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DIRETOR GERAL: ALFREDO NASTARI
DIRETORA ADJUNTA: ANA CLAUDIA FERRARI
EDITORA EXECUTIVA: BETH KLOCK
ESPECIAL TRÉGUA DOS SEXOS
REDAÇÃO MENTE&CÉREBRO
redacaomec@duettoeditorial.com.br
EDITORA: Gláucia Leal
EDITORA-ASSISTENTE: Luciana Christante
Tão
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diferentes,
REVISÃO: Edna Adorno (coordenação),
Alencar G. Castro, Antonio Mello, Lara Milani, Laura Rocha,
Luiz Roberto Malta e Marcia A. Batista
DIRETORA DE ARTE: Simone Oliveira Vieira
TAOIGUAIS
ASSISTENTE DE ARTE: Marcella Sholl
EDITORA DE ARTE: Monique Bruno Elias
ASSISTENTE DE ARTE: Tatiane Santos de Oliveira
PESQUISA ICONOGRÁFICA: Silvia Nastari (coordenação),
Sara Alencar e Thaisi Lima
E les se localizam no espaço sem grandes esforços, se destacam na
elaboração de sistemas que exigem precisão e lhes parece fácil
tanto elaborar quanto compreender mapas. Elas são mais hábeis
GERENTE DE PRO_DUÇÃO GRÁFICA: Ana Martinez
PRODUTORA GRAFICA: Sylvia Ferreira para memorizar palavras, discriminam melhor os fonemas, prestam
TRATAMENTO DE IMAGEM: Carina Vieira e Cintia Zardo
atenção aos detalhes e se saem muito bem em tarefas que exigem
coordenação motora fina. Elas conversam sobre seus senti mentos e
fazem confidências sem grandes d ificuldades. Eles preferem falar
de temas concretos e se sentem perdidos quando são convocados a
discutir o relacionamento. Em situações profissionais eles são diretos,
Mente&Cérebro é uma publicação da Ediouro, valorizam a execução de tarefas e a obtenção de resultados. O estilo
Segmento-Duetto Editorial Ltda., com conteúdo feminino de gerenciame nto é voltado para a consulta e a inclusão
internacional fornecido pela G&G, sob licença de
Sclentific American, Inc. -afinal, quando se trata de empatia é difícil que um representante do
Rua Cunha Gago, 412 - cj. 33- Pinheiros- São Paulo, SP
CEP: 05421 -001 - Tel.: (11) 6013-8100 outro sexo possa superá-las. Mesmo as estratégias de dominação são
Fax: (11) 3039-5674
d iversas: e nquanto eles utilizam a autoridade e, em algu ns casos, até
Duetlo
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a agressão física, elas recorrem às habilidades verbais e, em algumas
situações, apelam para intrigas e manipulações.
COM ITÊ EXECUTIVO
Jorge Carneiro, Edimilson Cardial, As diferenças entre homens e mulheres são gritantes: revelam-se
Luiz Fernando Pedroso e Alfredo Nastari
na maneira de olhar a si próprio, os outros e o ambiente, de pensar, de
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DIRETORA COMERCIAL: Cibele Tommasini aprender, de compreender e resolver problemas e, muitas vezes, até
EXECUTIVOS DE CONTAS: Celeste Viveiros, Edgar Ghorayeb, mesmo de sentir e desejar. As diferenças- embora em alguns aspectos
Elisa Abdulack e Rogério Lapoian
(publicidademec@duettoeditorial.com.br) pareçam diluídas- inegavelme nte apó iam-se em aspectos neuroquí-
CIRCULAÇÃO E MARKETING micos, anatômicos, psíquicos, culturais e evolutivos. H á poucos d ias,
GERENTE DE MARKETING: Ana Kekligian
SUPERVISORA: Simone Carvalho de Araújo enquanto preparávamos esta edição especial de Mente&Cérebro,
GERENTE DE ASSINATURAS: David Casas
OPERAÇÕES DE ASSINATURAS: Patrícia Blacconaro um colega perguntou: "Se as diferenças são tantas, como homens
MARKETING DIRETO E INTERNET: Daniela de Oliveira e mulheres podem se aproximar e conviver juntos, há tanto tempo?
VENDAS PESSOAIS: Helena Ezequiel
EVENTOS: Daniela Lago Não parece um contra-senso?".
VENDAS AVULSAS: Carla Lemes (supervisara)
Hoje partilho com os leitores a resposta que naquele dia calei:
NÚCLEO MULTIMÍDIA
GERENTE: Mariana Monné não se trata de contra-senso. Afi nal, o que nos faz sujeitos de nossa
REDATORA: Sabrina Wenzel
WEB DESIGNER: Anahi Modeneis própria vida, do inconsciente, de nosso corpo e de nossa história é,
FINANÇAS E GESTÃO antes mesmo da identificação e do desejo de nos sentirmos iguais
DIRETORA: Mônica Gomes
SUPERVISORA DE TESOURARIA: Alessandra Silva
a alguém, a constatação da inevitável d iferença. E não apenas entre
CENTRAL DE ATENDIMENTO AO ASSINANTE
homens e mulheres. Mas quando nos voltamos para a questão dos
BRASIL: (11) 303B-6300 gêneros a diversidade salta aos o lhos e, com ela, a impossibilidade de
(atendimento@duettoeditorial.com.br)
NOVAS ASSINATURAS nos refug iarmos em uma semelhança tal que nos proteja da solidão.
(querpassinar@duettoeditorial.com.br)
EDIÇOES AVULSAS E ESPECIAIS: As neurociê ncias, a psicologia e a psicanálise atestam: são infi nitos
(edicoesavulsas@duettoeditorial.com.br) os pontos de convergência entre ho mens e mulheres - e tam bém os
Edição Especial n• 10, ISSN 1807-1562. Distribuição com
exclusividade para todo o BRASIL: DINAP S.A. Rua Dr.
de divergência. Mas isso não deve ser motivo de preocupação e sim
Kenkiti Shimomoto, 1678. Números avulsos podem ser de estímulo à curiosidade e ao exercício da tolerância. Parafraseando
solicitados ao jornaleiro, à cent ral de atendimento ao leitor
- (11) 3038-6300 - ou pelo site www.lojaduetto.com.br ao os franceses, "Vive la différence"!
preço da última edição acrescido dos custos de postagem.
Boa leitu ra!
IMPRESSÃO: EDIOURO GRÁFICA
G láu cia Leal, editora
DIRETOR RESPONSÁVEL: Alfredo Nastari
g la Heia /ea /@d ttettoedi to ria I. com. b r
SUMÁRIO
6 O poder dos hormônios 56 Meninos e meninas
D OREEN K IMU RA DAVID D OBBS
Padrões de comportamento e de repertório cognitivo Segundo psicóloga de Harvard, no início da vida
refletem influências endócrinas na química cerebral o papel dos hormônios é maior que o da cultura

14 Coisas de mulher 62 Na sala de aula


SIMON BARON-COHEN LAURA BATTAGLIA P IRES
Preocupação com os sentimentos dos outros torna o C AVALCANTI
funcionamento psíquico feminino mais sutil e elaborado Diferenças de desempenho
escolar parecem refletir
22 Engrenagens do cérebro masculino projeções subjetivas e sociais
SIMON BARON-COHEN
O cérebro dos homens organiza os pensamentos 68 Quem mente mais?
como se fossem sistemas geométricos U LRICH KRAFT
Faltar com a verdade pode ser
28 Orgasmo: dez segundos de êxtase sinal de competência social
) ONATHAM MARGOLIS
O jorro de serotonina que acompanha o ápice sexual 72 A dança do ciúme
é a droga mais popular do planeta CHRISTINE R . H ARRIS
Para evolucionistas, "módulo inato"
36 Entre iguais processa emoção de forma variada nos
SUZANA H ERCULANO- H OUZEL homens e nas mulheres
Mecanismos neurais próprios do desenvolvimento
determinam as bases biológicas da sexualidade 78 Intrigas e agressões
G ERHARD ROTH, MONIKA L OCK E D ANIEL STRÜBER
42 Arquitetura da diversidade Elas são boas na dissimulação; eles perdem o
L ARRY CAHILL controle mais facilmente
Diferenças no funcionamento cerebral dão origem
a terapias específicas para cada sexo 86 O masculino e o feminino
na perversão
50 O corpo e a cultura L EANDRO ALVES RODRIGUES DOS SANTOS
CLÁUDIA V IANNA E DANIELA FINCO Mesmo reconhecendo as leis e as convenções
A socialização influencia não só a cognição e o sociais, o perverso insiste em burlá-las
com portamento, mas também as habilidades motoras
92 Desafios do tempo
)OEL R ENNÓ ) R.
A menopausa marca o fim do período
reprodu tivo da mulher, mas não é compa rável
à "andropausa"

98 Saindo do sótão
MOACIR SCLIAR
Território tradicionalmente masculino,
hoje a literatura tem forte presença feminina

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omens e mulheres diferem não apenas em atributos

H físicos e função reprodutiva, mas também em ca-


racterísticas como o modo de resolver problemas
intelectuais. Nas últimas décadas, a tendência ideológica
insistia que estas diferenças comportamentais seriam mínimas
e conseqüência da diversidade de experiências durante o
desenvolvimento antes e depois da adolescência. Evidências
acumuladas recentemente, entretanto, sugerem que os efeitos
dos hormônios sexuais na organização cerebral ocorrem tão
precocemente na vida que, desde o início, o meio age sobre
cérebros organizados de forma diferente em meninos e me-
ninas. Esses efeitos tornam difícil, se não duvidosa, a avaliação
do papel que a experiência desempenha, independentemente
da predisposição fisiológica. As bases biológicas das diferen-
ças sexuais no cérebro e no comportamento ficaram melhor
conhecidas graças ao número cada vez maior de estudos
comportamentais, neurológicos e endocrinológicos.
Sabemos, por exemplo, pela observação ta nto de
humanos quanto de não humanos, que os machos são
mais agressivos e, quando jovens, fazem brincadeiras mais
violentas que as fêmeas. já estas destacam-se pelos com-
portamentos maternais. Sabemos também que, em geral, os
homens são melhores em tarefas que envolvem orientação
e navegação no espaço. Qual a origem dessas e outras di-
ferenças entre os sexos? Boa parte de nossas informações e
idéias sobre como ocorre a diferenciação sexual é fornecida
por pesquisas com animais. Talvez o fator mais importante
na diferenciação entre machos e fêmeas, e sem dúvida na
diferenciação de indivíduos do mesmo sexo, seja o nível
de exposição a vários hormônios sexuais no início da vida.
Na maioria dos mamíferos, incluindo os humanos, o orga-
nismo em desenvolvimento tem potencial para ser macho ou
fêmea. A produção de um macho é um processo complexo.
Quando um cromossomo Y está presente, formam-se testícu-
los ou gônadas masculinas. Quando não existe cromossomo
Y, formam-se ovários.

PADRÃO FEMININO
Os testículos produzem hormônios masculinos ou an-
drogênios (principalmente testosterona), responsáveis
pela transformação dos ge nitais em órgãos masculinos,
e também pela organização, no início da vida, dos
comportamentos masculinos correspondentes. Quanto
à for mação da genitália, os estudos pioneiros de Robert
W. Goy, da Unive rsity of Wisconsin, mostraram que a
tendência intrínseca, na ausência de influência hormonal
masculina, é que se desenvolvam estruturas genitais e
comporta mento femininos. Portanto, a anatomia femi-
nina e, provavelmente, a maior parte do comportamento
associado às fêmeas são o modelo padrão na ausência
de androgênios.

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Se um roedor com gen ita is
Solução de problemas que favorecem
masculinos funcionais for privado
dos a ndrogênios imediatamente
HOMENS MULHERES após o nascimento (por castração
ou pela administração de um com-
posto que bloqueie os hormônios),
Tendem a ter desempenho melhor Tendem a ter desempenho
que as mulheres em algumas tarefas melhor que os homens e m testes o comportamento sexual masculino,
espaciais. Eles se saem melhor em de rapidez de percepção, nos como montar durante a cópula, será
testes que envolvem a rotação quais as pessoas deve m identificar reduzido, e aumentará o compor-
imaginária ou a manipulação de um rapidame nte quais são os itens
objeto, tais como imaginar como seria iguais- por exemplo, o par da tamento sexual fem inino, como a
rodar este objeto tridimensional: casa à esquerda: lordose (o arqueamento das costas
durante o coito). Da mesma forma,
se androgênios fo rem adm in istrados
a uma fêmea logo após o nascimento,
ela revelará, quando adu lta, maior
quantidade de comportamento se-
xual masculino e menor do feminino.
ou ond e ficarão os orifícios de uma Além disso, elas lembram se um Esses efeitos duradouros decorrentes
folha de papel dobrada quando objeto, ou uma série de objetos, da exposição precoce a hormônios
for desdobrada: foi de slocado:
sexuais são caracterizados como
"organizacionais" porque parecem

~j DDD
o / a ltera r, de forma permanente, a
função cerebral durante um período
crítico do desenvolvimento pré ou
pós-natal precoce. A administração
dos mesmos hormônios sexuais em
Ta mbém são mais pre cisos em Quando lêem uma histó ria, um
ha bilidad es motoras que e nvolve m pa rá grafo ou uma lista desconexa estágios mais tardios ou na idade
alvos, tais como orie ntar ou de palavras, demonstram maio r adulta não exerce este efeito.
interceptar projéteis: capacidade de memória: Entretanto, nem todos os com-
portamentos que distinguem os
(ÃO, SOMBRA, HAMBÚRGUER, machos são categorizados ao mesmo
NUVEM, FLOR, CÍLIO, LÁPIS,
PAPEL, ÁGUA, LUZ, GARFO, tempo. Em macacos Rhesus, por
ESTRADA, EDI FÍCIO •••
exemplo, a organização através de
androgênios dos comportamentos
Eles se saem melhor na Também são melhores em tarefas masculinos típicos de cópula e de
ide ntificação de linhas com d e d estreza manual - isto é, que brincadeiras violentas ocorre em fa-
inclinação idê ntica: e nvolvem coordenação motora
fina - co mo, por exemplo, colocar ses diferentes do período pré-natal.
pinos em buracos de uma tábua: A área do cérebro que regula
o comportamento repro dutivo

I~
masculino e feminino é o hipotálamo.
Essa diminuta estrutura na base
do cérebro está ligada à hipófise,
a princ ipal g lându la e ndócrina.
Nos ratos machos, uma região do
Tendem a te r melhor desempenho
do que as mulheres e m testes de E se saem melhor e m testes de hipotálamo é nitidamente maior que
raciocínio matemático: cá lculo matemático: nas fêmeas, e esta diferença está sob
p-oooooooooo~--------------.....----~ ~ controle hormonal. Os c ientistas
~
SE SOMENTE 60% DAS SEMENTES descobriram também d iferenças
SOBREVIVEM, QUANTAS PRECISAM 77 14 X 3 - 17 + 52 ~
1,100 entre os sexos em um g rupo de
~
2 ( 15 + 3 1+ 12 - 15
SER PLANTADAS PARA QUE SE
OBTENHAM 660 ÁRVORES? 43 ã neurô n ios do cérebro humano
3
~ - partes do núcleo intersticial do

8 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


hipotálamo anterior -, que é maior Incidência de afasia
nos homens. Até a orientação sexual
Córtex motor
e a identidade de gê ne ro foram
• Mulheres 65" /
relacionadas à variação anatômica do 60"
• Homens
hipotálamo. Outros pesquisadores,
como )iang-Ning Zhou e colegas
do Netherlands lnstitute of Brai n
Research e da Free U ni ve rsi ty,
em Amsterdã, observaram outra 12"
parte do hipotálamo, menor em
transexuais masculinos-femininos
I
que em um g rup o de controle
masculino. Essas descobertas são
consistentes com a hipótese de que
a orientação sexual e a identidade Anterior \
Posterior Córtex visual
de gê ne ro têm um impo rtante
componente biológico. Hemisfério esquerdo
Eas direrenças intelectuais entre Afasias, ou transtornos da linguagem, ocorrem com mais fre qüê ncia e m mulhere s qua ndo
homens e mulheres{ As principais a lesão atinge a re gião anterior do cé re bro. Nos home ns, ocorre m co m mais freqüê ncia
quando o proble ma afeta a região posterior. Os dados apresentados acima foram obt idos
diferenças sexuais parecem consistir
mais em padrões de habilidades
que no nível global de inteligência
L em um conjunto de pacientes.
----- ----------------------------------------------
(medido como o Q l), embora alguns forma variada. O desempenho dos minho e m me nos tenta ti vas e
pesqu isadores, como Richard Lynn, homens também é melhor em testes com menos e rros. as mulheres Elas têtn
da University of Ulster, na Irlanda de raciocínio matemático e de nave- tendem a usar marcos de referência mais
do Norte, argumentem que exista gação em uma rota. Além disso, os como estratégia de orientação.
uma pequena diferença de Q l em homens são mais precisos em testes Outras descobe rtas també m facilidade
favor dos homens. As diferenças de habilidade motora com alvo - isto apontam a superioridade das mulhe- para
de padrão intelectual referem-se é, em guiar ou inte rceptar projéteis. res na memorização de referências.
ao fato de que as pessoas possuem As mulheres, em média, sobres- Em testes sobre a habilidade para
memorizar
talentos intelectuais distintos: algu- saem em testes que medem a capaci- lembrar de objetos e sua localização detalhes e
mas uti lizam palavras muito bem, dade de lembrar palav ras e desafiam em um espaço confinado - como
enquanto outras são melhores em a pessoa a encontrar palavras que uma sala ou uma mesa - , as mulheres
palavras;
lidar com estímulos externos, como comecem com uma letra específica revelaram-se mais capazes de lem- eles se saem
a identificação de um objeto em ou satisfaçam algum outro critério. brar se os itens haviam mudado de
melhor em
uma orientação diferente. Dois Também tendem a ser melhores que lugar ou não. Outros pesquisadores
indivíduos podem ter habilidades os homens na identifk ação rápida de descobriram que as mulheres são su- tarefas de
cognitivas diferentes, com o mt::smo itens que combinam entre si e em periores quando precisam lembrar da orientação
nível global de inteligência. realizar certas tarefas manuais, como localização de desenhos em cartões
a colocação de pinos em buracos de virados aos pares. Neste tipo de loca- espacial
NO LABIRINTO uma tábua. lização dos objetos, diferentemente
As di ferenças entre os sexos na solu- Em re lação à orientação es- de outras tarefas espaciais, as mulhe-
ção de problemas foram estudadas pacial, um estudo revelou que os res parecem superar os homens.
sistematicamente em adultos, em homens completam um labirinto É importante levar em conta
laboratório. Em média, os homens simulado em computador mais que algumas diferenças cognitivas
se saem melhor que as mulheres rapidamente e com menos erros médias entre os sexos variam ou
em certas tarefas es paciais. Em do que as mulheres. Outro estudo muito ou pouco, e o desempenho
particular, os homens parecem ter utilizou um percurso feito em um de homens e mulheres se sobrepõe
desempenho mel hor em testes em mapa de mesa para o aprendizado enormemente em muitos testes cog-
que precisam imaginar a rotação de de rotas. Os resultados mostram nitivos que revelam diferenças entre
um objeto ou sua manipulação de que os homens apre ndem o ca- as médias. Por exemplo, enquanto

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nios sexuais ou ao aplicar hormônios
ESPACIAL - HOMENS em fêmeas recém-nascidas, houve
""l.Zr----- - -- - -- - - - - - - - - - - - - - - -- ------1 total inversão do comportamento
~ 0.8 ALTA
t-
oc 0.4
BAIXA TESTOSTERONA sexual típico nos animais adultos.
TESTOSTERONA
g 0 1-----r---...,.--~--------- BAIXA Diferenças estruturais podem
;:!: -0.4
~ - 0.8
~ -t.z L-====._____________:.::..::==-! TESTOSTERON A ALTA
TESTOSTERONA
ser análogas às comportame ntais.
Lucia F. Jacobs, então na Univer-
sity of Pittsburgh, descobriu que,
em várias espécies de roedores, o
hipocampo - região que pode estar
envolvida no aprendizado espacial
- é maior em machos do que em fê.
meas. Atualmente, não dispomos de
dados suAcientes sobre as possíveis
diferenças em seres humanos.
Os níveis de testosterona podem afetar o desempenho em alguns testes (ver os
quadros da pág. anterior com exemplos de testes). As mulheres com altos níveis de
testosterona têm desempenho melhor em tarefas espaciais (gráfico superior) que BONECA E CARRINHO
as mulheres com níveis baixos, mas os homens com n íveis baixos de testosterona Estudos realizados com meninas ex·
são melhores que os homens com níveis altos. Em testes de rapidez de percepção,
postas a um excesso de androgênios
em que as mulheres em geral sobressaem (gráfico inferior), não foi encontrada
nenhuma relação entre a testosterona e o desempenho. na fase pré ou neonatal fornecem al-
gumas das principais evidências em
favor de diferenças sexuais inAuen·
ciadas por hormônios. A produção
mulheres desempen ham melhor trador de um relógio. As meninas anormal de grandes quantidades de
tanto em tarefas que envolvem me- pré-adolescentes, porém, são me- androgênio nas supra-renais pode
mória verbal (lembrar palavras em lhores em lembrar listas de palavras. ocorrer por um defeito genético,
listas ou parágrafos) como nas que Descob r iu- se tam bém que em uma doença chamada hiperpla-
envolvem Auência verbal (encontrar roedores machos e fêmeas resolvem sia congênita das adrenais (HCA).
palavras que comecem com uma problemas de forma diferente. Antes dos anos 70, uma condição
letra especíAca), encontramos uma Christina L. Will iams, da Duke semelhante também surgia de modo
grande diferença em habilidades de U niversity, mostrou que as ratas têm inesperado na prole de mulheres
memória e somente pequena dispa- tendência maior a usar referências grávidas que receberam esteróides
ridade nas que envolvem Auência. em tarefas de aprendizado espacial, sintéticos. Embora a conseqüente
Em geral, a variação entre homens como parecem fazer as mulheres. masculinização dos genitais possa
e mulheres tende a ser menor que os Na experiência de Williams, as ser corrigida cirurgicamente e a
desvios entre indivíduos do mesmo ra tas deram preferência a marcos produção excessiva de androgênios
sexo, embora grandes diferenças como Ag uras na parede, e não a tratada com medicamentos, os efei·
entre os grupos possam ocorrer dicas geométricas, como ângulos tos da exposição pré-natal sobre o
- como, por exemplo, na capacidade e forma da sala. Q uando não havia cérebro não podem ser revertidos.
masculina em atingir alvos visuais. marcos de referência disponíveis, Sheri A. Berenbaum, então na
Embora se acreditasse que as no entanto, as fêmeas empregavam Southern lllinois University, em
diferenças entre os sexos na solução as pistas geométricas. Os machos, Carbondale, e Melissa H ines, então
de problemas não aparecessem até a ao contrá ri o, nu nca ut ili za ram na University of California, em Los
puberdade, a evidência sugere que marcos de referência, preferindo, Angelcs, observaram o comporta-
algumas diferenças cogni tivas e de quase exclusivame nte, as pistas mento lúdico de meninas com HCA,
habili dades já estejam presentes geométricas. comparando-o com o de seus irmãos
muito antes. Por exemplo, meninos Williams descobriu também que de ambos os sexos. Entre brinquedos
de três e quatro anos são melhores, a manipulação hormonal durante o de montar e de transporte ou bo-
comparados a meninas da mesma período crítico pode alterar compor- necas e apetrechos de cozinha ou,
idade, em alvejar e em rodar mental- tamentos. Ao privar, pela castração, ainda, livros e jogos de tabuleiro, as
mente Aguras desenhadas no mos- machos recém-nascidos dos hormô· meninas com HCA preferiram os

10 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


brinquedos mais tipicamente mas- maior que a de mulheres. Benbow habilidades espaciais, mas também
Desempenho
culinos - por exemplo, brincaram argumenta que essas diferenças não a uma melhora nas lingüísticas e
com carrinhos pelo mesmo tempo seriam facilmente explicadas por nas de destreza manual. Observei feminino
que os meninos. Tanto as meninas fatores sociais. Autuações sazonais nas habilidades durante
com HCA como os meninos dife- É importante considerar que a espaciais dos homens: o desempe-
riram, em seus padrões de escolha, relação entre os níveis naturais de nho é melhor na primavera, quando o ciclo
das meninas não afetadas por HCA. hormônios e a solução de problemas os níveis de testostcrona são mais menstrual
Berenbaum descobriu também que é baseada em correlações. Embora baixos. Cabe a novas pesquisas escla-
as meninas com HCA mostraram exista alguma conexão entre as recer se as Autuações vinculadas aos varia
maior interesse em atividades e duas medidas, não sabemos como hormônios representam adaptações conforme
carreiras tipicamente masculinas. a associação é determinada, nem evolutivas úteis ou apenas os altos e
Como é provável que os pais esti- seu fundamento causal. Além disso, baixos em torno de uma média. os níveis de
mulem preferências femininas tanto pouco sabemos sobre a relação entre Pesquisas com pessoas com estrogênio
em suas filhas com HCA quanto nas níveis de hormônios em adultos e nas lesões em uma metade do cérebro
não afetadas, descobertas sugerem fases iniciais da vida, quando, ao que indicam que, na maioria delas, o es-
que as preferências foram alteradas parece, as habilidades se organizam querdo é crucial para a linguagem e
por fatores hormonais precoces. no sistema nervoso. o direito para certas funções percep-
Outros pesquisadores descobriram Uma das descobertas mais in- tuais e espaciais. Pesquisadores que
que as habilidades espaciais em que teressa ntes relacionadas a adultos estudam di ferenças sexuais supõem
os meninos tipicamente se destacam é que padrões cognitivos podem que os hemisférios direito e esquer-
são mais desenvolvidas em meninas permanecer suscetíveis a Autuações do são organizados de forma mais
com HCA. Em meninos com HCA hormonais durante toda a vida. assimétrica em relação à linguagem
observou-se o inverso. Elizabeth Hampson, da University e às funções espaciais em homens do
Embora os níveis de andro- of Western O ntario, mostrou que que em mul heres.
gênio se relacionem a habilidades o desempenho femini no em de- Partes do corpo caloso, o pri n-
PESQUISADORA
espaciais, não se trata simplesmente terminadas tarefas durante o ciclo cipal sistema neural que conecta CHRISTINA L.
de quanto maior o nível, melhor o menstrual varia conforme os níveis os dois hemisférios, assim como a WllliAMS, da Duke
desempenho. Há, sim, um nível óti- de estrogênio. Taxas elevadas do comissura anterior, parecem ser University, mostrou
que ratos e ratas têm
mo de androgênios (na faixa baixa hormônio associam-se não somen- maiores em mulheres, permitindo formas diferentes de
para homens) para uma habilidade te a uma diminuição relativa das mais comunicação entre os hemis- se orientar no espaço
espacial máx ima. Isso pode valer
também para os homens e o racio-
cínio matemático; em uma pesquisa,
homens com baixo androgê nio
tiveram melhor desempenho.

BIOLOGIA DA MATEMÁTICA
As descobertas são releva ntc::s para
a idéia, apresentada por Camilla P.
Benbow, hoje na Vanderbilt Univer-
sity, de que a habilidade matemática
superior tem um determinante bio-
lógico importante. Ela e seus colegas
relatara m diferenças consistentes
entre os sexos, favoráveis aos ho-
mens, em habilidades de raciocínio
matemático. Em jovens com talento
matemático, as diferenças foram
especialmente nítidas na extremi-
dade superior da distribuição, onde
a quantidade de homens era muito

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Podemos férios. Técnicas de percepção que Além disso as mulheres não se movimentos executados por outra
medem a assimetria do cérebro em saíram tão bem quanto os homens. pessoa. As mulheres raramente têm
compreender pessoas com funcionamento nor- Entretanto, a lesão no hemisfério apraxia após uma lesão posterior es-
as diferenças mal mostram, às vezes, assimetrias direito não teve um efeito maior em querda, ao contrário dos homens.
menores nas mulheres do que nos homens que em mulheres. Homens também estão sujeitos,
considerando homens, e a lesão em um hemisfé- As especificidades de desem- com mais freqüência, a afasia decor-
;.
papets que rio cerebral pode ter menor efeito penho entre homens e mulheres rente de lesão no hemisfério esquer-
sobre as mul heres. Meus dados em testes de rotação e orientação do. Épossível que uma lesão restrita
homens e sugerem que, em relação a funções direcional não precisam ser re- a um hemisfério, após um derrame,
mulheres como aspectos básicos de lingua- sultado dos diferentes graus de afete com mais freq üência a região
gem e habilidades espaciais, não dependência em relação ao he- posterior do hemisfério esquerdo.
assumiram há grandes diferenças de assimetria misfério di reito. Outros sistemas Como os homens dependem desta
ao longo da hemisférica entre os sexos, embora cerebrais podem mediar o melhor região para a linguagem mais que
história possa haver disparidades em ha- desempenho dos homens. as mulheres, eles serão mais afeta-
bilidades mais abstratas, como a dos. Ainda não compreendemos os
capacidade de defi nir palavras. PADRÕES DE FUNÇÃO efeitos sobre os padrões cognitivos
Se as diferenças conhecidas es- Outra diferença cerebral entre os dessa configuração divergente de
tivessem ligadas a diferentes depen- sexos refere-se à linguagem e a linguagem e funções manuais.
dências em relação ao hem isfério certas funções manuais. Mulheres Embora não tenha encontrado
di reito do cérebro para a execução estão sujeitas à afasia (comprometi- diferenças sexuais na assimetria
dessas funções, seria de esperar mento da capacidade de produzir e funcio nal do cérebro vinculada a
que uma lesão ali tivesse efeito compreender linguagem) com mais aspectos básicos de linguagem, ca-
mais devastador no desempenho freqüência após uma lesão na região pacidade de movimento ou rotação
espacial dos homens. Estudamos a anterior do cérebro que após uma Ie- espacial, descobri leves diferenças
capacidade de pacientes com lesão são na região posterior. Nos homens, em algumas habilidades verbais.
em um hemisfério do cérebro de vi- a lesão posterior afeta a linguagem O desempenho em um teste de
~
sualizar a rotação de objetos. Como na maioria das vezes. Padrão similar vocabulário e de Auência verbal, por ~
esperado, em ambos os sexos, os foi encontrado nas apraxias, a difi- exemplo, foi ligeiramente afetado, ~
pacientes com lesão no hemisfério culdade em selecionar movimentos nas mulheres, na lesão de qualquer ~
~
direito tiveram desempenho pior. apropriados da mão, como copiar os um dos hemisférios, enquanto nos o

tJOMENS VOLTAM DA CAÇA:


divisão de funções teve grande
importância no processo
evolutivo da humanidade

-------
homens o desempenho só foi preju-
dicado em lesões do hemisfério es-
querdo. Essas descobertas sugerem
que, ao empregar habilidades verbais
mais abstratas, as mulheres util izam
os dois hemisférios de forma mais
uniforme que os homens. Mas isto
não vale para todas as tarefas relacio-
nadas a palavras. A memória verbal,
por exemplo, parece depender do
hemisfério esquerdo tanto nas mu-
lheres como nos homens.
Novas técnicas para ava liar
a atividade cerebral - inclui ndo
imagens por ressonância mag nética
func io nal (fMRI ) e tomografia de
emissão de pósitrons (PET)- têm- Desempenho
se revelado promissoras, mesmo ~ ........ 100
~ ~ 90
q ue os resultados interessantes "" ...,
8 ~ 80
• - · · · · ----- __ Homens
ainda pareçam conAitantes. "" z
~ ~ 70
•----_____-- ---M~ih~;~s-
---- ---
-·--·--•
2 ""2 60
"'
""
---- -·
ASSIMETRIA FUNCIONAL w .._..
50
""
Alg umas pesq uisas mostraram 40-L---------------------------------
Esquerdo Direito
maiores diferenças de atividade
Lesão do hemisfério
entre os hemisférios de homens e
mulheres durante testes de lingua- Uma lesão no hemisfério direito afeta a habilidade espacial dos dois sexos da mesma
gem, como avaliar se duas palavras forma (gráfíco), o que sugere que mulhe res e homens depende m-igualmente desse
rima m ou conjugar verbos no hemisfério para executar certas tarefas espaciais. Em um teste de desempenho de
rotação espacial, é preciso igualar as fotografias de um objeto de três dimensões a
passado. Uma não encontrou di-
uma das duas imagens espelhadas do mesmo objeto.
ferenças de assimetria funcional. A
diversidade destes resultados pode
se r atribuída, em parte, aos testes Além disso, quanto mais complexa a ali mentos perto da base domiciliar,
empregados. Os sexos podem ter atividade, mais difícil é saber o que tomavam conta da casa, preparavam
uma organização cerebral diferente está sendo medido após a subtração a comida e as vestimentas e cuidavam
para algumas tarefas de ling uagem, da atividade de comparação. das crianças pequenas. Essas especia-
mas não para outras. Para entender o comportamento lizações teriam imposto diferentes
Sex on the braln:
A diversidade pode reAetir tam- humano -como homens e mulheres pressões de seleção sobre eles. the blologlcal
bém a complexidade dessas técnicas. diferem entre si, por exemplo- pre- Qualquer di ferença comporta- differences
O cé rebro está sempre ativo em cisamos olhar além. Nosso cérebro mental entre indivíduos ou grupos between men a nd
algum grau. Assim, para qualquer é, essencialmente, como o de nossos é mediada pelo cérebro. Foram women. Debora h
Blum. Viking Press,
atividade, como ler em voz alta, ancestrais de 50 mil anos atrás ou reg istradas di fere nças sexuais rela-
1997.
pressupõe-se que a atividade de mais, mas podemos aprimorar nossa tivas à estrutura e organização do
The trouble with
comp aração - d ig amos, ler em compreensão das diferenças entre cérebro e foram realizados estudos testosterone
silêncio - seja similar. Nós então os sexos estudando os diferentes sobre o papel dos hormôn ios se- and other essays
"subtraímos" o padrão cerebral que papéis que homens e mulheres de- xuais no comportamento humano. on the blology
ocorre durante a leitura silenciosa sempenharam na história evolutiva. Todavia, permanecem as questões ofthe human
para determinar o padrão durante Os homens eram responsáveis pela predlcament.
relativas à ação dos hormôn ios
Robe rt M. Sapolsky.
a leitura em voz alta. Mas esses mé- caça e pela procura de comida, por no sistema cerebral humano para Scribne r, 1997.
todos exigem suposições duvidosas defender o gmpo contra predadores gerar as diferenças descritas, como Sex a nd cognition.
sobre o que a pessoa está fazendo e inimigos e por desenvolver e usar no comportamento lúdico ou nos Doreen Kimura. MIT
durante qualquer dessas atividades. armas. As mul heres coletavam os pad rões cog nitivos. nec Press, 1999.

