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Universidade Federal de Goiás Contemporânea II

Weverton Sousa Paiva 2018

MACIEL, David. “A Revolução Russa como uma revolução permanente


interrompida”. In: PINHEIRO, Milton (Org.). Os cem anos que
abalaram o mundo: a revolução russa na cena do futuro. São Paulo:
ICP, 2017.

Introdução:

- “Como acontecimento mais importante do século XX a Revolução Russa despertou


paixões a favor ou contra, avaliações discrepantes, mesmo no campo do marxismo, e
posicionamentos políticos antagônicos. Para uns foi uma revolução social efetivamente
realizada pelas massas trabalhadoras, enquanto para outros não passou de um golpe de
Estado bolchevique. Enquanto determinados setores a consideram a mais importante
experiência socialista do século, outros avaliam que ela não passou de uma bem sucedida
modernização pelo alto, baseada numa variante do capitalismo, na exploração dos
trabalhadores e a um custo social e político altíssimo.” (Pág. 1)

- “Como resultado do jogo entre estrutura e conjuntura, entre necessidade e liberdade, ou


ainda entre processo e projeto a revolução russa sintetiza a contradição entre as tendências
estruturais da sociedade russa, e mesmo aquelas da dinâmica internacional, e as iniciativas
e projetos para atualizar seu curso ou mesmo alterá-lo radicalmente.” (Pág. 1)

- “No processo revolucionário russo a revolução permanente se impõe como estratégia


revolucionária historicamente necessária na conjuntura da Primeira Guerra Mundial,
concatenando a dinâmica interna à internacional. Os bolcheviques só conseguiram dirigir
ª revolução porque foram capazes de compreender esta concatenação e as possibilidades
abertas para uma revolução socialista num país atrasado, tornando-se os porta -vozes das
classes subalternas. No entanto, diante de um cenario internacional adverso e das enormes
dificuldades internas os bolcheviques nao conseguiram levar às últimas consequências
sua opção pelos soviets e pelo protagonismo das massas trabalhadoras, optando pelo
resgate dos métodos autocráticos e do dirigismo econômico estatal para superar os
obstáculos e salvar a nova ordem política e social. Neste sentido, a revolução passiva é
recolocada como uma necessidade histórica, levada às suas últimas consequências como
estratégia de atualização pelo alto da sociedade soviética. Desta forma criou-se uma
potência industrial e militar, mas não uma sociedade onde prevaleciam a socialização
econômica e política.” (Pág. 2)

1 – Uma revolução passiva falhada e incompleta (1861 – 1917).

- “Apesar de compor o pequeno grupo das cinco potências do concerto europeu, até
meados do século XI.X a Rússia ainda era uma sociedade baseada na servidão feudal '
com um Estado absolutista sustentado por uma aristocracia reacionária e por uma
burguesia extremamente débil em termos políticos. [...]Num cenário de mudanças
revolucionárias, enquanto em diversos lugares o absolutismo era enfraquecido ou mesmo
derrubado e o Estado deixava de se limitar à sociedade política, com o avanço da
sociedade civil, na Rússia o caráter autocrático do Estado era reforçado, com o czar
concentrando o poder ainda mais em suas mãos; a aristocracia consolidando sua condição
de burocracia vocacionada para o serviço do Estado e este assumindo definitivamente o
controle da Igreja e da educação” (Pág. 2)

- “Desse modo, enquanto na Europa Ocidental a aristocracia perde força política e


econômica diante das outras classes, principalmente da burguesia, mas também do
movimento popular ascendente, tendo que conviver com um processo de alteração do
aparelho de Estado no sentido do seu "aburguesamento" e com a desagregação parcial ou
total da servidão; na Rússia a aristocracia feudal reforça sua dominação como nunca,
fundindo-se com o Estado e intensificando a exploração feudal” (Pág. 3)

- “No entanto, o atraso político e econômico russo em relação à Europa Ocidental


começou a cobrar seu preço, manifesto dramaticamente na derrota para a Inglaterra e a
França na Guerra da Criméia (1856) e no aumento vertiginoso do descontentamento
camponês com o aumento da opressão feudal e o "cercamento" das terras pela
aristocracia. [...]Tais fatores levaram a monarquia czarista a desenvolver um esforço de
atualização da economia, da sociedade e da estrutura política, desencadeando assim um
movimento de revolução passiva no império.” (Pág. 3)

- “O primeiro passo neste sentido se deu com a abolição da servidão feudal, cm 1861.
Decretada pelo czar Alexandre II, a abolição da servidão tornou os camponeses homens
livres, permitindo-lhes a compra da terra, porém não os livrou de diversos condicionantes,
nem de um conjunto de obrigações típicas da servidão. Em primeiro lugar, as terras
disponibilizadas eram menores do que aquelas que eles tradicionalmente poderiam
utilizar por meio do direito de uso, portanto, expropriando-os, reduzindo seu acesso à
terra e aumentando as terras sob controle absoluto da aristocracia. Em segundo lugar, a
maior parte das terras seria comprada sob a mediação das comunas rurais, o mir, ou seja,
as comunas adquiririam as terras e as distribuiriam entre os camponeses periodicamente
de acordo com critérios como número de homens na família, totalidade dos membros da
família e/ou capacidade de investimento; a propriedade individual absoluta sobre a terra
só se generalizaria bem mais tarde. Em terceiro lugar, os nobres deveriam ser indenizados
pela cessão das terras, com o pagamento de parcelas pelos camponeses por 49 anos,
quando então teriam o direito à propriedade absoluta de seus lotes” (Pág. 4)

