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Que é a

Igreja Católica?
“ Que é a Ig re ja Católi­ lavras o que equivale a
ca?” é uma pergunta que um modo de vida, a uma
pode parecer desnecessá­ filosofia, a uma religião,
ria, e no entanto é feita a uma concepção do mun­
cada dia a sacerdotes, a do, a uma mentalidade, tu­
chefes de centros de in­ do fundido numa coisa só?
formação e a simples ho­ Por certo não podemos fa-
mens e mulheres católicos. zê-lo, mas procuraremos
Para algumas pessoas aqui explicar os elementos
essa pergunta é necessá­ básicos da Igreja. Antes
ria; e é feita com tôda sin­ de tudo explicaremos a
ceridade. Querem saber al­ nossa “ Constituição” , como
go sobre essa coisa que tanta lhe chamamos, a qual é o Credo.
significação parece ter para os Oficialmente e para a história,
católicos; têm curiosidade de sa­ é êle que determina o que nós
ber o que é que os católicos somos. Depois descreveremos os
creem e o que é que há por trás meios pelos quais os católicos in­
de algumas das práticas que no­ gressam na Igreja, pelos quais
taram nos seus vizinhos católi­ continuam a sua vida na Ig re ­
cos. Sabem que por trás de tu­ ja, e através dos quais passam
do isso está essa coisa chamada para a vida do céu. Êstes meios
“ Ig re ja Católica” . Daí a pergun­ são os Sacramentos.
ta : “ Que é a Ig re ja Católica?” As leis de qualquer sociedade,
A pergunta é fácil de fazer, tal como o é a Igreja, são im­
mas não assim tão fácil de res­ portantes para compreender es­
ponder. Que havemos de dizer aos sa sociedade. A s leis da Ig re ja
que nos fazem sinceramente es­ de Cristo resumi-las-emos sob o
sa pergunta? Que lhes havemos título “ Os Dez Mandamentos” ,
de dizer, e como podemos espe­ pelos quais devem os católicos go­
rar transmitir-lhes tudo o que vernar a sua vida.
essa Ig re ja significa para nós?
O que nos perturba não é a fa lta Essencial a tôda vida católica
do que dizer — antes, há tan­ é o Santo Sacrifício da Missa.
ta coisa a dizer, que não sabe­ O ano eclesiástico g ira em tor­
mos por onde começar. Mas co­ no da Missa. E ’ na Missa que
mo podermos pôr em poucas pa­ nós cumprimos aquilo que é o

VOZES N. 52 • 1 1
dividual, o culto de Deus. a Ig re ja de outros modos e
E* importante compreender a compreendem mal a sua real
organização da Igreja. A Ig re ­ natureza.
ja é uma instituição divina, mas O que a Ig re ja significa p a ra
existente entre homens e com­ os seus membros é algo que s ó
posta de homens. Inevitàvelmen- um católico pode saber por expe­
te, portanto, deve haver no go­ riência e ninguém pode descre­
verno da Ig re ja muita coisa que ver. Mas nestas páginas podemos
corre parelhas com as institui­ dar ao não-católico interessado
ções humanas. Êste aspecto da uma breve noção da Igreja q u e
Ig re ja é aquêle que está mais ex­ será interessante, ao mesmo tem ­
posto ao não-católico, e que, po que conducente a uma com­
muitas vêzes, êle mais criti­ preensão mais profunda e m e­
ca, tal sucedendo especialmen- lhor dessa mesma Igreja.

Aqui tiosfirmamos...
O CREDO CATÓLICO
O Credo é, por assim obra de Deus. Só a B í ­
dizer, a “ Constituição” da blia é a sua regra de f é ,
Ig re ja Católica. dizem êles, e de nada m a is
E ' a nossa declaração querem saber.
de crenças fundamentais, Mas isto é justam ente
a nossa confissão de prin­ fazer jôgo de palavras.
cípios. Pode-se fazer mui­ Quando um homem d iz
tas objeções à Ig re ja Ca-, “ Creio” , formula um c re ­
tólica, mas jamais se po­ do. A palavra “ credo”
derá dizer que ela é im­ deriva da palavra latina
precisa ou vaga. O que a “ credo” , que significa
Ig re ja Católica ensina — “ creio” . Ninguém pode
sua atitude para com Deus, pa­ escapar de ter um credo, porque
ra com o homem, para com o ninguém pode escapar de crer
mundo — é matéria do domí­ coisas, de aceitar coisas por fé.
nio público, inscrita no seu Isto é tão inevitável nos negó­
Credo. cios humanos como em religião.
H á alguns cristãos que fogem Nós agimos com base em pre­
de credos, coisa que êles dizem sunções, princípios e idéias que
serem fórmulas de homens e não aceitamos à base de fé —

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SUflçocs e princípios, por exem­ nenhum mais absoluto, do que o
plo, de que a Terra é redonda, credo do agnóstico, ou, como po­
embora poucos de nós possamos demos chamar-lhe, do “ livre-pen­
prová-lo se chamados a fazê-lo. sador” . Êste credo inclui não só
Comumente nós dizemos coisas princípios incapazes de prova, co­
tais como “ dois e dois são qua­ mo também, usualmente, alguns
tro” , embora tenhamos de acei­ princípios que contradizem a ex­
tar a palavra dos matemáticos periência humana — por exem­
de que dois c dois nunca são plo, o de que “ é impossível o
cinco. Os fatos científicos que m ilagre”.
nós proclamamos “ c o n h e c e r ” , O homem, em verdade, é um
simplesmente os aceitamos à ba­ animal fazedor de credos, como
se de fé, e não de experiência o disse certa vez G. K. Ches-
pessoal. terton. E não há nada de extra­
Isto também é verdade em ordinário no fato de a Igreja
matéria de religião. Tratando Católica ter um Credo. Mas há
de verdades religiosas ensina­ algo de extraordinário no Cre­
das quer pela Bíblia quer pe­ do da Igreja Católica.
la tradição, nós temos fatos que A primeira coisa que coloca o
em muitos casos não podemos Credo da Igreja Católica à par­
provar. Podemos ser capazes de te de todos os outros credos <
dar uma justificação razoável ser êle definido. Com isto que
para a nossa crença, mostrar que remos dizer que êle é honeste
estamos agindo sensatamente em E é honesto porque é permanen
crer, e mostrar que o que cre­ te. Êle é um documento defini
mos é razoável, mas não pode­ do, inequívoco, significando a
mos fazer mais do que isso. O mesma coisa tanto para um ho­
que aceitamos, aceitamo-lo como mem como para outro, e — o
matéria de fé, como verdades a que mais importante é — a mes­
nós ensinadas pelo próprio Deus. ma coisa para uma geração co­
Êle nos revelou essas verdades; mo para outra.
nós não as encontramos por nós
mesmos. Êles discordam
Portanto, quando um homem O homem que diz: “ Creio que
aceita como sendo a palavra de a Bíblia é a palavra de Deus”
Deus a Bíblia ou qualquer outra profere um credo, e um credo
parcela do ensino religioso, es­ muito importante. Mas êsse cre­
sa própria aceitação é o seu cre­ do não é definido. A “ palavra
do. Ocioso é, conseguintemente, de Deus” queria dizer uma coi­
para qualquer um, o dizer que sa para Martinho Lutero, porém
não tem credo. Cada um tem um quer dizer algo de completamen­
credo; especialmente cada pes­ te diferente para um moderno
soa religiosa. Alguns credos são pensador religioso como Albrecht
complexos. Talvez nenhum seja Schweitzer. Um pensa que a “ pa­
mais complicado, e, certamente, lavra de Deus” significa o cor-

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Deus único revelou na Bíblia. coisa é aquilo que é, e nada maia.
Outro crê que há muitas “ pala­ Uma coisa ou é ou não é. Não
vras de Deus” , que Deus é acha­ há outras alternativas. Se uma
do igualmente na Bíblia, no Upar coisa é verdadeira, não pode ser
nishads hindu e em outros “ li­ também falsa. A verdade, por­
vros santos” . Daí, dois homens, tanto, não pode mudar. Aquilo
enquanto podem usar das mes­ que Deus revelou como verdade
mas palavras, podem querer sig­ por meio de Jesus Cristo deve,
n ificar coisas vastamente dife­ em consequência, ser a mesma
rentes. coisa ontem, hoje e sempre. A
Algumas pessoas, por certo, nossa aceitação dessas verdades
contentam-se com esta vaga es- — que nós exprimimos no Credo
pecie de credo. Mas a pessoa — deve portanto ser imutável.
honesta insurge-se contra esta Concedido que um ou outro de
indecisão. Quando alguém escon­ nós pode conhecer uma verdade
de as suas convicções religiosas melhor do que seu próximo, ou
por trás de palavras ambíguas, que uma geração pode ter d ela
uma de duas coisas deve ser ver­ um conhecimento mais profundo
dade: ou ela não tem crença cla­ do que uma geração anterior, o
ra, ou então não está disposta a fato é que a verdade que é acei­
dar claro testemunho de sua cren­ ta deve em todos os pontos es­
ça. Nem uma nem outra dessas senciais ser a mesma.
posições é possível numa pessoa
de sinceridade religiosa. As coisas mudam
O Cardeal Newman disse qu e
Credo positivo o sinal de vida neste mundo é
E nem essa obscuridade é pos­ a mudança — isto é, quando nós
sível no Credo Católico. V er­ vemos uma coisa que cessou d e
dade é que partes do Credo Ca­ mudar e está sem movimento,
tólico são usadas por outras re­ sabemos que está morta. Mas a
ligiões que se separaram da Ig re ­ mudança está em nós, que v i ­
ja. Nessas outras religiões as vemos neste mundo, e não em
palavras do Credo podem ter as­ Deus imutável. A mudança está
sumido outros significados ou ter na nossa apreciação da verdade,
deixado absolutamente de ter e não na própria verdade, que
qualquer significado real. Mas, é revelação do imutável intelecto ;
como usada pela Ig re ja Católica, de Deus. A Igreja, como um cor­
que form ulou o Credo, cada pa­ po de homens, muda com um :
lavra é claramente definida e é mundo mutável. Acha novos pro- ?
do domínio público. blemas e oferece para eles no­
Os católicos creem que a ver­ vas soluções. Recolhe dentro de •
dade é uma só, absoluta e imu­ si novos povos, com outras men­
tável. Isto quer simplesmente di­ talidades e diferentes tratos. Por­
zer que os católicos crêem que as tanto, alista novas técnicas no i
seu serviço, ruao isto c como de­ mfestar-se e dizer que M ana era
veria ser. a Mãe de Deus — justamente
A Igreja cresce em sabedoria como, por exemplo, eu posso, du­
com as idades. Melhores modos rante a minha vida toda, nun­
de dizer as coisas são inventa­ ca ser obrigado a declarar ex­
dos. Aquilo que os cristãos do plicitamente que a mulher a
primeiro século implicitamente quem chamo “ mãe” era a espo­
criam, a Igreja, numa geração sa de meu pai. A Igreja poste-
posterior, pode achar necessário riormente foi obrigada a cogitar
declarar explicitamente, à medi­ do assunto e a afirm ar o que
da que surge a necessidade. Isto sabia ser a verdade.
é apenas ser honesto e fiel à
verdade. E* em tais ocasiões que A Igreja também muda
nós temos aquilo que é chama­ Por êsse processo de vinte sé­
do uma definição de doutrina — culos de pensamento e de medi­
uma explanação explícita do tação sôbre as verdades divinas
Credo — manifestado através reveladas por intermédio de
de concílios gerais da Igreja in­ Cristo foi que a Igreja adquiriu
teira, ou através do seu chefe vi­ uma compreensão delas que vai
sível, o Papa. muito além da possuída pelos
Por exemplo, tome-se o assun­ primitivos cristãos. O ensino de
to de Maria como Mãe de Deus. Cristo, embora dado em parte
Os primeiros cristãos criam isto, no Nôvo Testamento, não está
embora nunca o declarassem em preso ao Nôvo Testamento. A
muitas palavras. Em muitas pa­ doutrina cristã é uma coisa viva,
lavras eles declaravam que Ma­ que não deve ficar confinada aos
ria era a verdadeira Mãe de poderes de expressão dos pou­
Cristo, e que Cristo era o ver­ cos escritores que criaram êsse
dadeiro Filho de Deus. Era, pois, documento inspirado. “ O Cristia­
apenas uma dedução o chamar nismo” , escreveu A. T. Robertson,
M aria Mãe de Deus. Em 431, “ não está sepultado num livro.
no Concílio de Éfeso, a Igreja Existiu antes de ser escrito o
julgou necessário declarar isso Nôvo Testamento. Êle é que fez
em palavras claras. Já não se­ o Nôvo Testamento. E justamen­
ria honesto ou fiel à verdade não te porque o Cristianismo é da
declarar isso, porque, abstendo- grande democracia é que é ca­
se de uma declaração, a Igreja paz de se aplicar universalmen­
pareceria pactuar com os que te a tôdas as idades e a tôdas
negavam ou que M aria era a as terras e a tôdas as classes” .
verdadeira Mãe de Cristo ou que
Melhor compreensão
Cristo era o verdadeiro Filho
de Deus. Os primeiros cristãos, O processo pelo qual o ensi­
que nunca tinham duvidado de no de Cristo tem-se tornado mals
nenhuma destas duas verdades, bem apreciado, mais explícito e
não tinham sido obrigados a ma- pormenorizado, e expresso na

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de tôdas as terras e de tôdas as e na vida eterna. Amém” .
classes, é aquilo a que chama­ Êste Credo foi adaptado às ne­
mos o desenvolvimento de dou­ cessidades ordinárias da Igreja ,
trina. Mudança certamente tem como é testemunhado pelo seu
havido, mas a mudança tem si­ uso constante desde então até o
do no homem e no seu modo de nosso tempo. Tôda criança ba­
entender. O ensino de Cristo não tizada na Ig re ja tem essas pa­
tem mudado; apenas tem-se tor­ lavras repetidas por si pelos seus
nado mais bem conhecido. padrinhos. Quando um conver­
Nem o Credo mudou, porque tido é recebido na Ig re ja como
o Credo é simplesmente a expres­ adulto, é-lhe pedido exprim ir a
são das verdades básicas do Cris­ sua fidelidade à religião de Cris­
tianismo. Mas o Credo também to nos termos do símbolo apos­
se tornou mais bem entendido e tólico.
mais explícito, juntamente com
as doutrinas que estabelece. Crenças definidas
O Credo básico da Ig re ja Ca­ Todavia, quando surgiram ne­
tólica, como mui familiarmente cessidades especiais, vários a rti­
conhecido, é chamado o Símbo­ gos do Credo foram desenvolvi­
lo Apostólico. Recebeu este títu­ dos para maior esclarecimento.
lo por causa da sua grande anti­ Os mais notáveis dêsses esclare­
guidade. Data de tempos mui cimentos foram feitos durante o
primitivos na Igreja, meio sé­ Concílio geral da Ig reja em N i-
culo, ou que tal, a partir dos úl­ céía, no ano 325, e no Concílio
timos escritos do Nôvo Testa­ de Constantinopla, em 381. Ca­
mento. O Símbolo Apostólico é da um dêsses concílios deu ine­
como segue: quívocas respostas definidoras da
"Creio em Deus Pai, todo-po- crença dos verdadeiros cristãos
deroso, Criador do céu e da ter­ contra movimentos heréticos que
ra ; e em Jesus Cristo, um só ameaçavam a vida do ensino de
seu Filho, Nosso Senhor, o qual Cristo. Por exemplo, o Concílio
fo i concebido do Espírito Santo, de Nicéia teve de tornar clara
nasceu de M aria Virgem , pade­ a verdade da eternidade da exis­
ceu sob o poder de Pôncio Pi- tência de Cristo, como ensinada
latos, fo i crucifiçado, morto e no evangelho de João 1, 1, contra
sepultado, desceu aos infernos, a heresia Ariana que sustentava
e ao terceiro dia ressurgiu dos ter havido um tempo antes do
mortos. Subiu ao céu, e está sen­ qual o Verbo não existia. Êste
tado à direita de Deus Pai, to- esclarecimento foi feito na for­
do-poderoso, de onde há de v ir ma de uma versão mais longa do
a ju lg a r os vivos e os mortos. Credo, a qual é recitada todo dia
Creio no Espírito Santo, na San­ durante a Missa católica e em
ta Ig re ja Católica, na comunhão outras ocasiões. Êsse é chamado
dos santos, na remissão dos pe- o Credo de N icéia e Constanti-

