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Curso Princípios e Métodos da Auto-Educação

Olavo de Carvalho

Aula 05
05 de outubro de 2012

Como nós passamos da metade do curso, creio que hoje seria bom fazermos uma revisão.
Então, vocês terão cinco minutos para pensar em algumas perguntas.

Pergunta de um aluno: (Inaudível)

Prof. Olavo: A primeira pergunta refere-se a melhores esclarecimentos acerca da


meditação. A palavra meditação aqui foi usada num contexto que se refere à leitura, isto é, você
tomar algo que foi lido como objeto de uma meditação. A meditação é um processo que ocorre em
sentido contrario de uma demonstração ou prova. A meditação é uma técnica que deve ir dos
conceitos abstratos que foram lidos em um livro de filosofia ou ciências sociais, até às experiências
humanas de base que motivaram a constituição de determinado conceito. A meditação é uma
operação básica que corresponde na esfera das ciências humanas, àquilo que é o teste de laboratório
nas ciências naturais. Ou seja, quando você tem uma proposição cujos termos são conhecidos por
seu significado convencional, isto não quer dizer que você os conheça nem em sua intenção, isto é,
o significado intencional que a proposição foi anunciada, nem muito menos quer dizer que você
conheça os objetos originários a respeito dos quais a proprosição idealmente versa. Ou seja, nós
iremos fazer um trajeto que vai desde o raciocínio lógico até à memória e imaginação, mas o ideal
seria ir até os sentidos. O trajeto é o contrário da abstração, ou seja, é uma concreção, é ir dos
conceitos abstratos até aos entes, experiências e situações concretas dos quais a abstração pode ter
emergido.

Isto não quer dizer que você adivinhará quais as situações e percepções das quais o autor
partiu para abstrair os conceitos, mas você irá imaginar as situações das quais você partiria para
chegar a uma abstração análoga. Isto nos remete novamente ao famoso método do Stanislaviski.
Tendo como referência este método, quando ler alguma proposição você deverá se perguntar: “A
que objetos da minha experiência eu precisaria estar me referindo para pensar isto que este sujeito
está pensando agora?”. Você poderá fazer este exercício com praticamente qualquer proposição que
você leia. É uma tentativa de você se colocar na posição existencial necessária para pensar as
determinadas proposições. Normalmente nós não fazemos isso, ao contrário, deslizamos em cima
das proposições e dos seus significados convencionais porque é mais fácil, pois nos mantém no
nível do puro raciocício abstrato, o qual procede, de alguma maneira, automaticamente. Nós não
podemos nos esquecer que o raciocício lógico-abstrato, por mais prestigiado que seja, é o mais
mecânico e simplório das formas de raciocício, o qual até um computador pode realizar. Para um
computador realizar os processos da imaginação e memória humana precisará evoluir muito. Eu não
digo que seja impossível para o computador imitar os processos imaginários humanos, mas não é
algo tão fácil assim. Porém imitar um raciocício lógico é simples, porque o mesmo funciona de
acordo com um protocolo fixo e do mesmo modo procede um programa computacional.

Ao nos mantermos no nível do puro raciocício lógico-abstrato, abrimos a possibilidade de


imitação dos discursos filosóficos e científicos com uma relativa eficácia. Porém, quando testado a
identificar na realidade as coisas das quais o autor ou você mesmo está falando, ocorre a falha.
Falha, sobretudo, a percepção da sua relação pessoal real com determinado objeto. Então, a
discussão assemelha-se a uma discussão entre dois bonecos de ventríloco, os quais não sabem quem
está por trás manipulando os seus movimentos. Isto acontece com uma frequência extraordinária.
Quando pressionamos as pessoas questionando-as acerca de que objeto real elas estão falando, no
máximo elas irão enunciar algum conceito abstrato que leram em algum lugar.

Eu me lembro de um dia em que estava ouvindo uma conferência do José Luís Fiori que
era um professor da USP e num dado momento da conferência ele soltou uma frase assim:
“Liberalismo é fascismo!”. Eu disse: “Muito bem. Agora o senhor vai me dar um exemplo de um
regime fascista que fosse inteiramente a favor da liberdade de mercado e que não fosse um governo
estatista e centralizador”. Ele procurou e, evidentemente, não achou nenhum. O conceito de
liberalismo que o José Luís Fiori tinha em sua mente, não era oposto logicamente ao conceito de
fascismo que também estava presente em sua mente. Ele entendia o fascismo como um regime
repressor, reacionário e anti-comunista, isto é, nenhum desses qualificativos do fascismo é oposto
em princípio à liberdade de mercado. É inteiramente possível haver um país com imensa liberdade
de mercado e ser ao mesmo tempo um regime anti-comunista e repressivo. Então, conceptualmente
ambas as modalidades de governo não são opostas. Mas na realidade ambas as modalidades de
governo se tornam opostas, porque é praticamente impossível o exercício do controle estatal sobre
uma sociedade ao mesmo tempo em que a economia fica totalmente livre. O prof. Fiori estava
raciocinando apenas com conceitos abstratos, com os significados dicionarizados das palavras, e
não com coisas. No Brasil, praticamente toda opinião que circula sobre o que quer que seja não
passa desse nível de raciocínio abstrato. As pessoas não estão acostumadas a meditar acerca do que
estão falando, ou seja, voltar desde o pensamento abstrato até a experiência originária.

A prática da meditação tornará o seu pensamento muito mais lento, porque quando você
está operando somente com os significados convencionais, ocorre o deslizamento numa
combinatória meramente verbal ou meramente lógica. Mas quando há o interesse de ir até a raiz das
experiências originárias, então em cada palavra deve haver uma carga enorme de recordações,
emoções, sentimentos e etc, que não é elaborada com a mesma velocidade que o conceito abstrato.
Só que as poucos é esta carga de experiência contida em cada palavra meditada que vai fornecer a
densidade da sua fala. Neste ponto, quando você abrir a boca, as pessoas irão sentir se existe uma
retaguarda ou se não existe. A expressão “o sujeito sabe do que está falando” refere-se a este nível
de experiência alcançada mediante a meditação. Não quer dizer que ele leu muita coisa a respeito
ou que tem muito conhecimento, mas quer dizer que, como dizia Camões, “é um saber de
experiência feito”. Não é somente uma combinatória lógico-verbal. Há a presenta da experiência
real e dos objetos concretos por trás dos conceitos enunciados pelo sujeito. Isto não quer dizer que
seja verdade, necessariamente, o que o sujeito está dizendo, porque ele pode ter interpretado a sua
experiência erroneamente, ou a mesma pode ser limitada. Contudo, se não há sequer a experiência,
então não há nada.

Existem muitos livros famosos de filosofia nos quais encontramos essa deficiência da
prática do exercício de meditação. No livro maravilhoso do Michel Villey, “Crítica do Pensamento
Jurídico Moderno”, ele mostra que grandes filósofos que escreveram obras de Filosofia do Direito
nada conheciam do Direito. Eles nunca tinham lido um processo, desconheciam as leis, e baseavam
seus escritos em meros raciocínios abstratos. Mas o Villey, que passou a vida estudando o Direito
Romano, sabe que as referências de Kant ao Direito Romano eram todas falsas, todas imaginárias.
O Direito do qual Kant está falando é apenas um Direito possível, um Direito sem substância, um
Direito conceiptual. Isto não quer dizer que não faça sentido algum, ao contrário, pode fazer algum
sentido no mundo das abstrações. Porém não corresponde às experiências reais que um advogado,
juiz ou réu têm do Direito. Claro que um leitor totalmente ignorante não percebe as diferenças,
porque os conceitos são mais ou menos os mesmos. Quanto mais engenhosa é a mente do sujeito
que combina os conceitos à nivel lógico-abstrato, mais facilmente ele enganará aos leitores
ingênuos.

