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Projeto

PERGUNIE
E
RESPONDEREMOS
ON-L1NE

Apostolado Verltatis Splendor


com autorização de
Dom Estêvão Tavares Bettencourt. osb
(in mamariam)
APRESENTAÇÃO
DA EDiÇÃO ON-LINE
Diz sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razia da
nossa esperança a todo aquele que Il()oola
pedir (1 Pedro 3.15).
Esta necessidade de darmos
conta da nossa esperança e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora•
.~ .,. visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrárias à lé católica. Somos
assim Incitados a procurar consoWdar
nossa crença caltwica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste slta Pergunte 8
Responderemos propõe aos seus lellores:
aborda questOes da atualidade
controvertidas. eiucldando-as do pano de
vista cristão a fim de que as dúvidas se
.. dissipem e • viv6neia ca16llca se fortaleça
- I .. no 8rasil e no mundo. Oueira Deus
abençoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.
Rio de Janeiro. 30 de julho de 2003.
Po. &tevlo 8ettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERfTATIS SPLENDOR

Celebramos conviRia com d. Estevão Benencoun e


passamos a disponibilizar nesta 'rea, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico . fllosófica · pergunte e
Responderemos·, que conta com mais de 40 anos de publicaçlo.
A d. Estêvão Bettencourt agradecemos a confiaça
depositada em nosso trabaJho, bem como pela generosidade e
zelo p8storalassim demonstrados.
ANO \\\

35
NOVEM8R '

9 6
IN oICE
L FILOSOFIA E RBUGII.O
"".
1) "Erilt. rtalm",l" O que .. ellnl!lG DIreito JWot.ural, itto
I, di'tt'itln, e dn:er.. drcorTtlttt:. do Hllturt:tl hlllmaltB como tal1
So,"o~ freqiitllltlltule
Irrml"" 11 rru qlu~ M lt~ Ifociai. lf6
,im /".rlnmenl" Im l'<1ltl"nr .rv IrOi/.lmlor 1111111«"0. podmelo por
j" lo vrrr inr a gôdo do "">lmo" .. .. . . ..... . ... . . . . ..... .....• "-',,

11. DOGl\lATICA

~) ·'Qllaf. OI !/<Cnda,"c"'".. /to Itogm/l. dn Auultçd'o c.JrpoNll


ri. Maria ao. ciH' 1" .. . .. . ....... . . .. .. . _. . . ••. . •. . . • •..•• , 451

J) "Ntio I IItrdod. que o dO"lna da A.,ltll,d'o d. Maria flJi


c,,"/ul,na.do pelo Papa São GeMI/ia "0 Iliculo V'" •... .. •... • .. "51

UI. l\lORAL

H " H li q«./II. /n/" ,Ie 1'''I</ltilO 110 tor/>é JlUmaftO, prilttipn f·


IMltlt /fi' li"
t,.ltlur ,/" 7/r,j1if"1I dI) 1IIf'",.. E m. que ICe 'mltem ,"'n
h<>ltrOIJ4 apreciação ,lo corl lO 1
&ria 'JH)Itllh '" doC dedll:ir n10ll1114 ronclulllÍo lIóbrlt Il It,Ulltll
110 lt!ijJOrt. 1" • . .. . . .. . ........ . ...... . . .. ..•. .. .• ....... .. .. . ~63

5) "Qxu.,-a N,,,a IHllal' M de elldlU'ltdmntlo .Ôbr, a lIUlII-


tNrbnçdo. H á mitli«lll q/llt 11 tll't'OVfult. ao palllIO que o", ftlOf'G-
li"'tI, Il ("o""ellalll" ............ . .• . ••. . •••••. .• • •.• . .•. . • . . . • ~7.!

IV. HISTORrA DO CRISTIANISMO

6) " Qlf(,1 ti. (/f'ioem ,I" ROllário'


E «Imo., pod.ria jU/lli/it!ar tal lorm4 de M'tlÇão. ~ qUI a
.,.otilta e o m.t!anici.l'llo tanto t,ndem a pr,tHJ/,ur'" ..... . ..... H7

CORRESPOND~NCIA. AIIODA. (li ação d. urnçcu ap6. a Miraa) -'"

co;\r APROVAÇAO ECLESlASTrCA


.PERGUNTE E RESPONDEREMOS.

Ano 111 - N' 35 - Novembro d. 1960

J. FILOSOFIA E RELIOIA.O
PEDRO (Rio de Janeiro):

~) _Existe realmente o que se chama DireUo natural,


l~to tl, direitos e de,'erH decorrentes ela natureza humana
eomo tal!
Somos freqUentemente levados & crer que as leis JOclals
8Ó têm fundamento na vontade do legislador humano, podendo
I,or Isto variar a gõsto do mesmo •.
Em noua resposta, averiguaremos primeiramente o que se
entende p« _Direito natuNlbi a seguir. eaboçftremos o hl!.16rlco
da quesito proposta, para poder com. segur.nt~a a.s..~ven.r a120 s6bre
a exlst~nela de um Direito dito «natura!:_,

1. Que é o DireIto Natural'!'

1 . Não raro empreeam-se incliferentelTk~nte 8S expressões


"lei naturab e . Direito n",turab. Faz-se mister, porém, distin-
gui-las.
«Lei natural " em Moral, vem a ser o conjunto de normas
que, impregnadas na natureza. hum8'na desde a sua origem,
encaminham o individuo para o seu F1m Supremo ou a bem·
·aventurança eterna; essas normas têm por objeto todo e qual·
quer tipo de bem Que o homem possa praticar na h.'rra: assim
_amar a Deus sObre tOdas as coisru;, nAo desesperar da Provi·
dêncla Divina, nAo matar, não roubar, etc.•.
Quanto ao _Direito naturab, é}e coincide com uma parte
ou um aspecto apenas da lei natura): visa unicamente êsse
tipo de bem que é a Justiça, ou seja, as relações do homem
com o seu semelhante. O Direito regra, sim, o intercâmbio de
individuo humano com indivíduo, de indiYiduo com grupo, e
de comunidade com comunidade. Define-se, par isto, o Direito
natural como sendo o conjunto de normas impressas na natureza
humana, a fim de que realize adequadamente a sua vida sodal
ou comunitária na terra.
Desta conceltuacio decorrem algumas conseqllênclas importantes:
1) o Direito tem por objeto atos externos e vlslvela, que lntet'H-
aam nio sômente ao agente, mas tam~m a outras pessoas; o Direito
pode mesmo abStrair das dltposlcOes internas do suJeito. conslderatldo

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cPERGU~ E RESPONDEREMOS» 35/1960, quo 1
apenaa a ~percu55lo exterior dos seu. atos (dai o pc!rlao de forma.
IIsmo vazio ou 1arlu.1smo no eultlvo extremado do D~lto) . - A
Moral, ao contrArIo, tem por objeto nlo sômente os ato. externos,
mas também e principalmente os aios IntllmO! do Individuo; ela
Julga AI Intenç6es de quem age, os teUS pr6prlOS pensamentos e afetos.
21 O Direito, por causa da sua repercussAo soclal, tem aempr-e
anexa & ai uma aanÇ!lo lemporal: compreende-se que a sociedade exerça
certo controle s6b~ os ckladlos para que observem as normas do
Direito, pois a comunklade pode exigir Que :lIgubn naa suu relaç6es
com o próximo se comporte como deve. - A Moral, ao contrtrlo,
MO estA por sL sujeita tiO conlr6le da comunidade: esta Rio pode
obrle_r alcuém a ser Intrinsecamente bom; nlngulm se torna bom
por violência da poUcla. Algu~m pode, sim, ser constrangido ~Io
Direito publiCO a prestar assistência material aos seus cenltores, mas
nunca podem ler obrigado a tomar em relaCio a êles uma atitude
Interior de piedade filiaI.
Em suma, dlr-se·A : a Mara} visa diretamente a consclêncla do
Individuo, ao passo que o Direito contempla o comportamento externo.
Contudo nem em teoria nrem na prAtica se pode acentuar rlgldamente
esta dJsUnçAo, pois hA multas virtudes que por si parecem nada ter
de comum com a jusUça e o Direito (como a temperanta, a prudl'nC!aJ,
contudo vêm a .ser Indiretamente objeto da ,ustlça e, por conseeulnte,
do Direito; além disto, o cumprimento prAtico de um dever lurld'co
permanece sempre Imperfeito. se nlo é animado pela atitude ntenor
(morall correspondente; assim o filho que dA seu tributo financeiro
aos pala, sem, por~m. OS reverenciar devidamente, ainda nlo reallu
plenamente o seu papel.

2. M lado do Direito natural, coloca-se o DIreito potltlvo,


que é o conjunto de nonnas sociais direta. e livremente c0nce-
bidas pelos homens em vista do bem comum ( ... da famlUa,
da nação, da sociedade lnternaclona1). Como se compreende.
essa legislação, a fim de atingir os seus objetivos, pode e deve
variar dentro de certos limites, adaptando-se às circunstância!>
de vida de cada povo e cada época. Ora é justamente êste Cato
que dá origem ao problema focalizado no cabecaIho do presente
artigo: será que tais variações dependem unicamente do arbttrio
dos legisladores humanos, de sorte que nada haja de perene no
DIreito positivo e tudo aquilo que hoje é tido como lega) possa
nmanhã rer declarado Ilegal, e vice-versa?
Em demanda de ~olUlião para êsse problema, passemos a um

2. Esbôço histórico da questão

Foi muito comum entro os povos, no decorrer dos tempos


a acepção de que as I~is que reeem as relações dos homens
entre si, não dependem exclusivamente da vontade do 1eg1slac;1or,
mas têm fundamento mais remoto: fundamento na própria
natureza do homem e dos elementos que o cercam. Por sua
vez, êsse fundamento natural ou essa lei natural foi, desde
remotas épocas, associada ao conceito de Deus, Autor da natu-

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EXISTE UM DIRElTO NATURAL?
----"=""-""'--"==-'=~""'---_ ..
reza. e. em particular, da natureza humana. Em conseqüência,
as nonnas do Direito p(Jblieo sempre tiveram, segundo o teste-
munho comum dos povos até a Idade Modema, um caráter de
absoluto nlo sujeito ao bel-prazer do legislador humano.
1 . Nilo nos dêteremos s&bre a mêntalldade dos povos primitivos.
para os quaLs tOda a leglslaçlo, tanto religiosa como civil, Sé derivava.
êm Cltuma an!IISé, da Divindade, I:Craltnênte concebida como co
Primeiro Pab ou co Pai comum~ rUrvafer, na IIn!tualtem técnica
alemll).
2 . Entre os rregos clAlllc:OlI, fêz-se ouvir contra a concepçlo
tradicional um" série de pensadore-. que estabeleciam antitese entre
a uturez& (Ph,yIla. ):l0lra) e a lei INomosl, como se- as leis vleentes
na sociedade nlo tivessem fundamento algum na natureza do home-m
e das coisas ou como se dependessem Ilnlcamente do capricho subje-
tivo do lealalador; as categorias de du.stos e clnjustos dever-Sp.-IArn
apenas a convenci o humana artl1ic1a1.
Uma das exprf'SSOes mais tlplcas dbse modo de pensar é a
lamosa sentença do sofista Protleoras (t415 a.C.): cO homem ~ a
medida de tedas 85 coisas. (no dJ!lolo de Platão, Teeteto 15111; tal
medida, em CltUma anAlise, vinha a ser, conlonne Protigoras e IUS
escola, o utilitarismo ê o hooonlsmo la procura do ,Ozol.
Contudo as proposlç6es relatlvl.tas provocaram a rtaçlo de auto-
res que reaJ'lnnaram em tom ainda mais consctente a tl!.l!ie tradicional
aeaundo a qual a 111tlma fonte do Direito 4: a120 de objetivo, Indepen-
dente do parecer vOhjvêl dos home-nl.
Haja vista, entre outrOll textos. a &ClfUlnte pusalem de Sófocles
na sua peça Antlgone (442 a. C., : o 'tirano Creonte quer fazer preva·
Il!Cer a lUa arrollncla. ou o seu desrelpello .. lei, êm detrimento de
AnUlon. Inoeentê: kte entlo J'Holve apelar pata 'lias leis nlo ascritas
e Indeatrutlvels dos deuses, •• . cuja. exlstthelA RIo data de hoJe nem
de ontem. mas ~ de todos os tempot,. (Anttgone 452-457) .
Nos sistemas dê Platão (t 347 .. c.) e Aristóteles (t 322 a. C.l ,
esboçou...~ daramente a noçAo dê um direito lundamental, Indepen-
dente do arbltrlo humano. Em pnrtlculAr, Aristóteles realçou a dlstln·
ção entre o que é justo pela n"turna mesma das coisas CIMO seria
sempre e em tôda parte vAlido I e o que é justo por eleito de uma
lei positiva (seria varlAve]): d . Eth. Nlcom. V 7 [10] I: Ret. I 13,2 .
Se-JlUndo os estolcos, a Justiça é ditada pela reta. rado, reta razlo
qUê anima tanto o homem quanto o universo. constituindo a natureza
muma dAS coisas e dandO') estabilidade la leis do comportamento
humano.
3 . OI Juristas romanos em leral adotaram as concepçOes da
filosofia grega, reconh~ndo a ulst'êncta de um Direito Natural.
Como porta-voz do pensamento comum, bastê dtar aqui Ulplano
Cf 228): dus natura)e est. quo<! natura omnla animalta doeult. - O
Direito natural é aquêJe que a n3tUl'e'Ul ensinA a todcn; os sêres vivos.
Hragm. I I 3j Dlg. I 1) .
4. O Cristianismo. sobrevindo ao mundo da cultura antiga.
corroborou a noçAo de Direito natura), aprolundando-a 1 luz do con-
ceito de clel e(ema~ existente em Deus, como se verA adiante. no
I 3 dota resposta.
5. O sé<!. XVI, porém, época do Humanismo. deu início
a nova fase na história do Direito, fase em que o racionalismo
- 445-
____ .cP.EJlCUNTE E RESPONDEREMOS. 35/1960, qu. 1

lavrou a sentença de auto-destruição dos próprios valores


humanos,
O processo se deu por etapas.
A primeira fase de dissolução foi marcada pelo arrereci-
mento da fé no sobrenatural. JA que esta vacilava., muitos
pensadores (católicos, protestantes, e até mesmo clndependen&
tes.) pl'Oc.:uraram demonstrar a existência do Direito natural
(da qual nAo queriam abrir mio) abstraindo de Deus ou mesmo
admitindo a hipOtese de que Deus não existisse.
Um de" mllls (amo~ autores neste a'l foi o jurista holand!s
calvinuta HUIO GrOcio 11583-1645). o qual, supondo a nlo.exlst!ncla
de Deus (lluposlCio absurda. afirmava fie), procurou basea.r tal
sistema completo de Direito natural e Internacional c'nlc:amente s6bre
a rmo humana. Consequentemente assim definia o Direito natural
(dus naturnlb):
cDletatum rectae ratlonls Indlcans adui alleul, ex elus convc-
nlentlil aut' dlsconvenlenUa cum Ipsa natura ratlonall ac _odall, inesse
monlem turpltudinem aut necessltatem mor_lem. - Ditado da reta
razio que. tendo "'naUsado a harmonia ou a deaarmonla de determi-
nado ato com a natureza racional e social do homem, julga ser tal
ato ou moralmente torpe ou mor-almente necessArlo (oportuno) .
<De lure beJII ac pacls 1625 1 . I c. 1 t 10,1).
O Ulrelto natural ~ Imutivel, acrescenta Gr6c:1o, porque nm\
mesmo Deus poderia f.'ter Que co que é por 51 mesmo mau. deixe
de ser mAU (quod Intrlnseca ratlone malum est, malum non _lU:.,
lbel. I 10,5. Poatos btn prlnctplos, o jurIsta dêles derivava a Invlola-
bUldnde dos tratad(),J e pact03 (ccum lurls naturae sU stere pactls ••
ob. clt. proleg. t 15), assim como a plena validade do direito positivo
(clurn dvlllu) e a lc,ltlmldade dos governos existentes (como se
htes fOssem resultantes de um pacto ou consentimento IniciaI dos
homens entre sn.
Gr6clo encontrou numerosos dlsclpulos por todo o decorrer dos
séc. XVD / XV!U, O seu sistema, porém, pelo fato mesmo de abstrair
de Deus, 10m ando como 1undamento ôltlmo de todo o Direito a
naturna humana. esta\'a fadado a dLssoh'er-se; nlo levando em conta
a noção blslca de Deus, os homens nem sequer salvariam a de
Direito natu",l, direito sólido e construtl\'O da sociedade,

Com efeito (e aqui COITICÇa a segunda etapa da evolução


dissolutÓlia) os juristas dos sec. XVIn foram propondo como
I

ditames da naturez4 humana as aspirações pessoais e arbitrA-


rias que cada quaJ nutria, por vêzes inspirado em clrcunstAnclas
polltlcas contingentes: o Indivldualtsmo e o subjetivismo foram
campeando nas .escolas de Direito; em conseqüência, houve
quem afirmasse que a própria vida dos homens em sociedade
é decorrente de um contrato realizado entre indivíduos cuja
existência natural e primitiva nada tinha de social.
lIaja vlsla. ent~ outros, o ensinamento de Th.. Hobbes (f 1679),
segundo o qual chomo ad soclelatem non natura, sed disciplina aptus

- 446-
EXISTE UM DIREITO NATIIRAL?
lactus est (o homl!:m 101 adaptado t. vida lI!:m socledadl!:, nlo por sua
natureza, mas por um artUlclo de dlselpllna):.; o estado natural dos
homl!:n& seda o de- g\t1l!:fTa de todos contra todos, possuindo cada um
por .sua natureza mesma o direito a tudo, clus in omnla:.; o mêdo
reciproco, ou seja, a n!CeMldacle de paz teria dado OJ'lgem ao Estado
mediante um contrato pelo qual os indlvlduos, renunelando Inteira-
mente ao seu prImitivo cllrl!:lto natu",!, IIII!: submetem a um poder
absoluto CcL The Clve 1642; Lll!:vlathan 1651).