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nopiu, ou JNiceno-uonstantmo- Deus. Dm certo sentido, a fé quer
politano, ou, mais simplesmente, o dizer participação nos próprios
Credo Niceno. pensamentos de Deus; porque
aquilo que só Deus pode saber de
Os fundamentos si mesmo êle o tornou conheci­
Como facilmente pode ver-se, do a nós. Conhecemos a sua
o Credo consta de dois temas es­ própria natureza íntima — isto
senciais — um relacionado com é, que êle existe em três Pessoas
a crença na SS. Trindade, e ou­ divinas possuidores de uma só
tro com a nossa profissão de natureza divina: fato êste a que
fé em Cristo. Êstes são os dois chamamos a Trindade. Não havia
princípios fundamentais do Cris­ modo possível de conhecermos is­
tianismo, nos quais todo o res­ to a não ser pelo próprio Deus.
to das nossas doutrinas se ba­ Dos lábios do Filho de Deus sa­
seia. Por conveniência, geralmen­ bemos que a relação existente en­
te nós dividimos o Credo em tre as Pessoas divinas se espe­
"artigos” . lha na relação que êle nos per­
No primeiro artigo dizemos: mite compartilhar consigo. Se
"Creio em Deus Pai, todo-pode- nós temos fé nêle, de algum
roso, Criador do céu e da terra” . modo participamos da sua pró­
Dizemos aquilo que todo homem pria vida.
razoável deve dizer se fô r fiel à
sua razão. "Desde a criação do O amor de Deus
mundo os atributos invisíveis de “ Vireis a compreender (di 2
Deus são claramente vistos, es­ Nosso Senhor) que eu estou no
pecialmente o seu eterno poder Pai, e vós estais em mim, e eu
e divindade, os quais são compre­ em vós. Aquele que aceita os
endidos através das coisas que meus mandamentos e os guarda
são feitas” (Rom 5, 20). Con­ — esse é que me ama. E aquele
forme Paulo acertadamente diz, que me ama será, por sua vez,
a própria razão nos diz que de­ amado por meu P a i; e eu o ama­
ve haver uma Causa para isso rei, e manifestar-me-ei a êle”
que nós vemos em tôrno de nós (Jo 14, 20 ss.). Por quantos sé­
no mundo, e que, se nós vemos culos os maiores filósofos e pen­
bondade e beleza no mundo, en­ sadores do mundo, antes de Cris­
tão a sua Causa deve ser o Bem to, suspiraram justamente por
e uma suprema Beleza. êste conhecimento, de haver um
Porém nós cremos muito mais Deus que cuida das suas cria­
sobre Deus do que aquilo que a turas, que quer amá-las e por
mera razão nos diz. A nossa fé elas quer ser amado 1
funda-se na razão, mas vai mui­ Quando dizemos: “ C re io ... em
to além daquilo que a razão de- Jesus Cristo, um só seu Filho,
sajudada pode conhecer. A nos­ Nosso Senhor, o qual fo i conce­
sa fé depende da própria reve­ bido do Espírito Santo, nasceu
lação feita de si mesmo por de M aria V irgem ” , atestamos a

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to singular da história do mun­ M aria é com razão chamada
do, a Encarnação. Literalmente, Theotokos, isto é, “ portadora de
a Encarnação quer dizer “ a to­ Deus” . Isto novamente ilustra o
mada de carne” . O eterno Filho quanto é inequívoco o Credo da
de Deus, o único Filho de Deus Ig re ja como sustentado pelos ca­
ao qual esta palavra pode ser tólicos.
com propriedade aplicada, as­ Jesus, dizemos, “ padeceu sob o
sumiu a natureza humana e fêz- poder de Pôncio Pilatos, foi cru­
se o homem que a história conhe­ cificado, morto e sepultado. Des­
ce como Jesus. Sem deixar de ser ceu aos infernos, e ao terceiro
Deus, esta Pessoa divina tornou- dia ressurgiu dos mortos. Subiu
se também um de nós, como nós aos céus e está assentado à di­
“ em todas as coisas exceto no reita de Deus Pai, todo-poderoso,
pecado” (Heb 4, 15). Já ligado de onde há de v ir a ju lga r os
a nós como Criador, êle assumiu vivos e os mortos” . Com isto di­
uma perfeita unidade com a hu­ zemos que êle nos remiu, que a
manidade através da Encarnação, sua paixão e a sua morte nos li­
e pela sua morte pôde libertar- bertaram do pecado. “ Não há
nos do pecado. N a sua existên­ senão um só Deus e um só M e­
cia gloriosa no céu, deu-nos um diador entre Deus e os homens,
quinhão na sua própria v id a : Cristo Jesus, também êle homem,
“ Foi entregue por causa dos que se deu em resgate por to­
nossos pecados, e ressuscitou dos” (1 Tim 2, 5). Em Cristo,
para a nossa santificação” (Rom e só em Cristo, temos um certo
4, 25). refúgio de esperança — e fo r a
Mãe de Deus dêle não há nenhum. Êle é o
nosso juiz agora e na nossa pres­
Como Pessoa divina, Jesus de tação de contas final.
modo algum poderia ser gerado
por homem. Sua Mãe a Virgem O Espírito Santo
M aria concebeu-o pelo poder di­ “ Creio no Espírito Santo” , isto
vino. P or ser êle divino, ela é professa a nossa crença na ter­
a Mãe de Deus — e não a Mãe ceira Pessoa da Trindade, o Es­
de Deus Pai, ou de Deus Espí­ pírito do P ai e do Filho, o qual
rito Santo, mas sim a Mãe do
Cristo prometeu enviar para ve­
Filho eterno de Deus, que tam­
lar pela sua Igreja, para guiá-la
bém é Deus. Este título de “ Mãe
e fortalecê-la, para conservá-la
de Deus” é a principal glória de
Maria, da qual não pode ela ser nos caminhos da verdade. “ Ro­
destituída por nenhum cristão garei ao Pai e êle vos dará ou­
verdadeiro. Este é o significado tro Advogado para estar con­
do Credo. O Concílio geral de vosco por todo o tempo futuro,
Efeso, no ano 431, pôs a Ig re ­ o Espírito de Verdade” (Jo 14,
ja avisada para todo o tempo, 16).

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Ig re ja Católica” já fica meio ex­ católico não lhe elide a naciona­
plicado. A Ig reja é santa por­ lidade. A fidelidade à Igreja é
que existe para um fim santo, inteiramente diferente da fideli­
para fazer santos os homens. E ’ dade que devemos ao nosso país
santa por ser dirigida pelo Es­ ou ao nosso povo, é uma fide­
pírito Santo, o Espírito de V er­ lidade que não colide com estas,
dade. Ela é a projeção de Cristo mas que lhes é superior. E* a
em todos os tempos, sendo por is­ nossa fidelidade a Deus, a qual
to que S. Paulo tão freqiièntemen- compartilhamos com todos os ou­
te a ela se refere como ao Cor­ tros católicos no mundo inteiro,
po de Cristo. Cristo, após a sua e a qual nos liga juntos com
morte e ressurreição, voltou para êles no único Corpo de Cristo. A
o seio do Pai, de onde veio. Mas Igreja é no mundo de hoje a
a obra de Cristo prossegue. A mesma que era nos dias dos
salvação que êle possibilitou a Apóstolos.
todos os homens deve ser posta Há ainda uma unidade mais
em contacto com todas as vidas larga que nós compartilhamos na
humanas entre a ida do mesmo Igreja. “ C reio ... na comunhão
Cristo para o Pai e a sua glorio­ dos santos” , isto declara que nós
sa volta no fim dos tempos. Esta participamos da união com os
é a função da Igreja. “ Aos que fiéis na terra, com os bem-aven
o receberam (C risto), êle deu o turados no céu e com as alma
direito de se tornarem filhos de do purgatório — com todos aquj
Deus — os que crêem em seu les que foram remidos pelo sai
nome” , escreveu S. João (1, 12). gue de Cristo. Cremos que pc
A obra santificadora da Igreja demos ajudar-nos uns aos outros,
vê-la-emos mais plenamente quan­ que as orações dos fiéis na ter­
do falarmos da Missa e dos Sa­ ra podem ajudar as almas do
cramentos. purgatório, e que as orações das
que estão no céu podem ajudar
Somente uma «católica»
tanto as almas do purgatório co­
A Ig reja é Católica por ser mo a nós na terra. Por isto re­
universal, independente de tem­ zamos aos santos no céu para
po e de lugar. Não há Ig re ja ame­ lhes obtermos o auxílio, tal co­
ricana, nem Ig re ja brasileira, mo na terra pedimos uns aos ou­
nem Ig re ja francesa ou italiana tros orações e boas-obras das
ou africana, exceto quando nós
quais todos podemos beneficiar-
usamos esses têrmos para nos
nos. Esta é a verdadeira reli­
referirmos à Ig re ja Católica na
gião “ social” que professamos,
Am érica ou no Brasil ou na
França, etc. Os homens perten­ na qual sabemos que não esta­
cem à Ig re ja não como ameri­ mos sozinhos, mas sim ligados aos
canos ou brasileiros ou france­ nossos semelhantes no amor de
ses etc., mas sim como cristãos. Cristo, “ rodeados como estamos

VOZES N. 52 - 2 9
munhas” (H eb 12, 1 ). adulteração, os ensinamentos bí-*
blicos de uma ressurreição fís i­
Corpo e alma
ca, no fim dos tempos. Por tôda
" A remissão dos pecados” ve­ a eternidade, unidos como esta­
remos mais plenamente na con­ vam na terra, o corpo e a alma
sideração dos Sacramentos da de cada pessoa gozarão na vida
Igreja . “ A ressurreição da car­ eterna com Deus, ou sofrerão
ne e a vida etem a” são os dois castigo eterno no inferno.
artigos finais do Credo. Nós

CRISTO nos deu os


sete Sacramentos
„ Nos antigos dias de Roma, sa- ou comunhão, penitência ou con­
cramentum era um juramento so­ fissão, matrimónio, ordem e ex ­
lene que um homem prestava de trema-unção. Todos êles consis­
acordo com a lei. Literalmente, tem em alguma coisa m aterial:
a palavra significava “ um ato água, óleo, pão, vinho; e em a l­
sagrado”, porque um juramento gum ato externo: aspersão, un­
era considerado coisa sagrada, ção, imposição de mãos, pronúncia
como diz o poeta: “ A palavra de palavras, e, por êsses meios,
do homem é Deus no homem” . todos êles simbolizam a aplica­
Os primeiros cristãos adota­ ção da graça redentora de C ris­
ram essa palavra para aplicá-la to às almas dos homens, e rea l­
a certos atos sagrados da reli­ mente conferem essa graça.
gião cristã, atos que eram si­ Por que, foi que Cristo insti­
nais externos de algum sign ifi­ tuiu sacramentos? E por que foi,
cado espiritual profundo, tais co­ também, que Cristo nos remiu
mo a prestação de um ju ra­ por sua vida, paixão, morte e
mento. Os atos . externos aos ressurreição, quando um simples
quais a palavra "sacramento” ato da vontade divina poderia
era aplicada eram aquêles que o ter produzido o mesmo resultado?
próprio Cristo instituiu para o Para nós é suficiente sabermos
fim sagrado de aplicar às almas que êle fêz isso — pois a pleni­
dos homens a graça da sua re­ tude da razão que para isso hou­
denção. ve está oculta na mente divina.
Os sacramentos são sete: — Contudo, ao menos parcialmen­
batismo, confirmação, eucaristia te podemos ver por que razão

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foi. E ra conveniente que Deus le que a sujeitou” (Rom 8, 20).
tratasse a sua criatura de acor­ Pelo pecado do homem toda a
do com a maneira como a criara. criação fo i lançada em desordem,
E ra conveniente que êle mostras­ oposta contra si mesma. N a or­
se o seu amor ao homem envian­ dem sacramental que Cristo es­
do seu próprio Filho para se fa ­ tabeleceu, até mesmo as coisas
zer homem. Era conveniente que inanimadas da criação são “ li­
a natureza humana que êle cria­ bertadas do cativeiro da corrup­
ra, e à qual chamara boa, fôsse ção, para gozarem a liberdade
santificada pela presença de Cris­ da g ló r ia . dos filhos de Deus”
to divino, que a carne humana (Rom 8, 21). A água e o vinho,
que êle assumira fôsse redimida o óleo e o pão, tomam-se parte
de dentro, por assim dizer, por do grande plano de Deus para
essa presença. a salvação, ajudando, a seu mo­
E, similarmente, podemos ver do, a glória dos filhos de Deus.
por que razão a redenção, uma Êsse plano de salvação segue o
vez operada mediante a vida e exemplo dado por Nosso Senhor.
morte de Cristo, foi tornada Cristo ensinou por meio de si
aproveitável aos homens através nais — sinais de fato e sinaf
dos sacramentos da Igreja. de palavra. Os seus ensinamei
T al é o modo de Deus de tra­ tos mais sublimes foram enc<,
tar os livres sêres humanos que bertos em parábolas: sinais er
êle criou. Êle permitiu ao ho­ palavras. Êle operou curas poi
mem participar de tôdas as suas meio de sinais. Recorde-se, por
obras. Êle não cria os homens in­ exemplo, a sua cura do cego de
dividualmente do nada, mas traz nascença. Êle poderia simples­
os homens à existência através da mente ter querido que o homem
cooperação de outros da sua es­ visse. Mas, em vez disso, “ cus­
pécie, através de seus pais hu­ piu no chão, e por meio da sa­
manos. Não governa o seu uni­ liva fêz uma massa de barro, e
verso diretamente, mas sim me­ depois espalhou o barro sôbre os
diante a ação dos homens. Não olhos dêle e lhe disse: “ V a i e
fêz da salvação algo de automá­
lava-te na piscina de Siloé” —
tico, privando o homem da sua
palavra esta última que, em nos­
liberdade. Estabeleceu uma Igre­
sa língua, quer dizer “ Embaixa­
ja na qual a graça da salvação
será distribuída pelo homem ao dor” . “ E êle foi, e lavou-se, e
.. homem. voltou vendo” (Jo 9, 6 ss.). E
não só isto, mas a própria cura
Água e vinho fo i um sinal, para ilustrar o que
P or êste meio renovou êle e de si mesmo Jesus dissera ime­
mais uma vez abençoou a criatu­ diatamente antes: “ Enquanto eu
ra que “ fo i tornada sujeita à estou no mundo, sou a luz do
vaidade não por sua própria es- mundo” (Jo 9, 5 ).

