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Projeto

PERGUNIE
E
RESPONDEREMOS
ON-LlNE

Apostolado Veritatis Splendor


com autorização de
Dom Estêvão Tavares Bellencourt , osb
(in mamariam)
APRESENTAÇÃO
DA EDIÇ1>.O ON-LINE
Diz sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a fazao da
nossa esperança a todo aquele que no-Ia
pedir (I Pedro 3,15),
Esta necessidade de darmos
conla da nossa esperança e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora.
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrárias à fé católica. Somos
assim Incitados a procurar consoUdar
nossa crença católica medIante um
aprofundamenlo do nosso estudo.
Eis o que neste sita Pergunte e
Responderemos propõe aos seus leitores:
aborda C1uestões da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto dê
vista cristão a fim de que as dúvidas Sê
. . .. " dissipem e a vivência católica se fortaleça
--' ... no Brasil e no mundo. Queira Deus
abençoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.
Rio de Janeiro, 30 de Julho de 2003.
Pe. E.'fJvlo BettfJncourt, OSB

NOTA 00 APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convênio com d. Estevão Benencoun e


passamos a disponibilizar nesta área. o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico • filosófica · Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicação.
A d. Estêvão Benencou rt agradecemos a conllaça
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosldade e
zelo pastoral assim demonstrados.
INDICE

p~ • .
I. FILOSOFIA E RELIGIAO

J) "Em QIUI (ollmtr " 7II odtnlo "dT1ctNrcúísmo" Sn-ü lIma


ft01!CI /ilo'l1{il1, "mil " 0"11 .,(ldo do 1IIlIndo e do h omcm ? E filial
".n "",11n'"'" ................ " ................ . ... .

IL D001!ATlCA

I) "A I g,.,JIl do f ut uro ft60 tnd. podrn . ~ " qlloe foi dilo
,.ec",e_",te. Com 1"(1260'

'"
nL PASTORAL

I) "Dut m 9'1' CI Igr eja "a" quw moit batuar u cri.cntç1W ,


QUI há de n6tlo na praz~ do Blltirmo 1" .............. _. . . 2Q5

IV. MORAL

4) "Qu.. d~.r Gil abal CO'lttro,értia .,.. lati-Po d t _ f l I .• .

C8ftl1CT'G de uatro, do c1nell'lG, do Ulf'lliláa e da. literatum 1


Qu.", t"" f'41'46 ! li' 04.,,10' .u o. ad'vtnário, dll C"""!'lI'" 111&
••
CORRBSPOND8NCIA. MIaDA ................ .. ....... lU
RESENHA D~ LIVROS . .......... . •.. .. • .. • .. • ...•. .. . ""

Q)M Al"ROVAÇAO ECLESlASTlCA


AO LEITOR AMIGO!
Com a graça de Deus, cPergunte e ResponderemOS:t e.."Itra
agora na segunda centena de suas pubUcações, procurando aos
poucos melhorar a sua apresentação.
Os nossos fasclcuJos têm visado atender a um dos grandes
problemas do homem de hoje: QUE :t A VERDADE ?
Esta questão, jã proposta por P llatos (cf. J o 18,38) , se
coloca atualmente eom aspectos novos. Não são poucos aquê-
Jes que ju1gam que, fora das "ciências exatas. {nutemáticas},
na o hã verdade. mas apenas opiniões contingentes, que podem
variar de indiv;duo para individuo. Julgam poder redUZir fé
e Religião a uma vaga adesão a Deus, sustentada pelo von-
tade do indiv'duo , adesão, porém , independe.'1te ,da intelIgên-
cia , ades3:o sem Credo. Deus, o SUpre!flo Bem, o TtK3o-Perfe'to
por defln1-io, não se teria comunicado aos homens de maneira
objetiva: os homens poderiam "'>pretender chegar à c::ertl!'Zé. em
ciências; rlSlc85, não, porém. em metanslca, não no tocante
aos problemas máximos: «Donde vimos? Para onde var.1OS?
Que têz, faz e fan\ Deus por mim? Como entro em contato
com o Absoluto. sem O Qual não me realizo? Como posso
chegar a possui-lo um dia d esimpedldam&...te?:.
Admitir um Deus que não se tenha ImJ)Ortado com dar
ao homem uma resposta objetiva e segura sôbre tais assuntos,
é quase contradizer-se ou não crer em Deus S~ Deus existe.
ni o terá deixado ri homem na Insegurança a respeito dG sen-
tido da sua vida.
cPergunte e Responderemos:. procura ajudar o púbUco.
propondo ref1exões. citando documentos e tatos que levem, a
conclusões tão objetivas quanto posstvel a propósito dos pro-
blemas da atualidade.
A Lógica faz chegar à Luz.
Amigo leitor, se lhe agrada o programa ' acúPa. colabore
com eP.R.:., difundindo a revista, angariando-lhe novos assla
nantes e envlando-nos suas sugestões. - Muito grato.

E . B.

-185-
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS.
Ano IX - N" 101 - Maio de 1968

I. FILOSOFIA E RELIGIÃO
1) «Em ,!ue consb:te o modemo 'estruturallsmo'! Será.
nm& nova filosof.... uma. nova. vlsão do mundo e do homem'
E qual é o seu valor!»
O estruturalismo ê um movimento francês dos últimos
anos. que tem sua ressonância no estrangeiro, pr!l:1cipalmente
nos E . U . A. e, um pouco, no Brasil. Constitui. antes do
mais. uma atitude e um método de trabalho: tem, porém,
sua repel'CtlSSão nos setores da n1osofl.a e da Religião.
Veremos abaixo algo sObre os principais mentores do
estruturalismo: a seguir, proporemos suas grandes idéias e.
por fim, uma ligeira observação sôbre o s:Stema.

1. A escola estruturalista

lU. rerca . de quinze anos estava muito em voga no pen-


samento franeês o existencialismo de Jean-Paul Sartre e
Simc.ne de Beauvoir. Com Sartre confrontavam-se outros
pensadores de semelhante Lnspiração, como Jean Camus e
Merlcau·Ponty. CJltimamente, wrém, a partir de 1962, o pú-
blico estudioso da França S~ viu empolgado por outro sistema
de pensamento, que é o estrutura1i~mo, encabe::ado por Lévi-
-StraUss.
Claude Lévl-Strauss nasceu de famllia judaica. em Bru-
xelas (Bélgica) no ano de 1908. Após seus estudos, passou
& exercer o magistério como professor de Filosofia na França.
De 1935 a 1939 l~lc":'1oU Sociologia na Universidade de Sio
Paulo (Brasil); aproveitou então a estada na América do Sul
p4.ra entrar em contato com IndJos do interior "brasileiro Co
mais e "mais se dedicar à etnologia. Durante a segunda
guerra mundial (1939-45) pross~guiu o magistério em Nova
Iorque, onde publicou sua primeira obra; manifestava grande
ate."ção pelo cearãter estrutural dos fenômenos sociais. (a
expressão será explicada abaixo) .
- 186 -
QUE 1: O ESTRUTURALlSMO?

Em conseqUênda. foi tido como pensador original ou·


mesmo genial. Os estudos, cada vez mals atraentes, levaram
lkvi-Strauss em 1947 a abandonar o pOsto de Adido Cultural
da Embaixada da França nos E. U . A., a fim de se dedicar
por completo às suas reflexões em Paris. Ocupa atualmente
os cargos de Diretor de Pesquisas de eL'ltcole Pratique des
Hautes t:tudes» e Professor do cColtege de France". Rã pou-
cos meses, em Paris, recebeu a Medalha de Ouro do Centro
Nacional de Pesquisas Cientificas - a mais elevada distlm;âo
que um cientista possa receber na França.
A obra decisiva de Uvi-Strauss apareceu em 1949 com
o titulo eLes structures élémentaires de la parenté. (As es-
truturas fundamentais do parentesco). Eis outros livros do
mesmo autor:
cAnthropologle structurale.. (Antropologia estrutunU 1957
cLa pe-nsée sauvage_ (O penr8mcntCt dos povos selv·:lgens) 1962
eLe cru · et le culb 10 cru e o cozIdo) 1964
cTrlstes troplques :> (Tristes troplcos). autobloA:rafla, 1965
cOu m'!!l aux cendreu (Do mel 1115 cinzas) 1966
cMytttologlqueu (Mitológicas) 1966/ 67

Dentre os outros pona-vazes do estruturalismo, destacam-


·se Louis Althusser, JaCQues Lucan, Serge D.oubrovsky e prin.
dpalmente Michel Foucatilt, · que se tomou fa moso por seu
livro eLes mols ct les choscs" (As palavras e as coisas),
ebest·seller-, em 1966/ 67.

2. O (tensamento de UvI·Strauss
1) Fonte.
Em eTristes troplques_, autobiografia, Lévi·5traus$ refere
que deve a insplra~ão de suas refiexOes a três grandes (a-.
tOres: o pensa.mc.!lto de Marx, o de Freud e a geologia. O·
estudo dêstes três ramos do saber deu-lhe a entender que só
compreendemos um tipo de realidade quando a podemos ·re-
duzlr a outro tipo de realidade: a verdadeim realidade geral·
mente não 'é aquela que aparece; as coisas que I10S ocorrem.
podem e devem ser reduzidas a estruturas fundamentais.·
Karl Marx, por exemplo, reduziu a face vis·ve) da sociedade
humana â. sua estrutura de base, que é a produção de . bens
materiais, em fum;-ão da qual existem as super.estruturns
(Moral, Arte, Direito, F1losofia., etc.). Freud reduz o ser hu· ·
mano a instintos erót1cos, complexos, recalques, etc. .o geó-
-187 -
4 cPERGUNrE E RESPONDEREMOS» lOV1968. quo 1

Jogo. por sua vez. ao estudar a Stlperflc1e acidentada de um


terreno, percebe as suas camadas fundamentals. Assim. diz
Lévi-Strauss, o cientista ' (ou antropologista) que estude os
povos primitivos e contemporâneos, deve procurar disCernir
as estruturas fundamentais das diversas aglomeraçõp.s huma-
nas: existe uma grandeza desconhecida que dá ordem e es-
trutura a tõdas as grande%aS eonhecidas, Ora foi à procura
dessa grandeza desconhecida, da qual não temos consciência.
que Lévi-5trauss resolveu dedicar suas reflexões.

2) O método

Para conseguir seu objetivo (descobrir a estrutura la-


tente dos seres humanos)" Lévi-5trauss julgou oportuno ado-
tar o método de lingU:stica cultivado pelos professôres Fer-
dinand de Saussure, N. 5., Troubetz.koy e Roman Ja..kobson.
OS quais iniciaram detennlnado cestruturalismo. no elrtudOo
da filosofia. esse estruturalismo llngü!st1co consLste no se-
guinte:
Antigamente os filólogos procuravam qual a origem ou
• raiz de cada palavra. asstm como as tl'ansfonna;ões por
que tenha passado no decorrer dos séculos. :e o q'Qe :se chama
ca diacronia:. (passagem através dos tempos, em grego) . Os
lingüistas se interessavam, pois, pela história dos diversos
voeábulos. - Ora os estucüosos citados preferem estudar a
«sincronia. de cada língua. O que quer dizer: fulgam que os
vocAbulos atualmente usados num determinado idioma são
todos coerentes entre si (têm wna dimensão latltudlnal) e
revelam a estrutura fundamental da. mente humana, OS ho-
mens, portanto, teriam uma capacidade inata e inconsciente
de compor yocãbulos. capacidade que obedeceria a regras
precisas. Ao lingüista da nova escola compete. por conse-
guinte, descobrir essa. capacidade tnam. e as regras de sua
'aUvidade; pouco lhe Interessa a história ou a evolucão (di-
menslo longltudÚ'lal) dos voCibul05.
. De SausSur'e dJstingue entre «paln.VI'&~ e cUagua~. Se-
gundo êle, a p8..lavra é a expressA0 da pessoa ou do indlv:duo.
A Ungua é o conjunto de regras segundo as quais as pala-
vras são empregadas; é um sistema que palra acima dos
lndMduos e que provém do inconsciente dêstes. - De
sawsure se interessa. apenas pela clinguu e não pelas pala-
vras, porque é naquela, e não nestas, Q.ue êle julga encontrar-
a estrutura fundamental da mente humana.
-188-
Na base <lestas idéias, os filólogos estruturalistas não
recusam o wo de palavras estrangeiras num idioma nacional
(em português, por exemplo, as palavras cclube, futeboJ, vo-
llbol, lIuança, garçom, chofer, engajamento ... :.). Se são utili-
zadas contemporineamente em outras llnguas, por que não
as adotar no idioma nacional, embora outrora fôssem tidas
como estranhas? - Somente aquêles que fazem caso da his-
tória da língua pátria, é que excluem tais vocábulos ditos
cestrangelrismos:D.
O método da Iingüistica estruturalista assim descrito rol
aplicado por Lévi-Strauss a uma ciência que êle cultivou com
especial interisse;

S) A etnologia
O cientista belga examinou atentamente os povos pri-
mitivos e as relações de parentesco que os unem entre si,
ehegando às seguintes eonelusões:
As relações de consangÜinidade e afinidade são cuma
espécie de linguagem:D. Aquilo que na linguagem é a palavra,
isso é a mulher nas relacÕe.s entre tribos, clãs e homens: ~
dando e recebondo mulheres que as tribos, os clãs e as !a~
mlUas .se relacionam entre si. A clássica proibição de Incesto
jã não deve ser entendida como proibição. .. proibição de
que um home m se una matrimonialmente à sua mãe, irmã
ou filha. lt, antes, um preceito positivo, que assim se pode
explicitar: é preciso qUe o hQMem dê a mulher (mãe. inná
ou filha ... ). a mais preciosa dádiva de que possa dlspor, a
outro homem pertencente a outra !amilia ou· tribo; troque
tal mulher de sua fanúUa por tal outra mulher de oufra
familia, de sorte a fundaI' e fomentar a sociedade e a cul-
tura. A mulher. como objeto de troca ou intercâmbio entre
os homens. toma-se sinal da sociedade e também sinal da
estrutura social qUe todos os homens trazem inconsciente-
mente em seu Intimo. Vida social é t:roc.a de sinais ou sím-
boJos, é linguagem em sentido largo.
Lévl·Strauss afirma Que os povos primitivos eram, e
slo, dota<los de capacidades de pensamento e lógica seme-
lhantes às do homem moderno; sâo povos capazes de abstrair
de conceitos concretos. fonnando noÇÕeS universais, povos
sequiosos de conhecer por conhecer. O que diferencia do pen-
samento tnoderllo o pensamento primitivo, é que o primitivo
não leva em eonsldera~ão a história; apreende como um. todo
a realidade que o cerca, sem se Importar com um futuro
-189 -
~_ _ .. PERGUNTE E RESPONDEREMOS, lOUl968...J..!I.J.. __ ' __ . 4

utópico nem com a evolução dos: sêres àtravés dos séculos.