www.mentecerebro.com.br 13
N
os primeiros anos de vida, meninos e meninas
já demonstram dife renças na capacidade
de praticar a empatia - aquela sintonia
espontânea e natural com as idéias c os sentimentos
do outro. Não se trata apenas de reagir a um pequeno
número de emoções, como dor ou tristeza; ter empatia
significa sentir a atmosfera emocional que se instala em
determinadas situações; colocar-se, sem grande esforço,
no lugar do outro e administrar com sensibilid ade
uma interação de forma não invasiva. Nenhuma outra
situação é mel hor para observamos como as men inas
são melhores que os meninos nas artes da empatia como
quando estão brincando.
Garotos são mais "físicos" do que garotas quando
querem alguma coisa. Exemplo: quando um grupo de
crianças recebe um aparelho de projeção de filmes para
brincar, os meninos passam mais tempo olhando atra-
vés do visor, nem que para isso precisem empurrar as
meni nas. Quando o brinquedo é entregue a um grupo
formado apenas por garotas elas em ge ra l recorrem à
habi lidade verbal para ga rantir seu espaço. Em vez de
força r, negociam e convence m. Isso demonstra que,
em geral, as me ninas se preocupam mais com a divisão
justa e, mesmo quando uma delas é movida por in teresse
próprio, usa a leitura mental para manipular o outro, para
obter o que quer.
Outro exemplo: deixe as crianças brincarem à von-
tade com aqueles carrinhos grandes que elas mesmas
podem guiar. Em pouco tempo os meninos começam a
se chocar uns contra os outros. As garotas, quando têm
a chance de participar, dirigem com muito mais cuidado,
evitando ao máximo atingir alguém. A esse comporta-
mento masculino a psicóloga americana Eleanor Mac-
coby chamou rough-bousiug (bagunceiro, baderneiro, em
tradução livre). Segundo ela, a arruaça dos meninos não
quer dizer, porém, que eles sejam mais ativos. As garotas
apresentam o mesmo nível de atividade em outros tipos
de brincadeiras.
Maccoby também deixa claro que o rough-housiug não
deve ser entendido como agressão, mas como experimen-
tação lúdica da resistência do outro. O estilo mascul ino de
brincar pode ser muito divertido quando o outro garoto
também gosta. Porém, se a brincadeira machuca ou inco-
moda, apenas um garoto com pouca empatia insistiria em
continuar. Já as meninas tendem a reagir de modo muito
A preocupação com a emoção diferente. Se o inconveniente ocorrer uma vez, ela pode
alheia e a intimidade nas relações até não se importar, mas se houver repetição, ela acaba
se desligando da atividade. É claro que lutas "de mentira"
tornam o comportamento social nem sempre são brincadeiras. Às vezes podem ser para
feminino mais sofisticado valer, não com agressão explícita, mas com muita ameaça
e conAito. Comparativamente, os meninos costumam
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www.mentecerebro.com.br 15
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deles desfazendo a mochila, já
com certa saudade de casa, lendo
um cartão carinhoso deixado
pela mãe. De repente, surge um
outro que lhe dá um empurrão
e o insulta. Pela perspectiva do
intimidador, foi enviada uma men-
sagem clara a toda a cabana: ele
é o chefe. Pela nossa perspectiva
de observadores, seria razoável
pensar que aquela intimidação
significa em patia reduz ida.
Agora é hora de espiar através
das cortinas para ver o que acon-
tece numa cabana fem inina. Elas
esperaram pelo menos uma sema-
na para começar a estabelecer suas
táticas de dominação. Ser "legal"
e criar amizades eram prioridades
nos primeiros dias de convivência.
Mesmo quando algumas come-
çavam a sinalizar que estavam no
controle, faziam isso, na maioria
das vezes, por meio de estratégias
HIERARQUIA DA praticar mui to mais esse compor- nação conseguiam mais controle sutis - uma eventual ironia ou
DOMINAÇÃO: tamento e, surpreendentemente, as sobre o grupo. desatenção. Exemplo: a garota do-
agressividade
favorece o
diferenças entre os sexos podem Assim, a conclusão realista e in- minante simplesmente ignora os
controle do ser observadas já a parti r dos 2 qu ietante que podemos tirar daí é comentários e sugestões de outra
grupo anos de idade. que a agressividade leva as pessoas de status inferior. A desatenção e
a posições sociais mais altas e lhes a exclusão social são meios pode-
NAS FÉRIAS dá mais poder e controle. Os ado- rosos de controle. Quem recebe
Conhecer os estudos do antropó- lescentes que se destacaram como pouca ou nen huma atenção se
logo Ritch Savin-Will iams, feitos líderes tinham mais influência so- sente sem importância, invisível.
num acampamento de férias para bre as atividades do grupo, eram os O modo co mo as garo ta s
adolescentes, é uma ótima opor- primeiros a escolher onde dormir e estabeleciam verbal men te a do -
tunidade para ver as diferenças recebiam uma segunda porção de minação era, em geral, indireto.
entre os sexos sob uma potente refeição an tes de todos os outros. Em certa ocasião, uma sugeriu
lente de aumento. Ao chegar ao No que diz respeito, porém, às a outra que "pegasse o guarda-
acampamento, os jovens foram táticas usadas para ascender so- napo e limpa sse o rost o, que
separados em cabanas conforme cialmente, as semelhanças entre os estava sujo de com ida". A atitude
sexo e idade. Como esperado, sexos acabam exatamente aí, onde aparen teme nte cu ida d osa na
logo se es tabelece ram hierar- começam as diferenças. verdade chamou atenção para a
quia s de dom inação. Alg umas Primeiro, vamos dar uma fa lta de jeito da colega. Se fosse
das táticas empregadas eram oi hada na cabana dos garotos. um rapaz, simplesmente chamaria
similares em grupos masculinos e Em alguns grupos, certos rapazes o outro de "babão" e incentivaria
femininos: exposição ao ridículo, fa ziam a primei ra investida pela os companheiros a ri dicularizar
apelidos, comentários maliciosos, dom inação soc ial nas pr imeiras a vítima. Embora as duas táticas
entre outras. Tal comportamento horas depo is da c hegada. Ri- te nham o mesmo efeito, a das
hostil tinha um papel social: os dicularizavam e atorm entava m garotas é mais sofisticada.
que alcançava m posições mais fis ica mente suas "vít imas" na Tudo acontece tão depressa,
elevadas na hierarquia de domi- fre nte dos outros. Imagine um que fica difíci l acompanha r o

16 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


processo que leva uma ga rota a preserva a reputação de ser uma O estudo no acampamento
pessoa "legal".
A estratégia
se tornar uma líder. As meninas de fér ias revelou que os garotos
uti lizam com mais freq üência a d a cabana que t inham menos feminina serve
tática de dizer "Não sou mais sua AMIGAS ÍNTIMAS status se uniam para reforçar ao objetivo
am iga" ou d e espalhar boatos mali - D iversos estudos mostram que as o "tratamento" da d o à vít ima,
ciosos. Costumam usar a persuasão garotas valorizam a intimidade. estabelecendo ass im sua própria de conquistar
ve rbal ge ra lmente baseada e m Assim, a estratégia femi nina ati n- do mi nação sob re ela. Isso nos status sem
informações falsas. Os garotos, ao ge um objetivo: alcança r status lembra que as hierarq uias de do -
contrário, preferem a agressão di - social sem colocar em risco a inti- minação são d inâmicas, e que os colocar
reta: g ritam, brigam e xingam . H á midade de seus relac ionamentos. garotos tend em a fica r à espreita em risco a
quem diga que o método masculi- Quem quer ser ínti mo de al g uém de o por tu nidades de ascensão
no corresponde a usar um martelo com fama de desagradável? En- social. A empatia com a vítima
intimidade
enorme pa ra quebrar uma noz. O tão, o comporta mento perturba- já não interessa. Faz ma is sen- das relações
mais provável é que um garoto na dor tem d e ser disfarçad o, rápido tido chutar o suj eito caído. Isso
mesma situação tente alca nçar o e d ifíci l de ser Aag rado. No caso va le para todos os membros do
objetivo imed iatamente, sabendo dos ga rotos, a intenção é obvia. grupo social, em todos os níve is
que o efeito Anal será favorável (sua A fo rça fís ica é um sinal claro e a da hierarq uia.
posição no grupo sobe, enquanto a mensagem trans mitida é de que As ga ro tas também estavam
do outro desce), ainda que ganhe o agressor pouco se importa com sempre dispostas a galgar algu-
um inimigo. Quando a garota de- o fato de a vítima se sentir ferida mas posições, mas, novamente,
cide "dimi nui r" uma outra, procura ou ofendida, mui to menos com a as táticas eram diferen tes. Elas
fazer isso de modo quase invisível, possi bilidade de a intimidade de p referiam reco nh ece r explici -
para não correr o risco de adquirir outros relacionamentos ser pre- tamente a liderança alheia, in-
a fama de opressora. Se ques tio- jud icada. Os objetivos principais clusive com baj ulação, encanto,
nada, ela sempre pode dizer que são controle, poder e acesso aos apreço e respeito. Por exemplo:
não teve a intenção de ofe nd er recursos que vê m através deles a menina com baixo status pedia
ou de desmerecer a outra. Assim, -outra vez, empatia reduzida. consel hos e apo io à dominante

MULHERES
COSTUMAM
cultivar menor
rivalidade,
pedindo conselhos
e se tornando
cúmplices umas
das outras

17
ou se oferecia para penteá-la. Dediquei muita atenção a essa social, percebe mos, embora com
Ou tra diferença es tá no fato de experiência em aca mpa mentos certo desenca n to , que t e mos
a hierarquia de d o minação mas- de fé r ias por causa dos paralelos muito a aprende r.
c ulina te r d urado todo o período que pode mos traçar em re lação A outra conclusão que se tira
no acampame nto, enquan to a das a muitas situações sociais: a sala daí é que os rapazes são mu ito
garotas se alterou muito antes do de au la, o parquinho, o traba lh o. me nos benevolentes q uando se
térm ino. O resultado disso é q ue Em todas e las dese nvolve-se um a trata de faze r a lg ué m se sen tir
elas passava m muito mais tempo liderança, e os líderes freqüe nte- menos capaz do q ue e le s. Eles
co nversa ndo em grupos de duas me nte precisam de urna "vítima" não perdem o sono por causa do
ou três, e m atmosfera de menor para manter a pos ição. Quando pobre garoto que fo i prejudicado.
riva li dade, o u se re laciona ndo observamos a freqüência co m Eles gos tam d o status e estão mais
com a "melh or amiga". Os garo- que as garotas praticam a le itura dispostos, inclusive, a fer ir física
tos, po r sua vez, partic ipava m menta l, a li mitada empatia dos ou e mocionalmente.
mais de ativ idades de competi- garotos e o papel desses aspec -
ção, sob o comando do líder. tos na determinação da escalada DISCURSO CORTÊS
Ga ro tas expressam raiva de forma
menos direta, pro põem acordos
com maior freqüência e parecem
Conversa ao pé do ouvido
mais inclinadas a escla rece r os
se ntimentos e intenções dos ou-
Mulheres também conversam muito mais sobre sentimentos e relaciona- tros. Além disso, fazem reivind i-
mentos, ao passo que os bate-papos deles geralmente giram em torno de cações com mais delicadeza e têm
coisas mais concretas, como esportes, carros, estradas e novas aquisições. um discurso mais cortês, evi tando
A tendência parece se manifestar já na infância. Estudos mostram que, gritar. Com os meninos, claro, é
aos 2 anos, histórias centradas em pessoas são muito mais comuns em diferente. A partir da segunda
me ninas do que em meninos. Outra diferença bem evidente no discurso infância e duran te a adolescência
refere-se a confidências e intimidade. Embora homens e mulheres sejam eles fazem mais provocações, uma
igualmente dispostos a fazer revelações a(o) parceira(o), eles usam lin- forma direta de afi rm ação de seu
guagem muito mais íntima quando conversam com outro homem. Isso poder. Q ua ndo há de sente ndi -
pode refletir também a pressão sofrida pelos homens para se mostrar no mentos, os rapazes argumentam
controle. Éde seu interesse, mesmo quando em conversa íntima com uma menos, preferindo simplesmente
mulher, não comunicar muito apoio. A mulher, por outro lado, prefere reafirmar sua opinião.
responder com palavras que demonstrem compreensão e simpatia. Os imperativos (" Faça assim"
ou "Me dê aq uilo") e as proibições
("Pa re com isso" o u "Não faça
aq ui lo") são mais comuns no dis-
curso masculino. Esses exemplos
de "trocas autoritárias" não raro
acabam em conA ito. Alguém com
g rande empatia evitaria esse tipo
de expressão para que o outro
não se sentisse inferior e desvalo-
rizado. As garotas preferem dizer:
"Você se importa de não razer
isso?", levando e m consideração
os se ntimentos d o o utro.
Os garotos também costumam
fazer o q ue a psicóloga Elea nor
Maccoby c ham a gm11dsta11dillg,
isto é, uma descrição das própri as
ações. Para tanto igno ram o inter-
locutor e assumem o "discurso de
uma só voz". Vários estudos têm
sugerido que o estilo femi nino
de fala tende para o "discurso
em duas vozes". A idéia é que,
embora as garotinhas persigam
seus objetivos, passam mais tempo
negociando e tenta ndo levar em
consideração os desejos da outra
pessoa e isso reve la claramente
a empatia em ação na conversa.
Essas diferenças no estilo de
conversação são percebidas ma is
nitidamente na segunda infância
e na adolescência .
Os homens usam po r mais
tempo um tipo de linguagem que
demonstra seus conhecimentos,
habil idades e status. São propen-
sos a se exibir ou tentar impressio-
nar. Ass im, interrompem muitas
vezes o outro para dar opinião e
demonstram menos interesse nos
po ntos de vista alheios. Para as encontrar, entre elas, mu ito mais sexo, já que também é ma is fáci l O que parece
mulheres, a linguagem serve para assuntos não profissionais, o que estabelecer um tópico informal de
desenvolver e manter relaciona- reforça os laços sociais e manté m interesse m(ltuo. Outro fator que
agressao no
mentos íntimos e recíprocos, em abertos os canais de comunicação, pode contribuir é a di ferença de comportamento
especial com outras mulheres. fazendo com que as tensões humor, pelo menos no traba lho:
dos meninos
que venham a surgi r sejam mais o h umor masc ulino tem mais
NO TRABALHO faci lmente solucionadas. a ver com implicânc ia e uma na maioria
A conversa fem ini na freqüen- O utra observação interessante certa dose de falsa host ilidade, das vezes é a
te mente dá segurança a ou t ra de Tannen foi a de que os enquanto no fem i nino , a
pessoa, pois expressa sentimentos homens falam mais entre si sobre mu l her z o mba de s i mesma. experimentação
positivos; os homens em geral se "sistemas": tecnologia (a mais Tudo isso também afe ta as lúdica da
furtam de falar da importância nova ferrame nta, o mais moderno atividades de gerenciamento. As
que u m tem para o outro. Elas computador, os melhores aparelhos ge rentes, quando fazem críticas, resistência
gostam de incluir nos diá logos de som), carros (diferenças entre tendem a agir com ta to e suavizar do outro
referências pessoais e elogios à um e outro modelo) e esportes (a o golpe; já os homens na mesma
apa rência das outras. Por que os classificação no campeonato de função não se importam em cri-
homens fazem isso tão raramente? futebol, o jogo da noite anterior). ticar d iretamente, sem "dourar a
U ma das possíveis respostas está As mu lheres abordam mais os pílula". O estilo fem inino de ge-
no fato de a mulher ser ma is hábil temas sociais: roupas, penteados, renciamento é ma is voltado pa ra
para sinali zar seus se ntimentos (ver festas, relacionamentos, questões a consulta e a inclusão, de modo
quadro ua pág. ao lado). domésticas e filhos . Os temas de que ninguém se sinta deixado de
A l in güista america n a conversas, assim como as revistas lado; o estilo masculino é mais
Deborah Tannen, da U niversidade que escolhem na banca de jornais, direto, orientado a tarefas. Parece
Ceorgetown, docume n tou as reAetem os diferentes inte resses razoável concluir que a principal
diferenças no modo como homens de homens e mulheres. Não é d ifere nça de compo rt amento
e mulheres falam uns com os de admirar que a maioria das entre homens e mul heres está na
out ros no amb iente de trabalho. pessoas jul gue ma is fác il fazer forma como eles se consideram a
Sua principa l descoberta foi amizade com alguém do mesmo si próprios e aos outros, o que nos

www.mentecerebro.com.br 19
Elas Na ponta da língua
produzem,
em média, As conversas são uma fonte valiosa de indícios da falante d eixa espaço para o ponto de vista do outro,
capacidade de empatia. O discurso feminino tem sido deixando-o mais tranqüilo por sabe r que as diferen-
mais palavras descrito como mais rico em termos de cooperação ças de opinião são respeitadas.
que os e reciprocidade. Na prática, isso se reflete também É mais provável que o estilo masculino siga esta
na capacidade que elas têm de manter trocas por linha: "Desculpe, mas você está e rrado"; não há
homens, mais tempo, o que não significa conversas de longa respeito pela opinião alheia. Às vezes eles podem
cometem duração, ao contrário, quando se trata de meninas ser ainda mais abruptos: "Você está errado". Na
elas costumam ser muito fragmentadas. Em geral, verdade, o que pode ser visto em uma conversa
menos erros
as garotas utilizam mais certos tipos de artifícios de feminina como diferença d e opinião quase sempre
e discriminam linguagem. Empregam, por exemplo, "prolonga- é interpretado pelos homens como uma questão de
mentos" ("Ah, você quer dizer que x") e "variações fato, em que só pode haver uma resposta correta
melhor os
pertinentes" ("Ah, que interessante..."), que servem - a dele mesmo. Se o outro faz uma sugestão, os
fonemas para reforçar o que o interlocutor acabou de dizer. meninos tendem a rejeitá-la imediatamente, como
Elas costumam prolongar o diálogo expressando sua uma "bobagem", ou, de forma mais rude, como uma
concordância com as sugestões do outro. E quando "burrice". É como se fizesse parte do estilo mascu-
discordam, tendem a suavizar o golpe respondendo lino presumir que existe um panorama objetivo d a
em forma de pergunta, não de afirmativa. Assim, realidade, que suas convicções são incontestáveis e
evitam dominar, confrontar ou humílhar. "Talvez você que a verdade tem uma única interpretação. A abor-
esteja certo, mas também não poderia ter acontecido dagem feminina parece admiti r desd e o inicio que
de ...?" ou "Acho que você está certa, mas eu vejo de existe subjetividade no mundo. Assim, e las deixam
um modo um pouco diferente." Nesses exemplos, o espaço para interpretações múltiplas.

acaba levando, novamente, para a


ESTUDOS em acampamentos questão da empatia .
de férias revelam variadas Quando se trata de empatia ,
estratégias de dominação
as mu lheres são c la rame nte
melhores que os homens. E talvez
sejam me lhores não some nte
em comunicação, mas em todos
os asp ec tos da linguage m. As
mul heres produzem, em média,
mais palav ras num determi nado
período, cometem menos erros e
se saem melhor quando se trata de
discrim inar fo nemas. Suas frases
gera lmente são mais longas; suas
falas costumam obedecer a um
padrão de estrutura gramatical e
são mais bem pronunciadas. Elas
ta mbé m têm ma is facilidade de
articular as palavras. A maioria
dos ho mens abusa das pausas. E
f em term os cl ínicos, eles são pelo
e menos duas vezes mais propensos
~
~ a distú rbios de linguagem, como
~ a gagueira.

20 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


Além de tudo isso, as meninas
começam a falar, em média, um mês
antes dos meninos, e seu vocabulário
é mais extenso. Uma análise minu-
ciosa das diferenças nas competên-
cias de linguagem nos mostra que
o cérebro feminino não tem apenas
maior aptidão para a empatia, ele
é também superior em termos de
comunicação verbal. Interessante
notar, porém, que se a primeira idéia
nunca foi questionada pela ciência,
a segunda, no entanto, é alvo de
controvérsias e de reflexão.
Em primeiro lugar, é possível
que a superioridade feminina
para se comunicar por meio das
palavras seja parte integrante do
desenvolvimento de sua empatia.
Habilidades de linguagem, como
memória ve rbal, são essenc iai s
para uma boa conversa, tornando
a interação agradável, fluente
e voltada para a socialização e
intimidade. Longas pausas nos
diálogos não contribuem para que
os parceiros se sintam conectados
ou em sintonia.
Em segundo lugar, algumas
medidas de avaliação da lingua-
gem, como compreensão de leitura,
podem realmente refletir a capaci-
dade de empatia. As meninas, por ao interlocutor a oportunid ade mais empático, rápido e estratégico HABILIDADES
exemplo, costumam se sair melhor de dizer algu ma coisa; sinal de da linguagem. Neste ponto, porém, VERBAIS
femininas
em testes de leitura, mas isso se pouca capacidade de ceder a vez a conclusão mais segura é a de que provavelmente se
deve ao fato de elas terem mais e de agi r com empatia . E aquelas elas são melhores tanto em empatia desenvolveram
facilidade para entender histórias pessoas que são ouvintes pacien- como em muitos aspectos do uso da como estratégia
de sobrevivência
com temas sociais. tes e sensíveis, que respondem linguagem. Pode-se concluir ai nda
no mundo
Por fim , é improvável que a com afeto e empatia aos proble- que a relação entre essas duas ha- masculino
maior sensibilidade emocional mas alheios, mas não são dadas a bilidades seja provavelmente com-
observada no sexo femin ino seja muitas palavras . Habilidades de plexa e recíproca tanto do ponto de
apenas um subproduto de suas linguagem, por ta nto, não têm vista filogenético (evolutivo) como
habilidades de li nguagem supe- nada a ver com habilidades de ontogenético (desenvolvimento): a
riores, já que todos conhecemos comunicação ou empatia. linguagem bem desenvolvida pro- Diferença essencial
- A verdade sobre o
gente mui to hábil em matéria Uma visão darwiniana diria moveria empatia, já que o impulso
cérebro de homens e
de linguage m, mas com pouca que a empatia não é resultado de de se comunicar levaria à sociali- mulheres. Simon Baron-
sensibilidade social e vice-versa . habilidades de linguagem excep- zação. Por outro lado, a empatia Cohen. Editora Objetiva,
cionais, pelo contrário. As mulheres ajudaria a desenvolver a linguagem, 2003.
Da mesma form a, todo mundo
Você simplesmente
co nhece alg ué m verba lm ente podem ter desenvolvido melhor pois a sensibilidade social tornaria
não me entende.
flue nte que, no entanto, não seus sistemas li ngüísticos porque mais fácil enfrentar o pragmatismo Deborah Tannen. Editora
consegue para r de falar, negando sua sobrevivência dependia do uso da comunicação. Best Seller, 1990.

www.mentecerebro.com.br 21
. HOMENS

M
en inos e meninas costumam brincar de jeitos
diferentes. Ainda pequenos, os garotos fre-
qüentemente se interessam por aviões, carros,
caminhões e armas; gostam do ronco dos motores, dos
estampidos e das sirenes. Por volta dos 2 anos já demons-
tram forte interesse por blocos de construção e brinquedos
mecânicos, enquanto as meninas preferem brincar com
bonecas e vestir roupas e experimentar acessórios.
A criança vai crescendo e o padrão se mantém: eles
dedicam mais tempo do que elas aos brinquedos mecâni-
cos (miniaturas de veículos, por exemplo) e de construção
(como blocos para empilhar). Parecem adorar as mon-
tagens e constroem torres e cidades. Com freqüência,
sentam-se, admiram a obra construída para, em seguida,
desmanchar tudo. Eles gostam também de brinquedos
cujas fu nções sejam óbvias - com botões que possam
pressionar, luzes que se acendam e aparatos que movimen-
tem outros objetos. Ou seja: meninos adoram sistemas.
Podemos entender a sistematização como o impulso de
compreender e construir conjuntos de elementos materiais
ou ideais relacionados entre si.
Embora seja possível imaginar que isso só vale para
garotos da sociedade tecnológica ocidental, registros
históricos revelam que o mesmo padrão já era encontrado
em comunidades pré-industriais. Nos dias de hoje, esse
funcionamento é encontrado no ambiente profissional.
Algumas ocupações são quase inteiramente masculinas,
como metalurgia e a fabricação de armas e de instrumentos
musicais. Ou a construção e fabricação de embarcações.
Não se pode dizer que esse fato seja reflexo da maior força
física dos homens, já que em muitas dessas tarefas- como a
fabricação de facas ou de violinos- a força não é importante;
o foco são os sistemas de construção.
Como estabelecer uma ligação entre as observações de
brincadeiras de bebês e crianças e o funcionamento neuro-
lógico e cognitivo de adultos? Um elo possível está no fato
de que a atenção de homens e mulheres é atraída, desde
cedo, por diferentes aspectos do ambiente. Em um teste
fascinante, replicado inúmeras vezes nos últimos anos nos
Estados Unidos, é mostrada a homens e mulheres uma série
de figuras humanas e de objetos mecânicos. Foi utilizado
equipamento que permite que imagens da figura humana
e de objetos apareçam simultaneamente na mesma área do
campo visual - o que provoca uma "competição" entre os
dois estímulos pela atenção do observador. Invariavel mente,
em todas as edições do teste, os homens perceberam mais
sistemas mecânicos do que pessoas, enquanto as mulheres
garantiram ter visto mais pessoas do que objetos.
No mundo industrializado, profissões ligadas ao estudo
da matemática, da física e da engenharia exigem alta capaci-
dade de sistematização. Podemos até pensar que essas áreas

22 MENTEótCÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


r'l"l
N
Em culturas de conhecimento são equivalentes, observado em di ferentes ciências, que se situam na faixa mais alta de
nos adultos, às brincadeiras infantis porém, sugere algo mais sutil. Pes- pontuação no Scholastic Aptitude
tão diversas com objetos mecân icos e blocos quisa fei ta nos Estados Unidos pela Math Test (SAT-M), um tes te
quanto as de construção. Na fabricação de National Science Foundation reve- de aptidão matemática ap licado
instrumentos de precisão, porém, lou que apenas 23% dos cientistas nos Estados Unidos a todos os
de países candidatos às universidades.
se um detalhe for modificado nos que atuam no ramo da biologia são
como Estados dados de entrada do sistema ou se mulheres- a percentagem cai para Outra explicação possível é que
Unidos e ror alterada a operação, o resultado 5% em física e 3% em engenharia. não haveria nenhuma orientação
pode ser radicalmente afetado. Em outros países, foi encontrado tendenciosa externa nas seleções;
Tailândia as Mude um número da fórmula ou o mesmo padrão, embora não haja homens e mulheres estariam sim-
garotas se a largura do equi pamento e todo o evidência de que essas duas últimas plesmente escolhendo áreas da ciên-
sistema deixa rá de funcionar. escolhas ofereceriam carreiras pro- cia nas quais têm mais interesse ou
saem melhor Todas as ciências utilizam como fissionais menos favoráveis. maior aptidão. Neste caso, "escolha"
com cálculos base a sistematização e, em geral, é um termo impreciso (pelo menos
são dominadas por homens. É LÓGICA E NÚMEROS se não considerarm os as opções
e computação; quase inevitável a observação de Uma explicação possível para a pautadas nos determinantes incons-
os garotos se que apenas três dos 170 ga nhadores diferença de representa ntes ho- cientes, a respeito dos quais não
vivos do Premio Nobel são mulhe- mens c mulheres nessas áreas é discutiremos neste tex to) - já que
destacam na res. Nos anos 70, a proporção de que o processo de seleção para nossas ocupações nem sempre são
resolucão de
~
homens e mulheres atua ntes nos esses cursos seria tendenc ioso resultado de uma opção consciente,
campos de matemática, física e por utilizar métodos de raciocínio mas simplesmente das oportunida-
problemas engenharia era de nove para um- e matemático. Tal critério não deixa des que se apresentaram. Emprego a
assim continua até hoje. O mesmo de ser razoável, já que a habilidade palavra "interesse" porque a escolha
acontece nas áreas em que se aplica com números e lógica é um bom da ocupação pode ser guiada não
o modelo matemático em relação à recurso para previsão do sucesso somente pela facilidade de desem-
economia e à estatística. nesses campos. No entanto, pode penhar determinada ta refa, mas
CAPACIDADE DE A diferença é significativa, mes- ser que a matemática desequilibre a também por nossas preferências.
LOCAUZAÇÃO: eles mo se levarmos em conta fatores proporção entre homens e mulheres O pesquisador Johnny Lawson,
cometem menos
culturais e sociais que afastaram em física e engenharia. Confirmando doutorem psicologia pela Universi-
erros ao destacar
pontos importantes representantes do sexo fem inino esses indícios, temos a proporção dade de Cambrige, utilizou um teste
em mapas de determinados campos. O padrão de dez homens para uma mulher que chamou de Physical Prediction
Q uestionnaire (Questionário de
Previsão Física) para verificar se
homens e mulheres compreendem
de maneiras difere ntes o processo
de uso de alavancas (dados de entra-
da) ligadas a diferentes mecanismos
(rodas dentadas encaixadas de várias
maneiras) para afetar o movimento
de algumas barras (resultado). As
barras subiriam ou desceriam{ Os
homens se saíram melhor na tarefa
de prever os resultados, o que não
pode ser relacionado a nen hum
viés eventualmente provocado por
um entrevistador sexista, já que o
questionário foi enviado por e-ma iI
e respondido pelos voluntários.
Portanto, sem negar a existên-
cia de possíveis fatores sociais na
criação de desigualdades entre

24 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


cientistas homens e mulheres,
acredito que devemos continuar
abe rtos à possibilidade de que
pessoas de ambos os sexos se
sintam mais atraídas por determ i-
nadas atividades.
Vamos olhar a matemática com
atenção. Com muita freqüê ncia,
na escola, os meninos tiram notas
mais baixas do que as meninas em
matemática (ver artigo "Na sala de
aula'; pág. 62). Isso parece contra-
riar a afirmativa de que o cérebro
masculino seja melhor sistematiza-
dor. No entanto, embora marquem
menos pontos pela precisão, os
ga rotos se saem mel hor nos testes
de habi lidade matemática. Apesar
de os trabalhos escolares dos me-
ninos serem menos organizados,
eles tendem a encontrar soluções
mais rap idamente.

EM TODO O MUN DO
As garotas, porém, se destacam em
determinados aspectos da habili-
dade matemática. Durante os anos
de estudo, elas se saem melhor em meninos e meninas. O mesmo ar- e Tailândia as garotas se saem melhor PROASSÕES ligadas
testes de sentenças matemáticas e de gumento pode ser aplicado aos pais. com cálculos e no estudo de compo- à engenharia e à
metalurgia exigem
raciocínio como o cálculo. Supõe-se Estudos multiculturais sugerem nentes de computação; garotos se alta capacidade
que a razão para isso é que para essas que, na idade pré-escolar, podemos destacam na resolução de problemas. de sistematização,
tarefas seja mais fá ciI usar estratégias dizer que não há diferenças entre me- No teste de aptidão para a ma- uma característica
masculina
verbais e a faci lidade nesse quesito ninos e meninas nas habilidades ma- temática SAT-M, rapazes marcam,
é uma qualidade principalmente temáticas primárias, como contagem em média, 50 pontos a mais do que
feminina. Quando se trata de tarefas básica, numerosidade (idéia de mais as moças. Quando os resultados são
nas quais as estratégias verbais são e menos), ordinal idade (sucessão dos separados em faixas, ocorre algo
menos úteis- como geometria, pro- números) e aritmética simples (adição interessante: as diferenças aparecem
babilidades e estatística- as garotas e subtração). As diferenças entre os de forma ainda mais marcante nas
costumam ter notas mais baixas. sexos só surgem em domínios mais fa ixas superiores de desempenho.
Essas diferenças na área foram avançados, como geometria, com os Entre os participantes que marca-
documentadas em crianças de sete quais as crianças só terão contato nos ram mais de 500 pontos, encontra-
anos. A psicóloga Doreen Kimura anos mais adiantados da formação se uma relação entre masculino e
lembra que o mesmo professor escolar. Podemos até ceder à tentação feminino de 2 para I; acima de 600,
ensina cálculo (em que as garotas de concluir que esse cenário demons- a relação sobe para 6 para I e, acima
se saem melho r) e solução de tra o papelexercido pela cultura e pela de 700 pontos, chega a 13 para I.
problemas (em que os garotos apre- educação na geração de diferenças, Um panorama semelhante se
senta m melhor rendimento); assim, mas estudos multiculturais revelam desenha na Olimpíada Internacio-
fica difícil atribuir ao estilo e às o mesmo padrão variável entre os nal de Matemática, em que com-
expectativas gerais do profissional sexos no mundo todo. Em culturas petem os melhores matemáticos
a responsabilidade pelos padrões tão diversas quanto as de países do mundo. Durante a competição,
de de sempenho diferentes em como Estados Unidos, China, Japão 85 países apresentam seus seis me-

www.mentecerebro.com.br 25
Algumas lhores matemáticos, selecionados Algumas técnicas psicológicas lhe é apresentado um modelo em
em concursos nacionais. A relação podem ajudar a com preender as terceira dimensão de um retângulo
técnicas dos vencedores está na internet dife rentes maneiras de homens luminoso (a moldura) com uma
psicológicas e os que tiverem a curiosidade e mulheres enxergar o mundo e haste luminosa dentro dele. A figura
de consultar verão, pelos nomes trabal har com inform ações que é girada em diferentes direções e
podem ajudar
- Sanjay, David, Sergei e Adam, apreendem. O teste tarefa do nível pede-se à pessoa que posicione a
a compreender por exemplo - que quase todos da água ( Water leve/ task), criado haste de modo que fique em posição
as diferentes são do sexo masculino. pelo educador e psicólogo in fantil vertical. Comprovadamente, alterar
suíço Jean Piaget, é uma delas. Ele a inclinação da moldura não afeta
maneiras de NÍVEL DA ÁGUA propôs que fosse apresentada aos a posição da haste. Se a idéia de
os homens e Essa tendência se man teve em participantes uma garrafa inclinada verticalidade for influenciada pela
todos os países e em todos os anos em um determinado ângulo e que inclinação da moldura, diz-se que
as mulheres em que houve o torneio. Interes- se pedisse a eles que estimassem a pessoa é "dependente do campo":
enxergar o sante: a C hina sempre consegue o nível do líquido dentro do reci- seu julgamento é facilmente alterado
incluir uma mulher na equipe. No piente. As mul heres, com mais fre- pelos (irrelevantes) dados de entrada
mundo e entanto, pelas médias de grupo qüência, deduzem que a água deve do contexto. Se o participante não
trabalhar com para os dois sexos, é muito mais estar ali nhada com a inclinação da se deixar influenciar pela inclinação
provável que os melhores mate- garrafa, mas a resposta certa é que, da moldura, podemos dizer que é
as informacões máticos sejam homens. O pano- qualquer que seja a incli nação, o "independente do campo": a com-
"
que apreendem rama geral sugere que os homens nível será sempre horizontal. preensão só leva em conta os fatores
superam as mulheres nesse campo A mesma vantagem masculina relevantes intrínsecos ao sistema.
(isento de qualquer componente é observada em um teste similar, o Segundo a maioria dos estudos,
verbal) desde a escola até os níveis da haste e da moldura. O volun tá- as mulheres são mais dependentes
mais altos de escolarização. rio vai para uma sala escurecida e do campo: tendem a se distrair por
aspectos irrelevantes, em vez de
considerar o sistema. Elas costumam
DESDE A INFÂNCIA dizer, erroneamente, que a haste
garotos preferem fica em posição vertical quando em
construir sistemas
alin hamento com a moldura.