Na terceira etapa da dissolução, verIficou-se uma reação


contra o subjetivismo e o individualismo, reação, porém, pre-
câria. Sim; o chamado cposltivJsmo jurId1co. no séc. XIX
aflnnou só reconhecer como fonte de Direito 8. vontade todo-
-poderosa do Estado - doutrina esta que se exprlm1a em breves
sentencas: cO que o chefe ordena, é sempre justo:. ou .:0 que
nio é regrado (pela lei). náo pode estar em ordem •. Mesmo
nos casos em que a apUcatão da lei positiva acarreta f1avante
injustiça, o positivista nio reconhece lei superior para resolver
a situacão.
o poslUvlsmo jurldlc:o é, dI!: certo modo, conseqUênela das Idéias
qUI!: Lutil!:ro aprel[Oou· ao mundo no Inlclo da era moduna. Com
I!:felto, entlnando qUI!: a natu~u humana foi totalmente corrompida
pejo pecado do. prlmeltcs pais e que o homem estioescravizado sob
a concupiscência, possuindo um CSl!:rvo arbltrlo», e nAo um livre
arbltrlo. o Reformador atemlo só podia lançar o discr~lto s6bf"@ a
natureza humana e ecnecrrer paTa C8nCll!:lar a noçlo de um Direito
ou de uma ordem reta das coisas derivada das asplraçOes mesmas
da natureza: t6da lei civil dll!:Vcrla Sl!:r, conaeqDentemente, lei po.slUva,
dependC!nte da vontade do IC!glslador humano.

o têrmo mal! lógico do processo de dissolução do Direito


e da Moral foi finalmente atingido no existencialismo contem-
porâneo. Jean-Paul Sartre, no seu livrinho .:L'existencialisme
estoU un humanisme?, denuncia, com razão, a posição absurda
de todos os pensadores anteriores que, rejeitando a idéia de
Deus, quiseram não obstante guardar as nonnas da ética e do
Direito. Na verdade, diz Sartrc, tal pretensão é contraditória:
ou a sociedade reconhece IIS normAS do Direito com seu funda-
mento autêntico, que é Deus, ou simplesmente deve rejeitar
qualquer veleidade de moralidade e juridismo, pois tal veiei-
dade seria de todo inconsistente:
cO exlstcnclallsmc O~SI!: fcrtemente a C"ertc tipo de moral
)elga Que pretll!:tldl!: suprimir Deus com o mlnlmc de Inconvenientes
poaslveL Quando por volta de l8!IJ atauns professOres franceses
tentaram constituir u'a moral leiga, arrumentaram mal! ou menos
do Sll!:gulnte modo: 'Deus ~ uma hipótese InClUI e' penosa ; auprlmlmo-la.
Contudo, para que haja u'a moral, uma sociedade. um mundo poD.
elado, é n~rlo sejam certos valores Ill!:Vados a s~r lo e consldC!rados
di!: antl!:mlo como I!:xl.stll!:'ntes; é néC'esa6rlo haja de antemao obrlgaç1o

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cPERGUNTE E JtESPONDEREM~ :m/1960, quo 1
de ser honnto, de nlo mentir, de llAo espancar a espOsa, de aerar
prole, etc., ete. •.. Vamos, por conaeculnte. realizar um trabalhlnho
que permita mostrar que tais valores exlstem, apesar de tudo lnscrltOs
num céu Intellgtvel, embora Deus nAo exista. Com outras palavras: ...
nada sul a1tft'ado, se (declararmos que) Deus nlo exlatei detrontaJ'..
-n~m08 com as mesmas nOMnas de honestidade, proiftllO, huma-
nismo, e teremos feito de Deus uma hipótese ultrapassada, a qual
morrer' tranqQUamente e por si mellma'.
Ora o existencialismo, ao contràrlo, Julaa ser muito Incômodo
qUe Deus nAo exista, pois com Deus desaparece tOda posslbUldade
de encontrar valores num ~u Intellg1vel; nao pode mais haver bem
algum de antemllo, ji que nllo hi consciência Infinita e perleUa para
o conceber; em parte alguma esti escrito que o bem existe, que é
preciso ser honesto, que é preciso nlo mentir, pois precisamente
fkamol num plano em que .só hA homens. Dostolevsky escreveu:
'Se Dfus n10 existisse, tudo seria permitido'. Ta.l f: o ponto de partida
do exiltenclalll moit tL'exlstenclallsme est-Il un humanilme'! 1946,
34-36).
Sem Deus, nAo hi lei, assegura Sartre com razlo, poh~ lei baseada
ílnlcamente na vontade ou no 000, senso de um homem carece de Utulo
aut~ntlco para se Impor a outro homem.

o chamado cpositivlsmo jurldico» veio a lavrar destarte


~ a ultima palavra da
a destruição do próprio DIreito . .. Tal
história.
O esbõço histórico acima já nos habilita a considerar com
mais clareza.
s. Os fundameoto. d. Dinito natwaI
1. O homem é, por sua natureza mesma, destinado a
viver em sociedade; não há quem não se veja Impelido a procurar
seus semelhantes a fim de travar com êles uma comunhão
estável de vida. E isto, por dois motivos principais:
a) a natureza humana, como ela se encontra em cada individuo,
é Incapaz de bastar a sI me.ma ou de aUnglr o têrmo das suas
asplrac4es Inatas. Com outras palavras : nenhum homem ue realiza.
a sós: pl'1!Claa, para tanto, do auxlllo de outros:
b) existe em cada Indlvkluo uma tendência afetiva q\IC o move
a associar-se ao próximo.
A romunhlo de vida assim . uscilada efetua-se em âmbitos JlI'8da-
tivamenle mais amplos. Isto é, na lamUla, na tribo. na naçAo e na
socledade Internacional. :esses tipos de eomunhAo de vida Slo naturais
ou espontlneos ao homem.
Ora c ubi societas, ibi ius», rC'Ul o adágio; onde há sociedade,
ai hA. Direito, Isto ~, sistema Que oriente as reJaCOes dos homens
entre si, coordenando as tendências de todos para a oonsecuCão
do bem comum. t.sse sistema nAo pode deixar de ter seus dita-
mes naturais espontâneos, pois as tendências fundamentais são
8S mesmas em · todos Os homens. Em outros ~nnos: assim
-448 -
EXISTE UM DIRErI'O NATURAL t

como todo ser traz. gravadas no intimo de sua natureza, as


Im que regem o desenvolvimento de suas atividades, assim
também o homem traz a sua lei natural, que tende a levá-lo
à obtençAo do seu último Fim. Dal dizer-se que existe um
Direito natural.
2. O Direito natural, em última anãlise, nAo é senão
uma part1clpação da Lei eteraa. ou do conjunto de normas que
a sabedoria do Criador concebeu a fim de encaminhar cada
criatura para o seu Têrmo devido. Allâs, é essa )ndole de
cpartic1pação da lei etema. que comunica ao Direito natural um
valor de cabsoluto. ou de cconstante. independente da vontade
volúvel dos legisladores humanos.
Quanto As 1e1l posltlva.s humanu, elas nlo são de toda
autOnomas: sua funçlo é a de expUcltar e apHear a casos
concretos os prIncipios &erais contidos na lei natural e na lei
eterna. Tal afirmação é ilustrada e comprovada não sômente
pelos testemun~ da história referidos no § 1 dêste artigo.
mas também pelas seguintes observaCôes:
1) a expressA0 clel ln/usta:t, não raramente, na Ungua,em
cotidiana, apll!!ada u lels pcs Uvas bumanas. algnUl!!a bem Q.ue estas
nlo constituem a fonte do Direito O\l da justlçaj a lei Injusta ~
preclsamcnte aquela que nlia leva na devida conta certas asplratOes
ou exlj:ttlndas dos Indlvlduos. asplracôes ou extg~nclas que se fazem
ouvir antes do legislador e que êste deveria ser o prlmelro a auscultar.
As leI» posltlVi\t hllmanaa !!ompete em primeira linha o papel de
traduzir com fkleUdade hses lmpcratlvos ditados pela estrutura
natunl de cada ser.
Uma comparacl o, por multo aroueira que seja, poderia ainda
elucidar o pen.. mento: tOda cadeira, por exemplo, tem sua estrutura
própria, que exprime o objetivo e as nonn" de uso da cadeira; ela
foI. .sIm, fabricada pan aervlr de -...ento. A rigor, a cadeira pode
UI' utilizada em vista de outro fim; digamos: ... para espancar o
próximo. Conludo quem assim utiliza a cadeira, comete um ato de
retorslo dos valores, contra o qual protestam as Ida da arte ou o
pensamento do artlftce &:OncreUzado no artefato.
Ora o mesmo se dA no setor da natul'Ha humana: nilo , lIelto
ao homem faur uso arbltrArlo de suas funt6es naturais (pslqulcu
e flsicas) , pois estas s!lo regidas por finalidades que nelas foram
profundamente gravadas pelo pr1mell'o Artista ou pelo Criador e que
a vontade humana deve observar respeitosamente para nlo cometer
ato hediondo. Assim o objetivo prlrnArlo da função .sexual é a procrla-
cio e educaçlo da prolej em vista disto. a natureza exige unilo
estivel e IndlasolQvel de um vario com u'a mulher, e exclui o
antlconcc[lclonlllmo arundal. A propriedade particull1r, por lua vez,
é exlglln!!1a do desenvolvimento da natW't!'Z8 humanl1 em C!8da Indi-
viduo, etc.
2) A fim de salvaeuardar a JusUça ou os direitos das part~
Intereuadas. , n~rio fazer exceç6es .. leia positivas. Isto de
novo demonstra que o conceito de Justiça au ~ Direito li inais
amplo do que o de lei po.hlva ; 'mesmo anterior à .noçAo de lei positiva,

-449 -
cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 35/1960, QU. 1

Destarte aparece vão o sistema do positivismo jur:cIlco,


segundo o qual tOda lei e todo direito seriam exclusivamente
dependentes da vontade do legislador. Na verdade - seja
permitido repeti~lo - a "ste toca apenas a função de intérprete
da lei eterna d~ Deus manif:::stada através da natureza humana.
ou através da lei natural. O homem é criatura, e nAo Criador ...
até mesmo no plano juridlco!
3 . Uma observação ainda se impõe: embora se afirme
a igualdade de aspira\ÕeS inatas em todos os homens, faz·se
mister reconhecer que não poucas populações viveram, e vivem
ainda hoje, em contradição ora mais, ora menos flagrante com
tais aspirações, principalmente no que diz n!speito liO matrj~
mónio (prática da poligamia, do divórcio, do abOrto ... ); a
consciência dêsses povos parece, em grau variável, embotada,
de modo que certas ações cOntrárias à natureza slio por êles
toleradas em tênnos oficiais e' públicos. Que dizer dêsse fato
à luz dos principias que acabam de ser expostos?
O proceder de tais povos está longe de significar que não
há Direito natural ; quer dizer apenas que ao homem, colocado
diante de um preceito, fica sempre a liberdade de o seguir
ou não, a ponto mesmo de poder sufocar, parcial ou totalmente,
os ditames da lei natural. O Autor da natureza. que é também
o Autor do Direito natural, tendo dotado de liberdade o homem,
jamais a retira ; antes, suporta a derrogação das leis da. natu-
reza, a fim de que o homem, destinado a ser livre. não se veja
rebaixado à categoria de autómato. Contudo, mesmo que as
leis positivas de determinado povo contrariem às leis naturais
(o que se dá quando, por exemplo, permitem o divórcio, o
abôrto, etc.), a natureza nâo debca de fazer ouvir a sua voz
de protesto, acarretando na sociedade múltiplos desajustes, tais
como os que acometem os homens de nossos dias.
Em conclusão, apru T~glstrar aqui a proclamaç.ll.o dos cOlrelto.
do hom~» ~l~tuada aos 10 de demmbro de 1948 pela O. N . U. em
nome do gên~ro humano, proclamaçllo que vem a ser em nossos dias
uma afirmação pübllcn do Direito natural (embora alguns dos !a utores
d~sse documento tenham Intencionado fundar um Direito novo em vez
de reforçar o Direito natural jA existente).
À Igreja. por lua vez. sempre ~aberA a mlulo dlt afirmar o
Direito natural. pois a ordem sobrenatural . up6e a harmonia natunl,
tornando a E.p6sa de Cristo Interessada por tudo aquilo Que i!
humano; perante peu. , a Iltfcja vem a .cr responsAvel pela conser~
vacio dos valores da pl'Óprla natureou. humana. Era esta concepçAo
que Jacques Marltaln exprimia ao Papa. Pio XII, quando aos 10 ' de
maio de 1945 se apresentava a S. Santidade como novo embaixador
da França junto ao Vaticano i dizia, cem nome almultlneamente do.
católicos e dos nlo-cat6I1col .... Que, se aquêle. veneram em S. San-
Udade ... o VII'rlo do V~rbo Encarnado e o Cabeça vlaivel da Santa
!areja. OI outroa (nio-cat6I1cosl se voltam r~pelt05llm~nt~ para o

-450 -
A ASSUNÇAO DE MARIA AOS ctrus

Papa como sendo o Defensor do Direito natural, da dlp!dade .amana,


da Justtc. e da eu14ade do rtnero humano . .. , valores que mais do
que nunca. nKeSSltam. . . da autoridade moral e dos ensinamentos
universais da voz conaagrada 1 Vndade Divina.. (do cOocumentation
Cathollque. 10/VUI945. col. 427).
Mais precisamente 510 localizadas a lgumas cle",enninaçees do DI.ntI-
to natur-al em !asclculos anteriores de cP. R.. i assim o que se refe~ a
amor e amor livre. em cP. R.:t 13/ 1959, quo I;
divOrcio. em 7/ 1957, quo 4. 5 e 6:
abOrto, em 6/1957, quo 9: 8/1957, quo 12; 25/ 1960, quo 4;
propriedade partlcula-r. em 23/1959, quo 5:
arte e moral, em 1/ 1958. quo 11; 25/ 1960, quo Si
moral leiga. em 5/ 1958. quo 8: 7/ 1958. quo 5 .

11. DOGMATICA
EVANGtt:LlCO (São Paulo) :

2) «Quais os fundamentos do do~a da Assunção corpo-


ral de Alaria aos céu"!'»
o dogma da Assunção professa que Maria Ssma. se acha
atualmente em corpo e alma na glória do céu, à diferença dos
demais justos, cujo corpo ainda aguarda a glorificação no dia
do juizo final. Definindo esta proposl-;ão a I " de novembro de
1950, o Sto. Padre Pio xn não se Quis pronunciar sóbre uma
questão conexa, a saber: terá a Vif'iem Ssma. passado pela
morte c a ressurreicão antes de entrar na bem-aventurança
celeste? Ou haveri sido elevada diretamente da vida mortal
para o triunfo eterno? Dado o silêncio intencional do magis·
tério da Igreja sObre o assunto, fica ao arbitrlo de cada fiel
optar pela afirmativa ou pela negativA no tocante á mort~ e
à ressurreição de Maria.
Os documentos mais antigos professam a mort~ e a ressurrelçto
da Santa Mie de DeUs. A Virgem Sanllsslma não terA $ldo Isenta
da sorte que o seu próprio Filho quis provar pregado l Cruz; apenas
nAo haver! sido sujeita l eorrupeão da carne no !'Iepulcro. Assim pensa.
nlnda hoje a mnlorln dos teólogos. -- Contudo C{!rlo número dl!stes,
principalmente em ~poca recente, jlJl~a que a Virgem Ssma. foi
dispensada mesmo do tributo à morte, de tal modo era ela Imaculada
ou alheia ao pecado e U SUL! conseqUfnclas (conscqUêndas das quais
a morte filIe ... ê uma das primeiras) .
A sentença que atribui a morte a Maria parece mAis tlel tanto
1 tradltAo como a certos prlnciplos teológicos (se Cristo quis morre-r.
dando 1 morte um sentido redentor, ê bem compreenslvel que Maria.
Intimamente associada l obra de Cristo, tenha também ela morrido) .

Antes de analisannos os fundamentos da crença na Assun-


ção de Maria, serA oportuno propor uma observação rererente
ls fontes da fé cristA .
- 451-
cPERGUNTE E RESPONDEREMOS .. 35/1960, 9u, 2

1. Revelação e Tradfoio

1. O catóJico tem consciência de que a Revelação se fêz


primàriamente de viva voz, pela pregação de Cristo; só por
motivos esporádicos (necessidades Imediatas de comunidades
de cristãos do séc, 1), alguns aspectos das verdades da fé (oram
consignados em cartas e opúsculos, cuja coleção se chama co
Novo Testamento •. Resta. portanto, fora déstes escritos. ou
seja, na Tradição oral, um cabedal de proposições autêntica-
mente reveladas. as Quais constituem objeto de fé católica.
CI. , P.R.> 7/ 1958, quo 2.
O critério para se avaliar a genuinidade de uma tradição é
a sua antigUidade, ou melhor, A. orieem da mesma nos tempos
dos Apóstolos; conseqUentemente, as afirmações de doutrina
e de moral transmitidas (de maneira expUclta ou simplesmente
Impliclta) pelas gerações cristãs desde o séc. I e hoje em dIa
oficialmente reconhecidas pelo magistério da Igreja são tidas
como parte integrante do pabimônlo revelado. Ora justamente
entre essas aflnnações se enumera a da Assunção corporal de
Maria Ssma. aos céus.
Na vcrdadc, u Vlr~ em Mue de Deus ~C! ter terminado os seus
dias na terra depois qu~ Htavam rediGidos os HCTltos do Novo
Testamento, excetuados talvez os de 510 Joio; a quanto parece, todos
os hagiógrafos, a ntlo 5C!r o quarto E\·a n~ellsta. dcixnr3m esta vida
antes de Maria. ~ o que se CO!'>tuma concluir do tato, Gcralmente
admitido pelos estudiosos, de que Silo João só se tr&nSlerlu para a
ÁSia Menor apÓS a Invasl o romana na Palestina (66-70); a sua
estada na Judéia até eS&a época elucldar-se-Ia multo bem se Maria
tivesse permanecido em vida até tal data (ou mais tempo ainda) e
Slo Joio lhe houvHle prestado a a",lstêncla lUla) que Crlsto, ao
morrer, lhe recomendara (cf. Jo 19, 27). Virlos autores anUlos rele-
rem, sim. que a Vlraem Ssma. ficou na terra até avançada Idade,
ao passo que 810 Pedro e 810 Paulo. por exemplo, parecem ter sofrido
o martlrlo no ano de 67, 540 Tiaio o Menor o padeceu em 62 (as datas
da morte dos outros Apóstolos do Incertas; apenas se pode asselrUrar
que São João sobrevlvcu n lodo~. morrendo por volta do ano 100).
O lato de que Maria ainda não deixara êste mundo quando os
haal6aralos redlllram a grande maioria (se nAo a totalidade) do
Novo Testammto, -"fua 'Plenament. o .lIênclo da Escritura a respeito
da AuunçAo eorpora da Virgem, - Ademais sabe-se que nenhum dos
autoru ...grados Intenclonou I!Icrever uma biografia de Maria Santla-
lima: uta é mencionada no Novo Testamento 6nlcamente em vista do
s.nhor Jesus, ou aeJa, prftnchendo certas atrlbulÇ'Oes de Mie do Senhor.