11
que Cristo decidisse distribuir a talece a vida do espírito e leva-
salvação ao homem através dos a à madureza espiritual. A Co­
tempos por meio de sinais a que munhão não é meramente um si­
chamamos sacramentos. nal do corpo e do sangue de Cris­
to, é realmente estas coisas.
Conferidos por sinais
Cada um dos sacramentos tem Meios para a graça
algum sinal visível. Isto é o que Sem dúvida, não quer isto di­
é chamado a matéria — isto é, zer que os sacramentos sejam
uma coisa, tal como água no ba­ mágicos ou automáticos. Devem
tismo e óleo na extrema-unção; ser ministrados por pessoa qua­
e a form a, isto é, certas pala­ lificada por Cristo para o fa ­
vras. N o batismo, como é sabi­ zer, a qual pretenda realmente
do, as palavras são: “ Eu te ba­ administrar um dos sacramentos
tizo em nome do P ai e do Filho de Cristo. O recebedor deve es­
e do Espírito Santo” . tar preparado e ser capaz de re­
Em cada caso, portanto, a ma­ ceber o sacramento. Se para êle
téria e a form a significam o bem o sacramento não passa de um
espiritual que está sendo opera­ gesto ocioso, nenhum bem lhe
do na alma do recebedor — e é fará. Deus não exige que rece­
por isto que são chamadas sinais. bamos os Sacramentos; a cada
A água sugere o lavacro, o óleo um é dado livre arbítrio para
sugere a cura, e as palavras do escolher, mas, rejeitando os Sa­
ministro do sacramento determi­ cramentos, nós rejeitamos os
nam que espécie de lavacro e de meios para a graça que Deus
cura está sendo operada. livremente nos oferece.
Se os sacramentos fossem me­ Os sacramentos foram ideados
ramente de origem humana, po­ para serem ministrados por cris­
deriam ser nada mais do que tãos a cristãos na Igreja. Êles são
sinais da nossa esperança ou das o principal título que a Ig re ja tem
nossas preces. Nós não podería­ para a sua pretensão de ser
mos certificar-nos de que eles “ santa”. O cristão que na Ig re ­
realmente lavassem uma alma ja vive a vida de Cristo tem ês-
do pecado no batismo, por exem­ ses meios constantemente a seu
plo, pois que só o poder divino dispor para preservar, restaurar,
pode fazê-lo. Mas, por haverem
aumentar a espécie de vida que
sido os sacramentos instituídos
Cristo lhe possibilitou viver. Êles
por Cristo para o fim expresso
são, por assim dizer, outras tan­
de fazerem aquilo que simboli­
tas artérias pelas quais o san­
zam, nós sabemos que eles são
mais do qiie meros sinais. Aqui­ gue vital é trazido aos membros
lo que significam, isto êles de do Corpo de Cristo. Conforme
fato realizam. O Batismo real­ os sacramentos sejam digna e
mente purifica a alma do peca- piedosamente recebidos, os mem-

12
de Cristo. suscitou dos mortos pelo glorio­
so poder do Pai, assim também
«Poder absoluto» nós possamos conduzir-nos por
Antes da sua ascensão ao céu, um novo princípio de vida. Ora,
Nosso Senhor deu aos seus Após­ desde que nós crescemos para
tolos a grande incumbência de sermos um com êle através de
batizarem. Em certo sentido, es­ uma morte como a dêle, também
te é o diploma de santificação seremos um com êle por uma res­
da Igreja. “ Todo poder me foi surreição como a dêle. Sabemos
dado no céu e na terra” , disse que o nosso velho eu foi cruci­
ele. “ Ide, pois, e ensinai tôdas ficado com êle, a fim de que o
as nações, batizando-as em no­ corpo escravizado ao pecado seja
me do Pai e do Filho e do Es­ reduzido à impotência, e não
pírito Santo, e ensinando-as a mais sejamos escravos do peca­
observarem tudo o que eu vos do; porque aquêle que está mor­
mandei” (M t 28, 18 ss.). to está uma vez por tôdas qui­
O Batismo, o sinal da perten­ te com o pecado. Mas, se mor­
ça à Ig re ja de Cristo, é mais rermos com Cristo, cremos que
do que um sinal; é uma neces­ com êle também viveremos, vis­
sidade absoluta. “ Se o homem to sabemos que, tendo ressur­
não renascer da água e do Es­ gido dos mortos, Cristo já nãc
pírito, não pode entrar no reino morre; a morte não mais terá
de Deus” , foram as palavras de domínio sobre êle. A morte que
Cristo a Nicodemos (Jo 3, 5). êle suportou foi uma morte para
A importância do batismo foi o pecado uma vez por tôdas, mas
frisada sobretudo pelos primei­ a vida que êle vive é uma vida
ros sacerdotes e bispos de Nosso para Deus. Assim vós também
Senhor, os chefes da Igreja, os deveis considerar-vos mortos pa­
Apóstolos. “ Levantai-vos e ba- ra o pecado, mas vivos para
tizai-vos e purificai-vos dos vos­ Deus em Cristo Jesus” (Rom
sos pecados” , foram quase as pri­ 6, 3-11).
meiras palavras que o Apóstolo
Paulo teve de ouvir na sua fé O Batismo salva
cristã recém-achada (A t 22, 16). O Batismo põe-nos em união
E foi Paulo quem melhor do que com Cristo, dá causa a que par­
todos exprimiu a tradicional fé ticipemos da vida dêle, na me­
cristã no poder dêste sacramen­
dida em que a sua morte é a nos­
to de Cristo:
sa própria morte e a sua res­
“ Sabeis que todos nós que fo ­
surreição a nossa ressurreição.
mos batizados em união com Cris­
to Jesus, em união com a sua Estamos mortos para o pecado
morte fomos batizados? Sim, e vivos para a vida de Deus.
com êle fomos sepultados na Somos novas pessoas. Não ad­
morte por meio do batismo, a fim mira, pois, que S. Pedro diga

13
B&lva” (1 Ped 3, 21). os pecados do penitente, devida-
P o r certo, não quer isto dizer mente confessados ao ministro
que o batismo seja uma garan­ de Cristo. A form a são as pa­
tia automática de salvação. Deus lavras de absolvição, pronuncia­
salva o homem sem destruir a das pelo sacerdote da Ig reja em
liberdade do homem. Não há, du­ nome de Cristo. Este sinal sa­
rante esta vida, nenhuma abso­ cramental da confissão e do per­
luta e in falível certeza de sal­ dão é mais do que um símbolo;
vação, porque a todo tempo está é a verdadeira absolvição dada
no poder do homem voltar as ao pecador pelo próprio Cristo.
costas a Deus e rejeitá-lo. O mes­ Por que é que a confissão é
mo sucede com o Batismo. O Ba­ necessária a um mero ser hu­
tismo tem o poder, a ele dado mano? Por que não pode o pe­
por Cristo, de realizar a coisa cador simplesmente ir a Deus
maravilhosa que Paulo acima des­ diretamente e obter o perdão?
creveu. Mas é um poder ao qual Porque Deus determinou que p o r
se pode resistir. E* um fato tris­ meio da confissão ao seu sacer­
te, mas verdadeiro, que em al­ dote e da absolvição dada pelo
guns casos uma pessoa batizada mesmo sacerdote é que êle p er­
pode não ser distinguida de uma doará os nossos pecados. Nós não
não-batizada, simplesmente por decidimos por nós mesmos como
não ter escolhido viver como al­ é que havemos de obter perdão,
guém que foi pôsto em união com tal como primeiramente não de­
Cristo. De fato, sempre que co­ cidimos por nós mesmos como é
metemos um pecado grave, nes­ que havemos de obter a salva­
sa mesma medida estamos nos ção de Cristo. Se o sacerdote po­
afastando da nossa união com de agir por Deus na m atéria d o
Cristo e voltando à escravidão Batismo, que nos purifica do pe­
da qual êle nos libertou. cado, por que havemos de pôr em
dúvida a sua incumbência, rece­
Caminho de toda carne bida de Deus, de transm itir o
Cristo sabia que os membros perdão do pecado através do
da sua Ig re ja pecariam, e assim igualmente válido Sacramento da
quebrariam o vínculo que os uni­ Penitência instituído por Cristo?
ra a êle no Batismo. T a l era,
«R eceb ei.. . »
pòrém, a misericórdia divina, que
Deus não perm itiria que êsse vín­ Porquanto Deus certamente deu
culo fosse quebrado para sempre, aos seus Apóstolos o poder de
e, para assegurar isto, êle fo r­ perdoar os pecados. Escute-se a
neceu outro canal de graça. Quan­ maneira solene como êle confe­
do uma pessoa comete o pecado, riu êsse poder — novamente
tem um caminho segura para tor­ usando sinais numa form a que
nar à salvação de Cristo, atra­ era mui sacramental — quando
vés do sacramento da penitência. apareceu a êles após a sua res-

14
surreiçao: .cantão aisse-ines je - minastes que eu iosse peraoaao.
8U8 outra vez: “ A paz seja con­ Perdoai-me pelo modo como eu
vosco! Assim como o Pai me en­ quero ser perdoado” .
viou, assim também eu vos en­ Aos Apóstolos foi dado poder
vio” . Com isto, soprou sôbre êles não sòmente de perdoar o peca­
e disse: “ Recebei o Espírito San­ do, mas também de o reter. Por
to. Aquêles a quem perdoardes outras palavras, foi-lhes dado o
os pecados ser-lhes-ão perdoa­ poder de ju lgar quais pecados
dos; e aquêles a quem os reti­ deveriam ser perdoados e quais
verdes ser-lhes-ão retidos” (Jo não. Este juízo só poderia ser
20, 21 ss.). exercido havendo confissão do pe­
Êsse poder, note-se, êle o deu cado. “ Confessai os vossos peca­
a êles justamente como lhes deu dos uns aos outros” , disse S.
a grande incumbência do batis­ Tiago, “ e rezai uns pelos outros
mo — isto é, para ficar com a para serdes curados” (T g o 5,
Igreja por todo o tempo. E* um 16). Desde tempos imemoriais
poder que êle lhes deu como a Deus proporcionou um meio
seus enviados, como àqueles que de perdão sòmente através da
devem representá-lo entre os ho­ confissão dos pecados (veja-se
mens até que êle volte. E ’ um Levítico 5, 5, etc.). Sem confis­
poder dado à Ig re ja na pessoa são, como pode o ministro de
dos seus chefes, do seu sacer­ Cristo julgar o estado de alma
dócio. E* o poder que prèvia- do pecador e determinar se '
mente êle dera ao chefe dos seus perdão é justificado?
Apóstolos, S. Pedro, quando lhe A penitência não é uma pr<
prometeu a chefia da Ig re ja : posição automática, como tanl
“ Tudo o que ligares na terra se­ pouco o é o batismo. Se um pe
rá ligado no céu, e tudo o que cador fôsse pedir perdão sem
desligares na terra será desli­ um verdadeiro e sincero pesar dos
gado no céu” (M t 16, 19). seus pecados e sem um firm e
propósito de emenda, então não
O Modo de agir de Deus poderia receber perdão. Poderia
Com que direito, pois, despre­ enganar o padre a quem se con­
zará alguém êsse poder que Cris­ fessa, mas não enganaria a Deus.
to deu à sua Igreja? Quem te­ A absolvição do padre só é e fi­
rá a presunção de dizer que ês­ caz na medida em que o peni­
se poder não existe, ou que não tente não lhe põe obstáculos no
so precisa recorrer a êle? Quem caminho, tal como o rito do ba­
quer que diga que prefere ir a tismo seria sem sentido se não
Deus diretamente para ter per­ houvesse verdadeira intenção de
doados os seus pecados não es­ aceitar a salvação de Cristo.
tá fazendo, o que Deus quer, mas
Pecados perdoados
sim o que êle escolhe. Diz, com
efeito: “ Perdoai-me, 6 Deus — Mas, quando a confissão é fe i­
mas não pelo modo como deter­ ta direito, com verdadeiro pe-

15
então o juízo do padre expres­ ança. A madureza da alma é in­
so na absolvição tem para apoiá- teiramente diferente da madu­
lo a garantia das palavras de reza do corpo. Uma criança po­
C risto: “ Aquêles a quem per­ de dar um exemplo de crescimen­
doardes os pecados ser-lhes-ão to espiritual que envergonhe os
perdoados” . Esta é uma grande mais velhos, e algumas pessoas
consolação que nós temos como atingem uma idade veneranda
católicos, o sabermos que perdão sem sequer terem partido da in­
seguro e certo está sempre dis­ fância do espírito. N a Confir­
ponível. Esta é a garantia de mação, o Espírito Santo é nova­
Cristo. A voz do padre no con­ mente dado à pessoa batizada,
fessionário é a voz de Deus, pois para que ela seja fortalecida a
Nosso Senhor disse aos seus fim de levar consigo a sua fé
emissários: “ Quem vos escuta a pelo mundo, a fim de poder tra ­
mim escuta, e quem vos despre­ balhar bem pela sua salvação e
za a mim despreza; mas quem pela dos outros.
me despreza, despreza aquêle que Quando foi exatamente que
me enviou” (L c 10, 16). Nosso Senhor estabeleceu êste
Por motivos que já agora se­ sacramento não o sabemos. M as
riam evidentes, os sacramentos que ele o estabeleceu, e que ins­
do batismo e da penitência são truiu os seus Apóstolos e os su­
chamados “ sacramentos dos mor­ cessores destes para o adminis­
tos”. Eles são os sacramentos a trarem, isto vemo-lo pela p rá ti­
que recorremos na morte espiri­ ca apostólica no Nôvo T esta­
tual, para nos livrarmos da mor­ mento.
te do pecado e restaurarmos em “ Ora, quando os apóstolos em
nós a vida de Deus. Os outros Jerusalém ouviram dizer que a
sacramentos são chamados “ sa­ Samaria tinha aceitado a pala­
cramentos dos vivos”, isto é, sa­ vra de Deus, enviaram-lhe Pedro
cramentos cuja função é aumen­ e João. À sua chegada, êstes ora­
tar e fortalecer a vida espiritual ram pelos Samaritanos, para
de que participamos como mem­ que recebessem o Espírito San­
bros do Corpo de Cristo, da to, visto como êle ainda não t i­
Igreja. nha vindo sôbre nenhum dêles,
por haverem êles sido somente
Fé mais forte batizados em nome do Senhor
O primeiro entre estes últimos Jesus. Então Pedro e João im­
é a Confirmação. Como o nome puseram as mãos sôbre êles, e
indica, a finalidade deste sacra­ êles receberam o Espírito San­
mento é confirmar ou fortalecer to” ( A t 8, 14 ss.).
o cristão na sua denominação de “ Depois de passar pelos dis­
cristão. Por isto ele às vêzes é tritos mais altos, Paulo veio a
chamado o sacramento da ma­ Éfeso e ali achou certos discípu­
dureza espiritual — embora o los. E perguntou-lhes: “ Recebes-