Em outros têrmos: o homem primitivo possui o sentido da
«sincronia., não, porém, o da cdlacronia:t; Lévi-Strauss julga
que êsse modo de pensar é o mais autêntico ou o que mais
coITeSponde à estrutura fundamental do ser humano. Uma
das mais lamentâveis ilusões do homem ocidentaI, segundo
êle. é a de crer que a eivill2ação presente corresponde a dotes
intelectuais, privilegiados e Inéditos, do homem moderno em
relação ao primItivo.
Após ,estas considerações de Lév1-5trauss sôbre etnologia.
resta·nos a questão que mais interessa. a saber:

S. F&truturalismo e FUosofin.
1 . Os pensadores que adotam as idéias de Lêvl-Strauss.
filiando-se à corrente estruturaJista, não professam todos H
mesma «cosmovisão:t (. Weltanschauung.) ou a mesma filo-
sofIa: hã estruturalistas marxistas (como Lévi..strauss) e
há-os também não-marxlstas (como Michel Foucault). Por
isso se dl7: que o estruturalismo ê mais um método de tra-
balho (é. sim, a pesquJsa das estruturas fundamentais) apll-
cAvei à IInglUstlca, 'à etnologia... do que pràpriamente um
sistema filosófico. Vários dos estrutúrallstas, principalmente
os de crlentação marxista, têm relutado contra a tendência
a se fazer do estruturalismo uma filosofia ou uma . mundl-
vidência:t.
2. J!:; preclsc, porém, observar Que Michel Foucault cul-
tivou o estruturalismo 8 ponto de o tornar um sistema fi-
.losófico, tamWm dito «pan-estnrturallsmo:t (estruturalismo
como «visão CÓSRÚca ou universal :t ) .
A tese capital de tal sistema é a - seguinte:
A histOria, com seus Qu"adros do passado e suas previ-
sões de fu~. não interessa 80 pensador; aquêles que falam
de uma finalidads da história, estão a sonhar J entregando-se
a uma uj;opia. oomo tllinbém sonham aquêles que investigam
o passado com o intuito de deduzir leis de evolução e aspectos
do porvir•
.Essas "utopias eram possivels enquanto o homem não
percebia que está encerrado em uma espécie de cArcere ou
enquanto não sabia e-star Inclufdo em estruturas de pensa-
mento, afetoS, relacÕeS sociais."., que têm seus tracos bem
marcados e fixos . O homem primitivo, o do presente e o do
-190 -
7

futuro têm todos 8. mesma estrutura de pensamento. de sorte


que não se pode crer que haja cuma finalidade da história
em marcha». O homem que tem esperança. no futuro e julga
que o momento presente é cllelo de significado e valor, en-
gana-se a sI mesmo sem o saber. O homem ê a última inven-
ção da natureza ; com o aparecimento do homem. esta chega
ao seu tênno consumado e ao seu fim. Escreve Michel Fou-
cault: cO homem é como mn vulto de areia colocado à beira-
-mau, tencionando exprimir assim que o gênero humano estâ
prestes a conhecer a sua ruina ou o seu fim a todo momento.
e por isto que o pan-estruturallsnio tem sido considerado
como . rim do humanismo, p. maior revolução depois do exis-
tencialismo•.
3. Estas afirmações de Foucault contradizem . frontal-
mente à tese marxista segundo a qual existe uma dialética
da história, dialética que tende a produzir um h omem n6vo,
redimido de estruturas Injustas. O marxim admite, sim, uma
diacronia, isto é, a história! Que de revolução em revoluçio
se encaminha para um têrmo ideal e perfeito. EI!l conseqUên-
cia, os pensadores marxistas da Franca se têm insurgido
enêrgicamente contra a posição de Foucault, filósofo estrutu-
ralista. Henri Lefebvre, professor marxista de Sociologia na
cFacuIté des Lettreslo de Parls-Nanterre, denUllclou o estru-
turalismo como doentio sistema de coação, inimigo da his-
tória e da revolução, variante européia de idéias norte-ame-
rteanas, devidas principalmente a Parsons. . . O estruturalismo
foi colocado entre as Ideologias qUe negam o sentido e o
va10r da evolucão e da hb:tOriai tais ideologias seriam, por
exemplo,
a do (1165010 grego Zenlo de EMia -e de sua eSC'l}a iséc. VUV
a. C.I, que com dlalétl('a e loLlStI('& negavam !l pO$Slbilldade de qual·
quer movimento;
mais recentemente. a de Hegel ftl83l1. para.., qual a Idéia se
aHrma $@A:undo ti .rttm~ p~ncebldo de Tese. AnUtese I! Slnte5e.

Segundo Lefebvre, taã pensadores, ao negar o signifi-


cado valioso da hlst6ria, eram, consciente ou inconsciente-
mente. innuenciados pelo sistema econômico, social e poli-
tiro de que viviam.
Luclen Goldmann, conseqüentemente, as..o:..evera que o pan-
-estruturalismo retira do homem o sentido de responsabilidade ;
sufoca· lhe O Interesse por sua própria existéncia e pelo sen-
tido da vida, fazendo que deixe de renettr sôbre a proble-
mática da história. e da transcendência.
- 191-
8 ",PERGUNTE E RESPONDEREMOS:. lOVl968, quo 1

Deve-se dizer, porém, que nos últimos tempos multos


marxistas têm procurado desfazer o antagonismo existente
entre estruturalismo e marxismo; querem destarte aproveitar.
·se também desta escola de Pl'tnsamento para explanar e .pro-
por ao mundo intelectual as suas teses sociológicas e políticas.
Tenha-se em vista a coletânea «Tempos Brasileiros:..
4, Também da parte de pensadores existencialistas fêz·
-se notar forte reação contra o pan-estruturalismo.
Jean-Paul Sartre, que é mals individualista do que mar·
xista, recusou decldidamente a fllosofia de Foucault, porque
esta tira tôda raz.ão de ser ao «engajamento:. ou ao empenho
com que o existencialista consIdera a vida e o futuro. O exis·
tenclaUsta preza ardorosamente a sua liberdade; julga que,
med1a.nte seus atos livres; êle se realiza e é capaz de dar
sentido tanto à sua vida como à história. Dai a repulsa à tese
de que o homem esteja limitado por uma estrutura qualquer;
são palavras de Sartre:
cO essencial nllo ~ o que fizeram do homcnn, mas o que o
homem faz daquilo que llzeram dêle. O que dêle fizeram, do as
estrutumS. os ccnjuntos sllnlfleatlvos qu~ as cl~nclas humanns c.ç.
tudam. O que tle laz. é a hlst6rla mesma, o ultrapassar de5SllI
estruturas ;numa açAo totsllzadoru (",L'A~ n · 30), 1

Nestas palavras ressoa dinamismo, embora Sartre seja
caracteristicamente o fllóso!o do cabsurdos e da cnáusea da.
vida>. Ao contrário, no estruturalismo parecem cessar dina·
rnlsmo e criatividade. Sartre, em réplica, afirma que devemos
superar as estruturas abstratas do nosso ser, pois valemos
mais do que elas; somos capazes de as criticar e allErar ou
mESmO de cria r para nós novas estruturas de pensamento e
de vida ; assim fazemos a história e damos·lhe um senti.do.
Para. Sartre, é filósofo todo homem que pense em reall2ar
essa superacãOo; ~r isto julga êle não haver filósofo m> pan-
-estruturalismo. -
Estas observações pennltem tecer uma consideração
final:

) «VC!'I-scmtlel n'elt pu Cf: qu'on a lalt de l'homme. mais ce qu'lI


lalt de ce ql1'on a !Q.lt de 1111. Ce qu'on a bit de lul, ce sont Ics
atructuNl, :WS ensemblea slgnlflantl qu'étudlent les Ecienoes hutnSlnes.
Ce qu'll lalt, c'est I'hlstolre elle·même. le dé-passcment de ces
structures dalls unf! praxls total1satrlce:.,

-192 -
gUE :E: o ESTRtmJRALISMO? •
4. Que dizer do estruturalismo'!

Pode--se começar por realçar um aspecto positivo dessa


corrente de pensamento: o estrutura1ismo chama a aten;ão
para a realidade de certas estruturas mentais existentes, cons-
ciente ou inconscientemente, em todo homem. Por cestrututaS
mentais_ entende--se O seguinte: a mente humana tem suas
faculdades (inteligência, vontade, afetividade). e essas facul-
dades, por sua vez, têm seu modo de agir e reagir próprio,
modo que ê fundamentalmente o mesmo em todos os homens.
PÇlr isto ê que, entre os seres hwnanos, se observam compor-
tamentos semelhantes em circunstâncias semelhantes .
.t:ste Cato, porém, não invalida em absoluto a liberdade
psIcológica do homem, pois êste pode sempre contrariar as
reações espontâneas de sua natureza (a tendéncia ao alimento,
ao sono, à vida sexual . . . ). Usando llvremente de suas facul-
dades,. o homem pode at.@ certo ponto construir a história,
emantipando-se de dadas situacães e criando oUltas, desen-
cadeando e paralisando movimentos culturais, etc. - 1!': a esta
conclusão que leva a razão natural; é também esta a tese
que o marxismo de Marx e o existencialismo de Sar1re
apregoam. '
O estruturalismo exagera o significado das estruturas
mentais. a ponto de não reconhecer o valor da hist6ria como
conUnuo desabrochamento dos valores humanos; menospreza
a dI.aerollia ou a sucessão dos tempos, atribuindo excessivo
valor Q aiDcronla. ou à situação na qual o homem se encontra
no tempo presente.
Para entemder prcctumente çorno se desenvolve o pensamento
Kb"utura1lsta, tenha...w em. vistA o exemplo- abaixo:
A exprftsão ..D pleut. etc ~t. It ralns, cltove, plove~ tem &eu
slgnl!icado ou sua mensagem ; ela jntornla o leitor ou o ouvinte ..
respeito ~ um arontedmento .hIstórico. :este, porém, não lIlteressa
ao penlllldor estNturallsta.; o que lhe chama a aun(ão na r.r~
adma; é • composlca.o ou • ~trut ura da mesma. Trn.1.a-se de uma.
trase sem sujeito o u Impessoal AMIm a reaUdadc hlst6rica ..chove'
é reduzida. outra ~lIdade, ou seja, • estrutura de uma frase cujo
verbo nao teU! sujeito.
Sobrevindo nessa controvêrsia. o Cristianismo só pode re-
forçar a es tima que todo homem deve ter pela história: Um
motivo sobrenatural o leva a tanto: para o cristão, os suces-
sivos acqntecimentos da história são prenhes de mensagem
divina, pols Deus, através dêles, revela seu grande plano de
sabedoria e bondade: assim 8 história de Israel anterior a
-193 -
10 ~PERGU~TI;J. RESPONDEREMOS, lOVl968, quo 1.__ ... _ '.

Jesus Cristo (séc. XIX·sé(:. I a. C.), a história de I.c;rael dis-


perso pelo mundo após a vinda do MessIas, a história do povo
de Deus peregrino para a pátria celeste, salvo pela Cruz de
Cristo, que consumou a antiga Pá.scoa dos judeus. fazem que
OS ~ristãos valori-zem. como nenhum outro grupo humano, a
história.
Uvi.strauss certa vez declarou que não se admiraria se
lhe dissessem que- O 6truturalismo ten'ie a restaurar um vul·
gar materialismo. Respondeu-lhe então o escritor protestante
Paul Rleoeur que o estruturalismo Jhe parece, antes. ser uma
forma extremada do moderno agnosticismo. Com efeito. lem-
bra Ricoeur em cEspritJ, novembro 1963, pâg:. 652s:
Para o estruturalismo, não há mensagem, não há Boa-
·~ova; hã desespêro ... Os. estruturalistas, porém, julgam que
sua eScola tem. apesar de tudo, um lugar Importante no pen-
samento moderno. TOdas as frases, mesmo aquelas que nada
slgnlflcam ou nada transmitem (as sentenças vazias de seno
tido e mensagem, têm sua estrutura ; e é para esta que os
estruturalistas chamam a atencáo do público. Assim. os estru~
turalistas pretendem mostrar valot' e sentido em objetos que,
à primeira vista, pareocem va:zios. - A isto, porém, S! pode
replicar que 'estrutura sem conteüdo nem mensagem' não
interessa ao homem moralmente saclloj pouco importa observar
a sintaxe e a construção das frases de um discurso que nâo
tenha significado nem conteúdo. O cultivo da sintaxe ou da
estrutura de frases só se justifica caso sirva para comunicar
idéias e mensagens. Por conseguinte, o estruturalismo associa
agnosticismo ou ceticismo em fIlosofia com 'super~intelectua­
Usmo' em matéria de sintaxe de frase. Por isto é ele ao mesmo
tempo fascinante e perturbador, I
Estas reflexões de Rlcoeur sáo sensatas e vallosas..
O estruturalismo pode ter sua aplicação no setor da lite-
ratura. e teve-a realmente com grande lnterêsse rio públiCO

1 .. . .. o .campo 40 vosso tTabllll1o, onde vejo uma lorma ~x·


trema. do agnosticismo moderno. Para vós nAo hA mensagem, nlo
no Mntldo de. clbem6tlca, mas no srntldo q.uerllmAtlco; vós e.sta1s
no desespforo . . . ; mq querets wvar-Nos, .aIJrmando que, mesmo
quando as pe-uou nada. têm a dizer. ao menos elas o ditem lIo
bem que o &eu dlscurto pode RI:' l'ubmetlcY.l ao estl:'uturalllimo. Vós
.salvata o senUdo, o sentido. porém. do que nlo tem sentIdo. a ~dm i·
rtvel co:nstruclo slntAtlca de um dJscuno que IUda diz.. Assim pa .
.rece-me que unls Agnosticismo Q super. lntellg~cla dai sintaxes. Ê
por Isto que soIs ao mesmo tempo t.asclnantes e inquietantes,. t1rans·
er1to de c:Esp.r1b, novembro 1963. pAgo 652).