ESPAÇO E FOCO
)á no teste das figuras encaixadas
pede-se ao indivíduo que olhe para
uma figura simples (o objeto) e a
identifique dentro dele um padrão
mais complexo (onde seu fundo se
encaixa). Homens costumam ser
mais rápidos e precisos em suas res-
postas. Este pode ser considerado
um exercício de sistematização, já
que a forma do objeto só permite o
encaixe em uma posição e em lugar
determi nado. Em outras palavras:
existe uma regra que descreve essa
relação. Se pensarmos no padrão
complexo do fundo como um
> motor de carro, por exemplo, e no
! objeto como uma das peças, esta
lo só pode ser colocada no motor
~ em uma determi nada posição para

ª
~ completar o sistema.
Talentos e estereótipos

Um novo estudo sobre gênero, desenvolvido pela professora de psico-


logia janet Shibley Hyde, da Universidade de Wisconsin, em Madison,
revela que as diferenças entre homens e mulheres talvez não sejam
tão marcantes como muitos pesquisadores acreditam. Para chegar a
essa conclusão, Hyde realizou a revisão dos 46 estudos sobre gênero
mais importantes dos últimos 20 anos.
"Claro que há diferenças emocionais e cognitivas entre os sexos.
Os homens, de fato, são mais agressivos fisica mente", observa. já os
problemas de auto-estima na adolescência, geralmente associados ao
comportamento feminino, afetam igualmente os rapazes Mas para a
psicóloga, o estudo mostra que tendemos a nos concentrar mais nas
diferenças do que nas similaridades e exageramos qualquer descoberta
científica que aponte pequenos contrastes.
"Se aceitamos que os homens não se comunicam bem, quais as
implicações disso para o casamento? Por que uma mulher tentaria
conversar com seu marido para resolverem seus problemas se ele fosse
incapaz de compreendê-la?", questiona. "Se temos certeza de que os
meninos são melhores em matemática, ignoramos o talento mate-
mático de muitas meninas." Isso implica limitação das oportunidades
profissionais das mulheres em áreas tecnológicas e científicas. "Em vez
de continuarmos a acreditar em psicólogos de programas de auditório,
precisamos dar ouvidos a dados científicos que nos dizem quando es-
tamos nos aferra ndo a falsos estereótipos", sugere Hyde. (Da redação)

Os homens também são capa- Os meninos tendem a enfati zar melhor compreensão direcional do
zes de aprender um caminho em direções, rotas ou sentido de dire- mapa. Outros estudos do ti po cos-
um número menor de tentativas, ção, enquanto elas dão ênfase a pon- tumam chegar a resultados similares.
com o auxilio do mapa, lembrando tos especificas - a loja da esquina, Algumas experiências podem ser
corretamente mais detalhes sobre por exemplo. Essas duas estratégias realizadas de maneira informal. Por
direção e distância. Em estudos que - marcação de direções versus exemplo: leve um grupo de crianças
tive a oportunidade de acompanhar, destaque para pontos específicos com idades em torno de oito anos a
pedi mos a alguns meninos que - têm sido bastante estudadas. A um local desconhecido, dê a elas um
fizessem um mapa de uma área que estratégia direcional é um exemplo mapa e depois peça que desenhem a
só visitaram uma vez e seu trabalho de compreensão do espaço como área. As meninas incluem mais ele-
foi bastante preciso, mostrando, por um sistema geométrico e o foco em mentos da paisagem e os meninos,
exemplo, qual a paisagem a sudeste caminhos revela a consideração do mais caminhos. Se a experiência for
de uma estrada. Se levarmos em ambiente como sistema. repetida com um segundo grupo
conta a organização e apresenta- Em outro estudo, foi mostrado com o mapa e o passeio pelo local
ção desse material, porém, o risco aos voluntá rios o mapa de uma reduzidos à metade, para dificul tar Diferença essencial
- A verdade sobre o
de termos uma tarefa considerada cidade fictícia. A tarefa era aprender um pouco a tarefa, os meninos cérebro de homens e
"insatisfatória" é bastante gra nde. Já determinado caminho. Os homens ainda assim se lembram melhor das mulheres. Simon Baron-
as meninas mostraram a tendência cumpriram a tarefa em menos tem- posições relativas dos lugares. O Cohen. Editora Objetiva,
2003.
de organizar melhor o trabalho, po, com menor número de tentativas cérebro masculino "arruma" os ele-
Você simplesmente
mas produziram mapas com maior e de erros. Mais uma vez, as mulhe- mentos em um sistema geométrico
não me entende.
quantidade de erros de localização res se lembravam principalmente ou de rede; o feminino marca os Deborah Tannen. Editora
de pontos importantes. da paisagem, enquanto eles tinham elementos descritivamente. nec Best Seller, 1990.

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• SEXUALIDADE

E
m média, ele dura d ez segundos - ta nto para
h ome ns quan to para mulhe res. Um a pessoa
sexua lmente ativa desfru tará das sensações d o
orgasmo por aproximadam ente um minuto por mês.
Com a freq üê nci a médi a de um a ou duas relações
sexua is por sema na, a ma ioria exp erimenta al go e m
torno d e 12 m inutos de êx tase e m um ano. Ao longo
de 50 anos de vi da se xual, p odemos es perar, com
o ti m ismo, umas dez horas- o u ta lvez o dobro disso
para o mastu rbador mais ávido .
Considerando-se o tempo que passamos pe nsando
em sexo, nos preocupa ndo com o assunto ou a nali-
sando nossas performances, o emprego de todo esse
tempo e ene rgia pode parecer exagerado. No e ntanto,
a combinação do jorro de se roto nina que acompanha o
orgasmo e o relaxamento muscular momentâneo que se
segue possivel mente representa a droga mais pote nte e
difundi da à qual o ser huma no tem acesso. E mesmo se
não for mos "depende ntes" desse processo químico (e
tudo que o antecede) é quase im possível ignorar os ape-
los sociais e culturais à valorização do prazer. Nos anos
60, o teólogo britânico Malcolm Muggerid ge observou
que "o orgasmo substituiu a cruz como foco de anseio e
miragem de real ização plena". U ma década depois, quase
todas as revistas femin inas (e ulti mamente, masculinas)
do mundo tornariam obrigatório incl uir em suas páginas,
a cada mês, um artigo relacionado ao tema.
Apesar da importância conferida ao orgasmo em
praticamente todas as culturas, em d ifere ntes é pocas (seja
para almejá-lo ou tentar evitá- lo por princípios morais ou
rel ig iosos), dos avanços da ciência e das transformações
cultura is, sua história ainda é reple ta de lacunas - que
podem ser preenchidas por saberes da psicologia, neu-
rociências, psicanálise, biologia, antropologia, tecnologia
e sociologia e literatura.
O primeiro ato sexual, o exemplo ma is antigo de duas
criaturas semelhantes entrando em contato ínti mo com o
objetivo de combinar seu material genético para criar um
novo ser, provavelmente ocorreu há 1,5 bilhão de anos
a.C., no fundo dos oceanos. Posteriorme nte, o intercurso
sexual tornou-se o método normal de reprodução para
prat ica men te todos os a nimais. Mas, alguns autores
acredi tam que o primeiro ato sexual entre dois ind iví-
duos semelhantes, em situação de ig ua ldade, buscando
contato íntimo para se d arem prazer físico e emocional,
num contexto de harmo nia, sem intenção de reprodução
pode muito bem ter ocorrido apenas em algum mome nto
do século XX, provavelmente em algum local d a Europa
Ocidental ou da América do Norte.
Embora o sexo não seja de modo a lgu m algo novo
ou p ertinente apenas aos seres humanos, o orgasmo

28 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


Grande parte - no sentido de uma recompensa temente da resposta femi nina a ele. seco", que pode resultar de várias
neu rológica sutil, uma sensação Segundo o pesquisador britânico disfunções sexuais, assim como
das obras da prazerosa que pode ser usufruída Rob in Baker, porém, mulheres pode ser conscientemente cultiva-
literatura e da tanto por homens quanto por podem reter um pouco mais de do - sobre tudo pe los praticantes
mulheres fora do contex to repro - esperma depois de relações sexuais do sexo tântrico, numa tentat iva
arte mundial dutivo, é algo bastante novo na em que tiveram o orgasmo do que de preservar a energia sexual e
está voltada escala evolutiva. Afina l, o Homo naquelas em que não atingiram o a e reção por longos períodos.
snpieus pode ser considerado um ápice. O sexólogo garante que elas A própria pulsação muscular do
ao anseio recém-chegado ao mundo - e o podem "puxar" o esperma através orgasmo, contudo, serve para fa-
interminável, o rgasmo é um fenôme no comple- do colo pa ra o útero enquanto cilitar a concepç ão, "e mpurrando"
xo e sofisticado quase exclusivo o orgasmo está ocorrendo. Esse, o esperma pela ex tensão de 8 a 13
inestancável
dessas criaturas bípedes. entretanto, é um efeito colateral. cent ímet ros do canal vagi nal.
e ávido pelo Os orgasmos femininos cos- O gozo, em si, é funcionalmente Para bilhões de mulheres, po-
prazer tumam ser mais raros, repl e tos desnecessário à concepção. rém, nem a afirmação de Baker de
de prazerosas contrações mus- que o orgasmo ajuda a concepção
c ulares múltiplas, c apazes d e EFEITO TESTOSTERONA nem o modelo de o rgasmo femi-
provocar experiê nc ias em gera l Muitas vezes o êxtase masculino nino como um praze r melhor do
mais intensas que a dos homens é compreendido como sinônimo que aquele que os homens possam
ao ejacular-uma sensação fugidia puro e simples da ejaculação - o senti r algum dia signi ficam muita
que, quando não há afeto no ato, que é um equívoco. Enquanto a coisa. Isso porque o prazer orgásti-
confe re apenas alívio. Há, poré m, ejaculação refere-se à expulsão co permanece elusivo em boa parte
discrepâncias mais fundamenta is fisi ológica d o Auido seminal, o da vida das mu lheres, ou por toda
entre as experiências orgásticas orgasmo é o clímax, o auge d o a vida. Mesmo no mu ndo atual,
vividas pelos dois gêneros. prazer sex ual. Os dois geralmente supostamente mais informado, ain -
Já o orgasmo mascu lino é coinc idem, mas são reconhecidos da é algo muito raro. O professor
praticamente essencial para haver pe la c iência c omo processos de antropologia Lionel T iger, da
RECOMPENSA
NEUROLÓGICA: re produção. Embo ra exista polê- di stintos, que podem ocorre r Universidade Ru tgers, estudioso
sensações mica, em relação às mulheres, não independentemente. U ma por- da obra de Charles Darwin, afi rma
prazerosas ao há comprovação de que o orgasmo ção de sêmen pode ser emitida em seu livro The pt1rsuit of plensure (A
atingir o clímax
tenha outro papel, que não garan- mesmo antes de o homem ficar busca do prazer), de 1992, que "a
sexual são quase
que exclusivas tir o prazer, já que a fecundação se muito excitado sexualme nte. E quantidade bruta de prazer racio-
dos bípedes dá após o intercurso, indepe nden- a maioria deles conhece o "gozo na l é bem menor do que deveria
ser". Para ele, o orgasmo humano
pode ser considerado "uma obra
e m progresso".
Mas essa evolução implica uma
história. Pelo estudo de sociedades
primitivas sobrevive ntes e isoladas
-muitas com linguagens e costu-
mes específicos a respeito dos or-
gasmos masculino e feminino- po-
demos acredi tar que o fenômeno
existe há aproximadamente 100
mil anos, desde que os humanos
estão "civilizados". E examinando
o quadro daqueles dias até agora,
podemos dize r que, longe de ser
apenas um fenômeno neurológico
como o piscar de olhos, o orgasmo
tem tido e norme importância em
relação ao modo como as pessoas
evolu íra m co mo o rga ni sm os e
constitu íra m soc iedades. Ele tem
sido fund amental princ ipalme nte
para defi nir como heterossex uais
e ho mossexuais formam e mantêm
pares, é c ruc ial para compree nder
o s modos como a fa mília humana
se desenvolveu, como vivemos jun-
tos em comunidades mais amplas
sob restrições relig iosas e legais,
e mesmo para modelar a maneira
como d istribuímos terra e outros
bens por meio de instituições como
casame nto e herança.
O fato é que buscar a sacie-
dade dos desejos, aind a que de
fo rma provisória, tem sido um d os
nossos impulsos mais pode rosos.
Sua importânc ia como ícone de
realização humana nunc a fo i tão
clara c omo nos dias de hoje. G ran-
de parte das o bras da lite ratura e
d a arte mund ial está voltad a ao
anse io interminável, inestancável e
ávido pe lo orgasmo; ao lo ngo dos do pelo h ipotálamo, na base d o mais de uma tarefa. Faz-nos sentir ASSIM COMO
séculos, a busc a pelo prazer tem cé rebro, e es tocado na hi pófise calorosos, satisfei tos e u nidos ao NOS BONOBOS,
os primatas mais
const ruído e destruído un iões e, posterior, é ut ili zado por homens parcei ro. Coo rd ena também o parecidos com
ocasiona lme nte, d inastias. e mu lhe res durante a ativ id ad e refl exo de e m issão do esperma os humanos, a
sexual e pelo o rganismo feminino no orgasmo masculino e, acred i- oxitocina contribui
para a form ação
VÍNCULO E AFETO no momento do parto. No fina l ta-se (a inda sem comprovação),
de casais
U m b o m argum e nto su st e nt a de uma gravidez, a oxitocina es- també m a rece pção d o líqu id o
que a testoste rona, o catalisador timula as contrações ute rinas e a se mina l no orgasmo fe minino.
químico do desejo em ambos os produção do le ite. Imediatame nte Como parte da ind ução de um
sexos, é o composto mais influente depois q ue uma mulher dá a luz, estado alterado da consciênc ia, a
na história humana. Ce rtame nte surge também o desejo de aninhar oxitocina liberada pelo orgasmo
não fo i ape nas por sensac io nalis- o bebê e protegê-lo. A oxitocina, d as mulheres as ajuda a permane-
mo que o zoólogo Desmo nd Mor- que func io na como cata lisado r cer imóveis por um tempo após o
ris chamou o Homo sapiws d e "o quím ico do corpo, induz se nsa- gozo. Isso au menta cruc ial me nte
primata mais sexy vivo", em 1968, ções de amor, altruísmo e te rnura, a probabilida de d e c o nce pção
t rês décadas antes de a Food and favorecendo a vinculação afetiva - assim como a chance de as mu-
Drug Ad min istratio n dos Estados e a satisfação. lhe res buscarem novos coi tos, na
Unidos ter aprovado o c itrato de N ão seria exagero, porta nto, tentativa d e usu frui r tanto quanto
sildenafi l (come rcializado como a fi rmar que quando a oxitoc ina d a última vez.
Viag ra), a prime ira pílula para flui através d e nossa corre nte A oxitocina é, portanto, muito
tratar a impotê nc ia masculi na. san g uínea se us efe itos po d e m ma is do que um efeito colatera l
Desde a pré -história aspec tos ser benéficos não apenas para o d o orgasmo ou um componente
neu ro lógicos já determinavam as ind ivíduo que os experime nta, necessário na fó rmula que contri-
sensações prazerosas v ividas pelos mas para a preservação da espécie. bui para a procriação. É o que faz
hu ma nos durante o sexo . O neu - Como oco rre com a ma ioria das do orgasmo a "camad a de açlkar"
ro t ra nsmissor c hamado oxitocina, o utras su b stâ nc ias produ zi d as da natureza para disfarçar a pílula
ou "hormônio d o amor", si ntet iza- pelo organismo, a oxitoc ina tem a ma rga d a reprodução, a base

www.menlecerebro.com.br 31
PINTURA DO
PERÍODO DE
VESPAS IANO:
cenas eróticas
eram comuns nas
residências de
Pompéia

química para nossa capacidade e dos dos pés de mu itas mulheres se torna rápida e superficial. Com o clí-
Homens
anseio de vinculação romântica. É contraem. Nos homens, os artelhos max, os amantes são tomados por
têm três a molécula que, por I00 mil anos ou freqüentemente se enrijecem e se contrações com intervalos d e 0,8
ou quatro mais, nos faz querer fazer sexo cara torcem. Os parceiros transpi ram, segundo. O auge sexual humano é
a cara, nos faz apaixonar e viver em arqueiam o dorso e tremem. Seus um paroxismo de prazer. A sensa-
contrações casais. A mesma substância é en- batimentos cardíacos aceleram ção de calor envolve a cintura e o
orgásticas, contrada em apenas uma espécie de fre neticamente e a respiração se peito e os músculos relaxam.
macaco, o bonobo, um chimpanzé
no máximo; existente em pequeno número no
Em vez de prazer, doença
o corpo Congo que, segundo alguns natu-
ralistas, está entre os primatas mais
feminino próximos dos humanos. Um único orgasmo raramente basta para as mulheres: elas são
pode naturalmente multiorgásticas. No livro A resposta sexual humana
CONVULSÃO SÍSMICA (Human sexual response), de 1966, os autores William Masters
preservar O que realmente acontece com e Virginia )ohnson, criadores da sexologia como especialidade
a sensação hom ens e m ulheres q ua ndo o médica, já afirmavam: "Se for estimulada imediatamente em
processo inic iado n os ce ntros seguida ao gozo, ela provavelmente sentirá uma rápida sucessão
prazerosa ne rvosos e psicogênicos chega de sensações similares. E essa não é uma ocorrência excepcional
por mats aos sistemas vascular e muscular e sim algo de que a maioria é capaz".
e a pessoa atinge o orgasmo? O Uma variação interessante do te ma surgiu em 2003, quando a
tempo
espasmo dura de alguns po ucos professora Sandra Leiblum e a psicóloga Sharon Nathan, do Cen-
segundos a um minu to, em situa- tre for Sexual and Relationship Health, d a MMDN)-Ro be rt Wood
ções excepcionais, mas é acompa- )ohnson Medicai School de Nova )ersey, relataram um tormento
nhado por uma intensa atividade até então desconhecido a que chamaram de síndrome persistente
fisio lógica . O s órgãos ge ni tais de excitação sexual. O distúrbio consiste no desejo constante de
são inflad os com sangue, o pulso orgasmo com que a mulher tem de lidar, de um modo ou de outro,
dispara, os músculos se contraem para funcionar normalmente. Segundo Leiblum, a síndrome foi
involuntariamente. Às vezes a boca identificada em apenas 50 pacientes em todo o mundo.
se abre, o rosto se contorce. Os de-

32 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


As emoções também entra m homem e da mulher relativamente específica a partes do co rpo e
numa es pécie de convulsão sís- similares quanto ao modo de sentir, ap rese nta ra m os resultados a
mica . Por tentar, o u fi ngir que as descrições feitas pelas mulheres um g rupo de 70 g inecologistas,
te nta m, aumen tar a espécie, os que responderam aos questionários uro logistas, psiquiatras e psicó-
dois pa rcei ros receb eram s u a da historiadora Shere Hite, usados logos. A conclusão de Vance e
recompe nsa. Uma névoa de bem- na elaboração de O relatório l-li te (The Wagner, publi cada nos Archives of
esta r e preguiçoso rela xamento Hi te Report), de 1976, sustentam Sexual Behavior, foi que só o palpite
obsc u rece t emporariame nte a vigorosamente que a experiência fe- poderia discriminar se os relatos
realid ade. Tanto h o mens como minina é mais poderosa e interessante ti nham sido fe itos por ho me ns
mulheres pode m rir o u c hora r, que a masculina. Na época, o livro foi o u mulhe res.
ou ficar incomumente sensíveis, saudado como revolucionário. Dei- Se a descoberta foi uma im-
e mbora tais reações seja m bem xando de lado eventuais equívocos, postura ou não é difícil saber, de
menos comuns nos homens, que H ite teve o importante papel de abrir qualquer forma, há uma significati-
tendem a de monstrar menos suas um caminho pioneiro, popularizan- va difere nça na gama de estímulos
emoções. Algumas pessoas experi- do informações sobre sex ualidade capaz de colocar cada gênero no
mentam um jorro de pensamentos fe minina, apresentadas de modo caminho d o orgasmo. Enquanto
criativos, o que é bastante compre- mais seco nos anos 50 pelo profes- determinados gestos "românticos" O ÍMPETO de
saciar desejos é
e nsível, uma vez que o o rgasmo sor americano Alfred C. Kinsey. O pode m apressar o orgasmo nas
fundamental para
provoca uma pequena tempestade zoólogo da Universidade de Indiana mu lheres, para muitos homens, a constituição
criativa do lado direito do cérebro. era uma autoridade mu ndial em a fantasia da do minação (mesmo da família
C umprido o "dever biológico", vespas ferozes antes que seus estudos
segue-se um período de exaustão sociológicos sobre o comportamento
e a necessidade de sono. sexual humano adquirissem status de
Em muitos casos, parece que a declaração de independência sexual
essênc ia da experiênc ia orgástic a do Ocidente, submetido a séculos de
supera a desconexão sensorial en- danos e mitolog ia.
tre os órgãos genitais e o cé rebro. Os do is p esquisadores de-
Isso acontece porque este último mons t raram que a ma ni pulação
não é o único ó rgão responsável do clitóris era o melhor- ou, em
pela exc itação: a medula espinhal muitos casos, único- modo de as
també m tem papel fundamental mulheres terem orgasmos. Hite
nesse processo. A ativ idade in - afirmou: "A maioria delas simples-
dependente d a medula ex plic a mente não obtém prazer exclusi-
por que deficientes físicos podem vamente por me io da penetração",
ter ereções e gerar filhos, embora e Kinsey sustentou que, do ponto
em geral não tenham as mesmas de vista anatô mi co, "as técni cas
sensações sexuais que pessoas sem de masturbação e as carícias são
problemas de locomoção. mais adequadas para provocar o
orgasmo que o coito".
BEM PARECIDOS Estudos acadê micos mais re-
Descrições de homens e mulhe res centes sugerem que o orgasmo de
com danos na medula, que tinham homens e mulheres pode ser mais
vida sexua l ativa, transcendem os parecido do que imaginamos. Em
relatos a respeito de mera ejacu- 1976, os pesquisadores da sexual i-
lação e contrações musculares. dade humana E. B. Vance e N. N.
Eles relatam sensações como "for- Wagner recolheram descrições da
migamento prazeroso", "tepidez", sensação de orgasmo de 24 alu nas
"sentime nto de unid ade com o e 24 alunos de c ursos de psicolo-
parceiro" e "li be ração de e nergia". g ia de universidades americanas.
Ao contrário da tendência mo- Eles removeram cuidadosamente
derna que considera o orgasmo do dos tex tos qua lque r referência

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Cérebro "desligado"

A curiosidade dos pesquisadores d o cé rebro não tem fro nteiras.


Afinal, todo drama humano acontece na cabeça - e mu it a s vezes
també m atrás das portas de alguns laborat ó rios. No laboratório
de Gert Holstege, na Universidade d e Groninge n, Holanda, é
possível ouvir gemidos. Pois o mé dico estuda, por meio da to-
mografia por emissão de pó sitrons (PET}, a atividade cere bral
do home m e da mulher no momento do clímax sexual.
O mé todo adotado na pesquisa m e d e o fluxo sangü íneo
no cé rebro. Ho lstege chego u ao seguinte resultado: durante
o orgasmo, b oa parte do cé rebro fe minino se d esliga. Uma
parte do tronco encefá lico, co nhecida como á re a tegme ntar
ventral (também ativa em pessoas sob o efe it o d e drogas) e
o cere belo continuam a trabalhar timidamente, mas o grande
ce ntro re lacionado à emoção, o sist e ma límbico, permanece
inativo durante o clímax.
O pesquisador ainda não tem uma e xplicação plausíve l para o
"ble caute". A comparação do me smo fenô me no no sexo oposto
perma nece falha : a medição por PET pre cisa ser ma is refinada
para o estudo do orgasmo masculino.

Há mais que consentida) costuma d isparar facilmente terá sido a motivação D o ponto de vista científico e
a fag ulha o rgástica. Na verdade, primordial dos soldados estupra- fisiológico o orgasmo femin ino é
de 100 mil agressão e orgasmo masculino es- dores? Ou os estupros seriam uma semelhante ao masculino. Há um
anos, o tão estre itamente ligados: o tecido forma de obter gratificação tempo- processo análogo à ereção (inchaço
nervoso do cérebro associado ao rária por meio da agressão instigada e rigidez, com a excitação, da área
hormônio impulso agressivo mostra-se tão pela raiva? A motivação certamente em torno da uretra) e à ejaculação
oxitocina e ntrelaçado com a transmissão das seria a agressão, exatamente como no momento do êxtase (com a se-
me nsagens sexuais que é difíc il nos casos comuns de estupro. O creção de uma pequena quantidade
nos faz separar os dois. desejo de dom ínio e controle de de fluido esbranquiçado, si mi lar ao
querer ter A correlação aparen temente outro ser humano, alimentado por plasma das glândulas de Skene e a
sexo, nos inextricável entre sexo e violência um padrão da infância de exposição glândula parauretral).
pode ser o b servada com mais à violência, além de crenças (basea-
apaixonar e prec isão no comporta me nto d e das em fatos concretos ou fantasias) NA IMENSIDÃO
viver a dois soldados em situações de conflitos. a respeito da própria inadequação Como a existência da ejaculação
O ava nço do exército soviético em são nitidamente os elementos mais feminina não é amplamente co-
direção a Be rl im, em 1945, longe importantes pa ra o est uprador nhecida, embora as mulheres sejam
de ser o primeiro exemplo, foi sem - ma is do que qualquer súbito e tão capazes quanto os homens
dúvida o mais documentado. Pelos urgente desejo de satisfação sen- de ter polução noturna, muitos
cálculos d o h istoriador Antony sual. Beevor acredita que, no caso acreditam, equ ivocada mente,
Beevor, os 2,5 milhões de homens do Exército Vermelho em 1945, o q ue tal líquido é uri na; por ta l
foram responsáveis pelo estupro de oportunismo sexual, realçado pelo mo t ivo, nos tensos minutos antes
2 milhões de mulheres alemãs na sentimento entre os russos de que do orgasmo, as mulheres tendem
Prússia Oriental. Várias delas foram as alemãs já estavam "efetivamente instintivamente a apertar e contrair
violentadas por vários soldados. mortas", sem nada a perder, de- as paredes vaginais e a bexiga.
A satisfação sexual obtida por sempe nhou papel importante na Após chegar ao platô, contudo, ela
meio de um orgasmo conseguido tragédia de tantas pessoas. involuntariamente libera a tensão e

34 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


experime nta um rápido relaxamen- Algumas mulheres relatam que intensa, talvez da mesma ordem AVANÇO DE
to muscular; a pequena quantidade a passagem ejaculatória do liquido do clímax físico concentrado, q ue SOLDADOS
soviéticos em
de ejaculação que estava retendo através da uretra durante o orgas- os homens sentem com o jorro Berlim, em
e o sêmen masculino (se é que mo co ntribui para que tenham do líquido através do pênis. No 1945: estimativa
existe algum), saem de seu corpo. um a se nsação ma is poderosa e e ntan to, não podemos ter certeza de2 milhões
estupros
disso, já que uma das caracterís-
Em vários pontos ticas mais intrigantes da questão
repousa justamente no fato de que
Nos últimos anos, muito se escreveu e se falou a respeito do orgasmo ninguém, em toda a história da
da mulher. Em diversas ocasiões, teóricos postularam haver mais de um humanidade, sentiu as duas fo rmas
tipo de orgasmo feminino. O "vaginal" foi sugerido por Freud no início de orgasmo. As descrições femi-
do século passado. Segundo sua hipótese, o "clitoriano" podia ser com- ninas, porém, sugerem a homens
preendido como um sinal de "imaturidade sexual". Ou seja: a mulher de- invejosos que as mulheres con-
veria at ingir o clímax com a penetração. Na época, Fre ud não dispunha seguem um rendimento melhor
de muitas das informações a respeito da anatomia genital feminina às de sua anatom ia mais complexa
quais temos acesso hoje- o que certamente influenciou sua suposição. - ou então elas simplesmente são
Com o avanço da medicina e o reconhecimento do clitóris como menos reticentes nos relatos de
local do prazer sexual da mulhe r, na segunda metade no século XX, suas emoções: "U m estado alte-
foram lançadas novas luzes sobre o tema. Embora hoje se saiba que rado de consciência", "euforia",
o fenômeno orgástico pode ter início em vários pontos do corpo, não "uma experiê ncia espiritual" e
há dúvidas de que por causa do farto enervamento da área a maioria "um sentime nto oceânico, grande
das sensações prazerosas vividas durante o orgasmo concentra-se demais". A evocação da metáfora
nessa delicada parte da anatomia. Não é de sestranhar, portanto, que com a imensidão e o mistério do -
A história íntima
atualmente a maioria dos psicanalistas veja com ressalvas a hipótese de mar levou Freud a considerar que
do orgasmo.
Freud sobre a relação entre maturidade psíquica e tipos de orgasmos tal sensação estivesse na raiz de jonathan Margolis.
todas as relig iões. ~ Ediouro, 2006

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I

o
5:
o
VI
VI
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c
~
o
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á pensou ser discriminado por exibir alguma caracterís-

J tica determinada biologicamente, como a cor dos olhos,


ainda que você se sinta bem com isso e não consiga ima-
giná-los de outra cor? Imagi ne também se dezenas de teóricos
e grupos militantes escrevessem livros inteiros explicando
como, por innuência dos pais, para agradar aos amigos ou
por causa das más companhias, você "escolheu" tê-los assim.
Além de tentarem convencê-lo disso, exigem que você mude
a cor deles. Soa angustiante? Ao que tudo indica, isso é o que
vem acontecendo com muitos de nós- não em relação à cor
dos olhos, claro, mas quanto à preferência sexual.
Esqueça aquelas pequenas e contestadas diferenças nas
habilidades espaciais, verbais e cognitivas entre homens e
mulheres. Do ponto de vista cerebral, o que os distingue
mesmo é tão óbvio que acaba sendo esquecido: a preferên-
cia sexual. A partir da adolescência, a maioria dos rapazes
(cerca de 90% a 95%, dependendo de quem conta) sente-se
atraída sexualmente por garotas. Para a alegria deles - e a
continuidade da espécie - a recíproca é verdadeira: a grande
maioria delas sente atração sexual por garotos.
A única razão que explica a heterossexualidade como pre-
ferência normal da nossa espécie é o simples fato de ela ser en-
contrada na maioria da população. O termo "normal" se refere
a uma curva característica que descreve, em grandes popu-
lações, a distribuição de parâmetros como estatura ou massa
corporal (ver gráfico 1111 príg. 39). Como a maioria das pessoas
mede em torno de 1,70 metro, e cerca de nove entre dez me-
dem entre I ,50 metro e I ,90 metro, diz-se que tem altura nor-
mal quem cair dentro desse grupo. Que dizer, então, daqueles
que escapam à normalidade por serem altos ou baixos demais?
Para a medicina, não se enquadrar, estatisticamente, não
significa ser doente. É claro que estaturas anormais podem
resultar de alterações do fu ncionamento do organismo. Éo
caso, por exemplo, do gigantismo, causado por distúrbios
hormonais. No entanto, muitas vezes um parâmetro foge
à normalidade em razão da herança genética ou de outros
fatores biológicos que não perturbam em nada o bem-estar
do indivíduo. Além disso, o que é normal em uma população
pode ser anormal em outra.

NORMALIDADE RELATIVA
Considere, por exemplo, a distribuição da cor dos olhos.
No Brasil é normal tê-los escuros. )á na Suécia isso é exceção,
pois lá a regra é ter olhos azuis. Incluir-se na norma ou não,
nesse caso, obviamente não afeta a saúde. É por isso que se
diz que a característica fora do normal e que não prejudica
a saúde é uma variação. Assim, ter olhos castanhos no Brasil
é normal; na Suécia é uma variante. Os brasileiros de olhos
castanhos que moram na Suécia não são considerados doen-
tes por isso, nem são coagidos a ocultá-los atrás de incômodas
lentes de contato.

www.mentecerebro.com.br 37
muitas funções do o rganismo, como
freqüência cardíaca, pressão arterial
e comportamentos mais complexos
como aproximação sexual e cópula.
Situadas no hipotálamo ou não, todas
as estruturas cerebrais relacionadas
ao sexo respondem aos feromônios.
Essas substâncias são usadas por
inúmeras espécies- leveduras, javalis
e humanos - com a fi nalidade últi-
ma de reproduzir-se. As alterações
fisiológicas e comportamentais que
elas produzem são sempre de cunho
social. Cada indivíduo fabrica o
feromônio característico de sua
espécie, na versão "macho" ou "fê-
mea", e o efeito no cérebro de seus
pares do sexo oposto é avassalador.
Q uando tudo dá certo, o resultado
é um filhote.
Muito voláteis, os feromônios en-
tram pelo nariz, onde são detectados
pelo órgão vomeronasal -e não pelo
Quando se entendem as defi- infelicidade de muitos religiosos, epitélio olfativo, razão pela qual são
Hipotálamo nições de normalidade c de varia- políticos e psicoterapeutas, não há inodoros. Em seguida a informação
dos homens ção, torna-se natural aceitar que nenhuma evidência de que fatores é encaminhada para o hipotálamo.
he terosexua is a distribuição de caracte rísticas sociais a influenciem. Cerca de 10% O comportamento desencadeado
determinadas biologicamente não é da população (masculina e feminina) depende radicalmente de como essa
responde uma questão de escolha. Daí o hoje procuram preferencialmente parcei- região é ativada. O hipotálamo dos
ao EST, um disseminado repúdio ao racismo e as ros do mesmo sexo. E esse número homens heterossexuais responde
tentativas legais de proteger da dis- não muda entre os que foram criados fortemente ao feromônio femi nino
derivado do criminação pessoas negras, idosas ou por pai e mãe heterossexuais, por EST (estra-1,3,5(10), 16-tetrae-3-nol),
estrógeno portadoras de necessidades especiais. dois pais gays, por duas mães lésbi- um derivado do hormônio estrogê-
Os homossexuais são alvo de cas, com ou sem religião. nio (estrógeno), produzido durante
produzido preconceito em g rande parte por o ciclo menstrual. A mesma região
durante causa de décadas de teorias e lobbies RASTRO SEXUAL do cérebro das mulheres heterosse-
políticos e religiosos para que a ho- Entretanto, há uma coisa em comum xuais reage ao feromônio masculino
o ciclo mossexualidade fosse considerada aos que preferem se relacionar com AN O (4, 16-androestadie-3-nona),
menstrual doença, ou ao menos uma opção homens (mulheres hétero e homens que deriva de hormônios sexuais
inconveniente a ser revertida. No homo), que é diferente naqueles que masculinos e é encontrado no suor,
entanto, todas as evidências indicam se sentem atraídos por mulheres na pele e nos pêlos axilares dos va-
o contrário: a preferência sexual é (homens hétero e mulheres homo): rões. Como era de esperar, o ANO
determinada biologicamente e ainda a maneira como o cérebro de um e aumenta a excitação das mulheres
no útero- o que faz da homossexua- outro reage aos feromônios. c diminui a dos homens quando
lidade uma variação, já que a maioria Sexo é um assunto tão importan- ambos são heterossexuais.
da população é heterossexual. Para te, biológica e evolutivamente (afinal Depois da detecção segue-se
desespero daqueles que acham que é o que torna possível a continuidade uma cascata de eventos em outras
podem "consertar" a sexualidade das espécies), que existem regiões do regiões do cérebro (como amígdala,
dos outros, as neurociências apon- cérebro dedicadas exclusivamente a córtex cerebral e sistema de recom-
tam para a origem biológica da ele. Várias ficam no hipotálamo, es- pensa) que provoca excitação sexual
preferência sexual humana. Para trutura responsável pela regulação de e faz com que se busque o dono ou