- “Em relação à aristocracia, a abolição da servidão foi plenamente positiva, pois lhes
permitiu avançar sobre áreas de uso comum ou servil, conquistar um controle mais estrito
sobre a terra, por meio da propriedade absoluta, ter a maior parte do pagamento devido
pelos camponeses adiantado pelo Estado e ainda preservar seus privilégios e diversas
formas de exações feudais. No entanto, ao invés de estimular a "junkerização" da
aristocracia, com sua adesão à agricultura mercantil, à melhoria dos métodos de produção
visando o aumento da produtividade e às relações capitalistas de produção, a reforma de
1861 estimulou ainda mais uma postura parasitária e absenteísta, reforçando sua
vinculação ao Estado como burocracia. Esta postura impediu que a aristocracia não só
buscasse alternativas econômicas para a desagregação progressiva da economia feudal,
bem como se autonomizasse politicamente do absolutismo russo, propugnando sua
reforma em direção a uma monarquia constitucional.” (Pág. 4)
- “A abolição da servidão não aboliu o feudalismo totalmente porque transformou a
corvéia cm formas variadas de exações feudais adiantadas pelo Estado à aristocracia e
cobradas por este dos camponeses. Também manteve a preponderância aristocrática no
controle da terra, métodos de produção tradicionais e a solidariedade camponesa em tomo
da comuna rural, o que a fortaleceu como instrumento de resistência camponesa.” (Pág.
5)

- “Na prática, a abolição da servidão “contornou” o entrave que o feudalismo representava


ao desenvolvimento econômico, pois nem criou as condições para a aristocracia aderir à
agricultura mercantil como na “via prussiana”', mesmo que concentrando a terra em suas
mãos e preservando certos privilégios; nem promoveu um processo de democratização
do acesso à terra, corno na "via americana", de acordo com os conceitos de Lênin.” (Pág.
5)

- “Na verdade, o decreto do fim da servidão procurou isentar a aristocracia de qualquer


perspectiva de partilha das terras. Desviando a "fome de terras" dos camponeses para as
terras a que eles já tinham acesso pelo antigo direito de uso, desencadeando uma disputa
intercamponesa pela terra. Por isto. o fim da servidão concentrou ainda mais as terras nas
mãos da nobreza e reduziu a autonomia econômica dos camponeses, forçando-os a vender
sua força de trabalho. Pagar prestações em trabalho e/ou alugar as terras dos nobres ou
dos camponeses ricos. Para compensar sua carência de terras e as dificuldades de
subsistência. Entre os próprios camponeses há um processo de diferenciação interna, com
os camponeses ricos, kulaks, adquirindo terras dos mais pobres, explorando seu trabalho
ou mesmo emprestando-lhes dinheiro ou arrendando-lhes a terra.” (Pág. 5)

- “Em outras palavras, a aristocracia russa não era a aristocracia alemã. Esta contradição
evidencia os limites do projeto de modernização da agricultura russa, tornando a transição
à agricultura mercantil bastante lenta e oscilante nos primeiros anos após a abolição da
servidão. Em 1 917, a economia agrária russa ainda era predominantemente feudal” (Pág.
6)

- “Também fazem parte das reformas conduzidas por Alexandre li a introdução de


algumas mudanças políticas e militares, visando racionalizar o aparato militar e
administrativo e promover alguma descentralização política. Visando modernizar o
aparato militar russo diante dos adversários ocidentais foi instituído o serviço militar
obrigatório, válido para ricos e pobres, a reorganização e rearmamento do exército e da
marinha, foram abolidos os castigos corporais e valorizada a educação militar dos oficiais.
No plano administrativo buscou-se reduzir a arbitrariedade no sistema judiciário, com um
novo código penal e a criação da figura do mandato de segurança, além do fortalecimento
das assembléias locais (zemstvos) nas zonas rurais e grandes cidades, com atribuições
administrativas e tributárias. Ainda assim a autocracia russa continuava ainda bastante
longe do formato da monarquia constitucional e da divisão dos poderes.” (Pág. 6)

- “Porém apesar destes limites, a "Era das Reformas" iniciada em 186l favoreceu a
transição para o capitalismo na economia russa, permitindo o avanço das relações de
produção e propriedade capitalistas no campo, principalmente no sul, com o crescimento
das relações assalariadas e da propriedade individual sobre a propriedade comunal.
Também fortaleceu os kulaks, camponeses ricos que possuiam maiores terras e tomaram-
se capazes de explorar o trabalho de outros camponeses; além dos investimentos dos
capitalistas urbanos no campo, com a compra de terras da aristocracia por comerciantes,
banqueiros e industriais, e o crescimento vertiginoso da agricultura de exportação.” (Pág.
7)