2 . Para corroborar o Que acaba de ser dito sôbre o valor


da Tradição oral, vlo abaixo citados alguns depoimentos Impor-
tantes.
Jã São Paulo, numa passagem do Novo Testamento, exorta:
-452 -
A ASSUNCJ,O DE MARIA AOS CSUS

cPortanto, InnIOl, pennanece1 nnnes e guardai as tradlc6es que


de nós aprendestu, ~ de vlva vos,. -la por Hertlol> (2 Tes 2.15).
Como se vê, o A tolo equipara o ensinamento oral ao escrito
(parece mesmo ante ·10), recomendando fideUdade lntezral a ambos.
Por conSrtgUlnte, a tlm de que algo pertença ao dep6sllo da f~ revelada,
nilo êo necesaArlo haja passado explicitamente para as plllnu da
Blblla Sagrada.

Semelhante afirmação se encontra sob a pena de antip


escrltores cristãos.
Assim ensina São João Crlsóstomo (f 407), ao comentar
o trecho paulino citado atrás:
cPor conseeulnte, f claro que OS Apóstolos nl0 nos enttelanm
tu40 por via 4a Dcrltura, mas muttQ proposlçOes ficaram fora 4eata.
merecendo a.u&lment.e .. bOI8a f4, Por Isto devemos considerar 4Jlna
de tt • traclfolo da IareJa. & tndto&= RIo qu~lru peequlaar ultmoP-
menlel> (In n Thes h. 4 n.2) .
Com a sua tra:se final. o S. Doutor quer dl2.er que o ensInamento
transmitido de viva voz desde OI tempos dos ADÓStolos tem autoridade
por si meJmo. dlspenundo-nos de procurar u[terlor fundamento.

São Basilio (t 379), por sua vez, professa:


cOentro os dogmas conserV/\dos na la reja, rteebemos a lguns por
via de ensinamento escritOj outros foram a nós transmitidos pelo
mlstf.rlo dil lrndle:fio npo.'ittlllca. UM a lUltra.' ~ da mCMna. auto-
ridade para serem por nÓtl venerados:- (De Splr!tu Saneto 27,66).
3. A luz do que tol exposto, verUlca-se que uma cdetlnkllo de
dogma.. Ital como a que Pio XlI Ih em relatAo à Assuntão corporal
de Maria) nAo slenlflca. ccrlaÇ10 de novo dogmal>. NAo se criam
novos doBrou, poli a Revelaçlo se encerrou com a morte do 'CIltlmo
dos Apóstolos (Slo Joio, no anil 100 aprrudmadamente). Uma. deflnl·
çil;o dogmAtlca vem a ser apenas a afInnaçAo solene e extraordlnirla
de al~ma prllposle:Ao ji contida no depósito da fé e expllcUa ou
tmpllcltamente proCeuada por tMa a Cristandade. O motivo pelo
qual o magistério da lereja, de quando em quando (sem plano precon-
~bklo ), proeede a uma deflnlçAa soleltC, êo geralmente o surto de
~rro ou controvlrsla em t6mo de tal ou tal ponto dogmAtlco, A flm
de remover mais eficazmente o perfeo de deturpaçlo da fé, a Santa
Igreja alinna entllio de maneira extraordlniria, pela voz de seu
cabeça vislvel ou ti<: um conclllo ecumênico, a sentença da verdade i
tal intervenção, porém, constitui sempre regime de exceçAo.
Isto se deu tamblm no caso 4a definiçlo da AssUnçtO corporal
de Maria: Ji era objeto da fê comum dos crlstAosj em 1950, porém,
foi solenemente deflnida, a fim ele lembrar ao mundo o desUno trana.
~ndente e o valor rellllloso do corpo humano numa época em que
bte Iil vilipendiado pela Imoralidade dos costumes e pelas terrlvels
armaa de ~erra modernas. Cf. cP. aI> 23/ 1959. quo 4.
Em concluslo, verUlea-te que a. definlçAo proferida por Pio XII
em 1950 nlo foi algo de decisivo na hlst6r1a do dogma da Assunçl.o,
pois hte J6 era comum~nte pro!euadG pelo povo de Deus. E, para
que f6ue leeltlmamente professadll. vê--se que não é n~sArlo haja
sldCl explicitamente cans1lnado na Sagrada Escritura, mas basta que-
seja tradIClo de orleem apost6l1ca.

-453 -
..PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 35/1960, quo 2

Jt; na base dêstes prinetpios que se coloca e resolve a


questão dos fundamentos revelados do dogma da exalta:;lo de
Maria aos céus. Qualquer outra postcão do problema é falsa,
pois nAo leva em conta os trâmites pelos quais Deus houve
por bem revelar·se aos homens (fê·lo essencialmente por via
oral; acidentai e parcialmente, por via escrita) .
Sendo assim, indagaremos abaixo em que sentido se pode
falar da origem apostólica da ·tradição referente à Assunção
de Maria. A seguir. procuraremos averiguar o que a S. Escri-
tura afinna em consonância com tal tradlcão.

2. A Tradição dos eseritores cristãos

1. Não se pode apontar uma série de textos assunclo-


nistas que retroceda de época em época até a era apost6Uca;
os quatro primeiros séculos pouca coisa oferecem que mere"a
oonsJderação neste particular. Sendo assim, de tal periodo
destacaremos apenas o seguinte testemunho de S. EpifAnIa
(t403), bispo de Clpro:

relato da morte de Maria, nem a resposta .!I


..Sondem (os leltoresl as Escrituras. Nelas nlo encontrarlo o
questOes 'se ela morreu
ou não mon-eu', 'se ela foi sepultada ou nlo' . . . A Escritura guardou
a mpelto do f im de Maria um sll~nclo completo por causa da macnl-
tude do prodl';o, a fim de nllio provocar exeessiva IUrprêsa no
Hplrlto dos homens. QUllnto a mim. n[io ouso falar dfsse prodlglo;
guardo-o em minha mente, e calo-me ... NAo digo que Maria tenha
pennanecido Imortal, mas também tllo allrmo haja morrido ...
Se a Virgem S,mB. morreu e 101 sepultada. seu desenlace foi
glorioso ; a morte a encontrou pura, e flua coroa foi a da virgindade.
Se lhe tiraram violentamente a vide.. confonne o que cSIA escrito:
'E uma espada trasplssará a tua alma', ela refulge entre Oli mArUres.
e seu corpo multo santo é proclamado bem-aventurado; por ela. com
efeito. a luz se levantou !lÕbre o mundo. Também pode '"r ela perma-
neddo em vida, pois a DeU!l nada é Imposslvel . . . Na verdade. ninguém
sabe qual :roi o fim da vida terrestre da Vlrgem~ (Haer. 78. 11. 241.
~te texto n30 deixa de ser slgnlllcatlvo: atesta como entre o.
cristAos do séc. IV tres opiniões eram professadas com referência ao
Clm de Maria: a Virgem Slma. ou teria morrldo de morte natural ou
haverIa .Ido martirizada ou teria .Ido preservada da morte. O próprio
s. EpifAnlo nlo ou!lava afirmar que .. Mie de Deus houvesse mOlTldo,
multo menos .. . Que houvesse Mnhecldo a corrupção do sepulcro.
t l te santo blapo, que conhecia bem a PlIleatlna e a Cidade Santa,
do conRflUira colhar noticia certa atlbre a morte e o luaar de sepul-
tamento da Virgem Slma. (foi abmente por volta de SM Que .H
começou a apontar o ctOmulo de Maria. em Jerusal~m). cPode-se
dl%er que S. EpUlnlo concebeu o problema da Assunçlo. Se nD.o
o T'Ho(veu, deixou ao menos entnwer poIllvels aoluç6es... Ê por
Isto que .eu testemunho se reveste de Importlncla capital tanto para
o historiador como para o teólogo:t (M. Jua:ie, La Mort et I'ÃJlsompUon
de la Sa1nh~ Vlerle. Vâtkano 1944, SOa).

-454 -
_ _ _ _-'A'--"A"'SS=U=N~O DE MARIA AOS ct:us
2 . Em 431 na cldade de Jtfeso (ÁSia Menor) realIzou-se
o 3' concillo ecumênico, o qual, para incutir que em Cristo só
havia uma Pessoa (8 Pessoa Divina), declarou ser Maria Ssma.
a Theot6ko. OU a Mãe de Deus (ulteriores esclarecimentos
s6bre êste assunto se encontram em cP. R. ~ 6/ 1957, quo 3).
O concllio de ~eso suscltou considerável incremento da
teologia mariana e do culto à Santa Mãe de Deus. De então
por diante, no Oriente e no Ocidente foram-se ~u1tipUcando
os testemunhos tanto de escritores cristãos como da Liturgia
a respeito da exaltação de Maria aos céus; esta, sem grande
demora, velo a ser comumente professada pela Cristandade.
3 . Note-se agora um rato importante: os bispos e fiéis,
ao afirmarem após o concilio de !!:feso o dogma da Assunção,
procuravam justificá-lo, ou seja, baseá·lo sObre certos prlncl·
piOS docmAticos. Ora quem analisa êsses principies, verifica
Que já eram reconhecidos pela Igreja antiga, de tal modo que
a proposição da Assunção se apresenta qual mera explicitação
de um depóslto doutrinário sempre possuido pelos cristãos: a
profissio de fé na Assunção não vem a ser mais do que uma
das facêtas do desenvolvimento de um embrião ou daquele
grão de mostarda com o qual Cristo compara o S. Evangelho
Cct. Mt 13, 31s) . Em outros têrmos, diremos: afirmando outras
proposições de fé, os cristios dos primeiros séculos já afirmavam
implicitemente a exaltacão corporal de Maria Ssrna. aos céus.
E quais serIam laH principio. bAslcos para a teologia da
Assunçao1
Podem·H- redudr aOI trls seguintes :
ai o prlnclplo da reata""'Clo. Maria e Eva H- contrapCem na
hist6ria &agrada: aquela restaura o que esta perdeu. Ora Eva, pelo
pecado, acarretou a morte para o g!nero humano; Marta, por con...
gulnte, de\le ter obtido (pru- dom de Cristo, sem dCtvlda) a vlt6rJa
sõbre a morte.. .. sObre a morte que se caractertz.a por reduz.lr o
corpo • poeira (cf. cen 3,191 ;
b l o prlnel,pio da }\Iaternldade Divina. Maria e Jesus, na qual!·
dade de Mie e Filho, constltuiam uma 56 carne. Nlo convinha,
portanto, que a carne de Maria soCrease a dlssoluçAo no selo da
terra da· qual tilra Isenta a carne de Cristo. - Além disto, a comunhio
cn~ Marta e Jesus era tio Intima que convinha concedesse CrIsto
à l ua Mile Sama. fi. RedençAo consumada antes de a dar ls demala
crlaturtU. Ora D Redcn(lroo consumada Implica a rcstau.ração do próprio
corpo humano;
c) o prlnefplo da vlrrlndade mUacroaa. A virglndade, conforme
os antigos, significa vitória sObre a corrupçAo da carne. vltórJa que
no .eu erau perfeito exclui a pr6prla deterJoraclo do corpo no .sepuJero.
Os três prlnclplos acima já era m formalmente enunciados pelos
escrltol'e$ e te610gos dos quatro primeiros séculos: assim, no séc. lI"

- 455-
.PERGUNTE E RESPONDER.EMOs~ 35/1960. qu. 2

por S. Juatlno <t 165, aproximadamente) e S. Ireneu Ct 202, aproxJma-


damente); no séc. IlI. por Tertuliano (1' depois de 220) Orlgenes
Ct 253/ 4), S. Grcl6rlo Taumaturgo (t 270. aproXtmadam~nte): nos
sêc. IV e V, por S. AmbrósJo (f 397>, S. EpUlnlo (1403), S. Jer6nlmo
(t 420), S. Agostinho (t 430).
& Ia 6b$ervaçio - rcpltamo-lo _ permite coneluir que () dogma
da Assun~lo, em seus lundamentos, sempre pertenceu ao depósito da
Revelação.

4. Aconteceu que em meados do séc. xvm os fiéis


começaram a pedir à Santa Sé a definlcão solene desta verdade
de fé. O primeiro a fazé.lo foi o Pe. Shl:Wlllln (t 1769), servita.
As petições se foram tornando cada vez mais numerosas e
significativas, até que Pio XII, atendendo aos desejos de 113
Cardeais, 2523 Patriarcas, Arcebispos e Bispos, 82.000 sacer-
dotes e religiosos e de mais de oito milhões de fiéis, resolveu,
a 1· de malo de 1946, escrever a todos os bispos uma carta
circular em que lhes pedia. o parecer sõbre a «definib1Udade~
(possibilldade teológica de se definir) da Assunção de Maria.
Flnalmente diante dos votos favoráveis da hierarquia e dos
fiéis, após minuciosos estudos de história do dogma empreen-
didos por teólogos do mundo inteIro, e principalmente após
haver invocado a. assistência do Espirito Santo, Pio xn houve
por bem declarar solenemente que pertence ao depósito da fé
cristã o fato de que a Virgem Ssma., «ao terminar o curriculo
desta vida, foI em corpo e alma elevada à glória celeste ~.
1:, em última análise, a voz do magistério (ordlnãrio e
extraordlnârio) da Igreja que funda a certeza do dogma da
Assunção ou que garante a autenticidade da tradição oral
referente a êste assunto. O Espírito Santo é a alma do Corpo
Mlstico de Cristo ou da Santa Igreja; não terá penniUdo que
esta se haja unAnimemente enganado durante quinze séculos,
professando a exaJtação rmal de Maria, nem terá deixado que,
confinnando ti o vetusto testemunho do povo cristão. o Sto.
Padre o Papa Pio xn hajn ensinado e impOsto à fé da Cristan-
dade uma proposição errônea. Cristo não teria enviado o Ec;-
pirita Santo sObre 0$ Apóstolos nem lhes teria prometido a
sua própria assistência até o fim dos séculos (cf. Mt 28. 20),
se MO tOsse justamente a fim de que a hierarquia da Igreja
soubesse devidamente discernir verdade e irro nas afirmacões
sucessivas do povo cristão através da. história.
!t, portanto, a voz oficial da Igreja, depositãria do ensi-
namento oral de Cristo e dos Apóstolos, que no caso da Assun-
ção de Maria supre a sobriedade da revelação escrita.
Não obstante, toma·se oportuno averiguar até que ponto
o fato da exaltação corporal da Virgem Ssma. possa estar
insinuado pela Eserltura.
- 456-
A ASSUNÇAO DE MARIA AOS ceus
8. O testemUDho bíblleo
Os textos da BlbIla. Interpretados. llnleamente segundo os crJtérJos
da UngUlatka, nAo au&,erlrlam conclUSlo segura & respeito da exaltaefi,o
de Maria; rulado, porém, pela fé na Revelaçlo total (a. qual ~ expressa
pelo magistério da I~ja), o leitor pode descobrir na Sagrada EscrI-
tura os lermens dHse dogma, ient'lens que fIe de outro modo talvez
nlio percebeue.
Feita esta observaCão, passamos a analisar as quatro paSlaeen5
blbUcas que ma la costumam ser explanadas no tratado da AssunçAo:
Cen 3.15; Lc 1,28j 1 Cor 15,20-23 e A~ 12,1s.
a) Gln S,18 . Disse o Senhor Deus à serpente, após o pecado de
Adão e Eva :
cPonol inimizade entro ti e a mulher, entre a tua dcsccnMncla
e a dela. Esta te 1cirtrâ a cabeça e tu lhe 1erlrãs o calcnnhnu.
No sentido pleno, a desctndênela da mulher aqui menclona.da é o
Redentor, Jesus Cristo, o únleo dentre os filhos da mulher que obteve
perfeita vitória sObre o dem6nlo (em Cristo, alIAs, todo o aénero
humano se achava. recapItulado, coma em um novo Adio) . Por conse-
guinte, a mulher referida em G!n 3 vem a ser. no sentido pleno,
Maria Ssma., a MAe do Redentor (também Maria, na qualidade de
nova Eva. recapitulava em si tllda a humanidade),
Pois bem; o texto promete ao Redentor e 1 .lua Mie Sarna. a
plena vitória a6bre a serpente. lsto é, a6bre o dem6nlo. Ora o triunfo
s6bn: o Mallano compreende, de &COrda com a doutrina d~ 510 Paulo
CRam 4,25; 5,12·21; 6,23; 8.19·23; 1 Cor 15.3 .24$ .54$), a vlt6ria. 56')l'ê
(J pceado e suas conseqCênclas, ~ntre as quais cstA a mort~. Por
conseculnte, se Maria. por aAbio deslgnlo da Provkl~ncla, teve que
passar pela morte, seu corpo tm permanecido Isento da corrupçto
do sepulcro. pois esta nunca é honrosa e fecunda (ao passo que a
morte 6 por vb.es honrosa e fecundai. O corpo vlrc:lnal de Maria.
do qual o Redentor tomou ca.rne e sangue, nBo haveri\ sido pr/!sa dos
vermes da terrA como se 1011e cearne de peeado:t CRom 8.31. Donde
se segue que, se Maria morreu, deve ter ressuseltado após breve
Intervalo, e B lua l'HSu~lçlo ter! sido lôglcamente coroada peja.
exaltar,:aiO, em alma e corpo. aos céus. - t: êste o texto blbll,-'O mal.
Importante para o dogma da Aasunçlo,
b) Lc 1,28: .Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo, bendita
és entre as mu lheres~, diz o anjo a Maria no momento da Anunclaç!lio.
Maria ~ dita pelo emiali\rl0 celeste ccheia de graça:t, como se
~te titulo 16m o !i('lI prt)prlo nome. A grata, por consE-gulnte, encheu·.
~ limitA(nO ; o que. entre outras coisas, quer dizer: ." encheu..
desde o primeiro Instante da sua existência, fazendo-B Imune de
qualquer pecado €!o. por conseeulnte, Imune do domlnlo da morte, J'
que a morte domina os homens em conseqüência do pecado, Destarte
a Virgem ImaculÃda deve ter sido Igualmente a Virgem vitoriosa
lI6bre a morte no tlm do seu currlculo terrestre.
c) 1 Cor J5,21-!S: cEls que Cristo ressuscitou dentre os mortos ,
prlmlcJas dos que mOl"l"eram. Com efeito, por um homem velo a
morte, e é por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como
em Adão todos morrem, assim ta m~m em Cristo todos nvlvedo,
mas cada um em sua ordem : Cristo como prlmlcluj depois os que
f~rem de Cristo, por ocasLAo de !lua vlnda:t.
No t~xto acima, S:io Pnulo, ~orrendo a uma Imalem afl'lcola,
distingue duas ~alegorlas de justos que ressuscltom : as pnmlcl..

