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ONDE OS SEGREDOS SE ESCONDEM

ALÉXIA HETKA
Capítulo 1 — Um brinde ao futuro

Inclinando-se contra o encosto da poltrona e cruzando os braços, Samantha observou a

tela à sua frente. A cena mostrava um homem saindo de uma porta para um beco escuro e

abandonado. Ele carregava um saco preto e longo, que aparentava ter um corpo dentro.

Arrastava-o ao longo da rua molhada pela chuva. Samantha cruzou os braços e já nem piscava,

ansiosa pela sequência de acontecimentos. Podia ver que o rosto do personagem estava

contraído, misturando tensão e raiva. Fora o barulho do saco sendo arrastado pelo asfalto, sua

respiração pesada era o único som na cena. A esquina parecia não chegar nunca. E quando ele

finalmente a alcançou, largou o grande pacote e viu o que o aguardava: um exército de cavalos

brancos enfileirados. Mas, observando mais de perto, Samantha viu que havia se confundido.

Os chifres coloridos não mentiam: eram unicórnios. A mulher não pôde deixar de soltar uma

risada alta, os ombros relaxando com a diversão.

— As pessoas sonham com cada coisa, né? — A voz masculina veio de trás, e Sam

olhou para ver Nicolas parado na porta.

— Não quero me gabar, mas meus sonhos costumam ser mais criativos que esse — riu

para o mais velho, e os dois olharam através do vidro para a mulher que dormia na maca da

sala adjacente, com eletrodos presos à cabeça. Pela expressão em seu rosto, já parecia estar se

acalmando depois do susto que sua mente lhe pregou.

— E o que Júlia está fazendo aí?

— Disse que estava muito cansada, então dei a ideia de que ela passasse o horário de

almoço aqui. — Samantha se levantou, desligando a tela do computador, e saiu da sala

acompanhada do homem. — Se alguém vai dormir na Dreamland, que seja nessa sala, né?

— Tem razão — ele riu.


— E o que tem pra mim aí?

— Mais inspeções técnicas de maquinário. — Nicolas mostrou a pasta recheada de

arquivos e ajeitou com o dedo os óculos redondos de aros finos. Os dois adentravam agora o

escritório de Samantha, onde a luz natural se infiltrava e iluminava o chão de cerâmica cinza.

Ao sentar-se à sua mesa, repetiu o hábito de adorar a foto que ilustrava um dos porta-retratos

sobre a mesa de vidro. Ela, aos sete anos de idade, sorria orgulhosa no colo da mãe enquanto

repousava nos cachos loiros a coroa de princesa que havia acabado de ganhar. Seu pai estava

ao lado das duas com um copo de refrigerante na mão, e próximo a ele, disfarçado de papai

noel, o homem que sentava à frente de Samantha naquele momento; agora com os cabelos já

acinzentados.

Quando sentiu os olhos se umedecerem, a mulher olhou para o lado de fora em busca

de distrações. Graças à parede de vidro no fim da sala, podia ver grande parte da rua onde o

prédio ficava. Era o meio da manhã num dia ensolarado de primavera em Curitiba, e as pessoas

já começavam a circular com roupas mais frescas.

— O vermelho — enunciou Nicolas, recebendo da mais nova um olhar confuso. Ela

então olhou para onde ele apontava e entendeu; ele estava tentando iniciar uma rodada de uma

brincadeira que eles faziam desde que ela era pequena.

— Eu aposto no branco — completou, e os dois passaram a fixar os olhos em seus

concorrentes. Quando a luz verde do semáforo acendeu, foi o carro branco que arrancou na

frente, e a vitória foi celebrada com um largo sorriso no rosto da mulher, que reparou na

decepção do outro.

— Estou perdendo meus talentos.


— Que eu me lembre, sempre estive à frente no placar — riu com um sorriso largo que

mostrava todos os dentes, passando, finalmente, a analisar os documentos trazidos por seu

sócio.

— Sabe que seus pais teriam muito orgulho de você, né? — ele chamou, e Samantha

assentiu com um sorriso. — Quer dizer, você não precisa nem imaginar, porque eles diziam

isso todos os dias. Mas, quero dizer, você na diretoria, comandando tudo… Está indo muito

bem.

— Ainda não sei se consigo fazer isso sem eles — suspirou.

— É claro que consegue! Senão, todos esses anos de estudo e prática foram pra que?

— brincou.

— Sim, mas digo… Não sei se consigo proteger isso tudo. — Olhou ao redor da sala

que costumava pertencer aos pais. De acordo com a expressão, Dreamland poderia ser definida

como sua segunda casa. Mas a verdade era que, se contasse as várias vezes que mudou de casa;

ou, melhor ainda, quanto tempo passava na empresa, aquela é que era a primeira casa. Foi,

afinal, onde sua mãe entrou em trabalho de parto, foi onde ela ficou grande parte da infância

enquanto eles trabalhavam, foi onde ela iniciou sua carreira… E agora, era o lugar do qual ela

havia assumido a diretoria.

— Eles construíram tudo isso do nada, estudaram e trabalharam tanto… E agora sinto

que tenho todo um castelo pra segurar nas minhas costas.

— Bem — Nicolas se levantou, alisando a camisa —, minhas costas não são mais as de

antigamente, mas pode ter certeza que te ajudarei a carregar esse peso — completou, recebendo

um sorriso em agradecimento. Assustou-se, então, quando o gato, que até então estava

escondido, pulou sobre a mesa.


— Brico! — Samantha fez que brigou com o bicho, mas a mão acariciando os pelos

alaranjados denunciou que não havia ressentimentos ali.

— Esse gato é seu filho mesmo — apontou Nicolas. — Passa mais tempo aqui do que

na sua casa, não é?

— Tenho dó de deixar ele lá, o dia inteiro sozinho…. — declarou num tom meloso.

— Está certo quem disse que a gente vira nossos pais. A diferença é que, quando Alice

e Marcos te traziam pra passar o dia aqui, minha alergia não ficava atacada. — Nicolas arrancou

mais uma risada de Samantha.

— Nicolas, espera um pouco — chamou Samantha ao perceber que ele estava para se

retirar. — Acha que vai dar tudo certo nessa nova fase?

— É claro que vai! — ele sorriu confiante. — Sei que você está nervosa, e que tem

muitos motivos para isso, mas não tem com o que se preocupar. Todos estão trabalhando dia e

noite para que a gente possa receber pacientes e ajudar nos mais diferentes casos.

— E você, não está nervoso também? — disse numa tentativa de tirar a atenção de si.

Muito estava em jogo: um grande passo da empresa com ela no comando, a honra ao legado

dos pais, a pessoa que seria a primeira paciente...

— Por que estaria, querida? — brincou.

— É que você faz parte do “Time dos Sonhos” original, não é? — Samantha sorriu, e

em resposta, Nicolas colocou a mão em seu ombro, arqueando também os lábios.

— E você é o epítome dele, Sam.


Capítulo 2 — Frio na barriga

A bem conhecida recepção do Hospital Aberlim Fonseca estava bastante iluminada pelo

sol naquele dia. Em meio a pessoas aguardando nas cadeiras por atendimentos ou visitas,

Samantha encaminhou-se prontamente para o balcão central, mais como formalidade, visto que

já estava familiarizada com as regras de horários de visita.

— Oi, Rai. — Sam sorriu para a enfermeira sentada atrás do balcão em formato de meia

lua que ficava no fundo da sala. — Como ela tá?

— Nenhuma reclamação até agora. — A resposta veio com um sorriso enquanto a

mulher digitava no computador à sua frente.

— Ih, então deve ter alguma coisa errada — brincou, fazendo a outra rir antes de entrar

no quarto e ver a mulher sentada na cama. Estava observando o sol do lado de fora, permitindo

que Sam contemplasse seu perfil: os olhos grandes e castanhos, o nariz reto que terminava um

pouco mais alargado e a boca que parecia desenhada à mão. Os cabelos curtos e escuros eram

a moldura perfeita para aquele rosto da pele cor de mel, ela achava. A dona do conjunto

percebeu então a presença da outra ali, lançando-lhe um sorriso. Samantha fechou a porta e em

seguida as persianas da janela que dava para o corredor, trazendo mais privacidade ao pequeno

ambiente, que além da cama tinha um sofá de dois lugares, uma cadeira e uma pequena mesa.

— Cortinas fechadas? — a mulher arqueou uma das sobrancelhas e cruzou os braços,

bem humorada.

— Porque eu sei que você tá espiando pra ver o que tá perdendo — Sam largou a bolsa

na mesa e andou até a lateral da cama, sentando-se de frente para a outra. — Ainda acho que

você não deveria ter sido internada no hospital onde trabalha. Te dá uma noção bem errada do

que é uma licença médica.


— Besteira — Maíra abriu um sorriso enquanto a outra se aproximava, até que os dois

lábios se encontrassem. Enquanto lhe beijava, Sam acariciava o braço da mulher, passeando os

dedos para cima até entrelaça-los nos fios de seu cabelo. Afastou-se então, lentamente, as duas

sorrindo uma à outra. — Só estou vendo o que acontece, mas de fora. Como se eu estivesse

vendo uma novela.

— Sei — Samantha riu, bem humorada. — Ah, falando nisso, trouxe mais livros pra

você.

— Eba! — a mulher bateu palmas em comemoração, como uma criança que aguarda

um presente.

Samantha havia conhecido Maíra quase um ano antes, por causa de amigos em comum

numa festa. Amor à primeira vista não era o termo mais apropriado — até porque você não se

apaixona automaticamente pela pessoa que derrubou vinho na sua blusa no momento em que

vocês foram apresentadas. Mas depois de panos com removedores de manchas e um pouco

mais de vinho, que dessa vez foi pra dentro dos corpos, as duas conversaram até o dia clarear.

Não demorou muito até que Sam se apaixonasse pelo jeito cativante com o qual Maíra contava

suas histórias, o sorriso irresistível que trazia no rosto e a risada contagiante. As duas

começaram a namorar, e aí sim permitiram que o amor as invadisse com tudo.

