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Projeto

PERGUNIE
E
RESPONDEREMOS
ON-LlNE

Apostolado Veritatis Splendor


com autorização de
Dom Estêvão Tavares Bettencourt, osb
(in memariam)
APRESENTAÇÃO
DA EDiÇÃO ON-UNE
Diz Sio Pedro que devemos
estar preparados para dar a razão da
nossa esperança a todo aquele que no-Ia
pedir (1 Pedro 3,15) .
Esta necessidade de darmos
conta da nossa esperança e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
"! • • " visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrárias à fé católica. Somos
assim Incltados a procurar consolidar
nossa crença calólica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste sita Pergunte e
Responderemos propõe aos seus leitores:
aborda questOes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristAo a 11m de que as dúvidas se
. dissipem e a vivência católica se fortaleça
_ 1.•. no Brasil e no mundo, Queira Deus
abençoar este trabalho assim como a
equipe de Veritalis Splendor que se
encarrega do respectivo site.
Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.
Pe. &tevlo Bettencourt, aSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convênio com d. Estevão Benencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e Sêmpre atual
conteúdo da re vista teológico . filosófica ·Pergunte e
Responderemos· , que conta com mais de 40 anos de publicação.
A d. EstêvAo Benencoun agradecemos a confiaça
depositada em nosso trabalho. bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
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lndice
P6g.

3,5 = 1000 .. .... 185

Que significa 1
"F~ SECULARIZADA" 1

Hi diferença 1
VALORES HUMANOS E VALORES CRISTAOS
NATUREZA E GRAÇA. .. . . .... . 203

COARESPONO!NCIA MlüOA ... .

Como se tllpllu?
O MEN INO JESUS DE PRAGA 213

Um. aparfçlo em foco:


A SENHORA DE TODOS OS POVOS

CARTA AOS AM IGOS • 232

• • •
NO PRÓXIMO NOMERO:
fiel cri, tõo, que I5peros em d.finilivo~ lum eSll,ldO sobre
o vida elelno L Igrejo e missionário'? cCrislãol anônimos».
Crise no Igreja, que signifito ? Romarias ou peregrinocões
em nOuos dias. Antigos crisHios balizavam crianças?
- -- x-- -
" PERGUNTE E RESPONDEREMOS »
Assinatura anual .. ..... • ..•....... . , .. . ,.. . ..... . ...... . Cr$ 30,00
NOmcro avulso de qualquer mts .. .. . ,. . ..... .. .. .. . .. .. Cr$ 4,00
Volumes eneadcrnados de 1958 c 1959 (prece unHârlo) ,... CrS 35,00
Indlce Geral de 1951 :I 1!164 . ..... .. _.. ... ..... ...... .. ... Cr$ 10,00
lndlce de qualquer ano ............. . ......•... .. .. _.. . . . crS 3.00

EDITORA LAUDES S. A.
REDAÇAO DE PR ADi\IINISTRAÇAO
Rua Siio RAfael, 38, ZC-OIJ
.00.
caJxll pos"l 2. 668
HDOO Rio de .Janeiro (GB)
20000 Rio de Janeiro (0 8)
Tels.: 28:8-9981 e 288-2:196
t. l .... ' . . .'~", .
2-0/9 / / __
3,5 - 1.000 P/l

o titulo paradoxal destas linhas poderá, à ~~~~á.,.-­
surpreender o leitor. Acontece, porém, que a. reallda.de é tão Iica
em matizes que âs vezes ela pode atingir as raias do paradoxal.
Aliás, o paradoxo acima é sugerido pêla própria Palavra de
Deus, ou seja, pelo Apocalipse de S. João.
E como?
O número 7, na linguagem dos números (Que a S. Escri-
tura compartilha em algumas passagens) I é símbolo de plenitude
e perfeicão (vcja~se, por exemplo, Gén 1,1-2,4a). Donde se segue
que a metade de 7, isto ê, 3 1/2 representa a deficiência, a pe-
mlria, o estado de «deserto:. em que possa estar o homem pere-
grino na teITa. 1.: por isto que o Apocalipse, c. 12, afirma que
a Mulher simbólica ou «Grande Sinal:. é abrisada por Deus
no deserto durante «um tempo, dois tempos e metade de wn
tempo, CApe 12,14; cf. Dan 7,25; 12,7), ou aInda durante 1260
dias (3 anos e meio) ou ainda 42 meses, se confrontamos os
textos entre 51 (Apc 12,6 e 11,2) .
A Mulher do Apocalipse luminosa, mas perseguida pelo Dra~
gão durante três anos e meio (=42 meses, 1260 dias), represen-
ta a S. Igreja de Cristo na medida em que na terra é sujeita às
deficiências e contradições dos homens. Cada cristão, sendo uma
micro-Igreja, pode, com certeza, dizer que experimenta muitas
vezes um clima de deserto, de fome e sede de vida, verdade,
amor, justiça - valores estes que são contraditados pelos acon-
tecimentos da. vida terrestre.
Passemos agora ao capo 20 do mesmo livro do Apoca.llpse.
- O texto diz que Satanás será acorrentado por mO anos e
lançado num abismo selado. Ao mesmo tempo, os justos ressus-
citarão (experimentarão a ressurreição prime1ra~, e reinarão com
Cristo sobre a terra durante esses mil anos. Terminada, tal pe-
rlodo, dar-se-.á a consumação dos tempos: SatanAs será solto.
travará a batalha final, à Qual se seguIrão a ressurreição de
todos os mortos e o juizo tlnal.
Esta passagem do Apocalipse suscitou as mais diversas
tnterpretacaes. entre as Quais a tese de Que, antes do juizo final,
haverá sobre a terra um reinado milenar de Cristo: somente
OS bons viverão neste mundo, usufruindo de paz espiritual e
fartura materla.l. .. TOdavia o milenarismo assim concebido
foi rejeitado pelo senso de fé da Igreja. Na verdade, a autên-
tica interpretação de Apc 20 há de ser deduzida dos próprIos

-185 -
escritos de São João. Ora em Jo 5,25-29 o Evangelista fala
de duas ressurreiçõcs: a primeiro. ( _já agora:.) é a que se dá.
pelo batismo ou pela participação sacramental da ressurreição
de Cristo; Q segunda se dará no fim dos tempos, quando a graça
do batismo transfigurar os corpos ressuscitados.
Entrementes, ou seja, entre a primeira ressurreicão (a ba-
tismal) e a segunda (a dos corpos, no Cim dos tempos), os cris-
tãos vivem um período de mil anos simbôlicos. Mil, no caso,
significa bonança ou valores eternos e definitivos. Cada cristão,
na realidade, pelo fato de possuir a semente da vida eterna. pela
graça santWcantc, já está vivendo a eternidade, que o número
1.000 simboliza.
Assim se compreende que 3 112 seja Igual a 1.000. A vida
do cristão é expressa pelo sim bolo 3 1/ 2 na medida em que é
viandante e sôfrega sobre a terra. Mas é simbolizada também
pelo número 1.000 na medida em que está de posse da eterni-
dade e goza da presença de Deus. Tal é o paradoxo da vida do
cristão: ainda preso ao temporal, já está ancorado no eterno, ...
ainda sujeito às vicissitudes da vida transitória na terra, já
usufrui da paz e estabilidade do definitivo!
Qual dos dois aspectos, qual dos dois simbolos nos há de
Impressionar mais: 3 1/ 2 ou 1.0oo? Ê certo que a realidade
de 3 1/ 2, de caminheiros sôfregos, muito se faz senUr em cer-
tas horas. Mas o cristão não se deixa abater por ela; sabe que
tem em seu Intimo uma realidade ainda mais real, ou seja, 8
realidade dos 1.000, da eternidade antecipada no tempo.
O presente número de PR tenciona ajudar o cristão a des-
cobrir essa realidade intima, que somente a fé percebe. POl"
isto apresenta em seus dois primeiros Artigos questões de fe
diluida ou contagiada, enquanto nos dois últimos artigos abor-
da a fé exuberante, sujeita, em alguns casos, a desvirtuamentos.
Possam estas páginas contribuir para nutrir uma fé flnne e
viva, inspirada pela autêntica Palavra de Deus, ... uma fé que
descubra a presenca de 1.000 nos momentos marcados por 31/2!

E.D.

-186 -
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XIV _ Nt 161 - Moio de 1973

Qu. significa?

1/ fé secularizada /I?
Em Iln,...: A fé teeularlllda, apregoada por Bonhoettar, Robh'lSon,
vln BUfen e oulrOI penaad(lr83 prolest.nlea, efllos "Ieolog~ da morte de
OeuI", relelta tudo que haja de trenscendenla' na menugem do Evangelho:
J'SUI Crt.to lerl. sido apenas um homem livre e libertador (1 aamalhança
de 660(6183) ou "um-homem-para-o,ooulrol", Em consaqü6ncll, prof.sundo
til. concepções, Julgam o. mencIonados autor •• que o Crlltl_nlamo pOde"
f.II' adequadamente lO homem conlempolaneo, para o qual (dizem) DilUI
8 U realidades transcendentais perderam lodo significado,

Todavia net..... que é 'a'a. a allrmaçlo da que (I nlO de Deus


a." apagado no mundo de hoje ; prollu"•• pública. de
clantlatu, aslronauta., governantet, artistas. .. têm
f'
..
por parte de
.Ido registrada. Ire-
qQlnlamanla nos "!IImol anO$, AI6m do que, 80 crtsllo nlD 6 licito allenelar
c nome de Deus, pois a dlmlnslD mlstlcl ou o senso reflglOlD , argD de
lnerante a tOdD homem, mesmD em nossos dlu ; quem nlD tenha 00 l.n5O
do ml.lérlo 11 do tran,cllodanlll, é uma perlDoalldade mutilada. Nlo Iam
..azlo os estruturalistas proclamam que a apregoada "morte de Deus"
acerrata logicamente a morte do homem ou a dele311ma telal da dignidade
a dOI \Ialore~ de hem em.
Ademais um Crl_lIanlsmo que 16 IIlja em Crlslo um homem para os
culros, reduz a mensagem crislA a uml éllca al"I, em maio l i vArias
6l1ca. modernas. Ser' Juslo entlo perguntar se e ética marxlsla nle' mullO
mlll r8(lIca! e allclente do qua e ética crlst6 S8cul.rlz.lda •.. Se" qUI
e Crfltranlsmo. assim depauperado dO transcendenlal, poda Inllnlnlr eo
homem moderno? - Parece que nlo; Ipagar I transcand'lncla da man·
"gim da Crlsle , tlrar·lha .o qua ela Iam da mais caraclarlstlco, 1I'lIdo a
nlceUl!irlo pata .o homam moderno; 4, am outro. tarmes, condanar .o Cri..
nanismo ê Nina e ae rldlculo... , , também privar e homem centlmpo·
IlInao da unlea respe.ta qua lha poua ..tlsflZer planamente.

• • •
ComentáriD: O tema «secularizaçãD:' já f Di repetidamente
abordado em PR 109/ 1969, pp. 1-9; 111/ 1969, pp. 101-110;
112/1969, pp. 137-147, O RSSWlto volta freqüentemente" bai'a
sob alguma de suas modalidades; entre outras, está a da .fé
seeuIarizadu, cujos principais arautos são autDres protestantes

-187 -
4 ..PERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 16111913

ou os chamados «teólogos da morte de Deus~ : Dietrich Bon·


hoeffer, John Rtlbinson, Paul van Buren, etc.
.Visto que também em ambientes católicos a fé secularizada
vai encontrando eco, Importatlos agora considerar exatamente
em Que consista, e como há de ser julgada.

1. «Fé S&cularilada» : que é?


Abalxo procuraremos expor com o máximo de objetividade
o que os autores atrás citados entendem por .ré secularizada..

Há autores protestantes Que desenvolvem o scgutnte dlag·


nóstlco do mundo contemporâneo:
O homem de nossos dias é, marcadamente, um «ser racio·
nab; o que quer dizer: horroriza tudo que não esteja ao alcance
da razão. 1: um ser .. deste mundo». um «cidadão da terra». Por
isto não se Interessíl pelo Que trnnscende o mundo e a história
dos homens; é um «ser arrcligioso~ (não hostil, mas indiferente
aos velares religiosos); por conseguinte. mostra-se incapaz de
pensar segundo categorias religiosas. J!: um ser impregnado de
«espírito cíentlfico::t e, por isto. propenso a rejeitar como « mlto ~
tudo que não seja cientificamente demonstrado. :t: também um
«ser adulto:., que, para resolver os SeUS problemas, já não pre·
cisa de recorrer a Deus e à Religião.
Sendo assim, se a fé cristã Quer sobreviver no mundo atual
e Interessar aos homens de hoje. ela tem Que se despojar dos
seus aspectos transcendentaIs e religiosos, para se tomar uma
fé terrestre. deste mundo, ou seja, uma mensagem totalmente
penetrAvel à razão e uma força que ajude a construir a Cidade
do Homem. lt a isto que se di o nome de «fé secu1ar1zada~.
Assim concebida, a f~ croistã (secu larizada) terá, para o tu·
turo, três principais notas, ~ndo os seus arautos europeus e
norte-americanos:
1) Deixará de lado as dimensões transcendentaIs do Cris-
tianismo:
Deus não será mais apresentado como o Ser Absoluto, mas,
sim, como algo de imanente no mundo, como o Fundo de todo
ser, principalmente do homem:
- 188 -
cFÊ SECULARIZADb?

por «Remo de DelL!J» entender-se-á o Reino do homem li-
berto de grilhões sociais, econômicos e de seus males físicos e
morais;

a vida. eterna será a vida da humanidade feliz, livre da


fome, do subdesenvolvimento, da guerra, da doença, da
morte .. .

Neste contexto, a oração não terá mais sentido: deverá dar


lugar à ação para que cvenha o reino» do homem sobre a terra.
Os verdadeiros atos de culto serão aqueles em que atenderemos
às necessidades de nossos semelhantes.

o pecado não se definirá como uma derrogaçio à lei de


Deus, mas, sim, como um ato contra o homem; será a injustiça,
a opressão, a exploração do homem pelo homem.

A fé cristã poderá mesmo silenciar, por completo, o nome


de Deus, ou porque cDeus morreu» (= não tem mais significa-
do nem ressonância para o homem de hoje, embora Deus ainda
exista em sua realidade Invisivei), ou porque cDeus mesmo quer
que nós vivamos sem Deus» (como diz Bonhoeffer).

2) A ( fé secularizada. devem realizar uma total «demiti-


zação» do EvangelhO e da figura de Jesus Cristo. Há, por exem-
plo, no Livro Segrado certas atlnnaçOes concernentes a Jesus
que procedem do modo de ver mltlco dos antigos e que, por
conseguinte, s6 podem ter valor de slmbolos para nós. Portanto
não se darã o valor de fato histórico, mas de símbolo altamente
significativo, à Encarnação do Filho de DeUSt ao nascimento
virginal do Senhor, aos seus milagres, B redenção pela Cl"UZ, à
ressurreIção, à ascensão de Cristo .. . Jesus será considerado
tio somente como um homem qUI! nasceu I! morreu como os
outros. Apenas se notarã nele algo que o coloca acIma de todos
os homens e o torna modelo: ele toi «o-homem-para-os-outros.,
e um homem soberanamente livre, Quem adere a Jesus pe!a fé.
toma-se também «um-homem·para.-os·outros», e um homem
u....
3) A fé secularizada deverá pregar .. salvação ~tã. num
sentido tJ&rrestre: Isenção de fome, guerra, Ignorância e subde-
senvolvimento ... A Igreja deve tornar-se uma tonte de dina-
mismo em demanda do progresso e da libertação sOclo-econ6-
mica das populacões opr:lmidas. Os «céus novos::. e a «terra

-189 -
6 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS:. 161/1973

novaJ> de Que fa la a S. Escritura, não serão dom de Deus, mas,


sim, conquista do homem .

Eis, brevemente expressas, as caracteristlcas da fé seculari-


zada. A fim de Ilustro-Ias, vamos agora apresentar alguns dos
dizeres mais pregnantes de dois dos seus principais arautos:
Dietrlch BonhoeCCer e Paul van Burcn.
As cita!;ÕeS que a seguir Sêrão feitas, têm signiricado mera-
mente ilustrativo; elas nada pretendem insinuar, mas apenas
Informar, para possibilitar um juizo objetivo sobre o assunto.
Ha particular interesse em citar BonhocUer. visto Que seu pen-
samento foi amplamente difundido. inclusive no Brasil, ondt' s('!
publicou em tradução portuiUesa a obra póstumo. . Resistência
e Submjssão:!>. Ed. _Paz e Terra» 1968.

