nos quais se colocarão para denunciar,
denegrir, desacreditar o poder estabelecido7.

N.B. Compreenda-se bem o que quero dizer. Pela minha parte,


creio firmemente nestes valores e penso que a acção moral,
social e política consiste na sua defesa e promoção. O que faço
notar no texto precedente, é que os agentes subversivos são
absolutamente indiferentes a estes valores por eles mesmos e
não procuram senão utilizá-los para atingirem outros fins e
outros valores: os seus.

Da mesma forma que o agente publicitário zomba


pessoalmente das necessidades das empregadas domésticas,
mas deve conhecê-las para as manipular nos seus textos
publicitários, assim deve o agente subversivo considerar os
direitos universais da pessoa e os valores supremos de paz,
liberdade, de justiça e de humanidade como trampolins
[ressorts] da alma humana, que pode e utiliza para atingir os
seus fins específicos. É aqui que existe a exploração do homem
pelo homem. Esta manipulação e esta mistificação que consiste
em utilizar os valores supremos da existência humana como
meios para atingir outros fins, ocultos e particulares, implica
que os valores e direitos em questão não sejam considerados
como supremos.

No que toca aos processos, como veremos abaixo, a astúcia


consiste em silenciar (excepto, naturalmente, os verdadeiros
fins) os dramas, injustiças e exacções de são culpados os aliados
políticos, e a explorar intensamente o mais ínfimo fait divers se
pode servir para atingir uns dos três objectivos reais e gerais
da subversão.
O maniqueísmo moral e as suas vantagens

O maniqueísmo consiste em dividir o mundo, as pessoas e as


teses, em dois campos ou dois clãs: o bem e o mal, os bons e os
maus. Este processo tem a vantagem de corresponder a um
velho arquétipo humano, simultaneamente religioso, primitivo e
infantil, reduzindo tudo a duas formas contrárias, como o dia e a
noite, a luz e as trevas, Deus e o diabo, a vida e a morte, a
verdade e a mentira.
Um dos fins principais da acção subversiva é utilizar este
maniqueísmo simplificador para atribuir ao poder estabelecido e
aos seus eventuais defensores os valores negativos. O interesse
da lista dos valores positivos supremos é mais uma vez aqui
evidente, pois não somente o poder e os seus defensores
deverão ser apresentados como o mal, a morte e mentira, como
ficarão também associados aos seus nomes, às suas intenções,
às suas acções, aos seus programas apenas as antíteses da lista
dos direitos e valores universais. Eles representarão assim
exclusivamente: - a insegurança e a guerra: a vontade de
guerra… - a morte e todas as suas formas: a miséria, o medo, a
angústia, o sofrimento, a destruição, a chacina… - a
escravatura: a opressão, a tirania, o arbitrário - a injustiça: o
desprezo dos direitos sagrados, a exploração do homem pelo
homem, o abuso de poder, o abuso de confiança, o primado
secreto dos interesses pessoais, a trapaça, a desigualdade… - a
desumanidade: as torturas, o egoísmo, o sadismo, o desprezo do
homem, a indiferença aos valores humanos…
Este método é muito fácil e muito cómodo: não esqueçamos
que é «instintivamente» utilizado por qualquer um de nós,
sempre que nos queremos inocentar acusando outrem, ou
quando procuramos, num diálogo, fomentar a indignação do
nosso interlocutor contra uma terceira pessoa ausente,
apresentada como o «maior dos canalhas». O próprio Delmer
explicou que é suficiente extrapolar as leis psicossociais do
boato e do mexerico quando estes têm por efeito provocar
contra terceiros ausentes o horror moral, a indignação, o
desprezo, a rejeição social e a ruptura das relações.

Os valores universais mais «rentáveis» para a manipulação


subversiva da opinião pública são incontestavelmente: «o
humano» e os sentimentos humanitários, a Justiça e a
Liberdade. Sabendo isto, o leitor prevenido poderá
«descodificar» um certo número de mensagens, proclamações,
editoriais, etc… e especialmente certas «informações» dos mass
mediacúmplices, voluntários ou involuntários, da subversão.

1) «O humano». É necessário encontrar traços comoventes


para evocar a existência e os objectivos dos grupos terroristas
cujo retrato se pretenda pintar de forma positiva, de tal forma
que os reflexos normais de horror e de defesa sejam paralisados
na opinião pública. A cultura da emotividade, da sensibilidade,
da piedade, do amor ao próximo… está ao serviço dos
assassinos. Os grupos subversivos serão sempre apresentados
como «desesperados» e, se possível, como «vítimas».
Combatem sempre por «um ideal humanitário» que nos
«interpela» e nos emociona.
De maneira inversa, a repressão ou a defensiva que se
exerçam contra os grupos terroristas ou subversivos serão
sempre denunciadas como «intoleráveis» do ponto de
vista humanitário.
Far-se-á então apelo «à consciência», «ao coração», dos
cidadãos para reprovar qualquer início de auto-defesa.
Umas das melhores coisas inventadas neste sentido para os
grupos terroristas foi a «violência humanitária»: basta que o
produto dos assaltos à mão armada ou do roubo seja distribuído
aos habitantes das barracas e tal terá sempre grande publicidade
graças aos mass media.
A consciência das pessoas honestas vacila. A dúvida é
destilada. A maioria silenciosa afunda-se na sua confusão. Os
bem-pensantes são conquistados pela «generosidade
dos ladrões».

Quando a acção subversiva é muito difícil de transformar em


valor universal, quando suscita um movimento espontâneo de
indignação, «vozes autorizadas» explicam que se trata de actos
de «elementos descontrolados». Resta, evidentemente, o
expediente de insinuar que se trata de uma «baixa provocação
policial»; os verdadeiros agressores não podendo senão
encontrar-se ao lado da Autoridade.

2) A Justiça. A transmutação da violência em Justiça foi


também uma das mais belas conquistas dos agentes subversivos
e dos seus profetas. Distinguiram-se nesta tarefa os maiores
nomes da “inteligentsia” militante: Sartre, Marcuse, Foucault
(do Collège de France), e seus discípulos. O princípio é o da
definição da violência como contra-violência, como resposta
justa a uma primeira violência (que vem da sociedade) mesmo
se esta não for aparente. Esta reviravolta utiliza o esquema
da legítima defesa e a imagem popular do Justiceiro das
bandas desenhadas.