16
ponderam: “ Nós ainda nem se­ línguas orientais, os sacerdotes
quer ouvimos dizer que há um rcgularmente confirmam por con­
Espírito Santo” . “ Então que es­ cessão especial do Papa.
pécie de batismo recebestes?” ,
perguntou Paulo. E eles respon­ A Eucaristia
deram: “ O de João” . “João” , res­ O mais fam iliar de todos os
pondeu Paulo, “ batizava com um sacramentos dos vivos é, sem dú­
batismo de penitência, dizendo- vida, a sagrada Comunhão, e em
lhes crerem naquele que viria certo sentido êle é, de modo úni­
após êle, isto é, em Jesus” . Isto co, importante, por causa da
ouvindo, êles foram batizados em sua contínua necessidade para
nome do Senhor Jesus, e, quando todos os verdadeiros cristãos.
Paulo lhes impôs as mãos, o Es­ Quase toda gente está fam i­
pírito Santo desceu sobre êles, e liarizada com a narrativa evan­
êles começaram a falar várias gélica da Última Ceia, e sabe da
línguas e a profetizar” (A t instituição dêste sacramento (em
19, 1-6). M t 26, 26 ss.; Mc 14, 22 ss.;
e Lc 22, 19 ss.). Além destas
Símbolos usados passagens, há dessa instituição
A Confirmação ainda é minis­ um relato inteiramente indepen­
trada pela imposição das mãos, dente feito por S, Paulo (1 Cor
tal como a ministravam os Após­ 11, 23-29), o qual concorda em
tolos. A Ig reja cercou êsse rito tudo com os evangelhos.
de símbolos adicionais. O óleo é Entretanto, não é da narração
usado porque, assim como os atle­ da instituição que nós temos ^
tas nos antigos tempos eram fo r­ nossa melhor informação sôbre c
temente ungidos antes de inicia­ que Cristo pretendeu com êste sa­
rem as disputas da arena, é de cramento, e sôbre a importância
supor que, por êsse sacramento, que lhe ligou. Isto o achamos no
o cristão é preparado para as evangelho de S. João, quando o
lutas da vida no tocante à sua evangelista relata a promessa do
fé. Para simbolizar a mesma coi­ sacramento feita por Cristo, um
sa, o Bispo confirmante bate le­ ano antes da real instituição.
vemente na face do confirmado. “ Eu sou o pão de vida” , dis­
N a parte da Ig re ja Católica se Jesus aos seus discípulos na­
que usa o Latim nas suas ceri­ quela ocasião. “ Vossos pais co­
mónias, a administração do sa­ meram o maná no deserto e mor­
cramento da Confirmação tem reram. O pão de que eu falo,
sido tradicionalmente reservada pão que desceu do céu, ninguém
aos Bispos, embora sob certas que dêle comer morrerá. Eu sou
condições sacerdotes comuns te­ o pão vivo que desceu do céu.
nham permissão para confirmar. Se alguém comer dêste pão, v i­
N a parte oriental da Igreja, en- verá eternamente; e, ademais, o

17
carne pela vida do mundo” (Jo mente presentes.
6, 48-51). E que foi que Cristo disse por
Cristo, portanto, claramente ocasião dessa promessa? Acaso
nos disse que o que ele ia dar apressou-se a assegurar aos seus
à humanidade era a sua pró­ ouvintes que não pretendia nada
p ria carne e sangue, era o seu mais do que dar um símbolo do
próprio corpo “ dado pela vida seu corpo e do seu sangue? Pe­
do mundo” , e que êsse dom se­ lo contrário: escute-se o que êle
ria um instrumento de vida eter­ continuou dizendo:
na. E sta fo i talvez a promessa
mais extraordinária por êle ja ­ Cristo tornou claro
mais feita, e fo i saudada com “ Disse-lhes então Jesus: Em
a mesma espécie de reação que verdade, em verdade vos digo: se
o mesmo ensinamento freqiiente- não comerdes a carne do Filho
mente recebe hoje em dia. do homem e não beberdes o seu
sangue, não tereis a vida em
Não podiam crer vós. Quem come a minha carne
“ Tiveram então os judeus en­ e bebe o meu sangue possui a
tre si violenta discussão. A rgu ­ vida eterna, e eu o ressuscitarei
mentavam: “ Como pode êste ho­ no último dia. Porque a minha
mem dar-nos sua carne a comer?” carne é verdadeiramente comida
(Jo 6, 52). Pergunta justa se­ e o meu sangue é verdadeira­
guramente, e pergunta que mui­ mente bebida. Quem come a m i­
tas vêzes é feita aos católicos ho­ nha carne e bebe o meu sangue
je em dia: “ Como podem vo­ fica em mim e eu nêle. Assim co­
cês crer que na Comunhão rece­ mo me enviou o P ai que vive, e
bem realmente a carne de Cris­ assim como eu vivo pelo Pai, as­
to?” sim também aquêle que me co­
Ora, há muitos cristãos que me viverá por mim. Êste é o
sustentam que Cristo nunca te­ pão que desceu do céu. Não é
ve em mente que as suas pala­ como o maná que vossos pais co­
vras fossem tomadas ao pé da meram e morreram. Quem come
letra. Insistem em que o pão e êste pão viverá eternamente” (J o
o vinho do sacramento são sím­ 6, 54-58).
bolos, e nada mais. Mas isto que- “ Minha carne é verdadeira­
reria dizer que também não ha­ mente com ida... meu sangue é
veria um sacramento real. Um verdadeiramente bebida... quem
sacramento não é apenas um si­ me c o m e ...” . Certamente não
nal vazio, mas um sinal que sim­ há nestas palavras atenuação das
boliza uma realidade espiritual. declarações de Cristo. Cristo nes­
O pão e o vinho simbolizam o sa ocasião perdeu muitos discí­
corpo e o sangue de Cristo, é pulos, porque êles disseram: “ Du­
verdade, mas o corpo e o san­ ra é esta linguagem, e quem po­
gue que êles simbolizam estão de ouvi-la?” (Jo 6, 61). E n ão

18
fêz nada para os reter. Que as Senhor indignamente será réu do
palavras são duras ninguém po­ corpo e do sangue do Senhor” (1
de negar. Mas devem ser acei­ Cor 11, 27). (Note-se que esta é
tas por todo cristão vei-dadeiro. a tradução correta desta passa­
Nessa passagem Nosso Senhor gem, como aparece nas versões
claramente nos disse que essa católicas do Nôvo Testamento e
dádiva do seu coi*po e do seu san­ em algumas modernas versões
gue é uma necessidade para nós, protestantes).
que a manducação dela acarreta Há dois sacramentos dos v i­
a vida eterna. Portanto, trata- vos que se destinam, cada um,
se de um importantíssimo sa­ sòmente para uma parte do Cor­
cramento, de um sacramento que po de Cristo, que é a Igreja. N a
verdadeiramente deveria ser o Igreja, diz Paulo: “ Há, na ver­
pão de cada dia dos cristãos. De dade, diferenças de graças, porém
fato, muitos católicos recebem um mesmo é o Espírito que as
diàriamente a sagrada Comunhão. distribui. Há também diversida­
Pão e / ou vinho de de ministérios, mas um mes­
mo é o Senhor para quem se
Outra vez há aqui uma dife­ ministra. E há diversidade de
rença nos costumes seguidos pe­ operações, mas um mesmo é o
la Ig re ja Ocidental ou Latina e Deus que opera tôdas as coisas em
pela Ig re ja Oriental. Por longo todos” (1 Cor 12, 4-6). A s duas
tempo tem sido prática no Oci­ divisões fundamentais dos fiéis
dente dar a Comunhão sob a sim­ para as quais o Espírito Santo
ples form a de pão, ao passo que
proporciona graça através da or
a Ig re ja Oriental conservou o an­
dem sacramental são o clero (Or
tigo costume de usar tanto o pão
dens Sacras) e os leigos (Ma
como o vinho. Esta diferença ab­
trimônio).
solutamente não afeta o essencial
do sacramento, é mera questão de O estado clerical começou a
praticabilidade. Desde que saiba­ existir quando Cristo escolheu
mos que o Sacramento realmente os Apóstolos para serem seus
contém o corpo e o sangue de Cris­ sucessores e os continuadores da
to, e desde que Cristo tem um sua obra. A êles confiou êle res­
corpo vivo e não um corpo mor­ ponsabilidades e poderes que não
to, sabemos que, onde estiver seu deu ao resto dos seus discípulos
corpo, aí estará também o seu — o poder e responsabilidade de
sangue. Pode, pois, a Comunhão
continuarem o sacramento da Ú l­
ser recebida, tôda inteira, sob a
tima Ceia (L c 22, 19 ss.), de
form a de pão ou sob a form a de
vinho. Outro tanto disse Paulo no perdoar ou reter pecados (Jo 20,
seu relato da instituição do sa­ 21 ss.) e outros que tais; em
cramento : suma, de ministrarem os sacra­
“ Pelo que, todo aquêle que co­ mentos da sua Ig re ja e gover­
mer este pão ou beber o cálice do narem-na em seu nome.

19
uraens sacras tituios, mas graauaimente a pa­
lavra episcopos veio a ser usada
Essa responsabilidade requer a
somente para alguém que havia
abundante graça de Deus, e, pa­
recebido a plenitude das ordens,
ra proporcionar esta graça, Cris­
um sucessor dos Apóstolos no
to instituiu o sacramento das Or­
mais pleno sentido, ao passo que
dens Sacras. Foi com referência
presbítero era considerado quem
a êste sacramento que Paulo es­
tinha os podêres ordinários das
creveu ao seu discípulo Tim ó­
Ordens Sacras. A palavra epis­
teo, que ele pusera à testa da
copos redundou em “ bispo” , e
Ig r e ja em Éfeso: “ Não descures
presbítero veio a designar o “ sa­
a graça que está em ti, a qual
cerdote” . Assim, nós temos os
te fo i dada por designação ins­
nossos nomes “ modernos” clara­
pirada, com a imposição das mãos
mente derivados das origens do
do presbitério” (1 Tim 4, 14).
Nôvo Testamento. Semelhante­
A imposição das mãos era o mente os ministros menores da
modo costumeiro de ministrar Igreja, os diáconos. Em 1 T i ­
êste sacramento na Ig reja apos­ móteo 3, 8 ss., por exemplo, P a u ­
tólica, como vemos nessa passa­ lo adverte Timóteo sobre as qua­
gem da V Ep. a Timóteo, como lificações que devem ser possuí­
também na ulterior palavra de das pelos que têm o ofício de
S. Paulo ao seu discípulo: “ Não diáconos, ordem claramente dis­
te apresses a impor as mãos a tinta da de episcopos ou da de
ninguém” (1 Tim 5, 22). “ A d ­ presbítero.
virto-te que faças revivescer a
graça de ofício que está em ti Sacerdotes de Cristo
pela imposição de minhas mãos” O fato de os nomes tradicio­
(2 Tim 1, 6 ); e, nos Atos dos nais se haverem desenvolvido dos
Apóstolos, na nomeação dos se­ têrmos do Nôvo Testamento es­
te homens que deviam ajudar tabelece uma continuidade entre
os Apóstolos nas suas funções os ofícios tais como os achamos
( A t 6, 5 ss.). na Ig re ja Apostólica e tais co­
mo são achados na tradicional
A Igreja primitiva
Ig re ja Cristã através da histó­
N a Ig re ja prim itiva havia uma ria. A palavra presbítero, é ver­
distinção nos vários ofícios ine­ dade, em grego significa “mais
rentes ao sacramento das ordens velho” , e episcopos quer dizer
sacras, e nomes específicos eram “ v ig ia ” , tal como diáconos quer
usados para as diferentes fun­ dizer “ servo”. Paulo e os outros
ções. E ra usada a palavra pres­ Apóstolos deliberadamente se
bítero (A t 20, 17, por exemplo), abstiveram de usar para os mi­
e também a palavra episcopos nistros cristãos as palavras co­
( “ bispo” , A t 20, 28). Evidente­ muns correspondentes a “ sacer­
mente, no comêço não se fazia dote” e outras que eram aplica­
distinção positiva entre os dois das aos sacerdotes pagãos ou

20
junto de títulos. Mas os presbí­ trimônio cristão é a de Paulo
teros de que Paulo fala pos­ ( E f 5, 25-33).
suíam o ofício que ainda sub­ “ Maridos, amai vossas mulhe­
siste na Ig reja Católica, ao qual res, tal como Cristo amou a Igre­
ainda hoje nós damos o mesmo ja e se entregou por ela. A fim
título, agora na forma de “ sa­ de santificá-la, purificando-a no
cerdotes”. batismo de água pela palavra de
vida. Para êle mesmo apresen-
Matrimónio, um Sacramento tá-la a si Igreja gloriosa, não
A outra grande classe dos mem­ tendo mancha, nem ruga, nem
bros da Ig reja é o laicato. Pa­ coisa semelhante, mas como quem
ra os leigos é o Sacramento do é santa e imaculada. Assim tam­
Matrimónio. Nem todo leigo re­ bém devem os maridos amar suas
cebe êsse sacramento, é verda­ mulheres, como a seus próprios
de, mas no entanto êle é o sa­ corpos. Quem ama sua mulher
cramento de “ ofício” que é mais ama-se a si mesmo. Porque nin­
característico do laicato como guém jamais aborreceu sua pró­
um todo. pria carne; antes a nutre e a
Nem todo matrimónio é um trata, como Cristo faz à Ig re­
sacramento, mas somente os ma­ ja. Porque somos os membros do
trimónios dos cristãos. A Ig re­ seu Corpo. Por isto deixará o
ja Católica, todavia, ensina que homem seu pai e sua mãe e pren-
o matrimónio de dois protestan­ der-se-á a sua mulher, e serão
tes batizados é igualmente um dois em uma só carne. Grande <
sacramento como o de dois ca­ êste mistério, mas digo-o em re
tólicos. lação a Cristo e à sua Igrej*
Todo matrimónio é um con­ Assim cada um de vós ame su
trato estipulado na presença de mulher como a si mesmo, e te
Deus e, como contrato, é indis­ nha a mulher reverência a seu
solúvel. Isto é igualmente verda­ marido” .
deiro do matrimónio de dois pa­ O fato de Paulo haver podido
gãos, dois ateus ou dois infiéis. comparar a união do homem com
Desde que as partes tencionam a mulher no matrimónio cristão
contrair um matrimónio verda­ com a união de Cristo com sua
deiro, firmam um contrato ir- Igreja mostra a estima que êle
rescindível. lhe dispensava. Semelhantemente,
Mas o matrimónio cristão é, desde os tempos apostólicos a
além disso, um sacramento. As Igreja Católica tem insistido em
pessoas batizadas acham no seu que no matrimónio cristão há
estado conjugal uma fonte de graça dada pelo Espírito Santo
graça, uma graça “ de ofício” , pa­ tal como a graça do Espírito une
ra lhes proporcionar os neces­ o cristão a Cristo.
sários auxílios no cumprimento Paulo claramente distinguiu
das suas responsabilidades. A êste matrimónio cristão, sacra-