2. Dietrich Bonhoeffer: os prin(Ípios da secularização


Dietrlch Bonhoeffcr nasceu de famllla luterana em Bres-
lau (Alemanha) no ano de 1906. Como pastor, distinguiu-se
pelo ardor de sua fé protestante, que o levava a se opor radi-
calmente às idéias nacional-socialistas de Adolf Hitler. Final-
mente foi encarcerado nos 5 de abril de 1943 e morreu enforca-
do em campo de eoncentra(ão aos 9 de abril de 1945. Deixou
escritos, cartas, sermões, Que revelam seu modo de pensar se-
cularizado (aliás, o próprio Bonhoeffer se admirava por haver
passado do seu protestantismo ortodoxo para as Idéias que pro-
fessava no cárcere),
Eis como ele concebe a situação do cristão no mundo de
hoje:

"Já passou o tempo da religião em geral. Marchamos para


uma época sem religião alguma. Os homens, como hoje sAo.
Já nAo .conseguem ser relig iosos . Toda a nossa proclamaç ão
do Evangelho e nossa teologia de 1900 anos de Cristianismo
baseiam-se sobre o eprlorl (= pressuposto) de que o homem
é relig ioso. O Cristianismo sempre foi uma forma (talvez a
autêntica f.orma) da 'relig ião'. Quando, porém, um dia se tor-
nar evidente que este .prior) nAo existe mesmo, mas que foi
apenas uma forma de expressão do homem, historicamente
condicionada e transitória,... quando os homens se torna-
rem realmente nAo religiosos de maneira radicai - e eu creio
que Isto Já esté acontecendo -, que significará então Isto tudo
-190 _
cN:: SECULARIZADAJI ? 7

para o Cristianismo? Está sendo subtraldo o terreno ao nosso


Crlsti8nlsmo ... " (Carta de 30IlV/ 1944, em "Resistência I Sub-
missão", pp. 130s).
Em outra carta, pouco posterior, Bonhocffer voltava às
mesmas Idéias, apresentando a ausência de religião como expres·
são da maturidade do gênero humano:
"O homem aprendeu a se defender por conta própria CO~
Ira todos os problemas mais importantes em que recorresse a
'hipótese ele trabalho: Deus'. Nos problemas cientfficos, artlst1·
coa a mesmo éticos, isto sa tornou natural, e não mais se di,..
cute o fato. Há un s cem anos, porém, que Isto 1ambém vala. e
em medida crescente, para os problemas religiosos. Verifica-se
Que tudo caminha se m Deus. e em ~erto sentido tão bem
Quanto antes. AssIm c omo no terreno cientifico, também no
Imblto da existência humana, Deus é mais e mais afastado do
cotidiano, e Ele pordo torrono" (carta de 8/V1/1944, Ib. 155).
Em conseqll~ncla, BonhoeIfer apregoa. uma Interpretação
mundana., isto é, secular, leiga, não religiosa, dos conceitos bt·
bllcos. clnterpretação não rellglosaJl, no caso, quer dizer: refl-
ram.se os dizeres biblicos à vida do homem no mundo presente
e aos Interesses do progresso e da cultura da humanidade.
Bonhoeffer mesmo dizia: «Sempre sinto de novo que penso e
julgo segundo os moldes do Antigo TêStamento; nos meses pu.
sedos, por Isto, 11 multo mais o Antigo Testamento do que o
Novo» (carta do 2t domingo do Advento, ib. p. 85). OS judeus
do Antigo Testamento, não tendo clara noção de uma vJda pós-
tuma consciente. julgavam que o Reino de Deus se instauraria
neste mundo mesmo; os bens trazidos pelo Messias seriam bens
materlaJs.
Na base de tais premissas, que significa c:ser cristão, para
Bonhoeffer?
_ c:Ser cristão, é ser homem . .. O cristão não ~ um homo
reUglosus (homem religioso). mas simplesmente um homem,
como Jesus foi homem (cartas de 18 e 21/Vll{I944. ib. pp.175
e 177). Ser cristão, em outros termos, é to mar consciência de
que Jesus foi co homem para os outros,; as relações do cristão
com Deus se estabelecem na medida em que o cristão existe
para os outros, colaborando nas tarefas da vida social, ajudan·
do e servindo. O Cristianismo não é uma religião da. redenção
e da esperança num além melhor posterior à morte:
-191-
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 161/1973

"Agora se ouve dizer que o decisivo no Cristianismo é


que se anuncia a esperança da ressurrelçao e que desta forma
surgiu uma autêntica religiêo redentora. Todo o peso da pre-
gação recai sobre o além da fronteira da morte. Exatamente
nisso vejo o erro e o perigo... Seria isso de fato o essencial da
proclamação dos Evangelhos sobre Cristo e da pregação de
Paulo? Eu .o conteslo. A esperança da ressurreição se distin-
gue da esperança mitológica por reconduzir o homem de ma-
neira completamente nova, em contraste, a liás, com o Antigo
Testamento, para as responsabilidades da sua vida na terra.

O cristlio não tem, como os crentes dos mitos de reden-


çaio, uma escapatória sempre aberta para o eterno a fim de
fugir As obrigações e aos obstáculos terrenos; mas deve, como
Cristo, esgotar até o fim os re.:::ursos de sua vida terrena ('Meu
Deus, meu Deus, por que ma abandonaste?'); somente na me-
dida em que ele assim procede, ele conla com a presença do
Crucificado e do Ressusoltado, e com Cristo é crucificado e
ressuscitado" (carta de 27/VI/1944, Ib. 162s).
Eis, esbocado, o Cristianismo sem religião (reUglonlllo5e.l
Chrlstcntum) que BonhoefCer (embora com um pouco de hesi-
tação cã ou lã expressa) julgava ser a única fonna de Cristia-
nismo capaz de satisfazer ao homem contemporâneo ou ao «ho-
mem adulto» de nossa época.

Examinemos ainda como as idéias de Bonhoeffer foram.


ulterionnente desenvolvidas por Paul vaR Buren.

3. Paul van Buren : os extremos da seculori%asão


Bonhoeífer era, e queria cOntinuar a ser, um crIstão lute-
rano fiel. Redigiu suas idéias no cárcere, manifestando certo
receio de que constltulssem sério 1>Crigo para a genuina fé pro-
testante. O seu senso cristão o levava a duvidar por vezes e a
pedir a seu amigo Eberhard Bethge pareceres e opiniões sobre
quanto lhe escrevia. Todavia as tendências de Bonhoeffer foram
sendo cultivadas em sentido cada vez mais radical pelo grupo dos
chamados «teólogos da morte d e Deus:., dos quais um dos mais
extremados é Paul van Buren, anglicano, professor da «Temple
Unlversity» de Filadélfia (Pennsyl....anla). J:: na obra .tThe
secular Meanlng af lhe Gospeb (O significado secular do Evan-
gelho) , -p ublicada em 1963. que este autor desenvolve suas idéias.

-192 -
cFt SECULARIZADA:.? 9

Van Buren é essencialmente um empirista e positivista.


Para ele, só tem realidade e só merece ser levado em conta o
que eal sob ()bservação de laboratorio (lU sob os sentidos; de
resto, ele julga que todo 'homem moderno é Igualmente empiris-
ta. No setor religioso, isto quer dizer que van Buren rejeita me-
tafísica e teologia, para dar lugar ao secularismo ou à secularl-
dade da fé. ou seja, a um positivismo empírico dito "cristão:-.
Partindo destas premissas, como se estrutura a posição
de van Buren frente à fé cr istã?
- O autor, desde o Inicio, rejeita os conceitos cristãos fun·
damentais, inclusive o de Deus. Tais conceitos não são empl-
ricos ou nâo podem ser verificados pela observação experimental;
por Isto são Incompreensíveis para o homem "secular ll ou
homem do mundo de hoje, o qual é essencialmente emplrista.
conforme van Burcn. Eis como se exprime o autor:

"O emplrista qu e está em n6s, encontra a raiz de suas


dificuldades nao naquilo que se diz a respeIto de Deus, mas
no próprio fato de que se fale de Deus. Nós não sabemos o que
ê Deus, nem compreendemos como a palavra 'Oeus' é empre-
gada" (em tradução Italiana: "li slgniflcato secolere dei Ven·
gelo", p. 111).

Por conseguinte. a palavra cteologia:- não faz sentido.


Pode-se. porém, - e deve-Sê - falar apenas: de Cristologla.
Esta tem por objeto cO homem Jesus de Nazaré" deixando de
lado a questão da Divindade de Cristo.
E qual a caracteristlea mais marcante de Jesus de Nazaré?'
- Ele foi essencialmente «um homem livre», na oplnláo
de van Buren:
" Jesus aparece co mo um homem essencialmente livre nllS
parábolas, nos dizeres e episódios que nos foram transmitidos,
assim como nas frases em que as primitivas comunidades cris-
tãs falavam dele ... Era livre da ansiedade e <Ia necessidade de
definir a sua identidade pessoal ; principalmente, porém, ele era
livre para o seu próximo ... Diz-se que Ele ensinou que a gran-
deza da liberdade está no serviço; a sua própria liberdade foi
caracterizada pelo humilde serviço aos outros. Por conseguinte.
parece que era um homem livre para dar~se aos outros, quem
quer que estes fossem . Ele viveu assim, e foi condenado ê

-193 -
10 ~..Pr:RC UNTf-~ B RE!:>PO~IJE HEMOS.. IGl,~-
dt'1i:!

morte porque era um homem deste tipo em meio a homens


Um idos e medrosos" (ib. 151~153J .

Portanto, o Que define o homem Jt'::iUS é fi liberdade.


E como se devI..' t!ntendcr fi fé em Jesus?
- A fê não consiste em reconhecer simplesmente o Jesus
da história. Na verdade, os Apóstolos que conviveram com o
Jesus histórico, conheceram Jesus, ma s o al>nndonarnm sem m
110 momento du Paix50. D i;.: " an BUl'c n :

" O Jesus históri:;o não suscilou a lé ... A sua liberdade era


exclusivamente de le; no máximo, era condividida, de maneira
fragmentária e esporádica, em algumas ocasiões, por pouqurs-
simos homens. Sendo assim, conclui mos que a fé cristã não foi,
e não é. uma conseqüência direta de ver a figura histórica de
Jesus" (ib., p. 155s).

Continua van Burcn : a Ce se funda sobre Páscoa; «antes


de Páscoa nAo ha.vla crlstãos ~ (lb, p, 155),

E como se deve entender Pâseoa.?


- Páscoa não é a ressurreição corporal de Jesus, pois a
expressão «Jesus ressuscltou ~ não tem sentido ; não é uma
afirmação empirlca, jã que nôo pode ser verlflcnda experimen-
talmente.
- Mas então que entendiam os Apóstolos Quando afJnna·
V:.lm Que Jesus lhes aparecera?
- Apenas Intencionavam dize!' que sua mente fOt'a Uumi-
nada para compreender de novo modo n mensagem de Jesus
Cristo. Eis como o explica vnn Buren :

"Para os Apóstolos, Páscoa foi uma ocasião de discerni-


mento... , na qual, sobre O fundo das recordações deixadas por
Jesus, imprevistamente viram Jesus de modo novo e Inespera-
do, Fez-se a luz. A história de Jesus, que parecia ter sido uma
dor rota, tomou uma importância nova, tornando-se como que a
chave do sentido da história. Dessa visão nova resultou um
comprometimento de acordo com o gênero de vida Que Jesus
adotara.. , A fé de Páscoa foi uma prospectiva da vida que jor-
rava de uma situação de discernimento... A relaçAo própria
desse discernimento com a vida histórica de Jesus foi deter-

- 194 -
~ FE SECULARIZADA '. '! 11
minada pela experiência particular Que 05 discipulos fizeram
na Páscoa:... experiência de ver Jesus de novo modo e de
parllcipar da liberdade que fora a dele." Na Páscoa eles dos·
cobriram que Jesus tinha um poder novo que antes ele nAo
Unha ou não havia exercido: o poder de suscitar liberdade em
seus dis.clpulos .. , O que aconteceu aos d isclpulos por ocasllo
de Páscoa, foi que eles se lornaram participantes da liberdade
Que Jesus tinha, de Sér um homem para os oulros ... Na Pás-
coa, eles des.cobriram que eles mesmos começavam a condl-
v/dir essa liberdade - co isa que antes não lhes acontecia.
Poderlamos dizer que na Poscoa a liberdade de Jesus começou
a ser contagiosa" (ib. 163$).
Por ultimo, van BU locn exp6c o que vem 11 ser o Evangelho
par.(l o homem dc hoje, _sccu1al'izado .. como é:
" O Evangelho é a 6oa-Nova de um homem livre que tornou
livres oulros homens, Boa-Nova proclamada pela primeira vez
por aqueles aos quais aconteceu tornar-sa livres, No decurso
de dezenove .séculos repetiu-se .constantemente o fato de que,
ao ouvirem essa proclamação, 0.9 homens se tornaram livres,
A resposta que o Novo Testamento chama fé, consiste em re·
con hecer que a libertação Se dá mediante a aceitação do
libertador Jesus de Nazsré: este é o homem que determina
para eles o que significa ser homem e Que se torna o foco de
orientação da vida deles" (I b. 171).
Em suma, o si,nific.:ldo secuJar do Evangelho l'CSume-se na
seguinte mensagem : .. A vcrd.:ldeira natureza do homem consiste
preclsamcnte na liberdade pai-a os outros que foi própria de
Jesus. Ser humano é ser livre para o próximo .. (lb. 199)_
As idéias assim propostas sugerem, sem dúvida, algumas
!'cfl.cxõt!s, qoo procuro.r~mos abaixo sintetizar.

4. Reflexõe5
Olslribuil'cmos as nossas pondera';Ôe.c; sob dois titulos, dos
quais o primeiro dirá respeito à _morte de Deus_ e o outro se
referirA a Cristo ..homcm-pnr..,-os-homens ...

4,1 , O .. n$O do D. ul no homem de hoJe

Dizem os novos pensadores que Deus é algo de ultrapassa-


do para o homem de hoje: este teria perdido o senso de Deus.
.,- 195 -
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS:Io 161 /1913

Estil afirmacão. embol'8, se pos.'m basear em certos fatos


(às vezes, interpretados segundo ideias preconcebidas), não
corresponde exata mente à realidade. Justamente os últimos
tempos têm·nos fOl"ncciuo a ocasião de presenciar admiráveis
manlfestacõcs do senso religioso do homem moderno; assim, por
ocasião da viagem da Apolo-13 (abril de 1970) , representantes
qualificados da hum"lnldadc oraram a Deus em público, afir-
mando sua fé no Senhor todo-poderoso. Pouco depois, a disputa
da Copa do Mundo (junho de 1970) provocou demonstracOes
públicas de prece c gratidão a Deus. Ainda mais l'ecentemente,
a imprensa noticiava quc Jim Irwin . tripulante da Apolo-15, se
tomou pregador leigo da Igreja Batista:
"Jim explica que sentiu a presença de Deus atrás das
montanhas da Lua. Ao vali ar. lentou recomeçar sua carreira,
mas sentia cada vez mais fortemente que 'Deus me tinha cha·
mado para servi-Lo'. Pediu demissão da NASA e começou a
pregar, intitulando-se 'o mlssionArio lunar'" ("Jornal do Brasil",
21/XII/72, cad. B. p. 1).
A respeito ele Charles Duk, da Apolo-16, diz a mesma fonte
que t:se sentiu tomado de religiosidade tão forte, ao pisar na
Lua, que chorou.
- Foi a experiência mais importante de minha vida. Senti
que estava contemplando a obra de Deus. (ib.).
Sob OS regimes da Cortina de Ferro, que desCerem radical
campanha contra a Religião, visando atingir desde cedo a ju-
ventude, a Religião continua a ser afinnada e praticada. A
revista clnformatlons Catholiques Intcrnationalcs:», em seu n·
409, de 1. ,IVI/ 1972, pp. 3-5, publicou um artigo intitulado
«U.R.S.S.: a Religião do Partido.. O autor, J ean-Philippe
Caudron, ai dã. notleia das diversas cerimônias litúrgicns da
«Religião do P artido», que substituiram os antigos Oficios reli-
giosos:
Todo menino, dos G aos 8 a nos de idade, aprende a venerar
o deus Lenine, recitando DQeSias aos pés das inumeráveis está-
tuas desse lider, estátuas qUI! a meninada ornamenta com flores
como se ornamentaria um altar; o menino jura, ao mesmo tem-
po, que ficaro fiel 80 ideal de perfeição moral; tais crianças
são chamadas «Octiabroenol( . (as crianças de outubro).
Mais tarde, dos 8 aos 14 anos, o menino passa à categoria
dos ePioneiross: recebe um lenco de seda vermelha. que envolve
-19ô -
t: F~ SECULARIZADA,.. '! 13

em torno do pescoço, e promete solenemente que «amará arden-


temente a sun pátria, viverá, estudarâ e lutam segundo os pre--
celtas de Lenlnc, c estará sempre pronto a observar as leis dos
PioneJros:t, isto é, a ser um bom trabalhador, um fUho devotado,
um cidadâo leal, etc_
Ainda mais tarde. o jovem entra para a categoria dos
Komsomols (de 14 a 27 anos). Serve ao exército e cursa a
Universidade. Um estudante de Engenharia tem quatro horas
por semana de catecismo marxista-Ieninista... quatro horas
obrigatórias c ellmlnntórias.
Continua o articulista:
"A apoteose é o casamento. Assisti a casamentos socia-
listas. Palácio. muslca atraente, champagne doce, .•. discursos
da funcionária do Governo sobre o amor, o respeito mútuo, a
educação dos Whos, B visita aos monumentos aos mortos,
diante dos quais os Jovens casais se recolhem. pensando nos
heróis cujo sangue derramado salvou a pátria.
Acrescentem·se a isso tudo a Imprensa, o rádio, 8 tele-
visão e o cinema, que lançam normas culturais e morais sobre
uma população que há clnqOenta anos nunca leu nem ouviu
doutrina diferente. E ter-se-â uma idéia aproximada da ambien~
tação religiosa, mas socialista, que envolve, afoga, desgasta,
mas Impregna vlsceralmente o cidadão soviético ordinário.
que não tem como se defender.
N:io há duvida, o Estado soviético, que quis fazer desa-
parecer o Cristianismo dos esplrltos soviétiCos. viu-se obrigado
8 Instituir novas cerimOniss e novos sacramentos em lugar dos
antigos. Teve que levar em conta o esp(rlto profundamente re-
ligioso da população".
Diga·se ainda : na Iugoslávia e na PoLônia, submetidas a
regime marxista mll1tante. as vocaçôes sacerdotais e religiosas
se mUltiplicam surpreendentemente ...
Estes fatos, entre outros muitos que poderiam ser citados
(basta acompanhar a Imprensa diãrla e semanal), atestam quão
arraigado é o senso de Deus na natureza do homem. Atestam
também quanto esse senso religioso tende a Se afirmar espon-
taneamente e por parte de homens de todas as classes sociais.
ainda em nossos dias. Pode-se, pois, dizer que a dimensão reU-
glOsa é inerente à autêntica natureza do homem.