Sendo a agressão uma «justa reivindicação», é evidentemente


o agredido que, recusando ceder, se torna culpado, e é ele o
julgado, nos «jornais bem informados», por «uma
intransigência intolerável que desencoraja os
seus interlocutores».
3) A liberdade. A “palavra de ordem” dos agentes subversivos
e dos seus aliados é exigir a liberdade sob todas as suas formas
antisociais; é tomar com ternura emotiva a livre expressão dos
instintos de destruição, de agressividade, de oposição. Toda a
regra social (pois não há nenhuma sociedade sem regras;
nenhum grupo com objectivos se pode alhear a estabelecer
condutas e comportamentos sociais) será sistematicamente
denunciada como um entrave à liberdade e como uma repressão
(Lobrot, Gloton, Mendel, na linha de Wilhelm Reich e do
“freudo-marxismo”). Toda a disciplina social deverá ser
perseguida e associada, nos “slogans”, ao fascismo.
Assim, a liberdade não é definida senão como oposição à
autoridade e à Sociedade. Por esta astúcia, todas as acções anti-
sociais ficam cobertas pelo ideal de liberdade. «O uniforme
militar despersonaliza-nos» gemem os soldados holandeses;
«nós exigimos apenas a liberdade de informação nas empresas,
universidades, administrações, casernas»… proclamam os
líderes subversivos para aí executarem o seu trabalho de
sabotagem interior.

Três vantagens suplementares (em relação ao conforto da


posição de crítica) se tiram desta construção:

Auto-justificação e justificação das violências actuais


ou eventuais
Se o poder e os seus esbirros são o mal, a morte, a mentira, a
injustiça e a tirania…, aqueles que denunciem e os ataquem são,
de uma penada, o bem, a vida, a verdade, a justiça e a liberdade
do povo. Os militantes destes valores universais, aparados
pelo travesti do justiceiro das bandas desenhadas, são
transformados ipso facto em heróis da humanidade, e ouvem
em permanência este canto exaltante: tu és justo,… o grupo ao
qual pertences é justo,… a acção que te será exigida, qualquer
que seja, é justa,… connosco participas na realização da paz,
da justiça e da liberdade.
Assim, a acção final exigida, isto é, o assassínio, aparece
sempre dentro da sua cápsula de valores, e torna-se legítima. O
discurso aos grupos que vão partir para a acção violente assume
sempre esta forma silogística: A nossa causa é justa, é a causa
da humanidade, da paz, da liberdade, da verdade, etc…, tu
lutas por esta causa,… logo tu és justo, aqueles que luta contra
esta causa comete um crime contra a humanidade, logo é um
criminoso de guerra.

«Os nossos têm-se batido até à morte porque servem uma


causa justa e popular, porque sabem, porque sabemos todos,
que somos detentores da verdade, da única verdade. É ela que
nos torna invencíveis. E porque vós não tendes estas razões,
sereis vencidos (…). Pertenceis a uma sociedade obsoleta e
apodrecida (…). Sois obscurantistas, mercenários incapazes de
dizer porque se batem.» (Propaganda Vietcong junto dos
oficiais franceses prisioneiros durante a guerra da Indochina).

A forma e o fundamento desta declaração são excelentes e


aplicáveis a toda a operação subversiva de descrédito do
«inimigo», permitindo, entre outras coisas, legitimar a violência
a seu respeito. Este mesmo texto, por exemplo, serviu de base à
campanha de opinião organizada pelos maoístas em França em
1971 contra a polícia do Estado8 e em 1975 contra o Exército.
Desmoralização e pânico do adversário
O adversário encontra-se culpabilizado e, se apanhado na rede
desta propaganda9, sente-se espoliado dos valores e
transformado, apesar de si, em cúmplice de Satan ou em
criminoso inconsciente. O apelo à sua consciência moral,
multiplicado pela pressão do apelo à opinião pública nacional
ou mundial, fá-lo-á colocar em dúvida os axiomas da sua
conduta e, pelo menos, criar a inibição e dessolidarização, o que
corresponde ao fim de neutralização individual e de dissociação
dos grupos, já visto acima.
A ausência de contra-propaganda favorece estes efeitos. É
evidente que a suspeita do começo de uma contra-propaganda
(a que venha do Estado, por exemplo, ou dos chefes do grupo
intoxicado) é também acolhida pelos agentes subversivos como
«um inqualificável atentado ao direito sagrado da liberdade de
consciência», ou como «uma intolerável pressão moral exercida
sobre as pessoas»…
Aderência dos bem-pensantes

Não falamos aqui das aderências [ralliements] interessadas


provenientes de personagens influentes que, tendo em vista a
possível vitória dos grupos revolucionários e a fim de
salvaguardar os seus interesses pessoais, subvencionam
secretamente o inimigo de hoje pensando no aliado de amanhã.
Fazem este imediatamente este cálculo sórdido com ardor, pois
absolutamente nada arriscam da parte do poder, em regime
democrático verdadeiro.

Falamos dos «bem-pensantes» que, subjugados pela


invocação dos Valores eternos, intimamente convencidos (que é
sinal do perfeito sucesso da campanha subversiva) da boa
fé dos novos heróis trágicos da humanidade, aderem aos seus
manifestos e às suas manifestações. Estranha presença destes
lorpas (mais ou menos poetas e utópicos) no meio dos
agitadores e dos agitados, que tomam por irmãos-idealistas e
por construtores da Cidade de Deus.
Os agentes da subversão servem-se imediatamente deles como
escudos em relação às autoridades, como pára-ventos para
cobrir as suas manobras, ou como argumentos junto de outros
ingénuos a convencer. A sua aderência nem sempre é imediata
através da misteriosa sedução de uma revolta que jamais
ousaram exprimir sozinhos. Para muitos outros bem-pensantes,
as proclamações dos grupos subversivos «dão que pensar», e
procuram tragicamente, «tudo o que aquilo exprime
profundamente», tudo o que a violência contestatária
«significa realmente».
Assim, num congresso de higiene mental, em Outubro de
1970, um bem-pensante, desejoso de descobrir «as causas
objectivas da revolta de todas as juventudes»10, citava:
 a ausência de moral política nos adultos;
 a esclerose das universidades;
 a incoerência do planeamento e a cobardia das
políticas “subvencionistas”;
 a discordância entre as aspirações suscitadas e a
indigência dos meios postos à disposição dos jovens
trabalhadores e empregados…
Analisando o que chama «mecanismos da contestação», o
autor evoca, desde logo, a angústia, a ambivalência entre a
reivindicação de autonomia e a procura de estabilidade, o
conflito de gerações, o não-valor dos pais que proíbe a
identificação com as imagens tradicionais, o prolongamento
anormal da adolescência escolarizada, e, enfim, a crise de
civilizações. E conclui o autor exigindo aos adultos que
compreendam a «exigência codificada, mas exigência todavia,
que é preciso descodificar sobretudo quando toma a forma de
uma fuga para um imaginário ou para a revolução».