Um mês atrás, Sam havia recebido a segunda pior ligação de sua vida — a primeira não

tinha vindo muito tempo antes, informando-a sobre a morte de seus pais. Essa era do hospital

onde Maíra trabalhava como enfermeira, mas não com algum amigo querendo falar com ela ou

a própria ligando para perguntar como o seu dia estava indo. A enfermeira plantonista daquela

noite ligava para avisar que Maíra havia adentrado a sala de emergência como paciente.

Sam correu o mais rápido que pôde, entrou no carro e disparou em direção ao hospital.

Foi só quando chegou lá que entendeu o que havia acontecido: Maíra se envolveu em um
acidente com seu carro enquanto voltava para casa. Sua colega de trabalho, Vanessa, estava

com ela e morreu na hora. Maíra ficou em coma durante três dias, e ao acordar, não se recordava

de nada sobre o momento do acidente.

— São todos ótimos — Maíra se ajeitou em sua cama enquanto analisava os livros em

seu colo, olhando para cima e piscando para Samantha. — Mas nenhum tão bom quanto a sua

presença aqui.

— Sabe que se pudesse eu passava o dia aqui — Samantha abriu um sorriso e sentou-

se ao lado da namorada, passando um dos braços por trás dela para envolvê-la num abraço. —

Mas anda um bem corrido lá na Dreamland.

— Ah, é? Ouvi dizer sobre uma nova paciente chegando… — brincou Maíra.

— Sim, e dizem que é uma gatinha — piscou Sam, recebendo um rolar de olhos da

outra. — Eu tenho muita honra em ter você como minha primeira paciente, Mai.

— Na verdade, não sou exatamente a primeira paciente, né? — sorriu.

— É a primeira dessa nova fase — Sam repousou a cabeça no ombro da outra,

atentando-se aos ferimentos, e repousou sua mão sobre a dela. — Vamos descobrir tudo que

aconteceu, e aí tudo vai ficar bem. Prometo pra você.

▉▉▉

— SAM! — a voz que a chamava vinha do corredor, fazendo-a levantar o olhar que

fixava na tela do computador. — SAM! — o som ficou mais alto, e então uma cabeça apareceu

na porta de sua sala. O homem alto e encorpado deixava à mostra apenas seus cachos castanhos,

que estavam penteados para trás com um topete. — Adivinha que cor de terno eu tô usando.
— Pera, você tá usando um terno? — ela franziu a testa, largando a caneta que usava

para escrever os compromissos da semana seguinte. — Essa é a parte mais surpreendente da

história até agora.

— Não, é a cor que é o legal — ele rolou os olhos.

— Vou ter que discordar — Samantha levantou-se para organizar os documentos em

sua mesa, ficando de costas para o amigo. — Não consigo lembrar se já te vi em algo que não

fosse jeans e tênis, Lu.

— Ah, qual é — Luís se revelou em derrota, e Sam soltou uma risada alta ao se virar e

ver o terno rosa-claro. — A Júlia disse que nunca pensou que ia me ver de cor-de-rosa.

— São muitas surpresas ao mesmo tempo — aproximou-se para um beijo na bochecha

do mais alto e soltou uma risada. — O que seu pai achou disso?

— Acho que ele já desistiu de me julgar — respondeu, encolhendo os ombros, enquanto

os dois percorriam o corredor.

— E aí, muito sono depois de ter passado a noite em claro?

— Cara — Luís parou e pôs as mãos nos ombros de Sam, o que como ela bem sabia,

era apenas sua forma de causar efeitos dramáticos. — Eu tô morrendo. Mas é por uma boa

causa.

— Ah, por isso o terno?

— Claro. Eu sou o teste final do apanhador de sonhos, tenho que sair bem na foto. E

estou falando literalmente, porque espero que aconteça uma sessão de fotos desse evento.

Samantha soltou outra risada enquanto olhava para Luís. Mesmo alguns anos mais

velho que ela, o homem nunca deixou de agir como um adolescente, o que afinal, fazia parte
do seu charme. Samantha tinha um carinho de irmã pelo filho de Nicolas, que também cresceu

ali, e era alguém que ela sempre queria ter por perto.

— “Bagigi Nanana”, lá vamos nós — Luís apontou para a placa acima da porta da sala,

e Sam balançou a cabeça. O que realmente estava escrito ali era Bwaajige Ngwaagan,

“apanhador de sonhos” na língua dos índios ojíbuas.

— Você sabe que essa não é a pronúncia certa.

— E qual é então? — ele olhou para Sam, já na antessala e com a mão no trinco da

porta que levava até a maca.

— Só sei que não é essa — deu de ombros.

Enquanto Luís sentava-se sobre a maca para que o técnico conectasse os eletrodos à sua

cabeça, Sam não pode deixar de imaginar como seriam as sessões com Maíra. Até agora, tudo

que ela havia lembrado eram fragmentos sem nenhuma informação específica. O dia em que

Nicolas sugeriu que ela fosse paciente da Dreamland tinha sido a primeira vez que Sam respirou

fundo desde que recebeu a notícia de que namorada tinha se envolvido no acidente. Não

aguentava vê-la sofrendo, mas agora, pelo menos, estaria fazendo alguma coisa para ajudar a

pôr um fim nessa história. Dentre suas inúmeras preocupações, estava o medo de que lhe

faltasse profissionalismo no momento em que Maíra entrasse ali como paciente, e antes mesmo

de isso acontecer, sua mente já estava divagando ao pensar em tudo que poderia dar errado.

De volta à antessala, Sam assistiu o início da transmissão de dados ao computador.

Nicolas ficou em pé atrás dela, conferindo as informações também.

— Tudo parece certo com os gráficos — ele observava as linhas azuis sobre a tela

branca que mostravam a atividade cerebral do filho. — Mas saberemos mais quando ele entrar
no sono Não-REM… E você não está prestando atenção. — Nicolas percebeu que Samantha

estava com a cadeira virada, olhando para a foto fixada na parede.

— Você mesmo acabou de dizer que precisamos esperar — devolveu, ainda adorando

a imagem da mãe sorrindo em meio a casais dançando; imagem de uma cena que na verdade

nunca aconteceu fora do sonho de Marcos, de onde foi capturada. Olhou então para a sequência

de molduras brancas com fotos, que se estendia após uma falha. — Não entendo esse espaço

em branco entre as molduras.

— Eu também não, mas arriscaria dizer que seus pais o estavam guardando para uma

foto de você como diretora.

— Ou do apanhador atuando com pacientes de trauma.

— Bem, os dois eventos se coincidiram, então vamos nos lembrar de registrá-lo e

matamos dois coelhos — sorriu o homem.

Como ainda seriam algumas horas até que o paciente começasse a sonhar, Samantha

decidiu dar uma volta até a cozinha para tentar clarear a mente. Chegando na cozinha, serviu-

se de café e um pedaço do bolo que alguém havia levado para lá. Aliás, não qualquer alguém:

uma mordida foi o bastante para que o gosto de laranja e chocolate branco invadisse sua boca,

e aquele bolo ela conhecia bem. Era um de seus preferidos, preparado numa confeitaria que

ficava próxima à casa de Luís. Ele sabia o quanto ela amava o doce e, sempre que podia, levava-

o para ela. Sentando-se à mesa de mármore branco que ficava no centro do ambiente, repetiu o

que fazia quase todas as vezes que estava ali: passou a fixar o olhar na foto de seus pais,

emoldurada na parede. Foi tirada durante os primeiros meses da Dreamland, e os dois estavam

lado a lado em meio à empresa com poucos móveis e ainda menos pessoas. Alice tinha os

longos cabelos ruivos repousados sobre o ombro de Marcos, que sorria assim como ela.
Era inexplicável a falta que os dois faziam na vida de Samantha. Sempre fora muito

próxima de seus pais, e agora, um ano e meio após eles terem sido tirados da vida dela, a dor

ainda era constante. Ela agradecia, porém, ainda poder estar naquele lugar que lhe trazia

lembranças tão boas, e sentia que estava lhes dando orgulho por carregar o que eles batalharam

tanto para construir. Enxugando as lágrimas que haviam caído involuntariamente, a mulher se

levantou para voltar ao trabalho, respirando aliviada ao perceber que, afinal, ainda tinha uma

família que a amava e ajudava em todos os passos.

▉▉▉

— Precisa me apresentar às suas sete namoradas, Lu — Samantha brincou assim que o

homem abriu seus olhos.

— Sim, eu tava sonhando com uma festa! — ele arregalou os olhos com a percepção.

— É uma que ainda vai acontecer, acho que estou mais ansioso do que imaginava. Está com

inveja que não era uma delas, Sam?

— Acho que estou muito bem na posição de amiga, obrigada — riu, e Luís viu que seu

pai estava fazendo o mesmo.

— Pelo menos minha mãe não estava aqui para ver isso. Mas então, qual foi a minha

nota? Qual o diagnóstico?

— Isso lá é escola pra você ter nota? — devolveu com um riso baixo. — E não tem

diagnóstico também, você não passou por nenhum trauma.

— Você diz isso porque não viu o tanto de rejeições que sofri nessa festa imaginária —

Luís levantou a sobrancelha.

Assim que saiu da sala, Sam foi abordada pela recepcionista, Júlia, que chamou sua

atenção antes que ela se afastasse e olhou bem em seus olhos.


— Sam, tem um homem querendo falar com você.

— Pode transferir a ligação para a minha sala, por favor? — Abriu um sorriso simpático,

mas antes que pudesse continuar caminhando para sua sala, percebeu que a mulher não havia

assentido com a cabeça.

— Não, falar pessoalmente. Ele está ali na sala de reuniões — ela apontou em frente e

Sam pode ver, sentado numa das cadeiras em volta da larga mesa de madeira, um homem de

idade similar à sua, cabelos castanhos e olhos azuis. Tinha os traços bem definidos, mas a testa

franzida não a deixava ver muito. Usava um terno cinza e encarava a parede, com os braços

cruzados.

— E quem seria essa pessoa? — Sam virou-se novamente em direção à recepcionista.