38 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


a dona do feromônio em questão. da síntese de um único receptor
Embora sejam inodoras, parece que para hormônios femininos em uma
essas substâncias são um dos prin- área específica do hipotálamo, por
cipais determinantes do interesse e exemplo, é suficiente para abolir o
da aproximação sexual. Elas fazem comportamento sexual de fêmeas
com que 90% dos homens prefiram de camundongo. Com o hipotálamo
se aproximar delas e vice-versa, sem insensível ao estrogênio, elas não só
que ninguém saiba que tudo começa deixam de aceitar as investidas dos
pelo nariz. machos como passam a rejeitá-los
As estruturas que respondem - simplesmente porque um ún ico
aos feromônios e regem o compor- gene, o responsável pela síntese do
tamento sexual são as mesmas em receptor, foi silenciado.
homens e mulheres. Suspeitou-se,
porém, que elas pudt:ssem ser di- NA GESTAÇÃO
ferentes entre os sexos, de modo A ativação da via vomeronasal em
a garantir que o cérebro deles e resposta aos feromônios de um(a)
delas reagisse de forma diferente a parceiro(a) em potencial é possível
feromônios femininos e masculinos. apenas na presença dos hormônios
Esse dimorfismo sexual de fato existe sexuais. Entretanto, não adianta
e está diretamente relacionado ao inundar o cérebro infantil com eles
comportamento diferenciado que para que o interesse sexual seja
garotos e garotas passam a exibir despertado: é preciso que ele passe
a partir da adolescência, quando pela puberdade para poder respon-
as estruturas cerebrais envolvidas der a essas substâncias. É verdade masculino sobre o sistema nervoso.
amadurecem e tornam-se sensíveis que o primeiro contato do sistema É também na puberdade que a tes-
aos feromônios. nervoso com os hormônios sexuais tosterona induz o crescimento de
As diferenças começam já na ocorre durante a gestação, pois é o várias estruturas da via vomeronasal,
porta de entrada: no órgão vome- pico de testosterona que determina como pdMEA e BST, no cérebro
ronasal (ver ilrtstração abaixo). Desse a masculinização do feto e faz dos homens. A sensibilização dos
ponto em diante, em todas as estru- com que todas as estruturas da via neurônios ao longo dela- condição
turas da chamada via vomeronasal, vomeronasal produzam aromatase, necessária para o interesse sexual -
os homens têm mais neurônios a enzi ma que tornará possível, na é estimulada tanto pela testosterona
que as mulheres para processar os adolescência, a ação do hormônio quanto pelo estrogênio.
sinais gerados pela detecção dos
feromônios. O tamanho de algumas
estruturas também é maior neles, QUEM É "NORMAL''?
A curva normal descreve a
como o bulbo olfativo acessório distribuição populacional de um
(que recebe os sinais do órgão vo- incontável número de variáveis
meronasal) e as próximas estações biológicas: estatura, massa
corporal, batimentos cardíacos,
de processamento: núcleo póstero-
níveis de hemoglobina. Pelo
dorsal da amígdala mediai (pdMEA), gráfico, a maioria dos indivíduos
núcleo intersticial da estria terminal (90%) mede entre 1, 50 metro
(BST) e área pré-óptica mediai do e 1,90 metro. Uma minoria tem
menos de 1,49 metro (5%) ou mais
hipotálamo. Como esse dimorfismo de 1,91 metro (5%) e nem por isso
depende da ação de hormônios é considerada "anormal".
sexuais masculinos, ele se manifesta
apenas a partir da adolescência.
A importância da via vomero-
nasal para o comportamento sexual
fica evidente quando ela é alterada
ex perimentalmente. O bloqueio 1,50 1,70 1,90

www.mentecerebro.com.br 39
Assim, o comportamento sexual a preferência sexual está associada a rece ser uma combinação de herança
A ciência é
resulta de ações inicialmente orga- diferenças no hipotálamo. O neuro- ge nética com fatores hormonais
criticada com nizadoras, e, mais tarde permissivas, cicntista (c homossexual assumido) durante a gestação. Há fon es evi-
freqüência desencadeadas pelos hormônios Simon LeVay mostrou, no início dos dências de que a exposição a quan-
sexuais. A atração que se sente pelo anos 90, que os homens têm mais tidades exageradas de testosterona
por reduzir outro, seja este de que sexo for, é neurônios em um pequeno núcleo na vida intra-uterina mascul iniza
a questão da resultado da influência de genes e hipotalâmico, chamado INA H-3, a programação biológica de fetos
hormônios durante a fom1ação, ainda qua ndo comparado à mesma região femininos. Conseqüentemente, essas
homossexualidade no útero, de determinadas regiões do cérebro das mulheres. Em ho- meni nas passam a expressar, a parri r
aos domínios cerebrais. Estas, por sua vez, determi- mens homossexuais, essa quantidade da adolescência, o padrão masculino
narão mais tarde, depois de amadure- foi intermediária. da via vomeronasal c de resposta
da biologia cidas na adolescência, a preferência Pesquisas recentes revelam que o aos feromônios. Da mesma forma,
sexual pelo sexo oposto na maioria hipotálamo de homo e de heterosse- a homossexualidade masculina está
das pessoas ou pelo mesmo sexo em xuais do mesmo sexo tem caracterís- associada a níveis ma is baixos de
algumas. Revelada quando o cérebro ticas diversas. Pesquisadores suecos tcstosterona durante o período fetal,
adolescente expressa o caminho que mostraram, em 2006, que nem todo o que parece influenciar o desenvol-
tomou ainda na gestação, a preferên- hipotálamo masculino responde a vimento da via vomeronasal depois
cia sexual não se escolhe: descobre-se. feromônios femininos e vice-versa. da puberdade.
Quando surgiram nos anos 80 Usa ndo ressonância magné tica O ser humano não é a única
as primeiras ev idências de que a funcional, eles observaram que o espécie animal da qual alguns indiví-
sexualidade é determinada biologi- padrão de resposta dos neurônios hi- duos demonstram preferência sexual
camente, militantes do movi mento potalâmicos corrclaciona-se não com pelo mesmo gênero. Diferenças nas
gay manifestaram-se tanto contra o sexo do indivíduo, mas com sua estruturas que respondem aos fero-
como a favor. Alguns grupos aco- preferência sexual. Assim, homens mônios são encontradas também em
lheram as descobertas como prova c mulheres que gostam de mulheres carneiros. De 8% a I 0% dos machos
de que a homossexualidade não é respondem ao feromônio femi nino avançam insistente e exclusivamente
doença nem opção, c sim biologia EST;já as mulheres e os homens que sobre outros machos. Não há ne-
inevitável. O utros, ao contrário, se sentem atraídos por homens têm nhum fator social ovino conhecido
sentiram-se lesados em seu direitO o hipotálamo sensível ao feromônio que poderia tê-los tornado homos-
de optar por essa forma de expressar masculino ANO. sexuais. Por outro lado, há uma dife-
sua sexualidade. O que faz com que o hipotálamo rença cerebral imporrante entre esses
De lá para cá, um número cada responda diferentemente aos fero- animais e seus companheiros hétero:
vez maior de estudos mostram que mônios masculinos e femininos pa- o tamanho de um núcleo localizado

EPITÉLIO OLFATIVO

O ÓRGÃO VOMERONASAL
ÓRGÃO está continuamente
VOMERONASAL exposto a correntes
de ar. Na presença de
fe romônios (inodoros),
a cha mada via vome ronasal
é ativada, o que
dese ncadeia uma série de
reações comportamentais
cujo objetivo fin al
é a re produção.
Substâncias com odor são
normalmente dete ctadas
pe lo epitélio olfativo
ENTRE LEÕES:
o ser humano não
é a única espécie da
qual alguns indivíduos
d e monst ram
preferência
homossexual

numa área do hipotálamo chamada gico, da preferência sexual e do fato incrível dificuldade que o ser huma-
pré-óptica. A região é maior nos de terem sido ou não tratadas com no tem de aceitar-se como animal.
carneiros heterossexuais e menor nas hormônios sexuais. Costamos de assistir aos documen-
fêmeas e nos machos homossexuais. Craças a esse tipo de estudo, a tários sobre macacos ou leões, mas
Evidentemente, sempre existe a atração por pessoas do mesmo sexo custa-nos admitir que a Natureza
possibilidade teórica de a base bio- ou a sensação de ter nascido do sexo pode ter influência - muitas vezes
lógica responsável pela preferência "errado" não podem mais ser consi- determinante - também sobre nosso
sexual mudar em conseqüência do deradas aberrações psicológicas ou comportamento.
comportamento homossexual, tanto frutos de uma educação "equivoca- O comportamento sexual não
de homens como de carneiros. No da", familiar ou escolar. Trata-se de pode ser explicado exclusivamente
entanto, isso é muito pouco provável variações determinadas biologica- pela biologia. As pessoas têm sim a
pelo que se sabe sobre a di ficuldade mente. E como todo fenômeno bio- opção de fazer o que bem entendem
de "converter" homossexuais em lógico, a determinação da identidade com sua preferência sexual, ainda
heterossexuais e vice-versa, sobre e da preferência sexual está sujeita a que lamentavelmente o preconceito
a indi fe rença da sex ual idade a influências químicas e genéticas nem e a discrim inação tragam complica-
influências sociais e sobre a exis- sempre bem compreendidas. Aliás, ções psicológicas.
tência de padrões semelhantes de seria surpresa para um biólogo se A Natureza não reina sozinha.
comportamento homossexual em todos fossem perfeitamente iguais, De f-ato, é possível optar pelo com- O cérebro em
outras espécies. sem nenhuma variação na cor dos portamento heterossexual, contra tra nsformação.
Suzana Herculano-
olhos ou na preferência sexual. A a preferência biológica ou a favor
Houzel. Editora
SEXO " ERRADO" descoberta de que é o cérebro, e dela. Nesse caso a família e a socie- Objetiva, 2005.
Até algo tão fundamental como não os hormônios sexuais nem a dade certamente exercem um papel Sex - A natura l
sentir-se homem ou mulher parece genitália, que defi ne a identidade ou importante. Mas o cérebro é capaz hlstory. J. Rodgers.
Time Books, 2002.
ser de termi nado pela biologia do a preferência sexual é uma das lições de fazer melhor; pode até mudar
Braln response
cérebro. Ao examinar, em 2000, um das neurociências de maior impacto crenças, teorias e preconceitos,
to putatlve
grupo de 42 pessoas composto de em nossa vida cotidiana. A atração felizmente. Se I 00% da população pheromones In
homens e mulheres hétero, homo por um ou outro sexo é inata, não tem preferência sexual inata e bio- homosexual men.
e transexuais, pesquisadores holan- opcional. Por isso as tentativas de logicamente determinada, somos I. Savic et a/., em PNA S,
vol. 102, n• 20, págs.
deses observaram um número duas convencer pessoas ou outros animais todos iguais nesse quesito- mesmo 7356-7361, 2005.
vezes maior de neurônios num dos a mudar suas preferências sexuais que o cérebro da maioria responda Brain response
núcleos da via vomeronasal (o BST ) nunca deram certo. a feromônios do sexo oposto. Tentar to putative
nas pessoas que se identificavam A ciência é freqüentemente mudá -la é como insistir que uma pheromones In
lesbian women. H.
como homens em comparação às criticada por "reduzir" a questão da pessoa troque a cor da pele, torne-se Berglund et ai., em
que se identificavam como mulheres homossexualidade aos domínios da menos alta ou mude a cor dos olhos. PNAS, vol. 103, n• 21,
- independentemente do sexo bioló- biologia. Isso deixa transparecer a É inútil, inviável e injusto. mec págs. 8269-8274, 2006.

www.mentecerebro.com.br 41
• ATIVIDADE CEREBRAL

:• t

uitetura
diversidade
42 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS
um dia cinzento de janeiro, Lawrence Surnmers

N - o presidente da Universidade Harvard-sugcriu


que difere nças inatas na estrutura do cérebro
masculino e do feminino poderiam ser um fator determi-
nante para a relativa escassez de mulheres na ciência. As
declarações reacenderam um debate que se desenrola há
um século, desde que os cientistas que mediam a dimensão
do cérebro de ambos os sexos começara1~1 a sustentar a
idéia, baseados em sua principal conclusão - a de que o
cérebro feminino tende a ser menor - , de que as mulheres
são intelectualmente inferiores aos homens.
Até hoje ninguém conseguiu nenhuma evidência
de que as diferenças anatômicas torn em as mulheres
incapazes tk obter tlbtin~ão acadêmica em matemática,
física ou engenharia. E o cérebro de homens e mulheres
comprovou ser mui to semelhante em vários aspectos. Por
outro lado, ao longo da última década, pesquisadores que
estudam questões diversas, do processamento da linguagem
à navegação, passando pela gravação de memórias
emocionais, também revelaram uma série impressionante de
variações estruturais, químicas e funcionais entre o cérebro
do homem e o da mulher.
Essas divergências não são apenas idiossincrasias curio-
sas para explicar por que os homens gostam mais dos Três
Patetas do que as mulheres. Elas suscitam a possibilidade de
precisarmos desenvolver tratamentos específicos de acordo
com o sexo para problemas como depressão, vício, esquizo-
frenia e transtorno do stress pós-traumático. Estudiosos da
estrutura e do funcionamento do cérebro devem levar em
consideração o sexo de seus objetos de pesquisa ao analisar
dados - e incluir tanto homens quanto mulheres em estudos
futuros, para evitar resultados enganosos.

ESCULTURA CEREBRAL
Até não muito tempo atrás, os neurocientistas acreditavam
POR LARRY CAHILL que as diferenças no cérebro de sexos diferentes se limita-
vam às regiões responsáveis pelo comportamento de aca-
Professor do Departamento
de Neurobiologla e salamento. Em um artigo da Scienti fic Ame rican de 1966,
Comportamento e ~ intitulado "Sex differences in the brain" (Diferenças sexuais
pesquisador do Centro ~
de Neurobiologia do ~-~
no cérebro), Seymour Levi ne, da Universidade Stanford,
Aprendizado e da Memória da descreveu como os hormônios sexuais ajudam a comandar
Universidade da Califórnia ~ comportamentos re produtivos diferentes em camundon-
~
õ1
gos: os machos ficam preocupados em montar enquanto as
Q fêmeas elevam as nádegas para atrair pretendentes. Levine
só mencionava uma região do cérebro em sua análise: o
hipotálamo, pequena estrutura na base do cérebro envol-
vida na regulação da produção de hormônios e no controle
de comportamentos básicos como comer, beber e fazer
sexo. Uma geração inteira de neurocienristas amadureceu
acreditando que as "diferenças sexuais no cérebro" diziam
respeito apenas aos hormônios sexuais c ao hipotálamo.

www.rnenlecerebro.com.br 43
Áreas Essa visão foi posta de lado ressonância mag nética para medir importância relativa para o animal.
por uma onda de descobertas que áreas corticais e subcorticais. Os Por exemplo, os primatas usam
frontais do ressa ltam a inAuência do gênero pesquisadores descobrira m que mais a visão do que o olfato; nos
cérebro em várias áreas da cognição e determinadas partes do córtex camundongos, ocorre o contrário.
- mats.
sao do comportamento, incluindo frontal - envolvido em muitas fun- Em conseqüência, o cé rebro dos
memória, emoção, visão, audição, ções cognitivas importantes -são primatas possui regiões proporcio-
volumosas processamento de rostos e resposta proporcionalmente mais volumosas nalmente maiores dedicadas à visão,
em mulheres do cérebro aos hormônios do stress. em mulheres do que em homens, e os camundongos devotam mais
Esse avanço se acelerou nos últimos assim como partes do córtex límbi- espaço ao olfato. A existência de
do que em dez anos com o uso de técnicas co, envolvido nas reações emocio- disparidades anatômicas dissemina-
homens, de imageamento sofisticadas e nais. Em homens, por outro lado, das entre homens e mulheres suge-
não-invasivas, como a tomograRa partes do córtex parietal, ligado re, portanto, que o sexo realmente
assim COITIO por emissão de pósitrons (PET) e à percepção espacial, são maiores tenha inA uência no funcionamento
partes do a ressonância magnética funcional do que nas mulheres, assim como do cérebro.
(RMf), com as quais é possível a amígdala, estru tura em for ma de O utras pesquisas estão en-
córtex observar o cérebro em ação. amêndoa que reage a informações contrando diferenças anatôm icas
límbico, Tais experimentos com imagens que despertam emoções- qualquer ligadas ao sexo no nível celular.
revelam que as variações anatômi- coisa que faça o coração disparare a Sandra Witelson, da Unive rsidade
envolvido
nas reaçoes- cas ocorrem em uma série de reg i-
ões do cérebro.Jill M. Goldstein, da
ad renalina Auir pelo corpo.
Normalmente, acred ita-se que
McMaster, por exemplo, descobriu
que as mulheres possuem densidade
Faculdade de Medicina de Harvard, as dife renças no tama nho das maior de neurônios em áreas do
emocionais e colegas, por exemplo, usaram a estruturas cerebrais refli tam sua córtex do lobo temporal associadas
ao processamento e à compreensão
da linguagem. Ao contar os neu-
Trajetos da serotonina rôn ios de amostras de autópsias,
os pesqu isadores notaram que,
Gânglio basal
das seis camadas do córtex, duas
apresentavam mais neurônios por
un idade de volu me em mulheres
do que em homens. Descobertas
semelhantes foram reg istradas
posteriormente no lobo fro ntal. De
posse dessas informações, os neu-
rocientistas podem agora analisar
se as diferenças sexuais no número
de neurônios correspondem a di-
ferenças na capacidade cognitiva
- examinando, por exemplo, se o
aumento na densidade do córtex
auditivo feminino está relacionada
ao melhor desempenho em testes
de Auência verbal.

INFLUÊNCIA HORMONAL
Essa diversidade anatômica pode
ser causada, em grande parte, pela
atividade dos hormônios sexuais
que banham o cérebro do feto. Es-
ses esteróides ajudam a coordenar
REDUÇÕES NAS ATIVIDADES dos circuitos que usam serotoni na e noradrenalina
a organi zação e as conexões cere-
contribuem, aparentemente, para a depressão. Algumas trajetórias da serotonina são
indicadas (setas). As células que produzem noradrenalina se projetam do locus ceruleus brais durante o desenvolvimento,

44 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


e influenciam a estrutura e a den- Preferências inatas?
sidade neuronal de várias regiões.
Curiosamente, as áreas cerebrais Os macacos vervetobservados por Gerianne M. Alexander, da
que Coldstein descobriu diferirem Universidade A&M do Texas, demonstraram preferência por
entre homens e mul heres são aque- brinquedos que se encaixam nos estereótipos humanos de
meninos e meninas: os machos (foto acima à direita) passaram
las em que os ani mais concentram
mais tempo em contato com caminhões, por exemplo,
o maior n(lmero de receptores de enquanto as fêmeas (foto embaixo à direita) gostaram mais
hormônios sexuais durante o de- das bonecas (gráficos). Esses padrões indicam que as escolhas
senvolvimento. A correspondência das crianças podem se originar em parte em seus circuitos
entre o tama nho da região do cerebrais, e não apenas no modo como foram educadas.
cérebro em adul tos e a ação de es-
BRINOUEDOS BRINOUEDOS
teróides sexuais no útero indica que 30 "MASCULINOS" "FEMININOS"
pelo menos algumas das diferenças o o
§-g
sexuais não resultam de inOuências g 5- 20
u c:
sociais ou de alterações hormonais QJ"i::
-c ..C
re lac io nadas à puberdade. Elas o o 10
estão ali desde o nascimento. E"§
Vários estudos comportamen- ~ u O•L-------------- ---------------
BOLA COR· CARRO OE BONECA PANELA
tais contribuem para aumentar as OE·LARANJ4 POLfCIA VERMELHA

evidências de que algumas das di- MACHOS FÉMEAS


ferenças sexuais no cérebro surgem
antes mesmo que o bebê comece a
respirar. Ao longo dos anos, cien-
tistas demonstraram que, quando Ambos passaram o mesmo período os brinquedos que lhes permi tam
escolhem brinquedos, meninas e de tempo mexendo nos livros e em treinar as habilidades de que um dia
meninos toma m rumos difere ntes. outros brinquedos unissex. precisarão para criar sua prole.
O s men inos ten dem a grav ita r Como é pouco provável que os
em rorno de bolas ou carrinhos, macacos vervetsejam influenciados SOB STRESS
enquanto as meni nas normalmente pelas pressões sociais da cultura Em muitos casos, a diferença sexual
pegam bonecas. Mas ninguém sabia humana, os resu ltados significam na quím ica e na constituição do
dizer com certeza se essas preferên- que a preferência das crianças por cérebro influencia o modo como
cias eram determi nadas pela cultura certos brinquedos é conseqüência, machos e fêmeas reagem ao ambien-
ou pela biologia cerebral inata. pelo menos em parte, de diferen- te ou a acontecimentos estressantes
Para tratar dessa questão, Me- ças biológicas inatas. Supõe-se - e se lembram deles. Vejamos,
lissa H ines, da Un iversidade da que a divergência, como todas as por exemplo, a amígdala, estrutura
Cidade de Londres, e Cerianne diferenças anatômicas do cérebro cerebral proporcionalmente maior
M. Alexander, da U niversidade entre machos e fêmeas, tenha se nas fê meas. Para analisar se as
A&tvl do Texas, recorreram aos originado de pressões seletivas amígdalas de homens e mulheres
macacos, nossos primos animais durante a evolução. No caso do rea lmente respondem de modo
mais próximos. As pesquisadoras estudo com brinquedos, os machos diferente ao stress, Katharina Braun,
apresentaram uma variedade de - tanto humanos quanto macacos da Universidade Otto von Cueri-
brinquedos a um grupo de macacos - preferem brinquedos que pos- cke, em Magdeburgo, Aleman ha,
vervet, incluindo bonecas de pano, sam se locomover no espaço e que afastou por um curto período uma
caminhões e algu ns itens neutros proporcionem brincade iras mais ninhada de filhotes de degu da mãe.
como livros ilustrados. Elas obser- brutas. É razoável especular que Para esses roedores que vivem em
varam que os macacos machos pas- essas características podem estar gra ndes colônias, uma separação
saram mais tempo brincando com relacionadas a compor tamentos temporária é bastante desagradável.
"brinquedos de menino" do que as úteis para a caça ou para conseguir Os pesquisadores então mediram
fêmeas, e que as macacas passaram uma parceira. Da mesma maneira, a concentração de receptores de
mais tem po interagindo com os também é possível acreditar na serotonina, um neurotransmissor
que as meninas costumam preferi r. hipótese de que as fêmeas escolham essencial para a mediação do com·

www.mentecerebro.com.br 45
po r ta mento emoti vo em vá ria s tirar conclusões desse estudo para longe mais prevalentes em meninas
regiões do cérebro. o comportamento hu mano, ele do que em meni nos .
A equipe fez com que os fllho- observa que, se algo semelhante O utra região do cérebro que
tes ouvissem o chamado da mãe aco ntecer com as cr ia nças, a hoje sabemos di ferir entre os sexos
durante o período de separação, an siedade da sepa ração pod e em termos de anatomia e em sua
e descobriu que essa informação afetar de forma diferente meni nos resposta ao stress é o hipocampo,
auditiva elevou a concentração de e meninas. Experi ência s como estrutura essencial para o armazena-
receptores de serotonina na amíg- essas são necessárias se quisermos mento de lembranças e para o mape·
dala dos machos, mas a redu ziu entender por que, por exemplo, os amento espacial do ambiente.
nas fêmeas. Embora seja di fíc il transtornos de ansiedade são de As técnicas de imagem demons-
tram de maneira consistente que o
Questão de massa cinzenta hipocampo é maior nas mulheres do
que nos homens. Essas divergências
O presidente da Universidade Harvard, Lawrence Summers, deixou anatômicas podem muito bem estar
muita gente indignada ao levantar a possibilidade de que a biologia ligadas de alguma forma à diferença
cerebral possa ajudar a explicar por que menos mulheres do que no modo como homens e mulheres
homens se dão bem na carreira científica. se orientam. Vários estudos sugerem
O que a pesquisa tem a dizer? É difícil obter evidências rela- que os homens tendem a se orientar
cionando disparidades na anatomia à capacidade intelectual. Para estimando a distância e sua posição
início de conversa, as diferenças sexuais no desempenho em testes no espaço, enquanto as mulheres se
padronizados de inteligência são desprezíveis, com divergências às orientam observando pontos de re-
vezes insignificantes a favor das mulheres, às vezes dos homens. E, ferência. Curiosamente, existe uma
embora os neurocientistas estejam descobrindo um grande número diferença entre os sexos parecida
de diferenças ligadas ao sexo na estrutura e no funcionamento do nos camundongos. Os machos ten-
cérebro, ninguém é capaz de dizer hoje se essas divergências têm dem a atravessar labirintos utilizan-
alguma influência em carreira s científicas bem-sucedidas - ou, se do dados direcionais e posicionais,
tiverem, como seu efeito se compara ao dos fatores culturais. enquanto as fêmeas percorrem os
No entanto, é possível que, de certa forma, o cérebro masculino e mesmos labirintos usando pontos
o feminino cheguem à inteligência geral de maneira diversa. Estudo de referência disponíveis. Os pes-
recente sugere que os sexos podem usar o cérebro de modo diferente quisadores ainda não conseguiram
ao solucionar problemas como os encontrados em testes de inteligên- comprovar, porém, que os camun-
LAWRENCE
SUMMERS passa
cia. Nesse trabalho, Richard Haier, da Universidade da Califórnia em dongos machos são menos propen-
por uma equipe lrvine, usou uma combinação de imagens de ressonância magnética sos a "parar para pedir informações".
de televisão, a com testes cognitivos para criar mapas relacionando o volume de massa Mas os roedores machos às vezes
caminho de uma cinzenta e o volume de massa branca em várias áreas do cérebro com aprendem mesmo melhor sob stress.
reunião com
professores de o desempenho em testes de Ql. A massa cinzenta é constituída pelo Tracey J. Shors, da Uni versidade
Harvard corpo celular dos neurônios que processam a informação no cérebro; Rutgers, observou que uma breve
a massa branca é composta por axônios através exposição a choq ues de um segundo
dos quais um neurônio envia informação para na cauda melhorou a execução de
outro. A equipe descobriu ligações entre o volu- uma tarefa aprendida e reduzi u a
me das massas cinzenta e branca e o desempe- densidade das conexões dendríticas
nho nos testes em ambos os sexos, mas as áreas a outros neurônios em machos. Nas
cerebrais que apresentavam as correlações fêmeas, o choque prejudicou a per-
eram diferentes em homens e mulheres. formance e reduziu a densidade das
Esses resultados ainda não foram reprodu- conexões. Descobertas como essas
zidos. Mesmo se forem comprovados, porém, têm implicações sociais interessan-
os pesquisadores ainda terão nas mãos uma tes. Quanto mais descobrimos como
pergunta sem resposta: o que essas diferenças os mecanismos de aprendi zado
têm a ver com o modo como homens e mulhe- dife rem entre os sexos, maior a
res pensam, se é que têm alguma coisa a ver? probabilidade de que tenhamos de
levar em conta que os ambientes

46 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


Amígdala e memória emocional
Em pesquisa coordenada pelo autor deste artigo, a amígdala, Nas mulhe res, aquelas que se sentiram mais afetadas e se
que é essencial na memorização de fatos emotivos, reagiu lembrara m mais mostraram grande atividade na amígdala
de forma difere nte em homens e mulheres que assistiram esquerda (imagem à dir.). Estudos adicionais sugerem que as
a slides que provocavam emoções, como a imagem de um diferenças hemisféricas e ntre os sexos na atividade da amíg-
animal morto se decompondo. Home ns que tiveram reações dala faze m as mulheres te nde re m mais a guardar detalhes
intensas mostraram mais atividade na amígdala do hemisfério de um acontecimento emotivo, e os homens a te r tendência
direito (esq.) e le mbranças mais precisas duas semanas depois. maior em lembrar sua essência.

de aprendi zado ideais possam ser estão mais bem equipadas do que os outros confi rma ram essa conclu- A química e
diferentes para meninos e meninas. machos para tolerar ostresscrônico. são geral. Mas então percebi algo
Pesquisas mostram que embora estranho. A ativação da amígdala,
a constituição
o hi pocarnpo do camundongo LEMBRANÇAS E EMOÇÃO em alguns estudos, envolvia apenas do cérebro
fêmea demonstre um decréscimo Pesquisando como o cérebro lida o hemisfério direito, e em outros influenciam
na resposta ao stress agudo, ele com situações estressantes e se lem- envo lvia somente o hem isfé ri o
parece ser mais resistente do que seu bra delas, meus colegas e eu desco- esquerd o. Percebi então que os o modo
correspondente masculino diante brimos que homens e mulheres di- experimentos em que a amígdala como machos
do crônico. Cheryl D. Conrad, da ferem na maneira como armazenam direita se ativou foram aqueles que
Universidade do Estado do Arizona, as lembranças de incidentes que utilizavam apenas homens; aqueles e fêmeas
confinou camu ndongos em uma despertam emoções - um processo em que só a amígdala esquerda se reagem ao
gaiola por seis horas - situação que envolve a ativação da amígdala. ativou foram feitos com mulheres.
perturbadora para os roedores. Os Em um de nossos primeiros experi- Desde então, três estudos subse- ambiente
pesquisadores ana lisaram então mentos, mostramos a vol untários qüentes confi rmaram essa diferença, ou a fatos
quão vulneráveis seus neurônios uma série de fi lmes de violência de como homens e mulheres lidam
do hipocampo eram ao ataque ex plícita, enqua nto medimos sua com lembranças emotivas.
estressantes
mortal de uma neurotoxina - uma atividade cerebral por tomografia Para tentar descobrir o signi lica- -e como
medida padrão do efeito do stress PET. Algumas semanas depois, do dessa disparidade, recorremos a
nessas células. Eles notaram que o demos a eles um questionário para uma teoria de um século de idade,
se lembram
confi namento crônico tornou as cé- saber do que se lembravam. segundo a qual o hemisfério direito deles
lulas hipocampais dos machos mais Descobrimos que o número tende a processar os aspectos bási-
suscetíveis à toxina, mas não teve de fi lmes dos quais conseguiam se cos de uma situação, enquanto o es-
nenhum efeito sobre a vulnerabili- lembrar estava relacionado a quão querdo processa os detalhes. Se essa
dade das fêmeas. Essas conclusões, ativa estava a amígdala durante a concepção for verdadeira, argumen-
e outras similares, sugerem que, nos exibição. Trabalhos posteriores tamos, uma droga que prejudique a
casos de dano cerebral, as fêmeas feitos por nosso laboratório e por atividade da amígdala deveria redu-

www.mentecerebro.com.br 47
Hipocampo estressado zir a capacidade do homem lembrar
da essência de um acontecimento
O hipocampo de camundongos machos reage de forma diferente emotivo (ao entorpecer a amígdala
tanto ao stress agudo quanto ao crônico, se comparado com a mesma dire ita), enquanto, nas mulheres,
estrutura das fêmeas.
afetaria sua capacidade de recordar
Stress agudo 25 deta lhes específicos (ao entorpecer
O stress de curto prazo fez com que c Sem stress
o.... • Com stress a amígdala esquerda).
a densidade das "espinhas" dendrí-
ticas nos neurônios hipocampais -~ Essa droga é o propanolol,
E 20
aument asse em machos, mas se .... da classe dos betabloqueadores.
o r-
reduzisse em fêmeas (micrográficos c.. Demos a substâ ncia a homens e
e gráfico), no estudo de Tracey J. !/)
cu 15
Shors, da Universidade Rutgers. .c r- mul heres antes que assistissem a
c
As espinhas são os locais onde os "õ... uma curta exibição de sl ides sobre
dendritos recebem sinais excita- !/)
QJ 10 um garotinho que sofre um terrível
tórios vindos de outros neurônios. QJ

Como o hipocampo está envolvido -c acidente ao caminhar ao lado da


o
....
no aprendizado e na memória, os QJ 5 mãe. U ma semana depois, testamos
resultados suscitam a possibilidade E a memória deles. Os resul tados
•:::I
de que o stress de curto prazo faci- z mostraram que o propanolol tornou
lite o aprendizado em machos, mas o mais difíci l para os homens lembrar
o obstrua em fêmeas. MACHO FÊMEA
os aspectos mais gerais, ou a essên-
ANTES DO STRESS DEPOIS DO STRESS cia da história -que o menino tinha
Macho sido atropelado por um carro, por
exemplo. Nas mulheres, o propa-
nolol fez o oposto, atrapalhando as
lembra nças de detalhes periféricos
- que o menino estava carregando
uma bola de futebol.
Em pesquisas ma is recen tes,
descobrimos que podemos detectar
quase imediatamente uma diferença
NEURÔN IO HIPOCAMPAL
de hem isfé rio e nt re os sexos em
resposta a material emotivo. Vo-
Stress crônico luntários que observam fo tografias
O stress de longa duraç ão,
emoc ionalmen te desagradáveis
por outro lado, pode deixar Corpo
o hipocampo masculino mais reagem em 300 mi lissegundos
celular
vu lne rável a danos do que o - resposta que se apresenta como
fem inino. Quando Cheryl D. Espinha um pico no registro da atividade
Conrad, J. L. Jackson e L. S.
Wise, da Universidade do Es- elétrica do cérebro, antes de qual-
tado do Arizona, exp useram quer in terpre tação conscie nte da
camundongos submetidos ao imagem. Com Antonella Casbarri,
stress crô nico a uma toxina
nervosa, os machos sofreram da Universidade de L'Aqui la, na Itá-
mais danos do que as fêmeas lia, descobrimos que, nos homens,
(micrográficos abaixo). esse rápido pico (denominado res-
posta P300) é mais exacerbado no
hemisfério direito; nas mulheres, é
maior no esquerdo.
Essas descobertas podem ter re-
percussões no tratamento do trans·
torno de stress pós-traumático. Pes-
quisas anteriores feitas por Custav
Schelling e seus colaboradores, da
Universidade Ludwig Maxim ilian,

48 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


na Alemanha, já tinham estabeleci-
do que drogas como o propanolol
reduzem a lembrança de situações
traumáticas quando administradas
junto com os tratamentos normais
nas unidades de terapia intensiva.
Estimulados por nossas conclusões,
eles descobriram que, pelo menos
nessas unidades, os betabloquea-
dores redu zem as lembranças de
fatos traumáticos em mulheres, mas
não em homens. Mesmo na UTI,
portanto, os médicos podem ter de
levar em conta o sexo dos pacientes
ao prescrever medicamentos.
O stress pós-traumático não é
o único distúrbio que parece ag ir
de maneira diferente entre homens
e mulheres. Um estudo com PET
feito por Mirko Diksic, na Univer- quizofren ia também parecem diferir Em ab range nte relatório de ANSIEDADE DE
sidade McCill, mostrou que a pro- em homens e mulheres. Ruben e 2001 sobre d iferenças sexuais na SEPARAÇÃO:
experiência com
dução de serotoni na é 52% maior Raquel Cur, da Universidade da saúde humana, a Academia Nacio- filhotes de degu
em homens do que em mulheres. Pensilvâ nia, mediram o tamanho nal de C iências dos Estados Un i- mostrou variação de
Isso pode ajudar a explicar por que d o có rtex orbi to frontal, região dos reconheceu que o gênero faz neurotransmissores
na ausência da mãe
elas estão mais sujeitas à depressão relacionada ao controle das emo- diferença. "O fato de ser macho ou
- problema norm almente tratado ções, e o compararam à dimensão fêmea é uma variável básica humana
com drogas que elevam a concen- da amígdala, mais envolvi da nas importante, que deve ser levada em
tração de serotonina. reações emocionais. Descobriram conta ao projetar e analisar estudos
Situação parecida pode ocorrer que, nas mulheres, a proporção em todas as áreas e em todos os
com a dependência. Nesse caso, o orbitofrontal/amígdala é maior do níveis de pesquisas biomédicas e
neurotransmissor em questão é a que nos homens. Essa concl usão relacionadas à saúde."
dopamina - substância envolvida pode dar margem a especulações Os neurocientistas ainda estão
na sensação de prazer associada de que as mulheres talvez sejam, longe de identificar todas as diferen-
ao uso de drogas. Em estudo com em média, mais capazes de controlar ças ligadas ao sexo no cérebro e sua
camun dongos , )ill B. Becke r e suas reações emocionais. influência no processo cognitivo e Male, female: the
evolutlon of human sex
pesquisadores da U niversidade de na propensão a problemas cerebrais.
dlfferences. David Geary.
Michigan em Ann Arbor descobri- VARIÁVEL BÁSICA De qualquer maneira, as pesquisas Associação Americana de
ram que, nas remeas, o estrógeno (az Em ou tros ex perimentos, pes- rea li zadas até hoje demonstram Psicologia, 1998.
aumentar a liberação de dopamina quisadores descobriram que esse com certeza que as especificidades Sex dlfferences In the
em áreas do cérebro importantes "equ ilíbro" está alterado na esqui- vão mui to além do hipotálamo braln. Doreen Kimura, em
na regulação do comportamento zofrenia, emb ora de forma não e do comportamento ligado ao Scientific American, vol. 267,
no 1, págs. 18-125, setembro
de procura pela droga. Além disso, idêntica em homens e mulheres. acasalamento. Cientistas e clínicos
de 1992.
o efeito do hormônio é de longa As mulheres com esquizofrenia têm nem sempre sabem exatamente qual
Explorlng the blologlcal
duração, tornando as fêmeas pro- proporção orbitofrontal/am ígdala é o melhor meio de avançar para contrlbutlons to human
pensas a buscar cocaína semanas menor do que as saudáveis. Mas, decifrar toda a influência do sexo health: does sex matter?
depois de ter recebido a droga. Essas estranhamente, os homens esquizo- no cérebro, no comportamento e Editado por Theresa M.
diferenças podem explicar por que frênicos têm essa mesma proporção na resposta a medicamentos. Mas, Wizemann e Mary-Lou
Pardue. National Academy
as mu lheres se viciam com mais aumen tada em comparação com um n(lmero cada vez maior de neu- Press, 2001.
rapidez do que os homens. os saudáveis, o que pode sig nifi- rocientistas concorda que avaliar um Braln gender. Melissa
D ete rminadas anomal ias no car a necessidade de tratamento sexo apenas e aprender sobre ambos Hines. Oxford University
cérebro que estão por trás da es- di fere nc iado d o d as mulheres. já não é mais opção. rrec Press, 2004.