Notemos que isto é decerto justo para alguns jovens


apanhados pelo contágio da subversão. Mas a psicanálise de
uns quantos comparsas não apaga a acção subversiva na sua
dimensão político-militar internacional.

Por mais brilhantes que sejam as suas inteligências e


reputações, os bem-pensantes são inocentes perdidos no meio
de uma guerra que não compreendem.
Contágio da subversão e reacções em cadeia

O conforto da posição subversiva, armado com estes valores-


tabus e protegido por estes diversos escudos, vem também da
qualidade contagiosa da atitude de revolta, tanto mais quanto a
desmoralização e a fraqueza dos adversários assegura cada vez
mais a impunidade.
Daniel Mornet (op. cit. p. 105) constatava já, a propósito da
guerra dos panfletos no século XVIII e especialmente dos
ataques subversivos dos Enciclopedistas contra a religião, que
«neste combate, os espíritos aquecem; os adversários da religião
sentem-se cada vez mais apoiados pela opinião pública,
protegidos por ela contra castigos muito graves; eles
endurecem-se e multiplicam-se. É às dezenas que se podem
enumerar os escritos ímpios, já não obscuros mas largamente
difundidos, já não comedidos e polidos mas injuriosos e
ferozes. Obras dos chefes, (…) e obras de vinte discípulos ou
chefes de bando.»
Já noutra obra evoquei11 todos os impuros que vêm logo
engrossar as fileiras logo que ouvem falar de revolução.
«Vamos, é a Revolução!» escrevia o próprio Jules Vallés12, «eis
então o minuto esperado e aguardado desde a primeira
crueldade do pai, desde a primeira bofetada do pedante, desde o
primeiro dia passado sem pão, desde a primeira noite passada
sem tecto! Eis a vingança do colégio, da miséria e
de Dezembro!»
Estão todas presentes, naqueles em quem os psicanalistas
descobrem o complexo de Édipo e a morte simbólica do pai, as
expressões clássicas da analidade, o fetichismo do falo ou as
aspirações regressivas ao éden intra-uterino… aqueles e aquelas
em que os desejos sexuais se exacerbam e exibem na proporção
da ruína dos tabus13.

Mas vêem também os amargurados, os desafortunados, os


humilhados e os inferiorizados em busca de compensação, os
perseguidores-perseguidos e outros paranóicos, e a massa de
psicopatas em estado de agressividade crónica contra outros.
Seguem-se alegremente aqueles que são os primeiros visados
na empresa de mobilização de grupos «recuperáveis»: os
adolescentes em período de crise de oposição, contentes de
gritar o seu ódio a todos os valores «gerontocráticos»,
entusiasmados pelo apelo ao desencadeamento da sua
«espontaneidade» sem refreio…, e juntam-se-lhes muitos
«adolescentes prolongados» que jamais aceitaram entrar
na vida.

Todos os violentos trabalhando por conta própria


«endurecem-se e multiplicam-se»; todos os ressentimentos
pessoais contra um contramestre, um engenheiro, um chefe de
escritório, um capataz, um professor, um administrador, um
oficial, etc., fecundados pelo exemplo do desrespeito
subversivo, se desencadeiam, na proporção directa da inibição
que paralisa aqueles que deviam defendê-los. Os grupúsculos
proliferam, cada um havendo um pequeno chefe que se toma
por Babeuf.

Os agentes subversivos autênticos, os verdadeiros, os


iniciadores-soldados do inimigo no território nacional,
observam com o deleite zombeteiro [goguenarde] que lhes é
habitual as reacções em cadeia que a sua ciência provocou. Não
temem nenhuma concorrência, e todos estes novos grupos se
tornam seus aliados, a quem oferecem protecção, reforços em
caso de necessidade, e sempre a «cobertura ideológica» que é o
derradeiro engodo porquanto todas as ideologias são admitidas
desde que sejam exigências da destruição total.
Os objectivos são preservados: o poder apodrece, a autoridade
enfraquece, a opinião pública é siderada, a anarquia aumenta, os
clamores crescem, e eles, os autênticos artesãos da subversão,
mergulham e baseiam-se numa agitação que doravante se
desenvolve por si própria.

Seriam 15 ou 30 ao início, se se tomarem em consideração as


recomendações de Régis Debray para fazer a guerra
revolucionária com objectivos políticos precisos. Eis agora que
10, 20, 50 grupúsculos de todos os nomes e todas as “nuances”
(cada um partilhando as ideis do seu pequeno chefe local)
entram no combate, cometem violências, escarnecem e
desacreditam as autoridades e seus representantes. Mesmo se
fossem 200.000 em França, não representariam senão 1/250 da
população total, um centésimo da população activa, mas
estando a «maioria silenciosa» encerrada no silêncio da sua
individualização, da sua inibição e do seu pânico mudo, um
décimo deste número chega para cumprir a missão militar
fundamental: abater o poder «inimigo» estabelecido neste país,
desorganizar toda a resistência eventual dos grupos constituídos
ou de Estado, neutralizar a opinião pública.

III - O PAPEL INDISPENSÁVEL DOS MASS MEDIA


É impossível compreender como se podem atingir objectivos
desta envergadura com tão parcos «meios» materiais,
financeiros e humanos, se se não apreender o papel dos meios
de difusão em massa na estratégia geral.