-197 -
2 . Uma reflexão liIosôfico-teoJógica seja él cl'CSc~lntadíl ;',
verlfica.,=áo do (i,tO histórico.

Ainda que o nome de Deus viesse re almentc a SI.'I" sile ncia-


do pelo mundo contcmporüm.>o, n[lo seda licito ao cl'istão
acompanhai' esse sih1ncio; ao contrário, seda fe c) devcl' do
cristão c, de modo especial , do sacerdote, falaI' de Deu):;.

Com ef~ito . Deus c o Ser sO~I'amlm~ IHc I'c al : ê o O'iadol'


e a Fonte de tudo o que existe, O homem, pelo ~imp!(IS, falo de
cxistir, está (muitas vezes, sem O SillJcr) CI1\ intimo contato
com Deus, pois (oi Deus qucm o criou e f: EI~ quem o SLIstcnla na
exIstência. Em cOllst:qüência, todas as ...·ezes que o homcm toma
contato mais profundo consigo mesmo c com a nalurcUl que o
cerca, ele não pode deixul' de l-cconhcccl' algo tle ml st~ rioso e
tra.nscendental, esse algo ê o cunho de Deus que us cl';atul'<L'i
trazem em si e explimem cada qual do 2eu moUo. Com ênfa~
especial, os a.r-tístas (poetas, músicos, pintores . . . ). que ])OI' sua
vela nrtistica êStãO abertos pal'a o mistério da natur17..a c do
homem, .se acham muito perto de Ocus (embol'a, i\s vezes. não
O saibam). I

Um homem incupaz d ~ l"CCOnhcce,' o llansa'ndental, ~ C um


homem amesquinhado, a quem falta algo de essencial, pois o
senso de Deus pel't:ence às dimensões de um homem intcgt'8\ ou
autêntico. Hum.anlsmo ateu já não é humani!;mo.
Com efeito. 1'\os últimos anos tem-se falado nüo S:.l da
«morte de Deus":: , ml1:> também da «morte do homcn1Jo, Esta. "
iI!lre~oada pela cstbla ClIosónca estruturalista (cf. PR 124/ 1970,
pp, 143-150) , MJchel Foucault, arauto dessa. cOl'rente, enC(!rrn
nos seguintes termos o seu livro eLes mol,; ct Ics choscs »:

" O homem é uma invenção de que a arqueologia do nosso


pensamento moslta oom facilidade a data recenle e talvez o
fim próximo".

I Reclprocamonle, IOCII; criatura humana em quem o &BnSO mlaUço $fi


lenha desenvolvido. tende a aer poel • . 510 Joio d. Cruz, 5 . Teresa de
Avlla, $ . Teresa de Lis ieux e outros grandes mlsllcos cantilrem em versos
as SUilS ,)(peti6nelal mlstleas .
• Em úllima an~Us a. pode-se dizer que 510 poucos, pcis mullos do~
que se dizem a1811~ 8slobelecem !tu ! lIbSlllulivo de Dê\J5 ou da mlsliea _

- 198 ·_-
.. F~ SECULARlZADAJo ? 15

A morte do homem assim entendida consistiria em se negar


o valor próprio ou tlplco do psiquismo ·humano (inteJigêncla,
"ontadc, consciência mOl'al, espirito religioso, senso artistlco.. ,);
esse psiquismo nao seria senão o produto de reações f íslco-qul-
mlcas, cegas e mecãnicns, Que caracterizam o organismo hu-
mano.
Michel Foucault l'Cconhece quc essa morte do homem está
relacionada com a apregoada .. morte de Deus:D. Negando a
Deus, o homem se assemelha 80 lenhador que corta o ramo
da árvore sobre O qual está assentado e assim cai desastrada-
mente por terra. Eis suas palavras:
" Em nossos dias nao é tanto a ausência ou a morte de
Deus que é afirmada, mas o fim do homem .•. A morte de
Deus e o fim do homem estão conjugados entre si. Segundo
Nletzache, é o último homem que anunCia ter matado a Deus.
Mas, visto que matou a Deus, é ele mesmo quem deve respon-
der por sua flnltude •.. Mais do que a morte de Deus, ou antes.
no rasto dessa morte e em correlação profunda com ela, o que
Nletzsche anuncia é o fim do assassino de Deus".
Já na literatura francesa, anteriormente a Foucault, o r0-
mancista Roger Martln du Gard salientava o nexo entre as
duas mortes (a de Deus e a do homem);

"Nletzsche suprimiu a noção de Deus. Colocou em lugar


doia a noção de homom. Islo ainda é pouc:J; é apenas uma
primeira etapa , O atalamo deva agora avançar; ele há de su·
prlmlr também a noÇao de hOmem" ("l'~tê 1914").
J:: por estes motivos que se diz que o cristão não pode deixar
dE! falar de DE!us, mesmo num mundo que se diz ateu ou Indife-
rente a Deus; calar-se seria, para o cristão, subtrair aos seus
semelhantes a noção mais vital que haja.... a noeão de que o
homem contemporAneo mais precisa (talvez sem o saber) e à
qual ele aspira Inconscientemente. O homem só poderá deixar
de ser religioso, caso se desinteresse das questões fundamen-
tais dn vida humana; _Donde.•.? Para onde.. ,? por que... ?» E
(lucm se desinteressa d!!SS8S Interrogações, não vIve Integral-
mente 8 sua dlgrudade humana.
/\. IlI'Opósito, escreve cOm sabedoria o cardeal Danlélou :
"A pretensAo. do dispensar Deus a bastar a si mesmo é o
fundamento de ,certo atelsmo moderno. mais ou menos difuso ...

- 199-
1G c-PERCUNTE E RESPONDEREMOS" 16111973

Essa pretensão, na verdade, destrói o nosso ser no que


ele tem talvez de mais essencial. Pois a raiz mesma de nossa
existência é o diélogo com Deus, diálogo em que a todo
instante recebemos d'Ele tudo que somos e pelo qual respon-
demos à graça pela açAo de graç as ... Receber a cada mo-
mento todas as coisas de Deus, referir a cada momento todas
as coisas a Deus , é simplesme nte estar na verdade, visto que
esse misterioso inlercâmbio é a realidade de nossas vidas"
("l'avenir de la religion". Paris 1968, p. 50).
O cristão que mantenha viva em si mesmo a consciência
destas verdades e a desperte ou avive no próximo, desempenha
um papel valloso na sociedade de hoje. Desde, porém, Que ele
perca tal consciência, toma-se uma contradição subsistente; a
ele se aplicarão as palavras do Senhor no Evangelho: «Se o sal
perder o seu sabor, com que se há de salgar? Para nada mais
serve sentio para ser lançado fora e ser pisado pelos homens»
(Mt 5,13) . Então já não se tem um cristão, mas simplesmente
um ateu: ou cremos em Deus, PrIncipio e Fim de todas as
criaturas, e O 8pr~goamos com entusiasmo, ou sImplesmente
não cremos e nos calamos.

4 .2 . C..b.lanh,*,o harban'alizada

A um cristão toca, sem dúvida a função de contribuir valio-


samente para a construção da Cidade do Homem; mas ele
jamais poderá esquecer que as atividades temporais da criatura
humana se devem encaminhar para a vida eterna. A libertação
e a salva~ão que Cristo propôs, embora passem pelas estruturas
terrestres, têm índole transcendental e escatológica. I Por con-
seguinte, . secularizar o Cristlanlsmo:a, no sentido de vaR Buren,
significa simplesmente destrui-lo. Alias, o próprio van Buren.

que 'á
que era ministro do culto an211cano, reconhecia muito lealmente
não era cristão:
"Quanto à minha condição de Pastor, direi que não rezo;
limito-me a refletir sobre essas coisas. Fui ordenado. é ver-
dade ; mas, quando me pedem que vá pregar ou celebrar o
culto, geralmente respondo que prefiro abstel'-me disso. Eu
não hesitaria em deiltar as funções por completo, se Islo se
pudesse fazer !lem ruido, de maneira inofensiva. Mas não é

'ElcatoliIGlc•. .. O que quer dller: &0 $erllo atlngldes plenamer'lte


riO fim dos tempos.

- 200-
passlvel ; deixar o pastorado acarreta uma série de complica-
"
çães... Se alguém quisesse ,tontastar o meu nome de cristão.
eu deveria admitir que, sim. eu não sou um cristão" (citado
por Ved Mehta, "Les théologiens de la mort de Oleu" , Paris
1969, p. 83).

Ao contrário, Boihocffer (contradizendo a afirmaçôe$ que


anteriormente fizera) tenninou sua vida na terra professando a
transcendência do Cristianismo: é no Além que se encontra a
plenitude. _ Com eCcllo; Payne Best, no llvro cThe Venla
lIlcidenb, relata o fim de Bonhoeffer: no domingo 9 de abril
de 1945 Bonhoeffer celebl'OU um oficio religioso para os com-
panheiros de cárct're; falou,dhes então do fundo da alma. Ape-
nas terminara a última prece, quando dois carcereiros, de fisio-
nomia tesa, ahl'iram a porta e chamaram: .Prisioneiro Bon-
haeIler, prepare-se e vcnha!.D. Esta palavra .Venha», para os
detidos, slgnlflcl:l.va n forca. Despediram-sei então Bonhoeffer,
tendo pu:<ado à parte Pnyne Best, lhe disse: .:E:; o fim. Mas
para mim é o começo da vida! (Das Lst das Ende. Wr mJch der
Begtnn des Lebens) •.

Quem quisesse vê!" em Jesus Cristo apenas co-homem-para-


-os-outl'OS:t, já não deveria ralar de fé cristã, mas, sim, de ética
erlstii, paralela à ética de Sõcra[es e à de Buda. Ora o Cristia-
nismo é mais do que uma escola de morlgeracão; é a comuni-
cação de sabedoria e de valores eternos.
A dé secularizada (atéia)>> ou a cética cristã (sem Deus)>>
de van Buren c seus companheiros teria ela ainda alguma razão
de ser, ao Jado de tantos outros humanismos que se oferecem
ao cidadão do século XX? Dentro do ateísmo, o marxismo não
seria muito mais radical e eficaz do que o Cristianismo de van
Buren? eNão seria então preferivel ser marxista?», poderiam
muitos perguntar.

Na verdade, somante se Jesus Cristo é o Füho de Deus


(no sentido paullno clássico) ~ nos anuncia que Deus Pai nos
salvou c nos chama pnra nlcançnrmos a vida eterna, mediante
o amor a Deus e ao próximo, é que o Evangelho tem sentido
para o homem de hoje; o Evangelho então conserva sua origi-
nalidade e responde às mais pl'Ofundas expectativas do ser hu-
mano, expectativas às ql1t1ls, sinceramente falando, nem o mar-
xismo nC!m as mlstlcas orientais pantelstas (bramanismo,
budismo ... ) respondem satisfatoriamente.
-201-
',-'_ _ _,,·P
,,,,,ERCU~IF.__E_,_t~ESPONDF.n.EMOS,.. lGl/ ltJ1,,3, -_ _

Por conseguinte, somente se pennanecer o que é. a fé


cristã sicnJflcará algo para o homem secular; dnl'-lhe-á uma
resposta Que ele não encontra em outra instância c de que ele
tem profunda neces~úlade.

A prop6slto. 8 blbllogralla • '18slI,,111I8. Sejam salientados os seguIn-


tes escntos :
G. O. ROIla, ''fade criallatl8 e mondo aeC:Ola rlualo", em "La CI'IlIIà
esnoBe.... quo 2875, -4 IJ VI\970, pp . &-19 .
Idem, " La lecolarlnulone dei C,lsUaneslmo" (I • li). ib" qu o 21517.
2fVIl970. pp. 214·222 ; qu o 2878, 16 / V/ 1970, pp. 331-339.
MOeu. ul6 morto 1" (cole.Ane. de arti gos). Coleçlo IDO-e 1. Pa lIO'
pOli, 1970.
R. Laurantln, "Dleu "1-11 mor! 1" Paris 1968. TraduçAo bralllelr. n8&
EdlçOes Pau!!nas.
J. Blshop, " Las IMologl,n! de la mort de DI8U", Paris. 1967.
Ved Mehla, "Les IhéOfoolens do la mort de OIau". P~rls 1969.
J. DanftlOIJ, "l'avenl r de I. r811010n" . Paria 1968. Tracfuçlo brasileira
nas Edlç()el Plulln.s.
K. FI.hner, "Consldarazlonl teologlcha sulla sacolarluazlone". Roma
1969.
"lumléra el Via" n9 89 (.etembro-oulubro 1968).
"Conclllum " n9 -'17 (setembro 1989),

• • •
AMIGO LEIlORI

SOUCITAMOS AOS ASSINANTES QUE AINDA NÃO RENOVARAM SUA


ASSINATURA, QUE O FAÇAM IMEDIATAMENTE . A PARTIR DG PRÓXIMO
NOMEAO, TEREMOS DE SUSPENDEA A RI!MESSA PARA ASSINATURA.
NAO RENOVADAS .

APESAR DO GRANDE AUMENTO NO PREÇO DOS CORREIOS E DO


PAPEL, MANTIVEMOS INALTt:RAOO O PAEÇO DAS ASSINA.TURAS. flUMA.
ATITUDE DE COLA.BORAÇAO, PEDIMOS ENCARECIDAMENTE AOS AMIGOS
QUEIRAM DIVULGAR A NOSSA REVISTA E OBTER·LHE NOVOS
ASSINANTES .
GRATOS

PR

- 202-
Hé diferença?

valores humanos e valores cristãos


natureza e graça

Em Ilnl... ; o humanismo otimista de n0880S dias tllnde a Idanll-


flc.r ser hum.no perfalto, reallz.do e Nr crlallo. Crlsto le'" .Ido o homam
perfalto, de modo que lorna,-se homem per'elto é Imlter a C,lllo.
Tal asserçAo nlo delta de •• r ledulora, mas '111m • eer amblgua
(ellg. ... mesmo : arrOna.). Na vard.d., Nr crlttlo Ilgnme. Nr eleyado
acima ela natureza a das eapaeldades do N' Iwmano; Ilgnlflca tornar-I'
IIlho de Deu., nlo nominalmanle apen •• , mas por regenere.çllo ou por
plrtlcipaçlo d. vida do próprio Deus Csem pantelamo. ou .eJa, relSelvada
a dlsllnçlo entre Criador e crlalura).
Acontece mesmo que a natureza hum.na tal como ela .xlate na
hlltÓrl. eles" mundo 1\10 , . Implesmente a de um vlyente reclo"al (como
dizem os lI!ósolos), mls o ylvente raelonal que , o hom.m. foi .Ievado.
no Inlelo da .ua hl.l611a, • IlIfaçAo divina i decaiu desta OItado IIlngular
• tln.lmante 101 remido por Cristo . O batl.mo a a Eucaristia rn'auram
ml1\lolm'nle no crlsllo e fllI.çlo divina perdida pelo. primeiros pall.
g.,..
O dom da flllaçAo divina concedido medlanle Crllto In•• ' .... na
n.turna humana dllac.rada por concupllcAncl .. a pelxe.s. Em cona...
q06ncla, nlo aa poda dizer que fomentar a nalur.za hum.n. e 1.llsfazar
Indlstlntementa As SUttll asplreç6es seI' o mesmo que crlsUen(ur. Na natu-
reza do homem, axbtern 'andênclas contradltórlas • Incoerent•• U' ...,Ifi-
c.d•• por fIIOsofos p.glo. e por SIO P.ulo). de eorte que • asc• • • •
mOr1If1eaçlo vim • ser Indllpans'w.ls para que .. tonu um .utlnllco
crl.tlo. Um hum.nlsmo que nlo Inclua p.nltencla, nlo • crf.tlo.
A lIIosolla hindu, lupondo o p.ntelsmo, anllna qua o homem' cen-
telha d. Divindade envolvlde pela matêrla; I parlalçlo do homem portanto
,I.estarl. dentro dele. (;It. proposlçlo nlo le coeduna com • perspecllya
crl.tI. OuPndo " Voga am particular. na medlde em qua • educaçlo 1I.lc,
e hlGlena ment.I, pode tranqOlllrtl'nta ser prallcada por um crlat.o, contanto
que "te nlo adote o pantellmo dos mestra, y6guls Indianos.

• • •
Comeatárlo: Uma. das questões multo debatidas, sempre
que se faJa de antropologia e vida cristã, é a do relaciona-
mento entre os valores do ser humano (ou da natureza huma-
-203-
20 .PERGUNTE E RESPONDEREMOS). 161/ 1973

na) como tal e os da graça de Deus concedida pelo Batismo e


a Eucaristia.
Tal relacionamento é classicamente considerado como
inserção da graça na natureza. Ser cristão significa enUio rece-
ber uma realidade nova. um novo ser. outorgado por Deus.
Nos últimos tempos, porém. a noVa valorização do ser humano
ou o cultivo de um humanismo otimista e confiante tem
inspirado a muitos mestres proposições como as que se seguem:
"A conversão (metánoia) apregoada pelo Evangelho se faz
mediante uma reeducação psicológica, em que nos encontra-
mos conosco mes mos.
o desabrochamento cristão não depende de algum subsi-
dio exterior, mas brota do mais Intimo da natureza humana.
A graça sobrenatural, para agir em plenitude. precisa de
erlcontrar a natureza humana também em plenitude.
Aperfeiçoar os valores humanos é identificar-se progressi-
vamente com Cristo, o hOmem perfeito, e, por Ele, com Deus".