— Ele não me disse muito — ela apertou os olhos para observar melhor o sujeito. —

Só que se chama Frederico de Souza, precisa conversar com você, e que você vai querer ouvir

o que ele tem pra dizer. Eu falei que ele precisa marcar um horário, mas ele insistiu bastante.

— Tá bem — Sam jogou as mãos para cima, como em derrota, e se encaminhou à sala,

virando para a outra com um sorriso bem humorado. — Se eu não sair da sala em dez minutos,

chame a polícia — brincou.

— Samantha Castilha? — confirmou o homem após levantar-se para apertar a mão de

Sam. Ela desconfiava que seria mais uma pessoa querendo tratar de algum assunto relacionado

à morte de seus pais. Andava tendo muitas dessas reuniões.

— Em carne e osso. Frederico de Souza, certo?

— Isso mesmo — ele abriu um sorriso enquanto os dois se sentavam, e ela lhe encarou

com a testa franzida. Ele tinha um daqueles olhares penetrantes que te fazem querer continuar

olhando mesmo sem um motivo específico para tal. O azul a atraía, quase a puxava para dentro.
— Esse sotaque é de onde? — ela levantou a sobrancelha.

— Alemanha — respondeu resumidamente. — Morei lá por um bom tempo.

— Ah — Sam assentiu. — E posso perguntar o motivo da sua visita aqui hoje?

Frederico ajeitou-se na cadeira e limpou a garganta, como que em preparação para então

entregar a resposta toda de uma vez só.

— Samantha, eu sou do Conselho Regional de Neurociência. Estou aqui porque existe

uma não-conformidade na máquina que você pretende começar a operar.


Capítulo 3 — Ponto de virada

— Como assim? — Samantha foi tomada pela surpresa, franzindo a testa e endireitando

as costas contra a cadeira. — Nós passamos por todos os testes, apresentamos todos os

documentos para o Conselho… Estamos só esperando o aval ser formalizado. Estamos dentro

das normas!

— Parece que não é bem o caso — o homem abriu a maleta que repousava sobre a mesa

e tirou um compilado de papéis que estavam grampeados juntos, repousando-o sobre a mesa e

passando o dedo pelas informações impressas. — Um dos nossos analistas detectou alguns

documentos faltantes, e não podemos liberar o processo sem eles.

— “Liberação de propriedade intelectual em multimídia?” “Teste de condições

adversas?” Eu nunca ouvi falar nessas coisas! — Samantha chegou a levantar o tom de voz,

mas logo abriu um sorriso tentando mostrar simpatia. — Senhor Souza, não estou entendendo,

nós entregamos todo o necessário—

— É bem simples, senhorita Castilha — Frederico olhou Samantha nos olhos, indicando

os papéis com a cabeça enquanto cruzava os dedos em cima do monte. — Vocês devem me

entregar tudo que está nessa lista, ou não podem iniciar seus serviços externos.

Samantha estava dividida entre o espanto e a indignação. Tinha um time de pessoas

confiáveis que haviam feito tudo o que deviam. Poderia, é claro, conseguir os documentos

faltantes, mas não queria ter de fazer isso. Antes que se exaltasse com o homem insolente, que

ao seu ver parecia bastante satisfeito em estar atrapalhando seu trabalho, retirou-se e voltou até

a mesa de Júlia.
— Preciso de uma reunião com a diretoria, Ju — suplicou. — Chame todos o mais

rápido possível, e por favor, mostre a saída para o senhor Souza — bufou antes de caminhar

apressada até sua sala, a fim de se recuperar da má notícia.

▉▉▉

— Então, esses são os fatos — Samantha cruzou os braços, sentada na ponta da mesa e

com a plena atenção dos outros cinco diretores. — Acham que conseguimos nos livrar deles?

— Nos livrar do conselho, nunca — suspirou Nicolas. — Infelizmente, eles estão

sempre mudando as regras.

— E nós não queremos começar a operar sem estar seguindo elas — concordou Tânia,

a diretora do setor financeiro, antes que o homem ao seu lado também se pronunciasse.

— Até porque as empresas em não-conformidade com o Conselho estão num

documento de acesso público. Obviamente não ficaria nada bem para a nossa imagem iniciar

as atividades dessa maneira.

— Está bem, então está decidido — Samantha escrevia a nova tarefa em sua agenda ao

dar a ordem. — Quero que reúnam uma equipe, por favor, para darem conta dos documentos

faltantes, de acordo com a área da empresa com que cada um se relaciona. Vamos nos encontrar

no fim do dia novamente e reunir o que a gente tiver pra ver se o Conselho deixa a gente em

paz. Ah, e Léo? — chamou o que sentava mais longe dela, que lhe lançou um olhar como

resposta. — Hoje é aniversário do seu filho, nada de ficar até tarde — sorriu.

— Pode deixar, chefe — ele riu em agradecimento.

Naquele dia, Sam foi almoçar num dos restaurantes que ficavam mais perto da empresa

— pelo menos mais perto dentro da regra dela de “caminhar por pelo menos vinte minutos para

que a hora do almoço conte como um pequeno exercício”, já que não era a maior fã de
academias. O pequeno bistrô ficava na beira de um bosque, com um deque de madeira que

fazia parecer que se estava almoçando em meio à natureza. Samantha comia seu prato de

talharim enquanto olhava para as árvores enfileiradas que se perdiam de vista e os pássaros

coloridos que passeavam entre uma e outra. Sua mente, entretanto, continuava na Dreamland.

O sucesso no teste de Luís deveria ter sido a cartada final para que ela desse o grande passo e

estreasse o serviço de apoio a pacientes de trauma. A empresa já operava em serviços de

distúrbios do sono, mas o mapeamento especial em vídeo sempre fora o maior projeto de Alice,

Marcos e Nicolas. Com essa tecnologia, poderiam ajudar pacientes com traumas e situações

mais graves e até auxiliar na solução de crimes. Além do legado a carregar, Sam estaria

ajudando Maíra. Cada dia que se passava deixava ela ainda mais ansiosa pela solução de seu

caso. E aí já não era por motivos profissionais, mas sim porque ver a mulher que amava naquela

situação era angustiante demais.

Já no caminho de volta, Samantha tentava acalmar os pensamentos enquanto suspirava

fundo repetidas vezes. Com tudo que a Dreamland e Maíra significavam para ela, ficava difícil

agir objetivamente. Mas, como diretora, deveria engolir a emoção e se certificar de que todas

as exigências fossem cumpridas em cada etapa; e sabia que sua equipe estava pronta para fazer

o mesmo. Subiu as escadas até o terceiro andar já se sentindo mais leve, mas assim que abriu

a porta, viu quem estava na sala do apanhador de sonhos e desfez o sorriso em seu rosto.

Aproximou-se da moldura da porta para chamar a atenção de Nicolas, que acompanhava o

homem ali.

— O que Frederico quer com o apanhador? — sussurrou depois que ele saiu para o

corredor.
— Ele voltou do almoço e pediu pra esperar a reunião por aqui. Só estava mostrando a

empresa pra ele — Nicolas levantou as mãos, pedindo calma, e pausou por alguns segundos

antes de contar o resto da história, apreensivo. — E também ofereci que ele fizesse um teste.

— O que? — Sam arregalou os olhos, passando perto de elevar a voz o bastante para

que o sujeito da conversa ouvisse. — Eu não queria nem que esse cara estivesse aqui, e você

quer colocar ele no apanhador?

— Sam, você sabe que o Conselho tem o direito de fazer visitas-surpresa. Agora, só nos

resta tentar sermos legais com o cara. Quem sabe isso pode até ajudar no nosso caso. Ele parece

bastante interessado na máquina, gostou muito da ideia de fazer um teste.

— Tá bom — a mulher rolou os olhos, a expressão ainda aborrecida.

— Seja legal — ele apontou o dedo para a mulher, que ainda relutante concordou com

a cabeça antes que os dois adentrassem a sala.

— Uau. É realmente muito interessante — Frederico admirava, através do vidro, a

máquina circular que cercava a cama, franzindo a testa com o que observou em seguida,

passeando sobre ela. — Pera, aquilo é um gato?

— Ai, meu deus — Sam não pode deixar de rir com a visão de Brico em cima da cama

do apanhador de sonhos, rapidamente indo ao seu resgate e trazendo ele de volta em seu colo.

— Desculpa.

— Não faz mal, adoro gatos — Fred passou a fazer carinho nos pelos felpudos do

animal. — Qual o nome dele?

— Brico.

— Brico? — o homem estranhou.


— Na verdade é Bernard, em homenagem a um neurocientista que eu admiro. O nome

dele é Bernard Bricostola, daí o apelido.

— Entendi — ele riu, voltando-se novamente para o vidro. — E como funciona tudo

isso?

— É bem simples, na verdade — Sam largou o gato no chão e alisou seu blazer com as

mãos, a fim de eliminar os pêlos alaranjados deixados sobre o tecido verde.

— Tenho certeza de que qualquer graduado em Neurociência concorda com você —

Fred riu.

— Aqueles eletrodos na cabeceira são conectados ao paciente — Sam apontou através

do vidro. — Eles detectam os impulsos eletrônicos, que são mandados ao HD do computador

e convertidos em imagens e som. Nosso software organiza as imagens em sequência e... Está

feita a mágica.

— E essas imagens tem uma definição boa?

— Não são perfeitas ainda, mas geralmente dá até pra reconhecer pessoas. Claro que

isso nem sempre vem ao caso, porque às vezes a gente sonha com alguém que a gente sabe

quem é, mas ela está com outra aparência. Mas claro, quem vai dizer o que o sonho significou

é você.

— Certo — ele ainda tinha os olhos fixos na obra enquanto os dois finalmente

adentravam a sala, ele passeando os olhos pelo teto e reparando na luz baixa. — Acho que

nunca estive em um ambiente tão calmo.

— Bem, tudo o que se faz aqui é dormir, então se tem uma coisa que ele precisa ser é

relaxante — Sam sorriu e indicou a cama, notando a expressão do homem. — Me parece que

você está nervoso, estou certa?


— É que ando tendo uns sonhos ruins… Não sei o que isso vai significar aqui.