- “Por isto, grande impulso no sentido do avanço do capitalismo também foi dado pelo
processo de arrancada da indústria, desencadeado a partir dos anos de 1860 e acelerado
nos anos 90. Nas áreas em que a especialização agrícola era menor, pois a produção era
mais voltada para a subsistência e o mercado local, era muito comum os camponeses
complementarem sua renda desenvolvendo atividades artesanais ou se empregando
sazonalmente nas indústrias locais, o que favorecia o avanço da atividade industrial como
alternativa econômica à agricultura. Parte dos capitais investidos na indústria vinha dos
setores comercial e bancário, que captavam parte da renda da terra por meio do
endividamento da aristocracia. Porém, a principal alavanca para o processo de
industrialização russa foi o impulso dado pelo Estado, principalmente por razões militares
e expansionistas.” (Pág. 7)

- “O caráter absolutista do Estado russo fez com que predominasse uma perspectiva
estatista em que as indústrias eram financiadas pelo Estado ou eram de sua propriedade
direta. A contraparte deste estatismo era o endividamento externo, a busca por dividendos
obtidos por meio das exportações agrícolas e o arrocho fiscal imposto sobre o
campesinato. Daí a relação ao mesmo tempo contraditória e complementar entre a
estrutura semi-feudal da agricultura e o capitalismo nascente na indústria e nas cidades”
(Pág. 8)

- “Mais uma vez a trajetória da indústria está vinculada à questão militar, pois a primazia
francesa se deve fundamentalmente à aliança militar franco-russa, estabelecida em 1892
após o colapso definitivo da aliança dos três imperadores (Rússia, Áustria• e Prússia).
Assim, o capitalismo russo que se toma predominante na formação social russa no final
do século XIX tinha no Estado e no capital externo seus prmc1pa1s agentes, revelando
uma burguesia nativa economicamente fraca e politicamente omissa. Este é um
componente importante para se avaliar o caráter da revolução passiva desencadeada no
império russo a partir de 1861 pois a classe burguesa é uma força fundamentalmente
passiva no processo. Paralelamente o avanço industrial gera um crescimento vertiginoso
do proletariado, concentrando-o cm grandes cidades.” (Pág. 8)

- “Neste sentido, a abolição da servidão não só não resolveu os problemas do campesinato


como os agravou, na medida em que além do baixo nível técnico. Dos altos encargos
devidos ao Estado e aos nobres e da extrema pobreza há um grande crescimento
demográfico no campo com a população rural aumentando em mais de 60% entre a
década de 1860 e o final do século tornando a “fome de terras" ainda mais aguda. Isto
porque em muitos lugares o critério fundamental para o acesso à terra era o número de
membros da família camponesa, daí o aumento populacional, acirrando ainda mais a
disputa intercamponesa pela terra.” (Pág. 9)

- “Após a Revolução de 1905, que abalou o czarismo, mas não foi capaz de derrubá-lo, o
governo adotou um conjunto de novas reformas, com vistas a desarmar a "bomba relógio"
no campo e favorecer o avanço definitivo do capitalismo na agricultura. As reformas de
Stolypin (1906-1911), verdadeira política de "cercamentos" no campo russo, estimularam
a desintegração da comuna com o avanço da propriedade absoluta e hereditária da terra e
a colonização da Sibéria. Daí em diante os camponeses poderiam adquirir
individualmente a terra, sem a mediação da comuna rural e a ameaça de redistribuições
periódicas, além de poderem concentrar suas posses numa única área contígua, superando
o sistema de lotes parcelados em áreas distintas. O objetivo era fortalecer a classe dos
kulaks, que serviriam como base de massa de apoio à aristocracia e ao governo no
campo.” (Pág. 9)

- “O fortalecimento da burocracia durante o processo de modernização capitalista da


Rússia não se deu com a ampliação do acesso da burguesia aos cargos públicos e da
prevalência de uma perspectiva meritocrática, cavando uma cunha progressista no interior
do Estado absolutista, mas reforçando as posições da aristocracia em seu interior e a
solidariedade do Estado para com esta.” (Pág. 10)

- “Resulta daí uma revolução passiva burguesa " falhada", quando comparada com outros
processos como os casos alemão ou italiano, que criou uma formação social compósita,
sob predomínio capitalista na economia urbana e industrial e em parte da agricultura,
porém com sobrevivências feudais importantes no campo, emperrando o pleno
desenvolvimento de um mercado consumidor interno e do próprio capitalismo agrário.
Esta combinação criou um capitalismo francamente dependente do estatismo e do capital
externo, com uma burguesia débil politicamente e um Estado feudal absolutista dominado
política e burocraticamente pela aristocracia e que preservou sua integridade, mantendo-
se imune às formas políticas burguesas representadas pelo constitucionalismo e pelo
parlamentarismo.” (Pág. 10)