www.mentecerebro.com.br 49
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as seria possível a Armar que meninas e meninos
demonstram preferências, competências e atribu-
tos de personalidade originalmente conRgurados
conforme o sexo? Será verdade o que aprendemos sobre
as justiRcativas biológicas para as habilidades distintas de
garotas e garotos?
Em ampla investigação sobre as construções sexuais e do
corpo sexuado, Anne Fausto-Sterli ng, professora de biologia e
estudos do gênero do Departamento de Bioquímica e Biologia
Molecular e Celular da Universidade Brown, em Rhode lsland
(EUA), cita inúmeras pesquisas que atestam a existência de
uma anatomia cerebral especíRca para cada sexo. Daí viria a
base para atribuir às mulheres, a intuição, a falta de aptidão
para exatas, a ampla habilidade verbal e o uso simultâneo
de ambos os hemisférios cerebrais. Aos homens, em geral,
confere-se melhor desempenho espaço-visual, matemático e
cientíRco. Articulando biologia, medicina e ciências sociais,
a bióloga revela ainda como essas pesquisas usam as relações
sociais para estruturar a Natureza e, ao mesmo tempo, re-
duzem o mundo social a ela. Em outras palavras, passam da
discussão das diferenças externas e do ambiente social para as
diferenças internas do organismo biológico e quais os efeitos
do que se entende por masculinidade e fem inilidade.
ReAetir sobre os fundamentos dessas a Armações no que
se refere à educação, e mais especiRcamente à sociologia
da educação, exige o questionamento de suas origens e do
peso do caráter biológico na construção das diferenças. Isso
pressupõe, por exemplo, indagar sobre a interferência e sobre
o papel da cultura no processo de socialização e educação
de meninas e meninos desde suas primeiras experiências de
vida na família e na educação infantil.
No âmbito dos modelos cognitivos, é possível comprovar
que as diferenças no desempenho em matemática ou na
capacidade de linguagem resul tam de diferenças cerebrais
de cada sexo tidas como inatas? No campo das relações e
CLÁUDIA VIANNA é
comportamentos infantis, podemos mesmo supor que elas
professora-doutora da
Faculdade de Educaçlo necessariamente preferem as bonecas e eles, os carrinhos?
da Unlvenldade de Elas foram feitas para brincar de roda e eles, de futebol?
São Paulo. DANIELA
FINCO é doutoranda em A perspectiva sociocultural permite centrarmos o olhar
educação pela Faculdade nas formas de controle do corpo infantil, processo este social
de Educação da USP
e culturalmente determinado, que muitas vezes nem sequer
percebemos. Poderíamos dizer que as características tidas
como masculinas ou femininas resultam de esforços diversos
para distinguir corpos, comportamentos e habilidades de
meninas e meninos. A inAuência da socialização e da cultura
sobre a cognição, o comportamento e as habilidades motoras
de garotos e garotas vem sendo reconhecida por pesquisa-
dores de várias áreas (ver qundro M pági11n 52).
A educação infantil não só cuida do corpo da criança
como o educa: ele é o primeiro lugar marcado pelo adulto,
que impõe à sua conduta limites sociais e psicológicos.

www.mentecerebro.com.br 51
Aspectos do Didática dos gestos, educação do corpo
comportamento
podem ser É possível propor um projeto educativo que rompa de meninos e meninas está relacionado à força das
a dicotomia cognitivo-afetiva da prática educativa expectativas que sociedade e cultura carregam.
reforçados cotidiana e a hierarquia de valores a ela ligada, Esse processo se reflete em brinquedos com os
de forma enfatizando o entrelaçamento entre o cognitivo quais as crianças "aprendem", de uma maneira
e o emocional na evolução do processo de sim- muito prazerosa e mascarada, a se comportar como
inconsciente bolização. Egle Becchi, professora de filosofia da "verdadeiros" meninos e meninas.
por pequenos Faculdade de Letras e Filosofia de Pavia, Itália, fala Homens e mulheres educam crianças marcando
de uma "linguagem dos gestos": gestos ligados diferenças bem concretas entre elas. A educação
gestos e
ao dia-a-dia, gestos do ato de brincar, gestos do diferenciada exige formas diferentes de vestir;
práticas do corpo nos movimentos corpóreos de aproximação, conta histórias em que os papéis dos personagens
dia-a-dia da contato e exploração. Para a autora italiana, muito homens e mulheres são sempre muito diversos, mas
ainda deve ser estudado sobre linguagem gestual, a diferenciação com base nos sexos é evidente nos
educação uma "didática dos gestos" que penetra e caracteriza brinquedos infantis. De acordo com Elena Belotti,
infantil a pedagogia: o uso do corpo acariciado ou punido, ao adulto não basta escolher o brinquedo pela
as estratégias de voz: o tom, o canto, o grito. A criança: quando presenteia uma menina com uma
experiência de meninas e meninos na educação boneca, não se contenta em simplesmente dar, mas
infantil pode ser considerada um rito de passagem também mostra como se segura nos braços e como
contemporâneo que antecipa a escolarização, por se acalenta. É bastante curioso observar como os
OS PROCESSOS
de masculinização meio da qual se produzem habilidades. meninos da mesma idade, não ensinados como as
e de feminilização O minucioso processo de feminilização e mas- meninas, seguram as mesmas bonecas de maneira
ocorrem desde cedo e culinização dos corpos, presente no controle dos muito mais despreocupada, por exemplo, manten-
se refletem na escolha
dos brinquedos e na sentimentos, no movimento corporal, no desenvol- do-as em pé e não à vontade, passando-lhes um
imagem corporal vimento das habilidades e dos modelos cognitivos braço em volta do pescoço, apertando-as ou mesmo
esmagando-lhes a cabeça. Em todos
os casos, acalentar a boneca está
quase sempre ausente.
A criança, ao brincar, está traba-
lhando suas contradições, ambigüi-
dades e valores sociais: é na relação
com o outro que ela constitui sua
identidade. Fica difícil, por exemplo,
continuar sustentando a importân-
cia de um menino não brincar de
boneca, em nossa sociedade atual,
na qual cada vez mais o pai assume
comportamentos de cuidado com
suas próprias crianças.
Ao refletir sobre os primeiros
contatos infantis com os brinquedos
no âmbito da educação familiar,
é possíve l perce ber que a forma
como são guardados e oferecidos
pode consistir em uma manipulação
da brincadeira, uma pedagogia do
gesto e da vontade, configurando,
assim, uma "educação do corpo".

52 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


Nosso corpo, nossos gestos e as
imagens corporais que sustentamos
Construção social dos sexos
são fru tos de nossa cultura, dos
traços e dos valores sociais por ela Desde muito cedo, até mesmo antes de nascer, a identidade de
apreciados. O corpo é, portanto, gênero vai se delineando segundo expectativas manifestadas de
uma construção social produzida, acordo com o sexo do bebê. Os ditados e crença s populares são
moldada, modificada, ado rnada exemplos de como os comportamentos e sinais da mãe são associa-
segundo parâmetros culturais. dos ao sexo do bebê: se a face da mãe estiver rosada, nascerá um
Torna-se, portanto, indispensá- menino, se estiver pálida, será menina; se o bebê estiver agitado
vel pensar sobre práticas, habilidades e der muitos pontapés, certamente será menino, se estiver mais
e configurações corporais infantis, ca lmo e a mãe com muito sono, menina.
assim como sobre os modelos cog- É clara a construção social das diferenças e ntre os sexos até
nitivos nelas referenciados, como mesmo antes do nascimento. A socióloga Dulce Whitaker chamou a
configurações de gênero, processa- esse fenômeno "didática da gravidez", ou seja, a maior valorização
das, reconhecidas e valorizadas na do bebê do sexo masculino e a diminuição da auto-estima das me-
e pela cultura na qual se inserem. É ninas, atribuídas às crianças no útero materno. Ao nascer, menina
importante perguntar como esses e menino já têm sua educação, de certa forma, direcionada: pais e
mecanismos sociais se fazem pre- mães já delineiam mentalmente o modelo a seguir. Crianças ainda
sentes na educação de meninas e pequenas construirão um corpo, mas não assexuado; um corpo, um
meninos, como são inscritos em seus modo de andar, de falar, de agir masculino ou feminino.
corpos, como disciplinam, regulam O corpo de meninas e meninos também passa, desde muito
e controla m seu comportamento, cedo, por um processo de feminilização e masculinização, res-
posturas, verdades e saberes. ponsável por torná-los "mocinhas" ou "capetas". Esse minucioso
processo se repete, até que a violência e a agressivldade da menina
DESEMPENHO ESCOLAR desapareçam, até que ela comece a se comportar como uma "ver-
Homens e mulheres adultos educam dadeira" menina, delicada, organizada e quieta, re primindo sua
crianças defi ni ndo di fe renças de agressividade e ressaltando sua meiguice e obediência.
gênero. As características físicas e já para o men ino, esse processo se dá ao contrário: na atribuição MESMO ANTES do
nascimento fatores
os comportamentos esperados para de tarefas dinâmicas e extrovertidas e, em especial, com a privação
exte rnos influenciam
meninos e meninas são reforçados, da afetividade, não lhe sendo permitido, por exemplo, expressar- a formação da
às vezes de forma inconsciente, nos se pelo choro. A masculinidade está calcada na coragem física, personalidade
pequenos gestos e práticas do dia- no trabalho, na perseve-
a-dia na educação infantil. A forma rança, na compe titividade
como a família ou a professora con- e no sucesso, elementos
versa com a menina, elogiando sua entendidos como os mais
meiguice, ou justificando a atividade importante s para sua
sem capricho do menino; o fato de constituição, considerada
pedir para uma menina ajudar na lim- hegemônica: a coragem,
peza e ao menino para carregar algo diretamente relacionada
demonstram como as expectativas à força física, à energia, à
são diferenciadas para cada sexo. O ousadia, à virilidade.
que é valorizado para a menina não Crianças de ambos os
é, muitas vezes, apreciado para o sexos são agressivas, mas
menino e vice-versa. nesse processo a agressão,
Meninos e meninas desenvolvem no sentido de satisfazer
seu comportamento e potencialidades necessidades, é estimu-
a fim de corresponder às expectativas lada para apenas um dos
de um modelo singular e unívoco sexos, restando ao outro
de masculinidade e fem inilidade a passividade.
em nossa sociedade. Muitas vezes
família c escola orientam e reforçam

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Conviver com habilidades específicas para cada sexo,
transmitindo expectativas quanto ao
a desigualdade tipo de desempenho intelectual
implica considerado "mais adequado",
manipulando recompensas e sanções
compreender
sempre que tais expectativas são ou
o modo não satisfeitas. Meninas e meninos
como nossa são educados de forma mui to
• Maior no cérebro masculino • Maior no cérebro feminino
diferen te, sejam irmãos de uma
sociedade mesma família, sejam alunos sentados DIFERENÇAS CEREBRAIS

opõe e na mesma sala, a ler os mesmos )ill M. Goldstein, da Faculdade de Medicina de Harvard, e seus colabo·
livros ou a ouvir o mesmo profes~or. radores mediram o volume de áreas do córtex masculino e feminino e
hierarquiza A diferença está nas f~rmas nem
desco briram haver muitas difere nças de ta manho em regiões cerebra is.
Entretanto, do ponto de vista científico, não é possível afirma r que essa
as diferenças sempre explícitas com que membros divergência anatô mica resultaria e m d iferenças na capacidade cognitiva.
da família e educadores interagem
com as crianças.
Pesquisas apontam que as jus- enquanto meni nos são considerados cações fundadas no determinismo
tificativas para as diferenças de displicentes com os estudos, ausen- biológico. A teoria do determinismo
desempenho escolar entre meninas tes, dispersivos, agitados, desatentos, biológico busca na anatomia e na
e meninos no ensino fundamental ainda que mais inteligentes. fisiologia justificativas anatômicas
estão relacionadas às representa· As diferenças podem ser per- para as relações e identidades de
ções e às expectativas dos educa- cebidas, mas não são fixadas na gênero na socieda de moderna.
PRECONCEITOS
limitam a capacidade dores quanto à caracterização dos característica biológica apresentada Se acreditarmos nessa explicação
criativa das crianças comportamentos: as meninas são ao nascer. Os significados de gênero natural sobre as diferenças entre
e inibem iniciativas:
apontadas como mais responsáveis, - habilidades, identidades e modos os sexos, será inviável uma política
atividades lúdicas e
esportivas deve m ser dedicadas, comunicativas, estudio- de ser - vão sendo socialmente social igualitária para a formação de
incentivadas sas, interessadas, sensíveis, atentas, configurados, impressos no corpo de homens e mulheres em áreas como
meninos c meninas de acordo com a engenharia e a física.
as expectativas de uma determinada A desigualdade de gênero ainda
sociedade (ver quadro acima). presente em nossa sociedade afeta
até mesmo as pesquisas sobre o
EXPRESSÕES BLOQUEADAS desempenho e o desenvolvimento
Se, por um lado, é possível perce· cognitivo de meninas e meninos. No
ber o controle da agressividade na entanto, afirmações biológicas sobre
menina, o menino sofre processo diferenças sociais nem sempre são
semelhante, mas em outra direção: válidas do ponto de vista científico,
nele são bloqueadas expressões de pois esse conhecimento também é
sentimentos como ternura, sensibi- socialmente construído. Ultrapassar
lidade e carinho. Não se questiona o a desigualdade de gênero implica
caráter desse processo, afirmando-se compreender o caráter social de sua
tratar de falo natural ligado ao sexo produção, o modo como nossa socie-
biológico. As exceções que se apre- dade opõe, hierarquiza e naturaliza
sentam são consideradas exceções, e as diferenças entre os sexos, reduzin·
assim o preconceito não chega nem do-as às características físicas tidas
a ser arranhado. como naturais e, portanto, imutáveis.
As preferências não são meras Implica perceber que esse modo
características oriundas do corpo único e difundido de compreensão
biológico, são construções sociais é reforçado pelas explicações oriun·
e históricas. Portanto, não é mais das das ciências biológicas e também
possível compreender as diferenças pelas instituições sociais, como a fa-
entre meninos e meninas com expli- mília e a escola, que omitem ser essas
O conceito de gênero

A denúncia do pretenso caráter fixo e binário


de categorias como fe minino e masculino,
contido nas explicações biológicas para as
dife renças cognitivas e ntre os sexos, tem no
conce ito de gê nero parte do reconhecimento
do caráter social e historicamente construído
das desigualdades fundame ntadas sobre as
diferenças físicas e bio lógicas.
Nos dicionários brasileiros o t e rmo gênero
é definido como uma forma de classificação e
como o modo de expressão, real ou imaginá rio
dos seres. A partir da d écada d e 80, o conceito
de gênero foi incorporado pela sociologia
como referência à organização social da re lação
entre os sexos. A elaboração desse conceito
ainda recebe forte influência de áreas como ~
lingüística, psicanálise, psicologia, história e ~
antropologia, responsáveis por demonstrar a ~
variabilidade cultural d os comportame ntos, ;
aquisições e habilidades consideradas femini-
nas e masculinas. Isso significa que masculini-
dades e feminilidades plurais são configuradas
fundamentalme nte pela cultura. preferências construídas social- SAIBA MAIS ,,.
Na década d e 90, os estudos da historiadora americana joan mente e passíveis de transformação.
Ser menina ontem e
Scott tiveram influência significativa nos estudos brasileiros de gê- Ao buscar as causas sociais e hoje: notas para uma
ne ro, nas reflexões críticas sobre educação, bem como sobre o saber cul turais das difere nças entre me- pré-história do feminino.
produzido acerca das dife re nças sexuais e dos vários significados que ninos e meni nas, encontraremos Egle Becchi, em Proposições:
esse conhecimento adquire nos distintos espaços de socialização, suas origens em pequenos gestos Dossiê: educação infantil e
gênero, vol. 14, n° 42, págs.
e ntre os quais as instituições responsáveis pela educação. cotidianos, em reações automáti-
41-52, 2003.
A adoção da perspectiva de gênero, seja em estudos acadê- cas, cujos motivos e objetivos nos
Fazendo diferenças:
micos, seja nos espaços de construção de socialização variados, escapam, as quais repetimos sem ter
teorias sobre gênero,
reque r o reconhecime nto de que mulheres e homens não são consciência do seu significado, por- corpo e comportamento.
iguais, as relações que estabe lecem são assimétricas, não há um que as interiorizamos no processo Maria Teresa Citeii, em
único mode lo de masculinidade ou de feminilidade e as relações d e educacional. São preconceitos que Revista Estudos Feministas,
poder perpassam també m os relacioname ntos e ntre as mulheres não resistem à razão t: qut: continu- Centro de Filosofia e Ciências
amos a considerar como verdades Humanas, UFSC, vol. 9, págs.
e e ntre os home ns.
131-145, 2001.
Gê nero remete e ntão à dinâmica da tra nsfo rmação social, aos intocáveis, nos costumes e nas
Relações de gênero nas
significados que vão alé m dos corpos e do sexo biológico e que regras inflexíveis. Diante da opres-
brincadeiras de meninos
subsidiam noções, idéias e valores nas distintas áreas da organização são que vêm sofrendo, meninos e e meninas na educação
social: podemos encontrá-los nos símbolos culturalme nte disponí- meninas deixam de experimentar, Infantil. Daniela Finco,
veis sobre masculinidade e fe minilidade, heterossexualidade e ho- de inventar e de criar. em Pro-posições: Dossiê:
mossexualidade; na e la bo ração de conceitos normativos referentes O modo como estão sen do educação infantil e gênero,
vol. 14, n° 42, págs. 69-1 02,
aos campos cie ntífico, político, jurídico; na formulação de políticas educados pode contribuir para
2003.
públicas implantadas e m creches e escolas; nas identidades subjeti- se tornarem mais completos e/ou
Gênero: uma categoria
vas e coletivas. Ele permite reconhecer a te ndê ncia à naturalização para limitar suas iniciativas e suas
útil de a nálise histórica.
das re lações sociais baseadas na fisiologia dos corpos e e nxergá-los aspirações. Sem uma plena eqüida- )oan Wallach Scott, em
como signos impressos po r uma socied ade e p or uma cultura. de social, jamais poderemos saber Educação & Realidade, vol.
quais são essas possibilidades. mec 20, n° 2, págs. 71 -99, 1995.

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e tivesse sido cego a vida inteira e de repente
POR DAVID DOBBS

Jornalista especializado em temas


de ciência, medicina e cultura
S passasse a enxergar, será que você distinguiria pela
visão o que já conhecia pelo toque - por exemplo,
diferenciaria um cubo de uma esfera? As flores pareceriam
TRAOUÇÃo, Frances jones
com as flores tocadas e os rostos com os rostos, ou tudo
seria uma grande confusão? De que forma começaria a dar
sentido aos vários objetos apresentados imediatamente à
sua vista? Se nascemos sem saber nada, como passamos
a saber alguma coisa?
A psicóloga Elizabeth Spelke, professora da Universi-
dade Harvard, leva essas questões àqueles que talvez sejam
os mais habilitados para respondê-las: os bebês. No amplo
laboratório doWi lliam )ames Hall, Spelke e seus colabora-
dores têm lidado com alguns dos mistérios mais insondáveis
do conhecimento humano pesquisando seres que ainda
não conseguem falar, andar ou mesmo engatinhar. Ela tem
o que chama de "apetite insaciável" para estudá-los. Seus
colegas de laboratório procuram voluntários por meio de
páginas na internet, folhetos e cartas enviadas a berçários
e consultórios de pediatria. Eles observam como os bebês
sentam no colo de suas mães, procurando pelos sinais que
permitem aferir suas primeiras compreensões de números,
linguagem, percepção de objetos, espaço e movimento.
As descobertas de Spelke ajudaram a rever drastica-
mente nossos conceitos sobre a percepção humana nos
primeiros dias, semanas e meses de vida. A pesquisadora
forneceu algumas das evidências mais substanciais até hoje
a respeito de questões como Natureza versus cultura e
características inatas versus adquiridas. Suas constatações
sobre aquilo de que um bebê é capaz se tornaram centrais
para desvendar a cognição humana.
A partir de suas conclusões, a psicóloga construiu uma
teoria audaciosa - se não polêmica - do core kuowledge ou
"conhecimento de base", segundo a qual todos os humanos
nascem com habilidades cognitivas que lhes permitem
entender o mundo. Esse conhecimento básico, diz ela,
fundamenta tudo que aprendemos ao longo da vida e tanto
nos uni Hca como nos distingue enquanto espécie. A teoria
levou a Associação Americana de Psicologia a laureá-la com
o William)ames Fellow Award no ano 2000. E seu trabalho
mostra que, apesar das diferenças entre as pessoas, todos
temos mais em comum do que em geral reconhecemos.

CLAREZA, NÃO CONFUSÃO


O cerne da metodologia de Spelke é a observação do
Psicóloga americana estuda os "olhar preferencial" - a tendência de bebês e crianças
primeiros indícios do pensamento em a exam inar mais demoradamente aqui lo que é novo,
surpreendente ou diferente. Mostre repetidas vezes a um
bebês. No início da vida, papel dos bebê um coelhinho de brinquedo e ele vai olhá-lo por um
hormônios é maior que o da cultura período cada vez mais curto. Mas experimente colocar
quatro orelhas no coelhin ho ao mostrá-lo, digamos, pela

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décima vez. Se o bebê detiver o Usando essa técn ica básica , o primeiro ano de vida como um
olhar por mais tempo, você saberá Fantz e outros descobriram que o período de eno rme desenvo lvi-
que ele diferencia quatro de dois. mundo dos bebês não era, como mento, muito mais agitado do que
A abordagem consegue contornar supunha o psicólogo William então se considerava.
as incapacidades do bebê em falar )ames em 1890, uma "confusão
ou em articular movime ntos e tira cheia de movimentos e zumbi- SEM CAIR
o máximo da única coisa que ele dos". Os bebês davam sentido ao Esse trabalho atraiu Spelke quando
controla bem: o tempo em que fixa mundo de imediato. Por exemplo, ela ainda era universitária na Facul-
os olhos em um objeto. Fantz e outros descobriram que dade Radcliffe. De 1967 a 1971 , ela
Spelke não inventou o método os recém-nascidos podiam dife- estudou com o psicólogo do desen-
de estudo do ol har preferencial. renciar o vermel ho do verde, com volvimento infantil Jerome Kagan,
O créd ito é de Robert L. Fantz, 2 meses discriminava m todas as de Harvard, e se entusiasmou com
psicólogo da Universidade Western cores primárias e, com 3, prefe- a investigação das operações essen-
Reserve, que na década de 50 e no riam o amarelo e o vermelho ao ciais da cognição através da análise
começo da de 60 descobriu que azul e ao verde. de crianças. Spelke prosseguiu com
chimpanzés e bebês olham por mais Eles constataram que um re- essa pesquisa quando trabalhou
tempo para objetos inespe rados. cém-nascido é capaz de distinguir em seu doutorado em psicologia
Um pesquisador conseguiria avaliar o rosto da mãe do de um estranho na Universidade Cornell, onde a
a capacidade de discernimento e (exceto quando ambos os adultos famosa psicóloga do desenvolvi-
A PSICÓLOGA percepção de um bebê ao lhe mos- usavam um lenço sobre o cabelo), mento Eleanor ). Gibson a orientou.
Elizabeth Spelke, trar uma seqüência de eventos di - um bebê de 4 meses reconhece fa- G ibson, uma das poucas psicólogas
de Harvard,
ferentes e controlados, observando miliares e um de 6 pode in terpretar premiadas com a Medalha Nacional
com uma de
suas pequenas quais mudanças seriam percebidas expressões fac iais. Na década de de Ciência, revelou muito sobre
voluntárias como novidade. 70, os psicólogos reconheceram a cognição infantil com alg uns

--~
....
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58 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


experime ntos de a lta q ualidade. PESQUISADORA
Sua experiência mais conhecida é avalia o tempo
que crianças
a d o "abismo visual ", em que faz pequenas fi xam os
uso de uma chapa de vid ro sobre o olhos num objeto
tampo de uma mesa. Ao engatinhar
sobre essa supe rfície escor regadia,
os bebês evi tariam uma provável
queda? A maioria sim, descoberta
que modificou as teorias sobre a
percepção espacial dos bebês.
Inspirada por essas pesquisas,
Spelke c hegou à sua próp ria ex-
pe ri ência inovadora. Quis inves-
tigar se quando os bebês olham
e escu tam percebem imagem e
som como duas coisas separadas
ou se reconhece m a relação e nt re
ambos. Ao se perguntar como
averiguar isso, ela conta que ima-
ginou d ois eve ntos visua is lado a
lado, como dois filmes, e um alto-
falante onde se poderia alternar o
som de cada um dos eventos. "O
bebê viraria o ol har pa ra o evento
correspondente à tr ilha tocada
pelo alto-falante? Essa experiência •
vi ro u m inha tese de doutorado.
Foi a primeira vez q ue fui capaz Segundo Spelke, a abordagem não os de 6 meses conseguem distinguir Estudo
de começa r com uma pergunta respondeu como essa habil idade 8 de 16 e 16 de 32 - mas não 8 de
geral sobre como organizamos um parece ser inata. 12 ou 16 de 24. Spelke constatou
mostrou que
universo unitá rio a par tir de mo- Ao longo dos anos, a especia- que bebês de I ano de idade, ao o cérebro
dalidad es mú ltiplas e transformar lista conduziu outras investigações observar uma pessoa escolher en-
a q uestão em um experimento de tre dois objetos, sabem pelo olhar
decodifica
sobre o reconhecimento de objetos
olhar preferencial simples- que se e rostos, mov imento, navegação do adu lto qual objeto ele pegará, sinais de
revelou bastante eficaz." es pacial e núm e ros (i nc lu indo enqua nto os de 8 meses não têm diferentes
relações numéricas). Como é ca- essa capacidade.
VINCULAÇÃO INATA paz de desenvolver testes simples À medida que aumentavam os sentidos
Spelke descob riu q ue os bebês mas tão poderosos? "Penso como dados resultantes desses projetos, numa única
reconhecem a ligação entre som uma criança de 3 anos", di z ela . Spelke começou a desenvolver sua
e visão, movimenta ndo o o lhar Ao mostrar aos bebês objetos em teoria do conhecimento de base, em impressão
conforme a trilha sonora. Assim movimento e depois interromper boa parte feita em colaboração com
teve início a sua carrei ra de análise seu cu rso lógico ou a velocidade, colegas como o renomado lingüista
de grandes questões por meio de ela descobriu que mesmo um bebê Noam C homsky, do Instituto de
experimentos apl icados a crian- de 4 meses infere que um objeto Tecnologia de Massachusetts, o
ças. A abordagem de modalidade em movimento deve se manter em matemático e neuropsicólogo cog-
mista tratou do mesmo "proble ma movimento. Apesar disso, apenas nitivo francês Stanislaus Dehaene e
de vinculação" enfrentado pelos aos 8 meses ele entende o princípio a psicóloga de Harvard Susan Ca-
cegos que subitamente começam a da inércia e espera que o trajeto do rey. Os sistemas do conhecimento
ver, investiga ndo como o cérebro objeto seja constante. de base, diz Spelke, são "módulos"
decodifica os sinais d e d ife re ntes Ao mostrar aos bebês diferentes neuronais presentes no nascimento
sentidos numa única impressão. séries de discos, ela descobriu que para a construção das representa-

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Desde o ções mentais de objetos, pessoas, O con hecimento de base "inatista"- a certeza de que nossas
relações espaciais e numéri cas. constitui o fundamento para um ca racterísticas são inatas. Elas são
nascimento, Similar à "gramática profunda" que robusto aparato cognitivo que naturais e não construídas. Spelke
bebês Chomsky acredita estar subjacente nos acompa nh a durante a vida, sa be bem que isso a coloca em
a toda linguagem humana, esses fato que praticamente ignoramos. u ma posição arriscada. Falar de
desenvolvem módulos de conhecimento básico "Mesmo para os adultos", afirma habi lidades naturais dá margem a
11
conhecimento permitem que todos os bebês or- Spelkc, "a maior parte das capaci- especular sobre d iferenças naturais
11 ganizem sua percepção. dades que nos permitem lidar com para essas habilidades.
de base o mundo (guiar nossas escolhas Há poucos anos, Spelke se viu
estabelecido TEORIA POLÊMICA através do ambien te, articular o envolvida em acalorada controvér-
A sofisticação desses sistemas em que di zemos, calcular se um ca rro sia sobre essas possíveis dife renças
por módulos bebês pa rece a d os módu los de na rua pode nos atropelar ou se quando foi bastante questionada
cognitivos primatas não-humanos, o que su- objetos em queda nos acerta rão) sobre a declaração do reitor de H ar-
gere um desenvolvimento antigo é completamente inconsciente. vard, Lawrence Summers, de que
que definem e evolucionário; um bebê de 6 Quantas coisas fazemos sem pen- as disparidades biológicas podem
representações meses tem a mesma compreensão sar direito nelas~ Operamos com ajudar a explicar por que as mulhe-
de números, es paço, objetos e sistemas cognitivos complexos que res ocupam tão poucos postos nos
mentais rostos que um macaco reso adulto. em geral não estão acessíveis à sim- departamentos de matemática e
de espaço, Spelke entende que esses instru- pies introspecção. Para mim, esse ciência daquela universidade.
mentos cognitivos são subjacentes é mais um sinal de que a maioria Éclaro que Spelke foi a escol ha
pessoas e a habilidades mais complexas e a de nossas operações cognitivas é natural pa ra debate r o assunto,
nu" meros co nhecimen tos que adquirimos como as dos bebês - construídas não apenas por ser uma cientista
ao longo do cresci mento, como sobre o conhecimento de base que altamente reconhecida da mesma
habi lidade de falar novos idiomas, temos desde pequenos." universidade de Summers, mas tam-
manipulação de números e outras Essa visão de Spelke é o que bém por ter estudado precisamente
operações mentais abstratas. os filósofos chamam de teoria as habilidades inatas mencionadas

A SOFISTICAÇÃO
DOS SISTEMAS
que permitem às
crianças organizar
percepções também
é observada em
fil hotes de primatas
não-humanos

60 MENTE&d REBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


pelo re itor. Embo ra não te nha
incli nação para a briga, Spelke
é espir it uosa , eng raçada, be m
info rmada e dotada de habil idade
arg um e ntativa. Ass im, cump riu
com elegância a tarefa de baixar a
bola de Su mme rs.
"Se você e ncarar as coisas de
acordo com o po nto de vista de
Summ ers," d iz ela com um leve
sorriso, "pesquisar as habilidades
cognitivas inatas, como eu faço, é
um estudo das dife renças entre os
sexos. Na vc::rdade, eu não sabia que
estudávamos di ferenças de gênero,
porque não encontramos nenhuma.
Mas uma vez que o assunto apare-
ceu, fiquei feliz em lhe contar sobre
nosso trabalho."