Já se disse que não há subversão possível, no quadro e na


perspectiva de uma revolução voluntarista14, sem a difusão
dos mass media.
Os mass media são os únicos capazes de fabricar uma opinião
pública, de criar uma psicose colectiva sem uma multidão
reunida. É essa uma das características específicas dos nossos
modernos meios de difusão de informação. Agem sobre cada
indivíduo em particular e isoladamente, criando
simultaneamente fenómenos colectivos.
É necessário considerar aqui, por um lado, o material que vai
alimentar os meios de difusão em massa e, por outro, a
exploração deste material pelos mass media.
O «material de base» vem de cinco fontes:
 as acções violentas dos pequenos grupos de acção directa,
de onde quer que venham (quer se trate de aliados normais
ou inesperados: greves selvagens, atentados,
manifestações e proclamações, acções diversas da
«guerrilha» rural ou urbana), em território nacional;
 as informações sobre as acções directas dos grupos de
combate amigos em território estrangeiro;
 os erros e faltas do adversário, a propaganda adversa, os
feitos e gestos das autoridades, dos seus representantes e
dos seus aliados;
 os feitos e gestos das autoridades, representantes e
aliados noutros Estados, quando esses Estados são
igualmente visados pela subversão;
 os “faits-divers” quotidianos e as informações ditas gerais,
em território nacional e estrangeiro.

Os mass media (rádio, televisão, filmes, jornais de grande


tiragem) devem dividir-se em duas tendências, aqueles que são
os suportes, oficiais ou secretos, das acções subversivas, e os
que o não são directamente. Trata-se de utilizar os dois
conjuntos de mass media, de forma diferente evidentemente,
como amplificadores e difusores do «material de base».
Analisaremos no próximo capítulo os numerosos modos
possíveis de exploração dos materiais fornecidos. O essencial
aqui é mostrar a sinergia funcional dos dois meios (o material, e
o seu instrumento de exploração), sendo o objectivo manipular
a opinião pública. Dito de outra forma, e é este o centro da
nossa concepção de subversão: as diversas acções directas e
violentas não constituem a ponta de lança de um
movimento que, em se desenvolvendo e generalizando,
representaria um movimento revolucionário
verdadeiramente popular.

Tal visão é arcaica e ultrapassada. As acções directas servem


apenas para alimentar a verdadeira operação «revolucionária»
que é inteiramente fundada na subversão. Esta subversão das
massas para as separar completamente do poder estabelecido
desacreditado, para as tornar passivas e inibidas (aterrorizadas
ou vagamente consentâneas, ou as duas) far-se-á através dos
mass media porque os mass media são o instrumento moderno
ideal de manipulação da opinião pública.

Esta concepção pode surpreender, e o leitor será levado a


evocar casos contrários à ideia desenvolvida aqui, como o caso
actual da Frente de Libertação da Palestina contra Israel. À
primeira vista, este exemplo enferma a nossa tese no sentido em
que a Frente é uma organização militar comprometida numa
luta de morte contra o estado de Israel; os seus comandos fazem
operações de guerra nas fronteiras, atacam os barcos e aviões de
Israel, fazem incursões de sabotagem e de destruição no interior
no território inimigo,… e tudo isto aparenta ser uma verdadeira
guerra no terreno. Acrescentemos que a Frente é a expressão
oficial de um «povo» (o povo palestiniano) reivindicando um
território e considerando-se espoliado por um «ocupante
estrangeiro». Assim, à primeira inspecção do problema, as
operações militares dominam largamente e unicamente a cena, e
a subversão pelos mass media não tem nenhum papel. Ora é
fácil de mostrar como a subversão marca o passo às operações
militares usando os mass media neste exemplo aparentemente
desfavorável: o que a Frente procura, não é uma vitória militar
impossível no terreno; procura antes criar uma opinião pública
mundial desfavorável a Israel e a dar a esta mesma opinião
pública uma certa «imagem» do movimento, de forma a que,
em contrapartida, esta opinião pública aja como força de
pressão obrigando Israel a capitular. Daí as operações
espetaculares contra os aviões de linha estrangeiros, as acções
de comandos terroristas em territórios europeus ou americanos,
as acções de guerrilhas no terreno, os movimentos de
simpatizantes suscitados em todos os países, as grandes
«interviews» concedidas a todos os jornalistas, etc.
De igual forma, é absurdo crer que as guerrilhas da América
do Sul são o início de uma revolta geral; não haverá revolta
geral e os organizadores da revolução não necessitam de uma
revolta generalizada. As guerrilhas existem para criar o clima a
ser aproveitado pelos mass media. O fenómeno no seu estado
puro foi desenvolvido e conseguido na Argélia.

Sem os mass media nenhum voluntarismo revolucionário terá


a menor hipótese de sucesso. Constatemos também um
extraordinário «apetite» de mass media por todos os pequenos
grupos de acção directa.
O «apetite» de mass media

As provas deste apetite entre os grupos de acção são-nos


indirectamente15 fornecidas todos os dias pela imprensa: é
particularmente notável que entre as exigências de um grupo de
acção que tenha um meio qualquer de pressão (ocupação de um
local, detenção ou sequestro de uma personalidade ou reféns
inocentes)16 figure sempre «a leitura na televisão duas ou três
vezes seguidas» de uma proclamação ou de um comunicado, e
também a publicação na imprensa de quaisquer comentários
que se sigam a esta difusão.
Exemplos:
1) Le Monde de 5 de Março de 1971 anuncia: Ankara. Quatro
militares americanos são raptados em Ankara. O seu veículo foi
parado numa estrada perto de Golbachi a sul da capital turca,
por um grupo armado e mascarado que os forçou a subir a uma
camionete que logo se afastou. O condutor turco do veículo
americano preveniu as autoridades. Um “tracto” assinado
«Exército de libertação popular turco», chegado ao meio-dia
à Radio Ankara indicava que os 4 militares seriam fuzilados se
o governo americano não dispensasse 400.000 dólares antes das
16 horas de sexta-feira. Os cartões de identidade dos militares
estavam agrafados ao “tracto”. Os autores do rapto põem como
condição adicional a difusão pela rádio nacional do seu texto,
de 4 páginas, atacando todas as instituições do país… Tudo se
ignora em Ankara sobre este «Exército de libertação popular
turco»… Tratar-se-á de uma nova acção de guerrilha urbana de
estudantes esquerdistas.
2) A 10 de Outubro de 1970, a «Frente de libertação do
Québec» rapta o ministro Pierre Laporte, cinco dias depois do
rapto de J. Cross, diplomata britânico. Na carta de
condições chegada à imprensa, os autores exigem, para a
libertação do ministro, a difusão na rádio canadiana e em todos
os jornais de um texto expondo os seus fins e estigmatizando as
instituições do país17.