- “Neste sentido as tendências sócio-econômicas desencadeadas pela "Era das Reformas"


e pelo processo de transição ao capitalismo na Rússia foram a forte presença estatal na
economia industrial; o fortalecimento da propriedade privada no campo, particularmente
da propriedade dos kulaks, e o desenvolvimento de uma sociedade civil estatizada, como
no caso da Igreja e da escola, ou controlada de perto pelo Estado, como no caso dos
sindicatos.” (Pág. 10)

- “O tempo histórico em que se dá a transição para o capitalismo na Rússia, final do século


XIX e início do XX, e suas relações com o capital externo, ajudam a explicar por que as
reformas não serviram para fundamentar a transformação capitalista do Estado russo mas
para reforçar seu caráter feudal-absolutista. Isto porque os influxos do imperialismo
permitiram que a transição para o capitalismo se desenvolvesse sem que a estrutura do
Estado precisasse ser quebrada; daí a criação de uma formação social desigual e
combinada em escala não vista antes. O aporte tecnológico e de recursos disponibilizado
pela capital externo permitiu que a indústria russa "queimasse etapas", atingindo altos
níveis de concentração e capacidade produtiva sem que tivesse que passar por um
processo de evolução lenta e gradual desde o artesanato e a manufatura, até a
maquinofatura, nem que dependesse de um vigoroso processo de acumulação primitiva.”
(Pág. 11)

- “Em princípio a revolução passiva russa, ou revolução-restauração. Reproduz em suas


linhas gerais o padrão teórico analisado por Gramsci nos casos em que ocorre uma
transição para o capitalismo e o Estado burguês nos países cm que não ocorreu uma
revolução burguesa clássica. Esta transição se dá por meio de um processo de
"modificações moleculares, que, na realidade modificam progressivamente a composição
anterior das forças e. portanto transformam-se em matriz de novas modificações'',
conforme definição lapidar de Gramsci, dirigido pela classe dominante e pelo Estado a
partir de cima com vistas ao esvaziamento da perspectiva revolucionária e à atualização
da estrutura econômico-social e da estrutura política, promovendo mudanças
revolucionárias ao mesmo tempo em que restauram elementos fundamentais da velha
ordem, repondo-os em novas bases.” (Pág. 11)

- “Porém, o caso russo guarda peculiaridades que o afastam bastante do caso clássico da
revolução passiva, particularmente daquele representado pela Alemanha e, em menor
grau, pela Itália. Em primeiro lugar, salta aos olhos a fraqueza da burguesia russa não só
do ponto de vista político, mas também do ponto de vista econômico. O desenvolvimento
industrial foi muito mais fruto da ação do Estado e do capital externo do que propriamente
da burguesia russa. Ao contrário da burguesia alemã, que consegue impor a livre
circulação de mercadorias e mão de obra no interior da federação alemã antes mesmo do
abalo de 1848 e se torna a principal credora do Estado prussiano, além de conquistar
espaço político no Parlamento e em instâncias de poder locais, a burguesia russa só
consegue a liberdade de movimentação da mão de obra muito tardiamente e ainda assim
de maneira parcial.” (Pág. 12)

- “Em segundo lugar, a aristocracia buscou se contrapor ao anacronismo e à crise da


ordem econômica e social feudal reforçando seus laços com a autocracia, suas posições
no interior do Estado como burocracia e seu "parasitismo" econômico, ao invés de aderir
maciçamente à agricultura mercantil e à perspectiva empresarial.” (Pág. 12)

- “Em terceiro lugar, a autocracia czarista e a burguesia russa nunca foram capazes de
desenvolver um movimento transformista bem sucedido em favor de sua perspectiva de
revolução passiva sobre seus adversários. As tentativas de transformar a comuna rural
num bastião em defesa do czarismo fracassaram completamente, como evidenciam seu
papel nos levantes camponeses e na defesa dos seus interesses contra o Estado e a
aristocracia.” (Pág. 12)

2- Uma revolução permanente em processo: da irrupção à paralisia (1917-1928).

- “Ao contrário do que se dá nas revoluções passivas bem sucedidas, a revolução passiva
russa não só não afastou a ameaça da revolução social, como a tornou mais necessária à
medida que as contradições devidas ao caráter compósito de sua formação social se
acirravam. (Pág. 13)

- “A crescente contradição entre estrutura sócio-econômica e estrutura política explodiu


em 1917 de maneira tal que o regime não resistiu por duas semanas ao levante popular de
fevereiro. A partir daí retoma-se um processo de revolução social manifesto na aceleração
da organização popular por meio dos soviets, das comunas rurais, dos sindicatos e
partidos de esquerda, na ocupação das terras pelos camponeses, na deserção em massa
dos soldados e na criação de uma crescente dualidade de poderes entre o governo
provisório, instalado em fevereiro, e o soviet de Petrogrado. (Pág. 14)