-194 -
IGREJA 00 FUI'URO SEM PADRES? 11
-_.. --.__ . ---"'="--"''-""''''-'''''''-''''''''-'==~--'''-
francês e norte-americano, em 1966 e 1961. Não se deve.
porém, transferir para o terreno da filosofia. Com efeito, o
pan-estruturalismo é niqullista em rel~Ao ã história; por isto
volta sua atenção para moldes ou fônnas sem vida, sem his-
tória; desvaJoriza as produções dos homens para valorizar seus
insttumentos respectivos. Já se tem dito - e com razão -
que a atitude da filosofia estruturalista. Wvez possa ser ex-
plicada como reação de intelectuais franceses decepcionados
por quanto lhes apresentou o materialismo histórico e dialético
de Moscou, Pequim e do .Partido Revolucionário•. ..
A propósito podem-se consultar, além das obras de Lévl-
-Strauss e Michel Foucault,
Revista "'Esprlb, rt' 11 (novembro) de 1963 e n' 5 (maio) de
1867, dedicados aOlS estruturalismo;
GUnthe.r SchJwy, c.St:rukturallsmus In. Parta" em ",Stlmmen der
Zelb 8/1967, pAgo 91·194;
B. Lemalgre, cMlchel FoUQUít ou Jes malheurs de la r:allon et
Ies prospérltés du langace, em "'Revue dei adences phllosophlques et
thêolOilquen 3/1967, pAgo 441/460;
M. .", Certeau. <tU.. scl@nces humatnes et la mort de l',homme"
em c:etudes,. mars 1967, pAgo 344/360.
Revista «Manchete, 17/II168, pie. 36-38.

11. DOGMÁTICA

2) cA Igreja. do futuro Dão f.rerá padres. e o que foi dUo


recentemente. Com razão!
O saoerdo~ será um mem~ funclonirio da. Igreja'h

A revista «Visão:', aos 16 de fevereiro de 1968, publicou


o artigo «A Igreja do futuro sem pa.dres" em que pretende
transmitir o pensamento do escritor norte-americano Monse-
nhór Ivan Dlich (<<Igreja. sem clero .no ano 20o(».) e do leigo
francês Jean·Marle Paupert (<<Vlelllards de Chrétlenté et
Chrétiens de I' An 20(X).) . O articulista assim insinua que a
Igre1a passara por reorganização radical, a qual esta.ril. con-
sumada. no ano 2000.
Nas páginas que se seguem, procuraremos primeiramente
resumir o conteúdo do citado artigo. Seguir-se-.iio algumas re-
flexões a respeito.
-195 -
12 cPERGUNTE E RESPONDEREMOSa lOUl968, QU. 2

1. dgreja sem padres»


Segundo Illlch, a Igreja Católica é wna das \llaiores
organizações burocráticas do mundo, comparável à cGeneral
Motorsa ou à ClStandard Oib (esta observação, aliâs, já tem
sido feita a fim de elogiar a ordem e a disciplina vigentes
na s . Igreja): emprega 1.800.000 trabalhadores (sacerdotes,
Religiosos e leigos) , com horârlo integral, em seus serviços
administrativos.
Ora (dizem) tal estrutura, Que tem sido motivo de admira-
ção e estima, vai caindo em descrédito; a Igreja, como instituI-
ção, parece ter perdido o seu significado perante o Evangelho e
o mundo; verifJcam-se vacilação e confusão entre os próprios
funcionãrios eclesiãsticos; dai as defecções ocorridas no clero
nestes ultimos anos. cO gigante começa a fraquejar!,
Feita esta análise, julgam lllich e Paupert Que o aparato
burocrático ou cempresariab da Igreja desaparecerá; os sa-
cerdotes se tomarão cada vez mais raros. Também os templos
sagrados decrescerio em número e Importância, ficando re-
servados ünicamente para reuniões de massa, conferências e
liturgias Cestivas. O culto serâ celebrado nas casas de Carnilla,
em tômo da mesa de refeiçõesj assim reunlr-se-ão,para lou-
var a Deus, pequenos grupos de pessoas conhecidas entre si,
numa atmosfera de simplicidade. A presidência caberá 'li0 a
um sacerdote, mas a um diácono (o diácono seria um cnstão
comprometido com faroilia e profissão civil, que daria. suas
choras vagas. t Igreja; possuiria a ordenação dlaconal. sem
curso de Sem1nárlo). AssIm se instituirão cdlaconlas. nas
casas de tamtlia, em vez de paróquias com suas grandes igre-
jas. O culto constará de leituras, pregação e orações; espo-
ràd1camente também haverá Missa, dado que um sacerdote
. possa visitar alguma diaconla.
Os padres que subsistirem, exe1:ccrão proflSSáo civil. Além
de celebrar ocaslonalmMte a S. Eucaristia, terâo por função
preparar os dlAconos para a celebrar;ão da palavra; em vista
disto, cada padre reunirá semanalmente em sua casa uns doze
diáconos: com el" lerá as Escrltura.S e comentará a instrução
semanal dada peto Bispo Para os respectivos fiéis.
Quanto aos Blspos, serão destltWdos de suas tarefas exe-
cutivas · e admlnlstratlv8S. cTerio tempo para concelebrar de
VéZ em Quando. Deverlo preparar e fazer circular uma sele-
ção semanal de leituras: e· temas para dlscussão:t.
N.ão haverá mais obrigação de ouvir Missa aos domingos.
A praxe da confissão sacramental será modificada.
-196 -
IGREJA 00 FU'I'URO SEM PADRES? 13

Todavia - é de notar bem - nessa nova fase da Igreja


continuarão a eDstir os conventos e mO$teiros; _no silêncio
dos claustros os homens do ano 2000 encontrarão de nôvo a
pa:z:.. É possivel que a Igreja do futuro só permita a orde-
nacão sacerdotal dos monges.
Após esta sumãrla exposicão das Idéias do artigo e das
obras citadas, pergunta-se:

2. Que dizer 8. propósito!


O artigo de _Visão:. sugere várias observacões:

1) Igreja institucional

A S. Igreja. funaada por Cristo não é mera sociedade


espiritual e invisível. Ela é, como diz Sio Paulo, um corpo.
O COrpo de Cristo prolongado através dos séculos (cf. 1 Cor
12; Col 1,24) . O mistério central do Cristianismo é o mistério
de Cristo ou da Encarnação, isto é, o mistério do Deus que
se faz homem e se comunica aos homens mediante a carne,
a. matéria e os sinais sensíveis. Por isto tôda a obra de Cristo
eontinuada através dos séculos é uma obra de encarnação; a
própria Igreja, por conseguinte, é realidade visivel portadora
da vida. de Cristo ou da vida eterna.
Assim se compreende que a Igreja teve e terá sempre
uma estrutura senslvel, com sua organizatão juridJca e seu
aparato administrativo ou institucional; tOda obra que se faz
entre os homens e por meio dos homens, exige organização e
administração; Deus, querendo o mistério da EncarnaçáQ, tam-
bém quis que os ho:mens- se organizassem segundo os recursos
normais da sua sabedoria.
~ necessário, portanto, qUe, ao prever o que será o Cris-
tianismo no ano 2000, os estudJosos MO se iludam quanto à .
necessidade perene de tnna Igreja estruturada e vislvel. Assim
como é imposs(vel encontrar wn Cristo desencarnado (Cristo
é justamente «o Verbo feito carne:.), assim também ê impos-
sivel encontrar o Cristo, no século XX ou no ano 2000, fora
do seu Corpo prolongado ou fora da Igreja (fora daquela
Igreja que, sem hiato nem interrupçio, se derlva do próprio
Cristo através de vinte sécU1os).
Quem considera essa Igreja como Ela hoje existe, com
sua intensa VitaUdade mIst1ca dirigida por vasta OrganizaC-dO
jurIdlca, pode tranqUllamente asseverar que essa S. Igreja. é
-197-
14 orPERGUN1'E E RESPONDEREMOS' 10V1968, qu. 2

evangélica ou cOITeSpoDde às intenções de Cristo e.'Cpressa5


no S. Evangelho. :ele mesmo assemelhou o Reino dos Céus (a
Igreja) a um grão de mostarda que, de pequenino. se torna
Imensa árvore; 8 mesma vitalidade ou selva dêsse grãozInho
apresenta novas e novas facêtas correspondentes a cada época
do seu crescim<!nto, sem, porém, jamais se d~virtuar (et. Mt
13,31s). SeMa vão ou ilôgico Querer que a Igreja, nos séculos
XX/XXI, tomasse uma face extema semelhante à Que tinha
no séc. I.
Observe--se, por fim, que o aparato institucional da Igreja,
embora utilize muitos dos recursos da sabedoria humana, esta
longe de se equiparar ao de uma emprêsa industlial ou c0-
mercial ; o Código de Direito Canônico é radicalmente inspi-
rado por uma visão de fé ou visão sobrenatural. Jt em vista
do amor e do crescimento do amor Que existem leis e deparo
tamentos administrativos na S. Igreja. Como se compreende,
essas leis são susceUveis de aperfeiçoamento e refbnna, mas
a sua finalidade ultrapassa sempre as metas das organizações
humanas; visam levar os homens peregrinos ao Reino de Deus
consumado.
Entende-se também que os homens encarregados de admi-
nistrar a Igreja tenham suas falhas; errar ê humano; é justa-
mente na fraqueza do homem que se manifesta a fôrça de
Deus, como diz o Apósto10 São Paulo (cf. 2 Cor 12, 9) .
- Ao se falar da fraqueza de certos filhos ou de certas insU-
tuiçóes da Igreja, requer-se lealdade ou sinceridade: a verdade
dos fatos não prejudica a Igreja. Todavia , assim como é pre-
ciso não negar falhas de homens da Igreja, ê necessário
também ~o as exagera]', como parece fazer o dtado artigo
de . Visâo:..

2) O núcleo da. vida da. Ign!ja.: a. Eucaristia.

Dizíamos que o grande aparato jurídico da S. Igreja


existe, em última a.nãllse, para fomentar o amor. Ora o amor
cristão ê jnseparável da S . Eucaristia.
Esta é o ponto de partida e de chegada de todo ' o amor
e de todos os empreendimentos da Igreja (cf. ConstituIção
do Vatica.no II sôbre a Liturgia n" 10) .
Em outros tênnos: a Igreja é uma sociedade que, antes
do mais, ' ora; Ela ora e também ... trabalha. A Igreja é pri-
meiramente uma socledade de culto. E o culto da S. Igreja
não é apenas o culto ela palavra de Deus (leltw'a blblica,
-198-
IGREJA 00 FlITURO SEM PADRES'? 15

homilias, cânticos sagrados e orações), mas é o culto euca·


Jistico: a Missa é o ato centraI da Liturgia e de tôda a vida
da Igreja. Com efeito, a Missa é o próprio sacrif1c1o da Cruz
ou da Redenção perpetuado sôbre os altares,... perpetuado
a fim de que todos os fiéis participem dêle, oferecendo (ativa·
mente) e oferecendo·se (passivamente) com Cristo ao Pai.
Deve--se, pois, dizer; assim como tóda a obra de Cristo
culminou na sua morte e t'eSSUrt"êição gloriosa, assim tóda a
obra da Igreja culmina no ato em que Ela se entrega com
seu Divino Chefe a Deus Pai através da celebração do altar.
Não hã Igreja sem Eucaristia.
Por isto é que existe, para todos os fiéis católicos. a
obrigação de partlclpar da S. Missa ao menos uma vez por
semana, ou seja, no domingo ou dia do Senhor (dia comemo-
rativo da Ressurreição de Cristo). A sabedoria da Igrt'ja fêz
dessa obrigação moral um preceito jurldico, visando justa·
mente evitar qUe os fiêls se afastem (por inconsciência) do
grande tesouro da Reden: ão; um cristão que não participa do
sacrifício da Cruz, é cristão que se marglnaltza., é cristão que
de Cristianismo tem mais o nome do que a realidade profunda.
~ oportuno acrescentar que a S. Liturgia. sendo um
culto dirigido a Deus, terá sempre seu estilo próprio, hierá·
tiro. diferente do das reuniões de fam1liares e amigos. Está
claro que êste estilo não Implica necessArIamente em pompa
e luxo.