— Se quiser, tem uma cantiga de ninar infalível que minha mãe sempre cantava pra

mim — brincou a mulher, fazendo o outro soltar uma risada rápida.

— Sua mãe foi quem fundou a Dreamland, né? — o homem se ajeitou na cama.

— Sim — respondeu enquanto conectava os eletrodos à cabeça de Fred. — Ela e meu

pai. Ele era engenheiro mecânico.

— Ah, então você deve saber uma coisa ou outra sobre o assunto.

— “Uma coisa ou outra” é a definição perfeita — fez o outro rir antes de se retirar.

Sentando-se em frente ao computador, Sam apagou as luzes da sala adjacente e

observou os gráficos que indicavam atividade cerebral regular. Pegou então um livro seu que

havia deixado na gaveta, mas antes que pudesse começar a ler, seu celular tocou.

— Achei que a namorada mais brega do mundo tinha prometido me ligar todos os dias

no almoço — Maíra anunciou assim que a chamada foi aceita, e a outra trouxe a mão ao rosto,

fechando os olhos.

— Nossa, Mai, eu esqueci mesmo, desculpa. Mas a propósito, a mais brega é você, e

você sabe disso.

— Ah, por favor, você já viu as mensagens que você me manda?

— Aquilo são memes, pra sua informação — Samantha se defendeu. — É uma ironia.

— Não se são a única maneira como você se expressa. Chuchuzinho — provocou Mai,

ouvindo a risada do outro lado da linha. — Muita correria por aí?


— Na verdade, sim. Apareceu um cara do Conselho aqui, pedindo por uns documentos,

aquela chatice de sempre. — Sam limitou sua resposta, não querendo preocupar a futura

paciente.

— Ai, que saco — Maíra reclamou em simpatia. — E onde tá o cara agora?

— Dormindo aqui na minha frente — brincou.

— Nossa, essa frase poderia soar bem estranha em outro contexto — ponderou a outra.

— Espera, continua sendo estranho, por que ele tá dormindo?

— Porque o Nicolas teve a brilhante ideia de deixar ele fazer um teste, pra puxar saco

do cara ou sei lá o que.

— Ah, vai que ele sonha com uma história que dá um bom filme? Pelo menos você tem

uma diversão pra tarde.

— Ou eu posso ir aí com você e ficar vendo reprise de filmes antigos…

— Vai por mim, a essa altura não sobrou emoção nenhuma em Lagoa Azul. Melhor

viver algo novo — brincou, arrancando outra risada da namorada.

Depois de se despedir, Sam pode abrir o livro, escolhendo uma página aleatória já que

conhecia a história tão bem — o que, ao contrário do que Mai pensava, não a impedia de sentir

todas as emoções novamente. Ainda se lembrava do quanto chorou a primeira vez que leu

Pollyanna, e por isso, mantinha a cópia que ganhara quando criança. Não era a pessoa mais

positiva do mundo, mas tentava seguir a filosofia de sempre ver o lado bom das coisas.

Assim que as imagens começaram a se formar na tela do computador, Sam levantou os

olhos e repousou o livro sobre a mesa. Viu que a cena que se formava era a de um homem de

meia idade e cabelos escuros sentado sobre o tapete de uma sala, com pilhas e pilhas de papéis

o circundando. Assim que o som começou a vir, Sam percebeu que ele parecia estar falando
consigo mesmo, repetindo uma série de informações que ela não conseguiu distinguir. Eram

numa outra língua, talvez. Quando a perspectiva mudou para como se fosse os olhos do homem,

uma olhada mais de perto a permitiu ver que havia um nome escrito no topo no papel. Por

curiosidade, capturou a cena numa imagem estática e a jogou para um programa de edição,

onde pode granular a imagem e obter a leitura: Maurice Erskine. O nome não lhe parecia

estranho.

De repente, como se a câmera que filmava a cena estivesse se afastando, quem estava

no lugar do homem era Frederico. Tinha lágrimas nos olhos, e então, acendeu um isqueiro e o

derrubou sobre os papéis.

O sonho ainda continuou por um tempo, mas não passou de um compilado de cenas

aleatórias — pelo menos para Samantha — parecidas com aquelas. Realmente pareciam um

pesadelo, como Fred havia mencionado, e o personagem misterioso era recorrente. Quando ela

viu o que parecia ser um homem em pé na beira de um prédio, assustou-se com o despertar

repentino de Fred, que pulou na cama, quase arrancando os eletrodos.

— Desculpa — ele alegou enquanto Samantha adentrava a sala.

— Imagina. Você tá bem?

— Sim — apressava-se para levantar depois que Sam lhe desconectou os cabos,

encaminhando-se para a saída. — Acho que só preciso ir para casa e descansar melhor.

— Posso te perguntar uma coisa?

— Claro.

— Quem é este homem? — Samantha indicou a cena pausada na tela.

— É meu pai… Por que? — ele respondeu já na porta que dava para o corredor, com o

olhar passeando rapidamente pela sala e sem se fixar em Sam.


— Nenhum motivo específico — respondeu, vendo-o respirar fundo. — Mas sua

angústia parece ligada a ele.

— Ele sempre foi bastante rígido comigo. Me cobra muito… Profissionalmente.

— Ah, vocês trabalham juntos?

— Não exatamente — Fred passou a mãos pelos cabelos. — Sabe como é, tem pais que

não acham nada que você faz bom o bastante.

— Acho que um chá pode ajudar a te acalmar — ela apontou para uma mesa próxima

à recepção onde estava uma garrafa térmica e algumas xícaras. — Fique à vontade.

Assim que Frederic se afastou, Sam passou em frente à sala de reuniões e viu que a

equipe parecia ter concluído o trabalho. Um dos funcionários empilhava diferentes papéis, e se

encaminhou para a porta quando viu a chefe.

— Tudo o que conseguimos está ali sam, Sam — declarou num tom de decepção. — O

problema foram os documentos mais antigos. Os registros dos primeiros anos são uma bagunça.

— Vamos ver se é o bastante — ela suspirou enquanto o outro se retirava.

Samantha sentou-se numa das cadeiras e começou a analisar o material que estava sobre

a mesa, deixando sua assinatura nos que precisavam dela. Frederico chegou logo em seguida,

e ao perceber que tudo parecia pronto, passou a analisar os documentos recolhidos, olhando

cada um do começo ao fim e marcando sinais de “visto” na lista que havia trazido. Sam os

inspecionava da mesma maneira, verificando se as informações estavam corretas, mas

admitidamente sem o mesmo tanto de atenção aplicada à leitura. Estava mais ansiosa pelo

resultado. Só queria que ele terminasse logo, que dissesse que tudo estava certo, que fosse

embora e…
— Dois documentos faltando — a voz a trouxe de volta para a realidade. — Devia se

orgulhar, já vi empresas passarem bem mais longe.

— Senhor Souza, se me permite — Samantha forçou um sorriso, pigarreando. —

Entendo que as regras sempre mudam, mas… A gente já tinha entregado tudo. Já estava tudo

certo… Não podemos manter as coisas como estavam?

— Me desculpe, Samantha, mas isso está acima de mim — Fred deu de ombros. — Sei

que vocês já tinham conseguido a liberação, mas sabe como é, quando o pessoal com o poder

encontra mais maneiras de tirar dinheiro das empresas, vira lei. É um monte de detalhezinho

chato, mas fazer o que, né?

— Bom, não deve ser muito difícil conseguir o que falta, né? Podemos continuar com

nossos planos normalmente?

— Na minha experiência, eles podem levar até noventa dias para ficarem prontos. — O

homem abriu um sorriso apologético, mas Sam não acreditou em sua sinceridade. — E a sua

licença está revogada até que os apresente.

— Minha licença?

— Sim, a do apanhador de sonhos, especificamente. Isso significa que você não pode

operá-lo comercialmente.

Ao invés de responder, Sam ficou imóvel em sua cadeira, o rosto congelado com o

choque. Ela nem respondeu quando Frederico se despediu e saiu pela porta. Noventa dias sem

praticar? Não podia ser verdade. O teste de Maíra estava marcado para o fim daquela mesma

semana. O lado bom disso é absolutamente nenhum, pensou.

Logo depois, Nicolas se aproximou, parando na moldura da porta e chamando a atenção

da mulher.
— Como foi?

— Faltaram dois documentos. Leva noventa dias pra ficarem prontos — sua voz era

calma e constante, já que ela própria ainda estava tentando digerir a informação.

— Noventa dias? — Nicolas inclinou-se para frente. — E até lá, como ficamos?

Samantha encarou Nicolas com os olhos redondos e verdes e abriu a boca, mas nenhum

som saiu dela. Os muitos pensamentos em sua mente impediram que ela soltasse a primeira

informação que lhe ocorreu. Respirou fundo, então, e aí disse:

— Ele disse que podemos continuar operando normalmente.


Capítulo 4 — Infestação inconsciente

— Bom dia a todos — enunciou o homem grisalho diante da mesa de reunião cheia de

pessoas. — Caso alguém ainda não me conheça, eu sou o Doutor Antônio, médico chefe no

caso de Maíra Belmonte. Repassando o caso, Maíra adentrou a sala de emergência no último

19 de agosto, às onze da noite, desacordada e com vários ferimentos graves…

Nesse momento, Nicolas segurou forte a mão de Samantha, perguntando com o olhar

se ela estava bem ouvindo aquilo. Sam abriu um sorriso de canto e assentiu com a cabeça.

— É um caso de amnésia retrógrada, ou seja, a paciente não consegue se lembrar do

que aconteceu antes que a concussão na cabeça lhe deixasse inconsciente. Isso também está

associado ao trauma da situação, obviamente, em que o cérebro simplesmente bloqueia o

acontecimento.

— Em relação aos fatos policiais, também não temos muita informação — a mulher de

pele escura e cabelos ralos que se sentava ao lado de Sam tomou a palavra. Era Clarice

Nogueira, uma oficial da polícia e amiga sua. — O carro estava capotado no acostamento da

rodovia, severamente danificado. Era uma curva de alta velocidade e chovia no dia, então a

suspeita é que esses dois fatores tenham sido a causa, mas a presença de tinta na parte frontal

do carro nos leva a crer que outro veículo esteve envolvido. Infelizmente, não temos

testemunhas que possam dar mais informações, então dependemos das lembranças da Maíra.