- 457-
_ _.,-,P:ERGU~~ ~_RESPONDEREMOS .. 35/ 1960. qu o 3

I Cristo. jA ressuscltadoJ e o .restante da m~ (os cristios. qUIe


ressurgirão no 11m dM tempos) , -- Cristo eonstltul as cprimlclu.
porq~, conforme 510 Paulo, f principio da vida nova (em opo.slçAo
a Adão, que tol principio de morte): o.ra alao de aniJoilo se pode
dizer de Marla, pois a V1rlilcm Sema. (por graça de Cristo) se
'tarnou, do seu modo. prlndplo de vida (em oposi~o a Eva, a qual
foi principio de morte para todo o sênero huma no) . P."r conseguinte,
;\ semelhança de Cristo. tambem M<lria. deve ter ressuscitado ou
vencido plrnRTnC'nlr 1\ mortr a nh~, do.'!: dt'mi'lls juslo~.
di Ape 1!,lfI;: 'lGrande sinal apal'@'CC!'u no céu : u'. mulher reves-
tida do sol, tendo a lua de-balxo dos pés, e na ca~a uma coroa de
doze estréiAS. Estava gn\vlda. c gritavlI de dores, SfmUndo as an,usUaa .
de dar" tUb o
Essa mulher dA .. luz um Filho que, conforme o v. 5. ~ o Messias .
I pois 810 João lhe aplica os dizer(".s do salmo 2. messlAnlC('lI. Tal
figura Cemlnlna, por conse5:'u1nte, hâ de ser Maria, a qunl ê Mie
do Cristo IIslco e do Cristo MI5t1CO tou dos membros de Cristo reunkios
na Igreja]. Qual MAe do Cristo Clslco. Ela estA no du, fisicamente
em elrpo c a'ma, cemo s u(:::-c o v. 1; qual !',I';:~ do C:l3to MIatlco,
porém, Ela estA mlstleamente sObre a terra, so!rendo a hostilidade
do demOnlo. - Tal Col a Interpretaç10 dada a ble t~to pelo Slo.
Padre P:o x na lua endcllea cAd dlem Illum:.; trata-se de oplnllo
partleular, <tue nlo se apola em exelue mullo rlllda do texto aaK1'ado,
Na verdadn, SAo JoAo, sob a Clgura da mulher de Apc 12, parece
ter em vista a Santa 19-reja, a qual realiza neste mundo uma lunçD.o
materna, funçllo esta que Eva e Maria desempenharam de maneira
tlplea (pode·se por Isto admitir multo bem qun, ao de!erever a
mulher simbólica, a Snnt.'\ Igreja, em Ape 12, o Ap6.stolo se tnnho
Inspirado da penonalldade de Maria S&ma.>,
São ~sles os principais textos blblleo!l que os au tores eostumam
citar ao explanarem" ASlIUnçDoo da Virgem 85ma.. Não hi. duvida, é Q
lu% do eonlunlo da Revela(llo que tals testemunhos manifestam todo
Q seu sl&'1 ficado.

PENNA (Belo Horizonte) :


3) eNio é verdade que o dogma da Assunção de Maria
foi condenado pelo Papa Sio Gelásto no século V!»
A questão acima alude ao falo seguinte: e,x istc um do-
cumento chamado «Decreto Gelasiano:t e atribuido ao Papa
São GelAsio I (492-496) . ~e documento encerra, por assim
dizer, o primeiro catálogo de livros que os cristãos não devem
ler, enunciando, entré outros, um opúsculo intitulado cTransltus
Marlae:t (Transe ou Desenlace de Maria). Ora êste opúsculO
r:ada mais é do que · um relato do maravilhoso desfecho da
vida terrestre de Maria. Tendo sido tal obra condenada, parece
poder-se concluir que o próprio dogma da Assunção foi repu-
diado, e repudiado pela suprema autoridade da Igreja, Dai
a perplexidade que nasce na mente de multas pessoas hoje em
dia, ao considerarem que o Papa Pio xn definiu solenemente
a Assunçi.o da Virgem.
-458 -
CONDENADA A ASSUNCAO PELO PAPA?

A fim de elucidar o problema. consideraremos primeira-


mente a lndole e a autoridade do cDecreto Gelaslano~ ; a seguir,
analisaremos brevemente o seu alenIfleado na história do dogma
da Assunção.

1. Que é o eDeereto Ge1a.siano.!


O «DeC:l'éto Gelasiano~ está longe de ser um documento
(bula, enclcllca, lei ... ) emanado do Papa São GeIAsto. Em
verdade, não possui senão relação remota e obscura com Me
Pontlflce, corno abaixo se verá.
Em tênnas positivos, o «Decreto Gelasiano» apresenta-se
corno um escrito latino composto, confonne alguns manuscritos
antigos, em um sínodo de Roma do ano de 494. Compreende
cinco capitu10s assim discriminados:
o capo 1- trata dos sete dons do Esplrho Santo e dos dlvtrsot
nomes de Cristo;
o capo 2- cont'm o catAlo,o dos livros blbllcos, mencionando (sem
tazer dlterença de autoridade de un.. e outros) 08 chamados «proto-
canOnlcos» e os «deuterocanOnlco.. (Tobias, Judlte, Eclesllstlco,
Sabedoria, Baruque. r e 2- dOI Macabeus);
o cap. 3- versa s6bre a autoridade da Igreja e o primado dn aé
d~ Roma;
o capo 4' con.sldera a autoridade dos concJUO$ e dos Padres da
Igreja;
o capo 5- menciona os livros "apõerltos» que a l i:Teja nAo aeelta,
Inchllndo. como dissemos, o cTransltus Mariae..

Os estudos de paleografla deram a ver que o «Decreto


Gelasiano~ consta de duas partes (o:. 1-3 e cc. 4,5), redigidas
em épocas e circunstâncias dlferentes. A compilação ou o
«Decreto. como tal só aparece citado por escritores cristãos
do século VII em diante, sendo que OS primeiros manuscritos
que apresentam as duas partes reunidas datam apenas do
sec. VIlI.
Os críticos se têm aplicado ao estudo dêsses capitulos,
fornecendo-nos hoje em dia as seguintes conclusões:
1) a primeira parte do «Decreto. (cc. 1-3) parece datar de fins
do ak. IV; POde .se-r tida como obra do conclllo reunido em Roma
no ano de 38:2 sob o Papa SAo DlmllAO:
21 a S8runda parte {cc .. e ~I deV8-2 a. um escritor anOnlmo,
o qual trabalhou por conta pr6prla,. prodvelmente na Gllla Meridional
em tini do sée. V ou Inicias do de. VI (entre 492 e ~231; nutrla
Crande veneracAo para com 510 Jet'6nlmo, em culas obras colheu
numerosat: noticias sObre a anU,a literatura crlst.il.;
3) a ludo das duas parte. numa .6 p~a ou "Decreto» deu-se
no sul da GAlla ou no norte da 11'118. A.leuns manuscritos do «Decreto:.

-459 -
cPERGUNTE E RESPONDEREMOS, 35/1960, quo 3

atribuem a obra, Inteira ou ~m parte, ao Papa sao D1maso (f 3!W.) i


outros a atribUem simplesmente ao Papa Gellslo (donde o nome
cDecreto Gelaslano,o que preYah~ceu) i outros ainda, ao Papa Hormis-
das (514-23) i
4) o cDccreto~ assim oriundo permaneceu desconhecido fol'll. da
sua regllo de origem durante aleum tempo, não gozando de grande
autoridade (ê o que explica que s6 teja cItado do sé<:. VII em diante).
Tal silêncio nllo se entenderia se o documento fôsse realmente obra
de 810 Gelisio ou SIlo DAmasco Papas.
Consideremos agora mais detidamente o que diz respeito à questão
assunclonlsta.

2. O «Decreto Geluinno:o e o dogma da. Assurrção


O capo 5' do documento traz o titulo: «Notitia librorum
apocryphorum qui nullatenus a nobis reclpl debent. - Lista
dos livros apócrifos que de modo nenhum por nós podem ser
reconhecidos».
O título sugere logo a questão:

a) Que é propriamente um ap6erlfo!


«Apócrifo», segundo a etimologia grega, vem a ser o
«oculto» ou «secrcto». Ta l cm. o npclntivo dado na antigUidade
a livros que não se liam em público, nas assembléias de culto
cristãs; poderinm ser lidos pelos fi éis cm p.uticulnr (dadO que
o seu conteúdo doutrinúrlo fóssc concorde com o reta fé) . O
motivo pelo qual não se utilizavam os apócrifOS no culto oficial
da Igreja, era uma suspeita que geralmente sôbre êles palrava:
alguns se aprescntavnm como obras dos Apóstolos (<<Evange·
lho de Pedro», «Atos de Paulo com Tccla ~, «Apocalipse
de Tomé» .. . ), quando na verdade não eram tais; outros, ao
menos pelo seu estilo e vocabulârlo, imitavam fraudulentamente
os genulnos escritos biblicos; tais falsificações se deviam, em
não poucos casos, a herejes, qu~ visavam por essa via dar
autoridade a seus erros doutrinários. Em conseqüência, o têrmo
capócrifo» foI tomando o sentido de «herético ».
Não se poderia, porém, afirmar que todo apócrifo contém
proposições heréticas; muitos são totalmente inofensivos do
ponto de vista dogmático: outros referem episódios reais ocor·
ridos nos tempos de Cristo e dos Apõstolos, episódios transmi-
tidos oralmente de ger,a çio a geração durante algum tempo,
até que foram finalmente consignados na literatura apócrifa.
Em suma, éste gênero de escritos tem o grande valor de nos
dar a conhecer o que pensavam os cristãos dos primeiros
séculos; é a tal titulo que lhes cabe importância notável na
história dos dogmas. Por conseguinte, o leitor, ao se defrontar
- 460-
CONDENADA A ASSUNCAO PE:r..o PAPA?

com algum livro dito «apócrifo:., nio se deixará deter pelas


minúcias muitas vêzes lmaglnáIias que tais escritos apresentam,
mas investigará quais as doutrinas assim veIculadas e procurari
aproveitar o ceme de verdades que possa estar contido nessa
literatura.
~ ~.
Uma vez proposto o conceito de .lIvro apócrifo. , nolemos que o
cDecreto Gtlaslano. no seu cap. 5· enuncia uma lon&a lista de escritos
aulm quall1lcados. lista para a qual devemos agora vnltar a nossa
atenção.

b) A IDclusio do .Transitus :l1ariae1O entre os apócrifos

o
caUlo&:o que nos interessa focalizar, menciona em estra-
nha desordem (sem observar categorias nem de cronologia nem
de gêneros llterâr!os) os escritos seguintes:
o dUnerArlo de Pedro. (ou seja, nove Uvros também dUos cAp6-
crUas elementlnos. ), oa cAtoa de Andrf., os «Atos de Tomb, os
«Atos de Pedro. , os cAtoa de FlI1pe. , o cEvangelho de Matlas•• o
«Evangelho de Barnabé •. o cEvane-elho de Tlago o Menor., o cEvan-
gelho de Pedro., o cEvanielho de Tomé>, os "Evangelhos de Barto-
lomeu., os cEvaneelhos de André., os cEvangelhos fal5lfleaclos por
J.ltclann. , os «Evangelho. fabricado" por H~qlllo. , o ..Livro da In-
iflnda do Salvatlun, o «Uvro do Nascimento do Salvador., o «Pulou,
os escrllos de Uuclo, cdlsclpulo do diabO. , o cFundamento~ e o
..Tesouro. de Mnnlqueu, a cLeptogênese. ou o «Llv.ro das Fllhas
(\(' Artilu:t, um pocm:\ vlr~lIl:mo ro!ercnte 4 Cristo, os .. Atos de Tecla
e Paulo.. , o «Uvro de Nepos. , o cLlvro dos Provél'blOll. atl'lbuklo a
um certo Slxlo. o «ApocaJ.lpse de Paulo., o «Apocalipse de Tomé•.
o .. Apocalipse de Estêvlo•• o cTransltua )lartae-., o livro da ..Penl-
téncla de Adfto., o livro ca6bre o gigante Oglas (d . Dt 3,11, que,
conto""e na herejl'!'l, lutou contn o dc!m6nlo após o dIlÍlvlo., o «Tes-
tamento de J6. , a «Penitência de Orlcenes•• a .. Penltêncta de S. CI-
priano. (mago de Antioquia), a cPenlt6ncla de 3amná e Membra.,
as cSortes dOi Ap6atolos., os «JOiOS dos Apóstoloa., os cClnonea
dos Apóstolos. o «FlsIOtoIO., escrito por hereje.s e atrlbuldo 8 S
Ambr6slo, a ..Hlat6rla da Icreja. de Eusêblo. as obras de Tertuliano,
L'ltlnelo. do .. Africano. , de POAlumlano e de Galo, de Montano, PriS-
dIA c MAxlmlln, de Faus to Maniqueu, de Comodiano, de Clemente
Alexandrino, d~ TiAcll) Cipriano, Amóblo, TIc6nlo, Casslano, VlIorlno
de Petau, Fausto de Rk-z, Frumênclo CAssio, a ..c.uta de Jesus a
Abgar», a ..Carta de Abrar a Jesus_, o «iUartldo dos Santos Clro e
"Qllta., o «1'18rtlr10 de S!.o J0rv.., a cInterdlção de Salomão., «todos
05 amulct<n> nscrltos nno em nome dos anjos, mas em nome dos
demônios •.

Curiosa lista. à qual se devem fazer três observações:


1) Trata-se de um catálogo redigido de memória., con·
forme o autor mesmo confessa, :J:: o que explica a falta de
ordem ou de categorias na apresentação dOs diversos nomes.
Em setor tão sério, como é o da condenação de livros, um

- 461-
cPERGUNTE E RESPONDEREMos. 35/ 1960, gu. 3

escritor de autoridade aliciaI não teria procedido de maneira


tão leviana. A lista, portanto, não constitui um documento
oficial da. Igreja; é, antes, uma compUação de nomes feita a
titulo particular para ajudar a memória, ou seja, para o uso
pessoal do próprio redator e dos seus leitores contemporâneos.
21 A lista nno dl!1xa de aprt'$&ntar auaa InCO(!rênclaa e 1alhas,
que em parte lhe tlrun autoridade ou cr~lto. Assim. o autor. depois
de recomendar a leitura de S. Clpr-Iano, eltado entre os t'acrtto~
ortodOJl;OS, coloca as obras do mesmo entre os apóCrifos; 'depols de
observar que as Atas do martlrlo das Stos. Ciro e Jultta e de S. ~
podem ser lidas, condena.q como apócrl1ui do mesmo modo p
em relação .. cHIst6rla da Il:reja~ de EURblo. Não se saberia dluf
o que o autor entende ao mencionar a dalsl11cl\ção~ e a dabrJc"çillo~
dos Evangelho..s por Luciano e Heslqulo... Al~m disto, observa·se
que o catAlogo condena as obras de Postumlano e Galo, quando êstes
dois nomes (ao menos, a quanto se sabe at~ hoje) nAo .representam
senlo dois per.sonaaen. de um dlêloiO de Sulplcto Severo .. .
3) O cTransitus Mariae~ figura na lista dos livros conde-
nados ... Isto se deve certamente ao estilo fantaslsta dêste
escrIto. Sim; ai se lê que no fim da vida de Maria OS Apóstolos,
todos (segundo algumas versões) ou em parte (segundo outras),
foram milagrosamente transportados para junto da Virgem
Santisslma; entAo um mensageiro celeste anunciou a Maria a
sua morte 1m1nente; ao ouvi-lo, a Virgem manifestou seu receIo;
quando os Apóstolos sepultavam a Ssma. Mãe de Deus, os
judeus Intervieram hostilmente ...
Ora tais pormenores pueris (para não dizer: Irreverentes)
devem ter provocado a Indignação dos leitores dos quals a
l1sta do cDecreto Gelaslano~ se fêl. porta-voz. O que !ate
documento, portanto, visava com a sua condenação não era
a doutrina referente à exaltação final da Virgem Ssma., mas
as modalldades de redação com as quais tal doutrina era apre-
sentada no cTransltus Mariae~.

3. Conclusão

Em remate de Quanto acaba de ter ponderado, podem·se ronnular


.. duas seguintes proposições:
l) A propalada condenaçio do dogma da Assunçio por parte do
Papa Sio Gelúlo nada &em de PQaI, nem de oficiai, dentro da Igreja.
Oeve-se a um escritor particular desUtuldo de autoridade, o Qual
Incorreu mHmO em contradlç6es e 1.lh...
2) A condenaçAo pr01erlda por tue autor partleular ""0 re(f.i~
a6bre a doutrina da exaltaçlo de Maria como tal, mas 16bre- & maneira
lantaslda ou pueril como ela é narrada num dos eserltoa que a
referem no • . V.

- 462-
RESPEITO AO OORPO E ESPORTE

m. MORAL
JUVENTUDE (Rio de Janeiro):
4) «Há. quem falo de respeito ao corpo humano. prinel~
palmeDte ao se tratar d& pri.tica do amor. Em que se baseia
e5ta honrosa apreciação do corpo?
Seria possrvel dai deduzir alguma f".onclusão sôbre a estima.
do esporte!'»
A mentalidade moderna em geral pouco ou ne nhum apreço tributa
ao corpo humano; usa e abusa dêle ou em vista de um ulllitarlsmo
tett"eStre, imediato, ou a 11m de obter gôzo momentlneo, cexistencla·
lista:>, nlo hesitando em prallcar o anllcol1C@pclonlsmo, o ab6rto, a
fecunda(llo artificial, a selecAo racista, etc. '.. A tendência a depre-
ciar o corpo se afirma de maneira especialmente slgnl!kativa na
modema onda mundial cpro.lnclnerad,o, dos eadiveres: conforme
êste prOC'eSlO, o corpo humano, tendo uma vez terminado a.t suas
!\ln(Oes na terra, pode simplesmente ser equiparado 0.0 lixo. que
R qultlma. .
Abaixo enunciaremos alRuna dados colhidos no patrimônio de
sabedoria dos mais diversos povos, dados que perrnlllrlo uma concel·
tua~o adequada do corpo humano e do es~rte.

L O testemunho da natureza. e dos pov~

1 . Quem analisa os documentos da cultura humana


(cristãos e não-crlstios), dos quais citaremos alguns no decor-
rer desta exposição, não se pode furtar à impressão de que os
povos sempre tenderam espontAneamente a reverenciar o corpo
humano.
Uma expressA0 tipica dessa atitude é a que se lê nas
obras do naturalista romano nAo.cristAo PUnio o Antigo (t 79
d. C.), o Qual fala de cuma rellglão do corpo. (o!. HIst. nato
XI 103), significando creUgiio~ nessa perspectiva o misterioso
c transcendente que marca o corpo humano.
Eis as palavras de tal escritor: cHornlnls genibus quaedam et
rellglo lnest, observatlone genllum... Inest et aUIs partlbus quaedam
rellglo; slcut dextra oseulis averu. appetitur. In f.ide porrtgltur. - Os
Joelhos do homem slo portadORa de certa rever!ncla misteriosa, como
atestam os povos ... Também 81 outras partes do corpo exprimem
reverência : a mio dln!-Ita delxa·se beijar pelos h\blos que a procuram.
~ estende·se Aqueles a quem se dA em confiança,.