3) O !ladre: Instrumento de Cristo Sacerdote


1; preciso agora acrescentar o seguinte: o sacerdócio de
Cristo que se ofereceu na Cruz, se prolonga no dos homens
que t:le chama aos sacramentos do Batismo e, especialmente,
da Ordem . Ao Instituir a Eucaristia. Cristo disse aos Apósto-
los, C a êles s6: «Fazcl Isto em memória de Mim~ . Em vista
da S. Missa. o Senhor criou o sacerdócio ministerial.
Por isto a celebração do sactiftclo da Missa exige que
haja padres na Igreja, e exIge-o tio Imperiosamente quanto é
Imperiosa a ,necessidade de se celebrar a S. Missa. Assim corno
a Eucaristia nunca poderá. ser uma função acidental na
S. Igreja, asslm também a existência dos presblteros nW1C&
se poderá tomar algo de secundArio ou substltuível na Igreja.
Deus pode pennitir que haja escassez de sacerdotes (como
se verifica em nossos dias); pode pennitlr que muitos presbi-
teres (por motivos pessoais) abandonem o ministério sagrado;
mas jamais há. de permitir que desapareça a figura do pres·
- 199-
16 .. PERGlJIIITE E RESPONDEREMOS .. lOVl968, quo 2

bítero na S. Igreja. Permitir isto seria. o mesmo que pennitlr


a extinção do Sacrificlo Eucaristico, o que equivaleria a per-
nútir a desttulção da própria S. Igreja, a anulação do Evan-
gelho de Cristo e da obra da Redenção. A lei tura da Biblia,
a pregação e as orações de modo nenhiun suprem a riqueza
singular da S. Eucaristia, sacrifIclo da Reden;ão perpetuado
através dos sécuJos: pode·se dizer que a, Liturgia da Palavra,
em última anAlise, ê encamjnhamento para a Liturgia do
sacrificio,
O diãcono é wn ministro da Igreja que ,t em as facuJ-
dades de distribuir a S. Comunhão, batizar, pregar, adminis-
trar alguns sacramentais, mas não tem os pOderes de Ordem
de celebrar a S. Missa e atender às confissões sacramentais.
O ConclUo do Vaticano II preconizou que haja diáconos per-
man4ômtes na S. Igreja, a fim de auxiliar o mil)istério dos preso
biteros; conseqüentemente, os dlAconos podem, nas paróquias
em que não há presbltero, relmir os fi@1s e com êles celebrar
a Liturgia da Palavra (distribuindo também a S. Eucaristia,
caso ela tenha sido ai anterionnente consagrada por um padre).
Tal culto será sempre frutuoso, mas necessàriamente Incom-
pleto, porque carecerá ~a S. Missa, centro de tOda a vida
cristã. Vê-se, pois, que a intenção do ConciJjo nãp loi a de
substituir os presb!teros por diãconos (que podem ser casados
e exercer profissão civil), nem foi ' a de substituir paróquias
(clrc\mSCrlçóes dirigidas por um padre) por diaconlas. Nem
se pode pretender que em época alguma. da história da Igreja
tal substituição se dê; ela equivaleria, como foi dito atrás, à
auto-destndçáo do Cristianismo mesmo.

4) A verdadeira face do padre

Vê-se. pois, que o padre não é mero funclonfuio das


estruturas da Igreja. funcionãrio que poderia desaparecer se
essas. estruturas mudassem. O padre é, em primeiro lugar, um
continuador do sacerdócio de Cristo. um embaixador do Eterno
no tempo; Ê! um homem carismático, ou seja, homem que o
Esplrtto Santo chamou e dotou de gratas especiais ; é um
homem que adquire Intima familiaridade com Deus pela. ora-
ção. Em. poUCas palavras. o padre é, como diz o adâglo popu-
lar, «o coração de Deus. junto aos h om&lS e o coração dos
homens junto a Deus.. .
Chamado a prolongar o sacerdócio de Cristo, fie tem
como fimcão palmar distribuir aos homens os tesouros da
Redenção, que passam pelos sacramentos e. em particular,
-200-
IGREJA DO FUTIJRO SEM PADRES'! 17

pela S. Eucaristia. Compete-lhe também dizer aos homens,


seus Irmãos, quem é Deus, êsse Deus sem o qual ninguém
encontra paz e felicidade, e mostrar-lhe a via (revelada
pelo próprIo Senhor) que leva ao encontro face a face com o
Bem Infinito. - Além desta tarefa. pastoral, que ê essencial,
pode haver também, na vida do padre, afazeres de lndole
burocrática e administrativa; são funções laterais, que não
caracterizam o presbítero como tal, e que o Concilio do Va-
ticano TI deseja, sejam, na medida do poss:vel, transferidas
para os fiéis Iei~os da paróquia. Compreende.se, porém, que
na Odade do Vaticano, onde se condensam as tarefas de
adminlstracão da Igreja, deva haver maior número de sacer-
dotes aplicados a afazeres de escritório.
Como em todo conjunto humano, também no conJunto
do clero podem existir presbiter'os que não estejam à altUra.
do seu Idea]; a sublime missio do sacerd(lcio não . isenta .dl!'
fraqueza. o ser humano. Todavia as fa1has .verlflcadas neste
ou naquele sacerdote não devem levar o público a c-rer que
as fun-:-óes sacerdotais .sejam dlspensãveis, nem permitirão con-
cluir que só há padres deficien~.
A autêntica figura. do sacerdote, ccoração dos hom~ns
junto a Deus e coração de Deus Junto. aos homensit, se encon-
tra em documentos vivos contemporâneos. Uma de suas ex-
pressões escritas mais pregnantes se acha na biografia e l10S
sermões do Santo Cura de Ars, JoIo-Marla Vianney. Levem-se
em conslderaClo. entre outros. os seguintes dizeres desse
santo homem:
«Quando virdes o sacerdote, penSai em Nosso Senhor Jesus
CrIsto.
O sacerdote é o amor do Coraçáo de Jesus.
Quando vlrdes um padre. devereis di2er: 'Eis aauêle que
me tomou filho de Deus. . .. eis aQuêle Que me purificou após
° meu pecado.. .. que dã o alimento à minha alma'.
O padre, por efeito de seus poderes, é maior do Que um
anio.
Se eu encontrasse um padre e um anjo. saudaria o padre
antes de saudar o anjo. :tste ê o amigo de Deus: o sacerdo.tI!.
porem, ·faz 8S vêzes de Deus.
Se o padre estivesse bem eom~netrado da grandeza do
seu ministério, mal poderia viver.
Se os homoos compreend~em bem o padre neste mundo.
mo~tiam nlio de mêdo. mas de amor.

- 201-
18 _PERGUNTE E RESPONDEREMOS. lOVl968. gu. 2

Quando os homens querem destruir a religião, começam


por atacar o padre.
Um bom pastor, um pastor confonne o coração de Deus,
é êste o maior tesouro que o Bom Deus possa conceder R
uma paróquia, e um dos mais preciosos dons da misericórdia
divina,
O! Quando pensamos que nosso grande Deus se dignou
de confiar isto (o mlnlstério sacerdotal) a sêres miseráveis
como nós!
S6 me repouso duas vêzes por dia: jlUlto ao altar e no
púlpito.
Se eu j á tivesse um pé no céu C me viessem dizer que
voltasse para a terra., a Cim de trabalhar na conversão de
um pecador, eu voltaria de bom grado. Se fôsse preciso per-
manecer até o fim do mundo, levantar-me à meia-noite e so-
frer como sofro, eu ficaria de bom grado para continuar a
trabalhar na. conversão dos pecadores.
ó! Teremos muito tempo para descansar, Quando estiver-
mos no cemitério!
Eu estava tão cansado na noite passada que julgava ter
chegado ao fim. Mas não posso pennanecer em meu quarto;
sinto-me melhor, trabalhandolt.
O belo Ideal do padre assim proposta pelo Santo Cura
de Ars nAo é algo de ultrapassada, mas é preconizado 'pela
Igreja ainda em nossos dias, e vivido no silêncio e na abne·
ga~áo. Quem tem consciência do que realmente é o presbí-
tero, jamais poderá pleitear cuma Igreja do futuro sem pa-
dres~, O fiel católico sabe que é o próprio Cristo quem governa
a sua Igreja ; por isto tem .por certo que Esta nunca carecerá
dos ministros sem os quais a Eucartstla não pode ser cele-
brada. Compete. porém, a todo bom 'discípulo de Cristo uma
tarefa importantlsslma: contribuir eficazmente pela oracão e
pelo trabalho para que se aumente o número de presbiteros
na S. Igreja: cA messe é muita. mas os operários são poucos ~..
(Mt 9, 37).

AP1::NDICE

A fim de Ilustrar mais vivamente o pensamento da Igreja


a respeito dos seus ministros hoje e no futuro, segue-se trecho
de um discurso do S, Padre Paulo VI proferida ao clero de
Roma a 26/lI/ 68" por ocasião da, abertura da Quaresma:
- 202-
ICREJA 00 FUTURO SEM PADRES'? 19

Um reconfôrto válido e ineomparãyel


«Há. . . provações e 8llgústlas em muitos sàcerdotes do
nosso tempo. para as QUais. . . desejamos oferecer um recon~
fôrto.
Também até vós. sacerdotes car:sslmos, atê vós parti·
cularmente, jovens sacerdotes, pod~ ter chegado, talvez não
com o Impeto alhures observado... a onda tempestuosa de Ques·
tões, dúvidas, negacões, novidades tendenciosas, que nos nossos
dias acomete o clero de outras naÇões, suscitando problemas
a respeito do verdadeiro conceito, da função primária, da justa
posição, dn originária c autêntica realidade do saccl-d6cio.
O padre, assim assaltado, Interroga a si mesmo. põe em
dúvida a sua vocaÇ;âo, discute a forma canônica do sacerdócio
catóUco; receia ter escolhido mal a tarefa de sua vida, expe-
rimenta o seu eeliba.to não mais como livre plenitude de
imolação e amor, mas como fardo contrário ã natureza. E,
principalmente. olha para o mundo, do qual se separou e
absteve para melhor poder conhecê-lo, evangelizá.lo e servir-
.lhe, com sentimentos não já de amor apostólico, mas de nos-
talgia profana; fàcUm ente então se ilude julgando que, caso
se mergulhasse na realidade temporária e social do mundo,
melhor poderia redimir êsse mundo ou, ao menos, apaziguar
as InQuletudes que êle (sacerdote) traz em seu íntimo.
Fllhos e Irmâos Nossos: se al~ vez tal sltuacão de
Animo viesse a afetar o vosso espfrlto, permiti que esta Nossa
ocasional exorta-;áo se tome válldo recomôrto para a vossa
fidelidade sacerdotal. Não podemos abordar aqui de modo
slstemâ.tlco e exaustivo êsse assunto, o qual envolve uma série
de problemas que circunstAnclas dignas de atenta anâllse sus-
citaram e exacerbaram. Dlumo-vos uma s6 palavra do Divino
Mestre: 'Nio temais' (Me 6. SO). Não vos deixeis sugestionar
por teorias e exemplos que abalem o iuizo autorizado e nor-
mativo da Igreja Não ponhals em dúvida a vossa fé, a vossa
escolha, a vossa irrevogfl.vel entrega. Não fujais ao amor Que
Cristo teve por vós. Estai felizes por ser seus humildes minls~
tros. AmaJ com nova paixão o modesto, cansativo, maS su-
blime serviCO sacerdotal, para o qual o Espírito Santo vos
chamou e habilitou.

o sacerdócio ó um s:acrament\()
Desejamos que a próxJma Quaresma concorra para con-
firmar no esp:rlto de cada um de vós um.at tríplice certeza.
-203-
20 ..PERGUNTE E RESPONDEREMOS, lOV1968. qu, 2

Antes do mais, a certeza daquela. relação original, irre·


versiveJ, inefável. que nos liga. a Cristo e que chamamos
'sacérd6clo', O sacerdócio nAo é um mero encargo eclesiástico,
wn mero servico prestado à comwlidade. É um sacramento,
, ~ santii)C8.ção interior; consiste em conferir particulareS e
prodigiosas facu1dades~ que habilitam o sacerdote a agir na
pessoa de Cristo é . por isto. imprimem no- padre um 'caráter'
muito especial, indelével. :esse 'caráter' toma o sacerdote
tnstrwnento de Cristo e, por conseguinte, estabelece entre o
ministro e o Senhor relaçOes de particular e inefâvel amor:
'Vós sois os meus amigos' (Jo 15. 14) . A nossa vida espiritual
deveLia ser permanentemente alimentada pela consciência da
nossa ordenação e da amorosa escolha que Cristo Ih: em
nosso favor: 'Eu vos escolhi' (Jo 15, 16). Essa· nossa vida
espirittml não somna a oscllacão de dúvidas e tibieza, se
reconhecêssemos como convite a uma Intimidade cheia de con-
ftan-;a o seguinte fato: Cristo, cheio de amor e poder, quer
agir mediante a nossa hwnllde pessoa. humilde pessoa posta
para. sempre à sua disposição.

Ilimitada dedicação à. CD.ll5a do Senhor

A outra certeza que deve sustentar a nossa consciência


sacerdotal. é a do vInculo Que nos 11ga de maneira total e
lrrevogável ao serviço dos nossos lnnãos. 0 - sacerdote não
pertence mais a si mesmo. A ImaUdade do sacerdócio é a
'diaroma', a dedicação sem reselV8s, sem condições, ao Corpo
Mistico de CrIsto, à Igreja. ao Povo de Deus, aos homens. A
consciência de que não pe~ncemOs mais a nós mesmOS, de
Que nos demos para sempre li. caridade, a qualidade de ser-
vidores do próximo, como não aumentarão a f()rtaleza e a
segurança. do sacerdote? Na verdade, êste conhece os seus
próprios limites e as suas indigências. e pode continuamente
ser tentado a 'refazer a sua vida', a procurar o seu próprio
prestigio e os seus. interêsses, perturbando o rumo que carac-
teriza a vida de todo sacerdote.
Segue-se uma ~rceira certeza, talvez inqUietante, porque
Implacável e~ suas .exigências, mas extremamente reconfor-
tadora: a exigência da santidade, que deve dar o estilo pro-
prio à. vida de um homem a quem cabe, de um lado, ter sido
escolhido por Cristo para tornar-se seu ministro, e, de outro
lado, ser destinado a transmitir aos outros 'os mistérios de
Deus' (cf. 1 Cor 4,1). :tle os 'transmite não rnecuante um
ministério impessoal. burocrático, puramente jurídlco. mas me-
- 204 -
BATISMO DAS CRIANÇAS 21

diante um ministério vivo Que deve ser a personlficacão da .


Palavra apregoada . .. mediante um esfOrço vital para tomar.·
-se mod~lo, para tomar-se realmente um outro Cristo. Também
esta certeu de estar obrigado à sentidade infunde no sacer·
dote uma coragem característica; :tle então não temerá mais
nem a sua própria fraqueza nem as ins:dias dos . outros ho-
meru;, pois estará livre dos vinculos do ego:smo ambicioso e
seguirá, humJlde e audaz, o caminho de ronsumacão do seu
sacrifi.cio em imitação do sacr1Ciclo de Cristo, . .. 0 caminho
da perfeição e da plenitude da caridade».
Estas profundas consldera:;ôes do S. Padre Paulo VI in·
curem eloqüentemente que o padre não é funcionário de uma
ordem de coiSas meramente hUmana, mas é instrumento da
obra da Redenção, cujo principal agente ê o próprio Deus.
A consciência desta verdade leva não sOmente a desejar sub-
sista o sacerdócio ministerial na Igrêja, mas também conserve
o seu estilo de vida sagrado, Isento de esplrlto la1c1zante e
profano.