Motivados pelas grandes acções-modelo dos militantes das


diversas «Frentes de libertação popular», grupos mais modestos
mas animados pelas mesmas intenções têm presente no espírito
o mesma preocupação com os mass media.
Le Monde, 26 de Março de 1971. Poitiers: os 11 grévistas de
fome obtêm a publicação do seu comunicado na imprensa
local (era o título). Os 11 estudantes que faziam greve de fome
em Poitiers nas duas salas paroquiais das igrejas de Saint-
Cyprien e Saint-Paul desde há 15 dias, cessaram o movimento a
25 de Março. Os grevistas obtiveram o que queriam dos
directores de jornais: a publicação de um comunicado dando a
sua versão dos incidentes ocorridos no campus a 25 de
Fevereiro anterior. Por seu lado, a estação regional
da O.R.T.F.citou várias passagens do comunicado no seu jornal
de 25 de Março, precisando que aquele texto será publicado
amanhã in extenso na imprensa local. A delegação dos grevistas
de fome que foi recebida por duas vezes pelo director da
estação nestes últimos dias assinalou a «honestidade da
informação da O.R.T.F.»!

Para ilustrar ainda este apetite de imprensa, de rádio e


televisão, dos agentes subversivos (apetite que está ligado à
lógica interna da indispensável acção sobre a opinião pública)18,
citemos três outros exemplos diversos:
1. «Conferência de imprensa selvagem». Bordéus, 12
de Março de 1971. Uma vintena de militantes trotskistas
ocuparam, quinta-feira à tarde, os salões do novo hotel de
luxo Aquitania, para lá fazerem uma «conferência de
imprensa». Os jornais referiram-se-lhe no dia seguinte
como «conferência de imprensa selvagem».
2. Tentativas de emissões piratas. Le Monde, 30 de
Março de 1971. Roma. O assassinato de um empregado de
banco em Génova e a prisão de dois homens que tinham
acabado de o roubar antes de o matar trouxeram à polícia a
chave de uma série de atentados cometidos desde há
vários meses na região. Uma investigação judicial ao
domicílio de um dos assassinos descobriu, para além de
explosivos, vários postos-emissores de rádio ligados na
largura de onda da televisão. Toda uma biblioteca de obras
revolucionárias tratando de guerrilha urbana e do emprego
de armas se encontrou na mesma residência. Este ataque
de caixas bancários poderá ser obra de um grupo formado,
segundo a imprensa, por maoistas ou «Tupamaros»; os
emissores de rádio poderiam ter sido utilizados para
emissões-piratas, de índole esquerdista, que interferiram
várias vezes com o jornal televisivo da estação de Génova.
3. Investigação da acção subversiva sobre o público por
transformação do lugar do réu em tribuna no decorrer de
um processo19. Montréal (Le Monde, 16 de Março de
1971). Condenação a prisão perpétua de Paul Rose,
assassino do ministro Pierre Laporte em Montréal.
«Julgamos o acusado, por unanimidade, culpado de
homicídio simples», declara o presidente do júri… Paul
Rose escuta o veredicto com calma, e depois lança: «Viva
o Québec livre, viva o poder do povo, nós venceremos»20.
Conclui-se assim, após 45 dias de audiências
movimentadas, eivadas de diversos incidentes, o processo
daquele que é considerado como o chefe da célula
da F.L.Q. responsável pelo rapto e morte de Pierre
Laporte… 45 dias ao cabo dos quais 206 testemunhas
foram ouvidas. Várias testemunhas foram condenadas por
ultraje à magistratura, e o próprio réu, após numerosos
confrontos [accrochages] com o juiz, foi por várias vezes
expulso da sala de audiências21.

Assim, e uma quantidade de outras manifestações o


confirmam («campanhas urbanas de esclarecimento»,
distribuição de panfletos nas ruas, solicitação de entrevistas,
etc.), a utilização dos mass media é uma necessidade
absoluta para a subversão. A «lógica» desta necessidade,
deduzida desde logo da análise dos objectivos gerais, encontra-
se confirmada pelos factos.

O leitor compreenderá agora o real objectivo do que podem


parecer palhaçadas nalguns casos, como por exemplo a foto de
quatro militares de máscara imprimida em todos os jornais de
França, ao início do «caso dos comités de soldados», ou ainda o
«filme de informação» projectado na televisão francesa em
1975 mostrando, numa decoração de «posto de comando
camuflado», um pequeno grupo de «resistentes» autonomistas
corsos, também eles de máscara e desenvolvendo, com a
complacência dos jornalistas, o seu «desespero» e as suas
«justas reivindicações» contra o «ocupante francês»… ou ainda
o texto da proclamação de um grupo terrorista sul-americano
imprimido em vários jornais (dos quais Le Monde) em 1975,
sob a assinatura (e pagamento) da firma alemã Mercedes-Benz.
Publicação que fazia parte das «exigências» do comando que
havia raptado o representante local da Mercedes-Benz.
Todos os dias e por todo o lado, os jornalistas e repórteres
televisivos são convidados e acham, como por magia, as
«tocas» dos «guerrilheiros» onde os mínimos detalhes foram
calculados para dar à «interview» o seu carácter espetacular
destinado à opinião pública.