Estas proposições têm um quê de Simpático e atraente


para muitos cristãos; apresentrun, com efeito, a vida cristã
como o desenvolvimento lento e homogêneo de tudo que haja
dentro do ser humano.: um homem perfeito seria um cristão
perfeito.
Após um exame mais atento, porém, pode-se reconhecer
que tais frases são amblguas ou mesmo errôneas. Ressentem-se
de otimismo Irrestrito ou exagerado frente â. natureza hwnana,
otimismo que se chama ndurnllsmo. Em parte, também sâo
inspiradas por certas concepçôes da filosofia hindu, que nos
últimos anos têm mais e mais penetrado na mentalidade oclden-
tal mediante o Zen-budismo e a filosofia da Yoga (n. b.: dize-
mos fUosoRa, não dizemos técnlcà.).
Por Isto consideraremos a seguir: 1) Natureza humana e
graça cristã; 2) Yoga e Cristianismo.

,. Natureza e 9ra~a

1 . Por .natureza humana.:. entende-se, em filosofia clás-


sica, o conjunto de capacidades ou faculdades que caracterizam

- 204-
VALDRFS HUMANOS E VALORES CRIST.lOS 21

o homem c as ('xprcssões do ser humano. As principais dessas


faculdades são a inteligência e a vontade. Como ensina a ex·
perlencia, são faculdades limitadas ou de alcance flnito; não
podem atingir o infinito, Deus, senAo de modo finito. Em outros
termos: apreendem Deus à semelhança ou segundo a analogia
de uma criatura.
2 . Por «graça cristã~ entende-se o dom de Deus que tor-
na o homem tUho de Deus. Vai·se d~sabrochando A guisa de
semente no cristão, de modo a habllltá-l0 a ver a Deus face-a-
-face no termo desta peregrinação terrestre. :t, portanto, algo
que e1eva o homem acima de si mesmo, tornand<HJ, ~m sentido
singular, filho do Pai Celeste. Não decorre da natureza do prO.
prlo sujeito, mas, ao contrArio, é-lhe gratuitamente outorgado
pelo Senhor Deus como um dom sobrenatural.
3. A fé cristã ensina que, no inicio da história, os prl·
meiros homens foram do'tados de graça santificanté ou eleva-
dos a uma ordem de coisas sobrenatural.
Note-se, de passagem, que nos ülUmos tempos esta p~
posição tem sido silenciada ou mesmo rejeitada por parte de
autores católicos. Todavia ela faz parte integrante do patri-
mônio da Revelação cristã, de tal sorte que não é discuUveli ao
estudioso compete apenas verif1~ar que não é absurda e que
está suficientemente atestada pelos dOCUlnentos da fé e pelo
magistério da Igreja. - Não há dúvida, tal proposição de fé
é conclliável com os dados cientlficas da paleontologia e da
pré (história, poiS não significa que os primeiros homens e a.
natureza irracional tenham tido configuração extraordinária (8.
elevação do primeiro homem à filiação divina e os dons con-
com1tantes podem ser concebidos como algo de meramente
interior e espiritual, que se manifestaria exterionnente se o
homem náo tivesse cometido o pecado orIginal).
Os primeiros homens pecaram, perdendo assim o estado de
filiação divina ou de graça santificante, em que haviam sido
consUtuidos. Passaram a existir num estado dito «de natureza
(outrora) e1evada e (depois) decalda:. _ natureza que, como
mostra a experiência, é rebelde a Deus, contaminada pela d~
sordem de seus afetos e pelo egoismo.
4 . IMus Filho assumiu essa natureza humana; destruiu-a
sobre a Cruz e ressuscltou-a ao terceiro dia, restaurando assim
o homem. Ele reapareceu após a morte como «a nova cr1aturu.

-205-
22 .:PERGUNTE E RESPONDEREMOS); 161/1973

Destarte obteve para o génel'o humano a possibilidade de che-


gar de novo à visão de Deus face-a-faee. Em conseqüência, a
nossa natureza, após a obra de Cristo, é c:a natureza humana
(outrora) elevada, (posteriormC'nte) decaida e (finalmente)
restaurada na sua dignidade sobrenatural_. A gra ~a saotlfi-
cante que Cristo nOs mereceu, é comunicad<l <lOS homens pelos
sacramentos, dos quais Importa salientaI' o Batismo c a Euca-
ristia. A vida cristã não é senão viver em graça santificante,
favo~r o mais possível o desabrochai' da graça santiflcante
ou da filiação divina que o Batismo e a Eucaristia comunicam
ao cristão_
5. Pergunta-se agora: quais as l'Cla<;,õcs entre «natUl'eza_
(! c gra{;8 _ ?

- Tem-se dito classicamente Que cn gra<:<l nfio destl"óJ a


natureza, mas a sUpÕe e aperfe1çoa».
Estes dizeres de S. Tomás podem SCl' interpretados no sen-
tido de que todos os apetites e tendéncias não absurdos da
natureza humana podem e devem ser favorecidos na vida de
um cristão. Seria vã a ascese, que ensina a necessidade de se
mortificar a carne. - Não ê, porém, em tal sentido que sc
deve entender o ax10ma citado. Elc exige uma distinção :

A graça supõe 8 natureza. e a na ordem oJ1tológica: snr


aperfeiçoa ( na ordem histórica: N,\O

Na ordem ontológica. .. , Isto quer dizel': considcl'ando-sL'


0$ seres de maneira abstrata, num plano filosófico e aClldêml-co,
é claro que a grnça santlficante supõe n natureza humana; ela
não é dada a seres irracionais (animais, vegetais, minerais ... ) .
pois estes, não tendo faculdades esplrituals, são incapazes dC"
chegar a contemph"r a Deus, Espírito Purissimo. 1!: claro tam-
bém que o ser humano, portador da graça santiflcante, é ex-
traordinariamente nobll1tado.
Na ordem histórica. .. , Quando passamos do plano abstrato.
acadêmico, para a. realidade conereta e existente. devemos dizer
que a graça de Deus encontra a natureza humana desregrada
e rebelde; por conseguinte, ela não pode deixar de exigir mor-
Uflcll,;ão e putificacão dessa natureza. Vê-se, pois, que não se
pode dlzeL' que, na ordem real em que vivemos, a graça se so-
brepõe simplesmente às tendências dn natureza e as confirma.

-206 -
_ __ -.!..~LORES HUMANOS E VALORES CRlST.lOS 21

6 _ A exigência de purificação da natureza ou de ascese


c renúncia, para que possa "haver santificação. decorre necessa-
r!amente da viS;âo Que a Revelação cristã propõe a respeito da
natureza humana. Essa mortificação não consiste apenas em
reeducação pslcol6glca. nem em exercícios de higiene mental
ou de educação r:slca; ela é multo mais profunda; provém da
conscIência de que o cvelho homem:. (a natureza desregrada),
no cristão, tem que ser transfonnado pelo _nOva homem. (pela
vida de Cristo), o amor próprio pelo amor a Deus. Diz o Senhor
J"esus no Evangelho: eSe alguém quiser salvar a sua vida,
perdê-la-á,. (Le 9.24) e: eSe o grão de trigo. caindo na terra.
I

ruio morrer, não darâ fruto. Se, porém, morrer, darâ fruto
múltiplO. (Jo 12,24).

7. Compl'ecnde-se que a saúde psiqulca do sujeito possa


ler Inlh1êncla na sua santificação. Ê de supor que Ulna pessoa
atetivammte equlJibrada ofereça campo fértil às inspirações
da graça; a superação de estados psicopalológicos e a 'Procura
da uma personalidade normal são elementos importantes para
que a ação da graça se possa desenvolver com fecundidade
nas almas. Todavia é preciso não esquecer que os recursos da
psicologia e da medicina, embora possam contribuir para for-
mar ou reajustar uma personalidade, não fazem o cristão como
tal; ardam apenas o substrato natural (que é o psiquismo) da
vida sobrenatul"al ou cristâ. Por conseguinte, não se pode dizer
sem mais que co.perfelçoar os valores humanos é idenü!lcar·s.!
pl"Ogressivamentc com Cristo, o homem perfeito, e, por Ele, com
DeusJo . O aperCel;..'Oamento de valores humanos, lealizado no
plano meramente humano (não ~leYado à ordem sobrenatural
ou cristã I , certamente concorre para aproximar alguém de
Cristo, o Homem Perfeito, mas não Identifica. (no sentido cris-
tão) com O Senhor. A identificação com Cristo de que falam
os escritos do Novo Testamento, supõe sempre os sacramentos
e a conduta devida .dai decorrente - a morte ao pecado e a
entrega a Cristo Jesus -, como atestam as eplstolas de São
Paulo (cf. Rom 6).

Em vez de se dizer que ctornar-se homem perfeito equiVale


a tOlnor·se perfeito cristão;,. deve-se aflnnar o inverso: tomar-
se perfeito cristão redunda em tornar.se homem pérfeito. Em
outras palavras: morrer e ressuscItar com Cl"ÍSto todos os dias
não pode deixar de enobrecer a pessoa humana; purlficando-se
na ascese, na humildnde, na paciencin e no amor, o cristão en-
contra melhol' sua personll11dade humanol. .
- 207-
24 orPERCUl\'TE E HESPONDEREMOS" 1(;1 / 1",0",73,-_ _

8. Hoje em diu Dccntuu-sc muito o rnlstêrio da Encarno-


ção ou o fato de que Deus se rC'~ homem; du! se deduz um
conceito otimista de .natureza humana. Não se pode, porém,
ignorar que a Encarnação estava voltada para a Redenção ou
para o mist6rlo da eruz, da morte c da ressurreição. Se somos
solidários com Cristo pelo mistério da Encarnação, não Lhe
devemos ser menos unidos no mistério de Pâscoa. ou da cruz,
da renúncia e da ressurreição.

9. Talvez, poré n~, alguém diga : a proposiç~o de renúncia


é demasiado estranha à mentalidade moderna. Não encontra eco
quem füla de mortiCicacão ao homem de hoje; antes, arugenta-o,
desanima-o. A única mOl'tiricaciio que ainda seja aceita, ê a que
vem imposta pejas exigénclas da medicina ou da higiene mental.
- Ê preciso reconheçer: a expressão «renúncia a si mes-
mo (ou ao velho homem) . por vezes pouca rcssonimcia encon-
tra. Todavia nem por isto se pode deixar de apregoar a fé cristã
com todos os seus genuinos elementos; a fé sempre teve c terá
algo de absurdo aos olhos da prudêncla humana; já São Paulo
o notava: «Nós pregamos o Cristo crucificado, escândalo para
os judeus, loucura para os gentios. (1 Cor 1,23).
Note-se que, sem mortificação, não há autêntica vida cristã,
nem mesmo autêntica vida humana. A perfeição não pode
deixar de ser algo de custoso, algo que exija generosidade
(essa generosidade sem a qual n50 há. nobreza de alma).

lt necessário, porém, (e isto é muito importante!) não fa-


lar, sem mais. de renúncia a pessoas que não estejam prepara-
das para tanto. Levem·se em conta os temperamentos e as
reações da sensibilidade de cada pessoa. A graca de Deus age
no intimo de cada Individuo, dando-Ihe aos poucos n compreen-
são do mistério da cruz e de suas exigências; convém que o
educador e o diretor de almas acompanhem esse trabalho da
graça, que o secundem, e não se lhe antecipem.

É preciso tam bém nunca separar a idéia de ascese ou re-


nuncia da perspectiva a que tende: a perfeita união com Deus.
a Cristianismo é ménsagem essencialmente positiva e nobilitan-
te; a ascese vem a ser mera via ou 'mera fase de transição
num programa de vida cristã. A generosidade com que alguém
se separa de si para seguir o Cristo, é a mais rica fonte de
paz e alegria, como ensina a experiência.

-208 -
VALORES HUMANOS E VALORES CRISTAOS 2S

10 . Hâ, porem, quem ainda objete: a ascese e os atos de


renúncia empreendidos por certos santos parecem, antes, ex~
pressõ~ de loucura ou desequilíbrio mental do que de sã pie-
dade: privaram-se sistemati<:amente de satisfações legitimas,
humilharam-se n ponto de passar por Insensatos ... Não seria
isso expressão de masoquismo, de espirlto doentio, complexado
ou fracassado, fenômenos que os psiquiatras apontam em indi-
viduas anormais ou dementes?
Em resposta, dlr-sc-ã que houve, e há, pessoas muito san-
tas, mas, não obstante, psicologicamente anormais; tenha-se em
vista o caso clássico do Pe. José Surin, considerado em PR
47/1961, pp. 459-468. Doutro lado, é mister reconhecer que
multas práticas 'à primeira vista desconcerlantes se registraram
na vida de pessoas CJue por certo não eram. anormais.
Verdade é que raras sáo fiS pessoas completamente nor-
mais, do ponto de vista psicológico; é lustamente o pequeno de-
sequilíbrio de predicados de alma que caracteriza cada persona-
Udade, imprimindo ,lhe suas notas próprias, sem chegar a
constituir anormalidades em sentido patológico.
11 . Os santos se colocam no plano das grandes personaU~
dades da história. nem mais nem menos normais do que OS
outros vultos notáveis que marcaram os tempos passados.
São numerosos os episódios que demonstram terem os
santos praticado seus atos de austeridade dentro de toda a sani·
dade mental, alheios a masoquismo ou outras taras. Tenha-se
em vista, por exemplo, o caso de São Francisco Xavier
(11552) :
Nan-a Rodrlguez, na base das oonfldências de Francisco
Xavier, que este, em juventude, sentia especial repugnlncla
por determinado doente a quem ele devia servir num hospltal
de Veneza. Desejoso de vencer este asco, Francisco resolveu um
belo dia levar à boca o pus de uma úlcera. Ora por toda a
noite seguinte disse o santo que lhe parecera ter guardado esse
pus na garganta. - Isto bem demonstra o grau de violência
que Xavier fez às suas tendências naturais, praticando tal ato.
Não foi, pois, algum iosUnto depravado ou tarado que o levou
a exercer tal mortificação, mas, sim, o puro amor cristão que
ele dedicava ao próximo e que seus InsUntos naturais tendiam
a entravar .. .
o gesto de S. Francisco Xavier e outros semelhantes que
se lêem na vida de grandes a:antos, devem-se a impul.so$ extra~
- 209-
2G . PERC UB~~ E RESPONDEREMOS~ 161 / 1913

ordinillios da gl'ílr,a di! Deus, aos Quais esses justos responde-


ram com generosidade e coragem não menos extraordinárias.
1: certo que n grlwa moveu os santos ao hero:srno segundo as
categorins de pensamento e conduta do seu tempo. Tais ex·
pl"eSSÕCS de generosidade não sâo obrigatórias para cristãos de
outras épocas (ninguém é obrigado a lamber as chagns do $Cu
próximo para lhe demonstrar amor). O Espírito de Deus Inspim
fi cada cristão os gestos que realmente mais representem o
ideal da magnnnimidnde e do hCl"Oismo para t al cristão.

2, Yoga e Cristianismo
1. A Yoga é uma (aceta da filosofia hindu associada &.
uma técnica de ginástica corpórea e hlciene mentnl. J á foi npre-
senlada em PR 16/1959, pp. 139-146. Em conseqüência. aqui
serão propostas apenas considerações sumârias sobre o assunto
com vistas à temática destas páginas.

Como filosofia, a Yoga supõe o panteismo. Ensina Que


Deus não se encontra (ora do homem, como SCl' transcC'ndental.
O esplrito humano é parte do Espl rlto Universal ou elo Prin-
cip io Divino (Divindade). Não hã distinção essencial entre o
esplrlto humano c o Espírito Divino. nem entre o mundo c a
Divindade; o homem é centelha emanada do Fogo Divino.
O sei humano ó habitualmente solidtndo pelas colsl1s (X -
tenores e vislveis. que são realidades Ilusórias. Estas o impe-
dem de tomar co nhecimento do seu verdndeil'o Eu. Por isto
o yógul (assim se chama quem praticava a Y:iga) procuríl
evadir-se das coisas exteriores e vislveis e conccntrn-se em si
mesmo. Pelo excrclclo tenaz de concentração. cs!o l'Ça -se pai'
aUnglr a centelha divina que, colocada no seu intimo, con!!titui
o seu verdadeiro Eu.
Para chegai' a tal fim, o yógu i Pl'aticada a medihção.
na Qual ele p~ura esvaziar-se de todos os seus conceitos ha-
bituais, fazendo de sua mente uma folha branca.
E, li. fim de meditar com todG o proveito posslve1. o
yóguJ se empenha ardorosamente por tornat'-se senhor do seu
corpo c de todos os seus movimentos naturais, Para tanto.
pratica a ab..--tlnêncln. e cxcrcIclO:i gln9.~ tlco-re.splrat 6rl o5: a
Yoga propõe 84 posturas (asanas) , que visam a estimular o
metabolismo, ativam a circulação do sangue, fomentam o fun a

- 210_
VALORF.S HUMANOS E VALORES CRIST.l.QS 27

clonamento dns gllndulas e acalmam os nervos, proporcionando


ao esplrito a paz e o bem-estar oportunos para 8 concentração.
2. A Yoga tem-se difundido no Ocldente. No BraslI, so-
ciedades e escolas a transmitem ao público.
Pergunta-se: será licito a um crlsttlo aceitar esse sistema?