111. PASTORAL

3) . DIzem que & Jgreja não quer mais batizar 88 crlanç.s!


Que há. de nôvo na p:ru:e do, Batbmo'!' .

Um problema nôvo tem-se lmpôsto insistentemente ã ccin-


slderação de todos áquêles que desejam atitudes definidas em
matéria de Religião e ntosofla: o problema do Batismo admi-
nistrado a crianças cujos pais são católicos indiferentes ou
não-praticantes. I Ta] Batismo nâo darâ ocasião a que haja
mais cristãos iÍlconsclentes ou puramente nominaIs?
O assunto tem sido cuIdadosamente . estudado por pas-
tores de almas e teólogos. Abaixo exporemos primeiramente-
a respectlva problemática. Depols, passaremos aos princípios
de solução e apresentaremos um espécimen de .normas ado-
tadas em uma ou outra circunscrição eclesiâstica_

I Notc-.e bem: nAo se t.nIta. de pais TÚlO cntóllcOlJ, mns de goni-


lor~s CJu~ cslio, ~ C'Illlo ano' entblll'Ol.

-205-
.22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS» lOVl968. quo 3

1. O problema
o nôvo problema decorre da colisão de duas flagrania
realidades :
1) O Batismo é sacramento necessário à salvação: por
isto OS pais têm estrita obrigação de ' mandar batizar seus
filhos quanto. antes, e aos pastores de almas incumbe o dever
de administrar o sacramento. Jt o Que a Igreja declara cate-
goricamente no cMon 770 do C6d1go de Direito Canônico.
2) Nota·se, porém. Que em nossos dias as popula~ões
urbanas e rurais estão, em grande parte, descristianizadas.
Em conseqüência, vê-se Que a criança batizada em muitos casos
não recebe a devida instru;ão católica, para poder viver real·
mente o seu Batismo. Estas consideraÇÕCS levam a perguntar
se os pastores devem continuar a batizar com a mesma pres·
teza com Que o faziam até as últimos tempos.
Examinemos mais detidamente cada qual das duas partes
do problema:

1) l!: preciso batizar as crianças


Esta afinnaçio tem seu fundamento na própria B'blia
Sagrada. Com efeito, diz São Paulo: "Deus quer que todos
os homens sejam salvos. (1 Tim 2,4), mesmo as cnancl.nhas.
Ora entre os meios de salvação o Senhor incluiu expliclta e
categôricamente o Batismo: . Quem não renascer da água
e do Espirito Santo, não poderá entrar no reino de De~
(Jo 3,5), ou ;. .Quem C1'@r e fôr bati7ado, será salvo; quem
não crer, será condenado_ (Me 16,16). Sendo assim, visto
que aS criancinhas podem morrer a qualquer momento, pro-
cura-se-lhes administrar o Batismo sem demora alguma.
Verdade é que os pequeninos não são capazes de con·
ceber a fé ou crer. Isto, porém, não impede que sejam capazes
de receber o Batismo. Com efeito, a fé é mera disposição, ao
passo Que a açio purificadora e santiflcante se deve ao sa-
cramento ; éste. portanto, pode ser conferido sem aquela a
sujeitos incapazes de eoneeber a. fé.
No caso dos pequeninos, a Igreja supre a fé que êles não
podem ter; são batizados .por extensão da fé da Igreja»,
como explica São TomAs, repetindo pala.vras de S. Agostinho
(ep. 98, 5) :
cAI crlanclnhas alo Icvadas li receber a graça do Esplrlto nlio
tanto por aqueles cujas mlos ai carregam (embora por êsscs também.
- 206-
BATISMO DAS CRIANÇAS 23

caso sejam bom .e fiéis), quanto pelá sociedade Inteira dos santos e dos
fléll ... A fé de um crlstlo, antes, a lé da Igreja tôda-. ê útil .. cri;
ança por obra do Esplrlto Santo, que faz a unlAo da l~ja e eomunJca.
B uns os bens de outros» (Suma 'reoto,lca lU tiS, 3 ad 3).
Quando a criança atinge a idade da razão, dá-se-lhe a
Instru=ão religiosa. a fim . de que conceba a reta fé e a professe
devidamente; ela então renova as promessas do Batismo, que
em seu nome fizeram os respectivos padrinhos. Naturalmente
deve-se desejar que a catequese dos adolescentes batizados
seja eficiente ou apta a fonnar bons cristãos. de modo que
o gérmen da graca santificante, depositado previamente na
alma. pelo Batismo. não venha a ser frustrado.
A praxe de batizar crianças parece atestada pela própria
Escritura Sagrada, Quando refere Que determLnado personagem
foi batizado' com todos os seus familiares; assim. por exemplo,
Vdia. a vendedora de púrpu'r a de nattra. recebeu o Batismo,
com todos os seus (cf. At 16.15); também o guarda do cár-
cere de Filipos com tOda a sua. casa (cf. At 16,33): Crispo,
o chefe da sinagoga de Corinto, com tóda a sua famma (cf,
At 18,8); Estefa.naz, com todos os seus (cf, 1 Cor 1,16).
Na literatura cristã testemunhos muito antigos referem
o Batismo de crianças, Tenha·se em vista apenas o seguinte :
em 155 ou 156, São Policarpo de Esmima, prestes a sofrer
o martlrio pela fé. dizia aos seus ju'zes que servia a Cristo
já havia 86 anos (<<Martírio de S. Pollcarpc>. ]X 3).
A tradição se prosseguiu Inlnterrup1lunente até nossO!
dias, justificando o preceito do Direito Canõnlco :
cAs crIanças sejam bal.Íudas quanto antes. Os pârocos e prega-
dores admoestem freqOentêmênte o.s fl~ls a réSpe!to da grave obrl,
gaçAo que lhes 1ncumbe neste partiel.lb~ (em 770).
O Papa Pio XI, por sua vez, escrevia na encíclica .Cr..sti
Connubib (31/XTI/ 1930) :
. Compete aos e,posos crlsto.os oferecer lIeus filhos A Igreja a
fim de que esta Mlie mui tecunda dos filhos de Deus os regenere
pela égua purl!lcadora do Batismo».
Tajs prescrições. sôlidamente fundamentadas como estão
na Palavra de Dcus, são hoje em dia confrontadas com

Ê fato inegável que muitos dos genitores que apresentam


seus filhos ao BaUsmo não têm consc.l.ência do grave dever
-=.-
24 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS., lOVl968, qu, 3

que lhes incumbe, de educar a fé dos pequeninos, pela quaJ


êles respondem juntamente com os padrinhos no rito sagrado.
Não será, por vêzes, o Batismo um cerimonial aceito mais
por motivos ãe tradição de famllla do Que pela fé esclarecida
dos genltores ? Os padrinhos, que devem ser os suplentes dos
pais na tarefa de educar os pequenlnos na Religião católica,
também não raro negligenciam .t al obrlgaCão: muitas vêzes
mesmo ignoram êste seu dever.
Em conseqUéncla dêste estado de coisas, não potU!aS
crian;as crescem com O titulo de cristãos. mas sem a devida
formaçAo relIgiosa; voluntária ou involuntàriamente, tal'·
nam-se wn contra-testemunho reUgioso, Tal situação não pode
delxar de afligir os pastores de almas. A Igreja f, de modo
geral, o mundo de hoje requerem autenticidade. ou seja,
coerencia de prlnc:plos e vIda.
lê: nestes tênnos Que se põe o problema do Batismo das
crianças em nossos dias; torna-se cada vez mais vultoso e
premente, dados o aumento demográfico de nossos tempos e
O indiferentismo religioso de muitos casaIs que pedem o Ba·
tlsmo para os seus filhos.
Procuremos, pois,

Z. Os prlDcfplos de solução
De modo geral, é pr"eClso dizer que o problema não deve
ser exagerado. :t preciso evitar medidas drâstlcas no sentido
de recusar o Batismo.; em vez de prodUzir fn1tos pastorais,
as solu~ multo veementes seriam antipastorais. afastando
definitivamente numerosas almas da Igreja.
Estabelecida esta. premwn. sejam propostos alguns sá·
bios princípios que encaminhem o problema à sua solução.

1) Há easos em que' o pa8ÍA)r pode e deve recusar o


Batisnio.
Com efeito. desde que, tudo bem ' ponderado, não haja
realmente probabilidade de que a criança batizada venha a ser
educada na rellglAo católlca, compe~ ao pâroco recusar '8.
administração imedIata do Batismo: adie o sacramento (o
que nAo quer dizer que o J'e(:llSe definitivamente) .
Para justificar esta aflnnaçAo, pode·se dtar o cân. 750:
pennite batizar os filhos de pais não-cetóllcos, desde que se-

-208 -
_ _ ._ _ __ ---'8"A'-'TIS=M"O~D"AS"'___C"R"IAN="Ç"'A"'S'__ _ _ _ _2J,,-

cumpram detenninadas condições. entre as quais está a. edu-


cação eat6Uca da criaosa (_dwnmodo cathoUcae eius edu-
-cationi cautum sita). _ Ora pais ' católicos tota1mente indi-
ferentes são às vêzes, no setor da educação (não dizemos: ...
sempre e em todos os setores). equivalentes a pais não-ca-
tóliros.
Pode-se lembrar também que em · territórios de missões
a Santa Sé nos sku10s passados sempre exigiu que, em se
tratando de crianças nascidas de pais não-cat61icos. só se
lhes desse o Batismo quando Sé pud&e prever de algum modo
que receberiam educação católica. Vejam-se os numerosos
testemunhos a respeIto no artigo de Roger Etchegaray. cBapf.ê..
me d'enfants de nOR pratiquants:t, em .:La Maison-Oieu.:t 32
(1952), pAg. 97-100.
A norrria assim fonnulada sugere algumas consideracÕeS :
Nã.o se deve reeusar o Batismo a crianças cujps pais vi-
vam de maneira pouco digna ou mesmo escandalosa, pelo
simples lato de assim viverem. Para averiguar se deve ou
não conferir O Batismo, o pároco não há de levar em conta
exclwivamente o gênero de vida dos pais da criança, pols
não é êste o critério decisivo. e. sim, a probabilidade de que
o pequenino possa. ser instruido Da! religião católica.; a má
vida dos pais pode não ser empecilho a que a criança receba
a devida formação rellglosa.
Se os genltores não se interessam pela formação catóUca
de seus filhos e. não obstante, os padrinhos ou amigos da
famUia se mostram dispostos a suprir o papel dos pais, pode-se
dizer que estio satisfeitas as exl~nclas da consciênda moral:
o sacerdote pode então conferir o BatLsmo. , O que no caso
innare5Sa ao ministro sagrado, não é a presente situação re.
lIg10sa dos i)als. mas, sim, a futura situação religiosa da enança.

2) Não se deve recusar raellmente o Batismo


Ao apresentar um tuho ao Batismo, os pais católicos não
solicitam um favor da Igreja, mas estj.o cumprindo grave
d.e ver (de cujo alcance Welizmente talvez não tenham plena
conscl~cla). O seu pedido de Batismo, ainda que em certas
ocasiões seja obnubllado pela rotina ou a superstição, mostra.
que a sua consciência reHgiosa ainda está viva. Deve-se pre.-
sumir (8 menos que haja evidência do contrário) que em
seu lnterlor haja rugo que corresponda à sua atiblde exterior.

- 209-
2S ePERGUNTE E RESPONDEREMOS' lOVl968. quo 3
Replta.~se: não se trata propriamente, no caso, de e:'(a~
minar se o pedido dos pais se inspira em conformismo social
ou tradJ;io de fanúUa. mas, sim, de avaliar se a fé da criança
será preservada e desenvolvida. O fato de que os pais sejam
tidos como católicos pecadores ou de má vida, não e sufi~
ciente para que OS pastores de almas recusem o Batismo a
filhos de tais casais, alegando que essas "Crianças cedo ou tarde
cairão no Indiferentismo ou na vida pouco exemplar de seus
genitores. Tenha-se consciê.ncia de que,
de um lado, mesmo os pecadores são membros do Corpo
w.stlco de Cristo e pennanecem sujeitos ã influência vivifi·
cante do Espirito Santo (cf. Pio XII, enc. cMystici Corporis
Christi_, que, ao afinnar tal proposição, cita numerosos tes-
temunhos de antigos escritores e doutores cristãos) ;
de outro lado, é preciso ter confiança na ação sobrena-
tural do dom da fé na alma da. criança batizada. Segundo
S. Tomás, o hábito da fé infusa pelo Batismo inclina o neófito
à prática do bem e faz que 'êle tenha certa capacidade para
discenpr a verdade religiosa (cl. TI Sent., d. 27, qU.1, n.l, ad 3) .
O Pe. Boulanger, ao comentar estas idéias de S. Tomás,
faz as seguintes reflexões:
eDlrl!mos I!ntlio que, de duas erianças, das quais uma é batizada
e a outra não, a primeira ~ necessAriamente a mais bem compor·
tada!.. - Naturalmenle. gostarbmos de poder averiguar ~ta bela
conclultio: sim, as crlançal batltadas d.C1 sempre as mais dóceis.
Todavia ~ preciso .notar que a natureza humana, espontlineamente pro-
pensa 11. rebeldia, Jl na crtanca contraria multas vêz,es a aÇ10 da
graça batismal ; a criança, por seu livre aTbftrlo, pode opor-se aos.
e!el~ moralmente benéfico. do Batismo. Contudo .. pode·se afirmar
que na criança batizada h! principias de tendência para .o bem que
a ct1ança nlo tutlucla nD.o possub (A.·a Boulanger, eLe Bapt~ me.,
I!m c$omme 'J'hêologlque:o, ed. cRevue d~ Jeunes:o pAga. 334. ),

O famoso militar francês Ernesto Psichari, convertido à


fé ctistã, do seu modo corrobora tal afirmação, dando o ~
gulnte testemunho:
eA seguram.a M Qual vivi tanto t e mpo antes de receber os
sacramento., I!lsa trande esperanca que me era dada. ql..l:!ondo eu
tJ.o pouco a mereci" sei agor'a a quem eu a devia : . .. ela me vinha
ela ligua do Batismo, que eu tive ... a felicidade de receber, Quando
I!ra crl&1lt'l. ainda Ineonsclente .. ,:o (eLes vobe qui c.rtent dans b
déserb. Paris 1941, pAg. 192) .