Eu lembro dia em que aprendi essa distinção que foi quando abri o livro do Wittgestein,
“Tractatus Logicus Filosoficus”, e li duas frases: 1°) “O mundo é o conjunto dos fatos e não das
coisas”; 2°) “Fato é a alteração de um estado de coisas”. Então, em primeiro lugar encontramos um
problema lógico nestas duas afirmativas. Pois se a definição de fato depende da definição de coisa,
então os fatos não têm uma substancialidade por si mesmos. Em segundo lugar, tentei imaginar um
mundo composto somente de alterações de estado de coisas. Eu olho para esta sala, por exemplo, e
vejo que algumas coisas estão se alterando e outras não. Se tudo que está aqui se alterasse ao
mesmo tempo eu não perceberia alteração alguma. Se quando você andasse o chão se movimentasse
com você, seria impossível o seu descolamento. Portanto, a própria definição de alteração supõe
que nem tudo se altera. E se o mundo só se compõe dos fatos e os fatos são somente as alterações,
todas as coisas que não são alteradas não fazem parte do mundo, mas sem estas últimas não podem
haver alterações. Isso não foi uma operação lógica que eu fiz, mas uma operação baseada na minha
imaginação de um mundo composto somente de alterações. Como conclusão temos que estas
proposições não dizem nada, o sujeito não sabe do que está falando e, ao inventar uma premissa
arbitrária, continuou raciocinando a partir dela. Se a premissa é desse teor, todos os seus
desenvolvimentos sumariamente não nos interessa. Pode ser muito engenhoso, como de fato é, no
meio pode haver uma ou duas ideias interessantes, mas no conjunto não significa nada. Pior: o
Wittgestein termina o livro concluindo e admitindo que não disse nada. Ao final houve uma
tremenda demonstração lógica elegantíssima para provar que o autor não deveria ter pensado em
nada do que investigou.

Mas isso é o caso de você se perguntar: “Por que as pessoas se interessam por isso quando
o próprio autor confessa que nada do que ele escreveu é interessante?”. A resposta é muito simples:
Porque a discussão lógica, sobretudo no meio anglo-saxônico, exclui a meditação por hipótese. Na
medida em que você aceitou a escola analítica e passou a lidar apenas com conceitos lógicos
perfeitamente bem elaborados e estabilizados, acabou a meditação. Por exemplo: em matemática
pura não há espaço para a meditação, porque não tem objetos definidos aos quais a operação se
refere. Numa operação matemática há apenas conceitos abstratos e regras lógicas. Quanto mais o
sujeito se adestra nesta forma de raciocínio e acredita que a filosofia deve se limitar a esta forma de
raciocínio, mais ele irá excluir de seu horizonte intelectual a prática da meditação. A experiência
concreta, objeto de valor para a meditação, é de ordem “subjetiva” que, por sua vez, por não pode
ser incorporada na discussão geral, esta predominantemente de ordem lógica. Ocorre que ao
desprezar a experiência concreta pela razão já mencionada, ocorre como consequência o
desaparecimento de todos os respectivos objetos, restando apenas uma estruturação lógica erigida
sobre o nada.

Se nós constuíssemos uma teoria inteiramente baseada em conceitos estáveis, como faz
Spinoza na “Ética”, essa construção não teria significado concreto e, portanto, a ela poderia ser
atribuído arbitrariamente qualquer significado concreto. Essa construção é apenas um símbolo
abstrato de um objeto indefinido. Como consequência cairíamos no “princípio da falseabilidade” do
Karl Popper, o qual afirma que nada pode ser provado e nem contestado, pois não se refere a coisa
nenhuma e não possui equivalente na experiência. Quanto mais claro e definido for um conjunto de
conceitos contidos numa doutrina, mais facilmente ele deixará de ter qualquer relação direta com a
realidade concreta.

A penetração na realidade concreta implica num sacrifício da demonstração lógica, porque


ao se dispor a isso você irá entrar em contato com elementos que não podem ser conhecidos
somente por sua definição, mas que exigem que o leitor ou ouvinte façam um apelo às suas
memórias reais. Como exemplo disso temos os diálogos socráticos, onde os ouvintes são
testemunhas do que Sócrates está falando. Sócrates faz as perguntas para que os ouvintes busquem
em suas memórias as respostas. Se o ouvinte não quiser buscar em sua própria memória as respostas
para as perguntas, você não poderá fazer nada, porque neste caso não se trata de uma prova lógica,
mas da validação por testemunho. Mas o testemunho de quem? Do ouvinte e/ou do leitor. Não se
trata de um demonstração lógico-matemática que se impõe por si mesma e independentemente das
intenções subjetivas dos ouvintes e leitores. Todo o mundo da especulação lógica e lógico-
matemática é um mundo que independe do testemunho. Mas que, por outro lado, não se refere a
coisa nenhuma. Onde quer que você esteja se referindo a alguma coisa do mundo real, você nunca
escapará da necessidade de validação por testemunho.

O testemunho humano é o fundamento de todos os conhecimentos substantivos. Não pode


existir uma certeza inteiramente objetivada como existe nas matemáticas, onde dois mais dois é
igual a quatro, mesmo que não existam quatro objetos e mesmo que ninguém saiba disso. No
entanto, tudo o que se refere a um objeto real nunca poderá ser passível de uma prova lógica
inteiramente objetivada, que valha por si independentemente da ausência ou existência de
testemunhos. A validade do testemunho depende de quanto este testemunho seja fidedigno, e a
fidedignidade do testemunho é alcançada na experiência originária e na memória. Isto significa que
a experiência individual e a memória humana é a base de todo o conhecimento. Até a revelação
divina depende da fidedignidade do testemunho, pois se quem recebeu a mensagem posteriormente
mentir a respeito do conteúdo da mensagem, as consequências podem ser bem negativas. Se vocês
lerem a história dos evangelhos, verão que a Igreja investigou uma série de relatos e chegou a
conclusão de que apenas quatro eram fidedignos. Isto é, Jesus veio ao mundo, realizou uma série de
milagres, fez as suas pregações e no dia seguinte já haviam um série de relatos falsos a respeito.

O objetivo ideal das ciências hoje em dia é reduzir tudo à provas objetivadas, ou seja, à
impessoalidade total. Em primeiro lugar, este objetivo é impossível de ser alcançado. Em segundo
lugar, nos revela uma tremenda covardia intelectual. Isto é o desejo de encontrar uma verdade que
se imponha por si mesma sem que eu tenha que fazer o esforço de reflexão que me leve a concordar
ou não com a mesma. Em suma, uma verdade que não implique em nenhum grau de
responsabilidade humana.

Intervenção de um aluno: (A intervenção em sua maior parte ficou inaudível, mas creio
que o aluno referiu-se ao “princípio da incerteza” do físico nuclear Heisenberg).

Prof. Olavo: Quando se reconhece na física esse coeficiente de incerteza e a dependência


do testemunho humano, o sujeito que está acostumado com o ideal da prova objetivada entra e crise
e começa a dizer que não existe prova de coisa alguma, que é tudo relativo, que é tudo subjetivo e
que, portanto, vale tudo. Daí nasce o Paul Feyerabend e o seu livro “Contra o Método”, no qual ele
praticamente afirma que vale qualquer modalidade de prova, baseada em qualquer modalidade de
discurso, seja este retórico, poético, historinhas, em suma, o que você quiser. Esta confissão da
física quantica de que tudo no fim das contas dependerá de um observador, é interpretada dentro de
uma tradição de pelo menos dez séculos marcada pela oposição entre o objetivo e o subjetivo. O
objetivo seria definido como o que é independente do testemunho pessoal, ou seja, é o mundo das
medições e relações matemáticas. O subjetivo seria o que mantém laços de dependência com os
sentidos e testemunho humano direto.

As relações matemáticas não aparecem diante de nós como entidades materiais, mas são
alcançadas somente pela abstração humana. Então o que é chamado de objetivo é um mundo de
relação matemáticas que não existe fisicamente. E tudo o que é imposto para nós através dos
sentidos físicos é chamado de subjetivo. Isto é absolutamente louco! Ademais, quando o objetivo é
caracterizado como aquilo que é passível de medição, resta-nos fazer a seguinte pergunta: “Quem
faz as medidas?”. Nenhuma medida, por definição, jamais é totalmente objetiva. Há pelo menos três
séculos, desde a difusão do prestígio da ciência newtoniana, criou-se essa inversão. Isso também
anula a escala de certeza, porque a certeza matemática acerca de alguma coisa é apenas uma certeza
formal entre dois conceitos estabilizados que podem ter uma existência meramente verbal. Por
exemplo: se você perguntar o que é um neutrino, os físicos te responderão com uma definição
conceptual. Mas se você perguntar se o neutrino existe, eles não saberão te responder. O mundo
inteiro das partículos subatômicas é assim. O sentido da palavra existir em física quantica é
altamente problemático.