BRINCANDO DE ESCONDER
Spe lke ex plico u e m vár ias e n -
trevistas e num d ebate públi co,
bastante notic iado, com o colega e
amigo Steven Pi nker, psicólogo de
Harvard, como o grande volume tífico", como Spelke lembrou no Spelke, vem de estudos problemáti- NOS PRIMEIROS ANOS
de evidências, reu nidas depois de debate com Pinker, "esses sistemas cos cujos resultados são distorcidos de vida a influência da
cultura é peque na e a
décadas de pesquisa, mostra pouca se desenvolve m ig ualmente e m por influênc ias culturais - como dos hormônios, alta
(ou quase nenhuma) diferença base- homens e mulheres". pais q ue res po nde m d e mo do
ada no sexo de bebês ou de crianças O t imis ta inabalável, Spelke d iferente para meni nas e meni nos,
pequenas. Nesses primeiros a nos, acredita que a compreensão c res- depa rta me ntos de unive rsidade
quando a c ultura exerce o mínimo cente das habilid ades cognitivas q ue avaliam as mulheres com mais
de efeito e os níveis de hormô nios irá re duz ir, e não al ime nta r, a rigor. Summers deve ter levado o
sexuais estão ex tremamente altos, discórd ia sobre as qualidades hu- último ponto ao pé da letra: em
não apareceu ne nhuma d iferença manas. "Alg umas pessoas acham maio, anunciou que H arvard gas-
determ inada pelo sexo na enorme assustadora a idéia de termos habi- taria US$ 50 milhões e m dez anos Test subjects
variedade de habilidades relaciona- lidades naturais, porque isso parece para admitir e manter mulheres e In dlapers. Gisa
das ao pensamento matemático . estimular a noção de que algu ns minorias em sua faculdade. Asche rsleben, em
Po r exe mpl o, co loq ue uma tipos podem nascer mais dotados Enquanto isso, as cresce ntes pi - Scientific American
Mind, vol. 14, n2 5,
criança de 4 anos numa sala espe- que outros. Se você é um inatista lhas de informação sobre as crianças
págs. 74-77, 2004.
c ialmente arrumada, esconda um no que se refe re às capacidades - pessoas ainda não contami nadas
Number sense In
bloco e m um canto, faça a criança cogni tivas básicas, como eu, isso o pela cultura - mostram uma pari- human lnfants.
fechar os olhos e a gire, e e ntão peça leva a ser um inatista sobre, diga- dade surpreendente entre os sexos F. Xu, E. S. Spelke
que ela procure o b loco. Alg umas mos, as di fe renças entre os sexos? e as raças. "Obtivemos evidê nc ia e S. Goddard, em
delas vão se reorientar rapidamente Essas alegações de base biológica de um siste ma in trincado e rico Developmenta/Science,
vol. 8, ng 1, págs. 88-
na sala e encontrar o objeto; outras podem evolu ir até o ponto de ser de con he c ime nto de base com-
101, janeiro de 2005.
não. A porcentagem de me ninos invocadas para explicar tudo. Mas par ti lhado por todos e q ue nos dá
Plnke r versus Spelke:
e meni nas que conseguem, no en- você te m de ser muito cuidadoso um fu ndame nto comum", declara
a debate. Disponível
tanto, é idêntica. Po rtanto, embora sobre os dados que utiliza." Spelke. "Em um mundo com ta ntos em www.edge.org/
"haja um a base bio lógica para o A info rmação que parece ind i- confli tos, acho que isso é algo de 3rd_culture/de bate05/
pe nsamen to mate mát ico e c ien- car di fe re nças entre os sexos, afi rma que prec isamos mui to." nec debate05_index.html

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os últimos anos, alguns psicólogos e educadores
Problemas de aprendizagem
são mais comuns em garotos;
mais que diferenças cognitivas,
N têm chamado a atenção para o baixo rendimento
escolar dos meninos em relação às meninas. Dados
mostram que na Austrália, em 2001 , 80% das meninas que
iniciavam os estudos os concluíam; entre os meninos, esse
refletem projeções sociais número caía para 68%. já nos Estados Unidos, 56% dos
alunos que chegam ao fim do ensino superior são mulheres.
Cerca de 30% a mais dos garotos estão propensos a repetir ou
POR LAURA BATTAGUA
deixar a escola, segundo o Centro Nacional para Estatísticas
PIRES CAVALCANTl Educacionais dos EUA.
Para diminuir as discrepâncias, especialistas, principal-
Mestre em pskologla pela mente americanos, sugeri ram a ampliação de escolas não
USP, com especlalluf.io
pela Unlfesp, e consultora mistas (para que os alunos não se sintam inferiorizados em
em lncluslo escolar relação às colegas) e o ingresso na escola cerca de um ano
após as garotas. Embora seja precipitado afi rmar a relação
direta entre gênero e capacidade intelectual, essa proposta
tem como base teorias sobre imaturidade psicoemocional e
cognitiva dos meninos (inclusive do ponto de vista cerebral),
segundo as quais eles precisariam de mais tempo para ama-
du recer e controlar a impulsividade antes de poder usufrui r
da convivência em pé de igualdade com elas.
Levantamentos estatísticos brasileiros também apontam
aumento do rendimento escolar das alunas em relação aos
alunos nos últimos anos. Segundo a doutora em educação
Cláudia Vianna, da Universidade de São Paulo, e a socióloga
Sandra Unbehaum, da Fundação Carlos Chagas, nas últimas
quatro décadas as mulheres brasileiras passaram a ter mais
tempo de estudo que os homens, e isso merece devida
atenção (ver quadro na pág. 64).
Em que pese a importância decisiva da emancipação fe-
minina, em curso na maioria das sociedades modernas, é pre-
ciso cuidado para não incorrer em erros passados: transformar
os meni nos de hoje nas meninas de ontem, considerando-os
inferiores às mulheres do ponto de vista cognitivo.
Há na história da humanidade muitos enganos que nos
levam a questionar a validade de algumas afi rmações. Com-
provações científicas se revelaram verdadeiros desastres do
ponto de vista humano e social. Entre elas, as afirmações da
inferioridade da raça judaica por parte de cientistas alemães,
durante a Segunda Guerra Mundial, ou a incapacidade inte-
lectual de negros, por parte de pesquisadores americanos-
afirmações que condenaram povos inteiros à discriminação e
à morte. Nos dois casos, há visível dificuldade de convivência
com o diferente, permeada por preconceitos e intolerâncias.

g DIFERENÇAS SUSPEITAS
~ No caso do desempenho escolar há, contudo, um fato
I
verificado: o baixo rendimento escolar dos meni nos é uma
!3 realidade que chama a atenção de pais e profissionais. Essa si-
tuação seria mesmo sinônimo de imaturidade e inferioridade
~
o intelectual~ Se assim o fosse, tais insuficiências não estariam

www.mentecerebro.com.br 63
presentes também em outras esferas Padrão de mulher
da vida, além da escola~ Eas soluções
não deveriam ser transpostas para Para a pesquisadora Marília Pinto de Carvalho, da Faculdade de Educação
a sociedade em geral~ Caso isso se da USP, vários fatores interferem no baixo rendimento escolar dos meninos.
confirmasse, os homens começariam Entre eles, as relações que as crianças estabelecem entre si e com a cultura
a trabalhar mais tarde e em ambien- e como lidam com a diferença de gênero; as expectativas das famnias; e o
tes diferentes dos das mulheres. fato de haver muito mais docentes do sexo feminino que do masculino nas
A questão no entanto é bem salas de aula, principalmente nas primeiras séries. Segundo levantamento
mais complexa. O desafio aqui é da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura
entender a transposição feita en- (Unesco), de 2002, 94% dos professores brasileiros da primeira à sexta
tre uma constatação quantitativa série são mulheres.
(o número de fracassos escola res No estudo "Mau aluno, boa aluna? Como as professoras avaliam
masculinos) e um a afirmação meninos e meninas", Carvalho investiga como os alunos são avaliados e
qua li ta tiva (a superio ridade do como as educadoras vêem as diferenças de gênero e lidam com elas. A
desempenho feminino). pesquisa qualitativa foi desenvolvida com professoras da quarta série do
En tre os estud os brasileiros ensino fundamental I.
sobre o desempenho escolar de me- Normalmente, as diferenças de atitude entre meninos e meninas são de
ninos há o levantamento etnográ- imediato associadas ao rendimento escolar, mas há certa neutralidade no
fico feito em 2006 pela pedagoga discurso docente quando se confronta diferença social com aproveitamento
Rosemeire dos Santos Brito, mestre nos estudos. Na avaliação geral das professoras, o bom aluno (ou aluna) é
em educação pela Universidade de aquele curioso, que demonstra iniciativa - constatação feita também pela
São Pau lo. A pesq uisa, reali zada pedagoga Rosemeire dos Santos Brito, que contradiz a suposição de que as
ALGUNS PROFESSORES
criam os próprios com alu nos paul istas da segunda meninas têm tido melhor desempenho que os meninos porque são mais
modelos de bom e série do ensino fundamental I, dóceis e tranqüilas. A obediência às normas, a docilidade e a submissão
mau aluno: caderno baseia-se na constatação de que o causam desconforto entre as docentes.
limpo e caprichado rendimento escolar das garotas é Para as pesquisadoras, quando uma menina demonstra esses com-
é coisa de menina; já
material desorganizado superior ao dos meninos. A autora, portamentos, configura-se o modelo da "feminilidade silenciosa",
e sujo é de menino entretanto, refuta trabalhos que - típica da aluna que enfeita o caderno com-desenhos feitos com
canetinhas coloridas - , que diverge do ideal
feminino evocado pelas docentes. Carvalho
aborda a queda de rendimento escolar das boas
alunas e conclui que as professoras a associam ao
despertar da "feminilidade sedutora" (quando
as garotas passam a pensar mais em paquera,
maquiagem e roupas que nos estudos). Para as
educadoras ouvidas, sensualidade e sedução são
termos de caráter pejorativo. Essas associações
vão ao encontro do trabalho da etnógrafa ameri-
cana Barrie Thorne, professora de sociologia e de
estudos da mulher da Universidade da Califórnia,
para quem o docente teria dificuldade em lidar
com a sexualidade infantil e seus diferentes ritmos
de desenvolvimento.
Mas há um padrão de feminilidade valorizado
pelas professoras: nas palavras de Brito, é aquele
que "rejeita a afirmação exacerbada das diferen-
ças de gênero e propõe um padrão de mulher
mais independente que submissa e mais assertiva
que sensual". O problema é que as alunas nem
sempre estão de acordo com ele.

64 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


dizem ser mais fáci l educar meninas, DOCENTES se
mais dóceis, passivas e obedientes incomodam mais
com os alunos
que os meninos. excessivamente
Segundo ela, docentes se in- dependentes
comodam menos com os alunos do que com os
indisciplinados,
ind isciplinados (independente- diz autora
mente do sexo) do que com os
mais dependentes. Um estudante
indisciplinado, mas com bom apro-
veitamento escolar, seria autônomo,
participativo e crítico e mais bem
considerado por eles que aquele que
vai mal, não tem concentração e é
igualmente agitado. A autonomia
valorizada pelo professor extrapola
a sua área de atuação profissional,
pois o aluno de certo modo é con-
siderado por ele um autodidata, que
"já vem sabendo de casa" ou "apren-
de apesar da escola". O bom aluno,
crítico e autônomo, é respaldado ~ u.:......M..~
pela família e tem sua bagagem
cultural valorizada pela escola. nossa sociedade; resta investigar A disciplina está sempre sob o Nas meninas,
quais são e como têm sido aborda- jugo do corpo docente. Do ponto
FORÇA FÍSICA dos nas escolas. de vista subjetivo, a avaliação se dá
a apatia,
Pesquisas australianas citadas por Assim como há um padrão com base nos repertórios pessoais costuma ser
Brito apontam dois modelos de ideal feminino para a relação ensino/ de cada professor, que só parcial-
interpretada
masculinidade na escola. Um vin- aprendizagem, também o há para os mente tem consciência dessa trama
culado às classes trabalhadoras: a meninos. Seria saudável que os ga- imaginária de valores, segundo a como
forma de afirmar a identidade de rotos pudessem aderir à instituição qual as crianças têm de buscar um
submissão;
gênero entre os meninos se daria de ensino, sem se tornar submissos a ponto que garanta equilíbrio e bom
pelas atividades físicas e agressivas, ela - mas qualquer exagero em uma rendimento. Pesquisas americanas, nos meninos,
mais que pelas intelectuais. Nesse ou outra ponta dessa balança deriva mencionadas pela pedagoga Marília como
grupo haveria maior índice de alu- para a imagem do aluno agressivo Pinto de Carvalho, da Faculdade de
nos com baixo rendimento escolar; ou desleixado. Educação da USP, indicam que o desleixo
a inferioridade no aproveitamento Aos olhos dos professores, as comportamento de um menino só
seria compensada pela força fí- ações dos alunos são avaliadas de será avaliado da mesma forma que
sica. O outro modelo se aplica a formas distintas, conforme o gênero o de uma menina se o professor
famílias mais intelectualizadas, em sexual. A apatia, no caso nas meni- for objetivo. A questão é que a
que o homem é bem-sucedido e a nas, costuma ser interpretada como subjetividade e o imaginário social
competitividade se dá no campo excesso de submissão; para os meni- entram sempre em cena, e os garo-
do conhecimento - cânone mais nos, é tomada pordescompromisso e tos acabam recebendo avaliações
compatível com a rotina escolar. desleixo com os estudos. Vários são mais negativas que as garotas para
Voltamos então à questão so- os exemplos que evidenciam como os mesmos gestos e atitudes. A
ciológica do capital cu ltural dife- os educadores concebem a mas- avaliação do aluno responde então
renciado. Permanece a pergunta culinidade e a feminilidade. Todo às relações sociais e de gênero.
sobre sua interferência na formação professor cria os próprios modelos A educação se dá portanto den-
dos diversos referenciais de mascu- de bom e mau aluno: caderno limpo tro de um contexto mais amplo que
linidade e femini lidade e sua relação e caprichado é coisa de menina e de o da aquisição de conteúdos, pois
com o rend imento escolar. Há bom aluno; já material desorganiza- comporta as relações subjetivas em
distintos modelos conferidos por do e sujo é de menino. jogo entre educadores e educandos.

www.mentecerebro.com.br 65
O primeiro Além disso, há a questão da sexuali- ocupa essa função). Desse modo, a a partir dele que os conteúdos e
dade das crianças. E também a dos criança, objeto passivo das investidas objetos do mundo serão buscados
"I ugar" de adultos/professores. maternas, é aos poucos colocada e incorporados. Mas para isso é
conhecimento Do ponto de vista psicanalítico, na posição que Freud denominou preciso renunciar ao narcisismo
as angústias humanas orbitam a bissexual (que nada tem a ver com - o que se dará com a castração,
humano é o
.
/
sexualidade. O aspecto sexual não orientação sexual adulta), na qual ao final do complexo de Édipo.
propno é um dado natural, associado neces- alterna passividade (relacionada ao Embora meninos e meninas lidem
sariamente ao substrato biológico sexo feminino) com atividade (típica de formas dife rentes com a des-
corpo; é a coberta da diferença anatômica
- é fruto de um engendramento do sexo masculino).
partir dele que psíquico que tem início desde o O desfecho dessa ambigüidade sexual, inclusive com processos de
o interesse nascimento do bebê. Subjaz um se dá na confrontação com a questão identificação diversos, para ambos
complexo processo subjetivo em edípica, por volta dos 3 ou4 anos. O os gêneros todo objeto de conhe-
pelo mundo é que os dois sexos se organizam falo é a instância psíquica que mais cimento torna-se sexual, pois virá
despertado em torno de um mesmo centro: a sofre investimentos imaginários no lugar da sexualidade infantil
questão fálica. Para o psiquismo, a e simbóli cos. Representação renunciada (cujos objetos, por volta
diferença sexual reside no modo de construída em torno da anatomia dos 3 ou 4 anos, eram pai e mãe).
posicionar-se diante desse tema. masculina - embora não seja o Assim, as maneiras de conhecer são
O ser humano exerce a pênis em si-, o falo é o organizador subjetivas, e o sujeito aprendiz é
sexualidade de formas variadas da sexualidade. Após explorar os sempre um ser desejante.
e não predeterminadas, pois os objetos com a boca e descobrir A escola transmite valores e ide-
objetos de interesse são infi nitos. que pode sentar, andar, manipular ais e serve de espelho da sociedade
O próprio corpo do bebê é alvo objetos com as mãos, a criança passa em que se insere, mostrando sob qual
de libidinização matern a. Para a se interessar pelo seu órgão genital código ético se tecem as relações
que se torne um sujeito, pleno de e também a tocá-lo. inter e intra-subjetivas. Ela também
desejos, o recém-nascido precisa representa a cul tura no espaço e no
CRIANÇAS LIDAM tempo físico em que a criança per-
se r amado, olhado, decifrado, RENÚNCIA AO NARCISISMO
de diversas formas
com a descoberta da fa lado, contornado por imagens e O primeiro "lugar" de conhecimen- manece fora de seu lugar primordial
sexualidade símbolos caros à mãe (ou por quem to, portanto, é o próprio corpo. É -a família, agente primeiro na incor-
poração das dinâmicas socioculturais
- e proporciona a passagem do
indivíduo para o grupo. Para isso é
fundamental que cada membro da
escola encontre espaço para expres-
sar sua individualidade: professores
e alunos ensinam e aprendem, mas
cada um de forma totalmente única.
A subjetividade não é mera coad-
juvante no processo de aquisição e
transmissão de conhecimento; a se-
xualidade, conforme concebida pela
psicanálise, permeia o tempo todo as
relações de ensino e aprendizagem,
bem como as forças de identificação
entre os agentes envolvidos.
Mas, afinal, como essa sexualida-
de inerente aos humanos e particular
a cada um se relaciona ao atual re-
baixamento do rendimento escolar
dos meninos?
Primeiro, parece estranho afirmar
qualquer prejuízo intelectual com

66 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


No Brasil

O PNE (Plano Nacional d e Edu-


cação) de 2002 ressalta que
a d istribuição de matrículas
quanto ao g ê nero, no início
do ciclo escola r ensino funda-
mental I (EFI), é equilibrada em
todo o território nacional, sendo
49,5% de meninas e 50,5% de
meninos. Esses números sofrem
alterações importantes ao longo
dos anos de escolarização. Le-
vantamentos do lnep (Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais) de 2003 revelam
que 47,7% das matrículas no
EFI são de meninas e 52,3% de
meninos. Essa proporção sofre inversão já no ensino fundamental
11, com 50,4% de meninas, contra 49,6% de meninos, e ao final do Vale relembrar que, para a psi-
ensino médio, 54,1% dos alunos que concluem o curso são do sexo canálise, as formas de identificação
feminino, enquanto 45,9% são do sexo masculino. seguem duas vertentes, uma imagi-
Outros dados que chamam a atenção são os relativos ao analfabetis- nária e outra simbólica. Pensemos
mo entre os jovens. Em 2000, os analfabetos funcionais de 15 a 24 anos essas identificações na escola: no
somavam 18,5% de rapazes mais 12,8% de moças. Segundo Pesquisa campo do imaginário, se o pro-
Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD), de 1999, os absolutos
fessor se coloca como modelo de SAIBA MAIS '-
encontrava m-se na faixa de 5% para jovens do sexo masculino de 15 a
19 anos contra 2,5% para o sexo feminino da mesma faixa etária. identificação ideal, o fará de modo Intrincada trama
autoritário e narcísico, restando à de masculinidade
e feminilidade:
criança ou adolescente adequar-se
fracasso escolar
base na avaliação por gênero, seja de crianças e jovens, indicando que a ele sem possibilidade de exercer de meninos. R. S.
de homens ou de mulheres, já que os algo importante na relação docente/ a própria subjetividade. Diferente Brito, em Cadernos
primeiros foram os responsáveis por discente se perde. disso é a identificação regida pela lei de Pesquisas, vol. 36,
nR127, 2006.
quase toda produção intelectual que A questão, parece estar mais simbólica, que serve igualmente ao
Mau aluno, boa
trouxe a humanidade até os séculos no lugar social que nos gêneros professor e ao aluno - de qualquer aluna? Como
XVIII e XIX - a partir de quando que a sexualidade ocupa (espe- gênero-e regula as relações do pon- as professoras
as mulheres passaram a contribuir cialmente a masculina). Convém to de vista ético. Nesse segundo caso avaliam meninos
e meninas. M. P.
significativamente nesse processo. investigar como o aspecto cultural é o lugar de autoridade que serve de Carvalho, em
Segundo, embora haja de fato mais contribu i para a formação das como modelo de identificação e não Revista de Estudos
meninos com baixo rendimento diversas subjetividades. o professor autoritário que o ocupa. Femininos, vol. 9, ng
escolar do que meninas, outros tan- 2, 2001.
A sexualidade se interpõe nas Portanto, o educador ético é
Políticas
tos têm bom desempenho. Não se relações humanas, ora como mote aquele que se presta a ser modelo educacionais e
trata de uma questão de capacidade de disputa, ora em processos de sem realmente sê-lo: ele estará dispo- superação das
intelectual e cognitiva, portanto. Ter- conciliação. Se as mulheres vêm se nível mas não exigirá do aluno uma discriminações
ceiro, quando o professor é levado a modificando ao longo dos séculos única forma de posicionar-se, igual de gênero: o caso
do PNE. C. Vianna
deixar de lado os critérios objetivos em busca de novos espaços de à sua, mas apontará caminhos pos- e S. Unbehaum.
(nas avaliações subjetivas ou pesso- atuação, em decorrência também síveis. Essa diferença sutil permitirá Trabalho apresentado
ais), os garotos saem prejudicados. os homens se viram obrigados a à criança ocupar o próprio espaço no Seminário
Internacional
Isso indica que algo se coloca nessa mudanças, porém a redefi nição com relação ao conhecimento, tendo Fazendo Gênero
construção imaginária da figura do dos papéis sociais ainda não parece respeitado o seu ritmo de aprendiza- 7. Universidade
aluno, algo que diz respeito à posição clara. O que se pode levantar como gem e amadurecimento. O professor Federal de Santa
Catarina, agosto
do gênero masculino na sociedade de hipótese nessas transformações são não pode ser o representante abso- de 2006. www.
hoje. Quarto, professores têm difi- as novas formas de identificação e luto da verdade do aluno - seja ele fazendogenero7.ufsc.
culdade de lidar com a sexualidade sexualidade postas no âmbito social. menino ou meni na. ~ br/st_23.html

www.mentecerebro.com.br 67
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entira está a serviço de interesses pessoais e da
btenção de alguma vantagem sobre os outros.
as, afinal, quem mente mais, o homem ou a
mulheo Pesquisadores afirmam que mais importante que
simplesmente q ua ntificar é constatar que há diferentes ob-
jetivos a ser atingidos por cada um dos sexos ao falta r com
a verdade. Por meio do arguto fa lseamento dos fatos, do
fingimento refinado e da cordialidade representada com
esperteza, os seres humanos buscam, independentemente
do gênero, apresentar-se da melhor maneira possível e
impor seus próprios interesses. Isso vale especial mente
para eles, como descobriu o psicólogo Robert Feldman,
da Universidade de Massachusetts.
Segundo o es tudo, gra nde parte do que a maioria dos
seres humanos diz, não tem fundame nto- ou porque de
fato não é verdade ou porque há d istorções, das quais
às vezes nem o próprio indivíduo se dá conta. Segundo
uma projeção realizada a partir do acompan hamento do
discurso diário de mulheres e homens, elas faltam com a
verdade aproximadamente 180 vezes ao longo do dia e
eles, 220 vezes.
Numa pesquisa com 242 es tudan tes da Universidade
de Massachusetts, participantes do sexo fem inino mentiam
em suas conversas com desconhecidos visando sobretudo
proporcionar maior bem-estar a seus interlocutores. )á os
homens mostraram-se mais interessados em promover a
própria imagem. Na opinião de biólogos da evolução, foi
a própria vida social, com suas hierarquias e tramas de
relações, que pri meiro t rouxe ao mundo a mentira desla-
vada. O falseamento intencional só pôde desenvolver-se
em grupos complexos. Até mesmo os chimpanzés, que
vivem em bando, são mestres da dissimulação. Valendo-se
de truques, engodos e fi ngimentos, eles luta m por posição
hierárquica, comida e parceiros sexuais. E correm algum
risco ao fazê- lo.
Quem não deseja ser constantemente enganado preci-
sa ter a capacidade de descobrir com precisão artifícios e
enganações alheios. Os antropólogos vêem precisamente
· !:P,o~ ui.RaeH KRAFT na constante corrida entre desmascaramento e aperfei-
çoamento da men tira a fo rça motriz que, do ponto de
Médico e jornalista
científico vista filogenético, talvez tenha sido a responsável pelo
TRADUÇÃO: Sergio Te//aro/1 desenvolvimento da inteligência social. É possível que
ela tenha dado origem até mesmo à linguagem verbal.
Especialistas mais empedernidos chegam a defender a tese
de que o ser humano deve o aumento de seu cérebro à
pressão evolucionária por uma capacidade cada vez mais
refinada de enganar.
Depõe a favor dessa teoria o fato de, por trás de cada
mentira deliberada, haver sempre um feito intelectual
brilhan te. Sim, pois esconder a verdade - e, em seu lugar,
inventar uma história sólida e irrefutável - não apenas

www.mentecerebro.com.br 69
disso, porém , Langleben havia fatos e então mediram seu tempo
solicitado expressamente aos parti- de reação. O resultado: quando os
cipantes que mentissem: quando a participantes admitiam com since-
carta certa aparecesse no monitor, ridade não ter a menor idéia do que
exigindo um "sim" como resposta ou quem se tratava, pressionavam
verdadeira, eles deveriam negá-lo. o botão do "não" em, no máximo,
Assim, um dos 36 "nãos" proferidos meio segundo. No caso das respos-
era com certeza uma mentira - e foi tas mentirosas, esse tempo de reação
na pista desse "não" específico que os subia para mais de um segundo.
pesquisadores se lançaram. De fato, Mesmo depois de informados dos
os cientistas identificaram cada um pormenores do estudo e dispondo
dos engodos. Em certas regiões do de tempo para "treinar", ainda assim
cérebro a atividade se intensificava não conseguiram pressionar o botão
de modo significativo sempre que os com mais rapidez.
participantes recorriam à mentira.
Chamou a atenção a elevação da FALSAS E DISSIMULADAS
atividade cerebral em duas regiões Embora Langleben esteja procuran-
específicas: o giro do cíngulo ante- do decifrar sobretudo os processos
rior e o córtex pré-frontal. neurobiológicos associados ao ato
NEM TODOS demanda muita criatividade como Ambas as regiões auxiliam na de menti r, ele sabe do potencial
SE ENGANAM: pressupõe a capacidade de se pôr determinação dos conteúdos da que o resultado de suas pesquisas
ao ouvir discurso
de Ronald Reagan, mentalmente na pele dos outros. O memória que chegam à nossa cons- representa. "Como a ressonância
grupo de afásicos poder de imaginar como se é visto ciência. O giro do cíngulo dirige magnética funcional mede direta-
detecta rapidamente pela pessoa enganada está entre os a atenção e serve ao controle dos mente a atividade do cérebro, ela
o engodo do
feitos cognitivos mais característi- impulsos. No córtex pré-frontal, por é superior à técnica habitual do
ex-presidente
americano cos do ser humano. outro lado, está sediada a instância detector de mentiras." Ekman, por
Onde se localiza no cérebro o inibidora do cérebro. Aí é rechaçado sua vez, ocupa-se há quase duas
requisitado departamento de pro- tudo que é irrelevante num dado décadas com a pesquisa de sinais
paganda em causa própria é o que momento e que, por isso, não deve corporais que denunciam o men-
tem pesquisado Daniel Langleben, ser enxergado mentalmente. É o tiroso. Num de seus experimentos
da Faculdade de Medicina da Pen- caso, aqui, dos fatos verdadeiros, por mais conhecidos, esse pesquisador
silvânia, Estados Unidos. Ele utiliza exemplo. Langleben explica: "Está das emoções exibiu a um grupo de
ressonância magnética funcional, claro que, para dizer uma mentira, futuras enfermeiras um vídeo com
método que permite identificar precisamos reprimir alguma coisa. imagens de pessoas que haviam
a elevação da atividade cerebral Essa coisa há de ser, então, a verda- sofrido amputação de membros. A
com base no aumento da irrigação de". Aliás, quando os participantes tarefa das participantes consistia em
Mais que sangüínea de determinada região. da experiência não foram obrigados convencer um entrevistador que não
inventar uma Langleben solicitou a participantes a mentir, os pesquisadores não assistia ao filme de que elas estavam
de uma experiência que dissessem registraram alteração alguma da vendo um belo vídeo com paisagens
mentira, o inverdades deliberadas. Cada um atividade cerebral. É de supor, por- naturais e imagens agradáveis.
desafio do recebeu uma carta de baralho num tanto, que a honestidade constitua, Para motivar o grupo de menti-
envelope fechado; ninguém- nem por assim dizer, o estado cognitivo rosas por encomenda, Ekman lhes
cérebro é
mesmo o condutor da experiência normal. O cérebro precisa, antes, disse que também em seu cotidiano
impedir que -sabia qual carta havia sido dada impedir que se diga a verdade. profissional elas com freqüência pre-
a verdade a cada um. Que mentir e enganar exige cisariam ocultar emoções negativas,
Tendo visto sua carta às escon- muito mais das células cinzentas é o tais como a consternação e o nojo
seja dita didas, o participante era posto no que confirma um estudo de psicólo- diante dos pacientes, e que, por isso
tomógrafo, onde um programa de gos da Universidade de Michigan, mesmo, o domínio da dissimulação
computador exibia-lhe, uma a uma, Estados Unidos. Eles perguntaram era uma capacidade importante
36 cartas de baralho, questionando a participantes de sua experiência se em seu ofício. Um segundo filme,
se se tratava da carta certa. Antes conheciam determinadas pessoas e exibindo bela paisagem litorânea

70 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


e descrito pelas participantes com decorrência de uma lesão no he-
sinceridade como tal, foi emprega- misfério esquerdo do cérebro, são
do como controle. capazes de compreender palavras
Ekman filmou as estudantes de isoladas, mas não o sentido de frases
enfermagem e analisou sua mímica inteiras: os chamados afásicos. Um
e linguagem corporal. Fez, então, grupo de afásicos caiu na risada
uma interessante descoberta: nem certa vez ao ouvir um discurso do
mesmo as mentirosas mais convin- ex-presidente americano Ronald
centes foram capazes de ocultar Reagan porque percebeu suas pala-
por completo sua verdadeira vida vras como um engodo. Mais tarde,
interior - embora só a traíssem verificou-se que o político estava de
por um brevíssimo instante. Essas fato dizendo uma inverdade.
"microexpressões faciais" duram Nancy Etcoff e Paul Ekman
menos de um quarto de segundo submeteram essa observação à com-
- instantes fugazes nos quais a provação científica, exibindo a dez
máscara cai e o semblante revela afásicos os vídeos do experimento
emoções verdadei ras, tais como com as estudantes de enfermagem.
repugnância ou embaraço, antes de Mesmo sem compreender o que
tornar a ocultá-las com um sorriso. estava sendo dito, eles conseguiram
"Nós não pensamos antes de sentir", diferenciar corretamente a mentira
explica Ekman. "Antes de termos da verdade em 60% dos casos.
consciência de um sentimento já "Os afásicos têm uma experiên-
estampamos no rosto sua expres- cia de verdadeiro reconhecimento
são." Os pesquisadores identificaram imediato, tão logo ouvem uma
ainda "microgestos", como um leve mentira", Etcoff esclarece. Quando
balançar da cabeça ou chacoalhar o condutor do estudo retirou o som,
dos ombros. Esses movimentos, e os afásicos puderam se concentrar fazer vista grossa aos engodos são TRAÍDO PELO
porém, eram apenas sugeridos, mui- apenas na expressão facial das futu- componentes sólidos da comuni- NAR IZ: personagem
criado pelo italiano
tas vezes deixando-se reconhecer ras enfermeiras, sua taxa de acertos cação interpessoal - quer isso nos Carlos Collodi
apenas em câmera lenta. como detectores humanos de men- agrade ou não. Quem não conhece t o rn o u-se s inônimo
Esta é possivelmente a razão tiras subiu para quase 65%. muito bem ou não aceita as regras d e m e ntiroso
pela qua l quase todos os seres hu- vigentes torna-se impopular. Foi
manos são péssimos detectores de VISTA GROSSA assim que Bella DePaolo descobriu
mentiras. A psicóloga americana "A li nguagem foi dada ao homem que jovens com muita sensibilidade
Bella DePaolo, da Universidade para que ele ocultasse seus pensa- para perceber mentiras e engodos
da Virgínia, examinou cerca de mentos", sentenciou no passado o e incapazes de mantê-los em se-
I 00 estudos sobre o desmasca- ministro do Exterior de Napoleão, gredo foram avaliados tanto pelos Telllng lles. Clues
ramcnto da mentira. Seu balanço Charles Maurice de Talleyrand. E colegas como pelos professores to decelt the
revela: antes de começar a refletir mais que isso: ela parece tão domi- como menos hábeis socialmente. marketplace,
sobre se alguém está ou não nos nante que homens saudáveis têm Em oposição a isso, um estudo polltlcs, and
marrlage. P. Ekman.
enganando, melhor recorrer a um imensa dificuldade para interpretar de Robert Feldman mostrou que
Norton: W. W. &
cara ou coroa - nossa porcentagem sinais no rosto do mentiroso. Mesmo adolescentes capazes de mentir Company, 2001.
média de acerto, pouco acima dos sem o som, os não-afásicos não se de forma bastante convincente,
Braln activity
50%, não chega a ser muito mais saíram melhor no estudo de Etcoff. não se deixando apanhar senão durlng simulated
significativa que a probabilidade É provável, porém, que, por raras vezes, desfrutam particular deception. An
oferecida por uma moedinha. trás dessa ceguei ra, ocu lte-se reconhecimento e sucesso em seu event-related
Existe, no entanto, um grupo de uma estratégia de sobrevivência. grupo. O psicólogo faz, portanto, functlonal
pessoas capaz de flagrar mentirosos Numa sociedade mentirosa, um uma defesa dos mentirosos: "De magnetic
resonance study.
de modo bem mais confiável. Não, rigor particular para com a ver- certo modo, mentir é um talento D. D. Langleben et ai.,
não me refiro a agentes secretos da dade traz consigo o perigo da social." Tanto para homens quanto em Neuroimage 15
CIA, mas àquelas pessoas que, em marginalização. Ignorar mentiras e para mulheres. ,.-e.: (3), pág. 727, 2002.

www.mentecerebro.com.br 71
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C
POR CHRISTINE R. HARRIS omo muitas emoções que envolvem a escolha de
parceiro, o ciúme apresenta-se diferen temente
Professora de psicologia da em homens e em mulheres. Algumas correntes de
Universidade da Califórnia em
San Dlego, onde pesquisa os pensamento sugerem a existência de um "módulo inato",
aspectos cognitivos da emoção isto é, um circuito cerebral pré-programado com gatilho
humana, em especial as do
ciúme, da vergonha e do humor
diverso nas mulheres e nos homens. No acalorado debate
entre psicólogos há uma idéia relativamente simples sobre o
TRADUÇÃO: Frances fones
ciúme nos relacionamentos românticos. Nos anos 90, a psi-
cologia evolucionista começou a aplicar as teorias de Charles
Darwin ao comportamento humano, dando origem à idéia
de que o ciúme representaria uma vantagem adaptativa para
homens e mulheres. As pressões seletivas sobre os dois sexos,
entretanto, teriam sido assimétricas.
Essa hipótese continua válida, principalmente depois
que novas evidências apontaram para diferenças fundamen-
tais entre a experiência masculina e a feminina do ciúme
nos relacionamentos românticos. No entanto, uma análise
mais detalhada dessa interpretação evolucionista pode ser
muito mais complexa. Certamente o ciúme é uma emoção
inata e adaptativa mas, mais do que em teorias baseadas nas
diferenças sexuais das estratégias de acasalamento adotadas
por nossos ancestrais, sua expressão é mais bem compreen-
dida com base na teoria do desenvolvimento e em enfoques
sociocognitivos.
Pesquisas nessa área se concentram na interação de fatores
sociais e cognitivos. Estudando as diferenças culturais, psicólo-
gos já constataram que o ciúme é mais intenso nas sociedades
que aceitam o sexo somente no relacionamento conjugal ou
nas que dão muito valor à propriedade privada.
A psicologia evolucionista procura explicar peculiarida-
des da mente humana segundo pressões seletivas que atuaram
sobre nossos ancestrais no período Pleistoceno (entre 1,8
milhão e 11 mil anos atrás). De acordo com os pesquisadores
dessa vertente, emoções pré-programadas que temos agora
não são necessariamente as que favoreceram nossa aptidão
evolutiva (ou a perpetuação de nossos genes), mas elas
tendem a compensar as diferenças entre o ambiente em que
vivemos e o de nossos antepassados remotos. O psicólogo
David Buss, da Universidade do Texas em Austin, e vários
outros psicólogos evolucionistas afirmam que, no contexto
das relações sexuais, um conjunto específico de circuitos
cerebrais leva nossa reação emocional a perceber ameaças.