21
Escreveu, por exemplo, com re­ mônio sacramental, ambas as
lação ao matrimónio de um cris­ partes devem ser cristãos bati­
tão com um não-cristão: zados. Se um deles é incapaz de
receber um sacramento, então òb-
Deus dá a graça viamente não pode haver sacra­
“ Se algum de nossos irmãos mento, porque há apenas entre
tem mulher infiel, e esta consen­ êles o matrimónio de um. Quan­
te em habitar com êle, não a do os dois realmente consentem,
deixe. E, se alguma mulher fiel um ao outro, e trocam os seus
tem marido infiel e êste consente votos, então o sacramento é con­
em habitar com ela, não deixe ferido. O sacerdote que, pela lei
ela o marido. Porque o marido da Igreja, deve assistir aos ca­
in fiel é santificado pela mulher samentos católicos é, realmente,
fiel, e a mulher infiel é santifi­ a testemunha oficial da Ig re ja
cada pelo marido fie l; do con­ no casamento. Êle não adminis­
trário, vossos filhos seriam im­ tra o sacramento, simplesmente
puros, enquanto que agora são vê que é administrado.
santos. Mas, se o infiel se sepa­ Que dizer do casamento de um
ra, separe-se; porque o irmão ou cristão batizado com uma pessoa
a irmã não estão sujeitos a tal não-batizada? Êste não pode ser
servidão. Deus nos chamou a v i­ um casamento sacramental, em­
germos em paz. Porque, de fato, bora nem por isso deixe de ser
> mulher, como sabes que salva­ uma possível união válida e san­
rás teu marido? Ou tu, marido, ta. Contudo, se tal casamento
como sabes que salvarás tua mu­ mais tarde muda o seu caráter,
lher?" (1 Cor 7, 12-16). T al ma­ isto é, se mais tarde o não-ba-
trimónio, diz S. Paulo, é válido tizado é batizado e faz-se cris­
e verdadeiro. Não pode ser dis­ tão, conclusão lógica é que o
solvido pelo divórcio. O cônjuge casamento que começou como
in fiel deve ser aceito — é essa, não-sacramental torna-se agora
por assim dizer, uma união em um sacramento. A gora é um ca­
que o cônjuge infiel é tornado samento entre dois cristãos, com
aceitável, “ consagrado", por cau­ tôdas as qualidades maravi­
sa do cônjuge fiel. P o r amor da lhosas que Paulo atribui a tal
paz da fam ília cristã, paz daí união.
resultante, o matrimonio deveria
continuar. Os filhos de tais uni­ A Extrema-unção
ões são “ santos” , isto é, perten­ O último sacramento que con­
cem à comunidade cristã. sideraremos é aquêle que é cha­
mado Extrema-Unção. E* chama­
O Sacerdote é testemunha do a última ou “ extrema” unção
O sacramento do Matrimónio porque o cristão comum recebeu
é administrado, um ao outro, pe­ outras unções durante a vida —
los dois parceiros na união. E* no batismo, na confirmação, etc.

22
no sentido de só ser destinada ungindo-o com óleo em nome do
aos que estão para morrer. Ês- Senhor. E a oração da fé salva­
te é um mal-entendido comum. A rá o enfermo, e o Senhor o ali­
extrema-unção, é verdade, só po­ viará. E, se êle houver cometido
de ser ministrada quando a pes­ pecados, estes ser-lhe-ão perdoa­
soa está em perigo de morte. Pri- dos” (T ia go 5, 14 ss.).
màriamente pretende ela prepa­ A tradição universal da Igreja
rar essa pessoa para a morte, se Católica sempre sustentou a ins­
tal fô r a vontade de Deus. Mas tituição divina dêste sacramento
também pretende restituir a saú­ da Extrema-Unção. A sua ma­
de à pessoa doente, se Deus as­ téria e form a são o óleo consa­
sim o quiser. Todo sacerdote que grado e as orações do sacerdote
tem conscienciosamente adminis­ ministrante. Sua finalidade é au­
trado este sacramento numa pa­ mentar a união do cristão com
róquia ou hospital pode dizer dos Deus, confortá-lo e fortalecê-lo
numerosos restabelecimentos que contra a tentação, e prepará-lo
podem ser atribuídos a esta un­ para o céu, removendo-lhe da al­
ção final. ma os resultados do pecado.
Quando ou em que ocasião o Essa é a função da Ig reja que
sacramento fo i instituído por Nos­ Cristo estabeleceu, a Igreja san-
so Senhor, isto não sabemos. Sabe­ tificadora que deve continuar a
mos que êle ordenou aos seus dis­ sua obra redentora através de
cípulos fazerem uso da unção pa­ todos os tempos: estar com os
ra fins simbólicos (veja-se Mc membros do seu Corpo desde os
6, 12 ss.). Esta prática certa- seus primeiros momentos, no sa­
mente fo i continuada na Igreja cramento do Batismo, e através
apostólica. Para isto, temos o de tôda a sua vida até à Ex­
testemunho de S. Tiago: trema-Unção, que os prepara pa
“ Algum dentre vós acha-se en- ra a verdadeira morada do cris
fêrmo? mande v ir os sacerdotes tão por tôda a eternidade.

23
A 1 E L . 0 eterno sacrifício
N o século quinto antes la com o Criador. E só
de Cristo, o profeta Ma- através do sacrifício é que
laquias condenava os in­ essa união com o Criador
dignos sacrifícios que eram pode ser perfeitamente
oferecidos a Deus pelo sa­ adquirida. Foi através do
cerdócio de Jerusalém. F a ­ sacrifício que o próprio
lando em nome de Deus, Cristo pôde realizar isto
dizia êle: para o homem. Somente
“ Não me agrado de através da perpetuação
vós” , diz o Senhor Deus dêsse sacrifício é que
dos exércitos, “ e não re­ essa união pode ser man­
ceberei dom das vossas tida.
mãos. Porque, do nascer do sol Sacrifício é uma oblação fe i­
até o ocaso, meu nome é gran­ ta a Deus para reconhecer o seu
de entre as gentes, e em cada poder supremo, para pôr o ado­
lugar há um sacrifício, e ali é rador em união com êle. N a sua
oferecido a meu nome uma obla­ form a mais simples, pode o sa­
ção pura: pois meu nome é gran­ crifício ser considerado um “ dom”
de entre as gentes”, diz o Se­ feito a Deus, embora o homem
nhor Deus dos exércitos” (1 10- realmente nada possa dar ao
11) . Dador de tudo. E ’ êle, talvez,
A tradição cristã tem visto mais bem descrito como um ges­
nas palavras de Malaquias um to que indica o espírito de boa-
prognóstico do sacrifício da N o­ vontade e de abnegação da par­
va Lei, aa qual chamamos a Mis- te daquele que o oferece. A té
sa. E, na verdade, a Missa é um mesmo os povos mais primitivos,
sacrifício oferecido “ em cada lu­ cuja religião pode ser rude e
g a r”, do Ocidente ao Oriente. E* pejada de superstição, geralmen­
o sacrifício do próprio Cristo, te são movidos por um espírito
continuado, através das idades, de sacrifício e pela intenção de
na sua Igreja. agradar a Deus.
O sacrifício é da própria es­ Os Judeus tinham muitos dês-
sência da religião. “ Religião” ses sacrifícios. Sob alguns as­
deriva de uma palavra latina que pectos os sacrifícios judaicos
quer dizer “ ligar de nôvo” , isto eram, materialmente, da mesma
é, lig a r de nôvo a criatura, uni- espécie que os dos gentios. Mas

24
preensão de Deus através da pró­ crifício, agora considerado sa­
pria revelação de Deus, podiam grado por haver sido dedicado
oferecer sacrifícios com a segu­ a Deus, era comido por aquêlc
rança de serem estes agradáveis que oferecera o sacrifício e por
a Deus, e pela sua Lei sabiam seus amigos. Êste tipo de sacri­
como êsses sacrifícios deviam ser fício era uma ocasião cm que
oferecidos. uma pessoa rica teria oportuni­
Os Judeus tinham várias es­ dade de repartir suas posses com
pécies de sacrifícios, cada um os pobres convidando-os a parti­
oferecido para fins específicos. ciparem do sacrifício consigo. A
Um era chamado o “ holocausto”, manducação da vítima sacrifi­
ou “ oferta total incinerada” . Nes­ cal era um pálido prognóstico
te sacrifício, uma vítim a ani­ da Sagrada Eucaristia da Missa.
mal era inteiramente destruída, N a oblação de paz havia co­
ou, no caso dos pobres que não munhão — comunhão de Deus
podiam oferecer êsses custosos com o homem, comunhão entre
sacrifícios, tortas ou incenso os homens sob Deus. N a Missa
eram queimados como sinal do há esta mesma Comunhão de mo­
desejo do sacrificador de hon­ do muito mais elevado. O que
rar a majestade de Deus. torna a Missa o mais elevado de
todos os sacrifícios é a nature­
Oblações de paz za da Vítima, o próprio Cristo.
Outros sacrifícios eram cha­ Porque a Missa é a continuação
mados “ oblações pelo pecado” ou do sacrifício de Cristo, por êle
“ oblações pela culpa” , e desti- oferecido mediante a sua vida e
navam-se especialmente a remo­ morte.
ver o pecado. Um tipo final de A obra de Cristo na terra, e
sacrifício era chamado pelos Ju­ especialmente a sua paixão e
deus a “ oblação de paz”. Em he­ morte, foi um sacrifício pelo qual
braico, a palavra “ paz” quer di­ nós fomos unidos a Deus atra­
zer muito mais do que ordinà-
vés de Cristo nosso Mediador. A
riamente ela significa em nos­
Epístola aos Hebreus diz de
sas línguas. Significa “ integri­
Cristo:
dade” , “ harmonia” . A paz com
Deus significava união com Deus, “ Tendo, pois, um grande pon­
e isso era especialmente o que tífice, que entrou no íntimo dos
este sacrifício pretendia simbo­ céus, Jesus Filho de Deus, sus­
lizar. Portanto, uma parte im­ tentemos a fé professada. . . M ar­
portante dêste rito residia na chemos, pois, cheios de confiança
refeição sacrifical que se seguia para o trono de graça, a fim
ao sacrifício. de obtermos misericórdia e al­
Tendo sido incineradas em cançarmos a graça no socorro
honra de Deus as partes sele- oportuno” (4, 14, 16).

25
Jesus é, pois, o sacerdote, o vem a Deus, estando sempre vi- 1
ofertante do sacrifício. Isso foi vo para interceder por nós” (7,
por designação divina, prossegue 21 ss., 24 ss.).
dizendo a epístola:
O mesmo sacrifício
“ Assim também não foi Cris­
to que se glorificou a si mesmo Não é que Cristo ofereça quais­
para se fazer pontífice, mas sim quer sacrifício a mais, porém
aquêle que lhe disse: “ Ês meu continua o mesmo sacrifício. “Ê le
não precisa oferecer sacrifício d ia
Filho, gerei-te hoje” . Como igual­
por dia, como o fazem os ou­
mente diz ainda noutro lugar:
“ És o sacerdote eternamente, se­ tros sacerdotes, primeiro pelos
seus próprios pecados e depois
gundo a ordem de Melquisedec”
pelos pecados do povo. Fê-lo uma
(5, 5 ss.).
vez por todas quando se o fe re ­
Porém Cristo não fo i somente ceu a si mesmo” (7, 26 ss.).
o sacerdote deste sacrifício, foi Êste sacrifício Cristo continua
também a Vítim a, o próprio e a oferecer no céu. “ Tomou seu
verdadeiro objeto do sacrifício: assento à direita do trono d a
“ Nos dias da sua vida mortal, Majestade divina no céu. A li, n o
oferecendo com grande clamor e santuário e no verdadeiro ta b er­
lágrimas preces e súplicas àque­ náculo, que o Senhor e não o h o ­
le que podia salvá-lo da morte, mem erigiu, êle prossegue as suas
por causa da sua reverência Je­ funções sacerdotais. Para is to
sus fo i atendido. E, conquanto todo sacerdote é designado —
fôsse o Filho de Deus, aprendeu para oferecer dom e sacrifícios”
a obediência através das coisas (8, 1, ss.).
que sofreu. E, depois de ser ele­
vado às alturas da perfeição, O Mediador
tomou-se para todos os que lhe
Êsse sacrifício eterno que C ris ­
obedecem a causa da eterna sal­
to continuamente oferece no céu
vação, chamado como fora por
ao P ai é a nossa salvação. “ N e m
Deus pontífice segundo a ordem
com o sangue dos bodes ou de
de Melquisedec” (H eb 5, 7-10).
novilhos, mas com o próprio san­
E a epístola prossegue dizen­ gue entrou êle no santuário uma
do que é eterno êsse sacrifício vez, obtendo uma redenção eter­
de Cristo: na” (9, 12). “ E* por isto que êle
“ N o caso de Jesus interveio o é Mediador do Novo Testamento,
juramento daquele que lhe disse: a fim de que, intervindo a mor­
“ O Senhor jurou, e não se ar­ te para a redenção daquelas pre­
rependerá; és sacerdote por tôda varicações que havia sob o antigo i
a eternidade” . . . E êste, como testamento, os que foram chama- [
permanece para sempre, possui dos recebam a herança eterna
um sacerdócio sempiterno. P or­ que fôra prometida” (9, 15). ;
tanto, pode perpètuamente sal­ Pode-se concordar com o tes- |

26
témunno ao inovo Testamento meu sangue; lazei isto, todas as
concernente ao sacrifício de Cris­ vezes que o beberdes, em memó­
to pela nossa salvação, mais ain­ ria de mim. Porque tôdas as vê-
da se quer perguntar: “ Mas on­ zes que comerdes êste pão e be­
de é que a Missa se encaixa no berdes êste cálice, anunciareis a
quadro?” morte do Senhor até que êle ve­
Os evangelhos fornecem uma nha” .
resposta clara. A li lemos que na Por êstes textos ficamos sa­
noite em que Jesus foi traído, na bendo, antes de tudo, que Cristo
qual sua paixão devia começar, identificou o sacramento da Sa­
“ antes de terminar a ceia, Jesus, grada Eucaristia ou Sagrada
tomou nas mãos pão e, depois Comunhão, seu corpo e seu san­
de dar graças, partiu-o em por­ gue, com o fato do seu sacri­
ções e deu-as aos discípulos di­ fício — “ Isto é o meu sangue
zendo: “ Tomai e comei. Isto é do Nôvo Testamento, o qual será
meu corpo” . Tomou também o derramado em favor de muitos,
cálice, e, após dar graças, pas- para a remissão dos pecados” . . .
sou-o a êles, dizendo: “ Bebei dê- “ Isto é o meu corpo que por vós
le todos, porque isto é o meu é dado” . Depois, Cristo mandou
sangue do nôvo Testamento, que que êsse ato continuasse, o mes­
vai ser derramado em favor de mo ato que êle praticara na úl­
muitos para a remissão dos pe­ tima ceia: “ Fazei isto como meu
cados” (M t 26, 26 ss.). Os ou­ memorial” (L c 22, 19). “ Fazei is­
tros dois evangelhos que regis­ t o . . . em memória de m im ...
tam êste grande acontecimento Tôdas as vêzes que comerdes ês­
não diferem grandemente; veja- te pão e beberdes o cálice do
se Marcos 14, 22 ss., e Lucas, Senhor, anunciareis a morte do
22, 19 ss. ^ Senhor até que êle venha” (1
Um relato independente que Cor 11, 25 ss.).
Paulo recebeu da tradição é acha­ O rito pelo qual o corpo e o
do em 1 Cor 11, 23-26. sangue de Cristo são postos à
disposição dos homens é, portan­
O Nôvo Testamento to, um memorial do sacrifício de
“ O fato é que eu recebi como Cristo. Quem oferece êste rito
vindo do Senhor, e a vós trans­ memorial são os sacerdotes da
miti, que o Senhor Jesus, na noi­ Igreja, os sucessores dos Após­
te em que foi traído, tomou o tolos aos quais Cristo deu o man­
pão e, dando graças, partiu-o e dato: “ Fazei isto” . P or causa da
disse: Tomai e comei: isto é união dêste rito com o sacrifício
o meu corpo que será entregue de Cristo, o próprio rito é um
por amor de vós; fazei isto em sacrifício — não por causa da
memória de mim. Do mesmo mo­ eficácia da oblação humana, mas
do, depois de haver ceado, tomou em virtude do sacrifício que êle
também o cálice, dizendo: Êste rememora. Cristo é o sacerdote
cálice é o Nôvo Testamento em principal que oferece êste sacri-