- “A novidade é que a perspectiva socialista se colocava no horizonte da revolução russa,


por conta de um conjunto de fatores. Em primeiro lugar, deve-se destacar o protagonismo
dos trabalhadores, particularmente do operariado industrial, no processo revolucionário,
devido à própria incapacidade orgânica da burguesia russa de dirigir qualquer perspectiva
revolucionária, mesmo a de tipo passivo. Em segundo lugar, a situação internacional de
guerra, favorável à emergência revolucionária das massas no centro e na periferia do
sistema capitalista num movimento articulado de revolução mundial que poderia
favorecer a transição socialista num país ainda atrasado graças ao apoio dos países
desenvolvidos cujo poder já estivesse sob controle dos trabalhadores. Em terceiro lugar,
o avanço e a própria especificidade do processo de modernização econômica da sociedade
russa que, apesar de seus limites, já possuía um setor industrial com níveis de
concentração e avanço tecnológico consideráveis, capazes de dinamizar o
desenvolvimento econômico em outros setores e assim criar a base material necessária à
transição socialista, além de concentrar a classe operária nas principais cidades do país.”
(Pág. 14)

- “Após a derrubada do feudal-absolutismo e a criação de uma república democrática


unificada na Alemanha a classe operária deveria apoiar resolutamente a luta da pequena
burguesia contra a burguesia, fazendo a revolução avançar numa perspectiva mais popular
e democrática, até o momento em que esta tomaria o poder. A partir daí a classe operária
deveria pressionar o máximo possível a pequena burguesia e seu governo no sentido da
adoção de medidas socializantes, conquistar instâncias de poder exclusivamente operárias
e avançar em sua organização política e militar com vistas à sua constituição como classe
dominante. Impedindo assim a interrupção da revolução no plano meramente político, ou
seja, no plano da mudança do tipo de Estado e da alteração da classe dominante, e
pressionando por sua continuidade até a expropriação política e econômica das classes
proprietárias, com a conquista do poder de Estado pelo proletariado, a concentração das
forças produtivas decisivas nas suas mãos e a abolição da propriedade privada e das
classes.” (Pág. 15)

- “Uma revolução permanente na Rússia era a aposta de Trotsky desde 1906, quando,
avaliando a experiência da Revolução de 1905 e a própria história da Rússia, conclui pela
impossibilidade de uma revolução burguesa que não fosse dirigida pela classe operária e
conduzida por um governo operário, pois a burguesia russa era demasiado débil
politicamente para operar tal tarefa histórica. Conclui ainda pela impossibilidade da classe
operária no poder se limitar a realizar uma revolução burguesa, devendo concatená-la
com as tarefas de uma revolução socialista, sob o risco de tornar o seu poder provisório e
ser vítima de uma reação implacável.” (Pág. 16)

“A revolução permanente também se tornou a aposta de Lênin mais tarde, quando a partir
da eclosão da Primeira Guerra Mundial passa a conceber a possibilidade da guerra
patriótica se transformar numa guerra civil, abrindo caminho para uma revolução de
caráter mundial que estouraria primeiramente no elo mais fraco da cadeia imperialista, a
Rússia.” (Pág. 16)

“A fragilidade da revolução burguesa de fevereiro se evidencia na incapacidade da


burguesia liberal, dos setores conscientes da aristocracia e dos socialistas moderados
(mencheviques e socialistas revolucionários de direita), que compuseram os sucessivos
governos provisórios, em se desvencilhar dos compromissos assumidos pelo czarismo e
em afastar decididamente a ameaça da contra-revolução. Apesar das vacilações da direção
Socialista Revolucionária e menchevique do soviet de Petrogrado em assumir a dualidade
de poderes, por conta de sua aposta no caráter burguês da revolução, foi impossível para
o governo provisório manter-se no poder e levar a cabo as tarefas burguesas.” (Pág. 17)

“De um governo formado exclusivamente pelos liberais (burguesia e aristocratas


“esclarecidos”), preocupado fundamentalmente em normalizar a vida social diante da
radicalização popular, a situação política evolui em maio para a montagem de um governo
de coalizão com os socialistas moderados, que assumem sua direção política em julho,
quando os liberais abandonam o governo. No entanto, o fracasso da nova ofensiva militar
desencadeada em junho, somada à intensificação das greves e ocupações de terras
curtocircuita a perspectiva burguesa do governo socialista abrindo caminho para a
radicalização política e a superação do impasse.” (Pág. 17)

“Após o fracasso do golpe de Kornilov, em grande medida graças à mobilização


bolchevique, o governo provisório não dirige mais o processo revolucionário. Criam-se
as condições para a dualidade de poderes com o soviet de Petrogrado e a insurreição de
Outubro. Ao contrário da revolução alemã de 1848, vivida e teorizada por Marx e Engels,
interrompida com a derrota da pequena burguesia diante da recomposição da burguesia
com as forças feudal-absolutistas, no processo revolucionário russo a revolução em
permanência se acelera nos planos político e social, com a classe operária assumindo a
direção do processo revolucionário e o governo através dos soviets e do partido
bolchevique.” (Pág. 18)