Os «atentados terroristas», dos quais se já apontou acima o


fim unicamente publicitário, são logo «reivindicados» por
cartas ou chamadas telefónicas para os jornais, rádios e
televisões. O bom público descobre assim, em pânico mudo,
«organizações» com nomes terríveis («Braço da Revolução»,
«Justiça do Povo», «Setembro Negro» ou «Outubro
Vermelho»…) e crê que um vasto e duro movimento existe na
sombra (quando na verdade se trata sempre de um grupúsculo
de 3 ou 4 fanáticos) e constata a impotência das forças da ordem
e do Estado. E todos os órgãos dos mass media em nome do
dever de informação, se põem em acção e em transes para
difundir a nova, martelando a opinião pública sempre no
mesmo sentido, criando com todas as peças o clima desejado
pela subversão.
Maneira de agir própria dos mass media

Vimos acima que os meios de difusão da informação podem


dividir-se, do ponto de vista da subversão e num país livre, em
duas categorias: os que são directamente subversivos e
os outros.

Os que são directamente subversivos subdividem-se em


vários tipos:

1º Os jornais publicados pelos grupos de acção directa. Estes


têm três objectivos:

 Cuidar do estado de espírito dos próprios grupos e, como


tal, ficam limitados à sua audiência directa que é mínima,
pois estes grupos, por definição, são muito restritos.
 Servir, em caso de necessidade, de meio de propaganda
nos grupos que se pretende «recuperar», isto é, atrair a si.
Assim, por exemplo, o jornal Rouge, distribuiu em França
18.000 exemplares de um número especial intitulado
«Juventude rebelde» à saída dos liceus em Março de 1971,
nas vésperas do «caso Guiot» (detenção de um estudante
de liceu manifestante).
 Fornecer aos órgãos de imprensa com influência na
opinião pública «informações» a difundir. Assim, por
exemplo, o Le Monde reproduziu no número de Abril de
1971 um artigo de Sartre, [primeiro publicado] no La
cause du peuple, convidando os militantes à «acção
directa» contra os jornalistas que ousassem publicar
editoriais desfavoráveis às ideias revolucionárias. São da
mesma ordem as «emissões-piratas» de propaganda
directa, na rádio e televisão, e os filmes aos quais se
chama «o cinema de opinião»22.

2º Os jornais e revistas de grande difusão que participam


directa e intencionalmente na acção subversiva. Sendo, por
vocação, «de grande difusão», estas publicações adoptam
métodos mais subtis que os das precedentes. O seu papel é de
importância capital para a subversão pois têm toda a aparência
de boa fé e de objectividade, de forma a conservar e a expandir
a audiência, portanto de moldar um sector importante da
opinião pública23. Entre os artigos e reportagens de cultura geral
ou grande informação, a intoxicação subversiva é mais ou
menos bem feita conforme os hebdomadários e a qualidade
dos redactores.

Os seus métodos, nos artigos e resumos de intenção


subversiva consistem no que se chama
«informação tendenciosa».
São-no igualmente as emissões rádio ou de televisão oficiais
confiadas a realizadores ou jornalistas que servem a subversão.
Lembremos sucintamente os processos da informação
tendenciosa24 :

A) Princípios gerais. A informação tendenciosa deve ser


desde logo «credível», o que se garante seja pelas características
pessoais do informador, afeiçoadas pela maneira como é
apresentado e pela camuflagem dos seus móbiles… seja pela
própria informação que deve ser moldada à maneira de pensar
do grupo visado, apresentar «provas» concretas (fotografias,
cartas, gravações, etc), e evitando o escrúpulo a prioridos
receptores, e, enfim, “preencher” uma necessidade de
explicação lógica. O perigo nº 1 é o «efeito-boomerang» que se
dá quando uma acentuação demasiado perceptível da intenção
tendenciosa produz na audiência um efeito contrário ao que se
lhe pretende «sugerir».

B) Alguns processos: 1) a notícia completamente falsa, para a


verificação da qual o ouvinte ou leitor não tem meio de
verificação. O desmentido pode, de qualquer maneira, ser
fornecido posteriormente sem afectar o efeito inicial da notícia;
2) a selecção de informações, cada uma delas verdadeira, mas
todas escolhidas com a mesma intenção; 3) a mistura de
informações verificáveis e de informações subversivas; 4) o
comentário «orientado» após uma informação verdadeira; 5) o
enquadramento de uma informação verdadeira e concreta num
contexto que lhe muda o sentido; 6) a informação casual
[incidente] tendenciosa, transmitida sem importância, durante a
transmissão de outra informação sobre um assunto diferente; 7)
empolamento e distorção de uma informação verdadeira de
forma a suscitar sentimentos fortes no leitor-ouvinte; 8)
repartição desigual da duração e da qualidade das informações
pró e contra, beneficiando o aspecto escolhido para orientar o
leitor-ouvinte (ex.: larga publicidade a uma repressão, e mínima
à provocação); 9) manipulação [habillage] de uma informação
subversiva de um facto real; 10) informação sem conclusão
[explícita] mas feita de tal forma que o leitor-ouvinte tire ele
próprio a «conclusão que se impõe».

«As informações cuidadosamente escolhidas e perfeitamente


apresentadas constituem a arma de propaganda subversiva
mais poderosa que há» diz Sefton Delmer que conhecia bem a
questão25.

3º Os jornais, revistas e emissões de grande difusão que são


«neutros». Estes são geralmente da segunda categoria mas com
um grau de subtileza superior. Apresentando, com uma
imparcialidade ostentatória, as informações de todas as fontes,
não se coíbem de pôr no mesmo plano, por exemplo, a
entrevista de um ministro responsável ou de um eleito, e a
entrevista de um pequeno chefe de bando explicando os ideais
humanitários universais que fornecem um sentido à sua acção
selvagem, ou ainda o texto de uma sentença de tribunal e o de
um panfleto distribuído à saída.
A «parte igual» consagrada às «diversas tendências de
opinião», esconde discretamente que tal tendência representa 1
em 1000, e que aqueloutra representa 95% dos cidadãos.

Os «bem-pensantes» de que falámos acima encontram um


acolhimento caloroso nestes jornais e emissões.