— Acho que é importante lembrar que a primeira sessão não vai nos dar tudo que

precisamos — Samantha tomou a palavra, percorrendo os olhos por entre os presentes, que

além do médico e policial consistiam de diferentes membros da diretoria da Dreamland. — É

o que todos os envolvidos gostariam que acontecesse, claro, mas não temos como saber quando

ela vai sonhar com algo relevante para o caso. E também não podemos trazê-la aqui todos os

dias.
— As nossas recomendações médicas são de que ela faça o tratamento no máximo três

vezes por semana — concluiu o médico. — Mas estaremos acompanhando de perto para ver

se vai funcionar dessa maneira.

Após a reunião ser concluída, Sam saiu da sala e foi direto para o elevador. Não havia

contado para ninguém que a licença do apanhador de sonhos tinha sido revogada, e decidiu

prosseguir com o teste de Maíra da mesma maneira. Mal é um uso comercial, pensou, devido

à relação entre as duas. Havia chegado longe demais para desistir ali. Os pais dedicaram suas

vidas àquilo e ela também. E, de qualquer forma, ela estava pronta pra encarar as consequências

sozinha se precisasse. Era assim que via as coisas desde muito cedo em sua vida, seguindo o

exemplo dos pais. É claro que a Dreamland lhes trouxe muitas coisas boas, como a vida

confortável que ela perdurava agora, mas a empresa também significava uma quantidade

massiva de responsabilidade. E o único jeito de continuar seguindo em frente, mesmo com

tantos fatores em jogo, é assumir os riscos e encará-los de frente.

Além disso, havia prometido a si mesma ajudar Maíra, e não iria desistir agora. Antes

dela, Sam nunca tinha se sentido dessa maneira. Ela foi diferente de todas as outras desde o

começo, e Sam teve certeza disso ao perceber o quão disparado seu coração estava enquanto

ela a procurava na sala de emergência, na noite do acidente. Sua frequência cardíaca já havia

se alterado antes por causa de Maíra — inclusive uma vez em que a mulher estava com um

estetoscópio pressionado contra seu peito como brincadeira, e pode ver a resposta fisiológica

resultada da vontade da namorada em dizer “Eu te amo” pela primeira vez. Mas aquela vez foi

diferente, é claro. Encontrou Maíra desacordada numa maca, com muitos de seus colegas de

trabalho à sua volta, que moviam-se rapidamente e trocavam comandos entre si. Aproximou-

se e viu o rosto inchado e ensanguentado, um corte pequeno no lábio e um maior atravessando

uma das sobrancelhas. Começou a chorar imediatamente, e sentiu fortes braços ajudarem a

carregá-la para longe dali. Não gostava de perder o controle, mas naquele momento, não era
capaz de comandar seu corpo a fazer o que fosse. Então, sentou-se e chorou até que alguém

trouxesse notícias.

Quando as portas do elevador se abriram, a mulher pôs fim ao devaneio e saiu para a

garagem subterrânea. Vai dar tudo certo, repetia para si mesma.

Vai dar tudo certo.

Sentada no interior da ambulância e acompanhada de um enfermeiro e um paramédico,

Maíra mantinha os olhos fechados e respirava fundo repetidas vezes. Havia muito em jogo:

teria de reviver momentos traumáticos, mas poderia ajudar a encontrar o culpado pelo acidente;

tinha a chance de colocar aquilo para trás, mas tinha medo de decepcionar Sam caso as coisas

não corressem como esperado. Pelo menos não vou ter que contar a história de novo, pensou.

Desde que acordou no hospital, diferentes pessoas lhe faziam a mesma pergunta: “O que você

lembra?”. Médicos, policiais, amigos, familiares… A essa altura, já era quase como uma fala

decorada.

Era tarde da noite, o fim dos turnos dela e de sua amiga. As duas correram pelo

estacionamento, devido à chuva, e entraram no carro de Maíra. Depois disso, ela se lembrava

de um samba tocando no rádio. E então, acordou três dias mais tarde, no hospital.

Assim que a ambulância parou, os homens ajudaram Maíra a descer com sua cadeira de

rodas. Sam sorriu e a recebeu com um beijo, passando a conduzir a cadeira para o elevador.

— Como está se sentindo?

— Ansiosa — respondeu Maíra, tentando mascarar o nervosismo com um sorriso.

— Se quiser, posso te descrever o processo mais uma vez.


— Esse não precisa, você repete até enquanto dorme — sorriu. Assim que saíram no

segundo andar, Sam empurrou a cadeira para a direita, causando estranhamento na outra. —

Não estamos indo para a sala do apanhador de sonhos?

— Não — respondeu a outra em tom misterioso. Adentraram então seu escritório, onde

Brico pulou no colo de Maíra.

— Oi, peludinho! — disse em tom carinhoso enquanto acariciava o bicho, que

ronronava para ela. Sam se aproximou e depositou uma grande caixa preta no colo da

namorada, o que espantou o animal. — O que é isso?

— Um presente pra você — respondeu enquanto voltava a conduzi-la para fora, dessa

vez para a sala onde a sessão aconteceria. — Pode abrir.

Ao retirar a tampa da caixa, a primeira coisa que Maíra viu foi um papel com os dizeres

“kit de sobrevivência da Mai nas suas sessões de soneca” escritos com a letra de Sam numa

caneta cor-de-rosa. Ela soltou uma risada e retirou-o de cima para conferir os outros itens.

— Pegou um cobertor da minha casa? — Ela amaciou o tecido azul-petróleo.

— Sim, e um que eu sei que você ama.

Além do cobertor, a caixa trazia um porta-retrato com uma foto das duas, abraçadas

uma à outra na festa de ano novo; uma das máscaras de olhos que Mai usava para dormir, um

pequeno elefante de metal que ficava na cômoda do seu quarto e um livro de bolso.

— Olha, não quero parecer ingrata, mas você sabe que eu odeio esse livro — ela retirou

o item da caixa assim que sua cadeira foi estacionada ao lado da cama do apanhador.

— Você nunca disse que odeia ele, disse que ele te dá sono. E está aqui para dormir —

Sam trazia uma expressão orgulhosa, o que fez a outra abrir um sorriso.
— Eu amei. Obrigada. Minhas sessões de soneca vão ser bem mais divertidas nesse

quarto de robô.

— Quarto de robô? — Nicolas estranhou a expressão.

— Vai dizer que não parece? É só uma cama supertecnológica num quarto vazio!

— Um quarto pensado especificamente para se dormir — apontou Sam enquanto

começava a espalhar os itens da caixa por ali, com ajuda de uma pequena mesa trazida para a

ocasião. — As paredes são azuis porque é a cor que mais acalma, as luzes são baixas para

ajudar a relaxar, e você tem que admitir que esse é um ótimo colchão.

Maíra concordou com a cabeça enquanto se deitava sobre a cama, ajeitando-se com

ajuda dos outros. Samantha cobriu-a com a manta e passou a lhe acariciar os cabelos,

percebendo a dificuldade da outra em relaxar.

— Quer uma pílula de maracujá para cair no sono? — perguntou com a voz doce, e

Maíra aceitou. Quando viu que o enfermeiro já estava providenciando o medicamento, sentou-

se ao lado da cama e segurou a mão da namorada. Lembrou-se das vezes em que havia feito o

mesmo com ela no hospital, por vezes desacordada. Agora, era a visão de seus olhos se

fechando que a trazia paz. Tudo estava indo bem.

Assim que percebeu que Maíra parecia estar caindo no sono, voltou até a antessala,

sendo recebida pelo sorriso acolhedor de Nicolas. Sentou-se em frente ao computador, os olhos

fixados na cama através do vidro, e sentiu a mão do homem em seu ombro. Nicolas percebeu

que Samantha mal piscava na expectativa.

Quando as imagens finalmente vieram, ela pôde ver um grande salão com mesas de

madeira e arranjos de flores e velas. O cenário era semelhante a um restaurante do qual Maíra

gostava desde pequena. A cena parecia estar acontecendo no ponto de vista da mulher, já que
passeava por entre as mesas e se aproximava de uma ao fundo, até que a “câmera” se abaixou

até a altura de uma pessoa sentada. Com seus longos cachos ruivos, Vanessa estava sentada do

lado oposto, o que fez Samantha aproximar-se ainda mais do monitor. Sabia que não deveria

ater-se a esperanças de ter respostas sólidas já na primeira sessão, mas sentiu um alívio enorme

ao ver a personagem aparecer ali. Precisava de respostas rápido; quanto antes as tivesse, mais

cedo Maíra poderia avançar em seu tratamento. Além disso, não sabia qual seria a próxima

visita do Conselho, o qual ela estava trabalhando contra.

Vanessa derrubou uma lágrima e rapidamente começou a discutir com a outra. Isso, é

claro, Samantha percebeu pelas suas sobrancelhas franzidas e o modo como mexia a boca

rapidamente; mas não por palavras proferidas. Aumentou o volume no computador, mas não

teve sucesso: tudo que podia ouvir era uma música vinda de um piano. Não sabia o que a outra

estava dizendo, mas quem sabe, agora, Maíra iria se lembrar. Ou então, nem tinha chegado a

esquecer dessa particular conversa — apenas a omitiu de sua namorada.

Ainda focada em tentar descobrir o conteúdo da conversa, Samantha tinha os olhos

fixados no monitor, até que a tela ficou completamente preta.

— O que aconteceu? — exclamou por costume enquanto ela mesma passava a verificar

as configurações do software.

— Sam — Nicolas obteve sua atenção ao apontar em frente, e foi só então que ela viu

que Maíra havia acordado e estava tentando tirar os eletrodos de sua cabeça, o enfermeiro

tentando acalmá-la.

— Tá tudo bem, Mai — Samantha correu ao encontro de Maíra, gentilmente levando

suas mãos aos ombros da outra na tentativa de acalmá-la, massageando-os enquanto o outro

lhe retirava os eletrodos um a um.