Não podemos jamais tomar a certeza lógico-matemática como se a mesma fosse o modelo
de certeza máxima para nós. Ela pode corresponder à certeza máxima na escala de credibilidade
somente dos discursos. Então, o discurso poético baseia-se na possibilidade, o discurso retórico na
verossimilhança, o discurso dialético na probabilidade e o discurso lógico-analítico na certeza total,
mas é apenas uma certeza formal, interna ao discurso. O fato de um discurso ser estruturado
segundo o padrão de certeza máxima, não quer dizer que o conteúdo do discurso tenha
objetivamente uma certeza máxima. Eu estou falando aqui dos graus de credibilidade dos discursos
e não dos seus objetos e conteúdos. O próprio Aristóteles, inventor desta escala, diz em um certo
momento que a Poesia é mais verdadeira do que a História. Isso parece demolir inteiramente a
teoria dos quatro discursos. Ocorre que nessa observação Aristóteles está se referindo à veracidade
substantiva dos discursos, isto é, através da poesia nós captamos certas verdades universais que
todos os seres humanos podem comprovar. Ao passo que a História fornece narrativas cuja
credibilidade dependem de documentos, de uma série de depoimentos incoerentes e etc. Um
personagem como Dom Quixote é verdadeiro e universal enquanto tipo psicológico, pois todos
podem reconhecer uma dimensão quixotesca na conduta humana. E a narrativa histórica da época?
Se você pegar a biografia de Luis XIV verá que está faltando um monte de pedaços, então é de uma
validade muito relativa. Quando Aristóteles nos fala da escala de credibilidade, está se referindo à
escala de credibilidade formal dos discursos. Ou seja, do tipo de credibilidade que o discurso
pretende atingir na cabeça do ouvinte. Em suma, Aristóteles trata da credibilidade e não da
veracidade dos discursos. A credibilidade é um mero efeito psicológico.

Pergunta de um aluno: Então a credibilidade de uma biografia é retórica?

Prof. Olavo: É retórica, sim. Às vezes chega a ser dialética, no máximo. Se o que você está
enunciando vem na forma de um discurso poético, então você não está querendo provar nada, mas
apenas despertar a imaginação do seu ouvinte para certas possibilidades. Quando chega no último
grau da escala você pode fornecer uma demonstração matemática como forma de provar que a
mesma é dotada de uma certeza absoluta. Ocorre que a certeza absoluta está dentro das premissas
que foram colocadas inicialmente e estas premissas podem ser completamente falsas. Não está nos
poderes do discurso lógico atestar a veracidade das suas próprias premissas. Tanto que pode haver
um discurso inteiramente lógico sobre entidadas desconhecidas, como em álgebra, por exemplo.
A/B = X/Y, é verdade, mas o quê que é A, B, X ou Y? Não precisamos saber. A escala se refere à
credibilidade do discurso e não à veracidade do seu conteúdo. Se o objetivo é ir em busca da
veracidade do conteúdo então a escala dos quatro discursos já não resolve o problema inteiramente.

Pergunta de um aluno: (Inaudível)

Prof. Olavo: Não dá para fazer isso porque a veracidade de um discurso não depende do
próprio discurso. O seu nível de credibilidade sim, depende de sua forma. Se é uma forma poética
tem uma credibilidade X, se é uma forma lógico-matemática tem uma credibilidade Y. Mas a
veracidade de um discurso nunca está nele, mas naquilo a que o mesmo se refere. No início da
Modernidade se confundiu a credibilidade máxima com a veracidade máxima. Daí o discurso
lógico-matemática despontar como modelo dessa veracidade máxima. Mas hoje nós sabemos que
não é bem assim. Se as pessoas tivessem lido Aristóteles direitinho na época, de cara teriam
percebido que a coisa não é bem assim. Então levantariam a seguinte pergunta: “Se não é o discurso
lógico que nos dá a veracidade máxima, qual é o modelo de veracidade maxima que existe?”.
Resposta: aquilo do qual você obteve o testemunho direto. E você pode chegar nesse nível de
excelência de veracidade, sobretudo em situações nas quais você foi a única testemunha, por
exemplo: um homicídio. O assassino fugiu, não vestígio de impressão digital na arma e 20 pessoas
testemunharam que viram o assassino no estado do Mato Grosso no momento do crime. Mas você
estava lá, e sabe o que de fato aconteceu, solitariamente. Existe apenas um modelo de certeza
absoluta: a testemunha solitária. Mais ainda: a testemunha solitária é o que inaugura a presente fase
da nossa civilização, pois foi o Cristo pendurado no alto da cruz. Só Ele sabia o que estava
acontecendo naquele momento. O Cristo no alto da cruz é o modelo de testemunha solitária, assim
como é também o modelo da verdade que foi passado para nós. Então, se a testemunha solitária é o
máximo de veracidade que nós podemos atingir, isto significa que não há garantias externas da
veracidade de coisa alguma. O máximo de objetividade da verdade corresponde com a máxima
dificuldade de prova. E isto faz parte da estrutura do ser humano, do destino do ser humano e não
há escapatória. A busca por uma verdade intersubjetiva que se imponha a todos uniformemente é,
em primeiro lugar, uma falsidade; e, em segundo lugar, é uma covardia. Isto é querer uma garantia
externa de que se está percebendo a verdade, mas isto não existe e nunca existirá.

Isso não é passível de existência porque, em primeiro lugar, toda e qualquer prova externa
é feita com conceitos abstratos. Agora, eu pergunto para vocês: existe verdade abstrata? Existe
apenas em seu sentido lógico. A verdade da realidade não pode ser abstrata. O abstrato é apenas um
corte que fazemos para efeito do nosso pensamento. O abstrato está apenas no pensamento, não está
na realidade. A verdade na realidade só pode ser conhecida por testemunho direto. O enunciado da
verdade na realidade está dado pelo próprio acontecimento que ocorreu na realidade, ou seja, o
mesmo não advém de um pensamento abstrato. A verdade objetiva é a verdade que está na estrutura
da realidade, na ordem efetiva da realidade e não no meu pensamento. O meu pensamento é apenas
um reflexo longinquo e parcial da verdade na realidade, e só tem validade na medida em que o
mesmo possui uma raiz na própria realidade. E é justamente a esta raiz que a meditação busca. A
meditação busca transformar um pensamento abstrato em testemunho real. Este é o único método
que funciona para buscar a verdade. Se você quer apenas uma verdade intersubjetiva que cria uma
verdade para todos, essa verdade será abstrata e referir-se-á somente a pensamentos, ou seja, a
aspectos seletivos da realidade e não a seus entes concretos.

É por isso que entre essas verdades abstratas e as suas exemplificações concretas sempre
existe uma margem de erro. Você verá que toda conclusão científica genérica se refere apenas a
certos aspectos da realidade que foram considerados abstrativamente. Os outros aspectos são
considerados como acidentes, como elementos supervenientes. Mas será que pode acontecer no
mundo algo que se constitua somente da sua essência abstrata, tal como consta na definição? Não. A
presença de acidentes e de elementos supervenientes é o que dá a concreção do fato. É o que dá a
sua substancialidade real. Por exemplo: no Código Penal constam as definições tipológicas dos
crimes possíveis. Existe algum crime que se constitua somente das definições contidas no Código
Penal, sem nenhum elemento superveniente, acidental? O crime precisa acontecer em algum lugar,
sem um lugar definido, não há crime. O Código Penal se refere especificamente a um lugar definido
para que o ato seja considerado um crime? Não. O lugar em que aconteceu o crime é indiferente a
definição genérica. Não pode haver nenhum crime constituído exclusivamente daquilo que está
definido no Código Penal. Precisa-se de milhões de elementos acidentais que o compõe para que o
crime passe a ser uma realidade.

Quando mais a ciência se “aperfeiçoa” e os cientistas cada vez mais nela se especializam,
mais eles acreditam que os elementos tal como são definidos por suas respectivas ciências existem
por si mesmos. Quando a Modernidade consagra o raciocínio lógico-matemático como o topo do
modelo de veracidade e não apenas da credibilidade, como fazia o prudente Aristóteles, criou-se um
mundo que fantasia que foi imposto a todos como se fosse o mundo real.