27
ministro. náculo (os Judeus não conver­
Assim, a Missa é a mesma coi­ tidos) não têm direito de comer”
sa que o sacrifício da cruz. Não (13, 10). O caráter sacrifical
importa quantas vezes ela é ofe­ da Missa foi reconhecido desde
recida, nem em quantos lugares o começo da Ig re ja infante.
ao mesmo tempo: ela é o mesmo Há contínua referência à M is­
sacrifício de Cristo. Cristo está sa nos Atos dos Apóstolos como
sempre oferecendo-se a si mes­ à “ fração do pão” (2, 42, etc .).
mo na Missa. Paulo lhe chama “ a ceia do Se­
nhor” (1 Cor 11, 20). N a Ig r e ­
Salvação para todos ja primitiva recebeu ela o nome
O que Cristo efetuou median­ de “ Eucaristia” , que quer d izer
te o seu sacrifício na cruz efe- “ ação de graças” , talvez como
tuou-o para todo o tempo. Êle resultado de a ela referir-se Pau ­
não sofre mais. Sem dúvida o lo como ao “ cálice de bênçãos
sacrifício continua somente nos que benzemos” (1 Cor 10, 1 6 ).
seus efeitos. Isto é o que a Epís­ S. Justino M ártir (que morreu
tola aos Hebreus quer dizer fa ­ entre os anos 163 e 167) é
lando do sacrifício eterno de um dos primeiros que sabemos
Cristo no céu. E isto é precisa­ lhe haverem chamado Eucaristia
mente o que a Missa represen­ (Diálogo com Trifon, 41). P o ­
ta — continuar os efeitos do rém, mesmo antes de Justino;
sacrifício redentor de Cristo. As Santo Inácio de Antioquia, que
almas dos homens ainda não nas­ foi martirizado em 107, usou
cidos, juntamente com as dos êste têrmo (na sua Epístola aos
ora viventes e dos que têm de Esm lm ios, 7). E um dos mais
v ir à existência desde o sacri­ antigos de todos os documentos
fício de Cristo, tôdas necessitam cristãos, mais velho mesmo dc
da salvação que Cristo alcançou que parte do Nôvo Testamento,
para nós. E ’ através da Missa, assim descreve a Missa:
tanto como através dos sacra­ “ No dia do Senhor, reuni-vos,
mentos, que os efeitos da salva­ parti o pão e dai graças (a pa­
ção de Cristo são aplicados às lavra usada em grego é a mes­
almas dêsses homens. Neste sen­ ma que Eucaristia), tendo con­
tido, a redenção ainda continua, fessado os vossos pecados a fim
e continuará enquanto restar de que seja puro o vosso sacri­
uma simples alma a ser salva. fício. Todo aquêle que tem uma
Neste sentido o sacrifício de Cris­ inimizade com seu próximo não
to ainda está sendo efetuado e deve encontrar-se convosco en­
continuará a ser efetuado. quanto êles não estiverem recon­
ciliados, para que não seja pro­
«Fração do Pão» fanado o vosso sacrifício. P ois
“ Nós temos um altar” , diz a assim disse o Senhor: “ Em t o ­
Epístola aos Hebreus, “ do qual do lugar” e tempo “ ofereçam

28
eles a mim um sacrifício puro; ao sacrifício da Missa em cada
pois sou um grande R ei” , diz o Dia do Senhor.
Senhor, “ e o meu nome é glo­ A Missa é para nós algo mais
rificado entre as nações” . do que um simples serviço religioso
Esta citação, que identifica a dominical. Não é algo que pos­
Missa com o sacrifício e que a samos tomar ou deixar por nós
associa mesmo com a profecia mesmos, algo que poderia ser re­
de Malaquias pela qual começa­ movido da nossa vida e ainda
mos este capítulo, é tirada da nos deixar sendo os mesmos. A
obra chamada em grego Didachê, Missa é a própria essência da
isto é, O Ensino dos Doze Após­ Igreja. Dentro dela está concen­
tolos (cap. 14), a qual data de trada a vida da Ig re ja e a pró­
cêrca do ano 90, ou que tal, de­ pria existência da Igreja. Se não
pois de Cristo. E ’ inteiramente houvesse Missa, não poderia ha­
provável que dos próprios Após­ ver Ig re ja Católica.
tolos venha o nome Eucaristia
para o Sacrifício memorial. Culto digno
A Missa é o nosso ato de ado­
Chamada «M issa» mais tarde
ração, um ato que sabemos ser
O sacrifício Eucarístico veio, realmente adoração de Deus, por
mais tarde, a ser conhecido co­ ser o sacrifício do próprio F i­
mo a Missa, em resultado do lho de Deus. Não é apenas a
próprio rito. As palavras finais, fraca oblação de nossas mãos,
ainda hoje usadas na Missa, são: mas sim um ato que sabemos
Ite, missa est, significando: “ Ide, que dá honra suprema a Deus.
(a Eucaristia) está finda” . A Aquilo que os sacrifícios da
simples palavra missa veio a ser Lei Antiga eram incapazes de
aplicada à cerimónia inteira, e efetuar — aquilo que nenhuma
finalmente tornou-se Missa nas outra forma de culto humano po­
diversas línguas. de efetuar — a Missa realiza.
Pelo que foi dito, deve ser fá ­ Deus é adequadamente adora­
cil ver por que razão a Missa do. Deus é implorado irresisti­
ocupa um lugar tão importante velmente em favor daquelas coi­
na vida da Igreja, por que ra­ sas de que seus filhos neces­
zão nós edificamos igrejas e por sitam. Perfeita expiação é feita
que razão, quando não temos igre­ pelo pecado. Todos êstes efeitos
ja edificada, ansiamos por con­ seguem-se do fato de haver sido
seguir algum lugar disponível perfeito o sacrifício de Cristo.
para a celebração da Missa. Is­ Os não-católicos muitas vêzes
so explica a importância que liga­ ficam confusos quando falamos
mos ao sacerdócio, o extraordi­ de Missas “ rezadas” e Missas
nário interêsse que pomos na “ cantadas” , de Missas “ solenes” ,
Missa como observância do Do­ e de Missas de “ requiem” . Que
mingo, e por que razão os ca­ é que queremos dizer por êsses
tólicos são obrigados a assistir têrmos?

29
Missa rezada é a Misa comum, sa, significando “ descanso” -4'<
diàriamente celebrada, na qual o na íntegra o texto é: “ O eter­
próprio sacerdote reza todas as no descanso dai-lhes, Senhor” .
partes da Missa, e na qual não A Missa de “ requiem” , ou de
há côro nem ministros adicionais. defunto, é a Missa oferecida pe­
Quando o sacerdote é assistido los mortos, na qual o sacerdo­
por um côro e canta certas par­ te e os ministros oficiantes usam
tes da Missa, temos aquilo que paramentos prêtos.
oficialm ente é chamado uma Mis­
sa cantada. Quando há ministros Um só sacrifício
adicionais para cantarem certas Não há diferença essencial en­
partes da Missa e para exercerem tre qualquer dessas Missas —
certas funções, a Missa é cha­ tôdas elas são a continuação do
mada solene. Esta Missa inclui único sacrifício de Cristo. A es­
algumas cerimonias adicionais sência da Missa persiste o que
que não estão na Missa reza- sempre f o i : a consagração do
zada ou cantada. A Missa que é corpo e sangue de Cristo como um
celebrada por um bispo, com a memorial do seu sacrifício, em
assistência de outros ministros obediência ao seu mandato: “ F a ­
i com a adição de várias ou­ zei isto em memória de mim” . A
ras cerimonias, é chamada Mis­ cerimonia, os paramentos, o can­
ta pontifical. to, tôdas estas coisas são me­
Qualquer dessas Missas pode ros reflexos do desvêlo amoroso
ser uma Missa de “ requiem”. com que através das idades a
“ Requiem” é tomado da primei­ Ig re ja tem cercado de solenida­
ra palavra pronunciada na Mis­ de êsse grande sacrifício.

30
A LEI de CRISTO
expressa nos dez Mandamentos

Toda instituição com­ fardos uns dos outros, e


posta de homens deve ser assim cumprireis a lei de
governada por lei. A lei Cristo” (G ál 6, 2 ), a qual
é que estabelece as nor­ é a lei de amor.
mas a que os homens de­ A lei, que a razão nos
vem obedecer se quiserem diz ser necessária nos ne­
respeitar as suas obriga­ gócios dos homens, tem,
ções e não transgredir os assim, no Nôvo Testamen­
seus privilégios. O homem to, um sólido fundamento
tem obrigações para com como significando os de­
os outros homens e tem veres do homem para com
obrigações para com Deus. Deus.
A lei determina a extensão e os O sumário mais simples dos
limites dessa obrigação e diz-lhe deveres do homem para com Deus
o que êle deve fazer. está no Decálogo, os “ Dez Man­
A lei é simplesmente a deter­ damentos” do Antigo Testamen­
minação da obrigação individual to (Ê x 20, 2-17, Deut 5, 6-21),
como fixada por uma autoridade Conseguintemente, é sob a fo r
legítima. Muita gente é bastante ma dos dez mandamentos que os
humilde para reconhecer que o católicos usualmente agrupam as
bem da sociedade em geral deve obrigações que eles reconhecem
ser preferido ao bem individual. como sendo a lei da sua fé.
Se isto não fôsse reconhecido, te­ Pode-se fazer esta pergunta:
ríamos a anarquia, na qual os Como é que os católicos reconhe­
direitos individuais seriam des­ cem os dez mandamentos como
truídos. Semelhantemente, muita sendo a lei de Deus, se os cris­
gente reconhece que Deus tem di­ tãos não estão obrigados pela
reitos sôbre o homem. Ao reconhe­ Lei de Moisés do Antigo Testa­
cimento dêstes direitos chamamos mento? S. Paulo não diz: “ Vós
as leis de Deus. não estais sob a lei” (G ál 5, 18),
A té mesmo S. Paulo, que in­ e esta doutrina não é comum
sistia em que os cristãos não es­ no Nôvo Testamento?
tavam obrigados pela velha lei Nós não estamos sob a Lei
de Moisés, não hesita em usar a de Moisés, é verdade. Nem ob­
palavra “ lei” referindo-se à obri­ servamos os dez mandamentos co­
gação dos cristãos: “ Carregai os mo parte dessa lei. Mas os dez

31
A n tigo Testamento fornecem um tural ou reconfirmam preceitos
sumário que nós podemos mui morais da Lei Mosaica. Em
convenientemento usar para as muitos casos cias vão além des­
várias leis que observamos. tas leis. Só sob Cristo é que nós
Os dez mandamentos são pre­ temos, por exemplo, a lei univer­
ceitos de obrigação por parte de sal do amor, obrigação que se
todos os homens, por serem leis estende aos inimigos tanto como
ditadas pela própria razão do aos amigos, e a tôda e qualquer
homem. Paulo disse-nos isto: “ Os pessoa no mundo. De Cristo nós
gentios, que não têm lei, seguem temos a obrigação de pertencer
os ditames da razão e fazem o à sua Igreja, ou de receber os
que a Lei prescreve” . E, assim seus sacramentos.
fazendo, “ êstes, embora não te­
nham lei, são lei para si mes­ Dever civil
mos” (Rom 2, 14). Em terceiro lugar, reconhece­
Com a vinda da nova lei de mos as leis que são feitas pela
Cristo, tôda obrigação para com legítima autoridade, eclesiástica
a velha lei cessou juntamente com ou civil. Tanto a Ig re ja como o
a própria Lei Mosaica. Agora, Estado são perfeitas sociedades
além das prescrições da lei na­ de homens, cada uma no seu
tural, nós observamos aquelas campo, com uma função p articu ­
determinações que, direta ou in­ lar a servir a bem da hum ani­
diretamente, Cristo julgou con­ dade. Tais sociedades devem f a ­
veniente impor-nos. zer leis para o correto g o v e r ­
no dos seus súditos, a fim d e
Deveres para com Deus que todos possam alcançar o ob­
Antes de tudo, a lei da razão. jetivo para que existem. R eco­
Muitos dos dez mandamentos in­ nhecemos que tais leis nos o b ri­
cidem sob este título, além de te­ gam em consciência como sendo
rem sido revelados por Deus. a vontade de Deus, exercida a tra ­
Ninguém arguirá contra a pro­ vés dos seus representantes.
posição de que o morticínio vo­ “ Sêde sujeitos a tôda autori­
luntário é mau, de que é mau dade humana por amor de Deus” ,
levantar falso testemunho con­ escreveu S. Pedro: “ se ao rei,
tra o próximo, de que o adulté­ como soberano; se aos governan­
rio é um crime de injustiça. A tes, como por êle delegados pa­
lei natural sozinha não nos le­ ra castigo dos m alfeitores e in­
vará muito longe, porém cobre centivo dos bons. A vontade de
os essenciais básicos daquilo que Deus é precisamente que, pra­
é chamado moralidade. ticando o bem, façais emudecer
Em segundo lugar, reconhece­ a ignorância dos homens sem
mos as leis de Cristo que acha­ critério. Como livres, mas não
mos no Nôvo Testamento ou na para fazerdes da liberdade u m
sagrada Tradição. Em muitos ca- véu de malícia, e sim como s e r-