A teologia, pois, Incita o pastor de almas a confiar na


eflcé.cla do hAbito da fé Infundida pelo Batismo: desde que
não haja obstáculos decisivos !à acão dêste dom de Deus (e.
- 210-
__________-2B~A~TI
~S~M~O~D~AS~C~R~[~A~N~Ç~A~S_____________ V

às vêzes mesmo, a despeito de tais obstáculos). a graça ba-


tismal poderá. beneficiar grandemente a criança: batizae8 cujos
pais sejam católicos pouco coerentes.
Naturalmente, fica. em última anãlise, a critério do sa-
cerdote julgar em cada caso concreto com quanta probabili-
dade se pode esperar que a criança receba educação católica.
A jurisprudência da Igreja requel" um eminimo de garantllU
ou uma esperança «provável, justa. e razoáveb. - Tal avalia-
cão é delicada ; poderá levar em conta que detemúnadas fa-
rnlllas llão-praUcantes costumam confiar seus fi1hos a roueM-
dárlos católicos, onde os alunos recebem instrução religiosa.

3) Ao sacerdote compete não somente julgar. mas tam-


bém servir ...
Em outros tênnos: o pãroco não deve apenas avaliar
cada pedido de Batismo, proferindo conseqüentemente um
«Sim:. ou um «Não». Compete-1he também empenhar-se por
obter o eJJÚnlmo de garantia~ necessário à administração do
Batis!po, sempre que não o houver.
Isto implica em que todo pãroco se interesse ardentemente
por intensificar a catequese no tenitório de sua jurisdição,
provendo à formação de catequistas e mu1tipllcando os centros
ou os meios de formação religiosa. A Igreja, preconizando
atualmente a renovação da catequese, Comece aos párocos
programas e sugestões valiosos nesse sentido.
Convém também aos sacerdotes esforçar-se por- que os
padrinhos da criança sejam escolhidos segundo critérios au-
ténticamente cr:istios. Ser padrinho Ilio slgnifjca apenas tes-
temunhar amizade aos paJs de uma criança, mas constitui,
antes do mais, um encargo religioso. Todo padrinho é, por
seu conceito mesmo, um membro da Igreja que apresenta e
recomenda ao sacerdote um candidato ao Batismo, responsa-
bíltzando-sc pelo de.sei'tVoMmento da fé do afilhado. Por isto
não sOmente todo padrinho deve ser catóUco consciente, mas
também é para desejar que possa permanecer em contato
com o neófito ao menos durante os anos de sua fonnação i
os padrinhos contraem verdadeiro parentesco espiritual com
seus afilhados.
Eis o que a propósito estipula o Código de Direito Ca-
nônico:
, cEm virtude do encargo a./Is umldo, todo padrinho deve para sem·
pre Interessar-se por .eu fllho espiritual (afilhado). No tocante 11. for-
matlio crlltA dfste. zele dllll~ntemente J)llra que o a!llhado con!onne
-- 211 --
28 ep:f;RGUNTE E RESPONDEREMOSJo 10111968, qu. 3

lodo o seu teor de vida ao Xleal que o padrinho em seu lugar pro·
~teu numa solene cerlmOnw (cl n. 7691.

Todo pároco, portanto, há de lnstnilr os casais e os demais


paroquianos a respeito das graves obrigações Que perante
Deus contraem os padrinhos, "
Feitas estas ponderações, pode·se concluir com as palavras
de um estudioso da matéria :
eNio teremos o direito de ser exigentes, de pensar em recusar
um Batismo, SI! não tivermos previamente mobilizado tOdas as nossas.
t6rças apostólicas para conrerlr ao ~c,... mento a plenitude do seu
,lgnlI-ieado,. 1

S, Ulberiores obsierva.ções
Para S@ entender devidamente a situação de pais cató--
Ueos ditos ema-praticantes:. ou indiferentes que pedem o Ba·
tismo para seus filhos, poderá ser útU. a seguinte comparacão :
A Igreja é como um povo (o ConclUo do Vaticano n de-
clarou-a «o povo de Deus:.). Ora em todo povo nem todos
os membros participam 19ualmenre da vida política. cultural
ou econômica da nação; muitos vivem como se tivessem exíguo
interêsse pelos grandes empreendimentos da coletividade. Bom
número de cidadãos recebe mais do bem comum do que o
promove. Não obstante, todos os homens que (>e['tencem a
detenninado povo, querem ser reconhecidos como tais; são,
aUãs, obrigados a cumprir um minjmo de deveres civis, e
costumam sujeitar*se a êsse rnfn!mo,
Algo de anãlogo se dã no povo de Deus ou ,na Igreja:
há. também graus variáveis de participação na vida comum ou
na prática do Catolicismo. Registra-se uma cmasSêU de cJis..
tios que _se aproveita. da ~munhão dos santos. Todavia,
embora aparentem pouco interesse. querem pertencer ao povo
de Deus. Sabem outrossim que, para pennanecer em comu·
Ilhão tom êste, ' há. wn núnlmo de obrigações e, entre estas,
8. obrigação de «mandar batizar OS fUhos,.. Aquêles, pois, que
cumprem tal dever, dão testemunho de Que Querem penna-
necer vinculados à Igreja.

I cNous n'avofll par le droit d'ltre exlgeanta, d'envtu.Ru le


retu. 4'un baptême, ai ncus n'avons, a\.l préalable. mJI en oeuvre
'tomes nos forces apostollques pour conf6rer &u saerement la pténJ·
tude de la slgnlflcatJon (Roger Etchepray, eBaptême d'en1s.nt. de
non pratlquantllJo, em eLa Matson-DlelU 32 [1952] pAgo 117),

-212 -
BATISMO DAS CRIANCAS 29

Estas idéias sugerem de nOvo modo quanto os pastores


de almas devem procurar ser compreensivos para com os fiéis
nãcrpraticantes que apresentam seus fUhos ao Batismo. Pn>
curem compreender o significado de tal gesto: pode parecer
folclórico e vazio, mas pode também ser o sinal de uma adesão
tãclta e real à Igreja ou ao povo de Deus.
Estã claro que, quando o gesto dos genitores fôr eviden-
temente vazio, o sacerdote deverá recusar-se a i1udlr seus
paroq\Úanos, dand~lhes algo que êles não reconhecem como
valor religioso. Todavia, desde que se possa discernir nos ge-
nitores uma certa intencão de pertencer à Igreja, não se lhes
indefira sem mais o pedIdo de Batismo para séus fUhos.
A propósito, encontra·se Importante artigo de Françols Favteou :
t:La demande du Baptême: Que veuJ.ent le.s pArents.?>. I!m c:La M&l50n·
:Dleua 98 (1967) 87·100,

AnNDICE
À gUIsa de complemento Uustratl.vo, segue--se o texto das
orientações práticas atinentes ao assunto promulgadas em
fulho de 1966 pelos Bispos das dioceses da região parisiense
(França). Quase as mesmas nonnas entraram em vigor em
outros bispados da Frn.nça.

1. Pedido e inscrição

. 0 pedido de Batismo tomar-se-á a ocasião de um pri-


meiro contato realmentê pastoral (e não administrativo) do
sacerdote com OS genitores.
• ~ pedido será consignado num Reglsb'o Paroquial.
1: desejável Que tal pedido seja feito antes do nascimento
da crianea.

o sacerdote avistar-se-á com os gerútores (ou um dêles)


para. os ajudar a refletir sObre as suas responsabilidades de
primeiros educadores crlstlos do futuro neófito.
Sempre que possível, êsse diálogo terá lugar no quadro
de uma rewüão Que congregará diversos casais; tais encon-
tros serão mais frutuosos se a1guns membros da comunidade
cristã lhes estiverem associados.
-213 -
ao ~ PERGUNTE E RESPONDEREMOS~ lOlJl968. au. 3

S. 2pcca do Badsmo

Tendo adquirido o conhecimento das disposições dos ge-


nitores. o sacerdote poderá avaliar, de acôrdo com ~Ies, a
duração dessa preparação.
Importa não retardar sem necessidade o Batizado. caso
se trate, por exemplo, de um casal cuja vivência cristã seja
reconhecida. Não é menos necessário, porém, dar aos geni-
tores o tempo de I'étletir sõbre o aleance religiOSO do seu gesto.
Essa reflexão pode ser motivo de se interpor um Intervalo
- que, fOTa os casos excepcionais, não ultrapassam algumas
$emanas - entre a inscrição da criança e a celebração do
Batismo.
Todo sacerdote convidado a batiur uma criança deverá
assegurar-se de que os genitores já se beneficiaram da pre-
paração prevista por êste documento.

4. Padrinhos e madrinhas
lt desejável que padrinhos e madrinhas (escolhidos, ao
menos um das dois, por seU estado de vida cristA) se .associem
aos ge-nitores para ser escl~idos sObre a sua parte de res-
ponsabilidade na eduC8.-;ão da fé dos respectivos afilhados.

5. Perigo de mol'lte
Em perigo de morte, a criança deve ser batizada Imedia-
tamente. O sacerdote lembrará aos genitores a sua responsa-
bilidade diante dêsse dever.
Dado que urna criança morra antes de receber o sacra-
mento, poderão ser-lhe aplicadas as. orações e as cerimônias
da Igreja. Requer-se, porem, que a rec...pectiva família tenha
previamente matriculado a criança para. ser batizada e solicite
tais preces póstumas.
6. ApU~

o bom êxito destas normas pastorais muito dependerá


da unanimidade com que tôrem apUcadas.
Para as pOr em execução, é, POis. Indispensável que os
sacerdotes, sob a direção do seu dê<!8J1o. estudem os principias
desta pastoral, apreendam o seu esplrlto e concordem entre
si sObre as respectivas aplicações práticas.
- 214 -
BATISMO DAS CRIANÇAS 31

Convém que as Religiosas. os rnllitalltes de Ação Católica,


os catequistas, 09 responsãveis do catecwnenato de adultos e
da preparação 80 casamento, etc., sejam associados a esta
retlexão.
~ outrossim multo importante a preparação do conjunto
da comunidade paroquial para estas novas modalidades da
pastoral. A comunidade deve perceber a razão de ser e as
exigências religiosas de tal praxe.
Para facUitar a execução dessas normas pastorais, convém
desde já comunlcá·las a todos os noivos, pol" ocasião dos en·
contros de preparacâo para o casamento. Assim Compreen·
derão as disposições requerldas para matricularem os filhos
para o Batismo assim como a necesdrla preparacão dos res-
pectivos genitores».
A diocese de Bi,)'eux (França) adotou o texto acima, o.crescen·
lanrio-lhe as seguintes observB(Ões:

cDeve-se observar que pennanece intato o principio se·


gundo O qual o Batismo hA de ser administrado com a máxima
urgência após o nascimento da criança. :tste principio poderá
ser fàcilmente observado se os genltores matricularem a
criança para o Batismo antes que nasça.
- O espírito das novas disposições é o de facilitar um
cllnlogo putoroJ. entre os geriltores e o sacerdote. No caso
de um adiamento Impôsto'ià !amma, evltar-se-á, portanto, tudo
que seja de natureza a impeà1r ulterior tentativa de diálogo.
Evitar·se-á também tOda llparência de decisão arbitrária; de
modo especial, a data do Batizado será estabelecida levando-se
em conta, tanto quanto posstvet, os motivos nuoáveis que a
família possa apresentar.
- Dar-se-á a devida atenf:ão à situação partiCular de
certas farnJllas.. Aeontété qUe alguns genitores deploram ter
de se submeter a uma espécie de exame. Exprlmem·se dlflcll·
mente e, em conseqUêncla, podem recuar diante da perspectiva
de ter de comparecer a rewliôes., onde estarão ao lado de
pessoas junto às quais talvez se sintam constrangidas •.
Os textos aelma loram todos extra.ldes de cLa Malson·Dleu _ S8
11966) pág. "~~.
Ê posslvel que estas dlretrl2es de Bispos franceses sirvam de
auxlUo para orientar a praxe putonll em certas. regiOes do Bras il.
Na arquldlbc1!se de 510 SebaStllo do Rio de Janeiro estào em
vigor as no~.. promulgadas pelo Emo. Sr. cardeal·Arceblspo
D. Jaime de Ban-os Clmam em sua 43' carta Pastoral concernente
- 215 -
32 II:PERGUNTE E RESPONDEREMOS. lDU1968. quo 4

a.o Batismo (' a Crisma (ed. Vozes, Petrópolis 1968), Os prlnctplo:l


pastorais adotados por S ua Eminência neste setor correspandem de
mod.o geral aos d.ol Srs. BispOs da. Franca.
Á guisa de bibliografia, multo SI:! re-comend:a.m .os volumes da.
revl& ta _La Mal$On·Dlcu. 32 (1952 ), 88 (1966). 98 (1967),

IV. M O R A L

4) «Que dizer da. atual controvérsia, rebLtlV1 à un·


Sllm . . . cemura. do teatro, do cinema, da. televisão e da. nte-
ra.tura. '1'
Quem tem razão: os ac)ept»5 ou 08 adversários da; cen-
sura ,.

Nas páginas que se seguem, recolheremos sob quatro


grandes titulos as principais objeções que se levantam contra
a censura em nosso pals, e procuraremos propor algumas con-
siderações a propósito.