— Não era pra eu ter acordado, né? — Maíra mordeu os lábios.


— Não existe nenhuma regra aqui. Só queremos ajudar. — Samantha então sentou-se

na maca, sorrindo para o enfermeiro antes que ele se afastasse. — Você estava sonhando com

seu jantar com a Vanessa, certo? Aquele que vocês tiveram alguns dias antes do acidente.

— Sim — a mulher desviou o olhar, respirando fundo.

— Por que vocês estavam brigando?

— O que?

— Você não tinha me contado sobre a briga — Sam pendeu a cabeça, tentando fazer

com que a outra lhe dissesse o que o sonho havia falhado em revelar.

— Não teve briga nenhuma — Maíra sentou-se na cama, percebendo a inquietação da

namorada.

— Talvez você só não se lembre—

— Talvez seja melhor deixarmos isso pra lá — anunciou Nicolas, e Samantha o viu se

aproximando com um sorriso. — Maíra, talvez queira um chá para se acalmar?

— Não sei se um chá vai ser o bastante — suspirou.

— Não tem porque ficar nervosa, Mai — Samantha respondeu num tom dócil,

acariciando a mão de Maíra. Percebeu que talvez estivesse sendo um pouco dura com quem

havia acabado de acordar de um pesadelo. Ainda queria entender porque Maíra havia lhe

escondido a briga, mas era melhor esperar por outro momento.

Maíra engoliu seco e encarou o teto — mais precisamente o maquinário acima de sua

cabeça. Sabia que o próximo passo seria ela se deitar, o técnico conectar os eletrodos à sua

cabeça e ela começar a perder a consciência. De novo. Mas o pensamento que devia ter
acalmado só fazia seu coração bater mais e mais forte, e quando começou a sentir a respiração

lhe faltar, passou a empurrar o corpo para fora da cama com ajuda dos braços.

— Mai, o que foi? — Sam notou a respiração curta e forte, enquanto outros funcionários

se aproximavam.

— Eu não consigo. Não consigo fazer isso — disse ofegante.

— É só deitar e dormir, você consegue sim — Sam tentava manter a calma ao ver a

mulher cada vez mais agitada.

— Não, eu não posso fazer isso, eu preciso voltar, por favor — ela segurou o braço do

enfermeiro. — Me coloca de volta na cadeira.

— Mai, respira — a outra implorava sem sucesso, e o que seguiu foi uma bagunça de

vozes e pessoas e passos de um lado para o outro, e em poucos segundos, uma caravana estava

atrás de Maíra para fora da sala. Samantha estava imóvel, perdida, e só ouviu o que a outra

disse por último em meio àquilo tudo.

— Desculpa, Sam.

▉▉▉

Uma hora depois, Samantha estava no mesmo lugar para o qual tinha fugido assim que

Maíra foi embora. Deixou os funcionários da Dreamland, do hospital e da polícia discutindo o

que deveriam fazer em seguida e refugiou-se em seu escritório. Havia se sentado no sofá e

ligado a televisão, mas nem saberia dizer sobre o que era aquele filme que estava passando.

Nicolas entrou em silêncio no ambiente escuro e sentou-se ao lado da mais nova.

— Quer conversar?

— Não sei. Acho que não tem o que dizer.


— Está tudo bem. Você tem o direito de ficar chateada. Sei que tinha expectativas sobre

esse dia, e…

— Não estou chateada, estou desconfiada — respondeu num tom firme, fazendo o

homem franzir a testa.

— Desconfiada?

— Eu nunca vi a Mai desse jeito, ela estava agindo como se não fosse ela mesma —

Sam olhou para o homem ao seu lado e engoliu em seco. — Talvez ela está fingindo. Talvez

ela se lembra.

— Sam, o que você está dizendo?

— Acho que ela está mentindo sobre se lembrar do acidente. Acho que ela se lembra…

que foi tudo culpa dela.


Capítulo 5 — Implosão

Sempre uma das pessoas mais pacientes da vida de Samantha, Nicolas tomou seu tempo

para tentar convencê-la de que ela não estava pensando objetivamente. Insistia que Maíra havia

sofrido um grande trauma, e, portanto, era compreensível que estivesse agindo diferente. Mas

para Samantha era o contrário, como se ela estivesse finalmente pensando objetivamente. Não

conseguia encontrar uma razão lógica para explicar porque Maíra se recusara a simplesmente

deitar e dormir, ainda mais depois de ter sonhado com uma cena que aparentemente havia

escondido dela. E se não havia explicação lógica, havia motivo para desconfiança. Relutante,

Nicolas a deixou sozinha, sabendo que não havia tido sucesso em acalmá-la.

— Pelo menos me prometa que vai direto para casa descansar — Nicolas estava em pé

ao lado do carro onde Sam tinha acabado de entrar.

— Vou pra casa, sim — sorriu.

— Sabe que posso te levar se quiser, né?

— Prefiro ir sozinha, obrigada — apertou a mão do outro em agradecimento. — Dirigir

me ajuda a me distrair.

Assim que deu partida em seu carro e saiu do prédio, um turbilhão de pensamentos

tomou a cabeça de Samantha. E se Maíra não era a pessoa que ela pensava que fosse? Aquela

mulher amável, dócil e sorridente podia ter cometido um grande erro que agora tentava

esconder. Antes mesmo de saber dos fatos, ela já imaginava o que faria se isso fosse verdade.

Se conseguiria ficar do lado de Maíra nisso tudo. Seus olhos já começavam a umedecer

enquanto ela imaginava os momentos das duas juntas, e os sentimentos começavam a se

embaralhar um ao outro. Foi aí que ela percebeu que havia perdido a saída da avenida que

costumava pegar para ir para casa. Fez isso por causa do costume recente, afinal, quase todas
as vezes que saía do trabalho ia direto para o hospital visitar a namorada. Resolveu então seguir

o novo caminho, e em poucos minutos, lá estava. Cumprimentou a recepcionista mais

brevemente do que de costume e encaminhou-se para o quarto de Maíra. Com o tempo cinza e

a tarde acabando, o quarto estava escuro, e a mulher parecia estar dormindo. Sam fechou a

porta gentilmente, mas viu que a outra agora abria os olhos.

— Desculpa, não quis te acordar — sussurrou.

— Tudo bem, eu ainda não tinha caído no sono — Maíra olhava para baixo enquanto

Sam sentava-se à sua frente na cama após ligar a luminária ao lado dela.

— Queria conversar com você… Sobre o que aconteceu hoje. Ou melhor, deixou de

acontecer.

— Sam, eu prefiro não falar sobre isso — devolveu com um suspiro.

— Você não precisa falar nada. Eu só quero te dizer uma coisa — Sam olhou fundo nos

olhos que tinham o mesmo castanho de seus cabelos, e esperavam pela conclusão da frase. —

Se você se lembrou de alguma coisa e estava com medo que a polícia visse o seu sonho… Eu

entendo. Pode contar pra mim.

— Do que você tá falando? — Mai franziu a testa.

— Eu vi como você estava nervosa hoje, e foi só depois que eu percebi. Talvez você

não queria que todos vejam algum segredo seu sobre o dia do acidente.

— Espera — Maíra se ajeitou melhor na cama, como que para melhor encarar a mulher

à sua frente. — Você acha que eu causei o acidente? É isso?

— Eu só tô dizendo que se foi você, pode me contar. Pode me contar qualquer—


— Eu não tô acreditando que você está dizendo isso, Sam! — Maíra a interrompeu,

levantando a voz. — É isso mesmo que você acha! Que eu… Eu… Matei a Vanessa e agora

estou impedindo que a polícia descubra que eu sou uma assassina.

— Não, eu nunca falei isso! Só achei estranho você ter dado pra trás hoje! Eu tenho o

direito de desconfiar disso — Sam se levantou.

— Você tem o direito de desconfiar?

— Mai… Você só tinha que deitar lá e dormir. É o que você estava fazendo agora,

quando eu cheguei.

— Não, Sam, não era só isso. Era ter mais um pesadelo, mais uma vez. Era um time de

pessoas entrar na minha cabeça e gravar um vídeo do momento mais traumático da minha vida.

Era eu acordar com médicos, neurocientistas e detetives em volta de mim, me perguntando o

que cada uma daquelas coisas significava.

Samantha emudeceu. Sabia que havia agido precipitadamente, mas não conseguia tirar

da cabeça a ideia de que havia algo de errado ali. Pensou nisso e foi como se a semente tivesse

sido plantada em sua mente e ela não seria convencida do contrário tão facilmente. Mas agora

via também o lado de Maíra, e percebia que talvez tivesse exagerado.

— Sabe — a voz de Maíra já havia voltado ao seu usual tom calmo. — Você vive me

dizendo que tem medo de parecer fria demais, ou parecer que lhe falta empatia porque não sabe

se expressar direito. Eu não sei se você tá tentando dizer que tá preocupada comigo ou algo

assim, mas… Você fez uma merda de trabalho agora.

— Me desculpa, Mai, eu não queria te culpar de nada — ela tentou se aproximar

novamente, mas a expressão no rosto da outra não era convidativa.

— Acho melhor você ir embora. Eu preciso descansar.


Assentindo com a cabeça, Sam pegou sua bolsa e saiu rápido, expulsa pelo tom ríspido

que havia causado na mulher que amava. Foi até seu carro, ligou o som num volume alto

(mesmo que a música dançante que veio não combinasse com o momento) e deixou rolar as

lágrimas que pediam para sair. Sempre fora impulsiva, mas na maioria das vezes, isso tinha lhe

trazido coisas boas. Foi por causa do temperamento de “faça antes, pense depois” que ela fez

amizades, conseguiu oportunidades na carreira e até iniciou seu relacionamento com Maíra.

Mas agora, havia deixado todas suas expectativas sobre a empresa dos pais pesarem sobre o

delicado estado em que ela se encontrava. Sabia que não havia sido justa — já sentia o peso do

arrependimento em seu peito assim que deixou o quarto do hospital. Mas o orgulho, por outro

lado, não a deixava voltar. Nem se sentia nesse direito, na verdade, já que a outra havia pedido

por sua saída.