- “A Revolução de Outubro se configura como uma revolução socialista não só porque


institucionaliza politicamente e amplia o processo de ocupação das fábricas e das terras
pelos trabalhadores, que já ocorria desde a queda do czar, e o controle operário da
produção; mas também porque cria um governo baseado nos soviets, órgãos de
democracia direta dos trabalhadores, implodindo de vez o sistema político representativo
criado em fevereiro e o calendário político por ele definido, como a assembléia
constituinte. O chamado “Comunismo de guerra”, instituído mais em função das
dificuldades impostas pela dinâmica da revolução, e logo depois da guerra civil, do que
propriamente pela intenção do governo bolchevique, representa uma ruptura em relação
à propriedade privada na economia urbana na medida em que combina formas de controle
operário e formas de controle estatal das empresas e em que estabelece a
nacionalização/estatização das indústrias estratégicas e de grande porte, dos bancos e do
comércio exterior e entrega a administração de parte das fábricas aos soviets, sindicatos
e comitês de fábrica.” (Pág. 19)

- “O confisco das indústrias pelos trabalhadores e pelos órgãos ligados ao Conselho


Supremo de Economia, criado para estabelecer um mínimo de planejamento e
organização gerais, e a nacionalização/estatização dos bancos e do comércio exterior
impuseram-se à iniciativa privada não apenas respondendo ao programa que motivou a
Revolução de Outubro, mas também tentando dar respostas à grave crise vivenciada nas
cidades nos primeiros meses com a redução da produção industrial e graves problemas
no sistema de abastecimento e de circulação de bens. O controle operário das empresas
conviveu com grandes dificuldades devido à inexperiência administrativa dos
trabalhadores, à falta de articulação entre as empresas socializadas, à resistência e
sabotagem de patrões e gerentes, à escassez de matérias primas.” (Pág. 19)

- “Apesar dos bolcheviques terem proclamado a divisão igualitária da terra entre os que
nela trabalhavam, prevaleceu a ocupação e distribuição das terras da aristocracia, da
burguesia e dos kulaks entre os camponeses médios e pobres pelas comunas rurais e
cooperativas, prevalecendo a pequena propriedade individual e a produção de
subsistência.” (Pág. 20)

- “O processo de desorganização no abastecimento e na distribuição dos bens favoreceu


o comércio clandestino e a ação de especuladores, os chamados “caixeiros-viajantes”, que
enriqueciam diante da situação de caos. Isto afetou diretamente o abastecimento das
cidades e do Exército Vermelho, motivando medidas centralizadoras e o choque entre a
perspectiva do controle social e aquela do controle estatal. Inicialmente os bolcheviques
criaram comitês de abastecimento e requisição de alimentos compostos pelos próprios
camponeses para abastecer as cidades, mas o fracasso de tais iniciativas determinou o
estabelecimento das requisições forçadas, e muitas vezes utilizando-se de métodos
violentos, principalmente para abastecer o Exército.” (Pág. 20)

- “Neste sentido, a Revolução de Outubro de 1917, o Comunismo de Guerra e a Guerra


Civil (1918-1921) representam uma revolução política e social compósita, combinando
revolução burguesa e revolução socialista. No entanto, a perspectiva socialista presente
nas formas de controle operário da produção, de controle camponês da distribuição das
terras e na nacionalização da propriedade convivem contraditoriamente com duas
perspectivas burguesas.” (Pág. 21)

- “na medida em que a revolução mundial era derrotada e deslocada do horizonte político,
permitindo a salvação do sistema imperialista e abortando a perspectiva de auxilio externo
por parte de uma revolução socialista vitoriosa num país desenvolvido; em que o atraso
econômico-social mostrou-se mais sólido e renitente que o ideário da mudança social e
cultural, cobrando um preço econômico gigantesco; em que o cerco internacional e a
guerra civil impunham uma situação dramática, dizimando física e socialmente a classe
operária russa e forçando a criação de uma economia de guerra, prevalecem sobre a
perspectiva socialista a composição com as forças sociais da velha ordem, o privatismo e
as tendências centralizadoras e burocráticas, esvaziando o horizonte socialista da
revolução.” (Pág. 21)

- “Portanto, a revolução permanente consolidada em Outubro de 1917 começa a ser


paralisada em seu próprio bojo, na medida em que a perspectiva socialista conviveu com
grandes dificuldades e começou a ser revertida no seu próprio processo de implantação.”
(Pág. 22)

- “A NEP (1921-1927) restaura em parte as tendências históricas desencadeadas durante


a revolução passiva burguesa, porém sob poder bolchevique, manifestas no estatismo, no
privatismo e no kulakismo. O estatismo expresso na propriedade estatal das grandes
empresas e no controle estatal sobre a economia privada; o privatismo expresso nas
concessões à economia privada e no restabelecimento das relações de mercado; e o
kulakismo no estímulo à propriedade privada no campo e à produção para o mercado, que
beneficiou prioritariamente os camponeses ricos, kulaks.” (Pág. 22)

- “A NEP (Nova Política Econômica) teve como ponto de partida o estabelecimento do


imposto em espécie, em março de 1921, para substituir as requisições forçadas no campo
e estimular a retomada da produção agrícola e assim aplacar o descontentamento do
campesinato com o regime na medida em que a guerra civil era vencida pelo Exército
Vermelho e a ameaça de restauração aristocrático-burguesa era afastada.” (Pág. 22)