- Distinga-se entre a filosofia. da Yoga c OS c"crc!clos


ginãstlco-respiratórios que esta ensina.
a) No que diz respeito à DlosofiD, é claro que o pensa-
mento yogu1no nio se concilia com o pensamento cristão.
Aquele é panteista, Identiricando Deus e o homem, ao passo
que o Cristianismo concebe Deus como o Ser Supremo trans-
cendental, do qual o homem é Cliatura produzida a partir do
nada. O ser humano não é centelha do Fogo Divino, caso se
queira com isto dizer que é parcelll da Divindade. ~, sim,
imagem c semelhanea de Dcus na medida em que tem inteli-
gência e vontade; Deus, que é a Suma Inteligência e o Pri-
meiro Amor, r~ o homem dotado de Inteligência e amor.
b) No que diz respeito â técnlea somática e respiratória.
a fé c a moral cristãs não se opõem a que o cristão a pratique.
Poderá ser-lhe útil como disciplina da alma e do corpo; Inega-
velmente tais exercícios podem favorecer, em muitos casos, a
saúde do corpo e a higiene da mente. Ora o bom funclo):1Q-
menta das faculdades fisleas e pslquicas do Indlvfduo é pre-
cioso opara que o homem colTesponda plenamente à graça de
DeUs. 1: por isto que certas comunidades ou sociedades cristãs
oferecem ao público cursos de exercidos de Yoga.
t: preciso, porém. que, ao praticar a Voga, o cristão se
desvencilhe dos pressupostos filosóficos dessa escola; a finali-
dade do crlstáo-yógui nlio é encontrar a parcela de Divindade
oculta em sua alma; ele procura apenas um subsidio que o
Rjude a dominar as paixões e a disciplinar seus pensamentos
C! afetos. Este mesmo objetivo, aliês, tem sIdo almejado e
aJcancado pelos ascetas cristãos desde os primeiros séculos me-
diante práticas de jejum, vigílias e outras mortlficaçóes que
subordinam 8 cal'lle ao esplrlto. Vê-se, pois, que a disclplina
pslcossomãtica fez e fará sempre parte da vida cristã. Apenas
a mentalidade cristã dlfe-rc radicalmente da do yóZUi. Como
acaba de ser dito, o cristão sabe que "Sé mortifica com o auxilio
da graça d~ Deus, Q fim de levar o seu batismo (morte e
- 211-
28 cPERGUNTE E RESPONDEnEMOS~ 161/1973

ressurrelção com Cristo) ató as últimas conseqüências; éo à


vida sobrenatural qu'C o Pai do céu lhe outorgou gratuitamente
pelos sacramentos, Que ele Quer dar plena expansão em sua
alma.
Observa-se, porém, que não ro ro, juntamente com os
exercidos da Yoga, tambêm as idéias filosóficas do hinduismo
se introduzem na mentnlidade de certos cristãos; estes vão as-
similando, consci<mte ou Inconscientemente, as concepções
gerais e as noÇÕC:s de antropologia e religião do pantcisma, Em
conseqüência, tendem a IdenliCicar disciplina c reeducação
psicológica com ascese e perfeição cristãs; o homem c realizado_
poderia ser tido como bom ou perfeito cristão - proposição
esta Que não corresponde à verdade, como atrâs foi dito.
Na realidade, é servindo a Deus que o homem reina.
• • •
E.M . (RecUo): O amigo pergunta se as conClssoes comunitârias
são permiUdas forA dos casos de guerra ou calamidade . Pede resposta.
expllclta.
_ O que de mais explicito se possa cli~r sobre o assunto SI! I!n·
contra no documento pUblicado pela S. CongregaCilo para 11. Doutrina
da Fé aos 16/VU72 . Este documento, Já comentado em PR de 1972,
pode ser assim sintetizado:
lJ O sacramento da Pcnltllncla, com a llCUsaÇI\() Individual e es·
pecUlca dos pecados, ~ o melo normal para se obter o perdão das
fallas graves, como ensinou o ConeUlo de Trento.
2) Às VMeS, porém. ntlo h! !aCC!rdotcs suficientes para atender As
confissões Individuais (! - mais _ mo se pode protralr Indefinida·
mente a partlclpaçlo dos lIéls M Eucaristia. Em vista dessas situa·
ções. a S , S4! deixa a critério de cada bispo es18belccer se. c quando.
na sua diocese tais condic6cs de I:rave penúria existem; em caSO posi-
tivo, poderâ o bispo permitir que, em oeaslOes devidamente estipula'
das, o sacerdote dI! a absolvlcllo coletiva .
3) Aos fiéis ILSsim absolvidos riea a obrlgaçl'lo de se confessarem
doi'! pea.dos não aculados desde que Cenh.m a oportunidade de o fazer
{no mêXlmo, dentro ,Ir um (lnol . Nil.o lhes é licit.o procurar nova
absolvlçAo eoletlva nntes de tal conllssl1o.
41 Abstenham·se os sacerdotes e os 11~1 i'! de se colocar voluntarla·
mente em sltua('Qes q ue ImPQsslb!lltem o atendimento do!õ penltentel!l
em contlssll.o auricular. Antes. é preciso que os sacerdotes se empe·
nhem por exercer Integralmente o m1nist~rlo sacerdotal, dispondo-se a
administrar deYldamente o saeramento da Penitência.
5) A conflsslo ditA ... de devoç.!l.o~ (parA os casos de pecado leve
apenas) é vAlida e rteomend6.veJ.

- 212-
Como .e explica?

o menino jesus de praga

Em alnl"8: Na Idade Médll, InlensUlcou·se 11 piedade dos 11615 para


com as luas l erreslres da vida de Crlslo: além do prM6plo (que se
deve a S . Francisco de Auls em 1223), foram sendo confeccionadas e.ta-
luetü do Menino Jesua desUnadal a alimentar a piedade dos fiéis par.
com a Inrancla dI Crlslo. A Espanha no a6c. XVI, sob a Inllulncla da S.
Teresa de .lvUa. Jornou-se um loco que Irradiou tel devoçlo por loda a
Europa.
I! ntllte contexto que se altua a origem da devoçlo ao Menino Jesus
de Praga : no aéc. XVII a princesa Pclbcana de Lobkowltz levou da Espanha
par. Praga ITchacoalov6Qula conleml'lorlnllll), como presante de n(lpcl.s,
uma eatalusla do Menino Jesus em cor.; em uma mio o "pequeno RII"
trazle o globo lerrestr., I com a oulra abençoava; em 1628 • prlncess
doou lal jmagem a' Carmolltas ela Sanla Maria da VitOria em Praga. A
Imagem tornou-se entlo estimulo da piedade dos 11611, que Itla atribulam
milagres e ccnvera.oas. Em 1641 construiu-se em Praga um oratório própr10
para o Menino Jesus. com uma ermida anexa. A devoçlo propagou·ae ao"
poucos por todo o povo de Deul. Allâ!, exlslem outras Imagena do Menino
Jesus na Alemanha, na ItAlla • . ., dUas "mllagrosu",
A r1gor, pode·" crar que Crl.lc lenhe Inlenclonado assinalar de modo
especial a lua mlsetlc6rdla mlnl/estando",e em detannlnado sl.nluArlo tcomo
o di! Prlga) com mUagre' e grlças axtraOfdlnétlu. Ouem lulga que llto
de 'alo se deu . pode 1""qOUamente orar s CrlSIO, Invocando-O como o
Ma"lno Je3us de Praga. Todavia 6 preciso evitar que t al devoçlo deglnerl
em ,uplrsUçio • 'anaUsmo . Nlo h' oraç6es "fones" ou oraç6es que
obtenham Inlallvllmante a grsça que s. pede; verdede é que a Ofaçlo bem
feita nunc. é perdida; ma. Ceus nem sempre lhe responde tIO. termos
exatos que o orante lha apresenta, pol. Ele sabe malhor do que nós o
qUe oos c:on"'m. Adlmals nlo $a Ptlrca de 'lista que Cristo, como hQm(tfn,
•• empra o Gra nda Sacardola ou Mediador que nos leva alé o Pel.

• • •
Comentário: J::; muito comum, até nos jornais destinados ao
grande publico, encontrar-se a oração ao Menino Jesus de
Praga c o testemunho do. gratidão dos fiéis por graças rece-
bidas do Mesmo.
As vezes esta forma de devoção chama a atenção por sua
Indole exuberante e pela lnsistência com que é propagada. Eis
- 213-
3U "PERCl;N!!; . 1~ ~..!tESPONnEREô\tOS!,_ lGl/1973

por que parece oportuno l'ecolocá·la no seu contexto histórico,


a rim de se poder julgar o seu significado.

1. A piedade para com Jesus-MenipO


ofrov'$ dos séculos
Distinguiremos três etapas principais neste PCl'CU1'SO hist6--
rico: a piedade dos antigos cristãos; a da Idade Media e, por
fim, a do I!pocn moderna (que começa oom o sóc. XVI) .

1.1. O. primeiro5 s""'los do Cristianismo

As primeiras gerações cristf\S se detinham principalmente


no mistério de Cristo como to.l, sem dai' importância particular
a alguma das fases da vida do Salvador, excetooda a sua chora,
(a Paixão e gloriílctlcão do Senhor, confonne Jo 17,1).

Todavia a pal'tir de fins do séc. I as con lrovél'Sias doutri-


nárias movidas pejo docctismo, o marclonismo, o maniqueísmo
e outras tendências heréticas obrigaram os mestres e pregado-
res a considerar mais atentamente as diversas fases da vida
terrestre de Cristo, inclusive 11 sua entrada no mundo, Em
conseqi1~ncia, predominam nos escritos dos doutores e mest:res
dos prImeiros séculos cristãos reflexões de jndole elevadamente
teológica e de profunda riqueza doutrinária, mas assaz: sóbrias
em afetos e sentimentos para com o Menino Jesus.
Na liturgia. a celebração do Natal e da Epifania por certo
inspirou a piedade cristã. Nota-se, porém, Que a liturgia era,
em grande parte, inspirada '))ela preocupação de pôr em relevo
a Divindade de Cristo c a realidade do mistério da Encarnação,
dado que o arianismo, o nestorianismo e o monoflsismo nos
séc. IVI Yn disseminavam falsas concepções a l't'SpcItO.
Ao mesmo tempo Que os mestres cristãos muito se empc--
nhavam por afirmaI' a reta fê em Cristo Deus e Homem frente
às heresias, a literatura popular la-se ampliando com o surto
de numerosos escritos apócrIfos, Isto é, escritos que por seu
estilo imitavam os Evangelhos canônlcos, mas na verdade se
deviam o autores dos séc. m/VI. Esses escritos tendiam a sa-
tisfazer à piedade popular desejosa de saber o que os textos
blblicos meSMOS niio diziam a ~spelto de Cristo. Ta.is são, entre
outros, cO livro da Infância de Jesus:. ou cEvangelho do
- 214-
o ~,F.i\']NO JESU!=: DI::: PRM-:A 31
Pseudo-.Mateus», O cE\'angelho fttübe da. inrilnciíl», O cEvange-
lho annénio da Infância», a cHIstOria de José carpinteiro:t, o
«ProtQevangelho de Ttago», o cEvangelho de Tomé_ . .. Essas
obras dão livre curso â imaginação c ao pol'tentoso: narram
milagres real12:ados pelos panos do Me nino Jesus ou pcln âgun
rIo seu banho, o procEgio do palmeil'a qUe se Inclinou para dar
rrutos à Sagrada Família, a queda dos Idolos no templo de So-
tina quando ai entrou o Menino Jesus . '. A figura de Jesus
Menino ai é multo focnlizada, mas e~ termos que por veus
s50 de nitida fictllO. Como quer que scjn, umn das fortes ten-
dências da literatura apócrlCa é demonsLrar n Divindade di:!
Cl'llito já nos seus primeiros anos de vj(la terrestre.
Passemos 81:ora à

1 .2 . ldod. Média

A partir dos séc. IXIX nota~se nos textos de! mestres e


na piedade popular forte preferência pelas narrações e descri-
cães históricas, ficando para segundo plano as elaborações te0-
lógicas. Este fato se explica bem: de um lado, QS grandes
heresias estavam superadas (em 680/ 681, o Conemo de eons-.
tantlnopla m encerrou as controvérsias cristológlcas). De outro
lado, as vio.gens de peregrinação dos cristãos ocidentais à Ten-a
Santa, as Cruzados e suas narrativas despertavam interesse
crescente pela v ida humana de Jesus, principalmente pelos seus
dois palas extremes (8 infância c a Paixão gloriosa). Em con-
seqüência, a piedade medieval, máxime o. partir dos séc. xn
e xm, foi muito marcada por duas carncterlsticas: o gosto da
concl'eto e a afctlvldade.
O gosto do concreto levou S. Bernardo (t ll53) a uma
piedade muito viva c penetrante para com a Infinda de Jesus
c tl ngura da Vir2em Mãe, contempladas no Natal, na Circun-
cisão, na Epifania, no Anuncie do anjo a Maria ... ; São
Francisco de Assis (t 1226) voltou-se com predileção para a
Natividade do Senhor; quis que o Natal fosse resta até mesmo
para os animais. Com efeito, em Greccio no ano de 1223 Fran-
c1sco, deseiando celebrar o Natal,encontro~ num bosque uma
escavação em forma de gl'uta; mandou então colocar ali uma
mangedoura com o boi. O asno e feno. Não cuidou das estátuas
da Virgem, de S . José ou do Menino. Somente em vl.sio é que
um dos irmáos viu nesse conjunto o Menino Jesus. A confecção
do presépio, provavelmente assim inaugurada por S. Franclsco
de Assis, se tornou comum; mostrava-se também o Menino
- 215-
32 .. PERGUNTE F. RESPONDEREMOS.. 161 /1973

J esus num berço que os fiéis empurravam devagar; podia-se


tambêm encontrar a representação de um anjo n ensinar o Me-
nino Jesus a caminhar . ..
Muitos escritores de espiritualidade medievais propagaram
a devoção ao Menino Jesus. Assim Elredo de Licvaulx, no seu
..Tratado sobre Jesus aos doze anos» (cd. Migne lat. 195,
361-500) ; São Boaventura nos escritos «Sobre cinco festas do
Menino Jesus » e .. Lenho da vida ». Certos tratados de piedade
ensinavam aos fiéis como assJstir il Virgem Mãe ao enfaixar,
ao berçar e no lava r o Menino Jesus; ensinavam lambêm [l
arte de .. brincar» com o Menino Deus.
Contavam-se então numerosas visôcs nas quais aparecia o
Menino Jesus: a de S. Elisabete de Schõnau. a de S, Clara (que,
enferma e impossibilitada de assistir oà liturgia de Natal, con-
templou o presópio arm ado por São FI'ancisco), n de S, Angela
de Follgno e, principalmente. a da Venerável Margarida Ebner,
que gozava de amizade especial com o Menino Jesus,
No fim da Idade Média teve surto o costume de confec-
cionar estatuetas do Menino Jesus. Os motivos Inspiradores
dessa praxe súo múltiplos :
_ o desejo de prolongar o culto tributado n Cristo por
ocasião do Natal;
_ o desejo de conservar a lembran:,;a de uma peregrinação
feita ã Terra Santa (muitas estátuas eram trazidas da. cidade
de Belém, ou do IUisr da natividade do Senhor);
- a recordar,flo de milagres. secundo os quais Jesus Me--
nino terIa aparecido a certos fiéis na hóstia L'Onsagrada (a
Eucaristia e o Menino JCl':US Cl'nm inlimumlMle associados
entre si pela devoção medieval);
_ a intencão de f)rotegcr a construção de uma casa (em
a lgumas regiões da Bólglca c da Alemanha. colocavam-se es·
tatuetas do Menino Jesus em terracota OU argila nos funda-
mentos das CllSQ.S).
De modo geloa l, a pintul'a, a. poesia. e as artes medievais
(Inclusive o teatro com seus autos -..! mistérios) exaltaram elo-
qüentemente o Menino Jesus, a Virgem SS, e os episódios da
infância do Senhor; os I'eJatas dos ap6clifos foram não mro
utilizados como fontes Inspiradoras dos temas dessas expressões

- 216 --
o MENINO JESUS DE PRAGA 33

de arte. Os cartões congl'atulat6rlos de Inicio de ano traziam


multu vezes a Imagem do Menino Jesus.
Este desabrochar da devoção ao Divino Menino -chegou ao
seu auge nos séc. XVI/XVIl, como abaixo veremos.

1.3. A partir do séc:. XVI

Foi na Espanha que a piedade dos fiéis mais se voltou


para Jesus Menino no séc. XVI.

S. Teresa de Ávila (t 1582) deixou apenas breves poesias


sobre Natal e Epifania, mas muito propagou as estatuetas do
Menino-Deus: em Suas viagens. ela freqüentemente levava nos
braços uma imagem do Menino Jesus. Em ViUanue'/8 de Jara
(1580), uma das últimas fundações de Carmelo empreendidas
por Teresa. a santa exortou a provedora do convento, Ir. Ana
de S. Agostinho. a que recorresse ao Menino Jesus; Ana entãc
orou diante dele com palavras cheias de ternura, e conseguiu
que muitas de suas dificuldades de ecônoma e priora fossem
dissipadas por Intervenção do Menino Jesus.