Outro objectivo não-negligenciável é que estes jornais


fornecem a ocasião dos grupos revolucionários de se fazerem
conhecer e reconhecer.
4º Os jornais, revistas e emissões de difusão que são «contra»
os empreendimentos revolucionários. Naturalmente, existem
todos os graus de oposição, mas deixaremos de lado as
publicações claramente marcadas pelo militantismo extremista
oposto. Estas são e serão objecto de «acções directas»
(atentados à bomba, ataques pessoais físicos a pessoas ligadas e
a seus domicílios) da parte de grupos revolucionários.
Falemos dos jornais que, exprimindo abertamente os
sentimentos íntimos do seu público, se indignam contra as
iniciativas sediciosas e subversivas e as estigmatizam. Aqui
produz-se um fenómeno que Tchakhotine havia já à época
reconhecido e analisado26: para demonstrar a gravidade das
diversas acções subversivas ou terroristas, estes jornais dão-lhes
largo espaço, assinalam-nas todas, comentam-nas com horror e
indignação, e protestam energicamente contra a carência, a
fraqueza, mesmo a cumplicidade, das autoridades que
deviam reprimi-las.
Ora, em o fazendo, provocam nos leitores um efeito
imprevisto, a saber, a dupla certeza que, por um lado, os grupos
de guerrilha ou acção directa têm um poder irredutível, que não
recuam perante nada e, por outro, que as «forças da ordem» e as
autoridades são fracas e impotentes. Estas duas «imagens» que
se implantam e se agravam na proporção da insistência do
jornalista são precisamente aquelas que os agentes subversivos
procuram fazer acreditar.

Um exemplo menor mas significativo é aqui suficiente. No


seu número 1801 de Junho de 1971, o semanário moderado mas
anti-esquerdista Valeurs actuelles, publica numa grande página,
ilustrada com duas fotografias, um artigo intitulado «Os polícias
esquerdistas de Grenoble», onde se lê, entre outras coisas:

«Grenoble vive num clima de guerra civil (…). O campus,


onde os revolucionários esquerdistas se protegem detrás de uma
concessão real dada em 1290, tornou-se um Estado dentro de
um Estado. Em Grenoble, o prefeito, a polícia, capitularam
perante a violência (…). A 2 de Junho, os «polícias» do Secours
Rouge procedem em plena cidade a duas detenções! (…) Uma
hora depois, a secção de Grenoble do Secours Rouge difunde
um comunicado»… Uma das duas fotografias publicadas
representa um cartaz esquerdista com as quatro fotografias
de MM. Ceccaldi, Lenoir, Tomasini e Soustelle, cartaz esse
intitulado «Estes homens são perigosos. Detenham-nos» e
contendo um texto que é um apelo pouco disfarçado à violência
e ao assassínio.
No seu número 1802 de Junho de 1971, o mesmo semanário,
a propósito das pilhagens de 5 de Junho no Bairro Latino,
termina assim um artigo de uma página ilustrado com duas
fotografias (uma das quais representa os «grevistas de fome»
instalados em colchões no hall da mairie de Grenoble): «a
existência de um estado-maior terrorista não pode mais pôr-se
em dúvida. Uma vez que, na noite de 7 para 8 de Junho, dois
atentados absolutamente idênticos tiveram lugar contra cafés
em La Courneuve e em Saint-Étienne, separados por 400
quilómetros de distância, revela que o mesmo grupo pode a
partir de agora operar em todo o território.»
Compreende-se facilmente o perigo destas apresentações, que
acreditam as imagens indutoras do descrédito do Poder e do
poder dos grupos revolucionários, produzindo o efeito inverso
daquele que queria o jornalista, e suscitando no inconsciente
dos leitores o pânico mudo e a inibição - objectivos
destes grupos.

Assim, fazendo acções espetaculares (e é isso o essencial), os


pequenos grupos de acção violenta não têm mais que deixar
andar os mass media para que todas as categorias da opinião
pública sejam informadas, como eles pretendem e da forma que
pretendem. A sua propaganda faz-se com um mínimo de
militantes (são suficientes, por exemplo, quatro indivíduos que
se concertem, para produzir os dois atentados simultâneos de La
Courneuve e Saint-Étienne; igualmente, bastam 300 estudantes,
dos 300.000 de Grenoble, para fazer crer que a cidade está «nas
mãos dos terroristas»), e isto sem esforço especial (é verdade
que é preciso «pensar» as acções tendo em conta os objectivos
psicológicos e ter alguns agentes subversivos bem posicionados
no aparelho universitário)… uma vez que a enorme máquina
dos mass media se agita pela sua organização propriamente
dita. A opinião pública nacional vacila e tombará um dia no
pânico mudo, na inibição e na desconfiança
das autoridades[^81].
A opinião pública mundial atinge-se da mesma forma.
Manifestações «espontâneas» de solidariedade com tal ou tal
acção revolucionária «rebentam» a milhares de quilómetros
umas das outras, e todos os jornais do mundo as noticiam com
fotografias, entrevistas dos organizadores, publicações das
proclamações, criando e intensificando o «clima» psicológico
que se trata de fabricar. Enquanto isto, interrompendo por um
momento o riso à gargalhada de todos estes sucessos com a sua
dúzia de comparsas, tal agente subversivo declara à televisão do
Estado, com a gravidade do pensador (provocando os
assentimentos com a cabeça sugestivos do seu entrevistador
oficial): «Estamos a entrar, parece-me, num
período revolucionário.»

Bibliografia:
R. DEBRAY, Révolution dans la révolution, Maspéro, 1964

S. DELMER, Opération radio-noire, Flammarion et


Stock, 1965
J. ELLUL, Propagandes, Armand Colin, 1962
LENINE, Agitation et propagande (paru en français en 1947)
D. MORNET, Les origines intellectuelles de la révolution
française, Armand Colin, 1933, 6ºéd., 1967
R. MUCCHIELLI, Opinions et changement
d’opinion, E.S.F., E.M.E. et Éd. Techniques, 1969, 2ºéd. 1971