- “No setor industrial e da economia urbana a NEP favoreceu mais a pequena indústria,
produtora de bens de consumo, particularmente aquela localizada na zona rural, do que a
grande indústria do setor de bens de produção, para garantir o abastecimento do campo e
estimular a produção de excedente agrícola. Também limitou o processo de
nacionalização/estatização, devolvendo diversas empresas à iniciativa privada, inclusive
aos ex-proprietários; além de abrir a economia russa à investimentos estrangeiros,
estimular as práticas comerciais e a busca do lucro.” (Pág. 22)

- “Com o retorno pleno da economia monetária a moeda sofreu um processo de forte


desvalorização, gerando inflação e favorecendo ainda mais os comerciantes privados.
Entre as empresas estatais o governo estimulou a formação de grandes trustes, reunindo
diversas empresas, que também passaram a ser geridas pela perspectiva da lucratividade.”
(Pág. 22)

- “A liberalidade econômica instituída pela NEP não se fez acompanhar da liberalidade


política, ao contrário, o centralismo e o autoritarismo aumentaram, tanto no aparelho de
Estado, quanto no interior do partido, com os diversos setores de oposição sofrendo forte
processo de repressão e isolamento político, desde a rebelião de Kronstadt, em 1921, até
o cerco e eliminação da Oposição Unificada (Trotsky, Zinoviev, Kamenev) em 1926/27.
O sucesso da NEP fortaleceu seus defensores nas estruturas de comando, mas
particularmente fortaleceu os novos segmentos recrutados para a burocracia, cada vez
mais dependentes dos favores e privilégios que lhes eram concedidos pela secretaria geral
do partido.” (Pág. 23)

- “Assim, ao restabelecer o avanço da iniciativa privada, mesmo que sob controle estatal,
atraindo investimentos de capitalistas nacionais e estrangeiros, os nepmen; fortalecer os
kulaks no campo, apesar da manutenção da comuna rural, e restabelecer o livre-mercado,
o governo bolchevique solapou o controle operário e o papel político dos soviets, base
política para qualquer perspectiva socialista efetiva.” (Pág. 24)

- “O que reforçou as tendências centralistas e burocráticas já manifestas durante o


"Comunismo de Guerra" e impôs o monolitismo político no interior do partido, do
governo e do próprio movimento comunista internacional. Neste sentido, a NEP
significou uma paralisação (intencionalmente momentânea) na revolução permanente,
prevalecendo as duas perspectivas burguesas que assinalamos, do capitalismo de Estado
e do privatismo, em detrimento da perspectiva socialista.” (Pág. 24)

3- Uma revolução passiva burocrática (1928-1941).

- “A partir de 1925 o debate sobre os rumos da NEP se instala, fundamentalmente por


conta das preocupações de alguns setores do partido com as dificuldades de
desenvolvimento da indústria de bens de capital e dos novos problemas com o
abastecimento nas cidades. A liberação das práticas de mercado e a abertura à propriedade
privada na indústria beneficiaram fundamentalmente o setor de bens de consumo,
mantendo o setor de bens de capital, sob predomínio da propriedade estatal, carente de
recursos, tecnologia e mesmo maquinário, apesar do grande avanço em termos de
concentração e centralização econômica.” (Pág. 24)

- “No entanto, após a derrota definitiva da Oposição Unificada, em 1927, os ataques aos
privilégios conferidos aos camponeses se intensificam e a “guerra aos kulaks” é
anunciada; além da defesa do planejamento econômico e do apoio à indústria pesada
como medidas estrategicamente necessárias à sobrevivência da URSS. A partir daí a
aliança entre Stálin e Bukharin em torno da defesa da NEP se rompe progressivamente e
este passa a constituir a chamada “Oposição de Direita” (Bukharin, Rikov e Tomsky),
derrotada a seguir.” (Pág. 25)

- “Em função da proposta da industrialização acelerada, que tem como eixo fundamental
o apoio integral à indústria de bens de capital, e de guerra aos kulaks e à iniciativa privada
no campo, o governo passa a instituir a planificação econômica, com a definição de
prioridades, fontes de financiamento e metas de produção e distribuição.” (Pág. 25)

- “Paralelamente, há uma intensificação da pressão pelo aumento da produtividade, tendo


em vista que uma das fontes de financiamento da industrialização era a inversão dos
lucros das próprias indústrias. Daí a intensificação da extração da mais-valia, favorecida
pela normatização crescente da atividade produtiva, pela política de planejamento estatal
dos aumentos salariais, o que implicava no arrocho salarial e no esvaziamento dos
sindicatos como instâncias de negociação, porém, em contrapartida, no seu reforço como
órgãos de educação e disciplinarização dos trabalhadores no sentido do produtivismo.”
(Pág. 26)

- “Além do autofinanciamento pelas próprias indústrias, outras fontes de financiamento


definidas pelo plano eram o imposto de renda, o imposto sobre a agricultura, o imposto
sobre o consumo (este equivalendo a nada menos que um terço de toda a carga tributária)
e o imposto sobre os setores privados ainda remanescentes.” (Pág. 26)

- “Com a planificação ocorre o controle político da distribuição dos produtos e dos preços
em geral, além do avanço acelerado da estatização das empresas, principalmente nas
grandes empresas, com a propriedade privada tornando-se cada vez mais restrita e
limitada às pequenas indústrias até o seu desaparecimento.” (Pág. 26)