32
amai vossos irmãos; temei a rás ganhado teu irmão. Mas, sc
Deus; respeitai o rei” (1 Ped êle não te escutar, então toma
2, 13-17), contigo um ou dois, para que
O Nôvo Testamento claramen­ por bôca de duas ou três teste­
te considera a Ig reja como sen­ munhas seja tudo confirmado.
do uma organização governativa Mas, se êle não lhes der atenção,
com o poder de fazer leis. Ao então notifica-o à Ig re ja ; e, se
considerarmos o sacramento da êle não der atenção à Igreja,
penitência ou confissão, já fize­ então trata-o como a um gen­
mos notar, por exemplo, o po­ tio e a um publicano” (M t 18,
der que Cristo deu aos chefes da 15 ss.). E, imediatamente depois
Ig re ja de julgarem em matéria desta qualificação da autoridade
de perdoar ou reter o pecado. da Igreja, êle repete a incumbên­
E* bem conhecida a incumbência cia divina aos chefes da Ig re ja :
de Nosso Senhor a Pedro, ex­ “ Em verdade vos digo: tudo
pressa nas palavras de promes­ o que ligardes na terra será li­
sa qUando resolveu nomeá-lo o gado no céu; e tudo o que des­
primeiro chefe da sua Ig re ja : ligardes na terra será desliga­
“ Tu és Pedro, e sobre esta pe­ do no céu” (M t 18, 18).
dra edificarei a minha I g r e ia ...
Dar-te-ei as chaves do reino dos Os mandamentos
céus, e tudo o que ligares na Portanto, as nossas leis, que
terra será ligado no céu, e tudo vêm da nossa razão, da nossa
o que desligares na terra será consciência moral, da vontade
desligado nos céus” (M t 16, 18 de Deus revelada e da autori­
ss.). Isto confere a suprema au­ dade legal da Igreja e do Es­
toridade. tado, nós achamos conveniente re-
O Apóstolo Paulo, por ocasião sumi-las sob um ou outro dos dez
da sua última volta a Jerusa­ mandamentos do Antigo Testa­
lém, convocou para Mileto os mento.
presbíteros da Ig reja em Éfeso Isto suscita uma questão que
(A t 20, 17), e advertiu-os di­ muitas vêzes causa confusão aos
zendo: “ Tomai cuidado convosco não-católicos. A enumeração dos
e com todo o rebanho a cuja dez mandamentos como achada
frente o Espírito Santo vos co­ no Catecismo católico difere da
locou como bispos para gover­ usada por muitos protestantes.
nardes a Ig re ja de Deus, a qual “ Quem foi que alterou a ordem
êle adquiriu com seu sangue” dos mandamentos?” , perguntam
(20, 28). E o próprio Cristo dis­ êles. “ Foi a Ig re ja Católica ou
se aos seus Apóstolos: fomos nós?”
A resposta é que ninguém al­
O caminho conveniente terou essa ordem ou numeração.
“ Quando teu irmão pecar con­ Simplesmente há diferentes mo­
tra ti, vai e corrige-o entre ti dos de enumerar os mandamen-

33
rações tradicionais seguidas por nunca adoração, que, esta, só \
v&rios grupos religiosos, e não Deus pertence. Não são proibi-
apenas duas. Há algo a dizer das imagens do Filho de Deus
sôbre cada uma dessas enume­ e dos Santos, tal como imagens
rações, e nenhuma delas pode do querubim não foram proibi­
ser com simplicidade chamada das aos Judeus; mas as im a­
errada. gens são feitas apenas para nos
Se se olha para o texto do representar aquêles que nós que­
Êxodo (20, 2-17) ou do Deute- remos honrar.
ronômio (5, 6-21), onde os dez
Obrigações sagradas
mandamentos são achados na B í­
blia, descobrir-se-á que em ne­ Desespero ou presunção para
nhum dêsses lugares há qualquer com a Providência de Deus são
enumeração. Em parte alguma é pecados contra o primeiro man­
sequer declarado que há dez damento, o qual resume para nós
mandamentos ou que êles deve­ tôdas as obrigações de fé, espe­
riam ser enumerados como dez. rança e caridade para com Deus.
A enumeração foi obra de ho­ O sacrilégio, a profanação de
mens de tempo posterior. Tôdas uma pessoa ou coisa sagrada,
as três enumerações tradicionais como, por exemplo, uma ig r e ja
mencionam dez, mas chegam a dedicada a Deus, seria um peca­
dez por caminhos diferentes. do contra êste mandamento.
Òbviamente, a enumeração é O segundo mandamento proíbe
de muito menor importância do o mau uso e o abuso do nome
que uma compreensão da lei de de Deus. Positivamente, sob ês­
Deus e do que a determinação te capítulo nós reconhecemos a
de observá-la. Contudo, pelo fa ­ nossa obrigação de respeitar o
to de freqiientemente êste as­ nome de Deus. Aqui, também,
sunto causar confusão, é bom incluímos a obrigação de res­
compreender como se produziram peitar um juramento impôsto
as diferenças na enumeração dos pela legítim a autoridade civil.
mandamentos. Num juramento nós invocamos
Sob o primeiro mandamento o testemunho de Deus em fa v o r
nós católicos reconhecemos as da verdade do que dizemos. P or­
nossas obrigações concernentes tanto, o perjúrio, além do seu
ao culto de Deus e à exclusão caráter de crime civil, é um pe­
do culto de qualquer outro Deus cado contra o segundo manda­
ou de qualquer outra coisa. Ês­ mento.
te mandamento proíbe toda es­
pécie de superstição ou idola­ A blasfêmia
tria, a substituição de Deus por A praga, ou maldição, e a blas­
qualquer coisa que seja. Aos ser­ fêm ia são pecados contra êste
vos de Deus, os Santos e sua mandamento. Devem elas, sem
Santíssima Mãe, pode ser con- dúvida, ser distinguidas da pro-

34
trar que uma pessoa é vulgar, de uma neomênia, ou dos sába­
mas não necessariamente um pe­ dos” (Col 2, 16), isto é, as leis
cador. Praguejar ou amaldiçoar judaicas dietéticas ou suas fes­
é desejar mal a alguém em no­ tas, luas-novas e sábados acha­
me de Deus, o que òbviamen- dos na lei de Moisés.
te é uma irreverência a Deus, e Mas, como cristãos, nós temos
a blasfêmia é a real injúria fe i­ regulações semelhantes, e estas
ta ao próprio Deus. é que nós agrupamos sob êste
O terceiro mandamento no Êxo­ mandamento. Assim, o primeiro
do é: “ Lembra-te de guardar o dia da semana, o domingo, é pa­
dia do Sábado” . Isto não fa ­ ra nós um dia especial de culto
zia parte da lei natural, mas de Deus, em honra do dia em
era um mandamento de Deus, que Nosso Senhor ressurgiu dos
diretamente revelado, pelo qual mortos. A Ig reja instituiu esta
os judeus punham de parte o lei e proibiu no domingo tra­
sétimo dia da semana, o Sába­ balho desnecessário, à imitação
do, para ser consagrado a Deus. da Lei de Moisés. Contudo, tra­
Esta consagração consistia sim­ ta-se de um mandamento inteira­
plesmente em não fazer traba­ mente diferente. O que se acen­
lho de qualquer espécie. Não era tua nêle é o culto de Deus, e
um dia especial de culto. O cul­ por isso os católicos são obriga­
to de Deus no templo era o dos a assistir à Missa nesse dia.
mesmo cada dia, pois os sacri­
fícios eram diários. A essência Vários significados
da lei Sabática consistia em não O quarto mandamento para os
trabalhar, e, assim, até mesmo judeus obrigava os filhos a hon­
os animais irracionais eram rarem seus pais. Por certo, nós re­
obrigados a “observar” essa lei conhecemos tal obrigação pela
(Ê x 20, 10). própria lei da natureza. Mas ar­
Com a libertação dos cristãos rolamos também sob êste man­
da Lei Mosaica essa lei Sabáti­ damento outras obrigações de
ca passou. Os Atos dos Apóstolos natureza semelhante. O quar­
(15, 1-2, 5-29) e as epístolas de to mandamento obriga-nos, por
S. Paulo mostram claramente exemplo, a respeitar os superio­
que a lei Mosaica foi inteira­ res legítimos, quer eclesiásticos
mente retirada dos ombros dos quer civis, e impõe aos supe­
cristãos. Os que procuravam su­ riores e aos pais deveres de res­
gerir que os cristãos deveriam ponsabilidade para com os que
estar obrigados por qualquer as­ lhes estão a cargo. Aqui também
pecto da Lei eram estigmatiza­ colocamos as obrigações de ci­
dos por Paulo como hereges, e dadania e de patriotismo.
êle advertia seus discípulos de Além do homicídio voluntário,
que ninguém, pois, vos julgue o quinto mandamento proíbe o
quanto ao comer ou beber, ou a suicídio. Similarmente, são proi*

35
dio, isto é, todos os atos e dese­ terdito do sexto mandamento. A
jos que possam levar ao homi­ virtude da castidade deve ser
cídio. E ntre estes estão a luta, preservada por meio da modés­
a cólera, o ódio, a vingança. tia e do decoro. Há normas às
Contra a nossa própria pessoa quais devem conformar-se tanto
podemos pecar por embriaguez, os casados como os não-casados.
gula, abuso de drogas — prá­ O furto e o roubo são proibi­
ticas ilegais que desnecessària- dos pelo sétimo mandamento, mas
mente encurtam a nossa vida. também o são o dolo, defraudar
um trabalhador do seu justo sa­
Mata a alma lário, tirar proveito da necessi­
Pior do que o morticínio fís i­ dade de outrem para explorá-lo,
co é o morticínio da alma. Mau aceitar peitas e propinas no ser­
exemplo, escândalo, induções ao viço público — em suma, tudo
pecado, etc., incidem nesta cate­ quanto constitui violação da jus­
goria e, conseguintemente, são tiça. Isto inclui o privar outrem
proibidos pelo quinto manda- da sua reputação por efeito de
[nento. calúnia e difamação. Ninguém
O quinto mandamento exige to­ pode chamar-se uma pessoa jus­
memos prudente cuidado do bem- ta simplesmente por nunca ha­
estar espiritual e corporal da ver pôsto uma carga nas costas
nossa própria pessoa e da do dos outros e por tê-lo aliviado
nosso próximo. Com igual fa ­ do seu alforje. Algumas das mais
cilidade podemos in frin gir a lei perniciosas violações do sétimo
pela negligência daquilo que de­ mandamento podem ser perpe­
veríamos fazer como pela prá­ tradas em lugares como uma me-
tica daquilo que não deveríamos sa de jôgo, ou nos escritórios
fazer. de homens de negócios ou de fun­
O sexto mandamento originà- cionários públicos aparentemen­
riamente obrigava os judeus a te respeitáveis, etc.
se absterem do adultério. A Lei
era enfática só sôbre êste peca­ Falso testemunho
do por causa da importância li­ O oitavo mandamento concer­
gada pelo Velho Testamento à ne à virtude da verdade. Nos
pureza da descendência fam iliar. tempos primitivos, os judeus con­
Sabemos, entretanto, que há ou­ sideravam só ser má aquela es­
tros modos de in frin gir a v ir­ pécie de mentira que prejudi­
tude da castidade, e que todos cava outrem. E ra assim que a
êstes são excluídos pelo sexto lei rezava: “ Não levantareis falso
mandamento. testemunho contra vosso próxi­
Adultério, fornicação, pecados mo” . Algumas pessoas ainda vêem
naturais e antinaturais que abu­ pequeno mal, se algum, naquilo
sem das faculdades sexuais, im- a que chamam “ mentiras bran-

36
nais” . Contudo uma mentira de tentam simplesmente com serem
qualquer espécie é um ato indigno “ respeitáveis” :
do homem. Não é verdade dizer “ Ouvistes que foi dito aos an­
que há mentiras que não preju­ tigos: “ Não matarás” ; e quem
dicam ninguém. Prejudicam quem matar será réu em juízo. Eu,
delas é culpado, e prejudicam a porém, vos declaro que todo aque­
sociedade, destruindo a base da le que se irar contra seu irmão
fé e da mútua confiança, base será réu em ju íz o ... Ouvistes
na qual a sociedade deve repou­ que foi dito: “ Não adulterarás” .
sar se quiser sobreviver. Eu, porém, vos digo que todo
Portanto, a mentira, uma te­ aquêle que olhar para uma mu­
merária e infundada condenação lher cobiçando-a já adulterou com
dos outros, a detração da repu­ ela no seu coração” (M t 5, 21
tação ou do bom-nome do próxi­ ss., 27 ss.).
mo — mesmo se o que se diz é E ’ sobretudo nestes mandamen­
verdade — e a revelação dos seus tos que nós nos elevamos a um
segredos, tudo isto é proibido por reconhecimento da plena enormi­
este mandamento. dade do pecado, e daquilo que
Deus espera de nós. O pecado
Pensamentos pecaminosos é o nosso afastamento da lei de
O nono e o décimo mandamen­ Deus, a nossa violação de uma
tos proíbem em pensamento, de­ virtude sagrada, a nossa falta
sejo ou intenção as mesmas coi­ contra o que é direito e decen­
sas que são proibidas em ato pelo te. Tôdas estas coisas nós as
sexto e pelo sétimo mandamentos. fazemos também por intenção, e
Algumas pessoas pensam que pe­ não somente quando realmente
cado e crime são a mesma coisa exprimimos a nossa vontade em
— que não há pecado senão ha­ ato. Deus nos trata como ho­
vendo um ato aberto que possa mens livres, mas nós devemos
ser averiguado e punido. Os que aceitar a responsabilidade da
reconhecem a lei de Deus não nossa liberdade. Assim como êle
cairão em tal êrro. O pecado con­ não nos censurará pelo mal que
siste essencialmente na vontade inconscientemente fizermos, tam­
de pecar, e não no ato. Um ho­ bém não nos desculpará se qui­
mem que comete o homicídio no sermos o mal, embora por covar­
seu coração é réu de homicídio. dia ou por alguma prática im-
Um homem que comete adultério pediente a nossa má-vontade real­
no seu coração é réu de adultério. mente não vingue. Êle não fica
Se há alguma coisa de segu­ em cima de nós para exigir obe­
ro na lei de Cristo é êste fato, diência exterior. Ê le não é como
e foram precisamente estes peca­ os homens, que só podem jul­
dos que Nosso Senhor especifi­ gar pelas ações externas e nãó
cou ao detalhar a verdadeira na­ podem ler os segredos dos co­
tureza do pecado, contra a cô- rações. Só pelo reconhecimento

37
Jutnu uuiaia ■
■ ■■ ■■■■■•NI

nono e o décimo mandamentos é 37 ss.). Êstes mandamentos èle


que pode haver uma digna com­ os tirou do Antigo Testamento.
preensão do que é a liberdade O modo como êles devem ser ob­
humana e da santidade do Deus servados êle nos mostrou na sua
cuja lei nós seguimos. vida e nos seus ensinamentos. Se
“ Am arás o Senhor teu Deus verdadeiramente amamos a Deus,
de todo o teu coração, e de to­ e ao nosso próximo por amor
da a tua alma, e de toda a tua de Deus, então as múltiplas obri­
mente” , disse Nosso Senhor. “ Ês- gações específicas e individuais
te é o maior e o primeiro manda­ que reconhecemos serão por nós
mento. Mas um segundo lhe é realmente praticadas.
semelhante: “ Amarás o teu pró-