R. MUCCHIELLI, Psychologie de la publicité et de la


propagande, E.S.F., E.M.E., et Éd. Techniques, 1970,
2ºéd. 1972

Revue militaire d’information, nº spécial 1957, La


guérre révolutionaire

S. TCHAKHOTINE, Le viol des foules par la propagande


politique, N.R.F., 1952

1. Assim, por exemplo «para impôr a sua concepção de


paz, o presidente Nixon é obrigado a prolongar a guerra»,
dizia o jornal Le Monde num editorial de Março de
1971. ↩
2. Por aqui se vê claramente o significado e alcance
deste «terrorismo». Não tem nada que ver com o terror
gerado, por exemplo, pelas execuções e exterminações
selvagens de aldeias inteiras pelos Alemães na França
ocupada, ou pelos bombardeamentos maciços das cidades
alemãs pelos Aliados. É simultaneamente muito restrito e
muito «psicológico». O seu papel, efectivamente, não é
«directo». Deve ser retransmitido e ampliado pelos mass
media. ↩
3. Uma associação com este título foi criada em França
em Fevereiro de 1970 por um professor da Universidade
de Paris «para que se não confunda a grande maioria dos
jovens que querem trabalhar, e uma minoria de agitadores
e de aprendizes revolucionários»… «É vão e ilusório, diz
um comunicado do presidente desta associação fantasma,
querer assegurar a ordem na rua como nas salas de aula se
se deixa ensinar as ideias de desordem e de subversão que
a maioria do país reprova.» (sic) ↩
4. Cf. R. Mucchielli, Psychologie de la publicité et de
la propagande co-editada pelas Éditions E.S.F.,
Éditions E.M.E. e as Librairies Techniques, Paris, 1970 ↩
5. ver abaixo ↩
6. Organização das Nações Unidas para a educação,
ciência e cultura. Esta publicação foi feita por ocasião do
20º aniversário da Declaração, sob o título «O direito de
ser um homem». ↩
7. Tal corresponde, palavra por palavra, às
recomendações de P.L.Courier na sua técnica do panfleto
político. Cf. p. 19. ↩
8. Cf. abaixo, p. 114 ↩
9. Veremos que dificilmente lhe escapará, assim exista
o duplo sistema de pressão que se abata sobre ele: o
dos mass media e os das violências directas. ↩
10. Este plural, implicando a extensão a todos os jovens,
é em si mesmo o sinal do sucesso da subversão. Diz-se
comummente «os estudantes», (ora mesmo em Maio de
1968 havia 5 a 6000 nas ruas de Paris, dos 140.000
inscritos). Fala-se também em «assembleias gerais» com
300 estudantes de uma faculdade de 6000 ou 10.000
inscritos. ↩
11. Le mythe de la cité ideale, P.U.F., 1960, part. Livro I,
cap. 1 «La révolte», e livro III, cap. 2, «Échec de la
réduction psychologique du mythe». ↩
12. Em L’insurgé, 1885 ↩
13. A análise completa dos complexos e germes
nevróticos dos contestatários foi feita por André Stéphane
em L’univers contestationnaire. ↩
14. Quer isto dizer, lembremo-lo, na ausência das
condições históricas ou económicas de uma revolta geral
da maioria da nação. ↩
15. Digo indirectamente porque não faço aqui alusão às
acções espectaculares e simultâneas que têm por objectivo
essencial provocar directamente a sua difusão pela
imprensa e de agir sobre o público através desta
divulgação para obter um determinado efeito. ↩
16. A tal ponto que os meios de pressão são
investigados, com antecedência, para este fim. ↩
17. Sabe-se que o diplomata J. Cross foi «libertado»
algum tempo depois, tendo o governo aceite as exigências
dos sequestradores (libertação de presos políticos amigos
que se acolheriam a Cuba ou Argélia, e difusão oficial de
um manifesto da F.L.Q. pela imprensa, rádio e televisão).
Pierre Laporte foi assassinado a 17 de Outubro, não tendo
sido, desta vez, aceite o ultimato da F.L.Q. ↩
18. Há tendência em crer que este apetite pelos mass
media é uma necessidade de auto-publicidade. O que não
é falso na medida em que, como vimos a propósito do
caso de Março de 1971 em Ankara, a F.L.P. não era
conhecida previamente, e a sua existência é revelada nesta
ocasião. Mas esta «publicidade» é-lhes feita
automaticamente pela imprensa e rádio, logo em dando
conta do rapto. É necessário portanto ver o significado
suplementar da exigência: ela demonstra audácia,
determinação e, pelo próprio texto, inicia a acção dupla de
descrédito da autoridade (já implicitamente desacreditada
pela aceitação do ultimato dos terroristas) e de
neutralização-inibição da população. ↩
19. Dentre as provas mais convincentes desta táctica,
citemos (com Ellul, op. cit. p. 25) o processo que, à data,
serviu de forma notável a propaganda da insubmissão e
ajudou vigorosamente a Frente de libertação nacional
argelina. ↩
20. Seria um erro crer que Rose e os seus amigos se
interessavam pela «independência» do Québec mais do
que a Frente de libertação turca se interessa pela
«independência» da Turquia. Trata-se de implantações
nacionais de agentes da revolução internacional. ↩
21. Todos os detalhes destes «ultrajes» e proclamações
feitas pelo réu foram, naturalmente, relatados pela
imprensa canadiana, o que era o objectivo destes
incidentes porquanto era necessário influenciar a opinião
pública. ↩
22. Os grupos de cineastas «independentes» escolheram
o filme como meio de acção, como em França
o CRP (Cineastas revolucionários proletários), o grupo
Dynadia, o colectivo Dziga-Vertov (maoista), o grupo
Sion. ↩
23. A lei psicológica aqui aplicada é esta: «um texto
violento, chocante, leva a menos participação e convicção
que um texto mais “informativo”, mais razoável… A
reacção favorável do leitor ou ouvinte é tanto mais forte
quanto a mensagem de propaganda é mais racional e
menos violenta.» (Ellul, op. cit. p.100). ↩
24. Cf. R. Mucchielli, Opinions et changement
d’opinion, E.S.F. 1970, particularmente os cap. 2 e 5. ↩
25. Sefton Delmer, op. cit. p. 111 ↩
26. «Os métodos clássicos estão em contradição evidente
com os dados científicos. A sua propaganda toma
normalmente formas sentidas [attristées]: ela queixa-se,
ela acusa o adversário de atrocidades, de espírito de
agressão, faz ressair, por outras palavras, a sua audácia e a
sua força. É uma má técnica pois presta assim, sem se
aperceber, um serviço à propaganda adversa. É o princípio
que denominaremos intimidação ao reverso».
(Tchakhotine, op. cit., p. 286) ↩
Obra citada:
Roger Mucchielli in La Subversion, C.L.C., Paris, 1976 , pág. 67-106