Desbloqueando o celular, foi até sua conversa com Maíra, lendo as últimas mensagens,

enviadas naquela manhã:

Samantha

Bom dia, amor. Acordou bem? Já estou te esperando aqui.

Maíra

Tudo bem por aqui, e com você? Prepara um café pra mim que eu já tô saindo!

Samantha

Café não, né doida? Esqueceu que vem aqui pra dormir?

Maíra

Você sabe que nem a cafeína é páreo para o meu talento de cair no sono.
Samantha

Hahaha <3

Em seu quarto, Maíra fazia a mesma coisa. Chegou a começar uma mensagem, mesmo

sem saber o que ia dizer:

“Sei que é difícil pra você…”

Sem saber que Sam estava vendo em sua tela que ela estava digitando, ela logo apagou

a frase que havia começado. Sabia o que aquela primeira sessão significava para Samantha,

mas não esperava que ela fosse se virar contra si. Desligou então seu celular e o deixou de lado.

Um pouco de tempo e uma boa noite de sono haveria de acalmar os nervos das duas, e elas

poderiam retomar a conversa pela manhã. Afinal, o que poderia mudar nas próximas doze

horas?
Capítulo 6 — Colapso

O apito na catraca anunciava a permissão de entrada de Samantha, que atravessou-o e

se dirigiu ao elevador, como se aquela fosse uma manhã de trabalho qualquer — exceto pelo

fato de que ela havia trocado o dia pela noite. Já se passavam das onze quando ela adentrou o

escritório vazio, tendo ido para lá ao sair do hospital. Seus conhecidos já haviam se acostumado

com o fato de ela considerar tanto a empresa como sua casa que às vezes não fazia distinção

entre os dois lugares. Já havia passado algumas noites dormindo ali por ter trabalhado até tarde,

assistia a filmes por diversão, usava o lugar como apoio emocional e até mesmo, em algumas

ocasiões, para encontros com Maíra.

Andando até seu escritório, tirou os sapatos e jogou-se no sofá, agarrando o controle

que descansava no braço. Enquanto ela passeava pelos arquivos armazenados na televisão,

Brico pulou em seu colo, afofando-o para se acomodar. Sam estava na pasta de vídeos antigos

de seus pais, e selecionou um que mostrava os primeiros meses da Dreamland.

“Me conte o que está acontecendo, Alice” vinha a voz de seu pai, que filmava a esposa

tirando itens variados de uma caixa de papelão.

“Você e essa câmera, Marcos” ela soltou uma risada.

“O que está acontecendo é que estamos fazendo uma faxina na empresa construída pela

minha genial namorada.”

“Mais precisamente, na estante construída pelo meu genial namorado, que também é

metido a marceneiro” Alice apontou atrás de si, para a grande estante de madeira com divisões

cúbicas, que estava até hoje na sala que agora era de Sam. “E ela já está limpa, na verdade,

então podemos começar a decorá-la” ela levantou um vaso de vidro, adornado com flores

coloridas.
“Ah, sério amor?” reclamou Marcos. “Falei pra você se livrar desse vaso.”

“Tecnicamente, você me disse pra tirar ele de casa, o que eu fiz.”

“E você pode provar que foi isso que eu disse?”

“Olha, é bem provável que esse momento esteja aí na sua câmera, então fique à

vontade” respondeu, fazendo o homem rir.

Ao ouvir o som do que parecia as rodas de uma cadeira giratória rolando pelo chão,

Sam pausou o vídeo e esticou a cabeça, para ter certeza de que realmente tinha ouvido aquilo.

Veio então o som de uma gaveta sendo fechada com força. Sem fazer barulho, ela se levantou

e foi até sua mesa, pegando uma faca que tinha na gaveta para quando almoçava ali. Saiu para

o corredor cautelosa, andando lentamente em direção à sala do apanhador de sonhos, de onde

vinham os barulhos. Foi então que saiu de lá um homem, distraído com o trabalho que estava

fazendo ali.

— Frederico? — chamou Samantha, assustando o homem. Assim que assimilou sua

presença ali, porém, desfez a expressão surpresa e rolou os olhos com um suspiro irritado.

— Não era pra você estar aqui — ele respirou fundo, como em decepção, e rapidamente

alcançou de dentro de sua jaqueta uma arma, empunhando-a contra Sam. Em choque, ela

deixou cair a faca no chão, e instintivamente levantou as mãos em defesa.

— O que está acontecendo? — ela já sentia sua respiração pesar.

— Queira me acompanhar de volta até a sua sala, por favor — o homem indicou para

que ela se virasse, pressionando a arma contra suas costas, e os dois passaram a caminhar para

lá. — E aí cara? — Fred sorriu para Brico, que começou a miar ao ver a dona. — Não se

preocupa, vai ficar tudo bem.


Andando lentamente pelo corredor, a única coisa que Sam teve tempo de pensar foi o

quanto aquilo não parecia um filme de ação. Sempre gostou das protagonistas dessas histórias,

e ter os pôsteres delas na parede do seu quarto serviu não só para que seus pais percebessem

seu interesse por meninas antes mesmo dela, mas também para inspirá-la a ser mais corajosa.

Assim que viu a arma apontada para si, porém, foi como se todos os seus sentidos tivessem se

desligado automaticamente. Ela se sentia agora um robô, apenas respondendo às ordens do seu

comandante.

Frederico a levou até o banheiro acoplado ao seu escritório e indicou para se sentasse

no chão. Então, tirou do bolso um par de algemas.

— Não faça isso, por favor — ela implorou. — Só pegue o dinheiro e vá embora. Eu

posso autorizar sua entrada na sala, e—

— Não é dinheiro que eu quero — Fred soltou uma risada debochada. — Céus, é sempre

sobre dinheiro com vocês. Você não entende.

— Só me diga o que está fazendo — pediu enquanto era acorrentada ao armário debaixo

da pia. — Por que está fazendo isso?

— Não interessa. O que importa é que você perdeu. Não deve estar acostumada com

isso, não é? — Fred se levantou, e olhando para trás, pode ver Alice na cena pausada na

televisão, soltando uma risada. — Quando conseguir sair daí, dê uma olhada nos registros

antigos da Dreamland, pode te ajudar a desvendar o mistério.

— O que você vai levar?

— Ah, é isso que você quer saber? Relaxa, eu só vou levar o apanhador de sonhos —

ele abriu um sorriso satisfeito. — Bons sonhos, boneca.


Sem conseguir reagir, Samantha assistiu Frederico se afastar, até desaparecer

completamente.

Ao contrário dela, porém, o homem não podia ficar parado. Havia calculado cada

segundo daquele plano, e agora que a parte não planejada estava sob controle, ele poderia voltar

à sua função. Enquanto guardava cada peça do apanhador na caixa, era como se fosse um robô.

Movia com precisão, rapidez e frieza. Foram apenas alguns minutos até que tudo o que ele

precisava tinha sido carregado no caminhão, e então, ele sentou no banco do motorista e fechou

a porta ao seu lado. O som forte do baque fora como uma campainha que dizia: “agora você

está livre, Fred.” Não era verdade, é claro — ele ainda tinha que conseguir fugir. Mas aquela

parte do plano também tinha sido orquestrada nos mínimos detalhes. O que ele não havia

antecipado, porém, foi o turbilhão de sentimentos que quase o fez desistir de tudo.

Encarando sua própria reflexão no espelho retrovisor, custou a acreditar que quase tinha

estragado tudo pelo que batalhou por tanto tempo. Lembre-se por que está fazendo isso. Pela

sua família.

É, na verdade, lembrar isso só complica as coisas mais ainda.

Num momento que ele mesmo, mais tarde, chamaria de fraqueza, pegou a foto que

descansava no porta óculos do painel à sua frente. Era irônico que as duas crianças e seus pais

sorriam tão felizes quando, de uma maneira quase mágica, aquela imagem o fazia desandar a

chorar sem falha. Ele percorria o olhar pelos rostos enquanto as lágrimas representavam o

embaço que sua mente trazia à objetividade naquele momento. Ele, sua irmã, seu pai e sua mãe.

Uma imagem que nunca mais voltaria.

E o que você fez vai consertar as coisas, Fred? Ou será que você se tornou a pessoa

destruidora de lares que sempre ressentiu?


Capítulo 7 — Hora de acordar

Samantha estava acostumada com a Dreamland escura e quieta, de outras noites

passadas ali. Agora, porém, tinha um clima diferente. Apesar de ter algo faltando, o clima

tornou-se mais pesado que o normal. Como se o silêncio fosse… luto. Brico passeava pelas

salas e, sempre que voltava ao banheiro, deixava sair um miado longo enquanto olhava para a

dona. Ele já havia a observado através de três fases: lutar para se livrar das algemas, gritar por

ajuda, e chorar. Agora, só havia o cansaço. O gato se aproximou então das mãos de Sam,

pedindo carinho, e ela lhe afofou os pelos gentilmente, esboçando um sorriso.

— Eu também precisava de um cafuné agora, Brico.

Com o gato aconchegado em seu colo, Sam finalmente foi vencida pela exaustão.

Mesmo numa posição desconfortável, conseguiu pregar os olhos. Mas, com tudo que lhe

acontecera, o sono não vinha para ser confortante.

Em seu sonho, Sam estava andando por um longo corredor, numa casa que não

conhecia. O chão e as paredes eram de madeira, e todas as portas estavam fechadas exceto pela

última, de onde vinha o sol. Ela andava lentamente, tentando seguir o som de pessoas

conversando e rindo. De repente, olhou para o lado e encontrou um espelho, onde viu que tinha

voltado a ser uma criança. Usava um vestido branco que ia até os joelhos e estava descalça.

“Sam!” ouviu uma voz lhe chamar. Correu então para o quarto, mas quando entrou, a

luz era tão forte que ela não conseguia enxergar. Foi aí que duas mãos, também pertencentes a

uma criança, estenderam um objeto em sua direção.