Na Espanha, dIfundiu.se o costume de representar o Me-


nino Jesus como Rei triunrante, aureolado, a segurar o globo
da terra e a cavalgar sobre uma águia. Um companheiro do
navegador espanhol Fernando de Magalhães em 1521 teria
deixado uma dessas estatuetas em Cebu nas Filipinas.
A reforma cannelita reaJizada por S . Teresa na Espanha
propagou-se Jogo na França; com ela. lncrementou-se a devo-
ção ao Menino Jesus neste pais. O Cardeal francês de Bérulle
(t 1629) entrou em contato com os arautos espanhóis de tal
devoção e escolheu como priora do primeiro carmelo refor-
mado na França a Ir. Ana de Jesus, fervorosa devota do Me-
nIno Jesus. Teólogo como era! Bérulle elaborou uma série de
escritos em que desenvolve os grandes temas da piedade para
com o Menino JesUS j a dependência, o silêncio, o apagamento,
a humildade de Jesus são considerados por Bérulle como véus
que encobrem a riqueza de vida e de poder do Menino Deus:
cNo Menino Jesus, ... há incapacidade, mas muito capaz, Isto
é, capaz da Divindade e mesmo cheia da DivIndade, Há indi-
gência. mas cheia de vida. e da vIda mais subUme~ ( t:Oeuvres
de p!été. 48,3) .
-217 -
3~... .. _ . _ .~PER.Y.~~trE . ~;. .. I.~E!:SPQ~E'~~f._~!~~ _ lG1/ lD?3

Outra notãvel porta-voz da devoção ao Menino J esus foi a


carmclita MArgal"lcta do SS. Sacramento (1619-1648) do Car-
melo de Bcaunc (Fran(,"u). Aos 24 de março de 1636, essa Innâ
reuniu pe"a primeil'a vez «os dom~ticos c associados da familin
do Menino Jesus •. E.<tml _rnmllia. celebrava () dia 25 de cnda
mês em memól"ia da Anunciação a Maria e da Natividade do
Verbo, recitava diarinmente a ceoroa de Jesus» (12 Ave-Marla
(~ 3 Pai-Nosso); ll lêm do que, cada um dos devoto... procurava
acompanhar, com o C'spirito c o areto, todas m: nç(~~, :IS pnla-
VI'US e os mistcrios de Jesus-Menino.

São João Eudes (t 1680), J, Pal"isot (t 1ti7~), Jean-Jacques


~Uer Cf 1657), S. Francisco de Sales (t 1622) concorreram,
cada Qual do seu modo, para Incen Uvar a devoção ao Menino
Jesus. Ela se conse lvou al6 os nossos tempos, podendo-se notar
Que no sêculo XIX se Introduziu na piedade católicA o cosrume
de dedicar o mês de Janeiro ao Menino Jesus; esta prática
Inspirou ampla bibliografia e, sem dúvida, fo mentou a oracão
C' a santificação de numerosos fiéis católicos.
Rcsta·nos a;ol"n considerar dlrctarnentC'

2. A imagem do Mertino Jesus de Praga


1. A tendência a confeccionar estatueta.<::: do Menino Je-
sus, Que se manifestou na Idade Média, e tomou particular im-
pulso a partir do séc. XVI (tenha-se em vista S. Teresa de
Ávila)! deixou seus vestígios atd hOje em algumafi famos.1.s es·
tátuas do Menino Jesus, gual"t:ladas; ·em santuãl"ios próprios .
Geralmente se contam milagres obtidos por fl6is que em tais
santuários pediram gratas. t; o que dá fama especial n tais está-
tuas e seus santulLrlos.
Vamos enumerar algumas dessas imagens famosas e re-
fletir sobre o 5(!ntido teológico que posso. ter a respectiva de-
voção.
a ) A mais conhecida dessas imagen~ ê, sem duvida, a do
Menino Jesus de Praga.
TEm sua origem na Espanha do soe, XVI. Com efeito. a
princcza Pollxcna d~ Lobkowit2 I~vou da Espanha para Praga,
como presente de núpcias, uma estatueta de cera, que repre-
sentava um pequeno rei. Que com uma máo ::;egurava um globo

- 21~ --
o :\"';;-';1 :\0 JESUS DE PRAGA

! !,:Ct.!Undo O estilo espanhOl) c com 8 outra abencoava, Em 1628,


a princesa de Lobkowitz doou ess.., Imngem às Cannclitas de S
Maria da Vitória em Praga, Em 1638, fa l imagem tomou-se
onjcLo de culto em toda a Boêmln : ntl·ibuíam-se..lhc milagres,
t'Onvca'$ÕCs e fe itos mill'ilvllhosos. Um dos mais ardorosos após.-
tolos desse r~rvoroso movimen to de expansão rol um religioso
chamado Cirilo da Mãe de Deus (no século, Nicolau Schokwl-
Icrg) , que desde 1629 dizia ler sido larga mente agraciado pelo
sr.u «Jcsu[c in ~ ( [X ~q u eno J esus ). Em 1641, construiu-se em
Praga um orHlõrio, (:001 uma enniua anexa, onde os fiéis po-
diam passar dias de mtlro. A cstâtua do Menino J~sus ai foi
enU'Onizada em 1651 c coroada em 1655.
A irradiação da de\'o:ão ao Menino Jesus de Praga foi
enorme e duradoura até nossos d!us. No século xvm. o raclo-
n ..jismo e n legislação joserista (Jos~ II da Áustria era o cIm-
pcl'ador Sacristão:., imbuldo, pol'êm, de racionalismo e prin-
cípios <liltipapais) d~li\'crilm um pouco a difusão d.l devQCão
ao Menino Jesus de Praga: lodaviél nfio a puderam impedir.
Sejam mencionados a inda

b) di Santo Bamblno . da Igreja Al'aceli e m Roma, con-


f ccelonado no soc. XVI com lenho do horto das Oliveiras ou
Getsêmani. Ê nii.o mro levado aos hospitais e casas de enfer-
mos. Na épocas de Natal torna-se especial objeto da piedade dos
fiéis:
. c) ou ir;rcja. de S. Andrca. c1elllL- Volte em Roma, são vene-
d'l'udns outras duas imagens rio Menino Jesus, assim como
d) na. Cns!I dllS S,,):!lIianu em Vfterbo (ltáUa). Nole-se,
aliás, que n cidade de Lucea (Toscana- se ternou um grande
c:entro de !abricn~ ão de 'l"Bamblnb, que os fiéis levavam para
os seus oratôrios pnrticularcs:
d) 11:1. J~jn dus Dnmlnic..1nus de Altenhohennu (Aastrtn)
existe uma cst.i.tua do Menino Jesus do séc. XVI :
c) o mesmo se diga com re'ação ao santuário de Filshloos
(ÃuOJttia);

n no 1J1000tciro c1~ Hentberg (AlcmanJm.), encontra-se


tambóm uma cstó.tlln do Menino Jesus, muito venernda pelos
fi6is ai agraciados.

- 219 --
as .PERCUNTE E RESPONDEREMOS. 101/ 1973

g) Na. igreja de Lorcto em Salzburg (Austrin), venera-se


o «Salzburger Jesulein» (o pequeno Jesus de Salzburgo), muito
visitado por peregrinos.
Pergunta-se agora:

3. Oual o sentido de tais devoções?


Respondamos por ctapas:
1) :l: lícito confeccionar imagens e estátuas do Senhor Je.-
sus e dos santos. Tais objetos não são o termo da adoracão dos
fiéis, mas desempenham função relativa: lembl"am Cristo e os
hel"óls que nos pl"eCCdcnm na vida presente, excitando assim os
fiéis à piedade.
2) Ao Senha!" JIlSUS, como Deus, os cristãos pedem graças;
aos Santos apenas rogam que intercedam pelos innáos na terra
e assim lhes obtenham as graças necessárias para chegarem.
também eles, à Casa do Pai,
3) Existe um só Senhor Jesus e, por conseguinte, um só
Menino Jesus. OS titulos que se lhe atribuem (<< de Praga, de
Vlterbo, de Salzburgo ... :» ) apenas recordam manifestações
especiais do Senhor aos seus fiéis - manifestações ocorridas
neste ou naquele santuário . . .
Pode-se entender que o Senhor Jesus, presente em toda
parte, queira tornar partlculannente notória a sua presença
em determinado lugar. As criaturas humanas são psicossomá-
ticas, constando de matéria e espírito ; por isto são beneCic:ladas
em sua piedade se podem recorrer a sinais sensive1s para se
excitar na devoçáo. A Biblla apresenta numerosos exemplos de
santuários qUI! o próprio Deus, jã no Antigo Testamento, quis
assinalar com testemunhos especiais de sua presença e ação
em favor dos homens; assim os santuários de Betel, Mambré,
DA, Jerusalém. , ,
No Cristianismo pode-se crer que também haja lugares em
que Deus faz notar mais sensivelmente a sua benevolênda a
fim de convidar os fiéis a maior fervor e piedade.
4) De modc especial, pode-se crer que realmente em Pra-
ga Cristo tenha dado o testemunho de sua misericórdia aos
fiéis, atendendo a pedidos de graças, derramando luzes de con-
versão, etc. cada fiel católico é livre para formar sua consciên-
- 220-
o MENINO JESUS DE PRAGA 31
ela a respeito. caso julgue haver motivos para o fazer, ore ao
Senhor Jesus, tendo em vista a misericórdia de Cristo manifes-
tada 8 outros fiéis em Praga, Tal devo;ão ~ legitima..
5) lt absolutamente necessárIo, porém, que a (Iração inspi-
r ada peja perspectiva de Cavores nolórios ou extraordinários
não degenere em supersticão e fanatismo. Deus, sem dúvida,
quer que oremos: cPedi e recebereis; procurai e achareis; batel
e abrlr·se·vos-b, diz Jesus (Lc 11, 9) . Sabemos que nenhuma
oração bem feita é perdida; mns não temos garantia algwna de
que, orando, seremos atendidos da maneira que es'".lpulamos,
recebendo necessariamente o objeto que pedimos. Deus sabe
melhor do que nós o que nos convém; por isto pode atender às
nossas preces não nos dando o que rogamos, mas algo de equi-
valente ou melhor, mais correspondente ao plano salvífico do
Pal.
6) Por Iim, diga-se: é para desejar que a fIgura do Meni-
no Jesus venerada em Praga não limIte os horizontes espirituaiJ
dos fI~ls devotos. Não faça esque<:er que Cristo velo ao mundo
para remir os homens do pecado e da morte. O ponto culmi-
nante de vida de Cristo é a sua Páscoa (que Inclui Paixão,
Morte e Ressurreiçã.o) .
Não há dúvida, Cristo Homem deve pairar sempre ante
os olhos da mente cio cristão, porque a vida humana de Cristo
dá certeu aos fiéis de que a nossa vida humana hoje jã foi
vivida e santificada pelo Filho de Deus até nas suas circuns-
tâncIas mais dolorosas. Todavia é preciso não esquecer que a
humanidade de Cristo nos deve levar a Deus Filho. a fim de
que por Deus Filho vamos a Deus Pai. Em suma: cpor Cristo
homem a Cristo DeuS; por Cristo Deus (Filho) a Deus (Pa1)~.
Vista no contexto de tais idéias, a devoção ao MenJno J e-
sus de Praga não degeneram em superstição, mas poderá ser
estimuJo de piedade para os f!éis que a ela quiserem recorrer.

Dlbllogr8fr. :
I. Noye, "EMane. d. Jésus (dévot lon)", em "Dletlonnalre de Splrltu...
1116" I. IV,1. Paria 1960, cola. 652-682.
C. Vln Mulll, "Crtch. (dévotlon)", Ib. li, 2. Pari' 1953, colll. 2520-2528.
C. van Hulat, "Bamblno Geau", em "Encllclopodla Cattollc." 11. CI~
dei Vaticano, cols. 771 ••
H. K[ene, "Jesueklnd, wunderUi.tlges", em "Lexlkon IOr Theo[ogle und
Klrch,,", I. 5, Frelburg 1./9r. 1960, cor. 966.

- 221-
LIma apéirlção em loco :

a senhora de todos os povos ...

Em slnle •• : As men$a~ ens da Senhora do Todos OS Povos Itm sua


origem em uma sério de " Bpari-;C!es do Mada 5 0ntl!'~ lmo " li um.. vidonte
t.le Amsterdam (Holandal. anlle n1õ"uço do 19-15 o mal., de 1!)5D.
Anunciam calamidades sobre o mundo, mudanças na Igreja e apro-
sentam Maria 55. como Senhora de lodos os povos, Co-Redonlola, Media-
neira e Advogade . ESles tltulos do Maria SS . d-everlam ser obJeto de novo
dogma a ser delinldo pelo sucessor do Papa Pio XII (ou lIela, por
JOio XXIII) .
Que dizar de lais ·'revel.çlles"? - A Igreja edmite ... posstbllldade de
aulAnlleas revelaçOes parlleulares. Aplice, porém, critérios rigorosoa para
luI9 ..·I.I; entre esses crtltutos, está e orlodolClo da doutrina prol."ad8
p.la rtspectlva menlagem. Ora no caso de vldenle da Amslerdam v"lflca-se
que .. multo oportuno o desper1ar da fervor que ela podo susclter nos leito-
r.$ • no povQ de Deu. em geral. Todavia a predlç60 de que Morta seria
solenemente proclameda Co-Aedentora, Medianeira e Advogada nlo se cum-
p,lu ; o Concilio do Vaticano I[ pronunclou-.e dlscrotamenle sobre o (l$Sunlo.
evU8ndo autorar os debates e as dlverg6nclas que nos anos de 1940/ 1960
se r.glsl'8ram em torno d. lals tIIulos n8 blbllogralla leológlca. Ademais
• IUl mlcellv. qua a vide nte da Amste'dam aprasanta para a MedlaçAo e 8
Senhoria de Maria é fracu a e!:lranhe. .; por tais mo1ivo9 que lulgamos
poder nlo atribuir crédito 6s "revetaçOes" doutrlnárla$ de Am$terdam.
Ollendo 1$10, nlo tencionamos deproclar em nada a genu Ina devoçlo li
Marl. SS.

• • •
Com(!ntá]'io: Vem-se difundindo grandemente os opúsculos
e estampas Que transmitem as mensagens de «Nossa Senhora
de todos os Povos,. Têm por bnse 56 «apariçõcs » da VIrgem
Maria, ocorridas no dcturso (le qU;;ltorzc anos, ou seja, desd"
25 de mar' o de 1945 ale 31 de maio de 1959 em Amsterdam
(Holanda) : Maria SS. , apresentando-sc a uma vidente {Que
desejou ficar no anonimatol, ter-!hc-â fe ito dlvers.'L"õ comunica-
ções orais; estus (oram consi~adas por escrito sob a Rss istên-
ela do confessor da vidente, que era o padre dominic ano Frellc
o. P. As «aparlçõcs:»dCl'8.m-sc gel'olmente em casa da vidente;
esta repetia o que ouvia. c a sua InnA. se encB1TCgava da reda~
ção escrita das mcn."-Ogens. Por rim, a vidente completou o texto ·
- 222 -
· _. ' _ ____~ SI~!!~On A nE 'I'0-ºP.:~. r,l:-> 1..'<-">"vo",,-s___.__,,,;9
l'SCl'ito. Este, DO m~I1OS nas sua.. primeiras pâginas, i! um tanto
prolixo e, as vezes, obscuro ou hermético.
Em Unhas gerais, tais mensagens aludem às calamidades
materiais e morais que o mundo padece. A Virgem SS. porém.
promete o fim da f'nt õI:l~.,t~t i étnlc (' 11 vinda do Esplrito Santo:
"Sabel que o Elplrllo Santo ast' mais prólClmo que nunea; entretanto
:!IÓ vir' se o pedlrdes. Chele o Inicio EI. IA .,te.vl, m.. agora chegou o
aeu tempo .. , Procurais, 'enlal, aqui e acol!. Também a I.to a Senhor.
dará uma respo.te. t que o Par!clllo Integra tudo Isto em lua obra. Sabel.
o que a Senhora quer dizer : Elo é Sal - Ele ê a égua" laparlçlo 51a.
do 311V1'95S).

Marlu SS. clevel'ã St!I' reconhecida como a Senhora de todos


os povos, como C<rRedentora, Medianeira e Advogada; estes
três últimos tltulos 'h avlam de ser espccialml!nte proclamados
pelo S. Padre. Aléom disto, as apariCôeS aludem a diversas na·
ções (Alemanha. Franca. Inglaterra. ltâJla. RússIa .. . ); também
aludem (segundo os tntêrpretes) ao Ctmcl110 do Vatlcano n e-
à reunião de todos os homens num só rebanho sob um só
Pastor!
"O Senhor e Rei quer conceder a unidade eaplrthlll lOS povos d..la
mundo. t !)ara Itlo qua In."la Mlr1am ou Maria - e ••mla como Senhora
de lodos 0$ povo." f36a . .,,1510, 2()IIXI1951). " VIm dizer a Ilta mundo
corrompido .. desamparado : unl'YOI lodos I VÓI, crlatlo., rMncontral-"Ios
uni lOS outros Junlo à Senhora da todos OI pO"lOa I Asalm COII'IO vai eft-
Conlrllll uni a():!l oulros perlo da cruz do Filho '" (oIh. "11110, GIIV/1952),
A real presença de Cristo na Eucaristia é partJcultll'ment.e
incutida - o que seria, como S(! julga, um eco antecipndo da
cnc:cUca de Paulo VI eMysterium tid~i:t. n qual tinha em mira
desvios doutrinários crlundcs na Holanda sobre a Eucaristia. A
vidente também terá visto antecipadamente o S. Padre Paulo
VI e a visIta do arcebispo de CantuArla, Oro Ramsey, a S.
Santidade ocorrida em 1966.
No domingo 11 de fevereiro de 1951, a Senhora de todos
mt povos ditou à vidente a sc~'Uí nt c oração:
"S.nhor JesuI Cristo, Filho do Pai, enylal agora • 11m o VOHO
Eaplrlto. Fazel qUI o EsplrUo Sento habita no coraçlo de todoe oe povoe,
I Um de qUI "Iam preservados da corru~o, das calamidades 8 de
guerra. Sela a Senhora de todos o. povos. que de Inlclo 101 Marla, a noaaa
Advogada. Am6m".
O aposto da frase tlnal eqUê dI! inicio foi M'8.I'la» causou
estranhezn ao Pc. Frehe e às autoridades eclesiásticas que vi-
-223 -
40 cPERCUNTE E RESPONDEREMOS, 16111973

ram tal prece; na verdade, a Virgem c e será sempre Maria.