2. E como se explica tal respeito pelo corpo?


- Não hã dúvida, deve-se à conscIência que os antigos
tinham, de qUe o corpo humano não pertence simplesmente ao
homem. mas é função e, ao mesmo tempo, expressão ou simbo-
-463 -
cPERGUN'rE E RESPONDEREMOS., 35/1960, qu. 4

lo de uma realidade superior, não-corpórea (a alma e, em


última análise. a sabedoria do Criador). S esta realidade supe.
rlor que, profundamente impregnada no corpo, impõe respeIto
ao observador (antigo e moderno), fazendo que não seja licito
tratar o corpo segundo os caprichos do gôzo, do comodismo ou
do utilitarismo materialista.
3 . E quais seriam as manifestações de uma realidade
superior, espiritual, espelhada pelo corpo humano? Em outros
têrmos: como é que o corpo sImboliza a presença de algo de
maior ou transcendente?
- Eis aqui algumas das principais revelações da alma ou
do espírito através da carne humana:

1) A estatura erecta
A mecânica não explicaria que o corpo humano, pesada
massa de carne tIáclda cujas articulações são propensas a se
dobrar tOdas simultAneamente, possa permanecer erguido sóbre
a base tio exlgua da planta de seus pésj uma vez morto, êISe
corpo cal. só podendo ser levantado pelas fôrças de dois ou
três homens. E note-se que o equiUbrlo do corpo humano vivo,
contra. tõdas as previsões, não é instável; resiste ao furacão
e possibilita ao homem lutar em pé contra seus adversários.
Essa burla infllgld. às le;,; da pura matéria significa precisa-
mente que o homem não é apenas matéria: o garbo de seu
porte constitui um sinal eloqUente do esplrlto que habita no
corpo e que é dignamente homenageado pela atitude erecta do
ser humano.
Ainda por outra via se percebe o valor simbólico da esta·
tura erecta do corpo humano. Já o filósofo grego Aristóteles
(t 322 a. C.) lembrava algo que São Tomaz, na Suma Teoló·
gica I 91, 3 ad 3, havIa por SUa vez de Inculcar: se o homem
não tivesse porte vertical, seus membros anteriores se apola.rlam
sObre o solo; por conseguinte. pnra apreender a sua prêsa,
deveria ter bóca adequada (focinho oblongo, bico ... ), lábios
duros e ãsperos, lIngua rugosa,.com a qual se defenderia contra
os adversários e os elementos que o cercassem. ConseqUente--
mente, nio poderia mais falar ou careceria desta expressão
típica da inteligência que é a linguagem (cf. cP. R.» 33/ 1960,
quo 2). Donde se vê que a estatura ereeta do homem é caracte-
ristlca da sua dignidade própria, dignidade que o coloca adma
dos demais sêres vlslvels. .
Contra o valor desta obsorvaçll.o aponta·se o caso do pingüim,
que caminha verticalmente s(lbre dual patas. Contudo a. debUldade
das aau dk~c animai cstA em contradlc60 com a sua estatura erecta,

-464 -
RESPEITO AO CORPO E ESPORTE

constituindo quase um desmentido" sua t@ndlnda. para o alto. Mesmo


o macaco e o urso e!'ltUidos nio deixam de ser quadr6pedes; o eixo
do seu corpo pode s@r tanto horizontal como vertical •..

2) O caminhar para. a frente


O homem, que tem a cabeça voltada para. o alto, possui
tambCm as articulações dos joelhos e dos pés configurados de
tal modo que lhe é necessãrio caminhar para a frente, numa
só direção. March~ré. para o homem, significa acrobacia um
tanto perigosa; devendo recuar, o homem normalmente dâ
mcia~volta e então, mesmo retrocedendo, adianta-se. É ao
caranguejo e a certos tipos de máquinas que compete a facul~
dade de se mover indiferentemente em dois sentidos. Além
disto, note·se Que o olhar humano, sempre voltado para a
frente, tende a perfurar indefinidamente o horizonte ou a
perder-se no insondável mistério do horizonte.
Assim dir-se-.la que a vocacão a ultrapassar--se e a entre-
gar-se a algo de maior ou a um têrmo ainda. não possuido está
profundamente Impregnada dentro da natureza humana. O
homem nAo dá um passo nonnal que nAo seja passo para. a
frentei mesmo voltando atrâB. desloca-se para diante. NAo
seria Isto indicio do destino transcendente do ser humano?

S) O semblante translúcido
O semblante costuma ser a expressão do que vai no Intimo
da personalidade; apresenta-se ora belo e atraente, ora desfl~
gurado e feio, de acllrdo com o estado de alma, harmonioso ou
nAo. da respectiva pessoa. Em alguns justos multo unld:os a
Deus, dir-se-ia que o Divino lhes transborda na fisionomia, tal
é o encanto ou a cgraça.. que refletem. Tenha·se em vista,
por exemplo. o caso do santo Cura de Ars: homem simples,
filho de camponeses, conseguia atrair à sua paróquia multidões
de ~c;oas, crédulas e incrédulas, que se compraziam profun-
damente em ver e ouvir o homem de Deus.
A propósito cscrevla o Pe. Lacordalr@ (t 1861) a Pc.rreyve, um
de! aeta jovC!ns dlrlgktos :
~ A~lma d@ tudo s6 bom. A bondade é o que mais ~ parece com
Deus e o que mais duarma os hom@J\S. Tens vesllglos do bondade
na alma. mas êsses Slio sulcos que ninguém jamais cavarA suflclcnte-.
ment@. Teus lAb&os e teu. olho. ainda nD.o slio tão benévolos quanto
posalv@}. e nenhuma arte lhes pode dar êst@cal acterlstleo a nAo ser
o cultivo Interior da bondade ••
~ IAblos e os olhos sejam benévolos. .. A respeito dos olhQS
em particular. a sabedoria dos séculos acostumou-se a dizer que
sAo o HPêlho da alma. J6. Pl1nio o Antigo observava : ~Hca (oculos)

- 465-
.PERGUN'I'E E RESPONDEREMOS» 35/ 1960. qu. 4
cum osculamur, anlmum lpaum \'Idemur altlngere. _ Quando oscula-
mos os olhos, parece-nos Que tocamos a própria alma_ (Hist.
nato Xl !ia).
COn5lde.rG-&e especlalmentP o poder fascinante, hipnotizador, do
olhar de certas ptllSoaS. ~ .sInal bem claro da riqueza de vldf, Imaterial
ou transrendente Que cada uma dessas pessoas traz em seu intimo.

4.) A mão c sua conn~"llração

Já diúamos atrás que as mãos vêm a ser o símbolo tipico


da inteligência humana. O homem, aUás, é o único ser visivel
que tenha mãos, porque é o único ser corpóreo que possui
inteligência.
Os mais recentes estudos sObre a origem e a evolução das
línguas reveJam que a linguagem humana primitiva deve ter
consJstldo em clamores e gestos; antes do Idioma propriamente
dito, o homem terá praticado em larga escala a linguagem
das mãos (isto nada signitica contra a veracidade do texto
bibUco, que apresenta Adio, o primeiro homem, dotado do uso
da palavra e de ciência preternatural; os predicados de Adio
eram estritamente pessoais; tendo-os perdido, o primeiro pai
a-erou prole sujeita à.s leis do desenvolvimento paulatino).
Até hoje as mãos (alam espontãneamente no homem, reve-
lando, por vêzes de maneira indiscreta, o que lhe vai no mais
Intimo da alma.
Tenha·se em vista, por eXf!mplo, a slluaçAo de alguém que, a
contra-g6sto, recebe uma visita de eerhn6nta; comporta-se com t6da
a cortesia, sem deiXAr transparecer por alguma pa1avra o seu mal·
-estar Interior; sorri, @leuta e responde sensatamente. Eis, portm.
Que a Impaciência dessa pessoa se- concentra em suu mlos; at..,
durante a conversa nAo deixam de .se agitar: a mi o esquerda pGe.se
a estrelar o rosto dHde 1\ orelha até o queixo, como se o paciente
estivesse acomeUdo de comlchlo; entnmentes a mio direita, aguar·
dando o momento de recomet'8r o trabalho Interrompido, bate nervo-
samente .obre a mesa com a ponta dos dedos ...
Observe-se outrossim o .se,uinte: a mulher que durante um
colÓQUio pratica freqUentemente o gesl0 de arrumar os cabelos.
embora bte. estejam devidamente penteados, manifesta assim su ..
ruervas e seu mal· estar. Ao contrArio, se ela começa a brincar
prazenteiramente com o colar ou os anel., di s inal de se estar rendendo
com almpatla ao seu Interlocutor, embora aparente nlo atribuir
grande Importlnela t. conversa.
Em particular, a conflguraçAo e os traços da.s mli.os t6m _klo
multo explorados atravb do. ~los para ae de.scobrLr o tempera·
mento próprio e ati o currleulo de vida de pessoas consulentes. Na
maioria dos easos, ponlm, os orleulo. loram e .10 proferidos a
partir de critérios arbltrulos e Insustentlvels, de acOrdo com u'a
mlaUca tantallata, que constitui a (quiromancia,. (ou a adlvlnhaçAO
por melo .. mio). Esta pouea ou nenhuma atençAo merece. Recente-
mente. porém, 0$ estudiosos, emanc:lpando·se de quaisquer teses da
mLltlca e da 111osoIIa O'!Ult1stas. deram origem ao que se chamll ....
- =
y;r..-
RESPEITO AO CORPO E ESPORTE
Qulrologla» teatudo dentlflco da mIo): na base de experiências e
eslatlstlcas obJetivai, conseguirAm vulflcar que na realidade Cl!rtos
tlpoa e traços da mio I!'Stlo relacionados com detennlnadOs caracle-
rlstlcos da ~nonlllldade; as mlos, antes mesmo de exercer alguma
atividade, vim a aer a expressio do tesouro de vida Intima que todo
Individuo traz em aI. Cf, cp, R ,.. 21/1959. qu, 6.
A tttulo de Ilultl"a~o. vai aqui pro~to o que a Qult'Ologla ensina
a respeito da c:onflguraçAo dos dedos.
Distlnguem·se quatro tipos de dedos: 0$ pontiagudos, M c:6nlcos.
os quadrados e os espatulados 'achatados) ,
Os dedos pontiagudos costumam denotar ImaginaçAo, Intulçao e
.:ldto artlltleo. Ê o 9ue atestam a pintura e Q. escultura, apresentan-
do-nos as fam~ flguru de Shakespeare, Maria-Antonieta, Mune!.
Chateaubrland, Vlto.r Hugo .. ,
Os dedos c:6nlcos caracterizam as pessoas particularmente pren-
dadas e compreenSivas, de temperamento amivel e de esplrlto concI·
liante; Leonardo da Vlnel, Mazzarlno. Lamartlne as exemplificam.
Os dedos quadrados aio os das pessoas pritkas, positivas, meto..
dicas, que tim a preocupaçAo de exaUdlo e o senso da realidade:
tenham·se em vistA as Imag~ns de Lul:! XIV. Tu :'cnnc, Mnnsart,
Climenceau., .
Os dedos espat\llado~ sAo oa do artl!lce. que estima o preço
do seu trabalho, e os do homem de açio, que não duvida do seu
valor; aulm se apresentam Ctomwell, Lavoisier, Napolt>Ao UI.
Naturalmente, sendo a Qulroloela uma eilnela relativamente nova.
compreende-ae Que ainda le defronte com vArias Incógnitas. estando,
por eonsegulnte, Jlulelta a reformar futuramente uma ou outra de
suas conclusOes, Contudo o que aqui Importa. é verificar como se
j)ude, mediante critérios ~.c::utO!l e clentiflcos, ntribuLr à!i mAos huma-
nas o valor de .Imbolo ou sinal de uma realidade transcendente ou
misteriosa que anima a matéria humana e que .'>e chama ca alma:..

5) A nutrição

Seja aqui, antes do mais, recordado um estranho Cenôme-


no: o a nimal irracional que tenha apreendido a sua presa (um
cbom bocado»), isola-se imediatamente para a saborear com
mais tranqWlldade. O homem, ao contrãrio, compraz-se em
comer com seus semelha'ntes. principalmente nas ocasl6es
solenes da vida; é em t6rno da mesa, ao compartilharem o
mesmo pão, que os membros da CamUla comunicam uns aos
outros o que têm de mals intimo, Isto é. suas alegrias e suas
tristezas ; a allmentaçio em comum prati.cada ,pelos homens
toma-se destarte slmbolo da entrega de confiança e de valores
Intimas.
O fCI1c;,meno ê ainda em outro seu aspecto profundamente
expressivO: SllPlifica, sim, que pelo ato de comer o homem
não serve apenas a si, realizando uma função egocêntrica, mas
desempenha verdadeiro pontificado: é, sem dúvida, pela nutri-
ção do homem que os elementos Irracionais dêste mundo passam
paTa um plano superior - o da vida humana. que é vida inteJec·
-4~-
cPERGUNTE E RESPONDEREMOS:. 35/1960, qu, 4

tlva, animada por uma alma espiritual. Dai a importAncla reli-


giosa e, naturalmente, o slmboUsmo do ecomer:. j vem a ser
um ato pelo qual o homem executa um designio do Criador,
fa:zendl) que os sêres Inferiores, elevando-se, concorram do seu
modo para glorificar o seu Autor Supremo.

Os antlRos. mesmo antes de Cristo. sempre consideraram a all~


mcntaçAo como !unçAo sagrada; prlndpalmente as refeicOes de praxe
!eltas no lar foram associadas a rUos e p~ mediante os quais
OI convivas tomavam consel!ncla de entrar em contato parUclllar~
mente Intimo com a Divindade. Aconteela mesmo que os saertllclos
na antlaUidade ou o~ atos de devotar alguma coisa .. Divindade,
se tennlnavam sempre com uma refelçto sagrada, pela qual os
homens ,ulaavam entrar_ em «Imunhiio COm o Divino.
Ora a vAlorJzaçAo religiosa do comer encontrou no Cristianismo
a sua a!lrmaçAo mais eloqüente: o crlstlo tem consciência de que,
se o homem come à ~elhanta dos demais viventes corpóreos, come
numa atitude totalmente diversa: fIe o Cat, sim, para colaborar com
o Crlador, exercendo um oficio medla.nelro, de certo modo sacertletal,
pais une destarte a ten-a com o homem, e o homem oom o C~u
ou com Deus mesmo. !:, per excelêncIa. no consunto do alimento
sagrado ou da EucarIstia, dad" no decorrer de uma cela sacrificaI,
que o comer do crlstAo toma seu pleno senlldo: nulre enllo para
a vIda eterna.

6) A!i doen!;3.'C do hornf!m

Jã em eP. R. _ 32/ 1960, quo 1 tivemos ocaslal) de nos


referir aos fatóres psíquicos que estão na raiz de várias mo·
léstlas do corpo humano. A Medicina contemporânea, psico-so-
mática como é, reconhece cada vez mais o papel que compete
às aspiraQ5es e aos confl1tOs intimas do indivíduo tanto no
surto como no tratamento das doenças. Em conseqUêncla,
faJa~se do esimbo1lsmo dos sintomas patológicos_, tendo-se em
vista o seguinte: quando uma tensão de ânimo ou uma emoção
não se pode exteriorizar por palavras ou por atos adequados,
ela se manifesta por melo de outras atitudes dI) corpo, ou seja,
pela voz das perturba~ dI) metabolisml) ou do funcionamento
dos órgãos. Eis aqui al~mns apUcaç-ões dêsse principio:
Quando um doente tem dificuldade para engullr. sem que se
possa respansablllur por Isto algum 6rgAo, hl margem para eTer
que na suo. vida existe tnlvez algumn coisa que ~Ic nll.o consc!;UC
moralmente cengulin. Inno poder! aooltar alguma situação. allum
dever ... ).
A nAusea de estOmaEo, nAo provocada por um mal org9.nlco,
pode ser causada por um Cator exIstente no ImbUo de vida dG
enCêrmo. fator que o doente nlloo pode cdlgerlr:..
Um aentlmento de oprcsstlo, acompanhado de dificuldade para
respirar. na falta. de caustlS org6.nleas, talvez seja Indicio de que o
paciente tem alguma coisa que clhe pesa a6bre o coração,.

- 468-
RESPEITO AO CORPO E ESPORTE
o doente que perdeu o apente e por I5to sofre sérlamente de
sub-aUmentaçlo, talvez esteja frustrado na sua vida emoclonaJ, da
mesma forma. como estA fisiCAmente estomeado.
O cansaço é provocado multas vê2.es por um confiito emotivo, que
Absorve parte tio grande du energias da vitima que estas lhe v~m
a faltar quando delas pndsa.
Uma tenalo emocionai subeonsciente traduz-se multas vhes por
uma. tensAo museular, que lera dores a ponto mesmo de chepr ao
estado alUdo de nevra1ila. Uma dor no braço pode provir do desejo
que uma pessoa tem de espancar a outrem, desejo, porém, que
essa pessoa nlo satlslaz por causa. do l'Hpelto ou do afeto mtsmo
que o adverslrlo lhe impõe. Uma comichão é Rio raro conseqQ~ncla
de um mal-estar geral que alguán experimenta em seu ambiente
de vida: nlo podendo vlnp r-se em outras pessoas, o paciente tende a
se martlrUar eoça.ndo-se.
De modo &;eral, o aparelho dl&;estivo é a via pela qual as
perturba~s emocionais encontram sua expresslio ma is comum.