1. Pat&rnallsmo ou maioridade 'I'

1) cO povo é d~ maioridade i não precisa de censores.


do govémo. 1:: na bilheteria que se faz a censura •.
Resposta. : Logo de início deve-se notar que é esta, por
certo, a réplica que mais pesa ~m prol da campanha contra
a censura. Vivemos em sociedades Que rejeitam decisivamente
todo e qualquer tipo de patemalismo, Isto é, de ingerência
de um poder forte e cbomlnho_ em assuntos que poderiam
ser solucionados pelos individuos.
Em verdade, nio se deve aceitar o patemalismo na me-
dida em que tire aos cidad,ios a responsablJidade ou a capa-
cidade de agir e julgar como pessoas maduras.
Todavia no que se refere à censura de teatro, cinema, etc. ,
Impãem-se as seguintes considerações:
E preciso, InegAvelmente, que as autoridades públicas res·
peitem a liberdade de consdêncla dos cidadãos; reconheçam
a cada wn o direito de formar seu juizo pessoal a respeito
das ocorrências da vida social. Se alguém quer viver viciosa
ou debochadamente, as autoridades civis não têm a obrigação

- 216-
CENSURA DA ARTE J3

nem o direito de intervir na consciência dessa pessoa. Não é


licito, portanto, aos govemos civis constranger seus súditos
em matéria de filosofia e Religião. - Foi o que o Concilio do
VatJcano TI houve por bem dec1arar em seu documento refe-
rente à Liberdade Religiosa; d . cP ,R ,:a 97/ 1968. QUo 1.
Todavia compete a todo govêrno civil o estrito encargo
de promover o bem comum da sociedade e profllgar tudo que
a êste. de certo modo, contradiga ou se oponha. Ora o teatro,
o cinema, a televisão e a literatura são meios de comunicatão
que afetam profundamente a vida pública. São, para muitos
e muitos cidadãos (conscientes ou inconscientes disto), ver-
dadeira escola de cfilosona da vida:a e de moral ; quem vai
ao teatro, vai para ver e ouvir durante horas a fio, colocan-
do-se de an'temão (talvez inconscientemente) em atitude de
receptividade. Os exemplos apresentados pelos espetáculos
públicoS f\àcilmente tornam-se c1deals... de vida. e susci-
tam nos espectadores o desejo de 1m1tar. reproduzir .. .
ao menos algo da conduta dos heróis da cena, Em suma, o
teatro e o cinema lançam a moda, tornam-se paradigmas. N.io
C necessário insistir no extraordinário poder sugestivo de que
desfrutam.
Por Isto é que pode tocar ao govêmo civil a tarefa de
vigiar para que os divertimentos propostos ao público não se
desvirtuem, tomando-se escolas de crimes, deboche. vícios,
ruptura de lares. Infelicidade social, etc. - Assim como o
Estado tem o direito e o dever de controlar a higiene púbUca.
ou os meios de saúde física de seus cldad.ãos, tem também o
direito e a obrigação de se interessar pelos órgãos de publici-
dade que innuem, favorável ou desfavoràvelmente, sôbre a
saúde mental e moral da sociedade.
Essa necessidade é tanto mais compreensível quanto se
sabe que hoje os dIvertimentos são multas vezes intencional~
mente explorados para fins comerciais. Empresários e autores
menosprezam as conseqUênclas deletérias que de seus espetá-
culos decorram, desde Que prevejam apreciável lucro finan-
ceiro. Conhecedor de tal sltuaçio. o Estado não exorblta de
suas atribuições, quando institui a eensura de pecas teatrais e
cinema tográflcas .. .
Em répUca a estas considerações, talvez. diga alguém:

- 217-
34 cPERGUNTE E RESPONDEREMOSll 101/1968, qu o 4

2. Bem e mal : categorias .nbje_


2) cO bem e o mal moral s,ãc categorias subjetivas ;
variam ~do a apreciação de cada individuo~.
Resposta: Em Moral, existem padrões objetivos do bem
e do mal, válidos para tod() e qualquer homem. :tstes padrões-
objetivos são os ditames da lei naturaJ, que todo individuo
ouve dentro de si, queJra.o ou não, Independentemente de sua
cultura ou época. - Apl1cand.o esta .afirmação ao nosso caso,
deveremos dizer: a natureza deu ao homem a funçâ(). sexual
a fim de Que ()$ sêres humanos se unam em matrimônio e se
reproduzam s6bre a terra. Por conseguinte. tõda excitacão
sexual que se realize fora do casamento ou sem ordenação à
procriação, vem a ser um abuso que a consciência de todo
homem naturalmente proOiga. ::ts.se abuso é, objetivamente
falando, um mal, um mal que nâo pode ser proposto ao público
como se fOsse algo de tolerável ou simplesmente como matéria
de deleite e divertimento para os espectadores.
Todavia nova obje:;ão se faz. ouyjr:

3. A autonomia. da. arte


3) cA arte esta emancipada da Moral; é um valor que
deve ser cultivado autÔnomamentet>.
Resposta: Deve-se reconhecer que a arte não é por si
ordenada a um fim ulterior. não é propriamente instrumento
para se conseguirem objetivos de Indole diversa. Não se re-
quer, PQr conseguinte, que a arte, ao representar o belo, tenha
em vista outra finalldade que não a de exibir um Objeto digno
da contemplação dos espectadOres. -e neste sentido que se
entende a a utonomia da arle.
T odavia note-se que a arte e a atividade artistica MO,
existem em si mesmas, mas estão sempre localizadas em deter-
minado sujeito hu~ano (artista ou artífi~). Ora a atividade
artlstlca aperfeiçoa o homem apenas segundo um aspecto res-
trito, isto é, na medida. em qUe êle tem senso musical, poético,
pictórico,' IituArio, e faz vibrar êsse senso de acôrdo com as
regras da música, da poesia, da pintura, da estlH.stica. '!tc.
A arte toma o homem bom musico ou bom poeta ... ; não o
faz. POrem. homem bom ou perfeito. ];': a Moral que torna o
homem bom simplesmente dIto. ou bom no seu aspecto essen-
cial. Isto é, enquanto é um ser Inteligente destinado A conhecer
a Verdade Suprema e amar o Bem Infinito. .

- 218-
CENSURA DA ARTE 35

Por isto é que o exercido da arte deve estar subordi.nado


à Moral, ou seja, às leis que norteiam a conduta do homem,
de modo que seja um homem bom ou perfeito e chegue ao seu
Fim Supremo ou a Deus. Todo homem normal pode e deve
tender a ser um homem moralmente bom i o aperfeiçoamento
moral é a tarefa mais importante de cada ser humano. tarefa
sem a Q!J,al não se justificam as demais atividades do homem.
nem mesmo as atividades art.lstlcas. Donde se vê mais uma
vez que a arte, como qualquer outra função humana. tem de
ser dirigida pela consciência moral ou pelos ditames da lei
natural de qUe falava a resposta à objeção n~ 2 dêste artigo.
O artista que cultivasse a Arte como um bem absolutc, ilIde·
pendente de qualquer outro, estaria adorando um idolô ou
muitos IdoIOs .. .
Em llnguagem sucinta e precisa, pode-se exprimir a mesma
doutrina nos seguintes têrmos:
a) Por seu objeto, a arte nAo esl:$ subordinada a alguma
finalidade ulterior, isto é, a obra de arte por si mesma não ê
etapa nem Instrumento para a consecuç,ão de algum bem
criado;
b) Por seu sujeito, porém, a arte está. subordinada à
obtencâo do Bem Supremo dêsse sujeito; êste nunca age senão
~m demanda do F1m último. Ora o conjunto de leis que levam
o homem ao seu Fim Supremo constitui 8 Moralidade. Por isto
não é licito li. arte, em hipótese alguma, clerrogar à Moralidade..
Aos fiéis católicos o Concllio do Vaticano II quis, com
particular ênfase. lembrar tal doutrina :
"H6 um problema que se retere lu .relac6es existentes entre os
dlreltol da nrte e as normas da lei moral. Como as Incessantes con·
trov~nlas ,nesta matéria nAo raro se originam ele falsa, doutrinas
acêrca da ética e da estltlca, o Concilio declara que absolutamente
todos devem professar a primazia da ordem m or.s.l objetiva, por·
quanto é a ú.n lca que sobrepuja e coerentemente harmoniza tôdu
u demais ordens de coflas humanas. por mais respeitáveis que sej9.m
em dignidade, nlio excetuada a "arte. Pols sõmente a .ordem moral
atinge o homem em IMo. a l ua flatureza·, criatura racional de DeUI
chamadA para O!I bens celestlaJl; se esta ordem moral rOr observada
llel e Integralmente, levari o homem .l plena consecuclio cU perfeição
e da telkldade~ (Decreto d nter Mlrlflcu .sôbre os Meios de Comu-
nlcaclo Social •. n- 6l.

Estas considerações, porém, suscitam mais uma obJeção :


- 219-
ePERGUNTE E RESPONDEREMOS, lOV196!\ quo 4

4. A arte coDtzoolada nUDca representará


a realidade!

4) cA arte, embora se destine a cultivar o belo, . não


pode deixar de representar a realidade humana. Ora esta é
um misto de bem e mal morais. Então a arte, para não ofender
a Moral, há de se contentar com representações parciais e
mutiladas da realidade, atraiçOando os acontecimentos e as
personalidades que em verdade ocorrem?,

Resposta : A Moral não exige que, de maneira sistemA·


tica e absoluta, o homem feche os olhos ao maL Não; há casos
em que é olXlrtuno que os homens retos descrevam o inaI
como éle existê ; devem, porém, !~lo de modo a apresentar
o mal como mal ou de modo a fazer compreender que é algo
a ser rejeitado e não imitado; abstenharn·se, pois, de sugerir
a mlnima complacência no mal ou de o justificar e exaltar.
Em geral, observa·se que descrever o mal sem tnslnuar
algwn juizo sôbre o mesmo equivaie pràtlcamente a incuti.lo
e recomendA-lo (tal é o poder de seducão do pecado); por isto
o e.rVsta não se pode eximir de censura da Moral quando êle
apenas descreve os homens e os acontecimentos lascivos como
êles se apresentam na sua realidade cotidiana. Desde que se
trate de objetos moralmente maus, êstes têm de ser (elegan·
temente, se quisennos) denunciados como tais, pois dificilmente
se pode crer que, para o publico, a singela descrição não re.-
dunde em detrimento de consciência.
Em outros termos ainda, deve.se dizer que a Moral n.ão
prolbe ao artista descrever a reaUdade hwnana tal como ela. é,
mas veda expressá·la tal eomo ela não é, ou seja. como gran·
deza (.nos casos em que ela é ruina), como licita e louvável
(nos casos em que ela é illclta e condenável). como justa (nos
casos em que ela é injusta). Tenham-se em vista as cConfls~
sões.a de S. Agostinho e o cDecamerone. de Boccaccio ; são
obras que contêm a descrição do pecado; já, porém, que to-
mam atltudes diversas perante o mal, merecem ser diversa-
mente apreciadas: nas eConflssões. o vido é apresentado
como objeto de arrependimento e repúdio por parte do autor
(o que vem a ser construtivo), ao passo que no c:.Decamerone.
se percebem complacência no pecado e glorificação dêste .(ati·
tudes reprováveis).
5egue-se a propósito mais um Inciso do documentário do
ConcIlIo do Vaticano lI;

-220 -
CENSURA DA ARTE 37

cA narnç:lio, a descrlçAo e a representaç:Ao do mal moral podem


C'e["tamente, com o J'f!Cuno lncluslve doa meios de comunicação, pres-
tar·.e paru um conhecimento e um estudo mais profundo do homem,
para mllnltestar e exaltar a magnUlctric:la do bem e .1 da verdade,
obten(lo-se, além dlalo, maIs oportunoa efeitos drarnltrc:os; contudo.
para que não venh::1m .a. caul58r dano antes que utilidade aos e!'plrltos.
obedeçam estrJtamente 1s leis morais, prlndpalmenle se se tralar de
colf:u que exigem a devida reverência ou que. Incitem com mais facl·
lldade o homem, ferido pelo pecado originai, a desejos perversos, ([)e..
· C!'tlo dnter Mlrlfleu n~ 7),
As Idéias propostas nestas páginas levam a ver que não ê
inoportuna a obra dos censores de espetáculos d@ cinema, tea·
tro e televisão .. . :f:ste trabalho poderá ser especialmente útil
nos tempos presentes, em que nem sempre se cultiva a arte
pela arte ou pela beleza, mas, sim, em vista do lucro comer-
cial ; critérios totalmente alheios li arte e à formação do senso
artlstico levam não poucos produtores e artistas a explorar
baixos sentimentos do povo, proporcic.."UlJldo a êste um deleite
que está. longe de ser o deleite da genulna estética. Já se dl.s:se,
aliAs, multo sàbiamente que 8 arte imoraJ deixa de ser arte.
:e para 'desejar; porém, que os censores se deixem guiar
exclusivamente pelas normas da si Moral, e não pelos ditames
ele algum partido pottlco.
A propÓSito da lndustrializatlo da arte e da. cultura, \'eJa'se
E. Gilson, d.a. Soclétê de Masse et s. Cultwv. Pari.s 1967.