Nos EUA morrem um milhão de pessoas por ano devido a erros médicos. Não há nenhuma
outra doença que mate tanto quanto os erros médicos. A conclusão a que chegamos é que a
medicina é um negócio muitíssimo perigoso. Isso não quer dizer que se nós suprimíssemos a
profissão médica morreria menos gente. Pois, certamente, a medicina reduziu a mortalidade de
pessoas que estavam ameaçadas por outras coisas que não os erros médicos. E quando nós vamos
investigar as razões desses erros médicos, nós vemos que em suas origens há uma entidade abstrata
que foi considerada como real. Por exemplo: você está se sentindo super bem, mas vai ao médico.
Durante a consulta há a constatação de que você está com a taxa de colesterol considerada alta,
tomando como referência a taxa mediana, considerada saudável para a média da população. Mas
ocorre que você é você e mais ninguém. Então, há tempos que medicina está tratando de um
paciente abstrato. Estatisticamente isto pode dar certo com 60 ou 70%, mas necessariamente irá
falhar nos outros 30%. O médico para poder se tornar realmente um especialista na ciência médica,
precisa ter um senso da experiência altamente desenvolvido. Mas um estudante que sai hoje das
faculdades de medicina não sabe fazer um exame físico, deixando tudo por conta do computador.

Eu vou contar uma história para vocês:

Uma vez eu peguei uma coceira infernal. Não estava conseguindo dormir, me coçava o
tempo todo, já estava penando em estourar os miolos... Passei por vários médicos e nenhum acertou
nos diagnósticos e nas medicações. Daí eu tinha um amigo pediatra, Dr. Paulo, para o qual pedi uma
indicação de médico clínico geral de preferência com mais de 70 anos. E ele me indicou um que
havia sido seu professor, o Dr. Domingos. Quando eu entrei no consultório do Dr. Domingos de
imediato ele disse: “Sai pra lá que você está com sarna!”. Ou seja, os outros médicos, mais novos,
não souberam identificar uma porcaria de uma sarna! O problema é que eles não tinham a prática da
observação direta que só o tempo fornece. Isto significa que uma médicina que era menos científica
e que dependia mais da responsabilidade pessoal da observação do médico funcionava melhor. O
cara só começa a ficar um bom médico após os 60 anos. Quando o médico não tem experiência, ele
substitui a observação direta pelo raciocínio abstrato ou pelos manuais. A experiência é algo que
você possui e domina, mas que é indizível, inexplicável. A experiência é indizível porque não
possui ainda os conceitos devidamente estabilizados para poder ser descrita. Para descrever uma
experiência desse nível o sujeito precisaria ser um monstro de escritor. Mas o cara já é um grande
médico, você ainda quer ele seja Shakespeare? Ele sabe fazer, mas não sabe explicar como é que
faz. Essa é uma cota de experiência pessoal que é intransferível.

Quando você quer se livrar da experiência pessoal e transferí-la para a esfera das medições
objetivas, acontece o que eu expliquei no curso “Conhecimento e Moralidade”: para fazer medições
objetivos é preciso a utilização de aparelhos. Para fazer essas medições, por sua vez, precisa-se de
técnicos. No entanto, que tipo de conhecimento tem esses técnicos acerca desses aparelhos? Eles
têm apenas um conhecimento abstrato ou uma experiência pessoal com o manejo dos aparelhos?
Essa experiência pessoal é instransmissível em palavras. Isto significa que quando chegamos ao
máximo de exatidão científica ainda estamos dependentes do testemunho individual. Por isso que a
ideia do conhecimento está intrinsecamente ligada à ideia da responsabilidade do testemunho
individual. Toda a nossa civilização, que foi a única na qual ocorreu o desenvolvimento do conceito
de ciência e do conhecimento objetivo, foi inaugurada pelo testemunho individual, o Cristo no alto
da cruz. Não adianta você querer fugir da sua responsabilidade pessoal e se escorar numa ciência
impessoal. O portador do conhecimento é o ser humano real e não o livro.

Quanto a essa questão do livro, seria interessante nós abrirmos um parênteses. Após o
advento do mito do progresso do conhecimento houve a confusão da ideia de que o aumento da
quantidade de livros significa a mesma coisa que o aumento dos níveis de conhecimento
civilizacional. Mas o que ocorreu foi apenas um aumento da quantidade de registros, e não do
conhecimento em si mesmo, pois a cada geração um número enorme de leitores têm que dar conta
da leitura de todos esses registros. Isto significa também que diante desse número crescente de
registros de informações, novas técnicas de aquisição dessas informações têm que ser criadas para
que a cada geração haja uma satisfatória absorção do que foi produzido e registrado em
documentos. Quanto a isto o Jean Forastié já disse que “o progresso do conhecimento vem junto
com o progresso da ignorância”. Quanto mais conhecimento registrado, mais ignorante você se
torna.

Daí que surge uma concepção básica não somente deste curso, mas de tudo o que estou
fazendo. Talvez o progresso do conhecimento não consista em aumentar o número de registros, mas
em cultivar pessoas qualificadas para a manipulação dos registros. O problema não é saber o quanto
de conhecimento disponível nós temos, mas, sim, saber o número estimado de pessoas devidamente
qualificadas para a compreensão desses conhecimentos. O conhecimento não é um objeto, não é
uma coisa. O conhecimento existe apenas na cabeça do ser humano e este, por sua vez, só existe sob
uma forma de uma individualidade concreta. Vocês podem conceber algum conhecimento que seja
possuído coletivamente, sem que nenhum dos indivíduos que compõem a coetividade o possua?
“Nós sabemos de tal coisa, mas nenhum de nós sabe”, é possível isto? É algo bem contraditório.
Logo, não pode haver progresso do conhecimento, mas apenas um aumento do número de
conhecedores.

O aumento da quantidade de registros também requer um formidável desenvolvimento de


novas tecnologias, especializadas em lidar com tais registros, como os computadores. Essas
tecnologias facilitam o acesso físico às informações. Mas ao mesmo tempo em que desenvolvemos
novas tecnologias para lidar como o aumento das informações, educamos devidamente um número
proporcional de pessoas que saibam manipular satisfatoriamente essas tecnologias e os
conhecimentos que elas nos permitem ter acesso? Não. Em suma, o progresso da tecnologia não é
acompanhado pelo progresso da qualificação das pessoas para lidar com tais formas de tecnologia.
Quanto maior o progresso da técnica, maior o progresso da ignorância de lidar com tais aparatos
técnicos.

Quando nós lemos os livros de história das ciências em geral tais livros narram apenas a
história das descobertas das teorias que deram certo. No entanto, as teorias que deram errado são em
número formidavelmente maior. E estes fracassos também fazem parte da história das ciências.
Estes erros são causados, mais uma vez, pela confusão ocorrida no começo da Modernidade de
tomar a máxima credibilidade dos discursos pela sua máxima veracidade. Aristóteles sabia que a
coisa não era assim. E tanto sabia que ele mesmo diz que o discurso lógico-analítico não fornece
conhecimento algum, mas apenas formaliza os conhecimentos já possuídos. A busca do
conhecimento deve ocorrer por outros meios, sobretudo pelo meio dialético, o qual nada mais é do
que a confrontação de hipóteses. A metodologia científica atual inteira segue a esse método
dialético de Aristóteles, mas os cientistas acharam mais conveniente mudar o seu nome. Aristóteles
também tinha a ideia de que na maior parte dos assuntos nós não alcançamos o nível de
formalização necessário para fazer uma demonstração lógico-matemática. Então, temos que nos
contentar com menos e, portanto, aceitar a intromissão do elemento da prudência. A prudência nada
mais é do que uma sabedoria que foi adquirida por experiência.

Este exercício da meditação serve para você escapar da falsa certeza das demonstrações
lógicas para a incerteza sapiente e razoável do que você conhece por experiência pessoal. Se você a
cada livro que você ler, valer-se deste exercício da meditação, em primeiro lugar você terá muitas
decepções. Se a cada linha lida, você tentar reproduzir pelo menos imaginariamente o conteúdo da
proposição, você verá que, às vezes, essa reprodução é impossível. No entanto, em várias críticas
que eu tenho apresentado quanto à filósofos modernos como Descartes, Kant, Hobbes e Maquiavel,
eu pus em prática esse exercício de meditação. Eu tentei levar a sério o que eles estavam falando. Se
eles estavam falando algo genérico e abstrato, eu tentava trazer para o mundo do concreto e
experienciável.