SELEÇÃO NATURAL
Esse módulo emotivo-cognitivo por um lado torna os
homens predispostos ao ciúme relacionado à infidelidade se-
xual da parceira e, por outro, predispõe as mulheres ao ciúme
relacionado à traição emocional do parceiro. A diferença na
reação masculina e femini na segundo esses pesquisadores,
existe hoje porque as pessoas enfrentaram diferentes riscos
durante o Pleistoceno. Com base na teoria da seleção natural,

www.mentecerebro.com.br 73
achariam a infidelidade sexual mais
insuportável porque a mulher não
faria sexo com outro homem se não
estivesse apaixonada por ele. As
mulheres, por sua vez, sabem que os
homens fazem sexo mesmo quando
não há relação de afeto, portanto, a
infidelidade sexual do homem não
implicaria necessariamente infideli-
dade emocional. Mas, como o risco
de perder o parceiro é maior quando
ele faz sexo com outra por quem
esteja apaixonado, a infidelidade se-
xual masculina é uma ameaça maior
para as mulheres. As evidências que
corroboram essa explicação, no en-
tanto, ainda são um tanto confusas.
David DeSteno e colegas da
Universidade do Noroeste, Estados
Unidos, usaram outro enfoque para
investigar as causas das diferen-
ças sexuais nos testes de escolha
forçada . Se elas refletem módulos
Como o mutações que aumentam a aptidão com metaanálise. Descobri que pré-programados específicos para
são favorecidas e se perpetuam a influência do sexo sob re a cada sexo, então negar às pessoas
risco de porque as gerações as herdam dos a oportunidade de refletir sobre a
escolha do tipo de infidelidade é
perder o indivíduos bem-sucedidos. significativa, mas tende a ser menor escolha deveria aumentar a ampli-
A teoria do módulo inato entu- entre indivíduos mais velhos ou em tude da diferença entre as respostas
parceiro
siasmou muitos pesquisadores, prin- amostras que incluem homossexuais. de homens e de mulheres. Os
é maior cipalmente depois de uma enxurrada Efeito semelhante foi constatado pesquisadores realizaram o que eles
quando ele de estudos baseados em auto-relatos em estudos em outros países, chamam "manipulação da carga
de universitários. Pedia-se aos parti- embora um número bem menor de cognitiva". Pediram aos participantes
faz sexo com cipantes que imaginassem seu par- europeus e asiáticos (entre 25% e que recordassem uma seqüência
outra por ceiro ou parceira fazendo sexo fora 30%) tenha escolhido a infidelidade de sete dígitos ao mesmo tempo
da relação ou apaixonados por outra sexual como pior alternativa - que respondiam às perguntas. Essa
quem esteja pessoa. Depois eles deviam escolher o que suge re uma influência sobrecarga cognitiva não alterou a
apaixonado, qual tipo de infidelidade seria menos cultural comparável à do sexo. resposta dos homens, mas com ela
perturbador ou aceitável. É bem possível que essas di- as mulheres tenderam a escolher a
a infidelidade Desenvolvido por Buss em 1992, ferenças sexuais na expressão do infidelidade sexual como o gatilho
sexual esse método de escolha forçada já ciúme não reflitam necessariamente mais poderoso do ciúme.
foi empregado em várias dezenas a existência de módulos inatos. Uma
masculina de estudos, sobretudo nos Estados possibilidade pouco cogitada pelos M ÓDULO INATO
parece mais Unidos. Ele produz invariavelmente evolucionistas é o simples fato de ho- Em vez de usar o método de escolha
diferenças significativas entre os mens e mulheres tirarem conclusões forçada, vários pesquisadores avalia-
ameaçadora
sexos: mais de 70% das mulheres diferentes sobre a infidelidade hipo- ram as reações de ciúme por meio da
para as indicam que a infidelidade emocional tética e suas desagradáveis implica- apresentação de cenários de infideli-
mulheres é mais difícil de suportar; entre 40% ções. Tais inferências produziriam dade sexual e emocional e de escalas
e 60% dos homens relatam que a os resultados observados no teste de de pontuação contínua. Curiosa-
infidelidade sexual seria pior. Sempre escolha forçada. Segundo uma inter- mente, os resultados produzidos por
fiquei intrigada com esses dados e pretação alternativa que vem sendo essa abordagem eliminaram quase
resolvi fazer uma revisão sistemática chamada de "tiro duplo", os homens totalmente as diferenças sexuais

74 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


e em alguns casos até inverteram a namorada. Po rta nto, a mai or menos quando ambos já tiveram ex-
sua primeira aferição, mostrando reatividade pode refletir apenas periências reais de relacionamento.
que o ciúme sexual é mais forte excitação e não exatamente ciúme Há quem argumente que a
nas mulheres. Portanto, o método sexual. Também não conseguimos ev idê ncia mais convincente da
de escolha forçada parece revelar confirmar a hipótese segundo a realidade dos módulos neurais de
diferenças sexuais que podem ter qual as mulheres tendem a exibir ciúme específicos para cada sexo
raízes evolutivas, mas seus resultados reações mais fortes à infidelidade pode ser encontrada nos padrões
são muito frágeis para sustentar a emocional imaginada. Observa- de comportamento violento obser-
existência do módulo inato proposto mos, porém , que a expe riên cia vados em muitas culturas. Em 1982,
pelos evolucionistas. sexual parece modular as respostas Martin Daly e Margo W ilson, da
Diante das dilkuldades com os delas: mulheres com vida sexual Universidade McMaster, Canadá,
estudos baseados em auto-relatos, os ativa reag iram mais fortemente à revisaram estudos sobre as razões
psicólogos partiram para medições possibilidade de infidelidade sexual que causaram assassinatos e con-
fisiológicas do ciúme. Buss e colegas - sugerindo um padrão de resposta cluíram que os homens cometeram
começaram monitorando a atividade semelhante ao dos homens. mais hom icídios motivados por
do sistema nervoso autônomo em ciúme sexual. Entretanto, homens
situações imaginárias de infideli - CRIMES PASSIONAIS cometem todas as formas de crimes
dade. Observaram, num estudo de Os dados psicofisiológicos forne- violentos, inclusive assassinato, em
1992, que a freqüência cardíaca e a cem uma resposta ambígua sobre índice bem maior que mulheres.
condutância da pele (que reflete a a existência do módulo inato. O A simples comparação é portanto
sudorese) de universitários foram método não se revelou bom porque enga nosa. Outros dois estudos
maiores quando eles imaginaram não consegue diferenciar ciúme de investigaram o ciúme como fator
a parceira fazendo sexo com um simples perturbação. Se, entretanto, motivador de assassinato te ndo
terceiro. A reação das garotas foi as medidas de fato quantificam o em conta as di ferenças nos índices SÍNDROME DE
oposta: elas ficaram mais pertur- sofrimento, os resultados mostram globais desse delito. Os resultados OTELO: desconfiança
badas com a possibilidade de o que tanto mulheres quanto homens descrevem um quadro incrivelmente exagerada pode
ser sintoma de
parceiro estar apaixonada por outra. reagem mais vigorosamente à infide- diferente. Recentemente, eu mesma transtornos
Até aqui nenhuma novidade lidade sexual que à emocional, pelo examinei os motivos de assassina- psiquiátricos
- os resultados são compatíveis
com os obtidos com o método
de escolha forçada. No entanto,
a reatividade fisiológica pode re-
fletir muitas emoções diferentes e
essa é uma das razões pelas quais
os políg rafos ou detectores de
mentiras não são muito confiáveis.
Aumento da pressão arteria l, da
freqüência cardíaca e da sudorese
acompan ha diversas emoções
como medo, raiva ou excitação
sexual. Como os indivíduos estão
apenas imaginando a infidelidade,
ninguém garante que as alterações
dos parâmetros não estejam refle-
tindo outros estados emocionais
ou cognitivos. Eu e minha equipe
da Universidade da Califó rnia
em San Diego constatamos que
os homens exibiam o mesmo tipo
de resposta quando imaginavam
eles próprios fazendo sexo com
to em 20 amostras multiculturais sentirem-se compelidos a espionar o Analisando uma grande amostra de
{totaliza ndo 5.225 crimes) e não parceiro. Os ciumentos mórbidos às pacientes com TOC de um hospital
encontrei nenhuma diferença sexual vezes usam métodos agressivos para psiquiátrico, Patrizia Lensi e colegas
global. Anteriormente, Richard B. impedir a infidelidade na relação. da Universidade de Pisa, Itália, veri-
Felson, da Universidade Estadual Cinco estudos que avaliaram ca- ficaram ocorrência na razão de dois
de Nova York em Albany, avaliou sos de agressão passional cometida homens para cada mulher. Contudo,
2.060 assassinatos registrados em por ambos os sexos mostraram que se o ciúme mórbido é uma manifesta·
um banco de dados de 33 grandes 64% dos homens e 36% das mu- ção da patologia e representantes do
condados americanos e constatou lheres tinham diag nóstico de ciúme sexo masculino são mais propensos a
propensão a assassinar por causa de mórbido. Os autores inicialmente padecer do distúrbio com obsessões
ciúme duas vezes maior entre mu- interpretaram que a predominância sexuais, é questionável tirar conclu-
lheres. A abordagem do crime para de pacientes masculi nos indicava a sões gerais com base na ocorrência
investigar diferenças da expressão existência de um mecanismo de ciú- desse transtorno.
do ciúme entre os sexos, portanto, me sexual ausente nas mulheres. No
revelou-se frustrante. entanto, a proporção de transtornos GATILHOS EMOCIONAIS
O utra linha de pesquisa que mentais entre os sexos raramente é Quando deixamos para trás os es-
poderia testar a hipótese do módulo I: I e os homens estão super-repre- tudos de laboratório e examinamos
POR VOLTA inato baseia-se nos casos de ciúme sentados em vários deles. Alguns as situações reais de infidelidade, de
dos4anos,
que crianças mórbido. Os psiquiatras usam esse psiquiatras argumentam que o ciúme crimes cometidos e de obsessões
se incomodam te rm o pa ra descrever pacientes mórbido quase sempre é uma forma pela ameaça de traição, não encon-
mais em dividir a com convicção - freqüentemente de transtorno obsessivo-compulsivo tramos diferenças de gênero parti-
atenção da mãe delirante- de que estão sendo enga- (TOC). A terapia com Auoxetina, cularmente marcantes que apóiem a
com colegas da
mesma faixa etária nados pelo compan heiro. Possuídos amplamente usada para tratar esse hipótese do módulo inato de ciúme.
que com bebês por raiva ou depressão, é comum distúrbio, costuma ter bons resulta- Diferentemente do que apontam os
dos nos ciumentos mórbidos. dados psiconsiológicos, os homens
A incidência global de TOC parecem mais suscetíveis ao ciúme
é aproximadamente igual entre os violento ou obsessivo, mas de forma
sexos, embora alguns estudos regis- compatível com a tendência geral
trem prevalência ligeiramente maior para a ag ressividade e obsessão
entre homens. Além disso, parece sexual observada no sexo masculino.
ser consenso geral que os transtor- Apesar de parecer convincente
nos obsessivo-compulsivos sexuais à primeira vista, a teoria do módulo
ocorrem mais no sexo masculi no. inato revela-se frágil sob exame

O dragão que mata o amor

A pesquisa das raízes evolutivas do comportamento e da emoção


é uma rica fonte de hipóteses para a psicologia. Quando o assunto
é ciúme, as pesquisas sugerem que não há diferenças importantes
entre os sexos na expressão dessa emoção no contexto conjugal. A
seleção natural parece ter moldado mecanismos gerais destinados
a operar em uma grande variedade de contextos, e não apenas
nas relações amorosas. As diferenças sexuais que de fato existem
parecem refletir desigualdades mais no juízo cognitivo que na
estrutura física de cada sexo. É muito provável que o monstro do
ciúme resida no coração de homens e mulheres - monstro que
habitaria a mente humana desde muito antes de estarmos aptos
para o romance e o sexo. É quando saímos de baixo das asas pro-
tetoras dos pais que o ciúme torna-se dolorosamente aquilo que
o médico inglês Havelock Ellis chamou de "o dragão que mata o
amor sob o pretexto de mantê-lo vivo".
Homens e
mulheres
~
O!
3
que passam
t
~ por uma
I
;
experiência de
infidelidade
~~
dão mais
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~
!! importância
~o aos aspectos
,g
4
li
emocionais
.,"
~

~
da situação
e
~
:3
~
CIÚME ÉTEMA RECORRENTE na mitologia, apresentado em óleo sobre tela de Andrea Schiavore Paisagem com Júpiter e lo

mi nucioso. De fato, ela oferece mais. Fica difícil, portanto, inferir do Pleistoceno somente depois de
uma oportunidade fasci nan te de as condições que prevaleceram a infidel idade consumada, os deAa-
A review of sex
relacionar a psicologia humana à no Pleistoceno com base nas pou- gradores específicos provavelmen-
differences in sexual
força propulsora da evolução. Mas cas evidências que temos hoje. te tocariam o alarme tarde demais jealousy, including
é preciso lembrar que não sabemos Mesmo que nossos ancestrais para evitar a "punição" darwi niana. self-report data,
quase nada sobre o ambiente social tenham realmente pago um preço Em termos de aptidão, a vantagem psychophysiological
ou cul tural do Pleistoceno. As alto por não coibir o adultério, é pos- do ciúme que acompanha a infideli- responses,
lnterpersonal
ameaças à aptidão darwiniana que sível que a evolução tenha resolvido dade sexual é um tanto duvidosa.
violence, and
nossos ancestrais enfrentaram não o problema de maneira um pouco Uma estratégia mais eficiente morbid jealousy.
se apresentaram necessariamente diferente daquela sugerida pelo mó- usada por nossos an tepassados C. R. Harris, em
de uma forma que a biologia sozinha dulo inato. Concentrar-se na traição pode ter sido a vigilância dos pre- Personality and Social
seja capaz de predizer. Os índices sexual ou emocional de um parceiro cursores da traição. A infidelidade Psychology Review,
de adultério podem não ter sido tão pode não ser uma forma eficiente de raramente ocorre de forma súbita. vol. 7, págs. 102-128,
2003.
altos quanto os psicólogos evolucio- evitar infidelidade. Segundo os de- Antes da cópula, os humanos
ancestrais (ass im como os mo- Psychophysiological
nistas supõem. fensores dessa hipótese, o ato sexual é
responses to
Para os primeiros hominídeos, o gatilho que desperta o mecanismo dernos) supostamente adotavam imagined lnfidelity
que viviam em bandos pequenos, masculino do ciúme, enquanto na comportamentos que sinalizavam - The specific
a traição poderia não ter o mesmo mulher esse sentimento é ativado os primórdios do interesse sexual, lnnate modular
significado. Os recursos dos machos pela evidência de envolvimento emo- emocional ou ambos. Em conse- vlew of jealousy
talvez não fossem valorizados nem cional do parceiro com outra pessoa. qüência, talvez não tenha havido reconsidered. C.
R. Harris, em journal
as conseqüências do adultério tão necessidade alguma de homens e
of Personality & Social
terríveis como se imagina. Uma PU NIÇÃO DARW INIANA mulheres desenvolverem gatilhos Psychology, vol. 78,
revisão das sociedades caçadoras- Buss foi um dos que destacaram que específicos de ciúme. Ao contrário, págs. 1082-1091,
coletoras feita por Wendy Wood, da a detecção de sinais de infidelidade seria mais fácil se eles ficassem 2000.
Universidade Duke, e Alice Eagly, da entre suas vítimas pode ser bem alertas e não se mostrassem sen- Evolutionary
Universidade do Noroeste, Estados precisa: um indivíduo ciumento já síveis ao interesse de outros (que Psychology: a
Unidos, mostrou que houve um grau enganado geralmente está certo não seus parceiros). Essa hipótese new paradlgm
for psychological
considerável de variabilidade cultural quando desconfia que uma traição é compatível com as evidênc ias
science. D. M. Buss,
nas contribuições dos dois sexos para ocorreu novamente. Se os indícios de que as diferentes respostas de em Psychological
a subsistência, e que muitas vezes as desencadeadores do ciúme fossem homens e mulheres à infidelidade lnquiry, vol. 6, págs.
mulheres parecem ter participado evidentes para nossos antepassados não são congênitas. mec· 1-30, 1995.

www.mentecerebro.com.br 77
. VIOLÊNCIA

s homens são mais violentos que as mulheres7 A

O raiz da violência está nos genes ou nos fatores


socioculturais7No intuito de responder a essas e
outras questões, nos últimos anos pesquisadores realizaram
vários estudos longitudinais- nos quais psicólogos, psiquia-
tras e neurologistas acompanharam voluntários durante um
longo período, desde a infância ou início da adolescência
até a idade adulta. Como comprovam estatísticas criminais
no mundo inteiro, adolescentes e adultos jovens do sexo
masculino são responsáveis pela maioria dos assassinatos,
lesões corporais graves ou casos de violência sexual.
Esse dado, entretanto, não significa que mulheres sejam
menos agressivas. Homens tendem à violência física direta,
enquanto elas recorrem à agressão dissimulada, superan-
do de longe os garotos ao engendrar intrigas e realizar
BONN/E E CLYDE-
pressões psicológicas. No caso das meninas, os distúrbios
Uma rajada de balas, 1967
de comportamento social surgem principalmente na pu-
berdade. Aos 17 ou 18 anos, em geral eles desaparecem,
provavelmente em razão das alterações hormonais típicas
dessa fase.
As causas das diferenças entre homens e mulheres são
variadas. Papéis sociais aprendidos por cada sexo têm sua
importância. Ainda é comum ouvir, por exemplo: "Meninas
não batem!", mas: "Meninos têm de saber se defender!".
Além disso, estratégias de agressão indireta exigem "inte-
ligência social" relativamente alta, que se desenvolve antes
e mais rapidamente nas meninas. Diferenças neuropsico-
lógicas também exercem influência nas manifestações de
agressividade de ambos os sexos.
Em um trabalho publicado por nosso grupo em 2005,
apresentamos mais detalhadamente as raízes psicobiológi-
cas da violência física e avaliamos resultados colhidos em
POR GERHARD ROnt,
vários países. Foram analisados desde brigas com socos ou
MONIKAL~ .
pontapés, mas sem maiores conseqüências, até embates que DANIEL STR0BER
provocaram lesões corporais graves e homicídios.
Gerhard Roth é coodenador
Um dos maiores estudos longitudinais teve início em
1972, na Nova Zelândia. Uma equipe de psicólogos de
vários países acompanha há 34 anos o d estino de apro- Universidade de Hreme.~-­
Os outros dois
ximadamente mil pessoas nascidas naquele ano na cidade colabol'!ll!ifres da Liga
de Dunedin. Os pesquisadores Terrie Mof-fltt e Avshalom Hanseátlca de Cientistas em
Oelme nhorst, Alemanha.
Caspi, do King's College de Londres, concentraram seus
estudos principalmente em formas de comportamento
anti-social acompanhadas de violência física.
O pequeno grupo de violentos crônicos do sexo mas-
culino que se revelam logo cedo apresenta características
como baixa tolerância à frustração, dificuldade em aprender
regras sociais, problemas de concentração, capacidade re-
duzida de compreensão dos sentimentos das outras pessoas
e inteligência defasada.
Entretanto, o que mais se destaca é a falta de contenção
psíquica, que os faz passar do sentimento ao ato quase ime-

78 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA OOS SEXOS


lescentes em geral essas tendências
regridem. Uma pequena parte dos
Impulso assassino
voluntários, porém, logo na infância
O Brasil ocupa lugar de des-
- às vezes já por volta dos 5 anos taque entre os países mais
- apresenta comportamento anti- violentos do mundo, conside-
social que permanece até a idade rando também aqueles com
adulta. Esse grupo é formado quase histórico recente de guerras
exclusivamente por meninos. De (como Eslovênia, Croácia,
fato, as pesquisas revelam que o Irlanda do Norte e Israel). As
estatísticas confirmam que,
sexo masculino é o mais importante
em cada 100 assassinatos co-
"fator de risco" para a violência. metidos em território brasilei-
Crim inosos com diversas pas- ro, somente duas pessoas são
sagens pela polícia em geral são presas. Nos Estados Unidos a
pessoas com dif iculdades para média chega a 90%. Grande
controla r impulsos agressivos. A parte dos assassinos age por
análise de questionários preparados impulso. A maioria dessas
por uma equipe coordenada pelo
pessoas é considerada "nor-
mal" até que cometa algum
psicólogo e neurologista Ernest S.
crime, num ato impulsivo. "A
Barrat respondidos em 1999 por pessoa tem razões subjetivas
presidiários no estado americano que, num dado momento, lhe
do Texas, mostrou que os detentos parecem justificadas. Muitos
freqüentemente provocavam briga tomam consciência da gra-
com outros presos- apesar de terem vidade e da irreversibilidade
de pagar por isso com condições de do ato só depois de cometê-
lo", observa o psiquiatra Elias
prisão muito mais severas. Quando
Abdalla Filho, membro da di-
os pesquisadores lhes perguntavam
retoria do Departamento de
por que mantinham comportamen- Psiquiatria Forense da Associa-
tos que os prejudicavam, eles não ção Brasileira de Psiquiatria.
encontravam explicação. Muitos
reconheciam as desvantagens e já
GAROTAS SÃO mais diatamente. Os impulsos agressivos tinham tomado a decisão de agir pri ncipalmente o h ipotálamo e a
hábeis para e ngendrar são deflagrados pelas emoções; ao com maior controle em situações amígdala, de onde vêm os impulsos
intrigas e manipular:
sua inteligência social menor sinal de provocação ficam semelhantes, mas nem eles mesmos agressivos, são atribuídos a áreas do
se desenvolve antes da furiosos e não conseguem medir as acreditavam que conseguiriam se córtex pré-frontal. Esse pressuposto
dos meninos conseqüências de seus atos. Alg uns controlar. é base da "h ipótese do cérebro
relatam, por exemplo, que se senti- frontal", segundo a qual as raízes
ram ameaçados ao ser encarados TRAUMA E CONFLITO psicobiológicas do comportamento
por alguém - e por isso tiveram A impulsividade de c riminosos anti-social podem ser compreendi-
de se defender. Posteriormente, violentos crônicos parece ter como das como um "defeito" na regulação
muitas vezes se arrependem. Esses base uma predisposição cerebral. do córtex e do sistema límbico.
del inqüentes crônicos costumam Neurologistas compararam a ana- Vários estudos apóiam essa in-
assumir posição de liderança em tomia do cérebro desses homens terpretação. O pesquisador Jordan
seu grupo- e sentem-se valorizados à de cidadãos comuns e desco- Grafman e seus colegas do Instituto
com isso, o que alimenta um círculo briram nos primeiros alterações Nacional de Saúde em Bethesda,
vicioso. fisiológicas na região frontal, mais Es tados U nidos, examinaram ve-
Segundo as observações, dois exatamente no córtex pré-frontal teranos da g uerra do Vietnã que
grupos podem ser diferenciados: e no sistema límbico. sofre ram ferimentos na região do
no maior deles, a incidência de Essas áreas estão ligadas ao sur- córtex pré-frontal: os ex-soldados
atitudes agressivas aumenta em gimento, decodificação e controle tinham clara tendência à agressivi-
ritmo acelerado quando os jovens das emoções. Efeitos inib idores dade. É preciso considerar, porém,
têm entre 13 e 15 anos. Nos ado- sobre partes do sistema límbico, que esses ex-combatentes viveram

80 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


situações traumáticas durante o DESDE A
confl ito , o que provavelmente ADOLESCÊNCIA os
homens tendem à
também influi no func ionamento violência física direta:
psíquico. No entanto, pacientes em todo o mundo,
adultos com lesões fronta is que não a maioria dos
criminosos é do
viveram experiências especialmente
sexo m asculino
perturbadoras também costumam
se comportar de forma inadequada
e impulsiva, apresentando sintomas
de distúrbio de personalidade anti-
social. Em ambos os casos, porém,
não houve nenhum indício direto
de violência física fora do comum.

FUNCÃO CORTICAL
A situação é diferente quando
o cérebro frontal já é afetado na
infância. Pesq uisadores coorde-
nados pelo neurologis ta António
Damásio, do Cent ro Médico da
Universidade de lowa, observaram
conseqüências dra máticas nesse
tipo de caso. Num deles, cirurgiões
re tiraram um tumor do cérebro
frontal direito de um bebê de apro-
ximadamente 3 meses. Q uando o
menino tinha 9 anos começaram a
surgir problemas: era muito difícil
motivá-lo na escola; ele permanecia
isolado e passava o seu tempo livre
exclusivamente d iante da televisão trole mais efet ivo dos impulsos, atenção principalmente por atacar Alterações
ou ouvindo música. Em algumas que falha apenas quando a função os o utros. Nenhum de seus irmãos
ocasiões, ficava inexplicavelmente cortica l é les ionada de forma apresentava diagnóstico de pro-
fisiológicas no
fur ioso, ameaçava e chegava a prematura e maciça. Damásio des- blemas de comportamento. sistema límbico
agredir fisicame nte as pessoas . creve o caso de uma menina atro- Outras observações que corro-
e no córtex
Interessante notar que ele cresceu pelada aos 15 meses que sofreu boram a hipótese do cérebro frontal
em ambiente acolhedor, com pais grave traumatismo neurológico. foram feita s pelo neuro logista pré-frontal
amorosos e irmãos cujo desenvolvi- Até os 3 anos ela se dese nvolveu Adrian Rainer, da Universidade do podem estar
mento foi considerado normal. normalmente. Nessa fase surgiram Sul da Cali fórnia em Los Angeles.
Não se sabe se a hipótese sobre as primei ras demonstrações de Ele coorde nou um es tudo com associadas ao
a anato mia cerebral também vale comportamento anômalo. assassinos condenados. Recorrendo comportamento
para o sexo fem inino. Mul heres a procedimentos de imageamento
violentas são mais raras e, portanto, A SANGUE FRIO como a tomografia por emissão de impulsivo
menos estudadas. D e maneira geral, Os pais perceberam que a filha não pósitrons (PET), os pesquisadores
entre elas parece não haver conexão t inha reação alguma a eventuais constataram em muitos voluntários
e ntre um volume reduzido da área repreensões e até a punições. Ma is uma atividade metabólica nas re-
pré-frontal e tendências patológi- tarde, ela passou a não respeitar giões frontais do cérebro mais baixa
cas, como comprovadamente existe nen huma regra, na escola brigava do que a encontrada na população
na população masculina. freqüentemente com professores e e m geral. A segunda etapa da aná-
Ao que tudo indica, as mulhe- colegas, mentia e cometia delitos lise, porém, de monstrou que isso
res possuem, por natureza, co n- como roubo. A jovem chamava a só era válido para criminosos que

www.mentecerebro.com.br 81
haviam matado por afeto, ou seja, arquitetar o crime a longo prazo comparar a anatomia cerebral de
por impulso e com forte motivação demanda complexos processos de ambos os grupos, apenas nos "mal-
emocional. Em detentos que haviam decisão. C riminosos que agem sem sucedidos" foi encontrada, de fato,
planejado o assassinato longamente, piedade raramente dem onstram redução sig ni ficativa do volume
a sangue frio, o cérebro frontal pa- arrependimento. Para o criminoso da substânc ia c inze nta no córtex
recia funcionar normalmente. que planeja o ato, a prioridade é não pré-fro ntal. Entre os crimi nosos
Esse resultado é plausível: por ser apanhado- o sujeito impulsivo em liberdade, ela estava de nt ro
conseqüência de déficits no con- nem pensa nisso. dos padrões de normalidade.
tro le das emoções, c rimin osos O estudo neurológico de cri- A agressividade crônica grave,
impulsivos agem se m premedi· minosos violentos não descobertos portanto, não está automaticamente
tação, ignorando até mesmo o é uma nova e polêmica área de relac ionada a defeito no córtex pré-
risco de serem descobertos. Já o pesquisa - e não apenas pela difi- frontal. Parece haver pessoas que
homicida detalhista e frio precisa culdade metodológica de encontrar cometem atos de grande violência
de um cérebro frontal intacto, pois psicopatas em liberdade. Para obter regularmente, apesar de seu cére·
informações confiáveis sobre seus bro frontal estar completamente
deli tos, os pesquisadores tiveram intacto. Sendo assim, distúrbios
Testosterona
de lhes assegurar sigilo absoluto . no córtex pré·frontal estão mais
acumulada Sendo assim, depois de passarem relacionados ao risco de o indivíduo
pelos exames to mográficos, os ser preso do que propriamente à
O hormônio sexual ultrapassa homicidas voltaram para casa, em violê ncia potencial.
a barreira hemato-encefálica liberdade.
e se conecta a receptores no Há pouco tempo, Adrian Rainer EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES
hlpotálamo e na amígdala. comparou dois grupos de pessoas O córtex pré-frontal é apenas um
Nos homens, a testosterona com distúrbio de personalidade dos vários centros neurológicos
aumenta no início de competi- anti-socia l que haviam co meti· que compõem uma complexa rede
ções esportivas. No vencedor, do crimes graves. Integrantes de de regulação do equilíbrio das
ela continua alta por algum ap enas um dos g rupo s tinha m e moções, inclusive os impulsos
tempo após o final; já no per- sido condenados. O pesquisador agressivos. Outros estudos feitos
dedor, sua concentração cai denominou os que não haviam por Rainer com o mesmo grupo
rapidamente. Assim, é possí- sido descobertos como "psicopatas de criminosos indicam a parti-
vel considerar que a concor- bem-sucedidos", os condenados, c ipação de estruturas lím bicas,
OLDBOY, de 2004:
rência e conflitos constantes "psicopatas malsucedidos". como o hipocampo, na conduta
genética, ambiente e
déficit neuroquímico podem alterar o nível de tes- Os estudos de Rainer levaram psicótica: nos "crim inosos malsu-
podem deflagrar crise tosterona permanentemente. a resultados interessantes : ao ced idos", o hipocampo de ambos
os he misférios ce rebrais tinha
ta manho dife re nte - ass imetria
que os pesquisadores associam
a distúrbios surg idos no estágio
inicial do desenvolvimento.
Possivelmente, essas alterações
e nfraqueceram a interação entre o
hipocampo e a amígdala, de fo rma
que informações relativas à emo-
ção são processadas de maneira
iregular. Se o córtex pré-frontal
també m falha co mo instância
controladora, parece compreen -
sível que surjam compo rtamentos
verbais e físicos inadequados.
No caso dos "psicopatas bem-
sucedidos" há fundamentos com-
Neurobiologia da impulsividade

A tendência à violência impulsiva, aparentemente uma pessoa que, devido à falta do neurotransmissor
se deve muitas vezes, pelo menos nos homens, a sofre de ansiedade e se sente ameaçada, provavel-
alterações no córtex pré-frontal. Este normalmente mente tende à "agressão reativa". Como se sente
inibe os impulsos agressivos que surgem nos centros atacada, agride para se defender. Uma variante
das emoções do sistema límbico (seta azul). Por isso, do gene triptofano hidroxilase, necessário para a
segundo a "hipótese do cérebro frontal", na região síntese de se rotonina, também pode estar liligada
orbitofrontal do córtex está uma das principais à agressividade exagerada.
causas da predisposição à violência. Lesões no hi-
pocampo também podem afetar o processamento Visão d e corte transpare nte
e o julgamento de informações emocionais. Alguns
pesquisadores, por sua vez, supõem que as causas
da violência estão relacionadas a um mau funcio-
namento da amígdala. Isso explicaria o destemor,
a falta de empatia e a ausência de sentimento de
culpa característicos de criminosos vio lentos. Al-
terações na quantidade de neurotransmissores já
bastam para tirar dos eixos o controle dos impulsos
e das emoções. Um papel importante é exercido,
por exemplo, pela serotonina: e la é sintetizada nos
núcleos dorsais da rafe. Partindo de lá, e la chega a
inúmeras estruturas cere brais (setas vermelhas), onde
participa da transmissão de estímulos às sinapses.
A qua ntidade de serotonina no cérebro pode ser
medida, por exemplo, pela concentração de um
dos produtos de sua composição, o ácido hidro- Córtex orbitofrontal
xiindoleacético (5-HIAA), no líquido cefalorraqui- (COF)

dia no. Baixo níve l da substância está relacionado Am(gdala]


a comportamentos anti-sociais. No entanto, ainda Hipotálamo Sistema límbico
não está claro se o efeito não é apenas indireto: Hipocampo

ple-tamente diferentes envolvidos do Ins titu to Nacio nal de Saúde do Estado da Geórgia, indicam a Alguns
nas ações violentas, pois as pessoas Mental em Bethesda. presença de níveis bastante altos
As al terações no cérebro de de testostero na em criminosos
distúrbios
que têm o controle de impulsos
intacto cometem delitos conscien- criminosos podem ocorrer no nível impul sivos. Tais desvios do nível estão mais
teme nte, de maneira calculada. Isso neuroquímico. Atualmente, diversos de hormônios ou das substâncias
relacionados
não comprova que esses c riminosos estudos comprovam que um baixo transmissoras podem ser hered i-
não sofram de outras alterações nível de serotonina, que funciona tários ou surgi r por inAuência do ao risco de o
ce rebrais. Para tanto seria necessá- como calmante e redutor do medo, ambiente. Há, por exemplo, indícios indivíduo ser
rio examinar, por exemplo, o papel está vinculado a comportamentos de que experiências de negligência
da amígdala, assim como da parte anti -sociais e impulsivos (uer quadro e maus-tratos na infância reduzem preso do que
do sistema límbico que fu nciona acima). Tal associação não ocorre ape- pe rm ane n temente os n íveis de propriamente
como "sistema de recompensa". As nas em criminosos, mas na população sero ton ina. Pesquisadores q ue
fa lhas no fu nciona mento dessas de maneira geral. Porém, mais uma estudam a plasticidade do cérebro, à violência
estrutu ras podem ser responsáveis vez, apenas nos homens. entretanto, cogitam a possibilidade potencial
pelo comportamento psicopata O hormônio sexual masculino de reparações, ainda que parciais,
(isento de culpa e compai xão pelo também te m sua impo rtâ nc ia: desse comprometimento.
sofrimento alheio), segundo outros d iversos estudos d o p sicó logo Pelo menos entre os homens,
pesquisadores, como Richard Blair, )ames Dabbs, da U niversidade fator es bio l ógicos , como

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dispos ição ge né t ica e défic its
o rgân icos e neu ro qu ím icos ,
aumen tam comprovadamente o
risco de comportamento violento.
No en tan to - com exceção de
lesões graves ocorridas na infância
- , eles não levam obrigatoriamente
a tal atitude. A comb inação entre
fa tores de r isco psicossocia is
de gravidade semelhante é que
costuma ser perigosa. Isso pôde
ser percebido por pesquisadores
em diversos estudos . Entre esses
fatores inclue m-se a qua li da de
do relaci onamento inic ial entre
mãe e bebê, eventua is ma us-
t ra t os e ab usos sofri d os na
infância, negligê nc ia dos pais,
rupturas e confli tos constantes
na fa mília, c ri minal id ade de
adu ltos próx imos e pob reza
extrema. O estudo de todos esses
ABANDONO PODE PROVOCAR prejuízos para o desenvolvimento mental fatores é complexo, pois a maioria

Se a criança Prevenir a criminalidade é possível


tema
Independentemente do sexo, poucos podem afir- de comunidades carentes de São Paulo com o
constituição mar, com sinceridade, que jamais tiveram impulso objetivo de identificar os riscos aos quais estão
de matar outra pessoa. Felizmente, a maioria não submetidas e contorná-los por meio do atendi-
cognitiva e passa ao ato. A prevenção pode ter início na in- mento psicológico.
emocional fância, com precauções aparentemente simples: "O trabalho é de prevenção e assistência
cuidado, atenção e ajuda profissional. Esses são os a crianças agressivas de 8 a 12 anos, com boa
sólida, ingredientes usados para acalmar crianças entre 9 capacidade intelectual e cognitiva, matriculadas
e 11 anos com características violentas, segundo em escolas públicas." A escolha desse perfil é
influências a professora do Instituto de Psicologia da Uni- resultado de conclusões do estudo com depen-
negativas versidade de São Paulo (USP) Maria Abigail de dentes químicos. Muitos deles apresentavam, na
Souza, coordenadora da pesquisa "Intervenção infância, as características das crianças atendidas
do ambiente psicoterapêutica em crianças agressivas no am- atualmente. Pobreza, entretanto, não é fator de-
biente escolar", que acompanhou principalmente terminante para deflagrar a violência. Segundo
podem ser meninos. O estudo, iniciado em 1998 e publicado estimativa de pedagogos e professores, 5% dos
parcialmente no ano seguinte, mostra que, uma vez recebida a alunos de escolas particulares do Rio de Janeiro
atenção desejada, os gaotos tendem a se acalmar, e São Paulo têm comportamento agressivo com
compensadas deixando de oferecer perigo. colegas e funcionários.
Ela entrevistou dezenas de dependentes quí- "Classe social e ambiente não são fatores de-
micos de 18 a 30 anos e constatou que, quando terminantes para o crime. Rica ou pobre, a criança
eram crianças, sofreram abusos verbais e físicos que não sente o afeto dos pais em geral tem mais
até dos próprios pais. "A criminalidade está inti- propensão à agressividade", diz Maria Abigail.
mamente ligada ao ambiente social, não é apenas Dados de 2004 do Instituto Brasileiro de Geografia
resultado de possível carga genética", acredita e Estatística (IBGE) mostram ser pequena a partici-
a psicóloga. Desde 1991, a pesquisadora utiliza pação de menores de 18 anos em crimes graves em
técnicas de psicodiagnóstico - teste de Rorschach São Paulo. Esses jovens respondem por apenas 1%
e entrevistas - no acompanhamento de crianças dos homicídios dolosos (com intenção).