Por Isto quiseram omitir tais palavras do texto a ser divulgado.
Em conseqüência, diz a vidente que numa aparição posterior
f\ Senhora confirmou, com tipo de imprensa, o texto da ora-
ção e apresentou a seguinte justificativa:
"Que de Inicio foi Maria significa: mullas peSSOIlS conhecem Maria
corno Maria. Agora, porém, neste parlOdo novo que se Inicia, eu quero ser
I SENHORA DE TODOS OS POVOS. Ilto, todM o podem entende'"
(21V1I /1951).

Já que não se dissipavam as dúvidas sobre a dis<:utida ex-


pressão, a Virgem n terá novamente recomendado à vidente em
6/1V/7952,
"Dize aOI leólogol que nlio eslou contente com as modlllcaç6es da
oraçlo. 'Que a senhora d. lodo$ os povos, que de Infclo foi Maria, seja
nossa Advogada', deve ficar assim. O Senhor e Criador escolt.eu enlr.
todl. a. mulheras Mirram ou MarIa para M.l.e do leu Divino Filho. Ela
valo. ser a SENHORA no I8crlHclo da cruz ... "

A vidente descreveu no pintor alemão Heinrlch Repke os


traços da «Senhora de todos os povos:t que lhe aparecia: esta
pisa o globo terrestre; em torno da terra vê-se uma multIdão de
ovelhas que representam todos os povos; das máos da Senhora
jorram raios: pOr trás da mesma aparece a Cna: do Salvador,
e, à guisa de auréola, ao redor .da cabeça da Senhora, lê-se:
cDe Vrowe van alie Volkeren» (A Senhora de todos os povos).
O trabalho do pintor sofreu numerosos retoques para me-
recer finalmente a aprovação da vidente em 1951, O Sr, Bispo
de Haarlem, D. J. P. HuJbers, em cuja diocese se davam os
fatos, levantou dificuldades para permitir a divulgação de tal
imagem. Chegou mesmo a retirar a licença anteriormente con-
cedida para tanto, pois foi aberto um processo sobre a autenti-
cidade das aparlcões da Senhora de todos os povos em 1955.
Finalmente a estampa, juntamente com a oracão «revelada pela
Senhora:., foI entregue ao uso do púbUco r o texto, traduzido
para 32 linguas, está. sendo espalho.do com a respectiva estam-
pa pelos mais afastados recantos do mundo.

Já que as mensae;ens da Senhora de todos os povos têm


despertado interesse e também certa perplexidade, as páginas
seguintes proporão algumas renexões sobre as mesmas, no
Intuito de ajudar o leitor a se orientar diante das lnterrogaçõe~
que o caso tem suscitado.
- 224-
A SENHORA DE TODOS OS POVOS

1. ReYela~6es particulal'ês
A fé católica não recusa admitir que Deus, por soberana
e gratuita disposição, possa pennittr a aparição de algum santo
ou personagem defunto aos viventes deste mundo. Tais apari~
ções são chamadas «aparições ou (quando trazem mensagem)
revelações particula.res», para se distinguirem da Revelação
pública. que o Senhor Deus fez através da Tradição oral e das
Escrituras Sagradas.
Para se julgar a autenticidade de alguma apar:l(á'O ou re-
velação particular, aplicam-se determinados critérios, que p0.-
dem ser assim compendiosamente recenseados:
1) A «aparlção:t hâ de ser espontânea, isto é, não provo--
cada por algum «despacho, trabalho~ ou artimanha. Os viven-
tes deste mundo não têm faculdades sobre os seus innios que
partiram da vida presente, de modo a poder constrangê-Ios a
«voltar:. ou aparecer na terra. Os cristãos podem, sim, pedir a
Deus a lntervencâo ou intercessão dos santos, mas não a p0-
dem desencadear. - Nisto o catolicismo se diferencia essencial..
mente do espirItismo e da umbanda, que julgam ter receitas ou
passes capazes de atrair a interferência dos defuntos ou «de-
sencarnados...

2) A finalidade de uma aparição de santo (a) , quando


permitida por Deus, é a conflnnação dos homens na fé e nos
bons costumes. Deus não realiza portentos ou milagres sem
ObjEtivO sério e proporcionalmente Imperioso.

3) caso os dizeres de uma revelação particular destoem


dos artigos da fé católica e das retas normas da moral, tal «re-
velação~ é comprovadamente falsa; será fenômeno parapslco--
lógico (projeção da personalidade subjetiva do vidente) ou pro-
duto de Intervençlo diabólica (o que se pode crer seja mais
raro).
4) «Pelos frutos se conhece a ârvore. (cf. Mt 7, 15-20).
Por conseguinte, se de uma determinada aparição decorrem
frutos positivos, principalmente no campo espiritual (conver-
sões à fé. ao fervor da piédade, mudança de vida moral ... ).
tem-se indicio de provável autenticidade dessa aparIção. Tam..
bém são crltérJos positivos e abonadores: a virtude dos viden-
tes, sua fidelidade à reta doutrina, sua humlldade, sua obedlên-
-225 -
42 .PERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 161/ 1973

ela às legitimas autoridades da Igreja, seu desapego de dinheiro


e vantagens materiais ...
5) Nos últimos anos, tem-se multiplicado o número de
dJtas aparições sobrenaturais. Não poucas destas foram poste-
riormente comprovadas como efeitos de Imaginação fértil, su-
gestão forte, alucinação patológica ou embuste dos evidentes:..
Dai a cautela com que as autoridades da Igreja procedem
quando se anuncia alguma visão sobrenatural.
6) Ainda que 'h aja sinais positivos em favor de determina-
da aparieão, esta nunca se Impõe obrigatoriamente à fé dos
cristãos; quem não a Quer aceitar, não a aceite. As autênticas
revelações particulares não podem apresentar novas verdades
de fé, mas apenas pôr em relevo proposições e normas já con-
tidas na perene mensagem do Cristianismo (necessidade de
penitência, conversão, oracão, função de Maria SS. no plano re--
dentor de Deus .. . ). Em geral, contêm proposições e exortações
que visam a reafervorar o povo de Deus abatido ou angustiado.
Sob a luz destas ponderações, lancemos um olhar para os
fatos relacionados com a Senhora de todos os povos.

2. A mensagem da Senhora
Alguns pontos das revelações feitas à vidente de Amster-
dam chamam a atenção do estudioso e do teólogo:
1) A ênfase com que é prometida a efusão do Esplrlto
Santo ... O fato de Pentecostes ocorrido no inicio da era cristã
parece não ter sido suficiente e definitivo - o que seria errôneo
pensar. Tenham-se em vista as seguintes declarações atrlbuldas
à Senhora:
"Dize o segulnle: O TEMPO ~ CHEGADO. O ESPIRITO SANTO DEVE
VIR A TERRA" (441. vlslo. 8/XII/1952).
"ISTO AGORA t O TEMPO 00 ESPIAITO" (43a. vlslo, 5JXl1gS2).
"Ambos agora (O Pai s o Filho) querem "ENVIAR O SANTO E VER-
DADEIRO ESP!RITO. Só Ele pode trazer a pu" (338. vlslo. 31IVJ1gS1).
2) Com grande realce a mensagem promete: o envio de
Maria - o Que é amblguo:
"Agora o Pai e o Filho qUlr enviar a Senhora, enviá-lI ao MUNDO
INTEIRO. Poli folel. Clue outrora PRECEDEU o Filho: foi ela que o SEGUIU.

- 226-
A SENHORA DE TODOS OS POVOS

Por 8$la razlo aslou AGORA am p6 sobra o mundo - o globo - ; • a


cruz ui' nele solidamente lixada e PLANTADA. D. novo, a Senhor. \tem
P~-H em p4 diante da crur, na qualidade da MI. do FI/no: a Mia que
com Ele cumpriu 8 obra da RedançAo" (318, vlsAo, 15JIVI1951) ,
"Vou dlrer·te por que me apresento sob eata forme: EU SOU A
SENHORA EM PI! DIANTE DA CRUZ, A cabece, as mlos, 011 pés, .....
meltlam-ae aos dos nome"l; o reslo do corpo, por'm, d' testemunho do
Espltlto. Porque o Filho velo por vontsde do Pai. E AGORA' O ESPIRITO
QUE OEVE VIR AO MUNDO, E eu venho a fim de que razam Msla ..nlldo"
(288. vlslo, -4111111951).
3) Não poucos traços da mensagem são estranhos e pare-
cem exprimir mais fantasia do que antêntica revelação sobre-
natural. Levem-se em conta os seguintes dados:
"A SannoR aparece, lendo nos braços uma criança. Depola, como
se houvesse lubUamenta descido, el-l1 af, de p4 sobro o globo. E O globo
glra-lhe debaiXo. dos péll. El a ma fita e diz : 'Veml Segue-rne'. Eu a algo,
I! como 18 8stlv6ssemos a percorrer o globo. A Senhora voUaoaa para mim
e, designando o Menino, di,: '8 ale que eu quero novamente levar ao
mundo'. Ao dizer 1110, sua cebeça oscila $Im e....' da esquerda para a
direita e da direita para e esquerda.
Eu consIdero o Menino; mas Já nlo li um Menino: o Menino trans-
formou ..e nUM. Croz. A cruz cal por Itrra a quabra-s8. Eu vaJo o mundo,
O mundo Jaz cobar1o de treval. A Senhora diz: 'Levat-o DE NOVO para
este mundo r Ela designa a Cruz. A Cruz es" ergutda no lugar cantral do
mundo. Uma multldlo a rodela. Vêem-se ali pessClas de toda espéc1t; toda.
porém, aaqulva", .. e da CrUL Enlla sou tomada da uma axlrema fadIga.
Quelxo-me disso .. Sennora. Ela me responde com um sornso.

Enllo eu vi: a Senhora allgu,...e-",o aQOra como sentada numa


espécie de trono; e o MenIno, de quem emana uma granda luz, deacansa
em seUl Joelhos. Ela diz: 'Antes de mel, nada, voltal para ere. $6 entlo
vir' a PAZ VEROADElRA.'" (911. vlslo, 29/111/1(46).

Ou ainda:
"Sucedeu da pOis dl,to um falo bem eltranho. Do globo tanabrOllo,
surgiram cabeças human.. em gl1lOO8 mlmero. E hOmens de toda esp6cta
subIam lenlamanle du .profundeza,. E eIs que, de sllblto, \lI-os todo. ag~
pedos na sU'Perlfcle do hemrl!érlo. E au dizia de mIm para mIm, ao CO""
templar aquilo : como li posal....1 que ".Ia lanla dlvaTlldade, tantas raça.
antra OS homeM'
Entlo 8 Senhora estandeu as mlos sobre 8 mullldlo e pereceu aben-
çoA-Ia . ..
E a Senhora de repenle des.parecau; • o que a .ubsll1ulu foi uma
Imensa HÓ5t1a. Ume MsUa enorme, mil comum, falia com pio h lmo,
samalhanta às que se vêem na IgraJa.

DepoIs dlslo, dIante da Matle valo um cética. Era da um ouro mara-


vilhoso. O cálice entornou'Se na mInha dlraclo. Um rio Cfe .angue dele

-227 -
« cPERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 161/ 1973

Jorrou. Rio, de sanou• . O sangue derramou·,. pelo globo e escorreu SDbre


a la"a. Aqvllo durou tempo conslde,jyel. E o aanogue corria 8ITl tOfren tes
Ince.santes. Ev estava 'tomada de horror.
Bruscamente a vlslo apagou·se, ou antes "analormou-se na de uma
só hóstia, porém 110 e,plendorosa de luz que, mala uma YIZ, precIsai
proleger-me os olhos com as mIas. E tambam desta leha aenll-me obrI-
gada a olhar o darlo oluscanle. FileI 8 hóslla. Ela me pareceu Inllo ser
corno um fogo ordlnjrlo, porém branco . No centro, havla 81go corno uma
pequana aberture - ume ruptura - nem sei bem como descrever Isso.
De rapente, aconteceu como se a hóstia eKplodlssa. Cela saiu urna
figura. Uma Passoa qua Uuluava : Alguam. Tinha um aspecto 110 sublime,
date emanava um lat poder, Iflacrleva uma lal majestade que, tomada de
mado, eu mal me atrevia e olhar.
E enquanto contemplalla este Sar, Ista Ser (mJco, algo Inter'or me
Inl Ugaya de continuo a pen,ar: e todavia ales sio DOIS. Eu, porém, nade.
mal. vIa do qua UM.
A advertência durou tanto quanto a vlslo: E todayla ara. do DOIS.
E el! que, NO MEIO DEl.ES, Jorrou uma lu:. NO MEIO DELES, 11m,
uma luz lnelével e, nesta tuz, uma Pomba. Salda como o corisco, ela pre·
clpltou-ae em dlreçAo ao globo, numa Irrldlaçlo Indlzlval da tIo Inlenas
cllrldada que, pela lercelra vez, praclsal prolegar-ma os CllhClI com amA0.

Embora sentisse o. olhos magoados e a arderam~e, senll·ma nova-


mante obrigada a olhar. Ou, glória, que pot6ncla emanava di Iuclo aQullol
Dum. parta, ELE-DOIS, • Flgur. lIut uant., n.s IrradlaçOaJ de 'UI maJaS"'
lade aubtlme j doulra parte, o mundo, Igora iluminado I" (!i6l. vlslo,
31 /V1 1958).

O leltoJ:' mesmo julgará o Que estas visões possam ter de


estranho e fantaslsta,

3. A Medianeira e Advogada
1. 1: notória a Jnsistência com Que a mensagem da Se-
nhora de todos OS povos pede a proclamação de Maria como
Co-Redentora, ~(edlp.nelra c Advognda. Assim, por exemplo,
r efere a. vidente 8S seguintes palavras colhidas na 31. visão,
80s 31/V/1951:
"EIs Que venho; astou aqut em p6, a venho plra dIzer-te que quero
.8' Maria, a Senhara de todos os povos.

Presta atançao e v6 : Eu ma mantenho em pé dlanta da cruz do Re-


dentor: e mInha cabeça, as minhas mlos, o, meus pés .ssemelham·se aos
dOI homens: em meu corpo, ressalta a natureza do Esplrllo .

-228-
A SENHORA DE TODOS OS POVOS

Tenho os p6s 'Irmemenle apoiados no solo, porque o Pai • o Filho


qUlr, nos dias da hoja, envlar·me ao mundo na qualidade de Co-Retlenlorll,
Medianeira e Advogada . E tar ser' o objeto do novo a derradeiro dogma
marlatlO".

Aos 6 de abril de 1952 (41' visão), voltava a Senhora a


(alar:
"DIle aOI la610901 : a SenhOril Islava presente ao aacrlUdo da cruz.
O Filho disse .. sua mie : 'Mulher, eJa o leu filho', Deslar1e, 80 aacrlflclo ,
que remonll IIslI lransmullçlo.
o Senhor I Criador escolheu, dantre lodas as mulhenilla, para 8If
Mie do .eu orvlno FHho, Mlrlam ou Maria. EII passou a aer • Slnhor..
Co-Radlanlora a Madlenalr., ao con.umar.... o .Icrllk:lo da cruz. E 101 o
Filho quem o proclamou, no Instanta da nllorn.r a sau P.I.

EII por que na hora presente eslOU ravllando 1116 nome e dlzando:
Eu 10U I Sanhora de lodol oa povoa, que de inIcio 101 Maria, DIzI "lO 101
leólogol. E til é. para o. teólogos, o lenlldo dl.tas p.r.yras.

o tampo a\ua\ I) o nOllo lempo,


O novo dogml. uma vaI promulgado, ser' o ulllmo dogml mlrl.no:
• Sanhora da lodos os povos, Co-Radantora. Medianeira e Advogada, Foi
para o mundo Int,lro qUI, na hora do ,acrlflclo da cruz. o Filho lu
outol'g'e dles'l titulo. Portanto quem quer que .llals ou o qUI quer qUI
'ac:all, eu 10U para voa a SENHORA".
2. Diante de tão enfáticas recomendações do novo dog.
ma marlano, pergunta·se: que diz a teologia atualmente sobre
a Mediação de Maria na Redenção do gênero humano?
No século passado. e mais ainda no século XX. foi wmando
vu1to na bibliografia teológica a tese de que Mana é Medianei-
ra de todas as graças dlstrlbuidas aos homens ou mesmo Ccr
-Redentora. As maneiras de explicar tais atributos da Virgem
SS. eram variadas e múltiplas; a1gumas chegavam a exagerar
as funções e prerrogativas de Maria, não ressa.1vando devIda-
mente o Inconfundível sacerd6cio de Jesus Cristo; a piedade
mariana (oi assim petdendo contato com as suas fontes bibn-
cas e tradicionais.
Em 1940-1960 houve moções de bispos, sacerdotes e fiéis
católicos que pleiteavam da Santa Sé a definição de que Maria
é a Medianeira de todas as graças, a Co-Redentora com Cristo ... ;
os teólogos, em livros e artigos que se avolumavam, procuravam
estudar em que sentido exato .se poderiam entender tais titulos
da 'virgem SS. - Sobreveio o ConclUo do Vaticano n (1962-
-1965). Este deixou aos fiéis católicos um capitulo dedicado a
-229 -
46 .PERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 161/1973

Maria (cf. Consto«Lumen Gentium:t c. 8). Neste texto são exal-


tados os predicados e. o papel que a S. Escritura e a antiga
Tradição atribuem à Virgem Mãe na obra da Redenção. A ex-
pressão cMedianeira de todas as graças. aí não se encontra
como tal; era relativamente nova e nem sempre clara entre os
teólogos. O titulo . Marla Medianeira. sofreu forte oposição por
parte de bispos c teólogos do Concilio. Finalmente foi aceito em
justaposição com outros predicados ( . Advogada, Auxllladora.
Protetora, Medianeira. ), de modo Que perdeu no texto conclllar
o seu significado técnico e sujeito a ser controvertido. A media-
ção de Maria é admitida como continuação de sua maternidade.
Com efeito, a função maternal de Maria em relação n Cristo
explica que ela possa ser tida como Mãe. Auxiliadora, Prote-
tora, Advogada e Medianeira dos membros de Cristo Místico
ou dos cristãos. Todavia - frisou bem o Concilio - tais fun-
ções de Maria não derrogam em absoluto à mediação sacerdotal
de Jesus Cristo; mas, ao contrário, derlvam·se desta como fru-
tos e expressões da mesma. Eis li. passagem do Concilio que vem
ao caso:
UA malernldade de Maria na dlspensaçlo da graça perdura Inlnter·
ruptamente a parUr de consentimento que ele !lelmente prestou na Ànuflo
claçlo. que sob e cruz resolutamente sustentou, até a perpétua conlu·
maçlo de todos os eleitos. Assunta aos céus, nlo abandonou asle sal..,l·
!ico encarso, mas por sua mu'tlpla Inte rce"lo prossegue em gran,ea r."o.
os dons da sat\laç!o alerna. Por sua maternal caridade cuida doa Irmlos
de seu Filho, que ainda peregrinam rodeados de perigos e dificuldades, até
que saJam condUlldos 11 lellZ pitrla. Por Isso a Bem·avenlurada Virgem
Maria ê Invocada na Igrela sob os tltutos de Advogada, Au.:lII"or.. Prot.-
t011l, Medianeira. tsto. porém. se enlende de lal modo que nada dertogue.
neda aeraseanta ti dignidade e eficácia de Cristo, o único Mediador" (Con.!.
" Lurnen Oantlum" n' &2) .