Por exemplo: a proposta da dúvida sistemática cartesiana é algo impossível de se fazer. Eu


sei disso porque tentei empreendê-la. Descartes está falando de algo que ele não fez e não poderia
ter feito. Após meditar os textos de Descartes, cheguei à conclusão de que todas as suas narrativas
de especulações filosóficas na verdade eram camuflagens de pensamentos completamente distantes
da filosofia. Descartes enganou-se a si mesmo. É claro que isso é uma decepção para o leitor atento,
porque um filósofo não deveria fazer isso. Em primeiro lugar um filósofo deve aprender a não fazer
este tipo de sacanagem. E este engano, quando acarreta numa falha estrutural de um sistema
filosófico inteiro, pode ser denominado de paralaxe cognitiva. Mas apenas nestes casos. Não é
qualquer errinho que se constitui numa paralaxe cognitiva. Depois que eu coloquei esse termo em
circulação, qualquer errinho que é encontrado em textos as pessoas de imediato acusam o autor de
paralaxe cognitiva. Acusam até o Paulo Ghiraldelli de paralaxe cognitiva! Não, a paralaxe cognitiva
afeta apenas gênios como Descartes e Kant, ou seja, fundadores de sistemas filosóficos inteiros. A
meditação é a vacina contra a paralaxe cognitiva.

Pergunta de um aluno: Quando nós devemos iniciar a prática da meditação?

Prof. Olavo: Eu sugiro que quando você ler um texto, você não o coloque em dúvido desde
o início. Você deve aceitar tudo o que o autor estar propondo, porque se você não aceitar, você não
o levará a sério e não tentará reconhecer as proposições do autor na realidade. Algum nível de
credibilidade deve ser concedido para o autor, sem que você caia no temor de ser enganado pelo
mesmo. Desde a primeira linha você já buscar reproduzir alguma forma de experiência, ainda que
imaginária, correspondente à mesma. Às vezes, não dá. Mas isso ocorre apenas em casos extremos,
como no Wittgestein. Em geral, o descompasso entre o raciocínio abstrato e a experiência concreta
só irá aparecer para mais adiante. Isso aconteceu, por exemplo, em minhas leituras de Kant. Quando
o Kant começa a falar sobre a relação entre sujeito e objeto, ele não leva em consideração que ele
também é um objeto, pois se não o fosse, eu não poderia ler o livro dele. Então, todo o sistema
kantiano está inteiramente errado, porque ele é baseado na ideia de encobrir a metade da realidade e
proibir as pessoas de investigar a metade encoberta. Ocorre que é exatamente neste lado encoberto
que existe um sujeito chamado Kant que escreve livros. Nós só podemos aceitar a filosofia de Kant
se acharmos a mesma foi escrita por Deus. Mas se foi escrita por um sujeito que efetivamente
existiu, que andava pelas ruas e as pessoas o enxergavam, então, as coisas não podem ser tal como
ele as descreve em seus livros. Quando ele diz que nós não podemos conhecer as coisas em si
mesmas, mas apenas no seu aspecto fenomênico, mas pretende que eu conheça a sua filosofia em si
mesma e não apenas no seu aspecto fenomênico, há a prova de que a existencia mesma de seu livro
é um atestado de que ele não sabe o que está dizendo. Eu não posso onde só tenha acesso a
experiências fenomênicas, pois eu mesmo sou um objeto e, portanto, sou também uma aparência
fenomênica. E se eu disser que aquilo que eu conheço de mim mesmo são apenas aparências
fenomênicas, eu nunca vou poder aprofundar tal conhecimento ao ponto de poder julgar os
conhecimentos que tenho dos objetos. Tudo o que eu disser acerca dos objetos será também uma
aparência fenomênica, inclusive a filosofia inteira de Kant. Eu cheguei a esta conclusão não por ter
analisado logicamente a filosofia de Kant, mas por ter tentado realizá-la na minha imaginação.

Quando procedemos deste modo, a fragilidade de filosofias muito importantes aparece


diante de nós de uma maneira absolutamente escandalosa. Toda a glória da Modernidade está
inteiramente ligada aos desenvolvimentos da tecnologia, pois do ponto de vista intelectual maior foi
uma desgraça. O QI dos filósofos e cientistas baixou, mas o dos engenheiros subiu bastante. Por
isso que há a criação de equipamentos cada vez mais maravilhosos para serem manipulados por
pessoas cada vez mais idiotas. Você deve simplesmente recuar desde o que o sujeito será falando,
até uma experiência, que pode ser imaginária, mas de preferência, não. O recomendável seria uma
experiência que está guardada em sua memória. A sua reminiscência deve ser um sonho acordado
dirigido. Quando você assiste a uma peça de teatro ou a um filme, ocorre um sequenciamento de
imagens que deve evocar em você certas emoções que estão guardadas em sua memória
analogamente. Nas obras de ficção esse apelo à memória afetiva é quase automático. Você deve
fazer a mesma coisa com obras de ciência e filosofia. Você irá lê-las como se fossem obras de
ficção, como se fossem pautas que o autor criou para guiar a sua imaginação e memória.

Isso é um teste muito mais temível do que qualquer análise lógica que você faça dos textos.
Pois na análise lógico o máximo que você poderá encontrar são contradições lógicas, mas
contradições lógicas não significam grande coisa. Um autor pode cometer contradições lógicas
horríveis e continuar a dizer a verdade. Ele simplesmente na hora de se expressar, ele se equivocou
ou se atrapalhou. Também pode ser que a contradição lógica expresse um contradição real, isto é,
aspectos contraditórios de uma realidade que o autor percebeu e que não conseguiu reduzir a uma
unidade lógica. Ficar buscando contradições lógicas é coisa de gente desocupada. Eu não estou me
referindo a contradições lógicas, mas à busca pela substância real daquilo que o autor escreveu. Às
vezes, você verá que é impossível encontrar tal substância porque tal substância não existe. O autor
estar especulando num nível no qual é possível somente a combinação lógico-verbal. Quando nos
deparamos com um filósofo realmente grande, como Aristóteles ou Leibnitz, nunca ocorre este tipo
de confusão, pois os mesmos sempre sabem do que estão falando. E quando não sabem, sabem que
não sabem, ou seja, sabem que a especulação é apenas de ordem lógica. Por outro lado, quando
lemos um Nietzsche, por exemplo, nos escritos em que ele explica tudo pelo ressentimento, que
todo mundo é um bando de complexado, que estão mentindo para esconder as suas fraquezas e etc,
ao final devemos lhe perguntar: “Agora nos diga quais são as suas fraquezas e o que você está
querendo esconder?”. Dessas coisas ele não fala, ao contrário, escreve um livro para tentar mostrar
a razão dele ser um filósofo tão genial, um genial escritor etc. Quando vamos investigar a sua
biografia, nos deparamos com um pobretão, neurossifilítico, sem amigos, o que nos leva a concluir
a entender a raiz da sua necessidade de compensação de suas misérias mediante os seus escritos. O
que ele escreve acerca do ressentimento teria uma validade maior se houvesse esse componente
confessional. Como não há esse componente a obra de Nietzsche adquire feições tragicômicas.

No fim das contas, esses autores que não exercitaram a meditação não acreditam realmente
no que estão dizendo, mas se reportaram para um estado imaginário, no qual há um recorte da
realidade, contemplam este recorte como se fosse uma tela e escrevem o que percebem do recorte
como se fosse verdade. Mas isso é como se você estivesse no cinema acreditando tudo no que se
passa no filme e esqueceu que você está num cinema, que pagou a entrada e que ao final retornará
para casa. Há uma espécie de alucinação visual.

Pergunta de um aluno: O Maquiavel entra nessa categoria?

Prof. Olavo: O Maquiavel é um exemplo extremo dessa categoria.

Pergunta de um aluno: Essa falsificação das percepções da realidade que o senhor está se
referindo durante a aula tem algo a ver com o estilo literário adotado pelo autor?