Samantha andou lentamente, mas mesmo ao chegar perto, não conseguia ver nenhum

rosto. Olhou para baixo e viu que o que a criança lhe entregava era um bicho de pelúcia. Assim

que ela o pegou em suas mãos, viu que estava do lado de fora, sentada na grama.
Era um coelho cinza, um pouco sujo de terra. Tinha botões pintados com arco-íris como

olhos, e um fio preto costurado formava um sorriso. Involuntariamente, a menina começou a

apertá-lo mais e mais forte, até que derrubou uma lágrima. Sentiu, então, uma mão repousar

em seu ombro.

“Está na hora, vamos embora.” Era a voz de sua mãe.

“Mas eu não quero ir embora”, suspirou em resposta.

Samantha acordou num pulo quando Brico impulsionou as patas contra si e saiu

correndo para longe. Antes que pudesse se dar conta de que já era dia, ouviu a voz familiar

vindo de longe.

— Clarice, estou na Dreamland e fomos roubados… Certo, esperarei aqui mesmo.

— Nicolas? — ela gritou o mais alto que pode.

— Sam? — o homem devolveu, assustado, já indo em direção à voz.

— Estou no banheiro.

Nicolas chegou rápido, deparando-se com a mulher sentada no chão e presa ao armário.

— Meu Deus, Sam — ele se ajoelhou prontamente, olhando em seus olhos. — O que

aconteceu?

— Foi o Frederico. Ele levou o apanhador de sonhos, Nic — a voz já começava a ficar

embargada. — Ele levou tudo.

— Minha querida — o homem acariciou o rosto da outra delicadamente. — Espere, vou

te tirar daí.
Nicolas foi até a mesa de Sam e retornou com um clipe de papel. Abriu sua curva

externa e dobrou a ponta em noventa graus. Manuseando a trava, conseguiu desprendê-la em

segundos.

— Ver filmes de ação finalmente se mostrou útil. — Brincou, vendo um sorriso tímido

no rosto da mulher. Esticou a mão, a fim de ajudar Sam a se levantar, mas a mulher jogou-se

contra ele para um abraço. Nicolas apertou-a contra si, lhe afagando o cabelo. — Vai ficar tudo

bem. Clarice já está a caminho.

Nicolas levou Sam até o sofá e sentou-se ao seu lado. Depois de confortá-la, arriscou

algumas perguntas que ela não soube responder, pois entendia tão pouco quanto ele; por que o

homem havia feito aquilo, como, e para que sequer usaria o apanhador.

Percebendo a chegada de Clarice, Nicolas se retirou e deixou que Sam se

recompusesse. Voltando ao banheiro, ela lavou as mãos e o rosto, encarando sua reflexão no

espelho. As lágrimas já pediam para voltar, e ela amaldiçoava quem quer que tivesse lhe

passado o gene que a fazia produzir tanto choro assim — ela podia jurar que eram litros a mais

do que o que um ser humano normal deveria expelir. Após enxugar o rosto, pegou uma manta

no sofá e se enrolou nela, como uma criança depois de um pesadelo. Andou até a parede de

vidro e sentiu saudades de quando realmente era pequena e inocente, andando por aqueles

corredores sem uma preocupação sequer. Lá embaixo, como sempre, pessoas, carros e ônibus

transitavam. Era estranho pensar que, para todas as outras pessoas, aquela era uma manhã

qualquer; sem terem tido sido acorrentados, assaltados e traídos.

A conversa entre a equipe de Clarice já se estendia, o que fez Samantha perceber que

poderia estar perdendo novas descobertas. Andou então até o saguão, ainda protegida pelo

cobertor, e encontrou várias pessoas transitando.

— Samantha — Clarice lhe ofereceu um abraço apertado. — Como está?


— Bem, acho — suspirou. — O que sabemos até agora?

— Todo o equipamento do apanhador de sonhos foi levado — apontou com a caneta

para a sala em questão, onde outros dois policiais conversavam entre si e faziam anotações. —

As câmeras e dispositivos de alarme foram desligados ontem à noite, e os registros mostram

sua entrada duas vezes, o que nos leva a crer que Frederico clonou o seu cartão de acesso.

— Já passei as cópias dos documentos para Clarice — informou Nicolas. — Os que

Frederico trouxe naquele dia, e tem o número do registro dele no Conselho.

— Más notícias sobre esse registro — chamou a policial que estava sentada na mesa da

recepção e digitava num notebook. — Ele não existe.

— Ele não é nem do Conselho? — Sam arregalou os olhos, vendo a amiga fazer que

não com a cabeça.

— Iara, e os antecedentes criminais? Qualquer registro que possamos encontrar?

— Nada — a mulher balançou a cabeça. — Os documentos dele são falsos, chefe.

Estarrecida, Samantha foi até a sala do apanhador. Era de costume ir ali em momentos

de alto estresse, para se lembrar do porquê estava fazendo aquilo tudo, e ela momentaneamente

esqueceu que agora a sala não traria o conforto de sempre. Entrou e viu alguns policiais ainda

ali, preenchendo seus relatórios. Só havia sobrado a mesa e cadeira da antessala. Do outro lado,

a cama tinha apenas alguns fios suspensos acima de si, ainda presos ao painel na parede, que

teve a maior parte de sua engenharia tomada. A mulher lembrou-se de Frederico deitado ali,

passando por um teste e fingindo ser quem não era. Provavelmente o usou para investigar

detalhes que ainda não tinha sobre a máquina. E ele levou tudo… tudo

Mas não levou sua a memória.


— Espera — Sam saiu de volta para a recepção, chamando a atenção da amiga. — Tem

um nome que apareceu no sonho do Frederico. Maurice Erskine. Talvez seja algo relevante.

— Ótimo, procure por esse nome. — Clarice solicitou a Iara, retornando então o olhar

a Samantha. — Sam, muito obrigada, isso certamente irá ajudar bastante no caso. Agora, por

que não vai pra casa e descansa? Já passou por muito essa noite.

— Clarice está certa — interveio Nicolas, com a mão no ombro da mulher. — Não há

nada mais que você pode fazer senão esperar pelo trabalho da polícia.

— Está bem — suspirou, fechando os olhos.

Já no caminho para casa, no carro de Nicolas, a mente de Samantha estava mais inquieta

do que nunca. Tentava organizar as informações que tinha como peças de um quebra-cabeça;

porque assim que tivesse uma imagem formada, poderia tomar ação. Frederico não era do

Conselho, ela não sabia de onde ele vinha. Não sabia nem se esse era seu nome. Maurice

Erskine tinha algo a ver com ele. Talvez era seu pai, o personagem do sonho. O apanhador

poderia estar em qualquer lugar.

— Já tá saindo fumaça dessa cabeça aí — chamou Nicolas, lançando-lhe um sorriso

após parar no semáforo. — Me lembra da sua época de cursinho.

— Nunca achei que teria saudade dos problemas da época do cursinho — ela respirou

fundo, recostando-se contra o banco.

— Vai ficar tudo bem, minha querida — ele lhe apertou a mão antes de voltar a dirigir.

— Você sabe como a equipe da Clarice é boa. Pode tirar sua licença tranquilamente, e—

— Licença? — ela arqueou as sobrancelhas, abrindo a bolsa para procurar o controle

do portão de sua casa, que já estava perto.

— Bem, você vai precisar ficar afastada por um tempo, né?


— Essa não é uma opção, Nic — Sam soltou um riso curto enquanto abria o portão para

que o carro entrasse. — Você sabe disso.

Respondendo com um sorriso, Nicolas conteve-se de responder antes que a outra saísse

do carro, seguindo-a em silêncio.

— Vá deitar, eu faço um chá para ajudar a te acalmar.

— Obrigada — Samantha sorriu.

Assim que chegou em seu quarto, tirou a camiseta, sapatilha e calça que usava e foi até

o chuveiro. Deixou a água morna bater contra sua pele cansada numa tentativa frustrada de

aquietar a mente. Era melhor continuar funcionando no modo automático até que tivesse um

plano. Abriu então os olhos em busca da barra de sabonete, esfregando-a entre as mãos para

que pudesse se limpar.

Minutos depois, saiu do banheiro vestindo seu roupão azul-claro e uma toalha enrolada

na cabeça. Encontrou Nicolas descansando uma bandeja em seu criado-mudo, com uma xícara

de chá e um pedaço de bolo. Sorriu em agradecimento, e então viu o outro sentar-se ao seu lado

na cama.

— Clarice me ligou — explicou calmamente enquanto lhe alcançava a xícara, e

Samantha se limitou a um arquear de sobrancelhas, esperando pelas informações. — Maurice

Erskine é neurocientista e pai de Frederic, o nome verdadeiro de Frederico, que é engenheiro.

Os dois têm uma clínica de estudos de sono em Frankfurt.

— É pra lá que ele foi?

— Sim. A equipe contatou a Polícia Federal e encontrou o nome de Frederic entre as

listas de vôo. Ele foi pra lá de madrugada — concluiu, vendo a outra concordar com a cabeça.
— Sam, me deixe cuidar disso tudo. O boletim de ocorrência, as investigações… Eu te informo

de qualquer novidade, mas por favor, fique em casa descansando.

Samantha sorriu, encostando a cabeça no ombro de Nicolas e envolvendo-o com um

dos braços. Sabia que sua insistência era, em parte, porque ele sentia que devia aos pais de Sam

continuar cuidando dela. Sabia o quanto ele se preocupava, e insistia mesmo sabendo o quanto

ela iria preferir continuar trabalhando acima de tudo. Mas aí lhe veio o pensamento: aceitar

será a saída mais fácil.

— Quer saber? — ela levantou a cabeça para olhar para o outro. — Você está certo.

Vou tirar a licença.

— Ótimo, querida — Nicolas lhe deu um beijo na testa antes de se levantar. — Vou

deixar você descansar então. Me ligue se precisar de qualquer coisa, certo?

— Pode deixar — ela acenou antes que ele se fosse.

Assim que ouviu a porta da frente bater, pegou o celular e passou a digitar

freneticamente. Estava oficialmente em seu modo automático, e só se lembrou de respirar

novamente quando a mensagem apareceu em sua tela:

“Passagem para Frankfurt confirmada. Embarque em quatro horas.”