84 MENTE&CÉREBRO • A TRÉG UA DOS SEXOS


dele s não pode ser conside rada
independentemente das a lterações
anátomo-fisiológicas.
Logo após o nasc imento, já
oco r re comu nicação e moc io nal
íntima entre o bebê e a pessoa que
desempenha a fu nção materna (não
necessariamente a mãe), conforme
demonstraram vários especialistas,
como o psicanalista inglês Donald
W innicott. D ificuldades no proces-
so de interação, principalmente nos
do is primeiros anos de vida, podem
contribuir para a configuração de
distúrbios de desenvolvimento - in-
clusive dificuldade de controlar os
pró prios impulsos, falta de empatia HÁ PESSOAS
que, apesar d os
e capacidade reduzida de solução
sofrim entos
de conflitos. vivid os n a infâ ncia,
Além d isso, experiências vi- interrompem o
vidas pelos pais em sua infância ciclo de violência
oferecendo
exercem influência sobre sua com- acolhimento am oroso
petência educativa. Enquanto al- aos próprios filhos
g uns se apegam às próprias dores e
reproduzem modelos de abandono
e agressividade que v iveram quan- oportunidades? Não teríamos de lênc ia. Ta lvez, para protegermos
do c ria nças, o ut ros se pe rm item pensar assim também em relação o coletivo seja necessário perseve-
reelaborar as próprias carências à tendência à violência resultante rarmos na prevenção - que consiste
com ge nero sidade, oferece ndo de tais fatores? em dissuasão, acompanhamento
aos fi lhos acol himento amoroso e Com isso, surge a perg unta: a psicoterapêutico e, em mui tos ca-
conti nente - ass im, interrompem responsabilidade sobre os próprios sos, em reclusão.
o ciclo vicioso de violê ncia física atos pode ser totalmente imputada Eticamente não se pode apoiar SAIBA MAIS ,~
e psicológica. Por outro lado, a uma pessoa? Faz sentido conjec- a idéia de simplesmente afastar do VIolência. Co leção
parece que, se a criança te m uma turar que um criminoso pode ria convívio social as pessoas com Clínica psicanalítica.
constituição cognitiva e emocional ter o ptado co ntra a vio lê nci a comportamento ano rmal - po is, Maria l aurinda R.
de Souza. Casa d o
sólida, as influênc ias negativas do se de fato quisesse ou se t ivesse estatisticame nte, a maio ria delas Psicólogo, 2005.
ambie nte em que vive podem ser tido oportunidades diferentes? A não se torna deli nqüe nte. Adotando Erro d e Descartes:
parcialmente compe nsadas. suposição de que ele seria capaz essa postura, corre-se ainda o risco emoçã o, razã o e o
Atualmente não se sabe por que de tal escolha, apesar de todos os de d isseminar a intolerância diante cé re bro huma no.
Antó nio Dam ásio .
muitos conseguem compensar até condic ionamentos psicobiológicos da diversidade. Companhia das l etras,
mesmo as piores experiê nc ias da e sociais, causa grande polê mica Há, porém, a possibilidade de 2001 .
infância ou lesões cerebrais, como e nt re psicanalistas, psicólogos, investigação precoce dos fatores de Reflexões sobre a
se "consertassem" a si mesmos, en- médicos, criminalistas e filósofos. risco - psíquicos, físicos e sociais. violência urbana. Jandira
Feghali, Cândido Mendes
quanto tantos outros simplesmente Ao mesmo tempo, não é to- Nesse terreno ainda há muito a fazer
e outros. Maud, 2006.
não conseguem fazê-lo. Essa situa- lerável assistir a atos c ri mi nosos nos próximos anos, pois hoje, com Gên ero e violência.
ção leva a reflexões, pois até que impassivelmente. Afinal, se tomar- todo o conhecimento e tecnologia Maria de Fátima Araújo
ponto se pode responsabilizar um mos o homem como refém de sua disponíveis nem sempre é possível e Olga C. Mattio li. Arte
e Ciência, 2004.
ser humano por sua constituição própria história, de sua anatom ia difere nciar com precisão as brigas
VIolência e
ge nética, se u dese nvolvimento e de seu func ionamento cerebral, comuns de crianças pequenas de
p sica ná lise.
cerebral, sua infâ ncia traum ática correremos o risco de adotar uma comportamentos que prenunciam Jurand ir Freire Costa.
ou seu ambiente social com poucas postu ra permissiva diante da vio- te ndência à violência. ne-: Graal, 2003.

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ensar sobre possíveis diferenças entre o homem
e a mulher, para alé m dos estereótipos ou das
general idades di fundidas pelo senso comum é um
exercício arriscado. Especialmente porque é bastante
comum considerarmos a questão de maneira antagônica
ou de maneira hierarquizada, estabelecendo gradação
de valores que vai do ruim ao bom, do negativo ao
positivo, do pior ao melhor- ou, aind a, do perigoso
ao inofensivo.
Condicionados a essas percepções e contaminados
por esse imaginár io que parece esgotar o assun to, seria
razoável dedu zi r que necessitamos alterar significati-
vamente essa lógica, evi ta ndo rep roduzir hipóteses,
suposições e opiniões que conduzem a um olhar ques-
tionável sobre alteridade e sobre distinções e possam ser
aprendidas quando falamos de homens e mulhe res.
Contribuindo para esse esforço de re-significação,
a psicanálise aponta a existência de sutilezas e nuances
que dizem muito do que seja um homem e uma mulher,
para além da anatomia, do corpo definid o pela biologia.
É nesse terreno movediço que adentramos, partindo
da obra de Sigmund Freud e chegando a um de seus
mais interessantes representantes, o psicanalista francês
Jacques Lacan, res ponsável pelo ava nço dessa teoria de
maneira bastante origi nal.
No texto Algumas conseqiiências psíquicas da distinção mrn-
tômica eutre sexos, de 1925, Freud envereda por caminhos
que se iniciam, fundame nta lmente, por um conceito
muito específico da psicanálise: o complexo de Édipo.
É nesse momen to mítico que o bebê (e não importa se
tenha nascido com pênis ou vagina) fará uma "escolha"
- visceral, poderíamos dizer - acerca de um dos geni-
tores, que será alvo de toda sua afeição e investi mento
de energia, ou da libido, para sermos mais rigorosos.
Freud levanta a hipótese de que o menino, ao ser cuida-
do pela mãe, amamentado e tomado como algo muito
especial, invariavelmente a elege como seu objeto do
desejo. Assim, rivaliza com o pai, considerando-o como
um adversário que atrapalha seus planos de conjunção
definitiva, sua fantasia de habitar um paraíso no qual
viveriam somente ele e sua mãe e nada fa ltaria, pois um
completaria o outro, sem grandes te nsões.

OUTRA MULHER
Esse drama mobiliza o menino de forma muito intensa,
tornando-se para ele praticamente uma razão de viver e
estabelecendo condições para a irrupção de uma outra
questão, radica lmente importante: a castração, que im-
pulsiona o sujeito a se posicionar subjetivamente. Há três
possibilidades de estruturação psíqu ica: pela neurose,
pela psicose e pela perversão.

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Na neurose, o menino é con- se levarm os em co nsideração ta nto de amor quanto de ódio.
frontado co m a au tori dade do pai que vivemos num mundo que Na estruturação da perso nali-
(q ue, na visão da criança, toma favorece ce rtos t ipos de v ínculo dade há inAuências das relações
para si o lugar da le i, impedindo mais carac te rísticos da ne urose, es tab e lec idas (o u fa ntasiada s)
o fi lho de manter com a mãe um a aprox ima ndo-se de um modelo entre o bebê e sua mãe, dos im-
ligação si mbiótica, uma cél ul a de pretensa "normalidade". pedimentos da le i paterna (um
narcísica ). O garoto sente-se, Na terce ira p oss ibilidade operador simbó lico que Lacan
ass im, impedido de desfrutar do temos a perversão, uma estrutura cha ma de Nome-do-Pai) e das
corpo mate rno e é "incentivado" na qual se destaca, esse ncialmen- fo rmas como a criança responde à
a escolher outra mulher, que não te, a relação d o menino co m a castração. Esses elementos estão
sua mãe. lei sim bólica imposta pelo pai, presentes no cenário que serve de
Outra possibilidade é a psico- que aponta para qualquer outra pano de fundo para o complexo
se, na qual a ligação e ntre mãe e mulher. Grosso modo, poderíamos de Édipo.
filho é extre mamente intensa na dizer que o perverso se interessa A saída desse complexo - se
fantasia inconscie n te da crianç a po r burlar a lei, ou ainda, em é que, a lgum di a, efetiva mente
e não na interd ição paterna. N es- te rmo s mais co n tunde nt es, é se sai dele - foi imaginada por
sa estruturação di stinta da neu- como se a lei o atraísse mais que Freud como única para o homem:
rose, o menino perma nece para a mulher, de fato. apaixonar-se pela mãe na infância
sem pre preso na re lação com E no caso das meninas? Os fe- e, na idade adulta, buscar outra
PARA FREUD
cada gênero tem a mãe, afastando-se das outras nômenos se processam exatamen- mulher que restitua a ele as mes-
maneiras específicas pessoas, desenvo lve n do laços te da mesma fo rma no psiquismo mas se nsações praze ro sas q ue
de lidar com a
socia is com alguma dificuldade feminino? Naquele mesmo texto, obtinha com a figura materna. Já
experiência da
castração e viver o e, sobretudo, de fo rmas muito Freud di zia que não. Segundo ele, no caso da mulher há três possibi-
complexo de Édipo particulares - espec ia lm e nte o menin o demonstra, especia l- lidades: e ncontrar um homem que
mente nos casos de neurose, uma substitua seu pai, dando a ela um
maneira específica de lidar com fi lh o; permanecer infanti lme nte
a castração, apaixonando-se pela ligada à mãe, fixada num momen -
mãe e nutrindo o secreto desejo to anterior ao "giro" que a faria se
de gerar um filho nela, submete-se apaixonar pelo pai e, finalmente,
à le i do pai e, de acordo com suas rivali zar com os homens, nutrindo
possibilidades subjetivas, desloca o que Freud chama de "inveja do
esse interesse para outra mulhe r, pênis", um aspecto regu larmente
amando-a e procriando, alcançan- presente na economia psíquica de
do a paternidade. grande parte das mulheres.
Algu ns psicanalistas conside-
CASTRAÇÃO ram que a mulher, d iferentemente
Já a questão feminina é mais do h omem, não poderia estar
co mplexa, embora esse processo no campo da perversão, pois se
ocorra de forma parecida. Ini- relacionaria de uma forma di s-
cialme nte, a menina privilegia a ti nta com a lei simboli camente
mãe e considera o pai como riva l. imposta pelo pa i. Ao fa lar de
Nu m segundo mome nto, altera est rutu ras (termo lacaniano),
essa posição e elege o pai como vale ressaltar a idéia de falo como
alvo de seu interesse, passando a elemento relacionado à questão
competir com a mãe pelo amor e da cas tração. Na perversão, ao
pela atenção de le. perceber a ausência do pêni s na
Um leitor desavisado se sur- mãe (e vê-la, portanto, castrada)
preenderia ao perceber que nesse o me n ino ang u stia-se e, para
processo surgem as condições aplacar esse d escon forto, "cria"
para o estabelec imen to de senti- u m substituto - um objeto que
mentos afetuosos mu ito inte nsos, pode mos qualificar como fe tiche,
A psicanálise
não aborda
o que é
supostamente
certo ou
errado, mas
sim a ordem
do desejo do
sujeito - seja
ele psicótico,
neurótico
ou perverso

como algo q ue tampona a fa lta para a psica nálise não se trata de


da mãe, ame ni zando d e alguma abo rdar o que é supo stam e nte
fo rm a a se nsação desconfortável certo ou errado, mas s im da
q ue, em úl tima instância, o reme te o rde m do desej o de um sujeito
à sua pró pria castração. Com isso, - seja ele psicótico, neurótico o u
inúme ras co nseqüê ncias pod e m perve rso - e sua possibilidade de
advir, mas fundam entalmen te, o consecução fren te à cultura e a
perve rso extrai prazer das coisas si mesmo.
de uma fo rma muito partic ula r, Tomado como indústria cul-
em geral de maneira d istante da- tural e també m como um meio
quela que se convenciona c hamar poderoso de difusão de image ns,
de "no rm al". idéias, concepções c ideo log ias,
N o imag inário popular, os o c inema nos oferece ri co ma-
perversos goza m batendo, cau- terial para abordar a questão da
sando dor, mentindo, enganando, perversão. Éo caso de Secretária,
confrontand o a lei, toma nd o o de Steve Shai nbe rg, que pode
o ut ro como objeto (a ser usado), nos ajudar a tentar desve nd ar
pra t icando atrocidades, ag indo as misteriosas particularid ades
de fo rm a des pótica qua ndo está do âmbito d a perversão, com
no poder, en fim, co mete nd o uma ê n fase na questão do fe minin o
série de atos e ad o tando posturas e do masculino. A o bra recebeu,
q ue nitidamente se o põem ao q ue em 2002 , o Prêmio Espec ial de
costuma mo s c hamar d e "bo ns O ri g inali dad e do Festival d e
costumes" ou "mora lmente corre- Sundance. Um dos aspectos que NO CINEMA: filmes como O lenhador (acima)
to". As aspas são necessárias, po is mais c hama a ate nção no fi lme é e Secretária tratam d a t emática

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No início do filme Holl oway
é apresentada como uma jovem
em busca de uma relação afetiva
na qual possa sentir algo "mais
excita nte ", que destoe qual itat i-
vamente da relação q ue mantinha
até e ntão com o namorado, Peter,
um am igo de infância. U m dia, ao
observar uma prosaica placa de
"prec isa-se de secre tária", acaba
por ser admit ida pelo escritório
de Edward , um advoga do "ex-
cênt rico", daquele ti po de chefe
que nenhuma secretária suporta,
dono de um esc ri tór io no qua l
a rotat ividade de func io nárias é
recorrente.

PRAZER E DOR
Ho ll oway, que acabara de sair
de uma internação num hospital
psiquiátri co, ma ntém uma caixa
com ins t rumentos corta ntes e
é adepta do cuting, práti ca q ue
consiste em inA igir-se dor, co r-
tando na próp ria carne e, com
esse at o, supostame nt e, o b tém
u m t ipo de praze r q ue não é
alcançado na vida cotidia na. No
caso de H olloway e Edward, a dor
parece exerce r papé is su t ilmente
dist intos: enq uanto para e la a dor,
de alguma forma, encerra um c ir-
cuito, uma equação que se finda na
sensação inte nsa, para ele, inA igir
a dor e mos trar-se no "comando"
da si tuação o exci ta. Ao perceber
que a moça é adepta do cuting,
Edwa rd afirma q ue não será mais
No imaginário que, num primeiro olhar, o es- Para Freud, to do modo de preciso que e la reco rra a essa
pectador tem a sensação de que obtenção de prazer que se fixa prática e que e le, a part ir daquele
popular,
nos defrontamos co m um caso - não permit indo va ria ções e mome nto, cuidaria dela.
os perversos de perversão feminina, po is o fio de alg uma forma lim itando o O q ue soaria romântico- afinal,
condu tor do filme e stá centrado sujeito - poderia ser compre- cuidar de uma mulher que sofre é
gozam
em uma relação entre o advogado end ido co mo pe rve rsão. É isso um ato altamente seduto r, tanto
causando dor, Edward e sua funcionária Hollo- justamente que e nco nt ramos para ela quanto para o ho mem - é,
enganando e way, co m nuances cl áss icos de e m H o ll oway e Ed war d , um na verdade, sinal de que Holloway
sadomasoquismo (bater e apa nhar relacionamento sem limi tes , mas deveria ocupar, a partir de então,
confrontando são elemento s presente s; a do r inten sa me nt e repet it ivo, nú m u m luga r de hum ilhação, sendo
as normas tem de staque e há r igidez no circuito e m que o novo parece punida a cada erro que cometia
modo de amar). não e nco ntrar espaço. na datilografia, nas redações dos

90 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


memorandos e em outras tarefas
cotidianas. Algo de muito intenso
começa a se desenrolar nesse mo-
mento do lllme, ambos se envolvem
em uma relação de completude, de
sustentação de um prazer que acaba
por fazer o espectador perder o fô-
lego e possivelmente se perguntar:
será isso possível?
Como esse fi lme nos ajuda
a pensar a questão da diferença
entre um homem e uma mulher
no campo da perversão? Para
responder a isso precisamos re-
correr novamente a Lacan, que
muito nos ajudará com as noções
d e gozo e objeto necessá r ias
para sofisticarmos um pouco a
análise do que ocorre nessa llcção.
Contudo, iniciemos com Freud,
baseando-nos em um de seus mais
comentados textos, Análise ter-
minável e interminável, de 1937.
Ele problematiza as dificuldades
que se apresentam para o analista
no llnal de um longo processo
analítico, que pode levar anos. Ele
identificou "posturas subjetivas"
como feminina e masculina. Para uma tentativa de seduzi-lo, fazen- objeto, de causa do desejo. Uma SAIBA MAIS ~~
o criador da psicanálise, a primeira do-se de objeto que o capturaria estratégia histérica, portanto, da
Introdução
está ligada ao que podemos qua- - ou, como Lacan provavelmente ordem da neurose. ao estudo das
lificar como uma posição passiva, diria, ter o fa lo é uma coisa, ser Aqui residiria uma provável perversões: teoria
enquanto a masculina está vincu- o falo é outra. Acrescentaríamos resolução para a hi pótese inicial: do Édipo em Freud
lada a uma postura ativa. ainda, fazer- se de falo para o ou- a mulher pode se r consid erada e Lacan. Hugo
tro, numa posição supostamente perversa? Em nossa concepção, Bleichm ar. Artes
ESTRATÉGIA DO FALO passiva, talvez seja a essência da muito dificilmente, pois as possibi- Médicas, 1984-
Freud percebeu que, na ve rdade, posição feminina e isso ultrapassa lidades de gozo, de causar desejo Freud e a
homens e mulheres, não impor- a anatom ia, pois se observa rmos no out ro e, co m isso, marcar a perversão. Patrick
Valas. Zahar
tando sua anatomia, privilegiam crianças pequenas, veremos que castração desse outro, afastando-se editores, 1990-
estar sempre na posição mas- tanto meninos quanto men inas assim do confronto com a própria
Três e nsaios
culin a (ati va) e que a posição fazem isso com maestria. rrustração, permite-nos di zer que sobre a teoria da
pass iva, na verdade, é apenas a Em outras palavras, de manei- a perve rsão, fundamentalme nte sexualidade (1905).
expressão de um semblante usado ra até mais simplista, seria curioso marcada pela confrontação com Edição standard das
"estrateg icamente" pelo suje ito, nos pergun tarmos o que seria do a lei simbólica do pai, não alcança obras completas de
frente ao que ve rdade iramente sádico sem um masoquista que o nem favorece a estruturação das Sigmund Fre ud, (vol.
VIl). lmago, 1987.
tenciona, em termos inconscien- complementasse. Allnal , Hollo- mulheres da mesma forma que os
tes . Traçando uma analogia com way tornou-se fu nd ame ntal para homens- daí a ex trema di Acuidade Uma criança é
espancada (1919).
o lllme, poderíamos estabelecer Edward, aca bou por ocupar o dos psicanalistas em diag nosticar
Edição standard das
como hi pótese que a sup os ta lugar de instrumento privilegiado uma mulher perversa. Novamente obras completas de
passividade de Holloway fre nte de seu gozo, aquilo que lacaniana- a mulher põe a psicanálise em xc- Sigmund Fre ud. (vol.
ao advogado nada mais era que mente convenciona-sc chamar de que, fazendo-a trabalha r. nec XVII). lmago, 1987.

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s estudos sobre a menopausa e a andropausa
têm merecido crescente atenção nas últimas
décadas devido ao aumento da expectativa de
vida. Estima-se que a população mundial com idade acima
dos 60 anos irá dobrar entre 2000 e 2025, chegando a
mais de 1 bilhão de pessoas. No Brasil, as projeções são
de cerca de 200 mil hões de habitantes em 2020, dos quais
11 milhões terão entre 55 e 64 anos.
É curioso que, apesar de todas essas mudanças no
perfil epidemiológico da população, a idade em que a
menopausa ocorre continue a mesma: entre os 48 e 50
anos, em média. Isso significa que um contingente cada
vez maior de mulheres viverá após esta fase ter sido atin-
gida, convivendo com os sintomas e as conseqüências
da redução da produção do hormônio sexual femin ino,
o estrógeno.
Raciocínio semelhante vem sendo aplicado aos ho-
mens em relação à andropausa - fenômeno muito menos
estudado, mas cujo interesse de pesquisa tem crescido nos
últimos anos. Se nas mulheres, por um lado, a menopausa
corresponde a um acentuado declínio na produção de
estrógeno (que leva à falência funcional dos ovários e à
interrupção do ciclo menstrual), nos homens, por outro,
foram identificadas várias alterações hormonais, sendo a
mais comum a diminuição dos níveis de testosterona, o que
não resulta, porém, em comprometimento funcional dos
testículos ou infe rtilidade. Outra diferença entre meno-
pausa e andropausa é que os dois processos não ocorrem
na mesma faixa etária; além disso, nem todos os homens
se queixam da alteração hormonal associada à idade
(cujo diagnóstico por sinal ainda é muito controverso), ao
passo que 100% das mulheres passam pela experiência da
menopausa. Usar o termo andropausa como equivalente
à menopausa é, portanto, incorreto.

DÉFICIT ANDROG ÊNICO


A diminuição dos níveis de testosterona faz parte do en-
velhecimento dos homens. A produção desse hormônio
começa a cair de 1% a 2% por ano a partir dos 40 anos. Até
15% dos homens podem sofrer do chamado déficit andro-
gênico do envelhecimento masculino (Daem), distúrbio
reconhecido pela medicina desde 1994, caracterizado por
acentuada redução da produção de testosterona .
)á as repercussões da insuficiência estrogênica na
menopausa a curto, médio e longo prazo são bem co-
nhecidas . Os sintomas incluem fogachos ou ondas de
calor, diminuição da lubrificação vaginal, sem fa lar no
aumento do risco de doenças cardiovasculares, osteopo-
rose e demências. Muito se fala também nos benefícios
da terapia de reposição hormonal, que além do aspecto
preventivo produz resultados importantes em termos de

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qualidade de vida . Obviamente há saudáveis e sem fatores de risco os distúrbios do sono, por exem-
Com a idade,
riscos inerentes, mas que podem (não-hormonais) faci litadores da plo, são mais comuns nessa etapa
níveis de ser controlados pelos médicos, disfunção sexual. do que após a extinção do ciclo
estrógeno os quais devem levar em conta Nas mu lheres, alé m do de- menstrual, embora seja impor-
fatores como tipo e dosagem de créscimo da função ovariana, a tante frisar que nem todas as mu-
que antes hormônio, via de administração, menopausa impli ca alterações lheres relatam alterações físicas e
inibiatn a início e du ração do tratame nto, sign ificativas nos meca nismo s psíquicas. A manifes tação desses
antecedentes fami liares e pessoais de feedback entre duas regiões sintomas pode ser resu ltado de
secreção do de câncer de mama, entre outros. cerebrais: hipotálamo e hipófise uma sensibilidade diferenciada
hormônio LH Nos homens, porém, os efei- (ver quadro na pág. ao lado). A hi- aos hormônios sexuais nos mais
tos da insuficiência androgê nica pótese mais aceita atualmen te é a d iversos centros cerebrais.
pela hipófise precisam ser analisados com mais de que essas estrutu ras se tornem
deixam de cuidado. Apenas 4% dos casos de menos sensíve is ao estrógeno. EFEITOS ESTRUTURAIS
disfunção sexual masculina têm Além disso, parece haver dife- Sabe-se hoje que distúrbios neuro-
exercer o causa hormonal. Muitas vezes os rentes fases, durante a transição lógicos e psiquiátricos manifestam-
mesmo efeito sintomas atribuídos ao hipoandro- menopáusica, de resposta do eixo se de formas diferentes qua nto
genismo podem ser decorrentes de hipotálamo-hipófise. Com o pas- a origem, r iscos, progressão e
doenças como diabetes, hiperten- sar do tempo, níveis de estrógeno processo de recuperação em ho-
são, depressão, ou do uso de me- antes capazes de inibir a secreção mens e mulheres. Embora não se
dicamentos. Embora certos níveis de hormônio luteinizante (LH ) conheçam precisamente as causas
APESAR DAS de testosterona sejam necessários pela hipófise já não conseguem desse fenômeno, sabe-se que as
MUDANÇAS para manter a libido e a capacidade exercer o mesmo efeito. concentrações de estrógeno ou
do pe rfil da
erétil, parece que os idosos preci- Os níveis de LH são maiores de progesterona, ou a expressão
população, a
idade em que as sam de menos hormônios. De fato, em mulheres na perimenopausa de seus receptores, provavelmente
transformações é extremamente difícil determinar - fase de transição que marca o desempenhem papel importante.
físicas ser tornam os níveis necessários de hormônio fi m da vida reprodutiva feminina O estrógeno é sintetizado em di-
mais marcantes
continua a mesma: sexual masculino para a manuten- e antecede a (dtima menstruação. versas regiões cerebrais- ta nto no
entre 48 e 50 anos ção da atividade sexual em pessoas É por isso que as ondas de calor e homem como na mulher- graças a
uma enzima, chamada aromatase,
que converte tes tosterona e m
hormônio sexual fe minino. Essa
produção local de estrógeno é
essencial para o desenvolvimento
cerebral, inAuenciando tanto a di-
ferenciação quanto a plasticidade
neuronal, o que implica efeitos
estruturais e fu ncionais, respecti-
vamente. Além disso, o estrógeno
modula a atividade de vár ios
neurotransmissores, como acetil-
colina, serotonina, dopamina, bem
como a transmissão adrenérgica.
Isso poderia explicar seu efeito
tôn ico mental, capaz de diminuir
a ans iedade e melhorar o humor e
a memória em algumas mulheres
tratadas com te rapia hormonal
estrogênica na perimenopausa.
Parcela significativa das mulhe·
restem expectativas desfavoráveis
em relação à menopausa, e muitas

94 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


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Ainda se desenvolvem sintomatologia física cuidadora, baixo nível educacional, possíveis causas da depressão. O
e psíquica importante no climaté- luto e doenças crônicas. mesmo parece ocorrer em relação
sabe muito rio. Isso ocorre particularmente No caso da menopausa ci- à memória verbal. Os resultados
pouco naquelas que apresentam transtor- rúrgica, por meio da remoção do em mulheres na pós-menopausa
no disfórico pré-menstrual - forma útero (histerectomia) com ou sem tardia são negativos.
sobre grave de tensão pré- menstrual a retirada dos ovários e trompas
benefícios (TPM) - , o que suge re que os (ooforectomia), os fatores de risco CASTRAÇÃO QUÍMICA
estados fisiológico e psicológico para depressão apresentam algu- Já a literatura científica sobre de-
e riscos da pressão ou si ntomas depressivos e
prévios seriam importantes predi- mas diferenças em relação à me-
reposição tores da interpretação e vivência nopausa natural. A boa preparação níveis de testosterona em homens
hormonal da menopausa. cirúrgica - que inclui a avaliação de meia-idade parece equivocada.
Vários autores não encontra- das emoções e das expectativas Embora muitos ensaios clínicos
em homens ram evidência de que a instalação da paciente - é muito importante com andrógenos incluam ques-
da menopausa esteja associada à para minimizar o impacto do pro- tionários de humor ou depressão,
depressão. No entanto, o período cedimento. Nessas circunstâncias não há evidências que indiquem
prolongado de perimenopausa (no o humor depressivo parece estar que o declínio de testosterona
mínimo 27 meses) representaria associado a histórico de depressão, seja um fator de risco significativo
um risco moderado ao hum or idade jovem, apoio social inade- para a depressão, ainda que alguma
depressivo. Segundo alguns es- quado, problemas conjugais, baixo influência no humor deprim ido
tudos, o au mento na incidência nível socioeconômico, histórico de não possa ser totalmente excluída.
de depressão na perimenopausa múltiplas cirurgias e cirurgia em Alguns trabalhos demonstraram a
estaria associado a episódios de- situação de emergência. Alguns associação entre castração química
pressivos anteriores, bem como a estudos indicam que mu lheres e maior incidência de depressão, ~
~
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aspectos socioeconômicos. Outros que estão na perimenopausa ou além de aume nto sig ni ficat ivo
fatores aparentemente envolvidos
são histórico de transtorno disfó-
na pós-menopausa há pouco tem-
po podem se beneficiar do efeito
dos níveis plasmáticos da proteína
beta-amilóide, a mesma envolvida
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rico pré-menstrual e de depressão positivo do estrógeno sobre o na degeneração neurológica obser-
pós-parto, responsabilidade como humor, independentemente das vada na doença de Alzheimer.
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Ascensão e queda de um hormônio


Os nrvels de testosterona sobem lentamente desde o nascimento até o lnkio da puberdade,
quando então se elevam de forma abrupta. Os pêlos crescem, a voz engrossa e os órgãos
sexuais se desenvolvem. A produção do hormônio masculino é máxima por volta dos 20
anos, quando o desejo sexual se manifesta com Intensidade. Ao longo das próximas três
décadas, os nfvels de testosterona se mantêm altos. Por volta dos SO anos, há uma diminuição
discreta da produção hormonal. Em alguns homens, porém, essa queda pode ser acentuada
e acompanhada de distúrbios erétels, diminuição da libido, depressão, Insônia, entre outros
sintomas do déficit androgênlco do envelhecimento masculino (Daem).

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IDADE
o 10 20 30 40 50 60 70
O tempo como aliado

Nos últimos a nos, estudos reali-


zados com imageame nto cerebral
revelaram que, com o transco rrer
do tempo, redes ne urais são re-
estruturadas e o sist e ma nervoso
tanto de home ns qua nto de mu-
lhe res passa a ativar á reas que até
então eram pouco utilizadas no
cére bro. Como a expectativa de
vida aumentou, o ingresso efetivo
na a pose ntadoria é cada vez mais
tardio e as pessoas pe rmanecem
inte lect ual e profissionalme nte
ativas por mais tempo, faculdades
como cognição e memória te ndem
a ser exe rcitadas e fortalecidas por
pe ríodos mais longos. Segundo
especialistas como o psiquiatra
Leonardo Caixeta, professor de
neurociências da Universidade
Federal de Goiás (UFG) e autor do
livro Demência - Uma abordagem multidisciplinar, a prática fre- A reposição androgên ica deve
qüe nte de atividades que estimulam as funções cere brais (como ser restrita a pacientes sintomá-
a leitura, por exemplo) pode retardar a instalação da d emência. ticos, com níveis de testosterona
be m infe r iores aos valores de
referê ncia, e admi nistrada somen-
te depois da exclusão de ou tros
Vários estudos sobre a relação a terapia de reposição ho rrno nal fatores, como de pressão, stress e Menopause and
entre níveis de and rógenos e de- (q u a n do não h o uve r co nt ra- diabetes, que podem causar redu- hypothalamlc-
sempenho cognitivo têm produzido indi cações), os resu l tados d o ção da libido e d isfunção erét il, pltultary sensltivity
resul tados inconsistentes, sugerindo tratamento análogo nos homens por exe mp lo . Quan d o hou ver to estrogen. G.
ser necessário que se investigue são amplame nte negativos. Estu- indicação, deve-se optar por doses Weiss et ai., em fama,
vol. 292, págs. 2991-
melhor o papel dos hormônios em dos recentes con trariam os mais ba ixas do hormôn io masculino,
1996, 2004.
vários do mínios das fu nções cogni- antigos, nos qua is as justificativas tendo em conta a exacerbação de
Normatlve
tivas. A melhora na memória verbal, g irava m e m to rn o da mel ho r q ua- doenças dependentes d a ação da
hypogonadlsm
por exemplo, poderia ser explicada lidade de vida dos homens subme- tes tos te rona, co mo h iperplas ia and depresslon:
pela conversão de testosterona ou tidos à reposição de testosterona a benigna da próstata, câncer pros- does "andropause"
andrógeno e m estrógeno pela enzi- lo ngo prazo. Mesmo com o apelo tático, eritrocitose (aumen to do exlst? S. N. Seidman,
ma aromatase. Portanto, no estágio da mídia, que exalta a importânc ia número de hemáceas) e apnéia do em lnternational
atual das pesquisas é impossível des- da qualidade de vida dos home ns sono. É preciso prudência e mu ita journal of /mpotence
tacar qualquer benefício cognitivo na "andropausa", até o prese nte investigação cl ínica, urna vez que Research, vol. 18, págs.
415-422, 2006.
da ad ministração de testosterona. mom e nto não há estud os q ue os dados de que d ispomos ainda
confir mem ta l c rença. Tam pouco são muitos li mitados. Estudos de Androgen
deficiency in aging
APELO DA MÍDIA há a rg ume ntos sólid o s pa ra o lo ngo prazo, como os real izados
men. G. G. T'Sjoen e
Ao con t rá rio da grande maio ria tratamento de idosos ass intomá- para a terapia hormonal de mu lhe- J. Kaufman, em Current
dos estudos q ue mostra melho ra ticos, mesmo q ua ndo detectada res na menopausa, são necessários Opinion Endocrinology
sign ificativa da q ua lidade de vida a d imi nuição da pro dução de para conhecer os riscos associados Diabetes, vol. 13, págs.
de mu lheres na menopausa com testostero na. a esse tipo de tratamento. mec 254-261, 2006.

www.mentecerebro.com.br 97
Saindo do sótão
TERRITÓRIO TRADICIONALMENTE MASCULINO, HOJE A LITERATURA TEM GRANDE
PRESENÇA DAS MULHERES, SEJA COMO AUTORAS, SEJA COMO LEITORAS

l ivro é coisa para homem ou para mulher? Na maioria das


culturas, a resposta era óbvia: o livro, ou seus equivalentes,
duvidosa interpretação do regulamento da ABL, segundo o
qual podiam entrar na instituição todos os "brasileiros" autores
fazia parte do universo masculino. Sociedades patriarcais de livros. Para os machistas da época a expressão só se referia
reservavam aos homens o acesso à palavra escrita. Por uma a homens. A situação finalmente se defi niu quando, em 1977, a
óbvia razão: escrita é poder e poder não deve ser repartido. escri tora Rachei de Queiroz foi eleita para a Academia. Depois
A situação perdurou por muito tempo e só lentamente as dela vieram Lygia Fagundes Telles, Nélida Piíion, Zélia Cattai
mulheres foram tendo acesso ao texto, não raro de forma e Ana Maria Machado.
clandestina. Daí o curioso título de um livro publicado em Atualmente a posição das mulheres na literatura, tanto na
1975 nos Estados Unidos: Themndwommr irr thenttic (A louca no condição de escritoras como de leitoras, está consolidada. Elas
sótão). As autoras Sandra Cilbert and Susan Cu bar estudaram ganham prêmios literários importantes, têm um vasto público,
escritoras do século XIX que, vencendo todos os preconceitos, trabalham na imprensa, ensinam literatura. Lêem, e lêem mui·
construíram obras respeitáveis. À época, literatura tin ha algo to: o número de leitoras ultrapassa em muito o de leitores. Na
a ver com culinária: as mulheres podiam, e deviam, se encar- Inglaterra, Estados Unidos e Canadá elas representam 80%
regar da cozinha, isto é, do trivial, mas os pratos refinados do público de ficção, o que levou o romancista britânico lan
ficariam a cargo dos chefs, homens. Da mesma forma, podiam McEwan a dizer: "Se as mulheres pararem de ler, a ficção
escrever depois de cumpridas as obrigações domésticas; aí, se acaba." Éverdade que escritores e editores continuam sendo,
quisessem, elas se refugiariam no sótão. em sua maioria, homens (certas coisas tardam a mudar); mas
No 13rasil, as mulheres não eram aceitas na Academia cada vez mais eles dependem das mulheres. E não pensem que
Brasileira de Letras (ABL), apesar da declarada admiração de as leitoras se restringem aos temas chamados femininos. Dois
seu fundador~ Machado de Assis, por várias escritoras. Para exemplos apenas, ambos americanos: nos livros de mistério
o acadêmico Carlos de Laet ( 1847- 1927) esse atraso se devia e crime, as mulheres representam 86% dos leitores; nos de
ao modelo francês adotado no Brasil, ao qual se somava uma espionagem, 70%. As editoras até tentam estimularas leitores
masculinos. A Penguin, da Inglaterra, lançou uma campanha:
qualquer leitor que for encontrado, na rua, em casa ou no
escritório, com um livro da editora ganhará mil libras. Lema
(meio safado) da campanha: "O que as mulheres querem é um
homem com um ping üim". Claro, quando se trata de livros de
negócios, eles lêem mais do que elas, reAetindo a sua maior
presença masculina na área. Mas tudo indica que isto mudará
radicalmente no htturo próximo.
As mulheres não precisam ficar confinadas ao sótão para
ler ou escrever. Aliás, o próprio sótão está desaparecendo:
casas modernas já não têm esse cômodo. A literatura libertou-
se do confinamento. O que é uma vitória das mulheres, mas
é, sobretudo, uma vitória da humanidade. nec:

MOACYR SCUAR é médico, escritor e membro da


Academia Brasileira de letras.

98 MENTE&CÉREBRO • A TRÉGUA DOS SEXOS


Colecione a série História Viva • Grandes Religiões e saiba como as diferentes
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