Prof. Olavo: O estilo e cacoetes da linguagem acadêmica facilitam muito a essa


falsificação. É praticamente a um convite à falsificação. Claro que mesmo sendo convidado você
recusar e continuar fiel à sua experiência real, assim como o fez o Eric Voegelin. O essencial do
método analítico do Voegelin é colocado em seu livro autobiográfico, “Anamnesis”. Ele sonda as
suas fantasias de infância e faz um apelo ao testemunho análogo e solitário do leitor. A linguagem
que o Voegelin usa não é a de um escritor, mas sim de um acadêmico, mesmo quando está se
referindo a estas experiências autobiográficas. No entanto, ele não aceita o convite da falseabilidade
do discurso acadêmica, ao contrário, o Voegelin sempre sabe quem ele é, onde está e o que está
falando. O Voegelin não se deixa hipnotizar pelos conceitos que ele mesmo criou. O Voegelin está
sempre consciente de que toda a busca filosófica é um empreendimento de tentativas permanentes,
de que não é um sistema fechado. A geração seguinte tem o dever de levar esse empreendimento
para adiante. Quando Santo Tomás de Aquino diz que “a Verdade é filha do tempo” é a isto que ele
está se referindo. Isto significa que tudo o que ele estava dizendo não era uma forma pronta e
acabada, pois haviam outros aspectos que não foram devidamente investigados. E quando Santo
Tomás tem aquela revelação final, diante da qual ele disse que tudo o que havia escrito
anteriormente não valia nada, isto não quer dizer que não valesse de fato, mas que diante de tudo o
que ele acabou de saber e que não poderia dizer, a partir de então as suas especulações anteriores
adquiriam um valor menor.

De certo modo esta é a maravilha humana diante da Infinitude da Verdade. A expressão da


falibilidade humana e da incompletude do conhecimento humano pode ser vista sob o seguinte
aspecto: o da tristeza e decepção. Isto ocorre porque de início nós temos uma expectativa muito alta
acerca de nós mesmos. Nós sempre achamos que iremos conseguir um conhecimento universal e
absoluto de tudo quanto existe, e ao final conseguimos apenas um conhecimento relativo e parcial
acerca de alguma coisinha minúscula. Nós devemos cultivar em nós uma expectativa modesta,
porque a falibilidade e a parcialidade dos conhecimentos humanos é uma expressão da Infinitude da
Verdade, da riqueza Infinita da Verdade. Isto já é suficente para nos deixar maravilhados, pois
tomamos consciência que a cada conhecimento adquirido há muitos outros nos aguardando para
serem descobertos. Às vezes, eu imagino o Paraíso como uma enorme biblioteca repleta de livros
que Deus escreveu, e a cada coisa não compreendida por mim, Ele faria a gentileza de me explicar.
E isto seria um processo inacabável, pois eu caminharia de Verdade em Verdade e não em tentativas
e erros como ocorre aqui. Evidentemente que nós não alcançamos isto nesta vida porque seria algo
incompatível com uma existência mortal. O que adianta um conhecimento Infinito para um cara de
existência finita? Nós temos um conhecimento finito aqui para depois ter um conhecimento Infinito.
Então não deve haver razões para a pressa.

Pergunta de um aluno: Os conhecimentos ofertado a nós por Deus é uma sabedoria


infusa?

Prof. Olavo: Não, isto é uma ignorância infusa. Sabedoria infusa é quando você não sabe
de algo, mas acorda sabendo porque Deus colocou a resposta na sua cabeça. Mas isso não quer
dizer que sempre seja uma sabedoria infusa, pois às vezes pode ser uma informação infusa.
Sabedoria infusa é quando Ele dá um monte de coisas de uma vez e aquilo toma uma forma de
revelação pessoal, tal como teve São Paulo. São Paulo ficou três dias cegos e quando recuperou a
visão estava entendendo um monte de coisa que não entendia antes. Eu já tive informações infusas:
coisas que eu queria saber, rezava e acabava sabendo. Mas são apenas informaçãozinhas e não uma
sabedoria. Isso todos nós temos o direito de adquirir. Se Deus pode operar curas milagrosas e
modificar situações catastróficas, então por que Ele não pode te dar uma informação, ó raios!? Se
você não está entendendo algo reze para Deus te fazer entender.
Intervenção de um aluno: Eu li no Guénon ou no Schuon que se você conhecer todos os
princípios metafíscos você pode atingir essa condição de sabedoria...

Prof. Olavo: Mas de jeito nenhum! Você pode conhecer todos os princípios metafísicos,
mas isso não te impede de errar diante de uma questão concreta. Uma vez numa discussão com um
grupo de guenonianos eu disse que o Guénon sabia todos os princípios metafísicos, sabia inclusive a
data do fim do mundo, mas no livro “Oriente Ocidente” de 1924, ele escreve o seguinte: “A China
jamais será bolchevique”. Ele conhece todos os princípios metafísicos mas não sabe o que está
acontecendo na China. O Guénon errou porque acreditava ser possível deduzir os acontecimentos
históricos dos princípios metafísicos. Mas isto é impossível! O Guénon acreditava cegamente na
doutrina dos ciclos cósmicos hindu e suprimia a criatividade divina. Às vezes, Deus pode querer
que as coisas sejam diferentes. Isso era um aspecto no qual o fabuloso René Guénon era um caipira,
mas todos nos podemos cometer vexames. Quando eu falei isso os guenonianos ficaram loucos,
furiosos! Mas eu sou um grande admirador e aprendi muita coisa com o Réné Guénon, e acho que
no essencial ele tinha razão. Aquele núcleo de doutrinas metafísicas que está presente em todas as
religiões existe mesmo. Contudo, são apenas doutrinas metafísicas, isto é, a estrutura geral da
realidade e, portanto, os elementos fixos e imutáveis da realidade universal. Os elementos mutáveis
e uma série de outros elementos não estão inclusos nessas doutrinas. O núcleo de doutrinas
metafísicas que está presente em todas as religiões é o mesmo porque estas últimas situam-se no
mesmo mundo, sabem que estão no mesmo mundo e estão falando de uma coisa real. Essa questão
pode ser exemplificada por dois exércitos que estão no mesmo campo de batalha e que coincidem
apenas neste ponto.

A conclusão que eu tirei de todos os meus estudos de religiões comparadas é que as


religiões são incomparáveis porque nunca estão falando da mesma coisa. Elas não oferecerem
modalidades distintas para a mesma coisa. O caminho de salvação, por exemplo, só ofertado pelo
cristianismo, as demais religiões oferecem uma outra coisa. As religiões são núcleos de civilizações
que se compõem não somente de doutrinas explícitas, mas do conjunto do entendimento que se teve
dessas doutrinas ao no interior dessas civilizações. Como é que se compara um treco desses?

Intervenção de um aluno: (Inaudível, mas creio que em relação ao papel de Cristo na


História)

Prof. Olavo: Ele diz que o Antigo Testamento não existiria sem Ele. Ele veio cumprir um
papel essencial, eliminando uma porção de detalhes. Ou seja, no fundo toda aquela parafernalha da
lei queria significar a vinda do Cristo. O cristianismo cumpre a lei na medida em que a supera e a
transcende. Mas a lei e nem o judaísmo foram abolidos. No Apocalipse há a menção de que os
judeus trarão a salvação da lavoura, por assim dizer, no fim dos tempos.
Pergunta de um aluno: Já que o senhor recomenda que nós devemos seguir as etapas da
teoria dos quatro discursos, o estudo das religiões poderia entrar em alguma delas?

Prof. Olavo: Poderia, mas eu não recomendo tais estudos logo de início. Você entra em
estudos de religião após ter uma bela formação de filosofia e história. As pessoas entram em estudos
de religião porque estão querendo encontrar alguma para si mesmos.

Pergunta de um aluno: (Inaudível)

Prof. Olavo: Mas como é que se educa uma criança? Isso para mim é um enigma. Se você
começou por querer a educar uma criança, você já começou a fazer besteira, pois você está
querendo moldar a criança de acordo com uma imagem que só existe na sua cabeça. O verdadeiro
modelo não pode ser uma pessoa abstrata, mas uma pessoa real. A verdadeira educação é aquela que
está sendo passada para a criança 24h por dia e não aquela que é passada nos momentos específicos
nos quais você está tentando educá-la. Nós estamos “educando” uma criança quando nós não
sabemos que estamos educando. É isso que ela vai pegar, e não aquilo que você tentou passar para
ele em determinados momentos de educação. A ilusão de estar educando a criança pode ter efeitos
desastrosos. Porque isso sempre será na base do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.
Para educar uma criança você deve tentar agir com ela da melhor maneira possível e passar a
seguinte mensagem: “faça exatamente o que eu faço”. Quanto menos você interferir
conscientemente e quanto mais se deixar levar simplesmente pelo amor que tem à criança, mais
você irá acertar. Você não foi colocado no lugar de pai para educá-la. Em primeiro lugar você
deverá prover todas as suas necessidades e protegê-la. A educação entra como uma espécie de
proteção; proteção quanto a certos males e perigos. Se fizer isto você já está educando. Vários filhos
meus demonstraram um senso de proteção com as crianças menores que era algo maravilhoso. Eles
pegaram isto de mim. Eu fazia isto com eles e, ao final, eles chegaram à conclusão de que deviam
fazer a mesma coisa. Eu acho que o amor paterno tem uma força em cima das crianças que é uma
coisa avassaladora, melhor do que qualquer educação específica que você queira passar para elas.
Eu não estou fornecendo uma fórmula, mas estou fornecendo apenas uma experiência pessoal. E eu
vejo que casais que tentam formar os seus filhos de um modo específico, às vezes criam uma
deformidade humana terrível.