- “Na agricultura, o governo impõe um processo virulento de “coletivização” da terra,


obrigando os camponeses a integrarem suas terras, equipamentos e animais aos kolkoses
ou aos sovkoses, forçando a abolição da propriedade individual e tirando dos camponeses
a capacidade de decidir como e onde produzir e para quem vender. Com toda força e pela
força voltam as requisições de cereais e o controle de preços, criando um processo de
tensão no campo que opõe o governo soviético ao conjunto do campesinato, não só aos
kulaks, abrindo caminho para uma nova guerra civil.” (Pág. 27)

- “A combinação entre industrialização acelerada e “coletivização” forçada do campo


modifica drasticamente a paisagem social da URSS na década de 1930, com o
crescimento vertiginoso da população urbana, particularmente do operariado industrial,
graças em grande parte ao êxodo rural, ao mesmo tempo em que há uma redução
significativa na população geral do país. Esta situação permitia aos trabalhadores do
campo e da cidade buscarem melhores condições de vida e trabalho, no entanto, gerava
uma situação de instabilidade social que o governo procurou conter restabelecendo a
antiga política czarista de passaportes internos e registro compulsório na polícia, aliada à
uma legislação repressiva que proibia a mudança de emprego e a falta ao trabalho.” (Pág.
27)

- “No plano político, as tendências centralizadoras e autoritárias desencadeadas desde a


guerra civil se intensificam ainda mais, pois a ascensão de Stálin ao poder significou a
vitória definitiva da burocracia sobre os trabalhadores e sobre as tendências que ainda
vislumbravam a retomada da perspectiva socialista. Particularmente vitoriosos são os
novos quadros recrutados para a burocracia e as funções “especializadas” entre o novo
operariado e os recém ingressos no partido.” (Pág. 27)

- “Quanto mais a perspectiva da guerra se fortalecia, mais Stálin buscou eliminar toda e
qualquer alternativa política à sua liderança, mobilizando a máquina do Terror até mesmo
contra seus mais próximos colaboradores. Na configuração da nova ordem política
destacam-se o centralismo burocrático, que estabeleceu o esvaziamento definitivo das
instâncias independentes e autônomas de organização dos trabalhadores, como os soviets
e sindicatos; o controle da sociedade civil, que cresceu e se ampliou, mas voltou a ser
rigidamente controlada pelo Estado; e uma ideologia legitimadora baseada no culto à
personalidade, no nacionalismo russo travestido de teoria do “socialismo num só país” e
na transformação do materialismo histórico numa ideologia estatolatra denominada
“marxismo-leninismo”, que passou a justificar com ares de cientificidade e
inevitabilidade histórica a realpolitik do Estado soviético. Assim, o stalinismo reviveu
sob o manto do socialismo as tradições e práticas autocráticas do czarismo russo.” (Pág.
28)

- “A revolução passiva burocrática (1928) identificada com o stalinismo e desencadeada


a partir da industrialização acelerada, da “coletivização forçada” no campo e da
planificação estatal, significou a vitória definitiva do estatismo sobre o privatismo e o
kulakismo com o reforço da antiga autonomia burocrática sobre a sociedade e o dirigismo
estatal sobre toda a economia. Neste sentido, o Estado voltou a ser “tudo” e a sociedade
civil “primitiva e gelatinosa”, pois se a revolução passiva burocrática significou uma
revolução em relação à perspectiva privatista burguesa ao mesmo tempo significou uma
contra-revolução em relação à perspectiva proletária e socialista.” (Pág. 28)

- “Na dialética entre revolução e restauração a revolução passiva burocrática aboliu


definitivamente a economia de mercado, a propriedade e acumulação privadas,
eliminando a burguesia e a pequena burguesia enquanto classes, assim superando a
própria revolução democrático-burguesa sob o imperativo da modernização econômica.”
(Pág. 28)

- “A serviço de uma política de potência, da legitimação do regime e da submissão das


repúblicas e territórios não-russos dentro da URSS à Rússia o velho nacionalismo grão-
russo é resgatado, juntamente com valores e tradições do imaginário czarista como a
grandeza imperial, o paternalismo do czar, etc. Porém não na sua forma original, mas
travestidos na doutrina do “socialismo num só pais”, no “culto à personalidade” do líder
infalível, na ideologia da “pátria do socialismo” e no próprio marxismo-leninismo, como
doutrina da inevitabilidade histórica do socialismo.” (Pág. 29)

- “Por isto, com a vitória do stalinismo a revolução permanente é interrompida


definitivamente, em favor de uma perspectiva burocrática que submete os trabalhadores
à uma nova forma de dominação política e social e instala de maneira consolidada um
capitalismo de Estado exitoso em termos de desenvolvimento industrial e tecnológico,
mas francamente limitado em termos igualitários e libertários. Desse modo, as esperanças
de emancipação dos trabalhadores suscitadas pela Revolução de Outubro naufragam no
estabelecimento de uma nova forma de dominação social e política.” (Pág. 30)