E m suma, a maternidade de Maria, perdurando através dos


séculos em relacão a Cristo Místico, significa Igualmente me-
diação ininterrupta na distribulc50 da graça obtida pelo Re-
dentor. Nota multo a propósito o P adre J. Balot:
"5&r6 praferlvel, ao admitir a leglllmldade do voc6bulo 'medlaMlI"'"
fazer sobre!!alr a maternidade de Maria e da Igreja. A IdéIa de uma
colabonçlo matarnal para o nascimento e a educaçlo dos crlstlos surge
notavelmanta mais rica do que aquels da medlaçlo na dlstrtbulçlo das
graças. Esta ultime expressA0 representaria a graça mais como uma coisa,
Itnquanlo as relaç(lea pessoal. sa revelam principalmente nll f1oç1o de
maternidade. Nlo 6 latao reconhecer em Merla a IntermedIAria que con-
corre para a concaSllo das graças divinas, mas' mais verdadeiro ainda
ancontrar nela a mia Que vela pelo desenvolvimento da vida esplrllulIl de
.eue fIIhoa. E, a exemplo da Vlrgam, a tgreJa se toma mal. pr6xlma de
nós com o Ululo da mie do que com o titulo de medianeira" tUA Igrela
do Vaticano 11". Patr6poIJI 1965, p. 1184).

- 230-
A SENHORA DE TODOS OS POVOS (7

3 . Voltando agora a considerar as revelacões de Amster-.


dam, veriCicamos que dependiam das circunstâncias da época
em que foram feitas; exprimiam o modo de pensar de multos
fiéis católicos de 1940-1960, mas não correspondJam ao que
haveria de acon~r. Não somente não se deu a delIruçio
dogmática dos titulas marianos preconizados peja mensagem
de Amsterdam, 1 mas atualmente, após a Concilio do VaUcano
lI, nem os teólogos nem o magistério da Igreja pensam em pro-
mover a defJnlção de novo dogma mariano. Tem-se, mais do
que nunca, consciência de que as defJn1cÕes papais ou concll1a.
~ são pronunciamentos do magistério dito cextraordlnArlo. da
Igreja; para que detenninada proposição possa ser tranqUlla·
mente professada peJo povo de Deus, não é necessArio que o
magistério ex1raordinãrio a defina, mas basta seja reconhecida
com unanImidade pelos bispos unidos ao Sumo PonUflce.
Estas considerações Jant'Bm em certo descrédito as noti·
elas da vidente de Amsterdam relativas à MedianeIra.. Pode-&é
dizer que não foi Maria SS. quem comunicou tal mensagem,
mas toi a própria vidente quem (inspirada por quanto se dizia
em seu tempo) a formulou.
Ademais a fundamentação teológica que tal mensagem
apresenta em favor dos titulos marianos de cSenhora, Co-
,Redentora, Medianeira e Advogadaa é sujeita a reformulacão.
Com efeito, diz a vidente:
"Mlrll passou a ser a Sonhora, • Co-Redanlorl 8 Mtdlantll'l, '0
consumar-H o sacrlllclo da CNL E 101 o Filho quam o proclamou, no Ins-
lanta de ralornar a seu Pai".

Numa visão teológica apurada, não se vê por que assinalar


com tanta precisão o momento em que Maria ter! recebido tala
titulas. E, antes, todo o teor da vida e da missão de Maria
(desde o sim dito ao Mensageiro da Anunciação) que a torna
Mãe, Senhora, AuxiJiadora e Medianeira. A principal prerroga-
tjva de Maria SS. é a Maternidade divina; a sua med1aç§.o na
obra da Redencáo há de ser vista estritamente à luz deste titulo
mAxlmo da. Virgem Mãe.

• Na 541. vlslo (19/11/1958) • Senhora ter6 dllo • vldanle :


"O sucessor de Pio XII promulgar' o Dogma (da Co-Rodontort, t.4.
dlanolra o Advogada)",
Ora o Papa Joio XXIII, que aucedou a Pio XII, nlo promulgou
dogma algum,

- 231-
48 ePERGUNTE E RESPONDEREMOS, 161/1913

4. Conc:lusão
A mensagem da vidente de Amsterdam é vâ1ida e aceitãvel
na medida em Que constitui um despertar de consciências e wna
exortação à conversão para Deus e ê. pureza de vIda. Pare<:e,
porém, temerário atribuir à Virgem SS. os dizeres da mensa-
gem. Esta é fan-t asista demais para poder ser tida como autên-
tica revelação do Céu; traz o estilo hennetico e Imaginativo
que muitas vezes caraderlza a literatura apócrifa antiga e
moderna.
Este julgamento não pretende derrogar em absoluto ao
valor da devoção a Maria SS. Nem seja tido como desestimulo
da autêntica piedade. Apenas tenciona fornecer ao leitor os
meios para distinguir _mensagens do Além" a fim de que ~
nha uma fé e wna vida de oração finnadas sobre os sólidos
fundamentos da Palavra de Deus, e não sobre concepções de
videntes não autenticadas.
A mell$lIgem dI Senhora de lodos OI povo. encontra-se em opúlculos
de H. A. Brouwer 1.1. (C.p. 285, Porto Alegre, RS) e Raoul AucJelr (C.
p. 310, Rio de Janeiro, GB).
Estêvão Bettencourt O.S.B.

(arta aos amigos


Da Cidade Santa de Jerusalém, onde a Provld~n do Divina , por
melo (Ia bondade de amigos, me quis proporcionar o ensejo de estudos
e reclellgem, desejo enviar aos leitores de nouo PR as mais efusivas
saudações e o testemunho de que lhes conti nuo multo unido através
do espaco.
VIVemos numa fo!\(! da hlioltórin da lireja e da humanidade em que
os contatos humanos e os confrontos de Id~la!I se fazem especialmente
necenarlos e enriqueccm a lição dos Indlvlduos e dos grupos. Os en·
contros com pessoas que 56 con h~la m os à distAncia e a contemplação
de novas facetas da natureza (mont.anhas, oceanos, animais e !lores .. , )
manUestam-nos de novo modo os vestlrlOs do Criador e .sua aÇ40
eficAZ também em nossos dias. Teria multa coisa a dizer aos amigos
à guisa de eco das vivências dos ultlmos meses, Espero fazê·lo paula·
tlnamente nos pr6xlmos nOmefos de PR o
1. Como muitos dos leitores sabem, tive a oportunidade de par-
tJclpar do 40" ConefCSIO Eucarlstlco Internacional realizado em Mel,

- 232 -
hOUI"I1I' (Au5lnlllol clt' 18 a 2S ti" rcverciro PI). Este certame de fé
teve :;1,10:; nOIM própria:;, l)UC podcl'lamOIl n!lslm r('sumlr:
O numero de!, pCl'cgrlnos não Col lão avultado quanto em C()n·
~'1!SSOS anteriores - o que se explica dada a distAncia reogTArica
qUl! scpar3. a Austrália do I't!sto do mundo. Não obstante vla.m-se
Cardeais} bispos, sacerdotes c fiéis de todas as partes do globó ... Essa
nsscmblcla na parte mais Jovem do mundo (8 AuslràUa tem apenas
200 anos de viela polltlCl) devia signltlcar a presença da Igreja Cató-
lica naquele distante con llMntc, presença Hia atuante quanto no Velho
Mundo . Na verdade, o Congresso Eucarlstlco Implicou uma renovação
c intensificaçâo da vida católica n!l Auslrll.lia : durante meses a rio, as
j.al'Ól:jUialil e comu nidades religiOSa!! SI! pr(!pararam para o grande en-
con tro mediante estudo c trabalho a"lduos. O varlodo progr.ma da
!'õemano do CongresllO fMlssos, coníerênclas. exposlCõeS. encontros .. . )
n:vt"lovo den.~I<lade de \'ida clltóllc... . Q!I canto!! corais e as cerlm6nlas
r(Jram eXl'Cutados com dignidaue l! harmonia, que bem traduziam o
I"l!JlII'H(I bl'U.ànloo posto tt serviço do Senhor c tio EvangC!lho.
Notou·~c na programação do Congreso uma forte preocupação
('Cumênica . Os católicos representam apenas 25'if- da população da
AustrãUa . Constituem. porém, uma minoria dblogante: as autoridades
n.> lIglos3s protestantes c ortodoxas, bem como membros do Governo
do pais, esUveram presentes a divcl"Slls 1uI1COc!'l do Congresso. Nas
comlS$Ões organizadoras do mesmo, colaboraram crlst.Aos nlo catÓ-
IjCQ~ (nii.o no toellntc à onenl.a('âo doutrinAria, mil! no selor do atendi-
mento social). Em exposlÇ'Oes, eartous c programas era multo enfatl-
%'ndll a cooperaçüo dos crlsto.os em prol da Justiça social e do alivio às
populaçOes que sofrem de lome. desabrigo, molbtlas, anallabetlsmo ...
Dentre os atos liturglcos da .semana, destacaram·se:
_ a inauguraçAo do Congresso. na bela Catedral de S. Patrlclo.
sob a prcsldêncb do Cardeal LawrenC(! Shehan. arcebispo d~ Baltlmore
m . S . A . } C Legado papal ;
- a Liturgia dos aborlgcncs, no sAbado 24/11. Foi então celebrada
uma Missa em que os primitivos habitantes da AustrAUa executaram
Imas melodhs tlpicn!'i c ~presentaram artisticamente a Última Cela
do Senhor . O ato rol altamente originai : constituiu \lma tentativa de
aculturação ou adaplaçao da arte de povos primitivos II Liturgia catÓ-
lica, sem detrimento para a dev ida rever~ncla:
_ a Mi~a tias Escolas, da ~ual C(!rca de 100.000 estudantes de
tl iVC I'58S cidades da AuslrAlin l)lLrtlclparam ativamente, nntando c
nclomando:
_ o Cullo Ecuméonlco, realizado no Crande Esládlo de Mclbou.r ne
I;om li. presem.:a de representantes lias l'Omunld.:ldes angUeonas, pro'
lestantes e ortodoxas do pais. Entrc leituras, cantos e preces, todos
o ~ fiéis pre!'ICntes. de velas ae('sas na mDo. r<!novaram as promessas
do batismo e rccllar.:.lm o slmbolo da lê:
_ a Missa de cn~rramenlo, no domingo 25/ 11, As 18 h. também
d ita ..SIatlo Orblu, ou scJa, assembl~la litúrgica do mundo Inteiro.
Foi Inegavelmente o digno fecho e o ponto alto da semana . Comecan·
do as 18 h. esse ato tennlnou ao pÔr do sal, pois a luz: do dia no
verão de Melbourne se fazia sentir até as 20 h 30 mln . - Nilo houve
procissAo de encerramento, em vista do ambiente lortement~ prot~s.
!ante da cidade, mas após a Missa realizou-se breve paraliturgla: um
lovem, um anelA0, uma mulher e um representan te de CtillO fI!.I!ram
o proclama Cão de palavras do Senhor no Evangelho, que exortavam
OJ crlstaos a confiarem ll(I Mestre e a se dedicarem à obra do Senhor
neste mundo, que d'Ele tanto nece&s!ta . Tal proclamaçlo 101 acom-
j::anhada Jl'C!!u toqU(' til.' Irombcl:ls por pnrll' de ma ,'lnhc[ ro!l aust":I-
lIanos, ~UC. l'õcgundtl Q estilo nlhlieu, Iwm It!mhravam o juizo rlnal.
'1'01 et:nário susci l uu as l.lllm3'" cn lu!!iâstlca" tia d Cnsa IIsscmbléia ti"
1Ui.OOO pessoas, qU{' usim puseram o ter mo fina l ao Congresso.
Deste notável certnme de fc 1'105 rosta uma mCI'I~agem pcrt'nr
oompcndlada nllS pctla\'l'8:O de Cristo tomado como lcm:.a-p,'ogrumll do
Congresso c constantemente rcpctld ElS nas alocuções da sema na . .. Amai·
·vo~ uns ao:> outros como Eu VO.'l ame!.. IJn 15, 12 1.
_Como Eu vos umt'I. .. .. 1=: m'slt' h.' I'mo dt· comJl:lI 'a~'fio (IUt' estão
a rt.lt'Ça c a novidade dtls palavrils de Cri sto . Os hOlnC'lls de bom sen S(o
l'Omprocndem sem Kl'anllc dtricu Jd:ulc (Iue <levem ama i' uns aos o utros.
pois 1000.'1 ~o Irmr..".", !'/l tr!! si. Mas o qu .... 1I1I ~s JM>tk custUI', c seguir
° exemplo de Cri!lto, (tUL! limou a IXlnlu de dnr a vida 1'01' seu!:! am l Ru~
e Inimigos, 'Tal CJ(I>m l,IOl " sohrl'·humtll1 ........ u divino. Comn 1)/]/II'rla ()
Iwrnt'In, Ih'ixllllu l L :o i IILI 'SI II O, 1'1\,111 1'111 1 J1'(IIiI 'II'~ Crislu, IHI I'(:rn, liuhia

~einu:, ~~~~i~~ ~r~I~~~::~;~~~~c d!~t:~)I~~~,s ll~~n .r!:~r. I.J~~Ovf(~/ ~~~ ~.•~


S . ?ucartslla. E nestn II~c os..(!rl~~à:O.s .PIldc-m ~;lllr!r.Jl.S~rQrcas III!CC!iSà·
rias . para amar ~illl'!l.cllle ' tod,aS""os. tC'fI5o-.lrtn.~';' ~esm~."9s q ue Ifw~
'Iuerem mal . Tal amur , fralcr~ti;í· dC'.~r U' nq"W·liIJ.ica··~do l:om pocta·
mento dos dlscipulos 'uc' Cristo ne~t.r'::~qo . {'F(Cdundc. ém ' maior, lI'ni·
dade entre 05 filhos do ·mesmo· Pa l 'c mals vlvã 'comprccnsli'o (ia sofri· .
menta alheio! . : '
. ,', . •~
.
., '. " ..
2. A segunda grande expeTI~ncia destes ulUmos tempos' tcm sido.
para este irmào, o contato com a Tcrra"SUnta, que vem a ser contato .
mais vivo com a palavra de Deus e com' todo o plano sa lviClco'-q u('
aQuI SI! vem desenrolando desde .os tempos llc AbratLO, ou melhor.
desde a prã--hlstorla, q ua ....do aqui viVI) o homem do Carmclo em
cavcrnas ainda hoje patentes,
Jerusalem esta na região I!mltrofc de trés cont Inentes: a Ásia,
o. Á(rlca e a Eu r0p", As três grandes religiôcs monotelstas do globo
- o Judaismo, o Cristianismo e o islamis mo - aqui tl!m seus prln-
c!pnis snntuarios. Em eonseqilênela, pode·se diz~ r qUI! J erusa l6m ~
,'crd8delramente o cr'ntro do mu ndo, como costumavam oUrm'ar os
a ntigos rabinos. Nl\.u rol. portanto, sem especial motivo que 11 Pro·
v ld~ncla Divina quis escolhe r esta cidade e as terras vizinhas para
ruer ouvir a Palavra fr ita carne ou a Doa Nova da salvaçào parn o
mumlo Inteiro . Ô admirável Sabc..'(Iorla de Ot!us. (IUC a.prendemos o
descobrir todos os d ias um pouco mais. até que a possamos contem-
plar um dia faec·a ,r,.,cc!
Meus caros amigos, voltaremos a rcUctir sobre a memiaicm desta
terra vtnerãvcl. Na Semana Santa, <Iue ontem Inauguramo:! p(!rcor ·
r endo o caminho quc Jesus ' trilhou de BeUngl! a Jerusalém, estarei
unido a todos os Irmtlos em Cristo pela oração. De modo especial ,
desejo deste modo testemunhar a m lnhoa profunda gratidão 00 Depu-
lado Álvaro Valle e ao Dr . Eduardo PortelJo Netto, que, após o Con·
grtsSO Eucarlstlco de Melbourne, me posSlbllita,ram esta pcrmnnéncia
na Terra Santa , Em julho p!., se Dl:!us quiser, estarei d e volta no
Drasi!. Entrementes, PR t'Ontlnuarâ a sair regularmente. contando
sempre com a eolab<lração dos seus leUorcs I! amigos,
O Irmão em e ds to
Estêvão Bcttcnoollrt 0 .S.8 .

Jerusal~m , 16 de abril de 1913