7) A , 'Ida mística. e a sensibilidade


Certos autores de opúsculos mistiros julgam que a alma,
ao progredir na união com Deus na vida. mística, mais e mais
age sem o corpo.
Diante dessa tese, reconhecer-sN que há, sem dúvida,
tenômenos mlsticos pelos ouals a alma se afirma de maneira
quase soberana ou independente do corpo: tais seriam a levita,..
ção, estado em que o orante paira aelma do solo, contrariando
u leis da gravidade; o htue, sltuaçA.o em que a alma esti ex
ou fora, alheia aos sentidos corpóreos... Contudo convém
notar que levit..'\ção, êxtase e fenômenos congêneres não cons-
tituem expressões necessárias da vida mística. Esta, ao contrá-
rio, parece Implicar em penetração e aproveitamento crE'SCentes
dos valores do corpo por parte da alma do orante õ é o homem
Inteiro, alma e corpo, que sobe para Deus.
Tenha·se em vista, por exemplo, o falo de que na medltaçio, grau
IniciaI de oraçlo. a fantasla. é posta em aUvidade de modo a fornecer
imageM aenslvels. que devem excitar a contemplaçAo e o amor
do orante. Um J{l'au ,upUlor de oração é a chamada coração aletlvp,
cujo nome se deriva p~lsa mente das amplas partes que as .retos
senslvels neJa ~empenham. Por fim. as visões que o Senhor Deus
concede a almas multo agraciadas. f'reqBentemente se produ7.CJn por
melo das Im_,F,ens .senslvels que o vidente concebe em sua mente
(cf. cP. R .Jo 191m, quo .. e 5).
Donde !Ie vê que nem os graus superiores de vida mlstlca ou de
unlZl.o da alma com Deus dispensam a Intervenção do corpo humanO,
o qual fica :sendo sempre o canal daa aílnnaçOes da alma.

2. Renexão e conclusão
1 . Acabamos de recensear fatos e tópicos pelos quais
se exprime o caráter que toca ao corpo humano, de consorte
- 469-
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 35/1960. quo 4

Indispensável e de sinal ou slmbolo da alma. Na verdade, o


homem não consta de esplrito apenas, mas de corpo e esplrlto
destinados a colaborar hannonlosamente entre si.
t; êsse destino que faz a nobreza do corpo humano, exi&in-
do por conseguinte pleno respeito às leis naturais que regem
seu funcionamento (principalmente às que dizem respeito aos
dois apetites mais veementes da natureza: o da nutrição e o
da procriação). .
Contudo tal concepção otimista requer breve advertência.
Na realidade, nem sempre os movimentos das faculdades cor-
póreas do homem estão em harmonia com as aspirat;:ões- mais
nobres do espirlto; certas tendêncJas do corpo geram não raros
conflitos do indivIduo (a Teologia explica muito bem essa
desordem, a.tribulndo-a ao pecado àe Adão, que desencadeou
concupiscéncia desregradA. e luta da carne contra o espirlto
dC:1tro do hO:;\Em; d. cP. R. . 30/ 1960, quo 2 c 3). Por conse--
guinte, nem tOda e qualquer asplracão da natureza senslvel
poderá ser Irrestntamente aprovada por parte da pessoa que
deseje chegar ao ideal supremo do ser humano. Para garantir
a função de slmbolo e os autênticos valores do corpo humano,
requer-se seja êste submetido a séria disciplina, que subordine
inteiramente a carne ao esplrlto. Em outros têrmos: a fim .de
que o corpo seja realmente sinal ou slmbolo, faz-se mister que
o homem reduza à unidade as vArias aspirações de sua natureza
bulll:Osa: passe da multiplicidade à unidade, traduzindo em todos
os seus atos uma só grand~ realidade: a vida etel1la, . .. vida
eterna que COmeça no tempo pela adesão cada vez mais conse-
Qüente a Deus.
2 . As Idéias até aqui propostas têm aplicação particular
ao se tratar de tomar poslCão frente aos esportes e ao atletismo.
:E:stes constituem u'a modalidade especial de valorização do
corpo. Vê-se, porém, que não constituem por si mesmos um
fim da atividade ou da vida humana: assim como o corpo é
nobre em funçüo da alma, assim o atletismo do corpo será
nobre se fôr exercido em vista do «atletismo. da alma, ou
seja, em vista da Jlrandeza ou do aperfeiçoamento da alma.
Será preciso continuamente lembrar aos homens de esporte
que o atletismo Que obceca e apaixona, não merece apreço ; o
atletismo do corpo toma-se absurdo se é praticado de modo
a vincular e escravl2ar a alma, em vez de lhe proporcionar
novo vigor para se elevar a Deus. i'.: o que o 5to. Padre o Papa
Pio xn expõe em uma de suas alocuções a esportistas, pro·re·
lida ao.lJ 8 de novembro de 1952:
cA si doutrlrta ensina a respeitar o corpo, mas nAo a estlmA·lo
além do que é justo. A mixlma ê esta: cuidado do corpo, robusteci·

- 470-
RESPEITO AO CORPO E ESPORTE

mento do corpo, sim; C\llto do corpo, divinizaCão do corpo, nAo •..


O corpo nAo oeupa no homem o primeiro lugar, nem o corpo terreno
e mortal, como é hoje, nem o corpo C1orlIlcado e esplrltuaJlzado,
como aeri um dia.
... No uso e exerclclo Inten.lvo do corpo, é pt't!elso ter em
conta ute fato: usim como hi certa glnAstka e esporte, que com
a sua austeridade contribui plra refrear 05 instintos, ~Im tam~m
existem outras fonnas de esporte que OS despertam, quer pela vio-
lência do esf6rço, quer pelas aedu~es da sensualidade, M~mo IJOb
o ponto de vista estético, com o prazer da beleza, com a admiraçlo
do ritmo na dança e na glnAstlca, o Instinto pode Instllar .0 seu veneno
nos lnImos. Ri, além disso. no cesporte e na ginástica. no ritmo
e na dança, certo nudismo, que nio é nem ne-cHsArlo ni!m conve-
nlente •. . Perante tal maneira de praticar a glnAstlca e o esporte, o
sentimento relleloso e moral op6e o seu veto.
Numa palaVl"a: o esporte e a aln6.stlca nlo devem mandar e
dominaI', mas servir e ajudar, 1; a sua funçAo. e nls$O encontram
a sua JusUficaçAo.
. ,. O maior mérito nlo seja alrtbuldo ao individuo que possui
os ml1sculos mais fortH e ma" 'gels, mas ao que tam~m demonstra
maior capacidade de suJeltll.-los ao Implrio do «plrito.
, . . Elevar a ginástica, Q esporte e o rltmQ com todos QS seus
complementos à calecorla de fim supremo da vida .seria na verdade
pouco dema" para o homem, cUja primirla crandeu. ti formada por
multo mall elevadq uplraç6eI, tendencllll e qualidades,
Ê, por lua, dever de todos os esportistas conservar &le reto
conceito do esporte, Dio para perturbar ou diminuir a aJecrla q,ue
dfle recebem, mal para ~ presH'Val'tm do per1eo de despl't'ZAr
deveres mais altos referentes à própria dlenidade e ao respeito para
com Deus e para COnsigo mHmOl. (lranserlto da cRevlsta EcIHl.ls-
tia Brallllelra. XIII [1953] 206-8).
Dlr-se-Ia numa. palavra: o cristão procurarA. ser bom atleta do
corpo, para 1ornar-se ainda melhor atleta da alma.

Tam~m no que diz respeito' alimentaclo, uma breve observaçlo


se Imp~. Ao contrlirlo do que se poderia crer, a snbrkdade I,. as
restrlc6et de nutrlÇlo vêm a ser iarantla do bom 1undonamento do
Ct.Irpo. O lAbia franefs. Prol. Bou lI~re, nos descreve a seguinte
experiência:
c5eparcl dol~ ':fUpoS de rntos I"l'N!m-nascldos. A um admlnlltrel
allmenta~!Io abundnnte; viveram uma média de 700 dias. Aos outros
dei pouco alimentai foram severamente racionados. Viveram u'a m4dla
de 1400 di.., isto ~, o dObro dos .seus congêneres bem nutridos.
(dtaçAo feita por Varenne, Flq,ue aempre jovem e viva mal. tempo.
1960, 23).
Tal experiência foi repetida em numerosos laboratOrlO$ e com
outru espécies de animais, levando aempre os observadores As mesm ..
conchl.OH. Estas se aplicam reconhecidamente também ao regime
IIlIm~tar do homem . ..

3. Por 11m, notaremos que a reallzaçlo mnls perfeita do almbo-


IIsmo do corpo tem lugar no culto aaando ou na L1turgla. Todo o
corpo. por aua linguagem, por seus &estas e auas atitudes, tu-se-
entAo, por excelência, eco da Palllvra. eterna de Deus.

- 471-
cPERGUNTE E RESPONDEREMOS:. 35/1900, quo 5

KLElNBERG (POrto A1<il"') :


5) «Quisera uma palavra. de escla.reclmento sabre a ma.
turbação.
lIA. médicos que a aprG\'arn. ao passo que os moralistas
lo eoadenam».
o t! nno c masturba~o:., oriund.o provllVelment.e de Olanlbus
turbare:., slgnlflca: a pt'Ovocaçlo dos órgãos genitais por melo da
mio ou de outro estimulo Inadequado, Mais predsamente: masturba·
Cio i a poluCio voluntArIamente provocada num alo sol1tirlo; t a
satlsfaçAo sexual do Individuo de si para si.
Abaixo procuraremos fonnular um Juizo s6bre êsse fen6meno,
tanto do ponto de vista flsico-pslquko como do ponto de vista moral
A seeulr, enunciaremos al~mas nonnas de conduta oportunas frente
a tal aflnnaçAo da natureza.

1. Que dizer . .. !'


a) ... do ponto de vista. pflleo-somátleo
, A tendência sexual de todo ser humano é naturalmente
\~ Jvoltnda para um semelhante pertencente a outro sexo; êsse
\:~~~~n~: :!e~eo s;~~~:z~~~~~~e~~~r:n ~:aos~e~
de~ amor, ou seia, em funçio do amor, em função de um ato
em que tõda a personalidade se empenha com o que ela tem
de mais nobre, que se realiza o encontro sexual entre os
. sêres humanos. A luz dêstes prlnclpSos, verifica-se que a cha-
mada cmasturbaçAo:. ou!o uso da função sexual por parte de
um Individuo que vise satisfazer-se a sós, constitui uma aber-
~ção contra a própria natureza humana; é a . volta do Jndi-
. ~ viduo l!. ._$.i. mesmo mediante um ato que aeper si tenderliL
:)...a léVar a personalidade para fora de si.
,
A masturbaclo pode tornar-se um hábito, cujas ca uSll8 do usaz
variadas: ls vfzes decorre da curiosidade slmpl6rla com que a criança.
nOI seus primeiros anos de Idade, começa a observar as atividades
de seu corpo; suscita entlo Inocentemente o funcionamento de seu
1"
6r«Ao; contudo a partir dos seis nu sete anos, o hlblto assim adqUirido
provoca M'nHaçOcs cada vez maLa tu:cntuadalJ podendo tornar-se forte'
mente GlTal/:tado c avassalador. Outra. V~U!I. o vldo dcvc-se aos
exemplo-. ou la sedu~es provenlentl!S de adultos ou de outros joven..
Em outros i:asos. o costume lIe deriva de dlsposlçOes pslcoP>ltlcaa
do Individuo. dllposlçOes que, mediante a pritlca do ato s011tf.rJo.
causam um estado doentio cada vez mals mo.rcante (um dos sintomas
mais comuns dtaae estado m6rbldo &lo os .sonhos de naturna pervena
que às vêz.es precedem. provocam ou acompanham a masturbaçlo) .
Os feMmenos pslcopAtlcos que possam estar na base do vicio
solltArlo, alio entre outros: o narcisismo (tendência do Individuo a

-472 -
MASTURBAÇAO

se contemplar e admirar lI!xa&eradamenteJ. o hom.o-e.rotlsmo (amor


ao mesmo lexO), o temor anormal para com o sexo oposto.
Feitas estas observaçOes, jA se percebe como Julgar a masturbacAo.

Do ponto de vista' flsIo~ógicO, \a prática do ato solitário,


equivalendo a um desvio da natureza humana, nunca pode sl!r
recomendãvel; nunca será aconselhável, nem mesnio em proPor.
ÇÕeS pretensamente moderadas, como solução ou paliativo para
uma situação anonnal ou aflitiva em que alguém se encontre•
. Não raro se verifica. que o hãblto da masturbação toma lndole
de obsessão ou mania, prejudl~ndo ..a....saúde. princlpalmente
o equil1brio nervoso da vitima. Mesmo quando nio atinge tais
proporçÕes, o vicio soUtârio não pode deixar de afetar o caráter
da pessoa qUI! se lhe entrega voluntAriamente: esta se toma
mais e mais desatenta e distraída, su;Jel.ta às vacilações dos
caprichos. mais · ou menos indiferente aos grandes valores da
vida.. Em particular, o individuo, no qual o vicio solitário se
instala, é pessoa pouco adaptada ao genuíno amor conjugaJ,
pois não estima devidamente o tu ou a personalidade alheia,
tendendo a devaneios nos setores do Irreal e do sonho.
Estas conseqüências com unl~m u'a marca especialmente huml.
IhAnte ao vicio da masturbação. AliAs, nlo .se poderia esperar outra
coisa, pois nin.:ul!m contradiz Impunemente às leis da natureza, que
deu as 1unç6es sexuais ao ser humano em vista do casamento
(como as 1unç6es dll"t1vas loram dadas em viSta da conservaçlo
do Individuo. nAo propriamente para o deleite do sujeito) . Ê vã a
alegaçtl.o: ",Não prejudico a alguém, quando cometo o a to somArlo,," ;
na verdade, o masturbador contradiz .. orlentaçAo natural do seu
at:n~!'._~ ql,1al tende espo!l~mente a ;l!e . vol,ta! para outrem,. de
mooo que quem viola "IA tendência prfva o próximo de um direito
seu e de certo modo desfIgura. a si mesmo. Nil.o poucas pessoas, allis,
dentre as que se di\o 1\0 mau hâblto, dotada.s de temperamento mais
delicado e senslvel, tfm consciência da hediondez do vicio: hOrTQ1"I·
zam-se por ver constantemente burlado o seu Ideal de pureza, podendO
chegfll' kse horror a provocar ptrturbaç6es neur6Ucu por todo o
resto di!. vida. caso nll.o consigam em temPo libertar-se dos grllhlies
dovldo.
. .
. . , ., . •. . . " , . ,~ . . .. 1 .

b) . . . do ponto de vista moral.


Aos olhos da consciência moral, a masturbação, sendo
violação dn natureza, constitui um pecado QU uma violacão
da Lei de Deus. Vista a importância da matêr1Ã respectiva,
tal pecado é em si grave, Subjetivamente, porém, a culpa pode
ser muito atenuada, dado que o masturbador nAo proceda
com pleno conhecimento de causa ou com vontade deliberada.
Ao se tratar de um pecador que fã tenha concebido O flnne
propósIto de se emendar e que empregue sêriamente os meioS"
para o conseguir, pode-se crer que as suas eventuais relncidên-
- 473-
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 35/1960, quo 5

elas nAo constituem sempre pecado grave, pois ainda ocorrem


por fôrça do hábito anterfonnente adquirido, ou seja, dentro
de um clima de certo automatismo, no qual a liberdade de
arbltrio nio tem plena conivência. Será multo importante
lembrar Isto aos penitentes sinceramente dispostos, pois tal
advertência os preservará de cair no desAnimo ao empreende-
rem a luta contra o vicio.
Tambt!:m .se faz mlst~r trlsar que as poluç6es noturnas (as quais
nos meninos se verificam desde 0$ 12/14 anos). assim como as
poluç6ts diurnas meramente nervosu e involuntárias. nlo têm que
ver, do ponto de vISta moral. ctlm a muturbaçlo pecaminosa, a qual
sup6e 1!Iempre- t'OnhedmentQ de causa e vonta&! deliberada. Hi, porém.
casos em que a poluçio. Imlbora nlio tenha sido diretamente provo-
cada. ocolTe em conseqDêncla de remota e . imprudente exeltaçAo da
sensibilidade; tal derramamentc- participa entlo do grau de culpa.
que toca 1 Imprudência anteriormente cometida. NAo é em vlo, allis.
que OI moralistas recomendam la almas tlt!:1s o contr6le geral dos
sentidos, mesmo lndependentemente de aleuma tcntaçAo ao pec.Ildo;
o alrouxamento dessa diSCiplina pode ser culpado ~ ocasIonar culpas
remot...
Note-se bem que a própria. natureza, mediante poluCOes espontA-
neas, provê devidamente As suas func:l!ies, de sorte Que nAo é neeessirio
ao Individuo provocar pela masturbaÇ!l.o o uso dos 6raios sexuais;
tal provocaClo, lonJ!'ê de ser eonsentlnea eom a natuftU. 16 ae reBJ.s.
traria em clrcunstlncias que contnrlam 8S leis natural! do ato
sexual f"te - rcplta-u - Col coneebldo pelo Criador como funcao
do amor, .•. e do amor conjuRai•..• amor euJa finalidade prlmirla
11 é a pTOCrlaÇlo da ~spk~l. E nllo se laca objecto por parte da .aMe:
"ta. 6 multo mais a~uradB pelA observAnda das nonna. nu dA
.
ord~ da natureza do que por qualquer violação da mesma .