38
J\ eàtnutuna da «Scf.ri.eia.
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Por ser uma organiza­ quia, como também por to­
ção de homens, deve a dos os não-católicos igual­
Ig re ja ter leis e govêrno. mente. Verdade é que o
Por certo, o govêrno da seu primeiro cuidado é pa­
Ig reja é inerente à sua ra o seu próprio povo. Sem
verdadeira fundação. N a K?. embargo, os não-católicos
sua aplicação prática êle % podem com razão sentir
tem sido enformado pelas que também têm um cer­
experiências de perto de to direito sobre o pastor
dois mil anos. Nesse tem­ católico.
po a Ig re ja tem aprendi­ O pastor tem jurisdição
do por experiência e êrro ___ sôbre os membros da sua
alguns dos melhores meios de paróquia como sendo o superior
exercer a autoridade de govêr­ religioso dêles, tal como há di­
no a ela divinamente dada pelo rigentes civis na cidade ou vila.
seu Fundador. Contudo, para to­ E ’ obrigação sua executar as leis
dos os fins práticos, ela não tem da Igreja, administrar os sacra­
mudado nas suas maiores divi­ mentos, pregar a palavra de
sões desde os tempos apostólicos; Deus, e, em suma, promover a
as mudanças têm sido, na maio­ obra da Ig reja dentro da sua
ria, de natureza diminuta. paróquia.
O mais baixo nível do govêr­ Os fiéis da Igreja, como dis­
no da Ig re ja é a paróquia. A pa­ tintos do clero, são chamados o
róquia usualmente contém a igre­ laicato ou os leigos. O pastor
ja paroquial, uma escola, e, em da paróquia tem o encargo não
alguns lugares, um cemitério, uma só dos leigos como também dos
cooperativa paroquial ou uma bi­ seus padres coadjutores, se os
blioteca. N o encargo da paróquia tiver. A paróquia também pode
está um sacerdote que é chama­ incluir um convento de freiras
do o pároco, vigário ou pastor. para cuidar da igreja ou da es­
Conforme as dimensões da pa­ cola, mas as freiras não parti­
róquia, pode êle ter um ou mais cipam do govêrno da Igreja.
coadjutores. Porém o pastor é A divisão seguinte do govêrno
quem tem a responsabilidade f i ­ da Ig reja é a diocese, que con­
nal. E* responsável não só por siste num certo número de pa­
todos os católicos da sua paró- róquias sob a jurisdição de um

39
territoriais, e o tamanho do ter­ bispos essas ordens têm superioreg
ritório dependerá da densidade provinciais com o encargo de un\
da população católica. Nos Es­ certo território chamado provín­
tados Unidos, por exemplo, pode cia. As ordens religiosas são in ­
a diocese abranger um Estado dependentes do govêrno diocesano
in teiro; ou então uma simples de modo a poderem os religio­
cidade, tal como New York, po­ sos ser mudados de casa para
de form ar uma diocese completa. casa e de diocese para diocese,
O bispo está, em relação à dio­ onde quer que deles se precise.
cese, muito como o pastor está Algumas das dioceses mais
para a paróquia, embora a sua importantes são chamadas a r­
jurisdição seja mais importante, quidioceses. Pràticamente falan ­
os seus podêres mais amplos e do, em geral não há diferença
a sua responsabilidade muito entre uma arquidiocese e uma
maior. diocese, mas o bispo de uma a r ­
quidiocese é também conhecido
Organização da Igreja como arcebispo. A cada arquidio­
A cidade capital da diocese — cese estão ligadas algumas d a s
a palavra “ diocese” originária- dioceses circunvizinhas. E n tã o
mente significava “ a direção de essas dioceses são chamadas sé s
uma casa” — é chamada a ci- sufragâneas, “ sés subsidiárias” ,
dade-sede, ou a sé, onde a sede enquanto que a arquidiocese é a
ou trono do bispo está localiza­ sé metropolitana, a “ sé cap ital” .
da. A li está a igreja principal da N a prática, isto não afeta o g o ­
diocese, chamada a catedral. Ali, vêrno de cada bispo in dividu al,
também, o bispo mantém as vá­ o qual tem a seu inteiro c a rg o
rias repartições e departamentos a própria diocese. Quer d iz e r
da sua. grande unidade eclesiás­ simplesmente que certos detalhes
tica. Tem aquilo que é chamado administrativos são acertados e n ­
a chancelaria ou cúria, com vá­ tre as sés metropolitana e su ­
rios assistentes para manter os fragâneas.
atos de administração necessários Acima da diocese e do bispo
na diocese. Há uma côrte para está simplesmente o Papa. Con­
ju lgar casos de lei eclesiástica, tudo, é óbvio não se poder es­
às vezes uma junta escolar, e perar que o Papa governe a Ig re ­
“ bureaux” para vários outros fins. ja inteira sozinho, e, conseguin­
Há também alguns sacerdo­ temente, êle exerce o supremo
tes que não estão imediatamen­ govêrno da Ig re ja através de
te sujeitos ao bispo da diocese muitos delegados.
onde vivem. Êstes são os sacer­
dotes das Ordens religiosas. As Delegado do Papa
Ordens religiosas existem princi­ Geralmente, em cada país h á
palmente para alguma função es­ isso que é chamado um D elega ­
pecial, tal como educação, mis- do Apostólico, o qual é ali r e -

40
presemuiiie onciai ao rapa. jum conferências periódicas com o
muitos países que mantêm repre­ Papa.
sentação diplomática junto ao
Vaticano, o Delegado Apostólico Vão a Roma
é também o representante do Para que o Papa tenha um co­
Papa junto ao poder civil, caso nhecimento mais particular do
em que é chamado Núncio, ou estado da Ig reja no mundo in­
embaixador. teiro, de cinco em cinco anos o
Todavia, o Delegado Apostóli­ bispo de cada diocese deve fa ­
co não tem encargo dos bispos zer-lhe um relatório sôbre ela
do país. Êstes são independen­ lá em Roma.
tes nas suas dioceses. Êle serve Assim o govêrno da Igreja é,
simplesmente de intermediário simultaneamente, simples e com­
entre êles e o Papa em assuntos plexo. A relação do povo para
de administração. com o pastor, para com o bispo,
O próprio Papa é o bispo prin­ para com o Papa é bastante sim­
cipal da Igreja. Como é sabido, ples, mas, numa organização de
o quartel-general da Igreja está 400 milhões de almas e em mais
na antiga cidade de Roma, num de mil dioceses no mundo in­
território ora conhecido como Ci­ teiro, os detalhes de administra­
dade do Vaticano, o qual é in­ ção têm de ser complicados.
dependente do govêrno italiano
e de qualquer outro govêrno no Títulos do Clero
mundo. Dentro dessa cidade es­ Os não-católicos muitas vêzes
tão os departamentos adminis­ ficam confusos com certos títu­
trativos da Ig reja universal. los e ofícios existentes na Igre­
Essa administração é exerci­ ja, tais como, por exemplo, os
da por meio de várias reparti­ Monsenhores. O título de Monse­
ções conhecidas como Congrega­ nhor, que quer dizer “ Meu Se­
ções. Há uma Congregação pa­ nhor” , é simplesmente uma hon­
ra Seminários e Universidades, ra outorgada a um sacerdote
outra para Ordens religiosas, diocesano (membros de ordens
outra para os Sacramentos e religiosas não são feitos Monse­
assim por diante. Essas Congre­ nhores) por causa de algum ser­
gações são formadas de sacerdo­ viço saliente, ou pelo número de
tes e de outros funcionários que anos de devotado labor. O título
servem como o real govêrno cen­ não lhe confere nenhuma juris­
tral da Igreja, delegados que são dição ou poder especial, e por­
do Papa. Assuntos referentes tanto não afeta o govêrno da
aos vários departamentos delas Igreja.
são-lhes encaminhados pelos bis­ Depois há os Cardeais, outra
pos do mundo inteiro, usualmen­ posição de honra. Êste título
te através dos Delegados ou usualmente é dado aos bispos de
Núncios Apostólicos, e os chefes dioceses principais no mundo, em­
das diferentes Congregações têm bora haja alguns cardeais que

41
nao sao Dispôs ae nennuma dio­ tiveram repl‘éSêm<nm TUJ {J1U
cese. N os antigos tempos os car­ pado.
deais eram o clero principal de
Roma — a palavra deriva da pa­ As Congregações
lavra latina cardo, "gonzo” , e Os Cardeais, por seu turno,
assim referia-se àqueles que eram são criados pelo Papa pessoal­
os membros axiais do clero. Mes­ mente. Assim como cada bispo
mo hoje em dia cada cardeal de uma diocese individual tem
tem uma das antigas igrejas de um conselho de sacerdotes expe­
Roma como sua igreja especial. rientes para ajudá-lo, assim tam­
Os cardeais são os chefes das bém os Cardeais servem o Papa.
diferentes congregações que go­ Cerca de metade dos Cardeais
vernam a Ig reja em nome do fazem isto realmentc, residindo
Papa. Agora, no entanto, mui­ em Roma e chefiando várias con­
tos cardeais residem fora da pró­ gregações. Os outros residem nas
pria cidade de Roma, como che­ dioceses de que são bispos, em­
fes de dioceses. bora possam ser chamados a Ro­
Por vários séculos os cardeais ma para algum fim extraor­
têm tido o privilégio de eleger dinário.
o Papa. Teoricamente, qualquer As Congregações chefiadas pe­
católico poderia ser feito Papa, los cardeais, e que se elevam a
embora, se fôsse um leigo, ti­ onze, têm o encargo: do Santo
vesse de ser imediatamente sa­ Ofício, do Consistório, dos S a ­
grado bispo. Usualmente, entre­ cramentos, do Concílio, das O r ­
tanto, o Papa é escolhido den­ dens Religiosas, da Propagação
tre os Cardeais. da Fé, dos Ritos, das Cerim o­
Originàriamente, nos primei­ nias, dos Negócios E xtraordiná­
ros tempos da Igreja, o Papa rios, dos Seminários e U n iver­
era eleito pelo povo de Roma, e sidades, e da Ig re ja Oriental.
oficialmente êle ainda é o Bispo A Congregação do Santo O fício
de Roma. Mais tarde, as eleições trata de negócios pertinentes à
de bispos foram confinadas ao fé e à moral e concernentes à
clero, e o Papa passou a ser elei­ Ig re ja universal. A Congregação
to pelo clero romano. A atual do Consistório determina os l i ­
legislação em certo sentido é mais mites das dioceses, erigindo no­
democrática, embora a democra­ vas e elegendo bispos. A Con­
cia não entre aí em considera­ gregação dos Sacramentos lida
ção. Os Cardeais vêm de todas com tôda a legislação pertinente
as partes do mundo, e assim à dispensação dos sacramentos
representam a Ig reja mais uni­ — mas não com matérias doutri­
versalmente. Desde os dias do nárias dos sacramentos, as qu ais
Renascimento o Papa tem sido pertencem ao Santo Ofício, n em
italiano, mas não é necessário com o ritual, que está afeto à.
que o seja. Quase todas as na­ Congregação dos Ritos. A C o n ­
ções, num tempo ou noutro, es­ gregação do Concílio tem s id o

42
Interior. E* uma espécie de "câ­ das outras congregações (exceto
mara de compensação” à qual o Santo O fício) em qualquer ma­
são submetidos problemas e dispu­ téria atinente às partes orientais
tas concernentes ao conveniente da Igreja, isto é, às antigas par­
andamento da Igreja. A Congre­ tes da Ig reja que ainda usam
gação das Ordens Religiosas é a na sua liturgia outras línguas
agência através da qual o Papa que não o latim, e que são go­
regula os negócios de sacerdotes, vernadas por leis e costumes di­
e de outros que pertencem às ferentes dos que são comuns na
várias ordens e que não estão Igreja Ocidental.
diretamente sujeitos aos bispos Há também tribunais, ofícios
locais. O nome completo da Con­ de várias espécies, é comissões
gregação de Propaganda é De permanentes para deveres espe­
Propaganda Fid e, “ da Propaga­ cificados. Êles parecem formar
ção da F é ”. Esta Congregação um sistema inteiramente compli­
tem o encargo direto dos países cado, e, entretanto, na realidade
missionários que ainda não têm são simples em estrutura para
população católica bastante gran­ a administração de uma socie­
de para ju stificar a normal or­ dade mais vasta em número do
ganização diocesana. A Propa­ que qualquer govêrno civil no
ganda usualmente ocupa o lu­ mundo.
ga r de todas as outras congre­
gações em regular os negócios Também aclamado como modê-
da Igreja nesses países. Destar­ lo de simplicidade é o código de
te, a Congregação de Propagan­ leis da Igreja. Nas páginas de
da não tem nada que ver com um simples livro, expresso em
relações públicas, como seu títu­ 2.414 leis diferentes, chamadas
“ cânones” , está o Código de Di­
lo sugere. A Congregação dos
reito Canónico católico. Nêle te­
Ritos governa o ritual da Igreja
mos uma síntese do Direito de
como distinta da Congregação perto de dois mil anos, organiza­
das Cerimónias, que tem o en­ do em singela unidade. Em com­
cargo das funções observadas na paração com êle, as leis até mes­
residência papal. A Congregação mo dos mais pequenos países são
dos Negócios Extraordinários é extremamente complexas e com­
uma extensão da Secretaria de plicadas.
Estado pontifícia: concerne, na As Congregações são os meios
maior parte, à relação da Ig re ­ através dos quais o Papa usual­
ja para com o govêm o de qual­ mente trata com os bispos do
quer país onde há problemas es­ mundo, e êstes, por sua vez, re­
peciais. A Congregação dos Se­ gulam os seus negócios normais
minários e Universidades lida com de acordo com as provisões do
os assuntos pertinentes à educa­ Código de Direito Canónico da
ção. A Congregação da Ig re ja Igreja. Os bispos, como foi men-

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cionaao, tem seus proprios con­ aupucuavu& que, un nuiiijui.
selhos para os assistir no gover­ nia com Deus, vos esforceis pór
no das suas dioceses. fazer tôdas as coisas sob a ju ­
risdição do bispo, que ocupa o
A Ig r e ja tem tido muito de­ lugar de Deus, e dos sacerdotes,
senvolvimento nessas exteriorida­ que são como o concílio dos após­
des do seu governo desde os dias tolos” , escrevia Inácio de Antio-
da Galiléia, quando Cristo diri­ quia aos Magnesianos por volta
gia um grupinho de discípulos, do ano 107. Em concordância com
ou desde o tempo de Jerusalém, este princípio, a Ig re ja tem con-
quando “ Pedro se levantou e fa ­ seqiientemente empreendido a sua
lou à assembléia” (A t 15, 7 ), a obra de govêrno acomodando-se
ao mundo mutável e vivendo de
qual fo i a mãe de todos os sub­
acôrdo com o progresso que êle
sequentes concílios da Igreja. tem realizado. A Igreja , como
Mas, essencialmente e em prin­ lhe chamou Santo Agostinho, é
cípio, o govêrno e a lei da Ig reja a Cidade de Deus. O que nós
de Cristo são hoje em dia os aqui brevemente consideramos f o i
mesmos que eram no início. o govêrno dessa grande Cidade.

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Isto é a Igreja Católica

Conteúdo:

• Que é a Igreja Católica?

• Aqui nos firmamos... O Credo católico.

• Cristo nos deu os Sete Sacranv ntos.

• A MISSA. . . O eterno SacrilH'

• A Lei de Cristo como expressa i >s D z Man­


damentos.

• A estrutura da Igreja.

Êste caderno foi preparado pelos Cavaleiros de Co­


lombo e traduzido para o português com a devida
autorização.

Cum approbatione ecclesiastica