Mas eu também reconheço que na formação intelectual das minhas crianças sempre fui
deficiente. Eu ensinei pouco para elas porque eu não sabia ensinar a crianças. O meu mérito foi em
saber formar uma atmosfera onde a criança se sentisse amada, protegida e compreendida, a qual
lhes deu uma base emocional para aprendizados individuais futuros. E deu certo. Eu jamais saberia
transformar um filho meu em gênio. Se o garoto tiver vocação para isso, ele irá fazer sozinho, assim
como o Gugu fez. O Gugu estudou dez vezes mais do que eu porque ele quis. Outros filhos meus
não estudaram coisa nenhuma. Contudo, eu fiz o melhor que podia fazer dentro das condições que
eu tinha. Condições internas, isto é, nos limites da minha capacidade, e não condições materiais
externas. Eu ainda não sei educar uma criança, mas se ela viver comigo se tornará uma criança
saudável e feliz.

Por outro lado, eu sei educar jovens e adultos para a vida intelectual. Neste ponto eu tenho
maiores pretensões, isto é, pretendo que vocês no futuro realizem obras importantes no plano da alta
cultura. Às vezes a sua inteligência empaca em algo e não vale a pena forçá-la. Mas no que você
sabe, você sabe, e tem o direito de adquirir segurança em seus conhecimentos. Analisar situações
culturais e dramas sociais eu faço desde os meus 12 anos de idade. Isto, então, eu sei fazer. Mas do
mesmo modo que existe inteligência especializada, existe também burrice especializada. Existem
certas coisas nas quais você empaca. É por isso que eu sou contra a programas educacionais, nos
quais há um número x de matérias e você deve aprender todas. Às vezes é impossível aprender
todas as matérias. E eu também não sei a razão de ensinar tantas matérias para as crianças se ao
final elas esquecerão de tudo. De tudo o que me ensinaram na escola secundária eu só lembro do
latim porque eu queria aprendê-lo. O latim faz milagres com a sua inteligência. A questão das
declinações, das conjugações verbais e outras coisas é uma estruturação de um mundo. O latim é a
língua de uma civilização, assim como foi o grego nos primeiros séculos da Era cristã. Em todo o
Novo Testamento há uma atitude de simpatia para com Roma, sobretudo nas epístolas de São Paulo.
O latim é uma linda língua. Não há outra que tenha a solenidade e grandiosidade do latim. As obras
filosóficas mais sutis, como as de Santo Tomás de Aquino e Duns Scot, foram escritas em latim.
Não poderiam ter sido escritas em outra língua.

O essencial na educação de crianças é você ensiná-la a amar pai e mãe. Você deve ser bom
com a criança, fazer com ela o que gostaria que fizessem com você. Esse é o segundo mandamento.
Até os 5 anos de idade a criança não deve receber nenhuma bronca. Você sempre deve se dirigir
docemente para ela. O ego começa a se formar a partir dos 5 anos de idade. Não adianta dar uma
bronca numa criança que ainda não tem um ego devidamente bem estruturado. No Brasil o que as
crianças chamam de educação é simplesmente moldar as crianças para que elas não os pertubem.
Eis o mandamento número um da educação brasileira: “Não me encha o saco!”. Esse é, portanto, o
pecado número 1 no Brasil: “Encher o saco de seu pai e sua mãe”. É uma educação completamente
subjetiva, que não segue a nenhum critério de mandamento divino ou verdade universal, mas apenas
a disposição do seu fígado no momento. Eu acho que é uma boa coisa você aprender a refrear-se
nos momentos em que a criança está apenas lhe incomodando, mas sem estar fazendo nada
intrinsecamente errado. Você pode pedir para ela parar, mas sem dar nenhuma bronca.

Mas o importante desta aula é vocês aprenderem o significa da meditação e relação entre
leitura e meditação. Grande parte da educação “universitária” é levar o aluno a falar igual a seus
professores e aos autores lidos. Isto é exatamente o que você não deve aprender. Para aprender a
falar você valer-se dos grandes escritores e não dos filósofos. A finalidade de uma obra de filosofia
não é literária, mas uma referência ao mundo real. Então você deve procurar o mundo real numa
leitura de uma obra de filosofia. Dificilmente você encontrará um filósofo que fala do mesmo modo
que o seu meio filosófico. Isso esporadicamente ocorre quando há um ensino universitário de
altíssima qualidade onde há um diálogo entre profissionais do mesmo nível. Na universidade
medieval e no Romantismo alemão ocorre isso. Nesses condições há a presença de uma linguagem
comum entre todos os filósofos. Mas normalmente o filósofo quando tem algo sério para dizer, ele
precisa inventar uma linguagem séria para expressá-lo.

Por vezes essa linguagem inventada pode soar muito esquisita para os seus colegas, como
ocorreu com o Eric Voegelin. O Voegelin cria todo um vocabulário próprio, no qual nenhum dos
termos possui de imediato algum significado dicionarizado. O Bernard Lonergan procede do
mesmo modo. Você imitar a linguagem do seu meio acadêmico mais próximo em filosofia é você se
nivelar a uma comunidade que frequentemente não merece isso. O Lonergan faz alta filosofia numa
linguagem de professor primário. Ele vai desdobrando as suas ideias até os mínimos detalhes, de
modo que até um jumento pode entender. Ele leva cem páginas para dizer algo simples porque
deseja que o leitor entenda tudo e não perca nenhum pedacinho. Isso é um estilo pessoal. Quando
nós lemos Xavier Zubiri, vemos que ele tem um vocabulário altissimamente carregado e que supõe
que você conheça todo o vocabulário escolástico e mais alguma coisa que ele inventou. Mas o
Zubiri realmente domina o seu estilo, ele sabe do que está falando.

São por estas razões que a formação literária é muito importante no início da auto-
educação. A literatura é arte de manter a linguagem próxima da experiência. Como diria o Saul
Bellow, “a função dos escritores é transmitir a experiência autêntica”. Ao passo que os intelectuais,
para o Bellow, lidam com ideias e ideologias, mas os escritores lidam com a experiência autêntica.
Contudo, as coisas que estão na esfera das ideias e ideologias só adquirem valor real se possuirem
raiz na experiência autêntica. Muitos filósofos caem em erros monstruosos porque não dominam a
linguagem da expressão da experiência. Assim, na raiz há uma experiência muda, confusa e tosca,
sobreposta por uma elegante elaboração lógica que não tem nada a ver com tal experiência, porque
simplesmente não há uma ponte entre uma coisa e outra. Sem a devida formação literária não há
como fazer nada de valor. A formação literária é mais importante do que qualquer outra coisa. Você
dedicar anos da sua vida para ler as grandes obras da literatura e do teatro é a melhor coisa que pode
te acontecer. Mesmo que depois você se interesse por estudar uma disciplina completamente
diferente.
Pergunta de um aluno: Existe alguma história dos estudos literários, da gramática...?

Prof. Olavo: Existe a História da Filologia Clássica do Wilamowitz-Moellendorff. De


história de estudos literários existe um monte de livros. Eu recomendo o História da Crítica
Moderna do René Welleck. Mas antes seria bom você ler o livro Teoria da Literatura do mesmo
autor em dupla com o Austin Warren. O História da Crítica Moderna é uma espécie de continuação
deste último. O História da Crítica Moderna é uma obra em quatro volumes e após você se inteirar
de seu conteúdo, você deve procurar ler ao menos os críticos fundamentais: como o dr. Samuel
Johnson, Matthew Arnold e Remy de Gourmont. A leitura destes críticos nunca irá te fazer mal.

Pergunta de um aluno: Foi o senhor que chegou ao conceito de acidente colocado no


início da aula?