AP1:ND10E
Vem a propósito a entN!vlsta. concedida pelo SI', Bispo
D. José Gan~alves, DD. Secretário da Conferencia Nacional
dos Bispos do Brasil, ao cJamal do Brasi1~ e publicada à pág. 7
da 1~ cad. dêsse jornal em 21/ID/ 68 :
cO SecretArio Geral da Conferbtda dos Bispos, Dom José
Gonçalves. declarou ontem que só pode aplaudir o Govêrno
quandO 'firmemente mantém o principio 1la. Censura', argu-
mentando que nem sempre o Govêrno deve fazer a vontade
da comW1idade, pois muitas vézes 'esta se acha de tal maneira
deformada ou imatura'.que a autoridade terã de contrariá-Ia
em seu próprio beneficio',
Após pedir desculpas 80s artistas' brasileiros, Dom José
disse ser da opiniãO' de que 'a liberdade absóluta não interessa
li arte. e sim li bUheterla. mas tA. custa da consciência e da
cultura de ·nossa juventude, Um artista de real valor não
precisa de pornografia, nem para exp8nsão da arte, nem para
sucesso de bllheter1a·.
-221-
38 cPERGUNTE. E RESPONDEREMOS» lOV1968, qu. 4

Autorldadt

"Ao apotar o Govêmo sObre a manutenção do prtndplo da


censura, Dom José lembrou a doutrina do Papa Pio xn, "ex·
pressa na enciclica 'Miranda Prorsus', sObre o cinema, o teatro
e a televisio, na qual Insiste em que 'a vigilância do Estado
não se pode considerar injusta opressão da liberdade do indi-
v:duo, porque se exerce não na esfera da autonomia pessoal,
mas sõbre uma função social, como é por essência a difusão'.
Para argumentar que a autoridade não pode fazer t6das
as vontades do povo, lembrou o ~retãrio da CNBB que na
deodência do grande povo romano a massa pedia sômente
pa.nem ct clrcenses (p.io e circo). frisando: 'Ninguém me vâ
dizer que a autoridade devia só dar pão e circo ao povo, por
ser a vontade da comunidade !'
_ 'Todos reconhecem ao Govêmo o direito e o dever de
controlar O porte de armas, para não" colocâ·las ao aleanO!"
de malfeitores e tarados. Irá permitir essa Jlcença aos assas-
sinos de almas?
_ Todos reconhecem ao Govêrno o direito e o dever de
controlar a venda de tóxicos. Será exorbitância, se impedir
o " envenenamento moral dos brasileiros? Que dizer de um
farmacêuti co que permitisse a um inexperiente penetrar em
seu laboratório e provar indiscriminadamente todos os pro·
dutos qulmicos que ali se m~nlpulam?' - ponderou.

Dom José GonçaJves acha que a verdadeira arte não pre-


cisa de palavrões, nem de pornografia, pois que -ela se impõe
por si mesma, obtendo mesmo o sucesso de bilheteria. Citou
a propósito um exemplo, 'justamente no gênero humorístico,
que é o mais exposto à seduCão da pornografia ou da pomo-
lalla. Refiro--me ao"Sr. José Vasconcelos. Que Deus O livre de
deixar macularem-se seU!> lábios limpos "e de Infectar-se sua
sala de espetáculos, onde grandes e pequenos têm pOdido
entrar sem constrangimento!'
Lamentou, apoland~Se em comentários de pessoas sen-
satas, que 'o nosso teatro esteja virando wna vergonha' e
ltimentou que 'artistas do valor de Fernanda Montenegro, Ca-
cllda. Becker e outras, Que todo o mundo respeita e" admira,
aceltem papeis c"m pe;a$ licenciosas',

-= -
CENSURA DA ARTE 39

A propósito do palavrão, citou o Apóstolo São Paulo, que


exorta aos crlstios: 'A Impureza e tôda lmundicie nem sejam
nomeadas entre vós... nem palavras torpés, nem inconve-
nientes, nem levianas' (Ef 5,3s).
,
. Controvérsia.

Interrogado sõbre as declaraÇÕes do Diretor da Central


Católica de Cinema, que diz admitir o palavrão no teatro, o
nu no c!.nema. afirmou Dom José Que duvida de Que a Imllrensa
tenha refletido com exatidão seu pensamento. pois sabe que
éle não é contrário à censura. O que houve, talvez, foi isolar
algumas frases de um contexto.
_ 'Se êle confirm~ a 6.'\lrevista nos tênnos em que foi
publicada, eu teria reparos a alguns cc.."lceitos por êle emitidos,
à luz da doutrina dos Papas e do Concilio do Vaticano n,
que no decreto 'Inter Mlrlfica', sôbre os metos de comunica;ã~
social, analisa justamente o problema da exposição do mal
moral na arte'.

CORRESPONDENCIA MiúDA

LEUCIELIZA. (S . C.); ~E: ..entade que não hi mai. necenidade


de nu.r peJa. alm ... do Purgat6rio? Ji não adquirem mérito, mediante
u orações do! outro. 1" . , "

_ A ré eontinua a protegI.!' aeguramente a necess,i dade de ~rar­


mos pelas almu do purrat6rio, Embora leguras do céu, elu precu.am
de &e purUicar d, pequenal.l imperfeições eom que morreram j nenhuma
criatura maculada i capu de lu.untar face a face, a lIreaen~a de Daua
SanU!simo, No pun:at6rio o amor dai almas te deaemba".~a dO_ ':""
qu(cio. cio amor pr6J1rlo du regndo. AI Oraç6e1 e os 11Ifri poI do. f~i1a
.ivoI IlÓbre a urra podem obteT a cra~. que ajudal'á taia almas em
lua pUrifieaç10 (d. 2 Ma.c 12. 4&-48).
A. alm.1 do purgat6!'lo .e purifitlU", mas :nem por isto tldqui,..",.
méritol. "Mcrecer~ Bil1llfiea ·crncer em amor, adq\Ürir novo~ tit~lIol
di gl6ria eterna". Ora ti IlImente na Yid. presente (deeilh.. como ~)

. ..
que podemo. prosrredir interiormente j a morte nOI l!atabiliEa no gHII
de amor c mercclmentos com que morrcmoL
• A prop6sitG muito Ie reeomend~, a leitura de 2. ,Mae ·12; ' 311:46 e do
h.-ro de E. Bettellcourt, "A. vida , que começa ()Çlm a JllOrte", , Ed, A.gir
CC. p. 3291, GB).
D. ESTaVAO 'JJETTENCOlmT OS.8,'
-223 -
cPERGUNTE E RESPONDEREMOS., lOlJl968, quo 4

BESENllA DE UVROS
cP . R.:. apresentare doravante, em têrrnos breves, a apre.
clat.ão de livros rooém-publicados, atendendo assim aos lnte-
rêsses dos leitores.
A Pnlavn de D~.as. por Georges Au:wu. - Livraria Dua. Cldsdes,
SAo Paulo, 1967, 130 x 20D mm, 443 pp.
. Otlma Introdução geral na Blblla Sagnub, caracterizada tanto por
dkldo profunda como por psplrUo dp ré.
o capitulo I !cA Palavra de Deua~) propOe o primeiro prerreque-
alto pa.••'\ uma gcnulna compreensão da Blhl: ..: 11. lé ( epara o crlstlo,
• fé ê declslvu_, pll,. lI). A seguir, o autor mostra como a Blblla é
tnseparãvel da Igreja, onde e!a nasceu e pela qU'J.l é transmitida
aOI povos,
O ClLpltulo 11 (c.RespOSb. à Palavra de Deus_) apresenta as dL,~
alç(les de ânimo sobrenatural com que o leitor deve aborcbr o texto
sagrado: 'respelto e amor .. Palavra de Deus. Ao que é predso acres·
centar certa Inlcla('ão blbllea.
O capitulo UI (.Encontro com a Blblls..) expõe sumà.rlamente a
história de Israel durante a qual ,e foi formando a ~!ecl() de textos
blbllcos. Fornece também breve lntrocluçAo em ~ada um dos 13 livros
sagrados.
O C3.pltulo IV f.A linguagem blbllca.) é de grande erudlCio apre-
sentacb em Mnnos eltlros c aCl!sstv4!u. Depois d4! propor 8S caral!tcrls-
tlcas do idioma dos judl!us antigos. contfm um vocabulArlo bibllco,
o qual explana o sentido ou os sentidos que têm os maL! importantes
l.&Mnos m Blblla. O capitulo Ire enetrra delineando os t",(Os tlplcos
da mentalidade semita, numa slntese da dllosotl.,. judaico blbllca.
O capitulo V (cA Revelação blbllca_) mostra como Deus se reve-
lou aos homens através ela h~stOr1a. hlst6rb. cujo tema central é a
AlIança. do SenhlOr com a h.umanldadc.
O capitulo VI (cA Blbl1a na Igreja 'i!!m marcha,) esboil- a hJs.
tórbl do uso das Escrituras Sagradas no povo de Deu"; menciona o
ao*o que Maa ~poca do Cristianismo dedicou à leitura do texto
blbUco e termina citando numerosas obras modernas de Inlctaca.o e
exele5e blbUcas.
O capitulo vn r~ ML01érlo dAS Sarnd,81I Esc:rttu1"UJ.)' propOe a.
. doutrina da Insplm(5.0 blblla e suas conseqQene:Ill!I, como, por exem·
pio, a veracidade do texto sagrado. segue se um pequeno tratado
de ,herpunêutlca ou "'cru capitais para se Interpretar as pA,lnu
btbUcu.
Em luma. o IIVTO de Auzou é algo de In~lto no Brlisll Nlo pode
faltar na biblioteca do pClbllco de nivel cultural médio. s:
d o Leitura
all'radAvel e doutrina llefura.
E. B.

. DoIa Am6l'M' nu.. Cidades . por Gustavo Cof't1o. _ EditOra


AgIr. Rio de Jancl,ro. 1967, 2 vo\S., 1~x210 mm. 281 pp. e 413 pp.
Gus tavo Corc.lio apresenta belo panorama da evoluclo do perua·
samento ocidental desde os. sk:uloa pré crJstãos atf nossos dias. O
Utulo da obra se inspira de fllJno.b (ras~ de S. Agostinho formulac1lL

-224 -
'*
no L . •1 cDa Cidade de Deua:.: o amor que move todos os acon.
teclmentos da hist6ria - amor a DeUl~ que leva o homem. a superar
a si mesmo, ou amor ao próprio eu, que leva ao menosprê'Zo de DeUs.
Cclr'Cto começa por estudal' a ' grande e va}josa mudança que o
CrlsUanlsmo acarretou para o pensamento antigo (gnoo·romano}j
detém.ae sCtbre a dvUizaçto e .. cu1tura da Idade Média, tidas como
.s!ntese hannonlosa de ré e mOlafIa (volume 1). No 5eIlUMo volume,
() autor considera a Idade Moderna. (He. XVI>XX) e checa 1 ..'0&
clusAo de que a m@TItaUdade do homem. contemporAneo • conseqUên-
ela da dt!S8.gl"tgacAo 111osórteo-rellgiosa acarretada pelo .século XVI.
Nesse seu iUnerA.rio, CorçD.o reeo1Te .. rica doewnentaçAo (PlaUlo,
Arlst6tel~ S. TomAs, Toynbee, Foustel de Coulanges, Maritaln .. , )
e 6. an6.11se de acontecimentos múltiplos. O e.stUo da obra é atraente.
tomando suav.e 8 leltW'a das passageM mais LUosóficas, Corção do
esconde perplexldades nem evita castigar com a sua pena tudo que
lhe p&reç1 merecer ~r1ml.naçio.
Alguns erltleos da obra tM1 manifestado o deseja de mala 11m·
PAtia, mais COmPReMio pari. com o mundo moderno, na. p'glnas
de Gultavo Corçlo. CremO$. porém que, em nossos dias riIa.Is do
que nunca, se reqUer .lnetrldt.de e dêliemor ao anallsar as aUtudM
dos ~sadores e da sociedade. lU, aem dQv1da, aud6.C1a e acinte 1né-
dltcn (embora talvez nem semp~ mal Intencionados) da parte da·
queles que propagam erros fllosófloos, religiosos e morais. preJudl·
cando gravemente o público, Se a.sslm. é, faz.le: mi.!lter hals. também
quem aalba. rnostar aI. aberracoes com a m4x1ma clareza, chamando
cada coisa pelo seu verdadeiro nome. Um livro, portanto, como cDoIs
AmOres' Duas Cidades, contribui para despertar observadorel um
tanto Inconscientes ou iludidos a respeito da fP"8.vldade de c.rto. des-
viai do pensamento contemporâneoj serve para Jazer pensar .quêles
que flcllmente IrIam na onda dai novidades errôneas; fomece-lheJ
dO\lu-bl& pura. c lóllda. São benemêrttos aqufles que nGo tforn mldo
de de quelman, mas corajosamente dlzam o que Julaam dever dlur.
O leitor de cDoIs AmOres· Duas Cldades~ lulprã o que Corçlo lhe
u-ansmIte, e compllttarfa, se quiser, as allnnaç6e:s do escritor eom .uma
dose de otimismo! .
E. B.

A Edll6ra aettencoU!'t LtcIA. tanoa o !leU prlmell'o livro

DIV6RCIO EM DEBATE

por Muta de t.ounte. Ga.nmroIU ele Oliveira


O momentoso __ unto, d1seutldo na ~ volta .. bal1a . . .
pe.u. de uma teLe.pectadorw, que, DOmO -...latente 8OClaI. comenta CIOftl
.bedorta e IdmpUcldrIde os prós e contru dos debat-. Multo atual:
Preço do ClXemplar: NCr$ 8.00
(l09'.. de deseonto. p~ 08 IIMlnant_ de cP. R.»)
PedIdos I. ~to.. Bettencoun Llda., AVMId.a. RIo B~ n t 9,
..,111·1\. GB, ZC06.
NO PIlOXIMO NOMERO:

Vida' coração que bale ou cérebro que penA0 ?

c O campana. do rio GOIana» d. Mariloin

Confiuôo freqüente , sim ou niio?

Que há no Holanda católica?

Os grandes c porqui!n do s novidades holande sa s

- -- .---
.PERGUNTE E RESPONDEREMOS.
porte comum .............. . . . . . NCt$ 10.00
Aulnatura anual I porte aéreo .. . . .. . ..... ... •..•.• NC" "',00
N.:unero avulso de qualquer mês e ano ......•...... . NCt$ 1.00
NÍlmero e8.PeclaJ de abril de 1968 ... . ...... ...... . . NC" 3,00
Coleçlo encadernada de 1957 a 1964 . . .. . ..•....... . NCt$ 80.00
lnd1ce Geral de 1957 • 1964. O' _ •••••••• _. _ • • • •••• _ •••
NC" 7,00

Coleçio encadernada de 1967 . . .......• . ..•. O" •• • ••• NC<$ 15,00


lncUcc de 1967 .. " ..................... .. .. _... .. .. . NC,.. 1.00
Endcllea cPopulorum Progreulo. . ..... _.. o ••••• • •• NCr$ O,,"
Edate wn dep6allo complolo de ,P.R ••• Rua Rc:IN Grandeza
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