2. Como remedl&r!
Após o que dissemos, vNe que niio merece audiência a sentença
dos que pretendem remediar a estados de desequlllbrlo nervoso
mediante a prlttea slstemitlea e eontrolada da masturbaçAo. Tal
método .6 ooncorre para agravar o mal pslqulco, de mais a mala que
,. freqO~ntemente 05 masturbadores desejam ardentemente libertar-se
do seu hiblto Indigno.
Também não se alegará Que o costume da masturbacAo
é incurável, de sorte que baldado se tome todo esfôrço contrário.
:E: verdade Que nAo h' uma via únlea de cura, aplicável a tOda
e qualquer situação; os meios de combate deverão, antes, ser
concebidos de ac6rdo oom as circunstâncias de cada caso.
Como quer que seja. o tratamento oportuno será sempre um
tratamento de base, visando o Intimo da personalidade da
vitima, em eonformIdade com os seguintes princlpios:
1) A vontade do padente hi de ser corroborada e sujel~
tada a uma disciplina. O uso e abuso da liberdade de eonduta
em nossos dias provoca naturalmente uma excessiva tensio
-474 -
__________ ~~CA~O~'_'·_'__________
sexual. Entre outros fatOres de dIsclpllna, enuncia..se o trabalho 1.'-\
ou a entrega do paciente a uma tarefa séria que lhe áest:ierte J
e prenda o Interesse. Certas restriçõés na. comida e na beb;da
concorrerio para amortecer o Instinto sexual e fortalecer a \'.
vontade. Semelhante efeito 52ft obtido peJo domlnlo da frnagl-:
nação e o rontrôJe dos olhares. .
2) Visto que a masturbllçlo habUual suscita multas vêUI 1\&
v1tlma uma tendência (consciente ou lneonsdente) a desprezar. 1i
mesma, ~r' preciso que o dntor e os am!eos do paciente nele
restaurem o senso de sua dignidade moral assim como uma conflnnca
equilibrada e m IL Mesmo nos casos de recaldas lreqQentes, laz..se
ml!rter rtavlva.r sempre a coraiem do Interessado, a sua vontade
de combater, assim com" a esperança de vlt6ria; ineulque..se-Ihe
contInuamente que êle ~t....C' dev.e realperar-ae.
3) Trate-se a vitlrita C!ôm tióndade sincera e compreensiva. O
Cato de ser o masturbador um Individuo frchado sObre si mesmo se
explica nAo raro por Jamais ter ~le experimentado a fOrça do autên-
tico amor. E.:a norma vale de modo partkular para os pais e
mestre' de uma criança viciada ou tendente ao vicio da masturbaçAo:
procurem os ,enltores e edueadorH em geral fazer do lar e da
escola um ambiente .lmpAtlco. no qual haja ritmo de vida equill-
brado: repouso suficiente, exercido 115100, a~!.. !.a~~_ .tanto com
rapazes como com moças ... ' .. .. _ _ . •
~

4) Quanto ao paciente mesmo, após alguma queda ou


rccaida, nô.o se deixe ficar numa sib.la\ão de perp)exidade
indecisa, mas sem demora arrependa-se e renove seu 'bom' pro-
pósito; se possfvel, empreenda mesmo um ato adequado de
penitência (renúncia a tal ou tal divertimento, privação de
alguma guloseima, prãtlca de caridade para com o próximo ... ).
5) Para quem possui a graça da fé, o recurso aos meios
sobrenaturais é não sômente imprescind:vel. mas até soberano.
Onicamente peJo aux:llo de Deus recebido através da oração
e dos sacramentos (confissão e comunhão) pode haver genulna
esp2rança de vitória sôbre a natureza. A fé ajuda o paciente a
restaurar sObre novas bases a sua personaUdade, mostrando-lhe
que a il'Bndeza de todo individuo está justamente em sair de
si, esquecer e desprezar a si; ao passo que o egocentrismo
depaupera a personaUdade, a abertura em demanda de Deus
e do próximo a dilata e enriquece. - Muito valioso é também
o recurso a um bom diretor espiritual.
o Juizo quI' acaba de ser proposto a respeito da masturbacAo
talvez pl'~ .RVft"O demais e pOUC3 adaptado à mentalidade moderna.
- Nilo hA davld., o homem contmpi:lrAneo tende- a' ceder à onda,
·abrlndo mio dOI mais tradicionais e p1'eclosos valores da conscl~MI.
moral; multo, pretendem con1eoc:lonar umll c.tlca de sltullÇlo, exl ..
tenclallatll., lalG.. é,. uma ~Ica norteada apenas pelos elementos que
parecem convenientes ,ao .ujelto na altuaÇlo em que caqul e agora.
.se acha.
-475 -
.PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 35/19&0, qu. S
A essa tetlMncla deve.ae faur a ~Inte observaÇlo: ~ certa·
mente necesJlrlo que a Moral leve em conta as cil'cunstlnclat preclsu.
nas quais um Individuo se encontra; .. consciência bem formada
compete ju.tamente a tarefa de apllcar os preceitos da lei a cada
'I CUo concreto. Nio compete, po~m, ao Individuo, nem b modas e
. aos tempos, retocar as nonnas da lei natural; esta ~ perene e Imutlvel
como a naturna humana. Ora I! Il nIltureza humana que anlnaJa ..
funçlo sexual a l ua finalidade própria, Independentemente da qual
o uso de tal funçAo vem a ser desvfrtuado ou abusivo.
Embora em melo à onda laxista de nossos dIas estas verdades
I ~ Arduu, o c:ristAo sabe que o Senhor Deus.não impOe preceitos
. lmPratlc!vell, mas, junto com a obrlgaçlo, confere sempre & et'8Ç&
parã que a criatura cumpra Integralmente o seu dever. 1!: a eons--
ciência disto que di 'rumo e otimismo ao dlsclpulo de CrUto, impe.-
dindo que se deixe arrastar por modas d1sso1ut6rlas contemporlneu.
- Naturalmente, na medida em que 8 masturbaCão tenha um fundo
doentio e InvoluntArio, lua culpabilidade I! atenuadaj pode ser mesmo
nula, portanto isenta de Julgllmento e punld.o da parte de Deus.
6) Nos casos em que o vício solitário pareça provlr de
um fundo psiqulco anonnal, consulte-se um psiquiatra, o qual
procurará descobrir a raiz do mal e indicará a terapêutica
adequada, terapêutica, porém, que nunca dispensará a colaoo.
ração consciente do individuo na medida em Que êle a puder
prestar.
7) p~ alara uma questAo derradeira: o casamento scr!
remédio para o vlelo da. muturbaClo?
Em respOlta, dever·le·' dlltlngu1r:
a) CUo o mau h'blto careta de fundo patol6glco, sendo mero
produto de debilidade moral, POde ~ extinto ou, pelo menos, notA-
velmente mlUeado. pelo matrlm6nlo, poLs fite oferece ao paciente
a ôcasllo lee1tlma de satlafaur .. sua n~sJdade de vida. aexuat
Mesmo assim, porlm. o casamento nAo dispensarA o Individuo da
apUcado da lNa fOrça de vontade.
b) Dado que o v1clo provenha de um. estado neux:6liC!l ou doentio.
o casamento nlo soludonari. o mal, podendo meSmõ agia'Vr.Jõ."SIm';
li. vida conjupl pralmente nAo cura o desequlUbrlo nerv:.oso e o
ntrdslsmo, de sorte que o enfêrmo continua a se satisfazer a Iós,
mesmo depois do matrlrnllnlo. aC8rTetando então lnfellcldad.e para a
aua pr6pria comparte.
Eis all(Uns casos qut' Ilustram tal afirmação:
A SrL N . certa vez se a presentou a um psiquiatra. por sofrer
de tenivels crises de depreulo nervosa, experimentando sentimentos
de Odlo gl!Jterallzado para com os homeNl, inclusive seu marklo, e
para com Deu. mesmo. Casara·se havJa dezessete anos com um homem
multo bom. que lhe dllpen18v& todos os euldadot, mas limitara lU..
relaçOes conjugall .. noite daI nQpclu e a uma 6nlca oc... lio depol.
dilto. _ Pols bem;, fl~~ . avenauado que tal marido praticava ..
muturbaçlo antes ae ta catarj esperava curar-se do vtdo med~nte
o matrlm6nJo. mas infelizmente no decurso da vida conjugal verWeara
que mais _ comprula em seu antigo hAbito soUttrlo do que em
reltc6tl eonjuaall. Dal t alllc10 e a desrraC4 da etlp6ja ...
TamWm lO relata o caao da Sra N, N .. que foi procurar um p!llqula.
tra por lotrer de obseao.o nervosa. Seu mal tinha hlst6rla aaaaz

-476 -
HISTóRICO E SIGNIFICADO 00 ROSARIO

lonl:": costumava, sim. praticar o vicio aoUtArlo antes do matrimônio.


Uma vez casada. nunca oonseeu1u experimentar plena satlsfaçlO em.
su.. relaç6es conjuaa1s; queixava·se de que o marido era pouco
eoJnPl'ffJ\llvo e nenhuma experiência de vida sexual possula. Seus
anUp h'bltos continuavam a deleitA-la de modo tal que TeSOlveu
dar·lhes de novo livre expando, vindo a sofrer naturalmente do
eor'lfllto deoeorrente da neva lltuael().
Êstes dois epllOdlos (conllgnados na obra de J . K Vanderveldt
e P. Odl!'rrWald, Psychlatrie et CathoUdsme. Paris 1954, pla. 53211
bem demonstram que o casamento, longe de resolver sempre a situa·
çió desequilibrada dev~ ao v1do da masturbaçio, pode contribuir
para a aarava\". Consciente dl.orto, o sacerdote aeri. especialmente
cauteloso ao Julgar fUI conveniências de matrlmOnlo de pessoas dadu
ao vicio solltArlo. Em casos de dúvida, podert com vantagem mandar
collluUar ou consultar um psiquiatra experimentado.

IV. mSTORIA DO CRISTIANISMO


NUNES (Rio de Janeiro):
6) «Qual a origem do Rosário'
E como se poderia. juJUftcar tal forma. de o~. em que
a rotina e o mecanlclsmo tanto teadem a. prevalecer'.
Por cRosirle. entende-se aqui a modalidade de oraçlo que con·
slste em recitar quln~ dezenas de cAve Maria., precedida cada qual
por um «Pai Nosso. e leaulda de um . CI6.rIa ao Pai.; a cada dezena
estA asaoclada a contemplaçAe de um miStério, ou seja. de um dOi
prlnclpall acontecimentos da vida. de Crllto ou de sua Mie SanUalma.
Tendo em vista as quesl~ acima apresentadas, dividIremos noNa
resposta em duas parte.. propondo primeiramente o h1stOrico da
devoçio ao RosArio; a seguir, analisaremos o .eu "pUleado na. vida
de piedade.

1. Os preoedentes do atual Rosário


1. O costume de rezar breves 16rmulaa de oraçio conRCUtlva.
e numeradas mediante um artilJclo qualquer (contagem dos dedos,
de selxos. de osslnhoa, de ariOl . . . ) constitui uma das expreuOes
cspontAneas da rell~losktade humAna. Independentemente do credo
que alJUém professe (veremos no f 2 n «porqut:t dessaespontaneldadel .
Entre OS erbtlOl. lal hAbito J' estava em USO entre OI ererrltal:
e monges do deserto (sêe.. IVIV): .ivldas de manter sempre o esplrlto
unido a Deu" em estado de oraclo, dfzlam centmas de breves pr«n
controladas por um slstl!m8. de ca..1eular: sendo Insuficiente para Isso
o uso dos dedos das mie.. ~ a recorrer a selxOl.
Palidlo. historiador cristio do séc. V. refere que um eremita do
sk. IV, chamado Paulo. fh o propósllo de recitar d1àr1amente 300
oraC6es dlapoatu em detenn!nada ordem; desejoso de nAo omltlr
a1auma por deaaaldo, recolhia entlo 300 pedregulhos que !le guardava
. cm seu rep~ e la la~ndo 10ra, um por um, cada vez. que rezava
uma prece IHlst. Lauslaca 20), O mumo historiador menciona doi.
outros aacetu, doa quais um recitava 700 oraçOes e o outro 100 por
dia - o que faz Cl'ft" que o co.atume do eremita Paulo nlo devia

-477 -
cPERGUNTE E RESPONDEREMOS:. 35/1960. gu. ~

ser caso Isolado. Contudo o slatema dos pedregulh.os, por mais QUi
que tOsse, nlo podia ser adotado em quaISquer clrcunstlnelas: seria
Impratlctvel, por exemplo, por parte de monges que quisessem rezar
eoletlvamente na I~ja . Dal o recurso a novo artltlclo: passou-se
um tio ou cordel atravH dos gTios prêvlamente perfurados, fabrl-
eando-sc assim pequenas oorrentcs 011 rolares.

1!ste USO, que é, como se vê, multo antigo na Igreja, tomou


incremento especial no Ocidente: no fim do séc. X havia-se
implantado entre os fiéis o costume de rezar a oração do
Senhor, o cPai Nosso. , certo número de vêzes consecutivas.
Ta] praxe teve origem provAvelmente nos mosteiros, onde
muitos cristAos professavam a vida monástica, sem, porém,
possuir grande capacidade para o estudo; não estavam, por
conseguinte, habilitados a seguir a oração comum e oficial d&
Igreja, que compreendia a reclta~ão dos salmos. Em conse-
qüência, para ~sses Irmãos ditos .-conversos. ou «leigos., os
Superiores religiosos estipularam a recitação de certo número
de .-Pal Nosso. em substituiçãeJ do Oficio Divino celebrado
solenemente no cOro.
Ao se tratar de sufrAglos por defuntos do mosteiro, enquanto
os monges mais capadlados rezavam 150, 100 ou 50 salmos. os
eonversos diziam 150. 100 ou ~ vhCs a oração do ~nhor {cP. N.:. l.
Nas Ordens militares da Alta Idade Media. eujos membros eram
leigos, a praxe se t<lmou mais e mais comum: assim os TemplArlos,
para sulraear um Irmao defunto, estavam obrigados a recitar 100
.P. N.:» por dia durante uma semana Inteira.
Para favorecer esse excrclcio de pll!dade. foi-se aprimorando a
c:onfectlio das eorrcntes que serviam .. contagem das preces: cada
um dêues cordelt de grAo.s se dividia geralmente em dnca dica da.;
eada dklmo grilo era mais grosso do que 05 outros a 11m de fadUtar
o cAlcuk> (portanto, ainda nll.o se usavam, como ho~, séries de dez
grãos pequenos separados por um arDo maior. pois só se dizia o
.P. N.:. ). Tais InSlrUmentos eram m amados cPaternoster_ tanto na
França como na Alemanha, na Inglaterra, na Ih\lla, ou, menos fre·
qüentemente. cnumeralla, fila. computum, preeulae, ; os seus fabri-
cantes COMtltulam prósperas corporações, ditas dos cPatenotrlers:.
ou dos cPalernoslerer:..
Ao lado de tal praxe, ia-se dese:1Volvendo entre os fiélCiõ
outro importante ex~reiclo de piedade, ou seja, o costume de
saudar em tom flUal e alegre a Virgem Santlssima; fazendo
isto. os fiéis Intencionavam evocar principalmente as alegrias
de Maria aqui na terra, em particular a alegria da anuncIação.
Com éste fim, repetiam a saudação do anjo '8 Maria (cAve,
cheia de graça . .. ' , Lc 1,28) acompanhada das palavras' de
Elisabete {-f:bendlta és tu entre as mulheres, e bendito é o
fruto de tuas entranhas.; Lc 1,42. A invocação subseqUente
.-Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós . ..• ainda não estava
em uso na Idade Média) .

- 478-
HISTORICO E SIGNIFICADO DO ROSARIO

Em conseqUênc1a, por volta do ano 1150 ou pouco antes


(época em que a saudação angélica já era multo usual), os
fiéis conceberam a Idéia de dirigir a Maria 150, 100 ou 50
saudações consecutivas, à semelhança do que faziam repetindo
a oração do Senhor: cada . Ave Marlb era acompanhada de
uma evenia::. ou de um gesto de reverincla, Que ao mesmJ
tempo dava caráter penitenciaI ao piedoso exercício. Cada uma
das séries de saudações (às quais cá e lá se acrescentava o
. Pai Nosso.,) devia, segundo a In~nçio dos fiéis, constituir
uma coroa de rosas ofertada A Virgem Ssma.: daí os nomes
de erosário., e «corou (em francês. echapeleb, isto é. oma-
mento da cabeça) que se foram atribuindo a tal prática; a
mesma era outrossim chamada «Saltério da Virgem Santls-
sima." pois Imitava as séries de 150. 100 ou 50 . Pal Nosso."
Que faziam as vêzes de saltério dos irmãos conversos nos mos-
teiros. Destarte se vê que os «Patemoster., e posteriormente
os «rosârlos., entraram na vida de piedade dos fiéis à guisa
de Bre\rJárlo dos leigos. com o fito de entreter nos fiéis a estima
para com os salmos e a oração oficial da Igreja ; o Rosãrlo
tem assim o seu cunho de mentalidade e de inspiração biblicas.

Qua nto ao nome . rosArlo. , r.m pa.rtlcular, foi multo fomentado


por uma historieta popular do sk. XIII: nanoava-se entlo que um
monge cisterciense se comprazla em recItar frcqQentemente 50 .AVf~
Marl:u, as qual8 ema navam de seus lâblos como rosas que se Iam
deposItar nl\ cabeça da Vlr~f!m Ssma.!

Um passo ulterior no desenvolvimento do Rosário se deve


ao mon~e cartuxo Henrique de Egher ou de Calcar ( i' 1408) .
t:ste redigiu um poema intltu1ado ePsalterlum Beatae Marlae."
no qual estimulava a recitação de um ePal Nosso., antes de
cada dezena de . Ave Mariu: ora éste uso, de mera devoçAo,
foi encontrando espontAnea aceitação por parte dos f'Jéis e velo
a tomar-se comum.
Outra etapa Importante foi a associaeão de meditação à
l'ccitatão vocal das eAve Maria." No 5&:, XIV tal praxe estava
em vigor nos mosteiros das monjas dominicanas de Tõss e
Katharlnental. Contudo R difusão e a paulatina generalização
désse costume devem-se a um cartuxo, Domingos Ru~no, que
viveu no Infclo do sée. XV; Domingos propunha a recitação de
50 . Ave Maria." cada qual com seu ponto de reflexão (ou
seu mistério) próprio. Outros sistemas de meditação entraram
aos poucos em vilOr: houve quem se aplicasse a 150. 165. 200 ...
pontos ou mistérios. O dominicano Alano da Rocha (t 1475)
sugeria a recitação de 15 ePal Nosso . . , 150 eAve Mariu, asso-
ciados li. contemplação de 150 mistérios, que percorriam os
- 479 -
.PERGUNTE E RESPONOEREMOS. 35/1960 quo 6 0

prIncipais aspectos da obra da Redencão desde o anúncio do


anjo a Maria até a morte da Virgem Ssrnaoe o juizo final.
Mais uma !acêta da evoluçio do Rosário, já insinuada
pelos precedentes, foi & inclusão dos mistérios dolorosos da
Paixão do Senhor entre os temas de meditação. Isto se explica
pelo carãter sombrio e tristonho que por vêzes tomou a piedade
popular no fim da Idade Média: o grande cisma do Ocidente
(1378-1417), a guerra dos Cem Anos, o flagelo de pestes, os
temores do tim do mundo muito chamaram a atenção dos
fiéis para as tristezas da vida, em particular para as dores
de CrIsto e de MarIa ; muitos então, além das sete alegrias de
Maria, focalizavam devotamente as suas sete dores .. .
A conslderaçlo dIstes t6plcos de hlst6rla mostra claramente que
durante skulos a maneira de celebrar o "Saltério de Maria, variou
multo, 11cando ao arbltrlo da devocno dos 11éls a forma pruw de
honrar a Virgem por essa via. Papel de relêvo na orlentaçlo aeral
da pr6.tlea do Rosl rlo coube, sem dClvlda, à benemérita Ordem de
S. Domingos, " qual 101 sempre multo caro êsse exerdclo de piedade :
atrav& de Innandades do RosArio, assim como por melo de pregações,
escritos. devoclonArlos, etc., os dominicanos difundiram largamente
a devoçAo.
De passaeem dlaa·se: vê·se destarte quanto é vão aflnnar, como
faz um folhetlnho cspnlhado em nosso pQblleo. que o RosfI.r~ é InOVA·
Cão Introduzida no Cristianismo em 1090 . Quem o la, colhe a lmprcss~o
errônea d~ que o RosArio se orlRlnou a toque- de- decreto da suprtmil
autoridade da Igreja!