Prof. Olavo: Eu não li o conceito em lugar algum, mas o mesmo está implícito nas grandes
filosofias. Assim como a teoria dos quatro discursos que foi descoberta por Aristóteles, mas não foi
expressa com todas as letras. O Heidegger diz que o valor das grandes filosofias reside naquilo que
elas não disseram e que nos chega de forma implícita. Em filosofia a originalidade não importa. A
originalidade importa apenas para carreiras acadêmicas. Estã noção do acidente como
metafisicamente necessário eu não vi em parte alguma, mas toda a filosofia de Aristóteles transpira
isto. Nas grandes filosofias clássicas há um tesouro de verdades implícitas que só podem ser
captados mediante a meditação. Quanto mais você se ater ao texto, mais você buscará um nível de
perfeição que não existe, pois o texto estará repleto de ambiguidades. Você também se afastará do
principal do texto: o objeto real do qual ele trata. Aristóteles nunca estava interessado na filosofia de
Aristóteles, mas sempre em alguma coisa, como o comportamento dos animais, o mecanismo dos
sonhos e a estrutura do Estado. Nós devemos sempre estar de olho no objeto do qual o texto está
falando, jamais no texto em si mesmo. As grandes filosofias são como os óculos que nós colocamos
com a finalidade de enxergar melhor o mundo. Ninguém põe os óculos para ficar enxergando a
lente, pois, se assim o faz, é porque que a lente está suja. Para nós olharmos para o objeto, nós
devemos olhar para aspectos dele que não estão explicitados no texto. São aspectos que não foram
nomeados pelo autor, mas que se encontram implícitos nos textos. Nós devemos ir muito além do
texto em si. Claro que neste ponto emerge uma tensão entre a fidelidade ao texto e a realidade do
objeto. As duas coisas nunca estão perfeitamente de acordo. Mas neste ponto você deve decidir o
que de fato você deseja com a filosofia: você está apenas interessado em fazer uma história da
filosofia e, portanto, se ater fielmente aos textos e suas respectivas doutrinas ou está interessado em
um dado objeto e apenas utiliza-se das filosofias para que elas te auxiliem a enxergar melhor tal
objeto. Por vezes Santo Tomás de Aquino está se baseando em Aristóteles, mas ele é infiel a
Aristóteles porque ele não está interessado na filosofia de Aristóteles, mas num dado objeto.
Quando o nosso interesse é no objeto nós não temos nenhuma obrigação de nos atermos
estritamente ao texto. Se nós formos nos ater ao texto, nós saberemos somente dos objetos
mencionados o que está dito no texto.

Chega um momento que você deve se perguntar: “Eu quero fazer algo que seja
academicamente respeitável, isto é, que agrade aos meus professores e os chefes de departamento
ou eu quero fazer algo que seja útil para a cultura brasileira?”. Até certo ponto dar para conciliar as
duas coisas, mas em um dado momento ocorrerá uma ruptura. A melhor coisa é você ter nascido
rico e não precisar em emprego universitário algum. Assim foi o caso do Mário Ferreira dos Santos,
que era dono de quatro cinemas, vivia da arrecadação desses cinemas e não precisava dar
satisfações para ninguém. Se isso não aconteceu com você, então você terá que fazer algum arranjo,
ou, como se diz naquele ditado popular, “comer mortadela e arrotar peru”, isto é, estará pobre mas
de cabeça erguida.

O salário de professor universitário no Brasil não é tão invejável. O melhor que você pode
fazer, se você se formou em Direito, por exemplo, é abrir um escritório e ganhar um montão de
dinheiro. A profissão de professor universitário também não tem muitoprestígio no Brasil. Aqui nos
EUA tem um pouco mais. Mas mesmo aqui pesquisas mostram que um diploma universitário não
dá acesso a niveis de vida superior. Aqui está cheio de engenheiro trabalhando de frentista de posto
de gasolina. Quando isso começa a acontecer é porque o diploma universitário é apenas um símbolo
de ascensão social de uma outra época. O diploma universitário já é uma superstição, é algo que
você ainda acredita mas que não funciona. A questão das cotas raciais para a universidade é
estelionato. É fornecer papel pintado e enganar os coitados. A educação no Brasil é um instrumento
de bloqueio da ascensão social. O diploma não dá acesso a ascensão social, mas a falta dele pode
atrapalhar.

Pergunta de um aluno: Gostaria de saber se há alguma técnica de assimilação dos


conteúdos estudados?

Prof. Olavo: A meditação é em si mesma uma técnica de assimilação também. Se você não
meditou, você não assimilou realmente. E se você meditou, você não precisa fazer nenhum esforço
de memória para lembrar do que foi lido porque aquilo já está arraigado na sua experiência
profunda. Se você leu e meditou 20 linhas de René Descartes, estas 20 linhas passam a fazer parte
da sua vida, não são algo que estão simplesmente armazenadas na sua memória. Você não precisa
fazer esforço para lembrar disso, assim como não precisa fazer esforço para se lembrar da sua
primeira namorada. Quando os conteúdos passam a fazer parte da sua experiência acabou o
problema da memória. Eu recomendo que o esforço de memorização deve ser feito com as grandes
obras de literatura e não com obras de filosofia ou ciências sociais. Uma obra literária possui muitos
níveis de significados que permanecerão inesgotáveis para você. Você deve adquirir, mediante a
leitura e memorização das obras literárias, uma série de formas que servem para iluminar distintas
situações.

Esse problema da assimilação não existe na medida em que você transforma os conteúdos
do seu aprendizado em experiência pessoal profunda. Você deve fazer com que nada do que você
leia lhe seja algo estranho. Esses dias eu estava lendo o livro “História Proibida da França” de um
professor de história que analisa o estado desastroso do ensino de história da França. Essas
mudanças desastrosas foram introduzidas por mentes iluminadas que diziam o seguinte: “O ensino
da disciplina tem que estar no nível da pesquisa científica tal como está se desenvolvendo naquele
momento”. Eu ouvi essas história pela primeira vez ainda quando trabalhava numa revista chamada
“Sala de Aula” em 86/87. Eu, no fundo da minha ignorância, disse: “Mas isso não dá para fazer”.
Primeiro porque a pesquisa é do dia e não resistirá aos próximos 10 anos. O que deve ser feito é
transmitir um legado comum do qual uma parte pode ser impugnada pela pesquisa cintifica. O
ensino da história não deve seguir os últimos cânones da pesquisa, mas um legado comum que deve
ser incorporado na cultura em geral podendo depois ser aperfeiçoado por algumas pesquisas.

Essa ideia de que o importa não é ensinar a narrativa histórica no todo, mas apenas as
pesquisas que os estudiosos estão desenvolvendo, cria o seguinte problema: ensinar, por exemplo, a
um garoto de 8/10 anos de idade como é que se faz pesquisas de artigos ou fontes primárias, sem ele
possuir a devida experiência humana para avaliar a credibilidade de tais documentos é um grande
erro. O segundo problema refere-se a impossibilidade de ensinar com documentos de fonte primária
a história inteira. Peguemos, por exemplo, o livro do Will Durant sobre história universal que tem
11 volumes. Os documentos de fonte primária que existem para sustentar a obra do Durante devem
preecher cerca de 11 mil volumes. Como não dá para ensinar tudo isso, ensina-se apenas alguns
pedaços. Como consequência disso há o sumiço da cronologia. No momento em que há a
eliminação da cronologia, há também a eliminação de uma linguagem comum do debate cultural.
Isso faz com que haja o desenvolvimento de mentes individuais fora patrimônio narrativo comum,
forçando-as a se limitarem ao patrimônio da sua comunidade mais imediata, seja esta de ordem
etnica, política etc. Isso é a criação da barbárie completa.

Foi uma coincidência eu ter lido isso no momento em que estava dando para vocês a aula
sobre a importância da aquisição de uma cronologia inteira como base da auto-educação. Vocês
neste curso estão adquirindo um instrumento que simultaneamente está sendo excluído da educação
geral. Em todos os alunos do Seminário de Filosofia irá haver um senso de patrimônio e de
linguagem comum. Cada um vai saber exatamente do que os outros estão falando, criando assim a
possibilidade do diálogo cultural. O diálogo cultural brasileiro, sob esta perspectiva, já começou.
Imaginem quando vocês começarem a publicar livros e ocupar espaço no mundo editorial. Vocês
irão fazer um bem danado para todo mundo. A possibilidade da restauração intelectual do Brasil já
está acontecendo, não publicamente, mas está.