FoI flna1m~nt~ um Papa dominicano, São Pio V (1566-


1572), quem deu ao Rosário a sua forma atual, determinando
tanto o número de «Pai Nosso, e «Ave Maria» como o teor
dos mistérios que o devem integrar. O Santo PonU!lce atribuiu
l\ eficicla d~ssa prece a vitória naval de Lepanto, que aos 7
de outubro de 1571 salvou de grande perigo a Cristandade
ocidental; em conseqüência, introduziu no calendário litúrgico
da Ordem de S. Dominaos a festa do Rosário sob o nome de
festa ede Nossa Senhora da Vitória». A solenidade foi em 1716
estendida à Igreja universal, tomando mais tarde o nome de
festa «de Nossa Senhora do Rosário,. A devoção foi de então
por diante mais e mais favorecida pelos PonUfices Romanos.
merecendo espcdal rcl~vo o Papa Leão xm, que determinou
f6sse o mês Inteiro de outubro dedicado em tôdas as paróquias
à recitaçfi.o do .RosArlo.
2. Independentemente de quanto acaba d~ ler dito aquI. eslA.
dltundkk ~m. n.lT41UV~ que vl~ l:ixpll~r " orJ;em do Roalrlo em
têrmos diferentes: haveria sido diretamente entreJ[uc. em vldo, pela
Virgem 8antlsslma 1\0 ,lorJoso S. Domlngos quando êste no séc. XlI.
em sua Ardua mlssAo contra a heresia albigense, pedia o auxilio da

- 480-
HISTÓRICO E SIGNIFICADO DO ROsARIo
MAe de Deus, no mosteiro de Proullle (onde S. Domlneos institulra
um centro de preelu;lo e o primeiro cenóblo dominicano feminino) .
Abalizados erlUcos católico. nllio rcconhecm1 a autentlcld4de dessa
narraUvL Uma das mala fo"es raz6es por fies evocadas é o silêncio
das fontes hlst6ricu : nenhuma das peças anUps do al"Quivo de
Proutne, nem OI sete primeiro. btó~os de S. Dom.1ngos, nem alaum
outro documento dos aéc. XW/XIV refere alco da apreroada vfsAo.
O primeiro D. mencionar a apariçAo da Ssma. Virgem a S. Domin-
gos ~ o religioso dominicano Alano da Rocha (f 1475), o qual, após
referir a vjlAo. celebra S. Domlnaos como restaurador e arauto da
prece do RosArio, pr~ li. usual nos ltmpos c!os Apóstolos! O teste-
munho dêsse autor, além de tardio, ~ por si poueo fidedigno; Abno
Julgava ier sido fie mesmo aeraclado por visOe$ que lhe haveriam
mostrado t&la a vida de S. DominIOs! ...
3 . O costume antlt::o de rer.Ur ora<;Oes" eulsa de coroa I!Iplritual
não J;e conc:reti2:ou apenas no os.trio de Nossa Senhora. Além. ~te,
ntlo em uso entre os fiéis outra. coro.. esplrltuaia representadaJ por
um colar de contas correspondente. Assim:
a} a coroa dos Crqelreros: tem a mesma forma que o Rosirlo
mariano, e reclta-.se do mesmo modo. .sem. obrlgaCão, porém, de
meditar os mlsUrlos õ é apanlll'lo da Ordem dos COneaos l1a Santa
Cruz ou Cruclferos;
b) a ~oroa do Senhor: consta de' 33 cPal Nosso» em memória
dos 33 presumidos anos da vida terrestre de Cristo, 5 cAve Maria»
em memória das cinco cha,as do Redentor, e um Credo em honra dos
SS. Apóstolos. Teve origem na Ordem dos monges camaldulenses õ
c:) • coroa da." Sete Dorel! de ~(.rIa: comp(le-se de sete H.rlel
de 1 cpal Nosso» e 7 cAve Marla ~ ; acrescentam-se 3 cAve Maria» em
honra das Iler1mu do. Vlre cm Dolorosa i durante a recltaçlo medi·
l:am-$(! as sete Dores de Maria. t: devoção multo eara 1 Ord(!m dos
Servos ,Ie Mnrln;
d ) • (!oroa 4aa: Sele Ale"rl. . de JUan.: divide-se em sete décad...
cada qual constando de 1 cPaI Nosso» e 10 cAve Maria». Ac:resc:en·
tam-se mais duas cA. M.», .. fim de perfazer o nÍ1mero de 12 saudaç6tt
angélicas: dl.zem....se, por fim, 1 cP. N.z>, 1 cA. M.» e 1 cGl6ria» ~ndo
as IntençOes do Sumo Pontlflee. Esta coroa se prende especialmente
.t história das tammas rellalosu franciscanas;
e) a coroa anC'éllea, em honra de S. Miguel Arcanjo e dos nove
coros ang~lleos. Constltul..se de nove séries de 1 cP. N.» (grl o maior)
ti 3 cA. M.» (arios menores), às quala se seg:uem 4 cP . N.» <er&oa
maiores) ; além disto, compreende InvocaçOes aos coros angélicos:
n a roroa de SI•. Br1~lda: constava, a prlncipLo, de 6 dezenas
Icada qual de 1 cP. N.'», 10 cA. M.'» e 1 Credo}, Jleguldas de 1 cP. N.»
e 3 c,A. M.» (63 cAve Maria» colTesponderlam aos 63 presumidos anos
de vida l1a Vltaem Ssma. s6bre a terra). Foi posterlonnente reduzida
a cinco deunas. Esta devoçll.o, ainda usual em nossos dias, teve surto
na antiga Ordem de 510. Brij:tld:a. hoje nlloo mais existente.
2. O significado do Rosário como forma de oração
o RosArio tem provocado reJlervas e objeções baseadas na Indole
aparentemente mecAnlea dêsle tipo de oraclo: muitos o têm na conta
de exetclclo fadado ao automatismo e à rotina, apto a esterilizar a
v1da de unlAo com Deus mais do que a estlmulá-lll.

- 481-
_ i PE;RG~"'M"E ~ESPONDE!!§MOS. 35/ 1~._ q~ •. 6

Não obstante, verUlca-se qUI! tanto os santos como grandes sábius


cristãos multo estimaram o ROIArio. - Pt'rgunta-se entAo: como
entender o valor atrlbutdo a es.tia devoçao?
Nlo se poderia formular um juizo adequado sObre tal prldca.
caso se levasse em conta. apenas a sua face externa. A repetlclo de
preces vocais pode ,realmente dar a ImprHSlo de que se ml!CaJ\iza
e materializa a oraçllo (a qual é essencialmente elevaçlo da alma a
Deus) ; pode destarte pareter Incorrer na condenaçlo que Jesus
proferiu no Evana:clho: cQuando orardes. nlo multiplicareis as pala-
vras, como lazem os ))c'\Q:lios. os quais ju1eam que serlo atendidos
em vista da multidão de suas palavraa. (Mt 6,". Neste texto, não
há dúvida o Senhor reprova a concepc:lo que laz coincidir oraçAo
com rcpet{çi\o de vocibulos, como lie o homem pudcs:;e influir s6brc
a D ivindade JX'lo aparato de sua verbosidade.
Nilo é, porém, por deito dessa mentalidade que se repetem as
.. Ave Maria~ na recltacAo do RosArio. NAo; estas têm valor totalmente
,subordinado ; visam apen3s criar uma atmosfera, um clima, dentro
do qual o esptrlto mais compassad&mente se possa elevar a Deus;
é a contempla,io interior, acompanhada de atos de amor, que con.tltul
a finalldade da repetlçi.o de fórmul .. no RosArio. A oraÇl.o vocal,
no caso, pode ter comparada ao corpo, ao pano que a contemplaç1e
faz as véus da alma do Rolirlo. Ora, asstm como a alma humana,
em condlçOea normal. neste mundo, precisa da eolaboraciG do corpo
até mesmo para exercer as suas {un('OH mal, sublimes, assim também
a elevaçAo da alma a Deus na oração precisa de um esteio 8enslvel,
que, no caso do Rosário, vem a ser a ~ltaçAo das ... Ave Marla~:
esta cria como que um cespaço~ espiritual dentro do qual a. meditação
e o afeto se devem desenvelver; a monotonia das fOrmulas é quebrada
pelo ritmo progressivo da meditaçlo ou da contemplaçlio, Destarte
o Rosirlo pOe em acl10 tOdas a.5 potencialidades do homem, tanto as
espirituais como as corporais, para promover a unlAo com Deus.
A luz do que d l~moll. o Ro~,rlo hfl. de su tido como t'xpress!lo
caracterl.stlea da n3turcza humana colocada na prcsençu de Deu • .
1:: mesmo expressA0 tio autêntica uu natural que ela. tem seus para-
lelos fora da pk!dade ocidental. Assim entrc os erlstGos orientais estA
muito em uso, tanto na liturgia comum como na devoçGo particular,
o chamado .. hino Otatistu_: L'OJUlta d~ um proêmlo poético e de 24
estrofes, cada qual Inici:lda por uma letra do alfabeto ereao, c:ele-
brando o anúncio do anjo a Maria. (d. Lc 1,26-36). Nesse hino 156
aclamaçoe. à V1ra:em Ssma., precedidas cada qual da mesma ..udaC'Ao.
correspondem de certo modo 1 & 1SO cAve Maria~ do RosArio. Como
atestam 05 vlaja nles, nAo h! crlsUio orientai que não saiba de cor
o hino acatisto. '
Mesmo nas principais rellglôcs da ÁSia c no lslamismo é costume
rezar mtdlanle a repcUcAo da mesma fórmula. Ora o fato de que tal
praxe esteja dl1undlda e.ntre homens de clvlllu('Oes e temperamentos
tio diversos sl..nlflca que ela bem corresponde às dlsposlçOes mais
espontlneu da natureza humana.
Estas coJUIIlderaç6('s conCOrT<!m para que se entenda a poslçAo
que o S. PAdre o Papa Pio Xl tomou lrente ao RosArio, declarando:
cQuanto "tio lona. do caminho da verdada aquêles que rej.ltam
..... mftodo de oraçlo (o Rourio) qual fórmula fastidiosa e canW"'a
monótona, conveniente apenas a crlancas e mulheres simples! •.. A
piedade ae comporta .. semelhança do amor: mesmo que repUa Hmpre
as mesmas palavras, estas nlo exprimem sempre a mesma calsa;
mas aliO de novo por elas se traduz, algo de novo Inspirado . por
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HISTÓRICO E SIGNIFICADO DO_ ROSÁRIO

novos e navos afl!t05 do a mon lenc. cIngravescentlbus maUs. de


25 de set. de 1937; A. A. S, XXIX (937) 376).
O Pe. LaC'Clrdalre It 18611, por sua vez. escrevia:
cO raclonalLsta sorri, vendo desfilarem multidões a repetir sempre
a mesma palavra. Aquêle, porbn, que é iluminado por melhor Juz,
compreende que o amol' só tem urna palavra e que, ao proferl.la
C'Clntlnuam ente, o amor jamais a repete. (Vle de Salnt Domlnique c. VI),
A Sl-Ilsa d& cancludo, ainda se Imp6e breve observação sueerlda
pela sinceridade e R hont"itklade: apesar dos vllrlos tltulos Que reco.
mentiam a recltaçAo do RosArio. verltica-$f! que na prática não é fleil
retA·lo camo Nc deve ser rezado. São Luis-Maria Grlgnlon de MonUort
(f 1716), certamentel:rande a mli'o das devoç&!S marianas, julgava
que o RosârJo é, ao mesmo tempo, co método mais fâeil de mcdltaçAo.
e ca mais dlflcil das oraCOCs vacals,.
Par Isto, se um cristão, por mais fiei que seja à , raça de Deus,
nAo canseirUe farnlllarl7.ar-se cam esta forma de deVotA.o, ser! preciso
,! 'eapeitar a açlo do Eaplt'lto Santo Iml sua alma e nlo lhe Impor
corno obr J.aClo de consdêncla tal modalidade de oraÇlo 4ameno.
que lhe sej a prescrita por Regra ou por voto); cada justo tem .ua
personalidade pr6prl., que .. )traça de Deus costuma nilo destruir,
mas a ntes desenvolver e a~rlelçoar.

CORRESPONDENCIA MIODA
CATEQUISTA interro«a : "Seri. n~euir;o in~util' a acio de gra-
çu ap6. a S.nt. Min. de Comunhio ou pode-" admitir que os comun-
gantes se retirem da i«r'eja logo .pós tarmlnada a Mina 7"
- Quem ~munA'a de''';! nolmal ~nte permanecer em ação de graçu
dCJIOI. da S. &tinA Iltlo InWt'V.alo de dn ou quinze minutet. du"nte OI
quais .e ~onaet'V.m ., .....,..d•• eap&:ie .. c, )'101' con.csruintc, • I''eal pre-
sença do Senhor no comunrrante, Par:t i1ultrar a Importinel. delta praxe,
~ltuma·ae rel.tar que S, FiltE ' Neri ('t Hi95), eElI1a vez ao ver uma
Rnhora .. Ir d. l!freja 10ft!) a • A S, MI... em que «lmungara, m.ndou
que doi. coroinha. a .rompan usem, levando cada qual uma tocha a~e..
na mio,
Es.ta IplJ6d1o SUge l" nio .mente o dever, mas t.mbém oa motivo.
da açio de .. raç •• apó. a S, Miua de Comunhio :
1) enquanto •• upéciu uJtl'todaa permaneeem no ~omunga.nt.e, êste
é dc eer\.o modo al!lemelh. do ao tabel'nác ulo do altar e ao casto selo d.
Vil'J:Cm, VE'lc então que cometeria Irr everbcl. fluem 51! dClCuilluae IH
purmanec:er cxplkit.mente em presença do Senhor dura ntc tal eapaço
de tempo.
2) O Senhol' Je.us na Comunhio se dá a08 seua fiéis .na plenitude
de MU amor e de .u. Iiberalld.de (dom maior do que. S. Comtlnhio nlo
ae poderia detejar aqui n. torra). Como entio te pode conceber, nlo
h.ja da parte do conlUnpnto um. atitude da entrega fi doaclo corres·
pondente, .titude que o leve. elcutar o Senhol' e • C.t.r-Lhe de maneira
puaoal e intima apóa u 01'&ç6e. comunltáriaa da S. Mina T As preces
oflcl.l. da Liturrta d. Mina .póa a Comunhio, longe de di.perua\" a
oraçlo p.rticul. l· do. ti6l., exigem qUfI cada um procure ualmilar pelloal·
mente a açio de .raç.a litúrgica num intenlO col6qulo particular com
Dflu.; Em vill. dillo, nio «lnv~m (fora elrcunatlnelaa exceeklnal.) que
o aacerdote ocupe o tempo dA .çlo de ,r.ças com a recitação do Oficie

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS_ 3Ml960
Divino (ou Bre,.j6rio). recltaçl0 ella obtl,at6tia independentemente da
S. Mlsu.
Os unto. m\lita ....kes afirmuam que um dos momentos maia pl'e-
cioaos da vida espirit\lal é ju.tamente a ação de gn.çaa ap6a a Euca-
ri.tia. Durante o ecradechnento deve hanr, conforme o Pe. Gatrigou-
-Lagrango :
contato da ISnla. alma humana de Jesus, unida ao Verbo de Deus,
com a noua alma,
unilo Intima da Inteligblcia humana de Jesus, iluminada pela lus
d:l g16ria, eom a nossa inteligência, muitas vl!ses obscurecida, esquecida
de nosaos srandes deverei, embotada em relaçio ãe coiue de Deus,
uniio da vontade humana dc Cristo, imutàvelmente fixa no benl,
com n no... vontade vacilante,
união da .cnl ibilidade puri.. ima de Je.u. eonl a nossa seneibilidadr
por vf:c. muito apaixonada; nl Hnaibilidade do Salvador exiatem ai
,·irtude. da fortalesa e da "ü ,indade que fortalecem e vil'ginium (puri-
ficam) ai alm .. que le apresentam a Cristo.
Justamente uma daa r.zõea maia comuns pel.. qu ais a S. Eucaristil
nia produz no. comungantc. o. frutOI almejado. é a negli~ncia na
~o de ,raçal ; em conaeqU~ncia, diz-.. que pode ),aw!r ti e li "muita.
comu nh5ea, ma. pouco. ton.ll comungante.".
Conselento tliato, a S. Igreja tem lucel8i\'amente l~endado I
aCio dc gTacal após a Euear.i.tla, de\·cndo·ae " ültima declal"Dcão, a
~!to propóll to, no Santn Padre o Papa PiCl XII :
~A açio aa~mdn ... mio diapclll'III ... nçii,. rle gl-nc;ns ,Iafloole que !.lI-
bol'eOU o aUmento « lute; é coiAB, alhb, muito conveniente que, nccbidn
o alimento eucarlatlco e termlnadOl 08 ritos públicos, se recolha e, inti-
mamente unldfl an Div,inCl M Clltl'Cl, .e ent l'etenha com tle tanto quanto
a. elrcunatlnchu pcrmltanl, em suavisaimo c saJu\nr eolÕqlolio. Atu14m-II!.
pai.. do reto terninho da Verdado aqu!lca que, baseando-se em pIlav,...
maia do que no R ntido da realidade, .tinnam e ensinam quc, acablda a
Mina, nlo 18 de\'e prolon!l'sr a açio de graças. não só porque o Sacri-
f~lo do alta,r é por 8ua naturua uma açÃo de graça.. m ... também por-
que Jato pertence i& I,iedado luntic:uID" , IICSIIOo.l, e não 11.0 bem di. comu-
nldade ... A S. Liturgia, lon~ de l urocar OI Intimoa sent imentos par-
Uc",Jaru do. uiatlol, oa facilita c eltimuJa para que sejam a .. imllado•
.11. Jesus Criato e por meio d'tle dirigidos DO Pai. .. Ao Divino Redentor
aIrada ouvir ai noana OrtlçMS, ralar de cOl'ação aberto eonoKO e ofere-
cer-MII refúrio no R'" eoro.cl0 ardente" (ent. "Medialor Dei-).
NIHIL; no. nl'lmerol do "P. R." de d~mbl'o e jo.neiro pr6ximos
encontrllrl re. po.lu. 11 l)ueat6e• • õbl'ê a sanlidade de Deus, o dem6nio e
o pccado.
Temo. dianl(> eMS olhflll virl.. eal11ls de nossos ImilrOS, 11 quais
scntimol niio pod(r respo nd~r " O I' (alta de end<!l'êco.

D. E5TtV.AO BETTENCOURT 0.5.B.

cPERGUNTE E RFBPONDERElIIOS.
BEDAÇAO ADDlINlSTBAQAO
(lalxaPaRai 2m R. Bal GrancJe&a. 108 - Botaloso
BJo de I.nelro Te l. 2.. 18t2 - RLo de .Iu.1M

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